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	<title>Arquivos Família - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Família - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Superparentalidade: de crianças superprotegidas a adultos infantilizados</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/superparentalidade-de-criancas-superprotegidas-a-adultos-infantilizados/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Jun 2025 12:44:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não é importante que os pais nunca cometam erros – isso seria impossível para os seres humanos –, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente, a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador de seu próximo tanto para o [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-large" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>Não é importante que os pais nunca cometam erros – isso seria impossível para os seres humanos –, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente, a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador de seu próximo tanto para o bem como para o mal. </em></p><cite>(Jung, 2021, p.90)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><em><strong>Resumo</strong>: Na tentativa de proteger excessivamente seus filhos, muitos pais acabam impedindo que eles vivenciem experiências importantes e realizem tarefas simples do dia a dia. Aborda-se como esse excesso de “cuidado” pode formar adultos inseguros, dependentes e com dificuldades para enfrentar os desafios da vida.</em> <em>A superproteção compromete o desenvolvimento da criança, passando pela adolescência até a vida adulta, resultando em indivíduos emocionalmente presos à infância e marcados pela imaturidade. <strong>Mais do que nunca, precisamos refletir sobre nossa forma de educar: estaremos verdadeiramente preparando nossas crianças para a vida ou apenas protegendo a nós mesmos</strong>?</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-criancas-que-ganham-autonomia-no-autocuidado-e-nas-tarefas-domesticas-tornam-se-adultos-mais-afetuosos-regulados-emocional-e-cognitivamente" style="font-size:19px">Crianças que ganham autonomia no autocuidado e nas tarefas domésticas tornam-se adultos mais afetuosos, regulados emocional e cognitivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa é uma questão levantada no artigo realizado pela&nbsp;<em>La Trobe University</em>:&nbsp;<em>Executive functions and household chores: Does engagement in chores predict children’s cognition?</em>&nbsp;(Funções executivas e tarefas domésticas: o envolvimento nas tarefas prevê a cognição das crianças?&nbsp;– tradução livre).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Embora a tese apresentada acima pareça óbvia para muitos leitores, temos observado uma atitude contrária por parte de muitos pais nos dias de hoje. E é sobre essa <strong>superproteção parental</strong> que proponho refletirmos ao longo deste artigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O estudo australiano aponta que a&nbsp;<strong>superparentalidade</strong>&nbsp;tira das crianças a oportunidade de progresso por meio da realização de tarefas simples do dia a dia. O envolvimento excessivo dos pais prejudica o desenvolvimento emocional e comportamental desses indivíduos ao longo da vida, que crescem dependentes e incapazes de se autoafirmarem, tornando-se <strong>adultos infantilizados</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-observando-a-forma-como-a-sociedade-contemporanea-vivencia-a-parentalidade-entendo-que-estamos-em-crise" style="font-size:19px">Observando a forma como a sociedade contemporânea vivencia a parentalidade, entendo que estamos em crise.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perdemo-nos-diante-da-ideia-do-que-e-amar-cuidar-e-ensinar" style="font-size:19px">Perdemo-nos diante da ideia do que é amar, cuidar e ensinar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Como elaborei no meu último artigo,&nbsp;<a href="https://blog.sudamar.com.br/a-parentalidade-positiva-e-a-sua-sombra-na-contemporaneidade/"><em>“A parentalidade positiva e a sua sombra na contemporaneidade”</em></a>, penso que assumimos novas demandas impostas por uma geração que acredita na fórmula certa para a construção da <strong>família perfeita</strong>. Nela, não cabem erros, fraquezas e vulnerabilidades – nem para os pais, nem para os filhos. Vivemos a era que teme o sofrimento e a insatisfação das crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A rotina pesada do dia a dia, somada às ideias equivocadas de que&nbsp;amor nunca é demais&nbsp;e de que&nbsp;frustração desregula as crianças emocionalmente, tem invertido a lógica da dinâmica familiar. Fazer pelos filhos torna-se mais importante do que permitir que eles errem e se desenvolvam no tempo deles – essa é a cartilha da <strong>superparentalidade</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-assumir-as-pequenas-tarefas-e-desafios-dos-filhos-perdemos-a-chance-de-encoraja-los-e-de-oferecer-suporte-emocional-frente-as-adversidades-e-aprendizados-da-vida" style="font-size:19px">Ao assumir as pequenas tarefas e desafios dos filhos, perdemos a chance de encorajá-los e de oferecer suporte emocional frente às adversidades e aprendizados da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Criamos tanta culpa e desconexão com nossas crianças e, por outro lado, assumimos o controle de tudo – inclusive das pequenas atividades cotidianas que elas já são capazes de desenvolver sozinhas, como vestir-se, comer, amarrar os tênis, tomar banho ou preparar seu lanche. Quando o amor e o cuidado tornam-se desmedidos, sufocamos e interditamos os indivíduos em seu processo de desenvolvimento natural e necessário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo <strong>Neumann</strong>, é preciso saber diferenciar o mimar “verdadeiro” do “falso”, da mãe-bruxa que atrai a criança para sua casa de chocolate. “<strong>Mimar [&#8230;] não produz distúrbios sérios, até tornar-se necessário para a criança afrouxar os laços com a mãe, e esse processo é impedido ou prevenido pelo fato de a mãe ter mimado o filho</strong>”&nbsp;(1995, p. 54, grifos meus). Nesse caso, o mimo não saudável gerará um processo de dependência e codependência, afetando diretamente o desenvolvimento da criança. Vale ressaltar que podemos ampliar tranquilamente esse conceito, designado por Neumann à mãe, para todos que exercem a <strong>parentalidade</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O mimo que ultrapassa a primeira infância priva as crianças de se desenvolverem a partir de inibições, contradições e frustrações. Dinâmicas fundamentais para que, no futuro, esses indivíduos sejam capazes de suportar a tensão psíquica entre o consciente e o inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“A capacidade de uma criança aceitar restrições com relativa facilidade depende de uma capacidade de se integrar, de formar um ego integral e um eixo ego-Self positivo”&nbsp;(NEUMANN, 1995, p. 57-58).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na perspectiva junguiana, compreendemos que o receio que os pais têm de que seus filhos se frustrem fala mais sobre eles mesmos do que sobre as crianças. É uma dinâmica psíquica sutil que reforça ainda mais a dependência emocional – a princípio natural e necessária entre filhos e pais –, mas que se torna disfuncional quando não é superada ao longo do desenvolvimento infantil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-psique-da-crianca-jung-diz" style="font-size:19px">Sobre a psique da criança, <strong>Jung</strong> diz:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>A criança tem uma psicologia singular</strong>. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que doença genuína da criança. <strong>Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte, ainda depende da vida psíquica dos pais&nbsp;</strong>(2021, p. 84).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para a psicologia analítica, o desenvolvimento da personalidade pressupõe a diferenciação entre a psique dos filhos e a de seus pais no caminho do adultecimento, permitindo o processo de individuação de cada um ao longo da vida.&nbsp;“[&#8230;] <strong>apegar-se demasiadamente aos pais é desnatural e doentio</strong> [&#8230;]”&nbsp;(JUNG, 2021, p. 85).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-individuacao-jung-afirma-que-e-um-processo-que-nunca-chega-ao-fim-mas-e-o-caminho-para-nos-tornarmos-seres-unicos-realizando-nossas-potencialidades" style="font-size:19px">Sobre a individuação, Jung afirma que é um processo que nunca chega ao fim, mas é o caminho para nos tornarmos seres únicos, realizando nossas potencialidades:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“</em>A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é<em>”</em>&nbsp;(2020, p. 64).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-limitarmos-nossas-criancas-em-seu-processo-de-amadurecimento-fisico-emocional-e-cognitivo-causamos-um-interdito-na-passagem-da-infancia-para-a-adolescencia-e-depois-para-a-vida-adulta" style="font-size:19px">Ao limitarmos nossas crianças em seu processo de amadurecimento físico, emocional e cognitivo, causamos um interdito na passagem da infância para a adolescência e, depois, para a vida adulta.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">“Aqueles que passam conscientemente pela transição trazem mais significado à sua vida. Os que não passam permanecem prisioneiros da infância, não importa o sucesso aparente que possam ter na vida”&nbsp;(HOLLIS, 2023, p. 9).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-superparentalidade-tornou-se-um-sintoma-que-evidencia-o-peso-e-as-expectativas-geradas-sobre-a-criacao-dos-filhos-trazendo-impactos-negativos-para-toda-uma-geracao-da-infancia-a-adultez" style="font-size:19px">A <strong>superparentalidade</strong> tornou-se um sintoma que evidencia o peso e as expectativas geradas sobre a criação dos filhos, trazendo impactos negativos para toda uma geração – da infância à adultez.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">À medida que nos desconectamos dos instintos maternos e paternos, perdemos a capacidade de observar, respeitar e favorecer o desenvolvimento das etapas da vida humana, que acontecem a partir de experiências boas e ruins. Privar crianças e adolescentes de frustrações e tristezas não os torna mais felizes ou amorosos – pelo contrário. No entanto, oferecer suporte emocional, acolhimento e segurança durante situações difíceis favorece a formação de indivíduos mais seguros e autônomos, além de fortalecer ainda mais o vínculo familiar.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Podemos até concluir que a personalidade adulta não examinada é um agregado de atitudes, comportamentos e reflexos psíquicos ocasionados pelos traumas da infância, cujo objetivo fundamental é controlar o nível de sofrimento experimentado pela memória orgânica da infância que conduzimos dentro de nós. Podemos chamar essa memória orgânica de criança interior, e nossas várias neuroses representam estratégias inconscientemente desenvolvidas para defender essa criança. (A palavra ‘neurose’ não é usada aqui no sentido clínico, e sim como termo genérico para a divisão entre a nossa natureza e a nossa aculturação)&nbsp;(HOLLIS, 2023, p. 13).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao adotarmos a <strong>superparentalidade</strong> como modelo, formamos uma geração de jovens adultos infantilizados e incapazes de fazerem por si mesmos o básico. De forma mais ampla, esse comportamento parental poda a possibilidade de desenvolvimento cognitivo e emocional. Criando indivíduos desconectados de suas emoções, sentimentos, necessidades básicas e sem condições de compreender o outro em suas vulnerabilidades e deficiências – ou seja, incapazes de praticar empatia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-afeto-desmedido-ou-a-falta-dele-esta-inexoravelmente-ligado-ao-desenvolvimento-emocional-de-criancas-e-adolescentes-e-a-sua-capacidade-de-no-futuro-tornarem-se-adultos-emocionalmente-regulados" style="font-size:19px"><strong>O afeto desmedido – ou a falta dele – está inexoravelmente ligado ao desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes e à sua capacidade de, no futuro, tornarem-se adultos emocionalmente regulados.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A autonomia que os indivíduos terão na fase adulta é desenvolvida ainda na infância, por meio da participação em tarefas domésticas, no cuidado de suas próprias coisas e de seu corpo. Essas habilidades são fundamentais para a autorregulação na vida madura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A presença afetiva dos pais na vida dos filhos é preponderante para o desenvolvimento psíquico da criança. No entanto, é fundamental que essa presença sofra modificações ao longo do tempo. A influência dos pais precisa diminuir para que os adolescentes conectem-se com outros pares, vivam novas relações, diferenciem-se do ambiente familiar e descubram sua identidade na vida adulta.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/clarissegrand/">Clarisse Grand Court – Analista Junguiana em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Referências:&nbsp;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">HOLLIS, James. A passagem do Meio: da miséria ao significado da meia idade. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; O desenvolvimento da personalidade. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2021b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">_____, Carl Gustav.&nbsp; O eu e o inconsciente. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">NEUMANN, Erich. A Criança: Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação. 10.ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Obradović, Jelena. Supporting Children’s School Readiness. IN: Stanford University. <a href="https://bingschool.stanford.edu/news/supporting-childrens-school-readiness-jelena-obradovic">https://bingschool.stanford.edu/news/supporting-childrens-school-readiness-jelena-obradovic</a> . Acesso em 28 de abril de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">TEPPER, Deana L.; HOWELL,Tiffani; BENNETT, Pauleen.(2022). Executive functions and household chores: Does engagement in chores predict children&#8217;s cognition? In: Australian Occupational Therapy Journal. <a href="https://www.researchgate.net/publication/360998732_Executive_functions_and_household_chores_Does_engagement_in_chores_predict_children's_cognition">https://www.researchgate.net/publication/360998732_Executive_functions_and_household_chores_Does_engagement_in_chores_predict_children&#8217;s_cognition</a> . Acesso em 28 de abril de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong>Conheça nossos cursos, congressos e pós-graduações</strong>: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br </a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Um olhar Junguiano para a Inclusão: Integração, Sombra e Singularidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-olhar-junguiano-para-a-inclusao-integracao-sombra-e-singularidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Dec 2024 15:20:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A inclusão é o tema de muitas discussões na contemporaneidade, abordando a necessidade de acolher a diversidade humana e promover equidade. Iniciei minha trajetória profissional dentro da Educação e assim percorri esse caminho durante 33 anos da minha vida, professora de séries iniciais e alfabetizadora com muito orgulho. Durante essa jornada, me deparei com alguns [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/um-olhar-junguiano-para-a-inclusao-integracao-sombra-e-singularidade/">Um olhar Junguiano para a Inclusão: Integração, Sombra e Singularidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A inclusão é o tema de muitas discussões na contemporaneidade, abordando a necessidade de acolher a diversidade humana e promover equidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Iniciei minha trajetória profissional dentro da Educação e assim percorri esse caminho durante 33 anos da minha vida, professora de séries iniciais e alfabetizadora com muito orgulho. Durante essa jornada, me deparei com alguns casos de inclusão, inclusive foi o que me motivou a cursar a psicopedagogia para entender como funcionava a “mente’ dessas crianças com TDAH, DISLEXIA, TOD, depressão e ansiedade infantil e nos últimos anos de sala de aula, TEA. Sim, entender como eles processam as informações e como veem o mundo que, com certeza, não é igual a mim ou de muitos de vocês.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-afinal-o-que-e-inclusao" style="font-size:19px">Afinal, o que é inclusão?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">O pesquisador Romeu Kasumi Sassaki (2002) conceitua “inclusão social” como o processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente, estas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. A “inclusão social” constitui, então, um processo bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas, e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidade para todos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-trouxe-algo-sobre-a-inclusao" style="font-size:19px">Jung nos trouxe algo sobre a inclusão?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Ele nos trouxe uma visão muito profunda da psique humana onde os conceitos de individuação, arquétipos, inconsciente individual e coletivo, sombra, anima e animus são primordiais. E, sob a ótica da Psicologia Analítica, a inclusão pode ser entendida tanto como um processo externo como interno, relacionado a integração da sombra e à incessante busca pela luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Neste artigo, pretendo olhar alguns <strong>conceitos junguianos</strong> como ferramentas para que possamos enriquecer a compreensão da inclusão. Ampliando seu significado para além do âmbito social e político.  </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Até a segunda metade do séc. XX não havia sequer a distinção entre as categorizadas “Doenças mentais”. As famosas <strong>salas especiais</strong> eram designadas a surdos e cegos de elite burguesa, outros encaminhados para hospícios ou asilos correcionais. Segundo <strong>Sá</strong> (2009, p.26) “<em>A denominada Educação Inclusiva nasceu nos Estados Unidos, pelas mãos da Lei Pública 94.142, de 1975</em>”, dando início a projetos voltados para efetivar a Educação Inclusiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5"><strong>Minetto</strong> (2010 p. 46) discorre que a luta pela inserção e normalização das pessoas com necessidades especiais fortaleceu-se no século XX através do movimento denominado de “Paradigma da Integração”, que defendia o direito do aluno com necessidades educacionais especiais (ANEE) se matricular na escola regular, desde que ele se adaptasse as condições e estrutura da escola, ou seja, a instituição escolar continuava rígida e ilesa. Tanto o ambiente como a metodologia permaneciam intactos, os alunos com necessidades especiais que deveriam se adequar e enfrentar os seus próprios desafios.  Desde o ocorrido será que o nosso Sistema Educacional vigente mudou muito?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fortalecimento-da-luta-pelos-direitos-vem-se-intensificando-novos-pontos-de-vista-vem-sendo-discutidos-e-desenvolvidos-porem-ainda-ha-muita-discrepancia-entre-conceitos-e-praticas" style="font-size:18px">O fortalecimento da luta pelos direitos vem se intensificando, novos pontos de vista vêm sendo discutidos e desenvolvidos, porém ainda há muita discrepância entre conceitos e práticas!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Enfim, a legislação voltada à educação inclusiva vem se modificando lentamente ao longo dos anos. De modo que percebemos algumas mudanças e movimentos sociais que defendem o direito desses cidadãos. Antigamente eles eram exilados e colocados em lugares distantes, aos poucos um movimento de integração vem ocorrendo e trazendo o direito a participação dessas pessoas a sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Inclusão nos coloca num lugar um tanto quanto desafiador, afinal, quando falamos em inclusão falamos em exclusão, como também em integração e desintegração. Do mesmo jeito é capaz de aceitar e integrar, o ser humano também é capaz de rejeitar e desintegrar; de desassociar e praticar uma verdadeira violência com seu semelhante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-que-estamos-falando-que-um-e-a-sombra-do-outro" style="font-size:19px">Será que estamos falando que um é a sombra do outro?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Segundo Jung “<strong>sombra é a parte negativa da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal</strong>.” (JUNG, 2007b, p.58)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-acreditava-que-todos-tem-uma-sombra-que-ela-e-composta-de-aspectos-reprimidos-ou-negados-da-nossa-personalidade-sendo-assim-qual-seria-a-sombra-da-inclusao-quais-aspectos-sombrios-relevantes-a-serem-levantados-e-desvelados" style="font-size:18px">Jung acreditava que todos têm uma sombra que ela é composta de aspectos reprimidos ou negados da nossa personalidade. Sendo assim qual seria a sombra da inclusão? Quais aspectos sombrios relevantes a serem levantados e desvelados?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Talvez possamos pensar que a dificuldade que encontramos para incluir venha da nossa não aceitação de tudo que nos é sombrio, ou talvez da dificuldade de aceitar o diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Jung não discutiu exatamente o conceito de inclusão, porém através de seu pensamento inovador e inclusivo, ele nos traz que&#8230;</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“A inclusão de uma personalidade humana, única (especialmente quando ligada à natureza divina indefinível), corresponde ao individual absoluto do si-mesmo, que liga o único ao eterno e o individual ao mais geral. O si-mesmo é uma união dos opostos.” </p><cite>JUNG,2012, p.31</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Afinal, incluir ou excluir?  Um é o oposto do outro e, ao mesmo tempo que incluímos os <strong>neurodivergentes</strong>, excluímos outras crianças que também tem direitos que, pelo olhar da sociedade, são vistas como “normais”. Que olhar é esse do atual espírito da época?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Estima-se que de 15 a 20% da população mundial seja <strong>neurodivergente.</strong> No Brasil o IBGE pesquisa a <strong>neurodivergência </strong>junto a demais deficiências, totalizando em pesquisa de julho/2023 (PNAD) um total de 18,9 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência (8,9% do total).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“O termo <strong>neurodiversidade </strong>(<em>neurodiversity</em>) foi usado pela primeira vez em 1998 pela jornalista Judy Singer, que cunhou o termo para promover a ideia de que as diferenças neurológicas, como autismo e TDAH, são variações naturais da função cerebral, em oposição a serem vistos como desordens a serem corrigidas.” </p><cite>Reis, Leandro. Neurodiversidade – Olhando o potencial das diferenças como estratégia- disponível em https:&lt;//labnetwork.com.br/notícias.> Acesso em:09/11/2024</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-voces-percebem-o-quanto-o-pensamento-de-jung-e-atual-e-o-quanto-temos-que-olhar-para-essas-pessoas-neurodivergentes-e-valoriza-las-por-seus-feitos-talentos-e-habilidades" style="font-size:18px">Vocês percebem o quanto o pensamento de Jung é atual e o quanto temos que olhar para essas pessoas neurodivergentes e valorizá-las por seus feitos, talentos e habilidades?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Em seu livro, <em>Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo</em> (2018, p.100) Jung menciona que “<strong>O mundo existe porque seus opostos são mantidos em equilíbrio. O racional é contrabalanceado pelo irracional e aquilo que se planeja, pelo que é dado</strong>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A partir disso, talvez, possamos pensar que o equilíbrio que mantem a vida possível está justamente em aceitar a nossa sombra. E, quando falamos do assunto deste artigo, devemos aceitar os neurodivergentes, pois todos temos nossas divergências.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Quando falamos em inclusão temos que olhar também para as famílias desse sujeito, afinal por trás deles existem outras vidas que também merecem ser atendidas. &nbsp;O que existe por trás dessa criança que precisa ser acolhida e inserida em nossa sociedade? Ou melhor “quem” está por trás desses sujeitos?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-tras-desse-sujeito-existe-uma-familia-um-pai-uma-mae-enfim-cuidadores-que-vivem-a-procura-de-um-diagnostico-com-a-esperanca-que-este-seja-a-resolucao-de-todos-os-problemas" style="font-size:18px">Por trás desse sujeito existe uma família, um pai, uma mãe, enfim cuidadores que vivem à procura de um diagnóstico com a esperança que este seja a resolução de todos os problemas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Assisto a muitas famílias que quando chegam à clínica estão desesperançosas, preocupadas e cansadas de diagnósticos infundados ou mesmo a busca de um profissional que lhe diga o que fazer ou resolva de imediato seu problema. Podemos falar até que estão em busca de um milagre, para que assim todas as dificuldades ocorridas ao longo dos anos, sejam resolvidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Difícil e delicada situação, estamos falando sobre os bastidores da inclusão, um campo completamente invisível, onde os impactos são vivenciados por famílias de sujeitos que não são respeitados em suas singularidades. Enfrentam o luto constante e silencioso pela falta de suporte e compreensão do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A imagem de inclusão que é vista por fora é muito diferente daquela que acontece no dia a dia dessas famílias, dentro de suas casas, com seus desafios clínicos e toda a rede de apoio, quando existe. Elas vivem a constante expectativa que alguém os acolha e respeite seus filhos que, muitas vezes ou até a maioria das vezes, são rejeitados pela sociedade, que enfrentam olhares de julgamento e palavras de desrespeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Sem falar de como essa criança se sente ao ouvir e vivenciar toda essa “maratona” em médicos e especialistas. Impactante em seu desenvolvimento emocional? Com certeza<strong>! &nbsp;</strong>O sentimento de inadequação e exclusão está impregnado, tolhemos no sujeito a capacidade de sonhar e desejar!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Na clínica, essas dores emocionais, aparecem em forma de sintomas que vão desde comportamentos desafiadores até dificuldade de relacionamento, depressão ou até mesmo ansiedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-como-devemos-olhar-para-esse-sujeito-sera-que-damos-a-devida-atencao-ou-melhor-sera-que-temos-um-olhar-junguiano-para-as-suas-singularidades" style="font-size:18px">E como devemos olhar para esse sujeito? Será que damos a devida atenção, ou melhor, será que temos um olhar junguiano para as suas singularidades?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Quando digo singularidades não estou me referindo apenas ao sujeito e suas particularidades, mas também a toda sua extensão e inserção no coletivo, na sociedade. Penso que, quanto mais a sociedade mantém as práticas assistencialistas, menos está disposta a se modificar e incluir. Afinal, incluir não está somente na capacidade de adaptação de currículos, provas diferenciadas ou PEI’s, ou até mesmo em seus belos discursos, e sim na sensação de pertencimento e respeito as diferentes formas de se expressar e aprender, seja na escola, na clínica ou em qualquer grupo social.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Em muitas escolas ainda faltam profissionais especializados, suporte aos educadores para que se sintam seguros e consigam trabalhar com a inclusão de maneira sensível frente aos desafios diários. Muitas vezes, esses educadores se sentem cansados, desgastados e desmotivados porque trabalham sozinhos, sem apoio da coordenação ou direção.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-infelizmente-ainda-temos-escolas-que-quando-acolhem-casos-de-inclusao-parecem-que-estao-abrindo-uma-excecao-que-estao-fazendo-um-favor-para-aquela-familia" style="font-size:18px">Infelizmente ainda temos escolas que, quando acolhem casos de inclusão, parecem que estão “abrindo uma exceção”, que estão fazendo “um favor” para aquela família.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Infelizmente, quando trabalham com inclusão em sala de aula, os educadores dependem de diagnósticos que lhes são exigidos. Para que, com base nestes diagnósticos, possam promover atividades adaptadas e um ambiente onde há a realização de uma série de prescrições. Com o objetivo de remediar as suas incapacidades, pensando na melhor estratégia educativa para que possa atender toda essa demanda. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Se é inegável que a transformação da cultura da escola constitui uma peça fundamental no processo inclusivo, também é inegável que tem de haver um esforço concentrador em diferentes níveis do sistema – sala de aula, escola, como também num contexto legislativo, político e social mais amplo, afinal a inclusão exige uma transformação da sociedade. Para se criar um sistema educativo promissor,respeitando as necessidades e diferenças dos educandos, reconhecendo que ninguém é igual a ninguém, somos todos diferentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Enfim, precisamos de um olhar atento para esses pontos essenciais, escola- família- especialistas- sociedade. A importância de todos estarem conectados e em sintonia por um único objetivo, criar uma rede de apoio real e segura para garantir a verdadeira inclusão desse sujeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">E a verdadeira inclusão está em atitudes, em fazer com que esse sujeito se sinta parte integrante dos espaços onde vive, valorizando suas diferenças e que suas necessidades emocionais e de suas famílias, também sejam atendidas. Com empatia e vivacidade convidá-los a entrar num jogo, o jogo da vida, despertar a energia faltante e necessária para a sua própria evolução. Claro que sempre respeitando e valorizando as suas singularidades!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica-a-inclusao-transcende-as-fronteiras-do-social-para-se-tornar-um-processo-psicologico-essencial" style="font-size:18px">Sob a perspectiva da Psicologia Analítica, a inclusão transcende as fronteiras do social para se tornar um processo psicológico essencial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Como mencionado acima, a teoria de Jung nos fala que sem a tensão dos opostos a vida não é possível, é somente através dela, que passamos por um processo de construção, o processo de individuação</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">O <strong>processo de individuação</strong>, um conceito central de Jung, promove a realização do verdadeiro EU, “tornar-se um ser único”. Ajudando as pessoas a integrarem suas várias partes, conscientes e inconscientes, luz e sombra, aceitar, flexibilizar e assim, viver de uma forma autêntica e genuína. Para conseguirmos transformar as instituições e ampliar vários aspectos para que de fato se tornem inclusivas, primeiramente temos que “reformar” as mentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Assim, a verdadeira inclusão começa dentro de cada um de nós, quando reconhecemos e acolhemos as partes de nós mesmos e do mundo, quando navegamos pelos nossos aspectos luz e sombra. Esse processo, embora desafiador, nos aproxima de uma sociedade mais justa e compassiva, na qual a diversidade é celebrada como um reflexo da totalidade do self coletivo. Harmonizar a relação família-escola, propondo uma prática pedagógica coletiva, dinâmica, flexível e singular. Como dizia nosso imemorável <strong>Paulo Freire</strong> (<em>Pedagogia do Oprimido</em>, 1974) “<strong>Ninguém pode ser autenticamente humano, enquanto impede outros de serem também</strong>.”</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Um olhar Junguiano para a Inclusão: Integração, Sombra e Singularidade&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/W8vjigcJJJ0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/elaine-cristina-bedin/"> <strong>Elaine Bedin – Membro Analista em Formação IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"> Dra. E. Simone D. Magaldi &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">Bénard da Costa, A.M. (1998). Projeto &#8220;Escolas inclusivas&#8221;. Inovação, 11(2), 57-85.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">JUNG, C. G. O desenvolvimento da Personalidade.14ª ed. Petrópolis, Vozes,2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">_____, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente.10ª ed. Petrópolis, Vozes, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">_____, Carl Gustav, Psicologia e Alquimia, 6 ed.- Petrópolis, Vozes,2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">_____, Carl Gustav. Arquétipos e o Inconsciente Coletivo- Petrópolis, Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">_____, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2007b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">MINETTO, Maria de Fátima Joaquim ET ALL. /Diversidade na aprendizagem de pessoas portadoras de necessidades especiais. / Maria de Fátima Joaquim Minetto ET ALL – Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">SÁ, Márcia Souto Maior Mourão. Legislações e políticas públicas em Educação Inclusiva. 2ª. Ed. – Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2009</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos.4 ed. Rio de Janeiro: WVA, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">UNESCO (2003). Superar a exclusão através de abordagens inclusivas na educação</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">REIS, Leandro-08/04/2024.Disponível em:<a href="https://labnetwork.com.br/noticias/neurodiversidade-olhando-o-potencial-das-diferencas-como-estrategia/">https://labnetwork.com.br/noticias/neurodiversidade-olhando-o-potencial-das-diferencas-como-estrategia/</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
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		<title>A parentalidade positiva e a sua sombra na contemporaneidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-parentalidade-positiva-e-a-sua-sombra-na-contemporaneidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Nov 2024 14:02:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Burnout]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Somos conduzidos a sermos e a fazermos o melhor em todos os âmbitos da nossa vida pessoal, profissional, escolar, familiar e assim desejamos nos tornar verdadeiras obras-primas. Nessa árdua luta para criar a nossa própria perfeição, esquecemos que somos seres humanos.” WOODMAN, 2002, p.13 Resumo: A busca pela parentalidade perfeita tornou-se uma característica marcante da [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:16px"><blockquote><p><em>“Somos conduzidos a sermos e a fazermos o melhor em todos os âmbitos da nossa vida pessoal, profissional, escolar, familiar e assim desejamos nos tornar verdadeiras obras-primas. Nessa árdua luta para criar a nossa própria perfeição, esquecemos que somos seres humanos.”</em></p><cite><em> </em>WOODMAN, 2002, p.13</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: <em>A busca pela parentalidade perfeita tornou-se uma característica marcante da contemporaneidade, amplificada pelas redes sociais e o padrão de performance estabelecido. Essa pressão constante leva ao esgotamento emocional e físico dos pais e filhos, resultando no fenômeno conhecido como Burnout Parental. Distante dos saberes instintivos e ancestrais, os pais se veem presos a um ideal de perfeição inalcançável, desconsiderando as reais necessidades de seus filhos e de si mesmos. Sob a perspectiva Junguiana, o artigo convida à reflexão sobre as a sombra dessa parentalidade, revelando o impacto psicológico profundo desse padrão idealizado.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-da-perfeicao"><strong>A busca da perfeição</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A rotina de muitas famílias parece ter se tornado uma grande maratona sem direito a medalha no final do dia. É preciso acompanhar de perto todas as tarefas escolares e extracurriculares dos filhos, dar conta do trabalho e, de forma alguma, demonstrar que os filhos “roubam” o tempo dedicado à vida profissional. Criar crianças super bem-educadas, excelentes alunos e autorregulados emocionalmente. Enquanto tudo isso acontece, os pais e mães devem ressignificar toda criação que recebeu e aplicar, sem direito a erro, novas metodologias baseadas no repertório emocional que adquiriu há menos tempo do que se torno pai ou mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A busca pela parentalidade perfeita tornou-se um sintoma que evidencia o peso e a expectativa gerada sobre a criação de filhos na contemporaneidade, trazendo impactos negativos aos pais e às crianças</strong>. Trata-se de uma meta de performance inatingível e cruel para toda a família, uma vez que a perfeição é algo sempre imaginal e muito distante do real.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abandonamos os saberes ancestrais, transgeracionais e instintivos sobre o cuidar, o nutrir e o acolher – ligados ao complexo materno presente no inconsciente coletivo &#8211; e passamos a adotar fórmulas, dicas e regras difundidas nas redes sociais por “influenciadores digitais” totalmente alheios à realidade social, econômica e psíquica vivida na intimidade de cada família. Perdemos a rede de apoio familiar e comunitária e, com isso, acreditamos não saber mais maternar e paternar, que é proporcionar à criança &#8211; com afeto e presença &#8211; o desenvolvimento de todo o seu potencial psíquico, físico e emocional. Aspectos que nada tem a ver com performance.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assumimos-novas-demandas-impostas-por-uma-sociedade-que-acredita-na-formula-certa-para-a-construcao-da-familia-perfeita" style="font-size:17px">Assumimos novas demandas impostas por uma sociedade que acredita na fórmula certa para a construção da <strong>família perfeita</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O resultado dessa pressão é um estresse crônico, aliado à uma sensação de fracasso, impotência e exaustão, que já conhecemos pelo nome de Burnout. Porém agora, estamos falando do <strong>Burnout Parental</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estudo “O poder da parentalidade positiva: evidências para ajudar os pais e seus filhos a prosperarem” (tradução livre), desenvolvido pela Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, em 2023, apresenta dados alarmantes sobre o adoecimento dos pais que não conseguem alcançar o ideal da família feliz pautado por padrões irreais e distorcidos sobre o que é parentalidade e, mais especificamente, <strong>parentalidade positiva</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O material divulgado menciona que cerca de 60% dos pais entrevistados relatam estarem com Burnout. Sentem que não são bons pais e mães. Quando se dedicam ao trabalho, acreditam que falham no cuidado com os filhos, e, quando dedicam tempo aos filhos, sentem que precisam exaustivamente compensar essas horas de trabalho. As expectativas que têm de si e de seus filhos são muito mais altas do que de fato é possível ser e fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda de acordo com o estudo, o padrão de <strong>parentalidade positiva </strong>pressupõe, no <strong>imaginário coletivo</strong>, pais que são modelos de paciência e calma, cujos filhos são sempre bem-comportados e respeitáveis. Havendo, portanto, no ideal coletivo, uma associação intrínseca entre os conceitos de <strong>parentalidade positiva</strong> e <strong>parentalidade perfeita</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-artigo-tecnico-publicado-no-site-news-medical-life-sciences-a-dra-liji-thomas-amplia-o-estudo-americano-e-aponta-o-sentido-real-do-que-seria-a-parentalidade-positiva" style="font-size:17px">No artigo técnico publicado no site <em>News Medical Life Sciences</em>, a Dra. Liji Thomas, amplia o estudo americano e aponta o sentido real do que seria a parentalidade positiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A parentalidade positiva incorpora múltiplos objetivos, o mais importante dos quais é construir um relacionamento de confiança e carinho com os filhos. Comunicação e escuta com respeito à criança são essenciais para isso. Além disso, estabelecer limites, elogiar e recompensar resultados comportamentais desejáveis, e amá-los não importa o que aconteça. O amor, a segurança e o conforto que a criança ganha com esse relacionamento são essenciais para desenvolver uma pessoa emocional e relacional saudável quando adulta. (THOMAS, 2024).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-entanto-na-sociedade-contemporanea-onde-tudo-se-torna-objeto-de-competicao-e-performance-os-conceitos-ganham-novos-sentidos-e-significados" style="font-size:17px">No entanto, na sociedade contemporânea, onde tudo se torna objeto de competição e performance, os conceitos ganham novos sentidos e significados.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva Junguiana, podemos ampliar para a unilateralização desse ideal de comportamento parental, onde não cabem erros, frustrações, medos e muito menos uma curva de aprendizado.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>[&#8230;] estamos tão ocupados em afazeres e metas a alcançar que perdemos o contato com a nossa vida interior, com essa vida que confere significado e símbolos e, por outro lado, cria os símbolos que dão sentido à vida. [&#8230;]. Nunca antes estivemos tão distantes da sabedoria da natureza e de nossos instintos. </p><cite>JUNG apud Woodman, 2002, p. 27</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-parentalidade-contemporanea-e-o-papel-das-redes-sociais"><strong>Parentalidade Contemporânea e o Papel das Redes Sociais</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A parentalidade traz o início de uma transição, ou seja, uma nova fase de incertezas e mudanças sem um destino certo. Nessa era digital, onde a rede social dita as “regras”, os conhecimentos se tornam incertos e superficiais. Como muito bem analisou Zygmunt Bauman ao longo de anos de estudos sobre a sociedade pós-moderna e suas relações superficiais e líquidas, são tempos de medo, insegurança e, portanto, de muita negatividade. “Há uma propensão natural a negar o que se teme muito e o que não se sabe resolver”. (BAUMAN apud ABRANCHES, 2017, p. 29). E o que o filósofo chama de negatividade, faço um paralelo com o que Jung denominou Sombra.&nbsp; Aquilo em nós que desconhecemos, tememos ou negamos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>[&#8230;] sombra, aquela personalidade oculta, recalcada, frequentemente inferior e carregada de culpas, cujas ramificações se estendem até o reino de nossos ancestrais.   A sombra não é constituída apenas de tendências moralmente repreensíveis, mas apresenta um certo número de boas qualidades: instintos normais, reações adequadas, impulsos criadores, e outros. </p><cite>JUNG, 2020, p. 312-13</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra vem à tona, muitas vezes, com uma convocação moral, uma atitude compensatória do ego. Nesse sentido, entendo que o <strong>Burnout Parental</strong> é um sintoma contemporâneo manifestado por essa sombra coletiva da performance, da <strong>parentalidade perfeita</strong> e desconectada com a real necessidade desses pais e crianças em sua singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o filósofo contemporâneo <strong>Byung-Chul Han</strong>, tudo virou trabalho, produtividade e performance. Entendo que até a parentalidade embarcou nesse <em>modus operandi</em>. <strong>Perdeu-se a alma e o sentido. Entrou em cena a parentalidade pautada por metas e que busca resultados</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-causa-a-depressao-do-esgotamento-nao-e-o-imperativo-de-obedecer-apenas-a-si-mesmo-mas-a-pressao-do-desempenho" style="font-size:17px">O que causa a depressão do esgotamento não é o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressão do desempenho.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Visto a partir daqui, a Síndrome de Burnout não expressa o si-mesmo esgotado, mas antes a alma consumida. [&#8230;]. O que torna doente, na realidade, não é excesso de responsabilidade e iniciativa, mas o imperativo do desempenho como um novo mandato da sociedade pós-moderna do trabalho. (2021a, p. 27).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se tememos o desconhecido, não entramos em contato com saberes primordiais que “aprendemos” a negar. O resultado é uma sociedade desconectada com o si-mesmo mas hiperconectada com a materialidade, a racionalidade e a performance. Pais e filhos que seguem cartilhas irreais e surreais de padrões inatingíveis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-natureza-instintiva-e-o-guia-que-nos-conduz-a-nos-reconectarmos-com-o-nosso-ritmo-interno-nossas-necessidades-nossa-intuicao-cuidadora-e-protetora-ou-seja-o-nosso-ciclo-vital" style="font-size:17px">A natureza instintiva é o guia que nos conduz a nos reconectarmos com o nosso ritmo interno, nossas necessidades, nossa intuição cuidadora e protetora, ou seja, o nosso ciclo vital.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O instinto são, entretanto, fatores impessoais, universalmente difundidos e hereditários, de caráter mobilizador, que muitas vezes se encontram afastados do limiar da consciência [&#8230;]. [&#8230;] são forças motrizes especificamente formadas, que perseguem suas metas inerentes antes de toda conscientização, independente do grau de consciência. (JUNG, 2021b, p. 52-53).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez não exista nada na nossa experiência ontogenética que nos permita responder aos desafios experienciados na parentalidade de forma prévia. E é esse desconhecido que nos faz buscar respostas ou referências externas, sujeitos a pressões sociais em busca do sucesso parental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O largo número de perfis nas redes sociais voltados para a parentalidade, isso inclui influenciadores e anônimos digitais que disseminam conceitos, sugestões e vivências sobre maternidade, paternidade e ambos, reforça o importante papel que as redes têm sobre a construção do “ideal” de parentalidade no século XXI. De acordo com relatórios do projeto social: <em>We are Social</em> em parceria com o <em>Hootsuite</em>, em 2022, no Brasil eram 150 milhões de usuários com perfis ativos em redes sociais &#8211; um dos maiores percentuais do mundo &#8211; sendo 130 milhões no Facebook e 69 milhões no Instagram. Já de acordo com a plataforma Shopify, no mesmo ano, o TikTok chegou à marca de 1,7 bilhão de usuários, sendo 98,6% ativos no Brasil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-entanto-o-que-ha-em-comum-entre-esses-perfis-parentais-e-a-revelacao-de-uma-parentalidade-cansativa-e-estressante" style="font-size:17px">No entanto, o que há em comum entre esses perfis parentais é a revelação de uma parentalidade cansativa e estressante.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“[&#8230;] nas performances realizadas em plataformas digitais, diferentes indivíduos constroem suas identidades na interseção com a figura e as ações de outros indivíduos que com eles interagem, criando laços e valores sociais.” </p><cite>SOUZA, 2022, p.40</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Percebemos então que existe nesse ambiente digital, ora implícita ora explicitamente, um <em>modus operandi</em> de <strong>parentalidade</strong>. Ou como Jung aponta, uma persona idealizada: a persona de pais e mães perfeitos e filhos mais que perfeitos, resultantes de uma <strong>parentalidade super perfeita</strong>. Uma identificação total, onde pais e mães incorporam, sem qualquer crítica ou reflexão, a projeção da perfeição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, Jung sugere que os instintos perseguem suas metas. Ou seja, podemos nos conectar as nossas experiências filogenéticas, aos saberes primordiais e instintivos, encontrando mais e melhores respostas do que a larga rede social e toda a inteligência artificial são capazes de responder. Precisamos trabalhar a favor da diferenciação, desenvolvendo conteúdos inconscientes e sombrios e retirando o ego do padrão defensivo e autômato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa jornada pela parentalidade perfeita esbarramos em outra dualidade: <strong>Mimar ou não mimar os filhos, eis a questão!</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-amor-incondicional-x-pacto-de-amor"><strong>O Amor Incondicional X Pacto de Amor</strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Vivemos a era do hedonismo, um imperativo ao prazer e aos desejos. Nesse tempo, não cabem perder, gerar frustrações, angústias ou sentimentos de fracasso.” </p><cite>SOUZA, 2022, p. 222</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Um padrão de comportamento transferido para as crianças que precisam ser atendidas não em suas necessidades vitais, psíquicas ou afetivas, mas em seus caprichos vazios de afeto e responsabilidades. Algo que a psicanalista Marcia Neder denominou como <strong>infantolatria</strong>, o culto à criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cultura ocidental, a partir de um determinado momento, transformou a criança em uma divindade, um ser divino. [&#8230;]. A partir do século XIX, houve uma grande mudança na imagem do filho, da mãe e do pai. Em vez de organizada pelo poder do pai, a família passou a ser organizada pelo amor à criança. [&#8230;]. Quem perdeu o poder foi o adulto e quem ganhou o poder foi a criança, e ganhou porque nós demos esse poder a ela. (NEDER apud SOUZA, 2022, p.120).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-por-que-sera-que-o-ideal-de-criancas-sempre-bem-educadas-que-a-parentalidade-positiva-sugere-resultou-em-uma-realidade-de-criancas-mimadas-e-pais-esgotados" style="font-size:17px"><strong>E por que será que o ideal de crianças sempre bem-educadas que a parentalidade positiva sugere, resultou em uma realidade de crianças mimadas e pais esgotados?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A falta de referenciais positivos e acolhedores, sejam eles internos ou externos, nos empurrou para o medo. O medo de falhar, o medo de “não dar conta”, o medo de perder o amor dos filhos. Uma atitude compensatória de uma geração que foi para o mercado de trabalho e terceirizou a criação das crianças e agora busca equilibrar essa equação, mas sem renunciar à alta performance em nenhum âmbito da vida, seja pessoal ou profissional. Parece que o resultado é uma parentalidade insegura, polarizada e adoecida. Saímos da relação autoritária e dominadora entre pais e filhos para a relação permissiva e passiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Confundimos amar com mimar</strong>. Mas não o mimar necessário na relação primal positiva na primeira fase da vida, essa que é sinônimo de um eixo ego-Self saudável. Adotamos o mimar que atende aos caprichos e vontades, ultrapassa limites físicos, psíquicos e emocionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>NEUMANN</strong>, é preciso saber diferenciar o mimar “verdadeiro” do “falso”, da mãe-bruxa que atrai a criança a sua casa de chocolate. “Mimar [&#8230;] não produz distúrbios sérios, <strong>até tornar-se necessário</strong> para a criança afrouxar os laços com a mãe, e esse processo é impedido ou prevenido pelo fato de a mãe ter mimado o filho” (1995, p. 54. Grifos meus). Nesse caso, o mimo não saudável irá gerar um processo de dependência e co-dependência e que irá afetar diretamente o desenvolvimento da criança, mas também a autoridade e liberdade dos pais. Vale ressaltar que podemos tranquilamente ampliar esse conceito que o Neumann designa à mãe para todos que exercem a <strong>parentalidade</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-mimar-contemporaneo-que-ultrapassa-a-primeira-infancia-priva-as-criancas-de-se-desenvolverem-a-partir-de-inibicoes-contradicoes-e-frustracoes" style="font-size:18px"><strong>Esse mimar contemporâneo, que ultrapassa a primeira infância, priva as crianças de se desenvolverem a partir de inibições, contradições e frustrações</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma dinâmica que será fundamental para que no futuro esses indivíduos sejam capazes de suportar a tensão psíquica entre o consciente e o inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“A capacidade de uma criança aceitar restrições com relativa facilidade depende de uma capacidade de se integrar, de formar um ego integral e um eixo ego-Self positivo.” </p><cite>NEUMANN, 2021, p. 57-58.</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-a-base-da-criacao-devesse-estar-mais-associada-a-confianca-ao-afeto-e-a-seguranca-que-a-parentalidade-pode-e-deve-dar-a-crianca" style="font-size:17px">Talvez a base da criação devesse estar mais associada à confiança, ao afeto e à segurança que a parentalidade pode e deve dar à criança.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que a criança precisa se tornar um ser autônomo no futuro. O desejo dos pais e das mães em suprirem todas as necessidades de seus filhos, de nunca falharem, de serem onipresentes e onipotentes, é tão fantasioso e infantil quanto o de se atingir a meta da <strong>parentalidade perfeita</strong>. E essa neurose é compartilhada entre pais, mães e filhos, como bem explica Jung, “a criança se encontra de tal modo ligada e unida à atitude psíquica dos pais, que não é de causar espanto se a maioria das perturbações nervosas verificadas na infância devam sua origem a algo de perturbado na atmosfera psíquica dos pais” (2021b p. 48).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, olhar para a sombra dessa <strong>parentalidade perfeita</strong> é uma tentativa de dar luz a esse sofrimento psíquico que evidencia uma atitude neurótica da contemporaneidade. Uma exacerbação desse padrão performático e idealizado que tem se espalhado por todos os âmbitos da vida humana, infelizmente até mesmo no que se refere ao desenvolvimento psíquico, físico e emocional das crianças.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A parentalidade positiva e a sua sombra na contemporaneidade&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/IeoiciWwi3g?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/clarissegrand/">Clarisse Grand Court – Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">ABRANCHES, Sergio. A Era do Imprevisto: a grande transição do século XIX. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">GAWLIK, Kate; MELNYK, Bernadette Mazurek. The Ohio State University. The Power of Positive Parenting: Evidence to help parents and their children thrive. 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; Aion: estudo sobre simbolismo do Si-mesmo. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">_____, Carl Gustav.&nbsp; Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. 12.ed. Petrópolis: Vozes, 2021a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">_____, Carl Gustav.&nbsp; O desenvolvimento da personalidade. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2021b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">NEUMANN, Erich. A Criança: Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação. 10.ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">THOMAS, Liji. (2024). Study finds pressure to be “perfect” leads to unhealthy impacts on both parents and their children. In: News Medical Life Sciences. Disponível em. <a href="https://www.news-medical.net/news/20240510/Study-finds-pressure-to-be-e2809cperfecte2809d-leads-to-unhealthy-impacts-on-both-parents-and-their-children.aspx">https://www.news-medical.net/news/20240510/Study-finds-pressure-to-be-e2809cperfecte2809d-leads-to-unhealthy-impacts-on-both-parents-and-their-children.aspx</a> &nbsp;&nbsp;Acesso em 20 de outubro de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">WOODMAN, Marion. O Vício da Perfeição: Compreendendo a relação entre distúrbios alimentares e desenvolvimentos psíquicos. São Paulo: Summus. 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">TikTok no Brasil: estatísticas e dicas (2024). Disponível em <a href="https://www.shopify.com/br/blog/tiktok-brasil">https://www.shopify.com/br/blog/tiktok-brasil</a>&nbsp; . Acesso em 20 de outubro de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">SOUZA, Ana Luiza de Figueiredo. Ser mãe é f@oda: mulheres, (não maternidade) e mídias sociais. Porto Alegre: Zouk. 2022.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e&nbsp;<strong>Pós-Graduações</strong>&nbsp;com&nbsp;<strong>Matrículas Abertas</strong>:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicossomática</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Promoção especial para o próximo semestre&nbsp;</strong>(março/abril 2025):</p>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A proeza de ser Independente: filhos criados sob o narcisismo dos pais</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/narciso-e-o-narcisismo-dos-pais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Moura Vernalha]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Jul 2023 10:17:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[abuso familiar]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[dependência emocional]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[narcisismo]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos familiares]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A proeza de ser independente – filhos criados sob o narcisismo dos pais</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O narcisismo dos pais é algo desafiador a se lidar. A tarefa de criar filhos ultrapassa as margens de condições ideais e necessárias para o desenvolvimento saudável</em>, <em>passando pela construção de uma educação ancorada em valores</em>. <em>Visando superar obstáculos sombrios e obscuros</em>, <em>que habitam o mais profundo em cada um de nós. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os pais desempenham um papel crucial na formação da personalidade dos filhos. Quando estes pais encontram dificuldades para lidar com seus próprios aspectos negativos, podem desenvolver uma conexão distorcida com a criança no exercício da parentalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-artigo-tem-como-alvo-uma-tentativa-de-explorar-brevemente-questoes-voltadas-as-dificuldades-encontradas-pelos-filhos-filhos-estes-que-apesar-da-responsabilidade-e-ate-mesmo-da-maioridade-podem-se-perder-ao-encontro-da-autonomia-e-seguranca-que-pede-a-vida-adulta" style="font-size:16px"><strong>Este artigo tem como alvo uma tentativa de explorar, brevemente, questões voltadas às dificuldades encontradas pelos filhos</strong>. Filhos estes que, <strong>apesar da responsabilidade e até mesmo da maioridade, podem se perder ao encontro da autonomia e segurança que pede a vida adulta.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O que nos parece ser uma questão voltada a uma dinâmica disfuncional parental no relacionamento com os filhos. Tornando, assim, o alcance da maturidade algo bem distante. Ou seja, esta relação pode estar baseada não somente no autovalor que constituí o individuo – o qual poderíamos chamar de condição narcísica natural, mas também como infortúnio nesse relacionamento, levando a prováveis danos futuros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-a-personalidade-vai-se-desenvolvendo-ao-longo-da-vida-para-se-constituir-plenamente-na-maturidade-1910" style="font-size:16px">Segundo <strong>Jung</strong>, a personalidade vai se desenvolvendo ao longo da vida, para se constituir plenamente na maturidade (1910).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para o autor, os temas juvenis se iniciam logo após a puberdade até aproximadamente trinta e cinco anos. Não há aqui o objetivo de discorrer sobre a patologia do transtorno narcisista de personalidade. Nem tampouco fazer dos pais os culpados pelas dificuldades que muitos filhos se deparam no enfrentamento da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais importante aqui seria farejar a medida certa neste relacionamento, união e diferenciação familiar. Pois, as figuras paternas podem tanto promover o “voo” de seus filhos, lançando-os na vida, como podem criar laços onde os mesmos permanecerão atados. O termo “<strong>narcisismo</strong>” não foi muito usado por Jung. O termo é encontrado somente quatro vezes em sua obra, sendo que três dessas citações são usadas como referência crítica à obra de Freud (JUNG, 2011b, p. 482). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conceito-comum-do-narcisismo-que-ha-muito-ocupa-a-atencao-humana-e-a-auto-adoracao-extrema-que-vem-acompanhada-de-uma-indiferenca-que-nega-a-necessidade-de-outra-pessoa-schwartz-1982" style="font-size:17px">O conceito comum do narcisismo que há muito ocupa a atenção humana, é a auto <strong>adoração extrema</strong>, que vem acompanhada de uma indiferença que nega a necessidade de outra pessoa (SCHWARTZ, 1982).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra faz referência a um mito. O mito de Narciso e Eco foi narrado pelo poeta Ovídio em <em>Metamorfoses</em>, uma de suas obras mais famosas. Segundo o mito, Narciso era belo e vaidoso. Quando nasceu, um dos oráculos chamado Tirésias disse que ele seria muito atraente e que teria vida longa, desde que não conhecesse a si próprio. Entretanto, não deveria admirar sua própria beleza, uma vez que isso amaldiçoaria sua vida. Quando adulto, atraia olhares de muitas pessoas, mas desprezava a todas. Uma das ninfas chamada Eco, apaixonou-se loucamente por Narciso, mas fora rejeitada por ele. A deusa Nêmesis é quem auxilia na vingança. Eco atraiu Narciso para uma fonte que ao se debruçar sobre as águas enxerga sua própria imagem e se encanta por ela. Morre fascinado por si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-da-relacao-eu-outro-que-trata-o-mito-de-narciso-existindo-esse-outro-dentro-ou-fora-de-nos" style="font-size:18px">É da relação eu-outro que trata o mito de Narciso, existindo esse outro, dentro ou fora de nós.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A maneira que lidamos ao longo da vida com esses outros externos e internos originaram inúmeras concepções sobre o narcisismo</strong> (RUBINI, 2020). Pensando na questão de Narciso e alguns padrões familiares temos que: tanto a relação consigo mesmo quanto com o outro podem levar ao sofrimento e consequências indesejáveis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-na-consciencia-se-vive-uma-realidade-unilateralizada-ou-seja-rigida-e-inflexivel-tal-como-narciso-corre-se-o-risco-de-morrer-sem-contemplar-a-entrega-para-a-vida" style="font-size:17px"><strong>Quando na consciência se vive uma realidade unilateralizada, ou seja, rígida e inflexível tal como Narciso, corre-se o risco de morrer sem contemplar à entrega para a vida</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Chama atenção a <strong>inflexibilidade</strong> que aparece em muitas dinâmicas familiares, quando o comportamento adotado por elas enaltece uma união de modo marcado e unilateralizado. O que gera um campo de força fechado e rígido &#8211; que esconde, por trás de sentimentos como amor e proteção, um egoísmo e, ao que parece, um sistema muito confortável de prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta dinâmica os fatores externos podem ficar sob o jugo de uma realidade psíquica muito inflexível. Neste terreno, as portas podem estar fechadas para todo tipo de diversidade e complexidade, apoiados até mesmo em verdades únicas, distanciando-se mais e mais da alteridade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-medo-pode-ser-uma-questao-importante-neste-ambito-familiar-e-os-integrantes-contagiados-em-maior-ou-menor-grau-tudo-aquilo-que-e-novo-deve-ser-evitado-no-primeiro-momento-ou-vivenciado-sempre-com-muita-cautela" style="font-size:17px"><strong>O medo pode ser uma questão importante neste âmbito familiar e os integrantes contagiados em maior ou menor grau</strong>. Tudo aquilo que é novo deve ser evitado no primeiro momento ou vivenciado sempre com muita cautela.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Além do medo, outra situação relevante seria a dificuldade que estes filhos podem encontrar em vivenciar plenamente suas experiências e aspirações. Pois podem ser “convidados” a testemunhar de muito perto a vida dos pais, participando sempre de todos os conflitos em questão.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:21px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">[&#8230;] <em>Cada um logo compreende aquilo que conseguimos controlar mais ou menos, isto é, a consciência e seu conteúdo, é, no entanto, apesar de todo nosso esforço, ineficiente quando comparado com os efeitos incontroláveis do fundo psíquico. Como então se poderá proteger as crianças contra os efeitos provenientes de si próprio, quando falha tanto a vontade consciente como o esforço consciente? Indubitavelmente será de grande utilidade para os pais saberem considerar os sintomas de seu filho à luz dos seus próprios problemas e conflitos. É dever dos pais proceder assim.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px"><em>Neste particular, a responsabilidade dos pais se estende até onde eles tem o poder de ordenar a própria vida de tal maneira que ela não represente nenhum dano para os filhos. Em geral se acentua muito pouco quão importante é para a criança a vida que os pais levam, pois o que atua sobre a criança são os fatos e não as palavras. Por isso deverão os pais estar sempre conscientes de que eles próprios, em determinados casos, constituem a fonte primária e principal para as neuroses de seus filhos </em></p>
<cite>JUNG,1981, § 84</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Quando se chega à vida adulta espera-se que o indivíduo tenha condições de iniciar o rumo de sua jornada, mesmo que esta ainda não pareça assim tão evidente. Que consiga discernir entre o que não lhe chama atenção de outros interesses. Que possa farejar seus medos e limitações para poder trabalhar em prol de seu desenvolvimento. Manejando a cada fase, a função judicativa da consciência, para benefício de seu processo de diferenciação dos padrões familiares impostos e até mesmo os sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-termos-de-comportamento-e-atitudes-e-muito-comum-que-estes-pais-idealizem-os-filhos-de-acordo-com-suas-expectativas" style="font-size:16px">Em termos de comportamento e atitudes é muito comum que estes pais idealizem os filhos de acordo com suas expectativas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">Estes pais podem se tornar extremamente protetores, inviabilizando fases de descoberta através do abuso de poder ou até mesmo usando do medo e/ou chantagem emocional. Por outro lado, todos estes comportamentos podem ser muito sutis. Desde violação dos limites de privacidade, passando pelo controle das escolhas dos filhos, falta de empatia, exigência constante de atenção e também manipulação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De um modo extremo, podemos ainda falar sobre a demonstração de <strong>inveja</strong> frente às conquistas dos filhos. Com atitudes de boicote e falta de encorajamento; críticas em excesso e dificuldades para elogiar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-calligaris-1996-ha-um-esforco-por-parte-do-individuo-na-satisfacao-do-outro-principalmente-os-pais-com-sua-imagem" style="font-size:18px">Para <strong>CALLIGARIS</strong> (1996) há um esforço por parte do indivíduo na satisfação do outro – principalmente os pais, com sua imagem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De certa forma, os filhos podem desenvolver a tendência de sentirem-se culpados por não serem bons o suficiente e tentar a todo custo corresponder às expectativas em troca de admiração, aumentando ainda mais, sentimentos de inferioridade e denegação. Ao invés de olharem para si mesmos podem estar preocupados com seu empenho em balizar o humor dos pais, promovendo alegria e tentando evitar que se sintam frustrados. Aqui podemos encontrar muitas questões ligadas à ansiedade, devido um sentimento de angústia iminente, sempre presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse <strong>excesso de controle</strong> tende a enfraquecer a relação, levando esses filhos a experimentarem altos níveis de carência, vulnerabilidade e dependência emocional e financeira.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>[&#8230;] Via de regra, o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram ( pois se trata de fenômeno psicológico atávico do pecado original). Esta afirmação poderia parecer algo de sumário e artificial sem esta restrição: essa parte da vida a que nos referimos seria aquela que os pais poderiam ter vivido se não a tivessem ocultado mediante subterfúgios mais ou menos gastos. Trata-se pois de uma parte da vida que – numa expressão inequívoca – foi abafada talvez com uma mentira piedosa. É isto que abriga os germes mais virulentos.</em></p>
<cite>JUNG, 1981§ 87</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Em algum momento, até mesmo na ausência dos pais, ao se dar conta do tempo passado, terão que lidar com o susto frente às dificuldades e dar continuidade a um caminho que irão &nbsp;seguir, ainda que sem um planejamento prévio e, contabilizando as inseguranças.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-nocao-ou-senso-de-identidade-nos-leva-a-saber-sobre-nos-mesmos" style="font-size:20px"> A noção ou senso de identidade nos leva, a saber, sobre nós mesmos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando passamos muito tempo voltados ao externo, na tentativa de atender os anseios do outro, incorreremos na falta de nos assistir com legitimidade, revelando prováveis falhas de identidade e pouca ou quase nenhuma intimidade como a esfera inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se falar aqui sobre a questão do sentido junguiano da existência ou ausência do poder orientador do Si- mesmo, que é o único capaz de dar á pessoa um sentido de direção e, em última análise, uma percepção de identidade pessoal (SCHWARTZ, 1982).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o passar do tempo, as ligações parentais vão cedendo espaço a outros tipos de vínculos, tais como sociais, afetivos e profissionais e esta ampliação de apoio emocional é que também vai permitir posteriormente, o processo de individuação, que se inicia na segunda metade da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, espera-se que esses filhos alcancem um desenvolvimento pleno e saudável; que possam usufruir da autonomia que diz respeito à capacidade de se tornar independente, tomar decisões e se responsabilizar por elas. Caminhar na busca de seu verdadeiro” Eu”, integrando na consciência o que estava inconsciente, desenvolvendo suas potencialidades, se tornando único e autêntico.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Apesar de toda a complexidade e possíveis impactos que envolvem o relacionamento entre pais e filhos, a esperança (aquela que não espera passivamente) pode inteirar uma singularidade profunda, muito bem representada pelo” Si- mesmo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/pmoura/">Patrícia Moura Vernalha – Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Diretor e Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>CALLIGARIS, Contardo. “Essas crianças que amamos demais.”In: Crônicas do individualismo cotidiano. São Paulo: Editora Ática, 1996</li>



<li>JUNG, C.G. O desenvolvimento da personalidade. O.C v. 17. Petrópolis: Vozes [1981]</li>



<li>OVÍDIO<em>. Metamorfoses</em>. São Paulo, 2017</li>



<li>RUBINI, Rosana. Feridas psíquicas, Jung e o narcisismo. Junguiana vol.38 n 1 São Paulo jan./jun.2020</li>



<li>SCHARTZ – SALANT, N. Narcisismo e transformação do caráter: a psicologia das desordens do caráter narcisista. Junguianos – cultrix. São Paulo. 1982</li>
</ul>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="A proeza de ser independente – filhos criados sob o narcisismo dos pais #Shorts" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/QbNoaIR0abI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



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<p class="wp-block-paragraph">Confira nossos Congressos Junguianos: <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Pais e Mães entristecidos, filhos adoecidos: A dinâmica oculta na relação entre adultos e crianças</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/pais-e-maes-entristecidos-filhos-adoecidos-a-dinamica-oculta-na-relacao-entre-adultos-e-criancas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Apr 2023 22:22:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Segundo Laura Gutman, as crianças são ‘seres fusionais’, ou seja, que, para serem, precisam entrar em fusão emocional com os outros. Portanto, querendo ou não, reconhecendo ou não, pais e mães mantém uma relação intrínseca, corporal e emocional, com os seus filhos. Desconhecer a relação fusional da figura paterna e materna com a criança, afeta a dinâmica das famílias contemporâneas que não conseguem compreender as necessidades, angústias e carências físicas, emocionais e<br />
espirituais de seus filhos. Neste artigo, convido o leitor a refletir sobre essa relação psíquica oculta e como pais e mães entristecidos e inconscientes sobre seus aspectos<br />
ocultos impactam no desenvolvimento de seus filhos. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">“As crianças são <strong>‘seres fusionais’</strong>, ou seja, que, para serem, precisam entrar em fusão emocional com os outros. Esse ser com o outro é um caminho relativamente longo de construção psíquica em direção ao ‘eu sou’”. (GUTMAN, 2021, p. 24. Grifos da autora). Portanto, querendo ou não, reconhecendo ou não, pais e mães mantém uma relação intrínseca, corporal e emocional, com os seus filhos. Segundo Jung expõe, se a criança está de tal modo ligada à atitude psíquica dos pais, o que importa não são palavras boas e sábias, mas sim como eles agem e a vida real desses pais. (Cf. JUNG, 2021ª, p. 48-49).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Podemos pensar então que, o desconhecimento sobre a <strong>relação fusional</strong> da figura paterna e materna com a criança e sobre a <strong>ligação psíquica familiar</strong>, afeta a dinâmica das famílias contemporâneas. Seja na clínica ou nas relações pessoais, encontramos cada vez mais mães e pais que não conseguem compreender as necessidades, angústias e carências físicas, emocionais e espirituais de seus filhos e, mesmo aqueles que dizem viver num ambiente sem brigas e com afeto, relatam as mesmas questões e desafios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo a autora Gutman, todas as crianças se relacionam fusionalmente e esse processo acontece de forma lenta e gradual. Na fase recém-nascida até cerca de 2 anos, o bebê está fundido com a emoção da mãe ou figura materna, vivendo a relação que chamamos de bebê-mãe. E, à medida que cresce, esse laço vai sendo ampliado para o pai ou figura paterna até chegar nas outras pessoas que fazem parte dessa relação de cuidado, proteção e confiança. &nbsp;“A passagem da fusão à separação requer do ser humano longos 13 ou 14 anos, conforme cada indivíduo” (GUTMAN, 2021, p. 25).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A criança tem uma psicologia singular. Assim como seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que propriamente doença genuína da criança. Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais” (JUNG, 2021, p. 84).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tais esclarecimentos se fazem necessários para que possamos compreender como aspectos ocultos e/ou inconscientes dos pais afetam os filhos. E quando transferimos essa dinâmica psicológica para a nossa sociedade contemporânea onde, de acordo com dados da Organização Nacional de Saúde (OMS), somente no Brasil, cerca de 18,6 milhões de pessoas sofrem de <strong>transtorno de ansiedade</strong> e, segundo a revista Nursing, mais de 50% dos brasileiros afirmam que a sua <strong>saúde mental</strong> piorou nos últimos anos, abrir essa caixa de pandora do inconsciente materno e paterno se torna mais do que urgente. &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uma sociedade doente é capaz de criar crianças felizes?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa é uma pergunta bastante dura para quem, assim como eu, tem filhos. Mas justamente pelo incômodo e até certo pavor que ela causa que é preciso colocá-la na pauta das famílias, das escolas, das empresas e de toda a sociedade. Queremos ter crianças educadas, inteligentes, corajosas, gentis, saudáveis&#8230;, mas será que estamos aptos para favorecer esse desenvolvimento de forma equilibrada e positiva emocionalmente?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A chegada de toda criança traz para seus pais a abertura de um grande portal. Um portal que os leva para um lugar desconhecido, ambíguo e cheio de antinomias. Porém, aqueles que arriscam atravessá-lo, têm a possibilidade de entrar num novo mundo. O mundo do autoconhecimento e, assim, possibilitar as crianças que se liberem das neuroses que rondam o inconsciente de seus cuidadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entender que as crianças são seres fusionais é o caminho para entender a importância do “para que” a criança chora e adoece. Qual o propósito desses sintomas para essa família que sofre junta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, podemos compreender que, enquanto a criança é uma oportunidade no caminho do <strong>autoconhecimento</strong> mais profundo, é também um processo desafiador, que gera muitas angústias, medos e confrontos com as mais profundas convicções. Na verdade, estamos falando sobre o contato direto com a sombra desses pais e mães, ou seja, daqueles aspectos ocultos presentes no inconsciente pessoal e que por uma necessidade adaptativa fomos adormecendo/esquecendo ou não valorizando ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] sombra, aquela personalidade oculta, recalcada, frequentemente inferior e carregadas de culpas, cujas ramificações se estendem até o reino de nossos ancestrais.&nbsp;&nbsp; A sombra não é constituída apenas de tendências moralmente repreensíveis, mas apresenta um certo número de boas qualidades: instintos normais, reações adequadas, impulsos criadores, e outros”. (JUNG, 2020, p. 312-13).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entrar em contato com a sombra é ampliar a consciência sobre si mesmo e, querendo ou não, somos compostos de aspectos positivos e negativos, bons e maus, bonitos e feios e todas as dualidades que cabem em qualquer ser humano. Não à toa, todo processo de autoconhecimento gera crise. Porém, podemos olhar para uma experiência de crise como algo extremamente ruim ou uma possibilidade evolutiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando insistimos em negar a nossa <strong>sombra</strong>, e não seguir no caminho da ampliação da consciência, tais aspectos reaparecem no plano físico. E como diz Gutman (2021, p. 163), “essa materialização inconsciente dos aspectos ocultos de nossa alma se intitula sintoma”. Dentro do ambiente familiar, o <strong>adoecimento da criança</strong>, seja ele físico ou emocional, está diretamente ligado a essa relação fusional e inconsciente da dinâmica psíquica entre pai, mãe e filhos. Por isso, o processo de “cura” do mal-estar dos bebês e das crianças perpassa pela prontidão de seus pais em reconhecer, cuidar e ressignificar a sua parte oculta nessa história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Assim como os adultos precisam da doença para materializar e compreender com maior exatidão seus desequilíbrios, <strong>os bebês e as crianças pequenas também funcionam como espelho da desarmonia dos adultos com os quais estão em fusão</strong>” (GUTMAN, 2021, p. 168-69. Grifos da autora).</p>



<p class="wp-block-paragraph">              Portanto, cuidar das nossas crianças inclui se preocupar com bem-estar delas, suprindo suas necessidades básicas. Mas para além disso, perguntar-se verdadeiramente o que está em desequilíbrio na família e o que não está sendo dito, encarado e reconhecido. O sintoma pode ser a possibilidade de nos questionarmos sobre os nossos aspectos inconscientes e buscar colocar luz na nossa escuridão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante disso, como responder à questão: <strong>uma sociedade doente é capaz de criar crianças felizes?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </strong>Talvez não exista uma resposta clara e simples para essa questão. E, de fato, a proposta deste artigo não é trazer uma resposta, mas sim propor uma reflexão sobre o quanto nós, mães e pais, atravessamos o <strong>desenvolvimento psíquico</strong> dos nossos filhos quando estamos inconscientes sobre nós mesmos. Minha singela intenção ao escrever estas linhas não é sentenciar, mas sim, quem sabe, despertar dentro de cada pai e mãe a fagulha para o processo de autoconhecimento. Por mais angustiante e perturbador que possa ser reconhecer o desconhecido em si, somente quando nos tornamos conscientes sobre quem de fato somos é que temos a possibilidade de transformar. Portanto, ao invés de dar uma resposta, gostaria de propor um novo questionamento: <strong>vamos criar filhos felizes ou filhos com coragem para viver?!</strong> &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Clarisse Grand Court – Analista Junguiana em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista didata.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">ANDRADE, Jéssica. Mommy Burnout: conheça a síndrome do esgotamento mental materno. Correio Brasiliense. 2022. <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2022/04/4999262-mommy-burnout-conheca-a-sindrome-do-esgotamento-mental-materno.html">https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2022/04/4999262-mommy-burnout-conheca-a-sindrome-do-esgotamento-mental-materno.html</a>. Acesso em: 18 agosto de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Revista Nursing. Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a OMS. <a href="http://www.revistanursing.com.br/brasil-e-o-pais-mais-ansioso-do-mundo-segundo-oms/#:~:text=Dados%20da%20Organiza%C3%A7%C3%A3o%20Mundial%20de,no%20topo%20do%20ranking%20mundial">http://www.revistanursing.com.br/brasil-e-o-pais-mais-ansioso-do-mundo-segundo-oms/#:~:text=Dados%20da%20Organiza%C3%A7%C3%A3o%20Mundial%20de,no%20topo%20do%20ranking%20mundial</a>. Acesso em: 22 novembro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Site PEBMED. Saúde mental de 53% dos brasileiros piorou entre 2020 e 2021, aponta estud.o <a href="https://pebmed.com.br/saude-mental-de-53-dos-brasileiros-piorou-entre-2020-e-2021-aponta-estudo/#:~:text=Mais%20de%2050%25%20dos%20brasileiros%20afirmaram%20que%20sua%20sa%C3%BAde%20emocional,74%20anos%2C%20de%20forma%20online">https://pebmed.com.br/saude-mental-de-53-dos-brasileiros-piorou-entre-2020-e-2021-aponta-estudo/#:~:text=Mais%20de%2050%25%20dos%20brasileiros%20afirmaram%20que%20sua%20sa%C3%BAde%20emocional,74%20anos%2C%20de%20forma%20online</a>. Acesso em: 22 novembro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUTMAN, Laura <em>A maternidade e encontro com a própria sombra</em>. 21.ed. Rio de Janeiro: BestSeller, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUTMAN, Laura <em>O poder do discurso materno</em>. 5.ed. São Paulo: Ágora, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; Aion: ESTUDO SOBRE SIMBOLISMO DO SI-MESMO. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______.&nbsp; O desenvolvimento da personalidade. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2021a.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Pais e Mães entristecidos, filhos adoecidos: A dinâmica oculta narelação entre adultos e crianças" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/h2DxWeLzj60?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Por que os bebês são tão bonitinhos? – Aos olhos da mãe</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/por-que-os-bebes-sao-bonitinhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Selma Canoas]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Dec 2022 11:08:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6882</guid>

					<description><![CDATA[<p>A natureza, sabiamente, fez com que tudo no bebê fosse feito para chamar a atenção e encantar a sua mãe, mas só isso não é o suficiente para o estabelecimento de um vínculo saudável entre mãe e bebê. O parto e as primeiras horas de vida são de fundamental importância para que se estabeleça essa conexão, que é regida pelo arquétipo da Grande Mãe.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A natureza, sabiamente, fez com que tudo na criança fosse bonitinho e chamasse a atenção. Sua cabeça é grande proporcionalmente ao corpo, olhos são grandes, vívidos e limpos, o nariz é pequeno, a boca é pequena e macia. A pele é sedosa, o cheirinho é inconfundível. E desde o primeiro dia de vida observamos “habilidades sociais” nesse pequenino ser: o bebê chora ou se agita quando precisa de algo e ao ser atendido, ele se acalma, estabelecendo assim uma espécie de diálogo com sua <strong>mãe</strong>. O <strong>bebê</strong> já nasce preparado para o relacionamento com a <strong>mamãe</strong> pois, por exemplo, apresenta o melhor foco de sua visão a 20 cm, que é exatamente a distância da face de sua mãe ao amamentar. Com o passar dos dias o bebê começa a acompanhar com o olhar, e logo em seguida apresenta não mais contrações involuntárias da face, e sim o riso espontâneo, também chamado riso social. Ou seja, tudo no bebê é feito para encantar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-sera-sempre-assim">Mas será sempre assim?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Monteiro Lobato escreveu a fábula “A coruja e a águia”, que é mais ou menos assim:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coruja e águia, depois de muita briga resolveram fazer as pazes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Basta de guerra — disse a coruja.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— O mundo é grande, e tolice maior que o mundo é andarmos a comer os filhotes uma da outra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Perfeitamente — respondeu a águia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Também eu não quero outra coisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Nesse caso combinemos isso: de agora em diante não comerás nunca os meus filhotes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Muito bem. Mas como posso distinguir os teus filhotes?</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Coisa fácil. Sempre que encontrares uns borrachos lindos, bem feitinhos de corpo, alegres, cheios de uma graça especial, que não existe em filhote de nenhuma outra ave, já sabes, são os meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Está feito! — concluiu a águia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dias depois, andando à caça, a águia encontrou um ninho com três monstrengos dentro, que piavam de bico muito aberto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Horríveis bichos! — disse ela. — Vê-se logo que não são os filhos da coruja.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E comeu-os.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eram os filhos da coruja. Ao regressar à toca a triste mãe chorou amargamente o desastre e foi ajustar contas com a rainha das aves.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Quê? — disse esta admirada. — Eram teus filhos aqueles monstrenguinhos? Pois, olha não se pareciam nada com o retrato que deles me fizeste…</p>



<h2 class="wp-block-heading">Moral da história:&nbsp;<em>Para retrato de filho ninguém acredite em pintor pai. Já diz o ditado: quem ama o feio, bonito lhe parece.&nbsp;</em>(LOBATO, 1977, p. 50)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Assim surge a pergunta: o que faz com que a mamãe coruja veja tantos encantos em seus filhotes? Como se desperta este amor maternal capaz de ver qualidades que não são vistas nem pelos astutos olhos da águia? Como se dá esta conexão poderosa capaz de amar incondicionalmente seus bebês?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há bem poucos anos atrás era rotina nos hospitais e maternidades, especialmente aqui no Brasil, que os bebês ali nascidos fossem levados para o berçário para os primeiros cuidados e ali permanecessem durante suas primeiras horas de vida, para só depois serem entregues às suas mães. Em nome do cuidado médico nestas primeiras horas, com a intenção de observar se o bebê se adaptava bem ao meio externo, mesmo bebês sem risco e em boas condições de saúde eram privados do contato com suas mães, levados a um ambiente com ruídos estranhos e pessoas desconhecidas, e lá permaneciam sem contato humano amoroso por um tempo que variava de acordo com o hospital. Como consequência existiam sequelas desnecessárias para ambas as partes.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Isto tem se transformado nos últimos anos, após estudos realizados sobre a importância do contato pele a pele da mãe com a criança, principalmente no que diz respeito ao incentivo ao aleitamento materno, além de ganhos fisiológicos para o bebê, como a manutenção da temperatura corporal, adaptação metabólica, manutenção dos níveis sanguíneos de glicose e manejo da dor. (JUNG; RODRIGUES; HERBER, 2020)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos estudos também mostraram que o contato pele a pele entre mãe e bebê na primeira hora de vida é extremamente importante para ambas as partes, pois é decisivo na formação do vínculo. Essa primeira hora de vida adquire uma importância tão grande que é chamada “hora sagrada” ou “hora mágica”, quando existe uma janela de oportunidade para facilitar o início do relacionamento mãe-bebê, dar início a amamentação e propiciar o apego. Os bebês, uma vez colocados sobre o tórax da mãe, já são capazes de localizar o mamilo e iniciar a mamada. O toque, o calor e o odor do bebê são potentes estímulos para a produção de ocitocina que, além de contribuir para a amamentação, também auxilia na involução uterina após o parto, diminui o risco de hemorragia, promove o aumento da temperatura materna na região das mamas para fornecer calor ao bebê. (ABDALA, 2019). Dá-se início ao processo de comunicação entre ambos, onde a mãe começa a aprender a reconhecer os sinais emitidos pela criança, compreendê-los e respondê-los. A capacidade deste binômio mãe-bebê manter uma troca recíproca de sinais é fundamental para o estabelecimento de uma saudável relação de apego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann coloca como característica que distingue o ser humano dos outros mamíferos o fato de que a fase embrionária não se completa com o nascimento. Para o bebê humano existe uma fase embrionária intrauterina que dura 9 meses, seguida de outra, pós-natal, pós-uterina, que tem a duração de mais o menos 1 ano após o parto.&nbsp;&nbsp;Esta fase pós uterina é regida pela&nbsp;<em>relação primal</em>&nbsp;com a mãe, onde a criança está contida em sua mãe embora seu corpo já tenha nascido. Para a criança neste período não existe dualidade, não existe dentro e fora, ela e a mãe são uma e mesma coisa, não existe diferença entre ela e a mãe, que proporciona o prazer e afasta o desprazer. Aqui, as reações da mãe são em grande parte instintivas e representam o fundamento da relação primal, que garantem a vinculação entre mãe e filho. (NEWMANN, 1995)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista da psicologia analítica grande parte do desenvolvimento desta relação se dá sob o domínio do arquétipo da Grande Mãe. Segundo Newmann (2006) a dinâmica de um arquétipo se dá principalmente pela determinação do comportamento humano de maneira inconsciente, e quando um arquétipo é constelado sempre existe um estado de comoção biopsíquica que pode desencadear uma modificação das pulsões e dos instintos, assim como nas paixões e na afetividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Arquétipo da Grande Mãe, como todo arquétipo é ambivalente e possui duas polaridades: A Mãe Bondosa e a Mãe Terrível. A Mãe bondosa é benevolente, acolhedora, cuidadora, que alimenta e protege. A Mãe Terrível, ao contrário, é a que possibilita a manifestação do abandono, da negligência, ou do sufocamento por superproteção. Em sua polaridade Terrível, a Grande Mãe leva ao aparecimento de uma mãe indisponível para o filho.&nbsp;&nbsp;(FREITAS; SCARABEL; DUQUE, 2012).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tornar o nascimento e as primeiras horas de vida o mais humano, suave e gentil pode ser um facilitador para que se façam presentes mais os aspectos positivos do arquétipo da Grande Mãe e possibilitem a constelação do cuidado, da disponibilidade, da nutrição e da conexão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O amor está fundamentalmente ligado ao vínculo, e aqui repousa a importância do reconhecimento do bebê, do momento de intimidade e conexão que um parto gentil e uma “hora sagrada” respeitosa podem proporcionar. Deste contato desdobra o estabelecimento de uma comunicação empática entre ambos e o desenvolvimento de uma relação baseada na confiança, tanto do bebê com relação à presença incondicional de sua mãe, quanto da mamãe em sua capacidade de maternar esse filho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E saber-se reconhecido e amado é uma necessidade básica de todo ser humano. Sentir-se querido e pertencente é a base da autoestima. E para a criança, o olhar da mãe representa esse olhar confirmatório que diz: você é bom, você é capaz, você é importante para mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez nossa mamãe coruja descrita na fábula tenha um bom vínculo com seus filhotinhos e provavelmente exista uma relação de apego bastante saudável entre eles. Mamãe coruja talvez seja a representação da Grande Mãe Bondosa, que cuida, alimenta, ama e protege seus filhotes. Ao ponto de que, mesmo que esteticamente não sejam tão graciosos, aos olhos da mamãe são os bebês mais bonitinhos do mundo. Ela os ama pelo que são, incondicionalmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez se justamente estes filhotes não tivessem tido a infelicidade de serem comidos pela águia, seriam corujas adultas com um adequado senso de autoestima, capazes de viver a vida em toda a sua plenitude, e como sua mãe coruja, cuidar de seus filhotes de uma forma suficientemente boa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/?s=selma+canoas">Selma de Fátima Silva Canoas</a> &#8211; Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/?s=guarnieri">Maria Cristina Mariante Guarnieri</a> – Analista didata responsável.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Por que os bebês são tão bonitinhos? – Aos olhos da mãe | Selma Canoas" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/oF5NbubB5Ho?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Bibliografia:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ABDALA, L. G.; DA CUNHA, M. L. C.&nbsp;<strong>Contato pele a pele entre mãe e recém-nascido e amamentação na primeira hora de vida</strong>.&nbsp;Clinical and Biomedical Research,&nbsp;<em>[S. l.]</em>, v. 38, n. 4, 2019. Disponível em:&nbsp;<a href="https://seer.ufrgs.br/index.php/hcpa/article/view/82178">https://seer.ufrgs.br/index.php/hcpa/article/view/82178</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;FREITAS, Laura Villares; SCARABEL, Camila Alessandra; DUQUE, Barbara Harumi.&nbsp;<strong>As implicações da depressão pós-parto na psique do bebê: considerações da psicologia analítica.&nbsp;</strong><strong>Psicol. Argumen</strong><strong>.</strong>, Curitiba, v. 30, n. 60, p. 253-263, jun. 2012. Disponível em: &lt;<a href="http://www2.pucpr.br/reol/pb/index.php/pa?dd1=5972&amp;dd99=view&amp;dd98=pb">http://www2.pucpr.br/reol/pb/index.php/pa?dd1=5972&amp;dd99=view&amp;dd98=pb</a>&gt;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, S. M.; RODRIGUES, F. A.; &amp; HERBER, S. (2020).&nbsp;<strong>Contato pele a pele e aleitamento materno: experiências de puérperas</strong>.&nbsp;Revista De Enfermagem Do Centro-Oeste Mineiro, v.10, 2020. Disponível em:&nbsp;&nbsp;&lt;<a href="https://doi.org/10.19175/recom.v10i0.3657">https://doi.org/10.19175/recom.v10i0.3657</a>&gt;</p>



<p class="wp-block-paragraph">LOBATO, Monteiro<em>.&nbsp;</em><strong>Obra completa infantil</strong>. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1977.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich<strong>. A criança</strong>. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich<strong><em>.&nbsp;</em><em>A grande mãe</em></strong><em>.</em>&nbsp;5 ed. São Paulo: Cultrix, 2006</p>
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		<title>Herança psíquica transgeracional</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/heranca-psiquica-transgeracional/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lorena Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 16 Nov 2022 12:47:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nascemos. Que lindos! Bebês fofinhos, bochechas gordas, narizes amassados e carinhas de joelho.  Somos recebidos pelas nossas famílias ou, em alguns casos, infelizmente, não somos. Então vivemos em um meio diverso do familiar padrão, encaminhados a locais institucionalizados. Mas neste breve artigo, vamos nos ater a uma vivência em âmbito familiar. Então surgem questionamentos: nascemos [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Nascemos. Que lindos! Bebês fofinhos, bochechas gordas, narizes amassados e carinhas de joelho. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Somos recebidos pelas nossas famílias ou, em alguns casos, infelizmente, não somos. Então vivemos em um meio diverso do familiar padrão, encaminhados a locais institucionalizados. Mas neste breve artigo, vamos nos ater a uma vivência em âmbito familiar.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Então surgem questionamentos: nascemos despidos, mas será que viemos nus psiquicamente também? Será que somos uma simples folha em branco, quando se trata desta esfera?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando olhamos nossa parte física, já podemos dizer que não viemos destituídos de tudo. Existe uma <strong>memória genética</strong>, um funcionamento orgânico, <strong>reflexos ancestrais</strong>, impulsos de manutenção, dentre uma infinidade de outros fatores. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-acabamos-de-nascer-mas-ja-carregamos-uma-historia-milenar-em-cada-uma-de-nossas-celulas"><strong>Acabamos de nascer, mas já carregamos uma história milenar em cada uma de nossas células</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E na esfera psíquica, o que nos é reservado? Nos formaremos apenas pela influência do meio, pelos costumes, pela educação e pelos exemplos exteriores? Existe algo além do externo e consciente que impacta a formação da psique? Herdamos potencialidades psíquicas da nossa família, assim como herdamos os genes do DNA?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre a possibilidade de herança psíquica que nos debruçaremos neste artigo, com enfoque especial no aspecto familiar e em como este meio pode influenciar na formação da psique.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De pronto, <strong>Carl Jung</strong>, se apropriando da expressão de Aristóteles, nos adianta que não nascemos uma <strong>tábula rasa</strong>. Isto é, a alma não nasce vazia, existem predisposições específicas. Com o conhecimento do inconsciente coletivo, não podemos perder de vista que a psique possui um caráter histórico. Mesmo antes da consciência surgir, existem conteúdos que a compõe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A psique, não surgindo do nada em branco, emerge do inconsciente trazendo conteúdos que a definem com algo que a faz humana. Como a constituição física e genética – dotada de uma anatomia herdada e transmitida através das gerações –, a formação psíquica é decorrente de uma longa série ancestral, e possui conteúdos constelados por uma herança psíquica (JUNG, 2013, p. 329).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A partir disso, olhar para a formação do ego abre caminho à compreensão dos questionamentos iniciais sobre a herança psíquica transgeracional</strong>. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-humanidade-viemos-de-uma-construcao-historica-de-fusao-grupal-em-que-a-mescla-uroborica-era-vivida-em-primeiro-plano">Como humanidade, viemos de uma construção histórica de fusão grupal, em que a mescla urobórica era vivida em primeiro plano.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Neumann</strong> traça um paralelo histórico e antropológico entre os agrupamentos humanos primevos e o amadurecimento da personalidade. Os povos ancestrais partilhavam de intensa ligação do coletivo com o individual, em que impera a inconsciência sobre a consciência. Era uma fusão entre identidade individual e meio coletivo, preponderando a <em>participation mystique</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De modo análogo, nos primeiros anos de vida de uma criança existe uma identificação inconsciente com o coletivo, mais especificamente com a esfera familiar circundante. Quando nascemos, não possuímos diferenciação de opostos dentro da psique. Tudo é vivido como uno. De acordo com Neumann esta é uma fase pré-egóica. Isto significa que o complexo do ego ainda não está formado e flutua indefinido nos primeiros anos de vida, em que se experimenta um estado <strong>urobórico</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse momento, há uma<strong> identidade biopsíquica entre corpo e mundo</strong> (NEUMANN, 1995, p. 12). O bebê permanece em uma ligação primal, em que as suas percepções sensoriais e de fome, por exemplo, estão extremamente ligadas à satisfação e ao alívio por parte da mãe. A personalidade é em grande parte inconsciente neste período.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A criança experimenta o mundo através desta forte ligação com a mãe, se valendo dos sentimentos e do corpo materno como mediador da sua vivência no mundo. Mas não é só a criança que está imersa, a mãe também está em estado de fusão, mesmo após o desligamento físico do nascimento.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-a-crianca-a-ligacao-com-a-mae-nos-primeiros-anos-de-vida-sera-a-base-da-sua-relacao-com-o-corpo-e-de-sua-relacao-com-as-outras-pessoas" style="font-size:20px"><strong>Para a criança, a ligação com a mãe nos primeiros anos de vida será a base da sua relação com o corpo e de sua relação com as outras pessoas</strong>. </h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A partir da segurança deste sentimento inicial de imersão materna, os demais contatos sociais têm este ponto de partida.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O desenvolvimento do ego passa da esfera matriarcal ao patriarcado. Os primeiros estágios possuem a relação primal, já citava, sendo estágios inferiores. Posteriormente, nos estágios superiores e solares, inicia-se uma ligação com o self masculino e com o patriarcal, remetendo ao arquétipo paterno (NEUMANN, 1995, p.113). </p>



<p class="wp-block-paragraph">Então vemos que, progressivamente, a intensa fusão psíquica e emocional com o meio vai diminuindo. A criança, perto dos dois anos, começa a se auto-referir como “eu” e sua individualidade ocorre por volta dos três e cinco anos de idade (JACOBY, 2010, p. 121). Neste período inicial, principalmente antes da escolarização, a família e os pais têm um peso acentuado na psicosfera infantil, determinando muitas vezes perturbações e problemas psíquicos vivenciados pela criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por esta troca incessante e mais acentuada com o meio no começo da vida, a família é um “centro de gravidade emocional, o local onde começamos a ganhar identidade e a desenvolver o caráter sob a influência das diferentes personalidades que nos cercam” (ZWEIG; ABRAMS, 1994, p. 69). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-crianca-vive-sua-psicologia-de-modo-fluido-em-um-estado-de-dependencia-com-a-familia">A criança vive sua psicologia de modo fluído, em um estado de dependência com a família. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tal estado é normal e esperado.<strong> Jung </strong>(2013b, p. 84) considera que perturbar esta condição própria da psique humana é prejudicial ao desenvolvimento natural infantil. Ele considera igualmente, que a dependência a esfera circundante é algo próprio de ser humano, sentido ainda mais fortemente na fase da infância:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se nós, adultos, nos mostramos sensíveis a estas influências do meio ambiente, o que dizer então de uma criança cuja psique é mole e moldável como cera! O pai e a mãe gravam o sinete de sua personalidade fundo na psique da criança; e mais fundo quanto mais sensível e impressionável ela for. Tudo é retratado inconscientemente na criança, mesmo coisas das quais nunca se falou (JUNG, 1995, p. 496).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por viverem ainda em um estado de <em>participation mystique</em> com os pais, em especial, as crianças sentem os influxos e os movimentos da psique materna e paterna. Para Jung, a alma infantil tem uma natureza ímpar. Dada a sua singularidade, as impressões colhidas do meio não se restringem apenas aos comportamentos exteriores. Mesmo que os exemplos dados não apresentem distúrbios perturbadores, as crianças vivem o que realmente existe e não aquilo que parece ser. Não obstante os pais façam um esforço para minorarem seus complexos e os dominarem, isto não se mostra efetivo, pois os filhos permanecem sendo impactados pelo dinamismo psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-conteudo-inconsciente-tem-uma-energia-que-se-dissemina-a-psique-infantil-e-os-complexos-sao-contagiantes-jung-2013b-p-63" style="font-size:18px">O conteúdo inconsciente tem uma energia que se dissemina à psique infantil e os complexos são contagiantes (JUNG, 2013b, p.63).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A conhecida citação de Jung sobre a vida não vivida dos pais talvez agora faça um sentido ainda mais amplo. É proposto por Jung que existem dois fatores relevantes em disfuncionalidades em crianças. O primeiro é justamente a vida não vivida dos pais, que pode gerar um movimento inconsciente dos filhos de busca da incompletude na vida de seus genitores. Corresponde ao que poderia ter sido feito pelos pais e antepassados, mas não o foi por leniência. <strong>É uma “mentira piedosa”, nas palavras do próprio Jung; algo que atenta contra a vida</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo (JUNG, 2013c, p. 10) sobre <strong>Paracelso</strong> é bem ilustrativo. Seu pai teve uma vida reclusa e solitária, distante das evidências sociais. Por sua vez, Paracelso busca tudo o que o pai renunciou: fama e prazeres da vida mundana. Ele seguiu a tônica de desavenças com seus amigos, em consequência da ligação com seu pai, seu único amigo, a quem deve fidelidade. Nesta passagem, Jung, que traz este exemplo, propõe uma ligação real com a vida de nossos ascendentes. Dando a entender o profundo emaranhamento que o indivíduo pode ter com sua família, determinando muitos comportamentos e predisposições.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-antepassados-podem-ter-negligenciado-aspectos-importantes-que-nao-tem-relacao-com-a-moral-ligada-a-temporalidade" style="font-size:18px">Os antepassados podem ter negligenciado aspectos importantes, que não tem relação com a moral ligada a temporalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não se pauta nas leis mutáveis dos homens, mas está conectada às ordens da vida. São conteúdos tidos como “pecado original”. O que faz supor que os temas que transpassam gerações levam uma carga energética significativa, passando de geração em geração na tentativa de compensarem uma desarmonia contra a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O segundo fator é quando os pais têm um padrão de perfeição em seu proceder, tomando atitudes externas de retidão e não exteriorizando defeitos ou condutas reprováveis. Tais assuntos inconscientes lançados na sombra produzem um efeito venenoso que penetra na alma dos filhos (JUNG, 2013b, 88). Quando este cenário ocorre, os filhos se veem constrangidos a vivenciar a parte oposta, que estava inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-caminho-que-pode-ser-tomado-nestes-casos-sao-padroes-de-imitacao-diante-dos-pais-que-se-julgam-perfeitos" style="font-size:18px">Outro caminho que pode ser tomado nestes casos, são padrões de <strong>imitação </strong>diante dos pais que se julgam perfeitos. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Jung</strong>, este padrão pode gerar consequências desastrosas aos filhos, que se sentem moralmente arrasados pela percepção de inferioridade ou podem recorrer a imitação dos pais, aplicando o mesmo comportamento irreprovável em suas vidas. Entretanto, esta situação geraria uma necessidade de compensação futura, que interferiria até a terceira geração, como uma ‘prestação de contas’ (JUNG, 2013b, p.89).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em “A natureza da psique”, Jung (2013, p.65) afirma que “muita coisa é interpretada como hereditariedade em sentido estrito é antes uma espécie de contágio psíquico que consiste em uma adaptação da psique infantil ao inconsciente dos pais” (JUNG, 2013a, p. 65). Este contágio psíquico familiar é vivenciado pelo próprio Jung em alguma medida, quando comenta em “Memórias, Sonhos e Reflexões” algumas impressões de sua família:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto trabalhava em minha árvore genealógica, compreendi a estranha comunhão de destinos que me ligava aos meus antepassados. Tenho a forte impressão de estar sob a influência de coisas e problemas que foram deixados incompletos e sem resposta por parte de meus pais, de meus avós e de outros antepassados.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa busca sobre a “atuação secreta do demônio que comanda o destino” (JUNG, 2011. p. 299), <strong>Jung</strong> aprofunda suas teorias sobre os complexos, os arquétipos e o inconsciente coletivo. Se o homem é constituído fisicamente por disposições genéticas herdadas, na esfera psíquica há igualmente uma herança transmitida entre as gerações. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-vimos-na-tenra-idade-a-crianca-vive-imersa-na-esfera-inconsciente" style="font-size:21px">Como vimos, na tenra idade a criança vive imersa na esfera inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os pais, por serem os mais próximos à psique que se forma, são os que exercem maior influência sobre os filhos, havendo uma identidade inconsciente entre eles. Por esta natural imaturidade egóica, os complexos dos pais e das mães podem facilmente afetar a espera psíquica dos filhos. Jung apresenta um exemplo muito ilustrativo de “hábitos psíquicos existentes nos membros da mesma família” (JUNG, 2013b, p. 63).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Recordo-me do caso ilustrativo de três meninas, filhas de mãe devotada ao extremo. Ao entrarem na puberdade, acabaram confessando mutuamente, muito envergonhadas, que por anos a fio tinham tido sonhos horríveis sobre a mãe. Sonhavam que ela era uma bruxa ou um animal perigoso, e não conseguiam entender isso de maneira alguma, pois, a mãe era amorosa e se sacrificava por elas. Anos mais tarde a mãe passou a sofrer de doença mental e nos acessos de loucura se punha a andar de quatro como um lobisomem e a imitar o grunhido dos porcos, o ladrar dos cães e o rosnar dos ursos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na prática clínica, Jung, por diversas vezes, se deparou com casos semelhantes a este. Em suas observações, pode perceber que quando uma criança apresenta uma neurose ou distúrbio psíquico é importante observar a esfera inconsciente dos pais, em especial a da mãe, já que a investigação do próprio inconsciente infantil não se mostra muito frutífera. Problemas ocultos e dificuldades dos pais podem interferir na saúde dos filhos, que expressam conteúdos do inconsciente através de sintomas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-jung-analisa-o-complexo-materno-em-simbolos-da-transformacao-ele-percebeu-a-grande-importancia-dos-pais-no-destino-de-seus-filhos" style="font-size:19px">Quando Jung analisa o <strong>complexo materno</strong> em “<strong>Símbolos da transformação</strong>”, ele percebeu a grande importância dos pais no destino de seus filhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, os pais são os responsáveis por passar à criança as leis que regem o psiquismo individual e também universal, por assim dizer. Algo existe além da educação, do comportamento e do jeito de tratar a criança, a alma infantil e a estrutura egóica primeva. Além de qualidades ou defeitos paternos e maternos, Jung atesta que os pais, por serem comumente os mais próximos da criança, são os transmissores de grandes conteúdos à alma infantil (JUNG, 2011, p. 300).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, uma aluna de Jung, <strong>Emma Fürst</strong>, realizou uma pesquisa exploratória de associação de palavras entre membros da mesma família. O estudo teve a participação de 100 pessoas de 24 famílias diferentes. Mesmo com dados ainda precários fornecidos por esta pesquisa, algumas observações importantes foram feitas com o respaldo da experiência analítica de Jung. Antes da realização do teste de associação em membros da mesma família a expectativa era de que os resultados seriam dissonantes. Contudo, verificou-se uma grande semelhança nas respostas obtidas, tendo sido visto até mesmo o uso de palavras idênticas entre mães e filhas. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung (2011, p. 146), a identificação feita pela criança é tão vívida, que em certos casos ao crescer, quando o indivíduo tem mais sensibilidade, as atitudes mentais são em tal nível semelhantes que os filhos geram circunstâncias parecidas a dos pais em suas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No experimento se observou em diversos casos uma influência significativa entre familiares, o que leva a conclusão da relevância do ambiente na constelação de fatores psíquicos e na similaridade de complexos afetivos entre familiares.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A desarmonia latente entre os pais, uma preocupação secreta, desejos secretos e reprimidos, tudo isso produz na criança um estado emocional, com sinais perfeitamente reconhecíveis. Que devagar mas segura e inconscientemente vai penetrando na psique dela, levando às mesmas atitudes e, portanto, às mesmas reações aos estímulos do meio ambiente (JUNG, 1995, p. 497).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-verifica-com-frequencia-casos-em-que-padroes-dos-pais-sao-repetidos-pelos-filhos" style="font-size:18px">Jung verifica com frequência casos em que padrões dos pais são repetidos pelos filhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">São vários os casos, por exemplo, em que pessoas escolhem parceiros com distúrbios mentais correspondentes aos distúrbios que seus pais ou suas mães tinham: “<em>não é raro, por exemplo, que um homem sadio, cuja mãe é histérica, se case com uma histérica ou que as filhas de um alcoólatra se casem, por sua vez, com alcoólatras</em>” (JUNG, 1995, p. 496).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos observar que condições dentro do universo familiar influem na psique em formação, assim como a educação recebida. Mas não só estes aspectos diretos e mais facilmente observáveis constrangem o indivíduo. Há esta bagagem inconsciente, transferida entre as gerações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-se-trata-da-figura-materna-esta-tem-uma-relevancia-ainda-mais-acentuada-sobre-seu-filho" style="font-size:19px">Quando se trata da <strong>figura materna</strong>, esta tem uma relevância ainda mais acentuada sobre seu filho.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (p. 80, 2013b) afirma que a mãe tem um efeito psíquico “alimentador” sobre a criança, que precisa de atenção e cuidados para viver. Existe uma espécie de nutrição psíquica, em que a mãe é a maior fornecedora. Mesmo assim, toda esfera psíquica familiar atua na mente infantil. Quando há questões relevantes, segredos e fatos ocultos, estes têm um peso sobre os filhos e possuem uma carga maior de contágio. Conteúdos recalcados, isto é, negados e não conscientizados pelo ego, muitas vezes geram estados neuróticos, que são transmitidos para as gerações posteriores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pela análise e revisão dos conteúdos deixados por<strong> Jung</strong>, percebe-se que o dinamismo familiar tem um peso na formação da psique. Muito embora não seja fatalista ou determinante. A ressignificação de aspectos dolorosos e reconhecimento de valores intrínsecos familiares que movimentam o indivíduo fazem parte da integração dos fatores psíquicos na nossa experiência. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-partir-da-percepcao-da-importancia-familiar-que-faremos-com-isso" style="font-size:19px">A partir da percepção da importância familiar, que faremos com isso?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A posição de apatia e vitimização das circunstâncias contribui para gerar uma infantilização e estagnação diante da vida. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se olharmos para o processo de individuação, os conteúdos familiares e as predisposições inconscientes possuem capacidade geradora de transformação. Senão seremos simplesmente os resultados de aspectos dolorosos e menos felizes do passado; não deixando de ser ‘o filho maltratado pelo pai violento’, ‘a filha exposta a mãe manipuladora e egoísta’, ‘a criança abandonada e negligenciada’. Mesmo em circunstâncias sensíveis, profundas e desafiadores, ter a disposição de levar consciência a aspectos familiares constituintes da nossa psique gera a potencialidade de nos compreendermos melhor.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pergunta-poderia-ser-esta-quem-sou-eu-a-quem-sucedem-todas-essas-coisas" style="font-size:18px">A pergunta poderia ser esta: <strong>Quem sou eu, a quem sucedem todas essas coisas</strong>?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Olhando para dentro de seu coração ele encontrará certamente a resposta a esta pergunta crucial (JUNG, 1991, p. 126).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/lorenaoliveira/">Lorena de Sousa Oliveira – Analista em formação</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone Magaldi – Membro Didata</a> </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Herança psíquica transgeracional | Lorena Oliveira" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/n3c6S6GFgfM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências: </h2>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, Edward F. Ego e Arquétipo, São Paulo: Cultrix, 1989.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique, 10ª edição, Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, A vida simbólica. Vol. 1, 6ª edição, Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, Estudos Experimentais, 6ª edição, Petrópolis: Vozes, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, Freud e a psicanálise, 16 ª edição, Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, O desenvolvimento da personalidade, 10ª edição, Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, O espírito na arte e na ciência, 13ª edição, Petrópolis Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, O eu e o inconsciente, 27ª edição, Petrópolis: Vozes, 2015</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, Os arquétipos e o inconsciente coletivo, 11 ª edição, Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_______, Psicologia e Alquimia, 4ª edição, Petrópolis: Vozes, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich, A criança: Estrutura e dinâmica da personalidade em desenvolvimento desde o início de sua formação, 10ª edição, São Paulo: Editora Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______, História da origem da consciência, 13ª edição, São Paulo: Editora Cultrix, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WHITMONT, Edward. A Busca do Símbolo, 14ª edição, São Paulo: Editora Cultrix, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (orgs.). Ao encontro da sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana, São Paulo: Editora Cultrix, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>
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		<title>As emoções do cuidador familiar em câncer</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/as-emocoes-do-cuidador-familiar-em-cancer/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 13:29:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Câncer]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[oncologia e psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ter alguém com câncer em nossa família é sempre muito difícil. Além de entender nossos próprios medos e incertezas, temos que educar outras pessoas que ainda desconhecem os avanços atuais dos tratamentos. &#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Para melhor ajudar a pessoa querida que esteja adoentada neste momento, é muito importante que o familiar busque apoio e um espaço [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Ter alguém com câncer em nossa família é sempre muito difícil. Além de entender nossos próprios medos e incertezas, temos que educar outras pessoas que ainda desconhecem os avanços atuais dos tratamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para melhor ajudar a pessoa querida que esteja adoentada neste momento, é muito importante que o familiar busque apoio e um espaço para expressar sentimentos. É comum sentir que nossa vida foi revirada, nossa rotina não é mais a mesma e temos que assumir novos encargos e papeis dentro da família. E acontece que muitas vezes nos sentimos exaustos, impotentes, frustrados, preocupados e até mesmo com medo do nosso próprio adoecimento. E tudo isto atrapalha nossa relação com o doente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Receber o diagnóstico de câncer é entrar em uma jornada que assusta, mas que também pode ser um tempo de crescimento e aprofundamento dos nossos sentimentos e das nossas relações dentro da família. Para facilitar esse processo, veja algumas orientações:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Ouça e siga o seu próprio coração, ampliando sua razão amorosa. Isto ajudará a alcançar equilíbrio físico, mental, emocional e espiritual.</li>



<li>Cuidar das próprias expectativas. Estimule sua plena atenção no aqui e agora.&nbsp;Este é momento mais importante da sua vida, por isto é chamado de &#8220;presente&#8221;.</li>



<li>Atenção com o seu próprio corpo. Cuidados com a alimentação, beba muita água, tome banhos de luz, saia ao sol. Pratique exercícios físicos, visualização ou meditação, sempre que possível.</li>



<li>Perceba quanto se doar ou o quanto está se forçando. O cansaço traz muita irritabilidade e depois nos sentimos culpados. Às vezes, é preciso ter humildade para pedir ajuda para mais alguém da família e admitir o quanto estamos cansados.</li>



<li>Tente identificar seus sentimentos. Aquilo que identificamos temos possibilidades de controlar.</li>



<li>Não deixe a doença tomar conta de toda a sua vida, nem do seu familiar. Há tanta coisa saudável para viver. Reserve momentos para o lazer, passeios, troca afetiva e bom humor.</li>



<li>Busque apoio psicoterápico para suas dificuldades ou apenas para alívio. É muito bom podermos conversar com alguém que nos entenda.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">E quando se trata de crianças&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando o doente é uma criança podemos ficar ainda mais vulneráveis e estressados. Pior ainda é nos sentirmos culpados e divididos quando temos outros filhos pequenos que exigem nossa atenção.&nbsp; Muitas vezes questionamos se o aparecimento da doença foi algo que fizemos ou deixamos de fazer, nos sentimentos culpados e raivosos. Mas logo lembramos que o câncer tem muitas causas, pode aparecer em qualquer pessoa, em qualquer e que cada vez mais aparecem recursos para o tratamento e cura do câncer infantil. Mais importante do que ficar buscando explicações, é mantermos nossa esperança, fé e tranquilidade para ajudarmos aos outros membros da família a passarem por esta fase.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Mestre Rita de Cassia Macieira</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coordenadora do Curso de Psicologia Integrativa Transpessoal do</p>



<p class="wp-block-paragraph">IJEP&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Rita de Cassia Macieira</em></strong></h4>
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		<title>Contágio psíquico e a atmosfera familiar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/contagio-psiquico-e-a-atmosfera-familiar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jul 2022 10:45:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo visamos estudar o fenômeno do Contágio Psíquico no ambiente familiar a fim de reconhecer e refletir sobre sua atuação e sobre sua gênese ontológica, muitas vezes falseada pelo racionalismo e pela ilusão da inteira diferenciação entre os integrantes da família. Recorremos, para tanto, a C. G. Jung para reconhecer e aprofundar sobre a psique familiar e participação mística; e também a Erich Neumann para entender a presenta do fenômeno do Contágio Psíquico no desenvolvimento da consciência humana.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Nas Obras Completas, quando C. G. Jung (2018) discorre sobre o grupo familiar, tende a utilizar o termo&nbsp;“atmosfera familiar”, o que, de fato, é muito interessante para ampliarmos o fenômeno do contágio psíquico. Uma atmosfera (do grego antigo:&nbsp;ἀτμός, vapor, ar, e&nbsp;σφαῖρα, esfera)&nbsp;é&nbsp;uma camada de gases que envolve (geralmente) corpos materiais.&nbsp;Em uma família, podemos aproximar, homologicamente, esse termo &#8220;corpos materiais&#8221; dos egos que a compõe, tendo aí uma diferenciação entre um e outro. Contudo, tudo isso é relativamente uma ilusão. Em qualquer ambiência micro ou macro-cósmica, um corpo sempre retroagirá sobre o outro. Ou seja, a ideia de diferenciação do eu (ego) e do outro é parcialmente satisfatória. Devemos, de antemão, considerar a ideia dos “gases”, que são indiferenciados. Essa indiferenciação é demasiadamente profunda. A partir da&nbsp;física quântica, perceberemos que nada&nbsp;é&nbsp;matéria, mas energia se relacionando, e sabemos que energia é informação transitando no tempo e no espaço. Já,&nbsp;no cotidiano humano, se levarmos em consideração a hereditariedade biológica ou até mesmo o quanto ficamos semelhantes fisionomicamente com os nossos pais com o passar dos anos perceberemos que não somos tão diferenciados assim,&nbsp;literal e simbolicamente. Para C. G. Jung, podemos denominar essa ambiência de inconsciente familiar e até coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para aprofundarmos a ideia de gases, talvez seja interessante ter em mente a problemática de Hillman: eu não sei se a psique está em mim ou se eu estou na psique. Se considerarmos uma psique familiar, ou seja, uma consciência da família com seus valores, leis, hierarquias, hábitos etc; e o inconsciente familiar que ultrapassa o pessoal e garante uma influência geracional, poderemos vislumbrar que há algo de indiferenciado e, portanto, de livre acesso de conteúdos inconsciente na psique familiar. Isso fica mais claro nos dias atuais pois já existem pesquisas sobre psicopatologia e família que demonstram a sugestionabilidade dos familiares de desenvolverem a patologia presente em pelo menos um único indivíduo, como a depressão, o pânico, a ansiedade, etc. Curiosamente, parece que a atmosfera familiar também acontece interespécies e não se restringe à psicopatologias. Estive em diversos diálogos com médicos veterinários e muitos relatam que, frequentemente, atendem animais em que o tutor possui a mesma patologia, como metástases.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Evidentemente, existem estudos que levantam a hipótese de que há unicamente hereditariedade genética nas psicopatologias. Em nossa opinião, é necessário relativizar essa hipótese, visto que ela cai em um determinismo, e todo determinismo é uma grande unilateralidade racionalista. O próprio C. Jung já discorreu sobre: &#8220;muita coisa que&nbsp;é&nbsp;interpretada como hereditariedade em sentido estrito&nbsp;é&nbsp;antes uma espécie de contágio psíquico que consiste em uma adaptação da psique infantil ao inconsciente dos pais.” (JUNG, 2017, § 248)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para adentrarmos a ideia de contágio psíquico no ambiente familiar, vale recorrermos a Erich Neumann (1995) (2014) quando descreve-nos os estágios de desenvolvimento da consciência. O primeiro estágio inicia-se desde a concepção e se encerra no primeiro ano de vida. Até então, o neonato, segundo o autor, não possui autonomia corporal. Se o compararmos com outros mamíferos nos primeiros momentos de vida até completarem 12 meses perceberemos que o ser humano nasce prematuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann (1995) aponta que ao longo do desenvolvimento da consciência os estágios são dominâncias e permanências de imagens arquetípicas cuja superação de cada estágio pelo indivíduo cria uma relativa diferenciação para assim surgir o ego solar. Isso significa que toda vivência humana interior ou exterior é mediada pelas imagens, sendo a primeira mais direta (do inconsciente para o ego) e a segunda mais indireta (a concepção do mundo feita pelo ego para ele mesmo). É importante frisar isso pois Neumann propõe entendermos os estágios como imagens. Do período intrauterino ao primeiro ano de vida, a imagem que o autor sugere é a&nbsp;<em>uroboros</em>&nbsp;– a cobra que morde a própria calda, portanto, não possuindo fim ou começo, seria uma simbiose, em um primeiro momento com o todo experiencial; e depois, em um segundo momento, com a mãe. Mais especificamente, para o autor, seria o Self migrando ou criando um atrator, primeiro para o&nbsp;<em>uno</em>&nbsp;urobórico e depois para a Grande Mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann (1995) aponta que o desenvolvimento da consciência é homologicamente semelhante tanto filo quanto ontogenicamente, portanto, estes estágios primeiros são matriarcais. E, quando a consciência segue o seu desenvolvimento, prosseguindo para o estágio patriarcal até o ego solar, os estágios antecessores ainda permanecem na psique, não sendo um processo unilateral, mas um processo que se estabelece em camadas. Isto é importante conceber para chegarmos ao fenômeno da participação mística que C. G. Jung atualizou de Levy Brühl. Este epifenômeno, ou seja, esse abandono do ego e retorno ao estado urobórico fica evidente quando Jung afirma que, ”via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será&nbsp;uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo&nbsp;é&nbsp;ativado, ninguém mais&nbsp;é&nbsp;a mesma pessoa.”–&nbsp;(JUNG, 2019, p. 61-62).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso se dá, porque a consciência provém do inconsciente. O que nos permite depreender que a relativa diferenciação só é possível se houver,&nbsp;<em>a priori,</em>&nbsp;indiferenciação. Mesmo que fosse possível construir muros egóicos para diferenciar-se de um terreno ilimitado, não escaparíamos da atmosfera invasora e necessária para estarmos vivos e respirando. É por meio deste terreno e dessa atmosfera indiferenciados que a primeira comunicação humana atua e nunca deixará de atuar na vida do indivíduo: o contágio psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O contágio psíquico possui pouca relação entre egos, senão cairíamos em um fenômeno mecânico de imitação macaqueada. Ele ocorre sem freios devido à ilusão racionalista de que somos inteiramente diferenciados. Se desvelássemos este véu da diferenciação e considerássemos que somente em parte somos diferenciados, perceberíamos que o contágio se estabelece do inconsciente para a consciência. Isto é, a emergência do fenômeno do contágio não é causal: aquele ri pois o outro está rindo; ou chora pois o outro está chorando; ou boceja pois outro está bocejando. A relação do contágio é sincronística do&nbsp;<em>vocatus atque non vocatus devs aderi&nbsp;</em>(invocado ou não deus está presente), isto é, […] quando possuído, não&nbsp;é&nbsp;mais um indivíduo,&nbsp;ele passa a ser o próprio possuidor, ou seja, a força psíquica coletiva (a imagem) que o contágio leva e traz.&nbsp;Isso acontece, em maior ou menor grau, garantindo menos ou mais autonomia para o próprio&nbsp;ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso mesmo, no ambiente familiar,&nbsp;é supérfluo o esforço dos pais de esconder algo considerado negativo dos filhos, pois, aquilo que não é falado ou não é exposto é tão presente e impactante na psique individual quanto aquilo que é. A diferença é que um está na luz e o outro na sombra, garantindo mais elaboração consciente ao primeiro e menos elaboração ao segundo. Assim, no caso da criança, ela terá que lidar com o contágio psíquico de conteúdos coletivos e familiares sem o suporte paterno e materno, o que pode conferir uma experiência destrutiva para ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A criança faz de tal modo parte da atmosfera psíquica dos pais que as dificuldades ocultas aí&nbsp;existentes e ainda não resolvidas podem influir consideravelmente na saúde dela. A participação mística (<em>participation mystique</em>), que consiste na identidade primitiva e inconsciente, faz com que a criança sinta os conflitos dos pais e sofra como se os problemas fossem dela própria. Não são jamais os conflitos patentes e as dificuldades visíveis que têm esse efeito envenenador, mas as dificuldades e problemas dos pais mantidos ocultos, ou mantidos inconscientes. O causador de tais perturbações neuróticas sem exceção alguma&nbsp;é&nbsp;sempre o inconsciente. Coisas que pairam no ar ou que a criança percebe de modo indefinido, a atmosfera abafada e cheia de temores e apreensões, tudo isso penetra lentamente na alma da criança, como se fossem vapores venenosos&#8221;.&nbsp;(JUNG, 2018, § 217)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonardo Torres: Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Ditada: Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E.&nbsp;<strong>A Crian</strong><strong>ça</strong>. São Paulo: Editora Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E.&nbsp;<strong>Hist</strong><strong>ó</strong><strong>ria da Origem da Consci</strong><strong>ê</strong><strong>ncia.&nbsp;</strong>São Paulo: Editora Cultrix, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A Natureza da Psique</strong>. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>O Desenvolvimento da Personalidade</strong>. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A Vida Simb</strong><strong>ó</strong><strong>lica I</strong>. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TORRES, L.&nbsp;<strong>Contágio Psíquico</strong>: a loucura das massas e suas reverberações na mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2021. ISBN 978-65-993921-0-8.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Contágio Psíquico e Atmosfera Familiar" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/pyE5sXxrb6A?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-leonardo-torres-11-03-2022"><strong><em>Leonardo Torres &#8211; 11/03/2022</em></strong></h4>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A prática da psicoterapia: a influência transgeracional e a sombra familiar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-pratica-da-psicoterapia-a-influencia-transgeracional-e-a-sombra-familiar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jun 2022 14:52:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[família]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[sombra familiar]]></category>
		<category><![CDATA[transgeracionalidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4159</guid>

					<description><![CDATA[<p>A psicoterapia é um campo terapêutico que se desenvolveu e atingiu certa autonomia, as opiniões acerca do assunto estão em constante mudança e se diferenciam conforme a abordagem, o cliente e o próprio terapeuta. Tudo isso sofre a todo momento a influência da leitura que o profissional fez da obra de C. G. Jung, de [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A <strong>psicoterapia</strong> é um campo terapêutico que se desenvolveu e atingiu certa autonomia, as opiniões acerca do assunto estão em constante mudança e se diferenciam conforme a abordagem, o cliente e o próprio terapeuta. Tudo isso sofre a todo momento a influência da leitura que o profissional fez da obra de C. G. Jung, de seu próprio processo de individuação, do espírito do nosso tempo e da conversa constante com os mesmos processos do seu cliente, que acontecem no setting terapêutico a todo momento. Em outras palavras, muitas são as vozes e influências intervenientes na clínica, portanto, podemos compreender que a <strong>psicoterapia</strong> não é um processo simples nem evidente, como se queria a princípio. Pouco a pouco o próprio Jung percebeu que se trata de um tipo de dialética, onde essas vozes se comunicam, trocam e influenciam, tanto se pensarmos nos indivíduos terapeuta e cliente, e todas as vozes e processos coletivos que acontecem dentro e através de cada um. Como diz Jung em A prática da <strong>psicoterapia</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>“A pessoa é um sistema psíquico, que, atuando sobre outra pessoa, entra em interação com outro sistema psíquico. Esta é talvez a maneira mais moderna de formular a relação psicoterapêutica&#8230;; evidentemente, distanciou-se muito da concepção inicial, segundo a qual a psicoterapia seria um método aplicável de maneira estereotipada por qualquer pessoa, para obter um efeito desejado.”</em>&nbsp;&nbsp;(CW 16\1&nbsp;§1)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma desenvolveram-se concepções diametralmente opostas, representadas por várias teorias e práticas encontradas na psicologia. Jung diz que cada um desses métodos se baseia em pressupostos psicológicos especiais e produz resultados psicológicos específicos, dificilmente comparáveis entre si, e que às vezes nem podem ser comparados. Para os pontos de vista diferentes era, e continua sendo, natural e mais simples considerar a opinião e os pontos de vista dos outros, errôneos.&nbsp; Estamos então, na <strong>psicoterapia</strong>, diante de uma situação comparável ao maniqueísmo, que se depara com duas variáveis, distantes e dissonantes, mas a teoria do Jung vem justamente dizer que é pela tensão dos opostos que a vida é possível, é somente com ela e através dela, que estamos aqui num eterno processo de construção, no processo de individuação. Isso acontece com todos nós e com o cliente no setting terapêutico também, na prática da <strong>psicoterapia</strong>, o terapeuta não tenta ir contra este sistema perfeitamente saudável do ponto de vista psíquico, mas sim entender de que forma e para que o seu cliente vive desta ou daquela forma.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste contexto nos deparamos na clínica, principalmente quando falamos da terapia de crianças e adolescentes, com duas influências até mais prevalentes, falamos aqui da nossa necessidade em viver a vida não vivida dos pais e sobre o jovem ou criança, como portador da <strong>sombra</strong> familiar.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre a vida não vivida, no livro Civilização em Transição, Jung discorre:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>“Nada exerce maior influência psíquica sobre o meio ambiente da pessoa, sobretudo das crianças, do que a vida não vivida dos pais…” (CW 15&nbsp;</em>§ 4)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre este fenômeno Jung disse tratar-se de um processo extremamente comum, em que os pais projetam, na maioria das vezes, inconscientemente, tudo aquilo que não conseguiram experienciar, estejam no campo dos desejos, das vontades, dos sonhos de vida, e até mesmo lugares que gostariam de ter ido, assim como se dissessem a seus filhos: “Meu filho será feliz aonde eu não fui, fará o que eu não consegui, e assim por diante”.&nbsp; Falamos aqui não só de atitudes externas e realizações de vida, mas também de atitudes e comportamentos interiores. Se considerarmos a singularidade, as experiências, o espírito do tempo, cada um de nós é um ser absolutamente singular, e a diferença do espírito do tempo dos pais com relação aos filhos já acentua ainda mais, a discrepância na personalidade, identidade, desejos e tudo mais, para cada um deles. No entanto, como isso aparece como um imperativo, essa projeção pode ter mais ou menos força e, também para o filho, pode ter mais ou menos resistência, em seguir o script apresentado. Quase sempre vemos as pessoas em um sofrimento muito grande por se cobrarem de forma ampla a alcançarem metas das quais desconhecem, que não entendem e nem fazem sentido para si mesmas. Na criança além de isso aparecer com maior frequência encontramos barreiras maiores no sentido de identificar e ressignificar, uma vez que o complexo de ego ainda está em plena formação, a criança pequena é como o homem primitivo, carente de consciência, vive a inconsciência, ela ainda está demasiadamente imersa no inconsciente dos pais e do ambiente, de modo que esta simbiose provavelmente acentue esta identificação com o complexo de identificação com os desejos paternos. Além da própria imaturidade em todos os sentidos, a criança nasce imbuída em seu Self, que direciona a criança ao seu Daimon, no entanto, ela precisa construir seu complexo de ego se diferenciando deste self, eis o cerne da questão, um dos maiores desafios para os terapeutas que se dedicam a atender crianças, pois é necessário saber o que é da criança e o que é transgeracional. As crianças, em desenvolvimento, precisam se identificar com alguma coisa, com alguns atributos familiares específicos, a dificuldade está em se identificarem apenas com conteúdo sombrios e não conscientes pelos pais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma possível ampliação para esta questão é que o Self precisa encontrar um caminho para que esta família cresça, olhe para tudo que está escondido e quem sabe faça a agregação deste conteúdo sombrio em seus egos, de forma a caminhar para o processo de individuação. Da mesma forma que todos os participantes da família continuam em maior ou menor simbiose, tendo em vista que todos acessam o inconsciente coletivo familiar e são influenciados por ele, se os conteúdos puderem ser ressignificados, todos podem se beneficiar. Jung diz:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Quando os pais sabem quais de suas tendências e hábitos inconscientes são prejudiciais à psique de seus filhos, sentirão como dever moral fazer algo, suposto que seu senso de dever e amor estejam normalmente desenvolvidos. A mesma lei atua nos grupos e também nas nações, isto é, nas minorias dirigentes se forem constituídas de pessoas conscientes de certas tendências que poderiam ameaçar seriamente as relações humanas.”&nbsp;(OC 18/2§1398)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aos pais, cabe a consciência e a importância do processo de psicoterapia para a construção da personalidade de seus filhos, não apenas em palavras, mas sim em atitudes. Jung, além de valorizar o mundo interior, também acreditava que a construção da personalidade de uma pessoa se dá em estreita relação com o meio, ou seja, a criança interage e replica aquilo que ouve e vê, aprendem através da troca e da imitação. Ajudar os filhos a se desenvolverem nesse sentido não é nada fácil, muito pelo contrário, dispende muito tempo, valores pregados nesse ambiente familiar e coragem. Coragem para aceitar a si mesmos e entrar em contato com suas próprias sombras e desenvolver um ego flexível e revigorado. Como mencionado acima, não basta apenas falar e usar sermões moralistas, o importante é vivenciar e observar a vida que esses pais levam, sem hipocrisia, um EU verdadeiro, transparente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso olhar e enxergar o que precisa ser olhado, é permitir dar novas chances, dar vasão a tudo aquilo que estava oculto e submerso em nossas entranhas, em nosso lado mais obscuro. É preciso acolher e colocar para brincar, cantar, contar e recontar, externalizar e trazer à superfície o que nos incomoda e, consequentemente, incomoda também ao outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ampliação pode ser entendida nesta fala do Jung em Civilização em Transição:&nbsp;<em>“A vida não vivida é uma atmosfera irresistível de destruição que age em silêncio, mas inexoravelmente.”</em>&nbsp;(CW 10\3 §&nbsp;251)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Frances G. Wickes cita que as crianças estão tão submersas e envolvidas no inconsciente dos pais que suas atitudes e suas perturbações nervosas devam estar ligadas ao seu próprio psiquismo. Sendo assim, acreditamos que as coisas não vistas, revistas, projetadas e escondidas se passarem pelo crivo da ampliação, da reflexão, ou até mesmo da própria comunicação consciente/inconsciente propiciadas pela prática da psicoterapia, torna a atmosfera que sozinha se trata de destruição, em uma possível morte simbólica.&nbsp; Esta família pode vir a um renascer, uma entrada de fato na vida, como indivíduos e como família, que compartilha o inconsciente familiar, a vida e neste caso, a ampliação de consciência e integração de sombra, enfim, caminhar para a individuação. O apego em busca do desapego, o aprisionamento gerando a autonomia, o desamor construindo o amor, e tudo isso através de um vínculo de respeito e confiança, os pais liberam seus filhos, apesar das suas dores e tristezas, concedem a alegria e o seu crescimento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ilustrar esse pensamento, esse jogo de opostos necessário para o início do desenvolvimento da personalidade na infância, compartilhamos um poema de Fernando Pessoa,&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Quando as crianças brincam”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando as crianças brincam</p>



<p class="wp-block-paragraph">E eu as ouço brincar,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Qualquer coisa em minha alma</p>



<p class="wp-block-paragraph">Começa a se alegrar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E toda aquela infância</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que não tive me vem,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Numa onda de alegria</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que não foi de ninguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se quem fui é enigma,&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quem serei visão,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem sou ao menos sinta</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isto no coração.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Elaine Bedin e Natalhe Costa&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro Analistas em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E. Simone Magaldi&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro Didata do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A prática da psicoterapia. (CW16\1) 16a Ed.Petrópolis,RJ: Vozes,2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________ O espírito na arte e na ciência. (CW15)10a Ed. Petrópolis,RJ: Vozes,2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ Psicologia do Inconsciente. (CW 7\1) 11a Ed. Petrópolis,RJ: Vozes,2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________ Civilização em transição. (CW 10\3) 6a Ed.Petrópolis,RJ: Vozes,2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___________ Desenvolvimento da Personalidade (CW 17/1) 14ª Ed. Vozes,2013. __________&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A vida simbólica (OC 18/2) Ed. Vozes 2019</p>
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