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	<title>Luiza de Oliveira Burger, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Fri, 08 May 2026 14:16:08 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Luiza de Oliveira Burger, Autor em Blog IJEP</title>
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		<title>A invalidação do feminino &#8211; Uma leitura simbólica através do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luiza de Oliveira Burger]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2026 13:24:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre a invalidação do feminino a partir do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia. Mais do que analisar personagens míticas ou literárias, o texto busca compreender como determinadas imagens arquetípicas atravessam o tempo e se atualizam na psique contemporânea, revelando dinâmicas internas que ainda influenciam a forma como muitas mulheres se relacionam. À luz da psicologia analítica, a proposta é investigar de que modo o arquétipo da donzela pode tanto aprisionar quanto iniciar processos de transformação.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-que-o-mito-de-persefone-e-a-personagem-ofelia-criada-por-shakespeare-tem-em-comum" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre a invalidação do feminino a partir do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia. Mais do que analisar personagens míticas ou literárias, o texto busca compreender como determinadas imagens arquetípicas atravessam o tempo e se atualizam na psique contemporânea, revelando dinâmicas internas que ainda influenciam a forma como muitas mulheres se relacionam. À luz da psicologia analítica, a proposta é investigar de que modo o arquétipo da donzela pode tanto aprisionar quanto iniciar processos de transformação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-o-mito-de-persefone-e-a-personagem-ofelia-criada-por-shakespeare-tem-em-comum" style="font-size:18px">O que o mito de Perséfone e a personagem Ofélia criada por Shakespeare têm em comum?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-ambas-sao-exemplos-de-invalidacao-do-feminino-em-detrimento-de-um-masculino-abusador-um-masculino-que-acredita-ser-soberano-e-capaz-de-decidir-sobre-o-destino-dessas-mulheres-mais-do-que-elas-proprias" style="font-size:18px">Ambas são exemplos de invalidação do feminino em detrimento de um masculino abusador, um masculino que acredita ser soberano e capaz de decidir sobre o destino dessas mulheres mais do que elas próprias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não temos como precisar como, quando e onde nasceu o mito de Perséfone. Já a história de Ofélia é retratada no final do século XVI. Mas quantas Ofélias e Perséfones encontramos até hoje incapazes de cuidar do próprio destino e tomar suas próprias decisões?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-mito-core-era-a-filha-de-demeter-e-zeus-retratada-como-uma-menina-ingenua-que-vivia-sob-a-influencia-da-mae-mae-e-filha-viviam-como-se-numa-simbiose-prolongada" style="font-size:18px">No mito, <strong>Coré</strong> era a filha de Deméter e Zeus, retratada como uma menina ingênua que vivia sob a influência da mãe. Mãe e filha viviam como se numa simbiose prolongada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Até que um dia, Hades, guardião do submundo, tio de Coré e irmão de Zeus, decide raptar a sobrinha, com anuência do pai, e levá-la para morar com ele, obrigando-a a abandonar sua vida. Ao lado de Hades, Coré vira rainha do submundo e passa a se chamar Perséfone. O mito conta que depois de comer sementes de romã, ela fica presa no reino dos mortos sem poder voltar definitivamente para sua vida de outrora, e passa a se revezar entre o mundo dos vivos e dos mortos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por mais que o mito também possa ser analisado como uma representação simbólica da transformação de Core para Perséfone e sua libertação de um complexo materno negativo, que permitiu que ela descobrisse um outro lado de sua personalidade sem as amarras de uma mãe superprotetora, não podemos desconsiderar que se trata de uma violação da vontade do feminino e de um pacto patriarcal. <strong>Coré</strong> teve seu destino traçado pelo tio e pelo pai.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mito-fala-da-transformacao-de-uma-donzela-ingenua-de-certa-forma-aprisionada-nos-cuidados-da-mae-para-uma-rainha-poderosa-do-submundo-mas-a-pergunta-que-fica-e-core-teria-feito-essa-escolha-se-o-seu-poder-de-decisao-nao-tivesse-sido-violado" style="font-size:18px">O mito fala da transformação de uma donzela ingênua, de certa forma aprisionada nos cuidados da mãe, para uma rainha poderosa do submundo. Mas a pergunta que fica é: <strong>Coré teria feito essa escolha se o seu poder de decisão não tivesse sido violado</strong>?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Ofélia teve um destino parecido, porém mais trágico</strong>. Ela vivia com o pai, Polônio, e o irmão. Uma mulher doce e pura que se apaixona por Hamlet, que também demonstra ter apreço por ela. Quando o pai e o irmão percebem seu interesse por Hamlet a convencem de que ela jamais conseguiria se casar com ele, visto que ele era o príncipe herdeiro da Dinamarca, e ela de uma família simples. Era preciso deixar esse amor de lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, o pai não se incomodou em usar a aproximação dos dois para descobrir o que Hamlet tramava contra o rei (seu tio que ocupou essa posição ao se casar com sua mãe após o assassinato do pai). Polônio combina com o rei de provocar um encontro entre Ofélia e Hamlet para que ela tentasse descobrir quais eram os seus planos. Enquanto isso, eles ficariam escondidos ouvindo a conversa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hamlet percebe a armação, fica com raiva, e trata Ofélia mal, como se entre eles nunca tivesse havido nenhum sentimento. Ele passa a ignorar a moça e, num momento de raiva e desprezo, chega a sugerir que Ofélia vá para o convento e se torne freira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Logo depois, Polônio é assassinado, por engano, por Hamlet, que acreditava estar matando o rei. Por ordem do rei, ele é enviado para a Inglaterra e Ofélia perde ao mesmo tempo o pai, o homem que amava, e o irmão, que havia saído em missão para outra cidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ofelia-nao-sustenta-tanta-desilusao-e-sucumbe-a-loucura-se-transformando-em-uma-figura-fragil-e-desorientada-que-andava-pela-vila-cantarolando-cancoes-e-distribuindo-flores-ate-que-um-dia-em-uma-de-suas-perambulacoes-ela-cai-em-um-riacho-e-morre-afogada" style="font-size:18px">Ofélia não sustenta tanta desilusão e sucumbe à loucura, se transformando em uma figura frágil e desorientada que andava pela vila cantarolando canções e distribuindo flores. Até que um dia, em uma de suas perambulações, ela cai em um riacho e morre afogada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A história deixa o final aberto a intepretações. Não se sabe se Ofélia se suicida ou se foi um acidente. Mas não importa. Seu destino é resultado das decisões de figuras masculinas presentes em sua vida. Ela teve seus sentimentos invalidados, foi manipulada pela família e ridicularizada pelo homem que amava.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ofelia-e-persefone-como-dinamica-psiquica" style="font-size:20px"><strong>Ofélia e Perséfone como dinâmica psíquica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Perséfone e Ofélia são imagens arquetípicas que podem representar o arquétipo da donzela</strong>. De um lado, o frescor da juventude, a abertura para o novo e a curiosidade, e de outro, a passividade e a inocência que faz com que sejam facilmente manipuladas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-para-jung-o-conceito-de-arquetipo-indica-a-existencia-de-determinadas-formas-na-psique-que-estao-presentes-em-todo-tempo-e-em-todo-lugar-jung-2014-p-51-eles-representam-padroes-universais-de-comportamento-e-podem-influenciar-nossos-pensamentos-emocoes-de-forma-inconsciente" style="font-size:18px">Para Jung, o conceito de arquétipo indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar (JUNG, 2014, P.51). Eles representam padrões universais de comportamento e podem influenciar nossos pensamentos, emoções de forma inconsciente.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de apreensão que se repetem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer reconheçamos ou não o seu caráter mitológico. (JUNG, 2013, P.81)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sendo assim, Perséfone e Ofélia não são apenas personagens de livros ou de narrativas mitológicas, elas representam uma dinâmica psíquica que se repete e atravessa gerações. Por isso, é tão fácil observar comportamentos e dinâmicas parecidas em mulheres que conhecemos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado obtém-se as estruturas básicas da psique humana através da grande quantidade de material cultural. (VON FRANZ, 2022, P.35)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O arquétipo da donzela não é apenas sinônimo de submissão ou invalidação, mas contém potencialidades para tal. Quando essas disposições se apresentam em determinados contextos sociais, podem assumir a forma de passividade e silenciamento. O que se repete não é o mito literal, mas a atualização simbólica de uma estrutura psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ofelias-e-persefones-em-nos-e-entre-nos" style="font-size:21px"><strong>Ofélias e Perséfones em nós e entre nós</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>É fácil identificarmos entre nós mulheres que vivem a mesma dinâmica narrada nas histórias de Perséfone e Ofélia.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quantas mulheres vemos abrindo mão de suas vidas e de suas histórias para viver a partir das expectativas de seus parceiros? Largam suas carreiras, mudam a forma de se vestir, renunciam às amizades, passam a considerar inapropriado aquilo que antes era motivo de felicidade e começam a questionar sua própria capacidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em algumas culturas, por exemplo, ainda é comum que os pais escolham os maridos para suas filhas através de casamentos arranjados, onde a mulher é vista como uma conveniência tanto para o pai quanto para a família do marido que vai recebê-la. Em outras, a influência negativa do pai pode não ser tão radical quanto um casamento arranjado, mas pode se apresentar, por exemplo, numa escolha profissional não reconhecida e aceita por esse pai.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As taxas absurdas de feminicídio também estão aí para mostrar que os homens continuam não aceitando as escolhas das mulheres, como se suas vidas e histórias pertencessem a eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-mas-aqui-nao-estamos-falando-apenas-de-homens-concretos-mas-tambem-de-uma-dinamica-patriarcal-internalizada-presente-tambem-nas-proprias-mulheres-muitas-vezes-nao-precisamos-de-um-algoz-quando-nos-mesmas-desempenhamos-esse-papel-em-nossas-vidas-um-mergulho-nas-profundezas" style="font-size:18px">Mas aqui não estamos falando apenas de homens concretos, mas também de uma dinâmica patriarcal internalizada, presente também nas próprias mulheres. Muitas vezes não precisamos de um algoz quando nós mesmas desempenhamos esse papel em nossas vidas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-mergulho-nas-profundezas" style="font-size:21px">Um mergulho nas profundezas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mergulho nas profundezas, quando é uma decisão própria, pode marcar a passagem da donzela inconsciente para uma mulher que participa ativamente da sua própria transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se nas narrativas descritas acima a descida ao inconsciente acontece por imposição externa, no plano psíquico ela pode se tornar um movimento voluntário de integração da própria sombra e de ampliação da consciência, permitindo integrar os aspectos da donzela sem permanecer aprisionada a eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, a sensibilidade deixa de significar fragilidade e passa a ser intuição e a abertura para as relações e a receptividade deixam de ser dependência e passividade e se transforma em vínculo consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A donzela não precisa ser negada nem superada, mas integrada como dimensão da psique feminina, sustentada por discernimento, limites e autoridade interna. Dessa forma, a descida não é mais vista como invasão, mas iniciação escolhida, encontro consigo mesma. A donzela deixa de ser aquela que somente é levada para se tornar a mulher que caminha com as próprias pernas e escolhe o seu caminho.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/">Luiza de Oliveira Burger – Membro Analista em formação/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf – Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-r-eferencias" style="font-size:18px"><strong>R</strong>eferências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, MARIE – Louise von. A interpretação dos contos de fada. São Paulo: Paulus, 2022</p>



<p class="wp-block-paragraph">LACERDA, Rodrigo. Hamlet ou Amleto? São Paulo: Zahar,2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PACIORNIK, Francis. Despertando suas Deusas. Ebook.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<item>
		<title>De Maria a Kali &#8211; A sombra materna e o adoecimento psíquico das mães</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/repressao-da-sombra-na-maternidade-e-o-sofrimento-psiquico-das-maes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiza de Oliveira Burger]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Dec 2025 13:31:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: A proposta desse artigo é analisar como a repressão dos aspectos sombrios da maternidade tem contribuído para o adoecimento psíquico das mulheres. A partir da oposição simbólica entre Maria, representando o aspecto luminoso da maternidade (devoção, doçura, aceitação) e Kali, representando a dualidade, a força destrutiva e transformadora do feminino, vamos analisar como a [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: A proposta desse artigo é analisar como a repressão dos aspectos sombrios da maternidade tem contribuído para o adoecimento psíquico das mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir da oposição simbólica entre Maria, representando o aspecto luminoso da maternidade (devoção, doçura, aceitação) e Kali, representando a dualidade, a força destrutiva e transformadora do feminino, vamos analisar como a cultura ocidental estimula uma identificação unilateral das mulheres com o ideal da mãe perfeita, reforçada por fatores religiosos, culturais e históricos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tal-identificacao-exclui-os-aspectos-sombrios-da-maternidade-como-a-raiva-a-exaustao-o-desejo-de-autonomia-trazendo-muitas-vezes-sofrimento-psiquico-para-as-mulheres" style="font-size:19px">Tal identificação exclui os aspectos sombrios da maternidade, como a raiva, a exaustão, o desejo de autonomia, trazendo, muitas vezes, sofrimento psíquico para as mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O reconhecimento e a integração dos aspectos luminosos e sombrios da maternidade podem representar uma via de cura e reconciliação do feminino e permitir alcançar uma maternidade mais autêntica e libertadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-sabido-que-o-papel-da-mulher-na-sociedade-vem-mudando-ao-longo-do-tempo-mas-e-as-maes-sera-que-as-expectativas-em-relacao-a-maternidade-acompanharam-toda-essa-mudanca" style="font-size:19px">É sabido que o papel da mulher na sociedade vem mudando ao longo do tempo. Mas e as mães? Será que as expectativas em relação à maternidade acompanharam toda essa mudança?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se fizermos uma breve pesquisa histórica vamos descobrir que esse modelo idealizado de maternidade, onde a mãe deve abrir mão de tudo em detrimento dos filhos (e sem ressentimentos!) nem sempre foi assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-passado-nem-tao-distante-por-volta-de-xviii-os-filhos-nao-eram-a-prioridade-da-familia-e-muito-menos-ocupavam-lugar-de-destaque" style="font-size:19px">Num passado nem tão distante, por volta de XVIII, os filhos não eram a prioridade da família e muito menos ocupavam lugar de destaque.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Era muito comum, por exemplo, nas famílias de melhor poder aquisitivo as crianças morarem com amas de leite durante os primeiros anos. Muitas delas nem eram visitadas pelos pais até que chegasse a hora de retornarem para suas casas, quando já tinham sobrevivido às dificuldades dos primeiros anos de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Já nas famílias mais pobres, os filhos eram vistos como mão de obra e eram colocados para trabalhar tão logo fosse possível, a fim de contribuir para o sustento da família.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com a revolução industrial, a configuração das famílias passou por algumas mudanças. Se antes homens e mulheres ocupavam as lavouras ou comércios, agora eles ocupariam as fábricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No entanto, com o pós-guerra, houve uma pressão social para que os homens retomassem os empregos nas fábricas e as mulheres ocupassem os lares, com a desculpa de que o serviço era pesado demais para elas e que sua &nbsp;natureza se adequava melhor aos serviços domésticos. Porém, de pano de fundo, o objetivo era resgatar o masculino tão sacrificado nas guerras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante desse cenário, os pais foram se distanciando cada vez mais das tarefas relacionadas aos filhos. E as mulheres, por sua vez, foram abrindo mão de ocupar outros espaços na sociedade para se dedicarem ao lar e à educação da prole.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Alguns historiadores também atribuem a Rousseau o início da mudança do olhar sobre a maternidade com a publicação do livro Emilio ou Da Educação, em 1762. Apesar de ser um relato fictício sobre a educação de um menino, ele questionou as práticas familiares vigentes, ressaltando, por exemplo, a importância da amamentação pela mãe, e fazendo uma crítica às mães que não tinham os filhos como prioridade. As ideias de Rousseau se espalharam, atraíram a atenção popular e provocaram discussões na sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-igreja-catolica-tambem-contribuiu-bastante-para-a-configuracao-do-papel-das-mulheres-na-sociedade" style="font-size:19px">A igreja católica também contribuiu bastante para a configuração do papel das mulheres na sociedade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Embora a proclamação da assunção de Maria tenha sido declarada apenas em 1950, a figura da mãe de Jesus sempre foi vendida pela igreja como digna de inspiração. Maria, a virgem sem pecados, a que doou a vida pelo filho, a que nunca questionou seu destino, nem mesmo quando no mito o anjo aparece anunciando que ela tinha sido escolhida para ser mãe de uma criança divina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Maria sempre é retratada com o filho nos braços, olhar calmo e sereno, como num momento de felicidade plena</strong>. Um modelo bastante repressor para as mães, que devem ser devotadas, assim como Maria, e capaz de enormes sacrifícios.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O menino Jesus jamais foi pintado chorando ou com a cabeça caída para trás. Sua mãe nunca teve uma aparência irritada ou cansada. Ninguém jamais pintou Maria nos afazeres prosaicos da maternidade: dando banho, alimentando ou vestindo Jesus. Nossa Senhora e o menino Jesus estão congelados na eternidade de um momento relativamente raro da mãe com o bebê.</p><cite>FORNA, 1999, p.18</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-materna" style="font-size:22px"><strong>A sombra materna</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">As mães foram aos poucos moldando-se às expectativas da sociedade para a sua própria maternagem, ficando identificadas apenas com o lado luminoso, seja por imposição social ou por falta de conhecimento dos seus próprios sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao longo das gerações, aprenderam que não podem expressar sentimentos ambivalentes. Amar e, ao mesmo tempo, desejar distância, cuidar e desejar tempo para si, sentir gratidão e raiva. Tudo isso é vivido em silêncio, sob o peso da culpa, criando um terreno fértil para o sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E para onde vão todos esses sentimentos reprimidos, tudo aquilo que as mães não são autorizadas a sentir e a manifestar para estarem de acordo com o papel que tem sido atribuído a elas?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esses conteúdos ficam na sombra que, para Jung, são os aspectos reprimidos ou desconhecidos da personalidade, onde também estão os conteúdos considerados impróprios socialmente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><a>A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade.</a></p><cite><a>JUNG, 2013, p.19</a></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando Jung descreve os traços essenciais do arquétipo materno, fala dos aspectos luminosos e sombrios presentes em cada mãe: bondade nutritiva e dispensadora de cuidados, emocionalidade orgástica e sua obscuridade subterrânea (Cf. JUNG, 2014, p. 88). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aspectos-presentes-em-todas-as-maes-e-que-a-rigor-nao-deveriam-ser-suprimidos" style="font-size:19px">Aspectos presentes em todas as mães e que, a rigor, não deveriam ser suprimidos.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Seus atributos são o “maternal”: simplesmente a mágica autoridade do feminino; a sabedoria e a elevação espiritual além da razão; o bondoso, o que cuida, o que sustenta, o que proporciona as condições de crescimento, fertilidade e alimento; o lugar de transformação mágica, do renascimento; o instinto e o impulso favoráveis; o secreto, oculto, o obscuro, o abissal, o mundo dos mortos, o devorador, sedutor e venenoso, o apavorante e fatal.</p><cite>JUNG, 2014, p.158</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa dualidade é essencial para a compreensão do arquétipo: a mãe é simultaneamente fonte de vida e de morte simbólica, acolhimento e ameaça, alimento e limite.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A idealização da maternidade representa uma identificação com a persona da mãe perfeita e uma repressão do aspecto sombrio do arquétipo. Ao negar os conteúdos que se contrapõem à imagem ideal, o cansaço, a raiva, a ambivalência, o desejo de ser mais do que somente mãe, a mulher rompe com a totalidade de sua psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O resultado disso é a manifestação de sintomas como culpa, exaustão, ansiedade, depressão e muitos outros. Para Jung, “aquilo que tiver sido reprimido, voltará a manifestar-se em outro lugar e sob uma forma modificada, mas dessa vez carregada de um ressentimento que transforma o impulso natural, em si inofensivo, em nosso inimigo” (JUNG, 2013 p.41.).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-maria-e-kali-o-drama-da-maternidade-contemporanea" style="font-size:22px"><strong>Maria e Kali – o drama da maternidade contemporânea</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse sentido, a deusa hindu Kali seria melhor representante dos aspectos duais da maternidade do que Maria. Kali é descrita como destruidora e sanguinária, mas também como força regeneradora e libertadora. Para muitas tradições tântricas, aproximar-se de Kali significa confrontar a própria sombra e, ao mesmo tempo, ser acolhido por uma dimensão radical de amor e liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se Maria simboliza o amor incondicional e a doação, Kali representa a potência que corta o que precisa morrer para que o novo surja. Ambas podem ser consideradas expressões complementares do mesmo princípio materno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre Maria e Kali se apresenta o drama psíquico da maternidade contemporânea. De um lado, a mãe santa, que tudo suporta e de outro, a mãe instintiva, que sente raiva, medo e desejo e que age muitas vezes de forma violenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando a cultura valoriza apenas o aspecto luminoso, a psique reage projetando a sombra reprimida, seja nas outras mulheres, vistas como mães ruins, seja em sintomas físicos e emocionais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-lembra-que-a-meta-da-individuacao-nao-e-a-perfeicao-mas-a-totalidade-o-equilibrio-entre-luz-e-sombra" style="font-size:19px">Jung lembra que a meta da individuação não é a perfeição, mas a totalidade, o equilíbrio entre luz e sombra.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Significa reconhecer em si tanto Maria quanto Kali: a ternura e a fúria, o amor e a destruição, o cuidado e o limite.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O objetivo da individuação não é o homem perfeito, mas o homem completo com sua luz e sua escuridão. O mal, assim como o bem, é dado ao homem juntamente com o dom da vida. Não pode nunca ser completamente vencido, embora o homem tenha a chance de contê-lo, tornando-se cônscio dele e analisando-o. Quanto mais consciente for de suas predisposições para o mal, mais condições terá de resistir às forças destrutivas dentro de si. Em geral, a individuação tem início quando o homem se torna consciente da própria sombra, da escuridão e do mal inconscientes, que são, no entanto, parte integrante da sua totalidade. </p><cite>JAFFÉ, 2021, p. 81</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mulher-que-aceita-sua-sombra-materna-deixa-de-buscar-a-perfeicao-e-passa-a-viver-uma-maternidade-mais-autentica-e-livre-essa-aceitacao-nao-elimina-o-sofrimento-mas-o-ressignifica" style="font-size:19px">A mulher que aceita sua sombra materna deixa de buscar a perfeição e passa a viver uma maternidade mais autêntica e livre. Essa aceitação não elimina o sofrimento, mas o ressignifica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A negação dos aspectos sombrios aprisiona as mulheres em um ideal inatingível de perfeição. O reconhecimento da sombra não destrói o amor materno, o torna mais verdadeiro, porque permite amar sem negar o conflito. Acolher em si as forças ambivalentes tornam possível construir uma maternidade menos idealizada e mais real, uma maternidade viva, transformadora e inteira</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: De Maria a Kali – A sombra materna e o adoecimento psíquico das mães" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/tKf9m7h9sRY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/"><strong>Luiza de Oliveira Burger </strong>– <strong>Membro Analista em formação IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/"><strong>Ana Paula Maluf</strong> – <strong>Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">FORNA, Aminatta. <em>Mãe de todos os mitos. </em>Como a sociedade modela e reprime as mães. Rio<br>de Janeiro: Ediouro,1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JAFFÉ, Aniela.&nbsp;<em>O Mito do Significado na obra de C. G. Jung</em>. 2. ed. São Paulo: Cultrix, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Aion. </em>Estudo Sobre o Simbolismo do Si-mesmo.10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. <em>A sombra em nós. </em>A força vital subversiva. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">ODIER, Daniel. <em>Kālī: mitologia, práticas secretas e rituais.</em> São Paulo: Presságio, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">CHAMUNDACHARYA DAKSINA KALI (Vazel Chamunda Merenzeine)<strong>.</strong> <em>Kālī, adoração e serviço – volume 1.</em> São Paulo: Clube de Autores, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Matrículas abertas: <a style="font-weight: bold;" href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2.png" alt="" class="wp-image-11604" style="width:699px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-1-2-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></figure>
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