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	<title>Michella Paula Cechinel Reis, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Michella Paula Cechinel Reis, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Um olhar para a maternidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-olhar-para-a-maternidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 14:22:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto propõe uma reflexão simbólica sobre a maternidade a partir do conto da Mulher-Esqueleto, narrado por Clarissa Pinkola Estés, interpretando-o à luz da psicologia do feminino.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/um-olhar-para-a-maternidade/">Um olhar para a maternidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: O texto propõe uma reflexão simbólica sobre a maternidade a partir do conto da Mulher-Esqueleto, narrado por Clarissa Pinkola Estés, interpretando-o à luz da psicologia do feminino</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa mítica, que apresenta o processo de morte e renascimento da <strong>mulher-esqueleto</strong> após ser acolhida e cuidada por um pescador, é utilizada como metáfora para compreender as transformações psíquicas mobilizadas pela gestação e pela experiência materna. Nesse contexto, discute-se como o complexo materno pode ocupar temporariamente o centro da vida psíquica da mulher, mas também como, ao longo do tempo, torna-se necessário um movimento de retorno à própria individualidade, permitindo que a maternidade seja integrada entre outras dimensões da identidade feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O texto também alerta para o risco de uma unilateralização da consciência quando a maternidade passa a constituir o único sentido da vida, situação simbolicamente associada à figura de Deméter, podendo gerar efeitos sufocantes nas relações familiares. Assim, enfatiza-se a importância da autorreflexão e da busca de equilíbrio psíquico para que a maternidade seja vivida como uma experiência transformadora, mas não totalizante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ser-mae-e-inato-a-mulher" style="font-size:21px"><strong><em>Ser mãe é inato à mulher!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Já iniciamos nosso texto refletindo sobre uma frase muito falada, entretanto, precisamos questionar o quanto de verdade existe nessa afirmação.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A ideia de maternidade como entendemos hoje vem sendo cunhada desde o século XVII, com a expansão da burguesia e a transformação socioeconômica decorrente do processo de industrialização. Para sustentar a sociedade capitalista, à mulher foi sendo delegada a função de maternidade e cuidados de casa. O capital precisa de trabalhadores e consumidores de seus produtos, e garantir essa rotatividade era necessária. Reforçada pela Igreja, de que o sexo era destinado à procriação, as mulheres praticamente passavam suas vidas inteiras grávidas, com altas taxas de mortalidade infantil e materna. Era comum os homens terem várias esposas e muitas filhos ao longo da vida. Olhando nessa perspectiva, a base social ficou a cargo dos corpos femininos, com múltiplas gravidezes, desgaste físico e da saúde, e sobrecarga de trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa divisão social do trabalho que impôs às mulheres a maternidade como trabalho a ser executado para que seja considerada uma mulher de sucesso perante os pares. Então, podemos concluir e desmistificar que a maternidade definitivamente não é inata às mulheres. Essa frase é fruto de um constructo social e projeto político.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Para além disso, com os avanços do capitalismo, e a conquista feminina no espaço de trabalho, a jornada dupla (às vezes tripla) se tornou uma realidade cruel.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-demandado-da-mulher-que-ela-seja-forte-independente-lider-autossuficiente-e-ainda-mae-esposa-donzela-bonita-esteticamente-impecavel-e-que-nunca-envelheca" style="font-size:18px">É demandado da mulher que ela seja “forte”, “independente”, “líder”, “autossuficiente” e ainda, mãe, esposa, donzela, bonita, esteticamente impecável e que nunca envelheça.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A realidade apresentada nos tempos modernos é esmagadora. Com o aumento da inflação, e a necessidade de lucros, o capitalismo requer que a mulher trabalhe com dedicação e integralidade. As empresas, cada vez mais requerem cargas horárias de trabalho grandes. No mundo capitalista, o capitalismo nunca perde. É nítido que quanto mais mulheres forem produtivas, mais consumidoras teremos. Isso não é um apelo para que as mulheres deixem de trabalhar, mas sim, que tenhamos a ciência que a jornada dupla exige um grau de saúde física e mental que beira um risco à saúde pública.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-existe-amor-maior-do-que-o-amor-de-mae" style="font-size:21px"><strong><em>Não existe amor maior do que o amor</em> de mãe!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maternidade, em sua origem, é arquetípica e nos remete ao início de tudo: da vida, da humanidade, do próprio ser. Quem teria sido a primeira mãe? Ou, ainda, qual foi a primeira mulher a reconhecer, em si, a consciência da maternidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo a tradição cristã,<strong> Eva </strong>seria a primeira mãe — aquela que, ao comer o fruto proibido da árvore do conhecimento, inaugura a consciência humana e abre esse limiar para toda a humanidade. No entanto, muito antes de Eva, diversas entidades sagradas femininas já habitavam o imaginário simbólico das culturas antigas. Estudos arqueológicos vêm revelando a existência de civilizações com mais de dez mil anos, nas quais o princípio feminino e materno ocupava lugar central.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O conceito de <strong>arquétipo </strong>é fundamental para a compreensão da Psicologia Analítica. O termo não foi cunhado por Carl Gustav Jung, mas foi utilizado por este para definir os moldes psíquicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-2013-280-em-oc-8-2-nbsp" style="font-size:18px">Para Jung (2013, § 280), em OC 8/2,:&nbsp;</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de apreensão que se repetem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer reconheçamos ou não seu caráter mitológico.”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em outras palavras, devemos reconhecer a importância do conceito de arquétipo no que tange à compreensão da natureza humana. O arquétipo é um molde vazio em que as experiências pessoais e coletivas são arquivadas. A imagem arquetípica é a única coisa que o indivíduo pode acessar, sendo nutrido por suas experiências individuais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seja-eva-ou-nao-a-primeira-mae-o-que-importa-e-reconhecer-que-a-gestacao-e-condicao-essencial-para-a-existencia-humana" style="font-size:18px">Seja Eva ou não a primeira mãe, o que importa é reconhecer que a gestação é condição essencial para a existência humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela se articula a outros arquétipos igualmente basilares, como os da vida e da morte, revelando a maternidade como um campo de profunda ambivalência. Um conto particularmente interessante, trata sobre o ciclo de morte-vida e morte do amor, é muito rico e mostra a ambivalência do amor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conto-da-mulher-esqueleto-apresentado-pela-autora-clarissa-pinkola-estes-2014-narra-uma-antiga-historia-do-povo-esquimo-sobre-uma-jovem-que-e-lancada-ao-mar-pelo-proprio-pai" style="font-size:18px">O <strong>conto da mulher-esqueleto</strong>, apresentado pela autora Clarissa Pinkola Estés (2014), narra uma antiga história do povo esquimó sobre uma jovem que é lançada ao mar pelo próprio pai.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No oceano, seu corpo é devorado pelos peixes, restando apenas seu esqueleto. Ali ela permanece por muito tempo, até que um jovem pescador prende inadvertidamente seu anzol nas costelas da mulher-esqueleto e acaba içando-a para dentro de seu barco.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assustado com a aparição, o pescador não percebe que sua linha e sua rede de pesca se enroscam no esqueleto. No desespero de se livrar daquela visão aterradora, ele foge em direção ao seu iglu, arrastando-a consigo, sem perceber que ambos estão presos pela mesma rede. No caminho, a mulher-esqueleto consegue engolir alguns peixes que o homem havia colocado para secar e, após muito tempo, volta a se alimentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando finalmente chegam ao iglu, o homem percebe que ela continua ali. Ao notar sua respiração tranquila, começa lentamente a desenredá-la da rede de pesca e a cobre com peles para aquecê-la. Aos poucos, ele se sente tomado pelo sono e, ao adormecer, deixa cair uma lágrima. A mulher-esqueleto sorri e sorve essa lágrima — que para ela é como um rio — saciando sua sede.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Então, ela retira o coração do homem, que bate como um grande tambor, e começa a batucar em suas duas faces enquanto entoa um canto. Canta para que seu corpo volte a ter carne, cabelos, olhos saudáveis, mãos fortes e macias, seios, ventre e todas as formas que constituem uma mulher. Depois, ainda cantando, deita-se ao lado do homem e devolve o grande tambor — o coração — ao seu corpo. Assim, ao amanhecer, os dois despertam abraçados, juntos de um modo bom e restaurado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conto-da-mulher-esqueleto-sob-uma-leitura-simbolica-aproxima-se-da-experiencia-da-maternidade-e-da-gestacao" style="font-size:18px">O conto da <strong>Mulher Esqueleto</strong>, sob uma leitura simbólica, aproxima-se da experiência da maternidade e da gestação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Durante a gravidez, muitas mulheres entram em contato com aspectos profundos de si mesmas: memórias antigas, emoções esquecidas, histórias familiares e conteúdos psíquicos que estavam adormecidos. Assim como no conto, esse encontro nem sempre é imediato ou confortável. Muitas vezes, ele exige tempo, paciência e delicadeza para desatar nós internos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diferentes mulheres relatam que, durante o período de gestação, sonham com as gerações anteriores e entram em contato com a ancestralidade feminina. Esse momento pode se tornar uma oportunidade de conexão com a própria criança interna, de revisitar memórias e de promover um movimento de maior aproximação com a mãe ou com outras figuras maternas presentes em sua vida. Nesse período, torna-se possível compreender melhor a miríade de sentimentos pelos quais diferentes mulheres passam. Trata-se de uma experiência profunda e poderosa para quem a vivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Mulher Esqueleto também fala sobre o ciclo vida–morte–vida. Na maternidade, algo semelhante acontece no plano psíquico: para que uma nova vida chegue, uma parte da identidade anterior da mulher precisa se transformar. A mulher que existia antes da gestação não desaparece totalmente, mas passa por uma reorganização profunda. Nesse sentido, a maternidade pode ser vista como um processo de <strong>renascimento simbólico</strong>, no qual uma nova identidade feminina começa a se formar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como o pescador oferece seu próprio coração para que a Mulher Esqueleto recupere sua vida. Esse gesto simboliza entrega e abertura para a transformação. A maternidade, de maneira semelhante, envolve uma experiência intensa de doação psíquica e emocional, que frequentemente amplia a capacidade de cuidado, vínculo e sensibilidade. Também apresenta o medo do desconhecido, do que estar por vir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ser-mae-e-padecer-no-paraiso" style="font-size:21px"><strong><em>Ser mãe é padecer no paraíso!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Gestar é um ato de profunda entrega, uma conexão entre almas mediada pelo corpo. Nesse período, a mulher pode entrar em contato mais direto com sua corporeidade, com os instintos, com o complexo materno que a habita e com conteúdos do inconsciente. É como se, durante a gestação, estivéssemos mais próximas de um limiar entre a consciência e o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-feminino-vira-fonte-de-vida-e-nutricao-abrigo-e-protecao-e-muita-transferencia-inconsciente-da-mae-para-o-filho-ou-filha-que-chamamos-de-projecoes" style="font-size:18px">O corpo feminino vira fonte de vida e nutrição, abrigo e proteção, e muita transferência inconsciente da mãe para o filho ou filha, que chamamos de projeções.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As projeções são inconscientes, a mulher não tem domínio sobre, mas pode pressentir através de sonhos, intuições e sensações.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É importante também destacar que a vida vivida que os pais podiam ter vivido, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta. Isso significa que os filhos são forçados inconscientemente a tomar um rumo na vida projetado pelos pais (JUNG, 2013). Por isso, esse mergulho ao inconsciente que a gestante pode fazer durante todo esse período simbiótico com a criança é um movimento importante para ambos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung dedicou boa parte de suas obras completas debruçado sobre a importância do complexo materno na formação da psique do indivíduo. O complexo é um conjunto associativo de experiências do indivíduo com tonalidades afetivas, no qual reside um núcleo arquetípico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo materno é de suma importância, por ser o primeiro complexo a ser constituído. Quando nascemos somos indiferenciados com a mãe, sendo que conhecemos o mundo a partir dessa figura que cuida, alimenta e protege, na maioria das vezes assim deveria ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A discussão acerca dessa frase passa pelo fato de que o padecimento é um tipo de sofrimento. Que sofrimento é esse que se dá num “paraíso”? Quando refletimos sobre a incongruência que é esperar que uma mulher sofra, enquanto sorri, percebe-se que não podemos exigir e outorgar esse poder ao corpo de outra mulher de forma incondicionada, como se ela fosse inatamente apegada à isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maternidade, em sua ambivalência, carrega sinais luminosos e sombrios na mesma medida. Sentimentos de alegria e melancolia, medo e coragem, segurança e insegurança, entre muitos outros. Tudo concorrendo no mesmo espaço interno e externo, num corpo em mudança. É um período de grande caos hormonal, emocional e psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-hora-voce-esquece-toda-a-dor" style="font-size:21px"><strong><em>Na hora você esquece toda a dor!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Após os nove meses de gestação, em média, outro momento crucial ocorre: o parto. No imaginário feminino, mesmo para mulheres muito racionalizadas, existe um temor ou preocupação de como será esse momento. O medo pode ser relacionado ao instinto de autopreservação. Gestar e parir provoca diferentes consequências ao corpo feminino.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2023, <strong>aproximadamente 260 mil mulheres morreram em decorrência de causas relacionadas à gravidez ou ao parto</strong> — o que significa que <strong>mais de 700 mulheres morrem todos os dias por causas evitáveis</strong> ligadas à gestação e ao nascimento. Esses dados corroboram o medo ligado às altas taxas de mortalidade do passado, e ainda presente em países pobres e nas classes sociais mais baixas e com menos acesso a serviços de saúde e qualidade de vida.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além disso, uma cesárea é a única cirurgia em que se espera que após 6 horas a paciente esteja andando e nutrindo outro ser humano. Lembrando que a cesárea é uma cirurgia de grande porte com todos os riscos envolvidos. É uma cirurgia que uma mulher faz acordada, sem anestesia geral. E espera-se, ainda hoje, que a mulher “não tema nada.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-nasce-um-filho-nasce-uma-mae" style="font-size:21px"><strong><em>Quando nasce um filho, nasce uma mãe!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na nossa experiência, o nascimento dos filhos nos faz perceber, de forma concreta, o peso e a profundidade da responsabilidade que repousavam em nossos braços. Nutrir, cuidar e proteger tornaram-se necessidades vitais daquele ser totalmente indefeso, dependente por um longo período de sua vida. Diferentemente dos animais não humanos, o ser humano atravessa uma gestação prolongada, que não se limita ao útero, mas se estende para além do nascimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-que-a-crianca-venha-a-andar-sozinha-ela-permanece-incapaz-de-garantir-a-propria-sobrevivencia-necessitando-de-cuidado-vinculo-e-sustentacao-por-muitos-anos" style="font-size:18px">Ainda que a criança venha a andar sozinha, ela permanece incapaz de garantir a própria sobrevivência, necessitando de cuidado, vínculo e sustentação por muitos anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma mãe nasce quando um filho nasce? Sim e não. Embora o nascimento da criança convoque a mulher para a função materna, o ideal de mãe que a antecede já está dado no imaginário coletivo. O arquétipo materno, tal como é alimentado por cada sociedade, constrói imagens normativas da “boa mãe”: disponível, intuitiva, abnegada e naturalmente competente. Esse ideal, quando rigidamente incorporado, pode afastar a mulher de sua experiência real, produzindo sentimentos de inadequação e culpa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-winnicott-nos-lembra-que-nao-existe-a-mae-perfeita-mas-a-mae-suficientemente-boa-aquela-que-falha-repara-e-se-adapta-de-maneira-gradual-as-necessidades-do-bebe" style="font-size:18px">Winnicott nos lembra que não existe a mãe perfeita, mas a <em>mãe suficientemente boa</em>, aquela que falha, repara e se adapta de maneira gradual às necessidades do bebê.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O termo “<em>mãe suficientemente boa”</em> foi cunhado por Winnicott para <strong>evitar a idealização da maternidade e destacar que a mãe não precisa ser perfeita</strong> – ela começa por atender quase completamente às necessidades do bebê e vai gradualmente se adaptando menos à medida que ele cresce, permitindo que este tolere pequenas frustrações de modo saudável. Ou seja, a maternidade é construída por cada mulher, e difere entre as sociedades, não é inata ou imediata.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O amor é uma construção diária, que se dá nos pequenos gestos e na intimidade com o bebê. Se o amor de uma mãe fosse incondicionado, não existiriam mães que abandonam seus filhos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-mae-vive-para-seus-filhos" style="font-size:21px"><strong><em>Uma mãe vive para seus filhos!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em uma leitura junguiana, o arquétipo da Grande Mãe carrega em si uma ambivalência fundamental: é fonte de vida, nutrição e proteção, mas também de angústia, ameaça e dissolução. Os choros noturnos, as dificuldades na amamentação e a insegurança inicial confrontam a mulher com essa polaridade, deslocando-a do ideal para a experiência viva. Assim, ser mãe não é a realização imediata de um modelo arquetípico, mas um processo relacional e simbólico, aprendido no encontro contínuo entre mãe e filho, onde ambos se transformam.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em <em>Símbolos da Transformação</em>, Jung formula as qualidades opostas da mãe: amorosa e terrível ao mesmo tempo. O paralelo histórico também expressa essa ambivalência do arquétipo materno &#8211; Maria (Imaculada), Kali associada à morte e destruição. O conceito Prakrti atribui três princípios fundamentais ao materno: bondade, paixão e escuridão. Embora a figura da mãe seja universal, ela varia na experiência prática de cada um, possuindo um caráter mais limitado para essa mãe individual. Com isso, Jung apresenta a ideia de que não é a mãe individual que influencia a psique infantil unicamente, o arquétipo projetado sobre essa mãe confere a ela um caráter numinoso e quase divino (JUNG, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maternidade possui tamanha força, que no período paleolítico e neolítico, quando o homem ainda não associava a gestação à fecundação. Não se entendia a gravidez como fruto da sexualidade e sim como algo divino. As Deusas da antiguidade eram femininas, Deusas mães, ligadas à terra e à fertilidade (Stone, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa história que por muito tempo foi apagada pelos homens, vem sendo estudada e revisitada por diferentes estudiosos. É importante entender o passado e o presente, pois eles influenciam o arquétipo materno, base do complexo materno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-e-incerto-neste-mundo-hediondo-mas-nao-o-amor-de-uma-mae-james-joyce" style="font-size:21px"><strong><em>Tudo é incerto neste mundo hediondo, mas não o amor de uma mãe (James Joyce)</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo materno pode gerar impactos tanto em filhos quanto em filhas. Nos homens, quando ativado em excesso, pode resultar em comportamentos dom-juanistas ou homossexuais; já nas mulheres, pode manifestar-se na fixação na maternidade, em um eros exacerbado, em uma identificação excessiva e dependente em relação à mãe ou ainda em um antagonismo em relação a ela (JUNG, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos esperar que, durante a gestação — entendida aqui em sua dimensão mais ampla, que inclui também a chamada gestação “extraútero” —, a mulher seja profundamente mobilizada pelo complexo materno. Nesse período, é comum que a experiência psíquica se organize intensamente em torno da maternidade, envolvendo o corpo, os afetos e o imaginário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com o passar do tempo, porém, tende a emergir novamente o movimento de retorno ao mundo. A mulher gradualmente retoma o vínculo com sua própria jornada individual, reconectando-se com outras dimensões de si mesma. Assim, a maternidade deixa de ocupar o centro absoluto da experiência psíquica e passa a constituir uma entre as muitas personas que podem se manifestar ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, algumas mulheres encontram dificuldades para realizar esse movimento de retorno a si mesmas, podendo manifestar o que podemos chamar de sintomas demeterianos. Assim como a deusa Deméter, passam a investir na maternidade o sentido central — e, por vezes, exclusivo — da própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando isso ocorre, a experiência materna tende a tornar-se unilateral e excessivamente totalizante. Tal configuração pode gerar efeitos sufocantes nas relações ao redor: tensiona o vínculo com o(a) parceiro(a), dificulta a circulação afetiva na família e, sobretudo, pode restringir o espaço psíquico necessário para o desenvolvimento e a autonomia dos próprios filhos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-complexo-materno-assim-como-os-demais-complexos-necessita-receber-uma-quantidade-de-energia-psiquica-que-permita-a-circulacao-saudavel-da-vida-psiquica-e-das-relacoes" style="font-size:18px">O complexo materno, assim como os demais complexos, necessita receber uma quantidade de energia psíquica que permita a circulação saudável da vida psíquica e das relações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando há uma unilateralização da consciência em torno de um único aspecto da vida — neste caso, a maternidade —, a própria mulher pode acabar sendo prejudicada por essa dinâmica. Em alguns casos, crises no relacionamento conjugal surgem como indícios dessa unilateralidade, sendo frequentemente percebidas ou nomeadas pelo(a) parceiro(a). Nesses momentos, a capacidade de autorreflexão, bem como a abertura para buscar apoio ou ajuda especializada, pode contribuir para a ampliação da consciência e para uma reorganização mais equilibrada da experiência psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A gestação e o nascimento de um filho frequentemente mobilizam camadas profundas da psique feminina, colocando a mulher em contato com dimensões arcaicas do feminino — com a vida, mas também com perdas, transformações e renascimentos. Assim como na narrativa apresentada por <strong>Clarissa Pinkola Estés</strong>, a vida só retorna quando há tempo, cuidado e disposição para desenredar os nós que prendem aquilo que foi lançado às profundezas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, a maternidade pode ser compreendida não como um destino que absorve toda a existência da mulher, mas como uma experiência transformadora que, quando integrada de forma consciente, permite que diferentes dimensões do feminino encontrem novamente seu lugar na vida psíquica e relacional.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Um olhar para a maternidade&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/7gJBv10KQOE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 class="wp-block-heading" id="h-autoras" style="font-size:18px">Autoras:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Ercília Simone Magaldi &#8211; Didata do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/">Paula de Azevedo Bernardi Peñas &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, C.P. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. O desenvolvimento da personalidade. 14 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A natureza da psique. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">STONE, M. Quando Deus era mulher. São Paulo: Goya, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Winnicott, D.W. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu Ed., 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">World Health Organization. Maternal mortality. Disponível em: <a href="https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/maternal-mortality">https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/maternal-mortality</a>?. Acesso em 23 de janeiro de 2026.</p>



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		<title>Tapa de amor dói sim!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tapa-de-amor-doi-sim/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2025 23:21:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[barba azul]]></category>
		<category><![CDATA[codependência]]></category>
		<category><![CDATA[dependência emocional]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
		<category><![CDATA[Patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-e-noticiada-todos-os-dias-nas-midias-sociais-e-nos-canais-de-telecomunicacao" style="font-size:19px">A violência é noticiada todos os dias nas mídias sociais e nos canais de telecomunicação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E parte nos comove e em outra medida nos mostra nossa insensibilidade ou normalização em relação à violência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNS, 2019), no Brasil, um contingente de 29,1 milhões de pessoas sofreu violência física, psicológica ou sexual em 2019; a violência atingiu 19,4% das mulheres e 17,0% dos homens. Companheiros, ex-companheiros ou parentes são os principais agressores das mulheres que sofreram violência física (52,4%), psicológica (32,0%) e violência sexual (53,3%). O domicílio é o principal local da agressão das mulheres. A violência sexual gerou consequências psicológicas (60,2%), físicas (19,4%) e sexuais (5,0%) para as vítimas. A pesquisa mostra&nbsp;que a violência atinge mais as mulheres, os jovens, as pessoas pretas ou pardas e a população de menor rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O espírito da época contemporânea é atravessado por recursos tecnológicos e midiáticos que evoluíram sobremaneira nos últimos 50 anos. Isso não significa que os utilizamos de maneira adequada. No Brasil (IBGE, 2021), a sensação de vitimização média a alta para situações que envolvam fotos, vídeos ou conversas divulgadas na internet contra sua vontade foi maior para o grupo etário de 25 a 39 anos. Ou seja, a violência não se restringe a presença do agressor(a) no ambiente físico, virtualmente existem riscos que precisam ser mais bem estudados para aprendermos a nos proteger, criar regulamentações e políticas públicas necessárias. Tudo é novo e ao mesmo tempo velho, pois a violência não é algo novo, mas uma construção histórica e cultural.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-historicamente-a-violencia-contra-as-mulheres-foi-respaldada-pelos-contextos-religiosos-e-patriarcais-conforme-ensina-borges-2020" style="font-size:19px">Historicamente, a violência contra as mulheres foi respaldada pelos contextos religiosos e patriarcais, conforme ensina BORGES (2020):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A Idade Média foi considerada por muitos historiadores como a Idade das Trevas, uma época de muita perseguição religiosa, várias doenças e ataques entre povos, porém foi nessa época que as mulheres conquistaram acesso a grande parte das profissões e também ao direito de propriedade, porém subjugadas como podemos destacar no trecho do livro MALLEUS MALEFICARUM:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>[..] convém observar que houve uma falha na formação da primeira mulher, por ter sido ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela do peito, cuja curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão do homem. E como, em virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre decepciona e mente (KREMER, SPRENGER 1991, pag. 116).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As mulheres deste período eram muito desvalorizadas, pois a sociedade era toda centralizada na figura do homem, porém com as guerras, doenças e perseguições a expectativa de vida desse período tornou-se muito baixa. Decorrente desses fatos as mulheres tornavam-se viúvas de forma precoce, assim tinham que assumir como chefe de família. Entretanto, a participação das mulheres durante a Idade Média foi ainda mais concisa por meio de mulheres de destaque que estudaram em universidades e que participaram da vida política da época, exemplos como de Hilda de Whitby que fundou vários mosteiros e conventos pela Europa, da Duquesa da Aquitânia que lecionou e governou o feudo junto ao seu marido, e um dos maiores exemplos da história Joana D’arc.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Joana D’arc é uma das mais ilustres figura da história francesa, nasceu no período da Idade Média, em uma época bastante conturbada e sem muito espaço para manifestação do pensamento feminino. Essa valente figura rompeu com os paradigmas impostos pela sociedade, vestia roupas masculinas e possuía uma forte personalidade.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante dos dados expostos, fica evidente que a violência contra as mulheres é muito mais que apenas um problema cultural e localizado, mas uma inferência de que o corpo feminino é menos valioso que o masculino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-patente-que-a-mulher-vem-sendo-diminuida-enquanto-ser-humano-por-ser-taxada-de-suja-fragil-emocional-esses-dados-remontam-como-visto-acima-uma-trajetoria-de-milhares-de-anos" style="font-size:19px">É patente que a mulher vem sendo diminuída enquanto ser humano, por ser taxada de “suja”, “frágil”, “emocional”. Esses dados remontam, como visto acima, uma trajetória de milhares de anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A persistência da violência contra as mulheres no Brasil segue sendo uma das expressões mais alarmantes das desigualdades de gênero no país. Em mais um ano, os dados do sistema de saúde revelam números elevados de homicídios femininos e de agressões a mulheres, evidenciando a continuidade desse fenômeno estrutural. A despeito das políticas públicas implementadas nas últimas décadas e dos avanços normativos – como a atualização da Lei do Feminicídio (Lei nº 14.994), em 2024 –, a letalidade feminina, especialmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade, segue como um problema público grave, e que, só em 2023, matou quase 4 mil mulheres (IPEA, 2025). Isso representa 4 mulheres mortas diariamente em consequência do feminicídio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-de-conquista-feminina-no-pais-com-as-normativas-de-lei-do-feminicidio-e-lei-maria-da-penha-sao-muito-atuais-sendo-promulgadas-em-2006-e-2015-respectivamente" style="font-size:19px">A história de conquista feminina no país com as normativas de Lei do Feminicídio e Lei Maria da Penha são muito atuais, sendo promulgadas em 2006 e 2015, respectivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isso significa que, anteriormente a 2006, essas violências não eram tratadas como uma violência direcionada à mulher pelo simples fato de ser mulher. Infelizmente, o Brasil ainda é um país com muitas subnotificações, tornando os dados aproximados com relação aos abusos sofridos e às marcas deixadas ao longo dos anos. Cabe ainda, relembrar que durante o período escravista no Brasil, a Lei do Ventre Livre, que estabelecia que os filhos nascidos de mães escravas seriam livres foi promulgada em 28 de setembro de 1871, apenas 17 anos antes do fim da escravidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-falamos-de-uma-populacao-mais-vulneravel-falamos-especialmente-de-mulheres-pretas-ou-pardas-com-baixos-salarios-poucos-direitos-trabalhistas-acesso-a-bens-e-servicos-restritos-a-sua-condicao-economica-como-mulheres-nessas-condicoes-sao-assistidas-quando-em-condicoes-de-violencia-domestica-e-abusos-spivak-celebre-autora-argumenta-se-o-subalterno-pode-falar-se-ele-a-tem-voz-para-spivak-2010-p-13-14-o-termo-subalterno-refere-se-as-camadas-mais-baixas-da-sociedade-constituidas-pelos-modos-especificos-de-exclusao-de-mercados-da-representacao-politica-e-legal-e-da-possibilidade-de-se-tornarem-membros-plenos-no-estrato-social-dominante" style="font-size:19px">Quando falamos de uma população mais vulnerável, falamos especialmente de mulheres pretas ou pardas com baixos salários, poucos direitos trabalhistas, acesso a bens e serviços restritos a sua condição econômica. Como mulheres nessas condições são assistidas quando em condições de violência doméstica e abusos? Spivak, célebre autora, argumenta se o subalterno pode falar, se ele(a) tem voz? Para Spivak (2010, p. 13-14) o termo subalterno refere-se “às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão de mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-atlas-da-violencia-2025-fornece-um-retrato-alarmante-e-preciso-da-violencia-de-genero-no-brasil-mulheres-continuam-sob-grave-ameaca-especialmente-dentro-de-casa-com-impacto-diferenciado-sobre-mulheres-negras-e-jovens" style="font-size:19px">O <em><strong>Atlas da Violência 2025</strong></em> fornece um retrato alarmante e preciso da violência de gênero no Brasil: mulheres continuam sob grave ameaça, especialmente dentro de casa, com impacto diferenciado sobre mulheres negras e jovens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A combinação entre violência letal, formas não letais e subnotificação aponta para a urgência de ações políticas, legais e sociais mais eficazes, ampliando o alcance da proteção e atuando na prevenção desde o ambiente familiar até o contexto estrutural (IPEA, 2025).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre os mamíferos, os chimpanzés e humanos regularmente matam adultos de sua própria espécie. Também compartilham outros males, como assassinatos políticos, espancamentos e estupros. O estupro é um ato comum aos orangotangos machos e gorilas machos matam bebês com muita frequência, embora essa atitude não seja exclusiva dos primatas (Wrangham e Peterson, 1996).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pergunta-se-se-ha-algo-com-os-primatas-que-os-predispoe-a-violencia-e-aos-seres-humanos" style="font-size:19px">Pergunta-se se há algo com os primatas que os predispõe a violência? E aos seres humanos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-wrangham-e-peterson-1996-p-181-no-livro-o-macho-demoniaco-mostram-que-os-ataques-violentos-dos-chimpanzes-machos-contra-as-femeas-e-um-aspecto-sistematico-e-comum-os-autores-comparam-o-comportamento-dos-humanos-e-dos-chimpanzes-da-seguinte-forma-1-ambos-sao-casos-de-violencia-de-machos-contra-femeas-ou-homens-contra-mulheres-no-caso-humano-2-ambos-sao-exemplos-de-violencia-no-relacionamento-os-machos-conhecem-as-femeas-a-muito-tempo-membros-da-sua-comunidade-e-nao-havia-um-contexto-como-falta-de-comida-ou-aliancas-a-outros-grupos-para-justificar-o-comportamento-3-fatores-superficiais-desencadeiam-a-reacao-mas-a-questao-subjacente-e-o-controle-ou-a-dominacao-da-femea-pelo-macho" style="font-size:19px">Wrangham e Peterson (1996, p. 181) no livro “<strong>O macho demoníaco</strong>” mostram que os ataques violentos dos chimpanzés machos contra as fêmeas é um aspecto sistemático e comum. Os autores comparam o comportamento dos humanos e dos chimpanzés da seguinte forma: <strong>1)</strong> ambos são casos de violência de machos contra fêmeas, ou homens contra mulheres no caso humano; <strong>2)</strong> ambos são exemplos de violência no relacionamento &#8211; os machos conhecem as fêmeas a muito tempo, membros da sua comunidade e não havia um contexto como falta de comida ou alianças a outros grupos para justificar o comportamento; <strong>3)</strong> fatores superficiais desencadeiam a reação, mas a questão subjacente é o controle ou a dominação da fêmea pelo macho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os autores, pautados nas pesquisas com primatas, buscaram a associação entre a violência do macho/homem como fator biológico, instintivo e social. Entretanto, os próprios autores admitem que a complexidade do tema é maior que uma herança geracional, genética ou modulação de comportamentos ao longo da história. Se temos a maldição de um temperamento masculino demoníaco e uma capacidade maquiavélica para expressá-lo, somos também abençoados com uma inteligência que é capaz, através da sabedoria, afastar-nos do passado de grande primata. Se a inteligência é capaz de enxergar, a sabedoria é capaz de ouvir e ver ao longe, ou seja, a sabedoria é a perspectiva futura (WRANGHAM e PETERSON, 1996, p. 315).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-machismo-estrutural-resultado-do-patriarcado-e-a-subordinacao-da-mulher-as-necessidades-dos-homens-ao-longo-de-milenios-e-uma-base-importante-para-atitudes-violentas-e-possessivas-em-relacao-aos-corpos-femininos" style="font-size:19px">O machismo estrutural, resultado do patriarcado, e a subordinação da mulher às necessidades dos homens ao longo de milênios, é uma base importante para atitudes violentas e possessivas em relação aos corpos femininos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa construção de força masculina está mais vinculada à força física. Através da força, homens e animais machos imprimem abusos físicos, psicológicos e sexuais ao sexo oposto. Pensando na imagem arquetípica do masculino, esse seria o lado demoníaco do arquétipo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-2-245-254-menciona-em-sua-obra-a-persona-como-um-fragmento-da-psique-coletiva-comportamentos-ou-papeis-esperados-em-determinado-tempo-e-epoca-incluindo-os-papeis-de-homens-e-mulheres" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (OC 7/2, § 245-254) menciona em sua obra a <strong>persona</strong>, como um fragmento da psique coletiva, comportamentos ou papéis esperados em determinado tempo e época, incluindo os papéis de homens e mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esses papéis são construções sociais, influenciados pela história humana e sua evolução ao longo dos séculos. À medida que aumenta a influência do inconsciente coletivo, a consciência perde seu poder de liderança, e passa a se mover como uma peça de xadrez, à mercê do inconsciente. Esse colapso da consciência e domínio do inconsciente é desastroso ao indivíduo, ele perde o chão, desenraiza. Essa inundação pode ser refletida em paranoia e esquizofrenia, em excentricidade e atitude infantil, apartando-o da sociedade, ou entrando em um processo de restauração regressiva da persona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung, em seu livro “<strong>Aspectos do drama contemporâneo</strong>”, descreve as guerras europeias do século XX como uma onda de primitividade e violência, que seriam a manifestação de &#8220;poderes obscuros&#8221; que se intensificaram durante a Primeira Guerra e atingiram o auge na Segunda, em movimentos como o Nazismo e o Fascismo. Ele afirma que o &#8220;caos e a desordem do mundo&#8221; se refletem de forma semelhante na mente de cada pessoa, e que essa ausência de direção é equilibrada no inconsciente pelos &#8220;arquétipos da ordem&#8221;. A integração dos conteúdos inconscientes é apresentada como uma ação individual de concretização, compreensão e julgamento ético, que exige uma grande responsabilidade moral (§ 449-451).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-do-exposto-muitas-perguntas-ficam-em-suspenso" style="font-size:19px">Diante do exposto, muitas perguntas ficam em suspenso:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Quais complexos estão envolvidos nessa construção coletiva, que incide em diferentes tipos de violências? A violência e a necessidade de dominação podem ser atreladas a uma necessidade compensatória, busca-se dominar o outro na tentativa de se sentir superior? </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ousamos dizer que um estudo sobre o assunto seria muito rico e beneficiaria sobremaneira a humanidade. Entender essa necessidade de poder, especialmente em relação às mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma pesquisa sobre o perfil dos agressores presos em flagrante mostra que são homens adultos jovens em maior percentual, com baixa escolaridade, possuíam uma ocupação e havia relato de passagens pela polícia anteriormente em aproximadamente 30% dos casos, incluindo a própria violência doméstica. É interessante que o tipo de violência se caracteriza de forma distinta em relação ao consumo de substâncias: os agressores que consumiram somente álcool praticam mais violência física (39,7%); os que ingeriram álcool e drogas associados perpetraram mais violência psicológica (30%); e os usuários de drogas isoladas cometeram mais a psicológica (75%) &#8211; (MADUREIRA, et. al., 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estudo feito no Maranhão observou que os atos violentos foram praticados majoritariamente por indivíduos que não têm mais relações afetivas com as vítimas e entre as motivações para a violência destacam-se o inconformismo com o fim da relação, ciúmes, dentre outros (BEZERRA e RODRIGUES, 2021). Em grande parte dos casos, as violências contra a mulher são cometidas no ambiente doméstico, na frente dos filhos, gerando impactos na saúde emocional e psíquica de toda a família (LEITE, et. al., 2015).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-um-ditado-popular-que-diz-violencia-gera-mais-violencia" style="font-size:19px">Existe um ditado popular que diz “<strong>violência gera mais violência</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em ciclos repetitivos de vitimização e agressão, com trocas de papéis ao longo da vida e a reprodução de padrões de conduta, de forma sistêmica. Enquanto não ocorre uma quebra, um repensar, não há mudanças significativas. A relação entre vítima e agressores gera polaridades, e movimentos internos compensatórios se manifestam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-conto-brilhante-que-trabalha-essa-questao-chama-se-barba-azul" style="font-size:19px">Um conto brilhante que trabalha essa questão chama-se Barba Azul. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O <strong>Barba Azul</strong> seduz mulheres, casa com elas e depois as mata, jogando seus restos mortais no porão.Sua tática de sedução, afinal ele não é tão atraente assim, é o poder e dinheiro. Ele conquista a moça e sua família mostrando suas propriedades, seu conforto e o padrão de vida que a moça terá sob sua tutela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até que um dia ele avisa que tem uma única sala que não pode ser aberta, senão a mataria. E não por acaso, ele entrega todas as chaves da casa para ela enquanto viaja (intencional? Perverso?). Quando volta e descobre que o porão foi aberto num arroubo de curiosidade da mulher, avisa que ela irá morrer. Ela, espertamente, usa de suas habilidades para enrolar o Barba Azul enquanto chama seus irmãos para ajudá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No fim, Barba Azul é morto e despedaçado, e seus pedaços espalhados pelos cantos do mundo. Note que ele nunca é eliminado de vez, ele fica espalhado, com menos energia psíquica, mas está lá, em algum lugar internamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Estudos observam que o manejo do trauma ocorre de maneira mais eficiente para pessoas que usaram de suas habilidades para escapar, se salvar ou resolver a situação</strong>. Quando entram em estado mais passivo ou letárgico, o trauma se instala com uma profundidade maior (LEVINE, 2022). Essa é a ideia do conto do Barba Azul. A única esposa que sobreviveu foi a que teve uma atitude, que lutou para sobreviver com inteligência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Cabe observar ainda, que nesse conto, demonstra-se uma dinâmica psíquica de agressor-vítima, em que a vítima em determinado momento passa a se identificar com o agressor, de forma a permanecer no relacionamento ainda que seja abusivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-esse-assunto-kast-2022" style="font-size:19px">Sobre esse assunto, Kast (2022):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tal &#8220;identificação com o agressor&#8221; é também um conhecido mecanismo de defesa ou de enfrentamento: quando temos medo de alguém, podemos assumir seu ponto de vista, traindo a nós mesmos no processo e assim estabilizando temporariamente nossa autoestima, pois fingimos estar de acordo com o mais forte – nós nos identificamos com o agressor.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-compele-se-dizer-que-as-razoes-que-mantem-as-vitimas-em-relacionamentos-sao-muitas-a-principal-delas-e-a-falta-de-independencia-financeira-contudo-o-agressor-se-nutre-do-medo-da-vitima-numa-tentativa-de-manter-o-controle-em-uma-relacao-desigual" style="font-size:19px">Compele-se dizer que as razões que mantém as vítimas em relacionamentos são muitas. A principal delas é a falta de independência financeira. Contudo, o agressor se nutre do medo da vítima, numa tentativa de manter o controle em uma relação desigual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-significativo-para-pensarmos-essa-questao-seria-a-relacao-de-codependencia-que-se-estabelece-entre-agressores-e-vitimas" style="font-size:19px">Outro ponto significativo para pensarmos essa questão seria a relação de codependência que se estabelece entre agressores e vítimas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Muitas pessoas incorporam uma entidade <strong>salvadora</strong>, capaz de redimir o outro(a) de seus desvios de conduta, como se o seu amor fosse suficiente para a mudança do outro(a). Na verdade, estamos em nossa jornada de autoconhecimento e precisamos nos ver com nossos aspectos sombrios, que nos atravessam para nos ensinar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-temos-em-jogo-sao-carencias-afetivas-e-complexos-constelados-que-nos-aprisionam-a-situacoes-que-nao-sao-saudaveis" style="font-size:19px">O que temos em jogo são carências afetivas e complexos constelados que nos aprisionam a situações que não são saudáveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relação aos homens, o que não pertence à consciência masculina (o não “eu”) é sentido como se não pertencesse ao eu, por isso, a imagem da <em>anima</em> (contraparte feminina) é projetada nas mulheres. Os índices de divórcios cada vez maiores apontam que essa projeção no sexo oposto, ocasiona relacionamentos complicados (JUNG, 9/1, § 61).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <strong><em>anima</em> </strong>é o arquétipo do significado ou sentido, o arquétipo da vida (JUNG, 9/1, § 66). Um homem que se priva de entrar em contato com seu aspecto psíquico feminino está desalmado e sem vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-poder-esta-muito-vinculada-a-imagem-de-homem-em-uma-sociedade-patriarcal-que-estabeleceu-ha-milhares-de-anos-uma-relacao-de-subordinacao-do-corpo-feminino-e-sua-capacidade-reprodutiva" style="font-size:19px">A ideia de poder está muito vinculada à imagem de homem em uma sociedade patriarcal, que estabeleceu há milhares de anos uma relação de subordinação do corpo feminino e sua capacidade reprodutiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Construiu-se uma divisão sexual, social e do trabalho entre homens e mulheres, delegando às mulheres os trabalhos tido como inferiores e menos valorizados, simbolizando seu papel na hierarquia social (BOURDIEU, 2024). Esse complexo cultural que atravessa gerações permeia o inconsciente coletivo traçando relações injustas entre os dois sexos ainda nos dias de hoje. Em nossa sociedade o que faz um homem ser considerado forte? Ter dinheiro, poder e mulheres, ou seja, ele precisa “possuir”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por outro lado, os homens expõem sua vulnerabilidade e sentimentos com muito mais facilidade para as mulheres do que entre os amigos. É compreensível que a população mais vulnerável estude sobre os seus “opressores”, para entender melhor o fenômeno e traçar formas de resistência. Isso significa que as mulheres estavam muito mais atentas aos homens do que o inverso, por uma questão de necessidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-submissao-das-mulheres-e-construida-ao-longo-de-todo-um-trabalho-de-socializacao-um-trabalho-que-tende-a-diminui-las-nega-las-fazem-parte-das-virtudes-negativas-da-abnegacao-resignacao-e-do-silencio-feminino" style="font-size:19px">A ideia de submissão das mulheres é construída ao longo de todo um trabalho de socialização. Um trabalho que tende a diminuí-las, negá-las, fazem parte das virtudes negativas da abnegação, resignação e do silêncio feminino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao mesmo tempo, aprisionam os homens em uma <em>persona</em> de domínio e os obrigando a afirmar sua virilidade. A virilidade entendida como a capacidade reprodutiva, sexual e social, aptidão ao combate e ao exercício da violência são uma carga ou cilada. Às mulheres fica relegada a fragilidade, a astúcia diabólica e a magia. Como a honra e a vergonha estão ligadas a virilidade masculina, práticas sexuais violentas como visita coletiva a bordeis, estupros coletivos realizados por adolescentes são formas de provar sua condição de homem (BOURDIEU, 2024, p. 86-91).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Bourdieu explana que o que chamamos de coragem tem suas raízes na covardia ou medo de ser excluído do mundo dos homens tidos como fortes, e para comprová-lo, atos como matar, torturar e violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão estão relacionados. A virilidade é uma noção relacional, construída diante dos outros homens, para os homens e contra a feminilidade, em uma espécie de medo do feminino, construída dentro de si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-contra-mulheres-e-feminicidio-provocados-pelos-homens-nos-dias-atuais-podem-ser-um-reflexo-dessa-persona-coletiva-de-um-masculino-toxico-e-ferido-em-sua-construcao-social-de-virilidade" style="font-size:19px">A violência contra mulheres e feminicídio provocados pelos homens nos dias atuais podem ser um reflexo dessa persona coletiva de um masculino tóxico e ferido em sua construção social de virilidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É comum esse tipo de ato ocorrer após o término de um relacionamento ou durante a tentativa de finalizar um ciclo de violência já estabelecido na família.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Atualmente, observamos uma crise do masculino, não coincidentemente após a legalização e aumento dos divórcios e o aumento de mulheres no mercado de trabalho, garantindo recursos financeiros e independência. Em consequência, ocorre um fenômeno sem precedentes: o aumento de mulheres chefiando os lares brasileiros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-grafico-01-numero-de-domicilios-pelo-sexo-do-responsavel-brasil" style="font-size:16px"><strong>Gráfico 01:</strong> Número de domicílios pelo sexo do responsável, Brasil.</h2>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" width="884" height="500" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png" alt="" class="wp-image-11518" style="aspect-ratio:1.768018416858509;width:552px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png 884w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-300x170.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-768x434.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-450x255.png 450w" sizes="(max-width: 884px) 100vw, 884px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: IBGE, <a href="https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6788">Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-patriarcal-aprisiona-mulheres-e-homens-criando-expectativas-personas-a-serem-alcancadas-gerando-empecilhos-para-um-crescimento-e-amadurecimento-mutuo-em-relacoes-mais-equitativas-e-menos-opressoras-para-ambos" style="font-size:20px">Essa estrutura patriarcal aprisiona mulheres e homens, criando expectativas (personas) a serem alcançadas, gerando empecilhos para um crescimento e amadurecimento mútuo, em relações mais equitativas e menos opressoras para ambos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Não se questiona os papéis se não houver um atravessamento ou incômodo por alguma das partes. Entretanto, mudanças não ocorrem de forma unilateral. Precisam envolver diversos atores, homens e mulheres em trabalho conjunto. O mundo está mudando porque as pessoas mudam e se transformam. As imagens de homens e mulheres estão sendo revistas, gerando conflitos entre os que querem conservar o que se entende por imagem de família, apegados a estruturas que não funcionam mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-arriscariamos-dizer-que-a-base-dos-conflitos-politicos-atuais-estao-calcados-nessa-polaridade-o-desejo-de-mudanca-e-conservacao-coexistindo-e-em-confronto-ao-mesmo-tempo-felizmente-os-movimentos-e-mudancas-sociais-estao-em-constante-fluxo-nao-conseguimos-impedir-o-curso-da-vida-e-da-alma" style="font-size:20px">Arriscaríamos dizer que a base dos conflitos políticos atuais estão calcados nessa polaridade: o desejo de mudança e conservação coexistindo e em confronto ao mesmo tempo. Felizmente, os movimentos e mudanças sociais estão em constante fluxo. Não conseguimos impedir o curso da vida e da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como mulheres e como analistas junguianas, não podemos ignorar as questões sociais de nosso tempo. A violência não é um fenômeno isolado — ela é coletiva, sistêmica, e nos atravessa em múltiplos níveis. Quando uma mulher sofre abusos físicos, psicológicos ou patrimoniais, todo o sistema ao seu redor é afetado. Somos parte de uma grande psique coletiva, que se manifesta em nossas individualidades. Cada ferida aberta em uma mulher reverbera em todas nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-michella-cechinel-reis-analista-em-formacao-pelo-ijep" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/"><strong>Paula de Azevedo Bernardi Peñas</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi</strong> &#8211; <strong>Analista Didata do IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Tapa de amor dói sim!" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/x36klunNvN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BEZERRA, A.R.; RORIGUES, Z.M.R. Violência contra as mulheres: o perfil da vítima e do agressor em São Luís-MA. Revista do Departamento de Geografia, v. 41, e176806, 2021. Disponível em: [https://revistas.usp.br/rdg/article/view/176806]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORGES, José Carlos. A mulher e suas concepções históricas. 2020. RC:52704. Disponível em: <a href="https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas">https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas</a>. Acesso em: 10.nov.2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOURDIEU, P. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. 23 ed. Rio de Janeiro: Difel, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019). Pesquisa Nacional de Saúde: acidentes, violências, doenças transmissíveis, atividade sexual, características do trabalho e apoio social. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, [Ministério da Saúde].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2021). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: vitimização &#8211; sensação de segurança. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CERQUEIRA, Daniel; BUENO, Samira (coord.). Atlas da Violência 2025. Brasília: Ipea; FBSP, 2025. Disponível em:<a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025"> </a><a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025">https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025</a>. Acesso em: 10 ago. 2025.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-c-g-o-eu-e-o-inconsciente-dois-escritos-sobre-psicologia-analitica-27-ed-rio-de-janeiro-vozes-2015" style="font-size:16px">JUNG, C.G. O eu e o inconsciente: dois escritos sobre psicologia analítica. 27 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2015.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Aspectos do drama contemporâneo: civilização em mudança. 5 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petropolis, RJ: Vozes, 2014, reimpressão 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: Viva sua própria vida. Ed. Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEITE, F. M. C. et al. Violência contra a mulher: caracterizando a vítima, a agressão e o autor. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, v. 7, n. 1, p. 2181-2191, 2015. Disponível em: [https://www.redalyc.org/pdf/5057/505750945029.pdf]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEVINE, P.A. O despertar do tigre: curando o trauma. 5 ed. São Paulo, Summus, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MADUREIRA, A.B.; et. al. Perfil de homens autores de violência contra mulheres detidos em flagrante: contribuições para o enfrentamento. Esc Anna Nery 2014;18(4):600-606. DOI: 10.5935/1414-8145.20140085.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">WRANGHAM, R.; PETERSON, D. O macho demoníaco: as origens da agressividade humana. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Liderança feminina</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/lideranca-feminina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Jun 2025 19:36:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mercado de Trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Liderança feminina é um tema que está em alta. E por quê? Porque as mulheres ainda ocupam poucos cargos da alta gestão, seja no Brasil ou no mundo. Grupos de pesquisas estão se debruçando em estudar as questões do trabalho feminino e as dificuldades de progressão enfrentadas pelas mulheres até os dias de hoje. [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Resumo</strong>: Liderança feminina é um tema que está em alta. E por quê? Porque as mulheres ainda ocupam poucos cargos da alta gestão, seja no Brasil ou no mundo. Grupos de pesquisas estão se debruçando em estudar as questões do trabalho feminino e as dificuldades de progressão enfrentadas pelas mulheres até os dias de hoje. Muitos símbolos são usados para representar essas barreiras, como degrau quebrado, teto de vidro, labirinto, abelha rainha, entre outros. A busca por mais justiça social perpassa muitos assuntos, e este é um deles. Mulheres são gestoras natas, se compararmos o que as mulheres fazem em sua rotina com a de grandes empresários, elas não saem perdendo em nada (planejamento, tomada de decisões, estratégias e gerenciamento de riscos etc.). Este artigo convida para uma leitura, reflexões e contribuições. Subir a montanha sozinha é mais difícil que acompanhada, não acha?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contexto-historico-e-socioeconomico" style="font-size:22px"><strong>Contexto histórico e socioeconômico</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quando pensamos na progressão de carreira e ocupação de cargos de gestão, incluindo altos cargos, a distância entre os homens e as mulheres é algo que se faz notar. A história que conhecemos foi contada pelos homens, e raramente deu destaque as conquistas femininas, legando papeis desvalorizados e invisíveis na sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>O patriarcado levou mais de 2,5 mil anos para se consolidar, é uma criação histórica formada por homens e mulheres</strong>. Os comportamentos apropriados aos sexos eram expressos em valores, costumes, leis e papeis sociais. A sexualidade das mulheres e sua capacidade reprodutiva foi modificada antes da criação da civilização ocidental. O aparecimento da agricultura no período Neolítico fomentou a troca de mulheres intertribal, não só para evitar conflitos através da consolidação das alianças pelo casamento, mas também porque sociedades com mais mulheres produziram mais filhos, que poderiam ser usados na produção e acúmulo de excedentes. As mulheres se tornaram recursos a serem adquiridos, assim como as terras, seja através do casamento ou da escravidão (Lerner, 2019, p. 261-262).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O capital destinou à mulher, numa jogada dupla, o papel de criada e amante, aquela que dá a estrutura para que os homens sejam capazes de se instalar na máquina produtiva. A jogada genial foi convencer as mulheres que isso era inato a sua natureza, o trabalho doméstico e de cuidado, e que esse é seu papel na sociedade. Assim, a “mulher de verdade” é aquela que se ocupa dessa função.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-mulheres-foram-convencidas-a-trabalhar-arduamente-e-a-entender-que-seu-trabalho-nao-e-trabalho-mas-sim-amor-e-dedicacao-a-familia-e-por-ser-assim-todo-esse-trabalho-nao-e-remunerado-visivel-ou-reconhecido" style="font-size:19px">As mulheres foram convencidas a trabalhar arduamente e a entender que seu trabalho não é trabalho, mas sim amor e dedicação à família, e, por ser assim, todo esse trabalho não é remunerado, visível ou reconhecido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Silvia Federici</strong> (2019, p. 46) menciona que podemos não servir a um homem, mas todas estamos em uma relação de servidão no que concerne ao mundo masculino como um todo. Não importa a ocupação exercida por uma mulher, as consequências do patriarcado estarão em suas costas, gerando pressões em diferentes níveis, sobrecarga de trabalho e adoecimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Em 2024, a população feminina com idade para trabalhar (14 anos ou mais) representava 51,7% das pessoas aptas ao trabalho no país. Entretanto, a taxa de participação feminina na força de trabalho era de 53,1%, ou seja, das mulheres com 14 anos ou mais de idade apenas 53,1% delas estavam inseridas no mercado de trabalho, independente do trabalho ser formal ou informal. Já a taxa de participação na força de trabalho masculina chega a 72,7% (IBGE, 2024a).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">As mulheres possuem maior taxa de desocupação (7,7%) em relação aos homens (5,3%). A desocupação para o IBGE significa que alguma medida para conseguir emprego foi tomada – representado um total de 3,7 milhões de mulheres que buscaram emprego no quarto trimestre de 2024. Outro dado que mostra o desejo das mulheres em ampliar sua participação no mercado de trabalho é a maior taxa de subocupação por insuficiência de horas trabalhadas, representando 52,4% dessa amostra de trabalhadores que consideram o número de horas trabalhadas semanalmente insuficientes (IBGE, 2024a).&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-realidade-das-mulheres-na-gestao-e-ou-na-lideranca" style="font-size:19px"><strong>Realidade das mulheres na gestão e/ou na liderança</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Estudo sobre desigualdade de gênero no Brasil, realizado pelo IBGE (2024b), levantou que em 2022, 39,3% dos cargos gerenciais eram ocupados por mulheres, com predomínio em cargos de gerência nas atividades econômicas voltadas para a <strong>saúde humana e serviço social</strong> (70% dos cargos) e <strong>educação</strong> (69,4% dos cargos). Os rendimentos das mulheres em cargos gerenciais foi 78,8% do rendimento masculino (R$6.600 em média).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entre-as-conclusoes-desse-estudo-realizado-pelo-ibge-2024b-a-maior-escolaridade-das-mulheres-ainda-nao-se-reflete-em-melhores-oportunidades-no-mercado-de-trabalho" style="font-size:19px">Entre as conclusões desse estudo realizado pelo IBGE (2024b), a maior escolaridade das mulheres ainda não se reflete em melhores oportunidades no mercado de trabalho.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O papel histórico de gênero atribuído às mulheres, como cuidadoras e responsáveis pelas suas famílias e casas, gera sobrecarga de trabalho e fatores de risco para o adoecimento. Invisível, até que alguém deixe de fazê-lo, o trabalho de cuidar é desvalorizado até quando remunerado, sendo as ocupações com piores remunerações no mercado de trabalho e, ainda assim, as profissões mais buscadas como formação superior pelas mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>É importante entendermos que a lógica do mercado de trabalho e o que se considera liderança foi escrita por homens e para homens</strong>. Os comportamentos, vestimentas, jogos de poder e decisão envolvem o mundo racional masculinizado, competitivo e narcisista. Quando uma mulher se torna executiva de uma grande empresa, a pergunta sobre a conciliação entre o trabalho e a família lhe é imposta. O mesmo não ocorre com os executivos homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Exemplos de mulheres que foram rainhas, líderes tribais, inventoras, escritoras, cientistas no passado são desproporcionalmente inferiores aos homens. Muitas dessas mulheres entregaram suas produções para serem aceitas pela sociedade da época, precisaram de um homem para referendá-la ou simplesmente tiveram suas ideias roubadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mesmo-nos-dias-de-hoje-vemos-mulheres-assumirem-liderancas-de-movimentos-em-prol-de-mais-liberdade-direitos-sociais-ou-na-luta-contra-a-violencia-e-preconceitos" style="font-size:19px">Mesmo nos dias de hoje, vemos mulheres assumirem lideranças de movimentos em prol de mais liberdade, direitos sociais ou na luta contra a violência e preconceitos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Malala Yousafizai, a mais jovem vencedora do Prêmio Nobel da Paz, símbolo da luta pelo direito à educação das meninas, sobrevivente da violência extremista do Talibã.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Maria da Penha Maia Fernandes</strong>&nbsp;lutou pela criação da lei Maria da Penha (proteção legal contra a violência). <strong>Nise da Silveira</strong> foi uma das primeiras mulheres a se formar em Medicina no Brasil, foi a única em uma turma de mais de 150 homens. Também foi pioneira na psicologia junguiana no país, bem como nas pesquisas sobre a relação emocional de pacientes com animais.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Aos 22 anos,&nbsp;<strong>Nísia Floresta</strong>&nbsp;escreveu o livro&nbsp;<em>“Direitos das mulheres e injustiça dos homens”</em>, o primeiro entre outras 14 obras publicadas pela educadora, jornalista e poetisa em defesa dos Direitos Humanos no Brasil. <strong>Antonieta de Barros</strong> (1901-1952) se tornou a terceira mulher e a&nbsp;primeira parlamentar negra a ser eleita no Brasil, em 1935. <strong>&nbsp;</strong>&nbsp;trilha o caminho do empreendedorismo desde os 12 anos de idade, quando ajudava a complementar a renda da família. Mesmo trabalhando na área de Comunicação, ela seguiu frequentando feiras de empreendedorismo, o que a motivou a criar um evento que valorizasse a cultura negra nesses espaços. Assim nasceu a&nbsp;<a href="https://www.festivalfeirapreta.com.br/">Feira Preta</a> (Fundação Lemann).&nbsp;<strong>Esses nomes são exemplos de pioneirismo, perseverança e muita luta</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-historico-de-exclusao-feminina-esta-ligado-a-diversos-fatores-como-a-divisao-sociossexual-do-trabalho-sobrecarga-domestica-e-preconceitos-institucionais" style="font-size:19px">O histórico de exclusão feminina está ligado a diversos fatores, como a divisão sociossexual do trabalho, sobrecarga doméstica e preconceitos institucionais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essas barreiras têm sido mapeadas pela literatura ao longo dos anos e diversas metáforas são utilizadas para elucidar como elas, sendo visíveis ou invisíveis, dificultam e tornam exaustiva a jornada das mulheres para ascender ao poder e a cargos de alta gestão, dentro desta lógica patriarcal, sendo alocadas em cargos de liderança, preferencialmente, em situações de crise, devido ao estereótipo e expectativas de que elas conseguem manejar a situação com suas habilidades socioemocionais. Entretanto, o que se observa na prática é que o que consideramos liderança no ambiente de trabalho é um conceito criado pelos homens, que impõe às mulheres uma necessidade de se provar duas vezes mais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jornada-para-a-lideranca-feminina" style="font-size:22px"><strong>Jornada para a liderança feminina</strong></h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-luta-por-ascensao-na-carreira-muitas-mulheres-esbarram-em-tetos-de-vidro-dificuldades-invisiveis-porem-presentes-em-sua-progressao" style="font-size:19px">Na luta por ascensão na carreira, muitas mulheres esbarram em tetos de vidro, dificuldades invisíveis, porém presentes em sua progressão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Labirintos da liderança, outro conceito usado evidencia as dificuldades e percalços enfrentados pelas mulheres, em uma jornada tortuosa até cargos com maior destaque. Tal situação não ocorre com os homens, pois estes tendem a favorecer uns aos outros. O degrau quebrado é outra metáfora utilizada. Ele impede que a mulher siga em frente. Tudo é feito para que a mulher se desmotive e não siga em frente em suas ambições. Inclusive, a cultura impõe ao feminino a ideia de sacrifício, quase análoga à escravidão ou submissão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mulheres-ambiciosas-precisam-se-disfarcar-criar-estrategias-e-entre-elas-se-associar-aos-homens-para-galgar-posicoes-mais-privilegiadas" style="font-size:19px">Mulheres ambiciosas precisam se disfarçar, criar estratégias e entre elas, se associar aos homens para galgar posições mais privilegiadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Seguindo essa ideia, outro conceito importante é o da abelha rainha, aquela cujo trono não pode ser dividido. Ao invés de ajudar outras mulheres a alcançarem o sucesso profissional, este tipo de líder apresenta um discurso de que cada um deve fazer seu caminho, afinal, ela teve que lutar tanto. A jornada feminina para a liderança é cheia de metáforas, símbolos de dificuldades e preconceitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo as Estatísticas de Gênero, produzidas pelo IBGE, as barreiras de acesso a estruturas de poder e aos processos de tomada de decisão para mulheres no Brasil crescem com a posição do cargo e idade da mulher. A título de exemplo, poucas mulheres ocuparam cargos no Supremo Tribunal Federal, órgão máximo da justiça brasileira, dos 171 ministros, apenas 3 foram mulheres e nenhuma delas era negra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Aqui estamos falando de uma imagem arquetípica importante, a do(a) líder – aquele(a) capaz de inspirar pessoas e mobilizá-las para o alcance de objetivos propostos. O(a) líder é alguém que se destaca, com boa eloquência ao falar e se portar, discurso coerente e persuasivo. O discurso corrente sobre liderança a associa a algo nato, entretanto, torna-se líder é alcançar autoridade e para isso é necessário empreender uma jornada. A liderança pode ser exercida em diferentes direções e intencionalidades, gerando impactos positivos por um lado, e negativos por outro, a depender das lentes e dos envolvidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Jironet</strong> (2012, p. 17) afirma que toda mulher é uma líder. Considerando liderança como a capacidade de pensar, se mover, sentir, interagindo conscientemente com tudo isso, enquanto faz escolhas da vida no dia a dia. Ou seja, a mulher é líder de sua vida exclusiva, seja no espaço corporativo ou em outro ambiente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jironet-2012-faz-um-paralelo-da-lideranca-com-a-jornada-pelo-purgatorio-proposta-por-dante-na-divina-comedia" style="font-size:19px">Jironet (2012) faz um paralelo da liderança com a jornada pelo purgatório proposta por Dante na Divina Comédia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo ela “a pessoa que insiste em se considerar o centro da criação nega sua natureza fundamental e rejeita sua mais profunda realidade”. Uma das questões importante para um(a) líder é manter-se consciente de seu papel e não distorcer sua autoimagem acima do real, o que Jung chama de <em>hybris</em>, símbolo do orgulho exagerado, arrogância, insolência, descomedimento ou violência. Segundo Junito (1986, p. 172), a <em>hybris</em> (violência) se opõe a Díke (justiça). “Díke e Hýbris, Justiça e Violência, uma ao lado da outra, oferecem ao homem duas opções igualmente possíveis entre as quais compete a ele escolher. A esse mundo tão contrário em que triunfará a Hýbris, restando ao homem tão-somente a anarquia, a desordem e a infelicidade”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-divina-comedia-o-purgatorio-e-uma-montanha-cercada-pelo-mar-e-e-habitado-por-aqueles-que-fazem-penitencia-depois-da-morte-para-expiar-seus-pecados-na-terra" style="font-size:19px"><strong>Na Divina Comédia, o purgatório é uma montanha cercada pelo mar e é habitado por aqueles que fazem penitência depois da morte para expiar seus pecados na Terra</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Divide-se em três partes, que representam três maneiras diferentes de abordar o amor erroneamente. Os três primeiros níveis expiam o amor pervertido ou amor que prejudica o próximo: orgulho, inveja e ira. No meio está a preguiça, ou amor defeituoso. E nos três níveis superiores, o amor excessivo a objetos secundários: avareza, gula e luxúria (JIRONET, 2012, p. 36-38).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-pelas-virtudes-em-cada-etapa-nos-libera-para-a-proxima" style="font-size:19px"><strong>A busca pelas virtudes em cada etapa nos libera para a próxima</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O anjo da humildade recebe a líder orgulhosa, o anjo da generosidade, a invejosa; o anjo da suavidade, a colérica; o anjo da diligência, a preguiçosa; o anjo da caridade, a avara; o anjo da temperança, a gulosa; e o anjo da castidade recebe a luxuriosa (JIRONET, 2012, p. 39). Cada pecado citado por Dante é uma sombra que nos habita como seres humanos, e líderes, como pessoas em destaque podem exacerbar uma ou duas delas ao longo de sua trajetória e conquistas profissionais. É importante ter discernimento para não perder se sua própria alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-dificuldades-da-jornada-de-trabalho-e-progressao-feminina-levam-muitas-mulheres-a-exacerbarem-o-animus-sua-contraparte-masculina-equiparando-se-aos-homens-em-comportamentos" style="font-size:19px">As dificuldades da jornada de trabalho e progressão feminina levam muitas mulheres a exacerbarem o <em>animus</em>, sua contraparte masculina, equiparando-se aos homens em comportamentos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Tal atitude leva a desconexão com parte de sua essência, sua feminilidade e outros projetos de vida além do trabalho. Uma persona mais agressiva pode acarretar prejuízos físicos, emocionais e psíquicos. O discurso predominante atualmente é o cansaço, o burnout (exaustão), crises de ansiedade e pânico, depressão, adoecimento, entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>As pressões externas são reflexos dos conflitos internos, e eles não são de agora</strong>. Seguindo a ideia de inconsciente coletivo que Jung propõe em sua obra, o que a sociedade vive no aqui e agora faz parte de sonhos e projeções de gerações passadas. Nossas avós viveram uma realidade em que mulheres lutavam pelo voto e por direitos básicos. Nossas mães viveram a revolução sexual, a abertura do mercado de trabalho para as mulheres, mesmo que timidamente no começo. E antes delas, muitas gerações de mulheres insatisfeitas com sua condição socioeconômica e relacional impregna as vozes das mulheres que buscam por mudanças hoje. Nós achamos que a voz é nossa, de verdade ela é partilhada, impregnada por projeções e atravessamentos de complexos inconscientes compartilhados coletivamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-novos-passos-sao-rumo-a-uma-equidade-maior-restruturacao-das-imagens-que-homens-e-mulheres-fazem-de-si-e-dessa-forma-alimentando-as-imagens-arquetipicas-do-feminino-e-masculino-certamente-estamos-em-um-periodo-de-mudancas" style="font-size:19px">Os novos passos são rumo a uma equidade maior, restruturação das imagens que homens e mulheres fazem de si, e dessa forma, alimentando as imagens arquetípicas do feminino e masculino. Certamente, estamos em um período de mudanças.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>O grande desafio é a integração das dimensões pessoal, emocional, estética, ética, existencial e espiritual da existência</strong> (JIRONET, 2012, p. 179). O alcance desse objetivo não será realizado de maneira individual, mas coletiva entre e para as mulheres, que deve incluir os homens nessa partilha de experiência, repactuação de saberes e práticas da vida cotidiana, do cuidado e combate aos preconceitos das imagens que fazemos de homens e mulheres em nossa sociedade. Políticas públicas e institucionais são necessárias, e serão fruto das ações do presente de homens e mulheres que buscam pela equidade social, equilíbrio nas relações e um novo modelo de homem e mulher a ser construído conjuntamente.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Liderança feminina&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/af-bVvXrIEo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Michella Paula Cechinel Reis – Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, J.S. Mitologia grega, volume I. Petrópolis: Vozes, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FEDERICI, S. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FUNDAÇÃO LEMANN. Cinco lideranças brasileiras que transformaram o Brasil. Disponível em: <a href="https://fundacaolemann.org.br/noticias/5-liderancas-brasileiras-que-transformaram-o-brasil">https://fundacaolemann.org.br/noticias/5-liderancas-brasileiras-que-transformaram-o-brasil</a>. Acesso em 30/03/2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024a). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua trimestral, dados do terceiro trimestre de 2024. Disponível em: <a href="https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/pnadct/tabelas">https://sidra.ibge.gov.br/pesquisa/pnadct/tabelas</a>. Acesso em 12 de janeiro de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2024b). Estatísticas de gênero: indicadores sociais das mulheres no Brasil. 3 ed. Disponível em: <a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/9ac298aaf1203418036ae00bf1272e92.pdf">https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/9ac298aaf1203418036ae00bf1272e92.pdf</a>. Acesso em 17 de dezembro de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JIRONET, K. Liderança feminina: gestão, psicologia junguiana, espiritualidade e a jornada global através do purgatório. São Paulo: Ed. Paulus, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LERNER, G. A criação do patriarcado: histórias da opressão das mulheres pelos homens. São Paulo, Cultrix, 2019.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10509" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-1-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-1-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-1.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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			</item>
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		<title>A doença do dragão</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-doenca-do-dragao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 31 Oct 2024 13:25:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O conto chamado O hobbit apresenta a saga de um grupo de anões (12 ao todo), um mago e um hobbit até a Montanha Solitária para resgatar o coração da montanha, uma joia guardada por um terrível dragão. O dragão havia expulsado os anões que habitavam a montanha devido à sua grande riqueza material, atraído [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O conto chamado <em>O hobbit</em> apresenta a saga de um grupo de anões (12 ao todo), um mago e um hobbit até a Montanha Solitária para resgatar o coração da montanha, uma joia guardada por um terrível dragão. O dragão havia expulsado os anões que habitavam a montanha devido à sua grande riqueza material, atraído pelo ouro daquele povo. Claro que esse pequeno resumo da história contém apenas alguns aspectos apresentados por <strong>J.R.R Tolken</strong>, mas nos ajuda a ilustrar o que eles chamaram na saga de a “doença do dragão” – a ganância pura, que cega indivíduos, ainda que virtuosos. Todos que se aproximam demais e são sugestionados em seus corações, sucumbem à ganância que o ouro evoca.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-sera-o-ouro-a-causa-ou-a-consequencia-do-complexo" style="font-size:20px">Mas será o ouro a causa ou a consequência do complexo?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os dragões são ambivalentes e relacionados por Chevalier e Gheerbrandt (2020, p. 408-411) ao mal, guardiões de tesouros (como a imortalidade), ao poder divino, símbolo do imperador/rei em diferentes regiões, ligado à produção da chuva e tempestades, associados ao solstício da primavera. Possuem dois aspectos:<strong> yin</strong> quando metamorfoseado em peixes ou serpentes (relacionados à água) e <strong>yang</strong> quando se identificam ao cavalo, leão, espadas, fogo e ao sol. A luta do herói e o dragão deixa transparecer o tema arquetípico do triunfo do Ego sobre as tendências regressivas. O herói precisa se fortalecer para vencer o dragão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outras-palavras-o-ego-so-pode-triunfar-depois-de-ter-dominado-e-assimilado-a-sombra" style="font-size:17px"><strong>Em outras palavras, o Ego só pode triunfar depois de ter dominado e assimilado a sombra</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de que dragões são atraídos pelo ouro e riquezas materiais são difundidas em diferentes contos, em geral, combatidos por heróis como São Jorge. Um conto de fada celta chamado <em><strong>O Dragão relutante</strong></em> (GRAHAME, p. 170-201), apresenta uma história diferente, onde o dragão deseja viver sossegado e fazer poesia, mas a sociedade na qual ele se estabeleceu tem uma imagem sobre o dragão, e chamam um herói para combatê-lo, inventam mentiras sobre donzelas em perigos, desastres, roubos, e mil artimanhas para convencer São Jorge a lutar contra ele. São Jorge conhece o dragão e com ele estabelece um acordo de luta simulada, assim ele mantém sua fama de herói e o dragão será redimido e convertido, podendo assim fazer parte da comunidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dessa-forma-querendo-ou-nao-o-dragao-precisa-ser-submetido-a-persona-que-o-compete-ironico-nao-acham" style="font-size:17px"><strong>Dessa forma, querendo ou não, o dragão precisa ser submetido à persona que o compete. Irônico, não acham</strong>?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre o símbolo dos dragões já temos algo em que nos apoiar. Agora podemos falar um pouco sobre o <strong>dinheiro</strong>. Para Simmel (1900/1907), o significado do dinheiro não reside nele mesmo, mas na sua conversão em outros valores. “Nada no mundo objetivo tem uma finalidade se não houver uma vontade” (p. 7), e a vontade acompanha uma série de reflexões, sejam elas práticas ou psíquicas. “<em>Ainda na Idade Média havia, em virtude da extensa produção para o consumo próprio, do tipo de empresa artesanal, da multiplicidade e estreiteza de suas associações e, principalmente, da igreja, havia um número bem maior de satisfações definitivas do que hoje</em>” (p. 8). “<em>O dinheiro é sentido como fim, reduzindo a meios muitas coisas que são fins em si mesmas</em>”.<strong> O dinheiro está em toda parte e mede todas as coisas com uma objetividade impiedosa, determinando suas ligações</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Magaldi nos explica que a onipresença do dinheiro transformou o homem, no contexto capitalista, em um ente com características quase divinas. O fascínio provocado pelo dinheiro induziu ao desejo de acumulá-lo. O lucro passou a ser o evangelho e a riqueza material a salvação (p. 286). Essa fala de Magaldi é interessante. A história do &#8220;Homem Rico&#8221;, em Mateus 19:16-22, Jesus convida um jovem a se juntar a ele: “Se você quer ser perfeito, vá, venda todos os seus bens e dê o dinheiro aos pobres. Então você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, quando o rapaz ouviu isso, foi embora triste, porque tinha muitos bens. Se Jesus estivesse entre nós hoje e nos convidasse para uma vida mais simples, usando sandálias nos pés, duas mudas de roupa, para que pregássemos a palavra de Deus, quantos religiosos consagrados iriam com ele? Quantos não tentariam usar sua imagem para ganhar fama, fazer posts nas mídias sociais e tirar alguma vantagem, reduzindo sua filosofia em objeto a ser adquirido e capitalizado?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ganância é uma vontade exagerada de possuir algo, principalmente bens materiais e riquezas. <strong>Precisamos discernir e diferenciar a ambição da ganância</strong>. A ambição em si não é um sentimento negativo necessariamente, mas mostra um desejo pungente por algo, seja sucesso, dinheiro, fama, conquistas etc. A ambição é um sentimento propulsor, que leva pessoas a ações e uso da criatividade. Ela em si não seria o problema, mas a sua desmedida sim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-que-o-ouro-e-o-poder-realmente-nutrem-o-ser-humano-e-diminuem-a-sensacao-de-inferioridade-e-baixa-autoestima" style="font-size:20px">Será que o ouro e o poder realmente nutrem o ser humano e diminuem a sensação de inferioridade e baixa autoestima?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se assim fosse, a sede pelas duas coisas cessaria com o tempo. Mas o que vemos, em geral, é quanto mais poder e riqueza uma pessoa alcança, maior se torna sua pulsão por eles. E faz sentido, afinal, o complexo ativado precisa de energia para manter-se nessa posição. Para romper essa jornada autodestrutiva é preciso olhar para o outro lado. O contraponto de toda essa materialidade são as coisas do espírito, a generosidade, a compaixão e o desapego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Mateus (6:21), Jesus diz: &#8220;<em>Onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração</em>.&#8221; Isso sugere que o que valorizamos reflete nossas prioridades. O que nossa alma está buscando? Nosso apego, necessidade de valorização, autoestima, reconhecimento, poder, exibição, vaidade, soberba, superioridade&#8230; <strong>o que o dinheiro representa para cada um de nós</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-2013-197-nao-ha-processos-psiquicos-que-ocorram-de-forma-isolada-assim-como-nao-existem-processos-vitais-isolados" style="font-size:18px">Segundo <strong>Jung</strong> (2013, §197) não há processos psíquicos que ocorram de forma isolada, assim como não existem processos vitais isolados.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Leonardo Boff</strong> (1999, p. 146-147) reforça essa ideia quando fala sobre o cuidado integral do ser humano como busca por equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Assim, precisamos evocar o médico (corpo), o terapeuta (mente) e o sacerdote (espírito) interno e externo, quando necessário. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-integracao-exige-encontros-com-as-partes-iluminadas-e-sombrias-de-nosso-ser-a-inveja-a-feiura-a-dor-o-desequilibrio-a-compulsao-o-odio-e-rancor-o-deboche-e-escarnio-a-ambicao-e-ganancia-estao-presentes-em-todos-nos" style="font-size:17px">E integração exige encontros com as partes iluminadas e sombrias de nosso ser. A inveja, a feiura, a dor, o desequilíbrio, a compulsão, o ódio e rancor, o deboche e escárnio, a ambição e ganância estão presentes em todos nós.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para ilustrar, trago outro conto que fala sobre a ganância. Em um reino, um moleiro, que deseja parecer mais do que é, diz ao rei que sua filha é capaz de transformar palha em ouro; o rei, muito ganancioso leva a jovem e a tranca em salas cheias de palha para serem fiadas e transformadas em ouro. Em seu desespero, ela é ajudada por um duende que troca o favor pelas posses da moça. No terceiro dia, sem ter mais nada o que oferecer ao duende para transformar a palha em ouro, ele pede que ela entregue seu primeiro filho. Ela assim o faz para não ser morta pelo rei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O rei se casa com ela após o terceiro sucesso alcançado pela filha do moleiro, achando que fez um ótimo negócio, e após um ano, o casal tem um filho. O duende retorna para cobrar a dívida da filha do moleiro, que agora é rainha. Vendo o choro da mulher, o duende se comove e dá 3 dias para que ela adivinhe seu nome. A rainha pede que procurem por todo reino os mais diferentes nomes, até que no terceiro dia, um de seus soldados escuta um duende cantarolando que iria fritar, fritar, fritar com muita empolgação, e que seu nome era Rumpelstiltskin, a rainha fala seu nome e salva a criança.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-conto-e-interessante-pois-mostra-diferentes-aspectos-da-ganancia" style="font-size:17px">Esse conto é interessante pois mostra diferentes aspectos da ganância.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O querer ser mais do que somos de verdade, como o moleiro diante do rei, entregando a própria filha ao infortúnio. Quantas vezes nos apresentamos com personas para ganhar status social, político ou familiar, mostrando faces que não são nossas. Uma atitude com ego inflado, cheio de si, em contraponto ao vazio e carência interior. Outra nuance da ganância é o desejo pela posse do material, do ouro ou daquilo que não nos pertence, como o rei ao exigir que a moça produzisse ouro usando restos de palhas, usando recursos alheios para se beneficiar em troca da própria sobrevivência. Alguns se justificam usando frases como a de Maquiavel – os fins justificam os meios – não importa como e sim alcançar a riqueza material.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quantos de nós não sacrifica tudo, inclusive a própria vida, para encher os bolsos com moedas de ouro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já o duende, personagem ambíguo, que se apieda e ao mesmo tempo se aproveita da vulnerabilidade vivenciada pela jovem. Seu desejo real era tomar a criança que a moça pudesse ter no futuro (e tudo o que isso possa simbolizar), se apropriando de algo que não lhe pertence e que não deveria ser seu. Por sorte, a jovem, em sua busca, encontra a solução para o enigma do duende, senão, teria perdido seu filho, parte dela mesma, como a esperança, o amor, a criatividade e a capacidade de renovação. Seja em que roupagem a ganância desponte em nossas vidas, ela é um aspecto sombrio com ligações profundas aos complexos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-constelacao-de-um-complexo-ocorre-de-forma-automatica-nao-temos-controle-e-nem-podemos-deter-por-vontade-propria" style="font-size:18px">A constelação de um complexo ocorre de forma automática, não temos controle e nem podemos deter por vontade própria.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É o complexo que nos toma quando estão cheios de vigor e energia psíquica, perturbando a consciência. <strong>Quando ele está ativo, ele nos coloca em um estado de não liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas</strong>. Os complexos aparecem de forma personificada, quando são reprimidos por uma consciência inibidora (JUNG, 2013, p. 196-203). A etiologia dos complexos pode ser um trauma, um choque emocional, um conflito moral que arrancou fora um pedaço da psique. São aspectos parciais da psique dissociados. <strong>A inconsciência do complexo pode inclusive assimilar o eu gerando uma identificação com o complexo </strong>(JUNG, 2013, p. 210-211).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ganancia-como-um-comportamento-desmedido-so-poderia-estar-sob-posse-de-um-ou-mais-complexos-sejam-eles-dotados-de-tonalidade-individual-ou-coletiva" style="font-size:17px">A ganância como um comportamento desmedido só poderia estar sob posse de um ou mais complexos, sejam eles dotados de tonalidade individual ou coletiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A ganância é como uma fome sem saciedade. Enquanto não reconhecemos nossa ganância e em quais aspectos de nossa vida ela se manifesta, ela permanece nas sombras influenciando nossa vida. Como na história do Hobbit, o dragão precisa ser morto, o coração da montanha devolvido, a justiça e a ética das relações restabelecidas para que tudo se estabilize no reino dos anões, humanos e elfos. E o duende Rumple nos ensina, precisamos dar o nome certo para conseguir êxito. Dar nome às coisas e assumi-las como nossa responsabilidade, especialmente naquilo que nos compete, aprendendo e integrando a sombra e reduzindo a energia fornecida ao complexo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Magaldi (2014, p. 293-294) menciona que “<em>é na tomada de conhecimento sobre o mundo, e principalmente sobre si mesmo, que está a possibilidade de cura tanto do indivíduo quanto da coletividade</em>”. É por meio do conhecimento que podemos aplacar a ganância e o trinômio: interesse, sedução e corrupção. Através de mais educação e conhecimentos, tanto para questões filosóficas quanto sobre si mesmo(a), podemos rever os rumos que o mundo vem tomando. O(A) ganancioso(a) tem um grande potencial para as coisas do espírito. Portanto, é preciso tomar cuidado para não resvalar no polo oposto e estacionar nele de forma compensatória.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sem-a-integracao-do-belo-bom-e-verdadeiro-com-conscientizacao-de-nossas-sombras-fica-complicado-rever-nossa-relacao-com-o-dinheiro-e-o-sagrado-e-seguir-pelo-caminho-da-individuacao" style="font-size:17px"><strong>Sem a integração do belo, bom e verdadeiro, com conscientização de nossas sombras fica complicado rever nossa relação com o dinheiro e o sagrado, e seguir pelo caminho da individuação.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“De nada vale a manutenção tecnológica da vida, ou acúmulo de dinheiro, sem a relação com o sagrado, porque sem ele continuaremos no barro, apesar da aparente saúde. Sem a união da conquista do prazer com ética e ciência, continuaremos dominados e lutando contra as nossas neuroses&#8221;. (MAGALDI, p. 292, 2012)</em></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A doença do dragão&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/c3P43IE8cfQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Me. Michella Paula Cechinel Reis &#8211; Membro analista em formação pelo IJEP &#8211; Brasília</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Analista didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BIBLIA DE ESTUDO ALMEIDA. Barueri, SP: Sociedade bíblica do Brasil, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOFF, Leonardo. <em>Saber cuidar</em>: ética do humano, compaixão pela terra. 10 ed. Petropolis, RJ: Vozes, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHEVALIER, J.; GEERBRANDT, A. <em>Dicionário dos símbolos</em>: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores e números. 34 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRAHAME, K. <em>O dragão relutante</em>. In: Os melhores contos de fadas celtas. São Caetano do Sul, SP: Wish, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>A natureza da psique</em>: a dinâmica do inconsciente. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes,&nbsp; 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SIMMEL, G. <em>A filosofia do dinheiro</em> (1900/1907). In: material didático para a disciplina Sociologia IV – Prof. Leopoldo Waizbort. Disponível em: chrome-extension://efaidnbmnnnibpcajpcglclefindmkaj/https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/109250/mod_resource/content/1/Filosofia%20do%20dinheiro.pdf. Acessado em 29 de setembro de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
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		<title>Mula sem cabeça: uma interdição ao feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mula-sem-cabeca-uma-interdicao-ao-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Jun 2024 18:19:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[#feminino]]></category>
		<category><![CDATA[#genero]]></category>
		<category><![CDATA[#mulher]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9141</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo faz uso do conto da Mula-sem-cabeça, que trata sobre a maldição ou interdição da sexualidade feminina. O contexto da Mula é religioso, a concubina do padre católico, contudo, os aspectos simbólicos podem ser ampliados para todas as mulheres, que há milhares de anos tem sua vida controlada pela força do patriarcado, independente do credo religioso, idade, origem etc. A moralidade judaico-cristã carimba a vivência do prazer como algo vergonhoso e sombrio. A culpa, o medo, a repressão, os desejos não ditos vão se acumulando a muitas gerações. A transformação da mulher em mula é singular entre os contos femininos que versam essa temática ao redor do mundo e seu descontrole e agressividade, podem ser entendidos como respostas a opressão. Ressignificar a sexualidade e o prazer são chaves importantes para o desenvolvimento integral das mulheres. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O folclore brasileiro é rico de histórias sombrias. Segundo <strong>Cascudo </strong>(2023), os Tupis amavam gastar as primeiras horas da noite evocando e contando histórias para as crianças indígenas. O autor menciona que ao longo de seu levantamento dos mitos brasileiros, especialmente das Regiões Norte e Nordeste, observa-se o entroncamento cultural entre os indígenas, os brancos europeus e os negros africanos, e seus descendentes mestiços, tão comuns no Brasil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-delas-me-chama-a-atencao-desde-crianca-e-a-mula-sem-cabeca" style="font-size:21px">Uma delas me chama a atenção desde criança é a <strong>mula sem cabeça</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Assistindo recentemente um seriado brasileiro chamado “Cidade Invisível”, que mostra as entidades folclóricas numa trama de suspense, a mula aparece pegando fogo. Era uma mulher maravilhosa que traiu o marido com um padre. Eles se apaixonaram e queriam ficar juntos, mas por ter se relacionado com um homem religioso e representante de Deus na Terra, foi amaldiçoada. O interessante é que o padre não sofre absolutamente nada, afinal, esse conto não é sobre a sexualidade masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falando-se em sexualidade, é importante defini-la de forma mais ampla, em seus aspectos biopsicossociais e espirituais, onde temos no biológico, apenas um desses aspectos e não o mais importante para a completude e satisfação do indivíduo. Sempre cercada de muita dor e sofrimento em razão do seu ocultamento e negação pela sociedade, principalmente pela formação judaico-cristã, onde sempre pairou essa atmosfera de pecado e de preconceito em torno do assunto. Arrisco a afirmar que grande parte das lendas relacionados ao sexo e à sexualidade, estão relacionadas a todos os mitos, crendices e tabus sexuais relacionados à época, visto que até hoje, esse assunto é sempre dotado de muito preconceito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-camara-cascudo-a-mula-sem-cabeca-e-o-castigo-da-concubina-do-padre-catolico" style="font-size:17px">Segundo Câmara Cascudo, a Mula-sem-cabeça é o castigo da concubina do padre católico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na noite de quinta para sexta-feira, ela muda seu corpo para mula, correndo com espantosa rapidez até o terceiro cantar do galo. Seus cascos afiados dão coices que ferem como navalhas, despedaça homens e animais em seu caminho. Para desencantá-la é preciso enfrentá-la e tirar o freio de ferro. Quando morre, a alma amaldiçoada fica a<ins> </ins>penar sobre a terra, apresentando-se como uma assombração horrível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mula-sem-cabeca-e-uma-lenda-que-surgiu-na-peninsula-iberica-trazida-para-a-america-latina-durante-o-periodo-colonial-pelos-portugueses-e-espanhois" style="font-size:17px">A <strong>mula sem cabeça </strong>é uma lenda que surgiu na Península Ibérica, trazida para a América Latina durante o período colonial, pelos portugueses e espanhóis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Corre toda a América, desde o México (malora) até a Argentina (mula anima). Na África, os mitos sobre transformação de mulheres em animais ocorre por fundamentos religiosos (culpa). Na Ásia e na Austrália há mitos de mulheres mais velhas que se transformam em lobas, tigres e panteras. Contudo, apenas a transformação da mulher em Mula está relacionada a sexualidade. Acredita-se atualmente que ela fazia parte de um esforço para reforçar os valores morais da época, com o objetivo de impedir que mulheres mantivessem relações sexuais antes do casamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As atitudes de silêncio sobre o sexo, apesar da febre de pesquisa científica que surgiu após os anos 50, segundo <strong>Costa Moacir</strong> (1986, p.44), resultam dos tabus e preconceitos herdados dos séculos passados, em que as religiões determinavam toda a linha de conduta humana e a moral sexual alienante, pautada pelo rigor de suas normas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os homens possuíam a “obrigação” de iniciar sexualmente as mulheres; por sua vez, essas mulheres deviam a &#8220;obrigação&#8221; de se casarem virgens para esses homens. Essa “norma” arcaica e milenar, paira até os dias atuais em determinadas religiões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim se passaram dois longos séculos, onde reprimia-se tudo relacionado ao sexo e à sexualidade. E, como nas sábias palavras de Foucault (2022), eram “<em>injunção ao silêncio, afirmação de inexistência</em>”. Essa sombra de preconceito e “falsa” moral cristã sobre o sexo, vivenciamos até hoje, inclusive sobre as pesquisas que ainda são incipientes sobre o tema.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-voltando-a-mula-resultante-de-um-cruzamento-entre-dois-animais-de-diferentes-especies-jumento-e-egua-em-geral-e-um-animal-esteril" style="font-size:19px">Voltando à mula, resultante de um cruzamento entre dois animais de diferentes espécies (jumento e égua), em geral, é um animal estéril.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Chevalier &amp; Gheerbrant (2020, p. 254), cavalos podem ser associados às trevas do mundo ctoniano, são filhos da noite e do mistério, sendo nesses casos ligados ao fogo e a água. O cavalo é montaria, veículo, nave e seu destino é, portanto, inseparável do destino do homem. O asno ou jumento é um símbolo da ignorância, obscuridade e até tendências satânicas. Em diferentes culturas, o cavalo pode ser usado como montaria de Deuses maléficos (Índia), de imortais (China), besta ou entidade maléfica (Egito), relacionados a Jesus em sua entrada em Jerusalém. Também pode simbolizar satã, sexo, libido, elemento instintivo no homem, sensualidade e materialidade (CHEVALIER &amp; GHEERBRANT, 2020, p. 140-141). Por sua vez, as <strong>mulas</strong> eram frequentemente utilizadas pelos padres para sua locomoção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mula era um animal muito utilizado para transporte de carga, devido sua força e resistência física, um animal usado para o trabalho. Em diversas regiões e períodos do Brasil, o transporte da produção interna ocorria no lombo de mulas, bois e vacas. Interessante que a mula, importante animal no período colonial, era considerada profana, por sua origem mestiça, um animal inferior. O preconceito em relação a miscigenação entre raças não se relaciona apenas aos animais, mas também em relação às pessoas. Ainda hoje existem barreiras étnicas importantes em todo mundo, mas vamos deixar esse assunto para outro momento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-interessante-e-que-a-mula-perde-sua-razao-torna-se-agressiva-e-desenfreada" style="font-size:20px">Interessante é que a mula perde sua razão, torna-se agressiva e desenfreada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quantas interdições aos seus instintos e percepções podem ser experimentadas? E as disfuncionalidades ligadas à vergonha, culpa, sentimento de inadequação, raiva, ressentimento e inferiorização? Ao falar do papel sexual da mulher na história, é  importante lembrar &#8211; trazendo as sábias palavras de Simone de Beavouir &#8211; que “as mulheres não nascem mulheres, elas são feitas mulheres”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E os homens não nascem homens, eles são feitos homens e são educados para se impor e conquistar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Gabeira (1986, P.11), é preciso fixar que existe uma política sexual e que as relações entre duas pessoas, ainda que envolvidas pelo manto das relações afetivas e do amor, ainda que chamadas de relações amorosas, são, na realidade, relações de poder, onde predomina o exercício do domínio de um sobre o outro, o que corrobora o pensamento de JUNG (2019, p. 65). Onde impera o amor, não existe vontade de poder, e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade do poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-qualls-corbett-1990-p-38-relata-que-em-matriarcados-antigos-natureza-e-fertilidade-consistiam-no-amago-da-existencia" style="font-size:19px"><strong>Qualls-Corbett</strong> (1990, p. 38) relata que em matriarcados antigos, natureza e fertilidade consistiam no âmago da existência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas viviam próximas à natureza e suas divindades comandavam o destino, proporcionando ou negando a abundância à terra. Em seus louvores de agradecimento, eles ofereciam o ato sexual à deusa, reverenciada pelo amor e pela paixão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em registros históricos de mais de 7 mil anos, existiam as prostitutas sagradas, sacerdotisas dedicadas a deusa Vênus ou Afrodite. As mulheres eram iniciadas sexualmente antes de se casarem nesses templos. Assim, no ritual do casamento sagrado, elas tinham a oportunidade de explorar o desconhecido, sua feminilidade e sexualidade. As prostitutas sagradas, também chamadas de Virgens Vestais, tornavam-se noivas em rituais de matrimônio com o rei, representando um deus. Elas tinham privilégios econômicos, mais independência do masculino e seus filhos eram respeitados. O contrário das prostitutas chamadas de profanas, que eram consideradas e ainda o são até hoje, párias da sociedade (Cf QUALLS-CORBETT, 1990).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-matriarcal-ou-matrilinear-evoluiu-para-o-sistema-patriarcal-ou-patrilinear" style="font-size:19px">Essa estrutura matriarcal ou matrilinear evoluiu para o sistema patriarcal ou patrilinear.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O comércio, as guerras e a expansão decorrente se tornaram o foco, os padrões predominantes fragmentaram-se e novas estruturas surgiram. Muitas linhas explicativas para esse fenômeno são discutidas, uma delas foi a percepção errônea dos homens em relação a reprodução. Acreditavam que eles eram os geradores e que o corpo feminino apenas nutria a criança em seu ventre, portanto, a autoridade e direito dos pais eram absolutos, substituindo a descendência matrilinear pela patrilinear. Essa mudança da perspectiva leva a desvalorização da mulher na sociedade e repactuação social, gerando novos costumes (Cf QUALLS-CORBETT, 1990).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, a preocupação com a virgindade da mulher antes do casamento era crucial para o homem garantir sua linhagem e transferência de seus bens ou patrimônio a seus descendentes. Os homens dominaram as mulheres para garantir a suposta ordem das coisas. A mulher tornou-se Eva, aquela que cai em tentação e impõe à humanidade o pecado original. A religião e os valores morais impactaram sobremaneira as relações. O prazer era visto com maus olhos, afinal, sexo era destinado à procriação. E essa era a função social das mulheres, procriar os filhos dos homens (dentro do casamento, é claro!).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-harding-1985-p-27-e-31-as-ideias-como-o-mito-dos-primitivos-formam-a-base-dos-sentimentos-e-estado-de-espirito-do-homem-contemporaneo" style="font-size:19px">Segundo <strong>Harding</strong> (1985, p. 27 e 31), as ideias, como o mito dos primitivos, formam a base dos sentimentos e estado de espírito do homem contemporâneo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A vida de hoje é vazia e estéril, procuramos a renovação, queiramos ou não, na fonte do despertar espiritual que existe em nosso interior. E em especial, estamos insatisfeitos com o caráter e qualidade de nossos relacionamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje em dia, o sucesso ou fracasso da vida de uma mulher não está mais atrelado ao casamento, outras nuances são levadas em consideração, como o trabalho e estudo, demandas do mundo objetivo exterior. Os impactos dessa nova realidade geram muitos conflitos e ansiedades. Agora não basta ser esposa e mãe, precisamos ser bem-sucedidas em todos os aspectos, recaindo muitas vezes em polarizações e uma carga de trabalho muito superior à dos homens. Para dar conta de tudo isso, as mulheres desenvolvem seu lado masculino (<em>animus</em>).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Essa mudança de caráter, que acompanha essa evolução, não existe só na parte profissional da vida de uma mulher, mas afeta a sua personalidade inteira, e tem causado mudanças profundas na sua relação consigo mesma e com os outros” (HARDING, 1985, p. 34-35).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher da atualidade quando encontra a mula sem cabeça dentro de si mesma, estará em conflito com sua sexualidade e sua capacidade criativa, correndo e incendiando tudo em seu caminho. Sabemos que os complexos são afetos que ganham tanta energia, que nos tomam de assalto e nos deixam amarrados ao seu enredo. Quando uma mulher se sente inferiorizada pelo masculino, julgada pela família ou comunidade, sem poder sobre seu corpo, abre caminho para que essa energia ctônica e avassaladora surja e ganhe espaço em seus sentimentos e pensamentos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mudancas-importantes-ocorreram-no-seculo-xx-em-relacao-a-sexualidade-feminina-principalmente-apos-o-advento-da-pilula-anticoncepcional" style="font-size:18px">Mudanças importantes ocorreram no século XX em relação a sexualidade feminina, principalmente após o advento da pílula anticoncepcional.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Criada nos Estados Unidos na década de 1960, houve muitas controvérsias na época em relação ao uso indiscriminado pelas mulheres, seus efeitos colaterais e os impactos socioeconômicos, como o controle de natalidade. Desde então, o sexo não fica atrelado apenas a ideia de procriação, mas também ao prazer, abrindo caminhos novos para o feminino em sua luta por seus direitos, dentre eles, o direito de exercer sua feminilidade e sexualidade de forma livre e segura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-e-os-instintos-fazem-parte-da-vida-cotidiana-assim-como-a-vida-psiquica" style="font-size:19px">O corpo e os instintos fazem parte da vida cotidiana, assim como a vida psíquica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando algo incomoda a psique haverá reflexos na vida diária do indivíduo, por sintomas ou situações repetidas, alertando que algo precisa ser ressignificado. Segundo Jung (2012, p. 26), certos complexos só estão destacados da consciência porque preferiram se destacar dela, mediante repressão. Outros complexos nunca estiveram na consciência, mas são capazes de brotar do inconsciente com suas convicções e impulsos estranhos e imutáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em relação ao processo de individuação, cerne da psicologia junguiana, podemos afirmar que a sexualidade constitui um dos palcos possíveis para essa experiência, devido à sua grande sombra na humanidade, onde ainda quaisquer aspectos do indivíduo relacionados ao tema, causa estranheza e críticas na esfera social, onde está contida toda essa “sombra’. De acordo com Craig (1998, p.129), claro que não estamos dizendo que a pessoa precisa deixar-se inundar por fantasias de um Marquês de Sade, nem que ela deva viver essas fantasias. Significa, antes, que as fantasias desse tipo podem ser entendidas como a expressão simbólica de um processo de individuação que está se desdobrando no território dos deuses sexuais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ficar-em-paz-com-essa-sombra-seria-a-oportunidade-de-vivenciar-situacoes-fantasiosas-que-so-existem-em-suas-memorias" style="font-size:18px">Ficar em paz com essa sombra seria a oportunidade de vivenciar situações fantasiosas que só existem em suas memórias.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia seria vivenciá-las com seus parceiros(as) e tirá-las do terreno mental das culpas e dos sofrimentos. Ora, fantasias sexuais não combinam com casamentos religiosos e pudicos, onde apenas predominam manifestações do sexo-reprodução. O sexo-prazer nesse contexto é vivenciado fora de casa, com profissionais do sexo. Onde uma parte dessa fantasia sexual seria a sensação de dominação no pagamento de uma mulher/homem, objeto de seus desejos para a satisfação de suas fantasias e vivenciar essa sombra sem culpa e sem dor, distante do “leito nupcial”, como bem cita Foucault (2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sexualidade infelizmente, ainda é &#8220;demonizada&#8221; nos nossos dias. Fracassaram todas as tentativas de torná-la totalmente inofensiva e de apresentá-la como algo &#8220;completamente natural&#8221;. Para o homem moderno, algumas formas de sexualidade continuam a ter aspecto mau, pecador e sinistro, todavia, continuamos a lutar por melhores dias quando paramos para escrever um artigo como esse ou mesmo quando ampliamos nossas visões e discussões sobre o assunto, apesar de todas as críticas e movimentos sombrios contrários que possam advir. Duelar com sombras ancestrais nunca foi fácil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alguns-movimentos-de-liberacao-feminina-tentam-entender-a-sexualidade-como-uma-arma-politica-usada-pelos-homens-para-oprimir-as-mulheres" style="font-size:20px">Alguns movimentos de liberação feminina tentam entender a sexualidade como uma arma política usada pelos homens para oprimir as mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, essas mulheres &#8220;demonizam&#8221; a sexualidade e, ao mesmo tempo, deixam implícito que essa sexualidade poderia tornar-se inofensiva através da reversão dos papéis masculino e feminino, mas para isso ainda teríamos que galgar inúmeras outras esferas de revolução sexual e de preconceito social e nesse sentido, onde ficaria o processo de individuação?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O elemento demoníaco da sexualidade (CRAIG, 1998, p.121) talvez se mostre no fato de que é muito difícil experimentar e aceitar a atividade sexual apenas como “prazer” ou como uma experiência agradável. Poucas pessoas conseguem “simplesmente desfrutar” a sexualidade, como desfrutariam uma boa refeição. Essa negação da sombra e da energia sexual traz como elementos para aceitação pelo self, os sintomas e em consequência disso, temos na clínica, variados distúrbios de natureza sexual, frutos dessa não aceitação à vivência da sexualidade saudável (integração de aspectos de luz e sombra).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Craig (1998, p.122), a sexualidade oferece-nos símbolos para todos os aspectos da individuação. O confronto com a sombra leva aos destrutivos componentes sadomasoquistas do erotismo. O confronto com a nossa própria alma, com a <em>anima</em>/<em>animus</em>, com o feminino/masculino, pode ter uma forma sexual. O amor por si mesmo e o amor pelos outros são experimentados corporalmente na sexualidade, seja através de fantasias ou de atividades.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-nenhum-outro-lugar-a-uniao-de-todos-os-opostos-a-unio-mystica-o-mysterium-coniunctionis-expressa-se-de-modo-mais-impressionante-que-na-linguagem-do-erotismo" style="font-size:17px">Em nenhum outro lugar a união de todos os opostos, a <em>unio mystica</em>, o <em>mysterium coniunctionis</em>, expressa-se de modo mais impressionante que na linguagem do erotismo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, apesar de todas as mudanças em relação a vivência da sexualidade pelas mulheres da atualidade, as imagens arquetípicas podem ser acessadas pelas mulheres durante suas vidas, como a santa, a mãe, a prostituta, a mulher, a bruxa, a mula sem cabeça, entre outros. Os contos e mitos representam imagens arquetípicas importantes, presentes no inconsciente coletivo e em geral, provocam algum tipo de desconforto. Ressignificação da jornada do feminino, seu encontro com sua essência que foi afastada por maldições, preconceitos, costumes e regras morais, fazem parte do reencontro com essa energia fabulosa, divina, criativa e cheia de sabedoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mula sem cabeça nos remete as interdições feitas ao feminino e às mulheres, ainda hoje presentes na sociedade. Não é um lugar distante! Conversar sobre o assunto nos abre caminhos, reflexões e saberes a serem construídos conjuntamente. Amar e respeitar a nós mesmas e validar nossa jornada, pode ajudar a mula sem cabeça aplacar seu descontentamento, rompendo a maldição. Com amorosidade somos capazes de tirar o freio que a aprisiona essa força, acolhendo-a em nós e encontrar nosso caminho rumo a nossa singularidade e individuação.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;Mula sem cabeça: uma interdição ao feminino&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/-qdi1Vxz_Oo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Me. Michella Paula Cechinel Reis &#8211; Membro analista em formação IJEP, Brasília</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Mula sem cabeça: uma interdição ao feminino" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/eHq_afFv9lc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Ferreira Alves &#8211; Membro analista em formação IJEP, Brasília</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href=".https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E</strong>.<strong> Simone Magaldi &#8211; Analista didata IJEP, São Paulo</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">CASCUDO, Luís Câmara da. <em>Geografia dos mitos brasileiros</em>. São Paulo: Global Editora, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">CHEVALIER &amp; GHEERBRANT. <em>Dicionário dos símbolos</em>: mitos, sonhos, costumes, gestos, forma, figuras, cores e números. 34 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">COSTA, R.P., GAIARSA, J.A., COSTA, M., GABEIRA, F., et. al. <em>Macho, masculino, homem</em>. 3 ed. São Paulo, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">FOUCAULT, M. <em>História da sexualidade</em>: a vontade de saber. 13 ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">GUGGENBÜHL-CRAIG, ADOLF. <em>O lado demoníaco da sexualidade</em>. [A. do livro] C. Zweig e J. (orgs) Abrahms. Ao Encontro da Sombra. São Paulo: Cultrix 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">HARDING, M.E. <em>Os mistérios da mulher antiga e contemporânea</em>: uma interpretação psicológica do princípio feminino, tal como é retratado nos mitos, na história e nos sonhos. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C.G. <em>Psicologia e religião</em>: psicologia e religião ocidental e oriental. 11 ed. Petropolis, RJ: Ed. Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C.G. <em>Psicologia do inconsciente</em>. 24 ed. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">QUALLS-CORBETT, N. <em>A prostituta sagrada</em>: a face eterna do feminino. São Paulo: Ed. Paulus, 1990.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



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		<title>Mitos sobre o envelhecimento feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/envelhecimento-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Nov 2023 14:07:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
		<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Envelhecimento e morte são temas tabus, com cargas diferenciadas na sociedade ocidental, deixando de lado a riqueza dessa etapa da vida e o quanto podemos aprender com ela. Falar sobre os tabus da sociedade é uma forma saudável de nos melhorar como pessoas. Os mitos são fontes para simbolizarmos e ampliarmos questões psíquicas importantes. O presente artigo traz mitos relacionados ao envelhecer e reflexões sobre novas perspectivas para essa fase. Carl Gustav Jung nos fala que o entardecer da vida é uma fase mais reflexiva, com maior introspecção e contato com conteúdos internos, sejam memórias ou aquilo que desejamos e ainda não vivemos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo traz mitos relacionados ao envelhecimento e reflexões sobre novas perspectivas para essa fase. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“A grande clareza e percepção, o grande amor que tem magnitude, o grande autoconhecimento que tem profundidade e amplitude, a expansão da aplicação refinada da sabedoria&#8230; tudo isso é obra em andamento, não importa quantos anos de vida a mulher tenha acumulado” (ESTÉS, 2007)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo a Organização Mundial de Saúde (2022), o&nbsp;envelhecimento saudável&nbsp;é um processo contínuo de otimização da habilidade funcional e de oportunidades para manter e melhorar a saúde física e mental, promovendo independência e qualidade de vida. Estima-se que em 2030, 1 a cada 6 pessoas terá 60 anos ou mais de idade. O envelhecimento vem atrelado a muitas intervenções, medicalização, altos custos, redução da qualidade de vida, doenças crônicas &#8211; aspectos considerados negativos. Saindo dessa abordagem tão egóica, a velhice é a fase da vida que nos possibilita nos reencontrar com aspectos que foram negligenciados devido as atribulações da vida, momento que já acumulamos muitas experiências e que nos permite nos aproximar mais do Self, ir ao encontro da nossa individuação e espiritualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O envelhecer é uma conquista da humanidade, e é reflexo de mudanças tecnológicas, ampliação de conhecimentos, políticas públicas voltadas para redução de doenças infecto parasitárias. Isso nos levou à redução da mortalidade por patologias e ao aumento da expectativa de vida, que chegou &nbsp;a 77 anos em 2021, segundo o IBGE (2023). Em paralelo, a redução do número de crianças, com a queda da fecundidade feminina, aumenta o processo de envelhecimento das sociedades em boa parte dos países do mundo. Será que estamos preparados? Será que o envelhecer de agora é o mesmo de antes ou será o mesmo no futuro?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Le Breton</strong> (2013) questiona em seu livro “<strong>Adeus ao corpo</strong>” sobre a relação que nossa sociedade estabelece com o corpo. Ele nos fala que os humanos têm uma fantasia de que abolindo o corpo, substituindo por uma máquina mais eficiente, seremos capazes de lutar contra a morte. <strong>ZIEGLER</strong> (2012, p. 27-28) menciona que “apesar de toda a vitalidade da vida, não podemos ignorar pelo menos uma quantidade mínima de decomposição inevitável. A natureza garante a morte, pois somos programados geneticamente para ter um fim”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-contos-de-fadas-o-feminino-mais-amadurecido-aparece-de-diferentes-formas-desde-a-fada-madrinha-a-bruxa-a-madrasta">Nos contos de fadas, o feminino mais amadurecido aparece de diferentes formas, desde a fada madrinha, a bruxa, a madrasta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mas existe algo em comum entre elas, uma força numinosa, com certo mistério, medo, admiração; uma alma mais independente na história</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos<strong> contos nórdicos e celtas</strong>, é muito comum a figura de uma <strong>velha sábia, feiticeira </strong>ou<strong> bruxa</strong> ajudar o herói em sua busca, normalmente em troca da gentileza do jovem para com ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Estés</strong> (2014, p. 41-44), apresenta o mito da <strong>La loba</strong> ou a <strong>Mulher Que Sabe</strong>. Ela é um símbolo da velha, ligado ao mundo mais sombrio e instintivo, se conecta a função do feminino de descobrir e cantar o hino da criação, realizado de forma solitária, no deserto da psique. Essa história é interessante e nos conecta com um feminino diferente da <strong>Grande Mãe</strong>, da <strong>Criança Divina</strong>, da <strong>Feiticeira, da Virgem, da Jovem, da Guerreira-heroína</strong> ou da <strong>Boba</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela se relaciona ao instinto feminino e a memória arquivada das intenções femininas. <strong>La Loba</strong> é um arquétipo ligado ao terreno psíquico mais enraizado e ao funcionamento do sistema imunológico. O que nos leva a crer que dependendo da relação psíquica com esse arquétipo, doenças imunológicas podem surgir. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um conto Russo, <strong>Estés</strong> (2014, p. 96) relaciona a <strong>intuição</strong> (tesouro da psique feminina) à <strong>velha sábia</strong>, ou seja, que nos diz exatamente qual o problema e que caminho tomar. O conto da <strong>Vasalisa</strong> fala sobre a iniciação da mulher. E para ocorrer a iniciação, a jovem Vasalisa precisa encontrar a Baba Yaga, uma bruxa muito temida (muito citada em diferentes contos de fadas, como João e Maria, por exemplo). Baba Yaga fala para a menina que Saber demais envelhece as pessoas antes do tempo. Graças a intuição herdada de mãe para filha, Vasalisa consegue receber o fogo da Velha Mãe Selvagem, para que volte a aquecer sua casa interior. &nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-jornada-a-primeira-fase-e-deixar-a-mae-boa-demais-morrer-ou-seja-tornar-se-alerta-sozinha-e-desenvolver-a-propria-conscientizacao" style="font-size:20px">Nessa jornada, a primeira fase é deixar a mãe-boa-demais morrer, ou seja, tornar-se alerta sozinha e desenvolver a própria conscientização.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na segunda parte, os aspectos sombrios precisam ser aprendidos (aspectos exploradores, ciumentos e rejeitadores do Self), são as falas internas: <strong>Você não sabe fazer isso, você não é boa nisso ou você é tola</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Baba Yaga representa um sentimento numinoso em relação ao poder intuitivo, o mistério, e para seguir a jornada, Vasalisa precisa confiar em seus instintos mais profundos e encarar a Megera Selvagem. Baba Yaga representa o poder da aniquilação e o poder da força da vida ao mesmo tempo. Vasalisa sobrevive a esse encontro demonstrando respeito diante de um poder extremo. Baba Yaga é uma mulher selvagem, disfarçada de bruxa em nossa psique. O termo<em> witch </em>em inglês deriva de wit, que significa sábio. Essa é uma parte importante do feminino que nos afasta da persona da mulher boazinha demais (ESTÉS, 2014, p. 98-112).</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mito da <strong>Deusa Tríplice</strong>, as três facetas são compostas por Deméter (a mãe terra), por Hécate (deusa do mundo inferior ou subterrâneo) e por Perséfone &#8211; que transita entre os dois mundos, como um elo entre eles. Deméter é uma deusa mais amadurecida e se relaciona ao plantio do milho e as estações do ano, representando as forças naturais que se expandem na superfície da Terra. Hécate costuma ser representada como uma bruxa assombrosa, a personificação dos horrores do inferno. Contudo, ela é a guardiã do Mundo Inferior e a única com poder sobre os três reinos &#8211; o céu, o mar e a Terra (MCLEAN, 2020, p. 65-75). <strong>Ela é uma mediadora entre a luz e a sombra, assim como a Baba Yaga</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Essa percepção da figura de Hécate foi particularmente consolidada na psique ocidental durante o período medieval, quando a Igreja organizada projetou esse arquétipo em simplórias pessoas pagãs do campo que seguiam seus antigos costumes e habilidades populares ligados com a fertilidade.”</p>
<cite> (MCLEAN, 2020, pág. 77)</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-mundo-dual-a-perseguicao-ao-feminino-no-periodo-medieval-representou-o-temor-de-uma-deusa-triplice-de-um-feminino-mais-independente-em-relacao-ao-masculino" style="font-size:21px">Num mundo dual, a perseguição ao feminino no período medieval, representou o temor de uma deusa tríplice, de um feminino mais independente em relação ao masculino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O povo <strong>Nambikwara</strong> possui um mito intitulado “<strong>A pele nova da mulher velha</strong>” (MUNDURUKU, 2004, p. 23-25). Nesse mito havia uma mulher muito velha (estima-se 165 anos) e todos se afastavam dela devido a sua velhice. Um dia ela teve um sonho de que poderia rejuvenescer usando colares, pulseiras, brincos, pintada com cores do urucum e do jenipapo, e até mesmo um cocar. Para produzi-lo, pediu ajuda de um jovem que passou a noite em sua casa para buscar penas para o cocar. Ao colocar todos os apetrechos, ela tirou sua pele velha e rejuvenesceu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, a pele ficou pendurada próxima ao rio e algumas crianças começaram a brincar e jogar flexas na pele pendurada. Ela viu e ficou desesperada com o estrago em sua pele velha e castigou os meninos, que ficaram velhinhos e morreram. Ela vestiu em seguida a pele velha e morreu também. Ninguém da aldeia quis chegar perto de seu corpo e uma cobra a velou, e por sua generosidade, a cobra ganhou a capacidade de mudar de pele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mito reforça a ideia de que <strong>a velhice assusta</strong>, afastando as pessoas e gerando isolamento. O isolamento social costuma ser um fator de risco importante na terceira idade, com tendência a depressão e mesmo decrepitude pela falta de convívio com outras pessoas. A pessoa na terceira idade precisa de suporte biopsicossocial da família e amigos e o isolamento só maximiza os problemas enfrentados nessa fase. &nbsp;O medo do contágio das doenças é presente em nossa sociedade, um sentimento construído ao longo dos milênios, quando isolava-se os doentes dos sãos, com o objetivo de evitar o alastramento das doenças infecciosas, que incidiam mais no passado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa visão de que a velhice é uma doença, algo que assusta, nos remete a nossa própria finitude, como um espelho de que a vida corpórea tem um fim. Contudo, o conto nos mostra que a capacidade de trocar de pele é nossa capacidade de renovação, deixar morrer aspectos internos e externos que concluíram seu ciclo, que nos pede contato com a sabedoria, com o velho/a sábio/a que existe em nós e pode nos conduzir nesse processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Chopra </strong>(1994, pág. 76-77) questiona as crenças sobre o envelhecimento e relata que estudos realizados por gerontologistas mostraram que pessoas que permanecem ativas a vida toda, inclusive acima dos 70 anos, faz cessar a perda de músculo e tecidos ósseos. A crença de que podemos envelhecer de forma mais saudável e ativa pode modificar nossa relação com nosso corpo, e de forma inconsciente absorve essa nova forma de pensar e de viver o envelhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As ideias de Chopra podem ser relacionadas aos estudos em epigenética, que observam como as ligações químicas de longa duração que regulam nossos genes respondem ao ambiente, à alimentação, aos poluentes que somos expostos, as interações sociais, e por que não, às nossas crenças. Essa interação entre os genes e o meio mostram que a carga genética não nos define unicamente, mas a nossa interação com o mundo sim, pode ativar ou desligar genes, inclusive aqueles relacionados a manutenção da saúde e prevenção de doenças (Francis, 2015, pág. 9).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-mulheres-com-40-e-50-anos-e-ate-mais-nao-se-identificam-com-o-rotulo-social-de-mulheres-de-meia-idade-que-supostamente-as-identificaria" style="font-size:20px">As mulheres com 40 e 50 anos (e até mais) não se identificam com o rótulo social de “mulheres de meia idade”, que supostamente as identificaria.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na plenitude de sua vida, se recusam a serem definidas pela sua idade, incluindo um novo conceito de <em>ageless</em>, por serem inclassificáveis. Essa perda da força da importância do rótulo social vinculado à idade, as mantém motivadas, interessadas e com projetos de vida (Pereira &amp; Jaeger, 2018). Quando se fala em velhice, o cinza e preto estão associados, contudo, somos uma paleta extensa de cores e luz, não podemos nos ater a monocromia e a preconceitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O amadurecimento vem seguido pela velhice, e depois ao encerramento do ciclo, a morte do corpo que nos habitou. O que ocorre após a nossa morte é um grande mistério, e como tudo que não conhecemos nos amedronta em primeira mão. É natural que o final do ciclo da vida venha com um peso. Por isso, muitos se agarram com afinco à ideia da juventude. Ser jovem é um estado de espírito, uma conexão com nossa criança interior, que nos leva para a criatividade, curiosidade em relação ao mundo, a conexão com inconsciente, ao desejo por novos projetos, ao movimento e a circulação de energia. Jung (2014, pág. 180) nos fala que a criança não é apenas um ser do começo, mas também um ser do fim. O ser do começo existiu antes do homem e o ser do fim, continua depois dele. A criança simboliza a essência humana pré-consciente (primeira infância) e a vida pós-consciente (vida além da morte).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos uma voz instintiva, inconsciente, que se recusa a ser silenciada. Alguma coisa nega adaptar-se às exigências do ego. Se não for ouvida e atendida, a própria vida pode estar correndo risco. O anseio espiritual, ou se torna amigo do ego e com ele comunga as benesses da vida, ou se torna mais bélico que um inimigo e desfecha um contra-ataque contra a vida. Em algum momento temos que decidir que lado tomar, nos unir aos demônios e lutar contra os deuses, ou ajustar nossos valores conscientes para entrar em harmonia com as exigências divinas (WOODMAN, 2002, p. 28). Ou seja, quando decidimos ir contra os deuses, eles se tornam doenças que podem mesmo nos levar à morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diversos contos de fadas e mitos falam sobre a juventude eterna: a pedra filosofal que daria vida eterna com seu elixir; o santo graal, quem bebesse dele poderia viver eternamente; vampiros que sugam o sangue de outras pessoas para se manterem “vivos”; bruxas que matam crianças para se manterem jovens e belas: fontes da vida, quem bebesse de suas águas seria imortal; anéis de poder que prolongam a vida; magia negra com rituais macabros e pactos com o diabo. Em geral, a imortalidade tem um preço a ser pago, seja a vida de outras pessoas, a perda da fertilidade, a sanidade mental ou a entrega da alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-conexao-com-o-sagrado-talvez-assuste-a-muitos-pois-entramos-em-campo-desconhecido-que-se-aproxima-de-questoes-metafisicas-que-muitos-preferem-passar-toda-vida-sem-entrar-em-contato" style="font-size:19px">A conexão com o sagrado talvez assuste a muitos, pois entramos em campo desconhecido, que se aproxima de questões metafísicas que muitos preferem passar toda vida sem entrar em contato.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O ditado &#8211; “A ignorância é uma benção” &#8211; relaciona-se ao confortável e fácil. Isso é bem verdade, viver na inconsciência, junto ao rebanho exige menos do ser humano. Tornar-se consciente demanda esforço, confrontos com o misterioso e sombrio em nós, gera incômodo. Entrar em contato com a Baba Yaga, com Hécate e com Sofia pode dar arrepios na nuca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elas vão te olhar nos olhos com profundidade de quem sabe das coisas, e seremos como Inana descendo aos infernos. Elas nos querem nuas, sem adornos, vestimentas, personas, até chegarmos ao vazio, ao caos e a morte. De lá, vamos precisar de nossos instintos adormecidos para sermos capazes de discernir o que é bom para nós, ter forças para decidir que vida queremos e transcender, alcançando um novo lugar, com novas vestes e em contato com outras energias psíquicas.&nbsp; </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: Mitos sobre o envelhecimento feminino" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/8jVyRKrI_VM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Michella Paula Cechinel Reis</a></strong> – Mestre e Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>E. Simone Magaldi</strong> </a>-Doutora e Membro Didata do IJEP</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (c). <em>Tábuas completas de mortalidade</em>. Disponivel em: <a href="https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=73097">https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=73097</a>. Acessado em: 14 de fevereiro de 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHOPRA, D. <em>Corpo sem idade, mente sem fronteiras</em>: a alternativa quântica para o envelhecimento. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, C.P. <em>Mulheres que correm com os lobos</em>: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, C.P. <em>A ciranda das mulheres sábias</em>: ser jovem enquanto velha, velha enquanto jovem. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANCIS, R.C. <em>Epigenética</em>: como a ciência está revolucionando o que sabemos sobre hereditariedade. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>A natureza da psique</em>: a dinâmica do inconsciente. 10 ed. Petrópolis, Vozes, 2013-a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11 ed. Petrópolis, Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LE BRETON, D. <em>Adeus ao corpo</em>: antropologia e sociedade. 6 ed. Campinas, SP: Papirus, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MCLEAN, A. <em>A deusa tríplice</em>: em busca do feminino arquetípico. 2 ed. São Paulo: Ed. Pensamento Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MUNDURUKU, D. <em>Contos indígenas brasileiros</em>. 2 ed. São Paulo: Global, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E. <em>A Grande Mãe</em>: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente. 5 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PEREIRA, B.S.; JAEGER, A.A. <em>Mulheres que desafiam o envelhecimento e o questionamento dos estereótipos de gênero</em>. Seminário Corpo, Gênero e Sexualidade. Rio Grande do Sul: Ed. Da FURG, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WHO, Organização Panamericana de Saúde. <em>Envelhecimento saudável</em>. Disponível em: https://www.paho.org/pt/envelhecimento-saudavel.Acessado em 01 de outubro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WOODMAN, M. <em>O vício da perfeição</em>: compreendendo a relação entre distúrbios alimentares e desenvolvimento psíquico. São Paulo: Summus Editorial, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZIEGLER, A.J. <em>Medicina arquetípica</em>. São Paulo: Paulus, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>
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		<title>Reflexões sobre o Amadurecimento Feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/amadurecimento-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Sep 2023 12:17:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Epigenética]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
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		<category><![CDATA[#mulher]]></category>
		<category><![CDATA[#puella]]></category>
		<category><![CDATA[#saúde]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo trás reflexões sobre algumas dificuldades encontradas pelas mulheres no seu processo de amadurecimento.<br />
As mudanças corporais são visíveis diante do espelho, como rugas, melasma, flacidez, perda de colágeno e massa muscular, além de desgaste nas articulações e coluna, osteoporose, menopausa, queda da vitalidade, entre outros.<br />
As mudanças também ocorrem no mundo interno e somos<br />
convidadas a olhar aspectos mais inconscientes, guardados nas sombras. O que antes cabia como personas e atitudes, talvez já não caiba mais nessa etapa o que traz reflexões sobre o futuro.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/amadurecimento-feminino/">Reflexões sobre o Amadurecimento Feminino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Como amadurecer de modo saudável?</em> </strong>A imagem pessoal e corporal é construída desde antes de nascermos, quando estamos imersos no inconsciente materno. Jung nos fala que <strong>não nascemos como uma página em branco</strong>, como muitos pensam, e faz sentido sua fala quando olhamos para os reflexos e instintos já existentes no bebê desde seu nascimento. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Soma-se a isso estudos em epigenética que vão ao encontro da teoria junguiana e falam sobre a influência do meio sobre a genética humana. Os genes que nos constituem podem ser ligados ou desligados conforme as circunstâncias e a nossa necessidade de adaptação, o que nos leva a pensar que o envelhecimento também pode ser modificado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung em suas obras fala sobre a <strong>metanoia</strong>, que seria o entardecer da vida, quando cruzamos o pico de nossas vidas e começamos uma curva descendente, em rumo ao envelhecimento e a morte. Complexos estão atuando nessa fase da vida, que chamamos de segunda metade, e que tem se tornado cada vez mais tardia com o prolongamento da expectativa de vida. <strong>A meia vida que ocorria aos 35 anos, hoje ocorre entre 40 e 45 anos.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-amadurecimento-da-mulher">Amadurecimento da mulher</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O amadurecer para mulher representa o cessar do período reprodutivo chamado<strong> menopausa</strong>, promovendo muitas alterações físicas e psíquicas, com diversos sintomas, como calores ou fogachos, alterações bruscas de humor, melancolia, alterações hormonais que levam a ressecamentos do corpo e mucosas, perda acentuada de massa muscular, aumento do risco cardiovascular e assim por diante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na realidade, o amadurecimento, processo natural da vida biológica, pode ser encarado de maneiras muito distintas. Desde a aceitação e aprendizado até uma paralisação em comportamentos infantilizados (complexo de <em>puella</em>)*.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhando simbolicamente os hormônios produzidos pelas mulheres, podemos depreender que o comportamento mais maternal pode ser relacionado à progesterona, o comportamento mais sensual com o estrogênio e o comportamento testosterônico mais sexual. Muitas mulheres que na juventude tinham um padrão de comportamento mais sensual, podem buscar na metanoia um padrão mais maternal; e vice-versa. É um período de mudança de paradigmas, revisão de comportamentos e vivências; com grande possibilidade de guinadas de vida, em diferentes aspectos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-envelhecimento-x-sonho-de-imortalidade">Envelhecimento x Sonho de imortalidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um grande volume de produtos com objetivo de retardar o envelhecimento aquecem o mercado: cosméticos anti-idade, massagens, procedimentos, polivitamínicos, tratamentos hormonais, intervenções cirúrgicas e estéticas, entre outros. E ao final, quem lucra mais? As companhias e profissionais de saúde, ou aqueles que se endividam para consumir um <strong>sonho de se tornar imortal</strong>. Observamos um enfoque no combate ao envelhecimento como algo que precisa ser derrotado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chopra (1994, p. 10) questiona o paradigma do envelhecimento criado pela humanidade. O amadurecer é vivenciado de acordo com a crença coletiva que nos condiciona. Se acreditamos que envelhecer é sinônimo de adoecimento e decrepitude, essa será a vivência que teremos. Entretanto, corpo e alma são parte do mesmo ser, um proporciona as relações objetivas com o mundo, e o outro proporciona vivências subjetivas, como os pensamentos, sentimentos e desejos. Se mudarmos nossa percepção, mudaremos nossa experiência com o corpo e com o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A maturidade pode vir associada ao adoecimento físico e psíquico, embora não haja idade para isso. O que ocorre é o aumento ou predisposição ao adoecimento em decorrência das relações estabelecidas com o mundo externo (trabalho, comportamento social, familiar, autocuidado, influências do meio ambiente etc.), e com o mundo interno (desenvolvimento intelectual, cultural, psíquico e emocional).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-corpo-fisico-e-envelhecimento">Corpo físico e envelhecimento</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A nível celular, as coisas que nos trouxeram sofrimentos ou alegrias estão presentes. E mesmo situações estressantes, que já foram esquecidas, deixam marcas e reações, que constituem o que somos (CHOPRA, 1994, p. 24).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Ramos</strong>: “a doença orgânica é uma reação do organismo, uma compensação, com a finalidade de levar o indivíduo a integrar o reprimido, religar o ego ao seu eixo com o Self”  (2018, p. 73). Por seu turno, conforme  <strong>Dahlke</strong> : “os sintomas são manifestações da sombra muito acessíveis devido ao fato de terem emergido das profundezas da alma para a superfície do mundo corpóreo, tornando-se assim excepcionais indicadores do caminho da perfeição.” (2007, p. 19)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo, a sombra constitui-se de conteúdos inconscientes que muitas vezes não queremos olhar, e quando somatizamos esses conteúdos em nossos corpos, ocorre uma espécie de desvio de energia, pois ficamos presos às dificuldades físicas e poupamos a energia necessária para aproximarmo-nos da sombra em questão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em resumo, o adoecimento entra em nossa jornada para nos ajustar, trazer oportunidades de aprendizado, mas não descartamos os resultados das práticas de saúde incorporadas durante a vida, como exercícios físicos, alimentação equilibrada e regularidade de sono.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-autocuidado-e-essencial-para-termos-uma-boa-saude-o-processo-de-amadurecer">O autocuidado é essencial para termos uma boa saúde: o processo de amadurecer</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se acreditamos que a vida não vale muito, é pesada, um sacrifício, o corpo entenderá o recado e pode trazer retorno às crenças que possuímos. Se acreditamos que a vida deve ser vivida, com alegria e leveza, a energia psíquica se apresenta de outra forma. Crenças e valores auxiliam na construção ou desconstrução que eu possa vir a experienciar, se considerar que somos energia e informação, como as pesquisas em física quântica vem evidenciando. A epigenética é uma área em franco crescimento, que estuda as influências externas ao ambiente celular e genético. A modulação gênica é complexa e influenciada pelo meio e a forma que vivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Georg Grodeck </strong>apud<strong> Dahlke</strong> (2007, p. 292): “<em>a torrente de comprimidos coloridos que serve de prevenção à cinzenta velhice hoje em dia mostra que a medicina moderna concebe os sinais de velhice como sintomas de uma doença digna de ser combatida</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante essa unilateralidade da nossa época, com fixação na juventude e, ao mesmo tempo, com envelhecimento de boa parte dos países. Os impactos desse envelhecimento populacional em termos socioeconômicos podem ser metrificados. Contudo, <strong>os impactos no inconsciente não podem ser medidos de forma direta, mas sentidos pelo consciente como afetos ou incômodos, intuições, sonhos ou sentimentos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coletivamente, nas sociedades ocidentais, o que se propaga sobre a mulher mais madura? Podemos resumir em uma palavra: perfeição. <strong>A mulher madura precisa se manter jovem e atraente, ser bem-sucedida, independente, ter filhos bem-educados, um marido e u</strong>ma <strong>casa, um corpo atlético, andar muito bem</strong> <strong>vestida e ser reconhecida pela comunidade</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Será que essa é a busca para todas as mulheres? Ou podemos ter chamados diferentes? Poderíamos dizer que é exigido que a mulher madura atinja o ápice de uma heroína, a <strong>mulher maravilha</strong>, que luta incansavelmente sem quebrar nenhuma unha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sintomas-que-surgem-no-amadurecimento-feminino">Sintomas que surgem no Amadurecimento Feminino</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, desejar é uma coisa, obter é outra. Alguns sintomas podem surgir com o avanço da idade, como a osteoporose ou descalcificação dos ossos. É como se o próprio corpo pedisse um outro ritmo de vida, com mudança de enfoque. O aparecimento de barba (pelos no rosto das mulheres) após a menopausa pode ser um sinal de que precisamos dar atenção ao polo masculino. Com a queda dos hormônios femininos, aspectos masculinos podem vir à tona, indicando que o animus deve se realizar em planos mais sutis, como o espiritual, por exemplo (DAHLKE, 2007).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outros sintomas físicos podem ser vivenciados com o amadurecimento. Simbolizando essa necessidade premente de conexão com o mundo interno, como a presbiopia, o desgaste das articulações do corpo, a surdez e a mudança da pele (Melasma, rugas e flacidez). O mal de Alzheimer, com incidência entre 50 e 60 anos, acomete principalmente as mulheres. E por fim, a crise da meia-idade, muito comum, reflete um desacerto ou descompasso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No momento em que a pessoa deveria harmonizar sua criança interna com a sabedoria alcançada ao longo da vida, o que vemos com certa frequência é uma regressão ou infantilidade. Uma recusa por visualizar outras camadas, mais sutis, interiores – as sombras e luzes ignoradas até o momento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-autocuidado-e-busca-de-sentido-no-envelhecimento-sadio">Autocuidado e busca de Sentido no envelhecimento sadio</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Reitero que o objetivo desse artigo não é estimular o desleixo e falta de cuidado com o corpo e com a saúde. Ao contrário disso, nós mulheres podemos envelhecer sim, com dignidade, respeito aos nossos limites e desejos, com autocuidado, amorosidade e aceitação. É importante vivermos com saúde e bem-estar físico, financeiro, psíquico e espiritual. Entretanto, podemos encontrar espaços para reflexões sobre as exigências feitas pela sociedade de consumo vigente ou feitas por nós mesmas. O que estamos nos impondo? É algo realmente nosso ou vem de fora, de um lugar mais coletivo? E para quê ou para quem? Estamos felizes assim?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>James Hollis</strong> (1995) trata da busca de sentido para a vida e das transformações pelas quais somos levados nessa fase (a famosa crise dos quarenta). As projeções em relacionamentos com o outro perdem força e podemos entrar em contato com conteúdos inconscientes, num convite para a conexão com o Si Mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A meia idade é um período de muitas mudanças – físicas, psíquicas, na vida profissional ou nos relacionamentos. Mas, acima de tudo, é uma fase de amadurecimento e que podemos nos questionar sobre o que foi vivido até ali, e a quem pertence, pois muitas de nós vive a vida não vivida dos pais, compensando questões familiares.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-e-o-meio-da-vida">Jung e o meio da vida</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (2013, p. 351), fala que ao nos aproximarmos do meio da existência, com atitudes pessoais e posição social mais estabelecidas, cresce em nós o sentimento de haver descoberto o verdadeiro curso da vida, princípios e ideais de comportamento, o que nos leva a ficar presos a eles.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sao-muitos-os-aspectos-da-vida-que-poderiam-ser-vividos-e-jazem-depositados-nas-sombras-do-inconsciente">São muitos os aspectos da vida que poderiam ser vividos e jazem depositados nas sombras do inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mas ao atingirmos o ponto mais alto de nossa vida, entramos em outro movimento, de descida, e os princípios que antes faziam sentido, podem começar a endurecer, levando ao fanatismo, intolerância, ou a sensação de insegurança. É muito comum a projeção em ameaças externas nessa fase, afastando o indivíduo de olhar os conteúdos que estão pedindo licença para emergir.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-large is-style-modern has-small-font-size"><blockquote><p>“Todos os distúrbios neuróticos da idade adulta têm em comum o fato de quererem prolongar a psicologia da fase juvenil para além do limiar da idade do siso.”</p><cite><em>JUNG, 2013, p. 352</em></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Ele menciona que entramos totalmente despreparados na segunda metade da vida, com a falsa suposição que nossas verdades e ideais continuarão como antes. Não podemos viver a tarde de nossa vida com a programação da manhã” (JUNG, 2013, p. 355).</p>



<p class="wp-block-paragraph">E nesse momento, o que chamamos de<strong> crise da meia idade</strong> vem à tona. É, em suma, um chamado para o contato com o mundo interno, para olhar outras questões, como a espiritualidade, os potenciais criativos deixados de lado. Esse período de transformação do meio da vida, Jung chamou de metanoia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-pela-eterna-juventude">A busca pela eterna juventude</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O conto da <strong>Branca de Neve</strong> representa bem essa ideia de resistência ao amadurecimento. A madrasta, que chega na meia idade, fica rivalizando com a enteada jovem e bonita (Branca de Neve), competindo com sua juventude. Sua dificuldade em aceitar as mudanças vindas com o tempo fica evidente nos diálogos que ela tem com o espelho, ou sua imagem. E a trama mostra que a projeção na enteada, fruto de sua insatisfação consigo mesma, leva a um caminho desastroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A desconexão do eixo ego-self e o medo do envelhecimento a paralisa em um comportamento, o complexo de <em>puella </em>ganha força, uma obsessividade em matar a jovem donzela externa ao invés de deixar morrer as demandas da primeira fase da vida, impedindo-a de viver com leveza e plenitude seu processo de amadurecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto que clama por atenção é a identificação com o masculino. Ao longo da vida, muitas mulheres se afastaram do feminino mais profundo, lidando com as questões da rotina, se identificando com a energia do pai ou masculina. Essa energia mais masculina normalmente é exigida pelo mundo do trabalho e fazem sentido quando estamos construindo nossas vidas. Contudo, depois dos 40 anos estamos mais estabelecidas e uma sensação de ausência ou vazio começa a despontar. Essa fase convida para reconexão com as forças da grande Mãe, como fonte de energia, possibilidades, criatividade, viabilizando novos projetos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-arquetipo-da-meia-idade">O arquétipo da meia-idade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Brewi &amp; Brennan (2004, p. 10-11), a meia-idade é tão arquetípica como a gestação, a crise da adolescência, a transição e a morte. As três perspectivas arquetípicas da espiritualidade na meia-idade compõem-se de: a <strong>Sombra</strong>, a <strong>Criança</strong> e a <strong>Sabedoria</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Sombra representa as experiências não vividas ou desconhecidas, ora assustadoras, ora estimulantes. É um momento de confronto entre a vida não vivida por nós e aquela que de fato aconteceu. A Criança nos lembra de nossa capacidade de admiração e contemplação: é a Sábia Mulher Velha em potencial. A conexão com a criança divina proporciona leveza, humor e flexibilidade. Por final,a Sabedoria nos permite lidar com as ambiguidades e paradoxos em busca de unidade e integração das dualidades. A Sabedoria é nossa capacidade de discernimento e compreensão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-etapas-de-transicao">Etapas de transição</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso ciclo humano é constituído de nascimentos e mortes. A transição da meia-idade não é somente uma movimentação da juventude para a meia-idade. Ela é a retirada da energia psíquica de tarefas, objetivos e valores que eram importantes na primeira metade da vida. Essa etapa nos chama para uma jornada interna, para a aventura de integração de conteúdos inconscientes da psique com a consciência. O processo de integração e completude deve fluir na segunda metade da vida, nos preparando para o processo de morte e nosso quarto e último nascimento. O nascimento em direção à vida eterna (Brewi &amp; Brenan, 2004, p. 41-42).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher que consegue superar as etapas da jornada, se reconectando com o feminino, olhando para suas sombras e acolhendo-as, se aproxima de Sofia ou a sabedoria. E Sofia nos mostra que temos o sagrado e profano em nós, somos paradoxais, e com essa consciência, seremos capazes de escolher o que faz sentido dali para frente, e aquilo que já pode ser deixado de lado. O processo de autoconhecimento é contínuo, havendo a possibilidade de alcançarmos outros patamares do estado de consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>E a cada mergulho e retomada que somos capazes de fazer, um novo conteúdo pode ser adicionado ou revisitado. Essa é a beleza da vida, a eterna capacidade de crescimento humano, seja individualmente, seja de forma coletiva.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Michella Paula Cechinel Reis</a> &#8211; Mestre e analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Ercília Simone Magaldi</a> – Doutora e membro didata do IJEP</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Reflexões sobre o Amadurecimento Feminino" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/V2LC6oLouPs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><a>Referências</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BREWI, J.; BRENNAN, A. <em>Arquétipos junguianos</em>: a espiritualidade na meia-idade. São Paulo: Ed. Madras, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHOPRA, D. Corpo sem idade, mente sem fronteiras: a alternativa quântica para o envelhecimento. Tradução Haroldo Netto. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DAHLKE, R. <em>A doença como linguagem da alma</em>: os sintomas como oportunidades de desenvolvimento. São Paulo, Cultrix, 2007, pág. 292-317.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A passagem do meio</em>: da miséria ao significado da meia idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>A natureza da psique</em>: a dinâmica do inconsciente. 10 ed. Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAMOS, D.G. <em>A psique do corpo</em>: a dimensão simbólica da doença. 6 ed. São Paulo: Sumus, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Saúde e espiritualidade: um olhar mais integrativo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jun 2023 12:15:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[religião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Segundo Jung, quando a espiritualidade não é integrada na vida do indivíduo, torna-se um aspecto sombrio e inconsciente, podendo gerar doenças. Em seu livro “O Segredo da Flor de Ouro”, ele reforça essa ideia mencionando que os deuses se tornaram doenças. Hoje somos ansiosos, deprimidos, estressados, tensos etc. A Organização Mundial de Saúde e diversos estudos recomendam que a espiritualidade é uma dimensão importante para qualidade de vida e saúde, além se ajudar o ser humano a aceitar diagnóstico e no enfrentamento de doenças. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Em 1988, a Organização Mundial de Saúde (OMS), incluiu a dimensão espiritual no conceito multidimensional de saúde, remetendo a questões como significado e sentido da vida, e não se limitando a qualquer tipo específico de crença ou prática religiosa (Oliveira &amp; Junges, 2012). Esse Deus, mistério tremendo, tem a característica inalienável de ser o totalmente <strong><u>Outro</u></strong>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando eu O sinto, ou experiencio, não fica dúvida de seu caráter sagrado e distinto de mim mesmo. Essa experiência é sempre transformadora e não há linguagem ou ciência capaz de defini-la, no entanto, é capaz de verdadeiros milagres (Jung apud W. Magaldi, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo S. Magaldi (2010, pág. 85-86), os alimentos anímicos são, mesmo na modernidade, essenciais à saúde física-psíquica e social de todos nós. Pois, ao negarmos o “outro lado da vida”, corremos sérios riscos de sermos tomados por entidades que habitam em nossa sombra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-espirito-e-ciencia">Espírito e Ciência</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A divisão entre o espírito e a ciência ocorreu ao longo de vários séculos, desde Nicolau Copérnico em 1543, com sua teoria heliocêntrica, contrariando a cosmologia pregada pela Igreja Católica, a Descartes no século XVII, que nega a influência da mente sobre o corpo, base para o modelo biomédico atual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claro que não estou restringindo a ideia de espírito à mente. Contudo, a mente é a ponte entre o espírito e o mundo. Mente e corpo são dois lados de uma mesma moeda, mas quem coordena ambos é a psique. Portanto, a saúde psíquica é base importante para a saúde em todos os outros âmbitos vividos, inclusive as vivências espirituais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Segundo Jung, o corpo seria tão metafísico quanto o espírito, pois a experiência psíquica seria a única experiência imediata para o ser humano</strong> (1935).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Incorporando essa multidimensionalidade e complexidade do processo saúde-doença à ideia de que a psique está à frente de tudo isso, ou seja, ela comanda de forma consciente e inconsciente a forma como nos relacionamos com o mundo interno e externo. Isso reforça a importância da espiritualidade, como uma das dimensões básicas de nossa vivência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-espiritualidade-e-uma-das-dimensoes-vivenciadas-nao-pode-ser-negligenciada">A espiritualidade é uma das dimensões vivenciadas, não pode ser negligenciada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Jung</strong> nos fala que “<strong>onde Deus não é reconhecido aparece a mania egocêntrica, e desta provém a doença</strong>” (2013, pág. 51).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Como já mencionamos, o espiritual é vivenciado de forma mais abstrata, é a psique que torna essa experiência valiosa e real ao ser humano. A repressão dessa espiritualidade a remete ao inconsciente, tornando-se um aspecto sombrio e tudo que vai por esse caminho, quando se expressa, não vem de forma gentil e elaborada. Muitos dentre os primeiros deuses passaram de pessoas a ideias personificadas e, finalmente, a ideias abstratas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns dos velhos deuses tornaram-se meras qualidades, como marcial, jovial, saturnino, erótico, lógico, lunático, etc. A dessacralização de nossa época tão profana é devido ao desconhecimento da psique inconsciente e ao culto exclusivo da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa verdadeira religião é o monoteísmo da consciência, que nega os sistemas parciais autônomos. Contudo, os sistemas autônomos atuam independente de nossa vontade, pois o inconsciente não é afetado pelas oscilações de uma consciência efêmera (Jung, 2013, págs. 48-50). Ainda somos possuídos pelos conteúdos psíquicos autônomos como se estes fossem deuses.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Somos tomados pelas fobias, obsessões, angústias, depressões, ansiedade, pânico, entre outros</strong>. Os deuses tornaram-se doenças (Jung, 2013, pág. 50). Logo, os deuses se tornaram sintomas ou doenças em geral, reflexos da constelação de complexos autônomos, que atuam independente da vontade do indivíduo, relacionados àquilo que nos afeta e nos possuí.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-inconsciente-e-consciente">Inconsciente e consciente</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais poderosa e independente se torna a consciência, tanto mais o inconsciente é empurrado para o fundo&#8230; Alcançando a liberdade, poderá romper as cadeias da pura instintividade e chegar a uma situação de atrofia do instinto, ou mesmo oposição a ele. Esta consciência desenraizada, que não pode mais apelar para a autoridade das imagens primordiais, acede a uma liberdade prometeica ou <em>hybris</em> sem Deus (Jung, 2013, pág. 29). Podemos chamar essa situação de uma unilateralidade ou monoteísmo da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa unilateralidade leva o ser humano ao conflito, angústia, extravio, atrofia dos instintos, nervosismo, desorientação e um emaranhado de problemas e situações. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, no livro <strong>Segredo da Flor de Ouro</strong>, <strong>Jung</strong> menciona que não há problemas insolúveis, mas a capacidade de superação vai variar conforme o indivíduo, especialmente, quando as experiências se associam a elevação do nível de consciência (2013, pág. 31). De modo que a forma como compreendemos os eventos e aprendemos com eles podem impactar na capacidade de lidar com as situações e angústias que atravessam nosso caminho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-meio-do-caminho-tinha-uma-pedra">No meio do caminho tinha uma pedra</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O poema de <strong>Carlos Drumond de Andrade</strong> mostra de forma simbólica, que as pedras ou desafios de nossa vida, podem atrapalhar nossa jornada, torná-la cansativa e exigem esforço para superar os obstáculos. “<strong>No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho/tinha uma pedra/no meio do caminho tinha uma pedra</strong>”. Quantas pedras conseguimos contornar e quantas carregamos conosco, trazendo adoecimento físico, emocional e espiritual?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diversos estudos científicos já buscam estudar essa relação entre a saúde e a espiritualidade/religiosidade, mostrando uma mudança no paradigma saúde-doença. Segundo Stroppa &amp; Moreira-Almeida (2008) apud Melo (2015), maiores níveis de envolvimento religioso estão associados positivamente com indicadores que contribuem para o bem-estar psicológico, como felicidade, satisfação com a vida, afeto positivo e moral elevado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-medicina-e-espiritualidade">Medicina e espiritualidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os profissionais da equipe de assistência em cuidados paliativos referem ser positiva a influência que a espiritualidade e a religiosidade exercem na saúde dos pacientes. E consideram pertinente a abordagem desta temática na prática clínica &#8211; apesar de não se sentirem aptos a isto. Segundo a Faculdade de Medicina da UFMG, estima-se em torno de 14% das escolas médicas dispõe da discussão entre <strong>medicina e espiritualidade</strong> de forma prática, legalizada, através de disciplinas na graduação, optativas ou obrigatórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Das diversas formas de acesso à essência espiritual do homem, a religiosidade surge como um importante constructo no atual contexto sociocultural brasileiro. Este estudo trouxe à baila a evidência dos elevados índices de religiosidade dos profissionais avaliados, o que pode favorecer a uma maior elaboração da própria espiritualidade destes sujeitos, facilitando a identificação das necessidades espirituais e/ou religiosas dos seus pacientes (Ferreira et.al., 2015). O que ressalta a importância da vivência espiritual dos profissionais de saúde para melhor entender as demandas de seus clientes. <strong>Não entregamos ao outro aquilo que não temos</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-saude-e-espiritualidade">Saúde e espiritualidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com uma pesquisa, realizada por especialistas da <strong>Escola de Saúde Pública de Harvard e Brigham and Women&#8217;s Hospital</strong>, a espiritualidade deve ser incorporada ao cuidado tanto da doença grave quanto da saúde geral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>espiritualidade</strong> é definida como “<em>a maneira como os indivíduos buscam o significado final, propósito, conexão, valor ou transcendência”, de acordo com a Conferência Internacional de Consenso sobre Cuidados Espirituais na Saúde (<strong>Balboni</strong> et. al., 2022).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eles observaram que, para pessoas saudáveis, a participação na comunidade espiritual está associada a vidas mais saudáveis, incluindo maior longevidade, menos depressão e suicídio e menos uso de substâncias. Para muitos pacientes, a espiritualidade é importante e influencia os principais resultados da doença, como qualidade de vida e decisões de cuidados médicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As implicações do consenso incluíram a incorporação de considerações de espiritualidade como parte dos cuidados de saúde centrados no paciente e o aumento da conscientização entre médicos e profissionais de saúde sobre os benefícios protetores da participação da comunidade espiritual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-espiritualidade-e-religiosidade"><strong>Espiritualidade e religiosidade</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Estudo realizado pela Escola de Saúde Pública de Boston com pessoas de 50 anos ou mais, relacionaram os impactos na saúde e o senso de propósito. Os resultados mostraram que pessoas com senso de propósito possuem menores riscos de morte (% risco de mortalidade de 15,2%) em comparação com o grupo com menor senso de propósito (% risco de mortalidade de 36,5%).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Ferreira</strong> et.al. (2020), a espiritualidade e religiosidade podem servir de auxílio para lidar com o câncer. A busca pela espiritualidade pode ocorrer após o diagnóstico da doença, em busca de sentido para a vida; ou já estar presente desde antes do diagnóstico, e ser fonte de força e esperança frente ao diagnóstico e durante o tratamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma outra forma de olhar para os acontecimentos da vida, incluindo a questões de saúde, são as crenças em um carma, muito comum no oriente e em religiões reencarnacionistas. Acredita-se que as dificuldades estão relacionadas a vidas passadas, para ajustar a roda do carma e saldar os créditos ou descréditos dessa balança.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-julgamento-por-osiris">Julgamento por Osíris</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso me remete ao julgamento realizado pelo Deus <strong>Osíris</strong>, no antigo Egito. Quando uma pessoa falecia tinha seu coração pesado em sua balança, caso fosse mais leve que uma pluma, ela recebia a aprovação. Caso contrário, o indivíduo não poderia entrar no <strong>Duat</strong> (submundo dos mortos), e sua cabeça era devorada por um deus com cabeça de crocodilo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Amatuzzi</strong> (2000) propôs em sua pesquisa, etapas para o desenvolvimento religioso ao longo da vida, desde o nascimento até a morte. Sua proposta mostra analogia ao desenvolvimento da personalidade de Jung.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-espiritualidade-da-crianca-e-vivenciada-de-forma-mais-inconsciente-sob-a-egide-dos-pais">A espiritualidade da criança é vivenciada de forma mais inconsciente sob a égide dos pais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com a adolescência começa o processo de diferenciação e início de reflexões sobre o tema. Até chegarmos ao meio do caminho, quando a espiritualidade ganha mais importância visto a busca de sentido e ressignificação de vida, marcante nesse período. Já na velhice e proximidade da morte, a espiritualidade se integra a vida, auxiliando na aceitação do limite da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E o que está por trás do adoecimento, seja ele físico, psíquico ou espiritual?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Campos</strong> (2007) apud Silva (2021) coloca que a demanda por cuidado revela, em princípio, uma vulnerabilidade ou carência que pode não ser consciente. <strong>O</strong> <strong>que o sujeito quer não é necessariamente ser cuidado de sua doença através de remédios, exames ou cirurgias, mas antes, ser olhado, tocado, escutado.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-disso-o-que-e-cura">Diante disso: o que é cura?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um ser humano busca por ajuda, o que chega ali não é apenas um diagnóstico médico, mas dores da alma. São pessoas que carregam sofrimentos frutos das experiências de vida: violências, abandonos, fragilidades no casamento, filhos envolvidos com drogas, vergonha, angústia, solidão, medo de julgamentos e assim por diante. Será que a busca é por uma cura física ou busca-se a cura da alma, da angústia e sofrimento?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>W. Magaldi</strong> (2009) menciona que o que reduziu drasticamente a mortalidade de jovens e adultos produtivos não foram as descobertas da indústria médica, mas o investimento em segurança profissional, que por sua vez, depende de investimentos na educação. A Saúde Pública fala em prevenção de doenças através de hábitos saudáveis, contudo, a população precisa de um ambiente favorável, seja no trabalho ou em casa, ter boa mobilidade diária, uma habitação decente, acesso a serviços e a educação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A saúde é um conceito amplo, com diferentes níveis de complexidade, tanto internos quanto externos às pessoas</strong>. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-que-a-doenca-fisica-e-apenas-fisica-ou-ela-e-reflexo-de-todas-as-experiencias-vividas-no-nivel-consciente-e-inconsciente-por-aquele-ser-humano" style="font-size:18px">Será que a doença física é apenas física, ou ela é reflexo de todas as experiências vividas no nível consciente e inconsciente por aquele ser humano?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se falamos das dores da alma, a espiritualidade é uma necessidade primária para o ser humano, auxiliando na busca por significado. Mestre <strong>Eckhart</strong> apud S. Magaldi (2022) nos fala: “<strong>A qualidade da vida de um homem depende da qualidade de seus deuses, das formas que o Divino toma frente a ele. Em resumo</strong>, <strong>a qualidade da vida de um homem depende das exigências que sua alma se faz quando admira a face de seu Deus</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-leloup-e-jung">Leloup e Jung</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Leloup</strong> (2013) nos fala que estudamos demais o ser humano a partir de suas doenças, quando poderíamos conhecê-lo melhor a partir de seu estado de realização. O autor propõe um caminho de transformação espiritual que passa por 7 etapas, um caminho de encontro com o numinoso, em que nos colocamos em dúvida e em contato com o vazio, para que algo novo nasça como uma chama ou novo conhecimento, integrando-se a nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Não conseguimos voltar ao modo anterior</strong>, <strong>mas essa caminhada só faz sentido se retornamos à praça e ao mundo, entregando um ser humano melhor à sociedade.</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">“Entre <strong><u>todos</u></strong> os meus pacientes de mais de trinta e cinco anos não há <strong><u>nenhum</u></strong> cujo problema não fosse o da religação religiosa. A raiz da enfermidade de <strong><u>todos</u></strong> está em terem perdido o que a religião deu a seus crentes, em todos os tempos; e <strong><u>ninguém </u></strong>está realmente curado enquanto não tiver atingido, de novo, o seu enfoque religioso.” </p>
<cite><strong>Jung</strong> apud S. Magaldi (2020)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A vivência da espiritualidade é uma forma de quebrar o monoteísmo da consciência e nos abrir para o numinoso ou mistério, algo maior que o “eu”.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dimensão faz parte da jornada e do processo de crescimento e individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone D. Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">*<em>Texto baseado na palestra de mesmo título ministrada no VIII Congresso Junguiano do IJEP – É tica, espiritualidade e política no campo junguiano, com participação das referidas autoras e a Dra. Luciana Antoniolli.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-i" style="font-size:15px"><em>i)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G; WILHELM, R. <em>O segredo da flor de ouro</em>: um livro de vida chinês. 15 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LELOUP, Jean-Yves; BOFF, Leonardo. <em>Terapeutas do deserto</em>: de Fílon de Alexandria e Francisco de Assis a Graf Durckheim. 16 ed. Petrópolis, Rj: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, W. Dinheiro, saúde e sagrado: interfaces culturais, econômicas e religiosas à luz da psicologia analítica. 2 ed. São Paulo: Eleva Cultural, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, E.S.D. <em>Ordem e caos</em>: uma visão transdisciplinar. São Paulo: Eleva Cultural, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, E.S.D. Psicologia e religião oriental. Aula ministrada no programa de pós graduação em psicologia analítica, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Melo C.F; e. at. <em>Correlação entre religiosidade, espiritualidade e qualidade de vida</em>: uma revisão de literatura. Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 447-464, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Murakami, R., Campos C. J. G. (2012). <em>Religião e saúde mental</em>: desafio de integrar a religiosidade ao cuidado com o paciente. Revista Brasileira de Enfermagem, 65(2), 361-7. doi: 10.1590/S0034-71672012000200024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Stroppa, A., &amp; Moreira-Almeida, A. (2008). <em>Religiosidade e saúde</em>. Saúde e Espiritualidade: uma nova visão da medicina. Mauro Ivan Salgado &amp; Gilson Freire (Orgs.). Belo Horizonte: Inede.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ferreira, A.G.de C., et. Al. <em>Concepções de Espiritualidade e Religiosidade e a Prática Multiprofissional em Cuidados Paliativos</em>. Revista Kairós Gerontologia, 18(3), pp. 227-244. São Paulo (SP), Brasil: FACHS/NEPE/PEPGG/PUC-SP, 2015, julho-setembro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Balboni, T.A.; et al. <em>Spirituality in Serious Illness and Health</em>. Jornal da Associação Médica Americana, 12 de julho de 2022, <a href="https://doi.org/10.1001/jama.2022.11086">https://doi.org/10.1001/jama.2022.11086</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Shiba, K; et al. <em>Purpose in life and 8-year mortality by gender and race/ethnicity among older adults in the U.S</em>.  Boston University School of Public Health: Preventative Medicine, 22 October 2022. <a href="https://doi.org/10.1016/j.ypmed.2022.107310">DOI: 10.1016/j.ypmed.2022.107310.</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ii" style="font-size:14px"><em>ii)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ferreira, L.F.; et. Al. <em>A influência da espiritualidade e da religiosidade na aceitação da doença e no tratamento de pacientes oncológicos</em>: revisão integrativa de literatura. Rio de Janeiro: Revista Brasileira de Cancerologia, 2020, 66(2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amatuzzi, M.M. <em>O desenvolvimento religioso</em>: análise de depoimentos. Campinas: Revista de Psicologia, v.17, n.3, 43-66, setembro/dezembro 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Magaldi, E.S. <em>Medicina mágica ou religiosa</em>. Disponível em: <a href="https://m.facebook.com/institutojunguiano/photos/medicina-m%C3%A1gica-ou-religiosa-a-arte-de-curar-conhecida-como-medicina-religiosa-o/2042129712510066/?locale=es_LA">https://m.facebook.com/institutojunguiano/photos/medicina-m%C3%A1gica-ou-religiosa-a-arte-de-curar-conhecida-como-medicina-religiosa-o/2042129712510066/?locale=es_LA</a>. Acessado em: 09 de fevereiro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Oliveira, M.R.; Junges, J.R. <em>Saúde mental e espiritualidade</em>: a visão de psicólogos. Natal: Estudos psicológicos, 17(3), dez 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UFMG, Faculdade de Medicina. <em>Espiritualidade no ensino e na prática da medicina</em>. Disponível em: <a href="https://www.medicina.ufmg.br/espiritualidade-no-ensino-e-na-pratica-da-medicina/#:~:text=No%20Brasil%2C%20em%20torno%20de,na%20gradua%C3%A7%C3%A3o%2C%20optativas%20ou%20obrigat%C3%B3rias.. ">https://www.medicina.ufmg.br/espiritualidade-no-ensino-e-na-pratica-da-medicina/#:~:text=No%20Brasil%2C%20em%20torno%20de,na%20gradua%C3%A7%C3%A3o%2C%20optativas%20ou%20obrigat%C3%B3rias.. </a>Acessado em: 09 de fevereiro de 2022.</p>



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			</item>
		<item>
		<title>Endometriose, um feminino em conflito</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/endometriose-um-feminino-em-conflito/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Nov 2022 12:54:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O feminino está profundamente atrelado ao ciclo corporal que permite a geração da vida. Hoje consigo relacionar melhor as fases que o corpo de uma mulher passa com o conto da mulher esqueleto, que menciona que somos vida-morte-vida. Durante sua fase reprodutiva, as mulheres passam por esse ciclo de forma incessante, com uma cadeia de hormônios estimulando a ovulação, aumentando o endométrio para receber o possível concepto, e quando chega ao pico máximo hormonal, tudo desaba, levando à descamação uterina e à menstruação. E o ciclo se inicia novamente, entrelaçando vida e morte no seu caminho.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sangue jorra das mulheres todos os meses, e desde os tempos remotos, era considerado tabu ou período em que a mulher está impura. Muitas mulheres relatam que o menstruar é um grande alívio de toda essa pressão interna demandando a vida. E após a eliminação de todo esse processo preparatório, um novo ciclo recomeça, abrindo a possibilidade para que uma nova vida seja gerada.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A endometriose é uma doença crônica, inflamatória, com a implantação de tecido endometrial na cavidade abdominal ou em outros locais, de forma mais rara, como cérebro, membros superiores/inferiores. Dados mostram que 6 a 10% das mulheres são portadoras de endometriose no mundo (NACUL &amp; SPRITZER, 2010). É um extravasamento ou explosão de tecido uterino para fora dele, gritando para ser visto, mesmo que seja pela dor. Ou seja, a mulher portadora de endometriose faz o ciclo reprodutivo no útero e fora dele, um sangramento dentro do corpo, símbolo de uma ferida maior, que não pode ser vista. Uma ferida de alma.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre os sintomas da endometriose está o fluxo menstrual intenso, cólicas, dor e inflamação uterina e abdominal. Representa um feminino que sofre com algo que deveria ser mais natural e cíclico.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensando em símbolos do feminino relacionado ao sangue, o dragão é um ser mítico, devorador, cospe fogo, adora acumular riquezas para seu prazer, um animal vaidoso e muito orgulhoso. Nas lendas e contos, o sangue do dragão possui poderes mágicos, capaz de restaurar a vida, ou seja, relaciona-se à fertilidade. Como qualquer arquétipo, o arquétipo do feminino está repleto de dualidades. A questão é: as mulheres com o feminino ferido são capazes de lidar com isso? Ou estão tão unilateralizadas num processo de negação ou conflito com esse feminino?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O corpo não é o veículo que leva a minha cabeça até o carro, mas matéria-prima através da qual ele pode vir a conhecer e valorizar suas próprias e profundas emoções, intuições e sabedoria instintiva (Qualls-Corbett, 1990). Jung corrobora essa ideia integrativa entre corpo e psique, base para a psicossomática, que estuda exatamente essa relação entre a mente e o corpo, numa visão mais holística do ser humano.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (2014) nos fala sobre os complexos, especialmente, o complexo materno negativo, que pode ser relacionado à negação da mãe, uma oposição seja pela intelectualidade, racionalidade, opiniões, trabalho, ou negando tudo que aquela mãe representa, incluindo o corpo e o feminino. Não obstante, o que negamos é o que nos mobiliza, pois temos aí afetos que nos dominam e nos possuem. Relacionando aos casos de endometriose, esse útero que se expande além de suas fronteiras, mostra que, ao negar o feminino e não elaborar as questões ou afetos relacionados, ocorre exatamente o movimento oposto. O complexo toma essa mulher de assalto em sua forma de se relacionar com o mundo interno e externo, inclusive com seu corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É muito comum observarmos mulheres com endometriose com um animus acentuado, mais agressivas, muitas vezes ocupando cargos de liderança ou mais masculinos, que exigem um nível maior de racionalidade. Harding (1985) menciona que na atualidade exige-se da mulher uma postura mais masculina, principalmente no mundo dos negócios, afetando não somente a vida profissional, mas a personalidade, causando mudanças profundas na relação consigo mesma e com os outros.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A possessão de uma mulher pelo seu animus produz resultados funestos, segundo Emma Jung (2020), pois quando o feminino é forçado pelo animus a ficar nas sombras, surgem facilmente depressões, insatisfação geral, perda da sensação de vida, pois metade de sua personalidade está em dissonância. Os sintomas da endometriose não ficam restritos ao corpo físico. Em geral, as mulheres portadoras dessa doença são acometidas pelo quadro relatado por Emma.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse extravasamento uterino está clamando por atenção e cuidado. Se a mãe biológica não exerceu boa influência ou exemplo de feminino, a tarefa analítica será fortalecer a auto-maternagem, o cuidado com o corpo, e o encontro da feminilidade, auxiliando a reduzir a toxicidade, seja física ou psíquica.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas mulheres com endometriose, ao contrário, relatam não ter problemas com o materno, e que o complexo que atua negativamente é o paterno. Pais abusivos, alcoólatras, agressivos, ausentes ou mesmo superprotetores podem influenciar a constelação desse complexo paterno desfavorável. Pais que não cumprem com sua missão de auxiliar a filha a ir para o mundo, a ter segurança para enfrentar os desafios da vida, a dar senso de justiça e responsabilidade, também podem afetar a cosmovisão dessas mulheres e sua relação com si mesma e com seu corpo. Afinal, o primeiro modelo masculino para uma mulher é seu pai.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Neumann (2006, pág. 189), o ventre é a sede do inconsciente, dos afetos, que sobem de lá de baixo e obscurecem ou excluem a cabeça. Isso significa que se os elementos criativos do inconsciente, os quais empenham-se rumo à luz, não estabelecerem seu próprio reino luminoso do espírito e da consciência, eles continuarão a ser porções dependentes do inconsciente e nele permanecerão. Ou seja, a falta de consciência do complexo atuante, leva essa mulher a ser tomada pelo inconsciente, e com o tempo, o corpo também pode apresentar sintomas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos sintomas mais frequentes e significativo para as mulheres com essa condição é a dor. A endometriose é uma das principais causas de hospitalização de mulheres em países industrializados. No Brasil, tivemos 71.818 internações por endometriose no período de 2009 a 2013. Todavia, não é somente sua epidemiologia que a torna impactante, mas seu caráter progressivo, que pode levar a tratamentos cirúrgicos (perda do útero, tubas, ovários, intestino etc.). Dependendo do local e da gravidade da doença, essa dor pode chegar a ser incapacitante (SÃO BENTO &amp; MOREIRA, 2018).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dor sentida por essas mulheres, seja física ou na alma, é muitas vezes tratada com negligência, sendo comum ser visto como frescura. O manejo da dor física muitas vezes leva a utilização de muitas medicações anti-inflamatórias, anestésicas e inibidoras da menstruação. Quem não ouviu falar dos Dispositivos Intrauterinos usados atualmente para inibir a menstruação, muito utilizados nos casos sintomáticos de endometriose? São mulheres que sofrem muitas intervenções médicas na tentativa de inibição ou suspensão do problema. Contudo, poucos são os médicos que percebem a necessidade de um acompanhamento psicoterápico, e que as questões ali postas por essas mulheres vão além do corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro sintoma importante é a possibilidade de infertilidade decorrente da endometriose. Não se esperaria menos de um feminino tão combatente. O útero, em geral, fica inflamado e reativo à possibilidade de implantação de um concepto, negando a vida, com foco na dor e no sangramento. A infertilidade joga a mulher num conto bem conhecido, nesse caso, da patinha feia. A mulher infértil se torna aquela que é desajeitada, desajustada diante das outras, com sentimentos e criatividade congelados. Mas no fim da jornada, a patinha pode se encontrar, aprendendo a se amar, se conectando a sua beleza interior e irradiando luz.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estés (2014, pág. 244) se refere ao corpo como um planeta, uma terra por si só. E como qualquer paisagem, ele pode ser retalhado em lotes, esgotado e alijado de seu poder. Os quadris de uma mulher são estabilizadores para o corpo acima e abaixo dele, são portais, lugar para as crianças se esconderem. Mulheres portadoras de endometriose precisam ser lembradas de que o corpo sente, que precisa de um vínculo adequado com o prazer, com o coração e com a alma. Esse corpo tem alegria? Ele dança, ginga, rebola, se movimenta?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo o que o feminino representa já foi considerado fraqueza pelos homens, influenciando a relação das mulheres com elas mesmas. Por que será que o feminino assusta tanto? Ele nos convida a mergulhar em águas profundas, a nos conectarmos com o mundo além das aparências, a termos sensibilidade diante das emoções, a sermos criativos e capazes de nos adaptar e mudar quando necessário. É esse convite que faço as mulheres de forma geral e para aquelas portadoras de endometriose: deixem fluir e não se aprisionem mais. Sejam calor e frio ao mesmo tempo, alegrias e lágrimas, e, acima de tudo, permitam-se amar a si mesmas e ao mundo. Essa conexão é que nos torna belas e verdadeiras.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Elaborado por:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Michella Paula Cechinel Reis – membro analista em formação e Ercília Simone Magaldi, membro analista didata&nbsp;</p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, C.P. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petrópolis/RJ: Vozes, 2014.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, E. Animus e anima: uma introdução à psicologia analítica sobre os arquétipos do masculino e feminino inconscientes. 2 ed. São Paulo: Ed. Pensamento e Cultrix, 2020.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">HARDING, M.E. Os mistérios da mulher antiga e contemporânea: uma interpretação psicológica do princípio feminino, tal como é retratado nos mitos, nas histórias e nos sonhos. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">NACUL, A.P.; SPRITZER, P.M. Aspectos atuais do diagnóstico e tratamento da endometriose. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.scielo.br/j/rbgo/a/8CN65yYx6sNVhjTbNQMrB5K/?lang=pt">https://www.scielo.br/j/rbgo/a/8CN65yYx6sNVhjTbNQMrB5K/?lang=pt</a>). Acessado em: 07/11/2022.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E. A grande mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente. 5 ed. São Paulo: Cultrix, 2006.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">QUALLS-CORBETT, N. A prostituta sagrada: a face eterna do feminino. São Paulo: Paulus, 1990.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">SÃO BENTO, P.A.S.; MOREIRA, M.C.N. Quando os olhos não veem o que as mulheres sentem: a dor nas narrativas de mulheres com endometriose. Disponível em:&nbsp;<a href="https://doi.org/10.1590/S0103-73312018280309">https://doi.org/10.1590/S0103-73312018280309</a>. Acessado em: 07/11/2022.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Resenha: O presente artigo fala sobre um feminino que se expande para além de suas fronteiras, gerando dor, infertilidade, angústias e sentimento de desconexão. A endometriose acomete de 6 a 10% das mulheres em todo o mundo e merece ser olhada para além do corpo, uma ferida do feminino, uma ferida de alma.&nbsp;</p>
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		<title>A invisibilidade: superpoder ou maldição?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-invisibilidade-superpoder-ou-maldicao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Mar 2022 13:46:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[profissionais da saúde]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A pandemia por Covid-19 nos mostrou a realidade da saúde do nosso país. Falta de equipamentos, medicamentos, profissionais treinados, políticas públicas consistentes, e aí vai. Até dia 17 de março de 2022, o painel Coronavírus do Ministério da Saúde totalizou mais de 29,5 milhões de pessoas confirmadas e 656 mil mortos (2,2% de letalidade). Por [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A pandemia por Covid-19 nos mostrou a realidade da saúde do nosso país. Falta de equipamentos, medicamentos, profissionais treinados, políticas públicas consistentes, e aí vai. Até dia 17 de março de 2022, o painel Coronavírus do Ministério da Saúde totalizou mais de 29,5 milhões de pessoas confirmadas e 656 mil mortos (2,2% de letalidade).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por trás desses números temos pessoas e suas famílias, que vivenciaram essa sombra coletiva de forma individualizada. E por trás dessas pessoas temos os profissionais de saúde, que desde o início da pandemia, arriscaram suas vidas para cuidar e experimentaram toda essa situação de forma mais intensa, acompanhando o sofrimento, a dor e a morte de milhares de pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em geral, as pessoas que escolhem estudar e trabalhar na área da saúde sentem fascínio pelos mistérios da vida e da morte, e um desejo de se tornar imune a ela. O deus Asclépio, pai da medicina é um exemplo. Ele começou a ressuscitar os mortos causando desconforto no submundo, então Hades se queixa a Zeus sobre o esvaziamento de almas em seu domínio fazendo com que Zeus puna Asclépio fulminando-o com um raio (FILHO&nbsp;&amp;&nbsp;BURD, 2010).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar da atração pelo mórbido, o confrontar a terminalidade da vida não é um assunto muito abordado pelas universidades da área de saúde e, diversos autores relatam que uma das dificuldades em lidar com os pacientes terminais é o sentimento de despreparo. O foco fica na doença, no cuidar e salvar o paciente até o último minuto, como uma espécie de negação da finitude da vida. Ziegler (2012) menciona a necessidade de uma relação mais natural com o sofrimento, com a mortalidade e com a natureza mórbida da própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em face da situação epidemiológica, não somos capazes de mensurar o tamanho do sofrimento e dor que esses profissionais de saúde que trabalharam e se dedicaram para cuidar dos pacientes mais graves infectados com Covid vivenciaram? Essa é uma dor que fica invisível, assim como esses profissionais. Normalmente, o foco se volta para aqueles que estão infectados e internados na rede de saúde. Quantos não eram os antigos cuidadores que sucumbiram a doença e possivelmente perderam a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudo realizado pela&nbsp;Fiocruz em todo o território nacional, mostrou que a pandemia alterou de modo significativo a vida de 95% desses trabalhadores da saúde. Os dados revelam que quase 50% admitiram excesso de trabalho ao longo desta crise mundial de saúde, com jornadas para além das 40 horas semanais, e um elevado percentual (45%) deles necessita de mais de um emprego para sobreviver (BRASIL, 2021).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses profissionais lidam em sua vida cotidiana com&nbsp;<strong>sombras</strong>&nbsp;importantes do ser humano: dor, sofrimento, doença e morte. É antiga a visão sobre a morbidade como algo pecaminoso, castigo ou reparação de um carma, mesmo na cultura oriental. Contudo, podemos olhar para a doença como um desafio que nos impõe desconforto, mas também oportunidade de aprendizados e autoconhecimento. Segundo Ramos (2018, pág. 76-77), os sintomas, sejam físicos ou psíquicos, têm sua origem nos complexos, e a doença é um símbolo que revela a disfunção no eixo ego-Self. O sintoma-símbolo compensa o desvio e aponta sincronicamente para a correção a ser feita (integração do conteúdo inconsciente à consciência). &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma outra relação possível aos profissionais de saúde é a do sacerdócio, inclusive historicamente, foram os detentores desses conhecimentos por muitos séculos no ocidente. O sacerdote é aquele que se sacrifica, que se oferece a Deus, como prova de dependência, obediência, arrependimento ou amor. “O sacrifício é um símbolo da renúncia aos vínculos terrestres por amor ao espírito ou à divindade”, segundo Chevalier &amp; Gheerbrant (2020). Enatiodromicamente, a sombra que se constela a essa vontade de ajudar primordial é o desejo de poder e alegria em despotencializar o “cliente/paciente” (GUGGENBUHL-CRAIG, 2004).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que o tratamento de qualquer doença passa em primeiro lugar pela vontade do chamado “paciente”, que não é tão passivo quanto imaginamos. Estudos sobre a epigenética, a relação mente-corpo e os aspectos energéticos relacionados aos organismos são fontes de diversas pesquisas nas últimas décadas, se contrapondo ao domínio fármaco-cirúrgico. Os estudos clínicos, em geral, têm como grupo controle um medicamento ou intervenção placebo, que surtem efeitos benéficos em uma boa parte dos pacientes. Contudo, o foco dos estudos é na eficácia medicamentosa, e pouco se questiona sobre o efeito placebo e sua viabilidade de tratamento. Esse ponto é importante para refletirmos sobre a falibilidade do profissional. Será que o sucesso ou fracasso de um tratamento são de responsabilidade exclusiva dos profissionais da saúde?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos deixar de dialogar com a morbidade. A doença está a serviço de quê ou de quem? Que complexo está atuando no momento e nos clama por atenção. Hillman (2011) menciona que a energia psíquica precisa de alternância, ora está mais voltada para o ego e a consciência, e ora está mais voltada aos conteúdos do inconsciente. O que reforça a importância de aprendermos a ouvir nossa voz interior, nossos sonhos, nossas intuições. A doença nos leva ao movimento para baixo, mais ctônico, para cama e para dentro, ou seja, é uma oportunidade de introspecção e busca por sentidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A habilidade de transitar por todos os mundos, seja o céu, a terra ou o subterrâneo pertence a Hermes, deus mensageiro do Olimpo e relacionado ao processo terapêutico. Ele mostra flexibilidade suficiente para olhar para todas as polaridades, a dor não é apenas um aprisionamento e sofrimento para o indivíduo, mas pode conter um potencial de crescimento, um olhar para aspectos mais simbólicos. Essa habilidade vai contra a lógica racionalista, linear e medicamentosa adotada pelas ciências da saúde atualmente, com foco no&nbsp;<em>pathos</em>. Essa cosmovisão mais assimétrica e integradora de Hermes pode ajudar os profissionais de saúde a se conectar mais aos indivíduos, suas narrativas de vida, seus desejos e entender que tudo isso está ali diante de si. É mudar o foco da intervenção para o acolhimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o acolher a si mesmo também faz parte dessa jornada para médicas(os), enfermeiras(os), terapeutas, psicólogas(os), entre outros. É muito comum entre esses profissionais a sobrecarga de trabalho (dois ou mais empregos), plantões noturnos, estresse, conflitos entre as equipes e os colegas de trabalho, baixos rendimentos para quase todas as categorias, etc. Esses são fatores de risco para o adoecimento físico e psíquico. A incidência de depressão e suicídio é alarmante. Estudo norte-americano, segundo Cardoso (2021), mostrou uma taxa de suicídio em médicos de 28 a 40 por 100.000, mais que o dobro da encontrada na população geral (12,3 por 100.000).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O abuso de substâncias também é algo a ser considerado, pois os plantões noturnos quebram o ritmo ou ciclo circadiano, e para se manter acordado, muitas vezes esses profissionais fazem uso de substâncias estimulantes. E para compensar a falta de sono no dia seguinte, podem fazer uso de tranquilizantes, pois precisam descansar para o próximo plantão. A quebra de ritmos é uma questão importante para esses profissionais, afetando todo ciclo de sono-vigília, horários para alimentação, aumento de suscetibilidade para o abuso de drogas lícitas ou ilícitas, doenças, suicídio e morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung (2013, pág. 35), “o desenvolvimento da personalidade é uma das tarefas mais árduas. É dizer sim a si mesmo, tornando-se consciente daquilo que faz e, especialmente, não fechando os olhos a própria dubiedade”. Olhar para nosso lado sombrio e inconsciente, reconhecê-lo, nos remete a nossa inteireza, nosso senso de humanidade. A falibilidade é uma característica humana negada ao profissional de saúde, que é treinado para nunca errar, falhar, pois pode impactar em vidas. E a responsabilidade e a culpa recaem em seus ombros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser infalível é uma característica pertencente aos deuses, e se apegar de forma polarizada a essa ideia pode gerar uma identificação e inflação de ego. Que cuidado esse profissional endeusado será capaz de ofertar? E seu trabalho está a serviço de quem? Do ego ou do outro? O risco de ser fulminado por um raio, ou começar uma jornada equivocada é imenso, se tornando um anti-herói. Da mesma forma, cair na polaridade inversa, da falha e incompetência e ficar preso a esse complexo, pode gerar danos a si mesmo e ao outro na mesma medida. E será que essa ideia de sacerdócio e sacrifício também não impacta no autocuidado de médicos e enfermeiros, afinal, quanto mais próximo do divino, menos corpo possuímos. O caminho para cuidar do outro passa inicialmente na capacidade de cuidar de si mesmo(a).&nbsp;<strong><em>Todo curador tem suas próprias feridas! Vamos olhar para isso?</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Michella Chechinel Membra analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone D. Magaldi membro didata</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL, Ministério da Saúde.&nbsp;<strong><em>Painel coronavírus</em></strong>. Disponível em:&nbsp;<a href="https://covid.saude.gov.br/">https://covid.saude.gov.br/</a>. Acessado em 17 de março de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CARDOSO, F. Setembro amarelo e o suicídio entre profissionais da saúde. Disponível em:&nbsp;<a href="https://portalhospitaisbrasil.com.br/artigo-setembro-amarelo-e-o-suicidio-entre-profissionais-da-saude">https://portalhospitaisbrasil.com.br/artigo-setembro-amarelo-e-o-suicidio-entre-profissionais-da-saude</a><a href="https://portalhospitaisbrasil.com.br/artigo-setembro-amarelo-e-o-suicidio-entre-profissionais-da-saude/">/</a>. Acessado em: 28/12/2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHEVALIER, J; GHEERBRANT, A. Dicionários de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Edição 34° revisada. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FILHO, J.M.; BURD, M.&nbsp;<strong><em>Psicossomática hoje</em></strong>. 2 ed. Porto Alegre: Artmed, ano 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBUHL-CRAIG, A. O abuso do poder na psicoterapia: e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, J.&nbsp;<strong><em>Suicídio e alma</em></strong>. 4 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong><em>O segredo da flor de ouro: o livro da vida chinês</em></strong>. 15 ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonel, F.&nbsp;<em>Pesquisa analisa o impacto da pandemia entre profissionais de saúde</em>. Disponível em:&nbsp;<a href="https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-analisa-o-impacto-da-pandemia-entre-profissionais-de-saude#:~:text=Os%20dados%20indicam%20que%2043,a%20necessidade%20de%20improvisar%20equipamentos">https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-analisa-o-impacto-da-pandemia-entre-profissionais-de-saude#:~:text=Os%20dados%20indicam%20que%2043,a%20necessidade%20de%20improvisar%20equipamentos</a>). Acessado em: 11 de fevereiro de 2022.</p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-ramos-g-r-a-psique-do-corpo-a-dimensao-simbolica-da-doenca-6-ed-sao-paulo-summus-2018">RAMOS, G.R. A psique do corpo: a dimensão simbólica da doença. 6 ed. São Paulo: Summus, 2018.</h1>



<p class="wp-block-paragraph">ZIEGLER, A.J.&nbsp;<strong><em>Medicina arquetípica</em></strong>. São Paulo, Paulus, 2012.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-michella-paula-cechinel-reis-29-03-2022"><strong><em>Michella Paula Cechinel Reis &#8211; 29/03/2022</em></strong></h4>
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