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	<title>Paula de Azevedo Bernardi Peñas, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Paula de Azevedo Bernardi Peñas, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Um olhar para a maternidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-olhar-para-a-maternidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula de Azevedo Bernardi Peñas]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Apr 2026 14:22:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto propõe uma reflexão simbólica sobre a maternidade a partir do conto da Mulher-Esqueleto, narrado por Clarissa Pinkola Estés, interpretando-o à luz da psicologia do feminino.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/um-olhar-para-a-maternidade/">Um olhar para a maternidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: O texto propõe uma reflexão simbólica sobre a maternidade a partir do conto da Mulher-Esqueleto, narrado por Clarissa Pinkola Estés, interpretando-o à luz da psicologia do feminino</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa mítica, que apresenta o processo de morte e renascimento da <strong>mulher-esqueleto</strong> após ser acolhida e cuidada por um pescador, é utilizada como metáfora para compreender as transformações psíquicas mobilizadas pela gestação e pela experiência materna. Nesse contexto, discute-se como o complexo materno pode ocupar temporariamente o centro da vida psíquica da mulher, mas também como, ao longo do tempo, torna-se necessário um movimento de retorno à própria individualidade, permitindo que a maternidade seja integrada entre outras dimensões da identidade feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O texto também alerta para o risco de uma unilateralização da consciência quando a maternidade passa a constituir o único sentido da vida, situação simbolicamente associada à figura de Deméter, podendo gerar efeitos sufocantes nas relações familiares. Assim, enfatiza-se a importância da autorreflexão e da busca de equilíbrio psíquico para que a maternidade seja vivida como uma experiência transformadora, mas não totalizante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ser-mae-e-inato-a-mulher" style="font-size:21px"><strong><em>Ser mãe é inato à mulher!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Já iniciamos nosso texto refletindo sobre uma frase muito falada, entretanto, precisamos questionar o quanto de verdade existe nessa afirmação.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A ideia de maternidade como entendemos hoje vem sendo cunhada desde o século XVII, com a expansão da burguesia e a transformação socioeconômica decorrente do processo de industrialização. Para sustentar a sociedade capitalista, à mulher foi sendo delegada a função de maternidade e cuidados de casa. O capital precisa de trabalhadores e consumidores de seus produtos, e garantir essa rotatividade era necessária. Reforçada pela Igreja, de que o sexo era destinado à procriação, as mulheres praticamente passavam suas vidas inteiras grávidas, com altas taxas de mortalidade infantil e materna. Era comum os homens terem várias esposas e muitas filhos ao longo da vida. Olhando nessa perspectiva, a base social ficou a cargo dos corpos femininos, com múltiplas gravidezes, desgaste físico e da saúde, e sobrecarga de trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa divisão social do trabalho que impôs às mulheres a maternidade como trabalho a ser executado para que seja considerada uma mulher de sucesso perante os pares. Então, podemos concluir e desmistificar que a maternidade definitivamente não é inata às mulheres. Essa frase é fruto de um constructo social e projeto político.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Para além disso, com os avanços do capitalismo, e a conquista feminina no espaço de trabalho, a jornada dupla (às vezes tripla) se tornou uma realidade cruel.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-demandado-da-mulher-que-ela-seja-forte-independente-lider-autossuficiente-e-ainda-mae-esposa-donzela-bonita-esteticamente-impecavel-e-que-nunca-envelheca" style="font-size:18px">É demandado da mulher que ela seja “forte”, “independente”, “líder”, “autossuficiente” e ainda, mãe, esposa, donzela, bonita, esteticamente impecável e que nunca envelheça.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A realidade apresentada nos tempos modernos é esmagadora. Com o aumento da inflação, e a necessidade de lucros, o capitalismo requer que a mulher trabalhe com dedicação e integralidade. As empresas, cada vez mais requerem cargas horárias de trabalho grandes. No mundo capitalista, o capitalismo nunca perde. É nítido que quanto mais mulheres forem produtivas, mais consumidoras teremos. Isso não é um apelo para que as mulheres deixem de trabalhar, mas sim, que tenhamos a ciência que a jornada dupla exige um grau de saúde física e mental que beira um risco à saúde pública.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-existe-amor-maior-do-que-o-amor-de-mae" style="font-size:21px"><strong><em>Não existe amor maior do que o amor</em> de mãe!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maternidade, em sua origem, é arquetípica e nos remete ao início de tudo: da vida, da humanidade, do próprio ser. Quem teria sido a primeira mãe? Ou, ainda, qual foi a primeira mulher a reconhecer, em si, a consciência da maternidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo a tradição cristã,<strong> Eva </strong>seria a primeira mãe — aquela que, ao comer o fruto proibido da árvore do conhecimento, inaugura a consciência humana e abre esse limiar para toda a humanidade. No entanto, muito antes de Eva, diversas entidades sagradas femininas já habitavam o imaginário simbólico das culturas antigas. Estudos arqueológicos vêm revelando a existência de civilizações com mais de dez mil anos, nas quais o princípio feminino e materno ocupava lugar central.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O conceito de <strong>arquétipo </strong>é fundamental para a compreensão da Psicologia Analítica. O termo não foi cunhado por Carl Gustav Jung, mas foi utilizado por este para definir os moldes psíquicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-2013-280-em-oc-8-2-nbsp" style="font-size:18px">Para Jung (2013, § 280), em OC 8/2,:&nbsp;</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de apreensão que se repetem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer reconheçamos ou não seu caráter mitológico.”</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em outras palavras, devemos reconhecer a importância do conceito de arquétipo no que tange à compreensão da natureza humana. O arquétipo é um molde vazio em que as experiências pessoais e coletivas são arquivadas. A imagem arquetípica é a única coisa que o indivíduo pode acessar, sendo nutrido por suas experiências individuais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seja-eva-ou-nao-a-primeira-mae-o-que-importa-e-reconhecer-que-a-gestacao-e-condicao-essencial-para-a-existencia-humana" style="font-size:18px">Seja Eva ou não a primeira mãe, o que importa é reconhecer que a gestação é condição essencial para a existência humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela se articula a outros arquétipos igualmente basilares, como os da vida e da morte, revelando a maternidade como um campo de profunda ambivalência. Um conto particularmente interessante, trata sobre o ciclo de morte-vida e morte do amor, é muito rico e mostra a ambivalência do amor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conto-da-mulher-esqueleto-apresentado-pela-autora-clarissa-pinkola-estes-2014-narra-uma-antiga-historia-do-povo-esquimo-sobre-uma-jovem-que-e-lancada-ao-mar-pelo-proprio-pai" style="font-size:18px">O <strong>conto da mulher-esqueleto</strong>, apresentado pela autora Clarissa Pinkola Estés (2014), narra uma antiga história do povo esquimó sobre uma jovem que é lançada ao mar pelo próprio pai.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No oceano, seu corpo é devorado pelos peixes, restando apenas seu esqueleto. Ali ela permanece por muito tempo, até que um jovem pescador prende inadvertidamente seu anzol nas costelas da mulher-esqueleto e acaba içando-a para dentro de seu barco.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assustado com a aparição, o pescador não percebe que sua linha e sua rede de pesca se enroscam no esqueleto. No desespero de se livrar daquela visão aterradora, ele foge em direção ao seu iglu, arrastando-a consigo, sem perceber que ambos estão presos pela mesma rede. No caminho, a mulher-esqueleto consegue engolir alguns peixes que o homem havia colocado para secar e, após muito tempo, volta a se alimentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando finalmente chegam ao iglu, o homem percebe que ela continua ali. Ao notar sua respiração tranquila, começa lentamente a desenredá-la da rede de pesca e a cobre com peles para aquecê-la. Aos poucos, ele se sente tomado pelo sono e, ao adormecer, deixa cair uma lágrima. A mulher-esqueleto sorri e sorve essa lágrima — que para ela é como um rio — saciando sua sede.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Então, ela retira o coração do homem, que bate como um grande tambor, e começa a batucar em suas duas faces enquanto entoa um canto. Canta para que seu corpo volte a ter carne, cabelos, olhos saudáveis, mãos fortes e macias, seios, ventre e todas as formas que constituem uma mulher. Depois, ainda cantando, deita-se ao lado do homem e devolve o grande tambor — o coração — ao seu corpo. Assim, ao amanhecer, os dois despertam abraçados, juntos de um modo bom e restaurado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conto-da-mulher-esqueleto-sob-uma-leitura-simbolica-aproxima-se-da-experiencia-da-maternidade-e-da-gestacao" style="font-size:18px">O conto da <strong>Mulher Esqueleto</strong>, sob uma leitura simbólica, aproxima-se da experiência da maternidade e da gestação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Durante a gravidez, muitas mulheres entram em contato com aspectos profundos de si mesmas: memórias antigas, emoções esquecidas, histórias familiares e conteúdos psíquicos que estavam adormecidos. Assim como no conto, esse encontro nem sempre é imediato ou confortável. Muitas vezes, ele exige tempo, paciência e delicadeza para desatar nós internos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diferentes mulheres relatam que, durante o período de gestação, sonham com as gerações anteriores e entram em contato com a ancestralidade feminina. Esse momento pode se tornar uma oportunidade de conexão com a própria criança interna, de revisitar memórias e de promover um movimento de maior aproximação com a mãe ou com outras figuras maternas presentes em sua vida. Nesse período, torna-se possível compreender melhor a miríade de sentimentos pelos quais diferentes mulheres passam. Trata-se de uma experiência profunda e poderosa para quem a vivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Mulher Esqueleto também fala sobre o ciclo vida–morte–vida. Na maternidade, algo semelhante acontece no plano psíquico: para que uma nova vida chegue, uma parte da identidade anterior da mulher precisa se transformar. A mulher que existia antes da gestação não desaparece totalmente, mas passa por uma reorganização profunda. Nesse sentido, a maternidade pode ser vista como um processo de <strong>renascimento simbólico</strong>, no qual uma nova identidade feminina começa a se formar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como o pescador oferece seu próprio coração para que a Mulher Esqueleto recupere sua vida. Esse gesto simboliza entrega e abertura para a transformação. A maternidade, de maneira semelhante, envolve uma experiência intensa de doação psíquica e emocional, que frequentemente amplia a capacidade de cuidado, vínculo e sensibilidade. Também apresenta o medo do desconhecido, do que estar por vir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ser-mae-e-padecer-no-paraiso" style="font-size:21px"><strong><em>Ser mãe é padecer no paraíso!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Gestar é um ato de profunda entrega, uma conexão entre almas mediada pelo corpo. Nesse período, a mulher pode entrar em contato mais direto com sua corporeidade, com os instintos, com o complexo materno que a habita e com conteúdos do inconsciente. É como se, durante a gestação, estivéssemos mais próximas de um limiar entre a consciência e o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-feminino-vira-fonte-de-vida-e-nutricao-abrigo-e-protecao-e-muita-transferencia-inconsciente-da-mae-para-o-filho-ou-filha-que-chamamos-de-projecoes" style="font-size:18px">O corpo feminino vira fonte de vida e nutrição, abrigo e proteção, e muita transferência inconsciente da mãe para o filho ou filha, que chamamos de projeções.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As projeções são inconscientes, a mulher não tem domínio sobre, mas pode pressentir através de sonhos, intuições e sensações.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É importante também destacar que a vida vivida que os pais podiam ter vivido, é herdada pelos filhos, sob uma forma oposta. Isso significa que os filhos são forçados inconscientemente a tomar um rumo na vida projetado pelos pais (JUNG, 2013). Por isso, esse mergulho ao inconsciente que a gestante pode fazer durante todo esse período simbiótico com a criança é um movimento importante para ambos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung dedicou boa parte de suas obras completas debruçado sobre a importância do complexo materno na formação da psique do indivíduo. O complexo é um conjunto associativo de experiências do indivíduo com tonalidades afetivas, no qual reside um núcleo arquetípico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo materno é de suma importância, por ser o primeiro complexo a ser constituído. Quando nascemos somos indiferenciados com a mãe, sendo que conhecemos o mundo a partir dessa figura que cuida, alimenta e protege, na maioria das vezes assim deveria ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A discussão acerca dessa frase passa pelo fato de que o padecimento é um tipo de sofrimento. Que sofrimento é esse que se dá num “paraíso”? Quando refletimos sobre a incongruência que é esperar que uma mulher sofra, enquanto sorri, percebe-se que não podemos exigir e outorgar esse poder ao corpo de outra mulher de forma incondicionada, como se ela fosse inatamente apegada à isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maternidade, em sua ambivalência, carrega sinais luminosos e sombrios na mesma medida. Sentimentos de alegria e melancolia, medo e coragem, segurança e insegurança, entre muitos outros. Tudo concorrendo no mesmo espaço interno e externo, num corpo em mudança. É um período de grande caos hormonal, emocional e psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-hora-voce-esquece-toda-a-dor" style="font-size:21px"><strong><em>Na hora você esquece toda a dor!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Após os nove meses de gestação, em média, outro momento crucial ocorre: o parto. No imaginário feminino, mesmo para mulheres muito racionalizadas, existe um temor ou preocupação de como será esse momento. O medo pode ser relacionado ao instinto de autopreservação. Gestar e parir provoca diferentes consequências ao corpo feminino.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2023, <strong>aproximadamente 260 mil mulheres morreram em decorrência de causas relacionadas à gravidez ou ao parto</strong> — o que significa que <strong>mais de 700 mulheres morrem todos os dias por causas evitáveis</strong> ligadas à gestação e ao nascimento. Esses dados corroboram o medo ligado às altas taxas de mortalidade do passado, e ainda presente em países pobres e nas classes sociais mais baixas e com menos acesso a serviços de saúde e qualidade de vida.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além disso, uma cesárea é a única cirurgia em que se espera que após 6 horas a paciente esteja andando e nutrindo outro ser humano. Lembrando que a cesárea é uma cirurgia de grande porte com todos os riscos envolvidos. É uma cirurgia que uma mulher faz acordada, sem anestesia geral. E espera-se, ainda hoje, que a mulher “não tema nada.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-nasce-um-filho-nasce-uma-mae" style="font-size:21px"><strong><em>Quando nasce um filho, nasce uma mãe!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na nossa experiência, o nascimento dos filhos nos faz perceber, de forma concreta, o peso e a profundidade da responsabilidade que repousavam em nossos braços. Nutrir, cuidar e proteger tornaram-se necessidades vitais daquele ser totalmente indefeso, dependente por um longo período de sua vida. Diferentemente dos animais não humanos, o ser humano atravessa uma gestação prolongada, que não se limita ao útero, mas se estende para além do nascimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-que-a-crianca-venha-a-andar-sozinha-ela-permanece-incapaz-de-garantir-a-propria-sobrevivencia-necessitando-de-cuidado-vinculo-e-sustentacao-por-muitos-anos" style="font-size:18px">Ainda que a criança venha a andar sozinha, ela permanece incapaz de garantir a própria sobrevivência, necessitando de cuidado, vínculo e sustentação por muitos anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma mãe nasce quando um filho nasce? Sim e não. Embora o nascimento da criança convoque a mulher para a função materna, o ideal de mãe que a antecede já está dado no imaginário coletivo. O arquétipo materno, tal como é alimentado por cada sociedade, constrói imagens normativas da “boa mãe”: disponível, intuitiva, abnegada e naturalmente competente. Esse ideal, quando rigidamente incorporado, pode afastar a mulher de sua experiência real, produzindo sentimentos de inadequação e culpa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-winnicott-nos-lembra-que-nao-existe-a-mae-perfeita-mas-a-mae-suficientemente-boa-aquela-que-falha-repara-e-se-adapta-de-maneira-gradual-as-necessidades-do-bebe" style="font-size:18px">Winnicott nos lembra que não existe a mãe perfeita, mas a <em>mãe suficientemente boa</em>, aquela que falha, repara e se adapta de maneira gradual às necessidades do bebê.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O termo “<em>mãe suficientemente boa”</em> foi cunhado por Winnicott para <strong>evitar a idealização da maternidade e destacar que a mãe não precisa ser perfeita</strong> – ela começa por atender quase completamente às necessidades do bebê e vai gradualmente se adaptando menos à medida que ele cresce, permitindo que este tolere pequenas frustrações de modo saudável. Ou seja, a maternidade é construída por cada mulher, e difere entre as sociedades, não é inata ou imediata.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O amor é uma construção diária, que se dá nos pequenos gestos e na intimidade com o bebê. Se o amor de uma mãe fosse incondicionado, não existiriam mães que abandonam seus filhos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-mae-vive-para-seus-filhos" style="font-size:21px"><strong><em>Uma mãe vive para seus filhos!</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em uma leitura junguiana, o arquétipo da Grande Mãe carrega em si uma ambivalência fundamental: é fonte de vida, nutrição e proteção, mas também de angústia, ameaça e dissolução. Os choros noturnos, as dificuldades na amamentação e a insegurança inicial confrontam a mulher com essa polaridade, deslocando-a do ideal para a experiência viva. Assim, ser mãe não é a realização imediata de um modelo arquetípico, mas um processo relacional e simbólico, aprendido no encontro contínuo entre mãe e filho, onde ambos se transformam.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em <em>Símbolos da Transformação</em>, Jung formula as qualidades opostas da mãe: amorosa e terrível ao mesmo tempo. O paralelo histórico também expressa essa ambivalência do arquétipo materno &#8211; Maria (Imaculada), Kali associada à morte e destruição. O conceito Prakrti atribui três princípios fundamentais ao materno: bondade, paixão e escuridão. Embora a figura da mãe seja universal, ela varia na experiência prática de cada um, possuindo um caráter mais limitado para essa mãe individual. Com isso, Jung apresenta a ideia de que não é a mãe individual que influencia a psique infantil unicamente, o arquétipo projetado sobre essa mãe confere a ela um caráter numinoso e quase divino (JUNG, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A maternidade possui tamanha força, que no período paleolítico e neolítico, quando o homem ainda não associava a gestação à fecundação. Não se entendia a gravidez como fruto da sexualidade e sim como algo divino. As Deusas da antiguidade eram femininas, Deusas mães, ligadas à terra e à fertilidade (Stone, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa história que por muito tempo foi apagada pelos homens, vem sendo estudada e revisitada por diferentes estudiosos. É importante entender o passado e o presente, pois eles influenciam o arquétipo materno, base do complexo materno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-e-incerto-neste-mundo-hediondo-mas-nao-o-amor-de-uma-mae-james-joyce" style="font-size:21px"><strong><em>Tudo é incerto neste mundo hediondo, mas não o amor de uma mãe (James Joyce)</em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo materno pode gerar impactos tanto em filhos quanto em filhas. Nos homens, quando ativado em excesso, pode resultar em comportamentos dom-juanistas ou homossexuais; já nas mulheres, pode manifestar-se na fixação na maternidade, em um eros exacerbado, em uma identificação excessiva e dependente em relação à mãe ou ainda em um antagonismo em relação a ela (JUNG, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos esperar que, durante a gestação — entendida aqui em sua dimensão mais ampla, que inclui também a chamada gestação “extraútero” —, a mulher seja profundamente mobilizada pelo complexo materno. Nesse período, é comum que a experiência psíquica se organize intensamente em torno da maternidade, envolvendo o corpo, os afetos e o imaginário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com o passar do tempo, porém, tende a emergir novamente o movimento de retorno ao mundo. A mulher gradualmente retoma o vínculo com sua própria jornada individual, reconectando-se com outras dimensões de si mesma. Assim, a maternidade deixa de ocupar o centro absoluto da experiência psíquica e passa a constituir uma entre as muitas personas que podem se manifestar ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, algumas mulheres encontram dificuldades para realizar esse movimento de retorno a si mesmas, podendo manifestar o que podemos chamar de sintomas demeterianos. Assim como a deusa Deméter, passam a investir na maternidade o sentido central — e, por vezes, exclusivo — da própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando isso ocorre, a experiência materna tende a tornar-se unilateral e excessivamente totalizante. Tal configuração pode gerar efeitos sufocantes nas relações ao redor: tensiona o vínculo com o(a) parceiro(a), dificulta a circulação afetiva na família e, sobretudo, pode restringir o espaço psíquico necessário para o desenvolvimento e a autonomia dos próprios filhos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-complexo-materno-assim-como-os-demais-complexos-necessita-receber-uma-quantidade-de-energia-psiquica-que-permita-a-circulacao-saudavel-da-vida-psiquica-e-das-relacoes" style="font-size:18px">O complexo materno, assim como os demais complexos, necessita receber uma quantidade de energia psíquica que permita a circulação saudável da vida psíquica e das relações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando há uma unilateralização da consciência em torno de um único aspecto da vida — neste caso, a maternidade —, a própria mulher pode acabar sendo prejudicada por essa dinâmica. Em alguns casos, crises no relacionamento conjugal surgem como indícios dessa unilateralidade, sendo frequentemente percebidas ou nomeadas pelo(a) parceiro(a). Nesses momentos, a capacidade de autorreflexão, bem como a abertura para buscar apoio ou ajuda especializada, pode contribuir para a ampliação da consciência e para uma reorganização mais equilibrada da experiência psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A gestação e o nascimento de um filho frequentemente mobilizam camadas profundas da psique feminina, colocando a mulher em contato com dimensões arcaicas do feminino — com a vida, mas também com perdas, transformações e renascimentos. Assim como na narrativa apresentada por <strong>Clarissa Pinkola Estés</strong>, a vida só retorna quando há tempo, cuidado e disposição para desenredar os nós que prendem aquilo que foi lançado às profundezas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, a maternidade pode ser compreendida não como um destino que absorve toda a existência da mulher, mas como uma experiência transformadora que, quando integrada de forma consciente, permite que diferentes dimensões do feminino encontrem novamente seu lugar na vida psíquica e relacional.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Um olhar para a maternidade&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/7gJBv10KQOE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 class="wp-block-heading" id="h-autoras" style="font-size:18px">Autoras:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Ercília Simone Magaldi &#8211; Didata do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/">Paula de Azevedo Bernardi Peñas &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, C.P. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. 1 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. O desenvolvimento da personalidade. 14 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A natureza da psique. 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">STONE, M. Quando Deus era mulher. São Paulo: Goya, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Winnicott, D.W. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu Ed., 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">World Health Organization. Maternal mortality. Disponível em: <a href="https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/maternal-mortality">https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/maternal-mortality</a>?. Acesso em 23 de janeiro de 2026.</p>



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		<title>Tapa de amor dói sim!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tapa-de-amor-doi-sim/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula de Azevedo Bernardi Peñas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2025 23:21:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
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		<category><![CDATA[codependência]]></category>
		<category><![CDATA[dependência emocional]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
		<category><![CDATA[Patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-e-noticiada-todos-os-dias-nas-midias-sociais-e-nos-canais-de-telecomunicacao" style="font-size:19px">A violência é noticiada todos os dias nas mídias sociais e nos canais de telecomunicação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E parte nos comove e em outra medida nos mostra nossa insensibilidade ou normalização em relação à violência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNS, 2019), no Brasil, um contingente de 29,1 milhões de pessoas sofreu violência física, psicológica ou sexual em 2019; a violência atingiu 19,4% das mulheres e 17,0% dos homens. Companheiros, ex-companheiros ou parentes são os principais agressores das mulheres que sofreram violência física (52,4%), psicológica (32,0%) e violência sexual (53,3%). O domicílio é o principal local da agressão das mulheres. A violência sexual gerou consequências psicológicas (60,2%), físicas (19,4%) e sexuais (5,0%) para as vítimas. A pesquisa mostra&nbsp;que a violência atinge mais as mulheres, os jovens, as pessoas pretas ou pardas e a população de menor rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O espírito da época contemporânea é atravessado por recursos tecnológicos e midiáticos que evoluíram sobremaneira nos últimos 50 anos. Isso não significa que os utilizamos de maneira adequada. No Brasil (IBGE, 2021), a sensação de vitimização média a alta para situações que envolvam fotos, vídeos ou conversas divulgadas na internet contra sua vontade foi maior para o grupo etário de 25 a 39 anos. Ou seja, a violência não se restringe a presença do agressor(a) no ambiente físico, virtualmente existem riscos que precisam ser mais bem estudados para aprendermos a nos proteger, criar regulamentações e políticas públicas necessárias. Tudo é novo e ao mesmo tempo velho, pois a violência não é algo novo, mas uma construção histórica e cultural.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-historicamente-a-violencia-contra-as-mulheres-foi-respaldada-pelos-contextos-religiosos-e-patriarcais-conforme-ensina-borges-2020" style="font-size:19px">Historicamente, a violência contra as mulheres foi respaldada pelos contextos religiosos e patriarcais, conforme ensina BORGES (2020):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A Idade Média foi considerada por muitos historiadores como a Idade das Trevas, uma época de muita perseguição religiosa, várias doenças e ataques entre povos, porém foi nessa época que as mulheres conquistaram acesso a grande parte das profissões e também ao direito de propriedade, porém subjugadas como podemos destacar no trecho do livro MALLEUS MALEFICARUM:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>[..] convém observar que houve uma falha na formação da primeira mulher, por ter sido ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela do peito, cuja curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão do homem. E como, em virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre decepciona e mente (KREMER, SPRENGER 1991, pag. 116).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As mulheres deste período eram muito desvalorizadas, pois a sociedade era toda centralizada na figura do homem, porém com as guerras, doenças e perseguições a expectativa de vida desse período tornou-se muito baixa. Decorrente desses fatos as mulheres tornavam-se viúvas de forma precoce, assim tinham que assumir como chefe de família. Entretanto, a participação das mulheres durante a Idade Média foi ainda mais concisa por meio de mulheres de destaque que estudaram em universidades e que participaram da vida política da época, exemplos como de Hilda de Whitby que fundou vários mosteiros e conventos pela Europa, da Duquesa da Aquitânia que lecionou e governou o feudo junto ao seu marido, e um dos maiores exemplos da história Joana D’arc.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Joana D’arc é uma das mais ilustres figura da história francesa, nasceu no período da Idade Média, em uma época bastante conturbada e sem muito espaço para manifestação do pensamento feminino. Essa valente figura rompeu com os paradigmas impostos pela sociedade, vestia roupas masculinas e possuía uma forte personalidade.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante dos dados expostos, fica evidente que a violência contra as mulheres é muito mais que apenas um problema cultural e localizado, mas uma inferência de que o corpo feminino é menos valioso que o masculino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-patente-que-a-mulher-vem-sendo-diminuida-enquanto-ser-humano-por-ser-taxada-de-suja-fragil-emocional-esses-dados-remontam-como-visto-acima-uma-trajetoria-de-milhares-de-anos" style="font-size:19px">É patente que a mulher vem sendo diminuída enquanto ser humano, por ser taxada de “suja”, “frágil”, “emocional”. Esses dados remontam, como visto acima, uma trajetória de milhares de anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A persistência da violência contra as mulheres no Brasil segue sendo uma das expressões mais alarmantes das desigualdades de gênero no país. Em mais um ano, os dados do sistema de saúde revelam números elevados de homicídios femininos e de agressões a mulheres, evidenciando a continuidade desse fenômeno estrutural. A despeito das políticas públicas implementadas nas últimas décadas e dos avanços normativos – como a atualização da Lei do Feminicídio (Lei nº 14.994), em 2024 –, a letalidade feminina, especialmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade, segue como um problema público grave, e que, só em 2023, matou quase 4 mil mulheres (IPEA, 2025). Isso representa 4 mulheres mortas diariamente em consequência do feminicídio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-de-conquista-feminina-no-pais-com-as-normativas-de-lei-do-feminicidio-e-lei-maria-da-penha-sao-muito-atuais-sendo-promulgadas-em-2006-e-2015-respectivamente" style="font-size:19px">A história de conquista feminina no país com as normativas de Lei do Feminicídio e Lei Maria da Penha são muito atuais, sendo promulgadas em 2006 e 2015, respectivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isso significa que, anteriormente a 2006, essas violências não eram tratadas como uma violência direcionada à mulher pelo simples fato de ser mulher. Infelizmente, o Brasil ainda é um país com muitas subnotificações, tornando os dados aproximados com relação aos abusos sofridos e às marcas deixadas ao longo dos anos. Cabe ainda, relembrar que durante o período escravista no Brasil, a Lei do Ventre Livre, que estabelecia que os filhos nascidos de mães escravas seriam livres foi promulgada em 28 de setembro de 1871, apenas 17 anos antes do fim da escravidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-falamos-de-uma-populacao-mais-vulneravel-falamos-especialmente-de-mulheres-pretas-ou-pardas-com-baixos-salarios-poucos-direitos-trabalhistas-acesso-a-bens-e-servicos-restritos-a-sua-condicao-economica-como-mulheres-nessas-condicoes-sao-assistidas-quando-em-condicoes-de-violencia-domestica-e-abusos-spivak-celebre-autora-argumenta-se-o-subalterno-pode-falar-se-ele-a-tem-voz-para-spivak-2010-p-13-14-o-termo-subalterno-refere-se-as-camadas-mais-baixas-da-sociedade-constituidas-pelos-modos-especificos-de-exclusao-de-mercados-da-representacao-politica-e-legal-e-da-possibilidade-de-se-tornarem-membros-plenos-no-estrato-social-dominante" style="font-size:19px">Quando falamos de uma população mais vulnerável, falamos especialmente de mulheres pretas ou pardas com baixos salários, poucos direitos trabalhistas, acesso a bens e serviços restritos a sua condição econômica. Como mulheres nessas condições são assistidas quando em condições de violência doméstica e abusos? Spivak, célebre autora, argumenta se o subalterno pode falar, se ele(a) tem voz? Para Spivak (2010, p. 13-14) o termo subalterno refere-se “às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão de mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-atlas-da-violencia-2025-fornece-um-retrato-alarmante-e-preciso-da-violencia-de-genero-no-brasil-mulheres-continuam-sob-grave-ameaca-especialmente-dentro-de-casa-com-impacto-diferenciado-sobre-mulheres-negras-e-jovens" style="font-size:19px">O <em><strong>Atlas da Violência 2025</strong></em> fornece um retrato alarmante e preciso da violência de gênero no Brasil: mulheres continuam sob grave ameaça, especialmente dentro de casa, com impacto diferenciado sobre mulheres negras e jovens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A combinação entre violência letal, formas não letais e subnotificação aponta para a urgência de ações políticas, legais e sociais mais eficazes, ampliando o alcance da proteção e atuando na prevenção desde o ambiente familiar até o contexto estrutural (IPEA, 2025).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre os mamíferos, os chimpanzés e humanos regularmente matam adultos de sua própria espécie. Também compartilham outros males, como assassinatos políticos, espancamentos e estupros. O estupro é um ato comum aos orangotangos machos e gorilas machos matam bebês com muita frequência, embora essa atitude não seja exclusiva dos primatas (Wrangham e Peterson, 1996).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pergunta-se-se-ha-algo-com-os-primatas-que-os-predispoe-a-violencia-e-aos-seres-humanos" style="font-size:19px">Pergunta-se se há algo com os primatas que os predispõe a violência? E aos seres humanos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-wrangham-e-peterson-1996-p-181-no-livro-o-macho-demoniaco-mostram-que-os-ataques-violentos-dos-chimpanzes-machos-contra-as-femeas-e-um-aspecto-sistematico-e-comum-os-autores-comparam-o-comportamento-dos-humanos-e-dos-chimpanzes-da-seguinte-forma-1-ambos-sao-casos-de-violencia-de-machos-contra-femeas-ou-homens-contra-mulheres-no-caso-humano-2-ambos-sao-exemplos-de-violencia-no-relacionamento-os-machos-conhecem-as-femeas-a-muito-tempo-membros-da-sua-comunidade-e-nao-havia-um-contexto-como-falta-de-comida-ou-aliancas-a-outros-grupos-para-justificar-o-comportamento-3-fatores-superficiais-desencadeiam-a-reacao-mas-a-questao-subjacente-e-o-controle-ou-a-dominacao-da-femea-pelo-macho" style="font-size:19px">Wrangham e Peterson (1996, p. 181) no livro “<strong>O macho demoníaco</strong>” mostram que os ataques violentos dos chimpanzés machos contra as fêmeas é um aspecto sistemático e comum. Os autores comparam o comportamento dos humanos e dos chimpanzés da seguinte forma: <strong>1)</strong> ambos são casos de violência de machos contra fêmeas, ou homens contra mulheres no caso humano; <strong>2)</strong> ambos são exemplos de violência no relacionamento &#8211; os machos conhecem as fêmeas a muito tempo, membros da sua comunidade e não havia um contexto como falta de comida ou alianças a outros grupos para justificar o comportamento; <strong>3)</strong> fatores superficiais desencadeiam a reação, mas a questão subjacente é o controle ou a dominação da fêmea pelo macho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os autores, pautados nas pesquisas com primatas, buscaram a associação entre a violência do macho/homem como fator biológico, instintivo e social. Entretanto, os próprios autores admitem que a complexidade do tema é maior que uma herança geracional, genética ou modulação de comportamentos ao longo da história. Se temos a maldição de um temperamento masculino demoníaco e uma capacidade maquiavélica para expressá-lo, somos também abençoados com uma inteligência que é capaz, através da sabedoria, afastar-nos do passado de grande primata. Se a inteligência é capaz de enxergar, a sabedoria é capaz de ouvir e ver ao longe, ou seja, a sabedoria é a perspectiva futura (WRANGHAM e PETERSON, 1996, p. 315).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-machismo-estrutural-resultado-do-patriarcado-e-a-subordinacao-da-mulher-as-necessidades-dos-homens-ao-longo-de-milenios-e-uma-base-importante-para-atitudes-violentas-e-possessivas-em-relacao-aos-corpos-femininos" style="font-size:19px">O machismo estrutural, resultado do patriarcado, e a subordinação da mulher às necessidades dos homens ao longo de milênios, é uma base importante para atitudes violentas e possessivas em relação aos corpos femininos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa construção de força masculina está mais vinculada à força física. Através da força, homens e animais machos imprimem abusos físicos, psicológicos e sexuais ao sexo oposto. Pensando na imagem arquetípica do masculino, esse seria o lado demoníaco do arquétipo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-2-245-254-menciona-em-sua-obra-a-persona-como-um-fragmento-da-psique-coletiva-comportamentos-ou-papeis-esperados-em-determinado-tempo-e-epoca-incluindo-os-papeis-de-homens-e-mulheres" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (OC 7/2, § 245-254) menciona em sua obra a <strong>persona</strong>, como um fragmento da psique coletiva, comportamentos ou papéis esperados em determinado tempo e época, incluindo os papéis de homens e mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esses papéis são construções sociais, influenciados pela história humana e sua evolução ao longo dos séculos. À medida que aumenta a influência do inconsciente coletivo, a consciência perde seu poder de liderança, e passa a se mover como uma peça de xadrez, à mercê do inconsciente. Esse colapso da consciência e domínio do inconsciente é desastroso ao indivíduo, ele perde o chão, desenraiza. Essa inundação pode ser refletida em paranoia e esquizofrenia, em excentricidade e atitude infantil, apartando-o da sociedade, ou entrando em um processo de restauração regressiva da persona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung, em seu livro “<strong>Aspectos do drama contemporâneo</strong>”, descreve as guerras europeias do século XX como uma onda de primitividade e violência, que seriam a manifestação de &#8220;poderes obscuros&#8221; que se intensificaram durante a Primeira Guerra e atingiram o auge na Segunda, em movimentos como o Nazismo e o Fascismo. Ele afirma que o &#8220;caos e a desordem do mundo&#8221; se refletem de forma semelhante na mente de cada pessoa, e que essa ausência de direção é equilibrada no inconsciente pelos &#8220;arquétipos da ordem&#8221;. A integração dos conteúdos inconscientes é apresentada como uma ação individual de concretização, compreensão e julgamento ético, que exige uma grande responsabilidade moral (§ 449-451).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-do-exposto-muitas-perguntas-ficam-em-suspenso" style="font-size:19px">Diante do exposto, muitas perguntas ficam em suspenso:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Quais complexos estão envolvidos nessa construção coletiva, que incide em diferentes tipos de violências? A violência e a necessidade de dominação podem ser atreladas a uma necessidade compensatória, busca-se dominar o outro na tentativa de se sentir superior? </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ousamos dizer que um estudo sobre o assunto seria muito rico e beneficiaria sobremaneira a humanidade. Entender essa necessidade de poder, especialmente em relação às mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma pesquisa sobre o perfil dos agressores presos em flagrante mostra que são homens adultos jovens em maior percentual, com baixa escolaridade, possuíam uma ocupação e havia relato de passagens pela polícia anteriormente em aproximadamente 30% dos casos, incluindo a própria violência doméstica. É interessante que o tipo de violência se caracteriza de forma distinta em relação ao consumo de substâncias: os agressores que consumiram somente álcool praticam mais violência física (39,7%); os que ingeriram álcool e drogas associados perpetraram mais violência psicológica (30%); e os usuários de drogas isoladas cometeram mais a psicológica (75%) &#8211; (MADUREIRA, et. al., 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estudo feito no Maranhão observou que os atos violentos foram praticados majoritariamente por indivíduos que não têm mais relações afetivas com as vítimas e entre as motivações para a violência destacam-se o inconformismo com o fim da relação, ciúmes, dentre outros (BEZERRA e RODRIGUES, 2021). Em grande parte dos casos, as violências contra a mulher são cometidas no ambiente doméstico, na frente dos filhos, gerando impactos na saúde emocional e psíquica de toda a família (LEITE, et. al., 2015).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-um-ditado-popular-que-diz-violencia-gera-mais-violencia" style="font-size:19px">Existe um ditado popular que diz “<strong>violência gera mais violência</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em ciclos repetitivos de vitimização e agressão, com trocas de papéis ao longo da vida e a reprodução de padrões de conduta, de forma sistêmica. Enquanto não ocorre uma quebra, um repensar, não há mudanças significativas. A relação entre vítima e agressores gera polaridades, e movimentos internos compensatórios se manifestam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-conto-brilhante-que-trabalha-essa-questao-chama-se-barba-azul" style="font-size:19px">Um conto brilhante que trabalha essa questão chama-se Barba Azul. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O <strong>Barba Azul</strong> seduz mulheres, casa com elas e depois as mata, jogando seus restos mortais no porão.Sua tática de sedução, afinal ele não é tão atraente assim, é o poder e dinheiro. Ele conquista a moça e sua família mostrando suas propriedades, seu conforto e o padrão de vida que a moça terá sob sua tutela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até que um dia ele avisa que tem uma única sala que não pode ser aberta, senão a mataria. E não por acaso, ele entrega todas as chaves da casa para ela enquanto viaja (intencional? Perverso?). Quando volta e descobre que o porão foi aberto num arroubo de curiosidade da mulher, avisa que ela irá morrer. Ela, espertamente, usa de suas habilidades para enrolar o Barba Azul enquanto chama seus irmãos para ajudá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No fim, Barba Azul é morto e despedaçado, e seus pedaços espalhados pelos cantos do mundo. Note que ele nunca é eliminado de vez, ele fica espalhado, com menos energia psíquica, mas está lá, em algum lugar internamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Estudos observam que o manejo do trauma ocorre de maneira mais eficiente para pessoas que usaram de suas habilidades para escapar, se salvar ou resolver a situação</strong>. Quando entram em estado mais passivo ou letárgico, o trauma se instala com uma profundidade maior (LEVINE, 2022). Essa é a ideia do conto do Barba Azul. A única esposa que sobreviveu foi a que teve uma atitude, que lutou para sobreviver com inteligência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Cabe observar ainda, que nesse conto, demonstra-se uma dinâmica psíquica de agressor-vítima, em que a vítima em determinado momento passa a se identificar com o agressor, de forma a permanecer no relacionamento ainda que seja abusivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-esse-assunto-kast-2022" style="font-size:19px">Sobre esse assunto, Kast (2022):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tal &#8220;identificação com o agressor&#8221; é também um conhecido mecanismo de defesa ou de enfrentamento: quando temos medo de alguém, podemos assumir seu ponto de vista, traindo a nós mesmos no processo e assim estabilizando temporariamente nossa autoestima, pois fingimos estar de acordo com o mais forte – nós nos identificamos com o agressor.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-compele-se-dizer-que-as-razoes-que-mantem-as-vitimas-em-relacionamentos-sao-muitas-a-principal-delas-e-a-falta-de-independencia-financeira-contudo-o-agressor-se-nutre-do-medo-da-vitima-numa-tentativa-de-manter-o-controle-em-uma-relacao-desigual" style="font-size:19px">Compele-se dizer que as razões que mantém as vítimas em relacionamentos são muitas. A principal delas é a falta de independência financeira. Contudo, o agressor se nutre do medo da vítima, numa tentativa de manter o controle em uma relação desigual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-significativo-para-pensarmos-essa-questao-seria-a-relacao-de-codependencia-que-se-estabelece-entre-agressores-e-vitimas" style="font-size:19px">Outro ponto significativo para pensarmos essa questão seria a relação de codependência que se estabelece entre agressores e vítimas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Muitas pessoas incorporam uma entidade <strong>salvadora</strong>, capaz de redimir o outro(a) de seus desvios de conduta, como se o seu amor fosse suficiente para a mudança do outro(a). Na verdade, estamos em nossa jornada de autoconhecimento e precisamos nos ver com nossos aspectos sombrios, que nos atravessam para nos ensinar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-temos-em-jogo-sao-carencias-afetivas-e-complexos-constelados-que-nos-aprisionam-a-situacoes-que-nao-sao-saudaveis" style="font-size:19px">O que temos em jogo são carências afetivas e complexos constelados que nos aprisionam a situações que não são saudáveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relação aos homens, o que não pertence à consciência masculina (o não “eu”) é sentido como se não pertencesse ao eu, por isso, a imagem da <em>anima</em> (contraparte feminina) é projetada nas mulheres. Os índices de divórcios cada vez maiores apontam que essa projeção no sexo oposto, ocasiona relacionamentos complicados (JUNG, 9/1, § 61).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <strong><em>anima</em> </strong>é o arquétipo do significado ou sentido, o arquétipo da vida (JUNG, 9/1, § 66). Um homem que se priva de entrar em contato com seu aspecto psíquico feminino está desalmado e sem vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-poder-esta-muito-vinculada-a-imagem-de-homem-em-uma-sociedade-patriarcal-que-estabeleceu-ha-milhares-de-anos-uma-relacao-de-subordinacao-do-corpo-feminino-e-sua-capacidade-reprodutiva" style="font-size:19px">A ideia de poder está muito vinculada à imagem de homem em uma sociedade patriarcal, que estabeleceu há milhares de anos uma relação de subordinação do corpo feminino e sua capacidade reprodutiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Construiu-se uma divisão sexual, social e do trabalho entre homens e mulheres, delegando às mulheres os trabalhos tido como inferiores e menos valorizados, simbolizando seu papel na hierarquia social (BOURDIEU, 2024). Esse complexo cultural que atravessa gerações permeia o inconsciente coletivo traçando relações injustas entre os dois sexos ainda nos dias de hoje. Em nossa sociedade o que faz um homem ser considerado forte? Ter dinheiro, poder e mulheres, ou seja, ele precisa “possuir”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por outro lado, os homens expõem sua vulnerabilidade e sentimentos com muito mais facilidade para as mulheres do que entre os amigos. É compreensível que a população mais vulnerável estude sobre os seus “opressores”, para entender melhor o fenômeno e traçar formas de resistência. Isso significa que as mulheres estavam muito mais atentas aos homens do que o inverso, por uma questão de necessidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-submissao-das-mulheres-e-construida-ao-longo-de-todo-um-trabalho-de-socializacao-um-trabalho-que-tende-a-diminui-las-nega-las-fazem-parte-das-virtudes-negativas-da-abnegacao-resignacao-e-do-silencio-feminino" style="font-size:19px">A ideia de submissão das mulheres é construída ao longo de todo um trabalho de socialização. Um trabalho que tende a diminuí-las, negá-las, fazem parte das virtudes negativas da abnegação, resignação e do silêncio feminino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao mesmo tempo, aprisionam os homens em uma <em>persona</em> de domínio e os obrigando a afirmar sua virilidade. A virilidade entendida como a capacidade reprodutiva, sexual e social, aptidão ao combate e ao exercício da violência são uma carga ou cilada. Às mulheres fica relegada a fragilidade, a astúcia diabólica e a magia. Como a honra e a vergonha estão ligadas a virilidade masculina, práticas sexuais violentas como visita coletiva a bordeis, estupros coletivos realizados por adolescentes são formas de provar sua condição de homem (BOURDIEU, 2024, p. 86-91).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Bourdieu explana que o que chamamos de coragem tem suas raízes na covardia ou medo de ser excluído do mundo dos homens tidos como fortes, e para comprová-lo, atos como matar, torturar e violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão estão relacionados. A virilidade é uma noção relacional, construída diante dos outros homens, para os homens e contra a feminilidade, em uma espécie de medo do feminino, construída dentro de si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-contra-mulheres-e-feminicidio-provocados-pelos-homens-nos-dias-atuais-podem-ser-um-reflexo-dessa-persona-coletiva-de-um-masculino-toxico-e-ferido-em-sua-construcao-social-de-virilidade" style="font-size:19px">A violência contra mulheres e feminicídio provocados pelos homens nos dias atuais podem ser um reflexo dessa persona coletiva de um masculino tóxico e ferido em sua construção social de virilidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É comum esse tipo de ato ocorrer após o término de um relacionamento ou durante a tentativa de finalizar um ciclo de violência já estabelecido na família.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Atualmente, observamos uma crise do masculino, não coincidentemente após a legalização e aumento dos divórcios e o aumento de mulheres no mercado de trabalho, garantindo recursos financeiros e independência. Em consequência, ocorre um fenômeno sem precedentes: o aumento de mulheres chefiando os lares brasileiros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-grafico-01-numero-de-domicilios-pelo-sexo-do-responsavel-brasil" style="font-size:16px"><strong>Gráfico 01:</strong> Número de domicílios pelo sexo do responsável, Brasil.</h2>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" width="884" height="500" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png" alt="" class="wp-image-11518" style="aspect-ratio:1.768018416858509;width:552px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png 884w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-300x170.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-768x434.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-450x255.png 450w" sizes="(max-width: 884px) 100vw, 884px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: IBGE, <a href="https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6788">Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-patriarcal-aprisiona-mulheres-e-homens-criando-expectativas-personas-a-serem-alcancadas-gerando-empecilhos-para-um-crescimento-e-amadurecimento-mutuo-em-relacoes-mais-equitativas-e-menos-opressoras-para-ambos" style="font-size:20px">Essa estrutura patriarcal aprisiona mulheres e homens, criando expectativas (personas) a serem alcançadas, gerando empecilhos para um crescimento e amadurecimento mútuo, em relações mais equitativas e menos opressoras para ambos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Não se questiona os papéis se não houver um atravessamento ou incômodo por alguma das partes. Entretanto, mudanças não ocorrem de forma unilateral. Precisam envolver diversos atores, homens e mulheres em trabalho conjunto. O mundo está mudando porque as pessoas mudam e se transformam. As imagens de homens e mulheres estão sendo revistas, gerando conflitos entre os que querem conservar o que se entende por imagem de família, apegados a estruturas que não funcionam mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-arriscariamos-dizer-que-a-base-dos-conflitos-politicos-atuais-estao-calcados-nessa-polaridade-o-desejo-de-mudanca-e-conservacao-coexistindo-e-em-confronto-ao-mesmo-tempo-felizmente-os-movimentos-e-mudancas-sociais-estao-em-constante-fluxo-nao-conseguimos-impedir-o-curso-da-vida-e-da-alma" style="font-size:20px">Arriscaríamos dizer que a base dos conflitos políticos atuais estão calcados nessa polaridade: o desejo de mudança e conservação coexistindo e em confronto ao mesmo tempo. Felizmente, os movimentos e mudanças sociais estão em constante fluxo. Não conseguimos impedir o curso da vida e da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como mulheres e como analistas junguianas, não podemos ignorar as questões sociais de nosso tempo. A violência não é um fenômeno isolado — ela é coletiva, sistêmica, e nos atravessa em múltiplos níveis. Quando uma mulher sofre abusos físicos, psicológicos ou patrimoniais, todo o sistema ao seu redor é afetado. Somos parte de uma grande psique coletiva, que se manifesta em nossas individualidades. Cada ferida aberta em uma mulher reverbera em todas nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-michella-cechinel-reis-analista-em-formacao-pelo-ijep" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/"><strong>Paula de Azevedo Bernardi Peñas</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi</strong> &#8211; <strong>Analista Didata do IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Tapa de amor dói sim!" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/x36klunNvN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BEZERRA, A.R.; RORIGUES, Z.M.R. Violência contra as mulheres: o perfil da vítima e do agressor em São Luís-MA. Revista do Departamento de Geografia, v. 41, e176806, 2021. Disponível em: [https://revistas.usp.br/rdg/article/view/176806]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORGES, José Carlos. A mulher e suas concepções históricas. 2020. RC:52704. Disponível em: <a href="https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas">https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas</a>. Acesso em: 10.nov.2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOURDIEU, P. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. 23 ed. Rio de Janeiro: Difel, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019). Pesquisa Nacional de Saúde: acidentes, violências, doenças transmissíveis, atividade sexual, características do trabalho e apoio social. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, [Ministério da Saúde].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2021). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: vitimização &#8211; sensação de segurança. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CERQUEIRA, Daniel; BUENO, Samira (coord.). Atlas da Violência 2025. Brasília: Ipea; FBSP, 2025. Disponível em:<a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025"> </a><a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025">https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025</a>. Acesso em: 10 ago. 2025.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-c-g-o-eu-e-o-inconsciente-dois-escritos-sobre-psicologia-analitica-27-ed-rio-de-janeiro-vozes-2015" style="font-size:16px">JUNG, C.G. O eu e o inconsciente: dois escritos sobre psicologia analítica. 27 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2015.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Aspectos do drama contemporâneo: civilização em mudança. 5 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petropolis, RJ: Vozes, 2014, reimpressão 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: Viva sua própria vida. Ed. Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEITE, F. M. C. et al. Violência contra a mulher: caracterizando a vítima, a agressão e o autor. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, v. 7, n. 1, p. 2181-2191, 2015. Disponível em: [https://www.redalyc.org/pdf/5057/505750945029.pdf]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEVINE, P.A. O despertar do tigre: curando o trauma. 5 ed. São Paulo, Summus, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MADUREIRA, A.B.; et. al. Perfil de homens autores de violência contra mulheres detidos em flagrante: contribuições para o enfrentamento. Esc Anna Nery 2014;18(4):600-606. DOI: 10.5935/1414-8145.20140085.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">WRANGHAM, R.; PETERSON, D. O macho demoníaco: as origens da agressividade humana. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Ensaio sobre a Enxaqueca mais famosa do mundo: O dia em que Zeus pariu Atena</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ensaio-sobre-a-enxaqueca-mais-famosa-do-mundo-o-dia-em-que-zeus-pariu-atena/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula de Azevedo Bernardi Peñas]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 06 Sep 2025 14:11:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[atena]]></category>
		<category><![CDATA[enxaqueca]]></category>
		<category><![CDATA[zeus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: A famosa enxaqueca de Zeus seria equiparada hoje, ao gestar de uma ideia. Percebe-se que ele vive internamente o conflito de gestar em sua cabeça uma mulher, com atributos femininos, mas que também incorpora aspectos do masculino bélico do pai. Quando adentramos mais profundamente na simbologia, vemos que os deuses do Olimpo não estão [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><em><strong>Resumo</strong>: A famosa enxaqueca de Zeus seria equiparada hoje, ao gestar de uma ideia. Percebe-se que ele vive internamente o conflito de gestar em sua cabeça uma mulher, com atributos femininos, mas que também incorpora aspectos do masculino bélico do pai.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><em>Quando adentramos mais profundamente na simbologia, vemos que os deuses do Olimpo não estão imunes aos problemas mundanos, como as dúvidas, as emoções e até mesmo as doenças e as dores. Nesse caso particular, vê-se que Zeus tenta eliminar qualquer possibilidade de ser destronado, ou seja, numa disputa por poder tenta eliminar o feminino. O feminino aqui foi representado pela titânide, Métis (deusa da prudência). Contudo, ao engoli-la ele parece absorver esse lado que ele próprio repulsava. No momento da guerra com os Gigantes, parece pertinente ter-se um pouco de prudência.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-ensaio-se-propoe-a-apresentar-algumas-possibilidades-teoricas-para-a-afeccao-que-afeta-provavelmente-um-bilhao-de-pessoas-no-mundo-moderno-a-enxaqueca" style="font-size:20px">Esse ensaio se propõe a apresentar algumas possibilidades teóricas para a afecção que afeta provavelmente um bilhão de pessoas no mundo moderno: a enxaqueca.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Para que demonstremos a teoria, precisamos inicialmente, estudar o mito em questão. Sendo assim, Junito de Souza Brandão explica:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">“Zeus travava uma dura batalha contra os Gigantes, quando sua primeira esposa, Métis, ficou grávida. A conselho de Úrano e Geia, o futuro senhor do Olimpo a engoliu, pois, segundo a predição do primeiro casal primordial, se Métis tivesse uma filha e esta um filho, o neto arrebataria o poder supremo ao avô.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Completada a gestação normal de Atená<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a>, Zeus começou a ter uma dor de cabeça que por pouco não o enlouquecia. Não sabendo do que se tratava, ordenou a Hefesto, o deus das forjas, que lhe abrisse o crânio com um machado. Executada a operação, saltou da cabeça do deus, vestida e armada com uma lança e a égide, dançando a pírrica (dança de guerra, por excelência), a grande deusa Atená.<br>[&#8230;]<br>Tão logo saiu da cabeça do pai, soltou um grito de guerra e se engajou ao lado do mesmo na luta contra os Gigantes, matando a Palas e Encédalo. [&#8230;]<br>Atená é a deusa virgem de Atenas e é, por isso mesmo, que o seu templo gigantesco na Acrópole se denomina até hoje [&#8230;], o Partenón, já que, em grego, virgem se diz [&#8230;] (parthénos). ” (BRANDÃO, 2014, p. 90, 91)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-embora-o-mito-relatado-por-brandao-seja-por-si-so-suficiente-para-a-analise-com-a-intencao-de-enriquecer-a-discussao-cabem-tambem-observar-algumas-observacoes-de-bolen" style="font-size:20px">Embora o mito relatado por Brandão seja por si só suficiente para a análise, com a intenção de enriquecer a discussão, cabem também observar algumas observações de <strong>Bolen</strong>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">“Quando Atenas era retratada com outra pessoa, a outra era invariavelmente alguém do sexo masculino. Por exemplo, era vista perto de Zeus na atitude de um guerreiro de sentinela para se rei.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">[&#8230;]</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">As habilidades bélicas e domésticas associadas com Atenas envolvem planejamento e execução, atividades que requerem pensamento intencional. A estratégia, o aspecto prático e resultados tangíveis são indicações de qualidades e legitimidade de sua sabedoria própria. Atenas valoriza o pensamento racional e é pelo domínio da vontade e do intelecto sobre o instinto e a natureza. Sua vitalidade é encontrada na cidade; para Atenas (em contraste com Ártemis), a selva deve ser subjulgada e dominada. ” (BOLEN, 1990, p. 117)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Ainda nesse diapasão, a autora segue “<strong><em>Em algumas versões seu parto assemelha-se a uma operação cesariana dolorosa – Zeus foi atormentado por dor de cabeça torturante originária do ‘parto’ e foi ajudado por Hefesto</em></strong>[&#8230;]”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-acerca-do-simbolismo-que-envolve-a-deusa-atena-bolen-1990-p-117-118-desenvolve" style="font-size:20px">Acerca do simbolismo que envolve a deusa Atená, Bolen (1990, p. 117, 118) desenvolve:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">“Atenas considerava-se portadora de um só genitor, Zeus, com quem esteve associada para sempre. Foi o braço direito de seu pai, a única deusa olímpica a quem ele confiou seu raio égide, símbolos de seu poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A deusa não conheceu sua mãe, Métis, Na verdade Atenas parecia não ter consciência de que tinha mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">[&#8230;]</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Quando Métis estava grávida de Atenas, Zeus a enganou, tornando-a pequenininha e a engoliu. Foi profetizado que Métis teria dois filhos muito especiais: uma filha igual a Zeus em coragem e sábia resolução, e um filho, um rapaz de coração totalmente cativante, que se tornaria rei dos deuses e dos homens. Ao engolir Métis, Zeus contrariou o destino e assumiu o controle dos atributos dela como se fossem seus. ”</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Seguindo na mesma linha de pensamento, <strong>Bolen</strong> (1990, p. 119), continua: “<strong><em>Além de patrocinar os heróis individuais e de ser a deusa olímpica mais próxima a Zeus, Atenas tomou o partido da patriarquia</em></strong>. ”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Diante desses relatos, pode-se perceber que a famosa <strong>enxaqueca de Zeus</strong> seria equiparada hoje, ao gestar de uma ideia. Percebe-se que ele vive internamente o conflito de gestar em sua cabeça uma mulher, com atributos femininos, mas que também incorpora aspectos do masculino bélico do pai.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-adentramos-mais-profundamente-na-simbologia-vemos-que-os-deuses-do-olimpo-nao-estao-imunes-aos-problemas-mundanos-como-as-duvidas-as-emocoes-e-ate-mesmo-as-doencas-e-as-dores" style="font-size:20px">Quando adentramos mais profundamente na simbologia, vemos que os deuses do Olimpo não estão imunes aos problemas mundanos, como as dúvidas, as emoções e até mesmo as doenças e as dores.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Nesse caso particular, vê-se que <strong>Zeus tenta eliminar qualquer possibilidade de ser destronado, ou seja, numa disputa por poder tenta eliminar o feminino</strong>. Este aqui foi representado pela titânide, <strong>Métis</strong> (deusa da prudência). Contudo, ao engoli-la ele parece absorver esse lado que ele próprio repulsava. No momento de guerra com os Gigantes, parece pertinente ter-se um pouco de prudência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">É possível compreender, a partir do estudo da Psicologia Analítica que esse momento mitológico traz um importante avanço, ensinando que a psique ainda que identificada com uma energia masculina no exterior, considerando que Zeus era um deus identificado com o gênero masculino, guarda em si, no inconsciente uma energia feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Sobre esse assunto, em o casamento como relacionamento psíquico<a id="_ftnref2" href="#_ftn2">[2]</a>, <strong>Jung </strong>responde a questão escolástica: <em>Habet mulier animam</em> (A mulher tem alma?), Jung define a natureza dos dois princípios quando responde “<em><strong>A mulher não tem anima, mas animus. A anima é de índole erótica e emocional, enquanto que o animus é de caráter raciocinador</strong></em>” (JUNG, 2019, p. 83).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-carater-inextricavel-e-mutavel-dos-conceitos-de-animus-e-anima-e-ressaltado-por-jung-2015-p-101-bem-como-sua-definicao-enquanto-complexos" style="font-size:20px">O caráter inextricável e mutável dos conceitos de <em>animus</em> e <em>anima</em> é ressaltado por Jung (2015, p. 101), bem como sua definição enquanto complexos:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">“Essas duas figuras crepusculares, do fundo escuro da psique, a <em>anima</em> e o <em>animus</em> (verdadeiros e semigrotescos “guardiões do umbral”, para usar o pomposo vocabulário teosófico), podem assumir numerosos aspectos, que encheriam volumes inteiros. Suas complicações e transformações são ricas como o próprio mundo, e tão extensas como a variedade incalculável do seu correlato consciente, a persona. Habitam uma esfera de penumbra, e dificilmente percebemos que ambos, <em>anima</em> e <em>animus</em>, são complexos autônomos que constituem uma função psicológica do homem e da mulher. Sua autonomia e falta de desenvolvimento usurpa, ou melhor, retém o pleno desabrochar de uma personalidade. ” (JUNG, 2015, p. 101)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">De pronto, Jung ensina, portanto, que o <strong>animus</strong> é um complexo funcional presente na mulher. Tal complexo estaria contido no inconsciente, e seria o aspecto inverso da personalidade externa. Dessa forma, o <em>animus</em> se apresenta como o princípio masculino na mulher. Jung (2015, p. 98), explica que “<strong><em>O animus não se apresenta como uma pessoa, mas como uma pluralidade de pessoas</em></strong>. ”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Diante do conceito de <strong>animus</strong> como uma pluralidade de pessoas, ele explicita que essas seriam todas figuras masculinas, “<strong><em>O animus parece uma assembleia de pais e outras autoridades, que formulam opiniões incontestáveis e “racionais”, ex cathedra</em></strong>. ” JUNG (2015, p. 98)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Ainda para Jung (2015, p. 100) “<strong><em>O animus é uma espécie de sedimento de todas as experiências ancestrais da mulher em relação ao homem, e, mais ainda, é um ser criativo e engendrador, não na forma da criação masculina</em></strong>. ”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Para completar o material exposto por Jung, sua esposa, Emma Jung, editou um livro após a morte do marido, intitulado <strong><em>Animus</em> e <em>Anima</em></strong>. Neste livro, <strong>Emma Jung</strong> traz conceitos relevantes para nossa análise. Sendo assim, ensina Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">“Estas duas figuras – uma é masculina, a outra feminina – foram denominadas de <em>animus</em> e <em>anima</em> por Jung. Ele entende aí um complexo funcional que se comporta de forma compensatória em relação à personalidade externa, de certo modo uma personalidade interna que apresenta aquelas propriedades que faltam à personalidade externa, consciente e manifesta. São características femininas no homem e masculinas na mulher que normalmente estão sempre presentes em determinada medida, mas que são incômodas para a adaptação externa ou para o ideal existente, não encontrando espaço algum no ser voltado para o exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O caráter dessas duas figuras não é, entretanto, determinado apenas pela respectiva estruturação no sexo oposto, sendo condicionado ainda pelas experiências que cada um traz em si do trato com indivíduos do sexo oposto no decurso da vida e através da imagem coletiva que o homem tem da mulher e a mulher do homem. ” (2006, p. 15,16)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entende-se-portanto-a-importancia-do-gestar-de-zeus" style="font-size:20px">Entende-se, portanto, a importância do “gestar” de Zeus.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A representação psíquica de absorver uma titânide e gestar, na cabeça, faz com que seja possível inferir que ele tenha desenvolvido uma <em>anima</em>. Chama atenção que ele tenha gestado, de todos os lugares possíveis, na cabeça. Esta aqui associada popularmente ao lugar físico da mente. Ou seja, ele incorporou em si as ideias de prudência, de feminino, de moderação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Para além disso, devemos observar o “crescimento” dessa deusa dentro dele, os impactos dessa gestação. Ser criada dentro do pai, gestada como uma ideia, e sem um referencial de mãe, fez com que ela nascesse uma “filha do pai”. Atena desde seu nascimento (pouco convencional) já nasce armada para a luta, e de pronto, já parte para a batalha. Os impactos na construção da psique dela por ter sido gestada em seu pai, lhe dão também atributos masculinos, sendo constantemente representada ao lado de outras figuras masculinas e como uma “patrona de heróis”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-proposta-desse-ensaio-no-entanto-e-discutir-esse-episodio-do-parto" style="font-size:20px">A proposta desse ensaio, no entanto, é discutir esse episódio do <strong>parto</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Se pensarmos na enxaqueca como um “trabalho de parto” com uma dor que vai e vem em ondas, tal qual as contrações como são relatadas, podemos pensar simbolicamente suas contribuições. Quando temos uma dor de cabeça tão intensa, que tal qual Zeus, parece que só passaria com uma marretada bem aplicada, o que estamos “parindo”? O que é capaz de surgir de tal sofrimento? Quando pensamos num parto de um bebê, ao fim das dores do parto, a mãe sairá com um bebê no colo. Então, o que ganhamos ao final de uma enxaqueca?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-pensarmos-a-enxaqueca-como-uma-tentativa-de-voltar-ao-estado-interno-de-homeostase-o-que-estamos-internamente-combatendo-quais-lutas-atena-esta-travando-em-nos-o-que-essa-busca-por-espaco-feminino-esta-comunicando" style="font-size:20px"><strong>Se pensarmos a enxaqueca como uma tentativa de voltar ao estado interno de homeostase, o que estamos internamente combatendo? Quais lutas Atena está travando em nós? O que essa busca por espaço feminino está comunicando?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A resposta para cada uma dessas perguntas é individual e intransferível, afinal somos seres singulares e subjetivos. A ideia aqui foi apenas problematizar as razões pelas quais nossa sociedade moderna sofre tanto com essas dores.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Ensaio sobre a Enxaqueca mais famosa do mundo: O dia em que Zeus pariu Atena" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/a8dFaYVvyRU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/paula-penas/">Paula de A. Bernardi Peñas &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário Mítico-Etimológico. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOLEN, Jean Shinoda. <em>As deusas e a mulher</em>. Nova psicologia das mulheres. São Paulo: Paulus,1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Aspectos do feminino</em>. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Emma. <em>Animus e Anima</em>. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Alguns autores referem como Atena, outros como Atená.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Excertos retirados de Carl Gustav Jung. O desenvolvimento da personalidade [OC,17], publicado pela primeira vez em 1925.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/ensaio-sobre-a-enxaqueca-mais-famosa-do-mundo-o-dia-em-que-zeus-pariu-atena/">Ensaio sobre a Enxaqueca mais famosa do mundo: O dia em que Zeus pariu Atena</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O mito de Perséfone e o chamado da alma no casamento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-mito-de-persefone-e-o-chamado-da-alma-no-casamento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula de Azevedo Bernardi Peñas]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 May 2025 12:59:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[perséfone]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Com essa narrativa, podemos ver o espanto e o reconhecimento ocasionado pela Coré. Uma menina doce, infantilizada, que colhia flores de forma ingênua. No mito, Coré aparece como uma nítida: &#8220;filha da mãe&#8221;. Ou seja, uma donzela, cuidada e nutrida somente pela mãe, alheia aos desafios da vida e do precipício do inconsciente. Contudo, [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-mito-de-persefone-e-o-chamado-da-alma-no-casamento/">O mito de Perséfone e o chamado da alma no casamento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Resumo</strong>: <strong>Com essa narrativa, podemos ver o espanto e o reconhecimento ocasionado pela Coré. Uma menina doce, infantilizada, que colhia flores de forma ingênua. No mito, Coré aparece como uma nítida: &#8220;filha da mãe&#8221;. Ou seja, uma donzela, cuidada e nutrida somente pela mãe, alheia aos desafios da vida e do precipício do inconsciente. Contudo, no momento do rapto, ao abandonar a antiga vida, vai ao encontro do profundo, das trevas, do invisível. Uma possível leitura dessa profundidade é dizer que ela vai ao encontro da alma. E essa foi a função decisiva do mito. Hades raptou Coré. E, com isso, ela passou de donzela à rainha das trevas. De menina à mulher. De criança à senhora.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A proposta do presente ensaio não é compreender ou absorver a totalidade do mito, conquanto tal missão seria impossível e infrutífera. Berry ensina: “<strong>Não há caminho para <em>fora</em> de um mito – apenas um caminho mais profundamente dentro dele</strong>” (2014, p. 37).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-proposta-aqui-e-convida-los-a-uma-possivel-compreensao-do-mito-de-persefone-a-partir-de-uma-perspectiva-pouco-estudada-a-dela-propria" style="font-size:19px">A proposta aqui é convidá-los a uma possível compreensão do mito de Perséfone a partir de uma perspectiva pouco estudada: a dela própria.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quando refletimos sobre e ampliamos um mito, inevitavelmente esbarramos em outros mitos, outros personagens importantes, e em um aspecto relacional. O herói ou heroína normalmente se relacionam com outros personagens, sem os quais o mito não teria qualquer relevância. Nesse ensaio, não pretendo ressaltar os sentimentos de Deméter sobre o rapto da filha, mas sim, a perspectiva da raptada diante do arrebatamento do casamento. Ressalva-se, contudo, que a perspectiva apresentada aqui não é a única possível, e muito menos visa limitar a compreensão do mito, dado seu caráter arquetípico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O conceito de <strong>arquétipo</strong> é fundamental para a compreensão da Psicologia Analítica. O termo não foi cunhado por Carl Gustav Jung, mas foi utilizado por este para definir os moldes psíquicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-2014-p-81-em-oc-8-2-280-nbsp-nbsp" style="font-size:19px">Para Jung (2014, p. 81), em OC 8/2, § 280:&nbsp;&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><em>“Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de apreensão que se repetem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer reconheçamos ou não seu caráter mitológico. ”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Dito isto, o objetivo é trabalhar esse convite ao inconsciente que se apresenta com a <em>coniunctio </em>desse casamento divino. Há muitas narrativas acerca do mito de Perséfone.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-dar-contornos-a-narrativa-vamos-observar-os-pontos-cruciais-do-mito-a-partir-da-compreensao-de-brandao-ensina-brandao-2014-p-504" style="font-size:19px">Para dar contornos à narrativa, vamos observar os pontos cruciais do mito, a partir da compreensão de Brandão. Ensina Brandão (2014, p. 504)</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“Filha de Zeus e Deméter, [&#8230;] Coré (v.) ou Perséfone crescia feliz entre as ninfas em companhia de Ártemis e de Atená, quando um dia seu tio Hades, que a desejava, a raptou com o beneplácito e auxílio de Zeus. O local varia muito de acordo com as tradições: o mais “acertado” seria dizer que foi na pradaria de Ena, na Sicília [&#8230;]. ”</em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Cabe fazer uma consideração acerca das relações familiares nas divindades gregas e romanas. O grau de parentesco entre eles não impacta as relações de casamento, afetivas ou sexuais. Muitos mitos foram passados de forma oral de pais para filhos, então os registros com relação aos familiares diretos não são bem traçados. O fato de Hades ser tio de Perséfone nada impede o casamento, do ponto de vista grego.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-incrementar-a-narrativa-leremos-a-cena-a-partir-dos-olhos-de-calasso" style="font-size:19px">Para incrementar a narrativa, leremos a cena a partir dos olhos de Calasso:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“No lugar em que os cães não conseguem seguir a pestilência por causa do violento perfume das flores, num prado sulcado pela água, que se eleva nas margens para depois se precipitar entre rochas íngremes, no umbigo da Sicília, perto de Enna, ocorreu o rapto de Coré. No momento em que a terra se abriu e apareceu a quadriga de Hades, Coré estava observando o narciso. Observava o olhar. Estava a ponto de colhê-lo. Coré foi então raptada pelo invisível rumo ao invisível. Coré não significa apenas “donzela”, mas também “pupila”. E a pupila, como disse Sócrates a Alcibíades, é “a parte mais excelente do olho”, não apenas porque é “aquela que vê”, mas porque é aquela onde quem olha encontra, no olho do outro, “o simulacro de quem olha”. E se, como queria Sócrates, a máxima délfica do “conhece-te a ti mesmo” só pode ser entendida se for traduzida por “olha para ti mesmo”, a pupila se torna o único meio para a consciência de si. Coré observa o amarelo “prodígio” do narciso. Mas por que esta flor amarela, que adorna ao mesmo tempo as guirlandas de Eros e dos mortos, é tão prodigiosa? O que as diferencia das violetas, dos açafrões, dos jacintos que enchiam o prado vizinho da região de Enna? Narciso é também o nome de um jovem que se perdeu ao olhar-se a si mesmo.</em><br><br><em>Coré, a pupila, estava, portanto no umbral de um olhar em que teria visto a si própria. Estava estendendo a mão para colher aquele olhar. Mas irrompeu Hades. E Coré foi colhida por Hades. Por um instante, o olhar de Coré teve de desviar-se do narciso e encontrar-se com o olho de Hades. A pupila da Pupila foi acolhida por uma semelhante, na qual viu a si própria. E aquela pupila pertencia ao invisível.</em><br><em>Houve quem escutasse um grito naquele momento. Mas o que significava aquele grito? Era apenas o terror de uma donzela raptada por um desconhecido? Ou foi o grito de um reconhecimento irreversível?</em><br><br><em>Alguns poetas antigos insinuaram que Perséfone experimentou um “funesto desejo” de ser raptada, que se uniu com um “pacto de amor” ao rei das trevas, que expôs sem peias ao contágio de Hades. Coré viu a si mesma na pupila de Hades. Reconheceu no olho que observa a si mesmo o olho de um invisível outro. Reconheceu pertencer àquele outro. Superou naquele momento a fronteira que estava prestes a superar enquanto observava aquele narciso. Era o umbral do Elêusis.”</em></p><cite>(1990, p. 145-146)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Com essa narrativa, podemos ver o espanto e o reconhecimento ocasionado pela Coré. Uma menina doce, infantilizada, que colhia flores de forma ingênua. No mito, Coré aparece como uma nítida: “filha da mãe”. Ou seja, uma donzela, cuidada e nutrida somente pela mãe, alheia aos desafios da vida e do precipício do inconsciente. Contudo, no momento do rapto, ao abandonar a antiga vida, vai de encontro ao profundo, às trevas, ao invisível. Uma possível leitura dessa profundidade é dizer que ela vai de encontro com a alma. E essa foi a função decisiva do mito. Hades raptou Coré. E com isso, ela passou de donzela, a rainha das trevas. De menina a mulher. De criança, à senhora.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Para Barcellos, esse momento representa:</p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“O abandono da mãe pode marcar o encontro com a alma. Se lembrarmos do mito de Eros e Psiquê, há também um afastamento com relação à Afrodite, que ali se apresenta como uma figura materna – pois Afrodite, no conto Eros e Psiquê, está no seu papel de mãe (mãe de Eros), e apresenta um enlace terrível com a Mãe, tanto para Eros quanto para Psiquê. Os dois precisam se afastar dela, para alcançarem a alma como base, essa outra terra, uma terra psíquica.”</em> (BARCELLOS, 2019, p. 277)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O mito de Perséfone continua, relata-se que após seu rapto, sua mãe Deméter secou os campos de cereais, fazendo com que os humanos morressem de fome e se recusou a voltar ao Olimpo até o resgate de sua filha. Zeus, então, intermediou o retorno de Perséfone, agora Rainha das Trevas, para sua mãe. Contudo, restou acordado que ela não poderia comer nada no mundo inferior, pois aqueles que consomem do mundo inferior devem permanecer nele. Sobre isso, Chevalier e Gheerbrant (2024, p. 866):</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“No contexto do mito, a semente de romã poderia significar que Perséfone sucumbiu à sedução e merece, portanto, o castigo de passar um terço da vida nos Infernos. Por outro lado, provando uma semente de romã, ela quebrou o jejum, que era a lei dos Infernos. Ali, quem comesse qualquer coisa, ficava impedido de voltar à terra dos vivos. Foi por um favor especial de Zeus, que ela pôde dividir sua existência entre os dois lugares.”</em></p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-partir-dai-os-relatos-sobre-a-alimentacao-de-persefone-no-mundo-dos-mortos-diverge" style="font-size:19px">A partir daí os relatos sobre a alimentação de Perséfone no mundo dos mortos diverge. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Alguns autores dizem que Hades a obrigou a comer as romãs, outros dizem que ela comeu para não morrer de fome. Para fins desse ensaio, escolhi os relatos de Chantal:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“Chega o momento da partida. Prudente, antes que sua esposa tome o caminho da claridade, Hades lhe oferece uma romã bem madura, a mais bela, avermelhada, para refrescá-la durante a viagem. Também ele está cuidando de sua seara, pois com isso deseja garantir o retorno da esposa, a menos que Perséfone já esteja convencida de que doravante sua vida é com ele – disso a mãe não precisa saber, mas seguramente já suspeita. Durante a viagem para a luz do dia, Proserpina<a id="_ftnref1" href="#_ftn1"><strong>[1]</strong></a> chupa seis dos grãos suaves oferecidos pelo marido: a polpa tenra e suculenta, o sabor acidulado e leve quase a fariam sentir saudades dos beijos do esposo; mas a saudade logo é afugentada pelo reencontro, pelos abraços, beijos e afagos de sua mãe. A alegria, a vida, as estações retornam à Terra e durante seis meses a recobrem de um tapete verdejante e fértil. Ao cabo desse lapso de tempo – um mês por grão de romã -, Perséfone volta a pensar com ternura no esposo. As brigas e os amuos entre a mãe e a filha se multiplicam, de modo que, de comum acordo, elas decidem que a jovem está sofrendo de saudades do país dos mortos, do qual ambas falam muito mal, mas esperando que Perséfone retorne logo para lá. Numa noite, quando sua mãe está dormindo e a terra e os vinhedos estão em plena colheita, a jovem rainha deixa o colo materno e retorna, por vontade própria, para os braços imortais do senhor dos mortos, abraçando durante seis meses o descanso do Hades; enquanto isso, sua mãe se cobre novamente com o véu infértil do luto, assim como o solo se cobre de folhas mortas e, depois, de um tapete de neve, esperando a vinda de Proserpina para renascer de novo na primavera.” </em>(CHANTAL, 2024, p. 182-183)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-esse-relato-percebe-se-que-talvez-persefone-tenha-descoberto-uma-nova-identidade-de-seu-ser-no-hades-e-que-talvez-pasmem-tenha-gostado-da-sua-nova-identidade" style="font-size:19px">Com esse relato, percebe-se que talvez Perséfone tenha descoberto uma nova identidade de seu ser no Hades, e que talvez – pasmem – tenha gostado da sua nova identidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É evidente que, com isso, não estamos aqui defendendo o rapto de mulheres, mas se lermos de forma simbólica, esse rapto pode ser interpretado como um chamado da alma, pelo sombrio, pelo profundo, pelo inconsciente. Nessa situação, representada pelos Infernos, ela foi atraída para a borda do precipício, e de dentro dele foi arrancada da estabilidade das terras maternas e protetoras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O casamento pode ser um dos responsáveis por esse chamado da alma, mas é claro que não é o único. Contudo, nesse ensaio a proposta é falar somente sobre o casamento. O afastamento tanto físico, quanto emocional da família originária, e claro, a dedicação de Perséfone ao novo lar, simboliza a realidade de muitas mulheres ocidentais até hoje (e de alguns homens também). Uma possibilidade é interpretarmos a chegada de Hades como a força avassaladora de um <em>Animus</em> brutal. Jung define o Animus como: “<strong>A mulher não tem <em>anima</em>, mas <em>animus</em>. A <em>anima</em> é de índole erótica e emocional, enquanto que o animus é de caráter raciocinador</strong>”. (JUNG, 2019, p. 83).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo essa definição de Jung, podemos concluir que, no caso de Perséfone, uma menina doce, gentil, infantilizada, uma verdadeira donzela, o casamento despertou um aspecto forte, dominador, de poderio nela. Ela se tornou rainha dos mortos. Por lá passou a dominar tudo e todos. Se tornou senhora daquele reino. Passou de uma deusa primaveril, à deusa da morte. Aquela que governa o mundo da esterilidade. Aquela a quem vários heróis buscaram pra pedirem passagem segura pelos reinos do Inferno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-sobre-o-carater-arrebatador-do-animus-jung-ensina" style="font-size:19px">Ainda sobre o caráter arrebatador do animus, Jung ensina:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“<em>Essas duas figuras crepusculares, do fundo escuro da psique, a </em>anima<em> e o </em>animus<em> (verdadeiros e semigrotescos “guardiões do umbral”, para usar o pomposo vocabulário teosófico), podem assumir numerosos aspectos, que encheriam volumes inteiros. Suas complicações e transformações são ricas como o próprio mundo, e tão extensas como a variedade incalculável do seu correlato consciente, a persona. Habitam uma esfera de penumbra, e dificilmente percebemos que ambos, </em>anima<em> e </em>animus<em>, são complexos autônomos que constituem uma função psicológica do homem e da mulher. Sua autonomia e falta de desenvolvimento usurpa, ou melhor, retém o pleno desabrochar de uma personalidade.</em> ” (JUNG, 2015, p. 101)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O Hades, representante nesse mito da figura do marido, personifica o mundo das possibilidades. Muito embora os Infernos sejam estéreis, e aparentemente sem mudanças, a morte é uma oportunidade. Sem a morte, o trabalho da mãe de Perséfone seria inútil. É necessária a morte para que a vida possa existir. Essa constante renovação é um movimento que observamos na psique. O amor deslumbrado de Hades por Perséfone prova que nem a morte está imune ao poder do amor. E o movimento de Perséfone de poder circular entre o mundo dos vivos e dos mortos mostra o caráter transicional da nossa alma. Nos comunicamos com o mundo exterior, e com o mundo interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-ignoramos-o-mundo-interior-somos-raptados-para-dentro" style="font-size:19px">Quando ignoramos o mundo interior, “somos raptados” para dentro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Assim é o casamento, um convite a lidar com as nossas projeções. A relação com o outro se estabelece a partir das minhas expectativas, projeções e nos apaixonamos pelos nossos próprios conteúdos apresentados num outro. A segurança que esse outro nos oferece é a companhia no caminho para dentro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Podemos olhar esse mito de múltiplas formas, uma delas é a partir do simbolismo da romã, que pode significar a perda da inocência, da virgindade, e o aparecimento do desejo. Somos magicamente atraídos, como Perséfone pelo narciso, por tudo aquilo que esperamos que nos complete. Se por um lado, a representação dos Infernos é um lugar estéril em que nada acontece, por outro, Perséfone encontrou um lugar de possibilidades onde construir sua vida. O marido a convida a reinar e criar um mundo de possibilidades.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-mundo-arido-em-que-nada-cresce-a-roma-encontrou-seu-caminho-provando-que-todas-as-plantas-tem-raizes-no-subsolo-nos-da-mesma-forma-florescemos-no-consciente-mas-nossas-raizes-crescem-nos-espacos-sombrios-do-umbral" style="font-size:19px"><strong>Num mundo árido, em que nada cresce, a romã encontrou seu caminho, provando que todas as plantas têm raízes no subsolo. Nós, da mesma forma, florescemos no consciente, mas nossas raízes crescem nos espaços sombrios do umbral.</strong></h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: O mito de Perséfone e o chamado da alma no casamento" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/ahPkvoOa7MY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/paula-penas/">Paula de A. Bernardi Peñas &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra E. Simone Magaldi &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">BARCELLOS, Gustavo. <em>Mitologias arquetípicas: figurações divinas e configurações humanas.</em> Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">BERRY, Patricia. <em>O corpo sutil de eco: Contribuições para uma psicologia arquetípica</em>. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">BRANDÃO, Junito de Souza. <em>Dicionário Mítico-Etimológico</em>. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">CALASSO, Roberto. <em>As núpcias de Cadmo e Harmonia.</em> Tradução de Nilson Moulin Louzada. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">CHANTAL, Laure de. <em>Livre como uma deusa grega: Na mitologia o melhor da humanidade é a mulher. </em>Petrópolis: Vozes, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">CHEVALIER, Jean; Gheerbrant, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 40. Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 7. Ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">______ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">______ <em>O eu e o inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">______ <em>Aspectos do feminino</em>. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><em>Congressos Junguianos &#8211; Online e Gravados: </em></strong><em><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos</a></em> </p>



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<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Proserpina é o nome de Perséfone nos mitos romanos.</p>
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		<title>Quando a mãe devora pela identificação com o papel de vítima</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-a-mae-devora-pela-identificacao-com-o-papel-de-vitima/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula de Azevedo Bernardi Peñas]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Nov 2024 20:24:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[mãe e filha]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9662</guid>

					<description><![CDATA[<p>O conceito de arquétipo é fundamental para a compreensão da Psicologia Analítica. O termo não foi cunhado por Carl Gustav Jung, mas foi utilizado por este para definir os moldes psíquicos. Para Jung (2014, p. 81), em OC 8/2, §280:&#160;&#160; “Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O conceito de arquétipo é fundamental para a compreensão da Psicologia Analítica. O termo não foi cunhado por Carl Gustav Jung, mas foi utilizado por este para definir os moldes psíquicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para Jung (2014, p. 81), em OC 8/2, §280:&nbsp;&nbsp;</strong></p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em><strong>“Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de apreensão que se repetem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer reconheçamos ou não seu caráter mitológico.”</strong></em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras palavras, devemos reconhecer a importância do conceito de arquétipo no que tange a compreensão da natureza humana. O arquétipo é um molde vazio em que as experiências pessoais e coletivas são arquivadas. A imagem arquetípica é a única coisa que o indivíduo pode acessar, sendo nutrido por suas experiências individuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre esse tema, compreende-se, portanto, que existe um arquétipo de mãe. Esse arquétipo contemplaria a forma universal da figura materna com seus polos positivos e negativos. Na esfera positiva, poderíamos falar sobre o aspecto da Grande Mãe, muitas vezes associada mitologicamente à Gaia. E na esfera negativa, poderíamos associar à mãe devoradora, que aprisiona os filhos e interditam seu progresso, como Deméter.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung dedicou boa parte de suas obras completas debruçado sobre a importância do complexo materno na formação da psique do indivíduo. O complexo é um conjunto associativo de experiências do indivíduo com tonalidades afetivas, no qual reside um núcleo arquetípico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo materno é de suma importância, por ser o primeiro complexo a ser constituído. Quando nascemos somos indiferenciados com a mãe, sendo que conhecemos o mundo a partir dessa figura que cuida, alimenta e protege, na maioria das vezes assim deveria ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A figura singular da mãe real, pode vir a constituir um complexo materno negativo quando houver a identificação da mãe com a persona da vítima. A persona parte da identificação indistinta de um indivíduo com essa máscara usada para se adaptar ao mundo externo. Um arquétipo materno, quando vivido em sua esfera negativa, no caso dessa reflexão em particular, quando vivido sob a esfera do vitimismo materno, percebemos que a vítima sempre irá projetar o algoz no seu entorno relacional, manipulando com culpas e penas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob a ótica dessa pretensa vítima, observamos em realidade uma mulher cheia de raiva, que projeta sobre o outro um arcabouço de mecanismos para controlar e devorar os filhos. A vítima, nesse caso, controla pela sua natureza de “não-responsabilização”. Em que o codependente (nesse ensaio proposto pela figura do filho/da filha) se torna fundamental na função de cuidar da mãe, olhar por ela, se penalizar pela situação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sobre esse assunto, Jung (2014, p. 94) ensina, em OC 9/1, § 167:</strong></p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em><strong>“Um Eros inconsciente sempre se manifesta sob a forma de poder, razão pela qual este tipo de mulher, embora sempre parecendo sacrificar-se pelos outros, na realidade é incapaz do verdadeiro sacrifício. Seu instinto materno impõe-se brutalmente até conseguir o aniquilamento da própria personalidade e da de seus filhos. Quanto mais inconsciente de sua personalidade for uma mãe deste tipo, tanto maior e mais violenta será a sua vontade de poder inconsciente. No caso deste arquétipo, não são poucas as vezes em que o símbolo adequado não é Deméter, mas Baubo.”</strong></em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse trecho, Jung nos convida a adentrar a psique de uma mãe devoradora, e compreender os aspectos inconscientes que torna sua atuação sobre os filhos violenta e dolorosa. Contudo, devemos ir adiante na análise, e observar que ao performar o papel da vítima, a mãe gera um dano tanto maior aos filhos. Para compreendermos como se dá a identificação da mãe com o papel da vítima, é importante observar, que estamos falando aqui do arquétipo da vítima, e como o arquétipo possui sua característica dual, as vítimas não existem sem os seus respectivos agressores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para <strong>Verena Kast</strong> (2022, p. 8): “<strong>O tema ‘vítima e agressor’ trata, de muitas maneiras, das relações entre poder e impotência </strong>[&#8230;]” Sabemos que na Psicologia Analítica, devemos observar os pares de opostos para compreendermos a totalidade, sendo que a vítima e o agressor são dois polos de uma mesma coisa. Muitas vezes esses papéis são sequer bem definidos, permutando-se entre si.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O papel da vítima, reserva à mãe ao mesmo tempo uma postura de “evitadora de conflitos”, com sua habilidade de se retirar de situações potencialmente conflituosas, mas ao mesmo tempo, inconscientemente demonstra a tendência oposta. Quando elas se desculpam por não serem boas o suficiente, em realidade inconscientemente estão ocupando uma posição de superioridade em que creem ser melhor que os outros. Essa dinâmica tenta omitir uma verdadeira falta de autoestima e absoluta vergonha por suas origens.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Essa complicada dinâmica se estabelece, como ensina Kast (2022, p. 45):</strong></p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em><strong>“São pessoas que foram muito controladas por autoridades em sua infância, em quem essas autoridades geraram sentimento de culpa e que aprenderam cedo que outras pessoas são mais importantes que elas.”</strong></em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Na sociedade contemporânea é fácil essas vítimas se esconderem por trás do papel de “humildes”, “altruístas” ou “bem-educadas”, porque uma pessoa é considerada boa se não se infla com os “autoelogios”. Contudo, se essa pessoa crê que nada nela tem valor, e nada nela é bom o suficiente, como podem seus filhos, suas próprias criações, ser bons o suficiente. Se a criadora se coloca numa posição de inferioridade (de forma consciente) perante os outros, como poderia crer que suas criaturas são dotadas de qualquer valor?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A situação se complica ainda mais se observarmos um caso de vitimismo velado, em que a mãe no caso é uma “esquecedora”, como nomeia Kast. A esquecedora, é uma das formas de manifestação do vitimismo, em que a pessoa simplesmente não presta atenção. Ela simplesmente concorda com tudo que dizem e se compromete a cumprir tarefas (sejam para os outros como a entrega de um trabalho, ou para si própria como cuidar de sua própria saúde). Contudo, inevitavelmente não cumpre nada do que se compromete. Quando são cobrados, simplesmente renegociam os prazos e mais uma vez não o cumprem. Essa pessoa não é percebida como agressiva, porém, mesmo assim trata-se de um comportamento agressivo. Em realidade, esse comportamento é “passivo-agressivo”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma mãe se coloca nessa posição passivo-agressiva, ela acaba criando uma estrutura em que alguém (muitas vezes os filhos) acabam se tornando as pessoas “esquecidas”. Ou seja, cria-se um vínculo de co-dependência entre a pessoa que se esquece, e a pessoa que é esquecida. Não é incomum que a pessoa que é esquecida acabe se tornando a pessoa que organiza a agenda dessa mãe, que cuida de sua saúde, cobra rigorosamente os prazos que deve cumprir. Aqui vemos se consolidar um cenário em que o (a) esquecido (a) se torna um potencial “agressor”. Essa pessoa será percebida como agressora para a mãe vítima, por executar a função de cobrança. Constrói-se então uma relação de desconfiança entre as partes, em que o (a) esquecido (a) se sente constantemente sobrecarregado pela necessidade de executar as funções de cobrança e recai sobre ele (a) a culpa pelas falhas da esquecedora. Se os esquecidos por qualquer motivo que seja não estão constantemente em estado de atenção para todas as necessidades da esquecedora, eles serão percebidos como negligentes. Ao passo que, estar constantemente à par de todas as necessidades da esquecedora gera uma fadiga absurda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cabe mencionar aqui, que as pessoas que criam uma relação de co-dependência com uma pessoa esquecedora, tem maior propensão à desenvolver fadiga por compaixão. A função do materno que era de nutrir, proteger, cuidar, ensinar os limites, portanto, fica invertida, sendo desenvolvida pelos filhos. Nessa situação, a mãe fica, então, na posição de filha. Quando há essa inversão dos papéis, os filhos vivem em função da mãe, cansados pelo exercício da tentativa de controlar uma pessoa “esquecedora”, mas também esquecidos de suas próprias vidas, já que todo seu tempo é ocupado pelo cuidado com a mãe. Ao mesmo tempo, a mãe ocupa uma posição de filha, em que não se responsabiliza pelas coisas, e controlando os filhos a partir da figura de seu esquecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A figura da mãe que “devora” os filhos por sua sede de ser o centro das atenções constantemente serve de interdito para o desenvolvimento deles. Contudo, essa mãe, se estiver absolutamente inconsciente de seus mecanismos, vai alegar que é somente uma pessoa esquecida e que precisa de ajuda. Se fizermos uma leitura à luz da Psicologia Analítica, podemos observar que se trata então de uma <em>Puela Aeternus</em>. Ou seja, a figura da criança que nunca cresceu. <em>Puer aeternus</em> significa “juventude eterna”. A figura da <em>puela</em> seria seu correspondente da psique feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para Marie-Louise von Franz, (2021, p. 9):</strong></p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em><strong>“Em geral, o homem que se identifica com o arquétipo do puer aeternus permanece durante muito tempo como adolescente, isto é, todas aquelas características que são normais em um jovem de dezessete ou dezoito anos continuam na vida adulta, juntamente com uma grande dependência da mãe, na maioria dos casos.”</strong></em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Se transportarmos esse conceito, aqui referido como aplicado ao homem, para a situação da mãe no papel de vítima, veremos que a mãe acaba transferindo essa relação essencial de dependência da mãe aos filhos. Os filhos então acabam se tornando alvo de uma projeção em que eles são os responsáveis pelo cuidado e manutenção dos desejos básicos dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Enriquece von-Franz (2021, p. 12):</strong></p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><em>“Pode-se dizer que isto foi simbólico, pois um homem assim, na realidade, não quer ser sobrecarregado com nenhum tipo de peso; a única coisa que ele recusa totalmente é ter responsabilidade para com qualquer coisa, ou carregar o peso de alguma situação.”</em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Verifica-se, então, que a mãe “esquecedora” na verdade não tem o desejo de se responsabilizar por nada que demande seu posicionamento. É imensamente mais fácil ‘delegar’ a função de lembrar aos filhos, de forma que ela nunca se indispõe com os outros. Quando questionada ou pressionada, recorre ao discurso da vítima, em que se desculpa por seus esquecimentos e diz que não tornará a repetir essa atitude. Todavia, invariavelmente repete o comportamento, por se tratar de um padrão inconsciente, que acaba promovendo acolhimento e cuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pessoa que se esquece acaba evocando para si uma compaixão dos demais, e a solidariedade aos esquecimentos. As pessoas acabam se tornando proativas num primeiro momento para ajudar a pessoa em situação crítica. Quando o comportamento se repete demasiadas vezes, as pessoas menos próximas tendem a se afastar, e ser taxadas de cruéis, ou impiedosas, enquanto as mais próximas tendem a se envolver na dinâmica de “vítima-agressor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num primeiro momento fica claro que a figura da vítima está sendo performada pela pessoa que se esquece. Porém, com o passar do tempo, o poder da esquecedora vai aumentando, e ela passa a se tornar uma agressora implacável. Da mesma forma, as pessoas que originalmente ofereceram ajuda de forma livre e espontânea, quando se tornam “cobradores” acabam se tornando agressores, tanto quanto prisioneiros da própria dinâmica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez disposta essa dinâmica familiar disfuncional, percebe-se a necessidade de encontrar um caminho criativo tanto para a esquecedora, que precisa retomar a responsabilidade por seus atos e pela sua própria vida, quanto para os esquecidos, que precisam encontrar um caminho para permitir que a esquecedora se responsabilize. Ao mesmo tempo, é necessário que a esquecedora abra mão do controle que exerce em seus filhos, e os filhos precisam abrir mão do poder de controlar a agenda dos outros e focar em seus próprios desejos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É difícil perceber um caminho fácil de saída dessa dinâmica, uma vez que quanto mais arraigada e inconsciente, mais fácil é de as pessoas estarem significativamente identificadas com seus papéis e com dificuldade de dar espaço criativo para essa “raiva” acumulada na relação.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Quando a mãe devora pela identificação com o papel de vítima&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/1Bo2Kq5nUrQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Paula de A. Bernardi Peñas &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, Marie-Louise von. <em>Puer Aeternus</em>. A luta do adulto contra o paraíso da infância. São Paulo: Paulus, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 7. Ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. <em>Abandonar o papel de vítima: </em>viva a sua própria vida. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>
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