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	<title>Ana Carolina B. Tostes, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Sun, 12 Jul 2026 20:57:46 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Ana Carolina B. Tostes, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Regressão da libido e amadurecimento psíquico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/regressao-da-libido-e-amadurecimento-psiquico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Carolina B. Tostes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Jul 2026 20:55:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[energia psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[teoria junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Existe um momento da vida em que aquilo que sustentava nossa existência deixa de funcionar. O trabalho perde o sentido, as relações já não oferecem a mesma nutrição e surge uma sensação de vazio. Este ensaio, passa pelo desenvolvimento da consciência, discute a formação da persona como adaptação às exigências da vida adulta e o que acontece quando ela se torna ineficaz. A partir do olhar da Psicologia Analítica sobre energia psíquica, o texto propõe uma reflexão sobre o amadurecimento humano diante da tensão entre o desejo de regressar à proteção perdida e a necessidade inevitável de construir uma existência própria.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong> Existe um momento da vida em que aquilo que sustentava nossa existência deixa de funcionar. O trabalho perde o sentido, as relações já não oferecem a mesma nutrição e surge uma sensação de vazio. Este ensaio, passa pelo desenvolvimento da consciência, discute a formação da persona como adaptação às exigências da vida adulta e o que acontece quando ela se torna ineficaz. A partir do olhar da Psicologia Analítica sobre energia psíquica, o texto propõe uma reflexão sobre o amadurecimento humano diante da tensão entre o desejo de regressar à proteção perdida e a necessidade inevitável de construir uma existência própria.</p>



<h2 id="h-existem-alguns-momentos-na-vida-em-que-percebemos-que-aquilo-que-antes-sustentava-nossa-existencia-ja-nao-funciona-da-mesma-forma" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Existem alguns momentos na vida em que percebemos que aquilo que antes sustentava nossa existência já não funciona da mesma forma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Atividades que antes traziam prazer se tornam vazias, as relações deixam de oferecer sentido e surge um sentimento de cansaço interno difícil de explicar. Muitas vezes, essa experiência é vista apenas como fracasso pessoal ou desmotivação, mas ela também pode representar um conflito mais profundo relacionado ao próprio desenvolvimento psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do amadurecimento, o ser humano precisa se adaptar às exigências da vida social e concreta. Para isso, constrói maneiras de agir, pensar e se posicionar diante do mundo. Essa adaptação é importante, pois permite que o indivíduo encontre um lugar na sociedade, estabeleça vínculos e organize sua vida. Porém, quando essa forma de viver se torna rígida ou distante das necessidades interna, surge um sentimento de desconexão consigo mesmo.          </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesses momentos, ocorre uma espécie de retorno psíquico a estados mais antigos e primitivos da experiência humana. A pessoa passa a desejar proteção, acolhimento e segurança, como se buscasse escapar das responsabilidades e pressões da vida adulta. Simbolicamente, esse movimento pode ser compreendido como um retorno à imagem da mãe primordial, associada ao abrigo, à fusão e ao afastamento das dificuldades da realidade. Entretanto, permanecer nesse movimento regressivo pode impedir o crescimento psicológico. O amadurecimento exige que o indivíduo atravesse momentos de crise e transformação para construir uma existência própria. Por isso, crescer não significa apenas adaptar-se ao mundo externo, mas também desenvolver uma relação mais consciente com os próprios conflitos, limites e desejos.</p>



<h2 id="h-o-desenvolvimento-da-consciencia" class="wp-block-heading"><strong>O Desenvolvimento da Consciência</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A experiência humana se constitui numa complexa relação entre a vida concreta, as relações sociais e as imagens psíquicas profundas que organizam a relação do indivíduo com o mundo, com os outros e consigo mesmo. Nascemos inseridos em um universo que não escolhemos, e nossas primeiras percepções são, na verdade, padrões profundos que organizam a nossa percepção e a nossa relação com o mundo. Entre essas imagens fundamentais, destaca-se a figura parental, especialmente a materna, compreendida não apenas como a mãe concreta, mas como representação primordial de proteção, pertencimento, nutrição e sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na infância, a consciência ainda se encontra imersa na atmosfera psíquica dos pais, de modo que a diferenciação do eu ocorre apenas na puberdade, quando as transformações fisiológicas e psíquicas intensificam a experiência subjetiva. Até então, o indivíduo vive predominantemente guiado pelos instintos, sem experimentar conflitos internos propriamente ditos. A divisão psíquica surge quando forças opostas passam a confrontar-se interiormente, produzindo um estado de cisão e conflito do eu. (Cf. Jung, 2013a, p.347)</p>



<h2 id="h-ao-longo-do-desenvolvimento-psicologico-espera-se-que-essa-ligacao-inicial-passe-por-um-processo-gradual-de-diferenciacao" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Ao longo do desenvolvimento psicológico, espera-se que essa ligação inicial passe por um processo gradual de diferenciação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O amadurecimento implica que o indivíduo consiga separar os pais reais do valor absoluto que lhes foi atribuído na infância. Essa transformação permite a ampliação da consciência, o surgimento da autonomia e a capacidade de investir sentido em outras experiências humanas, culturais, espirituais e simbólicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida adulta saudável depende, em parte, de deixar de buscar no outro a totalidade perdida para construir uma relação mais própria com a existência. Especialmente na contemporaneidade, podemos pensá-la como um exercício constante de malabarismo entre quem somos e quem o mundo espera que sejamos. Nossa relação com o mundo depende fundamentalmente da natureza determinada e dirigida da consciência, que é definida na Psicologia Analítica como um fenômeno intermitente, produto da percepção e orientação no mundo externo. (cf. Jung, 2013b p. 20-25) Sem essa qualidade psíquica, a adaptação às exigências da vida seria impossível, uma vez que a consciência funciona como o mediador que organiza a nossa percepção e ação na realidade. No entanto, é também pela ampliação da consciência que entramos em contato com as maiores dificuldades.</p>



<h2 id="h-como-explica-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Como explica Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><strong><em>&#8220;Grande parte de nossos processos psíquicos são constituídos de reflexões, dúvidas, experimentos – coisas que a psique instintiva e inconsciente do homem primitivo desconhece quase inteiramente. É ao crescimento da consciência que devemos a existência de problemas; eles são o presente de grego da civilização.&#8221; (Jung, vol. 8/2, §749)</em></strong></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-adaptacao-no-mundo-externo-exige-muito-trabalho-e-um-compromisso-do-individuo-para-com-a-sociedade" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A adaptação no mundo externo exige muito trabalho e um compromisso do indivíduo para com a sociedade. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do mundo ao seu redor, e à medida que sua consciência se amplia e se diferencia, o ser humano desenvolve um modo geral de funcionamento psíquico que Jung denominacomo persona. Esse conceito descreve um sistema de relação com o mundo externo, através do qual o indivíduo entra em contato com a realidade ao mesmo tempo em que protege o eu, como se criasse uma espécie de “revestimento” ou “casca” que o separa do exterior. (cf. Jung, 2015, p.244-250)</p>



<h2 id="h-quando-a-adaptacao-se-torna-ineficaz" class="wp-block-heading"><strong>Quando a adaptação se torna ineficaz</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a vida impõe mudanças, o que foi construído como forma de adaptação ao mundo, tende a resistir, fixando-se como se pudesse garantir continuidade e estabilidade. No entanto, essa fixação entra em conflito com o caráter essencialmente mutável da existência, e aquilo que não se transforma voluntariamente acaba sendo pressionado pelo inconsciente.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">“<strong>Na medida em que aumenta a influência do inconsciente coletivo, a consciência perde seu poder de liderança. Imperceptivelmente, vai sendo dirigida, enquanto o processo inconsciente e impessoal toma o controle</strong>.” (Jung, vol. 7/2, §251)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Trazendo um pouco para a realidade cotidiana, esses processos revelam os momentos da vida onde aquilo que nos trazia segurança, como a carreira, os papéis sociais que desempenhamos, o reconhecimento que recebemos, as relações amorosas, entre outros, deixa de ser suficiente. A vida segue com um profundo sentimento de que algo essencial se perdeu, e surge o vazio. Esse desânimo e a sensação de estar sem direção frequentemente são interpretados como como indicativos de adoecimento psíquico. Empiricamente, é comum recebermos na clínica, queixas como, a perda de vontade e sentido nas atividades rotineiras, um mal-estar geral diante de tudo e a falta reconhecimento de si.</p>



<h2 id="h-os-movimentos-da-energia-psiquica" class="wp-block-heading"><strong>Os movimentos da energia psíquica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para entender como esse processo se dá em termos psicodinâmicos, é fundamental recordarmos sobre como a Psicologia Analítica concebe a psique como um sistema energético relativamente fechado, apresentando o conceito de libido numa perspectiva energética, ou seja, energia psíquica em contexto amplo, com a quantidade de energia constante e essencialmente de caráter finalista. (cf. Jung, 2013c, pag.13-16)</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4"><strong>A libido é um <em>appetitus </em>em seu estado natural. Filogeneticamente são as necessidades físicas como fome, sede, sono, sexualidade, e os estados emocionais, os afetos, que constituem a natureza da libido.</strong> (Jung, vol. 5, §194)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Observamos a dinâmica da energia psíquica através das atividades, interesses e atenção que um indivíduo dispende. É a força que impulsiona o sujeito a realizar as tarefas da vida cotidiana, na sua adaptação ao mundo, trabalho, relacionamentos, hobbies etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No início da vida, a energia psíquica se manifesta primordialmente na função de alimentação, especificamente através do ato rítmico da sucção. Além da boca, movimentos rítmicos de braços e pernas já geram prazer e satisfação no indivíduo jovem. Com o crescimento, a energia nutricional e de crescimento se transforma gradualmente em libido sexual e outras formas. (cf. Jung, 2013d, p.173)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A progressão da libido, pode ser entendida como o fluxo da energia psíquica em direção à adaptação à realidade, a energia que direciona o movimento da consciência no mundo para responder às exigências do ambiente, modificar-se diante das circunstâncias e construir, continuamente, novas formas de relação com a realidade. (cf. Jung, 2013c p.44)</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, a adaptação não é um estado que se alcance de forma definitiva. O ambiente se transforma, as exigências mudam, e o que funcionava anteriormente, se torna insuficiente. Por isso, a progressão da libido depende sempre do surgimento de uma nova atitude psíquica, ou seja, uma transformação interna capaz de responder às novas condições da vida.</p>



<h2 id="h-quando-a-atitude-do-individuo-nao-corresponde-as-exigencias-da-realidade-ocorre-uma-falha-na-adaptacao-e-a-progressao-cessa-o-que-jung-chama-de-represamento-da-libido-cf-jung-2013c-p-44" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Quando a atitude do indivíduo não corresponde às exigências da realidade, ocorre uma falha na adaptação e a progressão cessa, o que Jung chama de represamento da libido. (cf. Jung, 2013c p.44)</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">Extingue-se o sentimento de vida anteriormente existente, e em compensação aumenta desagradavelmente o valor psíquico de certos conteúdos do consciente, conteúdos e reações subjetivas tomam a frente, o estado torna-se carregado de afetos e tendente a explosões. (Jung, vol. 8/1, §61)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A consciência funciona direcionando nossa atenção para determinadas tarefas, escolhas e formas de viver. Para manter essa direção, muitos conteúdos que não combinam com aquilo que estamos vivendo ou tentando sustentar acabam ficando em segundo plano, afastados da percepção imediata. No entanto, isso não significa que desapareçam. Aquilo que não encontra espaço na vida consciente continua existindo de maneira silenciosa no inconsciente e, muitas vezes, retorna através de afetos, conflitos, sonhos, sintomas ou sensações de incômodo, como uma tentativa da própria psique de restaurar certo equilíbrio interior.</p>



<h2 id="h-durante-a-progressao-esses-opostos-estao-coordenados-garantindo-um-equilibrio-dinamico" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Durante a progressão, esses opostos estão coordenados garantindo um equilíbrio dinâmico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o indivíduo vive de maneira relativamente coerente com suas necessidades psíquicas mais autênticas, experimenta uma sensação de fluxo, direção e integração interior. Existe uma espécie de correspondência entre vida consciente e dinâmica inconsciente. Porém, quando essa coordenação é perdida, a psique torna-se unilateral, isto é, passa a funcionar sob o domínio exclusivo de uma de suas tendências. A perda da ação contrária interna impede a autorregulação do sistema. Ou seja, quando o sujeito se distancia excessivamente de si mesmo, seja por adaptação artificial, repressão ou submissão a expectativas externas, surge sofrimento, bloqueio e sensação de desorientação existencial. (cf. Jung, 2013c, p.48-54.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um indivíduo encontra um obstáculo insuperável na realidade ou uma tarefa de adaptação difícil, sua energia psíquica para de fluir para o mundo externo. Essa interrupção gera um estado de sofrimento. Essa exigência do inconsciente, quando não compreendida, pode tornar paralisante a iniciativa e a disposição do indivíduo. A pessoa pode sentir uma diminuição da força vital, desinteresse ou uma sensação de estar travada diante das obrigações da vida adulta, e a energia psíquica regride para as fases antigas do desenvolvimento que já foram mencionadas.</p>



<h2 id="h-em-momentos-de-crise-ou-necessidade-de-adaptacao-ocorre-uma-regressao-da-libido-e-a-constelacao-de-um-arquetipo-correspondente-a-situacao-vivida" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Em momentos de crise ou necessidade de adaptação, ocorre uma regressão da libido e a constelação de um arquétipo correspondente à situação vivida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse arquétipo, dotado de forte carga energética, mobiliza conteúdos conscientes e inconscientes, podendo emergir à consciência como inspiração, revelação ou ideia salvadora, já que as experiências humanas tendem a se organizar em formas típicas e recorrentes do fenômeno psíquico. (cf. Jung, 2013d, p.350-353)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos pensar essa situação simbolicamente através da imagem da perda do paraíso. O estado paradisíaco representa uma condição de unidade original, proteção e ausência de conflito, uma espécie de mundo materno primordial. Quem nunca, diante das dificuldades, brincou dizendo ou pelo menos pensando na máxima “Eu quero a minha mãe!’?</p>



<h2 id="h-tomo-aqui-emprestado-um-trecho-da-musica-de-oswaldo-montenegro-para-ilustrar" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Tomo aqui emprestado um trecho da música de Oswaldo Montenegro para ilustrar.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4"><em>como é que se faz<br>pra tomar condução por aqui hein?<br>eu quero dormir!<br>tenho muito medo dessa escuridão</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4"><em>eu quero minha mãe!<br>eu quero minha mãe!<br>e chegar a tempo<br>pro café com pão</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Oswaldo Montenegro</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Sabemos que ao longo da história, religiões e sistemas simbólicos funcionaram como mediadores entre o ser humano e essas forças profundas da psique. Para Harding, os símbolos religiosos organizavam coletivamente a vida social e ofereciam sustentação subjetiva diante do caos, da angústia e da imprevisibilidade da existência. Quando esses símbolos perdem vitalidade, rompe-se também a ligação entre consciência e fonte psíquica de sentido. O sujeito permanece tecnicamente civilizado, mas emocionalmente desamparado. (cf. Harding, 2024)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O crescimento humano exige inevitavelmente a saída desse espaço protegido. Tornar-se adulto implica romper com a dependência infantil e suportar a insegurança da autonomia. Entretanto, essa travessia nem sempre ocorre de forma saudável.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">O surgimento da consciência e, consequentemente, o de uma vontade relativamente livre implica naturalmente a possibilidade de o indivíduo se desviar do arquétipo. Este desvio provoca uma dissociação entre a consciência e o inconsciente, iniciando-se, então, a atividade perceptível e, frequentemente, bastante desagradável do inconsciente, sob a forma de uma fixação interior e inconsciente que se expressa através de sintomas, isto é, de maneira indireta. Criam-se, então, situações em que se tem a impressão de que o indivíduo ainda não se desligou da mãe. (Jung, vol.8/2, §724)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-regressao-pode-ser-pensada-como-um-retorno-simbolico-de-busca-no-inconsciente-pela-energia-necessaria-para-um-novo-comeco" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A regressão pode ser pensada como um retorno simbólico de busca no inconsciente, pela energia necessária para um novo começo.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4">Pois os símbolos não são sinais ou alegorias de um fato conhecido, mas procuram insinuar uma situação pouco ou nada conhecida. (&#8230;) A unidade do significado está apenas na alegoria à libido. O significado fixo das coisas termina nesta esfera. Ali a única realidade é a libido, cuja natureza se revela através de nossas realizações. Não é, portanto, a verdadeira mãe, mas a libido do filho, cujo objeto a mãe fora outrora. (Jung, vol.5, §329)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O amadurecimento humano para Jung, exige que o indivíduo se desprenda gradualmente da dependência infantil representada pela figura materna e pelo ambiente protetor da infância. Esse movimento é representado pela jornada do herói, entendida como a luta da consciência para conquistar autonomia diante das forças regressivas que desejam manter o sujeito preso à segurança do estado infantil. (cf. Jung, 2013d, p.329-355)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;A figura do herói representa o ego em processo de diferenciação. Para que isso aconteça, não basta pensarmos somente nos aspectos concretos, como sair da casa da mãe e pagar os próprios boletos. Embora isso seja inegavelmente importante, também é necessário romper psicologicamente com a expectativa inconsciente de proteção e acolhimento permanentes. A libertação da mãe consiste em aceitar frustrações, responsabilidades e incertezas, suportando a perda da segurança emocional, do estado psíquico onde todas as necessidades são atendidas e as incertezas são filtradas pelos outros. Ao assumir as rédeas da própria vida, o sujeito aceita que a frustração, o erro e a dúvida são partes integrantes do caminho. O herói em termos cotidianos é aquele que, ao encarar a dureza da realidade e a solidão das próprias decisões, transforma a insegurança do mundo em terreno para a sua própria autonomia.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4">“Este sacrifício só acontece numa total devoção à vida, quando toda a libido retida em laços familiares precisa sair do círculo estreito e ser levada para o grande mundo. Pois para o bem-estar de cada um é necessário que, depois de ter sido na infância uma partícula que simplesmente acompanhava o movimento num sistema giratório, depois de adulto se torne ele próprio o centro de um novo sistema.” (Jung, vol.5, §644)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-se-o-individuo-nao-consegue-transformar-essa-energia-e-permanece-preso-a-mae-a-imagem-materna-pode-ser-tornar-naquilo-que-frequentemente-chamamos-por-mae-terrivel-ou-o-monstro-devorador" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Se o indivíduo não consegue transformar essa energia e permanece preso à mãe, a imagem materna pode ser tornar naquilo que frequentemente chamamos por Mãe Terrível, ou o monstro devorador.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse caso, o medo da vida e da adaptação manifesta-se como uma resistência infantil e o perigo de ser &#8220;engolido&#8221; pelo inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em termos práticos, quando essa transformação não acontece, o indivíduo pode permanecer preso a uma necessidade profunda de proteção, acolhimento e segurança, como se inconscientemente ainda buscasse retornar ao estado infantil onde alguém o amparava diante da vida. Nesses casos, aquilo que antes representava cuidado e proteção passa a se transformar em aprisionamento. A vida adulta começa a ser sentida como excessivamente ameaçadora, e surgem dificuldades em assumir responsabilidades, lidar com frustrações e sustentar as próprias escolhas. É como se uma parte da pessoa desejasse crescer, enquanto outra resistisse profundamente ao risco, à solidão e às exigências da maturidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, se o processo for bem-sucedido, a regressão serve para encontrar novas formas de expressão. O mergulho no inconsciente permite que a energia se transforme e saia do estado de paralisação, ou seja, quando esse movimento acontece de maneira saudável, o período de crise e regressão pode funcionar como uma pausa necessária para que a pessoa reencontre partes de si mesma que haviam sido esquecidas ou sufocadas pela vida. É como se o indivíduo precisasse se afastar temporariamente do ritmo automático para reorganizar internamente a própria existência. Esse mergulho em si pode permitir o surgimento de novos sentidos, novos desejos e uma nova forma de viver, fazendo com que a pessoa retome a vida com mais vitalidade e autenticidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-carolina-brigido-tostes/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/ana-carolina-brigido-tostes/">Ana Carolina Brígido Tostes – Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>HARDING, M. Esther</strong>. <em>A imagem parental e o desenvolvimento da consciência. </em>Petrópolis, RJ : Vozes, 2024. <em>Ebook</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>JUNG, C. G.</strong> <em>A natureza da psique</em>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>A vida simbólica.</em> 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>A energia psíquica. </em>14.ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>Símbolos da transformação</em>. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2013d.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. <em>O eu e o inconsciente.</em> 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.<strong>MONTENEGRO, Oswaldo.</strong> Café com pão. <em>In</em>: Letras.mus.br. [S. l.], c2003-2026. Disponível em: https://www.letras.mus.br/oswaldo-montenegro/189331/. Acesso em: 01 de Maio de 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: Acervo pessoal</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Praga de mãe pega? Uma reflexão sobre o dito popular pelo olhar da Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/praga-de-mae-pega-uma-reflexao-sobre-o-dito-popular-pelo-olhar-da-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Carolina B. Tostes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 00:40:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mãe]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca refletir o dito popular “praga de mãe pega” a partir da Psicologia Analítica. Parte-se da hipótese de que os ditados populares podem ser compreendidos como representações arquetípicas, por condensarem experiências psíquicas recorrentes vividas coletivamente. Nesse sentido, o texto analisa especificamente o referido ditado à luz da teoria dos complexos, buscando compreender de que modo a palavra materna, adquire força organizadora na vida psíquica do indivíduo. A reflexão articula contribuições de Jung, o folclore brasileiro e narrativas míticas e contemporâneas, sustentando que o ditado traduz uma dinâmica psíquica profunda relacionada ao vínculo primário e às repetições que dele derivam.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo busca refletir o dito popular “praga de mãe pega” a partir da Psicologia Analítica. Parte-se da hipótese de que os ditados populares podem ser compreendidos como representações arquetípicas, por condensarem experiências psíquicas recorrentes vividas coletivamente. Nesse sentido, o texto analisa especificamente o referido ditado à luz da teoria dos complexos, buscando compreender de que modo a palavra materna, adquire força organizadora na vida psíquica do indivíduo. A reflexão articula contribuições de Jung, o folclore brasileiro e narrativas míticas e contemporâneas, sustentando que o ditado traduz uma dinâmica psíquica profunda relacionada ao vínculo primário e às repetições que dele derivam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-ditados-populares-ou-proverbios-ocupam-um-lugar-singular-na-cultura-brasileira" style="font-size:18px">Os ditados populares, ou provérbios, ocupam um lugar singular na cultura brasileira.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora sejam expressões breves e transmitidas sem autoria, propagam observações históricas, experiências comunitárias e formas de interpretar a vida cotidiana. São reconhecidos como verdades validadas pela coletividade e, desse modo, se tornam referência para ações e comportamentos. Segundo o Dicionário Michaelis (2025), provérbio é uma frase curta de caráter prático e popular, geralmente com ritmo e/ou rima, rica em imagens e sentidos figurados, que contém uma síntese a respeito de uma regra social ou moral.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Câmara Cascudo, um importante folclorista brasileiro, considerado um dos maiores intelectuais do Brasil, um ditado popular/provérbio tem como característica, ser breve, geral, de uso coletivo e de autoria anônima. Ele traz reflexões sobre entendimentos compartilhados e verdades percebidas pela comunidade. Assim como os mitos, contos de fadas, rituais religiosos etc., a linguagem é um veículo que expressa algumas regularidades da experiência humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-isso-ao-explicar-o-inconsciente-coletivo-jung-afirma" style="font-size:18px">Sobre isso, ao explicar o inconsciente coletivo, Jung afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O inconsciente coletivo é a formidável herança espiritual do desenvolvimento da humanidade que nasce de novo na estrutura cerebral de todo ser humano. O inconsciente, [&#8230;] é a fonte de todas as forças instintivas da psique e encerra as formas ou categorias que as regulam, quais sejam precisamente os arquétipos. Todas as ideias e representações mais poderosas da humanidade remontam aos arquétipos (Jung, vol. 8/2, §342).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">À luz dessa concepção, os provérbios podem ser compreendidos também como expressões de conteúdos que ultrapassam a experiência individual, ou seja, manifestações arquetípicas. Câmara Cascudo observou que muitos desses enunciados surgem de práticas muito antigas nas quais a voz do povo era entendida como um veículo de autoridade superior. Ao discutir a expressão&nbsp;<em>vox populi, vox Dei</em>, ele destaca que sua origem vem das consultas religiosas antigas, em que a multidão funcionava como oráculo. Nesses rituais, a resposta divina era escutada através das vozes dispersas dos transeuntes, que se tornavam instrumentos involuntários da mensagem procurada. A coletividade, portanto, aparecia como canal para o sagrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Certamente esse processo de consultar a vontade divina através das vozes dispersas da multidão podia ter determinado a frase&nbsp;<em>Vox populi, vox Dei</em>, […] e não a indeterminada convergência intemporal da opinião pública. A voz do povo é a voz de Deus, o Deus dos cristãos, como o fora de Hermes ou Mercúrio, agora na intenção das fórmulas rogativas de Santa Rita dos Impossíveis, ou do profeta Zacarias, ou do apóstolo São Pedro. O oráculo de Acaia é a mais antiga forma dessa técnica. Consulta-se a Deus e o Povo responde, transmitindo a mensagem. Voz do povo, voz de Deus, evidentemente nessa acepção (Cascudo, 2012, p. 18).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa concepção histórica confere profundidade à ideia de que certas palavras do povo carregam um estatuto de verdade que expressam modos fundamentais de compreender a existência. No entanto, para a compreensão do fenômeno, é importante distinguir as diferenças entre o arquétipo em si e as formas pelas quais ele se torna visível na experiência humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-distincao-e-explicitada-por-jung-ao-afirmar" style="font-size:18px">Essa distinção é explicitada por Jung ao afirmar:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não devemos confundir as representações arquetípicas que nos são transmitidas pelo inconsciente com o arquétipo em si. Essas representações são estruturas amplamente variadas que nos remetem para uma forma básica irrepresentável que se caracteriza por certos elementos formais e determinados significados fundamentais, os quais, entretanto, só podem ser apreendidos de maneira aproximativa. [&#8230;] É preciso dar-nos sempre conta de que aquilo que entendemos por arquétipos é, em si, irrepresentável, mas produz efeitos que tornam possíveis certas visualizações, isto é, as representações arquetípicas. (Jung, vol. 8/2, §417)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os ditos populares são concisos, possuem reconhecimento comunitário e são de origem desconhecida. Essas características nos conduzem à reflexão acerca de sua condição enquanto representações arquetípicas. Eles se mantêm porque capturam situações recorrentes da vida humana, funcionando como pontos de apoio para a interpretação dos acontecimentos do cotidiano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Um ditado que sempre chamou a minha atenção desde a infância, talvez por tê-lo ouvido muitas vezes, ou por ter escutado histórias relacionadas a ele, é “Praga de mãe pega”. Não surpreendentemente, é comum, na prática clínica, ouvir de alguns pacientes relatos que sugerem que a experiência com a mãe influencia de modo significativo em suas escolhas e percursos de vida, até mesmo incidindo de maneira decisiva sobre os caminhos que essas pessoas constroem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora, à primeira vista o ditado pareça apenas uma superstição, ele revela uma percepção sobre o impacto que a palavra da mãe exerce na formação psíquica, por exemplo, no desenvolvimento moral dos indivíduos. A figura materna com suas dimensões criadoras e destrutivas deixou na história inúmeras narrativas míticas e folclóricas, que tratam a voz da mãe como algo capaz de abençoar ou amaldiçoar, proteger ou ferir, orientar ou condenar. Essa recorrência sugere que estamos diante de um padrão que expressa uma dinâmica psíquica complexa, ligada ao vínculo entre mãe e filho. A Psicologia Analítica oferece um arcabouço teórico para compreender imagens e padrões que se repetem em diferentes contextos culturais. Sendo assim, o ditado “praga de mãe pega” pode ser refletido como expressão de um fenômeno compartilhado, que aparece tanto em narrativas primitivas, quanto em fenômenos contemporâneos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-analisarmos-a-validade-geral-do-ditado-popular-e-necessario-pensarmos-na-teoria-dos-complexos-jung-define-da-seguinte-forma">Para analisarmos a validade geral do ditado popular, é necessário pensarmos na teoria dos complexos. Jung define da seguinte forma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um&nbsp;<em>corpus alienum</em>&nbsp;(corpo estranho), animado de vida própria. (Jung, vol. 8/2, §201)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sabemos que a relação com a mãe é determinante na constituição das primeiras organizações afetivas da vida humana. Nesse contexto a palavra materna adquire um peso emocional de ser muitas vezes, vivida como lei, verdade, sentença. Mesmo fora do contexto individual, essa imagem aparece em mitos antigos, contos folclóricos e narrativas contemporâneas que retratam a mãe como uma figura cuja fala pode moldar o destino.&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-a-psicologia-analitica-ensina-que-todo-complexo-tem-em-seu-nucleo-um-arquetipo">A Psicologia Analítica ensina que todo complexo tem em seu núcleo, um arquétipo. </h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como afirma Jung: “O arquétipo materno é a base do chamado complexo materno” (Jung, 2014, p. 90). Este, apresenta uma multiplicidade de formas e expressões que atravessam diferentes níveis da experiência humana, desde a figura concreta da mãe e da avó até imagens culturais mais amplas, que remetem tanto ao cuidado, à proteção, à nutrição e ao crescimento, mas também aspectos sombrios, associados ao devorador, ao sedutor, ao obscuro e ao ameaçador.<strong>&nbsp;</strong>(Cf. Jung, 2014, p. 87–90)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trata-se, portanto, de uma configuração marcada pela ambivalência, na qual convivem a mãe amorosa e a mãe terrível. Assim, muitas das fantasias, medos e conflitos ligados à figura materna, ultrapassam o que poderia ser atribuído exclusivamente à mãe empírica, remetendo a imagens muito mais amplas e profundas, que pertencem ao inconsciente coletivo.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isto significa que não é apenas da mãe pessoal que provêm todas as influências sobre a psique infantil descritas na literatura, mas é muito mais o arquétipo projetado na mãe que outorga à mesma um caráter mitológico e com isso lhe confere autoridade e até mesmo numinosidade. (Jung, vol. 9/1, §159)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ainda assim, não se pode perder de vista que a mãe empírica também modela a vida emocional da criança desde o início e marca o curso do seu desenvolvimento. Jung afirma que “a influência pessoal da mãe é um dos fatores mais decisivos na formação do destino psíquico da criança” (Jung, 2014, p. 90). Assim, a palavra da mãe tem influência direta na formação de um dos complexos primordiais da experiência afetiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir de uma leitura psicológica do fenômeno, podemos dizer que a palavra da mãe adquire uma força singular porque atinge um núcleo afetivo fundamental na estruturação da psique. A própria cultura reconhece essa potência, traduzindo-a em narrativas onde a figura materna além de educar e orientar, também pode determinar o curso dos acontecimentos. Essas histórias não descrevem fatos literais, mas, expressam como dramas coletivos, as tensões internas que podemos identificar na psique individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao examinarmos figuras míticas como <strong>Medeia</strong> ou <strong>Hera</strong>, percebemos que a ideia de uma &#8220;praga de mãe&#8221; é a expressão de uma experiência humana constante, e a desorganização do vínculo com a mãe parece, muitas vezes, desorganizar também a própria estrutura do destino. Muitas narrativas<strong>&nbsp;</strong>de fundo arquetípico constroem a figura da mãe cuja palavra funciona como uma sentença. É exatamente neste ponto que os mitos se transformam em aliados essenciais para a compreensão de um ditado popular. Eles ampliam, dramatizam e tornam visível aquilo que percebemos no cotidiano, na bronca, na exasperação ou na raiva de uma mãe humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alguns-textos-de-folclore-e-mitologia-regional-tambem-mencionam-explicitamente-a-velha-crenca-praga-de-mae-pega-ligando-isso-ao-fato-de-a-mae-ser-a-maior-e-primeira-autoridade-de-nossas-vidas" style="font-size:18px">Alguns textos de folclore e mitologia regional também mencionam explicitamente a velha crença “praga de mãe pega”, ligando isso ao fato de a mãe ser a maior e primeira autoridade de nossas vidas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para ilustrar, lembro da lenda de Romãozinho, originada no centro Oeste do Brasil. Segundo Câmara Cascudo, Romãozinho era um menino travesso e cruel. A mãe um dia pediu-lhe que levasse o almoço do pai na roça onde trabalhava.&nbsp;&nbsp;No caminho, o menino comeu toda a galinha e entregou apenas os ossos para o pai. Ao ser questionado, o menino mentiu que a mãe havia comido tudo com outro homem. Ao voltar para casa, o pai, tomado de raiva e acreditando na mentira, mata a mãe. No seu último sopro, ela lança uma maldição: que Romãozinho “nunca encontre descanso” e “ande para sempre como espírito danado”. A praga pega: a lenda o descreve como um menino eterno, que corre pelas matas, nunca cresce e atormenta quem cruza seu caminho. (Cascudo, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A figura de Romãozinho, condenado a permanecer numa errância sem fim, preso a uma infância que não se transforma, remete inevitavelmente ao motivo da criança eterna, o&nbsp;<em>puer aeternus</em>, imagem recorrente na psicologia e nos mitos. A condição de um ser que não amadurece, que se mantém suspenso num tempo que não avança, guarda afinidade com aquilo que, em Jung, aparece como uma fantasia de autonomia do consciente que, na realidade, permanece atado às forças profundas do inconsciente materno. (Cf. Jung, 2013b, §393). Embora essa associação seja extremamente fecunda do ponto de vista interpretativo, ela não será desenvolvida no presente trabalho. Aqui, o interesse é sobre o poder atribuído à palavra materna enquanto força que marca, determina e orienta os rumos da vida psíquica, tal como se manifesta, de modo contundente, na ideia de que a “praga de mãe pega”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-jung-observou-a-figura-materna-adquire-proporcoes-simbolicas-tornando-se-maior-do-que-a-experiencia-real-jung-2014-p-93" style="font-size:18px">Como Jung observou, a figura materna “adquire proporções simbólicas, tornando-se maior do que a experiência real” (Jung, 2014, p.93).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso de Romãozinho, a mãe empírica é uma mulher pobre, trabalhadora, vítima de uma injustiça doméstica. Mas sua palavra final ultrapassa a esfera humana porque como já dito, reconhece-se no vínculo materno uma força que se estende. A maldição se apresenta no caráter compulsório do complexo, como Jung descreve quando afirma que a mágica autoridade do feminino é um dos traços essenciais do arquétipo materno (Cf. Jung, 2014, §158).&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entre-as-narrativas-contemporaneas-que-trabalham-a-maternidade-como-forca-psiquica-determinante-podemos-mencionar-a-historia-de-carrie-white-personagem-criada-por-stephen-king-1974-e-adaptada-tres-vezes-para-o-cinema" style="font-size:18px">Entre as narrativas contemporâneas que trabalham a maternidade como força psíquica determinante, podemos mencionar a história de <strong>Carrie White</strong>, personagem criada por Stephen King (1974) e adaptada três vezes para o cinema.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Carrie é uma adolescente tímida e isolada que cresce sob a opressão de uma mãe fanática, cuja religiosidade extrema transforma a casa em um ambiente de medo e culpa. Ridicularizada pelas colegas e silenciada dentro de casa, Carrie descobre na adolescência, poderes tele cinéticos que surgem justamente quando sua dignidade é ferida. A relação com a mãe, marcada por controle, ameaças e previsões de desgraça, molda profundamente sua percepção de si mesma e de seu destino. Quando uma humilhação pública ultrapassa o limite do suportável, um conteúdo irrompe de forma devastadora, transformando Carrie numa das figuras mais emblemáticas da literatura de horror psicológico, símbolo do impacto de vínculos familiares adoecidos e da violência emocional que se acumula.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-sucessao-de-acontecimentos-cria-uma-configuracao-emocional-facilmente-reconhecivel-dentro-da-psicodinamica-do-complexo-materno" style="font-size:18px">Essa sucessão de acontecimentos cria uma configuração emocional facilmente reconhecível dentro da psicodinâmica do complexo materno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mãe ocupa, desde o início, uma posição de magnitude afetiva que ultrapassa sua individualidade concreta. A história de Carrie mostra como a personagem vive o peso das palavras maternas de maneira desproporcional, ilustrando como forças internas atuam no desenvolvimento psíquico feminino (Cf. Jung, 2014, p. 88–89).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Pela posição originária que ocupa, a mãe pode exercer sua influência no sentido mais amplo e profundo sobre o destino psíquico do indivíduo, tanto de forma benéfica quanto destrutiva.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-manifestacoes-do-complexo-materno-nesse-sentido-nao-sao-uniformes-assumindo-configuracoes-distintas-na-experiencia-psiquica-de-homens-e-mulheres-cf-jung-2014-p-90-91" style="font-size:18px">As manifestações do complexo materno, nesse sentido, não são uniformes, assumindo configurações distintas na experiência psíquica de homens e mulheres (Cf. Jung, 2014, p. 90–91).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-pergunta-que-move-este-artigo-praga-de-mae-pega-quando-compreendida-a-luz-da-teoria-dos-complexos-traz-como-resposta-a-hipotese-que-o-ditado-nao-se-refere-a-acontecimentos-objetivos-no-sentido-literal-mas-ao-modo-como-a-psique-reage-a-constelacao-de-um-complexo-afetivo" style="font-size:18px">A pergunta que move este artigo “<strong>Praga de mãe pega</strong>?” quando compreendida à luz da teoria dos complexos, traz como resposta a hipótese que o ditado não se refere a acontecimentos objetivos no sentido literal, mas ao modo como a psique reage à constelação de um complexo afetivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma vez ativado, o complexo passa a organizar as experiências do sujeito a partir de sua carga emocional específica, interferindo nas percepções, nas escolhas, nos vínculos e nas formas de agir no mundo. A força de atuação do complexo reside justamente em seu caráter autônomo e em sua capacidade de assimilar a consciência, levando o indivíduo a interpretar a realidade e a se conduzir segundo a lógica emocional que o complexo impõe (Cf. JUNG, 2013a, p. 43–45).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, podemos compreender algumas razões que acabam levando o indivíduo a literalizar o que é dito pela mãe, pois o afeto passa a orientar repetidamente as experiências, produzindo concretizações coerentes com essa organização interna. O ditado se mantém vivo porque corresponde a uma experiência humana recorrente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-descreve-esse-tipo-de-permanencia-ao-afirmar-que-o-complexo-se-forma-como-nucleo-carregado-de-sentido-apto-a-reorganizar-a-vida-sempre-que-ativado-cf-jung-2013a-p-45-48" style="font-size:18px">Jung descreve esse tipo de permanência ao afirmar que o complexo se forma como núcleo carregado de sentido, apto a reorganizar a vida sempre que ativado. (Cf. Jung, 2013a, p.45-48).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir das reflexões acima, vemos que o que a mãe diz, não deve ser encarado como uma condenação literal que determina diretamente os acontecimentos da vida. A palavra materna atua porque faz parte daquilo que organiza as primeiras referências de segurança, ameaça, valor e pertencimento, exercendo uma função estruturadora, orientando repetições, expectativas, escolhas e modos de relação.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>À luz da teoria dos complexos de Jung, não é a “praga” em si que concretiza, mas a dinâmica psíquica que, uma vez estruturada, tende a se atualizar na experiência concreta</strong>. Assim, o ditado “praga de mãe pega” traduz em linguagem popular, uma verdade psíquica recorrente: aquilo que se forma no vínculo originário, quando não elaborado, tende a retornar sob a forma de destino.</p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-large" id="h-um-frio-percorreu-o-coracao-de-todo-o-mundo-praga-de-mae-pega-porque-deus-ouve-o-diabo-concorda-e-os-anjos-dizem-amem-ajuricaba-o-rebelde-da-amazonia-1977" style="font-size:18px"><em>“Um frio percorreu o coração de todo o mundo: praga de mãe pega, porque Deus ouve, o diabo concorda e os anjos dizem amém” (Ajuricaba, o Rebelde da Amazônia, 1977).</em></h2>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-carolina-brigido-tostes/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ana-carolina-brigido-tostes/">Ana Carolina Brígido Tostes – Analista em formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini – Analista Didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: Acervo pessoal</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>AJURICABA, o rebelde da Amazônia.</strong>&nbsp;Direção: Oswaldo Caldeira. Roteiro: Oswaldo Caldeira; Almir Muniz. Brasil, 1977. Filme (longa-metragem, drama).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CASCUDO, L. da C.</strong>&nbsp;<em>Coisas que o povo diz</em>. 1. ed. digital. São Paulo: Global, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>Lendas brasileiras para jovens</em>. São Paulo: Globo, 2014. Edição digital.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DICIONÁRIO MICHAELIS.</strong>&nbsp;<em>Michaelis dicionário brasileiro da língua portuguesa</em>. São Paulo: Melhoramentos, 2025. Disponível em:&nbsp;<a href="https://michaelis.uol.com.br/">https://michaelis.uol.com.br</a>. Consulta realizada em: 01 dez. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>JUNG, C. G.</strong>&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2013a. (Obras Completas, v. 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>Símbolos da transformação</em>. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2013b. (Obras Completas, v. 5).</p>



<p class="wp-block-paragraph">—.&nbsp;<em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. Tradução de Dora Ferreira da Silva. Petrópolis: Vozes, 2014. (Obras Completas, v. 9/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>KING, S.</strong>&nbsp;<em>Carrie</em>. Tradução de Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Suma, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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