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	<title>Arquivos Adolescência - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Adolescência - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Crescer dói?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/crescer-doi/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula Borba dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2026 21:51:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[crescer]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento da personalidade]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[red: crescer é uma fera]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A partir de uma leitura simbólica do filme Red: Crescer é uma Fera, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/crescer-doi/">Crescer dói?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong>A partir de uma leitura simbólica do filme <em>Red: Crescer é uma Fera</em>, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-filme-red-crescer-e-uma-fera-2022-e-uma-animacao-da-pixar-sensivel-e-envolvente-que-conta-a-historia-de-mei-lee-uma-adolescente-de-13-anos-que-vivencia-descobertas-e-tensoes-tipicas-desta-etapa-da-vida" style="font-size:18px">O filme <em><strong>Red: Crescer é uma Fera</strong> (2022)</em> é uma animação da Pixar sensível e envolvente que conta a história de Mei Lee, uma adolescente de 13 anos que vivencia descobertas e tensões típicas desta etapa da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto é surpreendida por mudanças latentes no corpo e no humor, ela também precisa lidar com sua família e com as heranças transgeracionais que compõem sua história. Mais do que uma trama sobre adolescência e seus ritos de passagem, é um convite para observarmos o poder transformador de nos relacionarmos com o outro e com as emoções que nos atravessam a partir desses encontros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-partir-desse-pano-de-fundo-que-este-texto-se-propoe-a-investigar-a-pergunta-titulo-crescer-doi" style="font-size:20px">É a partir desse pano de fundo que este texto se propõe a investigar a pergunta título: crescer dói?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa apresenta Mei como a filha “perfeita”, profundamente dedicada a corresponder às expectativas dos pais, sobretudo de sua mãe, Ming, cuja postura zelosa, amorosa e controladora organiza toda a dinâmica familiar, enquanto o pai, Jin, cuida e oferece suporte de forma mais discreta. Esse vínculo, marcado por amor, orgulho e pressão, é o terreno onde nasce a tensão central: ao entrar na adolescência, Mei começa a vivenciar desejos e transformações corporais que a afastam da criança obediente que sempre foi. Entre o conforto da infância e o chamado do novo, ela experimenta o primeiro ciclo menstrual e, simultaneamente, descobre que suas emoções mais fortes a fazem transformar-se em um panda vermelho gigante.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Através do Panda Vermelho, a personagem vai nos ensinando que só podemos nos desenvolver psiquicamente dialogando com as emoções que nos compõem e que nossas relações são terrenos férteis para nossa dialética emocional. É no encontro com nossos entes queridos que podemos fazer reencontros e confrontos com as múltiplas e contraditórias partes que nos habitam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-ensina-gugguenbul-craig-somente-mediante-ao-intercambio-emocional-com-aqueles-com-quem-vive-uma-relacao-de-amor-e-que-uma-nova-dimensao-pode-penetrar-em-seu-mundo-amortecido-guggenbuhl-craig-2004-p-138-139" style="font-size:18px">Como ensina Gugguenbül-Craig: “somente mediante ao intercâmbio emocional com aqueles com quem vive uma relação de amor é que uma nova dimensão pode penetrar em seu mundo amortecido” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 138-139).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na teoria, parece simples, e até poético, imaginar essa troca emocional, mas Mei revela o quanto esse processo pode ser assustador quando temos de encarar os aspectos destrutivos e agressivos da nossa própria “fera”. Isso acontece porque relacionar-se exige intimidade com o outro e, antes de tudo, conosco mesmos. Ela evidencia o quanto é difícil aceitarmos nossas partes sombrias e indesejáveis, e como, muitas vezes, fugimos da tarefa de cuidar de nossos vínculos, evitando conversas difíceis. Assim como Mei, quantas vezes não evitamos o confronto em nome de uma suposta harmonia? Talvez por medo de ficarmos vulneráveis, de decepcionarmos quem amamos ou de sermos feridos. E, pouco a pouco, vamos nos tornando menos permeáveis e sensíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É justamente nesse ponto de tensão, quando a tentativa de esconder ou conter o que é doloroso já não se sustenta, que a narrativa avança. Após um episódio marcante na escola, Mei recolhe-se ao quarto, um espaço que, simbolicamente, já não comporta seu novo tamanho nem o peso do que ela tenta esconder. É, então, que seus pais revelam a verdade: o panda é uma herança familiar transmitida de mãe para filha desde a ancestral Sun Yee, que recebeu esse poder como dádiva para proteger sua família durante a guerra. O segredo, enfim, vem à tona, junto da promessa de um ritual que poderá conter a fera na próxima lua vermelha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-trama-o-panda-vermelho-simboliza-o-que-na-psicologia-junguiana-chamamos-de-complexos" style="font-size:18px">Na trama, o Panda Vermelho simboliza o que, na psicologia junguiana, chamamos de complexos:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> núcleos emocionais autônomos, carregados de significados, afetos intensos e impulsos que emergem tanto da história pessoal quanto da herança coletiva. Na família Lee, esse legado aparece em explosões emocionais e comportamentos repetitivos, nos quais as mulheres são tomadas pelo panda como se perdessem momentaneamente a própria consciência, um retrato preciso de um complexo constelado. O filme, assim, evidencia a força dos complexos familiares que atravessam gerações e mostra como a família passou a realizar rituais para aprisionar esse espírito em amuletos, numa tentativa de livrar-se desse estado avassalador e impedir que as emoções comandassem suas ações.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica soa muito próxima da nossa própria contemporaneidade, em que nos tornamos cada vez mais defendidos e impermeáveis, acreditando que negar ou conter nossas emoções impede o “estrago feito pelo panda”. E é possível compreender o tamanho desse temor, pois, segundo Jung, ao lidar com tais forças, estamos, de certo modo, lidando com a ira de Deus, que ele assim definiu:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>É um nome apropriado para todas as grandes emoções que ocorrem em meu próprio sistema psíquico e que dominam minha vontade consciente, apoderando-se do controle sobre mim mesmo. É por este nome que designo tudo o que se atravessa de forma violenta e desapiedosa, o itinerário por mim traçado; tudo o que subverte minhas concepções subjetivas, meus planos objetivos, e interfere no curso da minha vida, seja para o bem seja para o mal (JUNG,&nbsp; p. 146, 2012).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo da narrativa, Mei experimenta na própria pele o quanto é arriscado e trabalhoso “desafiar os deuses”, sobretudo quando isso envolve decepcionar os pais; trata-se do processo de diferenciação descrito pela psicologia analítica, em que o jovem começa a se reconhecer como alguém distinto da família e passa a buscar a própria identidade. À medida que aguarda o dia do eclipse lunar, ela aprende a se relacionar com seu Panda Vermelho, permitindo-se viver suas experiências, conquistando autenticidade e reconhecendo-se no mundo para além do olhar materno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-movimento-descobre-que-incorporar-o-urso-tambem-traz-ganhos-torna-se-popular-na-escola-e-recebe-o-afeto-incondicional-das-amigas" style="font-size:18px">Nesse movimento, descobre que incorporar o urso também traz ganhos: torna-se popular na escola e recebe o afeto incondicional das amigas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ponto de virada surge quando decide ir ao show de sua banda preferida, mesmo sem a aprovação dos pais, trabalhando para juntar o dinheiro necessário para os ingressos, uma metáfora clara de que toda transformação exige esforço e tem um preço. E, ao afirmar que “não é um simples show, é um portal para a vida adulta”, Mei ecoa uma imagem que Jung também propõe, ao comparar a passagem da infância para a adolescência a um verdadeiro nascimento:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>No estágio infantil da consciência, ainda não há problemas; nada depende do sujeito, porque a própria criança depende inteiramente dos pais. É como se não tivesse nascido ainda inteiramente, mas se achasse mergulhada na atmosfera dos pais. O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, que este frequentemente se impõe desmedidamente (JUNG, 2013a, p. 346-347).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A imagem do parto como metáfora para o nascimento psíquico da adolescência é profundamente rica. Do ponto de vista do bebê, podemos imaginar o desconforto de não caber mais naquele espaço antes seguro e acolhedor, que, de repente, se torna estreito e insuficiente. Para nascer, ele precisa se lançar por um canal apertado rumo a um mundo vasto, com muita claridade e completamente desconhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As contrações que impulsionam essa passagem são dolorosas, inevitáveis e requerem esforço mútuo; tanto mãe quanto bebê dependem de se renderem ao fluxo natural da vida. E, do ponto de vista materno, o parto natural é uma experiência de dor visceral, que exige entrega absoluta e deixa marcas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-nascimento-do-adolescente-tambem-nao-sera-indolor-pais-e-filhos-atravessam-tensoes-intensas-e-o-processo-nao-termina-no-parto" style="font-size:18px">Assim, o nascimento do adolescente também não será indolor: pais e filhos atravessam tensões intensas, e o processo não termina no parto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Depois dele, existe o desafio de adaptação: o bebê precisa aprender novas formas de respirar e alimentar-se, enquanto a mãe enfrenta o puerpério, um período emocionalmente denso e exigente. Da mesma maneira, a entrada na adolescência inaugura um novo modo de existir, que demanda força, coragem e um reajuste honesto do vínculo entre pais e filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse contexto simbólico que surge o segundo grande conflito da trama: Mei descobre que o show de sua boyband favorita acontecerá exatamente no dia do ritual destinado a aprisionar seu panda. Essa “coincidência” a obriga a encarar uma escolha inevitável entre lealdade à família e seu próprio rito de passagem. É impossível ter as duas coisas ao mesmo tempo. Inicialmente inclinada a seguir o ritual, ela se sensibiliza com a atitude do pai, que lhe mostra gravações em que aparece feliz com as amigas e revela que o panda de Ming, sua mãe, era muito mais destrutivo, carregando uma ferida antiga.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-reconhecer-essa-historia-e-validar-a-singularidade-da-filha-o-pai-atua-como-uma-especie-de-guia-interno-ajudando-a-a-perceber-que-pode-e-precisa-decidir-a-partir-de-si-mesma" style="font-size:18px">Ao reconhecer essa história e validar a singularidade da filha, o pai atua como uma espécie de guia interno, ajudando-a a perceber que pode, e precisa, decidir a partir de si mesma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao crescer, os filhos inevitavelmente rompem expectativas, e isso dói nos pais. Ming expressa essa dor de forma explosiva quando Mei abandona o ritual e escolhe manter seu panda para ir ao show, surgindo como um panda colossal que simboliza sua fúria e medo. No confronto final, mãe, filha, avó e tias entram juntas em uma espécie de floresta mágica (o inconsciente familiar), onde encaram feridas herdadas e aceitam que Mei seguirá com seu panda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse processo, Ming reconhece o peso de ter vivido para agradar a própria mãe e, ao soltar essa exigência, permite que Mei faça escolhas mais autênticas. A separação é dolorosa, mas necessária: Mei sustenta sua decisão apesar do medo, e Ming&nbsp; suporta o corte simbólico do cordão umbilical. Por fim, ao encontrar a ancestral que originou o panda, Mei pergunta se pode se arrepender, mas recebe apenas um abraço afetuoso e silencioso, um chamado para confiar em si mesma, mesmo diante do desconhecido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-crescer-afinal-e-um-caminho-sem-retorno-uma-vez-ampliada-a-consciencia-nao-e-possivel-voltar-ao-estado-anterior" style="font-size:18px">Crescer, afinal, é um caminho sem retorno; uma vez ampliada a consciência, não é possível voltar ao estado anterior.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é exatamente isso que vemos ao final do filme: Mei emerge mais autêntica e serena, capaz de ressignificar o panda e, com isso, romper o padrão familiar que a aprisionava. Agora, ela dialoga com suas emoções, nem se submete cegamente a elas, nem tenta eliminá-las. Sua mãe também cresce: guarda o espírito do Panda em um novo amuleto, um bichinho virtual que precisa ser cuidado e alimentado. O Panda, antes preso num pingente rígido e silencioso, passa a ter espaço para se relacionar com ela, que, por sua vez, deve sustentar esse vínculo vivo. Afinal, “<em>quando duas pessoas se encontram, suas psiques se defrontam em sua totalidade; o consciente e o inconsciente, o dito e o não dito, tudo afeta o outro</em>” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 50).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-com-o-longa-metragem-testemunhamos-a-forca-do-crescimento-individual-e-familiar-que-emerge-de-um-processo-amoroso-e-doloroso-de-mudanca-crescer-so-e-possivel-a-partir-das-relacoes-e-da-coragem-de-transgredir-e-doi-mas-vale-a-pena" style="font-size:18px">Por fim, com o longa-metragem, testemunhamos a força do crescimento individual e familiar que emerge de um processo amoroso e doloroso de mudança. <strong>Crescer só é possível a partir das relações e da coragem de transgredir e dói, mas vale a pena</strong>!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É um trabalho para toda a vida, aqui ilustrado na turbulência sagrada da adolescência e no impacto que ela provoca no universo parental. Encerro refletindo se o nosso maior desafio é lançar dos amuletos que nos aprisionam ou anestesiam, das antigas formas de proteção que já não nos servem para libertar o espírito do nosso próprio Panda, portanto, o convite permanece no ar: o que ainda mantemos aprisionado em nós, acreditando ser segurança, mas que, na verdade, impede o nosso crescimento?</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/"><strong>Paula Borba dos Santos</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/">Glória G. de Miranda &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:19px"><strong>Referências bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BENEDITO, Vanda. <strong>Desafios à Terapia de Casal e de Família</strong>: Olhares junguianos da clínica contemporânea. 1. ed. São Paulo, Summus Editorial, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf.<strong> O Abuso do Poder na Psicoterapia.</strong> 1. ed. São Paulo, Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Escritos diversos</strong>: Psicologia e Religião Ocidental e Oriental. 3. ed. Petrópolis, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; <strong>A natureza da Psique.&nbsp; </strong>10. ed. Petrópolis, Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.<strong>Civilização em Transição.&nbsp; </strong>6. ed. Petrópolis, Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>O Desenvolvimento da Personalidade. </strong>14. ed. Petrópolis, Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RED: crescer é uma fera. Direção: Domee Shi. Produção: Lindsey Collins. [<em>S. l.</em>]: Pixar Animation Studios; Walt Disney Pictures, 2022. 1 filme (aprox. 100 min), son., color.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Um diálogo necessário entre a Psicologia Analítica e relatórios de saúde mental da criança e do adolescente</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-dialogo-necessario-entre-a-psicologia-analitica-e-relatorios-de-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Danielle Chaves Gomes de Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 17:49:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo busca tangenciar informações de relatórios de saúde mental da criança e do adolescente e a Psicologia Analítica. O objetivo é fazer um recorte na vida psíquica desta etapa da vida e discuti-los como expressão do que se manifesta na alma das crianças e dos adolescentes e que está pedindo olhar, acolhimento, cuidado e escuta.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo busca tangenciar informações de relatórios de saúde mental da criança e do adolescente e a Psicologia Analítica. O objetivo é fazer um recorte na vida psíquica desta etapa da vida e discuti-los como expressão do que se manifesta na alma das crianças e dos adolescentes e que está pedindo olhar, acolhimento, cuidado e escuta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tenho-grande-interesse-em-aproximar-a-psicologia-analitica-de-outras-areas-do-conhecimento-e-das-questoes-que-marcam-a-contemporaneidade" style="font-size:19px">Tenho grande interesse em aproximar a Psicologia Analítica de outras áreas do conhecimento e das questões que marcam a contemporaneidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Acredito que nós, terapeutas junguianos, podemos construir pontes entre a Psicologia Analítica e os fenômenos atuais, ampliando reflexões sobre os desafios do nosso tempo. Esse tangenciamento — seja em artigos como esse, congressos, aulas, diálogos ou sessões de análise — enriquece terapeutas, analisandos, profissionais de outras áreas e o coletivo. Por isso, considero essencial que a Psicologia Analítica dialogue com campos como políticas públicas, epidemiologia, cultura, educação e saúde, pois esses espaços evidenciam, de forma concreta, como a vida psíquica se expressa na sociedade em determinado tempo e espaço.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre os muitos temas possíveis, escolho aqui a infância e a adolescência. Seguindo a intenção exposta anteriormente, os dados oficiais de saúde mental aparecem como uma fonte valiosa de reflexão, já que há a possibilidade de analisá-los como expressão do que se manifesta na alma das crianças e dos adolescentes e que está pedindo olhar, acolhimento, cuidado e escuta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-antes-de-avancar-e-importante-fazer-algumas-ressalvas" style="font-size:19px">Antes de avançar, é importante fazer algumas ressalvas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Definir saúde mental não é simples, devido às diversas discussões sobre o tema. Assim, utilizo a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) pela frequência com que aparece na literatura e por ser uma das principais referências deste trabalho. Além disso, embora o foco aqui seja a vida psíquica de crianças e adolescentes, é essencial lembrar que todos somos frutos de um contexto biopsicossocial e espiritual, que deve sempre ser considerado na análise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para a OMS, a saúde mental está inserida em um contexto biopsicossocial e, portanto, sofre a influência de múltiplos fatores que estão interligados entre si, exercendo cada qual a sua participação no bem-estar mental. Quando há saúde mental, o indivíduo é capaz de lidar com situações estressantes da vida, de aprender, desenvolver suas habilidades, trabalhar, se relacionar e contribuir com sua comunidade. Especificamente em relação às crianças, ela se reflete em distintos aspectos do desenvolvimento, como um senso positivo de identidade, capacidade de organizar pensamentos e emoções, construção de relacionamentos sociais e capacidade de aprendizado &#8211; o que irá impactar, no futuro, na sua participação na sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-oms-lembra-que-a-saude-mental-nao-esta-inserida-em-um-sistema-binario-no-qual-ou-se-tem-saude-mental-ou-nao" style="font-size:19px">A OMS lembra que a saúde mental não está inserida em um sistema binário, no qual ou se tem saúde mental ou não.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pelo contrário, uma pessoa com algum diagnóstico de transtorno mental pode experienciar períodos de maior bem-estar mental, assim como uma pessoa sem qualquer transtorno pode passar por momentos de baixo nível de bem-estar. Sendo assim, no decorrer da vida, o bem-estar mental oscila na dependência de fatores individuais, familiares e estruturais que, combinados, são determinantes da saúde mental porque podem atuar de forma protetiva ou não (WHO, 2021; WHO, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em 2022, ano em que a ONU estimou a população mundial em 8 bilhões, a OMS divulgou sua maior revisão sobre saúde mental desde a virada do século, e apontou que cerca de 970 milhões de pessoas viviam com pelo menos um transtorno mental em 2019,&nbsp; aproximadamente 13% da população mundial (WHO, 2022; UNITED NATIONS, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relatório mais recente, constatou-se que a prevalência aumentou para 14% em 2021, avançando mais rápido que o crescimento populacional entre 2011 e 2021. Entre as crianças de 5 a 9 anos, 7% viviam com algum transtorno mental; entre adolescentes de 10 a 19 anos, esse número subia para 14%.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alem-disso-um-terco-dos-transtornos-que-aparecem-na-vida-adulta-se-inicia-ate-os-14-anos-metade-ate-os-18-e-quase-dois-tercos-ate-os-25-anos-who-2025" style="font-size:19px">Além disso, um terço dos transtornos que aparecem na vida adulta se inicia até os 14 anos; metade até os 18; e quase dois terços até os 25 anos (WHO, 2025).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A esses dados soma-se o relatório do UNICEF (2021), que reforça o papel decisivo dos determinantes de saúde mental na infância e adolescência. O documento destaca o papel crucial dos determinantes de saúde mental nessa fase do desenvolvimento e mostra como experiências adversas — como abuso, negligência e violência — influenciam de forma significativa o bem-estar psíquico infantil.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Para facilitar a compreensão, o UNICEF organiza esses determinantes em três esferas</strong>: o mundo da criança (ambiente doméstico e cuidados), o mundo ao redor (escola, comunidade, vínculos) e o mundo mais amplo (determinantes sociais).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relação ao primeiro fator, foco deste artigo, ressalta que o papel dos pais no processo de promoção e apoio ao desenvolvimento físico, emocional, social e intelectual de uma criança é de suma importância para a construção de uma base sólida da saúde mental da criança e do adolescente. Porém, muitos pais precisam de apoio nesta construção em relação à própria saúde mental, com orientações, informações e apoio psicossocial. (UNICEF, 2021).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Dentre tantos dados, estudos, considerações e apontamentos, uma informação é comum e de extrema importância: o período da vida compreendido desde a gestação até a puberdade é a etapa da vida na qual o ser humano está mais suscetível à influência dos fatores determinantes de saúde mental.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-por-sua-vez-destaca-que-nesta-fase-se-encontram-as-bases-da-vida-psiquica-como-sera-explicitado-adiante" style="font-size:19px">Jung, por sua vez, destaca que nesta fase se encontram as bases da vida psíquica, como será explicitado adiante.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Considerando que a criança permanece por muitos anos sob a influência dos pais e do ambiente familiar, é de extrema importância ir além dos critérios diagnósticos e, com base na Psicologia Junguiana, compreender como a dinâmica familiar impacta o desenvolvimento psíquico, ajudando a interpretar o que os dados oficiais revelam.&nbsp; Isto não significa que se negue os diagnósticos apresentados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sobre isso, a psicopatologia, na perspectiva da Psicologia Analítica, tem uma visão importante sobre a forma como se dá a dinâmica da relação consciência e inconsciente, na compreensão da psicogênese do que é dito “doente”, conforme pontua <strong>Salvador</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O texto Junguiano leva a refletir que algo apareceria como psicopatológico (doente) quando, numa dissociação na psique, se instalasse uma cisão e embate onde o padrão dominante na consciência vivesse como ameaça e lutasse contra os aspectos configurados em complexo de outra forma. (&#8230;) E, quanto mais unilateral e rígida, maior a intensidade do que diverge do dominante.</p><cite>(2022, p. 441)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Desta forma, o Professor <strong>Ajax Salvador</strong> nos traz que aquilo que aparece como ‘doente’, trata-se, na realidade, da dinâmica de um eu rígido, inflexível e unilateral, que não se relaciona com os conteúdos do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É essa dinâmica de “luta” contra os conteúdos inconscientes que está como pano de fundo do sofrimento da alma, podendo chegar até mesmo a uma dissociação psíquica, levando a um quadro de psicose. Porém, quando falamos da infância e da adolescência, um olhar para além desta dinâmica deve ser lançado, pois se trata de uma etapa da vida em que a psique ainda está em formação e desenvolvimento e a criança ainda está imersa na vida psíquica dos pais e cuidadores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-sentido-carl-gustav-jung-destaca-que-ha-um-fator-preponderante-em-relacao-aos-outros-que-influencia-a-formacao-e-o-desenvolvimento-da-psique-infantil" style="font-size:19px">Neste sentido, Carl Gustav Jung destaca que há um fator preponderante em relação aos outros que influencia a formação e o desenvolvimento da psique infantil:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Via de regra, o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram (pois se trata de fenômeno psicológico atávico do pecado original). Tal afirmação poderia parecer algo de sumário e artificial sem esta restrição: essa parte da vida a que nos referimos seria aquela que os pais poderiam ter vivido se não a tivesse ocultado mediante subterfúgios mais ou menos gastos. Trata-se, pois, de uma parte da vida que — numa expressão inequívoca — foi abafada talvez com uma mentira piedosa. É isto que abriga os germes mais virulentos. (JUNG, 2013a, p. 52).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-ressalta-ainda-que-os-pais-sao-fontes-primarias-das-neuroses-dos-filhos-e-que-via-de-regra-as-reacoes-mais-fortes-sobre-as-criancas-nao-provem-do-estado-consciente-dos-pais-mas-de-seu-fundo-inconsciente-jung-2013a-p-51-p-84" style="font-size:19px">Jung ressalta ainda que os pais são fontes primárias das neuroses dos filhos e que “<em>(&#8230;) via de regra, as reações mais fortes sobre as crianças não provêm do estado consciente dos pais, mas de seu fundo inconsciente</em>.” (JUNG, 2013a, p. 51, p. 84).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sendo assim, é importante compreender que não são somente as atitudes conscientes de pais e cuidadores que afetam a vida psíquica da criança. A forma que se relacionam com o inconsciente também afeta, ou seja, aquilo que não é falado, que é negado, reprimido e não confrontado também afeta. Isso ocorre porque o eu da criança está em formação e, portanto, principalmente a criança pequena, vive em um estado de inconsciência sobre si própria, que origina uma indiferenciação em relação ao objeto, de tal maneira que experimenta a mãe e o mundo como sendo si própria. (JUNG, 2013a, p. 50).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A consequência é que, devido ao estado de identidade que se estabelece, a criança não sabe diferenciar o que é conteúdo dela e o que é conteúdo de seus pais, e a consequência é que ela vai se tornando depositária das questões deles, tomando como parte de si tudo o que ocorre na vida psíquica de seus pais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-isso-jung-nos-diz-nesse-trecho-que-e-longo-mas-fundamental-para-o-entendimento" style="font-size:19px"><strong>Sobre isso, Jung nos diz nesse trecho que é longo, mas fundamental para o entendimento:</strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Não é a vida honesta e piedosa, não é a inculcação de verdades pedagógicas que exercem influência moldadora sobre o caráter da pessoa em formação; o que tem maior influência é a atitude emocional, pessoal e inconsciente, dos pais e educadores. A desarmonia latente entre os pais, uma preocupação secreta, desejos secretos e reprimidos, tudo isso produz na criança um estado emocional, com sinais perfeitamente reconhecíveis, que devagar, mas segura e inconscientemente vai penetrando na psique dela, levando às mesmas atitudes e, portanto, às mesmas reações aos estímulos do meio ambiente. (&#8230;). Se nós, adultos, mostramo-nos sensíveis a estas influências do meio ambiente, o que dizer então de uma criança cuja psique é mole e moldável como cera! O pai e a mãe gravam o sinete de sua personalidade fundo na psique da criança; e mais fundo quanto mais sensível e impressionável ela for. Tudo é retratado inconscientemente na criança, mesmo coisas das quais nunca se falou.</p><cite>JUNG, 2012, p. 524</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Zweig e Abrams (1994, p.69) ampliam essa ideia ao dizer que&nbsp; “Cada um de nós tem uma herança psicológica que não é menos real que nossa herança biológica. Essa herança inclui um legado de sombra que nos é transmitido e que absorvemos no caldo psíquico do nosso ambiente familiar.” Portanto, estamos falando de uma herança psíquica transgeracional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-essencial-da-relacao-parental-e-a-projecao" style="font-size:19px"><strong>Outro ponto essencial da relação parental é a projeção.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jacoby (2010, p.28) mostra como a imagem arquetípica da criança é frequentemente projetada sobre o filho quando os pais não buscam sua própria realização. Nestes casos, o desejo de autorrealização é projetado nas crianças e pode trazer consequências significativas em suas vidas porque “ela rouba, até mesmo violenta, o crescente esforço por autonomia da criança em amadurecimento.” (JACOBY, 2010, p.27).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-campo-da-relacao-primal-autores-como-neumann-e-edinger-destacam-que-sera-fundamental-para-o-desenvolvimento-psiquico" style="font-size:19px">No campo da relação primal, autores como Neumann e Edinger destacam que será fundamental para o desenvolvimento psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É a vivência de segurança adquirida na relação primal que capacita o eu a integrar as possíveis crises que possam transcorrer no percurso do desenvolvimento. Também é esta experiência que capacita a criança a suportar as inibições impostas por um código de conduta ou por valores culturais (NEUMANN, 1995, p. 51). Edinger (2020, p. 29, p.60) pontua que&nbsp; a vivência de segurança e acolhimento nos primeiros anos é decisiva para a formação do eixo eu–Si-mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando essa relação é fragilizada — seja por ausência de afeto, violência, rejeição, abandono ou mesmo conflitos familiares intensos — surgem danos psíquicos que podem ressoar por toda a vida, como sentimentos de vazio, desespero, falta de sentido e, em casos extremos, psicoses e risco de suicídio. Aqui, vale lembrar os dados de suicídio na infância e na adolescência apresentados nos relatórios e a reflexão acerca do quanto tais análises podem estar representando a dor da falta do amor, da aceitação e de um ambiente amoroso. Por outro lado, um ambiente excessivamente permissivo também pode gerar inflação do eu, dificultando o contato com limites e frustrações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-desafio-da-educacao-esta-em-estabelecer-o-equilibrio-entre-os-dois-caminhos" style="font-size:19px">O desafio da educação está em estabelecer o equilíbrio entre os dois caminhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É possível perceber, após toda a discussão do tema, que a conclusão dos relatórios de que a maioria dos transtornos mentais se iniciam no início do desenvolvimento é perfeitamente plausível de acordo com a visão junguiana, ao considerar que a psique do adulto é uma consequência da psique que iniciou sua formação na infância. Inclusive, como coloca Jung, tal influência pode conduzir toda a vida da pessoa: “Vemos em cada neurótico como a constelação do meio ambiente infantil influencia não só o caráter da neurose, mas também o destino de vida, até mesmo em pequenos detalhes.” (JUNG, 2012, p. 526).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em resumo, pais e cuidadores exercem grande influência sobre o desenvolvimento psíquico infantojuvenil por diversas vias: herança psicológica transgeracional; formação da sombra; projeções parentais; e prejuízo da formação e desenvolvimento do eixo eu-Si-mesmo &#8211; onde está a influência da relação primal, do tipo de educação e do ambiente. Por isso, quando falamos de saúde mental da criança e do adolescente, não podemos separar essa discussão da saúde mental dos pais e cuidadores e de seu compromisso com o autoconhecimento. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-que-esse-efeito-seja-minimizado-jung-pontua-que" style="font-size:19px">Para que esse efeito seja minimizado, Jung pontua que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A única coisa que pode preservar a criança desses danos desnaturais é a atitude sincera dos pais diante dos problemas da vida.” (JUNG, 2013a, p. 89). Também nos lembra que: “Para o bem de seus filhos, os pais deveriam considerar seu dever jamais esquecer suas próprias dificuldades íntimas. O que não devem fazer é reprimi-las levianamente e talvez fugir de confrontos dolorosos. </p><cite>JUNG, 2013a, p. 140</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É possível concluir o quanto esta fase da vida é importante e determinante para o bem-estar mental de toda uma vida, não somente na infância. Além disso, fica claro que não é possível separar saúde mental da criança e do adolescente da saúde mental parental.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-resumo-a-compreensao-junguiana-mostra-que-quando-se-fala-de-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente-e-de-suma-importancia" style="font-size:19px"><strong>Em resumo, a compreensão junguiana mostra que quando se fala de saúde mental da criança e do adolescente, é de suma importância:</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px">a valorização do autoconhecimento dos pais;</li>



<li style="font-size:19px">que se incluam intervenções que ajudem pais e cuidadores a reconhecerem suas projeções;</li>



<li style="font-size:19px">que políticas públicas considerem pais e cuidadores, e não apenas as crianças;</li>



<li style="font-size:19px">a compreensão dos sintomas infantis como expressões também de complexos familiares;</li>



<li style="font-size:19px">que considerem a criança como sujeito, mas também como parte de um campo psíquico maior.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por fim, ressalto o quanto Jung foi pioneiro: muito antes de haver dados epidemiológicos mundiais, ele já apontava que as bases da vida psíquica se estruturam nos primeiros anos de vida, aquilo que hoje é sustentado por pesquisas globais.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Psicologia Analítica e saúde mental da criança e do adolescente" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/kXYWMnIix98?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/danielle-chaves-gomes-de-oliveira/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/danielle-chaves-gomes-de-oliveira/">Danielle Chaves Gomes de Oliveira – Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/">Maria da Glória Miranda &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, E.F. Ego e arquétipo: uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos</p>



<p class="wp-block-paragraph">fundamentais de Jung. 2.ed. São Paulo, Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, J. Estudos de psicologia arquetípica. 1.ed. Rio de Janeiro, Vozes, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOB, M. Psicoterapia Junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças. 1.ed. São</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paulo, Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Estudos Experimentais, 3. ed., Petrópolis, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G O desenvolvimento da personalidade. 14. ed. Petrópolis, Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E. A criança. 10. ed. São Paulo, Cultrix, 1995</p>



<p class="wp-block-paragraph">SALVADOR, A.P. Psicopatologia na perspectiva junguiana: uma psicopatologia “re-imaginada”.In: MAGALDI, W. (Org.). Fundamentos da psicologia analítica. 1.ed. São Paulo, Eleva Cultural, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNICEF. United Nations Children’s Fund, The State of the World’s Children 2021: On My</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mind – Promoting, protecting and caring for children’s mental health, UNICEF, New York:</p>



<p class="wp-block-paragraph">2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World Population Prospects 2022: Summary of Results. New York: United Nations; 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Comprehensive mental health action plan</p>



<p class="wp-block-paragraph">2013–2030. Geneva: World Health Organization; 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). World mental health report: transforming</p>



<p class="wp-block-paragraph">mental health for all. Geneva: World Health Organization; 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health today: latest data. Genebra:2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, C.; ABRAMS, J. Ao encontro da sombra. 1. ed. São Paulo, Cultrix, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/um-dialogo-necessario-entre-a-psicologia-analitica-e-relatorios-de-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente/">Um diálogo necessário entre a Psicologia Analítica e relatórios de saúde mental da criança e do adolescente</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>É possível usar o pensamento junguiano para fazer a análise de crianças e adolescentes?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/e-possivel-usar-o-pensamento-junguiano-para-fazer-a-analise-de-criancas-e-adolescentes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Jun 2025 12:45:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[EducaçãoTransformadora]]></category>
		<category><![CDATA[FreirePiaget]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[PsicologiaJunguiana]]></category>
		<category><![CDATA[TerapiaInfantil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Você já pensou em como a psicologia junguiana pode ajudar no desenvolvimento de crianças e adolescentes? Neste artigo, exploro a intersecção entre a psicologia analítica de Carl Jung, a educação transformadora de Paulo Freire e o desenvolvimento cognitivo de Piaget, oferecendo uma abordagem única para a terapia de crianças, adolescentes e jovens. Com mais [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/e-possivel-usar-o-pensamento-junguiano-para-fazer-a-analise-de-criancas-e-adolescentes/">É possível usar o pensamento junguiano para fazer a análise de crianças e adolescentes?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Resumo: <strong>Você já pensou em como a psicologia junguiana pode ajudar no desenvolvimento de crianças e adolescentes? </strong>Neste artigo, exploro a intersecção entre a psicologia analítica de Carl Jung, a educação transformadora de Paulo Freire e o desenvolvimento cognitivo de Piaget, oferecendo uma abordagem única para a terapia de crianças, adolescentes e jovens. Com mais de 30 anos de experiência como educadora, psicopedagoga e agora como analista, compartilho insights sobre como integrar essas perspectivas para promover o autoconhecimento, a autonomia e a transformação social.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-mais-de-tres-decadas-em-sala-de-aula-convivendo-com-criancas-adolescentes-familias-e-o-complexo-mundo-da-escola-comecei-a-perceber-que-o-que-acontecia-ali-ia-alem-do-que-os-olhos-podiam-ver" style="font-size:19px">Após mais de três décadas em sala de aula, convivendo com crianças, adolescentes, famílias e o complexo mundo da escola, comecei a perceber que o que acontecia ali ia além do que os olhos podiam ver.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Comportamentos repetitivos, desenhos carregados de símbolos, silêncios profundos, explosões de raiva&#8230; tudo isso me fazia perguntar: o que mais está sendo dito aqui, por trás do que é visível? Foi quando me aproximei da psicologia de Carl Gustav Jung e encontrei uma linguagem que parecia traduzir aquilo que eu intuía, mas não conseguia nomear.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-via-o-inconsciente-nao-apenas-como-algo-que-carregamos-por-dentro-mas-como-um-campo-vivo-cheio-de-imagens-e-significados-que-nos-atravessam-mesmo-sem-sabermos" style="font-size:19px">Jung via o inconsciente não apenas como algo que carregamos por dentro, mas como um campo vivo, cheio de imagens e significados que nos atravessam, mesmo sem sabermos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ele afirmava que “o Self é a totalidade da personalidade, que abrange o consciente e o inconsciente; é o centro regulador da psique” (JUNG, 1976, p. 167). Mesmo na infância, esse Self está se desenhando, e as crianças nos mostram isso de formas simbólicas e espontâneas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao longo da minha experiência como educadora e psicopedagoga e, mais recentemente, como analista junguiana, percebo que a jornada de compreender o desenvolvimento de crianças e adolescentes é multifacetada, desafiadora e profundamente transformadora. Durante mais de 30 anos como professora, trabalhei com famílias e jovens de diferentes realidades, observando não apenas as questões acadêmicas, mas também as psicológicas e emocionais que se manifestam de forma evidente ou oculta. Em muitos casos, os desafios enfrentados pelos jovens eram tão profundos quanto suas dificuldades acadêmicas, exigindo mais do que apenas uma abordagem pedagógica convencional.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">No contexto da psicologia junguiana, podemos considerar essas questões não resolvidas como símbolos e imagens do inconsciente que, quando trabalhados, podem promover uma integração emocional e psicológica, resultando em um desenvolvimento saudável e equilibrado. Ao integrar a perspectiva junguiana com os pensamentos de Paulo Freire e Piaget, podemos criar uma abordagem terapêutica que favoreça a autonomia, o autoconhecimento e a transformação social de crianças e adolescentes e de suas famílias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Recordo-me de um aluno que só desenhava labirintos, com linhas complexas e sempre sem saída.</strong> Não era apenas distração: era expressão. Como dizia Jung, “<strong>as imagens do inconsciente possuem vida própria, e aparecem nos sonhos das crianças de forma viva, direta e transformadora</strong>” (JUNG, 2013, p. 41).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aprendi-que-como-educadora-eu-nao-precisava-interpretar-mas-escutar-escutar-as-imagens-os-gestos-os-silencios" style="font-size:19px">Aprendi que, como educadora, eu não precisava interpretar, mas escutar — escutar as imagens, os gestos, os silêncios.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Este texto visa expandir a ideia de como podemos usar o pensamento junguiano para a terapia de crianças e adolescentes, considerando as contribuições do filósofo Paulo Freire e do psicólogo Jean Piaget. A intersecção desses pensadores oferece uma abordagem rica para o desenvolvimento integral também dos adolescentes. Através desta vivência como educadora e terapeuta, observo que essas perspectivas não apenas se complementam, mas oferecem uma base sólida para uma prática terapêutica que respeite o processo de individuação e crescimento das crianças e adolescentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jean-piaget-nos-ensinou-sobre-os-estagios-do-desenvolvimento-cognitivo-da-crianca-e-como-ela-constroi-o-pensamento-atraves-da-acao" style="font-size:19px"><strong>Jean Piaget</strong> nos ensinou sobre os estágios do desenvolvimento cognitivo da criança e como ela constrói o pensamento através da ação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ele dizia: “<strong>A criança é um ser que constrói progressivamente suas estruturas cognitivas, através da ação sobre o mundo</strong>” (PIAGET, 1975, p. 14). Mas, se Piaget nos ofereceu as bases para entender como a criança pensa, Jung nos ajuda a entender o que ela sente e como expressa isso de forma simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A psicologia analítica de Carl Gustav Jung oferece uma lente profunda para compreender o inconsciente e os processos de desenvolvimento que ocorrem durante a infância e adolescência. Em sua teoria, Jung (1959) introduziu o conceito de arquétipos, que são imagens primordiais do inconsciente coletivo. Esses arquétipos emergem em sonhos, mitos e histórias culturais, refletindo as experiências universais da humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para<strong> Jung</strong>, a infância é um momento crucial no desenvolvimento da psique, é quando a criança começa a entrar em contato com esses arquétipos e a formar uma base psíquica para seu futuro. Ele sugere que, por meio do processo de individuação, a criança, o jovem e o adulto aprendem a integrar os aspectos inconscientes da psique, o que é essencial para o nosso equilíbrio emocional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-dizia-que-o-jogo-infantil-e-o-trabalho-da-crianca-e-por-meio-do-brincar-que-ela-expressa-e-elabora-conteudos-inconscientes-jung-2000-p-88" style="font-size:19px">Jung dizia que “<strong>o jogo infantil é o trabalho da criança. É por meio do brincar que ela expressa e elabora conteúdos inconscientes</strong>” (JUNG, 2000, p. 88).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Muitas vezes, o que vemos no brincar é a tentativa da criança de organizar o caos interno, de ensaiar soluções simbólicas para os conflitos reais que enfrenta.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A utilização da psicologia analítica com crianças e adolescentes é extremamente valiosa, pois possibilita a interpretação simbólica dos conteúdos inconscientes que emergem em seus comportamentos e sonhos. Por exemplo, os sonhos podem ser analisados como manifestações do inconsciente da criança e de sua carga transgeracional, refletindo os medos, desejos e conflitos internos que ela ainda não consegue expressar verbalmente. Jung acreditava que, ao permitir que a criança se conectasse com esses conteúdos simbólicos, a terapia proporcionaria uma oportunidade de transformação emocional e psicodinâmica, ajudando-a a integrar seus aspectos inconscientes de maneira saudável e construtiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Além disso, a psicologia junguiana também enfatiza a importância da relação terapêutica como um espaço seguro para o processo de individuação. Quando a criança sente que pode ser autêntica e explorar seus sentimentos sem julgamento, ela começa a entender melhor suas próprias motivações e emoções. Isso é fundamental para o desenvolvimento emocional e psicológico de crianças e adolescentes, que frequentemente se encontram em um momento de busca por identidade, pertencimento e autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O pedagogo <strong>Paulo Freire</strong> (1996) é amplamente reconhecido por sua abordagem educacional libertadora, que defende a conscientização e o protagonismo dos educandos no processo de aprendizagem. Para Freire, a educação deve ser um espaço de diálogo e transformação, onde o educador e o educando se tornam sujeitos ativos da construção do conhecimento. Essa perspectiva tem grande relevância na psicoterapia, pois ela reconfigura a relação entre o terapeuta e o paciente, enfatizando a importância da troca e da escuta atenta. Ao adotar a visão de Freire, a psicoterapia junguiana se torna mais do que um processo de interpretação e análise simbólica: ela se transforma em um espaço de liberdade, onde a criança ou o adolescente pode reescrever suas histórias e integrar suas experiências de maneira autêntica e transformadora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Paulo Freire, em sua profunda defesa da escuta e do diálogo, dizia que “<strong>ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo</strong>” (FREIRE, 1987, p. 78). Essa visão do educador como alguém que escuta, acompanha e respeita o tempo e o saber do outro é profundamente compatível com o olhar junguiano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quando Freire fala da “palavra como práxis” (FREIRE, 1996, p. 42), penso imediatamente nos símbolos que emergem nas falas das crianças e adolescentes. Não são apenas palavras: são imagens vivas que revelam seu mundo interior. O educador, nesse contexto, não precisa dar respostas, mas sustentar perguntas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-acreditava-que-o-ambiente-ao-redor-da-crianca-influencia-diretamente-na-formacao-do-self-ele-dizia-se-o-ambiente-externo-nega-a-expressao-do-self-a-crianca-tende-a-desenvolver-uma-persona-fragil-ou-um-ego-defensivo-prejudicando-a-integracao-de-sua-totalidade-jung-2013-p-121" style="font-size:19px">Jung acreditava que o ambiente ao redor da criança influencia diretamente na formação do Self. Ele dizia: “<strong>Se o ambiente externo nega a expressão do Self, a criança tende a desenvolver uma persona frágil ou um ego defensivo, prejudicando a integração de sua totalidade</strong>” (JUNG,2013, p.121).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A escola, assim como a família, pode ser espelho ou máscara. Pode ajudar a criança a se encontrar ou forçá-la a se esconder. Paulo Freire também alertava para isso: “A opressão nega a vocação ontológica do ser humano para a plenitude” (FREIRE, 1987, p. 33). Precisamos de escolas que acolham o símbolo e a diferença, que escutem o silêncio e permitam o tempo da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao longo dos anos, fui fazendo registros de alguns desenhos de crianças, uma espécie de mapa com símbolos que surgiam em sala de aula. Crianças que desenhavam dragões, adolescentes que escreviam poesias sobre abismos, alunos que falavam com pedras como se fossem oráculos e adultos que sonhavam com ondas gigantes e avassaladoras. Não eram apenas brincadeiras: eram manifestações da alma. Jung dizia que “o símbolo é a melhor expressão possível de algo que ainda não pode ser totalmente conhecido ou racionalizado” (JUNG,1976, p.159).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essas expressões me ensinaram e me ensinam até hoje, mais do que qualquer diagnóstico. Elas exigem sensibilidade e presença, não apenas técnica. A escuta simbólica, o diálogo verdadeiro e o respeito ao tempo da psique são ferramentas essenciais para quem trabalha com crianças e adolescentes. A psicologia junguiana, quando aliada à pedagogia freiriana e aos aportes de Piaget, nos oferece um caminho mais humano, mais profundo e mais integrador. Como educadora, não interpretei imagens, mas caminhei com elas. Não diagnostiquei, mas acolhi. Não corrigi sonhos, mas os escutei com reverência. É possível, sim, usar o pensamento junguiano para compreender melhor as infâncias e adolescências — e, quem sabe, curar um pouco da nossa própria criança interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Freire acredita que a educação deve promover a liberdade, e isso se aplica perfeitamente à psicoterapia, onde o terapeuta deve criar um ambiente seguro para que o cliente, especialmente uma criança ou adolescente, possa expressar seus sentimentos, pensamentos e experiências sem medo de julgamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa relação de confiança e liberdade é essencial para o desenvolvimento psíquico saudável, pois permite que o cliente se conecte com os conteúdos inconscientes que precisam ser trabalhados. No contexto junguiano, isso pode ser feito através da exploração de símbolos e imagens que surgem durante a terapia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A educação transformadora de Freire não se limita às salas de aula. Ela pode ser aplicada também no espaço terapêutico, onde a criança ou adolescente é convidado a se tornar sujeito de seu próprio processo de cura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Dessa forma, a psicoterapia junguiana, ao incorporar as ideias de Freire, se torna não apenas uma técnica de cura, mas também um ato de empoderamento, onde a criança ou adolescente aprende a lidar com seus conflitos internos e externos de maneira construtiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-teoria-do-desenvolvimento-cognitivo-de-jean-piaget-1976-e-fundamental-para-compreender-como-as-criancas-constroem-sua-percepcao-do-mundo-ao-seu-redor" style="font-size:19px">A teoria do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget (1976) é fundamental para compreender como as crianças constroem sua percepção do mundo ao seu redor.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Piaget propôs que as crianças passassem pelos estágios de desenvolvimento cognitivo, cada um caracterizado por diferentes formas de pensar e entender o mundo. Esses estágios – sensório-motor, pré-operacional, operações concretas e operações formais – influenciam como as crianças processam informações e resolvem problemas, o que tem implicações diretas para a psicoterapia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-integrar-a-teoria-de-piaget-com-a-psicologia-analitica-de-jung-podemos-ver-como-o-desenvolvimento-cognitivo-das-criancas-e-adolescentes-pode-impactar-o-processo-terapeutico" style="font-size:19px">Ao integrar a teoria de Piaget com a psicologia analítica de Jung, podemos ver como o desenvolvimento cognitivo das crianças e adolescentes pode impactar o processo terapêutico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Durante o estágio pré-operacional, por exemplo, a criança tende a pensar de forma egocêntrica e simbólica.&nbsp; A terapia junguiana pode ser particularmente eficaz nesse estágio, ajudando a criança a entender e integrar esses símbolos, permitindo-lhe desenvolver uma maior compreensão de si mesma e do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">À medida que a criança avança para os estágios de operações concretas e formais, ela começa a construir raciocínios mais lógicos e abstratos. A psicoterapia junguiana, nesse caso, pode ser usada para explorar as questões mais complexas que surgem com o desenvolvimento da consciência e da identidade. Adolescentes, por exemplo, muitas vezes, enfrentam conflitos internos sobre quem são, qual é o seu papel na sociedade e como se relacionam com os outros. A terapia junguiana pode ajudar a explorar esses temas de maneira profunda, utilizando metáforas e símbolos para facilitar a compreensão e a aceitação de si mesmos, uma boa opção é o uso da Arteterapia e expressões criativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-minha-experiencia-como-educadora-e-psicopedagoga-juntamente-com-minha-formacao-em-psicologia-analitica-me-permitiu-observar-de-perto-os-processos-de-desenvolvimento-e-os-desafios-enfrentados-por-criancas-e-adolescentes" style="font-size:19px">Minha experiência como educadora e psicopedagoga, juntamente com minha formação em psicologia analítica, me permitiu observar de perto os processos de desenvolvimento e os desafios enfrentados por crianças e adolescentes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Muitas vezes, percebi que os desafios emocionais e psicológicos de meus alunos estavam diretamente relacionados à sua capacidade de integrar suas experiências e diferentes identidades. Quando esses jovens se deparavam com dificuldades, como dificuldades de relacionamento, de aprendizagem, conflitos familiares ou problemas de autoestima, suas emoções se manifestavam de formas que nem sempre eram compreendidas ou respeitadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Agora, como analista, posso perceber claramente o valor de integrar a psicologia analítica na terapia de jovens. A minha prática terapêutica, fundamentada na escuta ativa, na interpretação simbólica e na valorização da autonomia do indivíduo, reflete muito do que Paulo Freire propôs no campo da educação. A liberdade de ser quem se é, a capacidade de transformar-se e de encontrar significado nos próprios desafios são componentes essenciais do processo terapêutico, tanto na educação quanto na terapia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-integracao-da-psicologia-analitica-com-os-conceitos-educacionais-de-freire-e-piaget-me-permite-oferecer-uma-abordagem-integral-que-respeita-o-ritmo-e-as-necessidades-emocionais-e-cognitivas-de-cada-crianca-e-adolescente" style="font-size:19px">Essa integração da psicologia analítica com os conceitos educacionais de <strong>Freire</strong> e <strong>Piaget </strong>me permite oferecer uma abordagem integral, que respeita o ritmo e as necessidades emocionais e cognitivas de cada criança e adolescente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Cada símbolo, cada arquétipo que emerge no processo terapêutico é visto não apenas como uma manifestação do inconsciente, mas como uma ferramenta para o autoconhecimento e a transformação pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-integrar-a-psicologia-analitica-com-os-pensamentos-de-paulo-freire-e-jean-piaget-cria-um-caminho-rico-e-dinamico-para-a-terapia-de-criancas-e-adolescentes" style="font-size:19px">Integrar a psicologia analítica com os pensamentos de Paulo Freire e Jean Piaget cria um caminho rico e dinâmico para a terapia de crianças e adolescentes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O processo de individuação proposto por Jung, aliado à abordagem libertadora de Freire e à compreensão do desenvolvimento cognitivo de Piaget, oferece uma base sólida para a terapia que respeita a individualidade de cada jovem e sua jornada de crescimento. A experiência de ser educadora, psicopedagoga e analista me permite afirmar que essa abordagem integrada é profundamente eficaz no tratamento das questões emocionais e psicológicas que surgem no processo de desenvolvimento das novas gerações.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;É possível usar o pensamento junguiano para fazer a análise de crianças e adolescentes?&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/zeeXJi7_BeA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/elaine-cristina-bedin/">Elaine Cristina Bedin &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">FREIRE, Paulo<em>. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa</em>. São Paulo: Paz e Terra, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FREIRE, Paulo. <em>Pedagogia do oprimido</em>. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav<em>. A natureza da psique.</em> Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Memórias, sonhos, reflexões</em>. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1959.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav<em>. O desenvolvimento da personalidade</em>. Petrópolis: Vozes, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav<em>. Tipos Psicológicos</em>. Petrópolis: Vozes, 1976.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PIAGET, Jean. <em>A psicologia da criança</em>. Trad. Francisco R. Bordini. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1976.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PIAGET, Jean. <em>O nascimento da inteligência na criança.</em> Rio de Janeiro: Zahar, 1975.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10571" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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			</item>
		<item>
		<title>A Transformação do Homem através da Anima: Reflexões a partir do Mito de Percival e a Psicologia de Jung e Johnson</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/transformacao-do-homem/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 28 Feb 2024 19:31:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[aspectos do masculino]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[homens]]></category>
		<category><![CDATA[johnson]]></category>
		<category><![CDATA[jornada do herói]]></category>
		<category><![CDATA[parsifal]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia masculina]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8841</guid>

					<description><![CDATA[<p>O artigo explora a transformação masculina através da anima, com base no Mito de Percival e nas teorias de Jung e Johnson. Destaca-se a importância da anima como uma força primitiva que desafia abstrações, enfatizando sua natureza complexa. A dualidade, confronto com obstáculos externos, e a necessidade de cura interna são abordados, assim como o papel do mito na busca pela totalidade. A influência duradoura da figura materna é analisada através do mito do dragão. Em conclusão, destaca-se o processo de integração como essencial para a realização pessoal. O artigo oferece uma exploração profunda da jornada do homem em busca de autenticidade através da transformação da anima.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Explore a jornada de transformação do homem através da anima, analisando o Mito de Percival e as teorias psicológicas de Jung e Johnson. Descubra como a dualidade interna, confrontos externos e a cura interna são fundamentais para a consolidação da masculinidade e realização pessoal.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-uma-camada-primitiva-na-psicologia-do-homem-que-segundo-jung-e-representada-pela-anima"><strong>Há uma camada primitiva na psicologia do homem que, segundo Jung, é representada pela anima</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua essência, a psicologia primitiva rejeita abstrações, e as línguas primitivas têm poucos conceitos. Nesse contexto, <strong>a anima emerge como uma força primitiva</strong>, resistindo à mera noção abstrata. Jung destaca que o entendimento da anima como um complexo que se comporta quase como uma pessoa é crucial. A anima não é apenas uma abstração científica, para <strong>Jung</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>O termo científico nada transmite e a mera noção abstrata da anima também não transmite nada, quando você pressupõe que a anima é quase pessoal, mas um complexo que se comporta exatamente como se ela fosse simples pessoa, ou as vezes como se fosse uma pessoa uma muito importante, logo você entende isso quase que corretamente. (JUNG, 2019, p.221)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Robert A. Johnson</strong>, em seu livro &#8220;He&#8221;, explora a dualidade do universo e destaca que para compreender a unicidade é necessário a percepção da dualidade e sua respetiva diferenciação. Johnson ressalta a importância de diferenciar o mundo interior do exterior, e a verdadeira atuação na unidade só é possível quando essa distinção é clara. É possível ter uma percepção clara desta dualidade nas projeções da vida cotidiana Jhonson capta bem esse problema ao apontar que o problema deste sofrimento e desta que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>O homem é muitas vezes levado a fazer coisas estúpidas na tentativa de curar a ferida e suavir o desespero que sente. É como se buscasse uma solução inconsciente, fora de si próprio, queixando-se do seu trabalho, do casamento ou do lugar que tem no mundo. Pode até nessa fase, tentar encontrar uma outra mulher (JOHNSON, 1992, p. 21).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Para<strong> Johnson</strong>, &#8220;Nenhum esforço exterior é possível se nossa capacidade interior está ferida&#8221; (JOHNSON, 1992, p. 25), destaca a necessidade de cura interna antes de qualquer empreendimento externo eficaz. Esta perspectiva ecoa a jornada de Parsifal, onde a busca por algo no interior, que corresponda à idade e mentalidade do momento da ferida, é essencial para a cura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-mito-de-persifal-johnson-destaca-a-necessidade-de-despertar-o-parsifal-no-homem">No mito de Persifal, Johnson destaca a necessidade de despertar o &#8220;Parsifal&#8221; no homem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O despertar não apenas traz alegria à parte anteriormente incapaz de felicidade, mas também infunde vida. A dualidade presente no homem, representada pelo lado violento que precisa ser dominado, é uma jornada em direção à integração consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O confronto com obstáculos externos é fundamental para consolidar a masculinidade, desafiando a vontade e identidade do homem. Isto porque desde a infância precisa aprender a dominar o instinto violento de sua natureza, que sem a conscientização pode vir a se tornar dominado por essa sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Johnson também ressalta a importância do papel paterno na vida do <strong>adolescente</strong>, sugerindo que, nos dias de hoje, a intimidade entre pai e filho muitas vezes é perdida, tornando-se necessário um mentor, um guia masculino, para continuar o processo de treinamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando esse processo de desenvolvimento não acontece de forma satisfatório o homem pode cair no encantamento do dragão &#8211; que contém representação de uma variação da imago da mãe-, Johnson descreve a dinâmica psicológica não resolvida que os homens mantêm com o complexo materno desde a infância. Esse &#8220;dragão&#8221; é uma representação da relação complexa e ao permanecer não resolvida, tal figura acaba influenciando suas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Concluindo, Johnson destaca que o verdadeiro trabalho do homem na fase final da vida é o processo de trazer elementos do inconsciente e integrá-los ao consciente</strong>. Essa integração, segundo ele, é essencial para a totalidade e realização do indivíduo (cf JOHNSON, 1992, p. 82).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aprofundando-a-jornada-interior-explorando-as-fases-da-transformacao-masculina"><strong>Aprofundando a Jornada Interior: Explorando as fases da Transformação Masculina</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao nos aprofundarmos na jornada de transformação delineada por Jung e Johnson, é imperativo explorar as várias fases dessa busca interior. Ao sofrer, o homem muitas vezes procura soluções externas para aliviar seu desespero, manifestando-se em reclamações sobre vários aspectos de sua vida. Essa busca inconsciente por soluções fora de si mesmo destaca a necessidade premente de cura interna antes de qualquer empreendimento externo. <strong>A jornada de Parcifal nos mitos aponta para a necessidade de se realizar uma colaboração entre o mundo interno e externo</strong> (cf. Johnson).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A dualidade inerente ao homem, simbolizada pelo lado violento que requer domínio, revela-se como um caminho em direção à integração consciente.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A consolidação da masculinidade, requer o enfrentamento de obstáculos externos. Esse confronto desafia a vontade e a identidade do homem, sendo fundamental para seu desenvolvimento. O mito do dragão, que encanta as pessoas, assume uma nova dimensão ao ser interpretado como a dinâmica psicológica não resolvida que os homens mantêm com o complexo materno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>acesso de mau humor</strong>, frequentemente manifestado como uma resposta inconsciente a essa dinâmica não resolvida, destaca a influência duradoura da figura materna nas vidas dos homens (cf. JOHNSON, 1992, p. 29).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao final da jornada, Johnson aponta que o verdadeiro trabalho do homem na fase final da vida é o processo de <strong>trazer elementos do inconsciente e integrá-los ao consciente</strong>. Essa integração é uma etapa essencial para alcançar a totalidade e a realização pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-consideracoes-finais"><strong>Considerações finais</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">À luz das reflexões proporcionadas por Jung e Johnson, a jornada do homem em direção à transformação é uma exploração multifacetada da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>anima</strong>, como uma força primitiva, desafia as noções convencionais e exige uma compreensão profunda. A <strong>dualidade</strong>, representada nos mitos e nas obras de Johnson, é uma realidade que requer diferenciação e consciência para a busca efetiva da unicidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-por-solucoes-externas-em-momentos-de-desespero-ressalta-a-urgencia-da-cura-interna">A busca por soluções externas em momentos de desespero ressalta a urgência da cura interna.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mito de Parsifal, com seu chamado para despertar esta imagem interior, revela-se como um caminho em direção à integração consciente, exigindo a superação do lado violento inerente. A consolidação da masculinidade, através do confronto com obstáculos externos, destaca a importância do papel de um guia na jornada do homem. Tais dinâmicas não resolvidas com a imago materno, personificada pelo mito do dragão, continua a exercer uma influência significativa, moldando as respostas inconscientes dos homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No final, o processo de trazer elementos do inconsciente para o consciente, é vital para a busca contínua pela totalidade e realização pessoal. A transformação do homem através da anima é uma jornada que transcende o tempo, uma exploração constante das profundezas da psique masculina em busca de autenticidade e totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung, o confronto com a sombra é obra de amador diante do confronto com a anima, porém, enquanto a sombra não tiver sido integrada, a expressão da anima será absolutamente tingida por ela. Ao invés dela funcionar como um psicopompo que vai levar ele para relação com o si-mesmo que é a sua centelha divina ela o levará para as profundezas mais tenebrosas e assustadoras.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: &quot;A Transformação do Homem através da Anima&quot; #anima  #psicologiajunguiana" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/NoCmGg_Ung4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Daniel Gomes – Analista em formação pelo IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Waldemar Magaldi – Analista Didata</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia">Bibliografia:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2019). Aspectos do masculino. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JOHNSON, R. A. (2013). He: Compreendendo a Psicologia Masculina. São Paulo: Mercuryo</p>



<p class="wp-block-paragraph">JOHNSON, R. A. (1994). Homem: A chave do entendimento dos três níveis da consciência masculina. São Paulo: Mercuryo</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem por por Pixabay</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossas Pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



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		<title>A gestação na adolescência: O que ela nos revela, sob o ponto de vista da psicologia analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-gestacao-na-adolescencia-o-que-ela-nos-revela-sob-o-ponto-de-vista-da-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ivone Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jan 2024 13:13:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8666</guid>

					<description><![CDATA[<p>Nosso trabalho com gestantes adolescentes é uma realidade que nos convoca a refletir sobre o assunto e tentar entender o fenômeno e assumir uma postura mais humanizada e compreensível diante desses parturientes.<br />
Apesar de termos conhecimento sobre os agravos de uma gestação na adolescência isto e, seus riscos para a saúde materna e fetal, não podemos deixar de pensar sobre as questões que envolvem o social, familiar, individual e psicológico.<br />
Na adolescência observa-se as transformações biológicas cognitivas, emocionais, sociais e seu desenvolvimento social. Os padrões infantis são questionados e reelaborados, fazendo com que ele possa ser inserido no mundo adulto, ou seja construindo sua identidade própria.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Nosso trabalho com gestantes adolescentes é uma realidade que nos convoca a refletir sobre o assunto afim de tentar entender o fenômeno e assumir uma postura mais humanizada e compreensível diante dessas parturientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, se pensarmos somente sob o ponto de vista biológico veremos que as consequências dessa gravidez, nesse determinado momento, acarretam uma série de riscos para a saúde materna e fetal, mas como ficam as questões que envolvem o social, familiar, individual e psicológico?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até meados do século XX, a gestação na adolescência não era considerada um problema de saúde pública e tampouco suscitava a atenção de pesquisadores, como ocorre hoje em dia. Ao longo da década de 1990 observou-se um aumento nos percentuais de nascimento em mães menores de 20 anos (IBGE, 2002). Esta situação trouxe questões importantes a serem estudadas: a gravidez na adolescência seria uma experiencia desejada, esperada? O que ela nos revela? Quais as consequências? (DIAS, TEIXEIRA, 2010).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/adolescencia-percurso-entre-a-crianca-amada-e-o-adulto-reconhecido/">Não definimos adolescência somente a partir da idade ou da biologia</a>. É também um momento de vida onde observa-se um desenvolvimento social, transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais, momento em que se questionam e se reelaboram os padrões infantis, tornando possível inserir o adolescente no mundo adulto. O que significa a construção de uma identidade própria, envolvendo o desenvolvimento afetivo-sexual e o profissional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-da-identidade-determina-a-construcao-de-novas-relacoes-com-o-seu-corpo-sua-familia-e-com-o-ambiente-em-que-esta-inserido-silva-lopes-diniz-2004" style="font-size:18px"><strong>A busca da identidade determina a construção de novas relações com o seu corpo, sua família e com o ambiente em que está inserido</strong> (SILVA, LOPES, DINIZ, 2004).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A adolescência não será igual para todos os indivíduos, considerando que a condição socioeconômica terá grande influência na forma de viver e entender a vida. O contexto social cultural onde estará esse adolescente terá grande influência na sua formação. Entende-se que seria o momento de preparo para o futuro, uma construção de sua identidade pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, todo adolescente passa por esse processo, mesmo que cada um o experimente em ocasiões diferentes. Isto porque existe um determinismo biológico para o desenvolvimento físico, contudo, os fatores socioculturais tem seu papel ímpar nesse momento decisivo de um processo de transição. Etapa na qual a adolescente busca encontrar seu lugar no espaço social, representada por situações que são, normalmente, aceitas ou reprimidas pela sociedade, dentre elas a maternidade. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-determina-o-artigo-227-da-constituicao-federal" style="font-size:19px">É o que determina o artigo 227 da Constituição Federal:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e a convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Várias organizações internacionais reconhecem formalmente a importância da saúde dos adolescentes. Buscou-se que seus governantes tomassem providências para prevenir gestações precoces. Além disso, instituiu-se que a educação sexual e orientações sobre planejamento familiar estivessem amplamente disponíveis aos adolescentes, porém, o número de jovens gestantes permanece alto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vulnerabilidade da população adolescente é inerente ao seu comportamento, tal como a necessidade de buscar sua identidade psicológica e sexual para se posicionar no meio social, enfim, a necessidade de autoafirmação. <strong>O adolescente é impetuoso, impaciente.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma gestação nesse momento de vida &#8211; que se observa numa boa parcela dessa população com condições socioeconômicas precárias e consequentemente uma maior ausência de condições ideais de higiene, habitação e saúde &#8211; favoreceria o aparecimento de muitas dificuldades no pré-natal e parto. A exemplo das seguintes: ausência de fazer pré-natal adequado, baixo peso do bebê, prematuridade, doença hipertensiva da gravidez, infecções urinarias (SILVA, LOPES, DINIZ, 2004).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em termos sociais essa gestação pode estar associada a evasão escolar, pobreza, desemprego, ingresso em um mercado de trabalho não qualificado, separação conjugal, situações de violência e negligência, diminuição das oportunidades de mobilidade social, além de maus tratos infantis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-iniciacao-sexual-na-adolescencia-e-a-atividade-sexual-regular-vem-ocorrendo-em-idades-cada-vez-mais-precoces" style="font-size:19px">A iniciação sexual na adolescência e a atividade sexual regular vêm ocorrendo em idades cada vez mais precoces.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essas mudanças de comportamento sexual resultaram das transformações de valores que tiveram seu início nos anos 60. Trazendo consequências para a área da sexualidade humana, como, por exemplo, a gestação precoce das adolescentes aqui abordada (DIAS, TEIXEIRA, 2010). O uso dos anticoncepcionais mudou os padrões de comportamento sexuais, favorecendo os aspectos da busca do prazer e não somente a função reprodutiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, essa liberdade sexual não foi acompanhada por uma discussão de valores associados ao corpo, à sexualidade e aos papéis sexuais e de gênero presentes em nossa sociedade. Enquanto o adolescente deveria estar &#8211; na medida do possível &#8211; estudando, namorando, ampliando sua participação no mundo, o acontecimento de uma gravidez traz expectativas e responsabilidades que limitam essas possibilidades. O que impõem uma mudança de comportamento na constituição da identidade dessa adolescente. Nesse momento, além de exercer o papel de filha, a jovem passa a exercer o papel de mãe e ressignifica nesse processo a relação com a própria mãe.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-contexto-familiar-e-as-relacoes-parentais-tem-papel-fundamental-na-formacao-de-todos-os-individuos" style="font-size:21px">O contexto familiar e as relações parentais têm papel fundamental na formação de todos os indivíduos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A pesquisa sobre os laços afetivos nesse contexto pode nos dar pistas sobre o porquê dessa gravidez nesse momento. A ligação com os pais e o ambiente familiar tem importância na sexualidade dos jovens, levando a um comportamento de acomodação e medo de enfrentar os próximos anos que estão por vir. Alguns pais persistem no comportamento de tratar seus filhos como crianças. Dificultando seu crescimento e enfrentamento da vida, de modo que acabam por destruir toda a capacidade da adolescente de ser responsabilizada por seus atos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos ver indivíduos irresponsáveis, sem independência própria ou indivíduos que forçam conquistas da própria independência por caminhos escusos. Outros pais, por fraqueza, são incapazes de se opor à adolescente e &nbsp;estabelecer os limites necessários &#8211; dos quais ela precisará mais tarde para se adaptar ao mundo. (JUNG, 2013b p. 64)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-relacao-mae-filha-e-a-mais-profunda-e-a-mais-comovente-que-se-conhece" style="font-size:21px">A relação mãe-filha é a mais profunda e a mais comovente que se conhece.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa <a href="https://blog.sudamar.com.br/complexo-materno-relacao-transferencial-e-o-puer-puela-aeternus/">relação intensa entre a mãe e a adolescente</a>, também está naturalmente presente no arquétipo, na imagem coletivamente herdada de mãe.&nbsp; Com o passar dos anos, o indivíduo cresce e se desliga naturalmente da mãe. Assim, vai adquirindo sua consciência e seu sentido de existir, porém, não se desliga da mesma forma desse arquétipo materno. Apesar de parecer consciente de sua existência e ter sua mãe biológica, a figura materna, o arquétipo da mãe, sempre estará presente. Como nos diz Jung, o arquétipo materno está presente em todas as civilizações e povos e apesar de ser universal, tem sua imagem diferente e muda substancialmente na experiência prática individual (JUNG, 2013a, p.331).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mae-pessoal-e-responsavel-por-todas-as-influencias-sobre-a-psique-adolescente">A mãe pessoal é responsável por todas as influências sobre a psique adolescente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A mãe pessoal é responsável por todas as influências sobre a psique adolescente, porém, é mais o arquétipo projetado na mãe que outorga à mesma um caráter mitológico e, com isso, lhe confere autoridade e até mesmo numinosidade. Pode-se dividir os efeitos traumáticos de uma mãe podem em dois grupos:</p>



<p class="wp-block-paragraph">1) quando correspondem às qualidades, características ou atitudes realmente existentes na mãe pessoal;</p>



<p class="wp-block-paragraph">2) os que só aparentemente possuem tais características, uma vez que se trata de projeções do tipo fantasioso (arquetípico) por parte da adolescente (JUNG, 2014 p.89).     </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Aqui devemos tratar do arquétipo materno, que possui uma variedade incalculável de aspectos</strong>. Existem inúmeras formas que caracterizam a figura materna: A própria mãe e avó, a madrasta e a sogra, uma mulher com a qual nos relacionamos, no sentido da transferência mais elevada, a deusa, a mãe de Deus, a Virgem (enquanto mãe rejuvenescida, por exemplo Demeter e Core), Sofia (enquanto mãe que é também a amada). Em sentido mais amplo, a Igreja, universidade, a cidade ou pais, o Céu, a Terra, a floresta, o mar e as águas quietas etc. (JUNG, 2014 p.88).&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essas-formas-apenas-indicam-os-tracos-essenciais-do-arquetipo-materno" style="font-size:21px">Essas formas apenas indicam os traços essenciais do arquétipo materno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Seus atributos são o maternal, a sabedoria, a elevação espiritual além da razão, a bondade, o que cuida, acalenta, promove o crescimento, fertilidade etc. Esse arquétipo materno terá uma influência no comportamento dos jovens. Como exemplo, um dos complexos materno negativo seria aquela mãe que cuida com excesso de zelo sua filha, fazendo com que haja o despertar de uma hipertrofia do feminino. (JUNG, 2014 p.93).&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Deutsch</strong> (1974) considera que uma quebra precoce na relação de apego da filha com a mãe, geraria, além de um sentimento de desespero, de solidão, um intenso desejo de união. A jovem procuraria reviver o vínculo mãe-filha através da maternidade. Um ato compulsivo que reforça os laços de dependência, pois, muitas vezes estes laços de identificação e vinculação podem ser intensificados. Podendo ocorrer tanto na situação em que a própria mãe da adolescente foi gestante adolescente ou na situação que a jovem doa seu filho para a mãe criá-lo (reservando para si o papel de irmã mais velha).</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso da gravidez na adolescência poderíamos pensar na possibilidade de uma busca de amor, uma ressignificação na relação com a sua mãe, sua posição no contexto familiar, tem nova dimensão, precisara desenvolver novas habilidades e assumir responsabilidades relacionadas ao cuidado com o bebê e de si mesma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-independentemente-de-ela-ter-ou-nao-desejado-ser-mae-o-papel-de-mae-se-impoe-e-passa-a-assumir-um-espaco-significativo-na-sua-vida" style="font-size:22px">Independentemente de ela ter ou não desejado ser mãe, o papel de mãe se impõe e passa a assumir um espaço significativo na sua vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso mesmo, a gravidez na adolescência pode ser desejada, pois seria uma via de acesso a um novo estatuto de identidade e de reconhecimento através do papel materno. Casos em que se vê a maternidade como uma ocupação, um papel, que confere sentido à vida diante da falta de outros projetos. Ainda, a adolescente pode perceber essa gravidez como uma maneira de reconhecer a si mesma, marcando seu espaço na família e sendo reconhecida nos seus ambientes de convívio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-aprendemos-sobre-a-questao-da-gestacao-na-adolescencia-diz-respeito-a-educacao-sexual-desses-jovens" style="font-size:25px">O que aprendemos sobre a questão da gestação na adolescência diz respeito a educação sexual desses jovens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Focalizar a questão da gestação apenas no aspecto biológico é não pensar no contexto dentro do qual a gravidez se produz, incluindo aí a relação com a família, com as figuras parentais, especialmente, como vimos, a relação com a mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As intervenções que visem prevenir as gestações em adolescentes devem oferecer informações sobre métodos anticoncepcionais e buscar trabalhar, junto com os adolescentes, as ansiedades que estão envolvidas nos diversos comportamentos do “namoro”, a iniciação sexual, a vida sexual ativa. A fim de que, cada vez mais, perceba-se as práticas contraceptivas como algo positivo e natural &#8211; assim como a vivência da própria sexualidade. Precisa-se discutir de forma ampla os significados e consequências de uma gravidez e da maternidade, incluindo aí o papel dos adolescentes (homens) na gestação e na paternidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa maneira, entender o adolescente como um sujeito com direitos, tanto sexuais quanto reprodutivos, talvez seja o primeiro passo necessário para que ele possa reconhecer-se também como um sujeito que tem deveres em relação a sua própria sexualidade. E, mais do que isso, que precisa ter responsabilidade para com a própria vida, em todos os aspectos.&nbsp;</p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ivoneferreira/">Analista em formação: Ivone Ferreira</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Analista Didata: Cristina Guarnieri</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">DIAS, A.C.G., TEIXEIRA, M.A.P.&nbsp; <strong>Gravidez na adolescência: um olhar sobre um fenômeno complexo</strong>. Paideia – Rio Grande do Sul, v. 20, n. 45, jan/abr 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DEUTSCH,H.&nbsp; <strong>Problemas psicológicos da adolescência </strong>[Tradução: E. Jorge]– Rio de Janeiro, Zahar, 1974.</p>



<p class="wp-block-paragraph">IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.&nbsp; <strong>Estatística do Registro Civil</strong>– Rio de Janeiro, IBGE,v.29, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.<strong> A natureza da psique v. 8/2</strong>. [Tradução de Mateus Ramalho Rocha]. 10.ed- Petrópolis, Vozes, 2013a.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.<strong> O desenvolvimento da personalidade v. 17</strong>. [Tradução de Frei Valdemar do Amaral; revisão técnica de Dora Ferreira da Silva]. 14.ed- Petrópolis, Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.<strong> Os arquétipos e o inconsciente coletivo v. 9/1</strong>. [Tradução de Maria Luiza Appy, Dora Mariana R. Ferreira da Silva]. 11.ed- Petrópolis, Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MINISTÉRIO DA SAÚDE.&nbsp; <strong>Cadernos juventude saúde e desenvolvimento.</strong> Brasília,&nbsp; 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVA, M.O., LOPES, R.L.M., DINIZ, N.M.F.&nbsp; <strong>Vivência do parto normal em adolescentes</strong>. Rev.Bras. Enferm &#8211; Brasília,&nbsp; set/out 2004.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<title>A adolescência perdida na ausência dos rituais de passagem</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/adolescencia-perdida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Nov 2023 15:00:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo propõe uma reflexão sobre como a ausência de rituais de passagem na adolescência, conduzidos por adultos experientes e capazes de estabelecer limites, pode estar agravando o desenvolvimento psíquico dos jovens na contemporaneidade.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>“A adolescência é um período do desenvolvimento caracterizado pelo luto e pela angústia da perda. Uma sensação iminente de perda faz parte do pano de fundo da luta para deixar para trás a infância e se tornar menos dependente das figuras parentais”</em> (FRANKEL, 2021, p. 165).</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com <strong>Jung</strong>, a personalidade existe desde o indivíduo criança, porém seu desenvolvimento se dá ao longo da vida e por meio dela. <em>“Atingir a personalidade não é tarefa insignificante”</em> (2021, pg. 182). E de forma alguma podemos dissociá-la da <strong>adolescência</strong>. Pelo contrário, as experiências vividas dos 14 aos 21 anos são determinantes para o desenvolvimento do complexo do eu, que é mutável e desconhece vários aspectos de si mesmo que nunca tomou conhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos dizer que, historicamente, a <strong>adolescência</strong> é uma fase do desenvolvimento humano de muitos desafios e mudanças, física e emocionais. No entanto, atualmente, temos observado dados cada vez mais alarmantes no que se refere à saúde mental dos nossos adolescentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com pesquisa do Datafolha, divulgada no final de 2022, 8 a cada 10 brasileiros, de 15 a 29 anos, apresentaram recentemente algum problema de saúde mental. O uso excessivo de álcool e drogas ilícitas e tantos outros comportamentos autodestrutivos parecem ter se tornado a marca de uma juventude que não só enfrenta graves problemas psíquicos, como parece seguir sem orientação, sem rumo e sem rituais de iniciação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa perspectiva, podemos nos perguntar: <strong>Onde estão os rituais de iniciação da adolescência? Será que devemos considerá-los algo primitivo/arcaico para os dias atuais? Será que a juventude de hoje não necessita mais de ritos de passagem?</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-visao-da-psicologia-analitica-entendemos-que-o-impulso-a-iniciacao-e-algo-arquetipico-e-compulsorio-portanto-inerente-a-vontade-consciente-do-ego-e-coletivo-e-inconsciente" style="font-size:21px">Na visão da psicologia analítica, entendemos que o impulso à iniciação é algo arquetípico e compulsório, portanto, inerente à vontade consciente do ego. É coletivo e inconsciente.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Rimos da superstição primitiva, achando que somos superiores a isso, mas esquecemos que este pano de fundo do qual zombamos como se fosse museu de coisas estúpidas, tem uma influência tão temível sobre nós quanto sobre os primitivos. [&#8230;] o que acontece é que damos nomes diferentes a tudo isso.” </em></p>
<cite>(JUNG, 2017, pg. 19).</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung, os <strong>arquétipos</strong>, presentes no inconsciente coletivo, não podem ser explicados a partir de uma concepção individual. São aspectos de toda vida, dos primórdios até os dias atuais. “<em>É o pressuposto e a matriz de todos os fatos psíquicos e por isto exerce também uma influência que compromete altamente a liberdade da consciência</em> [&#8230;]” (2020, pg.58).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fato é que, independente de como nomeamos esse “chamado ritualístico”, ele acontece. A <strong>adolescência</strong> é um novo despertar para a vida que nos convida a uma tentativa de iniciação, a vivências transformadoras e evolutivas. Há uma busca de uma nova visão de mundo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“<em>[&#8230;] os temas de iniciação permanecem vivos sobretudo no inconsciente do homem moderno&#8230; em seu ser mais profundo, o homem moderno ainda é capaz de ser afetado por cenários ou mensagens de iniciação</em>.” </p>
<cite>(ELIADE apud. FRANKEL, 2021, p. 187).</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-ritos-de-passagem-nao-deixaram-de-existir">Os ritos de passagem não deixaram de existir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A realidade é que os adolescentes estão criando os seus próprios rituais</strong>, experienciando de maneira inconsequente e perigosa, processos de transição que de alguma forma tragam sentido para esse novo “eu” que surge nessa fase do desenvolvimento da personalidade. Segundo <strong>Frankel</strong>, quando a sociedade sublima os rituais de iniciação, tão importantes para psique humana, os adolescentes tentam fazer por conta própria (Cf. FRANKEL, 2021, p.87).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa perspectiva, proponho um novo olhar para esses padrões autodestrutivos do adolescente como uma tentativa, desesperada e solitária &#8211; sem um condutor experiente -, na separação do seu lado infantil e identificado com os pais para a nova fase que surge.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-puberdade-jung-aborda-as-seguintes-dificuldades-vividas-pelos-jovens" style="font-size:18px">Sobre a <strong>puberdade</strong>, Jung aborda as seguintes dificuldades vividas pelos jovens:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“O começo da puberdade também opera mudanças consideráveis na aparência do corpo e em seu metabolismo [&#8230;]. Da mesma forma, sua psique é afetada e tirada de seu equilíbrio [&#8230;]. Por longo tempo, as ilusões impossibilitam uma estabilidade e maturidade do julgamento.”</em> </p>
<cite>(2017, p. 217).</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se compreendemos que o ritual de passagem é uma necessidade da psique humana e, talvez, a <strong>adolescência </strong>seja a fase de maior mudança de corpo, alma e espírito, vivida simultaneamente e abruptamente pelo indivíduo, como permitir que os jovens experienciem essa transição sem a presença, a atenção e a condução de um adulto experiente e com ego estruturante?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">É comum em roda de pais e cuidadores ouvirmos que os jovens estão cada vez mais isolados por conta do mundo digital. Todavia, <strong>na outra ponta desse cabo de guerra, encontramos adultos que renunciaram à presença, física e afetiva, negando a escuta e aumentando cada vez mais o abismo entre as gerações</strong>. No final, entregamos os adolescentes ao impulso da iniciação numa tentativa visceral de sentir e transformar, levando o que deveria ser simbólico para o literal, ignorando a demanda urgente de se testar o mundo através das suas próprias ações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com <strong>HILLMAN</strong> (apud FRANKEL, 2021, p. 91), o sofrimento vivido nos rituais de iniciação leva o iniciado para outro plano, onde a inocência infantil dá lugar à dor e a necessidade de proteção. Assim, <strong>o indivíduo faz a passagem da infância para a vida adulta</strong>. Uma evolução compulsória, mas que merece e deve ser conduzida por um adulto experiente capaz de dar contorno e limite. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“<em>A adolescência como a conhecemos é um fenômeno moderno. Em sociedades antigas e culturas tribais, os adultos em geral deixavam rapidamente a infância por meio da participação em ritos de puberdade. [&#8230;] os adolescentes modernos devem tentar dizer adeus à infância sem o benefício desses ritos de passagem oferecidos pela sociedade. [&#8230;] Hoje, nossos jovens se empenham em alcançar a vida adulta de formas bastante perigosas, participando de seitas religiosas, abusando de substâncias cada vez mais nocivas, exibindo sintomas de anorexia, automutilação e tentativa de suicídio</em>.”</p>
<cite> (GENTRY apud FRANKEL, 2021, p. 88).</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-nossa-sociedade-contemporanea-desejou-tanto-se-distanciar-daquilo-que-consideramos-arcaico-e-primitivo-que-acabamos-unilateralizados" style="font-size:21px">A nossa sociedade contemporânea desejou tanto se distanciar daquilo que consideramos arcaico e primitivo que acabamos unilateralizados.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, estamos à margem da consciência individual, agindo sem consciência crítica sobre os nossos próprios atos. Porém, precisamos compreender que os rituais emergem a partir de uma necessidade coletiva para que a psique seja capaz de assimilar tantas mudanças que ocorrem durante a <strong>adolescência</strong>. Logo, a falta de espaço para que os jovens vivenciem esses ritos de passagem cria um lugar muito perigoso, solitário e autodestrutivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa perspectiva, o analista, dentro do <em>setting </em>terapêutico, pode oferecer um espaço de escuta e reflexão individual, análogo aos rituais, para elaboração desses sentimentos, angústias e emoções que a <strong>adolescência</strong> provoca. Um local onde o adolescente pode se expressar e experienciar o simbólico dando sentido a essas transformações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-escuta-no-processo-terapeutico-do-adolescente"><strong>A escuta no processo terapêutico do adolescente</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma vez que percebemos a solidão dos jovens e que é proporcional a intensidade de suas experiências de vida, o acompanhamento psicológico pode ser o espaço de acolhimento e contenção nessa etapa do desenvolvimento. O <em>setting </em>terapêutico pode e deve se tornar o lugar seguro para o compartilhamento de suas histórias. Nesse processo de escuta ativa do analista, ocorre também a escuta de si mesmo por parte do jovem em processo de análise, ou seja, a escuta da própria voz do adolescente que, muitas vezes, foi silenciada por conta dos valores morais, familiares e culturais. Segundo Frankel, precisamos estar atentos às imagens primordiais que caracterizam a <strong>adolescência</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Choro, solidão, autopiedade, pensamento de morte, isolamento e longos períodos soturnos de tristeza são parte integrante da experiência adolescente, e estarmos atentos à prevalência dessas emoções e encontrar formas de mobilizá-las terapeuticamente diminui nossa tendência em patologizar em excesso esses estados mentais.” </em></p>
<cite>(2021, p.112).</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A relação adolescente-terapeuta, se bem estabelecida, pode oferecer ao jovem a possibilidade de conexão direta e sem censura. Revelando e reelaborando sentimentos conflitantes, carências, rejeição, medos e, também, potências que ainda não foram descobertas e, por isso, não foram desenvolvidas. Precisamos limpar nossas mentes de ideias pré-concebidas e rótulos que estigmatizam a adolescência e abrir a nossa alma para os gritos desesperados por socorro.</p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/clarissegrand/">Clarisse Grand Court – Analista Junguiana em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Membro Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">FRANKEL, Richard. A psique adolescente: perspectivas junguianas e winnicottianas. Edição Digital. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____, Carl Gustav.&nbsp; Civilização em Transição. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____, Carl Gustav.&nbsp; O desenvolvimento da personalidade. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RENNÓ, Joel. Como anda a saúde dos jovens. Estadão. https://www.estadao.com.br/emais/joel-renno/como-anda-a-saude-mental-dos-jovens/ . Acessado em 30 de outubro de 2023</p>



<p class="wp-block-paragraph">Site Faculdade de Medicina da USP. Pandemia é responsável por cerca de 36% dos casos de depressão em crianças e adolescentes. https://www.fm.usp.br/fmusp/noticias/pandemia-e-responsavel-por-cerca-de-36-dos-casos-de-depressao-em-criancas-e-adolescentes#:~:text=14%2F10%2F2021-,Pandemia%20%C3%A9%20respons%C3%A1vel%20por%20cerca%20de%2036%25%20dos%20casos,depress%C3%A3o%20em%20crian%C3%A7as%20e%20adolescentes&amp;text=Estudo%20realizado%20pela%20Faculdade%20de,e%20ansiedade%20durante%20a%20pandemia. Acessado em 30 de outubro de 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Site UNICEF. Selo UNICEF tem recorde de adesões: 2.023 municípios em 18 estados. https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/selo-unicef-tem-recorde-de-adesoes-2023-municipios-em-18-estados. Acesso em: 30 outubro de 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça os Congressos Junguianos do IJEP: <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">Congressos IJEP (pages.net.br)</a></p>
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		<title>Dependência química e alcoolismo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/dependencia-quimica-e-alcoolismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Jul 2022 21:02:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
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		<category><![CDATA[DAC]]></category>
		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[vícios]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>DAC é a doença que produz uma variedade enorme de sintomas que vão desde a adicção de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, usadas como drogas, passando por distúrbios alimentares, como anorexia, bulimia, hiperfagia ou ortorexia, e comportamentais, com oneomaia, que é compulsão pelas compras, vigorexia, da busca de vigor, vicio em jogos, indivíduos workaholic, parafilias sexuais, entre outras manias compulsórias que interditam a liberdade dos doentes (atualmente já existem mais de cem classificações psiquiátricas, mas todas possuem o mesmo núcleo, que é a ferida do amor próprio). </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos numa sociedade onde, infelizmente, lazer e prazer estão associados ao consumo. Por isso, não podemos restringir o problema das&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Dependências, Abusos e Compulsões</strong>, apenas a fatores psicopatológicos ou biológicos, porque as questões políticas, econômicas e culturais da nossa atual sociedade de consumo também contribuem para essa epidemia onde 5% da população mundial já é usuária de drogas e é previsto que em 2100, de acordo com as atuais estatísticas, mais da metade da população mundial estará dependente de algum tipo de substância psicoativa ou atividades comportamentais que produzem dependência das substancias endógenas, aquelas que são produzidas pelo próprio organismo, por conta dos vícios em games, redes sociais, pornografia e outras práticas do universo virtual, associadas a 1 bilhão de mortes que serão causadas pelo tabagismo ativo ou passivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DAC</strong>&nbsp;é a doença que produz uma variedade enorme de sintomas que vão desde a adicção de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, usadas como drogas, passando por distúrbios alimentares, como anorexia, bulimia, hiperfagia ou ortorexia, e comportamentais, com oneomaia, que é compulsão pelas compras, vigorexia, da busca de vigor, vicio em jogos, indivíduos&nbsp;<em>workaholic</em>, parafilias sexuais, entre outras manias compulsórias que interditam a liberdade dos doentes (atualmente já existem mais de cem classificações psiquiátricas, mas todas possuem o mesmo núcleo, que é a ferida do amor próprio). A&nbsp;<strong>Dependência</strong>, acontece quando a liberdade do Ego se apresenta bastante limitada. O&nbsp;<strong>Abuso</strong>&nbsp;é a repetição exacerbada de uma experiência considerada saudável ou normal produzindo sofrimento ao Ser. A&nbsp;<strong>Compulsão</strong>, por sua vez, já inclui o conflito psíquico, quando o Ego é dominado pelos complexos mantendo o doente escravizado pelo objeto ou comportamento, que outrora pode ter sido de prazer, mas agora torna-se imperativo para não gerar o desprazer da sua abstinência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do uso social ao problemático, o álcool é a droga mais consumida no mundo. Segundo dados de 2004, da Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 2 bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas. O uso indevido de álcool é um dos principais fatores que contribuem para a diminuição da saúde mundial, sendo responsável por 3,2% de todas as mortes e por 4% de todos os anos perdidos de vida útil. Por outro lado, o sucesso no tratamento da&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;é muito pequeno. Menos de 20% das pessoas que ingressam num programa transdisciplinar conseguem a abstinência, geralmente depois de passarem, no mínimo, por duas recaídas. Por isso, associo os transtornos de&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;a questões psicossomáticas, por terem sua etiologia no construto psicoafetivo do dependente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante deixarmos claro que psicossomática não é um adjetivo de uma queixa ou de um sintoma qualquer, sejam eles físicos, psíquicos, sociais, ambientais, entre outros. Em nossos cursos, ministrados pelo IJEP, insistimos muito que a nossa condição de vida é psicossomática e, nesta premissa, não podemos limitar nossos estudos exclusivamente na busca reducionista das causas das doenças. Precisamos ir além das causas, buscamos o sentido, ou seja, para onde aquele sintoma pode estar apontando, que caminho de evolução pode haver nele? Consequentemente, ao invés de procurarmos uma explicação generalista e reducionista sobre as causas dos sintomas e das doenças, tentamos compreender sua manifestação na totalidade de cada ser, no processo evolucional e individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O alcoolismo, assim como todas as adições e dependências, é simultaneamente um sintoma individual e social, registrado histórica e antropologicamente há milênios. A grande pergunta é: Por que a humanidade busca experiências com substâncias psicoativas que produzem estado alterado de consciência? É uma busca de alívio, saídas, encontros ou desencontros com o si mesmo? As experiências de picos e de vales, produzidas por qualquer adição, nos deixam perplexos e nos remete para hipotetizarmos uma série de causas, mas na raiz de qualquer justificativa, o que temos como resultante é a falta de sentido e de significado existencial do doente, devido a inexistência de um propósito de vida que vai além da biosobrevivência, dos prazeres imediatos, da ilusão do sucesso, da fama ou da riqueza material. Ou seja, existem muitos fatores que influenciam uma adição. É um absurdo buscarmos uma causa única, porque a doença é multifatorial incluindo as predisposições genéticas, ancestrais, sociais, familiares, espirituais e vivenciais e todas, em alguma intensidade, contribuem para que aconteça a&nbsp;<strong>DAC</strong>. Por isso, a ajuda ao doente exige atitudes compreensivas, confortantes, acolhedoras e, simultânea e paradoxalmente, energicamente assertivas, limitantes e restritivas, abandonando qualquer tentativa de encontrar a culpa do doente ou os culpados que contribuíram para a doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, sempre digo aos codependentes, que é o entorno relacional do doente que, na maioria das vezes, por não reconhecerem que podem estar dependentes da dependência do seu ente querido, ou seja, dependem da dependência do dependente, que eles não devem continuar acreditando, iludidamente, que podem ser culpados, que podem controlar ou até curar seu dependente. Porque, desta forma, e nesta dinâmica, acabam mais atrapalhando do que ajudando, contribuindo ainda mais para as contínuas recaídas do tratamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A busca de estado alterado de consciência, que é gratificante, por produzir, transitoriamente, alívio e prazer, está diretamente ligada com falta de sentido existencial. Muitas vezes ouvi alguns jovens dizerem que usavam drogas para ficarem “descolados” deixarem de ser “caretas”, se sentirem pertencentes, mais criativos, alegres, confiantes, entre outras justificativas para defender seu vício, obviamente negado como tal, porque ainda se julgam livres, sem reconhecer sua dependência da substância e do estado alterado de consciência que ela produz. Sendo que, na medida que o consumo vai ficando mais frequente, o organismo vai adquirindo resistência e tolerância, exigindo cada vez mais quantidade e frequência.&nbsp; Até que eles acabam deslocados do processo adaptativo e evolutivo sócio, econômico, profissional, relacional e familiar, tornando-se dependentes e alienados, cada vez mais distantes de si mesmos, agravados pelas complicações físicas. Ou seja, o indivíduo perdeu a referência da sua essência e, consequentemente, da sua vocação e seu chamado. Neste caso surge o mau destino e todos os eventos desastrosos e trágicos, pela inconsciência da sua trajetória existencial, ficando à mercê do catastrófico. C. G. Jung nos alerta para a necessidade da relação do Eu com o inconsciente e para o risco desta falta de autoconhecimento:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] as pretensões do inconsciente se impõem categoricamente ao consciente e causam nefasta dissensão que se exterioriza sobretudo no seguinte: as pessoas já não sabem o que realmente querem e não encontram prazer em nada, ou querem demais de uma vez só e têm prazer demais, mas em coisas impossíveis. A repressão das pretensões infantis e primitivas, necessária por motivos culturais, leva facilmente a neuroses ou ao abuso de drogas narcóticas como álcool, morfina, cocaína etc. Em casos mais sérios ainda, o desfecho da dissensão pode ser o suicídio.” (CW6 &#8211; §639)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os profissionais de saúde, por convenção, estabelecem que a dependência química implica na necessidade psíquica do indivíduo frente a adição, e o vício é o estágio mais avançado da dependência química, onde o organismo já não consegue funcionar adequadamente sem a presença da substância de adição. Mas, tanto o dependente químico quanto o viciado são indivíduos doentes que necessitam de tratamento. Ninguém está nessa por vontade própria, com lucidez e consciência plena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de cura é muito complexa e de grande ambiguidade. Por exemplo, em função do meu conhecimento em homeopatia e psicologia junguiana, acredito que é possível morrer curado. Mas, filosofia aparte, é inconcebível acreditar que apenas uma droga poderia curar a dependência de outra droga. Nossa experiência aponta para um tratamento transdisciplinar, preferencialmente o menos invasivo possível, que propicie autoconhecimento para que o doente possa descer nas profundezas do seu ser e, como Fausto de Goethe, resgatar sua alma. Por isso, não são raros os casos em que a experiencia metafórica de “fundo de poço” são determinantes na conquista da abstinência e sobriedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caminho de tratamento das&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;começa pela desintoxicação, depois exige o reconhecimento da dependência e o desejo de abstinência, levando em consideração a síndrome da dependência, abordando a família, fazendo a conscientização do risco das recaídas, o ressignificar dos velhos hábitos, o reconhecimento das situações de risco para recaída e a produção de estratégias de abstinência de curto prazo, porque a “batalha” é diária e, na maioria dos casos, pelo resto da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As adições são doenças com características de comorbidade e codependêcia, desta forma nada que aja isoladamente pode ser eficaz. A cura depende de muitas intervenções nos aspectos pessoais, psíquicos, físicos, sociais, familiares e até espirituais. Porém, sem o real compromisso do dependente quase nada se pode fazer. Toda intervenção arbitrária e truculenta acaba gerando mais problemas e danos do que cura. Paciência e amor são as ferramentas essenciais para o sucesso do tratamento. Mesmo assim, teremos que encarar potencias muito significativas para que a transformação do ser aconteça. Mudanças sempre desencadeiam mecanismos de defesa e, nestes casos, teremos que enfrentar as reações biológicas, onde cada célula deseja manter o indivíduo no seu padrão viciante, além das resistências neuro cerebrais, psicoafetivas, familiares e sócio culturais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque o cérebro, assim como nossas estruturas somáticas, tende a padrões viciantes, por isso é tão difícil mudança de hábitos, como a rotina alimentar para aqueles que desejam perder peso. Nosso cérebro consome de 20 a 25% da glicose e do oxigênio do organismo, apesar de representar, na média, apenas 2% do peso corporal, nesta perspectiva, a massa cerebral consome, proporcionalmente, de 60% a 80% a mais do que a corporal. Ele é uma máquina voraz, constantemente ligada para garantir a manutenção da vida biológica, produzindo rotinas e padrões repetitivos e automáticos, para a manutenção da vida, associando-as com os mecanismos de prazer e recompensas, produzindo dopaminas, serotoninas, endorfinas e outras substâncias. Desta forma, quando o sistema de recompensas é ativado entramos em modo automático de repetição e, em muitos casos, de compulsão, dificultando, cada vez mais, a capacidade de crítica reflexiva, tirando a autonomia da consciência. E esse mesmo mecanismo acontece, de forma ainda mais efetiva, com as substâncias psicoativas, como álcool outras drogas de abuso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso muito diálogo, muita sinceridade e muita disponibilidade para enfrentarmos um mundo tão desigual e sem perspectivas. Os vínculos estão sendo substituídos por eficácia e pelo acúmulo de bens. Os valores afetivos estão ficando em segundo plano. Nossos jovens estão perdidos e completamente diluídos frente a tantas demandas. Precisamos dar possibilidades criativas, sentimento de pertença e autoestima mais elevada aos jovens. Estamos assistindo uma crescente falta de entusiasmo para a vida. O grande desafio que temos para o futuro da humanidade é o engajamento entusiástico dos jovens para com as questões sociais e ecológicas. Sem isso teremos uma sociedade individualista, buscando um prazer hedônico e sem sentido. A dessacralização e o desencantamento do mundo, provocado pelo utilitarismo materialista e racional devem ser repensadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encerro esse artigo lembrando que em 1996, a Unesco (Organização da Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), divulgou um estudo mundial sobre a educação, desembocando nesses quatro pilares:&nbsp;<strong>Aprender a ser</strong>;&nbsp;<strong>Aprender a conviver</strong>;&nbsp;<strong>Aprender a aprender</strong>; e&nbsp;<strong>Aprender a fazer</strong>; Observe que tudo começa pelo autoconhecimento, porque só assim que poderemos alcançar um sistema político democrático, de governança e não predatório,&nbsp; por ser sustentável e humanista, que poderá contribuir para um cenário onde a diferença entre os mais ricos e a população não seja tão desigual e desumana e que o consumo e a riqueza material deixem de ser sinônimos de prazer e sucesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>WALDEMAR MAGALDI FILHO</em>&nbsp;&#8211; Psicólogo, Especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, Analista didata do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – e coordenador dos cursos de pós-graduação em Psicologia Junguiana; Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Email:&nbsp;wmagaldi@ijep.com.br</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi &#8211; 19/02/2021</em></strong></h4>
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		<title>O Funk e a libertação do mito de Afrodite</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-funk-e-a-libertacao-do-mito-de-afrodite/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ivone Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jun 2022 22:37:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[afrodite]]></category>
		<category><![CDATA[anitta]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[funk]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Muitos de nós não se dão conta de que nossa vida se desenvolve dentro de um certo ritmo, isto é, o coração pulsa alternando batidas e pausas, muitas vezes essas batidas podem estar descompassadas a depender de causas psicológicas, emoções fortes, estados de espírito etc., nossa respiração também segue padrões determinados para o bom funcionamento da ventilação pulmonar, proporcionando a entrada e saída de ar, para que ocorra a oxigenação de nossos tecidos. O ritmo se expressa de forma diferente de pessoa a pessoa. Existem diferentes tipos de ritmos que afetam o ser humano: ritmos biológicos, ritmos da natureza, ritmos musicais. (ROESLER, 2017, p.9)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos trabalhos coletivos, no campo ou na indústria, nos trabalhos domésticos, para que ocorra um rendimento maior, se faz necessário uma organização e um ritmo de trabalho, assim como nas atividades físicas, nos treinamentos esportivos, nas mais diferentes atividades do dia a dia, sem ritmo as coisas se perdem e o trabalho não rende.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Observa-se que o ritmo também aparece nas mais diferentes formas artísticas nas poesias, dança, melodias. Ao ler um poema com uma análise mais cuidadosa do ritmo deste, descobriremos novos significados no texto. A musicalidade pode partir do título. Por exemplo ao ouvirmos a letra da canção&nbsp;“A banda”, de Chico Buarque de Holanda, somos levados a mudar de humor. A letra fala sobre a banda se aproximando, chamando-nos para olhar ela passar e já&nbsp;imaginamos uma multidão passando: a banda passa e muda o humor das pessoas, o triste fica alegre; o velho se torna criança, aquele que estava parado começa a se movimentar. O texto contagia, o ritmo não nos deixa ficar parados.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Estava&nbsp;à&nbsp;toa na vida,</p>



<p class="wp-block-paragraph">O meu amor me chamou,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Prá&nbsp;ver a banda passar</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cantando coisas de amor.”&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ouvinte ouve o canto&nbsp;e, devido a harmonia dos seus versos, a musicalidade, o ritmo e todos os elementos que compõem essa canção, nos contagiam e captamos a mensagem.&nbsp;&nbsp;Esse ritmo simples e repetido facilita a memorização. E muitas vezes muitas pessoas começam a se movimentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o <strong>Funk</strong>? Esse fenômeno musical, que ultrapassa nossas fronteiras, passando a ser reconhecido mundialmente, tem o mesmo efeito da canção&nbsp;“A banda”. Ele contagia e muitas pessoas não conseguem ficar paradas e saem dançando. O que estará&nbsp;por traz desse ritmo?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>Funk</strong> está&nbsp;entre os gêneros musicais mais populares do Brasil atualmente. Ele surgiu entre as décadas de 1960 e 1980, considerado primo do hip hop e do soul, ele&nbsp;é&nbsp;um produto da ascensão do movimento negro nos Estados Unidos. Esse ritmo representa um dos maiores símbolos de cultura da periferia em todo o país, fala sobre uma forma de ascensão social, e muitos dos autores após seus sucessos passaram a cantar sobre seus estilos de vida e sua condição financeira. (SOARES, 2018).&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Palombini&nbsp;(2008,p.63) refere que o funk surge no sul dos Estados Unidos, no final da década de 1950, sendo criado por músicos negros, com uma forte influência da&nbsp;“black music”, mas com características bem diferentes das que conhecemos hoje.&nbsp;&nbsp;A música que hoje conhecemos como funk carioca não deriva somente do funk norte-americano, mas de uma combinação de vários ritmos negros populares como os blues, gospel, jazz e soul, que faziam sucesso nos Estados Unidos, no centro do movimento negro do país. A palavra&nbsp;“Funk”ou&nbsp;“funky”&nbsp;era usada pelos músicos de jazz, como uma forma de pedir aos colegas da banda que pusessem mais&nbsp;“força”&nbsp;ao ritmo. Dessa forma foram evoluindo para tocar uma música com batida constante e uma melodia que permitisse dançar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A arte se manifesta nas mais diferentes formas: na pintura, dança, teatro, poesias.&nbsp;É considerada uma atividade psicológica porque como uma atividade humana, vem de sentimentos, emoções&nbsp;e expressam as imagens do inconsciente. Dessa forma, ela&nbsp;é&nbsp;considerada um objeto da psicologia, e soment<em>e&nbsp;</em><em>&#8220;</em>aquele aspecto da arte que existe no processo de criação artística pode ser objeto da psicologia, não aquele que constitui o próprio ser na arte”. (JUNG,&nbsp;2013,&nbsp;p.65)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O crescimento do&nbsp;ritmo funk e sua influência na sociedade nos incitou a&nbsp;&nbsp;buscar refletir o&nbsp;&nbsp;fenômeno sob a&nbsp;ótica da psicologia analítica.&nbsp;&nbsp;Sabemos que além do&nbsp;&nbsp;ritmo,&nbsp;suas letras e versos têm como tema críticas sociais, aumento da violência urbana e a invasão das favelas por forças policiais, com podemos&nbsp;&nbsp;constar, por exemplo, no&nbsp;“Rap das armas”. As letras denunciam uma realidade que nos é estranha, assim como aquelas que são utilizadas para falar dos direitos civis, como vemos no conhecido hit&nbsp;“eu só quero&nbsp;é&nbsp;ser feliz”, de MC Cidinho e MC Doca.&nbsp;&nbsp;Os assuntos cantados vão desde o humor ao empoderamento feminino, passando por questões polêmicas como a violência, a criminalidade, a marginalização, o tráfico, todos&nbsp;expressando o cotidiano das favelas, abrindo um reconhecimento através do sucesso do fanqueiro que agora, admite em verso musical, pode entrar em qualquer lugar antes proibido pela sua condição social.&nbsp;&nbsp;Eles cantam as favelas qualificando esse lugar que antes era visto como o espaço do inimigo e onde qualquer violência do Estado era considerada legitima. Essas histórias são&nbsp;cantadas&nbsp;quase em um mesmo&nbsp;ritmo,&nbsp;com uma forte e frequente batida que&nbsp;contamina, contagia,&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;colocando todos os envolvidos em algo similar a um estado de transe:&nbsp;ninguém fica parado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabemos que o funk tem um papel social importante ao dar voz&nbsp;à&nbsp;classes sociais menos favorecidas, pois&nbsp;nas letras&nbsp;estão&nbsp;registradas suas vivências, seus dilemas, pensamentos, dificuldades, alegrias&#8230;Esse estilo musical expressa uma cultura especifica dessa juventude urbana menos favorecida, revelando&nbsp;cenas de uma vida pouco conhecida pela maior parte da população.(SOARES, 2022)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Dreher (2005,&nbsp;p.56),&nbsp;a canção, enquanto linguagem,&nbsp;é&nbsp;considerada um canal de expressão, com conteúdo que se relacionam com a história do indivíduo. A canção como um canal de expressão&nbsp;abre as portas do inconsciente do indivíduo, a partir de uma abordagem simbólica. A canção carrega conteúdos de experiências humanas, guardam pedaços do tempo na memória, emoções passadas que podem ser revividas novamente. Há&nbsp;uma conexão atemporal ao ouvirmos uma canção. A canção consiste em um canal de expressão e tem o poder de fazer emergir aquele tempo da infância, os afetos ligados aos complexos, as experiências vividas. Conforme se vai ouvindo e cantando, o conteúdo das canções&nbsp;podem ser associados ao conteúdo dos indivíduos e, a partir daí, sentimentos que estavam travados,&nbsp;&nbsp;tais como&nbsp;angústias, tristezas, são revividos e podem ser desbloqueados e entendidos, facilitando sua expressão.&nbsp;(DREHER,&nbsp;2005,p. 59)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A música, que também pode ser vista como uma forma de expressão relacionada&nbsp;à&nbsp;história do indivíduo,&nbsp;pode, a partir da linguagem simbólica, expressar imagens do inconsciente,&nbsp;&nbsp;onde estão interligados os complexos, os arquétipos e os símbolos. Segundo Jung (2015,&nbsp;p.143), essas experiencias vividas estão no inconsciente.&nbsp;Podemos, algumas vezes, reconhecer fatos vividos há&nbsp;tempos atras, lembranças que estavam guardadas, emoções e afetos&nbsp;que pode nos&nbsp;remeter a outro tempo; algo que&nbsp;nos faz entrar em contato com o nosso inconsciente pessoal. Já&nbsp;o inconsciente coletivo nos chega através das imagens arquetípicas, presente desde os primórdios da humanidade. Os arquétipos são estruturas herdadas que os seres humanos têm em comum. Imagens, ideias&nbsp;e comportamentos arquetípicos&nbsp;presente em diversas&nbsp;épocas, regiões e civilizações, que nos chegam através dos contos, mitos e sonhos. Os mitos correspondem a uma estrutura arquétipica&nbsp;que&nbsp;&nbsp;nos apresentam a estrutura básica da psique humana e tocam e espelham os comportamentos atuais.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tomemos da mitologia grega, a deusa <strong>Afrodite</strong>, deusa do amor e da beleza, também considerada uma deusa alquímica porque teve o poder de&nbsp;&nbsp;auto transformação&nbsp;(BOLEN,&nbsp;2013,&nbsp;p. 310).&nbsp;Ao observamos várias funqueiras, que através de características próprias, como seu modo de vestir, os símbolos utilizados nas apresentações,&nbsp;seu comportamento&nbsp;nos&nbsp;palco , parece nos remeter&nbsp;a deusa <strong>Afrodite</strong>,&nbsp;o arquétipo mais envolvida na experiência sensorial ou sensual. <strong>Afrodite</strong>&nbsp;é&nbsp;reconhecida pela sua atratividade e não apenas por sua aparência, ela cria um carisma pessoal, ela adora ser o centro das atenções. Podemos citar a funqueira <strong>Anitta</strong>, como exemplo, através de sua performance, da imagem da deusa <strong>Afrodite</strong>. Esse arquétipo governa o prazer do amor e da beleza, da sexualidade e da sensualidade das mulheres. “Afrodite impele as mulheres a preencherem funções criativas e procriativas&#8221;. (Bolen p.2013, p.327).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Anitta criou uma personagem que atrai jovens, de quase todos os continentes, independente do gênero, da crença, da idade, da nacionalidade e está&nbsp;no topo das cantoras mais seguidas no mundo atualmente. Basta<em>&nbsp;</em>consultar o site Spotify 2022, onde encontramos em terceiro lugar a cantora Ludmila com sua canção&nbsp;“Down down down” e&nbsp;&nbsp;<strong>Anitta</strong> consta&nbsp;como a primeira brasileira a liderar o primeiro lugar no ranking global plataforma Spotify com a música “Envolver”. Em 25 de março de 2022 ela somava 71 milhões de reproduções&nbsp;e sabemos que Anitta tem 607 milhões de seguidores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como explicar esse sucesso? Anitta representa a sensualidade, o sucesso, a beleza, a sedução que muitas garotas gostariam de possuir. Não podemos negar que muitos complexos surgem diante de todo esse ritmo.&nbsp;Das danças sensuais, passando pelo&nbsp;vestuário&nbsp;até as coreografias, são elaboradas pela cantora.&nbsp;Ela canta a força da mulher poderosa, sedutora, que não se subjuga ao masculino;&nbsp;é ela&nbsp;quem agora domina, está&nbsp;por&nbsp;cima e&nbsp;não se rende. As letras falam desse poder feminino, como podemos observar na letra de “Pode Chegar”:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Eu vim prá&nbsp;provocar,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desejo e sedução</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fazer você pirar</p>



<p class="wp-block-paragraph">Comer na minha mão&#8230;”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como uma Afrodite ela se identifica e dança, se veste, se maquia e se apresenta à sociedade. Não tem inibição, agora o mundo&nbsp;é&nbsp;dela. Reconhecida internacionalmente, tem uma estátua de cera no museu madame Tussauds de Nova York, foi escolhida como embaixadora da cerveja Skol.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Anitta&nbsp;é&nbsp;uma jovem mulher inteligente, estudou inglês e fala fluentemente, estudou administração e administra sua carreira, tem carisma, soube se ligar a cantores internacionais para ir além das nossas divisas. Ela sustenta uma persona que representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, ela é uma aparência, uma realidade bidimensional, admirada e imitada por suas seguidoras. Aquelas mulheres mais inseguras, com uma autoestima baixa, podem adorar imitar seus ídolos ou aquelas mais hiperinfladas de seu ego, também podem ter o mesmo comportamento das suas musas. Seria o arquétipo da mulher poderosa aparecendo, sedutora, que tudo pode. Não há obstáculo, para o seu sucesso. Aquela mulher que agora tem voz e não está&nbsp;subjugada ao homem, não precisa dele para nada, ela está&nbsp;no poder, faz e acontece. Ela soube explorar seu potencial e o momento atual&nbsp;onde&nbsp;a mulher busca por um lugar de destaque na sociedade, elas querem e devem sair do anonimato e ter seu lugar próprio, ter voz e mostrar seu valor e sua importância. Sua imagem convida à uma quebra de valores, de preconceitos, propõe a liberdade de expressão, a liberdade para se mostrarem mais sensuais sem serem importunadas por valores antigos diante dessa sociedade conservadora e preconceituosa.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos observar que em qualquer festa, casamento ou reunião social que, depois de algumas seleções musicais, começamos a ouvir o funk. Todos eles,&nbsp;“o bonde do tigrão”, “só quero ser feliz”, “rave da favela”, “essa mina&nbsp;é&nbsp;louca”, “vai malandra”, etc. Observa-se que na pista de dança muitas mulheres dançando ao ritmo do funk, todas com seus vestidos deslumbrantes, independente de sua posição social, requebrando os quadris e fazendo as coreografias criadas pela cantora. Ninguém consegue ficar parado, aos poucos todos vão para a pista. Se formos perguntar se apreciam o ritmo do funk,&nbsp;&nbsp;a maioria, provavelmente, diria que&nbsp;não.&nbsp;Muitas vezes, as letras muitas vezes não são escutadas&nbsp;e&nbsp;muitos nem sabem sobre o que está sendo dito, cantam o refrão que&nbsp;é&nbsp;repetido muitas vezes e que fica na cabeça. Nesse ambiente social, longe do morro, das favelas, da periferia, com uma população mais ou menos elitizada, cheio de formalidades e de regras, se deixam seduzir pelo ritmo das batidas fortes&nbsp;&nbsp;e&nbsp;saem dançando. Esse ritmo contagia de tal forma que o arquétipo de Afrodite se torna presente e todos são tomados por ele. Não conseguem parar, saem dançando, homens e mulheres. Tornam-se sensuais, libertos de seus preconceitos, se contagiam com o ritmo e se sentem felizes dançando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto tempo essa modalidade vai durar, impossível predizer, mas o papel do funk&nbsp;é&nbsp;fazer o Brasil ter consciência do que realmente&nbsp;é, um território imenso, uma mistura de raças, crenças, culturas,&nbsp;e uma grande&nbsp;divisão social. Seria um movimento de ressignificação política?&nbsp;A favela-marginalizada, agora&nbsp;é&nbsp;demonstrada, como um local onde as pessoas vivem, e fazem valer suas experiencias do dia a dia, dos jovens que ali habitam. Jovens que algumas vezes são silenciados, ora são estigmatizados, mas pessoas que pensam, vivem e desejam serem ouvidas e querem mais&#8230;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista em formação: Ivone Ferreira</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata Responsável: Maria Cristina Mariante Guarnieri&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Funk e a libertação do mito de Afrodite | Ivone Ferreira" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Qh0hB4AHb5o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Refer</strong><strong>ências :</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BOLEN,J.S.&nbsp;&nbsp;<strong>AS DEUSAS E A MULHER&nbsp;</strong>nova psicologia das mulheres<strong>.</strong>&nbsp;[Tradução Maria Lydia Remédio] .12 reimpressão- São Paulo: Paulus, 2013. (Coleção Amor e Psique).</p>



<p class="wp-block-paragraph">DREHER,S.C.&nbsp;&nbsp;<strong>A CAN</strong><strong>ÇÃ</strong><strong>O: UM CANAL DE EXPRESS</strong><strong>Ã</strong><strong>O DE CONTE</strong><strong>Ú</strong><strong>DOS SIMB</strong><strong>Ó</strong><strong>LICOS E ARQUET</strong><strong>Í</strong><strong>PICOS</strong>. Psicologia Argumento, Curitiba, v.23, n.42 p.55-63, jul./set.2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;&nbsp;<strong>O esp</strong><strong>í</strong><strong>rito na arte e na ci</strong><strong>ê</strong><strong>ncia v.15</strong>; [Tradução de Maria de Moraes Barros]. 8.ed.-Petrópolis, Vozes,2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG,C.G.&nbsp;<strong>O eu e o inconsciente v. 7/2</strong>. [Tradução Dora Ferreira da Silva]. 27.ed- Petrópolis, Vozes, 2015.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">PALOMBINI,C.&nbsp;<strong>Música dan</strong><strong>çante africana norte-americana, soul brasileiro e funk carioca: uma bibliografia</strong>. III Seminário Música Ciência e Tecnologia, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ROESLER,L.&nbsp;<strong>FATORES DETERMINANTES DO APERFEI</strong><strong>Ç</strong><strong>OAMENTO DA PERCEP</strong><strong>ÇÃ</strong><strong>O R</strong><strong>Í</strong><strong>TMICA NA DAN</strong><strong>Ç</strong><strong>A: UMA REVIS</strong><strong>Ã</strong><strong>O DE LITERATURA</strong>. Trabalho de conclusão de curso (licenciatura&nbsp;–&nbsp;Educação Física) –&nbsp;Universidade Estadual Paulista&nbsp;“Júlio de Mesquita Filho”, Instituto de Biociências de Rio Claro, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SOARES,M.C.&nbsp;<strong>A expressão cultural das periferias brasileiras.</strong>&nbsp;AUN&nbsp;– Agência Universitária de Notícias. Acesso em: Fev.2022: (http://aun.webhostuso.sti.usp.br/index.phd/2018/09/14/a-expressão-cultural-das-periferias-brasileiras/)&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">SPOTIFY –&nbsp;<a href="http://noticias.uol.com.br/">http://noticias.uol.com.br</a>. App 2022/03/2025</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Considerações sobre o processo de psicodiagnóstico infantil na clínica junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/consideracoes-sobre-o-processo-de-psicodiagnostico-infantil-na-clinica-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jun 2022 14:50:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[diagnóstico infantil]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia da criança]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” C. G. Jung, fundador da psicologia analítica. Ao receber uma criança no consultório, esta nos chega com uma queixa específica e narrada por seus pais ou cuidadores. Pode ser algum medo, questões de cunho comportamental, dificuldades de aprendizagem, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” C. G. Jung, fundador da psicologia analítica. </p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ao receber uma criança no consultório, esta nos chega com uma queixa específica e narrada por seus pais ou cuidadores. Pode ser algum medo, questões de cunho comportamental, dificuldades de aprendizagem, questões de relacionamento e interatividade social, entre outras. Os pais narram as dificuldades destes pequenos de acordo com o que veem e percebem em seus filhos. Às vezes são queixas pautadas nas narrativas escolares proveniente das observações de professores e coordenadores pedagógicos, como também, podem estar orientados por outros profissionais da área de saúde. Às vezes, os pais podem associar estas condições&nbsp;às suas próprias dificuldades e estilos pessoais, mas raramente passa disto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, em nosso papel como analistas, como compreender se aquela queixa é de fato o que aflige a criança, ou se ela mascara ou disfarça algum tipo de questão mais profunda? O quanto este comportamento ou dificuldade apresentado pelos pequenos não são apenas sintomas de questões mais complexas e inacessíveis para seus pais? Diferente do cliente adulto, a criança, que está em processo de desenvolvimento de personalidade e de estrutura de ego, não tem um discurso analítico, racional e fluente para explicar aquilo que vive e que está sentindo. Por este motivo, é&nbsp;importante que se faça uma investigação cuidadosa e detalhada sobre a vida desta criança, para que se possa desenvolver um processo terapêutico que seja efetivo para o atendimento de suas reais questões. É aqui que entra o processo de psicodiagnóstico, que deve preceder ao processo terapêutico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O processo de psicodiagnóstico tem, de acordo com KRUG, (2016), a seguinte definição:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Compreendemos que o psicodiagnóstico&nbsp;é um procedimento científico de investigação e intervenção clínica, limitado no tempo, que emprega técnicas e/ou testes com o propósito de avaliar uma ou mais características psicológicas, visando um diagnóstico psicológico (descritivo e ou dinâmico), construído a luz de uma orientação teórica que subsidia a compreensão da situação avaliada gerando uma ou mais indicações terapêuticas e encaminhamentos. (KRUG, 2016, pag.18)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta definição está em acordo com o que também diz outra teórica da&nbsp;área, OCAMPO (1995), quando afirma que o processo de psicodiagnóstico deve observar e respeitar um tempo limite, onde as partes &#8211; analista e cliente &#8211; objetivam “conseguir uma descrição e compreensão, o mais profundo e completa possível, da personalidade total do paciente ou do grupo familiar”&nbsp;(OCAMPO, 1995, pag 17). A autora completa a visão, dizendo que o processo “abrange os aspectos passados, presentes e futuros desta personalidade, utilizando para alcançar tais objetivos certas técnicas.”&nbsp;(OCAMPO, 1995, pag 17).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir desses pontos, entende-se que o processo de psicodiagnóstico&nbsp;é uma etapa inicial que pode ter grande valia para o trabalho terapêutico com a criança, pois é por meio dele que o analista poderá aprofundar e detalhar quais são as questões que envolvem a criança – a estrutura e ambiente familiar, escolar, social; seu mundo interno de fantasias e de projeções. O psicodiagnóstico&nbsp;é uma construção inicial do caso, que deve ser realizado com muita qualidade e com critérios sérios e éticos. Não se deve utilizar esta etapa do processo para taxar e reduzir a percepção acerca das questões, mas pelo contrário para ampliar e abrir possibilidades de acompanhamento e orientações.&nbsp;&nbsp;A criança, segundo JUNG (1991), “tem uma psique extremamente influenciável e dependente, que se movimenta por completo no âmbito nebuloso da psique dos pais, do qual só relativamente tarde consegue libertar-se.” (JUNG, 1991 §99)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua obra&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>, Jung&nbsp;é&nbsp;bastante crítico e reticente ao falar do trabalho psicológico com crianças. Ele pontua que essa atividade é muito difícil e que deve ser realizada com muita cautela por parte do analista, pois como a criança é uma personalidade em formação, e como dito anteriormente &#8211; extremamente influenciável, se for orientada de modo indevido, pode-se intervir de forma inadequada no processo de aquisição de consciência, que&nbsp;é, segundo Jung a tarefa da infância. “Precisamos lidar com algo de imprevisível, pois não sabemos como e em que sentido se desenvolverá a personalidade em formação”. (JUNG, 1991, §292). O conhecimento, a simplicidade e abertura do analista, como também seu próprio trabalho de autodesenvolvimento é considerado por Jung como crucial para o trabalho com crianças. Isto posto, é importante destacar que Jung deixou escritos importantes sobre a personalidade infantil em desenvolvimento, mas não se aprofundou sobre o tratamento em particular da criança. Autores como Mario Jacoby, Michael Fordham e Erich Neumann, ampliaram o legado de Jung e a visão da psicologia analítica para o tratamento clínico deste público.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">FODHAM (2001), corrobora com a visão de Jung a respeito da complexidade e da seriedade necessárias para o trabalho com crianças, e destaca em sua obra&nbsp;<em>A criança como indiví</em><em>duo</em>&nbsp;a seguinte colocação:</p>



<p class="wp-block-paragraph">[&#8230;] a análise junguiana infantil é uma técnica que exige treinamento especial. A perícia que o analista infantil deve atingir centra-se em: dar início à terapia, já que isso requer a elaboração de um diagnóstico da família, utilizar técnicas lúdicas e estar permanentemente atento às ocasiões em que os pais precisarem de ajuda (FORDHAM 2001, pag. 144).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O princípio básico deixado por Jung e desenvolvido por seus sucessores neste tema, postula que a psicologia infantil deve ser compreendida à luz da psicologia familiar e dos complexos materno e paterno. Para Jung:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A criança tem uma psicologia singular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que propriamente doença genuína da criança. Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais. (JUNG, 1991, §143).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A forma e a proporção em que os complexos se constelam no inconsciente das crianças, devem surgir durante o processo psicodiagnóstico e servirá para nortear grande parte do trabalho a ser desenvolvido com a criança, bem como com os pais. Em acordo com a visão de Jung, JACOBY (2010) afirma que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">As disposições e necessidades arquetípicas no indivíduo estão interligadas com o meio de um modo intrincado que apresenta uma influência poderosa, marcante, especialmente na primeira infância. Nesse encontro entre a disposição natural da criança e a reação do ambiente, nós achamos a origem de muitos complexos psíquicos, especialmente quando a criança responde aos vários modos de seus pais se sintonizarem com ele. (JACOBY, 2010, pag. 142).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sobre a natureza dos complexos e a importância de se considerar sua presença e manifestação nos diagnósticos, JUNG (1987) afirma:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em psicoterapia, o reconhecimento da doença depende [&#8230;] muito menos do quadro clínico da enfermidade do que dos complexos nela contidos. O diagnóstico psicológico visa ao diagnóstico dos complexos e, por conseguinte, à formulação de fatos que seriam antes camuflados do que mostrados pelo quadro clínico da doença. (JUNG, 1987 §198).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao estruturar um processo de psicodiagnóstico infantil, embasado na psicologia analítica,&nbsp;é importante que dentro deste processo, todas as etapas (apresentadas a seguir) tenham como ideia central esta imagem da criança, como ser em formação, ligada inconscientemente aos seus pais e sob efeito da autonomia dos complexos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De modo geral o processo de psicodiagnóstico abrange, as seguintes etapas:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Entrevista de anamnese com os pais</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta entrevista pode se desenvolver em dois ou três encontros e tem como objetivo principal detalhar de forma mais específica possível a história de vida da criança. Isto engloba compreender seu ambiente familiar, desde um olhar sobre a infância de seus pais, a relação conjugal de ambos, condições sob a qual a criança foi concebida. Expectativas atendidas ou frustradas com a chegada da criança na família, histórias de abortos, outros filhos, relações parentais dos pais com seus genitores. JUNG (1991) afirma que “A causa recalcada do sofrimento, além da neurose [&#8230;] irradia-se de modo misterioso pelo ambiente e afeta também os filhos, caso existam. Deste modo são transmitidos muitas vezes por várias gerações” (JUNG, 1991, § 154).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uso de teste psicol</strong><strong>ógicos</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os testes psicológicos são uma ferramenta de bastante valor neste processo. Cabe aqui destacar que eles são parte do processo e tem como objetivo ajudar o profissional a conhecer e ampliar a sua visão sobre os pontos que estes tetes se propõe a averiguar.&nbsp;<strong>Os testes nã</strong><strong>o det</strong><strong>êm a verdade sobre a condiçã</strong><strong>o psicol</strong><strong>ógica da crianç</strong><strong>a.</strong>&nbsp;Toda criança vive sobre um determinado ambiente e contexto e estes dados devem ser levados em consideração na análise a ser realizada. Eles podem ajudar a reforçar determinadas percepções como também a descartar hipóteses.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante destacar que os testes psicológicos são ferramentas de uso exclusivo do psicólogo, mas analistas junguianos e arte terapeutas podem e devem se valer dos conhecimentos das expressões e das representações simbólicas que são produzidas pelas crianças nos seus desenhos, pinturas e histórias. As cores, as formas e mesmo a atitude da criança ao desenhar contém muito sobre seu psiquismo. O processo de simbolização de conteúdos inconscientes&nbsp;é muito presente na expressão infantil. As imagens podem trazer representações de conteúdos arquetípicos, sombrios e dos complexos. Segundo RABELLO (2016), no livro&nbsp;<em>O desenho infantil</em>, ao criar, a criança estabelece uma dialética com a sua produção e ela “transforma a sua imaginação em formas gráficas e deixa registrado o que está sentindo, o que pensa, ou o que desejaria que acontecesse. (RABELLO, 2016, pag. 22). Ainda sobre o uso dos desenhos, FURTH (2004) afirma que “os complexos são descobertos a partir da análise de imagens do inconsciente, expressas nos desenhos, bem como nos sonhos.”&nbsp;(FURTH, 2004, pag. 33)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Hora l</strong><strong>ú</strong><strong>dica</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta etapa consiste em uma ou duas sessões lúdicas com a criança. Nestas interações o analista precisa estabelecer uma relação com a criança e adotar uma postura de facilitador e observador atento na forma de expressão de seu cliente. Neste momento, o analista poderá se utilizar de recursos diversos para esta interação. A espontaneidade e a criatividade precisam estar presentes de modo genuíno. O brincar tem uma linguagem própria, sendo que neste fazer lúdico, a criança expressa e comunica a sua forma de estar no mundo. Segundo FORDHAM (2001):</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;[&#8230;] a brincadeira é um veículo para a comunicação significativa, um elemento que se revela especialmente útil ao analista. Em vez de falar, a criança irá brincar, exprimindo seus amores e ódios, medos e esperanças,&nbsp;às vezes de forma transparente, mas, em geral, de modo indireto. (FORDHAM, 2001, pag. 26).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Olhar multidisciplinar</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O analista poderá contar ainda com relatos e com materiais de outros processos diagnósticos aos quais a criança já tenha sido submetida e que são conduzidos por outros profissionais, como pediatra, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psiquiatra, professores e pedagogos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas estas etapas devem, ao final, serem consolidadas em uma visão global e sistêmica acerca da vida e da dinâmica da criança. Nada deve ser simplesmente descartado. Este conjunto de observações e dados coletados com e sobre a criança, constituem um material muito precioso para o analista junguiano. São recortes, expressões e manifestações genuínas da dinâmica inconsciente da criança, bem como de aspectos de seu drama familiar. Portanto, a análise deste material deve ser muito cuidadosa, para que o analista possa, ao concluir o psicodiagnóstico, estruturar uma devolutiva para os pais de modo que, nesta reunião, estes possam receber as orientações de forma clara sobre a conduta e continuidade do processo com a criança. Vale destacar ainda que, há uma grande chance de, com todo o processo realizado, de surgirem questões que não foram apontadas pelos pais no início do processo, pois segundo o próprio C. Jung (1991)&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] tanto os pais como os filhos estão inconscientes a respeito do que está acontecendo. Como são contagiantes os complexos dos pais, deduz-se dos efeitos que suas singularidades produzem nos filhos. Mesmo que os pais façam esforços constantes e eficientes para se dominarem, de modo que um adulto nem sequer perceba o mínimo vestígio de um complexo adulto, os filhos, contudo, de qualquer maneira serão afetados por ele. (JUNG, 1991, §106)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Por esta razão&nbsp;é necessário que se trabalhe de forma respeitosa, honesta e transparente, tendo como premissa o processo de desenvolvimento da criança bem como seu bem-estar físico e emocional. Caso haja a necessidade de orientação de terapia para seus pais, visto que a consciência e o ego da criança se encontram em formação e ainda sob forte influência dos complexos familiares, esta orientação precisa ser realizada.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Considerações sobre o processo de psicodiagnóstico infantil na clínica junguiana | Gilmara Alves" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/5LVFWzrVLKw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências Bibliográficas</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">FORDHAM, Michael.&nbsp;<strong>A criança como indiví</strong><strong>duo</strong>. 1ª ed. São Paulo: Cultrix, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FURTH, Gregg M.&nbsp;<strong>O mundo secreto dos desenhos – uma abordagem junguiana da cura pela arte.</strong>Coleção Amor e Psique 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HUTZ, Claudio Simon; BANDEIRA, Denise H.; TRENTINI, Clarissa M. &amp; KRUG, Jefferson Silva (organizadores).&nbsp;<strong>Psicodiagn</strong><strong>ó</strong><strong>stico</strong>. Porto Alegre. Artmed, 2016</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBY, Mario.&nbsp;<strong>Psicoterapia junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças.&nbsp;</strong>Coleção Amor e Psique. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. [1972] 5ª&nbsp;ed. Vol. XVII. Petrópolis: Vozes, 1991</p>



<p class="wp-block-paragraph">___________.&nbsp;<strong>A prá</strong><strong>tica da psicoterapia</strong>. [1971] 3ª&nbsp;ed. Vol. XVI/1. Petrópolis: Vozes, 1987</p>



<p class="wp-block-paragraph">OCAMPO, Maria Luísa S. de. &amp; colaboradores.&nbsp;<strong>O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas.</strong>&nbsp;8ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995</p>



<p class="wp-block-paragraph">RABELLO, Nancy.&nbsp;<strong>O desenho infantil. Entenda como a criança se comunica por meio de traços e cores</strong>. 3ª ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2019</p>
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		<title>Aspectos sombrios na filha do pai</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/aspectos-sombrios-na-filha-do-pai/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Moura Vernalha]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 21 Mar 2022 15:39:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexo paterno]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4391</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este ensaio tem a intenção de ampliar questionamentos sobre o complexo paterno, que sob a luz do dinamismo patriarcal se inicia na relação primal e se prolonga para a vida ulterior do indivíduo. Neste caso, faz-se um recorte dos possíveis impactos decorrentes da fragilidade do exercício da paternidade para a menina, futura mulher.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Este ensaio tem a intenção de ampliar questionamentos sobre o complexo paterno, que sob a luz do dinamismo patriarcal se inicia na relação primal e se prolonga para a vida ulterior do indivíduo. Neste caso, faz-se um recorte dos possíveis impactos decorrentes da fragilidade do exercício da paternidade para a menina, futura mulher.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É universal a simbologia da figura materna, que docemente nos conduz ao reino do aconchego, da doação e do amor. Igualmente relevante, embora com certa impessoalidade na experiência inicial, a dimensão &#8220;pai&#8221; guarda a promessa de alteridade, que se fortalece na vivência diária da paternidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não faltam trabalhos abordando os efeitos nocivos do complexo paterno negativo, que abrangem desde a ausência real da figura paterna &#8211; por morte ou abandono, passando pela ausência emocional e chegando às diversas formas de violência, direta ou indireta, tais como: abuso de álcool e outras substâncias, violência doméstica e transtornos psiquiátricos limitantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Meu olhar tenta alcançar linhas sutis que podem se formar, aos poucos, ao longo dos anos, traçando funcionamentos e personalidades que em algum momento precisarão de maior atenção. Refiro-me aqui a questões vivenciadas por mulheres, que na fase adulta se deparam com os mais diversos medos; estes podem ser concretos, direcionados a objetos, pessoas ou situações, ou ainda o medo emocional, subjetivo, substantivo, que aparece nos escritos de Jung como temor perante a vida e até mesmo temor frente ao inconsciente, tornando clara a necessidade de re-significar as representações parentais, principalmente a paterna, no intuito de reduzir danos no enfrentamento da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem abre para a criança o universo do pai não é o indivíduo enquanto pessoa, mas sim o dinamismo paterno; diferente da mãe, que ocupa na vida da criança uma função mais pessoal e concreta frente às demandas maternas. As diversas relações do filho, ao longo da vida &#8211; consigo mesmo, com o outro e com o mundo serão mediadas pela representação do pai, baseadas nas regras, limites, qualidade, finalidade, regularidade, objetivos e responsabilidades. (Lima Filho 2002)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lima Filho, ainda ressalta que a ausência de um representante paterno, tal como se vê no caso da mãe, é danosa para a personalidade. No lugar de se relacionar com o mundo, o filho se diluí, podendo invadir ou se deixar invadir quando faltam regras e limites. A partir do representante do pai, a criança torna-se um membro da coletividade humana, pois lhe é ofertado o conceito de &#8220;outro&#8221; enquanto semelhante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa noção do outro decorre do papel exercido pela figura paterna, atuando na separação dos filhos acerca da simbiótica relação com a mãe. Stevens (1993: p.119) descreve o amor paterno:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“</em>(&#8230;) a criança nunca esteve, antes, fisicamente unida ao pai ou dele dependeu, no que se refere ao corpo, para se alimentar: assim, o pai é a primeira pessoa que a criança ama numa base espiritual, oposta a base física. À medida que este relacionamento vai amadurecendo, há também uma consciência cada vez maior da parte do filho, de que o afeto ligado ao pai difere em qualidade do afeto materno: ele é menos envolvente, e não é tão crítico (&#8230;)&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pai instaura a falta e nomeia a realidade. O que chega da mãe é preenchimento. Do pai, a falta, mas também recursos para tal preenchimento, ou seja, ajuda a criança a vivenciar por conta própria seus recursos, para que seja capaz de lutar e suprir a si mesma. (Lima Filho, 2002)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Corneau (1991), citado por Lima Filho (2002) o que estimula as realizações do filho é o amor condicional do pai, revelando-se crucial no desenvolvimento da responsabilidade, superação e respeito à hierarquia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E como farejar estas questões, quando elas se encontram em um cenário de estrutura familiar aparentemente saudável, beirando tudo que é ditado pela norma? Um lar amoroso trabalho com afinco e responsabilidade a fim de garantir que todas as necessidades sejam supridas na medida do possível: alimento, saúde educação etc. Enfim, a família &#8220;quase perfeita&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste contexto, podemos estreitar um pouco mais sobre as contribuições do pai na construção da identidade da mulher e seu desenvolvimento psíquico. Sua atuação na vida poderá caminhar para o lado positivo e saudável, ou negativo e disfuncional, de acordo com os vínculos estabelecidos, bem como o processo de internalização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tão importante quanto à interdição da relação simbiótica com a mãe, é a capacidade do pai real, de humanizar os aspectos arquetípicos na filha. Para que isso ocorra, a figura paterna precisa de prontidão para acessar seus aspectos sombrios. Somente desta forma, a filha terá condições de trabalhar seu processo de diferenciação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As mais diversas atitudes, principalmente as que se referem ao trabalho, influenciarão diretamente nas atitudes da filha. Quando a relação constituída somente aparenta positividade e solidez, provavelmente o vínculo será negativo. Dessa forma a tendência ao perfeccionismo estará sempre presente; já a criatividade, provavelmente estará quase sempre escassa e como resultante disso: possível excesso de trabalho, com sensação de ineficiência constante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a figura do pai enxerga e admite suas próprias fragilidades e limitações, permite que esta filha consiga lidar com suas faltas instaladas na psique e ao mesmo tempo encoraja, abrindo espaço para o desejo de seguir adiante, independente das dificuldades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem estaria por traz das dificuldades do pai, que carrega as melhores intenções sobre proteger e orientar, mas que ao negar seu lado mais obscuro vai mantendo esta filha aprisionada na superfície?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só consigo pensar no MEDO. Duas palavras eram usadas na Grécia antiga para diferenciar apreensões:&nbsp;<strong><em>deos,&nbsp;</em></strong>referente a um temor controlado e refletido e&nbsp;<strong><em>phobos</em></strong><em>,&nbsp;</em>que é um medo intenso e irracional acompanhado de fuga. Sendo um mecanismo de defesa, uma emoção inata, o medo normal aparece como proteção frente a algo que nos coloca em risco e cessa assim que o perigo desaparece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung (2002), o medo é uma emoção que nos possuí, mostrando indícios de uma adaptação insuficiente; um sintoma de um conflito entre opostos psíquicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poderíamos assim falar, pensando na figura do pai, no medo que a alteridade, por suas exigências produz, estando esta emoção relacionada às questões prováveis de aprovação social, tais como: reputação, crítica, fracasso e solidão. O não conhecimento dos conteúdos complexos e arquetípicos por parte do pai o deixariam aprisionado e cada vez mais distante do processo de individuação. Dessa forma, sendo o pai o portador do LOGOS, se consumido pelo medo, pode se tornar a figura que abre a porta, em períodos de transição, para o temor maior frente aos fantasmas do inconsciente da filha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em símbolos da transformação vol. V, Jung fala sobre o medo do mundo interno, que pode ser mais pavoroso que o medo do mundo externo, principalmente quando negado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, estas questões provavelmente poderão ser trabalhadas e re-significadas pela filha que alcançar um nível de desconforto. Caso tenha um ego estruturante, um ego mais fortalecido e flexível será capaz de transitar pelo desconhecido com um pouco mais de autonomia, tendo condições de se preservar de uma possível invasão do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As dificuldades vivenciadas por muitos pais existem de fato; longe de mim qualquer tentativa de não legitimá-las, mas o impacto que de isso ocorre também é legítimo. O medo, que aumenta a distância entre a consciência e o inconsciente, tira a clareza da percepção e como conseqüência inibe comportamentos críticos acerca da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este pai deixa de vivenciar a satisfação de se perceber como um verdadeiro herói, pelo fato de portar medos e fraquezas. Deixa de se perceber como um grande entusiasta, por conta de emulações e ainda, de usufruir da sensação de grande mestre, orientador, simplesmente por não admitir de forma genuína ter receios e dúvidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pai que não enfrentou com coragem (ação do coração), o medo, provavelmente não assumiu uma posição de autoridade. Disso resultam duas formas de comportamento. A primeira, seria a busca de poder de forma autoritária, arrogante e abusiva. Outra maneira seria um distanciamento de si mesmo, se entregando a uma postura de inferioridade e subserviência. Em ambos os casos, há uma interdição da possibilidade criativa da alteridade</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a menina, agora mulher, cabe a coragem do confronto, se assim lhe aprouver. Daqui para frente, os aspectos internos se tornarão os olhos que guiam, e o conforto estará intimamente ligado à renúncia de tudo aquilo que pode afetar o destino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embrenhar-se na sombra reconstrói o passado e prospecta de forma vivificada para grandes possibilidades. Abre-se espaço para o CRIATIVO, para o AUTÊNTICO, gratificando nossos antepassados, sem abrir da mão do que podemos de fato nos tornar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Patrícia Moura Vernalha – Membro Analista em formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata: Waldemar Magaldi</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-patricia-moura-vernalha-21-03-2022"><strong><em>Patrícia Moura Vernalha &#8211; 21/03/2022</em></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos">&nbsp;Voltar</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">LIMA FILHO, A. O pai e a psique. São Paulo &#8211; Paulus, 2002</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Símbolos da transformação vol. 5 &#8211; Editora Vozes limitada, 2018</p>



<p class="wp-block-paragraph">STEVENS, A. Vida e pensamento: uma introdução &#8211; Editora Vozes, 1993</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A natureza da psique vol. 8/2 &#8211; Editora Vozes, 2013</p>



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