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	<title>Mauro Angelo Soave Junior, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 12 Mar 2026 17:01:37 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Mauro Angelo Soave Junior, Autor em Blog IJEP</title>
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		<title>Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2026 16:43:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[amor e sexo]]></category>
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		<category><![CDATA[vício em pornografia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/">Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><em>Resumo:</em><strong><em> </em></strong><em>Vivemos numa época em que o sexo circula com facilidade, imagens se oferecem explicitamente e sem resistência, e o prazer parece ao alcance das mãos facilitado pela projeção das telas. Um excesso de auto estímulo e de facilidades faz com que algo nos encontros reais se perca. Há um esvaziamento de Eros. Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino.</em></p>



<p style="font-size:18px"><em>Num flerte entre a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a filosofia contemporânea de Byung-Chul Han, o texto infere no vício em pornografia como fenômeno psíquico e cultural. Desnudamos Narciso, sombra, anima e projeção como cena imagética para revelar como a excitação compulsiva e compulsória pode coexistir com a dor e desconexão da alma, e o empobrecimento da intimidade (minha e do outro). Um convite para pensar o desejo desejante que se retroalimenta como sofrimento e a tela como extensão projetiva da dor psíquica que aponta o que está oculto no inconsciente.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexo-e-bom-e-muita-gente-gosta" style="font-size:20px">Sexo é bom e muita gente gosta.</h2>



<p style="font-size:18px">O erotismo faz parte da saúde sexual, emocional, mental e afetiva. “Transar”, fazer amor, “pegar alguém” faz parte do cotidiano e não deveria ser um tabu na contemporaneidade. Quando estamos num relacionamento, nos sentimos conectados e desejados, a sexualidade surge como uma linguagem natural da intimidade. Quando fluído e consensual, uma vida sexual ativa ajuda na melhora da autoestima, na reconexão com o prazer e afetos, alivia o estresse, melhora a criatividade e sensação de bem-estar.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Rita Lee</strong>, em sua música <strong>Amor e Sexo</strong>, traz uma reflexão sobre este tema tão desejado, e ressalta com beleza poética a diferença complementar entres esses dois mundos: <strong>Amor é um livro / Sexo é esporte / Sexo é escolha / Amor é sorte</strong>. E se o sexo é esporte, a masturbação surge como braço integrante desta mesma sinfonia. É quando nos tornamos, ao mesmo tempo, amante e amado; em que descobrimos o ritmo do próprio desejo e a autonomia sobre o prazer. Neste autoerotismo saudável, aprendemos a habitar a nossa própria pele antes de nos entregar à pele do outro.</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, é justamente na fronteira entre o conhecer-se e o perder-se que o cenário contemporâneo nos impõe um novo desafio. Quando o toque deixa de ser uma exploração dos sentidos para se tornar um refúgio mecânico diante de uma tela, o que era para ser descoberta pode se transformar em uma perda sombria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-dados-divulgados-pelo-site-pornhub-o-brasil-ocupa-o-4º-lugar-entre-os-paises-que-mais-acessam-conteudo-pornografico-no-mundo-a-frente-aparecem-estados-unidos-mexico-e-filipinas-que-compoem-o-top-tres-global-fonte-correio-brasiliense-2025" style="font-size:18px">Segundo dados divulgados pelo site Pornhub, o Brasil ocupa o 4º lugar entre os países que mais acessam conteúdo pornográfico no mundo. À frente aparecem Estados Unidos, México e Filipinas, que compõem o top três global (Fonte: Correio Brasiliense, 2025).</h2>



<p style="font-size:18px">Se a masturbação pode ser compreendida como ensaio do prazer, a pornografia assume o papel da projeção da fantasia. As imagens oferecem roteiros prontos, intensificam estímulos e prometem facilitar o acesso ao gozo, reorganizando o ritmo do desejo em torno da rapidez, da repetição e da escalada visual. A pornografia permite acessar o inconfessável, a experimentar o prazer indizível, revela aquilo que é mais obscuro e até incompreendido do ser. Estimular-se usando as fantasias pornográficas passa a ser problema quando o consumo se torna compulsivo e interfere na economia psíquica, ao deslocar o erotismo da vivência para uma relação predominantemente imagética e solitária.</p>



<p style="font-size:18px">A compulsão por pornografia é entendida como uma manifestação do Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo (TCSC), caracterizada pelo consumo repetitivo, excessivo e incontrolável de conteúdo pornográfico, resultando em prejuízos significativos para o funcionamento psicológico, social, profissional ou ocupacional da pessoa (WERY; BILLIEUX, 2017). </p>



<p style="font-size:18px">Diferente do uso recreativo, o vício se revela quando o prazer dá lugar a um padrão persistente e fora de controle, onde a vontade de parar não encontra eco na ação, e as horas se perdem na solidão do quarto e no brilho da tela. Essa condição se distancia da ludicidade pelo seu caráter de prisão, e se manifesta na tentativa frustrada de silenciar o hábito, no tempo excessivo e na insistência em um caminho que o próprio indivíduo já reconhece como prejudicial, mas do qual não consegue mais se desviar sozinho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-vez-mais-cedo-criancas-e-adolescentes-entram-em-contato-com-pornografia-impulsionados-pela-facilidade-da-internet-e-ausencia-efetiva-de-barreiras-etarias-no-ambiente-digital" style="font-size:18px">Cada vez mais cedo, crianças e adolescentes entram em contato com pornografia impulsionados pela facilidade da internet e ausência efetiva de barreiras etárias no ambiente digital.</h2>



<p style="font-size:18px">Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil indicam que uma significativa parcela das crianças iniciou o uso da internet aos 6 anos de idade ou antes (CETIC.br, 2023). Essa precocidade amplia a exposição a riscos digitais, entre eles experiências ofensivas ou perturbadoras, relatadas por uma proporção expressiva de usuários entre 9 e 17 anos, conforme apontam os indicadores da pesquisa (CETIC.br, 2023). Nesse contexto, o primeiro contato com a sexualidade tende a ser desassistida e incide com maior frequência sobre meninos. Aquilo que deveria ser sustentado pela família, escola e sociedade no campo da educação sexual é substituído por um acesso clandestino a encenações exageradas, de relações performáticas e esvaziadas de afeto, sem erotismo saudável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-o-consumo-pornografico-adquire-densidade-simbolica-quando-entendido-como-meio-de-projecao-do-inconsciente" style="font-size:18px">À luz da Psicologia Analítica, o consumo pornográfico adquire densidade simbólica quando entendido como meio de projeção do inconsciente.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung (OC 6, §554) define projeção como <em>“um fato inconsciente, não submetido a controle consciente</em>”, um mecanismo pelo qual conteúdos psíquicos são deslocados para objetos externos, passando a ser percebidos como qualidades do outro e não como pertencentes ao próprio sujeito (OC 6; §862). Também afirma que certas projeções “pertencem à esfera da sombra, isto é, o lado obscuro da própria personalidade” (OC 9/2, §19). Importante ressaltar que, para Jung (OC 9/2, §14), “a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-ousamos-dizer-que-quando-a-pornografia-se-torna-a-unica-maneira-possivel-de-se-chegar-ao-orgasmo-dialogamos-com-um-comportamento-narcisista" style="font-size:18px">Então ousamos dizer que, quando a pornografia se torna a única maneira possível de se chegar ao orgasmo, dialogamos com um comportamento narcisista.</h2>



<p style="font-size:18px">Essa provocação se ancora no mito de Narciso que, ao permanecer fixado na contemplação do seu reflexo na água, acaba se afogando em sua projeção. Nesse contexto, a pornografia funciona como uma muleta do autoerotismo, na qual o indivíduo só consegue alcançar o gozo por meio das imagens projetadas nas cenas, deslocando a experiência erótica da relação com o outro para um circuito autorreferenciado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-e-importante-entender-a-especificidade-da-busca-compulsiva-do-tema-pornografico-e-qual-a-simbologia-esta-contida-por-tras-da-cena-pois-ela-oferece-uma-superficie-imagetica-que-acolhe-os-conteudos-sombrios" style="font-size:18px">Por isso é importante entender a especificidade da busca compulsiva do tema pornográfico e qual a simbologia está contida por trás da cena, pois ela oferece uma superfície imagética que acolhe os conteúdos sombrios.</h2>



<p style="font-size:18px">A objetificação do corpo, fantasias agressivas, impulsos de dominação, desejos dissociados do afeto, intensidades pulsionais e tantos outros fetiches encontram neste palco uma forma de expressão deslocada, ou seja, a pessoa é afetada pelas imagens porque algo de sua própria psique foi ali projetada. Entretanto, essa revelação ocorre de modo literal e empobrecido, sem elaboração simbólica, fixada em roteiros repetitivos e estereotipados, reforçando papéis de gênero, violências e ausência de afeto.</p>



<p style="font-size:18px">Para exemplificarmos, segundo dados divulgados pelo site Pornhub, as buscas que apresentam crescimento expressivo são termos como “sexo em grupo” (aumento de 544%), “punheta trans” (488%), “coroa gostosa transando” (442%) e “lésbicas tesoura” (231%) (Fonte: Correio Brasiliense, 2025). Chama atenção que “punheta trans” esteja no topo do campo de pesquisa pois, segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil liderou em 2024 pelo 16º ano consecutivo, os maiores índices globais de assassinatos contra essa população. Grande parte das vítimas são mulheres trans, jovens, negras e nordestinas, e os crimes são marcados por extrema violência (Fonte: CNN Brasil, 2025), ao mesmo tempo que os direitos sociais dessas pessoas estão sempre em fragilidade institucional. Também é interessante observar que o aumento do “conservadorismo” traz a reboque o aumento de buscas de sexo em grupo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-abordar-a-relacao-do-sujeito-com-sua-anima-a-dinamica-psiquica-revela-um-grau-ainda-mais-sensivel-de-complexidade" style="font-size:18px">Ao abordar a relação do sujeito com sua anima, a dinâmica psíquica revela um grau ainda mais sensível de complexidade.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung compreende a anima como o arquétipo da face feminina na psique masculina, cuja função consiste em mediar a relação entre consciência e inconsciente, atuando como ponte entre o mundo interior e a experiência relacional (JUNG, OC 9/2, §27). Ela personifica tendências psicológicas associadas à vida afetiva, à intuição e à sensibilidade, que frequentemente permanecem à margem da personalidade consciente. Quando essa função não encontra reconhecimento e elaboração, a anima tende a ser projetada em figuras externas. A pornografia oferece um campo imagético vasto e incessante, ao apresentar figuras femininas esvaziadas de subjetividade, reduzidas a corpos destinados a submissão da fantasia e do prazer unilateral do outro.</p>



<p style="font-size:18px">Nessa configuração, a <strong>anima</strong> perde sua dimensão simbólica e passa a ser vivenciada como imagem disponível ao consumo, deslocando o erotismo à objetificação. Essa dinâmica encontra um paralelo mítico na ação de Nêmesis, deusa da justa retribuição e do equilíbrio moral, que pune Narciso fazendo com que o amor recusado ao outro retorne sob a forma de um fascínio autorreferido pela própria imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-adverte-que-a-projecao-da-anima-empobrece-gravemente-a-capacidade-de-vinculo-pois-substitui-o-encontro-com-a-alteridade-real-por-uma-relacao-distorcida-na-qual-o-outro-e-apenas-suporte-para-conteudos-inconscientes-nao-elaborados-jung-oc-7-2-339" style="font-size:18px">Jung adverte que a projeção da anima empobrece gravemente a capacidade de vínculo, pois substitui o encontro com a alteridade real por uma relação distorcida, na qual o outro é apenas suporte para conteúdos inconscientes não elaborados (JUNG, OC 7/2, §339).</h2>



<p style="font-size:18px">O erotismo, que em sua dimensão simbólica convoca transformação, risco e reciprocidade, é reduzido a excitação visual controlável, onde tudo está sob o domínio das mãos. A experiência erótica deixa de ser um espaço de encontro e passa a operar como circuito fechado de autoestimulação, no qual o sujeito se relaciona consigo mesmo e com suas projeções.</p>



<p style="font-size:18px">Esse deslocamento convida a uma mudança de perspectiva clínica e teórica. O debate ganha profundidade quando se afasta de diálogos moralizantes e se aproxima do campo simbólico, pois a pornografia revela menos sobre desvios do desejo e mais sobre processos de dissociação entre imagem e corpo vivido, excitação e afeto, fantasia e relação, numa espécie de “afastamento da alma”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-cisao-tambem-se-inscreve-em-uma-ampla-logica-cultural-marcada-pela-hiperexposicao-aceleracao-do-consumo-e-pelo-esvaziamento-da-experiencia-do-outro-como-presenca" style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma ampla lógica cultural, marcada pela hiperexposição, aceleração do consumo e pelo esvaziamento da experiência do outro como presença.</h2>



<p style="font-size:18px">É nesse ponto que a reflexão de Byung-Chul Han ilumina o modo como a sociedade contemporânea transforma o erotismo em desempenho e a alteridade em superfície disponível, aprofundando a ruptura entre desejo, vínculo e experiência simbólica.</p>



<p style="font-size:18px">No caso do vício em pornografia, viver imerso nas projeções leva o indivíduo a um autoerotismo de maneira quase literal. A energia erótica é direcionada a imagens projetadas de si e se enovela numa relação consigo mesmo de uma maneira compulsiva, levando ao esgarçamento das relações principalmente afetivo-sexuais pois, diante do outro, tem-se dificuldade da troca com aquele que sente, reage e exige uma dedicação libidinal.</p>



<p style="font-size:18px">Por meio dos dados de buscas e temas em relevância, a pornografia pode evidenciar uma sombra moral, pois as procuras chamam a atenção pelo contraste com os temas destacados na vida pública das redes sociais. Este vício pode ser entendido como uma perseguição pela satisfação eterna de algo que não chega, pois existe o desejo desejante que jamais se sacia.</p>



<p style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma lógica cultural mais ampla, marcada pela hiperexposição, pela aceleração do consumo e a substituição progressiva da experiência do outro por superfícies disponíveis ao olhar e à apropriação imediata.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-agonia-do-eros-byung-chul-han-2017-p-56-faz-uma-provocacao-ao-dizer-que-a-pornografizacao-do-mundo-se-realiza-como-sua-profanacao-ela-profana-o-erotismo-e-a-profanacao-se-realiza-como-desritualizacao-e-dessacralizacao-han-2017-p-61" style="font-size:18px">Em <strong>Agonia do Eros</strong>, Byung-Chul Han (2017, p. 56) faz uma provocação ao dizer que “<em>a pornografização do mundo se realiza como sua profanação. Ela profana o erotismo”, e “a profanação se realiza como desritualização e dessacralização</em>” (HAN, 2017, p. 61).</h2>



<p style="font-size:18px">Continua ao descrever a erosão contemporânea do Eros como consequência direta de uma cultura que transforma o desejo em desempenho, e o encontro em mera positividade. Han (2017) acredita que o Eros só se constitui plenamente quando a relação envolve diferença e imprevisibilidade, pois a experiência erótica exige que o outro não seja reduzido a objeto de satisfação porque o desejo se sustenta justamente naquilo que escapa e se mantém como alteridade. É essa assimetria entre o eu e o outro que introduz risco, tensão e abertura ao desconhecido, elementos indispensáveis à vitalidade do Eros. Quando essa alteridade é dissolvida, o erotismo perde sua força transformadora e se converte em estímulo previsível e consumível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pornografia-se-insere-neste-escancaramento-descrito-por-han-no-qual-tudo-deve-estar-exposto-sem-zonas-de-misterio-ou-negatividade-para-ele-o-erotico-nao-esta-desprovido-de-misterio-han-2017-p-60" style="font-size:18px">A pornografia se insere neste “escancaramento” descrito por Han, no qual tudo deve estar exposto sem zonas de mistério ou negatividade. Para ele “o erótico não está desprovido de mistério” (HAN, 2017, p. 60).</h2>



<p style="font-size:18px">O corpo pornográfico é um corpo sem segredos e interioridade, oferecido ao olhar como mercadoria erótica, cuja função é responder imediatamente ao desejo, sem frustração ou elaboração simbólica. Nesse cenário, o Eros passa a funcionar como excitabilidade técnica, organizada segundo a lógica da escalada sensorial, o que empobrece tanto a experiência do prazer quanto a capacidade de vínculo.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Han</strong> observa que a sociedade contemporânea desloca o desejo para o campo do desempenho individual, transformando a sexualidade em um espaço de autoexploração, no qual o sujeito acredita exercer liberdade enquanto se submete a circuitos compulsivos de repetição. Essa leitura encontra ressonância direta na compreensão junguiana do narcisismo, pois a libido, impedida de se orientar em direção ao outro como alteridade viva, retorna ao próprio sujeito e se fixa em imagens que funcionam como espelhos ampliados de suas fantasias inconscientes. O resultado é uma economia libidinal autorreferida, na qual o prazer se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia de sentido.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse ponto, a pornografia revela sua afinidade profunda com a lógica narcísica descrita tanto pelo mito quanto pela clínica. Assim como Narciso se apaixona por uma imagem que o reflete e o captura, o sujeito contemporâneo se vê enredado em imagens que prometem satisfação infinita e entregam repetição compulsiva, num movimento que conduz à saturação do desejo e ao empobrecimento do encontro.</p>



<p style="font-size:18px">Byung-Chul Han descreve esse processo como a transformação do Eros em pornografia, entendida como um regime no qual a exposição total substitui a tensão erótica, e a proximidade excessiva elimina a distância necessária à experiência amorosa. O desaparecimento do outro é a agonia do Eros (HAN, 2017, p. 74).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-junguiano-esse-cenario-pode-ser-compreendido-como-um-colapso-da-funcao-simbolica-da-anima-cuja-mediacao-entre-consciencia-e-inconsciente-se-fragiliza-quando-o-feminino-psiquico-e-reduzido-a-condicao-de-imagem-erotizada-e-consumivel" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, esse cenário pode ser compreendido como um colapso da função simbólica da anima, cuja mediação entre consciência e inconsciente se fragiliza quando o feminino psíquico é reduzido à condição de imagem erotizada e consumível.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung adverte que a anima, quando projetada de maneira não elaborada, aprisiona o sujeito em fantasias que impedem o amadurecimento da relação e a integração dos afetos (JUNG, OC 7/2, §339). A pornografia intensifica esse processo ao oferecer imagens prontas e roteiros estereotipados, pois cristaliza a projeção em cenas fixas, repetidas e empobrecidas, impedindo que o conteúdo inconsciente seja simbolizado e transformado.</p>



<p style="font-size:18px">Han (2017) acrescenta que o desaparecimento da alteridade conduz a uma forma de gozo solitário, no qual o sujeito se relaciona apenas consigo mesmo, ainda que sob a ilusão de multiplicidade de parceiros e experiências. Essa dinâmica ilumina o paradoxo contemporâneo do vício em pornografia: quanto maior a oferta de imagens e estímulos, mais restrito se torna o campo do desejo, que passa a girar em torno dos mesmos temas, das mesmas cenas e das mesmas intensidades, produzindo um fechamento progressivo da vida erótica e afetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-vicio-em-pornografia-pode-ser-compreendido-como-uma-busca-incessante-por-satisfacao-total-que-jamais-se-cumpre-pois-esta-fundada-na-eliminacao-da-alteridade-e-na-recusa-da-vulnerabilidade-inerente-ao-encontro-erotico" style="font-size:18px">Assim, o vício em pornografia pode ser compreendido como uma busca incessante por satisfação total que jamais se cumpre, pois está fundada na eliminação da alteridade e na recusa da vulnerabilidade inerente ao encontro erótico.</h2>



<p style="font-size:18px">Trata-se de um desejo que se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia, pois cada nova imagem promete preencher uma falta que se reinscreve imediatamente após o gozo, reproduzindo a lógica de todo comportamento compulsivo. Nesse sentido, a pornografia revela muito mais que conteúdos sombrios individuais, ela expressa uma sombra cultural marcada pela dificuldade coletiva de sustentar o Eros como experiência simbólica e transformadora.</p>



<p style="font-size:18px">Diante desse fenômeno, a clínica é convocada a oferecer um espaço onde o sujeito possa reencontrar a dimensão imagética do desejo, reconhecendo os fragmentos da sua anima, sombra e de conflitos não elaborados projetados nas telas.</p>



<p style="font-size:18px">Sustentar essa travessia implica recolocar o erotismo no campo da alteridade. Relacionar-se com o outro implica sustentar o risco das dores e amargores relativo ao encontro, condição que restitui ao Eros sua potência de transformação, pois é no reflexo do olhar deste outro onde existe a possibilidade da quebra da autorreferenciação e solidão.</p>



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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Soave – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p>BRASIL é o país que mais mata pessoas trans e travestis, aponta dossiê. CNN Brasil, [s. l.], 29 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-e-travestis-aponta-dossie/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p>COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisas/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p>CORREIO BRAZILIENSE. Brasil é o 4º maior consumidor de pornografia no mundo. Correio Braziliense, Brasília, 30 dez. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2025/12/7316169-brasil-e-o-4-maior-consumidor-de-pornografia-no-mundo.html. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p>HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2017;</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2);</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/2);</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 6);</p>



<p>WERY, A.; BILLIEUX, J. Problematic cybersex: Conceptualization, assessment, and treatment. Addictive Behaviors, v. 64, p. 238-246, 2017</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/">Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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		<item>
		<title>Violência contra pessoas LGBTQIA+: uma sombra materializada</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/violencia-contra-pessoas-lgbtqia-uma-sombra-materializada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 21:24:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[agressão]]></category>
		<category><![CDATA[bode expiatório]]></category>
		<category><![CDATA[Geni]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[Lewin]]></category>
		<category><![CDATA[minorias]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas. Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pessoas-lgbtqia-tem-280-mais-chances-de-sofrer-algum-tipo-de-agressao-ou-abuso-durante-a-vida-couter-apud-souza-et-al-2022" style="font-size:19px">Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso durante a vida (COUTER apud SOUZA et al, 2022).</h2>



<p style="font-size:19px">Essas pessoas também apresentam uma tendência maior a quadros depressivos, ideações suicidas e abuso de substâncias. Enquanto por muito tempo se atribuiu esse quadro ao caráter e à individualidade, hoje é possível observar que o preconceito e a discriminação que sofrem na verdade causam, durante o decurso de uma vida, feridas que muitas vezes não cicatrizam. Isso porque recebem a projeção de sombra coletiva, que se materializa na violência implícita e explícita sofrida por essa parte da população.</p>



<p style="font-size:19px">Até hoje perdura uma crença &#8211; que permeia desde mentes individuais, e alguns segmentos da sociedade como a religião e até a ciência &#8211; de que a existência humana no campo afetivo-sexual só pode se dar de forma heterossexual e binária. Apesar de, historicamente, a humanidade apresentar grande diversidade em formas de ser e amar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-registros-historicos-e-mitos-mostram-que-a-homossexualidade-e-a-transexualidade-por-exemplo-existem-desde-que-a-humanidade-surgiu" style="font-size:19px">Registros históricos e mitos mostram que a homossexualidade e a transexualidade, por exemplo, existem desde que a humanidade surgiu.</h2>



<p style="font-size:19px">Povos indígenas das Américas, da Ásia e da Oceania apresentavam classes de gênero além do masculino e feminino. Inclusive, alguns tendo uma espécie de terceiro gênero ou denominações específicas para pessoas homossexuais ou transgênero como os Dois-Espíritos na América do Norte, Mahu na Indonésia e Hijra na Índia (ROUGHGARDEN, 2004). Além da conhecida história da homossexualidade na Grécia antiga, chamada de pederastia, que consistia numa espécie de relação tutor-aluno.</p>



<p style="font-size:19px">O todo-poderoso Zeus, por exemplo, teve em Ganimedes um amante, levando-o para o Olimpo. Em outro momento ele e Hera utilizam o pobre profeta Tirésias como instrumento de disputa entre masculino e feminino. Outra figura mitológica que troca de gênero é Caeneus, uma mulher que ao ser violentada por Poseidon pede para se tornar um homem invencível/inviolável (BRANDÃO, 1987).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muito-do-preconceito-contra-pessoas-lgbtqia-se-da-por-serem-pessoas-que-nao-vivem-de-acordo-com-a-norma-ou-com-o-que-se-considerou-por-muito-tempo-a-normalidade" style="font-size:19px">Muito do preconceito contra pessoas LGBTQIA+ se dá por serem pessoas que não vivem de acordo com a norma ou com o que se considerou por muito tempo a normalidade.</h2>



<p style="font-size:19px">Essas pessoas, por destoarem do que se espera de uma pessoa seja no aspecto afetivo-sexual ou na identidade, sofrem com as projeções de sombra e com a manifestação da síndrome do bode expiatório.</p>



<p style="font-size:19px">A definição das normas de gênero ganha força no século XVIII com as críticas ao comportamento e a tentativa de criação de uma fronteira rígida entre o que é ser homem e mulher e entre o que é exclusivamente masculino e feminino. Desde então, passa-se a acreditar que certas atividades, vestimentas e costumes são exclusivos do homem ou da mulher, tornando aqueles que não se encaixam no padrão algo a ser corrigido ou eliminado. Isso sendo reforçado dioturnamente pela religião cristã quando falamos de civilização ocidental.</p>



<p style="font-size:19px">Associa-se então a pessoa que não se encaixa como problemática e essa camada da população passa a receber todo tipo de projeção coletiva, tornando-se o bode expiatório, principalmente em momentos de tensão e instabilidade. De alguma forma atribui-se ao desviado da norma a causa de catástrofes, como punição dos deuses. Isso pois, se entendia que era uma escolha da pessoa e uma afronta a Deus, mesmo que, sabemos hoje, ninguém escolhe ser LGBTQIA+, nasce-se assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-kurt-lewin-denominou-as-parcelas-da-populacao-mais-vulneraveis-aos-dissabores-coletivos-de-minorias-psicologicas" style="font-size:19px"><strong>Kurt Lewin</strong> denominou as parcelas da população mais vulneráveis aos dissabores coletivos de minorias psicológicas.</h2>



<p style="font-size:19px">Segundo Lewin, as características de uma minoria psicológica são a ausência de representatividade e autonomia, tendo seu destino coletivo atrelado a outro grupo, não necessariamente menos indivíduos em relação à população em geral, como é o caso das mulheres, por exemplo. Lewin cunhou sua teoria estudando os judeus durante a Primeira e a Segunda Guerra. Ele buscou entender os mecanismos psicológicos por trás da perseguição ao seu povo e as dinâmicas sociais intra e extra grupo (MAILHIOT, 2013).</p>



<p style="font-size:19px">Lewin também identificou que os grupos minoritários tendem a ser alvo de uma agressividade deslocada do grupo dominante ou de uma minoria privilegiada, que manobra as massas para direcionar sua violência a grupos desfavorecidos ou com poucas defesas. Apesar da atitude individual de pessoas ligadas à uma minoria ser usada muitas vezes como justificativa para o preconceito e a discriminação, a psicologia social e a teoria de Lewin apontam que na verdade a questão é coletiva, e muitas vezes não se justifica pelas razões mais comumente apresentadas como motivo de discriminação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maioria-sempre-tem-interesse-em-barrar-a-aquisicao-de-direitos-e-privilegios-pelas-minorias" style="font-size:19px">A maioria sempre tem interesse em barrar a aquisição de direitos e privilégios pelas minorias.</h2>



<p style="font-size:19px">Usando como exemplo os judeus que Lewin estudou, o autor aponta que em 400 anos os motivos de perseguição foram diversos, desde a religião no passado até a um preconceito baseado em teorias racistas com o advento do nazismo. Ele também aponta que é uma ilusão dos minoritários acreditarem que se forem bem-sucedidos serão aceitos pela maioria, na verdade, em momentos de crise serão os primeiros a serem perseguidos. Pode-se observar esse fenômeno também em relação às mulheres, que foram queimadas por anos em fogueiras, numa clara perseguição.</p>



<p style="font-size:19px">O fenômeno do <strong>bode expiatório</strong> consiste em identificar pessoas ou grupos como causadores do mal ou de delitos, responsabilizá-los por isso e expulsá-los da vida comunitária, negar direitos e às vezes até a própria humanidade, a fim de proporcionar ao restante da comunidade um sentimento de inculpabilidade e reconciliação com padrões coletivos. Proporciona aos membros da comunidade a sensação de segurança e de perfeição, uma certa identificação com o padrão divino e com o que é “correto”, tudo o que não se encaixa nesse padrão é taxado como demoníaco, no entanto, apenas atua como forma de negação da sombra, uma das maneiras mais conhecidas de se livrar da culpa, é criando bodes expiatórios (KAST, 2022; PERERA, 1991).</p>



<p style="font-size:19px">A população <strong>LGBTQIA+</strong> não é diferente. Assim como dito acima, pessoas assim existem desde sempre, porém, a relação da maioria para com elas é que se transforma. &nbsp;O que era punido por ser pecado, passa a ser crime e depois doença.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Para Jung: &nbsp;</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Sentimo-nos satisfeitos porque a pessoa perversa cometeu o crime por nós. Este é o sentido profundo de Cristo, enquanto redentor, ter sido crucificado entre dois ladrões; eles também, à sua maneira, eram redentores da humanidade, eram os bodes expiatórios (JUNG, 2015a, §210).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-que-e-mau-e-inferior-que-nao-queremos-reconhecer-em-nos-mesmos-atribuimos-aos-outros-jung-2013b" style="font-size:19px">Tudo que é mau e inferior, que não queremos reconhecer em nós mesmos, atribuímos aos outros (JUNG, 2013b)</h2>



<p style="font-size:19px">A negação da sombra na situação do bode expiatório é um desafio, pois o sacrifício ou a exclusão de tal figura representa a tentativa de controle do homem perante a natureza e as intempéries divinas, ao mesmo tempo que o adverte da sua impotência e desamparo. Para Jung (2016, §44) “<em>Preferem inventar o mundo heroico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-atualidade-essa-realidade-tem-entre-tropecos-avancado-na-maioria-dos-paises-do-mundo" style="font-size:19px">Na atualidade essa realidade tem, entre tropeços, avançado na maioria dos países do mundo.</h2>



<p style="font-size:19px">A OMS (Organização Mundial da Saúde), APA (Associação Americana de Psiquiatria), CFP (Conselho Federal de Psicologia) e CFM (Conselho Federal de Medicina) deixaram de categorizar a homossexualidade e a transexualidade como doenças, abrindo espaço para a inclusão e a aquisição de direitos, trazendo visibilidade à população. No entanto, não faltam violências reais e simbólicas contra esse grupo, como as malfadadas terapias de conversão praticadas por igrejas e estabelecimentos de saúde.</p>



<p style="font-size:19px">Ainda paira na sociedade e, infelizmente parece estar em ascensão, a crença de que a não normatividade é a causa das mais diversas mazelas sociais e econômicas, com base em moralismos vazios e fazendo com que indivíduos se sintam à vontade para bradar impropérios dos mais absurdos contra a população LGBTQIA+ sem qualquer consequência. Esses discursos validam e dão coragem para ação a indivíduos praticarem violências, assassinatos, discriminações e outras agressões contra essa população, acreditando estarem em seu direito de maioria.</p>



<p style="font-size:19px">Além dos ataques aos indivíduos por meio de violências e até assassinatos, coletivamente há uma inércia legislativa na consolidação dos direitos, no entanto, para revogá-los há uma certa celeridade. Sugiro uma pesquisa sobre iniciativas legislativas em revogar o direito à constituição familiar entre pessoas do mesmo gênero, afirmação de gênero entre outros. Observe, por exemplo, as iniciativas do presidente <strong>Donald Trump</strong> para a finalização dos programas de diversidade e inclusão.</p>



<p style="font-size:19px">Por anos e anos foram negados os mais diversos acessos às pessoas por discriminação de gênero e sexualidade e, quando esse quadro começa a mudar na primeira crise os direitos são revogados. Isso não se aplica somente à população LGBTQIA+, mas a todas as minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-pode-esquecer-o-inconsciente-de-uma-pessoa-ou-grupo-se-projeta-sobre-outra-s-pessoa-s-isto-e-aquilo-que-alguem-nao-ve-em-si-mesmo-passa-a-censurar-no-outro" style="font-size:19px">Não se pode esquecer: o inconsciente de uma pessoa (ou grupo) se <strong>projeta</strong> sobre outra(s) pessoa(s), isto é, aquilo que alguém não vê em si mesmo, passa a censurar no outro.</h2>



<p style="font-size:19px">Este princípio tem uma validade geral tão impressionante que seria bom se todos, antes de criticar os outros, se sentassem e ponderassem cuidadosamente se a carapuça que querem enfiar na cabeça do outro não é aquela que se ajusta perfeitamente a eles (Cf. JUNG, 2013b).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-ultimo-gostaria-de-trazer-a-musica-geni-e-o-zepelim-de-chico-buarque-para-essa-conversa" style="font-size:19px"><strong>Por último, gostaria de trazer a música Geni e o Zepelim de Chico Buarque para essa conversa</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Na sua genialidade, Chico traduz a dinâmica do bode expiatório na figura da sofrida Geni. Não sabemos ao certo quem é Geni, apenas que é uma marginalizada pela sociedade. Geni está sempre entre os excluídos e sofre diariamente agressões da sociedade em que está inserida, até o momento de crise em que é apresentada ao sacrifício, e, na vã esperança de talvez ser posteriormente aceita, aceita se sacrificar para salvar àqueles que sempre a condenaram. O destino de Geni nunca está, nem esteve em suas mãos.</p>



<p style="font-size:19px">A partir do momento em que a maioria se vê de joelhos diante de um algoz e seu destino depende daquela que tanto desprezaram, imploram por sua misericórdia. Geni, com sua inclinação de acolher os excluídos acaba cedendo aos apelos e, mais uma vez, sofre as mais diversas violências, como sacrifício. No entanto, ao retornar, volta a ser discriminada e agredida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-pessoas-lgbtqia-causam-medo-pois-confrontam-pessoas-com-a-liberdade-individual-apresentada-pelo-self-de-maneira-simbolica" style="font-size:19px">As pessoas LGBTQIA+ causam medo, pois confrontam pessoas com a liberdade individual, apresentada pelo Self de maneira simbólica.</h2>



<p style="font-size:19px">De alguma forma questionam o monoteísmo do ego, que se sente desafiado quando a diversidade questiona suas certezas e descobertas, baseadas nos valores dominantes das maiorias psicológicas e das minorias privilegiadas. Cada assassinato, suicídio ou agressão a uma pessoa LGBTQIA+ é uma tentativa de negação da diversidade humana no agressor.</p>



<p style="font-size:19px">As minorias privilegiadas jamais renunciarão a seus privilégios em detrimento dos direitos de qualquer outro grupo, e, infelizmente, manipulam a massa mantendo-a na inconsciência de seu lugar enquanto atacam as minorias indefesas. Massa essa que tem as mãos sujas de sangue, como executora indireta de um crime.</p>



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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Angelo Soave Junior – Analista Didata em formação</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia-e-referencias" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia e Referências:</strong></h2>



<p>BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega v. III. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p>GRUPO GAY DA BAHIA.<em> Mortes violentas de LGBT no Brasil em 2024. </em>Acesso em 01 dez de 2025.Disponível em:&nbsp;<a href="https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/">https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/</a></p>



<p>Jung, Carl G. <em>A prática da psicoterapia</em>/ O.C. 16/1<em>. </em>Petropólis: Vozes, 2013a.</p>



<p>______ <em>Civilização em Transição/ </em>O. C. 10/3<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p><strong>______ </strong><em>A vida simbólica: escritos diversos/ </em>O.C 18/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2015a</p>



<p><strong>______ </strong><em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo </em>O.C 9/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p>KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: viva a sua própria vida. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p>MAIHIOT, G. B. <em>Dinâmica e gênese dos grupos:</em>&nbsp; Atualidade das descobertas de Kurt Lewin. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>PERERA, Sylvia Brinton. O complexo de bode expiatório, Rumo a uma Mitologia da Sombra e da Culpa. São Paulo: Cultrix, 1991.</p>



<p>ROUGHGARDEN, Joan. <em>Evolução do Gênero e da Sexualidade</em>. Tradução: Maria Edna Tenório Nunes. Londrina: Editora Planta, 2004.</p>



<p>SOAVE JUNIOR. M. A. A<em> arteterapia como ferramenta para o enfrentamento dos efeitos do estresse de minoria em pessoas LGBTQIA+</em>. Monografia de Formação de Membro Analista do IJEP. Brasília, 2024. Disponível em <a href="https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia">https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia</a></p>



<p>SOUZA et al. Desfechos negativos em saúde mental de minorias de sexo e de gênero: uma análise comportamental a partir da teoria do estresse de minorias. <em>Revista Perspectivas</em>. Ed. Especial: Estresse de Minorias pp.069-085. 2022.</p>



<p><strong>Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</strong>: Matrículas abertas &#8211; <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="http://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png" alt="" class="wp-image-11969" style="aspect-ratio:0.7998077385243931;width:485px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png 819w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-240x300.png 240w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-768x960.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-150x188.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-450x563.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1.png 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" /></a></figure>
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			</item>
		<item>
		<title>Deus: arquétipo ou produto?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/deus-arquetipo-ou-produto/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Jul 2025 18:52:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciências da Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[deus]]></category>
		<category><![CDATA[fé como produto]]></category>
		<category><![CDATA[imago dei]]></category>
		<category><![CDATA[lifestyle]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O artigo propõe uma reflexão crítica sobre o uso contemporâneo da figura de Deus, destacando a crescente instrumentalização do sagrado como estratégia de marketing, identidade de marca e espetáculo religioso. O autor parte de uma experiência cotidiana com um vendedor ambulante que utiliza hinos gospel para vender seus produtos, estendendo a crítica para práticas [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: <strong>O artigo propõe uma reflexão crítica sobre o uso contemporâneo da figura de Deus, destacando a crescente instrumentalização do sagrado como estratégia de marketing, identidade de marca e espetáculo religioso. O autor parte de uma experiência cotidiana com um vendedor ambulante que utiliza hinos gospel para vender seus produtos, estendendo a crítica para práticas como áreas VIP em igrejas, uso de Deus por influenciadores, e a transformação da fé em &#8220;<em>lifestyle</em>&#8220;. </strong></p>



<p style="font-size:19px">Este artigo me ronda há um longo tempo e senti que agora estava pronto para colocá-lo em palavras. Aqui eu proponho uma reflexão sobre o lugar de Deus em nossos dias e a relação de uma parte da população com esse ente divino que vem perdendo cada vez mais o seu caráter sagrado e ganhando a cada dia mais contorno de uma marca e nicho de marketing.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-busco-em-jung-reflexoes-sobre-como-essa-fe-de-fachada-tem-muito-mais-semelhancas-com-estrategias-de-negocios-do-que-com-a-construcao-de-seres-humanos-melhores-e-a-busca-pelo-sentido-no-self" style="font-size:19px"><strong>Busco em Jung reflexões sobre como essa fé de fachada tem muito mais semelhanças com estratégias de negócios do que com a construção de seres humanos melhores e a busca pelo sentido no Self.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O ponto de partida dessa reflexão foi um fato cotidiano: um desses carros com som alto que passa na vizinhança vendendo coisas e usava como música um hino gospel falando sobre adorar a Deus. Em uma dessas passagens me peguei pensando o porquê de ele usar essa música e não qualquer outra. Qual a intenção desse homem ao associar o nome de Deus ao seu serviço e, ampliando, qual as intenções de outros que fazem o mesmo? Não sei ao certo se devido exclusivamente a esse fato, mas passei então a observar o uso da entidade Deus com fins que não sejam religiosos. Não só Deus, mas tudo relacionado a ele, bíblia, nomes bíblicos e etc.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-todos-e-qualquer-um-tem-o-direito-de-manifestar-sua-crenca-religiosa-segundo-a-constituicao-federal-brasil-2025" style="font-size:19px">Todos e qualquer um têm o direito de manifestar sua crença religiosa segundo a Constituição Federal (Brasil, 2025):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:14px">
<p>&#8220;Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (&#8230;)<br>VI &#8211; é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;<br>VII &#8211; é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;<br>VIII &#8211; ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei;&#8221;</p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><strong>Mas estaria ele usando essa música como uma manifestação da sua crença ou como uma espécie de associação da imagem do seu negócio ao Criador?</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estaria-o-nome-de-deus-sendo-utilizado-como-um-selo-de-legitimidade-um-totem-de-reputacao-ou-ainda-um-simples-artificio-publicitario" style="font-size:19px"><strong>Estaria o nome de Deus sendo utilizado como um selo de legitimidade, um totem de reputação, ou, ainda, um simples artifício publicitário?</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O ponto de inflexão para que eu saísse das filosofias internas e partisse para a pesquisa e escrita foi o artigo da Cris Guterres<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a> no UOL. A autora traz muitos dos pontos que se alinham com o que pretendo refletir aqui e recomendo a sua leitura. Meu objetivo é trazer uma reflexão junguiana para o tema e abro com uma frase que a meu ver resume meu sentimento e o da autora: “<strong>A fé virou produto de prateleira e Deus estratégia de marca</strong>” (Guterres, 2025).</p>



<p style="font-size:19px">Esse sentimento traduz exatamente a minha sensação quando tive uma percepção diferenciada do vendedor da vizinhança. Não posso dizer que essa era a intenção do pobre vendedor que me atentou, porém, a atitude me intrigou por trazer essa sensação: ele poderia estar usando o hino gospel como uma espécie de estratégia de marca, ou no jargão, <em>branding,</em> associando seu produto ou serviço ao símbolo de Deus e todo seu significado, portanto, trazendo para sua marca adjetivos como honestidade, bondade, humildade, entre outros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-impulsionando-ainda-mais-minha-reflexao-vejo-a-noticia-de-que-uma-igreja-neopentecostal-oferece-uma-area-vip-aos-fieis-de-notoriedade-publica-2" style="font-size:19px"><strong>Impulsionando ainda mais minha reflexão, vejo a notícia de que uma igreja neopentecostal oferece uma área vip aos fiéis de notoriedade pública</strong><a id="_ftnref2" href="#_ftn2">[2]</a>.</h2>



<p style="font-size:19px">Apesar de absurda, a prática não é nova. Basta uma visita a uma igreja católica barroca para ver os camarotes que os nobres tinham para assistir às missas. Ou ainda entender um pouco do contexto que levou Lutero a promulgar sua reforma protestante. A Igreja Católica, no passado, além de oferecer camarotes, vendia indulgências (perdões), ou seja, ainda existia uma chance de salvação caso sua vida fosse inadequada, mas você tivesse saldo suficiente para comprar uma indulgência. Para Lutero, o elemento fundamental para a salvação do indivíduo era a fé e a venda das indulgências era condenável.</p>



<p style="font-size:19px">Lutero se revoltou, mas hoje, as igrejas protestantes, proeminentemente as neopentecostais, usam de subterfúgios parecidos, senão piores, que a venda das indulgências, para extrair dinheiro dos seus fiéis. Acredito que o episódio da área vip se torna ainda mais ilustrativo, pois a prática foi descoberta porque uma influenciadora publicou sua participação em um culto, e estava na área VIP. O vídeo a mostra com seu marido, abraçados, de olhos fechados e mãos para o alto enquanto alguém os filma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-de-guterres-2025" style="font-size:19px">Nas palavras de <strong>Guterres</strong> (2025):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><strong>“É uma fé performada, que vende a ideia de salvação instantânea, prosperidade como recompensa moral e submissão como caminho para o sucesso. Uma fé que não acolhe, mas exige. Que não liberta, mas normatiza e disciplina.”</strong></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-se-pode-observar-e-que-vivemos-em-uma-epoca-de-personas-onde-acaba-sendo-mais-importante-mostrar-que-se-e-fiel-e-temente-a-deus-do-que-realmente-sentir-e-viver-a-conexao-com-o-divino" style="font-size:19px">O que se pode observar é que vivemos em uma época de personas, onde acaba sendo mais importante mostrar que se é fiel e temente a Deus do que realmente sentir e viver a conexão com o divino.</h2>



<p style="font-size:19px">Olhando sob esse prisma, me intriga então o uso da entidade Deus atualmente numa espécie de totemismo, como um avalizador de atitudes ou para uma maravilhosa lavagem de reputação. Não acredito que o homem que coloca o volume máximo de louvor a Deus para vender seus produtos aqui na minha quadra tem qualquer noção disso. Mas ao mesmo tempo vejo que ele, dentre muitos, podem estar lançando mão desse artifício de maneira consciente ou inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-podemos-ver-que-a-figura-de-deus-se-configura-numa-entidade-externa-metafisica-e-que-talvez-nao-tenha-nenhuma-conexao-com-o-deus-interior-falado-por-jung" style="font-size:19px">Nesse sentido, podemos ver que a figura de Deus se configura numa entidade externa, metafísica e que talvez não tenha nenhuma conexão com o Deus interior falado por Jung. </h2>



<p style="font-size:19px">No entanto, se pensarmos que o Deus de uma egrégora corresponde à imagem que esse coletivo projeta de seu princípio ordenador, podemos ter uma noção do que vive na sombra coletiva daquele grupo, uma vez que a concepção de Deus muitas vezes é unilateralizada com o bem, a luz, o bom.</p>



<p style="font-size:19px">Para Jung, o arquétipo do <strong>Self</strong> é a Imago Dei ou Imagem de Deus em nós, o princípio ordenador da psique, que teleologicamente nos leva à evolução, humanização e integralidade, ou também a um lugar chamado de completude. Por ser uma imagem tão poderosa, quando alguém projeta sua imago-Dei em alguém, lhe dá poderes infinitos, mesmo que seja no Deus metafísico (Magaldi E., 2021; Magaldi W., 2014).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-concepcoes-de-deus-sao-tantas-quantas-as-pessoas-no-mundo-pois-cada-um-carrega-em-si-uma-imago-dei" style="font-size:19px">As concepções de Deus são tantas quantas as pessoas no mundo, pois cada um carrega em si uma Imago dei.</h2>



<p style="font-size:19px">Infelizmente, ou não, como entidade coletiva, Ele não tem como vir e dizer o que está certo ou não sobre sua concepção. Faço uma analogia inclusive à palavra povo, pois muita gente se intitula a voz do povo, sendo que não fala pelo povo, mas por si ou talvez por uma parte incógnita dele. Muitos falam de, sobre, e em nome de Deus.</p>



<p style="font-size:19px">O uso da palavra Deus/deus na obra junguiana, assim como as falas do próprio Jung sobre o tema são muitas vezes mal interpretadas. Jung cita a palavra Deus cerca de 6 mil vezes em suas obras (Dyer, 2003; Magaldi E., 2021), no entanto, quando fala sobre essa entidade quase sempre se refere à Imago-Dei, ao arquétipo e não à entidade Deus metafísica teológica. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitos-leitores-atribuem-a-jung-uma-afirmacao-de-que-deus-existe-no-entanto-sua-alegacao-e-de-que-deus-existe-por-estar-na-psique-humana-e-nao-por-estar-em-algum-lugar-dos-ceus" style="font-size:19px">Muitos leitores atribuem a Jung uma afirmação de que Deus existe, no entanto, sua alegação é de que Deus existe por estar na psique humana, e não por estar em algum lugar dos céus.</h2>



<p style="font-size:19px">Ao tratar Deus como Arquétipo, Jung dizia que era algo que existia antes da consciência, assim não o eliminamos, mas trazemos para perto, em outras palavras a centelha divina existe no inconsciente e pode ser despertada para que possamos buscar com empenho a completude. Para Jung existe uma perpétua confusão e contaminação entre os termos Imago Dei e o Deus metafísico, por isso muitas pessoas acabam dando explicações teológicas sobre a imagem de Deus que cada um carrega em si (Dyer, 2003).</p>



<p style="font-size:19px">Não podemos alcançar o que é Deus, mas temos em nós uma imagem do que Ele pode ser, no entanto, jamais poderemos apreender “um ser universal nos estreitos limites da nossa linguagem” (Dyer, 2003). Algumas concepções de Deus alegam que ele é onipotente, onipresente, pura bondade, no entanto, para Jung, que sempre dirige seu olhar ao fenômeno psíquico, ao se configurar como Arquétipo, Deus condensa em si tudo o que é relativo ao humano, inclusive a sombra coletiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-do-proprio-jung" style="font-size:19px">Nas palavras do próprio Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Encontramos muitas representações de Deus, mas o original ninguém consegue encontrar. Para mim não há dúvida de que o original se esconde atrás de nossas representações, mas ele nos é inacessível. Jamais estaríamos em condições de perceber o original, porque deveria ser, antes de mais nada, traduzido em categorias psíquicas para tornar-se de alguma forma perceptível […] Sabemos que as representações de Deus têm papel importante na psicologia, mas não podemos provar a existência física de Deus. (Jung, 2015, §1589).</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Nesse sentido, Deus está em todos nós, pois carregamos em nosso inconsciente, uma imagem arquetípica de deus, seja ele qual for. Jung reflete também sobre a perniciosidade da fé performática e superficial, ou seja, aquela que não é experimentada pela alma e somente pela persona, onde o Deus não se encontra vivo na alma, mas completamente “fora”, ou seja, totalmente inconsciente, mergulhando então a alma desse fiel ou desse crente nas profundezas da inconsciência e da indiferenciação, e dessa forma, seus impulsos serão oriundos de uma esfera pagã e arcaica (Jung, 2011).</p>



<p style="font-size:19px">Pode-se observar então que na espetacularização da fé, corre-se o grande risco de não viver em conformidade com os valores de uma religião, pois esta não penetra na alma, apenas recobre a pessoa com um verniz civilizatório, enquanto a alma repousa nos mais primitivos instintos, influenciando seus motivos e interesses, regredindo dessa forma aos deuses sedentos pelo sacrifício ou ainda a um javeísmo irado e vingativo.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Quanto mais identificado com o Deus unilateral metafísico, maior o risco de viver em si o mal ou ser constantemente assombrado por ele, “pois não se chega à claridade pela representação da luz, mas tornando consciente aquilo que é obscuro” (Jung, 2016), e negando essa parte obscura individualmente, fortalece-se a sombra individual e coletiva</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-trago-a-afirmacao-de-guterres" style="font-size:19px">Nesse sentido trago a afirmação de <strong>Guterres</strong>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>“O sucesso estrondoso de projetos como <strong>Café com Deus Pai</strong>, que se define como um &#8220;lifestyle cristão&#8221; e vende desde devocionais até agendas personalizadas, mostra que há uma sede real de conexão espiritual. Mas também mostra o quanto esse desejo de sentido pode ser canalizado por lógicas de consumo e, mais perigoso ainda, de controle” (Guterres, 2025).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-da-grande-sede-de-conexao-espiritual-enquanto-a-experiencia-religiosa-no-sentido-psicologico-de-uma-reconexao-com-o-sagrado-interno-for-apenas-um-branding-lifestyle-e-tendencia-de-consumo-nada-de-essencial-podera-ocorrer" style="font-size:19px">Apesar da grande sede de conexão espiritual, enquanto a experiência religiosa (no sentido psicológico de uma reconexão com o sagrado interno), for apenas um <em>branding, </em>lifestyle e tendência de consumo, nada de essencial poderá ocorrer.</h2>



<p style="font-size:19px">Uma projeção exclusivamente religiosa pode privar a alma de seus valores, retendo-a num estado inconsciente. Ela pode também cair vítima da ilusão de que a causa de todo o mal provém de fora, sem que lhe ocorra indagar como e em que medida ela mesma contribui para isso, ficando estagnada em seu processo de desenvolvimento e individuação, pois todos os seus valores são suprimidos em nome de um valor importado do meio (Jung, 2011). Atribuir os percalços da vida ao diabo [&#8230;] é atitude regredida, insuficiente e muito fácil, no sentido de isenção de responsabilidade em relação à própria vida (Magaldi, W., 2014).</p>



<p style="font-size:19px">Percebo haver por parte desses cultos/shows uma projeção da ordem e do caos inerentes ao paradoxo de Deus que Jung comenta. Isso é reiterado por Magaldi E. (2021) quando aborda a importância do caos e como a desconexão com ele pode ter efeitos trágicos. Atualmente as religiões, e isso pode ser visto também na coletividade política, buscam uma ordem, talvez para lidar com a ordem e o caos internos que não encontram mais na vivência do sagrado, na sociedade dessacralizada, de acordo com a autora: “A Religião institucionalizada afasta-se da Mística e retira do espaço sagrado a experiência com Deus” (ibid).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-reforca-jung" style="font-size:19px">Reforça Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Sim, exteriormente tudo aí está, na imagem e na palavra, na Igreja e na Bíblia, mas o mesmo não se dá, dentro. No interior, reinam os deuses arcaicos, como nunca; ou melhor, a correspondência entre a imagem interna e externa de Deus não se desenvolveu por carência de cultura anímica, ficando retida no paganismo (Jung, 2011, §12).</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">No texto de Guterres (2025) encontramos exemplos dos mais absurdos do uso de Deus e seus arredores como item de venda: influenciadores que se recobrem sob o véu do “lifestyle cristão” e anunciam em seus perfis jogos de azar, apostas entre outros produtos cuja única finalidade é obter dinheiro fácil de quem está em busca de uma vida melhor ou, pior, se encontra numa situação de vulnerabilidade emocional, financeira ou psicológica. Para a autora “<em>O problema não é a fé. É o que fazem com ela. O problema é transformar o sagrado em produto de prateleira. É vender transcendência como solução mágica para quem está em desespero</em>” (Guterres, 2025).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-magaldi-w-2014-fala-sobre-a-negacao-do-dinheiro-em-praticas-e-instituicoes-religiosas-que-assumem-a-persona-do-bom-samaritano-e-negam-ou-tentam-encobrir-hipocritamente-a-influencia-do-capital-em-suas-praticas" style="font-size:19px">Magaldi, W. (2014) fala sobre a negação do dinheiro em práticas e instituições religiosas, que assumem a persona do “bom samaritano” e negam ou tentam encobrir hipocritamente a influência do capital em suas práticas.</h2>



<p style="font-size:19px">No fim, e ao cabo, o dinheiro acaba quase sempre sendo o “deus oculto” de muitas dessas religiões e religiosidades que tratam o sagrado como um produto de prateleira. Na persona, trazem o Deus de amor e perdão, caridade e pobreza, mas nas atitudes e impulsos trazem deuses arcaicos e uma sanha financeira, pois a graça é condicionada à entrega total, inclusive à doação financeira dos bens à instituição religiosa.</p>



<p style="font-size:19px">Para <strong>Guanaes</strong> (2025) a presença de famosos nos cultos vira uma vantagem competitiva —sinal de prestígio, e até aprovação divina. É por isso que, a muitos, desconstruir a cultura do espetáculo não parece vantajoso. Ou seja, a associação da uma determinada igreja ou denominação à presença de VIPs, antes de ser alvo de reflexão e crítica, acaba sendo mais uma arma na mercantilização da fé e do divino.</p>



<p style="font-size:19px">Confluindo com Guterres, <strong>Guanaes</strong> (2025) traz a visão de um pastor, que também é estudioso do tema das práticas neopentecostais e, referendando tudo o que foi dito até agora, afirma que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:19px">
<p style="font-size:20px">O problema é que —na contramão do que Jesus ensinou— a religião muitas vezes é tratada como um mercado, voltado às necessidades desta vida. De fato, nas igrejas há ferramentas que ajudam a lidar com questões como produtividade, saúde mental, relacionamentos e até networking profissional. Como pastor, sei que muitos chegam à igreja em busca disso. Mas esse não é o maior propósito da fé —que existe para conectar as pessoas a Deus.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-deus-interior-e-diferente-de-pessoa-para-pessoa-pois-o-valor-supremo-que-guia-cada-um-e-variadamente-localizado-dyer-2003" style="font-size:19px">O Deus interior é diferente de pessoa para pessoa, pois o valor supremo que guia cada um é variadamente localizado (Dyer, 2003).</h2>



<p style="font-size:19px">A religião é uma relação com o valor supremo ou mais poderoso, seja ele positivo ou negativo, relação esta que pode ser voluntária ou involuntária; isto significa que alguém pode estar possuído inconscientemente por um &#8220;valor&#8221;, ou seja, por um fator psíquico cheio de energia, ou que pode adotá-lo conscientemente. O fator psicológico que dentro do homem, possui um poder supremo, age como &#8220;Deus&#8221;&#8216; porque é sempre ao valor psíquico avassalador que se dá o nome de Deus (Jung, 1978).</p>



<p style="font-size:19px">Quando as morais do ego não vêm alicerçadas a uma ética do Self, perdemos a perspectiva do Sagrado e, com isso, o respeito e o temor, a consequência é caótica, no individual e no coletivo (Magaldi, E. 2021).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fato-de-considerar-que-todos-os-enunciados-referentes-a-deus-provem-sobretudo-da-alma-do-arquetipo-nao-implica-a-negacao-de-deus-ou-que-se-substitua-esse-pelo-homem" style="font-size:19px">O fato de considerar que todos os enunciados referentes a Deus provêm sobretudo da alma, do arquétipo, não implica a negação de Deus ou que se substitua esse pelo homem.</h2>



<p style="font-size:19px">Aqui <strong>Jung</strong> é certeiro ao afirmar que [&#8230;] “<strong><em>não me é nada simpático pensar necessariamente que, todas as vezes que um pregador cita a Bíblia ou ventila suas opiniões religiosas, é o próprio Deus metafísico que fala por meio dele</em></strong>” (Jung, 2015).</p>



<p style="font-size:19px">Finalmente, a salvação da alma, no sentido presente, atual e psíquico, de acordo com a psicologia analítica é a libertação produzida pelo processo de individuação proposto por Jung. Nessa toada, a humanidade poderá se emancipar da imagem e da ideia de um Deus antropomórfico e começar a perceber o Deus que está em tudo e em todos. E&#8230;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:20px"><em>[&#8230;] Com isso, a humanidade poderá se libertar da maioria das religiões que só servem para o enriquecimento e a vaidade dos seus líderes, e descobrir a verdadeira religião que está no encontro com o Self, equivalendo à entrega ou conversão ao si-mesmo (Magaldi, W. 2014).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">A crescente transformação da fé em espetáculo e da imagem de Deus em marca comercial revela um processo perigoso de alienação espiritual e de colonização do sagrado por lógicas de consumo. Quando a experiência religiosa é reduzida a performance, branding ou escudo moral, perde-se o vínculo com o divino interior, aquele que, segundo Jung, orienta a psique rumo à completude e à individuação.</p>



<p style="font-size:19px">Mais do que denunciar os abusos religiosos contemporâneos, é necessário convidar à introspecção: <strong>que imagem de Deus habita em mim</strong>? O que tenho projetado no divino e com que consequências? A psicologia analítica nos lembra que não há luz sem sombra, e que o Deus que não integra o caos é apenas mais uma persona de controle.</p>



<p style="font-size:19px">Assim, <strong>se a religião não for atravessada pela alma, ela se torna apenas verniz</strong>. A tarefa de cada um é resgatar essa centelha interior, não para usá-la como aval de pureza, mas como caminho de verdade.</p>



<p style="font-size:19px">Pois, como diz a frase que ecoa todo esse percurso:</p>



<p style="font-size:19px"><strong><em>&#8220;As pessoas vão à igreja não para encontrar Deus, mas para levá-lo consigo.&#8221;</em></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Deus: arquétipo ou produto?" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/FOV9eQ-uQc0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">Ms. Mauro Angelo Soave Junior – Membro Analista Didata em formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata e Fundadora do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p>BRASIL. Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios. <em>Fundamentos da liberdade de religião</em>. Disponível em: <a href="https://www.tjdft.jus.br/consultas/jurisprudencia/jurisprudencia-em-temas/direito-constitucional/fundamentos-da-liberdade-de-religiao">https://www.tjdft.jus.br/consultas/jurisprudencia/jurisprudencia-em-temas/direito-constitucional/fundamentos-da-liberdade-de-religiao</a>. Acesso em: 29 maio 2025.</p>



<p>DYER, Donald R. <em>Pensamentos de Jung sobre Deus.</em> Madras Editora. São Paulo-SP. 2003.</p>



<p>GUANAES, Daniel. Jesus faria uma reunião com área VIP como algumas igrejas hoje? Folha de S. Paulo, São Paulo, 8 abr. 2025. Seção Cotidiano (Opinião). Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2025/04/jesus-faria-uma-reuniao-com-area-vip-como-algumas-igrejas-hoje.shtml. Acesso em: 23 jun. 2025.</p>



<p>GUTERRES, Cristiane. <strong><em>Deus tem CNPJ? Porque tem gente faturando alto com o nome dele</em></strong><strong><em>.</em></strong> <em>Universa</em>, UOL, 17 abr. 2025. Disponível em: <a href="https://www.uol.com.br/universa/colunas/cris-guterres/2025/04/17/deus-tem-cnpj-porque-tem-gente-faturando-alto-com-o-nome-dele.htm">https://www.uol.com.br/universa/colunas/cris-guterres/2025/04/17/deus-tem-cnpj-porque-tem-gente-faturando-alto-com-o-nome-dele.htm</a>. Acesso em: 22 jun. 2025. (<a href="https://www.uol.com.br/universa/colunas/cris-guterres/2025/04/17/deus-tem-cnpj-porque-tem-gente-faturando-alto-com-o-nome-dele.htm?utm_source=chatgpt.com">uol.com.br</a>)</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</em>. Obras completas, v. 9/2. Petrópolis: Vozes, 2013. §112.</p>



<p>___________. <em>A natureza da psique. </em>Tradução de Mateus Ramalho Rocha. – Petrópolis, Vozes, 2014</p>



<p>___________. <em>A vida simbólica: escritos diversos (vol. 2)</em>. Tradução Edgar Orth; revisão técnica de Jette Bonaventure. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2015</p>



<p>___________. <em>Estudos alquímicos.</em> Tradução de Dora Mariana R. Ferreira da Silva, Maria Luiza Appy. – Petrópolis, RJ : Vozes, 2016.</p>



<p>___________. <em>Psicologia e alquimia</em>. Tradução Maria Luiza Appy, Margaret Makray, Dora Mariana Ribeiro Ferreira da Silva; revisão literária Dora Mariana Ribeiro Ferreira da Silva, Maria Luiza Appy; revisão Técnica, Jette Bonaventure – Petrópolis, RJ : Vozes, 2011.</p>



<p>___________. <em>Psicologia e religião. </em>Tradução do Pe. Dom Mateus Ramalho Rocha; revisão técnica de Dora Ferreira da Silva. &#8211; Petrópolis: Vozes, 1978.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> https://www.uol.com.br/universa/colunas/cris-guterres/2025/04/17/deus-tem-cnpj-porque-tem-gente-faturando-alto-com-o-nome-dele.htm</p>



<p><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> https://www.correiobraziliense.com.br/colunistas/mariana-morais/2025/02/7070240-maira-cardi-expoe-area-vip-da-igreja-de-andre-valadao-veja.html</p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Maquiagem como expressão criativa: possibilidades arteterapêuticas</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/maquiagem-como-expressao-criativa-possibilidades-arteterapeuticas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Jul 2024 15:07:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[maquiagem]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9279</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca explorar teoricamente e refletir sobre o uso da maquiagem no trabalho arteterapeutico, no trabalho com a diade persona-sombra. Fala exclusivamente da pintura facial  sem abordar outras formas de transformação da aparência.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Maquiar-se é um costume humano que pode ser datado desde o Egito e a Mesopotâmia. Pinturas rupestres e os murais egípcios apontam que desde essa época o ser humano usava as pinturas faciais como ferramenta de proteção, diferenciação, religiosidade ou simples adorno corporal. Os povos indígenas também são adeptos da prática da pintura corporal e facial pelos mesmos motivos. &nbsp;Atualmente a maquiagem faz parte do rol de produtos de estética e beleza, assim como dos materiais das artes dramáticas principalmente.</p>



<p>A pintura facial é uma prática antiga da humanidade e não é realizada apenas com fins estéticos. Maquiagem é derivado do francês <em>maquillage</em> que significa “pintar o rosto”. A maquiagem ajuda a realçar os traços naturais do rosto, criando efeitos que o iluminam e revelam sua beleza, ao mesmo tempo que pode encobrir pequenas imperfeições (SOUZA e MACHADO, 2019). Podemos estender também seu significado para expressões criativas com as maquiagens artísticas e as do cinema e das artes dramáticas, cuja função é transformar a aparência.</p>



<p>O uso da pintura facial data desde antes de Cristo com egípcios, mesopotâmicos, gregos e romanos. Há indícios de que até os homens das cavernas já pintavam os seus rostos para eventos, guerras e ritos religiosos (SOUZA e MACHADO, 2019). Os materiais utilizados nos primórdios da pintura facial eram de origem natural, principalmente extratos de vegetais e minerais, com destaque para o <em>kohl, </em>uma mistura de fumo, minérios de chumbo e estanho utilizada principalmente ao redor dos olhos (ibid.). Nos povos indígenas no Brasil encontramos uma coloração vermelha, oriunda principalmente do extrato do urucum e o jenipapo com uma coloração preta ou azul bem escuro, utilizadas até hoje (FUNAI, 2022). Antes do surgimento da indústria, como muitas outras coisas, os cosméticos eram feitos em casa, com receitas de família (LANÖE, 2019; SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-habito-de-pintar-o-rosto-nao-era-exclusivo-das-mulheres-como-e-mais-comum-hoje-em-dia" style="font-size:17px">O hábito de pintar o rosto não era exclusivo das mulheres, como é mais comum hoje em dia.</h2>



<p>Os homens costumavam se maquiar também, principalmente nos momentos de guerra, caça e rituais religiosos. Na guerra e na caça com os objetivos de camuflagem e de assustar os inimigos e nos rituais religiosos como maneira de destaque principalmente aos sacerdotes. No Egito, o uso não se restringiu ao estético, mas com fins de cuidado com a pele, protegendo do brilho do sol e contra doenças, isso em 3.200 a. C. (SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<p>Os gregos e os católicos se incomodaram com a excessiva preocupação das pessoas com a aparência, representada pelo uso da maquiagem e proibiram ou restringiram seu uso em momentos da história. Os gregos diziam que a beleza deveria estar no corpo e no espírito, e não no rosto. Os católicos, durante a Idade Média, pregavam que o culto à higiene e à beleza eram profanos, e que as doenças oriundas da falta de higiene só poderiam ser curadas por intervenção divina e a maquiagem alterava a beleza original das mulheres (SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<p>A maquiagem também encontrou inimigos no parlamento inglês no século XVIII, que dizia que uma mulher que seduzisse um homem para matrimônio com artifícios como pinturas, dentes artificiais, perfumes e outros cosméticos poderia incorrer nas penalidades da lei contra bruxaria, e casamentos poderiam até ser anulados caso a mulher usasse a maquiagem no processo de sedução (SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<p>No mesmo século XVIII se inicia a demarcação dos limites do uso da maquiagem e se aprofunda a restrição do uso da mesma pelos homens, tornando-se então um adereço praticamente reservado e identificado com o sexo feminino. Não raramente, havia manifestações contra o uso de qualquer tipo de maquiagem pelos homens, restava a eles apenas o uso de pó nas perucas, sabão de barbear e tônicos capilares assim como se criticava o excesso nas mulheres (LANÖE, 2019). Essa delimitação vem no rastro de uma crítica aos nobres e a aristocracia, que se entupiam de adereços e pinturas para demonstrar destaque social, e passam de uma crítica religiosa, no sentido de que a maquiagem e os adereços corrompem e ocultam a obra de Deus, para uma crítica secular sobre refinamento, principalmente voltada às mulheres (id.).</p>



<p>O uso da maquiagem como produto de consumo se consolida em meados do século XX com a ascendência das estrelas de Hollywood e a introdução da mulher no mercado de trabalho, que fez com que a produção caseira se tornasse difícil e as maquiagens prontas fossem mais atraentes (SOUZA e MACHADO, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maquiagem-entra-no-rol-das-expressoes-criativas-como-complementar-as-artes-plasticas-e-dramaticas-e-ocupa-um-lugar-ao-lado-da-mascara" style="font-size:17px">A maquiagem entra no rol das expressões criativas como complementar às artes plásticas e dramáticas e ocupa um lugar ao lado da máscara.</h2>



<p>Ao falar das máscaras, Philippini (2018, p. 99) traz a perspectiva de que “o que foi feito para encobrir, revela” e complementa: “não há nada mais revelador que as máscaras que escondem um rosto, sejam elas feitas com materiais de modelagem ou, simplesmente, através da maquiagem”.</p>



<p>Entendo máscara e maquiagem como similares, mas não idênticas. Ao contrário da máscara, a maquiagem não pode ser tirada rapidamente e a qualquer momento, ela adere à pele e necessita de um tempo para ser totalmente removida. Ao trazer essa informação é importante a reflexão sobre a identificação com a persona, que adere à pele e muitas vezes se confunde com ela, mas pele não é. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung" style="font-size:19px">Para Jung: </h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Como seu nome revela (persona), ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva. (Jung, O.C 7/2, 2014 §245).</p></blockquote></figure>



<p>Quando usamos uma maquiagem, no sentido comum do dia a dia, a intenção é encobrir defeitos e destacar qualidades do rosto, tal qual fazemos com nossas características quando aderimos fortemente à tentação de identificação com a persona. A persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico à individualidade. O complexo funcional da persona diz respeito exclusivamente à relação com os objetos externos. (JUNG, 2015)</p>



<p>&nbsp;Além disso, a experiência sensorial do material sobre o rosto pode ser incômoda, ou ainda, a impossibilidade de suar, chorar, comer, beber sem que deixe algum vestígio no rosto ou nos objetos, diferencia a maquiagem, que deixa marcas temporárias na pele ou no desenho. Uma máscara é capaz de esconder um choro, um revirar de olhos, um toque no rosto, mas a maquiagem, não tem essa mesma capacidade. Triolo-Rodriguez (2023) classifica a experiência de maquiagem como multissensorial, de toque e autoexpressão, pelas cores e uma forma de arte.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-diferenca-entre-uma-mascara-e-uma-maquiagem-parte-desde-o-processo-da-sua-elaboracao-ate-o-momento-do-encerramento-do-seu-uso" style="font-size:18px">A diferença entre uma máscara e uma maquiagem parte desde o processo da sua elaboração até o momento do encerramento do seu uso.</h2>



<p>A maquiagem traz um componente sensorial à experiencia de confecção da pintura. O processo de pintura facial coloca a pele em contato com substâncias líquidas, sólidas, viscosidade, pó etc que possibilitam a iluminação, destaque, sombreamento, ocultação, alteração de forma, tamanho, volume de estruturas. Tudo isso acompanhado de uma sensação tátil em uma pele sensível como a do rosto.</p>



<p>A máscara por si, pode até ser moldada no rosto, mas não tem a capacidade de alterar, mesmo que temporariamente, a percepção sobre sua forma. Ela o esconde. A maquiagem faz com que a pessoa tenha que lidar com o que vê, e com o que sente, e no processo pode se conscientizar de seu próprio corpo e imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maquiagem-tambem-adere-a-pele-do-rosto-e-se-move-quando-este-se-move-podendo-dar-novos-olhares-a-expressoes-faciais-e-revelar-ou-esconder-aspectos-do-rosto" style="font-size:17px">A maquiagem também adere à pele do rosto e se move quando este se move, podendo dar novos olhares a expressões faciais e revelar ou esconder aspectos do rosto.</h2>



<p>A remoção da maquiagem é outro processo único, que pode ser até desconfortável e desvela novamente o rosto por trás da pintura e muitas vezes pode deixar vestígios de sua presença durante mais tempo. Todo esse processo constrói, revela, esconde e destaca aspectos faciais muitas vezes desconhecidos da própria pessoa. Remover a maquiagem foi um alívio ou um medo? Colocar a maquiagem evocou quais sentimentos? O que a pintura revela ou esconde sobre você?</p>



<p>O processo de remoção da maquiagem também pode ser uma vivência interessante para pessoas que não conseguem se colocar no mundo sem antes de cobrir (ou revelar?) com uma bela camada de maquiagem, ou seja, usam a pintura facial como máscara e não como acessório. Nesses casos é interessante o convite a remover a máscara e encontrar o que se esconde, quais vulnerabilidades podem estar abafadas, não faladas e não observadas, aumentando gradativamente no esconderijo inconsciente (Adaptado de Triolo-Rodriguez, 2023).</p>



<p>O uso da maquiagem como técnica de expressão criativa pode criar um espaço seguro para o cliente tentar novos papéis na vida, dando voz aos personagens internos, ou ainda se livrar de alguns personagens criados, podendo experimentar a vivência do ator de entrar e sair do personagem, sem se identificar com ele, experimentar e redefinir normas sociais e culturais da sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-explorarmos-as-facetas-perdao-pelo-trocadilho-do-material-de-pintura-facial-brincamos-com-os-diversos-aspectos-envolvidos-na-diade-persona-sombra" style="font-size:17px">Ao explorarmos as facetas (perdão pelo trocadilho) do material de pintura facial, brincamos com os diversos aspectos envolvidos na díade persona-sombra.</h2>



<p>A brincadeira de esconder e revelar é típica da interação desses dois aspectos da psique,&nbsp; quando uma persona não é construída como resposta a aspectos sombrios, dessa forma, quando olhamos para a persona a fundo, podemos ver um aspecto complementar residente na sombra ou no inconsciente. Quando pinto um novo rosto, quem é esse personagem interno que se revela, ou qual personagem ele pode estar tentando esconder? Com o rosto pintado, convida-se o indivíduo a criar em cima daquela imagem aderida à sua pele: que voz tem esse rosto que agora se apresenta? O que ele diz? Quais são suas motivações?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-invoco-philippini-2018-que-diz" style="font-size:20px">Nesse sentido invoco Philippini (2018) que diz:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Algumas linguagens e materiais estão a serviço do desbloqueio de conteúdos inconscientes e fluência no processo criativo. Outras favorecem comunicação e configuração de informações objetivas enquanto outras permitem a saída do plano fugidio das ideias, sensações e emoções para o campo concreto. Combinar essas estratégias e complementá-las com outras, advindas de outras áreas de criação, além das Artes Plásticas, é atividade complexa, que é auxiliada por observação, mas é também exercício teórico e técnico, resultante do estudo e do conhecimento da natureza harmonizadora e organizadora do fazer artístico, e de suas propriedades terapêuticas específicas, inerentes à cada materialidade e à cada linguagem plástica.</p></blockquote></figure>



<p>Cada símbolo produzido poderá ser compreendido simultaneamente em relação ao seu criador, nas suas ressonâncias subjetivas e biográficas e, paralelamente, também em seus aspectos universais e arquetípicos. O processo de amplificação simbólica passa por um olhar atento ao “rastreamento cultural” na procura de pistas e registros de sentidos arquetípicos e universais do símbolo pesquisado em referências diversas (PHILIPPINI, 2018).</p>



<p>A maquiagem como expressão criativa pode ser usada de maneiras diversas. E se, ao invés de esconder imperfeições na face, as destacássemos? O que as imperfeições escondidas podem revelar sobre a pessoa que as esconde? Pode-se também pedir que desenhe formas, use cores, crie um personagem com base no que a expressão revela. Por não ser feita necessariamente por artistas, a maquiagem como expressão criativa pode muitas vezes mostrar uma configuração que talvez nunca se repita e se vá conforme o demaquilante age.</p>



<p>Uma reflexão da maquiagem é que, por mais que esteja aderida à pele, e possa até ser confundida com ela, a maquiagem não é a pele, remover a maquiagem pode ser um exercício interessante de remover uma persona aderida e a possibilidade de se encontrar com sua individualidade. Ao se realizar o ciclo: pintar, analisar e remover exercitamos com o cliente uma forma de tratar as personas assim como as pinturas faciais, de maneira transitória e entender que só transformam temporariamente o rosto e criam a percepção da mudança da forma, no entanto, o rosto continua o mesmo por debaixo da pintura.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão. A persona é uma aparência, uma realidade bidimensional, como se poderia designá-la ironicamente. (JUNG, 2014)</p></blockquote></figure>



<p>Quando convidamos então, como exercício terapêutico, a remoção da maquiagem ou ainda sugerir que, ao invés de esconder características indesejadas passe a destacá-las, estamos convidando a individualidade oculta a que se revele, uma vez que a persona é um pacto com a coletividade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-0" style="font-size:20px">Para Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Seria incorreto, porém, encerrar o assunto sem reconhecer que subjaz algo de individual na escolha e na definição da persona; embora a consciência do ego possa identificar-se com ela de modo exclusivo, o si-mesmo inconsciente, a verdadeira individualidade, não deixa de estar sempre presente, fazendo-se sentir de forma indireta. (JUNG, 2014)</p></blockquote></figure>



<p>A atitude meramente pessoal da consciência produz reações da parte do inconsciente e estas, juntamente com as repressões pessoais, contêm as sementes do desenvolvimento individual, sob o invólucro de fantasias coletivas (JUNG, 2014). Quando convidamos o cliente a expressar-se pela maquiagem fica a questão, quem se manifesta naquele novo rosto? Quais personagens internos se revelam quando destacamos as imperfeições ao invés de escondê-las? Não há resposta certa a priori, cabe apenas a ampliação e circuambulação, estabelecendo um diálogo entre os aspectos escondidos e revelados, em busca do terceiro oculto.</p>



<p>Observa-se que não tratamos nesse artigo de maquiagens transformadoras de indivíduos em outras espécies (animais, plantas etc).</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="ARTIGO: Maquiagem como expressão criativa: possibilidades arteterapêuticas" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/MViRXzh3GHg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">Mauro Ângelo Soave Jr – Membro Analista Didata em formação</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone Magaldi – Membro didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p style="font-size:15px">FUNAI (Fundação Nacional do Índio). <em>Pinturas corporais indígenas carregam marcas de identidade cultural. </em>29 mar 2022. Disponível em: <a href="https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2022-02/pinturas-corporais-indigenas-carregam-marcas-de-identidade-cultural">https://www.gov.br/funai/pt-br/assuntos/noticias/2022-02/pinturas-corporais-indigenas-carregam-marcas-de-identidade-cultural</a> , acesso em 18 jun 2024.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl G. O eu e o inconsciente /O.C 7/2. Petrópolis. Vozes. 2014</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl G. Tipos Psicológicos. O/C 6. Petrópolis. Vozes, 2015.</p>



<p style="font-size:15px">LANÖE, C. A maquiagem tem um gênero? Olhares sobre a maquiagem masculina. Tradução de Thiago Mattos. VOLUME 12 | NÚMERO 25 | ABRIL 2019 https://dobras.emnuvens.com.br/dobras | e-ISSN 2358-0003</p>



<p style="font-size:15px">PHILIPPINI, Angela. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: uso, indicações e propriedades. Rio de Janeiro, Wak Ed. 2018.</p>



<p style="font-size:15px">STRICKLAND, Fernanda. Mercado de beleza atingirá cerca de US$ 580 bilhões até 2027, aponta pesquisa. <em>Correio Braziliense.</em> 13 fev 2024. Disponível em <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2024/02/6802132-mercado-de-beleza-atingira-cerca-de-uss-580-bilhoes-ate-2027-aponta-pesquisa.html">https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2024/02/6802132-mercado-de-beleza-atingira-cerca-de-uss-580-bilhoes-ate-2027-aponta-pesquisa.html</a>, acesso em: 19 jun 2024.</p>



<p style="font-size:15px">TRIOLO-RODRIGUEZ, Rhys. &#8220;<em>Exploring Core Concepts and Uses of Makeup in Expressive Arts Therapy and Mental Health:</em> A Critical Review of the Literature&#8221; (2023). Expressive Therapies Capstone Theses. 698. <a href="https://digitalcommons.lesley.edu/expressive_theses/698">https://digitalcommons.lesley.edu/expressive_theses/698</a>. Acesso em 20 jun 2024.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<title>Novelas no Brasil: mil e uma noites de histórias sobre nós</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/novelas-no-brasil-mil-e-uma-noites-de-historias-sobre-nos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 21 Oct 2023 13:49:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[novelas]]></category>
		<category><![CDATA[novelas e o brasileiro]]></category>
		<category><![CDATA[padrões culturais nas novelas]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As novelas são um produto de alta audiência e repercussão na sociedade brasileira. Presentes há 70 anos na televisão falam sobre e com o brasileiro. Nesse artigo apresentamos o histórico da novela no Brasil e como ela pode nos ajudar a entender melhor a coletividade do nosso povo.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em><strong>Vale tudo</strong> para sair da pobreza? Até onde se pode ir<strong> Por Amor? </strong>Uma <strong>História de Amor </strong>&nbsp;e algumas tramas paralelas são o ingrediente básico desse formato. Inegavelmente <strong>Brasileiras e Brasileiros</strong> já viram ao menos uma novela na vida e alguns até elegem <strong>A Favorita</strong>. A novela é um formato que já teve sua morte decretada em diversos momentos, mas consegue <strong>Renascer </strong>de tempos em tempos. No Brasil tem características singulares. É o nosso produto audiovisual de maior relevância e de alguma forma reflete nesse <strong>Espelho Mágico</strong> da TV um pouco do espírito da época e dos complexos culturais do nosso povo.</em></p>



<p><em>As novelas são um produto de alta audiência e repercussão na sociedade brasileira. Presentes há 70 anos na televisão falam sobre e com o brasileiro. Nesse artigo apresentamos o histórico da novela no Brasil e como ela pode nos ajudar a entender melhor a coletividade do nosso povo.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-historico"><strong>Histórico</strong></h2>



<p>A novela é um gênero derivado dos folhetins, que eram histórias capituladas ou episódicas publicadas em jornais impressos. Essas histórias iniciaram sua interpretação via rádio, e migraram para a TV. A <strong>telenovela</strong> no Brasil surge a partir da chegada da televisão ao país e da adaptação desse formato de história dividida em episódios para a tela. E desde então já são 70 anos de tramas no ar.</p>



<p>O melodrama, gênero literário, teatral e cinematográfico, no qual se incluem as <strong>novelas</strong>, ou do qual elas derivam, é uma expressão popular. Nesse gênero, os personagens são estereotipados, as emoções são manifestadas de maneira intensa e marcadas pela música, que diz ao público qual a emoção do momento. Na sua versão brasileira, conta com fortes traços de natureza social e crítica, com enredos centrados não só em conflitos íntimos, pessoais e sentimentais, mas também sociais (ROSADO, 2017).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fato-e-que-em-70-anos-de-televisao-esse-tipo-de-narrativa-sempre-esteve-presente-na-programacao-e-e-um-dos-produtos-de-maior-audiencia" style="font-size:19px">Fato é que em 70 anos de televisão, esse tipo de narrativa sempre esteve presente na programação e é um dos produtos de maior audiência.</h2>



<p>Vale uma ressalva que, muitas vezes se previu o fim desse formato, seja pelas mudanças de hábito, pela chegada da internet, dos vídeos <em>on demand</em> e dos <em>streamings</em>, mas o que ocorreu foi o inverso, essas plataformas estão buscando produzir suas próprias <strong>novelas</strong> atualmente. Além disso, qual a diferença entre uma série com 200 episódios divididos em temporadas de uma novela com 200 capítulos exibidos de maneira contínua? De acordo com Svartman:</p>



<p>A associação da telenovela ao que é popular e a substituição gradual dos teleteatros pelas telenovelas, à medida que a televisão se expandiu no país, possivelmente contribuíram para a ideia de que se trata de um produto que deveria ser menos valorizado. Não apenas porque tem uma produção industrial, mas também, justamente, porque é popular. Essa percepção perdura na atualidade, em que os seriados, realizados para um público mais segmentado, são percebidos como obras de qualidade superior às telenovelas, de audiência massiva (SVARTMAN, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-primeiras-novelas">As primeiras novelas</h2>



<p>As primeiras <strong>telenovelas</strong> veiculadas no país eram adaptações de folhetins estrangeiros e tinham como objetivo a venda de produtos. A título de curiosidade, o termo inglês para esse tipo de formato é <em>soap opera (ópera de sabão), </em>pois são histórias que eram veiculadas com o objetivo de vender sabão às donas de casa. O intuito das <strong>telenovelas</strong> é segurar a atenção do público para que, nos intervalos, possa veicular propagandas. Além disso, há também a estratégia do <em>merchandising</em>, onde o produto é inserido de alguma forma na própria trama.</p>



<p>A primeira <strong>telenovela</strong> exibida no Brasil foi <em>Sua Vida me Pertence</em>, em 1951, dividida em 25 capítulos, duas vezes por semana. As tramas passaram a ser diárias somente a partir de 1963 com a novela <em>2-5499 Ocupado </em>baseado em um texto argentino. A primeira <strong>novela</strong> produzida a partir de um texto original brasileiro foi <em>Beto Rockfeller</em> de 1968 (ROSADO, 2017; SVARTMAN, 2019).</p>



<p>A <strong>telenovela</strong> ocupa o horário nobre da grade de programação das televisões abertas, pois é o momento em que a maioria das pessoas assiste à TV. Nos tempos pré-internet, era um dos momentos em que os coabitantes de uma casa se sentavam diante da única TV para assistir a mais um capítulo daquela história. E então acompanhavam os assuntos desvelados pela trama, as sagas dos personagens favoritos de cada um e as trilhas sonoras que até hoje ressoam. Não à toa o horário nobre se dá aproximadamente após o jantar, momento em que as obrigações do dia cessavam e iniciava o preparo para o sono.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-apelo-midiatico-nas-novelas">O apelo midiático nas novelas</h2>



<p>É inegável o apelo que a <strong>novela</strong> tem sobre a sociedade brasileira, ela pauta discussões, mobiliza emoções e prende as pessoas diante da TV. &nbsp;A emoção de se assistir um capítulo chave, mesmo sabendo o que pode acontecer, juntamente com sua família ou com outros milhões de telespectadores é algo digno de nota. O Brasil já parou várias vezes por causa de uma boa <strong>novela</strong>.</p>



<p>Por ser um produto comercial, mas que com o passar do tempo foi ganhando importância cultural em nosso país. A <strong>novela</strong> virou, além de uma vendedora de produtos, um palco onde destacam assuntos da sociedade e muitas vezes é são pautados por ela. Sendo uma obra aberta, é possível que seus espectadores influenciem as tintas pelas quais tramas serão retratadas. Nesse sentido, muitas foram “canceladas” ou ganharam espaço de acordo com a recepção pelo público, e tiveram suas histórias encurtadas ou modificadas para atender a essa demanda. De acordo com Rosado:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">[&#8230;] a telenovela estabelece um compromisso com seu público, ou seja, o compromisso de manter o contato com ele e de agradá-lo com histórias sobre o drama da vida. O público espera que o autor e a produção tenham como objetivo maior o seu prazer e gozo e também a manutenção perpétua de sua atenção. Ao mesmo tempo, ela se mantém fiel aos patrocinadores, devido ao seu viés econômico.</p>
<cite> ROSADO, 2017.</cite></blockquote>



<p>Resgatando o fato de que a novela tem que agradar, ou ao menos não repelir, o maior número possível de pessoas frente à TV todos os dias, faz sentido que o apelo ao gênero do melodrama aconteça. E que as histórias sejam repetitivas ou explicativas, pois precisam falar com muitos públicos ao mesmo tempo e captar o máximo de novos espectadores. <strong>Fenômenos coletivos tendem a se ligar a camadas próximas ou mesmo dentro da inconsciência</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-citando-jung" style="font-size:20px">Nesse sentido, citando Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">É um fato que, quando muitas pessoas se reúnem para partilhar de uma emoção comum, emerge uma alma conjunta que fica abaixo do nível de consciência de cada um. [&#8230;] Por isso, se eu tiver no grupo o que se chama uma vivência comunitária coletiva, esta ocorre em um nível de consciência relativamente inferior: por este motivo a vivência grupal é muito mais frequente do que uma vivência de transformação individual. É também muito mais fácil alcançar a primeira, pois o encontro de muitas pessoas tem uma força sugestiva. O indivíduo na multidão torna-se facilmente uma vítima de sua sugestionabilidade.</p>
<cite>JUNG, 2014, p. 128-129, vol. 9/1</cite></blockquote>



<p>Sendo assim, pela sua sensibilidade e pesquisa sobre as relações do público com a história em cena, podemos dizer que as novelas podem nos oferecer uma imagem da consciência coletiva do brasileiro, e de temas que habitam camadas inconscientes de sua psique, visto que depende da aprovação deste para continuar sendo exibida.</p>



<p><strong>Sim, a rejeição aqui também é peça chave</strong>. Pois, como dito anteriormente, dependendo da abordagem de certos temas pode levar ao cancelamento, diminuição ou até mudança na história de personagens. <strong>Mostrando o que carrega na sombra essa multidão de espectadores</strong>. A telenovela, mesmo sendo entretenimento, pode lidar com temáticas sociais e discutir questões de interesse social. Tais como, por exemplo, a pedofilia, a prostituição, o desaparecimento de crianças, ou o uso de drogas, entre outros (ROSADO, 2017).</p>



<p>Mesmo que para alguns indivíduos aquela história faça sentido, toque ou ainda cause identificação, a natureza da telenovela como produto faz com que, se esse tema seja apresentado de maneira a não agradar o grande público, ela corra o risco de ser cortada. O público aqui é um grande indivíduo que diz se está confortável ou não diante do que lhe é apresentado. <strong>Fato é que o objetivo principal da novela é manter o telespectador diante da TV, por amor ou até pela raiva.</strong> E esta<strong> </strong>está sempre se adequando a esse grande algoritmo. Nesse sentido, não só as tramas se adequam, mas também o horário de exibição. A famosa “Novela das oito” que virou “Novela das nove” se dá pela mudança de hábitos, como o aumento do trânsito e a demora das pessoas em chegarem em casa (PODCAST ILUSTRÍSSIMA CONVERSA, 2023).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-brasil-se-ve-na-tv"><strong>O Brasil se vê na TV</strong></h2>



<p>Em vistas de manter esse grande público atento ao desenrolar da trama, uma das características que tornam as novelas brasileiras únicas é o forte apelo ao público nacional. De acordo com <strong>Svartman</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Ao longo dos anos da história da telenovela brasileira, a principal influência que a singulariza em relação às outras é, na verdade, a dimensão subjetiva da sociedade brasileira, que através do público dialoga, assiste a telenovela e a interpreta. É o espectador que em última instância provoca as transformações na telenovela, um produto da televisão comercial que depende da audiência por causa de seu modelo de negócio apoiado na publicidade [&#8230;] </p>
<cite>SVARTMAN, 2019</cite></blockquote>



<p><strong>Pela sua natureza comercial, as novelas estão de olhos e ouvidos atentos no que o público quer e no que pode mobilizar a opinião pública sem, no entanto, afastar as pessoas da TV</strong>. Dessa forma o que vemos nas tramas refletem o espírito da época do Brasil, tanto que algumas obras apresentam visões de mundo questionáveis hoje em dia, principalmente em relação a temas tão pujantes como o papel da mulher na sociedade.</p>



<p>Da mesma maneira que a novela discute temas latentes na sociedade, o gênero também reflete as mudanças e evoluções da esfera real. Temos na reportagem da Revista <strong>Fapesp</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Segundo Maria Aparecida Baccega, [pesquisadora do tema]: “a maioria das tramas traz à tona temas polêmicos que estão latentes na sociedade, esperando por uma oportunidade de entrar em discussão. A oportunidade, muitas vezes, aparece na forma de personagens e histórias da ficção televisiva”, e complementa: &#8220;São dois caminhos. Um teledramaturgo precisa refletir sobre temas ainda escondidos pela sociedade, mas também deve estar atento às mudanças que acontecem de fato e trazê-las para suas tramas.</p>
<cite>PESQUISA FAPESP, 2000</cite></blockquote>



<p>Nesses 70 anos de presença é possível ver, através da abordagem de cada tema, a evolução da opinião pública sobre questões como o divórcio, traição, violência doméstica, relacionamentos LGBTQIA+, religiosidade, dependência química entre outros. Sem contar os tão batidos e imprescindíveis temas como amor, família, maternidade, paternidade, crises familiares, ética, moral, amor, vingança entre outros que são ingredientes básicos de um bom melodrama. </p>



<p><strong>Svartman (2019) diz que no fundo a novela apresenta o eterno embate entre o bem e o mal apresentado com personagens relacionáveis</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-rosado" style="font-size:18px">Segundo <strong>Rosado</strong>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">Elas [as novelas] são capazes de “sintonizar” telespectadores com a interpretação e a reinterpretação da política, assim como de tipos ideais de homem, mulher, marido, esposa e família. A novela se tornou um dos veículos que capta e expressa padrões legítimos e ilegítimos de comportamento.</p>
<cite>HAMBURGUER, 1998, <em>apud </em>ROSADO, 2017</cite></blockquote>



<p>Apesar de manter o público diante da TV, não há unanimidade sobre o que se vê. No Podcast &#8220;Ilustrísssima Conversa&#8221; (2019) autora de novelas Rosane Svartman e na reportagem da Revista Fapesp (2000) a pesquisadora Maria Immacolata de Lopes dizem que, uma cena, um personagem ou uma história podem ter interpretações diversas dependendo de quem a assiste.</p>



<p>Em quais personagens e histórias se enxerga o brasileiro? O que as cenas exibidas nos grandes sucessos do passado podem revelar sobre os complexos culturais da nossa sociedade? Quais aspectos estão projetados nos personagens do bem e nos personagens do mal?</p>



<p>Nesse sentido, o que dizer então dos vilões e antagonistas? Criados muitas vezes para infernizar a vida dos personagens bons, acabam caindo nas graças do público que “ama os odiar”. Quais sombras não se projetam numa Odete Roitman (<strong>Vale Tudo</strong>), Nazaré Tedesco (<strong>Senhora do Destino</strong>), Carminha (<strong>Avenida Brasil</strong>), Flora (<strong>A Favorita</strong>), Maria de Fátima (<strong>Vale Tudo</strong>), Leôncio (<strong>Escrava Isaura</strong>), Perpétua (<strong>Tieta</strong>), dentre outros de uma imensa galeria de personagens memoráveis, e talvez por isso, tão reveladores da nossa sombra coletiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espelho-magico"><strong>O Espelho Mágico</strong></h2>



<p>O que se observa na verdade é que as novelas influenciam hábitos de consumo, não valores e comportamentos. Como, por exemplo, quando a novela <strong>O Clone</strong> apresentou de maneira romântica aspectos da cultura árabe e fez com que os adornos usados pelas personagens femininas, principalmente pela protagonista Jade, virassem moda. No entanto, o Brasil não se tornou um país muçulmano, apenas conheceu um pouco melhor uma nova cultura e uma nova religião.</p>



<p>Os valores muitas vezes são colocados à prova, preconceitos trazidos à tona e aí talvez se mude alguma coisa, mas a transformação é mais na esfera individual do que coletiva, ou seja, um telespectador pode ser tocado de maneira profunda pela história que vê diariamente, mudar seus valores e sua visão em relação à dependência química, homossexualidade, racismo, machismo dentre outros temas abordados nesses 70 anos de história.</p>



<p>Ao trazer os temas que estão latentes na sociedade por meio dos seus personagens a novela, por vezes traz à tona assuntos desconfortáveis e feridas coletivas que fazem com que se tenha a percepção de que está moldando comportamentos. Ao se discutir com alguém uma história vivida por um personagem de novela, se revela um pouco de sua visão sobre aquele tema. Segundo Rosado:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">[&#8230;] a novela busca representar a realidade, as emoções, as angústias, as aflições de seus espectadores. Valendo-se de seres ficcionais, ela os coloca diante de si mesmos, do outro e do mundo. É, pois, um artefato extremamente vinculado aos parâmetros culturais da sociedade. </p>
<cite>ROSADO, 2017)</cite></blockquote>



<p>Algumas histórias mexem tanto com as pessoas, que se acham no direito de agredir seus intérpretes em plena rua, numa espécie de vingança pelo personagem oprimido, ou por outra ótica, um ataque aos seus próprios aspectos sombrios ali retratados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-certa-forma-a-novela-foi-uma-das-maneiras-que-o-brasil-encontrou-de-olhar-a-si-mesmo-de-se-ver-diariamente-refletido-nos-personagens" style="font-size:17px">De certa forma a novela foi uma das maneiras que o Brasil encontrou de olhar a si mesmo, de se ver diariamente refletido nos personagens.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px">As novelas são, sem dúvida, uma manifestação cultural de massa. Mas isso não significa que devem ser desprezadas. Dinamarca, Alemanha, França e Estados Unidos estão desenvolvendo teses de estudo especificamente sobre nossos folhetins. Até nesses países foi descoberto o valor sociológico do gênero. Não há por que tratá-los como manifestações menores por aqui&#8221;, diz Maria Immacolata de Lopes, outra pesquisadora do tema .</p>
<cite>Revista Fapesp, 2000</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cenas-dos-proximos-capitulos"><strong>Cenas dos próximos capítulos&#8230;</strong></h2>



<p>Uma história bem contada é capaz de prender a atenção, mexer com nossas emoções e cutucar nossos complexos. Assim como Sherazade evitou sua morte por Mil e Uma Noites, a narrativa episódica se mantém até hoje no nosso cotidiano, sendo pela novela ou mais recentemente pelos seriados. Sherazade percebia nas reações do Sultão o que lhe deixava curioso pela próxima parte da história e assim salvou sua vida. O segredo para se segurar a atenção do público é sempre deixar um mistério em aberto ao final do capítulo.</p>



<p>As <strong>novelas</strong> são nada mais que histórias, muitas vezes repetidas e repetitivas, que falam com questões basilares da humanidade como: amor, conflito, dilema, mistério, vingança, luta do bem e do mal, família e todos os desdobramentos, usando como personagens pessoas com que o público brasileiro consegue se relacionar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mesmo-nas-historias-de-epoca-e-mais-fantasiosas-estao-representados-os-dilemas-da-alma-humana-e-as-questoes-sociais-do-brasil" style="font-size:18px">Mesmo nas histórias de época e mais fantasiosas estão representados os dilemas da alma humana e as questões sociais do Brasil.</h2>



<p>Para o espectador, pode ser seguro ver seu conflito num personagem e, ao observar o desenvolvimento daquela história, compreender melhor seus impasses internos, ou ainda, descarregar a energia contida na sombra com momentos de emoção catártica. Também pode ele de certa forma, antecipar a recepção desses conflitos em seu círculo social por meio da reação desse círculo ao drama do personagem.</p>



<p>Por meio das <strong>novelas</strong> é possível também observar como a opinião pública da sociedade sobre temas tabu foi evoluindo ao longo de 70 anos, passando pela censura da ditatura militar, chegada da internet e mudanças de hábitos, costumes e valores morais da população. Apesar de serem consideradas um produto cultural de menor valor, ainda assim, as novelas são um produto cultural muito importante em nosso país e essa característica que a torna tão singular pode ser uma rica fonte de informações sobre a constituição psicológica do imaginário brasileiro. Ver o que é sucesso numa novela, pode nos ajudar um pouco a entender o que ocorre nas ruas do nosso país.</p>



<p><strong>A novela tem esse potencial coletivo, de buscar entender o que se passa de alguma forma pela cabeça do brasileiro</strong>. Há sim, na história da telenovela muitas problematizações a serem feitas, mas não é essa a intenção desse artigo. Na tela não é possível representar um país tão diverso e multicultural como o Brasil, mas é possível, de alguma forma, olhando para além do que se vê na tela, entendê-lo, não que seja uma tarefa fácil, muito menos, óbvia.</p>



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<iframe title="Artigo Novo : &quot;Novelas no Brasil: mil e uma noites de histórias sobre nós&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/pLVrUQQ8bo0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">MsC Mauro Angelo Soave Junior -Membro Analista em formação pelo IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata do IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong></h2>



<p>Site Teledramaturgia. Disponível em <a href="http://teledramaturgia.com.br/">http://teledramaturgia.com.br/</a>. Acesso em setembro de 2023.</p>



<p><a>Ilustríssima Conversa</a>: [Locução de:] Maurício Meireles. Entrevistada: Rosane Svartman. [S.I]. Folha de S. Paulo. 5 de agosto de 2023.<em> Podcast.</em> Disponível em: <a href="https://open.spotify.com/episode/05LueDOzbQNktXiVGwL1WB?si=2e46d443ecb84c27">https://open.spotify.com/episode/05LueDOzbQNktXiVGwL1WB?si=2e46d443ecb84c27</a> . Acesso em 22 setembro de 2023.</p>



<p>FAPESP (2000). <strong>REVISTA PESQUISA FAPESP</strong>. Brasil mostra sua cara na TV<strong>. </strong>São Paulo. junho de 2000. P. 50-53. Disponível em <a href="https://revistapesquisa.fapesp.br/brasil-mostra-a-sua-cara-na-tv/">https://revistapesquisa.fapesp.br/brasil-mostra-a-sua-cara-na-tv/</a>. Acesso em setembro de 2023.</p>



<p>HAMBURGUER, Esther. <strong>Diluindo fronteiras: a televisão e as novelas no cotidiano</strong>. In. SCHWARCZ, Lilia (Org.). História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. V. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 439-488.</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.</p>



<p>ROSADO, Leonardo Coelho Corrêa. <strong>Telenovelas brasileiras [manuscrito]: um estudo histórico-discursivo</strong>. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Letras – 2017.</p>



<p>SVARTMAN, Rosane. <strong>TELEVISÃO EM TRANSFORMAÇÃO – Como a telenovela pode indicar estratégias para a televisão corporativa diante das transformações na espectatorialidade, da convergência de mídias e das plataformas interativas. </strong>Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal Fluminense, Instituto de Arte e Comunicação Social, 2019. Disponível em <a href="https://app.uff.br/riuff/handle/1/16261">https://app.uff.br/riuff/handle/1/16261</a>. Acesso em setembro de 2023.</p>



<p></p>



<p>Acesso nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">https://www.ijep.com.br/</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ética na vida e morte da natureza</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/natureza/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Oct 2023 12:26:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Desconexão]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relação Humano-Natureza]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8195</guid>

					<description><![CDATA[<p>Já parou para pensar o quanto de natureza existe de você e o quanto de você está na natureza? Nesse artigo fazemos uma reflexão sobre o atual estado de desconexão da humanidade com a natureza interna e externa, por meio da sempre presente urgência e desrespeitos aos ritmos, ciclos e processos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>No presente artigo buscamos aprofundar a reflexão sobre nossa relação ética com a natureza, exploração dos recursos e falta de respeito para com a vida em geral.</em></p>



<p><em>A relação entre o</em> <em>humano e o</em> <em>meio ambiente se deteriorou ainda mais com o advento da indústria e do poderio tecnológico</em>, <em>ao mesmo tempo que o aumento da população urbana distanciou grande parte da população da proximidade e observação do meio ambiente.</em></p>



<p>      *<em>Este artigo foi inspirado na palestra que apresentamos no VIII Congresso Junguiano do IJEP. </em> <em>Conheça nossos Congressos Junguianos:</em> <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep"><em>https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep</em></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-homens-primitivos-viam-na-natureza-a-morada-de-seus-deuses" style="font-size:18px">Os homens primitivos viam na natureza a morada de seus deuses.</h2>



<p>Os homens primitivos viam na natureza a morada de seus deuses. Os indígenas tratam a floresta e o local de onde tiram seu alimento, como espaço sagrado. As primeiras divindades foram fruto da observação e temor das forças da natureza. A falta de compreensão racional dos humanos a respeito do funcionamento da natureza fez com que projetassem nela seus primeiros conteúdos inconscientes e, a partir daí, criassem-se os <strong>deuses e mitos</strong>. Obviamente essa é uma redução drástica de uma linha do tempo que data de milênios atrás.</p>



<p>Essa reverência à natureza e aos deuses manifestados por seus fenômenos resultava em uma relação de cautela e precaução em relação à superexploração, poluição e degradação. Ao serem muito mais dependentes do seu ambiente próximo, nossos ancestrais aprenderam, provavelmente ao custo de vidas e sofrimento de algumas gerações, que certas práticas poderiam colocar em risco os alimentos e a saúde de todo um povo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-na-terra-e-fruto-de-inumeras-transformacoes-e-condicoes-muito-peculiares" style="font-size:18px">A vida na Terra é fruto de inúmeras transformações e condições muito peculiares</h2>



<p>A vida na Terra é fruto de inúmeras transformações e condições muito peculiares, desde a localização do planeta no sistema solar, até a temperatura e composição da atmosfera &#8211; perfeitas para possibilitar a existência e evolução da vida ao ponto de gerar seres autoconscientes como nós.</p>



<p>A consciência e a racionalidade humanas tornaram possível que a nossa espécie fosse uma das poucas capazes de se adaptar, por meio de tecnologias, a todos os ambientes do planeta, desde as florestas quentes e úmidas dos trópicos até o inverno congelante do Ártico.</p>



<p>Tal capacidade criativa também fez com que a humanidade fosse capaz de entender o funcionamento de boa parte da natureza e passar então a usá-la a seu favor. Isso não é, de maneira alguma, um demérito, pelo contrário, é um ponto de inflexão na nossa capacidade de se adaptar, pois, a partir de então fomos capazes de produzir alimentos e alimentar um número cada vez maior de pessoas, um tanto menos dependentes da caça e coleta.</p>



<p>Curiosamente, quanto mais conhecimento e controle o homem foi tendo da natureza, menor foi sua conexão com seus ciclos, sua reverência e temor das consequências. Jung baseou boa parte de seus achados teóricos na observação da natureza e era um grande crítico da desconexão entre homem e natureza alegando inclusive que a natureza é o alimento da alma (Duarte, 2017).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-advento-da-industria-e-sua-capacidade-de-processamento-transformou-a-natureza-em-uma-simples-fonte-de-insumos-e-tirou-dela-o-lugar-sagrado" style="font-size:18px">O advento da indústria e sua capacidade de processamento, transformou a natureza em uma simples fonte de insumos e tirou dela o lugar sagrado.</h2>



<p>A desconexão do humano com a natureza fez com que nos esquecêssemos de que dela dependemos. O que observamos, então, é uma formação societária de valorização da conquista, do poder e do domínio. Ao longo de toda uma diversa formação cultural e histórica, o meio natural foi visto como terra a ser conquistada, oportunidade de negócios, gerador insumos, fonte de riqueza. O local sagrado da natureza, e a troca harmônica com este meio, foram colocados em segundo plano.</p>



<p>Voltando o nosso olhar de cinco a seis mil anos no passado, encontraremos o começo da estrutura patriarcal vivida hoje. Nesse ponto da história, grandes transformações ocorreram nos mais diversos níveis. Nas movimentações entre as dimensões internas e coletivas, a progressiva instalação do patriarcado influenciou a preponderância do poder e do controle sobre a natureza interna do feminino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-paralelamente-a-dominacao-se-estende-a-natureza" style="font-size:18px">Paralelamente, a dominação se estende à natureza.</h2>



<p>Paralelamente, a dominação se estende à natureza. Quando o homem percebe que pode controlar o ciclo reprodutivo dos animais e das plantas inicia-se o controle mais ostensivo, juntamente com a imposição de sua vontade sobre os ciclos naturais. <strong>Inicia-se o rompimento da ordem natural de vida-morte</strong>.</p>



<p>A natureza foi, pouco a pouco, colocada como externa ao homem. Algo que pode ser controlado, medido, aproveitado e modificado. Passou a ser algo a parte de nós. Está distante, fora. Restrita a parques, reservas ambientais e paisagens. O ser humano já não se vê como parte da natureza e a natureza como ele próprio. O meio natural está agora longe, fora e separado de nós.</p>



<p>Essa perda de percepção do meio ambiente como algo do qual fazemos parte – e não apartado de nós – gerou um distanciamento do nosso próprio corpo e de tudo que se refere aos instintos naturais que nos cabem. Desde o processo natural de envelhecimento, até a autopercepção corporal de cansaço, fome e adoecimento. Estamos desconectados com o natural mais próximo a nós, que é o nosso corpo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-o-c-8-2-p-363-afirma-que-a-vida-natural-e-o-solo-em-que-se-nutre-a-alma" style="font-size:18px"><strong>Jung</strong> (O.C 8/2, p.363) afirma que “a vida natural é o solo em que se nutre a alma”.</h2>



<p>Nesta citação, Jung refere-se ao curso da vida, que se compõe de etapas de ascensão e crescimento, envelhecimento e preparação para a morte. Mesmo sendo evidente as fases naturais da nossa vida, que nos encaminham para o envelhecimento e a morte, o entorno cultural direciona as vontades para a juventude e a preservação de uma beleza padronizada insustentável.</p>



<p>Na esfera psíquica, em alguns casos, fica-se atrelado a um passado infantil e pueril, que, nas palavras de Jung geram “verdadeiras monstruosidades psicológicas”. Utilizando-se das imagens do meio natural, como frequentemente o faz, ele afirma que “<strong><em>um velho que não sabe escutar os segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do passado</em></strong>” (JUNG, O.C 8/2, p.364).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-notavel-ainda-que-o-tempo-natural-tem-sido-rompido-por-uma-urgencia-controladora" style="font-size:17px">É notável, ainda, que o tempo natural tem sido rompido por uma urgência controladora.</h2>



<p>Desde o momento mais elementar do nascimento, a imposição do tempo urgente se faz. Muitas vezes o parto cirúrgico é escolhido pela possibilidade da intervenção médica para se acelerar o processo de nascimento. Projetando os valores de produtividade até mesmo no ato de nascer, em que o ritmo natural do parto é quebrado. Marca-se um horário conveniente e confortável para todos. Em uma sala estéril, asséptica e gelada, um corte é feito e o pequeno ser humano é puxado para o começo de sua vida. O primeiro contato com o mundo externo, muitas vezes não respeita o tempo, a pausa, o ritmo, a cadência das demandas instintivas e intrínsecas à nossa natureza mais elementar e visceral.</p>



<p><strong><em>Vê-se uma paulatina deterioração da integração do homem com a natureza, o que conflui a um distanciamento do homem com seu mundo interno e uma falta de autopercepção mais profunda.</em></strong></p>



<p>Esta sensação de impotência e de alienação, a ausência de significado pessoal e de uma ligação viva com um campo orgânico &#8211; seja ele um grupo social, a natureza ou o <em>cosmo </em>-, é, sem dúvida, a característica psicológica peculiar de nosso tempo. Característica essa fomentada pela religião predominante nos últimos duzentos anos, mais conhecida como ciência. </p>



<p>Somado a isso, a impotência e a alienação são acentuadas pelos efeitos da cultura urbana, da coletivização abarrotante e da tecnologia. Todos estes fatores levaram a sociedade a um estado de entorpecimento e reduziram-na a uma manada. (WHITMONT, 1991, p. 262)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-retorno-da-deusa" style="font-size:18px">O retorno da Deusa</h2>



<p>Neste recorte do livro “Retorno da Deusa”, Whitmont evidencia o adoecimento compartilhado, que permeia várias esferas da nossa vida. Nessa dinâmica ocorre igualmente uma via de mão dupla.&nbsp; Ao mesmo tempo em que o homem em desconexão com sua natureza mais elementar agride e destrói, a natureza adoecida corrobora para uma saúde mental e física deteriorada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-mais-que-joguemos-fora-a-natureza-por-meio-da-forca-ela-sempre-retorna-jung-10-1-514" style="font-size:16px"><strong>Por mais que joguemos fora a natureza por meio da força, ela sempre retorna</strong> (JUNG, 10/1, §514)</h2>



<p>Nos encontramos de diante de um planeta em urgente necessidade de regeneração e avançado estado de degradação. Acreditamos saber os riscos aos quais estamos nos expondo, como espécie, às mudanças climáticas, esse evento abstrato que simbolicamente pode representar a transformação da atmosfera do planeta em algo mais hostil e agressivo. Não sabemos ao certo quanto a atividade humana tem afetado o delicado e profundo equilíbrio que foi construído durante milênios e que possibilitou nossa existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-esperanca-pois-a-natureza-e-um-continuo-e-muito-provavelmente-a-nossa-psique-tambem-o-e-jung-18-1-181" style="font-size:16px">Há esperança, pois a natureza é um contínuo, e muito provavelmente a nossa psique também o é (JUNG, 18/1, §181)</h2>



<p>Em outras linhas, a criatividade que nos colocou nesse lugar pode justamente nos tirar dele. Ao compreender a natureza, mas sem desejar controlá-la, a humanidade atua em cooperação com seus ciclos e processos. Essa é uma bela metáfora ao processo de individuação, que pode estar se desenrolando na consciência coletiva. Jung também diz que <strong>a natureza não é um guia por si</strong>, pois ela não foi feita para o ser, mas que com a consciência e a inteligência aprendemos a colaborar com ela. </p>



<p>Nossa relação com o meio ambiente talvez reflita parte da nossa relação com a nossa natureza interior. O quanto estamos dando ouvidos às nossas necessidades, à fome da alma? O quanto essa deterioração não tem afetado nosso inconsciente? Quantas doenças não surgiram como resultado da destruição ambiental e do contato com a natureza degradada? O quanto não estamos desrespeitando nossos ciclos, estações e sacralidades interiores?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-tivermos-a-natureza-como-guia-nunca-trilharemos-caminhos-errados-jung-10-3-34" style="font-size:17px">Se tivermos a natureza como guia, nunca trilharemos caminhos errados (JUNG, 10/3, § 34)</h2>



<p>Não se faz necessário um retorno aos tempos primitivos, porém, podemos aprender muito com esse tempo em que a natureza era local do divino e sagrado &#8211; merecendo, pois, a devida reverência. As atitudes de cada um contam na construção de uma consciência mais ecologicamente amigável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-natureza-externa-e-interna-estao-ligadas-e-se-retroalimentam" style="font-size:18px">A natureza externa e interna estão ligadas e se retroalimentam</h2>



<p>O alimento que nos alimenta volta para a natureza, da mesma forma que a degradação do meio ambiente é a degradação da nossa natureza interna. A cada ano, o dia de sobrecarga da Terra<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a>, uma data simbólica instituída pela Global Footprint Network com base em cálculos do uso dos recursos naturais pelos humanos, acontece mais cedo no ano.</p>



<p>Cada vez mais cedo o ser humano é acometido de doenças relacionadas ao meio ambiente (problemas respiratórios, obesidade, intoxicações) e/ou à superexploração da sua natureza interna (esgotamento, ansiedade, depressão).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-reconexao-com-os-ritmos-da-vida-e-da-morte-se-faz-urgente-e-sao-o-desafio-do-presente-para-a-garantia-do-futuro" style="font-size:18px"><strong><em>A reconexão com os ritmos da vida e da morte se faz urgente e são o desafio do presente, para a garantia do futuro.</em></strong></h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📜 Artigo Novo: Ética na vida e morte da natureza" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Vyd2Kkx61Qg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong>Autoria:</strong></p>



<p></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/lorenaoliveira/">Lorena de S. Oliveira – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">MsC. Mauro Angelo Soave Junior – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Fundadora e Membro Didata do IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>, 10ª edição, Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O. C 10/1 <em>Presente e futuro</em> – Petrópolis, RJ ; Vozes, 2013</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O. C 10/3 <em>Civilização em transição</em> – Petrópolis, RJ ; Vozes, 2013</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O.C 18/1 <em>A vida simbólica: escritos diversos</em> –Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p>DUARTE, Alisson J. O. Ecologia da alma: a natureza na obra científica de Carl Gustav Jung. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, v. 35, p. 5-19, 2017</p>



<p>WHITHMONT, Edward. <em>Retorno da deusa, </em>2ª ed., São Paulo: Summus, 1991.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a id="_ftn1" href="#_ftnref1">[1]</a> <em>O dia de sobrecarga da Terra aponta a data em que teoricamente os recursos naturais que deveriam durar 365 dias se esgotam, e dessa forma, estamos consumindo recursos futuros do planeta no presente.</em></p>



<p></p>



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		<title>Reflexões Junguianas sobre o Serviço e o Concurso Público no Brasil</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/reflexoes-junguianas-sobre-o-servico-e-o-concurso-publico-no-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Aug 2023 18:05:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Mercado de Trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[concurseiro]]></category>
		<category><![CDATA[concurso]]></category>
		<category><![CDATA[mercadodetrabalho]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7935</guid>

					<description><![CDATA[<p>Entrar no serviço público é uma meta na vida de muitos brasileiros. A estabilidade proporcionada por esse tipo de emprego frente às incertezas do mercado de trabalho é um dos principais atrativos. Nesse artigo refletimos sobre as subjetividades e objetividades envolvidas no processo de aprovação no concurso público, escolha da vaga e suas consequências.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O serviço público é visto como uma meta de vida para muitos brasileiros. No imaginário de muitos, garante àqueles que passarem em um concurso estabilidade e benesses vitalícias. A questão é que nem sempre é assim. O serviço público, ao qual o concurso é um meio de acesso, não é esse <strong>éden</strong> de estabilidade, pouco trabalho e despreocupação com o futuro; muitas vezes se torna uma prisão autoimposta que impede a autorrealização ou ao menos a dificulta, porém, ainda assim é uma alternativa muito atraente de emprego diante de um mercado de trabalho cada vez mais instável e precarizado.</p>



<p>O acesso a uma vaga no serviço público se dá pela participação em concursos. Desde a constituição de 1988 e a garantia de estabilidade à maioria daqueles que passarem, é uma espécie de esperança, pessoal e muitas vezes familiar, de um emprego minimamente digno e garantidamente “eterno”. Também é visto como uma das formas mais justas de seleção, uma vez que leva em conta os conhecimentos do concursando, ao contrário das arbitrariedades de um processo seletivo na iniciativa privada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estabilidade">Estabilidade</h2>



<p>Diante de cenários econômicos cada vez mais instáveis, a promessa de <strong>estabilidade</strong>, ou seja, emprego garantido, com certeza se apresenta como uma oportunidade de ouro (RIBEIRO e MANCEBO, 2009; ANJOS e MENDES, 2015; ROCHA, 2019).</p>



<p>Essa característica da iniciativa pública contrasta com o trabalho precarizado da iniciativa privada, uma vez que a presença do desemprego estrutural permite às empresas privadas oferecerem cada vez menos e cobrarem cada vez mais dos seus trabalhadores (ANJOS; MENDES, 2015).</p>



<p>Estes acabam se sujeitando às condições impostas uma vez que o cenário não permite que tenham escolhas e contribui para a disseminação de fatores que geram a insegurança, tais como as elevadas taxas de desemprego (ROCHA, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-instabilidade-a-grande-vila"><strong>Instabilidade, a grande vilã</strong></h2>



<p>De acordo com <strong>Albrecht</strong> e <strong>Krawulski</strong> (2011), em um estudo realizado em Florianópolis/SC, a maior parte dos concurseiros (aqueles que se dedicam ao estudo para aprovação em concursos), têm em vista a estabilidade e a remuneração como fatores de peso na hora de decidir se dedicar aos estudos e ao serviço público. Tais achados são semelhantes aos de Rocha (2019) e fazem eco às reflexões de Ribeiro e Mancebo (2009), que observa:</p>



<p>O candidato ao serviço público, quando prioriza a busca de segurança e qualidade de vida, pode na realidade estar mais interessado em se esquivar do clima tenso e inseguro da iniciativa privada, do que em fazer uma carreira aliada à realização profissional no setor público.</p>



<p>Esse trabalhador tem consciência de que as empresas privadas impõem geralmente um ritmo intenso ao exercício das atividades laborais. Situação que normalmente ultrapassa os muros da organização, impregnando as relações pessoais, familiares e sociais. Ele constata que, na busca contínua pela empregabilidade e na luta diária para conter o fantasma do desemprego, é quase sempre a qualidade de vida que fica comprometida (Ribeiro e Mancebo, 2009).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-de-aprovacao-em-um-concurso-publico-foi-se-tornando-cada-vez-mais-dificil-ao-longo-dos-anos" style="font-size:21px">O processo de aprovação em um concurso público foi se tornando cada vez mais difícil ao longo dos anos.</h2>



<p>Uma vez que tivemos um aumento na educação da população, incluindo cursos superiores, o número de pessoas aptas a prestar um concurso aumentou e, como consequência, a concorrência pelas vagas. Não raro, os concurseiros passam anos das suas vidas em uma rotina de estudos dedicada a um ou mais certames e raramente são aprovados numa primeira tentativa.</p>



<p>A busca por aprovação em concursos públicos é uma jornada desafiadora que pode ter diversos impactos na saúde mental dos concurseiros. Enquanto alguns podem enfrentar o processo com determinação e resiliência, outros podem experimentar dificuldades emocionais e psicológicas significativas devido às pressões envolvidas.</p>



<p>São comuns relatos de cobranças pelo desempenho não satisfatório para aprovação. Também são cobrados direta ou indiretamente dos parentes e amigos, que quando se encontram perguntam pelo desempenho e pelas razões da não aprovação até o momento (ANJOS E MENDES, 2015). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-comparacao-e-pressao">Comparação e pressão</h2>



<p>Além disso, a <strong>comparação</strong> entre os outros concorrentes, adiamentos de concursos, reprovação, pressão financeira e social tornam os concurseiros pessoas suscetíveis a uma gama diversificada de transtornos mentais.</p>



<p>Essa pressão é, conforme levantado por<strong> Rocha</strong> (2019), reforçada pelas mídias sociais, grupos de conversa de concurseiros e pela pesada propaganda dos cursinhos preparatórios – <em>estude enquanto eles dormem </em>&#8211; que insere os concurseiros numa corrida intensa e sem previsão de fim, e numa disputa constante entre si e consigo mesmos. Não é raro, em Brasília, onde vivo, ouvir que fulano não está participando de eventos sociais ou saindo de casa porque está estudando para concurso.</p>



<p>Dessa forma, o concurseiro ao longo do tempo muitas vezes desiste do seu “cargo dos sonhos” e começa a se enveredar por vagas com editais em aberto ou que sejam mais fáceis de passar. Dessa forma, conforme ilustrado no texto de Ribeiro e Mancebo e em acordo dos achados de Rocha (2019):</p>



<p>O objetivo definido foi alcançado. Entretanto, na ânsia de se protegerem das oscilações do mercado de trabalho, não se permitiram realizar uma escolha mais cuidadosa, analisando criteriosamente se as características da organização e do cargo para o qual prestaram exame eram compatíveis com seus interesses e projetos de vida (Ribeiro e Mancebo, 2009).</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Passei! E agora?</strong></h2>



<p>Sim, o emprego público é um oásis diante de uma precarização cada vez maior das vagas abertas à ampla concorrência do mercado e da instabilidade dos empregos no setor privado. No entanto, que outras subjetividades aparecem, passado o momento da aprovação no tão esperado concurso?</p>



<p>O serviço público é vendido, na maioria das vezes como objetivo final e não como etapa da vida. A remuneração e as benesses seriam um prêmio pela aprovação e não uma recompensa pelo trabalho a ser realizado. A utilização publicitária de luxo, riqueza e consumo sem dúvidas desperta desejos que não apenas estimulam a estudar &#8211; e a procurar um cursinho para isso -, mas reforçam a crença de que a aprovação é o caminho para a conquista da felicidade (ROCHA, 2019).</p>



<p>Eis que entra em cena a realidade: trabalhar em algo muitas vezes desligado de qualquer vocação, prazer ou interesse; aprovação em cargos em que se é mais qualificado que o necessário, subutilizando seu potencial; constantes mudanças de acordo com a mudança de gestão, as nomeações e conchavos políticos e inclusive a corrupção. </p>



<p>Isso pode gerar um descontentamento com relação as atividades que realiza no órgão e contribuir para o florescimento de uma vontade de mudança. Uma busca por algo que possa suprir a falta de realizar uma atividade por afinidade e prazer (BAZZO, 1997; ANJOS e MENDES, 2015; ROCHA, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ai-chegamos-em-jung">Aí chegamos em<strong> Jung</strong>.</h2>



<p>Observando o cenário descrito anteriormente, podemos inferir que uma parte dos concursados entram em conflito interno pois, ao passarem no concurso, enfrentam a angústia de trabalhar em algo muitas vezes sem significado interior. Nesse sentido Jung dizia:</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-modern has-small-font-size"><blockquote><p><em>O homem deve ser levado a adaptar-se em dois sentidos diferentes, tanto à vida exterior – família, profissão, sociedade – quanto às exigências vitais de sua própria natureza. Se houve negligência em relação a qualquer uma dessas necessidades, poderá surgir a doença.</em> </p><cite>JUNG, 2014b, v. 17, §172</cite></blockquote></figure>



<p>A doença, nesse caso, pode se manifestar pelas crises de ansiedade, depressão, pânico entre outras, tem sido cada vez mais relevante no número de afastamentos e ausências no serviço público, evidenciando um problema a ser enfrentado tanto na esfera coletiva quanto individual. Coletiva, no sentido de se pensar melhores métodos de seleção e qualidade do trabalho desenvolvido no serviço público, e individual no momento de se ponderar se a estabilidade propiciada pelo cargo vale a desadaptação ao Eu.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O sofrimento no serviço público não vem de hoje</h2>



<p>Em 1997, <strong>Bazzo</strong> publicou uma reflexão sobre esse tema, de onde se extrai:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:15px">
<p style="font-size:15px"><em>Quem tivesse a iniciativa de escrever a história da saúde mental no universo do funcionalismo público brasileiro, digamos, nos últimos 30 anos, chegaria a dados estarrecedores e não teria dúvidas de que a atual Organização do Trabalho dentro da &#8220;máquina pública&#8221; é, literalmente, uma máquina a serviço do desprazer, da depressão e da insanidade. E essa realidade pode ser facilmente confirmada, verificando o número de consultas médicas comparece mensais a que cada funcionário. </em></p>
<cite>BAZZO, 1997</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-quero-dizer-que-o-servico-publico-e-apenas-uma-armadilha-aos-incautos">Não quero dizer que o serviço público é apenas uma armadilha aos incautos.</h2>



<p>Há gente feliz e realizada de poder trabalhar servindo ao seu país, uma vez que, estando inserido nesse lugar é possível colocar em prática seus propósitos, uma coisa não impede a outra. É possível sim que o seu propósito de vida seja trabalhar no setor público e isso não torne a adaptação um martírio. Uma vez que, conforme dito acima, as condições de trabalho são atraentes e melhores que em muitas outras esferas do mercado.</p>



<p>A proposta aqui é que, ao considerar a decisão de se dedicar a um concurso público, é fundamental lembrar que Jung enfatizava a integração de elementos individuais e coletivos para alcançar a felicidade e o propósito. A busca por segurança e contribuição à sociedade pode ser alinhada com sua visão de realização.</p>



<p>Ele ressaltava que a busca pela felicidade estava enraizada na integração das várias facetas da personalidade e na conexão com um propósito. Ao escolher um caminho profissional, é importante considerar tanto as vantagens materiais e sociais quanto a capacidade de expressão pessoal, autonomia e satisfação interior. Novamente trazendo <strong>Jung</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>É claro que como <strong>individualidade </strong>ninguém pode adaptar-se por completo a essas expectativas; daí a necessidade inegável de construir-se uma personalidade artificial. As exigências do decoro e das boas maneiras se incumbem do resto, para incitar ao uso de um tipo de máscara adequada. Atrás desta última, forma-se então o que chamamos de “vida particular”. A separação da consciência em duas figuras que às vezes diferem uma da outra de um modo quase ridículo é um fato bastante conhecido e constitui uma operação psicológica decisiva, que não deixa de ter consequências sobre o inconsciente. </em></p>
<cite>JUNG, 2014a, §305</cite></blockquote>



<p>O sofrimento muitas vezes apresentado pelos concurseiros-concursados-servidores está em renunciar à tão sonhada e almejada estabilidade em busca da realização profissional. Quando se depara com a realidade pós-portal da aprovação, pode se frustrar com o preço dessa estabilidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Considerações finais</strong></h2>



<p>Vale lembrar que já na escolha da profissão, quando adolescentes, muitas pessoas não têm tanta escolha sobre o seu futuro trabalho. Pressões familiares, condições sociais desfavoráveis, condições financeiras, entre outros aspectos, muitas vezes tornam a escolha de uma formação profissional uma não-escolha. A felicidade muitas vezes é depositada numa suposta estabilidade profissional e financeira em detrimento da realização de uma atividade laboral que proporcione satisfação pessoal e espiritual. </p>



<p>Além disso, como dito por Jung, muitas vezes os filhos são empurrados a viver a vida não vivida dos pais, que sonharam com uma vida de concursado. Mas, por alguma razão, isso não foi possível ou ainda, se identificam com os mesmos e seguem o caminho do serviço público sem pensar se esse é seu verdadeiro propósito.</p>



<p>Torna-se urgente, pois, a investigação e análise dos impactos dessa (in)sensata corrida por um emprego seguro na saúde [&#8230;] também sobre os riscos de banalização e negligenciamento de um processo tão importante, como o de escolha profissional, alertando que “a adaptação a qualquer preço é a porta de entrada do conformismo – que é a antessala do mundo sem sentido.” (SOARES, 2002, p.16–17, apud RIBEIRO e MANCEBO, 2009). Contribui Jung:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-identificacoes-com-o-papel-social-sao-fontes-abundantes-de-neuroses">Essas identificações com o papel social são fontes abundantes de neuroses.</h2>



<p>O homem jamais conseguirá desembaraçar-se de si mesmo, em benefício de uma personalidade artificial. A simples tentativa de fazê-lo desencadeia, em todos os casos habituais, reações inconscientes: caprichos, afetos, angústias, ideias obsessivas, fraquezas, vícios etc. O “homem forte” no contexto social é, frequentemente, uma criança na “vida particular”, no tocante a seus estados de espírito.  (JUNG, 2014a, §307)</p>



<p>Também sofrem aqueles que por sentirem sua autorrealização sacrificada em nome de um cargo com estabilidade, muitas vezes veem como opção apenas voltar aos bancos dos cursinhos preparatórios ou sacrificar horas da sua vida em busca de uma nova colocação no serviço público.</p>



<p>A <strong>instabilidade</strong> do emprego na iniciativa privada, somada às cada vez mais frequentes crises do capitalismo, empurra cada vez mais os brasileiros em direção a um emprego que garante estabilidade, algo só encontrado no emprego público.</p>



<p>A <strong>estabilidade</strong> não livra os concursados da angústia e do sofrimento quando estes estão em descompasso com seus propósitos e potenciais internos, assim como em qualquer trabalho, no entanto, a solidez proporcionada pela estabilidade muitas vezes se torna uma barreira na busca por autorrealização.</p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">MsC. Mauro Angelo Soave Junior</a> – membro analista em formação do IJEP</p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi</a> – Analista didata do IJEP</p>



<p></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Reflexões Junguianas sobre o Serviço e o Concurso Público no Brasil" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/-FmR-5LY2xY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Referências</strong></h2>



<p>ALBRECHT, P. A. T. e KRAWULSKI. Concurseiros e a busca por um emprego estável: reflexões sobre os motivos de ingresso no serviço público. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, vol. 14, n. 2, pp. 211-226. 2011.</p>



<p>ANJOS, F. B.; MENDES, A. M. A Psicodinâmica do não-Trabalho. Estudo de caso com concurseiros. R. Laborativa, v. 4, n. 1, abr., p. 35-55. <a href="http://ojs.unesp.br/index.%20php/rlaborativa.%202015">http://ojs.unesp.br/index. php/rlaborativa. 2015</a></p>



<p>BAZZO, E. F. Algumas considerações sobre a saúde mental dos funcionários públicos. Psicologia Ciência e Profissão, 17 (1), 41-44. 1997.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O desenvolvimento da personalidade; tradução de Frei Valdemar do Amaral; revisão técnica de Dora Ferreira da Silva. – Petrópolis. Vozes, 2014a.</p>



<p>______________. O eu e o inconsciente; tradução de Dora Ferreira da Silva. – Petrópolis, Vozes, 2014b.</p>



<p>RIBEIRO, C. V. dos S. e MANCEBO, Deise. Concurso público, uma alternativa sensata frente às turbulências do mundo do trabalho? Trabalho &amp; Educação – vol.18, nº 1 – jan./abr. de 2009</p>



<p>ROCHA, Bianca Gomes Lima da. Entre o sofrimento e o (in)cansável movimento: as tensões vivenciadas por concursados-concurseiros à luz da contemporaneidade e da gestão gerencialista. Dissertação (Mestrado) &#8211; Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Programa de Pós-graduação em Administração, Curitiba, 2019.</p>



<p>SILVA, R. B e BUENO, H. P. V. A saúde mental e os principais motivos de afastamento do servidor público brasileiro. Trabalho de conclusão do curso de pós-graduação lato sensu à distância em Saúde Mental pela UCDB/Portal Educação. 20xx</p>
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		<item>
		<title>Comportamento de risco sexual como resposta à marginalização da sexualidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/comportamento-de-risco-sexual-como-resposta-a-marginalizacao-da-sexualidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 22 Jun 2023 21:04:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca propor uma reflexão, tendo como base a psicologia analítica, sobre comportamentos sexuais de risco, identificando tais comportamentos e buscando entender símbolos, significados e complexos na sombra dessas atitudes.<br />
Para a elaboração deste artigo foi feita uma pesquisa a respeito do tema comportamento sexual de risco e, pelo que se pode constatar, não há grande quantidade de material sobre o tema. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>O presente artigo busca propor uma reflexão, tendo como base a psicologia analítica, sobre <strong>comportamentos sexuais de risco</strong>, identificando tais comportamentos e buscando entender símbolos, significados e complexos na sombra dessas atitudes.</em></p>



<p><em>Para a elaboração deste artigo realizamos uma pesquisa a respeito do tema comportamento sexual de risco. Contudo, pelo que se pode constatar, não há grande quantidade de material sobre o tema. A maioria do material encontrado tem como foco a população <strong>adolescente ou jovem </strong>(até 24 anos), na qual o comportamento de risco é prevalente.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ists">ISTs</h2>



<p>No entanto, há a recente tendência do aumento de diagnósticos de Infecções Sexualmente Transmissíveis (<strong>ISTs</strong>) na população adulta e idosa (Görgen, 2019). As formas de propagação do vírus da imunodeficiência humana (<strong>HIV</strong>), tais como o uso de drogas injetáveis e o engajamento em relações sexuais sem uso de preservativos, são, com frequência, associadas a comportamentos e atitudes discriminadas social e culturalmente bem como a concepções estereotipadas dos outrora chamados grupos de risco (Pinto, et al., 2007).</p>



<p>Vale lembrar que o advento da Síndrome da Imunodeficiência Humana Adquirida (SIDA ou <strong>AIDS</strong>) <strong>estigmatizou por muitas décadas o comportamento homossexual masculino</strong>. A AIDS foi chamada, em seu início, de “<strong>câncer gay</strong>”, por ter sido essa a população mais afetada no início da epidemia.</p>



<p>Na atualidade, no entanto, predomina a transmissão pelo contato heterossexual. Além disso, houve aumento significativo no número de mulheres infectadas (SALES et al., 2016 apud Görgen, 2019).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dessa-forma-a-denominacao-grupos-de-risco-mostrou-se-equivocada">Dessa forma a denominação “<strong>grupos de risco</strong>” mostrou-se <strong>equivocada</strong>.</h2>



<p><strong> </strong>A denominação &#8220;grupos de risco&#8221; se revela equivocada, considerando que o risco de adquirir o HIV não é advindo somente de um grupo.<em> </em>Mas antes, de um comportamento de risco frente às práticas sexuais e ao uso e abuso de drogas, especialmente as drogas injetáveis e ao compartilhamento de seringas. Vale lembrar que o indivíduo sob o uso e/ou abuso de substâncias psicoativas e movido pelo desejo sexual, teoricamente não se lembrará do uso de proteção na prática sexual, seja ela qual for.</p>



<p>Importante chamar a atenção que o <strong>Ministério da Saúde </strong>preconiza o uso do preservativo em qualquer prática sexual, seja ela oral, vaginal ou anal, especificamente nessa última, por ser a mucosa anal muito vascularizada e de fácil atrito durante o ato sexual, o que leva a ocorrer microfissuras, facilitando assim, a transmissão sanguínea do vírus HIV. Além disso, o<strong> HIV </strong>não é o único risco envolvido numa relação sexual desprotegida. Outras ISTs como a <strong>sífilis, </strong>a<strong> clamídia </strong>e a <strong>gonorreia</strong>, dentre tantas, tem aumentado nos últimos anos. Inclusive em parcelas da população consideradas sexualmente inativas como os <strong>idosos</strong> (Görgen, 2019). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-idosos-e-educacao-sexual">Idosos e educação sexual</h2>



<p>Podemos citar em muitos <strong>idosos</strong> a dificuldade de uma ereção completa, dificultando no caso, o uso do preservativo masculino. Indicamos, então, como medida protetiva, o uso do preservativo feminino para facilitar a prática sexual.</p>



<p>A outra dificuldade é que, como não foi estimulado precocemente nessas mulheres o toque íntimo e um maior e melhor conhecimento de sua biologia, temos problemas também nessa forma de prevenção. Isto ocorre porque o preservativo feminino é de inserção profunda na vagina, ficando os idosos completamente vulneráveis para o contágio de ISTs e HIV &#8211; uma vez que a prática sexual nesse grupo, na atualidade, é amplamente estimulada.</p>



<p>Dados inclusive, os inúmeros recursos medicamentosos existentes para melhorar o desejo e também, no caso, a ereção. Necessário se faz, a <strong>educação sexual </strong>desse grupo, estimulando um maior conhecimento de anatomia e fisiologia, juntamente com as práticas preventivas.</p>



<p>Nesse contexto, falando-se em infecções sexualmente transmissíveis e AIDS, torna-se também importante definir a sexualidade, de uma forma mais ampla, em seu aspecto biopsicossocial e espiritual, onde a sua dimensão biológica é apenas um dos seus aspectos. Talvez socialmente o seu aspecto principal, cujo viés para muitos seja o mais importante, negligenciando-se todos os outros aspectos de completude do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexualidade-e-moralidade">Sexualidade e moralidade</h2>



<p>A sexualidade é um dos aspectos da dimensão humana. Cercada, ainda, de muita dor e sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã de nossa sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis. </p>



<p>Arriscamos dizer que apenas com o surgimento da AIDS e todas as suas particularidades, principalmente no início da infecção, onde denominada “câncer gay”, é que se começou a falar sobre sexualidade e a defini-la em seu aspecto mais amplo (biopsicossocial).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-e-o-normal">O que é o normal?</h2>



<p>Outro aspecto perpassa sobre o conceito de <strong>normalidade</strong>, como se todos os indivíduos fossem iguais e subjugados a essa “normose” social. Ora, as sociedades são entidades dinâmicas, assim, o que é normal hoje pode ser anormal amanhã e vice-versa, uma vez que os padrões culturais mudam com o tempo e dentro do possível devemos também, acompanhar essas mudanças. De acordo com <strong>Cavalcanti &amp; Cavalcanti </strong>(2020), do ponto de vista psicológico “sexo normal” é aquele que assim é considerado dentro da visão particular de cada um. O que importa na verdade, é a satisfação pessoal ou a adequação sexual de cada indivíduo.</p>



<p>Importante lembrar que “adequação” pressupõe um estado de satisfação intra e interpessoal, ou seja, se o indivíduo está satisfeito com o seu comportamento sexual e com o comportamento sexual do seu parceiro(a), ele/ela é uma pessoa normal ou adequada, do ponto de vista psicológico.</p>



<p>Somado a isso, trazendo um pouco o olhar para esse histórico da sexualidade, lembre-se que a AIDS nos traz um novo olhar para a sexualidade. Especificamente no aspecto social, onde tornou evidente camadas sociais estigmatizadas e, até então, encobertas pelo preconceito, como os profissionais do sexo, os usuários de drogas injetáveis (UDI) e, principalmente, os homossexuais ou ainda, os HSH (homens que fazem sexo com homens), que não se consideram homossexuais, mas mantém ou mantiveram relações sexuais com homens. Esse tipo de comportamento e vários outros, dificultam até hoje a classificação dos dados epidemiológicos da doença segundo o sexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-comportamentos-sexuais-de-risco-deus-e-o-diabo-na-cama-ou-alem-dela"><strong>Comportamentos sexuais de risco Deus e o Diabo na cama (ou além dela)</strong></h2>



<p>Os <strong>comportamentos sexuais de risco</strong> são comportamentos que podem afetar o bem-estar físico, psicológico ou mesmo causar problemas de saúde graves. Muitas vezes associam-se a estes comportamentos, ou os causam, o consumo de substâncias como álcool e drogas e também podem decorrer de falta de esclarecimento e educação sexual, atividade sexual com múltiplos parceiros, utilização incorreta e inconsistente de métodos contraceptivos e de prevenção de ISTs, relações sexuais sob pressão e potencializam consequências como: infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), gravidez não desejada, violência sexual e psíquica (Direção-Geral da Saúde, 2022).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-coleman-2015">Para (Coleman, 2015):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>“Comportamentos sexuais são um produto da socialização e não da biologia. Por exemplo, aprendemos (explicitamente dos pais, professores, políticos, líderes religiosos, e outras figuras significativas nas nossas vidas, ou implicitamente de imagens, temas, ou mensagens na cultura popular) como fazer sexo, com quem fazer sexo, com que motivações fazer sexo. Aprendemos que existem certas regras, regulamentos sociais, e mesmo legislação que controla as nossas interpretações sobre a valorização dos nossos próprios comportamentos sexuais e de outros. Eles desenvolvem-se e progridem à medida que nos desenvolvemos e progredimos. Consequentemente, os comportamentos sexuais nem sempre estão em resposta ao desejo sexual devido a duas explicações centrais: (1) As motivações para o comportamento sexual variam; e (2) A atual construção social do comportamento sexual normativo é o reflexo de ideais ultraconservadores (pudico) e saturados com fundamentos religiosos &#8211; ou pelo menos os comportamentos culturalmente mais atuais são os mais valorizados (traduzido pelos autores).”</em></p>
</blockquote>



<p><strong>Infelizmente, no desenrolar da cultura ocidental, a mente do homem tornou-se divorciada de seu corpo</strong>. A sexualidade, em especial, tem sido associada ao indesejável elemento animal, força demoníaca que corrompe a verdadeira natureza espiritual dos homens (Conger, 1993).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-acordo-com-aufranc-2018">De acordo com Aufranc (2018):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:17px"><em>“A partir do século XIX, a medicina passou a ocupar o espaço da religião na instrução de como deveria ser o relacionamento sexual. A nudez completa estava associada ao sexo no bordel, as relações deveriam ocorrer no escuro e com corpos cobertos. O prazer nessa época era também vivido na sombra social. Havia, no século XIX, no Rio de Janeiro, três categorias de prostitutas: as aristocráticas ou de sobrado, que eram em geral francesas, mantidas por políticos ou fazendeiros e estavam associadas ao luxo no morar e no vestir; as de sobradinho, que eram mais pobres e trabalhavam em hotéis, eram polacas ou mulatas; e as da escória, mulheres que atendiam em casebres ou em fundos de barbearias. Já as mulheres honestas não deveriam sentir prazer. A elas era reservado o papel de ser boa mãe, submissa e doce. O instinto materno deveria anular o instinto sexual.”</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexo-por-prazer">Sexo por prazer?</h2>



<p>Esse complexo cultural do sexo pudico, onde o prazer reside na <strong>sombra</strong> e deve ser punido, exclui toda e qualquer prática sexual que não seja a penetração vaginal realizada em uma cama dentro de um quarto, cujo único fim seja a reprodução. Tudo bem que, atualmente, com o advento dos métodos contraceptivos, principalmente, houve uma grande quebra de paradigma.</p>



<p>No entanto, o sexo por prazer ainda tem grandes opositores, principalmente nos campos da religião, onde, veja só, até hoje o uso do preservativo, um dos melhores métodos de proteção contra e ISTs e contracepção, ainda é desaconselhado.</p>



<p><strong>Mesmo com os avanços no ocidente, há ainda um grande tabu a respeito da vivência do sexo como uma atividade adulta humana de afeto, sociabilização ou recreação e não somente para reprodução e perpetuação da espécie.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-complexo-cultural">Complexo Cultural</h2>



<p>O c<strong>omplexo cultural</strong> do sexo pudico ainda é constelado de maneiras diversas, principalmente em relação às minorias (mulheres, profissionais do sexo e a população LGBTQIANP+ entre as principais). Neste sentido, as vivências sexuais que não se encaixam no padrão hétero-monogâmico-reprodutivo vão sendo colocadas à margem da consciência coletiva (sociedade) e, apesar de sempre terem sido praticadas, ainda assim são marginalizadas.</p>



<p><strong>Na maioria das casas, o quarto é um dos lugares de maior intimidade</strong>. Um quarto de casal é o local no qual se espera que o casal compartilhe a sua intimidade e nele faça o sexo e produza filhos. Isso é uma imagem de como o sexo reprodutivo é, de certa forma ainda, aceito e incluso no dia a dia, considerado como uma parte natural da vida. No casamento, e aqui ressalto, no casamento heterossexual, o sexo para reprodução é de certa forma aceito, esperado, desejado, em detrimento do sexo por prazer e sendo o prazer em si, muitas vezes impuro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-pouco-de-foucault">Um pouco de Foucault</h2>



<p><strong>Michel Foucault </strong>(2019) lembra e compara o início do século XVIII, onde ainda vigorava uma certa franqueza no que concernia à sexualidade. As práticas não procuravam segredos, as palavras eram ditas sem muitas reticências, as coisas eram feitas sem demasiado disfarce, eram mais frouxos os códigos da grosseria, da obscenidade e da decência, comparando-os aos do século XIX.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p><em>“Um rápido crepúsculo se teria seguido à luz meridiana, até as noites monótonas da burguesia vitoriana. A sexualidade é, então, cuidadosamente encerrada. Muda-se para dentro de casa. A família conjugal a confisca. E absorve-a, inteiramente, na seriedade da função de reproduzir.</em></p>



<p><em>Em torno do sexo, se cala. O casal, legítimo e procriador, dita a lei. Impõe-se como modelo, faz reinar a norma, detém a verdade, guarda o direito de falar, reservando-se o princípio do segredo. No espaço social, como no coração de cada moradia, um único lugar de sexualidade reconhecida, mas utilitário e fecundo: o quarto dos pais.</em></p>



<p><em>Ao que sobra só resta encobrir-se; o decoro das atitudes esconde os corpos, a decência das palavras limpa os discursos. E se o estéril insiste, e se mostra demasiadamente, vira anormal: receberá este status e deverá pagar as sanções”. </em></p>
<cite>Foucault, 2019</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diversidade-sexual">Diversidade sexual</h2>



<p>Passeando pela história da sexualidade percebemos a dificuldade não somente da literatura, por ser ela incipiente, como também da dificuldade pessoal na abordagem e da aceitação pela sociedade dessa diversidade sexual, fruto do fato de ter se mantido encoberto nas sombras, a sexualidade.</p>



<p> Falar de sexualidade requer conhecimento básico sobre o tema e sobre a sua própria sexualidade, no sentido de que, para falar da sexualidade do outro é necessário trabalhar a sua também. Ora, Jung bem fala que o analista só leva o analisando até onde ele próprio foi levado. Sendo assim, (JUNG, 2019) “Você tem que ser a pessoa com a qual você quer influir sobre o seu paciente. A palavra, sempre foi considerada vã.” </p>



<p>Assim, sem se falar em sexo e sexualidade, passaram-se dois longos séculos em que tudo relacionado ao tema era reprimido e, como nas palavras de Foucault (2019), eram “injunção ao silêncio, afirmação de inexistência”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-as-outras-formas-de-viver-o-sexo-em-que-lugar-e-reservado-e-esperado-a-sua-existencia">E as outras formas de viver o sexo, em que lugar é reservado e esperado a sua existência?</h2>



<p><em>Nos prostíbulos, nas ruas desertas, nas pequenas matas, terrenos baldios, saunas, boates e no melhor dos casos, o motel. E deles muitas vezes vem a companhia da vergonha e da desinformação de mãos dadas com os desinibidores: álcool e drogas. O sexo por prazer ou por vocação é uma prática espúria.</em></p>



<p>Novamente, mesmo que desde sempre tenha sido praticado. Fora dali, os “rendez-vous” * e as casas de saúde seriam lugares de tolerância, onde reinavam a prostituta, o cliente, o rufião, o psiquiatra e sua histérica, numa alusão a esse último, às agruras da repressão sexual, como causa de distúrbios mentais.</p>



<p>Nesse sentido, pessoas que não têm a conformidade sexual de acordo com esse complexo pudico, são criadas em ambientes (casa, escola, igreja, sociedade) em que a vivência da sua sexualidade é algo feio e que deve ser feito às escondidas, pois a “norma” é que o sexo siga os padrões aprendidos. </p>



<p>Aqui abro um parêntese para as<strong> práticas criminosas</strong> das parafilias como a pedofilia, zoofilia e necrofilia. Acrescento aqui o estupro e o abuso sexual que também são práticas criminosas e jamais deverão ser consideradas comportamento, somente como <strong>crime</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-culpa-pecado-e-vergonha">Culpa, pecado e vergonha</h2>



<p>Voltando, pessoas que não tem a vivência oficial, têm na sua prática <strong>uma</strong> <strong>vergonha, uma culpa, ou até algo marginalizado</strong>. Nesse sentido procuram locais marginalizados para vivenciar seu prazer e seu eros. Por bem, hoje em dia as práticas sexuais estão cada vez mais sendo discutidas e trazidas para esse local de intimidade. No entanto, é algo tão recente e podemos dizer que a grande maioria da população ainda tem em mente o <strong>modelo Doriana de família</strong>.</p>



<p>Essa vivência marginalizada, acompanhada dos seus desinibidores, é um convite ao comportamento de risco. Justamente pela dificuldade ou inexistência de informações claras, corretas e do sentimento de normalidade, muitas vezes, o sexo é vivenciado em locais simbólicos de abuso, fuga, vergonha, escuridão e aprendido dessa maneira, ou ainda, por meio da pornografia.</p>



<p>Com uma autopercepção da sexualidade e do desejo como algo espúrio, vergonhoso, <strong>pecaminoso</strong> e até doentio, a primeira opção quase sempre é a repressão do desejo e a tentativa de encaixe no modelo vigente, de acordo com o dito por (Coleman, 2015) anteriormente neste texto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexualidade-e-o-casamento">Sexualidade e o casamento</h2>



<p>Tudo bem que hoje não se espera mais que ninguém se case virgem, mas há ainda muitos resquícios desse comportamento e há menos de 40 anos isso ainda era considerado como um bom costume. <strong>Quantos de nós não somos filhos de um casal que se casou por conta de uma gravidez indesejada?</strong></p>



<p>Vejamos o caso da homossexualidade, por exemplo. Até pouco tempo foi considerada pecado, crime e doença. Isso quando falamos de Brasil, porque em alguns lugares do mundo ainda é punida da pior maneira possível. A vivência da homossexualidade apesar de mais aceita hoje em dia, ainda é alvo de investidas conservadoras e retrógradas. O famoso, você pode até ser gay, mas não pode fazer sexo com alguém do mesmo sexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-educacao-como-caminho"><strong>A educação como caminho</strong></h2>



<p>Quando se exclui um modo de vivenciar a sexualidade, ele se torna marginalizado. E muitas vezes para viver uma verdade, mesmo que diga respeito à sua individualidade, isso pode levar as pessoas aos comportamentos de risco. A nosso ver isso é o reflexo de um complexo de ego com muitas facetas negativas e muitos complexos ligados a esse lugar da marginalidade do sexo, do desejo e da vivência.</p>



<p>Dessa forma, muitas vezes constroem-se personas adaptadas à norma coletiva enquanto procuram viver sua verdade mesmo colocando em risco sua vida e a dos outros. É como se viver essa verdade do eros fosse tão terrível, que só pudesse ser vivida na sombra e de maneira sombria, nesse lado obscuro da sexualidade, onde a vivência do prazer evidencia o lado sombrio e obscuro da dor.</p>



<p>Ora, de acordo com <strong>GUGGENBÜHL-CRAIG</strong> (1998) a sexualidade ainda é &#8220;<strong>demonizada</strong>&#8221; nos nossos dias. Fracassaram todas as tentativas de tomá-la totalmente inofensiva e de apresentá-la como algo &#8220;completamente natural&#8221;. <strong>Para o homem moderno, algumas formas de sexualidade continuam a ter aspecto mau, pecador e sinistro</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-preconceitos-e-comportamentos-de-risco">Preconceitos e comportamentos de risco</h2>



<p><em>Como essa vivência é marginalizada e não há muitas informações, sobram preconceitos e julgamentos, internos e externos, e sua expressão na vida do indivíduo, pode levar aos comportamentos de risco, já que a relação sexual vira apenas um instinto a ser satisfeito e perde sua faceta sagrada e relacional.</em></p>



<p><strong>Há uma tendência acentuada para a promiscuidade que se manifesta não só nos inúmeros divórcios, mas também na liberação da geração mais jovem quanto aos preconceitos sexuais.</strong></p>



<p>A promiscuidade paralisa todos esses esforços (de desenvolvimento enquanto dentro de uma relação afetiva) porque oferece oportunidades fáceis de fuga. E o relacionamento individual se torna muito supérfluo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-liberdade-ou-irresponsabilidade">Liberdade ou irresponsabilidade?</h2>



<p><strong>Quanto mais predominarem uma assim chamada liberdade sem preconceitos e a fácil promiscuidade, tanto mais o amor se tornará banal e degenerará em interlúdios sexuais transitórios.</strong>  Os desenvolvimentos mais recentes no campo da moralidade sexual tendem para o primitivismo sexual. A exemplo da instabilidade dos costumes morais dos povos primitivos onde, sob a influência da emoção coletiva, todos os tabus sexuais desapareciam na mesma hora (Cf. Jung, 2013).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:17px"><em>“Estaremos vivendo uma enorme indiferenciação? Ou então simplesmente, ao “saírem do armário” os esqueletos reprimidos, vem chegando à consciência coletiva a imensa riqueza das possibilidades humanas. Vem se expressando toda a potencialidade contida simbolicamente em uma relação erótica” </em></p>
<cite>Aufranc, 2018</cite></blockquote>



<p>Para <strong>Coleman</strong> (2015), uma grande mudança seria a educação a respeito da sexualidade, sem a presença de valores religiosos ou morais, no sentido de uma melhor compreensão entre o impulso sexual, o desejo e os comportamentos. Permitindo, assim, uma compreensão mais profunda e tolerância para com os seus próprios comportamentos sexuais, bem como as preferências sexuais dos outros. Através da educação, aceitação e um âmbito empático, devemos assistir a uma re-humanização de nós próprios.</p>



<p><em>*gíria para prostibulo, zona de meretrício.</em></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">Mauro Soave Junior – Analista em Formação IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Ferreira Alves – Analista em Formação IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências</h2>



<p>Aufranc, Ana Lia B. 2018. Expressões da sexualidade, um olhar junguiano. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analitica. 2018, pp. 37-48.</p>



<p>CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M. &#8211; Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5.ed. Payá, 2020</p>



<p>Coleman, Kathryn. 2015. Alienation through Social Construction: A Call for the Re-humanization of Sexuality. Journal of Positive Sexuality. Junho de 2015.</p>



<p>Conger, John P. 1993.O corpo como sombra. [trad.] Maria Silvia Mourão Netto. São Paulo : Summus, 1993.</p>



<p>CPS, TASHRA, &amp; NCSF. 2017. Addiction to Sex and/or Pornography: A Position Statement from the Center for Positive Sexuality (CPS), The Alternative Sexualities Health Research Alliance (TASHRA), and the National Coalition for Sexual Freedom (NCSF). Journal of Positive Sexuality. 2017, Vol. 3.</p>



<p>Direção-Geral da Saúde. 2022. Serviço Nacional de Saúde. Site do Serviço Nacional de Saúde Português. [Online] 25 de novembro de 2022. https://www.sns24.gov.pt/tema/saude-sexual-e-reprodutiva/comportamentos-sexuais-de-risco/.</p>



<p>Foucault, Michel, 2022, 13 edição, História da Sexualidade, volume 1, A Vontade do Saber, Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, São Paulo</p>



<p>Görgen, Ana Leticia Hartmann. 2019. COMPORTAMENTO SEXUAL DE RISCO E FATORES ASSOCIADOS EM ADULTOS E IDOSOS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA DA CIDADE DE PASSO FUNDO. Passo Fundo, RS, Brasil: s.n., 2019.</p>



<p>GUGGENBÜHL-CRAIG, ADOLF. O lado demoníaco da sexualidade. [A. do livro] C. Zweig e J. (orgs) Abrahms. Ao Encontro da Sombra. São Paulo: Cultrix, 1998.</p>



<p>Jung, Carl Gustav. 2013. Obras Completas 10/3 &#8211; Civilização em Transição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>Jung, Carl Gustav. 2019. Obras Completas 16/1 &#8211; A Prática da Psicoterapia</p>



<p>Pinto, Diana de Souza, et al. 2007. Escala de Avaliação de Comportamento Sexual. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul – SPRS. 2007, Vol. 29, 2, pp. 205-211.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Comportamento de risco sexual como resposta à marginalização da sexualidade" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/PPXNPn8Bv2E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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			</item>
		<item>
		<title>Arteterapia: tão importante quanto o destino, é a viagem</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/arteterapia-tao-importante-quanto-o-destino-e-a-viagem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 May 2023 13:53:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7625</guid>

					<description><![CDATA[<p>No processo arteterapêutico sempre nos defrontamos com um mistério: para onde estamos indo com este processo? Nesse artigo discorro sobre o quão importante é embarcarmos nesse mistério, de uma viagem sem destino certo. Como é importante observar o cliente e se observar, como arteterapeuta, diante da expressão criativa. Convido você a uma viagem que vivi enquanto escrevia este artigo.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A <strong>arteterapia</strong> ainda é pouco conhecida do público. Apesar da sonoridade de seu nome levar a um lugar familiar, muitas vezes acaba se confundindo sua finalidade. Para além de produzir obras de arte, a função da <strong>arteterapia</strong> é levar o cliente a um contato consigo mesmo através das <strong>expressões criativas</strong>.</p>



<p>Quando comento com as pessoas que sou formado em <strong>arteterapia</strong>, quase sempre vejo as imagens sobre meu trabalho se construindo na mente delas. Já me chamaram de artista, sendo que não sou, ou ainda me imaginam dando um pincel com godê a meus clientes num ateliê belissimamente sujo de várias cores de tinta, enquanto enrolo meu fino bigode entre os dedos. Não as julgo. A <strong>arteterapia</strong> também era pouco conhecida por mim até o momento em que ingressei nos estudos psicológicos e terapêuticos.</p>



<p>Antes mesmo de decidir ser <strong>arteterapeuta</strong>, uma colega de trabalho me disse que tinha iniciado esse tipo de terapia e que estava sendo muito bom. Confesso que na época também imaginei a cena que descrevi no primeiro parágrafo. Essa colega hoje trabalha também com a arte, pois se descobriu nesse lugar do artista durante sua terapia, mas não sem um aviso da sua <strong>arteterapeuta</strong> à época: “Cuidado para não transformar um o processo da arte em trabalho e acabar com o encanto e prazer de fazê-lo”, ou algo nessa linha.</p>



<p>O que é arteterapia?</p>



<p>A <strong>arteterapia</strong> tem muitas potencialidades e vieses, de acordo com a visão do terapeuta que a aplica. Ela pode ser uma “terapia artística”, onde a arte ou o manuseio dos materiais tem uma função de simples relaxamento, ocupação da mente e contato com o lúdico. Na clínica junguiana usamos a arte como mediador de um diálogo entre consciência e inconsciência, e não com o intuito de treinar habilidades artísticas para expressão. Para Jung:</p>



<p>Ainda que ocasionalmente os meus pacientes produzam obras de grande beleza, boas para serem expostas em mostras de “arte” moderna, eu as considero totalmente desprovidas de valor artístico, quando medidas pelos padrões da arte verdadeira. É essencial até que não tenham valor, pois, do contrário, meus pacientes poderiam considerar-se artistas, e isso seria fugir totalmente à finalidade do exercício [&#8230;] trata-se da eficácia da vida sobre o próprio paciente (Jung, 2013) §104</p>



<p>A <strong>arteterapia</strong> usa a arte como meio de expressão pessoal para comunicar sentimentos, ao invés de ter como objetivo produtos esteticamente agradáveis a serem julgados segundo padrões externos (LIEBMANN, 2000 p. 18). [&#8230;] É um processo terapêutico que decorre da utilização de diversas modalidades expressivas, considerando todas as suas possibilidades, características, história, que expressarão níveis inconscientes da psique, permitindo o diálogo, a nível de consciência, com esses conteúdos e níveis, propiciando na transformação do indivíduo (CHENDO, 2013, p. 62).</p>



<p>Não estou dizendo que do setting arteterapêutico não podem sair obras de arte, mas que lá não é o lugar em que se tem esse objetivo. A arte universal, aquela que nos arrebata, é fruto do mesmo inconsciente que a produção do setting, no entanto, tem outro tipo de tratamento. O artista profissional conhece as técnicas, as ferramentas e tem em si um aparato de tentativas e erro cujo objetivo é produzir uma obra de arte.</p>



<p>Jung relata, em A Natureza da Psique (O.C. 8/1), como percebeu esse papel da arte como ferramenta terapêutica. Foram anos observando pacientes angustiados com seus sonhos, sem compreendê-los, e sentindo essa pressão interior aumentar. Jung pediu para que elaborassem ou desenvolvessem essas imagens oníricas de acordo com suas capacidades e habilidades. Mesmo sem compreender, por muito tempo, o que eram essas materializações, ele percebeu que de alguma forma elas diminuíam essa pressão interior inexplicável (Cf. Jung, 2014, §400).</p>



<p>Uma viagem sem destino certo</p>



<p>Nesse sentido, o convite a apreciar a viagem da <strong>arteterapia</strong> se dá na proposta de instigar o cliente a observar-se diante do material apresentado: como se sente, como reage, que emoções vêm, dificuldades, prazeres etc. ao manusear ou executar o trabalho e então, após essa reflexão, observar como o inconsciente guiou aquela produção e então, por meio da imaginação dirigida, imaginação ativa e das provocações do terapeuta confrontar seus conteúdos.</p>



<p>Pode-se expressar o distúrbio emocional, não intelectualmente, mas conferindo-lhe uma forma visível. Os pacientes que tenham talento para a pintura ou o desenho podem expressar seus afetos por meio de imagens. Importa menos uma descrição tecnicamente ou esteticamente satisfatória, do que deixar campo livre à fantasia, e que tudo se faça ao melhor modo possível. [&#8230;] Aqui também se tem um produto que foi influenciado tanto pela consciência como pelo inconsciente, produto que corporifica o anseio de luz, por parte do inconsciente, e de substância, por parte da consciência (Jung, 2014, §168).</p>



<p>Aí nós, terapeutas e clientes, temos que nos abrir para o mistério e o inesperado. A produção arteterapêutica pode conter grande carga de energia psíquica, que estava ligada aos complexos, e muitas vezes revelar mais do que o cliente gostaria. Já tive clientes que me pediram para que eu nunca mostre suas produções, pois ela os desnuda de uma maneira que não imaginavam.</p>



<p>É claro que se não fosse possível identificar traços, patologias e outras características humanas nos desenhos, estes não seriam usados nos testes psicológicos, no entanto, na <strong>arteterapia</strong> o papel da expressão não é diagnóstico, como um teste e sim, dialógico, buscando fazer com que o paciente encontre a si mesmo no objeto que produziu.</p>



<p>A atenção afetiva do <strong>arteterapeuta</strong> é dirigida sobre a relação que cada sujeito estabelece com a manipulação do material, dos instrumentos e dos movimentos eficazes. Além do resultado propriamente plástico, é interessante constatar o prazer ou desprazer do contato sensorial do sujeito com o material, a manifestação dos seus gestos, o prazer da apropriação progressiva da técnica (Païn, et al., 1996).</p>



<p>Os conteúdos inconscientes querem, antes de tudo, aparecer claramente, o que só é possível quando lhes é dada uma formulação adequada, e só podemos julgá-los quando todas as coisas que eles nos dizem são claramente perceptíveis. Muitas vezes impõe-se a necessidade de esclarecer conteúdos obscuros, imprimindo-lhes uma forma visível. Pode-se fazer isto desenhando-os, pintando-os ou modelando-os. Muitas vezes as mãos sabem resolver enigmas que o intelecto em vão lutou por compreender. Quando se consegue formular o conteúdo inconsciente e entender o sentido da formulação, surge a questão de saber como o ego se comporta diante desta situação. Tem, assim, início a confrontação entre o ego e o inconsciente. (Jung, 2014, § 179 a §181).</p>



<p>Por meio da materialidade dos símbolos manifestados, compreender-se-á melhor o que se passa no mundo interno, levando à possibilidade da compreensão e maior aceitação de sua atual condição, de uma maneira mais harmoniosa, contribuindo, desta forma, com o processo de individuação (CHENDO, 2013, p. 62). A produção artística ou criativa consegue imprimir no material conteúdos que não estão sob o domínio do ego, pois o inconsciente consegue se esgueirar por meio das mãos para a produção criativa, permitindo então a esses conteúdos inconscientes, desejosos por atenção, serem observados.</p>



<p>Processo idêntico ocorre com a mão que guia o creiom ou o pincel, com o pé que executa os passos da dança, com a vista e o ouvido, com a palavra e com o pensamento: é um impulso obscuro que decide, em última análise, quanto à configuração que deve surgir; é um a priori inconsciente que nos leva a criar formas, e ninguém fez a mínima ideia de que a consciência do outro é guiada pelos mesmos fatores, embora, em tais momentos, tenhamos a impressão de que nos achamos à mercê de uma casualidade subjetiva e sem limites. Por sobre todo o processo parece que paira uma precognição obscura, não só daquilo que vai tomando forma, mas também de sua significação (Jung, 2014, §402).</p>



<p>A produção imagética é consequência de processos primários de elaboração psíquica, tendo assim, na maioria das vezes, a possibilidade de não passar pelo crivo da consciência e controle egóico. Posteriormente, ao ser confrontada através da sua materialidade, poderá começar gradualmente a oferecer alguns, dentre seus múltiplos significados à consciência. (Philippini, 2018, p.16).</p>



<p>A expressão como símbolo</p>



<p>A produção arteterapêutica só tem significado para quem a produz, pois é fruto dos complexos inconscientes e questões que precisam vir à tona e serem tocadas pela consciência. (Silveira, 1981) diz que percebeu que na verdade os pacientes expressavam secretamente sua verdade nos desenhos, e a subjetividade se cria a cada instante: “Na abstração, o indivíduo contempla a si mesmo no objeto que o estarrece (Silveira, 1981)”. Eu traduziria esse pensamento que a expressão arteterapêutica se torna símbolo somente ao cliente. Ele tem a chave para essa fechadura. Numa linguagem moderna, a expressão artística arteterapêutica é um recado criptografado do inconsciente, cujo código-chave só pertence a quem a elabora.</p>



<p>A questão é que a produção arteterapêutica fala somente com quem a produziu ou com quem tem algum tipo de treinamento e conhecimento para entender o que está ali materializado. O que quero dizer com isso é que a produção arteterapêutica funciona como uma chave única para uma fechadura particular. Caso eu resolva mostrar uma dessas produções arteterapêuticas reveladoras a um leigo, um desconhecido desses clientes ou até mesmo a outro cliente, talvez ele veja apenas um desenho, uma escultura ou uma escrita sem grande significado.</p>



<p>Na transferência, a expressão se torna mensagem (Païn, et al., 1996) o paciente trabalha sob o olhar do terapeuta ou o ignorando, a relação dele com os materiais oferecidos (e os sentimentos do <strong>arteterapeuta</strong> diante disso) não é uma relação inventada, mas um comportamento do qual o cliente espera uma resposta ou reação e diante da qual o terapeuta tem que ficar atento se não está reforçando os traços neuróticos. A linguagem poética e expressiva permite ao indivíduo redescobrir a si mesmo, e com tal descoberta, renovar-se na relação com o mundo (CHENDO, 2013, p. 62).</p>



<p>Cada símbolo produzido no setting arteterapêutico poderá ser compreendido simultaneamente em relação ao seu criador, nas suas ressonâncias subjetivas e biográficas, e, paralelamente, também em seus aspectos universais e arquetípicos (Philippini, 2018, p. 17)</p>



<p>Uma fala de Nise da Silveira (1981) traduz bem essa proposta é a seguinte: “Mas eu não examinava as pinturas dos doentes que frequentavam nosso ateliê no meu gabinete. Eu os via pintar. Via suas faces crispadas e via o ímpeto que movia suas mãos. A impressão que eu tinha era de estarem eles vivenciando “estados do ser inumeráveis e cada vez mais perigosos”.</p>



<p>Nesse sentido chego ao ponto que queria com este artigo. Não que o produto da <strong>expressão criativa</strong> não seja importante, mas a presença na sua elaboração também é muito reveladora. Que sentimentos, pensamentos, imagens e sensações passam pelo cliente enquanto toca o material, enquanto o transforma? Que angústia o toma quando vê que seu produto não é o que tinha imaginado? Como se sente ao ver-se diante de um desafio?</p>



<p>Como esse passageiro se comportou durante a viagem, não somente quando chegou ao destino?</p>



<p>Muitas vezes o processo arteterapêutico é uma viagem sem destino certo, pois nos colocamos à disposição dos conteúdos inconscientes e, por serem inconscientes, muitas vezes nos levam para o inesperado. Essa surpresa também é um material importante de trabalho. O próprio Jung diz que não aconselha a definição de metas muito estritas na psicoterapia: “considero até aconselhável que o médico não tenha objetivos demasiado precisos, pois dificilmente ele vai saber mais do que a própria natureza ou a vontade de viver do paciente” (Jung, 2013, §81).</p>



<p>[&#8230;]somente quando a consciência é confrontada com os produtos do inconsciente é que se produz uma reação provisória, a qual, entretanto, determina todo o processo subsequente. Só a experiência prática é capaz de dizer alguma coisa sobre o que aconteceu (Jung, 2014, §172).</p>



<p>Dessa forma, hoje, após concluir a minha especialização no IJEP, porém continuando a estudar a <strong>arteterapia</strong>, vejo que muitas vezes a angústia em compreender a materialização nos impede de observar seu processo de execução. O atendimento online é um desafio nesse sentido, no entanto, também é uma viagem pela qual estamos passando e precisamos entender como afeta nossos atendimentos. Cito com um exemplo interessante este artigo que escrevi. Durante a sua escrita me fez refletir muito sobre o trabalho que venho desenvolvendo e me senti convidado a apreciar com mais atenção e presença o processo de elaboração do que o produto final, já que ele é fruto de um processo grande de reflexão, no entanto, diz respeito ao momento em que o escrevo. Não seria o mesmo de o escrevesse há dois anos, ou daqui a dois anos.</p>



<p>Mauro Angelo Soave Junior – Membro analista em formação</p>



<p>E. Simone Magaldi – Analista didata</p>



<p>Referências</p>



<p>CHENDO, Isabel C. P. 2013. Iluminar para revelar, colorir para transformar. [A. do livro] Angela Philippini. Arteterapia: Método, Projetos e Processos. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013, pp. 61-70.</p>



<p>Jung, C. G. 2014. A natureza da psique/ O. C. 8/1. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>Jung, Carl G. 2013. A prática da psicoterapia/ O.C. 16/1. [trad.] Maria Luiza Appy. 16. Petrópolis: Vozes, 2013. ISBN 978-85-326-0634-1.</p>



<p>LIEBMANN, Marian. 2000. Exercícios de arte para grupos: um manual de temas, jogos e exercícios. São Paulo: Summus, 2000.</p>



<p>Païn, Sara e Jarreau, Gladys. 1996. Teoria e técnica de arte-terapia: a compreensão do sujeito. [trad.] Rosana Severino Di Leone. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. ISBN 85-7307-157-5.</p>



<p>Philippini, Angela (org.). 2013. Arteterapia: métodos, projetos e processos. 3ª. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2013. ISBN 978-85-88081-68-0.</p>



<p>Philippini, Angela. 2018. Linguagens e Materiais Expressivos em Arteterapia: uso, indicações e propriedades. 2ª. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018.</p>



<p>Silveira, Nise da. 1981. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1981.</p>



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<iframe title="Arteterapia: tão importante quanto o destino, é a viagem" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/yN3ios5I2q8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Transtorno de ansiedade por doença, a busca por cuidado como caminho para o amadurecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/transtorno-de-ansiedade-por-doenca-a-busca-por-cuidado-como-caminho-para-o-amadurecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Nov 2022 13:58:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[hipocondria]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomatica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca explorar possíveis chamados do transtorno de ansiedade por doença, ou como é mais conhecido, a hipocondria. Esse transtorno tem como principal característica a crença de que se padece de uma doença grave, mesmo quando essa possibilidade é descartada por exames médicos. Qual seria a busca de um ego que acredita que há algo de mal em si, mas não é identificável? Quais as possíveis correlações com outros transtornos como a ansiedade, a depressão e o pânico? Com base na teoria junguiana fazemos um olhar e uma reflexão sobre esse tema.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Começa assim: uma dor, um incômodo, uma disfuncionalidade, por menor que seja. Ela se mantém por um período, desaparece, retorna, desaparece. Pode ser também um ruído, um aperto, uma fisgada, uma pontada. “Há algo acontecendo&#8230;” diz uma voz interior. Uma sensação desconfortável percorre o corpo. O tempo passa, a sensação continua. “Talvez seja o momento de fazer uma visita ao médico&#8230;” diz uma voz interior. No médico, uma descrição detalhada de quando começou, onde pega mais, quanto tempo durou e a intensidade que oscilou. Exames, exames, exames. Um colesterol um pouco alterado, uma pré-diabetes, nada fora do esperado para alguém levemente sedentário e que gosta de uns doces.</p>



<p>Ufa!&nbsp;</p>



<p>“Parece estar tudo bem&#8230;” diz uma voz interior. “Mas&#8230;” a mesma voz aponta para a continuidade do sintoma, ou talvez alguma outra sensação que tenha passado desapercebida. A sensação desconfortável percorre o corpo. Uma nova consulta médica.</p>



<p>O que descrevo acima é um possível roteiro de uma crise de ansiedade por doença. Poderíamos substituir a consulta médica por uma automedicação, ou ainda, a evitação de qualquer contato que possa trazer um (não) diagnóstico. Quem convive com isso ou com alguém próximo acometido por isso sabe muito bem o que é.</p>



<p>O transtorno de ansiedade por doença era previamente chamado de hipocondria, sendo hipo do grego&nbsp;<em>hypo</em>&nbsp;e condria derivada do&nbsp;<em>chondros.&nbsp;</em>A origem da palavra é referência ao hipocôndrio, uma cartilagem abaixo do abdome, onde se acreditava ficar as vísceras do humor, dessa forma a hipocondria também era uma denominação para melancolia. Mais tarde, pelo estigma jocoso que a palavra ganhou, passou a se chamar transtorno de ansiedade por doença.</p>



<p>Esse transtorno é caracterizado pela presença de uma preocupação constante com o adoecimento grave e a morte. Pessoas acometidas tendem a interpretar pequenas dores e sinais do corpo como sintoma de um mal letal, incapacitante e oculto. Por mais que pessoas próximas e exames médicos apontem que não há nada de errado, do ponto de vista orgânico ou físico, a pessoa não se livra dessa crença e preocupação, podendo visitar vários médicos de diferentes especialidades na esperança de que alguém descubra finalmente o mal terrível que se oculta em seu corpo. Não raro, duvidam dos médicos e se sentem incompreendidos e injustiçados por estes e por seus próximos.</p>



<p>Outro sintoma observado, curiosamente oposto, pode ser a evitação da área médica. Ou seja, há uma escolha do hipocondríaco de não saber que mal ele acredita que lhe aflige. Prefere a bênção da ignorância mesmo que muitas vezes não haja nada a descobrir de fato. Esse quadro pode levar inclusive à automedicação, que representa um risco real para a saúde. Também comum é a busca na internet por sintomas, que por sua vez, gera ansiedade e pode piorar o quadro, pois sintomas genéricos que podem significar algo grave são um prato cheio para quem é atravessado por esse transtorno. Essa prática ganhou até nome: Cybercondria.</p>



<p>Os dados apontam que o transtorno de ansiedade por doença muitas vezes é um acompanhante de outros transtornos ansiosos e/ou depressivos (DIB, VALENÇA e NARDI, 2006). Dessa forma, podemos pensar que uma pessoa ansiosa, em constante estágio de vigilância tende a interpretar uma dor, um sinal na pele ou qualquer outra mudança no corpo como ameaça grave. Não raro, pode levar seu portador em casos mais extremos a um ataque de pânico.&nbsp;</p>



<p>A cultura contemporânea idealiza e idolatra um corpo perfeito, sem dores, incômodos e com todos os indicadores dentro dos padrões mais restritos. Além disso, o materialismo e o desejo egóico pelo concreto e tangível faz com que se desvalorizem os sintomas psíquicos. Essa combinação pode gerar um quadro de hipervigilância com o corpo e descuido com a mente.</p>



<p>Para Jung (1985) a alma humana vive unida ao corpo, numa unidade indissolúvel, por isto só artificialmente é que se pode separar a psicologia dos pressupostos básicos da biologia. Ou seja, um ferimento ou moléstia corpórea podem trazer sofrimento psíquico e o sofrimento psíquico pode se manifestar no corpo. Complexos e sentimentos são capazes de mudar a organização das células e os componentes químicos do corpo enquanto a atividade física e medicamentos são capazes de mudar o humor e controlar pensamentos intrusivos. Corpo e alma adoecem juntos.</p>



<p>De acordo com O’Sullivan, 2016:&nbsp;</p>



<p>O corpo tem inúmeras formas de expressar emoção. O enrubescimento ocorre quando os vasos sanguíneos da cabeça e do pescoço se dilatam e se tornam repletos de sangue. Trata-se de uma mudança física instantânea que é vista na superfície, mas que reflete um sentimento de constrangimento ou de felicidade não expresso. Quando acontece, é impossível controla-lo. Esse ponto é importante. Os rubores denunciam um sentimento e, mesmo quando aumentam o constrangimento de alguém, não é possível contê-los.</p>



<p>O materialismo faz com que tudo que não seja tangível seja ignorado, dessa forma os transtornos e sintomas mentais muitas vezes são minimizados e até ridicularizados. O sofrimento psíquico não encontra, muitas vezes, acolhida e persiste até o momento em que se manifesta como somatização ou algum sintoma mais grave. No transtorno de ansiedade por doença pode ser esse o caso. Como não há maneira de se mostrar ou quando isso é feito, é ignorado, uma doença física é mais plausível, dessa forma, a pessoa afetada está em busca de descobrir o que há de errado com ela. Qualquer coisa é melhor do que a humilhação de um distúrbio psicológico. A sociedade é muito crítica com relação a doenças psicológicas, e os pacientes sabem disso (O’Sullivan, 2016).</p>



<p>Vale um parênteses aqui de que ainda estamos em uma pandemia e obviamente devemos ficar atentos aos sintomas que se manifestam e não ignorar a busca por ajuda médica. E vale dizer que a pandemia aumentou os níveis de sofrimento psíquico e da ansiedade por doença, sendo que agora, o mal da vez poderia ser a própria Covid-19, que tem sintomas muito parecidos com outras doenças menos perigosas. A pandemia foi um gatilho, pois diante de uma doença nova, contagiosa, “invisível” e muitas vezes silenciosa, a ansiedade por doença era até esperada. Aliás, essas são palavras-gatilho: invisível, silenciosa e poderia ser evitada.</p>



<p>Voltando ao tema, o transtorno da ansiedade por doença se caracteriza então por uma hipervigilância do corpo, que se transforma no medo de estar padecendo de algo grave sem que se saiba. A origem desse transtorno não é clara, mas as hipóteses são de que pode ser um traço genético, colateralidade de outros transtornos mentais como a depressão e a ansiedade e uma estratégia infantil de busca a atenção dos mais próximos, afinal, uma doença é algo que mobiliza aqueles que nos amam em cuidado. Há uma doença, um sofrimento, mas não há nada de errado.&nbsp;</p>



<p>É importante diferenciar o transtorno de ansiedade por doença da Síndrome de Munchausen, em que o paciente simula ou causa em si próprio ou em outros (por procuração) doenças para que tenha a atenção. No caso da ansiedade por doença, não há esse passo a mais, ficando apenas nessa especulação.</p>



<p>Novamente citando O’Sullivan (2016):</p>



<p>A maioria de nós tem consciência de que o estresse aumenta a pressão arterial e nos torna mais vulneráveis a úlceras estomacais. No entanto, quantos sabem da frequência com que nossas emoções podem produzir deficiência grave onde não existe nenhum tipo de doença física? Os transtornos psicossomáticos são sintomas físicos que mascaram o sofrimento emocional. A própria natureza da apresentação física dos sintomas esconde o sofrimento na sua raiz; logo, é natural que os afetados pensem automaticamente em uma doença clínica para explicar seu sofrimento.</p>



<p>Faço esse paralelo entre a hipocondria e a somatização, mas são questões diferentes. O hipocondríaco não apresenta danos, lesões ou algo orgânico que justifique suas suspeitas, apenas sente que seu corpo está sob uma forte ameaça, necessitando de atenção e cuidado constante, sente que há algo de errado, mas não sabe o que é.</p>



<p>O hipocondríaco olha seu corpo sob uma lente da perfeição, ou seja, qualquer desconforto, por menor que seja, pode ser uma falha mortal. O hipocondríaco está sob a influência de um complexo. Um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não-liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas [&#8230;]os complexos não são totalmente de natureza mórbida, mas manifestações vitais próprias da psique, seja esta diferenciada ou primitiva (JUNG, 2002).</p>



<p>O complexo no hipocondríaco não permite que ele veja seu sofrimento mental. Podem ser vários: depressão, ansiedade, pânico entre outros. O corpo então convida ao cuidado consigo mesmo, chamando essa mãe para gestar um ego mais adulto. Na consciência o hipocondríaco aparece como alguém preocupado com a saúde, prevenido e sempre alerta.</p>



<p>Vale lembrar que a “hipocondria” em níveis saudáveis é até bem-vinda. Ela nos orienta para que prestemos atenção em nosso corpo, em nós mesmos caso haja algo errado e, aí sim, buscar uma ajuda médica. Esse movimento de autocuidado, quando extremado, leva ao sofrimento pelo transtorno de ansiedade por doença. Um medo de enfiar o pé na lama do mundo, de ralar o joelho, ou ainda, ver isso como um grande risco à vida. É na intensidade do distúrbio emocional que consiste o valor, isto é, a energia que o paciente deveria ter a seu dispor, para sanar o seu estado de adaptação reduzida. Nada conseguimos, reprimindo este estado de depressão ou depreciando-o racionalmente (JUNG, 2002).</p>



<p>Quem está na sombra do hipocondríaco? Alguém que não se preocupa com a saúde, um descuidado capaz de deixar passar uma doença grave, uma pessoa que não se responsabiliza pelo seu corpo, um para-suicida. Uma pessoa que precisa de muito cuidado, mas não consegue pedir isso de maneira assertiva, ou ainda, não se sente capaz de cuidar de si, precisa da atenção de alguém, uma mãe arquetípica projetada nos profissionais de saúde, mas que precisa ser encontrado dentro de si. Ninguém sabe melhor do que o psicoterapeuta que a mitologização dos pais se prolonga muito tempo através da idade adulta, e só é abandonada após uma grande resistência (JUNG, 2000).</p>



<p>A criança divina que se choca com sua mortalidade, o sofrer existencial se torna algo de errado. “Tem algo de errado pelo fato de eu estar sentindo isso&#8230;” E então vem para esse ego a ameaça da morte, aciona-se assim esse complexo, que eu chamaria inicialmente de materno, despertando a busca pelo cuidado, porém olhando somente para o físico, levando o hipocondríaco a buscar os médicos enquanto poderia se beneficiar apenas de uma busca ao psiquiatra ou à terapia. A libido regride ao estado infantil e busca uma mãe externa. Talvez inconscientemente a sensação de desamparo, que causa angústia e sofrimento mentais, se manifestem na hipervigilância e não no sintoma e esse ego sai em busca de alguém que diga que tudo vai ficar bem.</p>



<p>Mal sabe o hipocondríaco que precisa encontrar isso em si mesmo, quando a libido se move e ele percebe que a mãe que busca nos médicos na verdade é a mãe simbólica, que permitirá que, com essa dor, renasça uma nova pessoa. O transtorno de ansiedade por doença pode ser um chamado à transformação simbólica, um chamado ao encontro dessa mãe e dessa mortalidade, da queda do herói à condição de guerreiro. Precisa também buscar em si o pai, que o ensina a enfrentar o mundo, suportar a dor e ver o sofrimento, psíquico e físico, como partes da vida e do viver, e não simplesmente como ameaça.</p>



<p>Na hipocondria o ego vê a dor de viver como uma ameaça à própria vida. Há uma unilateralidade a respeito da vida como evitação da morte. Viver então passa a ser um evitar, prevenir e cuidar. Não há entrega à morte e dessa forma deixa-se de viver. Novamente, temos sim que nos atentar aos sinais, sintomas e chamados do nosso corpo, no entanto, quando estamos o tempo todo vigilantes, vendo a doença como uma falha, estaremos sempre negando os convites da vida real em busca da perfeição. Viver dói.</p>



<p>Mauro Angelo Soave Junior – Membro analista em formação</p>



<p>E. Simone Magaldi – Analista didata</p>



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</div></figure>



<p>Referências bibliográficas</p>



<p>JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo – Petrópolis, RJ : Vozes, 2000.</p>



<p>JUNG, C.G. A Natureza da Psique /- Petrópolis, RJ : Vozes, 1985.</p>



<p>O’SULLIVAN, Suzanne. Isso é coisa da sua cabeça: histórias verdadeiras sobre doenças imaginárias. 1. Ed. – Rio de Janeiro : Best Seller, 2016.</p>



<p>WIKIPEDIA: Hipocondria, disponível em:&nbsp;&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Hipocondria#:~:text=A%20hipocondria%2C%20do%20grego%20hypo,padece%20de%20uma%20doen%C3%A7a%20grave">https://pt.wikipedia.org/wiki/Hipocondria#:~:text=A%20hipocondria%2C%20do%20grego%20hypo,padece%20de%20uma%20doen%C3%A7a%20grave</a>, acesso em novembro de 2022.</p>



<p>Transtorno de Ansiedade por Doença por Joel E. Dimsdale , MD, University of California, San Diego Manual MSD, Versão Saúde para Família, disponível em&nbsp;<a href="https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%BArbios-de-sa%C3%BAde-mental/transtornos-de-sintomas-som%C3%A1ticos-e-transtornos-relacionados/transtorno-de-ansiedade-por-doen%C3%A7a?query=Transtorno%20de%20ansiedade%20de%20doen%C3%A7a">https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%Barbios-de-as%C3%Bade-mental/transtornos-de-sintomas-som%C3%A1ticos-e-transtornos-relacionados/transtorno-de-ansiedade-por-doen%C3%A7a?query=Transtorno%20de%20ansiedade%20de%20doen%C3%A7a</a>&nbsp;, acesso em novembro de 2022.</p>



<p>DIB, M., VALENÇA, A. M, NARDI, A. E.&nbsp;Transtorno de pânico e hipocondria. Relato de caso. J. bras. Psiquiatr. 55 (1). 2006.&nbsp;&nbsp;Disponível em&nbsp;<a href="https://doi/">https://doi</a>.org/10.1590/S0047-20852006000100013 , acesso em novembro de 2022.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/transtorno-de-ansiedade-por-doenca-a-busca-por-cuidado-como-caminho-para-o-amadurecimento/">Transtorno de ansiedade por doença, a busca por cuidado como caminho para o amadurecimento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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