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	<title>Gilmara Alves, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Gilmara Alves, Autor em Blog IJEP</title>
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		<title>O caminho da alma: dos autorretratos às selfies</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-caminho-da-alma-dos-autorretratos-as-selfies/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 13:43:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu ando pelo mundo prestando atençãoEm cores que eu não sei o nome Cores de AlmodóvarCores de Frida Kahlo, cores Esquadros, Adriana Calcanhoto Resumo: Este artigo tem o objetivo de propor uma conversa sobre dois movimentos: primeiro, os autorretratos tão frequentemente pintados por artistas nos séculos passados e o movimento contemporâneo das selfies, as fotos [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-caminho-da-alma-dos-autorretratos-as-selfies/">O caminho da alma: dos autorretratos às selfies</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:14px">
<figure class="wp-block-pullquote has-text-align-center is-style-solid-bg" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>Eu ando pelo mundo prestando atenção<br>Em cores que eu não sei o nome <br>Cores de Almodóvar<br>Cores de Frida Kahlo, cores</em></p><cite>Esquadros, Adriana Calcanhoto</cite></blockquote></figure>
</blockquote>



<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo tem o objetivo de propor uma conversa sobre dois movimentos: primeiro, os autorretratos tão frequentemente pintados por artistas nos séculos passados e o movimento contemporâneo das selfies, as fotos individuais tiradas e postadas com frequência nas redes sociais. Não é de hoje que o ser humano se interessa por se retratar. Divulgar sua própria imagem é algo mais novo. Mas o que há de diferente nestes dois movimentos? Como o pensamento de Jung e a psicologia analítica nos convida a compreender as diferenças destas atitudes? O que elas expressam sobre os seus respectivos tempos?</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave</strong>: Arte; Autorretrato; Selfie; Espírito do Tempo; Jung</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-e-de-hoje-que-o-ser-humano-se-interessa-por-se-retratar" style="font-size:22px">Não é de hoje que o ser humano se interessa por se retratar.</h2>



<p style="font-size:19px">Desde os áureos tempos, no universo da arte, temos um histórico de artistas de renome se representando nas telas. Dentre estes gênios, posso destacar aqui Rembrandt, Frida Kahlo, Van Gogh, Picasso, entre muitos outros. Este desejo de se retratar, com o passar dos tempos foi se moldando ao desenvolvimento tecnológico e hoje chegamos às famosas <em>selfies</em> &#8211; as fotos tiradas com os <em>smartphones</em> e postadas com frequência nas redes sociais.</p>



<p style="font-size:19px">Aqui, vem a pergunta: O que separa umas imagens das outras? Vamos fazer um olhar sobre como as mudanças foram acontecendo e o que isso tem a ver com a alma e como a psicologia analítica compreende estes fenômenos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-artistas-e-seus-autorretratos" style="font-size:21px"><strong>Os artistas e seus autorretratos</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Para dar início a esta conversa, vale lembrar que o homem sempre utilizou a arte e as imagens como uma forma de expressão. Os artistas em suas obras representaram em suas produções cenas do cotidiano, a natureza os animais e as pessoas. No século XVII houve na Europa um crescimento na pintura de paisagens, mas ainda assim a figura humana nunca deixou de ser um objeto de desejo dos artistas, conforme Mullins (2024, p.144). &nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Na história da arte há registros muito antigos de autorretratos, como na Grécia antiga, onde eram criadas imagens de si mesmos. Conforme aponta Bugler (2019, p. 190), “Na Idade Média, a arte ocidental era extremamente voltada para a religião e os poucos retratos feitos eram de pessoas eminentes e poderosas como governantes ou líderes da igreja.” Continua a autora dizendo que, na época da Renascença o autorretrato ressurge, facilitado pelo avanço tecnológico da época: o espelho. Isto facilita em muito para os artistas a produção das suas autoimagens, uma vez que pagar modelos para serem retratados custava muito caro.</p>



<p style="font-size:19px">Os autorretratos serviam na época, como um “cartão de visitas”, onde o artista podia demonstrar seu talento e sua obra. Ao observar a imagem do próprio artista representada, aquele que queria seu retrato pintado poderia contratá-lo. Conforme o desenvolvimento socioeconômico da época, a temática da arte começa a se expandir e os retratos a se popularizar. Logo, pessoas de um nível social inferior aos altos escalões já podiam pagar por um retrato. Diz Bugler (2019) que um mercador bem-sucedido poderia encomendar um retrato de si mesmo e um artista poderia, do mesmo modo, expressar o orgulho de sua profissão e ter conquistas por meio de um autorretrato. Estes autorretratos demonstravam muito mais do que habilidade e uma capacidade técnica, por assim dizer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-rembrandt-o-grande-retratista" style="font-size:21px"><strong>Rembrandt – o grande retratista</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606 – 1669), pintor holandês, foi um dos artistas que mais se representou por meio de autorretratos. Viveu na Idade Moderna e é um dos mais famosos representantes da época áurea holandesa (1600 – 1714). Hoje há um número de mais de 80 autorretratos deste artista. Ele foi um jovem talentoso. Professor de arte conhecido por ser esnobe e extravagante, pois dava mais atenção às suas autoimagens do que a seus clientes. Na meia idade o artista entra em falência. A Holanda, sua terra, começa a passar por uma crise econômica. Rembrandt continua a viver sua vida de forma modesta, atendendo a pedidos de seus clientes e sendo respeitado por sua arte. “Trabalhou até sua morte em 1669, e sua arte cresceu em esplendor pictórico e em profundidade de sentimentos até o fim.” (Bugler, 2019 p. 188).</p>



<p style="font-size:19px">Autores como Gompertz (2023) e Mullins (2024) falam de Rembrandt como uma persona, alguém capaz de desenvolver personagens diversos em suas representações, mas que conservava nas autoimagens uma imagem singular e penetrante, o que também realizava para aqueles que o contratavam. Diz Mullins (2024, p. 188) que ele se tornou “o artista mais importante para os comerciantes metropolitanos ricos e para as guildas da cidade”.</p>



<p style="font-size:19px">Sobre o artista, Gompertz (2023) comenta que Rembrandt se interessava pela essência em seus autorretratos, ao olhar para si era o que procurava captar e representar. Tinha em seu semblante um ato de dúvida, “de um mestre artesão conferindo se a mancha de empaste aplicada vigorosamente logo abaixo do olho esquerdo dá a impressão correta de uma profunda ruga na pele”. (Gompertz, 2023, p.78)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-autorretrato-mais-famoso-de-rembrandt-e-o-autorretrato-com-dois-circulos-1665-onde-esta-em-uma-fase-de-vida-mais-introspectiva" style="font-size:19px">O autorretrato mais famoso de Rembrandt é o <em>Autorretrato com dois círculos (1665)</em>, onde está em uma fase de vida mais introspectiva.</h2>



<p style="font-size:19px">Ele havia perdido sua esposa, seus três filhos e sua amante. Neste autorretrato, ele expressa o que vai em sua alma:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Rembrandt tinha passado mais de quarenta anos desenvolvendo sua técnica, sempre se empenhando em obter um efeito que revelasse uma verdade para além do poder descritivo das palavras. [&#8230;] É mais do que um autorretrato, é uma autoavaliação: um acerto de contas. Rembrandt montou laboriosamente a imagem com múltiplas camadas de tinta translúcida para criar essa apresentação inflexivelmente honesta da maneira como se via pouco antes de morrer. Ele está nos dando uma aula magistral sobre a arte da autopercepção. Cada músculo contraído, cada pequena ruga revela algo sobre o espírito interior.&#8221; </p><cite>Gompertz, 2023, p.78</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:15px"></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="298" height="239" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Imagem1-1.jpg" alt="" class="wp-image-11476" style="width:374px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Imagem1-1.jpg 298w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Imagem1-1-150x120.jpg 150w" sizes="(max-width: 298px) 100vw, 298px" /></figure>
</div>


<p style="font-size:15px"></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p><em>Autorretrato com dois círculos (1665)&nbsp;https://www.historiadasartes.com/rembrandt/. Acesso em 26/10/2025.</em></p>



<p style="font-size:19px">O autor continua dizendo que Rembrandt escolhia a si mesmo como modelo não apenas por praticidade ou economia, como já citado, mas também porque buscava compreender como a interioridade humana se reflete na aparência externa.</p>



<p style="font-size:19px">Esse estudo exigia um olhar intenso e honesto que poucos modelos suportariam. Ao se retratar, ele podia observar-se sem restrições e perseguir a verdade interior. Para Rembrandt, conhecer-se exigia sinceridade absoluta. Suas imperfeições e expressões revelavam aspectos profundos de si; pintar era, acima de tudo, um ato de autoconhecimento e autenticidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-frida-kahlo-suas-dores-sua-janela-para-o-mundo" style="font-size:21px"><strong>Frida Kahlo – suas dores, sua janela para o mundo</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Uma outra artista famosa por seus autorretratos é a mexicana Frida Kahlo (1907 – 1954). Conforme <strong>Bugler</strong> (2019, p. 191) “<strong>Talvez a contribuição mais notável ao autorretrato na arte recente tenha vindo da pintora mexicana Frida Kahlo. Cerca de 150 pinturas suas são conhecidas, e mais de um terço, são autorretratos</strong>.”</p>



<p style="font-size:19px">Ela teve uma vida curta, marcada por tragédias pessoais e por um relacionamento bastante conturbado. Teve poliomielite na infância, sofreu um grave acidente de ônibus aos dezoito anos, que a impediu de estudar medicina, bem como de ter filhos (sofreu alguns abortos). Sua coluna, bacia e órgãos internos foram severamente atingidos neste acidente.</p>



<p style="font-size:19px">Afirma Mullins (2024), que Frida começa a pintar aos 18 anos após o grave acidente. Por estar imobilizada sua mãe providencia um cavalete especial para que pudesse pintar deitada. Os autorretratos que cria contém grande intensidade emocional e reflete o seu corpo fraturado. Lágrimas, sangue e feridas são imagens comuns em seus quadros.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Às vezes, pintava seu coração com as artérias se enroscando nos membros, ou sua espinha dorsal como a coluna de um templo grego, quebrada e desmoronando. [&#8230;] é o fogo emocional da obra de Kahlo que nos fala mais alto hoje.</p><cite>(Mullins, 2024, p. 233)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-seus-autorretratos-costumava-estampar-suas-dores-sao-imagens-marcadas-por-cores-fortes" style="font-size:19px">Em seus autorretratos costumava estampar suas dores. São imagens marcadas por cores fortes.</h2>



<p style="font-size:19px">Gompertz (2023) comenta que as obras de Frida fazem parte de uma capacidade de observação e percepção muito aguçadas; segundo o autor, ela usava sua dor para ver o mundo e o retratava assim como o percebia em suas pinturas e em seus autorretratos. &nbsp;&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">A artista casou-se precocemente com Diego Rivera, também artista e revolucionário, 20 anos mais velho, que alimentava muitos casos extraconjugais. Ele torna-se amante de Cristina, irmã mais nova de sua esposa. Isso aconteceu cinco anos depois de eles se casarem. Frida procura a ajuda do pai, um fotógrafo alemão, que ela considera amante da filosofia, mas um pai ausente e difícil no relacionamento. Frida se divorcia em 1939, depois de anos de sofrimento, e produz a obra <em><strong>As Duas Fridas</strong></em>, um famoso autorretrato.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-e-uma-obra-de-grandes-dimensoes-quase-em-tamanho-natural" style="font-size:19px">Esta é uma obra de grandes dimensões quase em tamanho natural:</h2>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="382" height="383" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image.png" alt="" class="wp-image-11477" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image.png 382w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-300x300.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-150x150.png 150w" sizes="(max-width: 382px) 100vw, 382px" /></figure>



<p><em><a href="https://www.culturagenial.com/quadro-as-duas-fridas-frida-kahlo/">https://www.culturagenial.com/quadro-as-duas-fridas-frida-kahlo/</a> Acesso em 26/10/2025.</em></p>



<p style="font-size:19px">De acordo com Gompertz (2023), Frida pintava a sua realidade e não os seus sonhos. O cenário de fundo desse retrato é um céu de um azul intenso, com muitas nuvens. Na pintura, estão retratadas uma Frida com vestes mexicanas e outra com vestido de casamento em estilo colonial.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>São dois aspectos ancestrais da artista expressos na imagem: as raízes indígenas maternas e suas raízes europeias germânicas paternas. As duas figuras se ligam por uma veia que vai de coração a coração.</strong></p>



<p style="font-size:19px">A Frida vestida de noiva tem uma tesoura na mão e o vestido manchado de sangue que se funde com as flores vermelhas pintadas na barra do seu vestido. As Fridas olham diretamente para o observador. É um autorretrato que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>expõe suas dores, [&#8230;] seu conhecimento anatômico [&#8230;] o dualismo de suas origens, suas identidades, seu interior e exterior, o corpo e a mente, a Madonna e o Menino, a vida e a morte, a Frida europeia tem sangue nas mãos a Frida mexicana tem amor.</p><cite>(Gompertz, 2023, p. 42)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Ela usou todas as suas experiências dolorosas como janela para compreender o mundo. A artista pode ser compreendida como uma força da natureza na expressão de sua arte. Frida, além de artista, foi também uma defensora e revolucionária, expressando por meio de sua arte os valores nacionalistas. Diz Gompertz (2023, p. 37) “<em>O que ela dizia, pintava, vestia e escrevia era um manifesto sobre a independência e a cultura do México. Esse era seu tema. A dor era a lente pela qual o via</em>.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-fotografia-entra-na-cena-dos-autorretratos" style="font-size:21px"><strong>A fotografia entra na cena dos autorretratos</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O advento da fotografia no século XIX trouxe um avanço tecnológico para o universo da arte. Como toda grande mudança, essa também não foi inicialmente bem aceita. Artistas pensaram que seria ali o fim da pintura. Na verdade, a fotografia trouxe para o universo da arte, depois deste susto inicial, novas maneiras de olhar e captar o mundo ao redor. Comenta-se que a pintura <em>Mulheres no Jardim</em> de <strong>Claude Monet</strong> provavelmente foi baseada em uma fotografia, e algumas de suas visitas aos bulevares parisienses foram inspiradas por fotos de Nadar, fotógrafo mais famoso da época, que as tirou de um balão de ar quente. (cf. Bugler, 2019, p. 229)</p>



<p style="font-size:19px">No cenário dos retratos, com a fotografia passando a ocupar um espaço no mundo contemporâneo, ela torna acessível a possibilidade das autoimagens àqueles que gostariam de ter seus retratos, mas que não tinham condições de arcar com os custos que isto representava. Artistas utilizavam da fotografia para minimizar o tempo e as dificuldades naturais de usar um modelo vivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gompertz-nos-diz-que-a-fotografia-revolucionou-a-arte-ao-passo-que-com-a-camera-o-artista-poderia-modificar-sua-forma-de-ver-para-o-autor-a-maquina-fotografica" style="font-size:19px"><strong>Gompertz</strong> nos diz que a fotografia revolucionou a arte, ao passo que com a câmera o artista poderia modificar sua forma de ver; para o autor a máquina fotográfica:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“desafiou os artistas a fazerem melhor. &nbsp;Ela permitia criar uma imagem com perspectiva linear com muito mais rapidez e com um custo muito menor do que faria um artista, e com maior autenticidade.” </p><cite>(Gompertz, 2023, p.175)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Para <strong>Walter Benjamin </strong>(1892 – 1940), ensaista alemão e um dos representantes da Escola de Frankfurt, o advento da fotografia representava um risco para as obras de arte. Segundo Benjamin (1933), as obras possuem uma “aura”, o que as torna autênticas e únicas, originais e vinculadas ao seu tempo-espaço de criação. Para o teórico, este caráter sagrado se perde, quando a técnica da fotografia passa a reproduzir de modo massivo as obras de arte. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-benjamim-escreve-em-1933-um-ensaio-chamado-a-obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnica-a-ssim-diz-ele" style="font-size:19px">Benjamim escreve, em 1933, um ensaio chamado <em>A Obra De Arte na era de Sua Reprodutibilidade Técnica</em>. A<strong>ssim diz ele:</strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>No início do século XX, a reprodução técnica tinha atingido um nível tal que começara a tornar objeto seu, não só a totalidade das obras de arte provenientes de épocas anteriores, e a submeter os seus efeitos às modificações mais profundas, como também a conquistar o seu próprio lugar entre os procedimentos artísticos. </p><cite>(Benjamim, 1933, e-book)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px"><strong>Benjamin</strong> (1933) compreendia, inclusive, que a reprodução de uma obra de arte, como um exercido de aprendizado de um novo artista, é altamente compreensível e inclusive recomendável, onde este estaria sendo treinado em sua nova &nbsp;&nbsp;profissão. A crítica vem da reprodução massiva e realizada por um meio tecnológico, o que tira o indivíduo da realização manual e da presença. Assim, ainda que bem reproduzida, a obra perde “o aqui e o agora”, que na visão do autor é o que vincula a obra a seu tempo. Esse modo de observar a entrada da fotografia no espaço da arte nos remete ao mundo contemporâneo.</p>



<p style="font-size:19px">É verdade que, com o passar do tempo, a fotografia se populariza e amplia a possibilidade de vermos imagens captadas, tornarem-se eternizadas. Além dos retratos pessoais, as fotografias congelam cenas de eventos, lugares, vivências, pessoas. Elas criam memórias que foram se acumulando em álbuns de retratos. Com o passar do tempo, esses álbuns armazenam as imagens fotográficas de forma tecnológica, por meio de imagens digitais, agora guardadas nas nuvens!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-selfies-e-as-autoimagens-nas-redes" style="font-size:21px"><strong>As selfies e as autoimagens nas redes</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Chegamos então à época das redes sociais. Recheadas de imagens criadas primeiro pelas máquinas dos celulares, depois por solicitação e montagens feitas pela inteligência artificial. Em seu livro <em>Existências Penduradas</em>, Norval Baitello Júnior (2019) nos presenteia com pequenos textos que provocam reflexões importantes acerca de como, em nosso mundo contemporâneo, estamos lidando com as imagens que criamos.</p>



<p style="font-size:19px">Conforme já foi apresentado, quando falamos de uma obra de arte, falamos de imagens que vão além do artista. Vimos que, quando o artista retrata numa pintura sua autoimagem, ele expressa emoções complexas e símbolos universais, presentes no espírito de seu tempo, como também nas feridas de sua alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-retratam-as-selfies-queridinhas-das-redes-sociais" style="font-size:19px"><strong>Mas o que retratam as <em>selfies</em>, queridinhas das redes sociais?</strong></h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Baitello</strong> (2019), em suas reflexões compreende que a <em>selfie</em> surge como um fenômeno, parte de um cenário global sendo disseminada pelos celulares, que cabem na mão e que contém um mundo em si. As fotos são realizadas de forma muito simples: “<em>A mão direita ou a esquerda levantada à frente e acima do corpo, o rosto voltado para o alto. Ao fundo, em frente, ou no fundo, logo abaixo, um cenário espetacular qualquer</em>” (Baitello, 2019 p. 14).&nbsp; Continua Baitello (2019, p. 15) a dizer que nesta imagem, todo o restante, o entorno perdem seu valor, dando lugar a um “corpo pendurado diante de um cenário”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Em sua obra, o autor questiona se estamos vivendo no mundo real ou nas imagens de nós mesmos e nos provoca a pensar, que ao seguir este padrão comportamental de nosso tempo, estaremos propensos a habitar mais as imagens do que o mundo. Nestas imagens somos imortais, transfigurados (vide os milhares de filtros fornecidos hoje pela IA). O homem encontra-se em uma encruzilhada entre viver nas fantasias de “eus” fictícios e imortais e a realidade de uma vida plena, sujeita às adversidades das dores, do envelhecimento e da morte. Para Baitello (2019) este cenário contemporâneo nos coloca em um paradoxo &#8211; estamos nelas e, ao mesmo tempo, fora delas &#8211; uma coexistência entre presença e ausência, em certo ponto, similar ao que apontava Benjamin (1933).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-baitello-no-decorrer-de-seu-livro-vai-ampliando-estas-imagens-sobre-as-selfies-e-suas-representacoes-e-nos-traz-diversas-provocacoes-como-nbsp-expressao-de-desamparo-2019-p-19" style="font-size:18px"><strong>Baitello</strong>, no decorrer de seu livro, vai ampliando estas imagens sobre as <em>selfies</em> e suas representações e nos traz diversas provocações como &nbsp;“expressão de desamparo” (2019, p.19).</h2>



<p style="font-size:19px">Em consonância com Benjamin (1933), ele comenta sobre o valor massivo capitalista das imagens “Isso é o valor da exposição, a grande moeda do nosso tempo.” (p. 53); e sobre o fato dessas imagens circularem ou orbitarem nas redes, o autor diz: “Orbitar é permanecer, ainda que como lixo!” (p. 84).</p>



<p style="font-size:19px">Há diversas outras pontuações como estas, o que nos faz compreender, como as <em>selfies</em> e sua profusão nas redes sociais representam não mais um alinhamento genuíno e profundo, com a alma do artista (quando estes se retratavam), mas um verdadeiro distanciamento do indivíduo de si mesmo e de sua alma.</p>



<p style="font-size:19px">Ao provocar essa comparação, não tenho o interesse de demonizar o que acontece no mundo atual e nem retirar o valor da nossa evolução tecnológica. A comparação entre estas dois mundos nos servem para uma reflexão sobre a polaridade racionalista e distanciada do sentido da vida que estamos vivendo. A vida hoje se dá em um mundo regido sob a égide de um conjunto de normas sociais que nos coloca num estado de alerta constante.</p>



<p style="font-size:19px">Parece que estamos em vias de perder a capacidade de fazer aquilo que uma obra de arte nos convidava a fazer: parar, contemplar, observar. Tudo é muito rápido, tudo é muito instantâneo. A um clique, você posta uma selfie, que é uma imagem sua. O artista, quando apresentava o seu autorretrato como referência do seu trabalho, tinha que ser fidedigno, como era Rembrandt, aos traços, às emoções, às expressões. Se pensarmos no que era o autorretrato, uma imagem trabalhada com muito cuidado, com muito apreço, com muita cautela. A alma do artista, de algum modo, estava expressa ali.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-varias-sao-as-questoes-que-surgem-aqui" style="font-size:19px"><strong>Várias são as questões que surgem aqui:</strong></h2>



<p style="font-size:19px"><strong>A alma de uma <em>selfie</em> está onde? Essa rapidez de pensamentos e sensações permite a contemplação? Será que há tempo de se pensar nessa <em>selfie</em> como um espelho da alma do indivíduo que se retrata nas redes sociais?</strong></p>



<p style="font-size:19px">Se Jung estivesse hoje acompanhando esse movimento, fico imaginando aqui o que ele diria. Uma das falas que penso ilustrar essa breve análise é a seguinte, presente na OC 8/2:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A psicologia analítica é uma reação contra uma racionalização exagerada da consciência que na preocupação de produzir processos orientados se isola da natureza e assim priva o homem de sua história natural e o transpõe para um presente limitado racionalmente que consiste num curto espaço de tempo situado entre o nascimento e a morte [&#8230;] A vida se torna então insípida e já não representa o homem em sua totalidade [&#8230;] Vivemos protegidos por nossas muralhas racionalistas contra a eternidade da natureza a psicologia analítica procura justamente romper essas muralhas ao desencavar de novo as imagens fantasiosas do inconsciente que a nossa mente é racionalista havia rejeitado.</p><cite>(Jung, OC 8/2, §739)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Claro que as selfies não são arte, mas estão vinculadas a um registro fotográfico, que tem origens e desdobramentos artísticos por sua natureza de reproduzir imagens pictóricas. Assim, as autoimagens se transformam em quadros “pendurados”, como conceitua Baitello (2019), distanciando-se da corporificação de quem as produz. Vale lembrar que, vinculado ao espírito de seu tempo, os autorretratos serviam para expor o talento do artista, mas também para expressar de forma autêntica, singular e genuína a profundidade anímica de quem produzia aquela pintura, muito além da técnica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-vazio-mecanicista-e-massivo-das-selfies-representam-uma-linha-bem-diferente" style="font-size:19px"><strong>O vazio mecanicista e massivo das <em>selfies</em> representam uma linha bem diferente.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Estas autoimagens traduzem o espírito de nosso tempo, em que se apela por pertencimento e aceitação. O meio ou o externo é mais importante. São imagens fragmentárias das identidades contemporâneas. Versões múltiplas de si mesmo, efêmeras e desconectas da expressão da alma.</p>



<p style="font-size:19px">Jonathan Haidt (2024, p. 200 &#8211; 202) em seu livro <em>A Geração Ansiosa</em>, comenta que as meninas são mais afetadas pelas imagens nas redes sociais do que os meninos. É mais comum, também, que as meninas façam mais <em>selfies</em> do que os meninos &#8211; uma vez que este meio, com este fim expositivo, as atraem bem mais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-modo-como-elas-sao-afetadas-e-descrito-pelo-autor-com-os-seguintes-pontos" style="font-size:19px">O modo como elas são afetadas é descrito pelo autor, com os seguintes pontos:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px">Há uma maior tendência das adolescentes se afetarem mais pela comparação social e pelo perfeccionismo;</li>



<li style="font-size:19px">O fato de as adolescentes serem mais sensíveis a agressões do tipo relacional, logo, serem vítimas fáceis de <em>bullying,</em> que as remetem exatamente a esse lugar das comparações e do ideal de imagem difundida nas redes sociais;</li>



<li style="font-size:19px">As meninas são mais abertas a exporem suas emoções, suas dificuldades, tornando-as, de algum modo, mais vulneráveis aos ataques e suas consequências;</li>



<li style="font-size:19px">Por serem mais vulneráveis, ficam mais expostas e mais sujeitas às cenas de assédio.</li>
</ul>



<p style="font-size:19px">Continua o autor, dizendo que as redes sociais se tornam uma grande armadilha, tendo ela um poder sobre relacionamentos para meninos e meninas, o que traz sérios desdobramentos para a saúde mental e uma tendência à solidão que disparou entre as meninas no início da década de 2010 (cf. Haidt, 2024, p. 202).</p>



<p style="font-size:19px">A partir desta análise, temos aqui uma questão evidenciada nas <em>selfies</em>: aspectos do espírito de um tempo, infelizmente, vazio, que não privilegia a contemplação, a possibilidade de uma conversa, a possibilidade de expressão de alma.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>O mundo moderno expõe mecanicamente imagens de pessoas, na busca de uma comparação, de uma referência irreal, massificando a possibilidade do alcance de uma identidade que converse com as reais demandas do indivídu</strong>o.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-os-artistas-e-suas-obras" style="font-size:21px"><strong>Jung, os artistas e suas obras</strong></h2>



<p style="font-size:19px">E o que é que a psicologia analítica, então, tem a ver com tudo isso? Para Jung (OC 15), o artista é um mediador. Como humano, é uma pessoa que possui um potencial criativo, mas que está a serviço de seu tempo e do sentido da sua época. Sobre isto, ele diz o seguinte:&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Ainda que a obra de arte e o homem criador estejam ligados entre si por uma profunda relação, numa interação recíproca, não é menos verdade que não se explicam mutuamente. Certamente é possível tirar de um deduções válidas no que concerne ao outro, mas tais deduções nunca são concludentes. (Jung, OC 15 §134)</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Com esta afirmação, Jung nos convida a refletir sobre como a arte nasce de processos psíquicos profundos. Há uma intencionalidade inconsciente e um trabalho simbólico da alma. A tentativa de compreender o artista não pode ser vista separadamente da possibilidade de compreender o próprio funcionamento da psique humana. Quando o artista cria uma obra, ele torna-se um canal por meio do qual manifesta-se o inconsciente coletivo e o sentido pulsante do espírito de seu tempo. A arte, neste sentido tem pra Jung uma função compensatória, trazendo à luz da consciência daquilo que precisa ser reconhecido e integrado. Assim, a visão de Jung sobre o artista se dá da seguinte forma: “Enquanto pessoa, tem seus humores, caprichos e metas egoístas; mas enquanto artista ele é, no mais alto sentido, “homem”, e <em><strong>homem coletivo</strong></em>, portador e plasmador da alma inconsciente e ativa da humanidade.” </p><cite>(Jung, OC 15, § 157, grifos do autor)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Assim, a arte não é compreendida por Jung simplesmente como um sintoma da vida pessoal do artista, nem a psique do artista se reduz à sua criação. Jung enxerga a autonomia da obra de arte. Depois de criada, ela adquire uma vida própria, em uma existência simbólica independente de seu autor. O vínculo entre o criador e sua obra é profundo, mas não causal nem explicativo no sentido estrito. Assim, as possíveis análises de uma obra de arte não podem se propor a fechar uma reflexão. Elas devem ser amplas, do mesmo modo que Jung compreende o sonho. Não se deve perder a riqueza simbólica que uma obra carrega em todos os elementos que ela possui.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-dizia-que-a-psique-se-expressa-por-meio-de-imagens" style="font-size:19px">Jung dizia que a psique se expressa por meio de imagens.</h2>



<p style="font-size:19px">São muitas as suas afirmações a este respeito, mas uma em particular, tem um trecho na OC 8/2 que vem contribuir para a análise que está sendo desenvolvida aqui. Para o autor:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Somente quando nos contemplamos no espelho da imagem que temos do mundo é que nos vemos de corpo inteiro. Só aparecemos na imagem que criamos. Só aparecemos em plena luz e nos vemos inteiros e completos em nosso ato criativo. Nunca imprimiremos uma face no mundo que não seja a nossa própria; e devemos fazê-lo, justamente para nos encontrarmos a nós próprios, porque o homem, criador de seus próprios instrumentos, é superior à Ciência e à Arte em si mesmas. </p><cite>(Jung, OC 8/2, §737)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Partindo deste ponto, fico imaginando Frida Kahlo, dada a delicadeza e a profundidade de suas autoimagens, sendo expostas num imediatismo sem reflexão das redes sociais. Suas obras, além de expressarem sua dor e o seu físico vilipendiado, expressam marcas do seu tempo. <strong>Não há na obra de arte os tais filtros que disfarçam e que mascaram aquilo que a alma pretende dizer</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">Os filtros das redes funcionam como <strong>personas</strong>, máscaras midiáticas e digitais, por meio das quais as pessoas tentam aparentar o que não são, na tentativa de se adaptar a um mundo que não os aceita em sua forma autêntica.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo - &quot;O caminho da alma: dos autorretratos às selfies&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/fIMwPN3T1KQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/">Gilmara Marques Fadim Alves – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina M. Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>BAITELLO JÚNIOR, Norval. <em>Existências penduradas: ensaios sobre o mundo da imagem e o pensar</em>. São Paulo: Unisinos, 2019.</p>



<p>BENJAMIN, Walter. <em>A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica</em>. 1933, E-book.</p>



<p>BUGLER, Caroline [et al.]. <em>O Livro da Arte</em>. 1. ed. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.</p>



<p>GOMPERTZ, Will. <em>Como os artistas veem o mundo</em>. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.</p>



<p>HAIDT, Jonathan. <em>A Geração Ansiosa: como a Grande Reconfiguração da Infância está causando uma epidemia de doenças mentais</em>. 1. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2024.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>O espírito na arte e na ciência</em>. Petrópolis: Vozes, 2017 OC 15</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da Psique</em>. Petrópolis: Vozes, 1991. OC 8/2</p>



<p>MULLINS, Charlotte. <em>Uma breve história da arte</em>. Porto Alegre: L&amp;PM, 2024.</p>



<p></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><a href="www.ijep.com.br"><img decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP.png" alt="" class="wp-image-11494" style="width:637px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></a></figure>



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			</item>
		<item>
		<title>A visão humanista de Jung, expressa em suas cartas</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-visao-humanista-de-jung-expressa-em-suas-cartas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Jul 2025 21:37:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[guerra]]></category>
		<category><![CDATA[humanismo]]></category>
		<category><![CDATA[pós-guerra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Existe alguém que está contando com vocêPra lutar em seu lugar já que nessa guerraNão é ele quem vai morrer[…]Veja que uniforme lindo fizemos pra vocêE lembre-se sempre que:Deus está do lado de quem vai vencerO Senhor da Guerra não gosta de crianças! (Legião Urbana)  Resumo: Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica tem como [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote has-text-align-center is-style-large is-style-solid-bg" style="font-size:20px"><blockquote><p><em>Existe alguém que está contando com você<br>Pra lutar em seu lugar já que nessa guerra<br>Não é ele quem vai morrer<br>[…]<br>Veja que uniforme lindo fizemos pra você<br>E lembre-se sempre que:<br>Deus está do lado de quem vai vencer<br>O Senhor da Guerra não gosta de crianças! </em></p><cite>(Legião Urbana) </cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica tem como pressuposto central de sua teoria, que o ideal do desenvolvimento humano é o <strong>processo de individuação</strong>, que consiste em grandes linhas, em integrar aspectos psíquicos sombrios e inconscientes à consciência, fazendo com que este indivíduo se diferencie da coletividade e encontre o sentido de sua vida e existência.  A partir desta visão, o objetivo deste artigo será compreender a <strong>visão humanitária de Jung</strong>, por meio de algumas cartas escritas pelo autor na época da 2ª Guerra Mundial, bem como no pós-guerra. Jung, deixa além de um legado teórico, em suas cartas uma <strong>expressão de sua individualidade</strong>, quando fala a cada pessoa, o que pensa e sente. É uma pequena amostra deste fator em seu discurso que pretendo abordar neste artigo.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Palavras-chave</strong>:<strong> Cartas; Jung; Comportamento coletivo; Comunicação humanitária; Guerra</strong></p>



<p style="font-size:19px">A guerra. Uma velha e temida conhecida da sociedade. Ela existe desde os mais remotos tempos. O homem sempre lutou para conquistar territórios, o que dá a ele poder e ascensão sobre pessoas e pensamentos. O meio de alcance desta conquista nunca foi dialógico ou diplomático. Ao contrário, sempre foi truculento e violento. Pautado na força e na imposição. No mundo contemporâneo estes enfrentamentos tem se tornado mais frequentes. Entre inúmeras matérias divulgadas no site da ONU, há uma análise da situação atual do mundo em relação aos conflitos:</p>



<p style="font-size:19px"><em>“Mas, como todos sabemos, as operações de paz enfrentam sérias barreiras que exigem novas abordagens:</em></p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px"><em>As guerras estão se tornando mais complexas e mais mortais.&nbsp;</em></li>



<li style="font-size:19px"><em>Elas duram mais tempo e estão mais envolvidas em dinâmicas globais e regionais.</em></li>



<li style="font-size:19px"><em>Os acordos negociados têm sido mais difíceis de serem alcançados.</em>”<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a></li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-enfim-estamos-em-um-mundo-sujeitos-a-violencia-constante-com-pensamentos-disformes-e-polarizados-que-faz-com-que-as-pessoas-se-percam-no-coletivo" style="font-size:19px">Enfim, estamos em um mundo, sujeitos a violência constante, com pensamentos disformes e polarizados, que faz com que as pessoas se percam no coletivo.</h2>



<p style="font-size:19px">Valores humanos perdem espaço. Notícias são enviesadas por interesses políticos e econômicos e alguns posicionamentos são rasos e sem referências confiáveis. Há distorções e normatizações perigosas. Num cenário como este, a comunicação assume cada vez mais um aspecto político, social, mas também psicológico. Por este motivo entender vieses e aspectos psíquicos envolvidos neste processo é fundamental.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vale-dizer-que-a-psique-nao-e-um-fenomeno-exclusivamente-pessoal-nbsp-ela-se-corporifica-tambem-no-meio-publico-social" style="font-size:19px">Vale dizer que a psique não é um fenômeno exclusivamente pessoal.&nbsp; Ela se corporifica também no meio público, social.</h2>



<p style="font-size:19px">Tal como seres sociais que somos, influenciamos e somos influenciados todo o tempo. Dependemos e criamos dependência. Fortalecemos vínculos e nos distanciamos. Resolvemos ou criamos conflitos e damos a estas conotações, sentidos mais ou menos impactantes. Na maioria das vezes tudo isso acontece por conta de processos comunicacionais, pelos quais somos enredados, tenhamos ou não consciência disso. Não passamos ilesos aos noticiários e nem à enxurrada de informações via internet pela qual somos diária e insistentemente bombardeados. Este volume de dados e informações são tão poderosos que tem inclusive o poder de nos adoecer. As informações “viralizam”, “inflamam”, assim como nosso corpo mediante as crises a qual estamos diariamente expostos. Qual é o remédio?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-1-o-olhar-de-jung-para-um-mundo-em-guerra" style="font-size:22px">1. O olhar de Jung para um mundo em guerra</h2>



<p style="font-size:19px">No desenvolvimento de sua carreira, Jung viveu algumas controvérsias, dentre elas uma acusação de antissemitismo. Em 1933, ano em que Hitler estabeleceu o nazismo, Jung foi eleito para presidir a sociedade Internacional de Psicologia em Berlim. É neste momento passa a ter o seu nome vinculado à revista científica publicada pela Sociedade e que possuía um viés político, onde nesta época, o foco era unir os médicos alemães no espírito do governo nacional-socialista &#8211; o nazismo.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Jung se esforçou para tornar a organização internacional, mas deixou o posto ao escrever um artigo chamado <em>Wotan</em>.</strong> Nele, Jung descreve de forma primorosa o seu horror ao nazismo e os perigos da contaminação psíquica pela qual passava a Alemanha. <strong>Como resultado teve suas publicações queimadas por ordem de Hitler</strong>. Houve também uma publicação de 1934 intitulada <em><strong>A situação atual da psicoterapia</strong></em>, em que Jung afirma que a psique judaica seria diferente da psique alemã. Ele sustenta sua teoria nos pressupostos do inconsciente coletivo, que entende ser peculiar para cada nação, porém seu posicionamento gera críticas. Além de antissemita também foi acusado de usar o regime para se autopromover. (Campos &amp; Piccinato, 2019)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-barbara-hannah-2003-sua-amiga-e-biografa-descreve-com-repugnancia-estas-acusacoes-feitas-a-jung" style="font-size:19px">Bárbara Hannah (2003) sua amiga e biógrafa, descreve com repugnância estas acusações feitas a Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">Para qualquer pessoa que, como eu, tenha estado em Berlim com Jung em julho de 1933, e que o tenha visto e ouvido com frequência durante os 28 anos que se seguiram, a calúnia de que Jung era nazista é tão absurda e completamente destituída de fundamento, que nos desperta ojeriza levá-la suficientemente a sério para desmenti-la. Além do mais, essa crença existe principalmente em pessoas que desejam acreditar, sendo sempre um desperdício de energia tentar dissuadi-las. (Hannah, 2003 p.223)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Clark (1993) comenta que <strong>Aniela Jaffé</strong>, judia, colaboradora e amiga de Jung, se refere a ele como alguém que repudiava as atitudes nazistas. Segundo ou autor, “<em>Aniela Jaffé[&#8230;] menciona a ligação, nesse período, de Jung com numerosos judeus, tanto pacientes como colegas, e a ajuda, conselho e auxílio financeiro que deu pessoalmente a numerosos judeus durante o período da perseguição nazista.</em>” (Clark, 1993, p. 172).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-visao-esta-endossada-por-hannah-2003" style="font-size:19px">Visão esta endossada por Hannah (2003):</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Quando me lembro do quão exausto Jung estava ao voltar depois da reorganização da Sociedade Médica Geral Internacional de Psicoterapia e do quão feliz ficou porque, conforme suas expectativas otimistas, os médicos judeus tinham pelo menos uma sociedade na qual seriam plenamente aceitos e livres; e de quantos judeus eram sempre membros altamente valorizados em nosso grupo de Zurique, sou obrigada a concluir que, também nesse caso, trata-se, principal ou inteiramente, de pessoas quererem acreditar em um boato. Jung também não mediu esforços mais tarde para ajudar emigrantes judeus da Alemanha a se estabelecerem em outros países. Muitos judeus de destaque – entre os quais o Dr. Gerhard Adler, de Londres – negaram publicamente que houvesse qualquer verdade no boato, o que aparentemente não teve efeito nenhum, de modo que pareceu inútil prosseguir. </p><cite>(HANNAH, 2003, p. 235)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">É na obra <em><strong>Aspectos do Drama Contemporâneo</strong> OC 10/2 </em>(2012), que Jung escreve o seu artigo: <em>Wotan</em>. “<strong><em>Wotan é um deus da tormenta e da efervescência, desencadeador das paixões e das lutas e, além disso, mago poderoso e artista das ilusões, ligado a todos os segredos de natureza oculta</em></strong>.” (Jung, 2012, § 375). Os meios pelo qual este deus nórdico, mitológico atinge seus objetivos envolve dor e sacrifícios. Seu <strong>símbolo arquetípico</strong> é frequentemente associado a um poder desintegrador, representando os aspectos sombrios da psique, os quais muitas vezes são negligenciados ou reprimidos na consciência.</p>



<p style="font-size:19px">Para<strong> Jung</strong> (2012), o crescente culto a Hitler e os eventos catastróficos que se sucederam na Alemanha e na Europa como um todo, culminando com a eclosão da Segunda Guerra, eram exemplos da manifestação do despertar de forças inconscientes coletivas, similares à força arquetípica de <strong>Wotan</strong>. Essas forças coletivas, segundo o autor, representavam uma espécie de &#8220;<em>desintegração da psique europeia</em>&#8220;, com o retorno de energias primordiais que haviam sido reprimidas durante séculos de racionalismo e controle cultural.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-do-autor" style="font-size:19px">Nas palavras do autor:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Na verdade, os arquétipos são como leitos de rios, abandonados pelas águas, mas guardando sempre a possibilidade de retornar depois de um certo tempo. Um arquétipo é como o curso de uma velha torrente em que fluíam várias águas da vida e que foram profundamente enterradas. [&#8230;] Enquanto a vida do indivíduo é regulada pela sociedade à semelhança de um canal retensor de águas, sobretudo no âmbito do Estado, a vida dos povos se mostra como o curso de uma torrente do qual ninguém é senhor, ao menos nenhum homem, a não ser aquele Um que foi sempre mais forte do que os homens. [&#8230;] É por isso que o acontecer político corre de um beco sem saída para outro, como um riacho na selva que flui por entre barrancas, meandros e pântanos. Quando se trata do movimento da massa e não mais do indivíduo, cessam os regulamentos humanos e os arquétipos passam a atuar. (Jung, 2012, § 395)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-comenta-que-no-processo-analitico-de-diversos-clientes-alemaes-em-anos-de-terapia-ele-observou-a-expressao-desse-arquetipo-surgir-por-meio-de-questoes-relacionadas-a-temas-como-primitividade-violencia-e-crueldade" style="font-size:19px">Jung comenta que no processo analítico de diversos clientes alemães, em anos de terapia, ele observou a expressão desse arquétipo surgir por meio de questões relacionadas a temas como primitividade, violência e crueldade.</h2>



<p style="font-size:19px">Logo, ele apreendeu, juntamente com suas observações pessoais, que essas manifestações apontavam para um estado mental predominante na Alemanha. Ele diz: “num artigo publicado nessa ocasião, exprimi minha suspeita de que a <em>blonde Bestie<a id="_ftnref2" href="#_ftn2"><strong>[2]</strong></a></em> (a besta loura) movimentava-se num sono intranquilo e uma irrupção não era de modo algum impossível. (<a>Jung, 2012, § 447, grifos do autor)</a></p>



<p style="font-size:19px">É nesta publicação também, que Jung escreve seu ensaio “<em><strong>Posfácio à: Ensaio sobre a história contemporânea</strong></em>”, de 1946. Ele relata explicitamente aqui seu pensamento e toda sua <strong>repugnância com a guerra &#8211; desde a primeira guerra -, e com a figura de Hitler</strong>, dado o poder de influência de massa que este utilizou de maneira vil durante anos, assim como na própria guerra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-sua-obra-ele-deixa-claro-sua-visao-e-seu-posicionamento-humanista-e-o-quanto-discordava-deste-cenario-que-tanto-o-afetava" style="font-size:19px"><strong>Em sua obra, ele deixa claro sua visão e seu posicionamento humanista e o quanto discordava deste cenário que tanto o afetava</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Jung, por meio de suas pesquisas e de seu modo empírico de lidar com os temas e com suas relações, já percebia, como dito, os sinais de uma catástrofe, desde a primeira guerra. Em seus posicionamentos ele alerta para um fenômeno que ele chamou de posteriormente de contágio psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-destaca-o-perigo-da-acao-da-massa-sobre-a-personalidade-individual" style="font-size:21px">Jung destaca o perigo da ação da massa sobre a personalidade individual.</h2>



<p style="font-size:19px">Chama a atenção para as consequências negativas da manifestação dos arquétipos como um risco para os movimentos de massa. Em 1929, ele tem um texto editado com Richard Wilhelm onde fala sobre o mecanismo nocivo da projeção como porta de entrada de epidemias psíquicas. Ele diz:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>As guerras e revoluções que nos ameaçam com tanta violência nada mais são do que epidemias psíquicas. A todo momento contamos com a possibilidade de milhares de pessoas se deixarem tomar por um delírio, e com isso, viveremos mais uma guerra mundial ou uma revolução violenta. Em lugar dos animais ferozes, dos terremotos e grandes inundações, o homem hoje se vê exposto às suas forças psíquicas elementares. O psíquico é um poder imensamente maior do que todas as demais forças terrestres. </p><cite>(Jung, 2012, § 471, grifos do autor)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-ano-de-1937-em-uma-conferencia-na-universidade-de-yale-jung-fala-sobre-o-fanatismo-e-o-significado-nefasto-de-seguir-obstinadamente-alguem" style="font-size:19px">No ano de 1937, em uma conferência na Universidade de Yale, Jung fala sobre o fanatismo e o significado nefasto de seguir obstinadamente alguém.</h2>



<p style="font-size:19px">Ressalta que entender fatos históricos é imprescindível para compreender o presente e não cair em uma armadilha de solução mágica para questões sociais complexas. Critica a exacerbação da racionalidade e a moralidade massificada, sem reflexão. Ressalta ainda nesta preleção o mal da polarização e o medo como impulsionador de decisões delegadas ao coletivo. Em 1940 a tradução alemã de suas preleções fora publicada. Após a ocupação da França, Jung foi impedido de participar de conferências. Ele comenta que todas as edições francesas de suas obras foram destruídas pela Gestapo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-james-hillman-1993-um-contemporaneo-de-jung-nos-traz-uma-visao-arquetipica-complementar-do-significado-da-guerra-e-de-porque-e-tao-dificil-lidar-com-os-conflitos-e-com-suas-consequencias" style="font-size:19px">James <strong>Hillman</strong> (1993), um contemporâneo de Jung, nos traz uma visão arquetípica, complementar do significado da guerra e de porque é tão difícil lidar com os conflitos e com suas consequências.</h2>



<p style="font-size:19px">O autor nos contempla com uma visão ritualística da guerra, como um referencial coletivo que permeia a história humana. Ele nos convida a entrar no imaginário deste processo para que seja possível realizar um entendimento mais acurado de seu significado. “<strong><em>Durante os 5.600 anos de história escrita, houve pelo menos 14.600 guerras registradas</em></strong>” (Hillman, 1993, p. 82).</p>



<p style="font-size:19px">É interessante a sua fala sobre a beleza e o amor implicados nas guerras. Para isso, associa a guerra com as imagens arquetípicas do deus Marte (ou Ares na terminologia grega). Ele é violento e sanguinário. Seu contraponto, ou sua sombra é o amor, representado por Vênus, por quem é apaixonado. Na mitologia, eles são amantes e mantêm um relacionamento turbulento. Mas como o amor (Vênus) é sombra da guerra (Marte), e não há integração, dada a polarização em que vivem, a beleza em Marte fica por conta das batalhas travadas. É o que ainda vemos. Os combatentes, ou melhor os “vencedores” são sempre contemplados com estátuas e bustos, viram alegorias e mesmo nomes de ruas.</p>



<p style="font-size:19px">Desta forma, o autor reforça a visão de Jung onde <strong>os conflitos se manifestam de forma arquetípica, como consequência de um comportamento que encontra ressonância no coletivo</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Essa abordagem sustenta que os acontecimentos arquetipicamente repetidos, ubíquos, altamente ritualizados e passionais são governados por padrões psíquicos fundamentais”. </p><cite>(Hillman, 1993, p 84).</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">É como se as pessoas que estão submetidas à guerra estivem sobre um estado de transe, não se percebendo como cruéis, ou assassinas, ou mesmo tomadas por uma força que nem sentem mais à qual causa estão vinculadas. Tudo termina por virar um espetáculo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-hillman-as-guerras-irrompem-elas-transcendem-o-humano-e-ele-continua" style="font-size:19px">Para Hillman, as guerras irrompem, elas transcendem o humano. E ele continua:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">Considere quantos tipos diferentes de lâminas, armas, ferramentas mentais e temperamentos são moldados [&#8230;] que têm sido carinhosamente afiadas com a ideia de matar. [&#8230;] Olhem as recompensas. [&#8230;] Cerimoniais, postos, [&#8230;] continências, treinamentos, comandos [&#8230;] paradas e condecorações militares, chapéus emplumados, pistolas com cabo de marfim. As grandes muralhas e baluartes de severa beleza construídos por Brunelleschi, Da Vinci, Michelangelo e Buontalenti [&#8230;] cartas no <em>front</em>, poemas. [&#8230;] o escudo de Aquiles, no qual está esculpido o mundo inteiro. (Hillman, 1993, p. 87, grifo do autor)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Todas estas imagens e representações de significado para os conflitos humanos, desde os mais remotos tempos, faz-nos perceber que, para atuar com uma comunicação humanitária, há muitas camadas, densas e profundas de um inconsciente coletivo que tem muita força. </p>



<p style="font-size:19px"><strong>Neste cenário cada vez mais polarizado e individualista que vivemos, podemos pressupor pelas palavras de Hillman e de Jung, que a robustez desta coletividade se fortaleça ainda mais</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-2-a-visao-humanista-permeando-as-cartas-de-carl-gustav-jung" style="font-size:22px">2. <strong>A visão humanista permeando as cartas de Carl Gustav Jung</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Durante toda sua vida Jung se viu diante de diversos interlocutores, seus correspondentes, com quem se comunicou por meio de cartas. Eram médicos, terapeutas, filósofos, padres, pessoas comuns que que gostariam de contar com sua ajuda para questões de ordem pessoal. Ele respondia a todos, por vezes se desculpando pelo atraso, e se justificando pelo grande volume de cartas que tinha por responder. Este material, foi compilado por <strong>Aniela Jaffé</strong>, sua secretária e assistente de muitos anos, e Gerhard Adler, psicoterapeuta londrino, amigo de Jung. Eles contaram com a ajuda de sua filha Marianne Niehus-Jung e outros que lhe eram próximos. (Jung, 2018a)</p>



<p style="font-size:19px">Suas cartas compõem três publicações que hoje fazem parte do seu legado teórico. Dentre as cartas que ele escreveu, muitas delas foram redigidas falando sobre os períodos em que o mundo esteve em conflito. Ele compartilha com seus interlocutores pensamentos e ideias acerca de como compreendia estas realidades a partir de seu posicionamento individual.</p>



<p style="font-size:19px">O conteúdo de sua narrativa corrobora com os pensamentos expressos em suas obras, mas a forma de expressão nas cartas é mais pessoal, direcionada a cada interlocutor, conforme seu grau de conhecimento e intimidade, diferente da descrição teórica como visto aqui na seção anterior. Suas ideias, no contexto das cartas, direcionadas a pessoas em particular, hoje, estão ao dispor do público em geral para benefício da pesquisa.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Importante salientar que estas cartas foram escritas nas respectivas datas, como respostas aos seus correspondentes. As publicações não têm as cartas que incitaram as respostas de Jung. Algumas delas, trazem notas com informações que contextualizam aspectos do diálogo, mas nem todas. Serem respondidas a uma pessoa específica em uma data específica torna este um material histórico e especial. São praticamente 90 anos de distância entre aqueles acontecimentos, os envolvidos e suas imediatas consequências.&nbsp; Em seu contexto histórico/geográfico, Jung era nativo e morador da Suíça. Na Segunda Guerra Mundial, este país assumiu uma postura de neutralidade. Ela até se preparou, mas não foi atacada e nem se envolveu no combate.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-seu-pais-o-proprio-jung-diz-o-seguinte" style="font-size:19px">Sobre seu país, o próprio <strong>Jung</strong> diz o seguinte:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">Na Suíça, nosso país, tanto do Norte como do Sul sopra um vento inofensivo e suspeito, tão idealista que ninguém chega a se aperceber de nada. <em>Quieta non movere</em> (Não mexer no que está quieto) é uma sabedoria que muito nos convém. Muitas vezes os suíços são censurados por demonstrarem grande resistência em se assumirem como um problema. Devo rebater essa opinião e dizer que o suíço é um povo pensativo, mas não o diz, de maneira alguma, mesmo considerando por onde o vento sopra. Desse modo, pagamos nosso pesado tributo ao tempo tormentoso e ao ímpeto germânicos na impressão de que somos melhores. Entretanto, o que ocorre realmente é que os alemães dispõem agora de uma oportunidade histórica única para aprender a ver no mais íntimo de si, de que labirintos obscuros da alma o cristianismo pretendia salvar o homem. (Jung, 2012, p. 21, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">É deste lugar, com esta perspectiva que Jung vive estes períodos como ele próprio chamou, sombrios e catastróficos, que Jung se manifesta. É desta condição que também escreve para seus correspondentes. Ele era um humanista e se autodefinia como um empírico “<strong><em>Não sou filósofo, mas empirista e, por isto, em todas as questões difíceis, inclino-me mais a deixar que a experiência decida.</em></strong>” (Jung, 1991, § 604), assim sendo, era fiel às suas convicções e suas crenças.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-transcrevo-abaixo-alguns-trechos-de-cartas-selecionadas-de-jung-nos-volumes-1-e-2-de-cartas-2018a-e-2018b-3" style="font-size:21px">Transcrevo abaixo alguns trechos de cartas selecionadas de Jung, nos <em>Volumes 1 e 2 de Cartas</em> (2018a e 2018b).<a href="#_ftn3" id="_ftnref3">[3]</a></h2>



<ol class="wp-block-list">
<li style="font-size:21px"><strong>Volume 1</strong></li>
</ol>



<p style="font-size:19px"><em>Destinatário: Destinatária não identificada</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Data: 05/10/1939</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Local: EUA</em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:14px">
<p>[&#8230;] Estive num ponto bem próximo à fronteira entre as linhas de batalha da França e Alemanha. Era possível <strong>ver as fortificações francesas e alemãs</strong>, mas tudo estava tão quieto e pacífico quanto possível. Não havia barulho nem tiros; <strong>as aldeias foram evacuadas, e nada se mexia</strong>. [&#8230;] Convidaram-me para ser candidato ao parlamento nacional. [&#8230;] <strong>Eu lhes disse que não era político</strong>, e eles responderam que era exatamente por isso que me queriam, pois políticos já havia demais. Se for assim, respondi que posso aceitar. [&#8230;] Com boa dose de sorte, talvez eu possa dizer algo razoável. <strong>Fui informado de que o povo quer representantes que defendam os valores espirituais.</strong> <strong>É um sinal interessante dos tempos</strong>. Eu estou apenas na lista, insisti que me colocasse no último lugar, pois ainda espero não ser eleito. [&#8230;] <strong>Se eu puder ajudá-la a vir para a Suíça, tentarei fazê-lo através da <em>fremden-polizei</em>.</strong> [&#8230;] <strong>Atmosfera está tremendamente conturbada</strong>, e é muito difícil manter-se alheio. As coisas que acontecem na Alemanha são incríveis e o futuro está cheio de possibilidades impensáveis. <strong>A sensação é completamente a apocalíptica. É como no tempo em que Deus permitiu que Satanás andasse pela terra por um tempo e meio</strong>. Os alemães, tanto quanto os conheço, estão em <strong>parte aterrorizados</strong> e em <strong>parte bêbados de sangue e vitória</strong>. Se houve algum dia uma epidemia mental, é esta a condição mental da Alemanha de hoje. <strong>O próprio Hitler (pelo que ouvi) está mais do que apenas meio maluco.</strong> (p. 287, 288)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><em>Destinatário: Dr. Helton Godwin Baynes</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Data: 12/08/1940</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Local: Londres</em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">Até hoje Bollingen &#8211; e a Suíça &#8211; escaparam da destruição geral, mas vivemos numa prisão[&#8230;] <strong>os jornais foram reduzidos praticamente ao silêncio</strong>, e não se tem vontade de lê-los, ou no máximo as <strong>notícias duvidosas da guerra</strong>. Durante a certo tempo, quando li o seu livro, estive com meus netos na Suíça ocidental, pois esperávamos um ataque. Depois disso tive muito que fazer, porque todos os médicos tinham sido convocados. [&#8230;] <strong>Escrever cartas é um assunto delicado, pois o sensor lê tudo</strong> mas gostaria de dizer-lhe que penso muitas vezes no senhor em todos os meus amigos na Inglaterra. [&#8230;] Eu amo a natureza, mas não o mundo dos homens, nem o mundo que virá. Espero que esta carta chegue ao senhor ele <strong>e leve todos os desejos que o coração humano não pode reprimir, apesar dos sensores</strong>. Em última análise <strong>eles também são seres humanos</strong>. (p. 294, 295)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><em>Destinatário: Allen Welsh Dulles</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Data: 01/02/1945</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Local: Londres</em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">[&#8230;] <strong>a propaganda alemã tenta solapar a moral, na esperança de um eventual colapso</strong> [&#8230;] as proclamações do General Eisenhower [&#8230;] feitas em <strong>linguagem simples, humana e compreensível a qualquer pessoa, oferecem ao povo alemão algo em que ele possa agarrar e tendem a fortalecer a crença, que talvez seja verdadeira, na justiça e humanidade dos americanos.</strong> [&#8230;] o General Eisenhower deveria certamente ser congratulado. (p. 362)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><em>Destinatário: Dr. Hermann Ullmann</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Data: 25/05/1945</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Local: Genebra</em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:19px">
<p style="font-size:19px">A <strong>culpa coletiva da Alemanha</strong> consiste no fato de que foram <strong>os alemães que causaram a guerra e todas as atrocidades indizíveis dos campos de concentração</strong> [&#8230;] esta culpa coletiva não é nenhuma construção moral ou jurídica, mas <strong>um fato psicológico que é irracional em si</strong> [&#8230;] seria desejável que os alemães tomassem a peito esse fato e não cometessem o <strong>erro tático de insistir em toda parte que ninguém sabia dos campos de concentração.</strong> [&#8230;] chegou-se mesmo a afirmar que os <strong>ingleses foram os culpados</strong> pela existência dos campos de concentração <strong>porque não impediram a chegada de Hitler ao poder.</strong> [&#8230;] Desejaria que o senhor tivesse visitado como observador neutro os congressos alemães, franceses, ingleses e americanos, para mencionar apenas uma das possíveis formas sociais de contato. [&#8230;] <strong>O que se viu de falta de tato, grosseria, descortesia etc. por parte dos alemães foi contrabalançado pelas qualidades sem dúvida amigáveis de muitos alemães</strong>. Há 30 anos ouve-se apenas que a Alemanha ameaça seu mundo ambiente, ou que o violenta de forma vergonhosa, ou que se queixa de falta de compreensão. Os povos deveriam obedecer à Alemanha ou compreendê-la amorosamente. <strong>Mas o que devem os alemães à Europa?</strong> A &#8220;culpa coletiva&#8221; significa exatamente esta pergunta<strong>: O que a Alemanha deve à Europa depois de tudo o que aprontou nesses 30 anos?</strong> [&#8230;] Se, por exemplo, <strong>um índio Pueblo me disser um dia: &#8220;Vocês europeus são piores do que animais ferozes”, tenho de concordar polidamente, pois não conseguiria mudar sua justa avaliação sacudindo de mim de antemão qualquer cumplicidade.</strong> (p. 373, 374)</p>
</blockquote>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:21px"><strong>Volume 2</strong></li>
</ul>



<p style="font-size:19px"><em>Destinatário: Erlo van Waveren</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Data: 25/09/1946</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Local: Nova York</em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><strong>O mundo todo com seu tumulto e miséria está num processo de individuação.</strong> [&#8230;] Se soubessem disso, <strong>não estariam em guerra uns com os outros, pois quem tem a guerra dentro de si não tem tempo nem prazer de lutar com os outros</strong>. [&#8230;] Coloca-se evidentemente a questão se podem suportar esse procedimento. Mas <strong>esta é também a questão quanto à vida, insuportável para milhares de pessoas, como o senhor pôde ver nos acontecimentos recentes.</strong> A individuação é a vida comum e aquilo de que temos consciência. (p. 48)&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><em>Destinatário: Dorothy Thompson</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Data:23/09/1949</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Local: EUA</em></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">A senhora sabe que <strong>me preocupo tão profundamente quanto Senhora com a situação fora do comum e sinistra do mundo.</strong> (A propósito, li vários de seus comentários políticos e admirei sua inteligência prática e seu bom senso.) [&#8230;]. <strong>Uma situação política é a manifestação de um problema psicológico paralelo em milhões de indivíduos</strong>. Esse problema é em grande parte inconsciente (o que o torna particularmente perigoso). [&#8230;] <strong>Consiste no conflito entre um ponto de vista <em>inconsciente </em>(ético religioso filosófico social político e psicológico)</strong> é um inconsciente, que se caracteriza pelos mesmos aspectos, mas é representado numa forma “inferior”, isto é, mais arcaica. <strong>Em vez da “alta” ética cristã, temos as leis de rebanho, repressão da responsabilidade individual e submissão ao chefe tribal (ética totalitária).</strong> Em vez da religião, <strong>credo supersticioso numa doutrina</strong> ou na verdade <em>ad hoc</em>; em vez de filosofia, <strong>um sistema doutrinário primitivo que “racionaliza” os apetites do rebanho</strong>; em vez de uma organização social diferenciada, <strong>uma aglomeração caótica e sem sentido de indivíduos desenraizados, mantidos submissos pela força e pelo terror, cegados por mentiras convenientes</strong>; em vez do uso construtivo do poder político com o objetivo de conseguir um equilíbrio das forças desenvolvidas livremente, <strong>a tendência destrutiva de estender a repressão ao mundo inteiro para obter mera superioridade de poder</strong>; em vez de psicologia, o uso <strong>dos métodos psicológicos para extinguir a centelha individual é inibir o desenvolvimento da consciência e da inteligência</strong>. [&#8230;]</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:19px">
<p style="font-size:19px">Encontramos <strong>este conflito em quase todos os cidadãos de todos os países do ocidente</strong>. Mas <strong>a maioria não tem consciência dele</strong>. [&#8230;] Por isso temos que considerar o seguinte: 1) Não <strong>somos imunes</strong>. 2) <strong>Os poderes destrutivos estão precisamente dentro de nós</strong>. 3) Quanto mais inconscientes forem, tanto mais perigosos. 4) Somos <strong>ameaçados tanto de dentro quanto de fora. </strong>5) <strong>Não podemos destruir o inimigo pela força</strong>; não devemos nem mesmo tentar vencer a Rússia, porque destruiríamos a nós mesmos, uma vez que a <strong>Rússia é, por assim dizer, idêntica ao nosso inconsciente que contém nossos instintos que todos os germes de nosso desenvolvimento futuro.</strong> 6) O <strong>inconsciente deve ser integrado devagar, sem violência</strong> e com o devido respeito pelos nossos valores éticos. <strong>Isso requer muitas alterações em nossos pontos de vista religiosos e filosóficos</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">O ocidente se vê forçado ao rearmamento. [&#8230;] Temos de estar preparados para o pior. Se for o caso, a Europa terá que ser organizada pelos Estados Unidos <em>à tort et à travers</em>. E isso será de vital importância para os Estados Unidos. <em>Mas nenhuma agressão! Sob hipótese alguma!</em> <strong>Somente a própria Rússia poderá derrotar a si mesma.</strong> Não podemos derrotar os nossos instintos, mas eles podem inibir-se uns aos outros[&#8230;]</p>



<p style="font-size:19px">A Rússia realmente está no caminho da guerra, e somente o medo daqueles que disso sabem é que a retém. [&#8230;] <em>Nem a racionalidade nem a diplomacia são métodos para lidar efetivamente com a <strong>Rússia</strong></em><strong>, porque ela é dominada por um <em>impulso elementar</em></strong> (como aconteceu com Hitler). [&#8230;] &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gostaria de chamar sua atenção para o <strong>meu pequeno livro <em>Essays on Contemporary</em></strong>. [&#8230;]. Ali encontrará mais algumas contribuições ao grande problema de nosso tempo [&#8230;]</p>



<p style="font-size:19px"><strong>A felicidade terrena só é conseguida através da desgraça de outra pessoa, pois a riqueza cresce às custas da pobreza</strong>. O bem-estar social tornou-se o engodo, a isca e o <em>slogan</em> das massas desenraizadas [&#8230;]. Não enxergam que elas mesmas deverão pagar por esta proeza com sofrimentos intermináveis. Por isso é bom saber que, na melhor das hipóteses, <strong>a vida nesta terra oscila entre uma quantidade igual de prazer e de miséria, e que o verdadeiro progresso é apenas a adaptação psicológica às várias formas da miséria individual.</strong> A miséria relativa. Quando muitas pessoas têm dois carros, a pessoa com um só carro é um proletário privado dos bens deste mundo e, portanto, com direito de subverter a ordem social. [&#8230;]</p>



<p style="font-size:19px">Todos nós pensamos em termos de bem-estar social. E esse é o grande erro, pois <strong>quanto mais se procura estancar as formas vulgares da miséria, tanto mais se é enredado nas variantes inesperadas, novas, complicadas, intrincadas e incompreensíveis da felicidade, numa forma nunca antes sonhada</strong>. [&#8230;] Devo dizer que prefiro uma pobreza modesta ou algum desconforto material (por exemplo, falta de chuveiro de eletricidade de carro etc.) a essas pragas. O pouco de progresso social conseguido pela Alemanha nazista e pela Rússia é compensado pelo terror policial<strong>, um item novo é muito considerável na lista das misérias, mas consequência inevitável do bem-estar social.</strong> Por que não bem-estar espiritual? <strong>Não há nenhum governo no mundo preocupado com isso. no entanto a ordem espiritual é <em>o</em> problema.</strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong>Se entendermos o que a Rússia é em nós, saberemos como lidar com ela politicamente.</strong></p>



<p style="font-size:19px">[&#8230;] A <strong>tecnologia e o bem-estar social nada oferecem</strong> para superar essa estagnação espiritual e não trazem resposta a nossa insatisfação e inquietação espirituais. Mas por elas somos ameaçados de dentro e de fora. <strong>Ainda não entendemos que a descoberta do inconsciente significa uma enorme tarefa espiritual que <em>deve</em> ser cumprida se quisermos preservar nossa civilização.</strong> (p. 141,142,143,144)</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Na primeira carta relatada aqui, a segunda guerra acaba de eclodir. Há em sua fala um perceptível medo e incerteza. &nbsp;Deixa claro o quanto o meio político não lhe é atrativo e sua compreensão sobre a necessidade de uma evolução espiritual da sociedade, campo onde sente-se confortável para contribuir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-disse-hannah-2003-a-psicologia-de-jung-e-completamente-incompativel-com-qualquer-movimento-politico-hannah-2023-p-224-grifos-do-autor" style="font-size:19px">Disse Hannah (2003) “[&#8230;] <strong>a psicologia de Jung é completamente incompatível com <em>qualquer </em>movimento político</strong>.” (Hannah, 2023, p. 224, grifos do autor).</h2>



<p style="font-size:19px">Está expresso também em seu discurso uma preocupação com o futuro e uma confirmação de algo está se repetindo. Termos bíblicos e mitológicos são comumente usados por Jung para simbolizar suas ideias. Há uma ideia em sua fala, daquilo que Hillman comentou, tempos depois, sobre a manifestação arquetípica das guerras em relação ao amor e à beleza. Nas palavras de <strong>Jung</strong>, na referida carta: “<strong>Os alemães, tanto quanto os conheço, estão em parte aterrorizados e em parte bêbados de sangue e vitória</strong>” (Jung, 2018a, p. 289)</p>



<p style="font-size:19px">Na sua carta de 18/08/1940 ele demonstra estar muito pessimista com o destino da humanidade a partir do seu relato. Demonstra sentir-se oprimido, pela situação que a guerra impõe sobre as pessoas. Ele contava aqui com 65 anos e sentia-se cansado diante de tamanha adversidade. Ele ainda escreve nesta carta “nos dias de hoje é difícil ser velho, a pessoa sente-se desamparada. Por outro lado, sente-se numa alienação feliz neste mundo.” (Jung, 2018a, p. 295).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-no-decorrer-de-sua-obra-sempre-criticou-e-por-vezes-definiu-como-doenca-o-fato-de-se-adaptar-a-situacoes-coletivas-e-sociais-sem-uma-autorreflexao" style="font-size:19px">Jung, no decorrer de sua obra sempre criticou e por vezes definiu como doença o fato de se adaptar a situações coletivas e sociais sem uma autorreflexão.</h2>



<p style="font-size:19px">Termina a carta de forma cordial com seu correspondente. Fica em relevância as questões sobre o humano e suas formas de expressão. Estas estão sempre presentes em seus escritos inclusive aqui, quando comenta, talvez com certa ironia, que quem realiza o senso, na guerra, são também humanos. &nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Já em fevereiro de 1945, com a guerra ainda em andamento e com a Alemanha pressentindo que perderia, ele fala sobre a comunicação neste processo. Elogia o General Dwight D. Eisenhower, (Comandante Supremo das Forças Aliadas da Europa), que demonstra em uma declaração, segundo análise de Jung, uma fala simples e coerente, que pode ser acalentadora e alcançar pessoas que sofrem e que veem de muito tempo ouvindo insinuações destrutivas.</p>



<p style="font-size:19px">Aqui vale uma ressalva. Lachman (2012), em uma análise biográfica de Jung fala sobre sua relação com Dulles. Por meio de uma grande rede de relacionamentos, Allen W. Dulles, que era agente aliado na Suíça e tinha como meta criar uma rede antinazista suíça, conheceu Jung e “deram início a um ‘casamento experimental entre espionagem e psicologia’ envolvendo o ‘perfil psicológico’ de líderes políticos e militares.” (Lachman, 2012, p. 193). Jung tornou-se neste período o “agente 448”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-continua-o-autor-comentando-que-as-analises-de-jung-causaram-grande-impacto-quando-ele-comenta-que-hitler-poderia-se-matar-frente-a-uma-derrota" style="font-size:19px">Continua o autor comentando que as análises de Jung causaram grande impacto, quando ele comenta que Hitler poderia se matar frente a uma derrota.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Dulles impressionava-se com a profundidade de Jung e o quanto suas avaliações demonstravam uma imensa antipatia do psiquiatra pelo regime nazista.</strong></p>



<p style="font-size:19px">Dizia <strong>Dulles</strong>: “<em>ninguém provavelmente jamais saberá o quanto o professor Jung contribuiu para a causa aliada durante a guerra</em>” (Lachman, 2012, p. 194), mas os serviços de Jung, dado seu alto sigilo nunca foram documentados. Como as ideias de Jung eram muito difundidas nas altas hierarquias do grupo aliado, o General Eisenhower “<em>procurou ler Jung em busca de uma maneira de convencer o populacho alemão de que a derrota era inevitável e de que se render era a única opção</em>” (Lachman, 2012, p. 194).</p>



<p style="font-size:19px">Lachman comenta ainda que Dulles falou para Jung que encaminharia sua carta ao general para uma avaliação. Esta ressalva deixa perceber que primeiro, Jung teve com a guerra uma relação de maior proximidade do que sabe e segundo, que a relação de Dulles e Jung foi mantida por longo tempo, porém nos registros de suas cartas há apenas esta, datada de 01/02/1945. Um traço interessante aqui é que, pelo que publica Lachman, Jung elogia as falas de Eisenhower, que estão baseadas em suas próprias premissas que, por inferência, reiteram aspectos humanos e de acolhimento da população, que a esta altura já sofria demasiadamente.</p>



<p style="font-size:19px">Há aqui, na carta de 25/05/1945, há uma indignação com a falta de verdades que existe no processo de comunicação das ações da Alemanha. Tornou-se popularmente conhecida a fala de que Alemanha negava possuir campos de concentração em que havia morte e tortura, e quando assumiam, descreviam estes locais como “modelos”, onde havia famílias, crianças e idosos inclusive sendo alimentados e mantidos em “boas condições”.</p>



<p style="font-size:19px">A indignação e até uma certa “vergonha alheia” (culpa coletiva) permeia aqui a fala de Jung, pois me parece que a esta altura, já não tinha mais saída: a catástrofe imputada pela guerra era conhecida e estava escancarada. A verdadeira situação não poderia mais ser ocultada de todos e a Alemanha insistia em não assumir a culpa pelas tragédias.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quanto-a-culpa-coletiva-a-que-jung-se-refere-na-carta-e-um-termo-que-foi-cunhado-por-ele-quando-escreveu-seu-ensaio-depois-da-catastrofe-em-1945-sobre-o-termo-neste-ensaio-ele-diz-o-seguinte" style="font-size:19px">Quanto à “culpa coletiva”, a que Jung se refere na carta, é um termo que foi cunhado por ele, quando escreveu seu ensaio <em>Depois da catástrofe</em>, em 1945. Sobre o termo, neste ensaio, ele diz o seguinte:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A culpa coletiva psicológica é uma <em>fatalidade trágica</em>; atinge a todos, justos ou injustos, que, de alguma maneira, se encontravam na proximidade do crime. Decerto, nenhum homem razoável e consciencioso haverá de confundir a culpa coletiva com a individual, responsabilizando um indivíduo antes mesmo de ouvi-lo. [&#8230;] No entanto, quantas pessoas são conscienciosas e razoáveis ou quantas se esforçam por ser ou vir a ser? Nesse aspecto, não sou muito otimista. A culpa coletiva é, sem dúvida, uma impureza mágica, primitiva e arcaica e, justamente devido à irracionalidade generalizada, é algo bastante real que nenhum europeu que esteja fora da Europa e nenhum alemão fora da Alemanha pode deixar de considerar. Caso um alemão pretenda sair-se bem com a Europa, ele terá de adquirir consciência de que diante da Europa é um culpado. </p><cite>(Jung, 2012, §405)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-sequencia-apresento-duas-cartas-escritas-no-pos-guerra-que-revelam-como-jung-mantem-coeso-e-estruturado-o-seu-pensamento-sobre-a-forma-de-tratar-o-ser-humano-e-a-humanidade-apos-as-catastrofes-presenciadas-na-segunda-guerra-mundial" style="font-size:19px">Na sequência, apresento duas cartas escritas no pós-guerra, que revelam como Jung mantém coeso e estruturado o seu pensamento sobre a forma de tratar o ser humano e a humanidade após as catástrofes presenciadas na Segunda Guerra Mundial.</h2>



<p style="font-size:19px">Em uma resposta curta, à <strong>Erlo van Waveren</strong>, psicólogo analítico americano, em 1946, Jung retoma uma fala mais centrada em suas premissas empíricas e em sua teoria da individuação. Fala da <strong>individuação </strong>como o caminho para que o ser humano possa tomar o sentido de sua vida e existência e assim se conciliar de forma sadia consigo mesmo e com o coletivo. Isto está expresso na metáfora “[&#8230;] <strong><em>quem tem a guerra dentro de si não tem tempo nem prazer de lutar com os outros</em></strong>.” (Jung<strong>, </strong>2018b, p. 48).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-termina-a-carta-dizendo-que-essa-busca-e-um-processo-profundo-individual-dificil-e-da-vida-toda" style="font-size:19px">Ele termina a carta dizendo que essa busca é um processo profundo, individual, difícil e da vida toda.</h2>



<p style="font-size:19px">Na carta à Dorothy Thompson, uma carta bem extensa datada de 1949, Jung detalha para ela seu pensamento sobre o mundo moderno e seus riscos provenientes do pós-guerra e com a presença de um novo conflito (época em que se estabelece a guerra fria). Ele apresenta um pensamento muito lúcio e organizado. Aparenta um posicionamento mais maduro e assertivo sobre como o homem e somente este como individuo é capaz de compreender seu verdadeiro papel no mundo e a partir daí gerar mudanças. Sua correspondente era uma jornalista americana, expulsa da Alemanha na década de 30 por sua posição contrária ao nacional-socialismo e havia solicitado a opinião de Jung sobre “<em>a atual situação da América com relação à Rússia e pedido conselho sobre a atitude da América. Ela temia que pudesse haver guerra entre os dois países</em>.” (Jung, 2018b, p. 145).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sua-resposta-e-extensa-e-contundente-inicia-compartilhando-sua-visao-sobre-o-mundo-relata-sua-visao-simbolica-sobre-o-a-politica-como-projecao-psicologica-de-um-inconsciente-coletivo" style="font-size:19px">Sua resposta é extensa e contundente. Inicia compartilhando sua visão sobre o mundo. Relata sua visão simbólica sobre o a política como projeção psicológica de um inconsciente coletivo.</h2>



<p style="font-size:19px">Tem críticas severas sobre a consequência dessa falta de consciência coletiva tais como: a atitude de rebanho, exacerbando uma liderança totalitária e uma racionalização, que por sua vez, retroalimenta este sistema que reforça o poder, o controle e a submissão. Isto tudo se dá, por meio de mentiras que sustentam a cegueira coletiva. Tudo em detrimento de uma sociedade organizada e de uma política ética e justa, que privilegia a liberdade. Chama a atenção claramente ao dizer que todos somos parte deste sistema. O poder do arquétipo está presente no inconsciente de cada um. Por isso enfatiza tanto <strong>a busca de um caminho para a individuação como recurso para a civilização</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-sua-obra-ele-comenta" style="font-size:19px">Em sua obra ele comenta:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>[&#8230;] a psicopatologia de massa tem suas raízes na psicopatologia individual. Fenômenos psíquicos desse porte podem ser investigados no indivíduo. E somente quando se consegue constatar que certas formas de manifestação ou sintomas constituem o somatório de diferentes indivíduos é que se pode dar início a uma investigação dos fenômenos de massa correspondentes. </p><cite>(Jung, 2012, § 445)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Quanto à Rússia, pontua que há similaridades com a análise que fez sobre o domínio arquetípico na Alemanha. Acredita que poderá haver um movimento de proporção igual. Compreende que a Rússia quer a guerra e salienta o perigo de vir a confrontá-la com a força. Aliás, nos seus discursos aqui e em narrativas anteriores, é possível perceber que ele não era favorável a conflitos armados e a resoluções por meio da força. Perdemos, como ele próprio pontua, a capacidade de acessar o valor espiritual e de reflexão, onde ele compreende que está uma das possibilidades de resgate do indivíduo. Jung remonta novamente seu discurso para a importância da individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cabe-aqui-diferenciar-alguns-conceitos-para-que-nao-se-faca-confusoes-a-este-respeito" style="font-size:19px">Cabe aqui diferenciar alguns conceitos, para que não se faça confusões a este respeito.</h2>



<p style="font-size:19px">Na teoria analítica deve-se considerar que a <strong>individualidade</strong> se define por aquelas características pessoais que nos diferencia uns dos outros, enquanto o individualismo, é compreendido como uma atitude que sobrepõe os interesses individuais aos interesses da coletividade (Sharp, 1997).&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Na <strong>individuação </strong>extrapola-se o tornar-se consciente. Trata-se de uma realização profunda do arquétipo do si-mesmo, de uma busca por encontrar a totalidade, e não de uma inflação do ego, que pode cair fatalmente no individualismo. Para <strong>Jung</strong> “<strong><em>A individuação não exclui o mundo; pelo contrário, o engloba</em></strong>.” (Jung, 1991, § 432)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim"><strong>Por fim&#8230;</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Nos recortes apresentados aqui, compreendo que tenha sido possível fazer uma conversa com que pensava Jung acerca da humanidade, de como as atrocidades cometidas na Segunda Guerra Mundial, assim como na Primeira, foram chocantes e muito marcantes em sua vida e no destino da humanidade. Espero não ter sido muito reducionista nas observações realizadas sobre seus discursos nas cartas trocados entre ele e seus correspondentes, mas o objetivo deste artigo não foi o de aprofundamento, mas sim trazer para o conhecimento das áreas de psicologia analítica, a possibilidade de se encontrar em material tão extenso como na obra de Jung um discurso tão vívido e importante para o momento que vivemos.</p>



<p style="font-size:19px">Um exercício interessante de se fazer, seria fecharmos os olhos por um instante, abstrair o fato de estas cartas terem por volta de 80 anos e trazer seu discurso para o que vemos hoje em dia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreendo-que-jung-era-acima-de-tudo-um-visionario-e-sua-teoria-e-viva" style="font-size:20px">Compreendo que Jung era acima de tudo um visionário e sua teoria é viva.</h2>



<p style="font-size:19px">Temos ainda muito o que explorar e aprender com seus pressupostos. Suas ponderações são elementares para o pensamento humanitário onde ele enfatiza que somente o homem, e <em>cada</em> homem, só estará liberto deste cenário massivo se puder se confrontar consigo mesmo. Isto passa longe do individualismo. Somente somos livres se vivemos em uma sociedade também livre, democrática, com valores éticos que inclua a todos.</p>



<p style="font-size:19px">O olhar para a psicologia junguiana nos mostra que há algo que é anterior à comunicação como um processo em si. É <strong>o homem como ser psíquico</strong>, com sua sombra coletiva e a consequente projeção social que causa as contaminações psíquicas. O meio tem força e tem poder de manobrar o pensamento e as ações individuais. Esta foi sempre sua a preocupação de Jung. Ele nunca baseou seus pressupostos em manuais, em técnicas e nem em fórmulas prontas. O autoconhecimento para ele era algo muito profundo que pede muita humildade e dedicação. Isto inclui ir na contramão de tudo que estamos observando na atualidade, ou seja, despir-se de preconceitos, crenças e estereótipos e olhar de forma genuína para dentro.</p>



<p style="font-size:19px">O mundo necessita de indivíduos e de lideranças que mediante conflitos e impasses tenham a capacidade de não subverter a necessidade coletiva em nome de seus interesses individualistas por poder, controle, autoridade e cerceamento de liberdades, imputando dor e sofrimento ao invés de ajuda.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: A visão humanista de Jung, expressa em suas cartas" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/WdgdBeevAIw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gilmaraalves/">Gilmara Marques Fadim Alves &#8211; Analista Didata em Formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>CAMPOS, Viviane &amp; PICCINATO, Ricardo. <strong>100 minutos para entender Carl Jung</strong>. Coleção Saberes. Bauru, SP: Editora Alto Astral, 2019.</p>



<p>CLARK, J. J. <strong>Em busca de Jung</strong>. Indagações Históricas e Filosóficas. Rio de Janeiro<strong>: </strong>Ediouro, 1993.</p>



<p>HANNAH, Bárbara. <strong>Jung, vida e obra</strong>. Uma memória biográfica. Porto Alegre: Artmed Editora, 2003.</p>



<p>HILLMAN, James. <strong>Cidade e Alma</strong>. São Paulo: Studio Nobel, 1993.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>Aspectos do drama contemporâneo</strong>. 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>________________.<strong> Cartas I. </strong>Petrópolis: Vozes, 2018a.</p>



<p>________________.<strong> Cartas II. </strong>Petrópolis: Vozes, 2018b.</p>



<p>________________.<strong> A natureza da psique</strong>. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, 1991</p>



<p>LACHMAN, Gary. <strong>Jung, o místico: </strong>as dimensões esotéricas da vida e dos ensinamentos de C. G. Jung. Uma nova biografia. São Paulo: Cultrix, 1997</p>



<p>SHARP, Daryl. <strong>Léxico junguiano</strong>. São Paulo: Cultrix, 1997.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> https://brasil.un.org/pt-br/291588-guterres-opera%C3%A7%C3%B5es-de-paz-da-onu-protegem-pessoas-em-alguns-dos-lugares-mais-desesperadores</p>



<p><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Termo utilizado primeiramente por Nietzsche. “Em sua debilidade psicopática, brincou com a “besta loura” e o “super-homem”.” (Jung, 2012, p. 46)</p>



<p><a href="#_ftnref3" id="_ftn3">[3]</a> Trechos em negrito são meus e os grifos em itálico são do autor. As obras estão devidamente citadas nas referências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep"><strong>Canais IJEP:</strong></h2>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10882" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p><strong>Pós-graduações&nbsp;</strong>– Certificado pelo MEC – 2 anos de duração- Psicologia Junguiana; Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática; <strong>Matrículas abertas</strong>:&nbsp;<a href="http://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<p><strong>Congressos Junguianos</strong>: Gravados e Online – Estude Jung de casa! Aulas com os Professores do IJEP:&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos</a></p>



<p><strong>YouTube</strong> <strong>IJEP</strong>:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">+700 vídeos de conteúdo junguiano</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="772" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/07/FE-4-1024x772.png" alt="" class="wp-image-10883" style="width:550px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/FE-4-1024x772.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/FE-4-300x226.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/FE-4-768x579.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/FE-4-150x113.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/FE-4-450x339.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/FE-4.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
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			</item>
		<item>
		<title>Um recorte analítico sobre o tempo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-recorte-analitico-sobre-o-tempo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 07 Dec 2024 19:02:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[final de ano]]></category>
		<category><![CDATA[tempo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por seres tão inventivo E pareceres contínuoTempo, tempo, tempo, tempo És um dos deuses mais lindos Caetano Veloso Todos os anos é sempre assim: o ano começa e a largada para a realização dos nossos planos, projetos e desejos está dada. Trabalhamos, estudamos, estruturamos nossas vidas, seguimos com nossas metas, sonhos e desejos. E de [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p><em>Por seres tão inventivo</em> <br><em>E pareceres contínuo</em><br><em>Tempo, tempo, tempo, tempo</em> <br><em>És um dos deuses mais lindos</em> </p><cite>Caetano Veloso</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-todos-os-anos-e-sempre-assim-o-ano-comeca-e-a-largada-para-a-realizacao-dos-nossos-planos-projetos-e-desejos-esta-dada" style="font-size:17px">Todos os anos é sempre assim: o ano começa e a largada para a realização dos nossos planos, projetos e desejos está dada.</h2>



<p>Trabalhamos, estudamos, estruturamos nossas vidas, seguimos com nossas metas, sonhos e desejos. E de repente, é dezembro! Mas, como assim? Já? O que resta agora é fechar tudo, concluir o que é possível, porque não tem mais jeito &#8211; o ano “já” está acabando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-verdade-a-sensacao-que-se-tem-e-a-de-que-esta-acabando-nao-apenas-um-ano-mas-o-tempo" style="font-size:17px">Na verdade, a sensação que se tem é a de que está acabando não apenas um ano, mas o tempo.</h2>



<p>Os dias se foram e os planos que pareciam tão elásticos, não esticam mais. Tudo que planejamos e não cumprimos vai-se embora junto com este tal tempo. Verdade? Nem tanto. Porque não sentimos a força deste “passar do tempo” quando a mudança é de fevereiro para março, ou de setembro para outubro, uma vez que são apenas meses, assim como dezembro e janeiro?</p>



<p>Esta sensação existe porque temos uma organização psíquica interna que imprime um ritmo para o acontecimento e a cadência das coisas, muitas vezes, ou posso arriscar dizer quase sempre, independente do controle e dos nossos planos e projetos. A instancia psíquica que precisa de organização e controle é o <strong>ego</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-administrar-essa-passagem-do-tempo-e-uma-funcao-egoica" style="font-size:17px">Administrar essa passagem do tempo, é uma função egóica.</h2>



<p>Neste sentido, o ego funciona como um condutor seletivo, que acompanha este tempo linear, e rítmico, que contamos e que tentamos conter. O que esquecemos, na maior parte das vezes, é que além deste tempo do calendário, há um tempo muito maior, muito além do que nosso ego pode alcançar, e que por não ser possível controlar, nos causa angústias e receios.</p>



<p>O nosso calendário é uma fração deste tempo maior para que, psicologicamente, possamos lidar com esta divindade tão grandiosa. Então, quando o ano acaba e nosso tempo também, nos damos conta de que, assim como o tempo fracionado e organizado, somos também finitos. Este mistério inspira artistas, como músicos e poetas nas suas criações. Em sua belíssima canção&nbsp;<em><strong>Oração ao Tempo</strong></em>, Caetano Veloso o reverencia e busca negociar com ele a sua passagem e seus impactos na vida:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>És um senhor tão bonito<br>Quanto a cara do meu filho /[&#8230;]<br>Vou te fazer um pedido / [&#8230;]<br>Compositor de destinos<br>Tambor de todos os ritmos, / [&#8230;]<br>Entro num acordo contigo / [&#8230;]<br>E quando eu tiver saído<br>Para fora do teu círculo / [&#8230;]<br>Não serei, nem terás sido/ [&#8230;]<br>Ainda assim, acredito<br>Ser possível reunirmo-nos / [&#8230;]<br>Num outro nível de vínculo / [&#8230;] <a id="_ftnref1" href="#_ftn1"><sup>[1]</sup></a></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-discorre-sobre-o-aspecto-abstrato-e-substancial-do-tempo-em-sua-obra-sincronicidade-falando-do-tempo-como-o-equivalente-ao-nada" style="font-size:17px">Jung discorre sobre o aspecto abstrato e substancial do tempo em sua obra <em>Sincronicidade, </em>falando do tempo como o equivalente ao nada:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Em si, o espaço e o tempo consistem em <em>nada</em>. São conceitos hipostasiados, nascidos da atividade discriminadora da consciência e formam as coordenadas indispensáveis para a descrição do comportamento dos corpos em movimento. São, portanto, de origem essencialmente psíquica. </p><cite>JUNG, 1991b, §840 grifos do autor</cite></blockquote></figure>



<p>Jung continua e traz relações deste tema com o <strong>Tao</strong> (conceito central da filosofia chinesa), interpretado assertivamente por R. Wilhelm como<em> sentido</em>. Lao-Tsé, compreende o Tao como o nada – aquilo que precede a origem dos céus e da terra. “O “nada” é, evidentemente, o “sentido” ou a “finalidade”, e chama-se nada justamente porque em si ele não aparece no mundo dos sentidos, mas é apenas o seu organizador. (JUNG, 1991b, § 910)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-tempo-arquetipico"><strong>O tempo arquetípico</strong></h2>



<p>Em sua obra <em>Mistérios do Tempo</em>, von Franz realiza uma análise detalhada sobre aspectos relacionados ao tempo. Inicialmente ela faz uma pesquisa sobre como o tempo é compreendido nas sociedades e civilizações antigas, o que pauta o entendimento sobre este fenômeno. Uma das visões a que ela se refere na obra, é a seguinte:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Em sua origem, <strong>Eon</strong> era referência ao fluido vital dos seres vivos e, por conseguinte, a sua expectativa de vida e o destino que lhes estava reservado. Este fluido continuava existindo depois da morte em forma de serpente. Tratava-se de uma &#8220;substância generativa&#8221;, como também o era a água da terra e, sobretudo, o Oceano-Cronos, criador e destruidor de tudo. O filósofo Ferécides apregoou que a substância básica do universo era o tempo (cronos), a partir do qual se produziam o fogo, o ar e a água. Mesmo assim, Oceano era uma espécie de primigênia alma do mundo. </p><cite>von Franz, 1997, p. 5</cite></blockquote></figure>



<p>A autora continua discorrendo sobre várias imagens associadas ao tempo, a partir de culturas e crenças diversas. O importante aqui é compreender que, como um fenômeno arquetípico, o tempo é cósmico em sua essência, assim como é também, sempre associado ao aspecto divino.</p>



<p>Esse tempo arquetípico em sua grandeza não nos possibilita, assim como qualquer outra divindade, conhecê-lo, ou tocá-lo em sua magnitude. É necessário que por ele se tenha respeito e cuidado. von Franz nos lembra o seguinte:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Conforme sabemos, o helenístico Eon também era Cronos, a divindade que devora seus filhos, o deus supremo que foi suplantado por Zeus. Esta figura do tempo como devorador sobreviveu inclusive na era cristã, na imagem simbólica d pai-tempo que reúne os atributos de Cronos-Saturno e da morte. Durante os séculos XVI e XVII<strong>, </strong>observou-se um deleite pelas representações macabras do aspecto destrutivo do tempo. </p><cite><a>von Franz, 1997, p. 16</a></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-tempo-na-vida-e-a-vida-no-tempo"><strong>O tempo na vida e a vida no tempo</strong></h2>



<p>Vivemos todos sobre a égide do tempo. É sabido que não seremos eternos no plano de vida humano / egóico, no qual vivemos o dia a dia. Mas a eternidade, como modo de existência real, e porque não dizer carnal, é uma utopia amplamente buscado pelo homem.</p>



<p>Não que nos enganemos com o fato de que nossas vidas se findam, mas, de alguma forma há um desejo de permanecermos eternos. É possível assim que possamos nos eternizar por meio de nossas contribuições.</p>



<p>Artistas, políticos, teóricos, profissionais renomados em suas áreas de atuação, são alguns exemplos de pessoas que uma forma ou outra estão presentes em tempos além de sua passagem terrena. São imortalizados em suas obras e legados. Mas, ao viver nossa vida mundana e rotineira, com quais aspectos de tempo estamos lidando? A princípio, podemos pensar em três aspectos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-1-o-tempo-fisico">1. <strong>O tempo físico, </strong></h2>



<ol class="wp-block-list">
<li></li>
</ol>



<p>Este refere-se ao tempo cronológico, dividido e medido em unidades como: horas, meses, anos. Este tempo é objetivo e pode ser mais bem observado por meio dos fenômenos da física e da cosmologia. Em seu aspecto arquetípico o tempo físico se relaciona à visão linear, judaico-cristã, de um Deus que proverá a passagem do tempo, que possui um plano cósmico, mesmo antes da criação. Na antiguidade esta visão incluía aspectos cíclicos da divindade, como os sete dias da criação do universo (von Franz, 1997). von Franz cita aqui uma visão importante para esta concepção arquetípica ao trazer o modelo da providência divina, dividido em três períodos e criado pelo abade Da Fiore (sec. XII): &nbsp;</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>O período do Antigo Testamento, o tempo do Pai em que imperam a lei e sua interpretação literal; o primeiro milênio cristão, o tempo do Filho, no qual predominam a submissão à Igreja e à sabedoria e, por fim, a atual era do Espírito Santo, na qual os homens espirituais viverão na pobreza, mas em completa liberdade, seguindo a inspiração do Espírito Santo. </p><cite>von Franz, 1997, p. 16</cite></blockquote></figure>



<p>Neste tempo físico, surge então com a ciência, a contagem matemática do tempo, onde cientistas como Newton, Darwin, Einstein, criaram teorias que matematicamente explicam de modo linear o tempo e trazem contribuições para um entendimento de uma ordem única e não reversa, explicando inclusive o envelhecimento humano como um evento da linearidade do tempo. &nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-2-o-tempo-psicologico">2. <strong>O tempo psicológico</strong>,</h2>



<p>De modo mais simplório, poderíamos compreender este tempo como aquela forma de perceber o passar do tempo, ou a influência do tempo em nossas experiências pessoais. Desta forma temos alguns bordões que nos conta como nos relacionamos com o tempo &#8211; &nbsp;“o tempo cura tudo”, “o tempo sabe”, “com o tempo isso se resolve”.</p>



<p>Estas relações feitas com este poder “sábio ou mágico” atribuídos ao tempo conversa com a forma que percebemos o tempo e seus efeitos em nossa vida. Podemos perceber o tempo como um fenômeno o que passa com lentidão nos em situações que não são de nosso agrado, ou com velocidade mais acelerada em situação mais significativas ou prazerosas. Estas maneiras de perceber o tempo estão associadas à nossas emoções.</p>



<p>Na visão analítica, conceitua-se um ponto determinado para a compreensão do tempo psicológico – a atuação dos complexos e arquétipos. Neste sentido, há uma subjetividade que deve ser considerada em relação a como cada um vivencia o espaço / tempo, que pode ser influenciada pela atuação de complexos, que possuem os arquétipos em sua base. Quanto a isso, <strong>Jung</strong> nos fala:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>[&#8230;] no sentido de que o espaço e o tempo só são constantes em um dado sistema quando medidos independentemente dos estados psíquicos. [&#8230;] quando observamos um acontecimento sem as restrições experimentais, o observador pode facilmente ser influenciado por um estado emocional que altera o espaço e o tempo no sentido de uma contração. </p><cite>(JUNG, 1991b, § 856)</cite></blockquote></figure>



<p>Há diferenças, por exemplo, como citado por von Franz (1997) na forma como intuitivos percebem a passagem do tempo ao observarem as horas no relógio, e de como as pessoas do tipo sensação são mais apregoadas aos acontecimentos do agora e, portanto, ao tempo medido e contado.</p>



<p>Neste aspecto subjetivo, tratamos de ritmos. Há ritmos biológicos, que funcionam num determinado espaço/temporal conforme a ação dos afetos, impulsionados pelos complexos autônomos. Estes complexos podem facilmente perturbar a relação do indivíduo com o tempo psíquico e fisiológico, a partir dos aspectos que foram assim afetados pela constelação do complexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-3-o-tempo-social">3. <strong>O tempo social</strong>,</h2>



<p>Em nossas vidas, outro fator que de alguma forma influencia nossa relação com o tempo é o chamado tempo social. Ele está pautado nas necessidades e convenções coletivas. De algum modo determina aspectos importantes da vida social, como regras para estudos, trabalho, lazer.</p>



<p>Cada cultura e sociedade lida de modo diferente com estes pontos, que organizam o modo de convivência. Quando pensamos no fator tempo, na contemporaneidade, não podemos desconsiderar o movimento para o qual a tecnologia nos direciona.</p>



<p>O advento tecnológico, faz com que nossa percepção se alterne. Com a globalização e estamos sempre conectados, o que pode levar a uma distorção de aspectos do tempo tanto físico como psicológico, interferindo nos ritmos pessoais e sociais. Sem dúvidas, aspectos como facilidade de contato e abrangência de informação facilita diversos aspectos da vida, mas a forma irracional e mesmo polarizada e imediatista com que utilizamos estas facilidades são por demais nocivas.</p>



<p><strong>Byung-Chul Han</strong>, em sua obra, <em><strong>Sociedade do cansaço</strong></em>, aponta as mudanças sociais do século XXI, onde passamos a atuar em uma sociedade do desempenho e não mais da disciplina e controle. Somos empreendedores de nós mesmos, como comenta o autor. Com todo aparato tecnológico, que esta sociedade possui, ele chama a atenção para alguns pontos como, pessoas mais individualistas e egoístas, o que se dá pelo final da alteridade, pois não mais se inclui o outro com compaixão e cumplicidade. Ele chama isto do <strong>fim da alteridade</strong>. Há um excesso de positividade e uma consequência muito negativa. Conforme sua afirmação:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados.</p><cite> HAN, 2015 p. 25</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-autor-comenta-sobre-o-adoecimento-social-ao-qual-estamos-fadados-nesta-configuracao-social-ao-qual-chama-de-infartos-psiquicos-p-27-gerados-por-esta-pressao-do-desempenho-e-pelo-excesso-de-positividade" style="font-size:16px">O autor comenta sobre o adoecimento social ao qual estamos fadados nesta configuração social, ao qual chama de “<em>infartos psíquicos</em>” (p.27), gerados por esta pressão do desempenho e pelo excesso de positividade.</h2>



<p>Nesta condição, entramos em um modo de funcionamento ao qual Han (2015) denomina de multitarefa, onde a atenção apesar de ampla é rasa, o que ele compara com o animal selvagem não sendo, pois, uma evolução, mas sim um atraso em nosso processo evolutivo. Segundo Han, falta ao ser humano atualmente pausas para o tempo contemplativo. Diz Han:</p>



<p>Hoje em dia, as coisas ligadas ao tempo envelhecem muito mais rápido do que antes. Elas decaem rapidamente naquilo que é passado e fogem à atenção. O presente se reduz à ponta da atualidade. Assim, o mundo perde algo de sua duração. A causa do encolhimento do presente não é, como se assume equivocadamente, a aceleração. Antes, o tempo, como uma avalanche, lançasse adiante, porque ele não tem mais uma parada. Aqueles pontos do presente entre os quais não existiria nenhuma força gravitacional e nenhuma tensão, pois são meramente aditivos, desencadeiam a ruptura do tempo, o que conduz ao aceleramento sem direção e sem sentido. (HAN, 2013, p. 28)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-tempo-da-alma-ciclos-e-finitude"><strong>O tempo da alma: ciclos e finitude</strong></h2>



<p>Diante do exposto, nesta sociedade fatigada, com uma enxurrada de dados e de informações, em sua maioria desnecessárias e superficiais, onde fica a alma? Como pensar e se associar e este tempo mais amplo, profundo e restaurador, a partir do qual fomos criados? É preciso lembrar que a vida corre, dentro de um tempo que se desenrola, seja qual for nossa percepção a cerca dele.</p>



<p>Este movimento bruto e pouco acolhedor que vivenciamos na atualidade, faz com que o tempo se torne nosso inimigo e nosso algoz, assim como era Cronos com seus filhos. Mas, se pudermos retomar um pouco do processo de tomada de consciência de si-mesmo, tão falado por Jung em seus escritos sobre desenvolvimento de consciência e da própria individuação, poderemos observar que o tempo é o espaço onde realizamos o propósito de nossas vidas juntamente com aqueles que nos cercam, de modo integrado com as solicitações do nosso si-mesmo.</p>



<p>O tempo é este deus que tudo muda, que tudo realiza, à revelia do que gostamos queremos ou pretendemos olhar com gentileza e de forma genuína para isto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossa-alma-nao-e-nutrida-por-planos-e-projetos-e-resultados-isso-nutre-o-ego" style="font-size:17px">Nossa alma não é nutrida por planos e projetos e resultados. Isso nutre o ego.</h2>



<p>O que alimenta a alma são coisas mais simples, que com esta vida corrida e exaurida deixamos de ver – o nascer do sol, o canto de pássaros, o sorriso de nossos filhos, abraços, beijos e palavras de afeto. O que toca a alma é mais simples do que podemos pensar. O ego quer coisa grande por que equivocadamente criamos uma imagem de que o grande é o sofisticado, mas não é. O grande é o que faz diferença no momento que o sofisticado, o superficial e o objetificante não tem mais sentido.</p>



<p>Verena Kast nos lembra de Kairós, o deus irmão de Zeus, logo, filho de Cronos, que é deus do bom tempo, da oportunidade, e do <em>carpe diem</em>. Ela nos fala sobre este momento de Kairós como “<em>[&#8230;] <strong>um momento de profunda alegria, talvez seja um momento no qual nos sentimos unidos com tudo que existe no mundo: um momento de intensidade, do envolvimento completo com a vida, talvez um momento de presença plena</strong></em>.” (KAST, 2016, p. 100)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fazer-as-pazes-com-o-tempo-e-aceitar-que-as-coisas-acabam" style="font-size:17px">Fazer as pazes com o tempo é aceitar que as coisas acabam.</h2>



<p>Quando não concluímos nossos planos, projetos e promessas de ano novo e chegamos ao final do ano, sentimo-nos culpados. Por quê? A quem devemos estas tarefas, metas e explicações? Com isso não quero dizer que não é importante ter algum direcionamento, ter um plano, mas entendo que estes não podem ser maiores, ou mais importantes do que a própria vida. Podem ser ousados, desafiadores sim, mas é necessário e urgente buscar a compreensão do que de fato nos cabe, o que é nosso, nestes planos e projetos. <strong>O quanto de projeção de sombras coletivas e mesmo individuais estão habitando estes planos e projetos?</strong></p>



<p>A vida é certamente bem maior do que uma planilha de Excel, e se não tomarmos cuidado, nós nos tornamos reféns de sequestradores que nem sabe que existimos (deuses da internet, os tais influenciadores, as capas de revistas, o resultado financeiro etc.).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-antes-de-pensar-no-tempo-da-vida-seria-mais-oportuno-pensar-a-vida-no-tempo" style="font-size:17px">Antes de pensar <strong>no tempo da vida</strong>, seria mais oportuno pensar <strong>a vida no tempo</strong>.</h2>



<p>A natureza nos ensina que as coisas têm seus ciclos definidos. A vida por exemplo de uma planta, uma flor, ela não está preocupada em fazer outra coisa, a não ser florescer, e estar o tempo presente no espaço tempo que lhe cabe ofertando, cor, perfume, leveza. Como humanos somos munidos de uma psique complexa, que quer realizar-se e tornar-se uma, mas paradoxalmente, temos dificuldades de aceitar sua finitude como parte do processo. <strong>Jung</strong>, no livro <em>A natureza da psique</em> tem uma fala muito linda e profunda sobre isso, conforme segue:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>A curva psicológica da vida, entretanto, recusa-se a se conformar com estas leis da natureza. A discordância às vezes começa já antes, na subida. Biologicamente, o projétil sobe, mas psicologicamente retarda.<br><br>Ficamos parados, por trás de nossos anos, agarrados à nossa infância, como se não pudéssemos arrancar-nos do chão. Paramos os ponteiros do relógio, e imaginamos que o tempo se deteve.<br><br>Se alcançamos finalmente o cume, mesmo com algum atraso, psicologicamente sentamo-nos aí para descansar, e embora nos sintamos deslizar montanha abaixo, agarramo-nos, ainda que somente com olhares nostálgicos, ao pico que outrora alcançamos; o medo que antigamente nos paralisava diante da vida, agora nos paralisa diante da morte.<br><br>E embora admitamos que foi o medo da vida que retardou nossa subida, contudo, exigimos maior direito ainda de nos determos no cume que acabamos de galgar, justamente por causa desse atraso.<br><br>Embora se torne evidente que a vida se afirmou, apesar de todas as nossas resistências (agora profundamente lamentadas), não levamos este fato em conta e tentamos deter o curso da vida. Com isto, nossa psicologia perde a sua base natural.<br><br>Nossa consciência paira suspensa no ar, enquanto, embaixo, a parábola da vida desce cada vez mais rapidamente. </p><cite>(JUNG, 1991a, §799)</cite></blockquote></figure>



<p>Por fim, o tempo é este fenômeno complexo e multifacetado que nos acompanha, aliás que nos convida para a jornada da vida, que nos apresenta oportunidades de realização nessa jornada, e que sim, também nos conduz para a saída quando já não mais precisamos estar por aqui. Que possamos compreender a nós e a seus desígnios para seguir em paz e em harmonia com o que quer o tempo possa representar para cada um de nós, sempre e a cada novo ciclo!</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Um recorte analítico sobre o tempo&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/ubfa-Z-lY10?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:16px"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gilmaraalves/"><strong>Gilmara Marques Fadim Alves</strong> &#8211; <strong>Membro Analista</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:16px"><strong>Maria Cristina Guarnieri</strong> &#8211; <strong>Analista ditada IJEP</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p style="font-size:14px">HAN, Byung-Chul. <strong>Favor fechar os olhos. Em busca de um outro tempo</strong>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p style="font-size:14px">HAN, Byung-Chul. <strong>A sociedade do cansaço</strong>. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p style="font-size:14px">JUNG, Carl Gustav. <strong>A natureza da Psique</strong>. O. C. 8/2, 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1991a.</p>



<p style="font-size:14px">________________. <strong>Sincronicidade</strong>. O. C. 8/3, 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1991b.</p>



<p style="font-size:14px">KAST, Verena. <strong>A alma precisa de tempo</strong>. Ed. digital. Petrópolis: Vozes, 2016. &nbsp;</p>



<p style="font-size:14px">VON FRANZ, Marie Louise. <strong>Mistérios do tempo</strong>. Portugal. Edições Del Prado, 1997.</p>



<p style="font-size:17px"></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> https://www.letras.mus.br/caetano-veloso/44760</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Algumas palavras sobre o sofrimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/algumas-palavras-sobre-o-sofrimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 06 Jun 2024 13:22:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[bem]]></category>
		<category><![CDATA[dor]]></category>
		<category><![CDATA[Mal]]></category>
		<category><![CDATA[Sofrimento]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9128</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem o objetivo de trazer à reflexão uma visão do sofrimento à luz da psicologia analítica. Muito Jung falou a esse respeito, por toda a sua obra, quando discorre sobre o bem e o mal e sobre as unilateralidades que vivemos, quando trata dos opostos. Este artigo é mais provocativo do que profundo, pois este tema tem muito a ser discutido para que possa ser compreendido cada vez mais e melhor pelos leitores, estudantes e profissionais da psicologia analítica, bem como da psicologia em geral. Tema extenso, denso, profundo e muito atual, que permeia todas as esferas da vida humana e todas as camadas da nossa sociedade. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>Tudo é dor, e toda dor,</em><br><em>Vem do desejo de não sentirmos dor.</em></p><cite>Renato Russo</cite></blockquote></figure>



<p>O que significa a palavra <strong>sofrimento</strong>? Conforme a etimologia da palavra, vale destacar o que foi encontrado em pesquisa para este artigo:</p>



<p>“<strong>Sofrimento</strong> é uma palavra formada dentro da língua portuguesa e registada desde o século XVI. [&#8230;] <strong>Sofrer</strong>, palavra registada desde o século XIII, provém de <em>&#8216;sufférere</em>&#8216;, forma evoluída (ou paralela) do latim clássico &#8216;<em>suferre</em>&#8216;, que significava:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>1 – Suportar; sofrer; resistir;</li>



<li>2 – Incorrer num castigo, suportar um castigo, ser condenado a;</li>



<li>3 – Se <em>sufferre</em> – manter-se.”<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a></li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-logo-compreendemos-que-quem-sofre-esta-designado-a-passar-por-algo-suportar-e-resistir-manter-se" style="font-size:17px">Logo, compreendemos que, quem sofre está designado a passar por algo, suportar e resistir, manter-se.</h2>



<p>Quem sofre “de alguma coisa” ou “por alguma coisa”, se submete de algum modo à imposição de um processo. No mundo dos materiais, por exemplo, para que se produza um objeto qualquer, a matéria prima “sofre” um processo de transformação, de mutação para se chegar a um resultado. É claro que conosco, seres humanos, há uma diferença, tanto no que concerne ao processo, quando no que diz respeito ao resultado final, mas para chegarmos por exemplo à vida adulta, como pessoas atuantes em sociedade, com desígnios e trabalhos os mais diversos. </p>



<p>Sofremos também um processo de crescimento, de desenvolvimento que nos leva a uma série de transformações e de mudanças, tanto internas quanto externas, nas nossas relações, em nosso corpo em nossos valores. Não podemos escolher não passar por isso. É natural, se tentamos não passar por este processo, sofremos ainda mais, pois estamos sendo contrários a uma lei da vida. Mas isso todo mundo já sabe, não é?</p>



<p>Mas o que tudo isso tem a ver com a psicologia analítica e como este sofrimento humano é compreendido neste contexto? A visão do sofrimento na psicologia analítica é um termo que pode suscitar diversos debates e conversas. Trata-se de algo muito complexo, que não pretendo esgotar neste artigo. A proposta aqui é reflexiva, para que futuras discussões e maiores aprofundamentos possam acontecer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-que-sofremos"><strong>Por que sofremos?</strong></h2>



<p>Ao pensarmos em nossa cultura judaica cristã, encontramos nas histórias bíblicas que influenciam o nosso pensar ocidental, um conjunto de mitos e referências, como heranças arquetípicas que de algum modo, nos colocam desde nosso nascimento em uma posição de devedores. No livro do Gênesis, Adão e Eva, ao incorrerem no pecado original, deixaram para a humanidade o sofrimento e a vergonha, como castigos pelo erro cometido de querer “ser Deus”.</p>



<p>O pecado original é a base cristã no ocidente, a partir da qual somos levados a confrontar uma questão que perpassa toda teoria junguiana, o bem e o mal, a dualidade do poder de Deus sobre os homens e a origem do sofrimento psíquico.</p>



<p>O mal existe em nós como a sombra de uma culpa, como já dito, proveniente do pecado original e depois, pela dívida gerada na compaixão do sacrifício e morte de Cristo – filho de Deus, feito homem &#8211; que morreu para salvar toda a humanidade. Já não bastava Adão e Eva!</p>



<p>Este elemento dual que gera paradoxos, está presente nas narrativas religiosas, mitos e contos, sendo essa uma batalha à qual nosso sistema psíquico está submetido. Este sofrimento pode se manifestar de diversas formas, como doença física, dor emocional, perda, ou desafios difíceis. Como uma experiência humana universal, logo, arquetípica, pode afetar o indivíduo e o meio que o cerca.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-homem-sempre-buscou-formas-diversas-de-encarar-e-de-suportar-o-sofrimento" style="font-size:19px">O homem sempre buscou formas diversas de encarar e de suportar o sofrimento.</h2>



<p>Não podemos esquecer que atualmente há uma ode a situações que leve os seres humanos à alegria constante, por meio de uma ditadura da felicidade. Tudo que possa remeter o ser humano à dor, sofrimento e tristeza precisa ser banido, como se isso não fosse algo legítimo ou importante. Claro que não é agradável sentir-se triste, deprimido, inadequado, mas é inevitável. A busca de compreensão destes sentimentos são a base para que se possa compreender e suportar o sofrimento ao qual se está exposto. Encontrar significado nas adversidades pode trazer determinação e coragem para se passar pelo processo de sofrimento de uma maneira mais digna e, porque não dizer, natural. Segundo Jung (2013a):</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lamentavelmente-e-verdade-que-nosso-mundo-e-vida-consistem-em-opostos-inexoraveis-dia-e-noite-bem-estar-e-sofrimento-nascimento-e-morte-bem-e-mal" style="font-size:18px">Lamentavelmente é verdade que nosso mundo e vida consistem em opostos inexoráveis: dia e noite, bem-estar e sofrimento, nascimento e morte, bem e mal.</h2>



<p>E sequer temos certeza se um compensa o outro: se o bem compensa o mal, se a alegria compensa a dor. A vida e o mundo são um campo de batalha, sempre o foram e sempre o serão. E se assim não fosse, a existência logo teria um fim. Um estado de perfeito equilíbrio não existe em lugar nenhum. (JUNG, 2013a. §564)</p>



<p>De qualquer forma, o sofrimento aponta que existe algo em nossa alma que está em conflito, em oposição. A dificuldade de enxergar o que está no lado oposto à dinâmica da consciência dispara uma série de consequências como: projeção do conteúdo sombrio em pessoas ou grupos, adoecimento físico, sintomas emocionais como depressão, angústia e ansiedade. É triste ver como este comportamento unilateral está tão dominante na nossa sociedade que na educação de nossos jovens a possibilidade de simbolização se perde a cada dia.</p>



<p>As iniciativas de quebras de regras e de busca de uma identidade, viraram uma série de comportamentos de risco, sem uma compreensão de que este comportamento pode fazer parte de um importante ritual de passagem da vida adolescente para a adulta, o que sem dúvidas, traz dor e sofrimento – mas com sentido. Ou então esse jovem se isola e vive uma vida somente nas telas, o que traz consequências desastrosas.</p>



<p>Nossos jovens estão expostos a uma mídia eletrônica viciante e entorpecente. Vinculados a imagens de relacionamentos falsos, validados por “<em>likes</em>”, ou invalidados por “cancelamentos” &#8211; o que já foi causa de mortes por suicídio inclusive.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estas-jovens-almas-nao-sao-orientadas-e-educadas-para-enfrentar-as-diversidades" style="font-size:18px">Estas jovens almas não são orientadas e educadas para enfrentar as diversidades.</h2>



<p>O mundo <em>fake</em> de <em>youtubers</em> e <em>influencers</em>, exerce sobre eles uma capacidade de influência que substitui por vezes a autoridade positiva dos pais, assim como o não contato e nem confronto com o mundo real. Quando compreendemos o sofrimento, como perdas, frustrações, e decepções como singular na vida de cada um e com sentido de evolução, passamos compreender que isto faz parte do humano e ajuda a amadurecer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nbsp-o-cenario-portanto-e-o-seguinte">&nbsp;O cenário, portanto, é o seguinte:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li>Crianças que não podem ser repreendidas, pois há uma insegurança dos pais sobre qual é o limite da bronca. Têm medo de traumatizar e geram com isso possíveis jovens e adultos inseguros e incapazes de lidar com suas próprias dores e frustrações;</li>



<li>Jovens que fantasiam a partir de mídias sociais um mundo perfeito e absolutamente feliz. Rejeição, preconceito (de várias naturezas) e frustrações são resolvidos com <em>likes</em>, cancelamentos ou infelizmente, com catástrofes;</li>



<li>Adultos que, de algum modo, são os cuidares parentais destes dois grupos anteriores, buscando sucesso a qualquer preço e quando não alcançam sentem o fracasso como uma culpa gigante, pois seguem na contramão da imposição do padrão social vigente. Tem algo de muito errado com ele.</li>
</ol>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sofremos-pelo-bem-ou-sofremos-pelo-mal"><strong>Sofremos pelo bem ou sofremos pelo mal?</strong></h2>



<p>Este é o cenário em que temos um mundo absolutamente dividido. Com uma moral frágil e pautada em valores destorcidos gerando comportamentos intolerantes e de afastamento. O mal está no outro, que não é, pensa ou atua como eu. A salvação desta situação é projetada em líderes absolutamente autoritários (políticos, religiosos, empresariais) e que estão longe de serem uma referência positiva em termos de posicionamentos equilibrados e de alteridade.&nbsp; Cria-se um círculo vicioso e perigoso para a nossa consciência coletiva, o que gera em contrapartida uma sombra coletiva imensa e perigosa e destrutiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-questao-da-polarizacao-entre-o-bem-e-o-mal-foi-extensamente-discutida-na-obra-de-jung" style="font-size:17px">A questão da polarização entre o bem e o mal foi extensamente discutida na obra de Jung.</h2>



<p>Em <strong>Resposta a Jó</strong>, Jung (1990) diz que a dualidade ou o paradoxo de Deus vem da premissa de que bem e mal se contrapõe igualmente. Nesta obra, ele contesta a ideia de <em>privatio boni</em><a id="_ftnref2" href="#_ftn2">[2]</a> entendendo que o bem e o mal estão presentes na imagem que ele concebe de Deus.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>Segundo o dogma, nem o “bem” nem o “mal” têm sua origem no homem, pois “o Maligno” existiu antes do homem, como um dos filhos de Deus</strong>. (JUNG, 1990, p. 115 &#8211; posfácio).</p></blockquote></figure>



<p>Jung continua dizendo que, sendo o Cristo religioso monoteísta, faz sentido que os opostos estejam então presentes em Deus. E daí vem a reflexão: se somos feitos à imagem e semelhança de Deus, poque negamos o mal? Por que negamos a capacidade de gerar sofrimento para nós e para outros? Seria Cristo a possibilidade de redenção de Javé? <strong>Há muito a se pensar</strong>&#8230;</p>



<p>Fica difícil em mundo tão literal e polarizado, com o rigor de estados urgentes de felicidade, pensar que o sofrimento existe como parte do entendimento do sentido da vida e como oportunidade para crescimento e consequentemente para o processo de individuação. Pode-se entender como passar pelo sofrimento opera na pisque a partir da visão de uma jornada heroica. Nenhum herói, seja nos contos ou nos mitos, dos mais antigos aos mais modernos, atinge o seu objetivo, sem passar por uma boa dose de percalços e desafios, que o fazem sofrer. Não estou falando aqui de uma imagem pasteurizada de herói, mas sim do sentido arquetípico deste termo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-2016">Segundo Jung (2016):</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>O mais nobre de todos os símbolos da libido é a figura humana do demônio ou do herói. A simbólica abandona então o campo do neutro, próprio à imagem astral e meteórica, e assume forma humana: a imagem do ser que passa da tristeza para a alegria e da alegria para a tristeza, o ser que ora resplandece no zênite, como o Sol, ora imerge em noite profunda e desta mesma noite renasce para novo esplendor. Assim como o Sol, [&#8230;] também o homem, segundo leis imutáveis, segue seu caminho e desaparece na noite ao fim da jornada, para renascer de manhã em seus filhos, reiniciando nova trajetória. (JUNG, 2016, § 251)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conversando-com-as-imagens-do-sofrimento"><strong>Conversando com as imagens do sofrimento</strong></h2>



<p>Em nossos sonhos &#8211; que segundo Jung são um caminho para o inconsciente &#8211; várias imagens são desordenadamente apresentadas ao sonhador, com narrativas caóticas e com pouco sentido à luz da consciência, mas com um valor simbólico absolutamente necessário para que compreenda o sentido e as mensagens cifradas contidas nestas narrativas. Esta é a função compensatória dos sonhos, conforme diz Jung (2016): “<strong>O que acontece na fantasia portanto é compensação para o estado ou a disposição do consciente. Esta é a regra nos sonhos</strong>.” (JUNG, 2016, § 469).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-portanto-podemos-compreender-os-sonhos-como-oportunidades-para-uma-conversa-entre-os-universos-consciente-e-inconsciente" style="font-size:18px">Portanto, podemos compreender os sonhos como oportunidades para uma conversa entre os universos consciente e inconsciente.</h2>



<p>Desse modo, escutar e buscar o entendimento e a integração destas imagens são um caminho para se compreender o sentido da vida, bem como dos nossos sofrimentos. São as <strong>imagens simbólicas</strong> que, carregadas de sentido podem fazer esta ponte com a vida consciente do individuo e trazer sentido e compreensão para os males que o acometem. O processo terapêutico é um espaço de escuta e de contato com estes medos, receios, fantasmas e fantasias de forma segura. Para Jung o espaço psicoterapêutico acontece em um movimento dialético entre duas pisques – a do paciente e a do psicoterapeuta. Neste espaço, o objetivo da psicoterapia é identificar os complexos e suas consequências, pois, por sua qualidade autônoma, eles não se submetem à vontade e controle do ego e da consciência. Segundo <strong>Jung</strong> (2013b):</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O fato de ter complexos, ao invés, não implica uma neurose, pois normalmente são os complexos que deflagram o acontecimento psíquico, e seu estado dolorido não é sinal de distúrbio patológico. Sofrer não é doença, mas o polo oposto, normal da felicidade. Um complexo só se torna patológico, quando achamos que não o temos. (JUNG, 2013b, § 179).</p></blockquote></figure>



<p>Tomar consciência desta dualidade que é arquetípica na formação do ser humano, é ponto de partida para conseguir lidar com o significado e com as consequências do sofrimento. Há muitos recursos terapêuticos possíveis para esta conversa acontecer de modo que, o indivíduo possa se aproximar e se aprofundar nas suas imagens. Jung considerava de alto valor o desenho, a pintura a modelagem no processo terapêutico como formas de ampliação dos símbolos e das imagens associadas aos sonhos e às questões trazidas por seus clientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sofrimento-tem-cura"><strong>Sofrimento tem cura?</strong></h2>



<p>É muito difícil responder esta questão, à luz da psicologia analítica, uma vez que entendemos que a vida acontece por etapas e por ciclos. Não há condição estanque na vida. A energia está sempre em fluxo e condições adversas, acerca das quais nossa racionalidade e consciência não tem o menor controle, podem acontecer a qualquer momento. Compreendo que saber o significado de sua existência ajuda sem dúvida a suportar estas novas situações, de um lugar mais sereno, mas cura, é algo muito grande para uma questão humana e arquetípica.</p>



<p>No processo analítico, a compreensão do sofrimento do indivíduo permite encontrar maneiras eficazes de compreendê-lo e superá-lo. O sofrimento pode ser uma oportunidade, um convite para uma reorientação desta energia retida na dor, para a transformação em uma nova atitude, mais consciente e por que não dizer, criativa. Ao enfrentar desafios, podemos descobrir novas perspectivas, e desenvolver uma maior compreensão de nós mesmos e do mundo ao nosso redor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-pode-esquecer-que-a-jornada-e-unica-para-cada-individuo">Não se pode esquecer que a jornada é única para cada indivíduo.</h2>



<p>A dialética que acontece no processo analítico, citada por Jung e já comentada anteriormente, é uma conversa que gera transformação e movimento nas duas psiques presentes no encontro. Ele ressalta que a personalidade do terapeuta, a forma como este cuida do seu próprio processo de desenvolvimento e de autoconhecimento, é de importância fundamental para o processo terapêutico.</p>



<p>Na obra <strong>A Prática da Psicoterapia</strong> (2013b), ao discutir sobre métodos e atitude profissional, ele ressalta &#8211; aliás em toda obra &#8211; a importância do fator humano neste processo. Técnicas, teorias e visões de mundo são auxiliares e não o objetivo do processo. &nbsp;</p>



<p>O grande fator de cura, na psicoterapia é a personalidade do médico – esta não é dada a priori; conquista-se com muito esforço, mas não é um esquema doutrinário. As teorias são inevitáveis, mas não passam de meios auxiliares. Assim que se transformam em dogmas, isso significa que uma dúvida interna está sendo abafada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-necessario-um-grande-numero-de-pontos-de-vista-teoricos-para-produzir-ainda-que-aproximadamente-uma-imagem-da-multiplicidade-da-alma" style="font-size:18px">É necessário um grande número de pontos de vista teóricos para produzir, ainda que aproximadamente, uma imagem da multiplicidade da alma.</h2>



<p>Por isso é que se comete um grande erro quando se acusa a psicoterapia de não ser capaz de unificar suas próprias teorias. (JUNG, 2013b, § 198)</p>



<p>Para concluir, como visão de cura para o sofrimento, entende-se que na prática da psicoterapia junguiana o caminho está na busca de ser quem de fato se é, o mais livre que se possa estar de projeções, de manifestações inconscientes sem sentido com sua vida, aceitando que determinadas questões às vezes não serão totalmente suprimidas ou retiradas.</p>



<p>Teremos sempre complexos, sombras, paradoxos, mas estes não necessariamente precisam ser inimigos ou geradores de grandes sofrimentos para nós e para os demais. Jung nos diz que a felicidade está em nossa capacidade de suportar com firmeza e paciência filosóficas o sofrimento. Enquanto isso não acontece a realização da totalidade e da plenitude da vida estará comprometida. É disso que trata, entre tantas coisas mais, o processo de individuação. </p>



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<iframe title="Artigo Novo: Algumas palavras sobre o sofrimento" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/d7xJWXk_XwY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gilmaraalves/"><strong>Gilmara Marques Fadim Alves – Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p><strong>JUNG, C. G.</strong> – <em>A prática da Psicoterapia</em>. Ed. Digital. Vol. XVI/1. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>__________ &#8211; <em>A vida Simbólica</em>. 7ª ed. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>__________ &#8211; <em>Resposta a Jó</em>. 3ª ed. Vol. XI/4. Petrópolis: Vozes, 1990.</p>



<p>__________ &#8211; <em>Símbolos da Transformação</em>. Ed. Digital. Vol. V. Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/sofrimento&#8211;felicidade/15793 [consultado em 01-05-2024]</p>



<p><a id="_ftn2" href="#_ftnref2">[2]</a> Doutrina cristã, onde o mal é entendido como ausência do bem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<title>Um Diálogo da Alma: considerações sobre a relação Ego &#8211; Self</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/relacao-ego-self/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Dec 2023 10:41:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8452</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como proposta trazer uma reflexão sobre como se dá e qual é a importância da comunicação entre duas partes centrais da nossa estrutura psíquica: o Ego – complexo central da consciência, e o Self – o arquétipo central que representa a totalidade psíquica. Abordando como este eixo se estrutura e como ele nos acompanha durante nossa vida, em nosso caminho de desenvolvimento.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>O presente artigo propõe uma reflexão sobre como se dá e qual é a importância da comunicação entre duas partes centrais da nossa estrutura psíquica: o <strong>Ego</strong> (complexo central da <strong>consciência</strong></em>)<em> e o <strong>Self</strong> </em> <em>(arquétipo central</em>, <em>que representa a <strong>totalidade</strong> psíquica).</em> <em>Abordando como este eixo se estrutura e como ele nos acompanha durante nossa vida, em nosso caminho de desenvolvimento.</em></p>



<p>A relação entre estas duas instâncias é primordial para que a nossa vida psíquica esteja funcionando de forma harmônica. Porém, nem sempre é isto que acontece. Intercorrências externas e internas podem ser fonte de desequilíbrio constante em nosso caminho de desenvolvimento.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-default" style="font-size:17px"><blockquote><p>[&#8230;] Pensar em Deus é desobedecer a Deus,<br>Porque Deus quis que o não conhecêssemos,<br>Por isso se nos não mostrou&#8230;<br><br>Sejamos simples e calmos,<br>Como os regatos e as árvores,<br>E Deus amar-nos-á fazendo de nós<br>Belos como as árvores e os regatos,<br>E dar-nos-á verdor na sua primavera,<br>E um rio aonde ir ter quando acabemos!&#8230;</p><cite>Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos, Poemas de Alberto Caeiro.</cite></blockquote></figure>



<p>Vamos, em primeiro lugar, lembrar o que é cada um destes conceitos dentro da psicologia analítica e qual a sua função. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ego-centro-da-consciencia">Ego &#8211; centro da consciência</h2>



<p>O <strong>Ego</strong>, como <strong>centro</strong> da <strong>consciência</strong>, tem como uma de suas funções discriminar&nbsp; e filtrar os conteúdos que deverão vir à luz da <strong>consciência</strong>. Quando alguma lembrança e acontecimento, ou mesmo algum conteúdo presente no inconsciente pessoal ou coletivo, ameaça vir à tona, se o <strong>Ego</strong> percebe que este conteúdo será prejudicial à <strong>consciência</strong>, podendo causar nesta um efeito negativo, este conteúdo não se relacionará com o <strong>Ego</strong> e continuará no inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-por-esta-forma-autonoma-de-atuacao-do-ego-que-jung-o-define-como-um-complexo" style="font-size:21px">É por esta forma autônoma de atuação do <strong>Ego</strong>, que Jung o define como um complexo.</h2>



<p>Várias ideias associam-se a ele, e como um complexo que é, ele atua como uma personalidade independente. Esta característica, que dá ao <strong>Ego</strong> um aspecto pessoal, relaciona-se também com o fato de que, ele pertence sempre à um indivíduo, desenvolvendo-se em cada pessoa de modo particular, conforme as vivências e as possibilidades de cada um. É o <strong>Ego</strong> que nos faz diferentes uns dos outros, e que dá coesão e identidade à nossa personalidade.</p>



<p>O <strong>Ego</strong> também se relaciona com as capacidades de: memória, vontade, discriminação e escolha. Isto pode ser compreendido no que se refere às funções psíquicas (pensamento, sentimento, sensação e intuição). Quando criança, o indivíduo experimentará todas elas, mas a função que tornar-se-á superior, é aquela que melhor adaptar o indivíduo ao meio, fazendo com que ele seja aceito socialmente, sendo que, na outra polaridade ficará a função inferior, aquela que foi experimentada pelo <strong>Ego</strong> e rejeitada por ele, em função de uma não aceitação desta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tensao-de-opostos-experimentada-na-vivencia-e-na-diferenciacao-das-funcoes-psiquicas-e-tambem-experimentada-e-vivida-pelo-ego-em-outros-aspectos-da-vida-do-individuo" style="font-size:21px">A tensão de opostos experimentada na vivência e na diferenciação das funções psíquicas, é também experimentada e vivida pelo <strong>Ego</strong> em outros aspectos da vida do indivíduo.</h2>



<p>Esta tensão é vista no que se refere à sua atitude frente às manifestações de outras instâncias psíquicas como a anima, animus e a sombra. Por ocasião destas funções do <strong>Ego</strong>, existe uma tendência geral de comparar a <strong>consciência</strong> à psique total. Porém esta parte da nossa estrutura psíquica se forma a partir do inconsciente, que é uma outra parte, sendo ambas pertencentes a uma mesma <strong>totalidade</strong>. Esta <strong>totalidade</strong> que de alguma forma ordena todas as outras estruturas, é o <strong>Self</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-self-o-centro-a-totalidade">Self &#8211; o centro, a totalidade</h2>



<p>O Self é o <strong>centro</strong>, o responsável pela sustentação, estabilidade e união de todo funcionamento do sistema psíquico; e ao mesmo tempo que é <strong>centro</strong>, é também o todo &#8211;&nbsp; contém tudo o que existe na psique, regulando toda esta estrutura. O <strong>Self</strong>, portanto, como <strong>totalidade</strong> que abarca tudo o que existe no mundo psíquico, contém a persona, sombra, anima, animus e os demais arquétipos e o <strong>Ego</strong>. E sendo o <strong>Ego</strong> um elemento que se relaciona diretamente com a <strong>consciência</strong>, este nasce e se desenvolve a partir do inconsciente, e consequentemente da <strong>totalidade</strong> psíquica – do <strong>Self</strong>.</p>



<p><strong>Jung</strong> identifica o arquétipo central da psique com a <em>imago dei</em>, ou melhor – a imagem de Deus, em função da dimensão e da representatividade deste arquétipo no mundo psíquico. Daí, podemos dizer que dentro desta concepção, o <strong>Ego</strong> está para o <strong>Self</strong>, assim como o homem está para Deus.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isto-nos-leva-a-pensar-que-enquanto-o-homem-foi-feito-a-imagem-e-semelhanca-de-deus-o-ego-estrutura-se-a-imagem-e-semelhanca-do-self" style="font-size:19px">Isto nos leva à pensar que, enquanto o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, o <strong>Ego</strong> estrutura-se à imagem e semelhança do <strong>Self</strong>.</h2>



<p>Isto dá ao <strong>Ego</strong> uma qualidade de subordinação frente ao arquétipo central e organizador da personalidade. Esta diferenciação entre um e outro, acontece no decorrer da vida do indivíduo, desde a infância, até enquanto o sujeito viver e segundo <strong>Edinger</strong>, a relação entre o <strong>Ego</strong> e o <strong>Self</strong>, acontece em processos cíclicos, do nascimento à morte. O autor pontua ainda que <em>“&#8230; o desenvolvimento psicológico se caracteriza pela existência de dois processos simultâneos: de um lado, a progressiva separação entre o ego e o Si-mesmo; e outro o aparecimento cada vez mais claro, na <strong>consciência</strong> do <strong>eixo</strong> ego – Si-mesmo”</em> (EDINGER, 1989, p. 26)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-inflacao-alienacao-e-consciencia"><strong>Inflação, Alienação</strong> e Consciência</h2>



<p><strong>Erich Neumann</strong>, em sua obra “<strong>A Criança</strong>”, nos fala do mundo redondo onde o bebê vive, a partir da vida intrauterina até quando nasce, estendendo este mundo ao corpo materno. Neste período, o Self da criança é vivenciado por meio da experiência no corpo materno. Em nenhum outro momento da vida, o sentimento do indivíduo como um ser total, será sentido de forma tão intensa como neste. A criança percebe-se como uma divindade – ela é total e indiferenciada, como o próprio <strong>Self</strong>. Porém, para que o indivíduo se desenvolva plenamente é necessário que este estado de indiferenciação inicial seja modificado. A <strong>consciência</strong>, que não existe até então, precisa surgir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-o-inicio-da-vida-a-crianca-possui-nbsp-todo-o-material-arquetipico-herdado-o-inconsciente-coletivo-assim-como-o-inconsciente-cultural-e-familiar" style="font-size:18px">Desde o início da vida a criança possui&nbsp;todo o material arquetípico herdado – o inconsciente coletivo. Assim como o inconsciente cultural e familiar.</h2>



<p>Neste momento de sua vida, não existe ainda uma formação egóica, que a diferencie enquanto um indivíduo. Este processo se inicia somente quando a <strong>criança </strong>começa a se perceber e daí, a pronunciar a palavra “eu”. Esta distinção implica o início da possibilidade de relacionamento, conforme a seguinte afirmação de <strong>Jung</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Na criança a <strong>consciência</strong> emerge das profundezas da vida psíquica inconsciente, formando no começo como que ilhas isoladas, as quais aos poucos se reúnem em um ‘continente’ para formar uma <strong>consciência</strong> coerente (&#8230;). <strong>Consciência</strong>, segundo nossa concepção, é sempre <strong>consciência</strong> do ‘eu’. Para tornar-me consciente de mim mesmo, devo poder distinguir-me dos outros. Apenas onde existe esta distinção, pode aparecer um relacionamento (JUNG, 1991, § 326).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-vez-que-o-ego-da-crianca-esta-identificado-com-a-totalidade-do-self-e-desta-totalidade-que-o-ego-tera-que-emergir-e-diferenciar-se-para-assim-formar-a-identidade-do-individuo" style="font-size:21px">Uma vez que o <strong>Ego</strong> da criança está identificado com a <strong>totalidade</strong> do <strong>Self</strong>, é desta <strong>totalidade</strong> que o <strong>Ego</strong> terá que emergir e diferenciar-se, para assim formar a identidade do indivíduo.</h2>



<p>Isto é um dado básico – para que exista uma relação, <strong>é necessário que haja primeiro uma separação e uma consequente diferenciação</strong>. O <strong>Ego</strong>, portanto, é o recurso que o <strong>Self</strong> utiliza para manifestar-se e expressar seus desejos. Tanto o Ego como o <strong>Self</strong>, precisam um do outro e é desta diferenciação que o <strong>eixo</strong> irá formar-se, tornando possível uma comunicação entre eles. Como já comentado, segundo EDINGER (1989), o <strong>Ego</strong> desenvolve-se, por meio de um processo cíclico, que se caracteriza por uma constante união e separação entre uma parte e outra, em um movimento espiral, que marca o ritmo da nossa existência. Estas contínuas idas e vindas, uniões e separações, entre o <strong>Ego</strong> e o <strong>Self</strong>, formam o <strong>eixo</strong> <strong>Ego</strong>&#8211;<strong>Self</strong>, através do qual a vida irá fluir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-durante-este-primeiro-estagio-de-indiferenciacao-existe-uma-identificacao-completa-do-ego-com-o-self-sendo-esta-fase-considerada-por-edinger-1989" style="font-size:20px">Durante este primeiro estágio de indiferenciação, existe uma identificação completa do <strong>Ego</strong> com o <strong>Self</strong>, sendo esta fase considerada por EDINGER (1989).</h2>



<p>Como um estado de perfeição paradisíaca, tanto que ele compara esta etapa do desenvolvimento do <strong>Ego</strong> com a representação arquetípica do <strong>mito de Adão e Eva</strong>, onde Eva, instigada pela serpente para que comesse do fruto da árvore do bem e do mal, o fez, cometendo o pecado original e indo contra as normas estabelecidas pelo Criador. Este mito representa a <strong>criação da consciência</strong>, onde, ao experimentar o fruto proibido, eles experimentaram também o sentimento de divisão em sua personalidade. Perceberam-se nus, e ficaram com vergonha deste estado, ou seja, perderam o estado único e original paradisíaco, sendo expulsos do paraíso, assim que cometeram tal imprudência contra as leis divinas.</p>



<p>A serpente disse à Eva que ao experimentar do fruto proibido ela ficaria tão sábia quanto Deus. Este desejo levou Eva a seguir a cometer o assim chamado pecado original: igualar-se ao criador, saber tudo sobre o bem e o mal, são sentimentos sedutores que retratam uma superioridade e ao poder. Este sentimento, em que este poder divino é desejado e vivido, caracteriza o primeiro estágio na diferenciação entre <strong>Ego</strong> e <strong>Self</strong>. É um estado chamado por Jung de <strong>inflação</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-estado-de-inflacao-o-ego-assume-um-papel-grandioso-como-se-fosse-o-proprio-self">No estado de <strong>inflação</strong>, o <strong>Ego</strong> assume um papel grandioso, como se fosse o próprio <strong>Self</strong>.</h2>



<p>Separar-se, é muito doloroso, por isso, toda a força que o <strong>Ego</strong> tinha enquanto identificado com o <strong>Self</strong>, imagina que seja sua própria força e começa então a agir de forma onipotente, tendendo a fazer com que o indivíduo ultrapasse os limites. Com isto o Self é constantemente desafiado pelo <strong>Ego</strong>. Este movimento é importante e necessário para que o Self possa se colocar; pode-se dizer que neste momento se inicia uma relação. Afinal, após comerem o fruto proibido, ou melhor, após desafiarem Deus, Adão e Eva foram expulsos do paraíso. Ou seja, nunca mais desfrutarão de um estado paradisíaco de indiferenciação. Com esta atitude de Sua cria, Deus percebeu que eles ainda não o conheciam como entidade realmente superior, e inatingível em Sua <strong>totalidade</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-inflacao-psiquica-e-muito-comum-que-o-ego-se-identifique-com-a-persona" style="font-size:20px"><strong>Na inflação psíquica é muito comum que o Ego se identifique com a persona</strong>.</h2>



<p>Na inflação psíquica é muito comum que o Ego se identifique com a persona, pois, a persona é o arquétipo que vai se relacionar com o <strong>Ego</strong>, dando ao indivíduo um papel social, fazendo com que ele seja bem aceito, e que consiga ser notado e percebido no meio. Sempre que falamos em desenvolvimento de <strong>Ego</strong>, temos que pensar que este acontece em relação ao meio, portanto, é por isso que a persona, como o arquétipo mais próximo da <strong>consciência</strong>, tem esta responsabilidade. Segundo <strong>JUNG</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva. (JUNG, 1991, § 245)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-inflacao-pode-se-manifestar-com-varias-caras">A <strong>inflação</strong> pode se manifestar com várias caras:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li>quando este sente-se identificado com a divindade no seu aspecto de poder, enquanto uma autoridade reinante e absoluta, dando ao indivíduo um sentimento de onipotência (lideres onipotentes);</li>



<li>a identificação com o mártir, onde ele é bom demais, humilde demais, sofre demais, tem culpa demais esta é uma forma de <strong>inflação</strong> negativa, onde o indivíduo passa dos limites, exacerbando na sua fala e atitude, sentimentos que lembram um complexo de inferioridade, porém o <strong>Ego</strong> está inflado com a identificação exagerada neste papel, ocorre que o indivíduo vê-se nesta situação como alguém da mesma forma importante;</li>



<li>a partir de uma experiência onde há um reconhecimento de sua capacidade, o indivíduo passa a se comportar de forma arrogante, não ouvindo pessoas e nem sinais sobre sua soberba e a persona atua como se aquele fosse o papel e missão central de sua existência.</li>
</ol>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-inflacao-egoica-na-dinamica-psiquica-faz-com-que-o-ego-alem-de-ficar-cada-vez-mais-distanciado-dos-outros-arquetipos-forme-uma-sombra-tao-potente-quanto-sua-persona-podendo-ser-facilmente-dominado-pela-anima-ou-animus-e-por-complexos-autonomos" style="font-size:17px"><strong>Esta inflação egóica, na dinâmica psíquica, faz com que o Ego, além de ficar cada vez mais distanciado dos outros arquétipos, forme uma sombra tão potente quanto sua persona</strong>. Podendo ser facilmente dominado pela anima ou animus e por complexos autônomos.</h2>



<p><strong>EDINGER </strong>(1989) porém, nos lembra que o pecado original &#8211; quebrar as regras, ultrapassar limites &#8211; é necessário e faz parte do nosso processo de desenvolvimento, uma vez que sem cometê-lo, não se teria acesso aos conteúdos inconscientes, e assim, ficaríamos condenados a viver permanentemente em um estado que não proporcionaria uma vivência concreta e relacional.</p>



<p>Em sua biografia “<strong>Memórias, Sonhos, Reflexões</strong>”, <strong>Jung </strong>nos fala o seguinte: “Se o Criador fosse consciente de si mesmo, não teria necessidade das criaturas conscientes” (JUNG, 2015, p. 334). Ou seja, o Criador se reconhece através da sua obra. Daí vemos que não só o <strong>Ego</strong>, mas o Self também precisa deste relacionamento para ter possibilidade de, por meio do <strong>Ego</strong>, se fazer conhecido e reconhecer-se, manifestando-se através dele.</p>



<p>O <strong>Ego</strong> quando identificado com o Self (em estado de <strong>inflação</strong>) pode ir muito além do seu limite e, consequentemente, sofrer uma rejeição. <strong>Afinal, todo pecado é punido com um castigo</strong>. Nesta condição, o <strong>Ego</strong> é facilmente tomado por complexos autônomos. E diante de alguma vivência traumática que venha ter com algum conteúdo inconsciente poderá recuar frente à uma ameaça.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alienacao">A alienação</h2>



<p>Deste modo, o <strong>Ego</strong> deixa de estar ligado ao <strong>centro</strong> superior, entrando em um estado que EDINGER (1989) chamou de <strong>alienação</strong>. <strong>A alienação psíquica surge com a separação</strong>, pois, a separação é uma condição necessária para que se venha estabelecer um <strong>eixo</strong> diante da diferenciação crescente, e por vezes drástica, entre as duas instâncias. É como se a possibilidade de comunicação entre <strong>Ego</strong> e <strong>Self</strong> fosse interrompida e o <strong>Ego</strong> sente como não mais fazendo parte deste todo.&nbsp;</p>



<p>O <strong>Ego</strong> neste estágio, perde toda sua força. A parte separou-se do todo, ou melhor, pode-se dizer que numa perspectiva do <strong>Ego</strong>, o todo abandonou a parte. Existe, neste estado, um aspecto positivo, que é o fato de que, o <strong>Ego</strong> alienado perde sua identificação com o Self e sua consequente <strong>inflação</strong>, mas no seu aspecto negativo, o <strong>eixo</strong> danifica-se, causando um vazio e uma falta de sentido. É nesta condição que ocorrem grandes questionamentos. Muitas pessoas, por conta disto, podem desenvolver diversas somatizações chegando até a um quadro de depressão por uma consequente regressão da libido ao inconsciente, provavelmente em busca deste sentido que ficou perdido, não se sabe bem onde.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alienacao-com-este-vazio-que-e-despertado-no-ego-vem-mostrar-ao-individuo-a-necessidade-da-consciencia-e-portanto-da-ligacao-com-o-self" style="font-size:20px">A <strong>alienação</strong>, com este vazio que é despertado no <strong>Ego</strong>, vem mostrar ao indivíduo a necessidade da <strong>consciência</strong> e, portanto, da ligação com o Self.</h2>



<p>Esta necessidade é comunicada ao <strong>Ego</strong> por meio de sonhos, doenças e sintomas, erros e desencontros nas decisões da vida.&nbsp; Se o indivíduo conseguir perceber estes sinais ele poderá então procurar uma reconexão com o seu <strong>centro</strong>. Estará, assim, através do confronto com estes aspectos sombrios e doentios, voltando a se aproximar do Self, mas sem a pretensão de ser este. Porém, estabelecendo com ele um <strong>eixo</strong> sadio, para que uma comunicação possa ser mantida.</p>



<p>Podemos dizer que este homem, caso ouça e atenda este chamado, estará, através deste confronto, retirando as barreiras que a <strong>alienação</strong> criou e liberando o caminho para continuar seguindo em busca do seu desenvolvimento psíquico. A <strong>alienação</strong> seria como que uma “punição para os pecados” que, vistos sob uma ótica psicológica, são a própria <strong>inflação</strong>. Ao cometer o pecado, o indivíduo desafia a lei sagrada, aproximando-se dos deuses e causando neles o que Edinger chama de <strong>inveja</strong>, sendo por isso castigados por tal façanha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-henderson-em-o-homem-e-seus-simbolos-faz-a-seguinte-colocacao-acerca-desta-ideia" style="font-size:17px"><strong>HENDERSON </strong>em “O Homem e seus Símbolos”, faz a seguinte colocação acerca desta ideia:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“Por quanto tempo podem os seres humanos alcançar sucesso sem caírem vítimas de seu próprio orgulho ou, em termos mitológicos, da inveja dos deuses?”</p><cite>(HENDERSON, 1997, p. 113)</cite></blockquote></figure>



<p>Isto porque o orgulho era algo extremamente temido pelos gregos. Eles sabiam que caso cometessem o que era por eles chamado de <em>hybris </em>(orgulho cego) tal atrevimento seria cruelmente punido pelos deuses que não admitiam a possibilidade de os mortais tentarem se igualar a eles.</p>



<p>A <strong>alienação</strong>, pode ser tida como a separação daquela <strong>centelha</strong> divina que possuímos. E a busca dessa centelha será a busca de <strong>sentido para a vida</strong>. Seu encontro trará uma tranquilização para a alma humana. Portanto é necessário, por parte do <strong>Ego</strong>, que este sentimento de <strong>derrota</strong> seja aceito como uma etapa importante no desenvolvimento da <strong>consciência</strong>, para que assim possa ocorrer transformação. Conforme <strong>Edinger</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“<em>A <strong>alienação</strong> não é um beco sem saída. Podemos alimentar a esperança de que ela leve à uma <strong>consciência</strong> maior com relação às alturas e profundidades da vida</em>” (EDINGER, 1989, p. 79).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-individuacao"><strong>Individuação</strong></h2>



<p>Quando falamos do caminho de tomada de <strong>consciência</strong> e de sua amplificação, estamos falando do caminho da <strong>individuação</strong>. Neste caminho, passa-se pela <strong>inflação</strong> e pela <strong>alienação</strong>. Então podemos entender que a <strong>individuação</strong> se caracteriza por uma possibilidade de comunicação entre o <strong>Ego</strong> e o Self, porém sem interferências negativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-individuacao-o-ego-passa-a-nao-ser-mais-o-centro-ele-se-subordina-ao-self-porem-isto-nao-significa-dependencia-e-nem-mais-uma-derrota-para-o-ego" style="font-size:19px"><strong>Na individuação o Ego passa a não ser mais o centro. Ele se subordina ao Self, porém isto não significa dependência e nem mais uma derrota para o Ego</strong>. </h2>



<p>Neste ponto do desenvolvimento, o <strong>Ego</strong> assume seu papel no funcionamento da estrutura psíquica e o aceita naturalmente, pois, sua função é grandiosa e importante. Contudo, não é maior e nem mais importante do que o próprio <strong>centro</strong>. Conforme nos diz Jung a respeito da individuação: <em>“&#8230;nos tornamos o nosso próprio Si-mesmo”</em> (JUNG, 1991b, § 266). Não mais nos identificando com ele, mas sendo e pertencendo a ele. Sentindo isto através de um <strong>eixo</strong> equilibrado que o <strong>Ego</strong> desenvolveu para poder chegar até esta condição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-edinger-assim-como-jung-tambem-nos-fala-da-projecao-religiosa-como-uma-forma-possivel-e-ate-certo-ponto-saudavel-para-manter-o-eixo" style="font-size:21px"><strong>Edinger</strong>, assim como Jung, também nos fala da projeção religiosa como uma forma possível e, até certo ponto, saudável para manter o <strong>eixo</strong>.</h2>



<p>Entretanto, dentro de uma cultura ocidental, a religião não vê o <strong>Self</strong> (<em>Imago Dei) </em>como parte integrante do indivíduo, mas como algo fora dele. O que dificulta o relacionamento e causa uma dependência desfavorável ao processo de <strong>individuação</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Não me dirijo também aos <em>beati possidentes</em> (felizes donos) da fé, mas às numerosas pessoas para as quais a luz se apagou, o mistério submergiu e Deus morreu. Para a maioria não há retorno possível e nem se sabe se o retorno seria o melhor. Para compreender as coisas religiosas acho que não há, no presente, outro caminho a não ser o da psicologia; daí o meu empenho de dissolver as formas de pensar historicamente petrificadas e transformá-las em concepções da experiência imediata. (JUNG, 1995, § 148)</p>
</blockquote>



<p>Vivemos hoje, creio em um panorama mundial, um estado em que se busca uma identificação divina cada vez maior (vide os avanços tecnológicos tendo em seu nome e mérito a destruição da natureza). <strong>Ao mesmo tempo, o mundo cai em uma alienação sem se aperceber disto, o que ocasiona no polo oposto tantas desavenças entre povos e pessoas.</strong></p>



<p>Talvez este estado tão grande de <strong>inflação</strong>, vivido hoje em dia, seja até mesmo uma forma de se evitar o contato com a <strong>alienação</strong> que, se não puder ser simbolizada para a busca de um sentido maior e restituição do <strong>eixo</strong> <strong>Ego</strong> &#8211; Self, pode até mesmo destruir o homem; esta já nos bate à porta. </p>



<p>São em situações e condições como estas que surgem os grandes<strong> heróis sociais</strong>. O <strong>herói</strong> é um modelo de construção do <strong>Ego</strong>, e como estamos distanciados do nosso <strong>centro</strong>, projetamos esta possibilidade de realização egóica/heroica em outras pessoas. Estas figuras são eleitas como os grandes salvadores da população &#8211; que se encontra neste estado desagregado &#8211; e recebem a <strong>projeção do nosso Self coletivo</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-agora-sera-que-estas-pessoas-suportam-tamanha-carga"><strong>Agora, será que estas pessoas suportam tamanha carga?</strong></h2>



<p>Qualquer ato de solidariedade humana hoje em dia, é visto não mais como algo possível e natural, pertencente a alma humana, mas a pessoa que adota tal atitude, frente ao coletivo, será provavelmente um salvador e receberá esta enorme carga projetiva, sendo vítima do Self coletivo. Algo que deveria ser visto como grandioso sim, porém, pertencente e possível a todos, torna-se à partir desta vivência social destorcida, destrutivo para aquele que o realiza.</p>



<p>A <strong>individuação</strong> não pressupõe uma pessoa individualista, mas ao contrário, muito engajada na coletividade, porém sem diluir-se nela, e sem deixar que esta dite o seu rumo. É através desta relação do indivíduo com o coletivo, que se pode perceber o quanto de equilíbrio existe em sua personalidade, e o quanto o indivíduo funciona de acordo com os desejos do seu Self. <strong>O indivíduo que se encontra no caminho da individuação, não possui necessidade de projetar sobre os outros, seus conteúdos sombrios, pois consegue reconhecer estes em si mesmo</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-individuacao-consiste-portanto-em-reconciliar-os-opostos" style="font-size:21px">A individuação consiste, portanto, em reconciliar os opostos. </h2>



<p>A individuação consiste, portanto, em reconciliar os opostos. De modo que estes opostos se complementem a partir da tensão criada neste conflito do consciente com o inconsciente. Este equilíbrio é desejado e idealizado, porém o caminho para se chegar até ele é bastante concreto, real e um exercício diário.</p>



<p>Nessa conversa de alma entre <strong>Ego</strong> e Self, que entendo como caminho da <strong>individuação</strong>, temos contatos com símbolos de transformação e de transcendência, através dos sonhos, visões, sintomas ou da própria experiência refletida, que nos mandam mensagens de unificação da personalidade, e que são enviados para a <strong>consciência</strong>, para serem por ela amplificados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-um-ego-sadio-e-flexivel-que-ira-cumprir-sua-funcao-lidando-adequadamente-com-as-possiveis-barreiras-no-intento-de-realizar-a-nossa-missao-de-uma-vida-com-sentido-realizando-assim-os-desejos-do-self" style="font-size:19px">É um <strong>Ego</strong> sadio e flexível que irá cumprir sua função. Lidando adequadamente com as possíveis barreiras, no intento de realizar a nossa missão de uma vida com sentido, realizando assim os desejos do Self.</h2>



<p>Estas fases de <strong>inflação</strong> e <strong>alienação</strong>, que sob um determinado ponto de vista podem fazer com que o <strong>Ego</strong> se enfraqueça e se desorganize, são processos necessários e importantes na construção da dialética do consciente com o inconsciente. Contudo, conforme <strong>Edinger </strong>nos fala, não pode haver estagnação e cristalização em nenhuma delas, para que o desenvolvimento e a consequente ampliação da <strong>consciência</strong> possam acontecer.</p>



<p>É imprescindível ressaltar aqui, que a separação entre Ego e Self, nunca é total, pois o eixo precisa continuar a existir; e não se dá de uma única vez, ela é progressiva e precisa ser constante e irá acontecer durante toda vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-encerrar-deixo-um-escrito-de-fernando-pessoa-que-nos-leva-de-forma-leve-e-poetica-a-uma-reflexao-sobre-este-eterno-fluxo-que-e-a-vida" style="font-size:19px">Para encerrar, deixo um escrito de <strong>Fernando Pessoa</strong> que nos leva de forma leve e poética a uma reflexão sobre este eterno fluxo que é a vida.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center" style="font-size:17px"><strong>Não sei quantas almas tenho</strong><br><br>Não sei quantas almas tenho.<br>Cada momento mudei.<br>Continuamente me estranho.<br>Nunca me vi nem achei.<br>De tanto ser, só tenho alma.<br>Quem tem alma não tem calma.<br>Quem vê é só o que vê,<br>Quem sente não é quem é,<br><br>Atento ao que sou e vejo,<br>Torno-me eles e não eu.<br>Cada meu sonho ou desejo<br>É do que nasce e não meu.<br>Sou minha própria paisagem;<br>Assisto à minha passagem,<br>Diverso, móbil e só,<br>Não sei sentir-me onde estou.<br><br>Por isso, alheio, vou lendo<br>Como páginas, meu ser.<br>O que segue não prevendo,<br>O que passou a esquecer.<br>Noto à margem do que li<br>O que julguei que senti.<br>Releio e digo: &#8220;Fui eu ?&#8221;<br>Deus sabe, porque o escreveu.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p>EDINGER, EDWARD F.. <em>Ego e Arqué</em><em>tipo. <strong>Individua</strong></em><strong><em>ção</em></strong><em> e Função Religiosa da Psique</em>. 1ª ed., São Paulo, Ed. Cultrix, 1989.</p>



<p>JUNG, C. G..&nbsp; <em>O Desenvolvimento da Personalidade</em>. 5ª ed., Petrópolis, Ed. Vozes, 1991a, Vol. XVII.</p>



<p>________. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 9ª ed., Petrópolis, Ed. Vozes, 1991b, Vol. VII/2.</p>



<p>________. (org.) <em>O Homem e seus Símbolos. </em>15ª impressão, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1997.</p>



<p>________. <em>Memórias, Sonhos, Reflexões.</em>, s/ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 2015.</p>



<p>________. Psicologia e Religião, Petrópolis, Ed. Vozes, 1.995, 5ª ed. Vol. XI/1.</p>



<p>NEUMANN, ERICH. <em>A Criança</em>. 1ª ed., São Paulo, Ed. Cultrix, 1991.</p>



<p>PESSOA, F. <em>Novas poesias inéditas</em>. 4ª ed. Lisboa. Ed. Ática, 1993.</p>



<p>PESSOA, F.  <em>O Guardador de Rebanhos, In Poemas de Alberto Caeiro.</em>  10ª ed. Lisboa. Ed. Ática. 1993.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: Um Diálogo da Alma: considerações sobre a relação Ego - Self" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/ZE4EJX9RqQY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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			</item>
		<item>
		<title>A síndrome do impostor e a sombra do sucesso</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-sindrome-do-impostor-e-a-sombra-do-sucesso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jun 2023 21:17:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexo]]></category>
		<category><![CDATA[sindrome do impostor]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7756</guid>

					<description><![CDATA[<p>O propósito deste artigo é provocar uma reflexão sobre um termo já estudado há algum tempo, mas que vem tomando mais espaço principalmente no mundo trabalho: A Síndrome do Impostor. Este fenômeno fala sobre as pessoas que apesar de atingirem reconhecimento, prestígio e sucesso se veem como impostoras, como uma fraude, não sentindo-se merecedoras de tamanho reconhecimento. Como a psicologia analítica pode contribuir para o entendimento deste sentimento? O quanto esta sensação de ser uma fraude, está relacionado com aspectos negados e, portanto, sombrios da personalidade destas pessoas? O quanto o nosso modelo atual de trabalho contribuiu para isto? Estas são provocações para ampliarmos a visão deste fenômeno sobre a ótica da psicologia de Carl Gustav Jung. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-sindrome-do-impostor-e-a-sombra-do-sucesso/">A síndrome do impostor e a sombra do sucesso</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O presente artigo propõe uma reflexão, à luz da psicologia analítica, acerca da Síndrome do Impostor e a sombra do sucesso.</p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><strong><em>POEMA</em></strong></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>A poesia está guardada nas palavras – é tudo que</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>eu sei.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Meu fado é </em><em>o de n</em><em>ão saber quase tudo.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Sobre o nada eu tenho profundidades.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Não tenho conexão com a realidade.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Poderoso para mim nã</em><em>o </em><em>é aquele que descobre ouro.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Para mim poderoso é aquele que descobre as</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>insignific</em><em>âncias (do mundo e as nossas).</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Fiquei emocionado e chorei.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Sou fraco para elogios.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Manuel de Barros</em><em></em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quem-nunca-se-sentiu-incompetente-incapaz-ou-nao-merecedor-de-um-reconhecimento-recebido">Quem nunca se sentiu incompetente, incapaz ou não merecedor de um reconhecimento recebido? </h2>



<p>Este tipo de sentimento tem se tornado bastante comum nos últimos tempos. O perceber-se como uma <strong>fraude</strong> é sentido em diversas fases e aspectos da vida: mulheres que trabalham fora e fazem a chamada jornada dupla, jovens estudantes, artistas, cientistas e pessoas reconhecidamente capazes por feitos grandiosos em suas áreas de atuação. Há um vasto campo de percepção deste <strong>fenômeno,</strong> e o intuito deste artigo é focar nos aspectos ligados ao mercado de <strong>trabalho</strong> e à <strong>carreira</strong> das pessoas que passam por esta situação.</p>



<p>O repórter Bruno Vaiano da revista Você S/A, na edição de maio/23, escreveu uma matéria sobre a <strong>Síndrome de Impostor</strong>, onde comenta que “o <strong>fenômeno</strong> consiste na sensação crônica, recorrente, de que você não fez por merecer o cargo que ocupa, o salário que ganha o diploma que tem ou outras conquistas.” (VAIANO, 2023, p. 38).</p>



<p>A chamada <strong>Síndrome de Impostor</strong> foi um termo criado em 1978 pelas psicólogas Pauline R. Clance e Suzane A. Imes, em uma pesquisa com 150 mulheres, intitulada “O <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong> em mulheres de grande <strong>sucesso</strong>: dinâmica e intervenção terapêutica”. Elas descrevem o quadro como “uma experiência interna de <strong>fraude</strong> intelectual, apesar das qualificações alcançadas, das honras acadêmicas e dos altos resultados em testes padronizados, do reconhecimento de elogios profissionais por parte de colegas e respeitadas autoridades&#8230; Elas não têm a sensação íntima do <strong>sucesso</strong> considerando-se impostoras” (MANN, 2021, p. 13). As autoras comentam que o <strong>sucesso</strong> alcançado, é atribuído há erros nos processos seletivos e por terem suas capacidades superestimadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-sindrome-do-i-mpostor"><strong>Sobre a Síndrome do </strong>I<strong>mpostor</strong></h2>



<p>O que se sabe sobre o tema? Apesar da pesquisa inicial datar de 1978, este tema vem se popularizando desde 2010, por meio das redes sociais, onde pessoas famosas, consideradas ícones em suas áreas,  passaram a compartilhar mais as suas vidas e rotinas e a relatar que sofrem desta percepção de que são uma <strong>fraude</strong>. Houve, a partir de 2013, uma crescente de publicações e estudos acadêmicos sobre o tema, mas nada ainda muito profundo e esclarecedor.</p>



<p>O que temos até o momento são associações com as gerações &#8211; pessoas nascidas entre 1980 e 1999, os <em>millenials. </em>Há também uma associação deste <strong>fenômeno</strong> com o crescente número de aumento de casos de depressão, stress e ansiedade gerados pelas cobranças do mundo do <strong>trabalho</strong> e pelo modelo atual de vida em nossa sociedade.</p>



<p>Segundo Clance e Imes, há uma incidência equivalente entre homens e mulheres. Contudo, na matéria publicada por Bruno Vaiano, ele comenta que estudos mais recentes apontando para uma prevalência maior entre mulheres do que homens, “e outros grupos que sofrem discriminação no mercado de <strong>trabalho</strong> e no mundo acadêmico, como minorias étnico-raciais.” (VAIANO, 2023, p. 33)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sindrome-ou-fenomeno">Síndrome ou Fenômeno?</h2>



<p>Há uma questão sobre o tema que é relevante ressaltar: Apesar de ter sido inicialmente denominado como “<strong>síndrome</strong>” este não se classifica como doença ou distúrbio mental. Por isso, as autoras do estudo preferiram chamá-lo de “<strong>fenômeno</strong>”, uma vez que &#8216;condição’ e ‘<strong>síndrome</strong>’ sugerem doença mental, ao passo que a experiência da <strong>impostura</strong> é na verdade muito mais pedestre do que isso, muito mais comum. Algo que, segundo Clance, ‘quase todo mundo enfrenta’ (MANN, 2021, p. 13).</p>



<p><strong>Vaiano</strong> concorda com esta posição e acrescenta que se você é de fato tratado como <strong>impostor</strong>, uma vez que condições sociais e econômicas favorecem este processo, isto não pode ser visto como uma doença individual, mas sim como um <strong>sintoma</strong> gerado por posição e valores sociais doentios.</p>



<p>O autor da matéria aponta ainda para o risco de distorções sobre o tema devido ao uso do termo de forma vulgar e fora do contexto, ocasionando a banalização do conceito e o distanciando do momento socioeconômico que estamos vivendo.</p>



<p><strong>Mann</strong> (2021) nos remete para fatores relacionados ao <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong>, tendo o núcleo familiar um destaque central neste processo, sendo este o lugar  onde a criança tem suas primeiras experiências de compensação e reconhecimento. Dentre as dinâmicas familiares citadas pela autora, temos a condição da criança prodígio – aquela que gera uma alta expectativa sobre seus pais e educadores, não podendo falhar nunca, de modo que em seus primeiros <strong>fracassos</strong> ou erros aparecem os sentimentos de <strong>impostura</strong>: ela não é tão boa assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-outra-dinamica-possivel-trata-de-um-contexto-em-que-ha-um-filho-que-se-destaca-mais-tornando-o-sucesso-inalcancavel-para-os-outros" style="font-size:20px">Uma outra dinâmica possível, trata de um contexto em que há um filho que se destaca mais, tornando o <strong>sucesso</strong> inalcançável para os outros.</h2>



<p>Neste caso, quando o filho menos prodigioso tem <strong>sucesso</strong>, ele acredita ser por algum infortúnio e não por mérito. Estes sentimentos vão se consolidando ao longo do crescimento, na escola, nos esportes, nos grupos de convívio e reproduzidos depois no mundo adulto, em seus futuros <strong>trabalhos</strong>.</p>



<p>Assim também se dá com as minorias, que por preconceito e discriminações das mais diversas, são menos favorecidas e não reconhecidas socialmente por razões como: deficiências, classe social, etnia, gênero. Em todos os casos, o <strong>sucesso</strong> não é compreendido como resultado de um talento e há um sentimento recorrente de ser uma <strong>farsa</strong>. Um comportamento comum presente nestas pessoas é a sabotagem: costumam diminuir o valor de seu alcance, ou diminuem a complexidade daquilo que fizeram. Desenvolvem atitudes como: medo de errar, não aceitam não saber tudo, não podem aceitar ajuda. Tudo isso de alguma forma pode fazer com que seu <strong>sucesso</strong> seja desmerecido.</p>



<p>Os meios sociais são fonte de grande sofrimento para estas pessoas. Pois trazem modelos e influências de pessoas de grande <strong>sucesso</strong>, que pela manobra das mídias não demonstram o quanto tiveram de dificuldades para chegar a determinadas posições. Como o <strong>impostor</strong> busca referências externas para justificar e sabotar seu <strong>sucesso</strong>, as comparações são inevitáveis. O resultado deste processo são pessoas sofrendo de medos difusos, ansiedade, stress e até mesmo depressão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreendendo-o-fenomeno-do-i-mpostor-a-luz-da-psicologia-analitica" style="font-size:22px"><strong>Compreendendo o Fenômeno do </strong>I<strong>mpostor à </strong>luz<strong> da psicologia analítica </strong></h2>



<p>Nos relatos sobre o <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong>, é comum que a pessoa se refira ao alcance daquele resultado, como se fosse um feito de “um outro nele”, &#8211; ou seja, alguém que ele não reconhece sendo ele próprio; ou mesmo um outro externo – a pessoa atribui o resultado a um mentor, ou um possível herói nas suas histórias – ‘o mérito desta conquista é de fulano’. Analisando estas questões sob a ótica da <strong>psicologia analítica</strong>, temos aqui a manifestação psíquica de componentes bastante estudados neste campo: a <strong>sombra</strong> e o mecanismo de <strong>projeção</strong>.</p>



<p><strong>A sombra aparece aqui como um contraponto da persona</strong>. Esta atua junto à consciência individual para que o indivíduo possa se adaptar, da maneira mais adequada que conseguir, ao seu meio social. No <strong>trabalho</strong>, os papéis a que somos chamados a realizar dá à nossa persona o tom necessário para que esta adaptação ocorra.</p>



<p>O ponto é que para que não haja uma rejeição, o ego quando usa de muita racionalidade e é capturado pelos apelos do mundo externo, adota uma postura rígida e afasta da consciência possíveis interferências à pseudo estabilidade que atingiu respondendo de maneira literal e racional às demandas do ambiente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-projecao-da-sombra">Projeção da sombra</h2>



<p>A <strong>sombra</strong> toma uma proporção equivalente à atitude egóica e se afasta da função consciente, podendo dominar o complexo do ego, e deixar o indivíduo em uma situação de grande fragilidade (apesar da aparente superioridade provocada pela atuação da persona e a inflação do ego) e estará formado um canal propicio para o surgimento dos sentimentos de <strong>impostura</strong>, como também para demais sintomas e doenças das mais variadas espécies.</p>



<p>O fato é que a <strong>sombra</strong> precisa se manifestar e, neste caso, a <strong>projeção</strong> é um recurso para que esta manifestação aconteça. A <strong>projeção</strong> é um mecanismo natural do nosso psiquismo, até que não tenhamos consciência dos nossos conteúdos inconscientes. A questão é quando este processo projetivo nos tira a oportunidade de ampliarmos nosso autoconhecimento, para reconhecer e integrar aspectos sombrios.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dai-ele-se-transforma-em-um-mecanismo-neurotico-whitmont-1999-nos-diz" style="font-size:18px">Daí, ele se transforma em um mecanismo neurótico, <strong>Whitmont</strong> (1999) nos diz:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Quando ocorre uma projeção de sombra, não somos capazes de diferenciar entre a realidade da outra pessoa e nossos próprios complexos. Não conseguimos distinguir entre fato e fantasia. Não conseguimos ver onde começamos e onde o outro termina. Não conseguimos ver o outro; nem a nós mesmos. </em></p>
<cite>(WHITMONT, 1999, p. 37)</cite></blockquote>



<p>É sabido que vivemos em uma sociedade onde o <strong>trabalho</strong> cobra cada vez mais resultados de alta performance e lidar com <strong>fracassos</strong> e frustrações torna-se bastante complicado. Questões como: realização pessoal, felicidade, pensamento positivo, são mandatórios e qualquer circunstância que retire a pessoa deste lugar idealizado, deve ser veementemente refutada. Ou seja, vivemos uma polarização, com um racionalismo contundente sobre como devemos viver a vida. Neste contexto, o homem então se distancia da sua natureza dual e, consequentemente, da possibilidade de viver uma relação sadia com suas manifestações inconscientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-a-natureza-da-psique-jung-traz-a-seguinte-fala" style="font-size:19px">Em A natureza da psique, <strong>Jung </strong>traz a seguinte fala:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>[&#8230;] Se o indivíduo estiver suficientemente preparado, a passagem para uma atividade profissional pode efetuar-se de maneira suave. Mas se ele se agarra a ilusões que colidem com a realidade, certamente surgirão problemas. Ninguém pode avançar na vida sem apoiar-se em determinados pressupostos.</em></p>



<p><em>Às vezes estes pressupostos são falsos, isto é, não se coadunam com as condições externas com as quais o indivíduo se depara. Muitas vezes, são expectativas exageradas, subestima das dificuldades externas, injustificado otimismo ou uma atitude negativista. Poderíamos mesmo organizar toda uma lista de falsos pressupostos que provocam os primeiros problemas conscientes.</em></p>
<cite>(JUNG, 2000, § 761)</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-dito-por-jung-nossos-pressupostos-sao-falsos" style="font-size:18px">Como dito por <strong>Jung</strong>, nossos pressupostos são falsos.</h2>



<p>São guiados hoje por um materialismo que nos afasta do nosso sentido de vida e do que James <strong>Hillman</strong> denominou de <em>daimon</em>, ou fruto do carvalho – que é o nosso vir a ser. Vivemos mecanicamente buscando respostas em um contexto externo confuso, raso, inconstante, incessantemente cansativo e sem sentido. Na fala de <strong>Hillman</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Vivemos em meio a uma multidão de invisíveis que nos governam: Valores Familiares, Autodesenvolvimento, Relações Humanas, Felicidade Pessoal, e ainda um conjunto de figuras míticas mais impiedosas chamadas Controle, Sucesso, Custo-benefício e (o invisível maior e mais presente) a Economia.</em></p>



<p><em>Estivéssemos nós na Florença do Renascimento, na Roma ou na Atenas da Antiguidade, nossos invisíveis dominantes seriam estátuas e altares, ou pelo menos pinturas, como os invisíveis florentinos, romanos e atenienses chamados Fortuna, Esperança, Amizade, Graça, Modéstia, Persuasão, Fama, Feiura, Esquecimento&#8230; Mas nossa tarefa aqui não é reconstituir todos os invisíveis, mas sim distingui-los, prestando atenção àquele que já foi chamado de seu daimon ou gênio, às vezes de sua alma ou sorte, e agora de seu fruto do carvalho. </em></p>
<cite>(HILLMAN, 1997, p. 107)</cite></blockquote>



<p>O citado autor complementa esta visão com a provocação de que a realidade psíquica faz parte deste universo invisível, mas que é ignorada. “<strong>Está em tudo, embora continuemos insistindo em dizer que é invisível</strong>” (HILLMAN, 1997, p. 109).</p>



<p>Nestas circunstâncias, seguimos criando e alimentando na <strong>sombra</strong> um monstro, pronto para apertar o botão vermelho a qualquer momento, o que na realidade psíquica poderá sim, nos destruir. Esta <strong>farsa</strong> sentida pelo <strong>impostor</strong> pode ser compreendida, portanto, como a falta de espaço e de legitimidade que a <strong>sombra</strong> possui de se integrar à função consciente como parte do processo de realização e também dos resultados e conquistas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-dinamica-unilateral-esquecemos-que-a-dualidade-faz-parte-da-natureza-humana-e-por-isso-a-tememos" style="font-size:20px">Na dinâmica unilateral esquecemos que a dualidade faz parte da natureza humana e, por isso, a tememos.</h2>



<p>Todo <strong>sucesso</strong> contém o <strong>fracasso</strong>. A aniquilação do <strong>fracasso</strong> como uma possibilidade, faz com que o ego se defenda, desenvolvendo uma série de sintomatologias e de comportamentos que já foram acima citados. Cada vez mais o processo de inflação egóica se estabelece e faz com que os nossos próprios processos inconscientes sejam estranhos a nós mesmos.</p>



<p>Daí a <strong>farsa,</strong> a sabotagem, a falta de segurança e de conhecimento de nossos próprios talentos, bem como a <strong>projeção</strong> de nossas capacidades em heróis externos para “culpar” por nossos resultados e realizações. Neste contexto, pode se estabelecer um paradoxo, onde <strong>trabalho</strong> e <strong>carreira</strong> correm o risco de torna-se polaridades, a <strong>sombra</strong> um do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-fazer-com-tudo-isso"><strong>O que fazer com tudo isso?</strong></h2>



<p>Pelo que vimos até aqui, um resultado individual, comprovado por feitos significativos e validado por profissionais de referência, são percebidos por seu idealizador como <strong>fraude</strong>, sorte, ou interferência externa. Algo que tem tudo para ser bom é visto e sentido com angustiante e negativo. Falando até certo ponto de modo simplista &#8211; pelo entendimento da <strong>psicologia anal</strong><strong>í</strong><strong>tica</strong> – é o resultado de uma <strong>projeção</strong> de <strong>sombra</strong>, por uma visão turva de si mesmo, que não considera erros, <strong>fracassos</strong> e frustrações como parte do processo de alcance de <strong>sucesso</strong>.</p>



<p>No caso, certamente há caminhos possíveis para que o indivíduo possa lidar com estes sentimentos de forma mais propositiva. Um dos passos importantes é reconhecer que persona, com sua função social não sintetiza quem somos. A identificação com a persona, assumindo-a como a própria individualidade, faz com que o ego deixe de lado outros aspectos importantes da personalidade total ocasionando assim, uma inflação do ego, sendo dado a este um valor superdimensionado. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-aponta-para-o-risco-desta-identificacao"><strong>Jung</strong> aponta para o risco desta identificação:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:16px"><em>O cargo que ocupo representa certamente minha atividade particular; mas é também um fator coletivo, historicamente condicionado pela cooperação de muitos e cuja dignidade depende da aprovação coletiva. Portanto, se identificar-me com meu cargo ou título, comportar-me-ei como se fosse o conjunto complexo de fatores sociais que tal cargo representa, ou como se eu não fosse apenas o detentor do cargo, mas também, simultaneamente, a aprovação da sociedade. Dessa forma me expando exageradamente, usurpando qualidades que não são minhas, mas estão fora de mim. &#8220;L&#8217;état, c&#8217;est moi&#8221;, é o lema de tais pessoas. </em></p>
<cite>(JUNG, 2016, § 227)</cite></blockquote>



<p>Diante desta fala, entende-se que não há espaço para ser alguém falível e surge o seguinte paradoxo: por meio da inflação do ego a unilateralidade vivenciada pelo indivíduo fragiliza a possibilidade de acesso aos conteúdos sombrios, que estão no centro do complexo afetivo.  Para lidar com as manifestações dos complexos é necessário que haja uma possibilidade de simbolizar, de entender o que esta manifestação está apresentando para a consciência que o ego não permite ver. </p>



<p>Em resumo, o ego quando se coloca em uma condição de unidade e superioridade numa tentativa de controle e domínio da situação ele infla e se fragiliza, deixando espaço para ser “derrotado” pela <strong>sombra</strong>, que esta mesma condição de inflação formou no inconsciente. O que parecia força vira fraqueza. “<strong>Sucesso</strong>” se transforma em “<strong>fracasso</strong>” – o <strong>impostor</strong> assume o comando.</p>



<p>Uma outra forma de olhar para o <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong> é pensar que esta figura do <strong>impostor</strong> pode estar na <strong>sombra,</strong> ocultando ou reprimindo um potencial e até mesmo o destino vocacional, que as pessoas teimam em buscar no ambiente externo, que é tão sedutor e que desequilibra a possibilidade de conversa entre as instâncias consciente e inconsciente. Desse modo, este sentimento de <strong>fraude</strong> pode estar dizendo muito mais do que sobre um simples resultado de um <strong>trabalho</strong> ou um reconhecimento que não parece legítimo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-vital-se-aproximar-desta-porcao-fraude-da-personalidade-e-entender-o-que-nao-e-genuino">É vital se aproximar desta porção <strong>fraude</strong> da personalidade e entender o que não é genuíno.</h2>



<p>Esta reflexão poderá gerar possíveis respostas para os males e reveses impostos pela contradição criada pelas polaridades: <strong>sombra</strong> / persona; <strong>trabalho</strong> (mundo externo de realizações por meio de obrigações e sanções) / <strong>carreira</strong>, (mundo interno de realizações por meio do atendimento da alma e do chamado). O espaço que esta polaridade cria, passa a ser um desafio, um teste de resistência para o indivíduo, que quanto mais se apega à realidade para tentar compreender e escapar da angústia que esta gera, mais cresce a <strong>sombra</strong> e o embate. <s></s></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-hillman-ouvir-esta-voz-interna-e-responder-de-forma-adequada-a-ela-fala-sobre-o-carater-do-individuo-nao-que-seja-uma-missao-simples-ou-facil-mas-e-sem-duvidas-necessaria" style="font-size:19px">Para <strong>Hillman</strong>, ouvir esta voz interna e responder de forma adequada a ela fala sobre o caráter do indivíduo. Não que seja uma missão simples ou fácil, mas é, sem dúvidas, necessária. </h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>A vocação torna-se uma vocação para a vida, em vez de ser imaginada em conflito com a vida. Vocação para a honestidade em vez de para o sucesso, para o amor e o acasalamento, para servir e lutar para viver. Esta perspectiva oferece uma revisão da vocação não apenas na vida das mulheres ou no enfoque das mulheres. Oferece outra ideia de vocação, na qual a vida é o trabalho [&#8230;] enquanto considerarmos as pessoas em termos de aquisição de poder ou experiência, não vemos seu caráter. Nossa lente foi preparada de acordo com uma receita média que é ideal para localizar o que não se enquadra no padrão. </em></p>
<cite>(HILMANN, 1997, p.274)</cite></blockquote>



<p>Para concluir a reflexão proposta neste artigo, penso que a <strong>carreira</strong> é um dos caminhos que temos para a realização e o desenvolvimento de nossa personalidade e de nosso estar no mundo. Por meio de nossa realização profissional podemos deixar nossa marca e nossa assinatura, conhecemos e nos tornamos conhecidos. Será que quem nos vê, vê o que pensamos que somos? A <strong>fraude</strong> está na realização ou na jornada? Ao não dar a devida atenção a isto, que padrão coletivo estamos perpetuando? Quanto mais próximos de nossa “invisível” realidade psíquica estivermos, mais legitimo será este caminho. Concluo com mais algumas palavras provocativas de <strong>Hillman</strong>:</p>



<p>Quem pode determinar onde o fruto do carvalho aprende mais ou onde a alma põe você à prova? [&#8230;] Haverá o <em>daimon</em> de querer o caminho que escolhemos? [&#8230;]&nbsp; Se o sucesso no teste pode ser uma confirmação, a reprovação pode ser a maneira como o <em>daimon </em>nos mostra que estávamos no rumo errado. (HILMANN, 1997, p. 117)</p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gilmaraalves/"><strong>Analista em Formação</strong> – Gilmara Marques Fadim Alves</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/"><strong>Analista Didata</strong> – Maria Cristina Mariante Guarnieri</a></p>



<p><strong>Palavras-chave</strong>: síndrome, impostor, impostura, fraude, fracasso, farsa, fenômeno, sucesso, psicologia analítica, trabalho, carreira, Jung, Hillman.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas</strong>:</h2>



<ol class="wp-block-list" style="list-style-type:1">
<li>HILLMAN, J. <em>O código do ser. Uma busca do cará</em><em>ter e da voca</em><em>ção pessoal.</em> 2ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.</li>



<li>JUNG, C. G. <em>&nbsp;O eu e o inconsciente</em>. 27ª ed. Vol. VII/2. Petrópolis: Vozes, (1934) 2016.</li>



<li>JUNG, C. G. <em>&nbsp;A natureza da Psique</em>. 5ª ed. Vol. VIII/2. Petrópolis: Vozes, (1971) 2000.</li>



<li>MANN, S. <em>A Síndrome do Impostor. Como entender e superar esta inseguranç</em><em>a.</em> 1ª ed. Petrópolis: Vozes, Nobilis. 2021</li>



<li>VAIANO, B. <em>Síndrome do impostor</em>. In: Revista Você S/A. Ed. Maio/2023. São Paulo. Editora Abril.</li>



<li>WHITMONT, E. C. <em>A evolução da sombra</em>. In: ZWEIG,C &amp; ABRAMS, J. (orgs.). <em>Ao encontro da sombra</em>. São Paulo: Cultrix, 1999</li>
</ol>



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			</item>
		<item>
		<title>As mãos e o fazer arte terapêutico na clínica junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/as-maos-e-o-fazer-arte-terapeutico-na-clinica-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Nov 2022 20:39:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6818</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como proposta uma reflexão sobre o valor e a importância das mãos no processo de arteterapia. Esta parte do corpo humano tem uma simbologia muito rica e significativa, como instrumento humano de construção e de realização da vida humana e como símbolo sagrado de redenção e elevação.  A mão materializa por meio dos materiais plásticos de expressão artística as imagens provenientes de nosso mundo inconsciente proporcionando assim um diálogo entre consciência e inconsciência, mais livre de projeções e de defesas do que nosso processo racional consciente. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“&#8230;neste universo de&nbsp;<em>mãos</em>&nbsp;e&nbsp;<em>materialidade</em>&nbsp;construímos nossa autonomia expressiva e ativamos nosso processo criativo &#8230; estas mãos são instrumentos potenciais de germinação e construção.”&nbsp;</p>



<p>Angela Philippini – Cartografias da Coragem</p>



<p>Ah&#8230; as mãos.</p>



<p>Nossas mãos são instrumentos de transformação em diversas áreas e aspectos. Com elas, realizamos os mais belos e os mais sombrios gestos. Juntas, se elevam em oração, agradecem, compõe um movimento para um suave passo de dança. Podem ao contrário, serem destrutivas, agressivas e trazerem dor, destruição e sofrimento. São responsáveis por trabalhos leves e delicados onde a precisão do toque e a habilidade motora bem desenvolvida são necessários, bem como por tarefas pesadas em que a força bruta e a firmeza são imprescindíveis.&nbsp;</p>



<p>As mãos conversam: elas são a voz daqueles que não falam e se expressam pela linguagem de libras. Como órgão do tato, reconhecem o mundo à sua volta pelas sensações que o toque desperta no corpo. Elas escrevem, desenham, pintam, esculpem, colam e tecem. Fazem e desatam laços e nós. As mãos do médico habilidoso trazem a vida ao mundo nos partos e em intervenções diversas, assim como as mãos do assassino impetuoso tira a vida em segundos, sem qualquer culpa. Mãos que acariciam, acolhem e afagam; mãos que cerradas em punho, batem, empurram e esmagam.</p>



<p>Por serem responsáveis por toda esta variedade de ações, as mãos são um instrumento de alto valor no processo do fazer e do viver humano. Segundo MIRANDA (2014):</p>



<p>&nbsp;“Mencionada numa grande variedade de usos literais e figurativos, a palavra mão, é de longe a parte do corpo humano mais citada na Bíblia: 1.538 vezes [&#8230;] As mãos representam na tradição judeu-cristã o conhecimento e o poder, evocam o braço e a autoridade. Ao deter as chaves do conhecimento, as mãos falam de um conhecer material que é também amar.” (MIRANDA, 2014, p. 175).</p>



<p>Quando pensamos na arteterapia, o fazer manual é fundamental para o processo. São as mãos que realizam e que comunicam o que por diversas vezes a nossa racionalidade não nos permite alcançar por meio da fala. A nossa fala &#8211; verbal &#8211; passa por filtros, projeções e racionalizações do ego. O pensamento racional pode trair a expressão genuína do nosso inconsciente. Quando um complexo toma o ego, a fala pode vir de forma muito bruta e primitiva, provocando culpa e desconforto. Quando utilizamos as mãos como meio de expressão, as defesas do ego são mais amenas, pois este não sente sua integridade ameaçada.</p>



<p>Vale falar aqui sobre os complexos. Eles são núcleos carregados de grande valor afetivo, que se formam a partir de vivências dolorosas e traumáticas, que são reprimidas e afastadas da consciência pelo desconforto que causam. Com sua energia, possuem autonomia e pela forte carga emocional que possuem, podem dominar a vontade consciente e manifestar-se de modo a dominar o próprio complexo do ego. Segundo Jung:</p>



<p>Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum corpo estranho, animado de vida própria. (JUNG, 1991, §201)</p>



<p>A manifestação dos complexos se dá por meio de irrupções de atos e de comportamentos na maioria das vezes, pouco desejáveis. Na dialética consciente / inconsciente, é no corpo, por meio de sintomas que os complexos se manifestam. Para Jung, o corpo e alma, são duas dimensões que coexistem numa mesma estrutura e afetam-se simultaneamente, dependendo uma da outra para que a vida aconteça. As funções vitais atuam independente da vontade consciente do ego. “O eu sequer tem uma pálida ideia da função reguladora e incrivelmente importante dos processos orgânicos internos a serviço do qual está o sistema nervoso simpático”. (JUNG, 1991, § 613).&nbsp;</p>



<p>Na arteterapia, quando o analista utiliza técnicas expressivas, ele proporciona um espaço para que a dialética entre as instancias consciente e inconsciente possam acontecer. Por meio das mãos, que produzem imagens, surge aquilo que a razão não consegue alcançar nas racionalizações e na comunicação verbal, conforme já comentado. A mesma psique que produz estes efeitos indesejados causado pela autonomia dos complexos também nos do fornece, por meio da materialidade das imagens um caminho para entendimento, assimilação e integração dos aspectos sombrios inconscientes. Em sua obra A Natureza da Psique, Jung afirma:</p>



<p>Há pessoas, porém, que nada veem ou escutam dentro de si, mas suas mãos são capazes de dar expressão concreta aos conteúdos do inconsciente. Esses pacientes podem utilizar-se vantajosamente de materiais plásticos. [&#8230;] Muitas vezes impõe-se a necessidade de esclarecer conteúdos obscuros, imprimindo-lhes uma forma visível. Pode-se fazer isto, desenhando-os, pintando-os ou modelando-os. Muitas vezes as mãos sabem resolver enigmas que o intelecto em vão lutou por compreender. (JUNG, 1991, § 171 e §180)</p>



<p>Em seus escritos, Jung relata que propunha o uso de recursos expressivos a seus clientes. Ele também costumava usar estas técnicas para expressar seus próprios sonhos e fantasias. Ele relata uma destas experiências com clientes da seguinte forma:&nbsp;</p>



<p>O paciente, então, me diz: &#8220;Sabe? Se eu fosse pintor, pintaria um quadro desse sonho&#8221;. [&#8230;] Por isso, estimulo meus pacientes, nessas horas, a pintar de verdade o que viram no sonho ou na fantasia. Em geral objetam que não são pintores: costumo responder que os pintores, hoje em dia, também não o são, que atualmente a arte é totalmente livre, e que o que importa não é a perfeição do quadro, mas unicamente o esforço que se faz para pintá-lo. Recentemente pude observar o quanto era verdadeira essa afirmação numa cliente minha, retratista profissional de grande talento. Suas tentativas iniciais foram desajeitadas como as de uma criança, até conseguir pintar do modo que eu lhe sugeria. Era literalmente como se jamais tivesse segurado um pincel na mão. É que a arte de pintar exterior, é bem diferente do que pintar de dentro para fora. (JUNG, 1987, § 101 e 102)&nbsp;</p>



<p>O que a psique necessita com suas manifestações é de uma integração de suas partes. É importante que se faça um esforço consciente, no sentido de compreender e transformar estas mensagens em elementos vitais. O universo inconsciente é extremamente vasto de imagens e de representações e procura a todo instante fazer-se presente, mas nem sempre isso acontece de forma inteligível ou agradável e o fazer manual é um dos recursos que temos para esta conversa e transformação. As mãos servem, neste lugar, como ferramentas na construção desta dialética. Elas são um símbolo de muito valor em nossa estrutura corporal.&nbsp;</p>



<p>Em O Simbolismo do Corpo Humano, Annick de Souzenelle (1995) nos apresenta o aspecto sagrado das mãos em diversas culturas. No simbolismo judaico cristão, são as mãos que vinculam o homem ao Pai, sendo que é das mãos Dele que se recebe as graças e a energia.&nbsp;</p>



<p>A palavra hebraica Yada, היד ‘conhecer’, é construída sobre a raiz Yad – ‘a mão’ – à qual se acrescenta a letra Ayin&nbsp;עַיִן, que quer dizer ‘olho’. Poderíamos dizer que a mão é dotada de visão e que o olho possui uma certa qualidade de toque. Visão e tato levam ao Conhecimento que liberta. (SOUZENELLE, 1995, p. 223)</p>



<p>É interessante pensar no que a afirmação nos provoca – o “conhecer” por meio das mãos, o “tocar” como recurso para ver / enxergar. O toque é uma qualidade dos dedos. A criança quando nos pede para ver um determinado objeto, quer logo pegar. Ver e conhecer os objetos, para as crianças tem uma ligação muito direta com o tocar. Assim como os cegos desenvolvem esta habilidade de modo muito aguçado. Eles leem com as pontas dos dedos e ao tocar uma pessoa conseguem relatar pontos relevantes sobre sus aparência.&nbsp;&nbsp;Os dedos são os responsáveis também pelo fazer manual. Estes são em número de 5 e as duas mãos formam 10 &#8211; o número que representa a unidade. Segundo Souzenelle:&nbsp;</p>



<p>O que me parece essencial esclarecer é que as duas mãos, em profundidade, são uma. Elas exprimem as duas faces da unidade, a única força, o único conhecimento que se manifesta na dualidade pelo número 5. Este, símbolo do germe, é promessa da dualidade que as duas mãos juntas, reconstituindo o 10, realizam. As duas mãos reunidas na unidade simbolizam igualmente a “força “. (SOUZENELLE, 1995, p. 226)</p>



<p>Ainda sobre os dedos, O Livro dos Símbolos, nos recorda que os dedos são uma parte distinta e importante na simbologia das mãos, dada a sua singularidade. A área forense por exemplo se utiliza do fato de que não temos impressões digitais iguais. No livro continua: “&#8230;imagens de chamas a emanar das pontas dos dedos de santos e o calor por vezes sentido no toque de um curador, sugerem que os dedos são passagens entre os reinos interior e exterior” (MARTIN, Kathleen &amp; RONNBERG, Ami, 2012, p. 384).&nbsp;</p>



<p>Não podemos esquecer que Deus esculpiu Adão a partir do barro. Daí a imagem arquetípica e sagrada do poder de criação das mãos. Quanto a este poder sagrado, Miranda (2014), comenta que na consagração da extrema unção, o óleo é ungido na cabeça e nas mãos do doente, como um sinal de que as atividades podem ser encerradas, agora as mãos juntas serão dirigidas aos céus, como sua última ação. “&#8230;a unção dos enfermos ajuda a pessoa &#8211; por caminhos misteriosos – a enfrentar a derradeira passagem com a cabeça erguida e as mãos voltadas para os céus” (MIRANDA, 2014, p. 179). O Livro dos Símbolos, traz uma visão que complementa e corrobora com o que está aqui exposto sobre a sacralidade das mãos, representada pelas Mãos de Deus, como símbolo da “atividade suprema e inexorável“ (MARTIN, Kathleen &amp; RONNBERG, Ami, 2012, p. 380). Os ritos em que o gestual com as mãos é presente, retratam a importância de compreender o valor desta parte corpo para a humanidade também como uma forma de elevação espiritual.</p>



<p>Outro aspecto importante a destacar é a ligação das mãos com o cérebro. Segundo Miranda (2014) “Os dois hemisférios cerebrais são inseparáveis das mãos [&#8230;] Nenhuma parte do corpo humano, fora da cabeça, tem um vínculo tão ativo e permanente com a atividade cerebral” (MIRANDA, 2014, p. 177 e 179). E no Livro dos Símbolos é posto que “A par da boca e dos lábios as mãos possuem mais ramificações neurais do que o resto do corpo como se refletisse a primazia do som e da produção.”&nbsp;&nbsp;(MARTIN, Kathleen &amp; RONNBERG, Ami, 2012, p. 380).</p>



<p>Em relação ao ato do fazer terapêutico, Urrutigaray (2015) comenta que as imagens produzidas são provenientes do inconsciente coletivo e possuem uma carga de energia psíquica, devido à ação dos complexos. Ela corrobora com a visão de Jung, quando fala que a produção das imagens se configura como um importante caminho para que o ego os reconheça e possa lidar com sua manifestação, ao olhar para os aspectos sombrios da psique de um modo mais amigável. Jung, chama a atenção sobre os aspectos estéticos / artísticos das produções. Para se alcançar a integração e a função transcendente, o ego não pode se apegar aos aspectos literais e estéticos, evitando racionalizações e inflação. A respeito deste cuidado, Jung diz: “&#8230;a consciência põe seus meios de expressão ao dispor do conteúdo inconsciente, e, mais do que isto, ela não pode fazer, para não desviar o conteúdo no rumo da consciência.” JUNG, 1991, §178). A consciência pode se distrair e se deixar seduzir facilmente, desviando-se assim do real valor simbólico da imagem criada.&nbsp;</p>



<p>Por isso, é relevante destacar que não se atribui à arteterapia um valor artístico ou estético, mas o fazer simbólico, onde a representação dos aspectos arquetípicos nas produções, pode ser compreendida como a possibilidade de união do universo consciente e inconsciente. É desta interação, que o indivíduo poderá transcender aspectos de sua psique, sendo a função transcendente a resultante do processo criativo da arteterapia. Para Jung a função transcendente é capacidade de gerar um novo estado de consciência, sendo que esta comunicação entre os universos consciente e inconsciente permeia toda sua obra. Para ele:&nbsp;</p>



<p>A experiência já mostrou, há muito tempo, que entre a consciência e o inconsciente existe uma&nbsp;<em>relação de compensação</em>, e que o inconsciente sempre procura complementar a parte consciente da psique, acrescentando-lhe o que falta para a totalidade, e prevenindo perigosas perdas de equilíbrio. No nosso caso, como é de se esperar, o inconsciente gera&nbsp;<em>símbolos compensatórios</em>, que devem substituir as pontes que ruíram, mas só o conseguem de fato, mediante a ajuda da consciência. É que os símbolos gerados pelo inconsciente têm que ser &#8220;entendidos&#8221; pela consciência, isto é, têm que ser assimilados e integrados para se tornarem eficazes. (JUNG, 1987, § 252. Grifos do autor.)</p>



<p>Urrutigaray (2015) destaca que a finalidade da arteterapia é criar uma imagem a partir da imaginação, por meio de uma multiplicidade de materiais, que com sua plasticidade “cedem sua flexibilidade e maleabilidade a quem os utiliza, para expressar seus conteúdos íntimos” (URRUTIGARAY, 2015, p. 27). A capacidade de materialização das imagens cria um caminho para que questões inconscientes sejam conhecidas e transformadas. Este caminho se faz possível pelo encontro das mãos de quem se expressa com os mais diversos elementos: matérias, que são recursos expressivos; imagens, provenientes do mundo inconsciente do indivíduo, o processo criativo como potencial humano e a ação mediadora ou facilitadora destes elementos pelo arteterapeuta.</p>



<p>Encerro este artigo com uma fala de Jung sobre o encontro do si mesmo facilitado por estes caminhos poéticos e criativos, que estão a serviço das mãos, dispostas a servir aos indivíduos e ao que sagrado neles vive, bastando delas se utilizar, sem medos ou resistências racionais. Segundo Jung:</p>



<p>O que pinta são fantasias ativas – aquilo que está mobilizado dentro de si. E o que está mobilizado é ele mesmo, mas já não mais no sentido equivocado anterior, quando considerava que o seu “eu” pessoal e o seu “self” eram uma e a mesma coisa. Agora há um sentido novo, que antes lhe era desconhecido: seu eu aparece como objeto daquilo que está atuando dentro dele. Numa série interminável de quadros, o paciente esforça-se por representar, exaustivamente, o que sente mobilizado dentro de si, para descobrir, finalmente, que é o eterno desconhecido, o eternamente outro, o fundo mais fundo da nossa alma. (JUNG, 1987, § 107)</p>



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</div></figure>



<p><strong>Referências Bibliográficas</strong></p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong>. [1971] 5ª ed. Vol. XVII. Petrópolis: Vozes, 1991</p>



<p>.___________.&nbsp;<strong>A prática da psicoterapia</strong>. [1971] 3ª ed. Vol. XVI/1. Petrópolis: Vozes, 1987</p>



<p>MARTIN, Kathleen &amp; RONNBERG, Ami.<strong>&nbsp;O livro dos símbolos – reflexões sobre imagens arquetípicas</strong>. Alemanha, Ed Taschen, 2012.</p>



<p>MIRANDA, Evaristo Eduardo de.&nbsp;<strong>Corpo. Território do sagrado</strong>. 8ª ed. São Paulo. Edições Loyola. 2014</p>



<p>PHILIPPINI, Angela.&nbsp;<strong>Cartografias da coragem. Para entender Arteterapia</strong><em>.&nbsp;</em>Rio de Janeiro. Wak Editora, 2013.&nbsp;</p>



<p>SOUZENELLE, Annick.&nbsp;<strong>O simbolismo do corpo humano.</strong>&nbsp;2ª ed. São Paulo. Ed. Pensamento, 1995</p>



<p>URRUTIGARAY, Maria Cristina.&nbsp;<strong>Arteterapia.<em>&nbsp;</em>A transformação pessoal pelas imagens</strong><em>.&nbsp;</em>Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011.&nbsp;</p>



<p><strong>Gilmara Marques Fadim Alves</strong></p>



<p>Membro Analista em formação pelo IJEP<strong>Analista didata&nbsp;</strong>– Maria Cristina Guarnieri</p>
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		<title>Considerações sobre o processo de psicodiagnóstico infantil na clínica junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/consideracoes-sobre-o-processo-de-psicodiagnostico-infantil-na-clinica-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jun 2022 14:50:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[diagnóstico infantil]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia da criança]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” C. G. Jung, fundador da psicologia analítica. Ao receber uma criança no consultório, esta nos chega com uma queixa específica e narrada por seus pais ou cuidadores. Pode ser algum medo, questões de cunho comportamental, dificuldades de aprendizagem, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” C. G. Jung, fundador da psicologia analítica. </p></blockquote>



<p>Ao receber uma criança no consultório, esta nos chega com uma queixa específica e narrada por seus pais ou cuidadores. Pode ser algum medo, questões de cunho comportamental, dificuldades de aprendizagem, questões de relacionamento e interatividade social, entre outras. Os pais narram as dificuldades destes pequenos de acordo com o que veem e percebem em seus filhos. Às vezes são queixas pautadas nas narrativas escolares proveniente das observações de professores e coordenadores pedagógicos, como também, podem estar orientados por outros profissionais da área de saúde. Às vezes, os pais podem associar estas condições&nbsp;às suas próprias dificuldades e estilos pessoais, mas raramente passa disto.</p>



<p>Mas, em nosso papel como analistas, como compreender se aquela queixa é de fato o que aflige a criança, ou se ela mascara ou disfarça algum tipo de questão mais profunda? O quanto este comportamento ou dificuldade apresentado pelos pequenos não são apenas sintomas de questões mais complexas e inacessíveis para seus pais? Diferente do cliente adulto, a criança, que está em processo de desenvolvimento de personalidade e de estrutura de ego, não tem um discurso analítico, racional e fluente para explicar aquilo que vive e que está sentindo. Por este motivo, é&nbsp;importante que se faça uma investigação cuidadosa e detalhada sobre a vida desta criança, para que se possa desenvolver um processo terapêutico que seja efetivo para o atendimento de suas reais questões. É aqui que entra o processo de psicodiagnóstico, que deve preceder ao processo terapêutico.</p>



<p>O processo de psicodiagnóstico tem, de acordo com KRUG, (2016), a seguinte definição:</p>



<p>Compreendemos que o psicodiagnóstico&nbsp;é um procedimento científico de investigação e intervenção clínica, limitado no tempo, que emprega técnicas e/ou testes com o propósito de avaliar uma ou mais características psicológicas, visando um diagnóstico psicológico (descritivo e ou dinâmico), construído a luz de uma orientação teórica que subsidia a compreensão da situação avaliada gerando uma ou mais indicações terapêuticas e encaminhamentos. (KRUG, 2016, pag.18)</p>



<p>Esta definição está em acordo com o que também diz outra teórica da&nbsp;área, OCAMPO (1995), quando afirma que o processo de psicodiagnóstico deve observar e respeitar um tempo limite, onde as partes &#8211; analista e cliente &#8211; objetivam “conseguir uma descrição e compreensão, o mais profundo e completa possível, da personalidade total do paciente ou do grupo familiar”&nbsp;(OCAMPO, 1995, pag 17). A autora completa a visão, dizendo que o processo “abrange os aspectos passados, presentes e futuros desta personalidade, utilizando para alcançar tais objetivos certas técnicas.”&nbsp;(OCAMPO, 1995, pag 17).</p>



<p>A partir desses pontos, entende-se que o processo de psicodiagnóstico&nbsp;é uma etapa inicial que pode ter grande valia para o trabalho terapêutico com a criança, pois é por meio dele que o analista poderá aprofundar e detalhar quais são as questões que envolvem a criança – a estrutura e ambiente familiar, escolar, social; seu mundo interno de fantasias e de projeções. O psicodiagnóstico&nbsp;é uma construção inicial do caso, que deve ser realizado com muita qualidade e com critérios sérios e éticos. Não se deve utilizar esta etapa do processo para taxar e reduzir a percepção acerca das questões, mas pelo contrário para ampliar e abrir possibilidades de acompanhamento e orientações.&nbsp;&nbsp;A criança, segundo JUNG (1991), “tem uma psique extremamente influenciável e dependente, que se movimenta por completo no âmbito nebuloso da psique dos pais, do qual só relativamente tarde consegue libertar-se.” (JUNG, 1991 §99)</p>



<p>Em sua obra&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>, Jung&nbsp;é&nbsp;bastante crítico e reticente ao falar do trabalho psicológico com crianças. Ele pontua que essa atividade é muito difícil e que deve ser realizada com muita cautela por parte do analista, pois como a criança é uma personalidade em formação, e como dito anteriormente &#8211; extremamente influenciável, se for orientada de modo indevido, pode-se intervir de forma inadequada no processo de aquisição de consciência, que&nbsp;é, segundo Jung a tarefa da infância. “Precisamos lidar com algo de imprevisível, pois não sabemos como e em que sentido se desenvolverá a personalidade em formação”. (JUNG, 1991, §292). O conhecimento, a simplicidade e abertura do analista, como também seu próprio trabalho de autodesenvolvimento é considerado por Jung como crucial para o trabalho com crianças. Isto posto, é importante destacar que Jung deixou escritos importantes sobre a personalidade infantil em desenvolvimento, mas não se aprofundou sobre o tratamento em particular da criança. Autores como Mario Jacoby, Michael Fordham e Erich Neumann, ampliaram o legado de Jung e a visão da psicologia analítica para o tratamento clínico deste público.&nbsp;</p>



<p>FODHAM (2001), corrobora com a visão de Jung a respeito da complexidade e da seriedade necessárias para o trabalho com crianças, e destaca em sua obra&nbsp;<em>A criança como indiví</em><em>duo</em>&nbsp;a seguinte colocação:</p>



<p>[&#8230;] a análise junguiana infantil é uma técnica que exige treinamento especial. A perícia que o analista infantil deve atingir centra-se em: dar início à terapia, já que isso requer a elaboração de um diagnóstico da família, utilizar técnicas lúdicas e estar permanentemente atento às ocasiões em que os pais precisarem de ajuda (FORDHAM 2001, pag. 144).</p>



<p>O princípio básico deixado por Jung e desenvolvido por seus sucessores neste tema, postula que a psicologia infantil deve ser compreendida à luz da psicologia familiar e dos complexos materno e paterno. Para Jung:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A criança tem uma psicologia singular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que propriamente doença genuína da criança. Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais. (JUNG, 1991, §143).</p></blockquote>



<p>A forma e a proporção em que os complexos se constelam no inconsciente das crianças, devem surgir durante o processo psicodiagnóstico e servirá para nortear grande parte do trabalho a ser desenvolvido com a criança, bem como com os pais. Em acordo com a visão de Jung, JACOBY (2010) afirma que:</p>



<p>As disposições e necessidades arquetípicas no indivíduo estão interligadas com o meio de um modo intrincado que apresenta uma influência poderosa, marcante, especialmente na primeira infância. Nesse encontro entre a disposição natural da criança e a reação do ambiente, nós achamos a origem de muitos complexos psíquicos, especialmente quando a criança responde aos vários modos de seus pais se sintonizarem com ele. (JACOBY, 2010, pag. 142).</p>



<p>Ainda sobre a natureza dos complexos e a importância de se considerar sua presença e manifestação nos diagnósticos, JUNG (1987) afirma:&nbsp;</p>



<p>Em psicoterapia, o reconhecimento da doença depende [&#8230;] muito menos do quadro clínico da enfermidade do que dos complexos nela contidos. O diagnóstico psicológico visa ao diagnóstico dos complexos e, por conseguinte, à formulação de fatos que seriam antes camuflados do que mostrados pelo quadro clínico da doença. (JUNG, 1987 §198).</p>



<p>Ao estruturar um processo de psicodiagnóstico infantil, embasado na psicologia analítica,&nbsp;é importante que dentro deste processo, todas as etapas (apresentadas a seguir) tenham como ideia central esta imagem da criança, como ser em formação, ligada inconscientemente aos seus pais e sob efeito da autonomia dos complexos.&nbsp;</p>



<p>De modo geral o processo de psicodiagnóstico abrange, as seguintes etapas:</p>



<p><strong>Entrevista de anamnese com os pais</strong><strong></strong></p>



<p>Esta entrevista pode se desenvolver em dois ou três encontros e tem como objetivo principal detalhar de forma mais específica possível a história de vida da criança. Isto engloba compreender seu ambiente familiar, desde um olhar sobre a infância de seus pais, a relação conjugal de ambos, condições sob a qual a criança foi concebida. Expectativas atendidas ou frustradas com a chegada da criança na família, histórias de abortos, outros filhos, relações parentais dos pais com seus genitores. JUNG (1991) afirma que “A causa recalcada do sofrimento, além da neurose [&#8230;] irradia-se de modo misterioso pelo ambiente e afeta também os filhos, caso existam. Deste modo são transmitidos muitas vezes por várias gerações” (JUNG, 1991, § 154).</p>



<p><strong>Uso de teste psicol</strong><strong>ógicos</strong><strong></strong></p>



<p>Os testes psicológicos são uma ferramenta de bastante valor neste processo. Cabe aqui destacar que eles são parte do processo e tem como objetivo ajudar o profissional a conhecer e ampliar a sua visão sobre os pontos que estes tetes se propõe a averiguar.&nbsp;<strong>Os testes nã</strong><strong>o det</strong><strong>êm a verdade sobre a condiçã</strong><strong>o psicol</strong><strong>ógica da crianç</strong><strong>a.</strong>&nbsp;Toda criança vive sobre um determinado ambiente e contexto e estes dados devem ser levados em consideração na análise a ser realizada. Eles podem ajudar a reforçar determinadas percepções como também a descartar hipóteses.&nbsp;</p>



<p>É importante destacar que os testes psicológicos são ferramentas de uso exclusivo do psicólogo, mas analistas junguianos e arte terapeutas podem e devem se valer dos conhecimentos das expressões e das representações simbólicas que são produzidas pelas crianças nos seus desenhos, pinturas e histórias. As cores, as formas e mesmo a atitude da criança ao desenhar contém muito sobre seu psiquismo. O processo de simbolização de conteúdos inconscientes&nbsp;é muito presente na expressão infantil. As imagens podem trazer representações de conteúdos arquetípicos, sombrios e dos complexos. Segundo RABELLO (2016), no livro&nbsp;<em>O desenho infantil</em>, ao criar, a criança estabelece uma dialética com a sua produção e ela “transforma a sua imaginação em formas gráficas e deixa registrado o que está sentindo, o que pensa, ou o que desejaria que acontecesse. (RABELLO, 2016, pag. 22). Ainda sobre o uso dos desenhos, FURTH (2004) afirma que “os complexos são descobertos a partir da análise de imagens do inconsciente, expressas nos desenhos, bem como nos sonhos.”&nbsp;(FURTH, 2004, pag. 33)</p>



<p><strong>Hora l</strong><strong>ú</strong><strong>dica</strong><strong></strong></p>



<p>Esta etapa consiste em uma ou duas sessões lúdicas com a criança. Nestas interações o analista precisa estabelecer uma relação com a criança e adotar uma postura de facilitador e observador atento na forma de expressão de seu cliente. Neste momento, o analista poderá se utilizar de recursos diversos para esta interação. A espontaneidade e a criatividade precisam estar presentes de modo genuíno. O brincar tem uma linguagem própria, sendo que neste fazer lúdico, a criança expressa e comunica a sua forma de estar no mundo. Segundo FORDHAM (2001):</p>



<p>&nbsp;[&#8230;] a brincadeira é um veículo para a comunicação significativa, um elemento que se revela especialmente útil ao analista. Em vez de falar, a criança irá brincar, exprimindo seus amores e ódios, medos e esperanças,&nbsp;às vezes de forma transparente, mas, em geral, de modo indireto. (FORDHAM, 2001, pag. 26).</p>



<p><strong>Olhar multidisciplinar</strong><strong></strong></p>



<p>O analista poderá contar ainda com relatos e com materiais de outros processos diagnósticos aos quais a criança já tenha sido submetida e que são conduzidos por outros profissionais, como pediatra, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psiquiatra, professores e pedagogos.</p>



<p>Todas estas etapas devem, ao final, serem consolidadas em uma visão global e sistêmica acerca da vida e da dinâmica da criança. Nada deve ser simplesmente descartado. Este conjunto de observações e dados coletados com e sobre a criança, constituem um material muito precioso para o analista junguiano. São recortes, expressões e manifestações genuínas da dinâmica inconsciente da criança, bem como de aspectos de seu drama familiar. Portanto, a análise deste material deve ser muito cuidadosa, para que o analista possa, ao concluir o psicodiagnóstico, estruturar uma devolutiva para os pais de modo que, nesta reunião, estes possam receber as orientações de forma clara sobre a conduta e continuidade do processo com a criança. Vale destacar ainda que, há uma grande chance de, com todo o processo realizado, de surgirem questões que não foram apontadas pelos pais no início do processo, pois segundo o próprio C. Jung (1991)&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] tanto os pais como os filhos estão inconscientes a respeito do que está acontecendo. Como são contagiantes os complexos dos pais, deduz-se dos efeitos que suas singularidades produzem nos filhos. Mesmo que os pais façam esforços constantes e eficientes para se dominarem, de modo que um adulto nem sequer perceba o mínimo vestígio de um complexo adulto, os filhos, contudo, de qualquer maneira serão afetados por ele. (JUNG, 1991, §106)</p></blockquote>



<p>Por esta razão&nbsp;é necessário que se trabalhe de forma respeitosa, honesta e transparente, tendo como premissa o processo de desenvolvimento da criança bem como seu bem-estar físico e emocional. Caso haja a necessidade de orientação de terapia para seus pais, visto que a consciência e o ego da criança se encontram em formação e ainda sob forte influência dos complexos familiares, esta orientação precisa ser realizada.</p>



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<iframe title="Considerações sobre o processo de psicodiagnóstico infantil na clínica junguiana | Gilmara Alves" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/5LVFWzrVLKw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong>Referências Bibliográficas</strong><strong></strong></p>



<p>FORDHAM, Michael.&nbsp;<strong>A criança como indiví</strong><strong>duo</strong>. 1ª ed. São Paulo: Cultrix, 2001.</p>



<p>FURTH, Gregg M.&nbsp;<strong>O mundo secreto dos desenhos – uma abordagem junguiana da cura pela arte.</strong>Coleção Amor e Psique 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p>HUTZ, Claudio Simon; BANDEIRA, Denise H.; TRENTINI, Clarissa M. &amp; KRUG, Jefferson Silva (organizadores).&nbsp;<strong>Psicodiagn</strong><strong>ó</strong><strong>stico</strong>. Porto Alegre. Artmed, 2016</p>



<p>JACOBY, Mario.&nbsp;<strong>Psicoterapia junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças.&nbsp;</strong>Coleção Amor e Psique. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. [1972] 5ª&nbsp;ed. Vol. XVII. Petrópolis: Vozes, 1991</p>



<p>___________.&nbsp;<strong>A prá</strong><strong>tica da psicoterapia</strong>. [1971] 3ª&nbsp;ed. Vol. XVI/1. Petrópolis: Vozes, 1987</p>



<p>OCAMPO, Maria Luísa S. de. &amp; colaboradores.&nbsp;<strong>O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas.</strong>&nbsp;8ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995</p>



<p>RABELLO, Nancy.&nbsp;<strong>O desenho infantil. Entenda como a criança se comunica por meio de traços e cores</strong>. 3ª ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2019</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Autoconhecimento na psicologia analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/autoconhecimento-na-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 12:43:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O objetivo deste artigo é trazer uma reflexão sobre o autoconhecimento e a psicologia analítica. Este é um termo tão utilizado atualmente, em todos os locais e fóruns que participamos, que me pergunto se sabemos mesmo do que estamos falando. Você tem que se conhecer para: emagrecer, viajar, arrumar emprego, ler um livro etc. Preenchemos os mais diversos inventários e esses sabem mais a nosso respeito do que nós mesmos sabemos. O mundo está cheio de fórmulas mágicas. Mas é tão fácil assim mesmo? De onde vem tantas receitas simples e ao mesmo tempo tanta dificuldade de sabermos quem somos.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_762.jpeg" alt="Autoconhecimento na psicologia analítica Psicologia Junguiana" width="590" height="601"/></figure>



<p><em>“</em>Que parte de mim, que eu desconheço,&nbsp;é&nbsp;que me guia?<em>”</em></p>



<p><em>Fernando Pessoa</em></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O que significa o termo autoconhecimento? Segundo o dicionário Aurélio,&nbsp;é o “conhecimento de si mesmo”. O dicionário só não nos conta qual é a amplitude e a profundidade que este substantivo masculino alcança na vida das pessoas. O autoconhecimento tem sido na história do homem a grande questão que o leva a seguir um caminho em busca de identidade, propósito e realização. Parece estranho que, um indivíduo atuante, íntegro e socialmente produtivo, a partir de qualquer que seja a ótica, passe a assumir que não sabe quem é. Como assim? É o que vamos tentar compreender a partir da visão analítica.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Vou iniciar assumindo que é&nbsp;possível compreender que a psique ocidental, nasce a partir da cultura judaico cristã, com o antigo testamento e as civilizações babilônica e persa. A Grécia, um cenário importante neste contexto, nos traz em sua história antiga, uma religião politeísta, com os deuses do Olímpio e os mitos dos heróis, determinando a vida e as regras de convívio entre os humanos e explicando a origem do mundo e seu devir. A vida ritualística era absolutamente responsável por trazer ordem e sentido para a comunidade. Com o passar dos tempos e a chegada do assim chamado crescimento social, alguns eventos importantes foram trazendo mudanças e alterando a forma de viver dos gregos. Temos aqui o comercio e as navegações que ampliou o contato da população com demais povos, a escrita alfabética, o surgimento do calendário e da moeda, a organização da vida política e o pensamento racional. Surge então uma corrente de pensadores, que se propõe a compreender a lógica da vida e do pensamento dos homens, e da origem do mundo e de todas as coisas. Com ela, há uma desmistificação das forças da natureza até então muito vinculada aos deuses, com poderes soberanos, o que vem reduzir os deuses olímpicos e os mitos à uma categoria de crença fantasiosa. O foco é traduzir uma cultura de crenças em algo maior e exterior ao humano, por meio de um método e de uma lógica próprias.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dos pensadores gregos, a primeira geração, ou os chamados pré-socráticos &#8211;&nbsp; sec. VII a. C.,&nbsp; se ocuparam de pensar sobre a origem das coisas, do cosmo e&nbsp;&nbsp; a relação da vida com a natureza. Sócrates foi o primeiro pensador a querer compreender a alma humana. Além dele, seu discípulo&nbsp;Platão inaugurou uma nova forma de pensar o ser humano, ocupando-se das dúvidas existenciais que nos persegue até os dias de hoje, sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos.</p>



<p>A partir do século V começa uma nova fase da filosofia na Grécia. Esse período caracteriza-se essencialmente pela volta do homem para si mesmo. A preocupação com o mundo segue-se à preocupação com o homem. [&#8230;] o homem se dá conta de que é preciso indagar quem ele é. Nisso interferiram algumas razões extrínsecas à filosofia: o predomínio de Atenas depois das guerras médicas, o triunfo da democracia etc. Aparece em primeiro plano a figura do homem que fala bem, do cidadão, e o interesse do ateniense volta-se para a realidade política, civil e, portanto, para o próprio homem.”&nbsp;(NETO, 1986, p. 39)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Dentre tantos pensadores que influenciaram o pensamento de Jung e a psicologia a analítica, há correspondências interessantes relacionadas aos modelos de pensar o humano de Sócrates e Platão, que&nbsp;é válido destacar aqui. Sócrates, viveu em Atenas de 470 a 399 a. C. Sua filosofia restabelece o sentido de verdade no pensamento grego, contrariando os sofistas (corrente de pensamento anterior) e trazendo a pergunta como método, que leva&nbsp;à&nbsp;reflexão na busca de essência e de definição, onde se quer compreender o que as coisas são, tendo o homem como seu principal objeto.&nbsp; Há dois conceitos diretamente vinculados a ele –&nbsp;<em>daimon</em>&nbsp; &#8211; chamado, voz interior, oráculo,&nbsp;“semelhante à uma divindade que se manifestava por meio da alma humana”, (EDINGER, 2005, p. 82). Sócrates dizia que podia escutar o seu&nbsp;<em>daimon interior</em>&nbsp;falando com ele. O outro conceito ó a&nbsp;<em>maieusis</em>, entendido como partejamento. Ele era filho de parteira e atribuía a si esta mesma qualidade, dizendo-se parteiro de almas. Edinger (2005) faz aqui alusão, também realizada por Jung, sobre a técnica analítica ser pautada na maiêutica socrática.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Sócrates nunca deixou nada escrito. Seus discípulos que se incumbiram de difundir suas ideias e pensamentos. Como um de seus mais influentes seguidores, Platão também cidadão ateniense, que viveu de no ano de 428 a.C. à 348 a.C. se encarrega de levar as ideias de Sócrates adiante. Ele conhece Sócrates numa fase em que está descrente do cenário político grego. Desenvolve o método da dialética e assim como Sócrates tem alguns conceitos fundamentais para pensar o ser –&nbsp;<em>Eidos</em>, ou ideia, que conforme cita Edinger (2005) é o termo precursor do conceito de arquétipo. Segundo Platão, as ideias tratam de alegorias ou categorias gerais das coisas, e existem primariamente à parte e anteriormente ao ser. Outro conceito a&nbsp;<em>anamnesis</em>&nbsp;– lembrança, recordação – é o que nos faz ter a visão daquilo que nos precede. Em suma, a ideia existe antes do ser em si e a&nbsp;<em>anamnesis</em>&nbsp;é o que nos faz rememorar.&nbsp;De muito valor também para psicologia profunda é o tão difundido Mito da Caverna de Platão. Este mito nos remete à forma como se dá o mecanismo de projeção, contribuindo com as possibilidades de o homem pensar e descobrir o poder que a mente possui para a natureza das ideias. É uma metáfora sobre a necessidade e o efeito da força da tomada de consciência sobre o homem.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;As contribuições destes dois pensadores, e também de seus contemporâneos, são de inestimável valor para o processo de entendimento, sobre como, a partir da filosofia, se deu o processo de tomada de consciência do homem sobre si mesmo e também para o início da psicologia como ciência na busca do entendimento das mazelas da alma.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;É&nbsp;possível compreender com esta pequena viagem a tempos passados que as formas de buscar o autoconhecimento acompanham a própria história da evolução da humanidade. E a história continua seu processo, após esta rica fase de descobertas, com a organização social Romana e o desenvolvimento de novos ritos nos grupos sociais, as manifestações e normas traduzidas em leis, com o fortalecimento dos cultos religiosos formais e organizados pela instituição religiosa predominante e a soberania da razão. Todos estes movimentos têm como intuito explicar e organizar a vida do homem e interferem diretamente na forma como as pessoas passavam a se perceber, bem como a compreender o sentido da vida e de si próprio no mundo. Na verdade, todo este processo, fez com que o homem fosse, gradativamente, se afastando de suas raízes, de seus símbolos e do sentido de sua existência para dar voz e espaço ao que o coletivo social demandava. Logo, não podemos falar de autoconhecimento sem passar pelo lugar de busca e de reconexão com algo que foi ficando perdido neste espaço-tempo. Algo que não é&nbsp;concreto, palpável aos olhos da consciência e, por consequência, de difícil acesso, como aponta Jung:</p>



<p>Já não existem deuses cuja ajuda possamos invocar. As grandes religiões padecem de uma crescente anemia, porque as divindades prestimosas já fugiram dos bosques, dos rios, das montanhas e dos animais e os homens-deuses desapareceram no mais profundo do nosso inconsciente. Iludimo-nos julgando que lá no inconsciente levam vida humilhante entra as relíquias do nosso passado. Nossas vidas são agora dominadas por uma deusa, a Razão, que&nbsp;é a nossa ilusão maior e mais trágica. (JUNG, 1997, p. 101)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Pelo exposto até aqui, podemos compreender o quanto o homem é uma resultante de um conjunto um experiências e visões modificadas e transformadas à luz de seu tempo. Em sua “composição”, há uma influência forte da psique coletiva e, ao mesmo tempo,&nbsp;que como indivíduos não somos seres descolados deste lugar coletivo, também transformamos influenciamos o meio. Impossível falar de autoconhecimento sem falar do lugar do ego e da consciência. É por meio do ego, esta instancia psíquica que se dá a interlocução com o meio. O ego como centro organizador da consciência e seu “portador” (Edinger, 1993) regula conteúdos que chegam do inconsciente para a consciência. O intuito é preservar a consciência para que esta estabeleça uma relação sadia e adequada de interação com o meio. Um ego forte e estruturante representa um equilíbrio na personalidade.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;O ponto é que vivemos hoje a era da supervalorização do externo, do coletivo, do sucesso, do ganho e das conquistas materiais. Estes são atributos do mundo do ego, que como elemento que precisa se adequar e adaptar, conversa com seu meio externo tomando para si o entendimento de uma supremacia.&nbsp; Falamos hoje de autoconhecimento em meio ao universo de egos inflados. Sobre a inflação, Jung fala:&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>&#8230;tais estados como &#8220;semelhantes a Deus&#8221;. Mas como ambos, a seu modo, ultrapassam as proporções humanas, possuem algo de &#8220;sobre-humano&#8221;, podendo ser expressos figuradamente como &#8220;semelhantes a Deus&#8221;, falar de inflação psíquica. Tal definição me parece correta, pois o estado a que nos referimos envolve uma &#8220;expansão da personalidade&#8221; além dos limites individuais ou, em outras palavras, uma presunção. Em tal estado, a pessoa ocupa um espaço que normalmente não pode preencher. Isto só seria possível se ela se apoderasse de conteúdos e qualidades autônomos e que por isso mesmo ultrapassam seus limites. O que nos ultrapassa pertence a outro, a todos ou a ninguém. (JUNG, 2016, §227)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;É isso que vivemos hoje. O ego tentando chegar a limiares que não alcança. O mundo externo grita alto e atinge em cheio esta imagem de superioridade egóica, nos afastando cada vez mais da profundidade e da amplitude da alma. Como exemplo, dentre tantas fontes de autoconhecimento, há um apelo muito grande por matérias, dicas e livros de autoajuda. O conteúdo deste tipo de recurso conta coisas que nos parece muito obvias. Esclarece as inquietações humanas de forma direta e absolutamente segura. Entregam, por vezes, fórmulas descritas para que se alcance a felicidade, o sucesso e a riqueza, como se isto tudo estivesse a um passo, a um estalar de dedos –&nbsp;incompetência sua, se não consegue.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Mas então, porque não acontece nada, quando alguém conclui uma leitura de algum material desta natureza? Porque estes materiais nos contam sobre o coletivo, sobre dicas e orientações gerais e pautadas em uma visão por vezes limitada e polarizada. Serve para todo mundo e neste sentido, e exatamente por isso, não serve para ninguém! Visão polarizada e inflada. Somos seres únicos, múltiplos, enquanto almas que carregam histórias diversas, vivências e experiências singulares. Como seres sociais estamos inseridos no coletivo, mas como pessoas únicas, nossas almas precisam encontrar o seu sentido em meio esse coletivo que clama muito alto. Estes processos de autoajuda ficam em um lugar entre o conhecimento do senso comum que atua no padrão coletivo e superficial e as necessidades individuais que são de natureza diversa, profunda e inconsciente. Por vezes necessitamos de respostas e de direcionamentos muito específicos e profundos para as angústias inerentes à nossa própria biografia. Este tipo de publicação faz tanto sucesso, por alcançar as necessidades e os apelos de uma condição coletiva pouco atendida, à qual também estamos socialmente inseridos. São dicas sobre como lidar com questões de relacionamento, trabalho, filhos, finanças, futuro, etc etc etc.&nbsp;“Faça assim que dará certo; pense assim, sempre no positivo; não deixe pensamentos negativos tomarem seu dia; seja de determinada maneira porque só assim você&nbsp;atrairá coisas boas”. É quase que um milagre. Mas o divino, de verdade precisa de um outro lugar de fala na alma. Nos afastamos cada vez mais do divino em nós. Perdemos a capacidade de simbolizar e, por isso, o canto da sereia do mundo externo nos “acolhe” e daí&nbsp;parece tão atrativo e tão interessante. Segundo Jung</p>



<p>O homem mede seu autoconhecimento através daquilo que o meio social sabe normalmente a seu respeito e não a partir do fato psíquico real que, na maior parte das vezes, lhe é desconhecido. Nesse sentido, a psique se comporta como um corpo em relação a sua estrutura fisiológica e anatômica, desconhecida pelo leigo. Embora o leigo viva nela e com ela, via de regra ele a desconhece. (JUNG, 1991 § 491)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A personalidade consciente do indivíduo&nbsp;é o que apenas se consegue alcançar sobre si mesmo. Isso empobrece as relações, nos afasta ou nem sequer nos deixa saber qual é nosso propósito e nosso lugar no mundo. Somo engolidos por uma avalanche de desejos externos e impróprios a nós mesmos que assumimos com pessoais e veja só: brigamos por eles! É um “conhecimento muito restrito na maior parte das vezes, dependente de fatores sociais&#8221; (JUNG, 1991 § 492).&nbsp;</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Hoje vivemos só no mundo de fora, somos concretos, objetivos e literais com uma capacidade de simbolização empobrecida o que dificulta alcançar a riqueza e a profundidade do mundo de dentro. Temos medo, queremos controlar este desconhecido mundo. Estamos presos em um universo que promete uma tecnologia capaz de resolver as mais complexas questões da vida, que desenvolve robôs capazes de capaz de imitar as emoções humanas. Continua aqui o paradoxo criador e criatura. Homens e máquinas, emoções clonadas e a perda e o afastamento diário da nossa capacidade humana de sermos apenas humanos e empáticos com nossos semelhantes. Afinal quem são estes? E quem somos nós?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Deixo aqui um poema de Fernando Pessoa, para acalantar a alma!</p>



<p>Para onde vai a minha vida, e quem a leva?</p>



<p>Por que faço eu sempre o que não queria?</p>



<p>Que destino contínuo se passa em mim na treva?</p>



<p>Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?</p>



<p>O meu destino tem um sentido e tem um jeito,</p>



<p>A minha vida segue uma rota e uma escala</p>



<p>Mas o consciente de mim é o esboço imperfeito</p>



<p>Daquilo que faço e sou: não me iguala</p>



<p>Não me compreendo nem no que, compreendendo, faço.</p>



<p>Não atinjo o fim ao que faço pensando num fim.</p>



<p>É diferente do que é o prazer ou a dor que abraço.</p>



<p>Passo, mas comigo não passa um eu que há em mim.</p>



<p>Quem sou, senhor, na tua treva e no teu fumo?</p>



<p>Além da minha alma, que outra alma há na minha?</p>



<p>Por que me destes o sentimento de um rumo,</p>



<p>Se o rumo que busco não busco, se em mim nada caminha</p>



<p>Senão com um uso não meu dos meus passos, senão</p>



<p>Com um destino escondido de mim nos meus atos?</p>



<p>Para que sou consciente se a consciência é uma ilusão?</p>



<p>Que sou entre quê e os fatos?</p>



<p>Fechai-me os olhos, toldai-me a vista da alma!</p>



<p>Ó ilusões! Se eu nada sei de mim e da vida,</p>



<p>Ao menos eu goze esse nada, sem fé, mas com calma,</p>



<p>Ao menos durma viver, como uma praia esquecida…&#8221;</p>



<p>Gilmara Marques Fadim Alves &#8211; Membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p>Maria Cristina Mariante Guarnieri &#8211; Analista didata</p>



<p><strong>Referê</strong><strong>ncias bibliogr</strong><strong>áficas</strong></p>



<p>EDINGER, Edward F.&nbsp;<em>A Psique na Antiguidade. Livro Um.&nbsp;</em>1ª ed., São Paulo, SP. Ed. Cultrix, 2005.</p>



<p>________.&nbsp;<em>A Criação da Consciência.&nbsp;</em>1ª ed., São Paulo, SP. Ed. Cultrix, 1993.</p>



<p>JUNG, C. G.&nbsp;<em>O Eu e o Inconsciente</em>. 9ª ed., Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 2006, Vol. VII/2.</p>



<p>________.&nbsp;<em>O Homem e seus Símbolos</em>. 15ª reimpressão., Rio de Janeiro, RJ. Ed. Nova Fronteira, 1997.</p>



<p>________.&nbsp;<em>Presente e Futuro.&nbsp;</em>3ª ed., Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 1991, Vol. X/1.</p>



<p>NETO, Henrique N.&nbsp;<em>Filosofia B</em><em>á</em><em>sica</em>. 3ª ed., São Paulo, SP. Atual Editora, 1986.</p>



<p>PESSOA, Fernando.&nbsp;<a href="https://www.pensador.com/frase/NTQzMzkx/">https://www.pensador.com/frase/NTQzMzkx/</a></p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-gilmara-alves-30-11-2021"><strong><em>Gilmara Alves &#8211; 30/11/2021</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/autoconhecimento-na-psicologia-analitica/">Autoconhecimento na psicologia analítica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>“Love is in the air”: uma leitura junguiana do amor</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/love-is-in-the-air-uma-leitura-junguiana-do-amor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 02 Jun 2021 18:45:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A proposta deste artigo é fazermos uma leitura pela representação do amor no desenvolvimento humano. Como a ideia do amor se instala em nossas vidas, fazendo com que, de forma irrefletida tantas atitudes, dores, decepções, erros e acertos aconteçam? O amor é um sentimento delicado e ao mesmo tempo forte e profundo, o que o torna difícil de se entender. Ele é muito estigmatizado. Se vive, se morre e dizem que até mesmo, se mata por amor. Mas por quê?</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Cartas de amor s</em><em>ão escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel. (</em><em><a href="http://pensador.uol.com.br/autor/rubem_alves/">Rubem Alves</a>)</em></p>



<p>Existe várias formas de se falar de amor, de se pensar e de se viver o amor. Ele pode ser visto e entendido sob o prisma do amor conjugal, maternal, fraternal. Nesse mês em que se comemora o dia dos namorados, este artigo pretende tratar do amor que, em seu nome, cria mundos, fantasias, histórias, que une e que separa. O amor e a morte são temas extremamente explorados, na música, no drama, na poesia, e nas mais diversas expressões artísticas! Por todos estes meios, o amor é retratado, ora como belo, suave, sucinto e sublime, ora como castigo, prisão, loucura e enganação. Uns vivem por amor, outros morrem por amor e outros ainda, justificam que matam em nome do amor.</p>



<p>Mas qual seria a melhor definição para o amor, se é que amor se define? O amor, por sua existência é paradoxal, e, portanto, é difícil de se definir e explicar em poucas palavras o mais altivo dos sentimentos vividos por nós, humanos. Este sentimento pelo qual se morre e se mata, nasceu onde? Como esta ideia, da necessidade e da busca do ser amado, se estabeleceu nos seres humanos? Existem inúmeras visões e versões, mas vou abordar aqui uma visão narrada por Junito de Souza Brandão no mito do nascimento dos heróis, contada por Platão, no Banquete.</p>



<p>A narrativa mítica nos conta que há muito tempo, a terra era habitada por homens, mulheres e por um tipo de ser que possuía em si mesmo os dois gêneros (feminino e masculino), chamados andróginos. Este eram seres grandes e fortes. Dando-se conta do suposto poder que seu corpo lhe proporcionava e revoltados contra a supremacia dos deuses, entenderam que poderiam dominar a terra. Para tanto, resolveram escalar o Olimpo, desafiando assim os deuses e provocando a sua ira. Zeus, ao se deparar com tamanha hybris, decidiu então castigar estes seres, e assim o fez. Os dividiu em dois e virou seus rostos para lados opostos, fazendo com que olhassem para a marca do corte, o umbigo, o que os forçou a se tornarem mais humildes e menos perigosos.</p>



<p>Além disso, como resultado desta ação, estes seres tornaram-se seres humanos incompletos e carentes. A partir daquele momento, passaram a ter que buscar pelo mundo “a sua outra parte” para se “re-unir” a um lado que foi perdido. Conta ainda o mito, que os andróginos, além de serem formados pelos gêneros masculino e feminino eram também formados por somente homens e somente mulheres, o que na mitologia, explica a união de pessoas do mesmo sexo. Sobre o mito, Brandão (1997) conclui: “<strong>O amor tenta recompor a natureza primitiva, fazendo de dois um só, e, desse modo, restaurar a antiga perfeição</strong>.” (BRANDÃO, 1997, pag. 35)</p>



<p>Esta história nos convida a uma reflexão sobre a função do amor para o desenvolvimento da consciência da humanidade. <strong>Jung </strong>(2006) postula em suas obras que <strong>onde há amor não há poder e onde o poder impera não existe o amor</strong>. Pela lógica, o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder. Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros. (JUNG, 2006 § 78)– psicologia do ics.</p>



<p>Esta foi, de acordo com a narrativa, a primeira lição de Zeus para os possíveis invasores. Ao invadir o Olimpo e dominar a terra, o desejo era de poder. Não havia ali, um olhar de alteridade e de empatia. O fato de o ser humano ter que se tornar mais humilde e menos “perigoso”, como quis ensinar Zeus na narrativa, nos remete à ideia de que na soberba, não conseguimos ter pelo outro o devido apreço e respeito, o que corrobora com a visão de amor e poder trazida por Jung. Ao serem separados pela força divina, por um corte no umbigo estes seres são obrigados agora a baixarem a cabeça, de costas um para o outro e olharem a marca deixada por esta separação.</p>



<p>As separações são, por vezes, responsáveis por dores, os assim chamados “separados” se perdem e seus olhares não mais apontam um para o outro, não pertencem mais à mesma configuração. Quase que compulsoriamente se veem forçados a olhar para sentidos opostos, para novos horizontes. As cicatrizes são marcas que não deixam que os eventos traumáticos sejam esquecidos. Servem de memória emocional para o corpo. O fato de estas marcas estarem no umbigo também é bastante simbólico. Conforme Chevalier, o umbigo (ou ônfalo) está relacionado com o centro.</p>



<p>Em diversas mitologias e religiões, ele possui este significado, podendo ser compreendido desde o centro do universo até o centro do microcosmo humano, como na Ioga &#8211; “A concentração espiritual se faz sobe o umbigo, imagem <em>do retorno ao centro</em>” (CHEVALIER, 1982, pag.659). Talvez, não por acaso, na literatura, <strong>Luís de Camões</strong>, em seu Soneto 11, de 1598, também cita o amor como um sentimento que remete ao fato de estar envolvido pela marca de uma ferida, que dói, sem doer&#8230;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Amor é fogo que arde sem se ver,<br><strong>é ferida que dó</strong><strong>i, e n</strong><strong>ã</strong><strong>o se sente</strong>;<br>é um contentamento descontente,<br><strong>é dor que desatina </strong><strong>sem</strong><strong> doer</strong>.<a href="#_edn1" id="_ednref1">[1]</a></p>
</blockquote>



<p>Ao olhar para sua cicatriz, para o umbigo, o novo ser que foi criado nesta cisão, lembra de uma falta. Se sua atitude é a de paralisar e se apegar à marca e não buscar o que lhe foi tirado, caímos no que a sabedoria popular nos conta: que “pessoas egoístas só olham para o próprio umbigo – parece que tem o rei na barriga”, isso nos traz também o entendimento de que para sermos inteiros e completos não podemos parar na cisão, nas marcas. Esta vivência arquetípica precisa ser ressignificada e a busca do sentido deste marco no desenvolvimento humano, é que vai trazer contorno e sentido para a vida, assim como para o amor.&nbsp; Olhar para nossas dores e nossas marcas e reconhecer nossas fraquezas nos aproxima e nos torna semelhantes, afinal a “dor” do amor é um sentimento de todos. É universal.</p>



<p>E quanto a estes seres que foram apartados e que precisam agora se encontrar pelo mundo? Os andróginos têm um valor simbólico importante para o entendimento da criação do homem, bem como da sua consciência. Chevalier (1982) define o andrógino como símbolo de unidade, como a figuração antropomórfica do ovo cósmico.</p>



<p>Um produz dois, diz o <em>Tao</em>, e é assim que o Adão primordial, que não era macho e sim andrógino, se converte em Adão e Eva. [&#8230;] Pois o andrógino é muitas vezes representado como um ser duplo, possuindo a um só tempo os atributos dos dois sexos, ainda unidos, mas a ponto de separar-se. (CHEVALIER, 1982, pag. 52)</p>



<p>Ainda em Chevalier, a imagem deste ser remete ao tornar-se um, a um estado inicial que deve ser reconquistado. Na narrativa, esse é o castigo, encontrar e conquistar sua outra parte, e o que fica em cada um é a imagem perdida do outro. Voltamos aqui para Jung. Ele nos fala de dois arquétipos no inconsciente coletivo, que representam a imagem interna do feminino no homem e a imagem interna do masculino na mulher. São eles a anima e o animus. Ao se referir a estas representações psíquicas, Jung chama a atenção para o “&#8230;reconhecimento psicológico da existência de um complexo psíquico semiconsciente, cuja função é parcialmente autônoma” (JUNG, 2006a § 302)</p>



<p>No processo de crescimento e desenvolvimento, as imagens de anima e animus vão tomando contorno.  Em “AION – Estudos Sobre o Simbolismo do Si-mesmo”, Jung nos fala que, sendo a anima e o animus arquétipos do inconsciente coletivo, eles se formam a partir das vivências que cada indivíduo tem com a figura parental do sexo oposto e que se projetam nas relações. Eles têm como função, mediar a consciência e o inconsciente, pois desta forma, caso exista uma possibilidade de reflexão, cada sexo pode compreender melhor o que se passa como o outro, caso contrário, o jogo de projeções apenas se fortalece, afastando cada vez mais a representação arquetípica da consciência, e consequentemente, afastando também, homens e mulheres e trazendo para a relação uma série de conflitos. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">“&#8230;é mais difícil conscientizar-se das próprias projeções do par animus-anima, do que reconhecer seu lado sombrio.” (JUNG, 1988, §35). </p>
</blockquote>



<p>Isso porque o arquétipo é anterior e muito forte. O caminho para lidar com este jogo de projeções é observar, sonhos e manifestações nas imaginações ativas. Estes recursos transmitem á consciência informações sobre a manifestação do arquétipo, podendo facilitar a sua compreensão e integração na personalidade.  Ainda em Aion. Jung comenta “&#8230;embora os conteúdos da anima e do animus possam ser integrados, a própria anima e o próprio animus não o podem, porque são arquétipos” (JUNG, 1988, §40)</p>



<p>Voltando então à narrativa mítica, quando a proposta da separação é de que as partes precisam se encontrar, cabe aqui a reflexão de que estas ditas partes não estão fora, mas dentro do próprio indivíduo. Parece que não seremos mais unificados se não nos juntarmos fisicamente a outro, mas não é isto que na verdade a proposta mítica nos revela. Teremos que encontrar em nós mesmos esta parte que nos falta.  O que resta agora, depois de castigados e separados, é resgatar dentro de nossa unidade psíquica o que entendemos que nos falta, aquilo que nos completa.</p>



<p>Talvez aqui caiba o erro clássico, de nos relacionamentos buscar a nossa “alma gêmea”, assim como, dito no início do texto, matar por amor, morrer por amor e toda sorte de loucuras que se faz em nome dele. Trata-se de uma necessidade que não sabemos nominar e materializar, pois é absolutamente interna e profunda. Quantos sofrimentos em nome do amor! Por vezes, não é mesmo dolorida a busca e os desencontros do amor? Se pensarmos no mito, isso faz todo o sentido, uma vez que esta incompletude equivale a um castigo.</p>



<p>É um caminho da vida, do amadurecimento e do autoconhecimento nos compreendermos como seres completos, caso contrário o jogo de projeções dominará e a tendência é que o outro tenha em nossa vida o sentido de nos completar. Que peso, não? Com isso, além de fortalecer a nossa dependência e incapacidade de lidar com nossas próprias questões e vulnerabilidades, também impedimos que nosso par possa trazer para nós a sua presença, como ser completo que também é. Fica impossível nos permitir dar e receber, por meio da relação, a leveza de estar juntos para dividir e compartilhar sonhos, desejos e nossa essência.</p>



<p>O ponto de partida nesta jornada, somos nós mesmos! Nunca o outro. Se isto não fica claro, entramos em uma relação amorosa com uma visão destorcida sobre o que são as nossas necessidades e esperamos do outro algo que provavelmente nunca teremos e daí, quem decepciona quem? Sempre, em todo tipo de relação nós somos o início do processo. Não façamos conosco o mesmo que Zeus fez: nos mutilar e quebrar a nossa unicidade para procurá-la fora de nós mesmos! O amor, portanto, tem uma função fundamental no nosso desenvolvimento enquanto pessoas em constante evolução. Pensar que vamos precisar de outra pessoa para que sejamos completos é delegar para qualquer outro, desconhecido, o profundo e sensível cuidado da nossa alma.</p>



<p>Por fim, este é um assunto que não termina, muito pelo contrário, ele só abre portas para pensarmos em nós e em como estamos conduzindo este tema em nossas vidas. Por isso, fica a provocação – <strong>dá para entender o amor</strong>? Sei lá. Dá para talvez tentar explicar, mas o bom mesmo do amor é viver&#8230; “Felizes (consigo mesmo) para sempre”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia">Bibliografia:</h2>



<p>BRANDÃO, Junito de Souza. <em>Mitologia Grega. </em>7ª ed., Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 1997, Vol. III.</p>



<p>CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Alain. <em>Dicion</em><em>á</em><em>rio de S</em><em>í</em><em>mbolos. </em>11ª ed., Rio de Janeiro, RJ. Ed. José Olympio, 1997.</p>



<p>JUNG, C. G.. <em>Aion &#8211; Estudos Sobre o Simbolismo do Si-mesmo. </em>2ª ed.,</p>



<p>Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 1988, Vol. IX/2.</p>



<p>________. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 9ª ed., Petrópolis, RJ. Ed. Vozes, 2006a, Vol. VII/2.</p>



<p>________. <em>Psicologia do Inconsciente. </em>9ª ed., Petrópoli, RJ. Ed. Vozes, 2006b, Vol. VII/1.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a id="_edn1" href="#_ednref1">[1]</a> https://www.culturagenial.com/poema-amor-e-chama-que-arde-sem-se-ver-de-luis-vaz-de-camoes/ (Grifos meus)</p>



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