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	<title>Arquivos LGBTQIA+ - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Tue, 31 Mar 2026 16:53:21 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos LGBTQIA+ - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Expressão de Gênero e Alma: Jung, Psique e Diversidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/expressao-de-genero-e-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 15:16:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma Análise Junguiana da Diversidade de Gênero e Sexualidade Este ensaio propõe uma releitura da obra de Carl Gustav Jung sobre expressão de gênero e alma, sexualidade e subjetividade, partindo de uma abordagem simbólica e histórica, e não literal. A partir disso, discute os conceitos de Anima, Animus, Persona e Processo de Individuação, mostrando como [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-analise-junguiana-da-diversidade-de-genero-e-sexualidade"><em>Uma Análise Junguiana da Diversidade de Gênero e Sexualidade</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este ensaio propõe uma releitura da obra de Carl Gustav Jung sobre expressão de gênero e alma, sexualidade e subjetividade, partindo de uma abordagem simbólica e histórica, e não literal. A partir disso, discute os conceitos de <strong>Anima</strong>, <strong>Animus</strong>, <strong>Persona</strong> e <strong>Processo de Individuação</strong>, mostrando como eles ajudam a pensar as experiências de pessoas LGBTQINAP+ e outras vivências fora da norma, sem reduzi-las a categorias rígidas. O texto defende que a psique é mais complexa do que qualquer binarismo e que a busca pela individuação envolve fidelidade à verdade interior, integração da <strong>Sombra</strong> e construção de uma vida mais autêntica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contexto-historico-e-a-emergencia-da-diversidade-leitura-nao-anacronica-de-jung">Contexto Histórico e a Emergência da Diversidade: Leitura não Anacrônica de Jung</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A obra de Carl Gustav Jung, quando lida com rigor hermenêutico e sem reduções apressadas, continua a oferecer um campo notavelmente fértil para se pensar gênero, sexualidade e subjetividade em sua dimensão mais profunda, como experiência da alma, evitando a unilateralidade do monoteísmo da consciência e da razão que abduziu esta ciência baseada em evidências e, por estar viciada em resultados e certezas, nega toda peculiaridade e singularidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa fecundidade, porém, só se preserva à medida que recusamos dois movimentos igualmente empobrecedores: de um lado, a tentação de transformar Jung em um pensador inteiramente alinhado com as categorias contemporâneas de gênero; de outro, a caricatura que o reduz a um autor meramente binário e heteronormativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O caminho mais sólido é o da leitura em camadas, capaz de distinguir, em sua obra, o que é estrutural, o que é histórico e o que permanece aberto à compreensão simbólica. Embora a pluralidade das expressões de gênero e alma seja frequentemente tratada como um debate recente, ela constitui um fenômeno social e antropológico que atravessa milênios. Sua conceituação teórica e sua aceitação pública, contudo, ganharam força significativa a partir da segunda metade do século XX — sobretudo após a morte de Jung — com o avanço da segunda onda do feminismo nos anos 1970, o desenvolvimento da Teoria <em>Queer</em> por volta de 1990 e a luta crescente por direitos e visibilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse contexto, a individuação para sujeitos LGBTQINAP+ eleva-se para além da mera adaptação social, constituindo-se como a edificação ativa de uma existência em profunda fidelidade a uma verdade psíquica intrínseca, irredutível a uma escolha voluntária ou a uma simples opção identitária. Essa determinação anímica irrompe na mente e no corpo, impulsionando uma reorganização radical da economia psíquica, uma reconfiguração da <strong>Persona</strong> e um confronto essencial com a <strong>Sombra</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tal processo não almeja uma identidade meramente obediente, mas sim a concretização de uma forma de vida autêntica e intrinsecamente congruente com o <strong>Self</strong>, um princípio que se estende a todas as orientações sexuais e identidades de gênero que divergem das expectativas normativas, as quais devem ser compreendidas como configurações legítimas e plenamente válidas da experiência humana — jamais como desvios patológicos da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não obstante, a projeção histórica da <strong>Sombra</strong> coletiva sobre esses indivíduos — que os estigmatiza com estereótipos de promiscuidade, malevolência ou patologia — evidencia o caráter profundamente cultural e, amiúde, estrutural do preconceito. A internalização dessas normas discriminatórias pode gerar um sofrimento psíquico considerável, tornando o apoio terapêutico não apenas relevante, mas indispensável. Esse suporte revela-se crucial para o reconhecimento e a integração da verdade psíquica autêntica, capacitando o indivíduo a avançar em seu processo de individuação com pleno respeito à sua singularidade, fomentando resiliência diante das adversidades e consolidando sua dignidade integral.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anima-e-animus-para-alem-da-binaridade-biologica-na-dinamica-psiquica">Anima e Animus: Para Além da Binaridade Biológica na Dinâmica Psíquica</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em Jung, <strong>Anima</strong> e <strong>Animus</strong> não devem ser entendidos como equivalentes rígidos de feminino e masculino em sentido biológico, tampouco como categorias identitárias fechadas. São formas arquetípicas de alteridade psíquica, imagens mediadoras entre consciência e inconsciente, ego e <strong>Self</strong>, adaptação e profundidade, relação e transformação. Funcionam como pontes entre a <strong>Persona</strong> e a dimensão mais recôndita da psique, manifestando aquilo que no sujeito permanece latente, não dominado e ainda em formação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa compreensão é decisiva porque desloca o debate do plano normativo para o plano simbólico. Não se trata de perguntar se uma pessoa trans, lésbica, gay, bissexual, pansexual, <em>queer</em> ou não binária “corresponde” a uma estrutura fixa de <strong>Anima</strong> ou <strong>Animus</strong>, mas de reconhecer que a experiência da alma excede toda moldura identitária e não se deixa converter em mecanismo classificatório.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Jung define a imagem da alma, afirma: “a alma, a atitude interna, é representada no inconsciente por certas pessoas que possuem as qualidades correspondentes à alma. Esta imagem chama-se imagem da alma. Às vezes, são personagens totalmente desconhecidos ou mitológicos&#8230;” (OC 6 §842).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se podem aparecer como desconhecidos ou mitológicos, não se submetem ao binarismo sexual. E continua: “Uma adaptação consciente ao objeto que representa a imagem da alma é impossível exatamente porque a alma é inconsciente para o sujeito.” (OC 6 §842)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora Jung tenha concebido a <strong>Anima</strong> e o <strong>Animus</strong> como arquétipos ligados à polaridade sexual entre homens e mulheres, é crucial reconhecer que em indivíduos transgênero e homossexuais esses arquétipos podem se vincular a imagens arquetípicas masculinas na <strong>Anima</strong> e femininas no <strong>Animus</strong>. Essa dinâmica complexifica a compreensão tradicional e tensiona leituras heteronormativas, revelando a fluidez e autonomia da psique diante das expectativas sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o ponto essencial seja este: Jung trabalha com imagens, não com etiquetas. Sua psicologia nasce da convicção de que a alma se expressa por símbolos, sonhos, afetos, fantasias, projeções, sintomas, sincronicidades e tensões entre opostos. O uso literal dos pares simbólicos empobrece sua teoria e trai sua lógica interna. Quando <strong>Anima</strong> e <strong>Animus</strong> são tomados como essências fixas, o pensamento enrijece; quando são lidos como funções imaginais de mediação, abrem-se para uma hermenêutica capaz de acolher a pluralidade LGBTQINPA+ sem reduzi-la ao binário.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-persona-e-o-desafio-da-adaptacao-social-entre-a-mascara-e-a-realidade-animica">A Persona e o Desafio da Adaptação Social: Entre a Máscara e a Realidade Anímica</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A reflexão sobre expressão de gênero e alma, sexualidade em Jung ganha densidade quando articulada ao conceito de <strong>Persona</strong>. A <strong>Persona</strong> é a máscara necessária da vida social, que nos permite circular, assumir papéis e responder às demandas coletivas. Mas também pode tornar-se prisão quando exige uma fidelidade que afasta o sujeito de sua verdade interna.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para muitas pessoas LGBTQINPA+, essa tensão é intensa, pois a forma como a sociedade nomeia, regula e interpreta seus corpos e desejos se impõe como regime de legibilidade forçada. A individuação, nesse contexto, não consiste em adequar-se ao repertório normativo, mas em atravessar a <strong>Persona</strong> sem ser capturado por ela — atravessar a aparência social rumo ao chamado interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação não é mera adaptação social nem autoexpressão narcísica. É um processo de diferenciação em direção à totalidade, no qual o sujeito aprende a reconhecer forças inconscientes, integra a <strong>Sombra</strong>, suporta tensões e aproxima-se de uma forma mais inteira de ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung afirma no <em>MSR</em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Quando não puderdes distinguir entre vós próprios, de um lado, a sexualidade e a espiritualidade, de outro [&#8230;], sereis vitimados por eles [&#8230;] manifestações de deuses [&#8230;] muito superiores a vós.” (MSR, p.339–340)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para pessoas LGBTQINPA+, além do conflito universal entre consciência e inconsciente, há a experiência concreta da norma que exclui, da linguagem que delimita e da cultura que hierarquiza. A individuação torna-se travessia histórica, relacional e política.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma releitura emergente da psicologia analítica exige reinterpretações que preservem o valor simbólico sem ignorar limites históricos. Gênero, nesse horizonte, não é essência, mas processo simbólico em formação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ressignificando-normalidade-e-saude-na-psicologia-analitica">Ressignificando “Normalidade” e “Saúde” na Psicologia Analítica</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Butler, ao mostrar a performatividade do gênero, evidencia que a identidade é repetição regulada de atos. Preciado revela a produção técnica, farmacológica e política dos corpos e subjetividades nos regimes sexopolíticos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Butler, sempre há uma dimensão do vivo e do relacional que resiste a ser conhecida — e é justamente essa indeterminação que caracteriza a sexualidade (BUTLER, 2022). Jung, em sintonia, afirma: “A psique não é uma coisa dada, imutável, mas um produto de sua história em marcha.” (OC‑5, Prefácio da 3ª ed.)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ambos fazem uma releitura de Jung sem domesticá-lo. Lembram que a alma habita o corpo, sofre o poder, responde à linguagem e negocia com sistemas de significação. O simbólico não está apartado do político; atravessa as formas concretas da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na experiência trans, em especial, a individuação adquire espessura singular: a tensão entre imagem interna e nomeação externa é vivida de modo agudo, doloroso e criativo. A travessia não se reduz à adequação corporal ou social: envolve reorganizar a economia psíquica, reposicionar a <strong>Persona</strong> e confrontar a <strong>Sombra</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mesmo vale para pessoas homossexuais, lésbicas, bissexuais e <em>queer</em>. A orientação sexual não é estrutura fixa de alma nem indicador de saúde ou desvio. Cada indivíduo é único, complexo e criativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O desejo, em Jung, pertence ao simbólico e não se reduz ao unidimensional. Há autores junguianos que trataram a homossexualidade de forma datada, mas isso não impede leituras mais amplas, nas quais a orientação sexual é forma legítima de configuração do <em>eros</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O risco dos modelos normativos é colonizar a subjetividade. Eles pretendem fixar o que deveria ser fluido, impor coerência onde há multiplicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somos atravessados por deuses que imaginamos ter deixado no passado. Eles se manifestam no desejo, na afetividade, na identidade. Paralelamente, normas socioculturais e algoritmos dos <em>Big Data</em> criam tensões entre adaptação interna e externa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não se trata de retorno ingênuo ao politeísmo grego, mas do reconhecimento de que a alma fala com múltiplas vozes — nem sempre conciliáveis. A Energia Psíquica flui para permitir que essas potências se realizem através de nós, criando aspectos que nem sempre coincidem com a imagem que fazemos de nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica não é patológica; revela a riqueza da vida anímica. Cada força arquetípica reclama expressão e, quando recusada, opera de modo sombrio ou sintomático. A individuação consiste em tecer relações conscientes com essas figuras interiores, sem eleger uma única como regente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-individuacao-tem-por-meta-a-cooperacao-viva-de-todos-os-fatores-oc-11-4-268" style="font-size:18px"><em>“A individuação [&#8230;] tem por meta a cooperação viva de todos os fatores.” (OC 11/4, §268)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Acolher essa polifonia é gesto de coragem e antídoto contra normalizações contemporâneas que reduzem a experiência a diagnósticos e identidades fixas. A singularidade não é dado bruto, mas conquista negociada entre múltiplas vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ignorar essa polifonia gera sofrimento. A individuação busca sustentá-la criativamente, não eliminá-la. Acolher desejo e identidade é o próprio caminho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A orientação sexual deixa de ser algo a justificar e se torna parte do caminho singular pelo qual cada um se torna quem é. Jung reconhece:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nem-toda-libido-se-fixa-numa-forma-regular-resta-sempre-um-quantum-excedente-oc-8-1-91" style="font-size:18px"><em>“Nem toda libido se fixa numa forma regular [&#8230;]. Resta sempre um quantum excedente.” (OC 8/1 §91)</em></h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pluralidade-da-alma-individuacao-e-o-imperativo-etico-da-escuta">A Pluralidade da Alma, Individuação e o Imperativo Ético da Escuta</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação, para sujeitos LGBTQINPA+, exige construir uma vida que não sacrifique a verdade psíquica no altar da conformidade. Implica diferenciar <strong>Persona</strong> e <strong>Self</strong>, reconhecer a <strong>Sombra</strong> produzida pela rejeição social, elaborar imagens internas sem transformá-las em essências aprisionadoras e encontrar pertencimento que não apague singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação não consiste em tornar-se adequado à norma, mas em tornar-se inteiro. Essa inteireza não é homogênea, linear ou binária: é dramática, paradoxal, processual e profundamente humana. A integralidade é sempre imperfeita — e justamente por isso vital.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung escreve:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-da-mesma-forma-que-a-integralidade-e-sempre-imperfeita-a-perfeicao-tambem-e-sempre-incompleta-e-por-isso-constitui-um-estado-final-terrivelmente-esteril-oc-11-4-620" style="font-size:18px"><em>“Da mesma forma que a integralidade é sempre imperfeita, a perfeição também é sempre incompleta e, por isso, constitui um estado final terrivelmente estéril.” (OC 11/4, §620)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sua psicologia recorda que a alma é maior que os conceitos que tentamos usar. Os símbolos não encerram a experiência; a aprofundam. A <strong>Anima</strong> e o <strong>Animus</strong>, compreendidos como mediadores, não aprisionam identidades — revelam que a alteridade habita o interior de todo sujeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>Persona</strong> não define o ser; apenas o apresenta. O <strong>Self</strong> aponta para totalidade em processo. As vidas LGBTQINPA+ não são exceção, mas expressão radical da complexidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação, então, não é ajuste à ordem, mas fidelidade a uma verdade mais profunda. Essa fidelidade pode custar caro — mas é nela que reside a possibilidade de vida simbolicamente plena.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung talvez não tenha dito isso com linguagem de hoje, mas sua psicologia aponta nessa direção: a alma não cabe no catálogo do mundo. Ela desloca, resiste, cria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é nessa criação de si, nessa travessia entre ferida e símbolo, que a individuação se torna, para sujeitos LGBTQINPA+, não apenas possível, mas eticamente necessária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Agradeço ao amigo <a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Perez Salvador</a>, que gentilmente revisou este texto e ofereceu citações e sugestões para que ele fique mais inteiro em sua imperfeição.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perguntas-frequentes"><strong>Perguntas frequentes</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>A alma tem gênero na visão de Jung?</strong> Na psicologia junguiana, a alma não é entendida como gênero fixo, mas como realidade psíquica simbólica. Anima e Animus são imagens arquetípicas de alteridade, não etiquetas biológicas rígidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Jung ajuda a pensar diversidade  expressão de gênero e alma?</strong> Sim. Quando lido de forma simbólica e crítica, Jung oferece ferramentas para refletir sobre subjetividade, identidade, conflito interno e individuação sem reduzir a experiência humana à norma binária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Anima e Animus servem para pessoas não binárias?</strong> Podem servir como referências simbólicas, desde que não sejam usados como categorias fechadas. O importante é ler esses conceitos como funções psíquicas de mediação e transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O que é individuação nesse contexto?</strong> É o processo de tornar-se inteiro, integrando tensões internas, reconhecendo a Sombra e vivendo com fidelidade à verdade psíquica, sem se submeter totalmente às expectativas sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>A psicologia analítica patologiza a diversidade sexual?</strong> Não quando é lida criticamente e em diálogo com a contemporaneidade. Uma abordagem madura reconhece a diversidade sexual e de gênero como expressão legítima da complexidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Conclusão</strong> A individuação, para sujeitos LGBTQINAP+, exige construir uma vida que não sacrifique a verdade psíquica no altar da conformidade. Implica diferenciar Persona e Self, reconhecer a Sombra produzida pela rejeição social, elaborar imagens internas sem transformá-las em essências aprisionadoras e encontrar pertencimento que não apague singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação não consiste em tornar-se adequado à norma, mas em tornar-se inteiro. Essa inteireza não é homogênea, linear ou binária: é dramática, paradoxal, processual e profundamente humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung talvez não tenha dito isso com linguagem de hoje, mas sua psicologia aponta nessa direção: a alma não cabe no catálogo do mundo. Ela desloca, resiste, cria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é nessa criação de si, nessa travessia entre ferida e símbolo, que a individuação se torna, para sujeitos LGBTQINAP+, não apenas possível, mas eticamente necessária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Leia outros artigos do IJEP e conheça nossas formações em psicologia analítica, clínica e pensamento simbólico.</strong></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Violência contra pessoas LGBTQIA+: uma sombra materializada</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/violencia-contra-pessoas-lgbtqia-uma-sombra-materializada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 21:24:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[agressão]]></category>
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		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas. Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pessoas-lgbtqia-tem-280-mais-chances-de-sofrer-algum-tipo-de-agressao-ou-abuso-durante-a-vida-couter-apud-souza-et-al-2022" style="font-size:19px">Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso durante a vida (COUTER apud SOUZA et al, 2022).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas pessoas também apresentam uma tendência maior a quadros depressivos, ideações suicidas e abuso de substâncias. Enquanto por muito tempo se atribuiu esse quadro ao caráter e à individualidade, hoje é possível observar que o preconceito e a discriminação que sofrem na verdade causam, durante o decurso de uma vida, feridas que muitas vezes não cicatrizam. Isso porque recebem a projeção de sombra coletiva, que se materializa na violência implícita e explícita sofrida por essa parte da população.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até hoje perdura uma crença &#8211; que permeia desde mentes individuais, e alguns segmentos da sociedade como a religião e até a ciência &#8211; de que a existência humana no campo afetivo-sexual só pode se dar de forma heterossexual e binária. Apesar de, historicamente, a humanidade apresentar grande diversidade em formas de ser e amar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-registros-historicos-e-mitos-mostram-que-a-homossexualidade-e-a-transexualidade-por-exemplo-existem-desde-que-a-humanidade-surgiu" style="font-size:19px">Registros históricos e mitos mostram que a homossexualidade e a transexualidade, por exemplo, existem desde que a humanidade surgiu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Povos indígenas das Américas, da Ásia e da Oceania apresentavam classes de gênero além do masculino e feminino. Inclusive, alguns tendo uma espécie de terceiro gênero ou denominações específicas para pessoas homossexuais ou transgênero como os Dois-Espíritos na América do Norte, Mahu na Indonésia e Hijra na Índia (ROUGHGARDEN, 2004). Além da conhecida história da homossexualidade na Grécia antiga, chamada de pederastia, que consistia numa espécie de relação tutor-aluno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O todo-poderoso Zeus, por exemplo, teve em Ganimedes um amante, levando-o para o Olimpo. Em outro momento ele e Hera utilizam o pobre profeta Tirésias como instrumento de disputa entre masculino e feminino. Outra figura mitológica que troca de gênero é Caeneus, uma mulher que ao ser violentada por Poseidon pede para se tornar um homem invencível/inviolável (BRANDÃO, 1987).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muito-do-preconceito-contra-pessoas-lgbtqia-se-da-por-serem-pessoas-que-nao-vivem-de-acordo-com-a-norma-ou-com-o-que-se-considerou-por-muito-tempo-a-normalidade" style="font-size:19px">Muito do preconceito contra pessoas LGBTQIA+ se dá por serem pessoas que não vivem de acordo com a norma ou com o que se considerou por muito tempo a normalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas pessoas, por destoarem do que se espera de uma pessoa seja no aspecto afetivo-sexual ou na identidade, sofrem com as projeções de sombra e com a manifestação da síndrome do bode expiatório.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A definição das normas de gênero ganha força no século XVIII com as críticas ao comportamento e a tentativa de criação de uma fronteira rígida entre o que é ser homem e mulher e entre o que é exclusivamente masculino e feminino. Desde então, passa-se a acreditar que certas atividades, vestimentas e costumes são exclusivos do homem ou da mulher, tornando aqueles que não se encaixam no padrão algo a ser corrigido ou eliminado. Isso sendo reforçado dioturnamente pela religião cristã quando falamos de civilização ocidental.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Associa-se então a pessoa que não se encaixa como problemática e essa camada da população passa a receber todo tipo de projeção coletiva, tornando-se o bode expiatório, principalmente em momentos de tensão e instabilidade. De alguma forma atribui-se ao desviado da norma a causa de catástrofes, como punição dos deuses. Isso pois, se entendia que era uma escolha da pessoa e uma afronta a Deus, mesmo que, sabemos hoje, ninguém escolhe ser LGBTQIA+, nasce-se assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-kurt-lewin-denominou-as-parcelas-da-populacao-mais-vulneraveis-aos-dissabores-coletivos-de-minorias-psicologicas" style="font-size:19px"><strong>Kurt Lewin</strong> denominou as parcelas da população mais vulneráveis aos dissabores coletivos de minorias psicológicas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Segundo Lewin, as características de uma minoria psicológica são a ausência de representatividade e autonomia, tendo seu destino coletivo atrelado a outro grupo, não necessariamente menos indivíduos em relação à população em geral, como é o caso das mulheres, por exemplo. Lewin cunhou sua teoria estudando os judeus durante a Primeira e a Segunda Guerra. Ele buscou entender os mecanismos psicológicos por trás da perseguição ao seu povo e as dinâmicas sociais intra e extra grupo (MAILHIOT, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Lewin também identificou que os grupos minoritários tendem a ser alvo de uma agressividade deslocada do grupo dominante ou de uma minoria privilegiada, que manobra as massas para direcionar sua violência a grupos desfavorecidos ou com poucas defesas. Apesar da atitude individual de pessoas ligadas à uma minoria ser usada muitas vezes como justificativa para o preconceito e a discriminação, a psicologia social e a teoria de Lewin apontam que na verdade a questão é coletiva, e muitas vezes não se justifica pelas razões mais comumente apresentadas como motivo de discriminação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maioria-sempre-tem-interesse-em-barrar-a-aquisicao-de-direitos-e-privilegios-pelas-minorias" style="font-size:19px">A maioria sempre tem interesse em barrar a aquisição de direitos e privilégios pelas minorias.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Usando como exemplo os judeus que Lewin estudou, o autor aponta que em 400 anos os motivos de perseguição foram diversos, desde a religião no passado até a um preconceito baseado em teorias racistas com o advento do nazismo. Ele também aponta que é uma ilusão dos minoritários acreditarem que se forem bem-sucedidos serão aceitos pela maioria, na verdade, em momentos de crise serão os primeiros a serem perseguidos. Pode-se observar esse fenômeno também em relação às mulheres, que foram queimadas por anos em fogueiras, numa clara perseguição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O fenômeno do <strong>bode expiatório</strong> consiste em identificar pessoas ou grupos como causadores do mal ou de delitos, responsabilizá-los por isso e expulsá-los da vida comunitária, negar direitos e às vezes até a própria humanidade, a fim de proporcionar ao restante da comunidade um sentimento de inculpabilidade e reconciliação com padrões coletivos. Proporciona aos membros da comunidade a sensação de segurança e de perfeição, uma certa identificação com o padrão divino e com o que é “correto”, tudo o que não se encaixa nesse padrão é taxado como demoníaco, no entanto, apenas atua como forma de negação da sombra, uma das maneiras mais conhecidas de se livrar da culpa, é criando bodes expiatórios (KAST, 2022; PERERA, 1991).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A população <strong>LGBTQIA+</strong> não é diferente. Assim como dito acima, pessoas assim existem desde sempre, porém, a relação da maioria para com elas é que se transforma. &nbsp;O que era punido por ser pecado, passa a ser crime e depois doença.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Para Jung: &nbsp;</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Sentimo-nos satisfeitos porque a pessoa perversa cometeu o crime por nós. Este é o sentido profundo de Cristo, enquanto redentor, ter sido crucificado entre dois ladrões; eles também, à sua maneira, eram redentores da humanidade, eram os bodes expiatórios (JUNG, 2015a, §210).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-que-e-mau-e-inferior-que-nao-queremos-reconhecer-em-nos-mesmos-atribuimos-aos-outros-jung-2013b" style="font-size:19px">Tudo que é mau e inferior, que não queremos reconhecer em nós mesmos, atribuímos aos outros (JUNG, 2013b)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A negação da sombra na situação do bode expiatório é um desafio, pois o sacrifício ou a exclusão de tal figura representa a tentativa de controle do homem perante a natureza e as intempéries divinas, ao mesmo tempo que o adverte da sua impotência e desamparo. Para Jung (2016, §44) “<em>Preferem inventar o mundo heroico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-atualidade-essa-realidade-tem-entre-tropecos-avancado-na-maioria-dos-paises-do-mundo" style="font-size:19px">Na atualidade essa realidade tem, entre tropeços, avançado na maioria dos países do mundo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A OMS (Organização Mundial da Saúde), APA (Associação Americana de Psiquiatria), CFP (Conselho Federal de Psicologia) e CFM (Conselho Federal de Medicina) deixaram de categorizar a homossexualidade e a transexualidade como doenças, abrindo espaço para a inclusão e a aquisição de direitos, trazendo visibilidade à população. No entanto, não faltam violências reais e simbólicas contra esse grupo, como as malfadadas terapias de conversão praticadas por igrejas e estabelecimentos de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ainda paira na sociedade e, infelizmente parece estar em ascensão, a crença de que a não normatividade é a causa das mais diversas mazelas sociais e econômicas, com base em moralismos vazios e fazendo com que indivíduos se sintam à vontade para bradar impropérios dos mais absurdos contra a população LGBTQIA+ sem qualquer consequência. Esses discursos validam e dão coragem para ação a indivíduos praticarem violências, assassinatos, discriminações e outras agressões contra essa população, acreditando estarem em seu direito de maioria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além dos ataques aos indivíduos por meio de violências e até assassinatos, coletivamente há uma inércia legislativa na consolidação dos direitos, no entanto, para revogá-los há uma certa celeridade. Sugiro uma pesquisa sobre iniciativas legislativas em revogar o direito à constituição familiar entre pessoas do mesmo gênero, afirmação de gênero entre outros. Observe, por exemplo, as iniciativas do presidente <strong>Donald Trump</strong> para a finalização dos programas de diversidade e inclusão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por anos e anos foram negados os mais diversos acessos às pessoas por discriminação de gênero e sexualidade e, quando esse quadro começa a mudar na primeira crise os direitos são revogados. Isso não se aplica somente à população LGBTQIA+, mas a todas as minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-pode-esquecer-o-inconsciente-de-uma-pessoa-ou-grupo-se-projeta-sobre-outra-s-pessoa-s-isto-e-aquilo-que-alguem-nao-ve-em-si-mesmo-passa-a-censurar-no-outro" style="font-size:19px">Não se pode esquecer: o inconsciente de uma pessoa (ou grupo) se <strong>projeta</strong> sobre outra(s) pessoa(s), isto é, aquilo que alguém não vê em si mesmo, passa a censurar no outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este princípio tem uma validade geral tão impressionante que seria bom se todos, antes de criticar os outros, se sentassem e ponderassem cuidadosamente se a carapuça que querem enfiar na cabeça do outro não é aquela que se ajusta perfeitamente a eles (Cf. JUNG, 2013b).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-ultimo-gostaria-de-trazer-a-musica-geni-e-o-zepelim-de-chico-buarque-para-essa-conversa" style="font-size:19px"><strong>Por último, gostaria de trazer a música Geni e o Zepelim de Chico Buarque para essa conversa</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na sua genialidade, Chico traduz a dinâmica do bode expiatório na figura da sofrida Geni. Não sabemos ao certo quem é Geni, apenas que é uma marginalizada pela sociedade. Geni está sempre entre os excluídos e sofre diariamente agressões da sociedade em que está inserida, até o momento de crise em que é apresentada ao sacrifício, e, na vã esperança de talvez ser posteriormente aceita, aceita se sacrificar para salvar àqueles que sempre a condenaram. O destino de Geni nunca está, nem esteve em suas mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir do momento em que a maioria se vê de joelhos diante de um algoz e seu destino depende daquela que tanto desprezaram, imploram por sua misericórdia. Geni, com sua inclinação de acolher os excluídos acaba cedendo aos apelos e, mais uma vez, sofre as mais diversas violências, como sacrifício. No entanto, ao retornar, volta a ser discriminada e agredida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-pessoas-lgbtqia-causam-medo-pois-confrontam-pessoas-com-a-liberdade-individual-apresentada-pelo-self-de-maneira-simbolica" style="font-size:19px">As pessoas LGBTQIA+ causam medo, pois confrontam pessoas com a liberdade individual, apresentada pelo Self de maneira simbólica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">De alguma forma questionam o monoteísmo do ego, que se sente desafiado quando a diversidade questiona suas certezas e descobertas, baseadas nos valores dominantes das maiorias psicológicas e das minorias privilegiadas. Cada assassinato, suicídio ou agressão a uma pessoa LGBTQIA+ é uma tentativa de negação da diversidade humana no agressor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">As minorias privilegiadas jamais renunciarão a seus privilégios em detrimento dos direitos de qualquer outro grupo, e, infelizmente, manipulam a massa mantendo-a na inconsciência de seu lugar enquanto atacam as minorias indefesas. Massa essa que tem as mãos sujas de sangue, como executora indireta de um crime.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Angelo Soave Junior – Analista Didata em formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia-e-referencias" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia e Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega v. III. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRUPO GAY DA BAHIA.<em> Mortes violentas de LGBT no Brasil em 2024. </em>Acesso em 01 dez de 2025.Disponível em:&nbsp;<a href="https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/">https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl G. <em>A prática da psicoterapia</em>/ O.C. 16/1<em>. </em>Petropólis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Civilização em Transição/ </em>O. C. 10/3<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>______ </strong><em>A vida simbólica: escritos diversos/ </em>O.C 18/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2015a</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>______ </strong><em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo </em>O.C 9/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: viva a sua própria vida. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAIHIOT, G. B. <em>Dinâmica e gênese dos grupos:</em>&nbsp; Atualidade das descobertas de Kurt Lewin. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PERERA, Sylvia Brinton. O complexo de bode expiatório, Rumo a uma Mitologia da Sombra e da Culpa. São Paulo: Cultrix, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ROUGHGARDEN, Joan. <em>Evolução do Gênero e da Sexualidade</em>. Tradução: Maria Edna Tenório Nunes. Londrina: Editora Planta, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SOAVE JUNIOR. M. A. A<em> arteterapia como ferramenta para o enfrentamento dos efeitos do estresse de minoria em pessoas LGBTQIA+</em>. Monografia de Formação de Membro Analista do IJEP. Brasília, 2024. Disponível em <a href="https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia">https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">SOUZA et al. Desfechos negativos em saúde mental de minorias de sexo e de gênero: uma análise comportamental a partir da teoria do estresse de minorias. <em>Revista Perspectivas</em>. Ed. Especial: Estresse de Minorias pp.069-085. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</strong>: Matrículas abertas &#8211; <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="http://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png" alt="" class="wp-image-11969" style="aspect-ratio:0.7998077385243931;width:485px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png 819w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-240x300.png 240w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-768x960.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-150x188.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-450x563.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1.png 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" /></a></figure>
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			</item>
		<item>
		<title>As possíveis origens psíquicas da homofobia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/as-possiveis-origens-psiquicas-da-homofobia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Dec 2025 12:45:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo discute quais seriam as possíveis causas da homofobia. Desejo reprimido, expectativas sociais, medo do desconhecido. Afinal, o que leva uma pessoa a apresentar aversão a algo que, a princípio, nem lhe diz respeito? Causas psíquicas e sociais podem estar em jogo num tema que é complexo e polêmico.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo discute quais seriam as possíveis causas da homofobia. Desejo reprimido, expectativas sociais, medo do desconhecido. Afinal, o que leva uma pessoa a apresentar aversão a algo que, a princípio, nem lhe diz respeito? Causas psíquicas e sociais podem estar em jogo num tema que é complexo e polêmico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Recentemente viralizou o vídeo de uma jovem propondo que ela sabia a causa da homofobia. Segundo ela, a homofobia é um sinal de uma bissexualidade reprimida pois apenas uma pessoa que sente atração por ambos os sexos poderia acreditar que sexualidade é uma opção e que homossexuais estão escolhendo a “opção errada”. A proposição é certamente interessante, mas há algum mérito nessa afirmação?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A tese de que a homofobia é uma espécie de desejo reprimido do indivíduo é antiga. Sua base provavelmente encontra-se numa leitura popular da lógica do recalque do desejo de Freud. Do ponto de vista junguiano poderíamos dizer que, nesse caso, seria o resultado de um desejo sombrio, não integrado a consciência, se manifestando de maneira agressiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa tese é tão popular que psicólogos experimentais decidiram colocá-la a prova. Em 1996, um grupo de pesquisadoras da Universidade da Georgia, nos EUA, criou um experimento para tentar averiguar se havia uma correlação entre homofobia e desejo homossexual não declarado. &nbsp;Para isso, os pesquisadores recrutaram homens a partir de um único critério, ser heterossexual. Após aplicar um questionário para averiguar a atitude desses homens a homens homossexuais os pesquisadores os dividiram em dois grupos, um de homofóbicos e um de não homofóbicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A seguir todos passaram por um teste. Inicialmente um aparelho chamado pletismógrafo foi fixado ao pênis dos participantes para indicar seu estado (excitado ou não). Em seguida era apresentado a esses homens três vídeos eróticos, primeiramente um de sexo heterossexual, depois um vídeo de sexo lésbico e finalmente um de sexo homossexual e foi medido se os vídeos causavam excitação nos participantes. O resultado? O grupo dos homofóbicos apresentou um índice maior de atividade no pletismógrafo ao assistir o vídeo homossexual do que o grupo não homofóbico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Aparentemente, a jovem estava certa em sua tese. Aliás, esse estudo se tornou um clássico usado para afirmar que a homofobia na realidade consiste em uma resposta defensiva a um desejo com o qual a consciência não consegue lidar. Entretanto a realidade é um pouco mais complexa do que isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Primeiramente porque o método foi questionado. Alguns pesquisadores levantaram objeções sobre o uso da pletismografia como método indicador de excitação sexual, tanto pela limitação do dado aferido em representar um estado fisiológico complexo, como porque outras reações emocionais e fisiológicas poderiam influenciar o resultado. Além disso, também é importante questionar se excitação, ereção e desejo, são sempre sinônimos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Outro dado importante a ser pensado está no estudo em si. Apesar de mais homens do grupo homofóbico terem apresentado respostas ao vídeo de sexo gay, não foram todos que apresentaram excitação. Ademais, no grupo não homofóbico alguns homens também apresentaram excitação com o vídeo gay. Em suma, mesmo que o estudo seja válido, ele não apresenta uma explicação válida para todos os casos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">De qualquer forma é interessante considerar que, pelo menos para uma parte dos casos de homofobia. É possível que um desejo erótico reprimido esteja causando esse tipo de reação, um desejo sombrio, não reconhecido e nem integrado à consciência.&nbsp; Esse desejo reprimido seria capaz de se expressar como um monstro, um ser que carrega uma sexualidade distorcida, que é projetado no outro que acaba se tornando objeto de repulsa. Essa tese certamente tem o valor de explicar por que certas pessoas homofóbicas, algumas notórias figuras públicas inclusive, possuem uma fixação tão grande em sexo homossexual, especialmente o que diz respeito a pessoas do próprio gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma outra tese levantada, essa mais difícil de avaliar num contexto experimental, é de que a questão não é sobre desejo, é sobre reagir negativamente a pessoas se comportando fora da norma de gênero esperada. Em termos da psicologia analítica, a homofobia seria uma reação violenta a uma suposta inadequação percebida na persona dos homossexuais, pois essa não corresponderia a seu gênero.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-obviamente-podemos-nos-perguntar-por-que-isso-mobilizaria-tanto-uma-pessoa" style="font-size:19px"><strong>Obviamente podemos nos perguntar por que isso mobilizaria tanto uma pessoa?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse caso, podemos imaginar que há conteúdo sombrio em jogo também. Jung vai propor que todos apresentamos aspectos do que ele chama de masculino e feminino. Uma pessoa que se irrita ao ver alguém fora de seu papel de gênero pode estar projetando no outro o medo que tem de entrar em contato com os elementos do gênero oposto em sua própria psique. Novamente aqui podemos ver como um conteúdo sombrio, não aceito pela consciência, é projetado no outro. Mais uma vez a incapacidade de lidar com elementos de si próprio acaba gerando a homofobia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma terceira teoria propõe que a homofobia seria fruto da estranheza que a condição homossexual causa em pessoas que não convivem com esse grupo. Uma espécie de medo do desconhecido que geraria uma resposta agressiva. Nessa tese a projeção sombria seria mais difusa, digamos. O homossexual seria uma espécie de estranho e qualquer conteúdo não reconhecido poderia ser imputado a essas pessoas. Ou seja, o homossexual vira o bode expiatório daquilo que não se quer reconhecer em si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Aqui talvez possamos dar sentido psicológico a certas loucuras que alguns religiosos extremistas dizem, como que os homossexuais são responsáveis por desastres naturais ao terem evocado a fúria divina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Observando as três teses anteriores é fácil notar que todas explicam a homofobia a partir de um viés individual, o que certamente é interessante se considerarmos o contexto da clínica, mas que talvez perca um pouco do entendimento do cenário social do fenômeno. Num contexto mais amplo as coisas certamente mudam de lugar. A homofobia, de um ponto de vista mais social, não pode ser entendida como fenômeno ligado meramente ao indivíduo, mas também não pode ser separado da análise psicológica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Um dos elementos fundamentais para entendermos a homofobia é que algumas das figuras públicas que se posicionam de maneira mais agressiva contra homossexuais talvez não estejam representadas psicologicamente em nenhuma das teses citadas anteriormente para explicar o fenômeno. A verdade é que muitos homofóbicos, na realidade, não se afetam com a presença de homossexuais. É um subgrupo que, na realidade não é psicologicamente homofóbico, mas adota o discurso da homofobia de maneira conveniente e perversa para auferir ganhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Há muito se sabe que uma maneira de unir pessoas é dar a elas um inimigo em comum. A comunidade homossexual tem sido há muito tempo esse inimigo fantasioso, transformada em bode expiatório por líderes inescrupulosos que, na ausência de um pânico moral, não conseguiriam manipular seus seguidores.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas lideranças oportunistas se valem do fato de que muitos de seus seguidores já são homofóbicos por conta do que foi dito anteriormente (desejos reprimidos, expectativas de gênero e estranhamento do outro).&nbsp; Esse grupo de pessoas é manipulado por esses líderes e sua aversão aos homossexuais é amplificada por meio de discursos de ódio inflamados e uma retórica falaciosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir daí, o <strong>contágio psíquico</strong> se instala e a homofobia se torna um assunto de importância que mobiliza pessoas que antes nunca teriam se importado com esse tema. Na análise, quando encontramos a homofobia, é necessário reconhecer também essa dimensão: a de que para muitos, o discurso não diz respeito a seu funcionamento mais íntimo, mas está ligado ao pertencimento a um grupo e a valores que são absorvidos de maneira irrefletida e inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seja-qual-for-a-causa-da-homofobia-ha-um-fator-que-um-estudo-de-2008-observou-que-talvez-torne-a-discussao-mais-frutifera" style="font-size:19px"><strong>Seja qual for a causa da homofobia, há um fator que um estudo de 2008 observou que talvez torne a discussão mais frutífera.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Um grupo de pesquisadores da Universidade de Miami e da Universidade do Michigan aplicaram questionários a estudantes das referidas universidades além do teste psicológico conhecido como Big Five, que avalia cinco traços de personalidade. O estudo encontrou uma correlação negativa entre o traço de abertura à experiência e homofobia. Ou seja, quando menos disposta a pessoa era a experimentar coisas novas e considerar novas possibilidades mais homofóbica ela tendia a ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse achado é completamente compatível com o discutido anteriormente. Uma pessoa menos disponível para o novo também é menos disponível para o novo em si, para conteúdos ainda não reconhecidos em sua própria psique. Ou seja, quanto menos abertura, mais difícil será entrar em contato com a própria sombra e integrar alguma parte dela. Sobra então mais conteúdo disponível para ser projetado no outro. A maior rigidez psíquica também torna o indivíduo mais disponível para ser manipulado, caso o discurso de quem o manipula esteja alinhado com sua visão de mundo já pré-estabelecida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Concluindo, a homofobia é um fenômeno bastante complexo, e por mais tentador que seja, não é possível explicá-la somente pela via do desejo reprimido. Há mais fatores em jogo que precisam ser consideradas se queremos compreender o que acontece a um indivíduo homofóbico, especialmente se estivermos em um contexto clínico.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: As possíveis origens psíquicas da homofobia" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/aPCCaxtAxik?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gabriel/">Gabriel Andrade – Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ADAMS, Henry E.; WRIGHT, Lester W. Jr.; LOHR, Bethany A. Is Homophobia Associated With Homosexual Arousal? Journal of Abnormal Psychology, [S.l.], v. 105, n. 3, p. 440-445, 1996</p>



<p class="wp-block-paragraph">CULLEN, Jenifer M.; WRIGHT, Lester W. Jr.; ALESSANDRI, Michael. The Personality Variable Openness to Experience as It Relates to Homophobia. Journal of Homosexuality, [S.l.], v. 42, n. 4, p. 119-134, 2002</p>



<p class="wp-block-paragraph">WAIDZUNAS, Tom; EPSTEIN, Steven. ‘For men arousal is orientation’: Bodily truthing, technosexual scripts, and the materialization of sexualities through the phallometric test. Social Studies of Science, [S.l.], p. 1-27, 2015</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>O Código Hays, vergonha e Orgulho LGBT</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-codigo-hays-vergonha-e-orgulho-lgbt/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Aug 2025 19:01:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Esse artigo visa explorar como o Código Hays, um conjunto de regras de cunho moral que vigorou nos estúdios de Hollywood no século XX, criou um jeito de representar pessoas fora das normas de gênero e sexualidade e como isso se relaciona com a ideia de Orgulho LGBTQIA+. A imagem que ilustra esse artigo é um fotograma do filme Diferente dos Outros (Anders als die Andern no original em alemão), de 1919, considerado o primeiro filme de temática LGBT do mundo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-ultimas-duas-decadas-houve-uma-mudanca-de-paradigma-quanto-a-representacao-de-minorias-na-midia" style="font-size:19px">Nas últimas duas décadas houve uma mudança de paradigma quanto a representação de minorias na mídia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Se antes havia uma expectativa muito clara sobre que tipo de pessoas e corpos eram aceitáveis numa grande produção de cinema e de TV, hoje esse local está em disputa. Debates sobre representatividade tem ganhado espaço onde antes havia apenas hegemonia e os mais diversos grupos iniciaram debates sobre a representação de determinadas populações para o grande público. Pessoas negras, pessoas obesas, PCDs, mulheres e a população LGBTQIA+, dentre outros, começaram a discutir como e quando eram representados em filmes e séries de TV. Não bastava mais ser representado em papéis de subalternidade ou alívio cômico, começavam a surgir em maior volume, protagonistas que não se encaixavam nos antigos estereótipos da máquina de entretenimento norte-americana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Obviamente, essa mudança tem sido o centro de um debate acalorado, desvelando o fato por trás da narrativa: representação na mídia não é só uma questão de ver alguém como você nas telas de cinema, faz parte de um projeto político e cultural. Há uma disputa de poder nas histórias e imagens às quais somos expostos, é o que hoje chamamos <em>soft power</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mas manipular o que e quem pode aparecer na mídia não é novidade, na realidade, remonta à época em que Hollywood estava se estruturando como epicentro do poderio midiático dos EUA. Exemplo claro desse tipo de conduta foi o código Hays, nome coloquial dado ao Código de Produção de Filmes da Motion Picture Association (MPA), uma entidade formada pelas empresas de produção de cinema de Hollywood.&nbsp; A MPA foi fundada em 1922 para viabilizar e regulamentar a crescente indústria do cinema e 1934 essa, sob direção do político Wll H. Hays, lança a primeira versão do seu código de conduta para cinema.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-codigo-hays-surge-com-um-proposito-claro-moralizar-hollywood" style="font-size:19px">O Código Hays surge com um propósito claro: moralizar Hollywood.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na década de 1920 crescia nos EUA a impressão de que a indústria do cinema era uma força corruptora da moral. Uma série de escândalos e batalhas legais sobre censura levaram à formação da MPA, com o intuito de ser uma instituição de autorregulação, ou seja, os próprios estúdios se imporiam um código de conduta moral para evitar que o estado o fizesse.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo o código: “<em>Nenhum filme que baixe os padrões morais de quem o assiste deverá ser produzido. Portanto, a simpatia do público nunca deve estar do lado do crime, do mal, da injustiça ou do pecado</em>.” Ou seja, para os reguladores, havia temas que não poderiam ser representados, ou se o fossem, deveriam ser feitos de tal maneira que não “<em>baixassem os padrões morais</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Vários eram as atitudes que o código regulamentava, como por exemplo, a forma que casamento e extraconjugalidade eram representados (deveria sempre se demonstrar que o casamento era sagrado e benéfico). Também era vetada a representação de “miscigenação” e casamentos interraciais, escravidão de pessoas brancas, uso e tráfico de drogas e qualquer tipo de nudez que fosse considerada “sugestiva”. Outros temas como prostituição e atos criminosos poderiam ser representados com cautela, considerando sempre que &#8220;ao longo da obra, o mal e o bem nunca devem ser confundidos, e o mal deve sempre ser claramente reconhecido como mal”. Ou seja, o código também propunha uma visão maniqueísta, dicotômica: não há espaço para se representar complexidade, nuance ou ambiguidade moral, mocinhos são sempre mocinhos, vilões são sempre vilões.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-publicacao-do-codigo-hays-teve-impacto-imediato-em-como-se-produzia-cinema" style="font-size:19px">A publicação do Código Hays teve impacto imediato em como se produzia cinema.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O livro <em>The Celluloid Closet</em> (O Armário de Celulóide – sem tradução para o português), do historiador Vitor Russo, narra como a imagem da homossexualidade no cinema foi transformada pelo guia da MPA.&nbsp; A regras tornavam a criação de qualquer personagem que desviasse das normas de gênero e sexualidade praticamente impossível, salvo uma exceção, poderiam aparecer caso fossem retratados do lado do mal. Ou seja, seriam sempre vilões, seus comparsas ou figuras moralmente reprováveis. Ademais, era sugerido o filme deveria encerrar deixando claro o destino trágico desses personagens, seja morrendo, sendo preso ou retratado em clara decadência. O objetivo dessas normas é certo, deixar evidente ao espectador que certas formas de ser só podem levar a tragédia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A partir daí surgem dois fenômenos em Hollywood, o primeiro é o <em><strong>queer coding</strong></em>, a criação de personagens que, mesmo quando não são descritos explicitamente como LGBTs, podem ser assim entendidos por conta de seus trejeitos, roupas e &nbsp;modo de falar, fica inferida sua natureza “desviante”. O segundo foi a criação da tradição de se criar vilões através do <em>queer coding</em>. Essa tradição vai, inclusive, sobreviver ao Código Hays.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Após uma série de pressões da própria indústria e por influência de produções estrangeiras, especialmente europeias, que não estavam restritas por essas amarras, a MPA vai, primeiramente, afrouxar suas regras para depois abandonar completamente seu guia em favor do sistema de classificação indicativa (similar ao que é utilizado hoje no Brasil). É interessante notar que o Código Hays vai ser abandonado oficialmente em 1968, um ano antes do levante de Stonewall de 1969, que, apesar de não ser a primeira revolta do tipo, fica marcado como data de fundação do movimento LGBT.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-dito-anteriormente-a-tradicao-de-usar-personagens-queer-coded-para-representar-viloes-ganhou-forca-propria-e-continuou-a-ser-usada-mesmo-apos-o-fim-das-proibicoes" style="font-size:19px">Como dito anteriormente, a tradição de usar personagens <em>queer coded </em>para representar vilões ganhou força própria e continuou a ser usada mesmo após o fim das proibições.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Os exemplos recentes mais notáveis são os que vem de desenhos animados, talvez porque nesse recorte, os elementos do Código Hays tenham perdurado como uma espécie de garantia de que o material seria moralmente aceitável. Só entre os vilões da Disney é possível encontrar uma grande quantidade de vilões queer coded: Scar (o Rei Leão), Governador Ratcliffe (Pocahontas), Jafar (Alladin), Capitão Gancho (Peter Pan), Hades, (Hercules). Dr. Facilier (A Princesa e o Sapo), Malévola (A Bela Adormecida) e Ursula (Pequena Sereia). Todos esses são citados como vilões que, apesar de nunca dito de forma explícita, carregam características associadas a comunidade LGBT: formas de falar, trejeitos, roupas. Ursula inclusive, é notório, foi diretamente inspirada na Drag Queen Divine.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mas não só no cinema infantil encontramos exemplos: Bruno Anthony (Pacto Sinistro – 1951), Norman Bates (Psicose – 1960), Dr. Robert Elliot (Vestida para Matar – 1980), Catherine Tramell (Instinto Selvagem – 1992), Príncipe Edward (Coração Valente – 1955), Xerxes (300 – 2007). É possível perceber que há exemplos da época do código, mas que mesmo depois de sua queda ainda temos muitos vilões sendo criados dessa maneira.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-principio-nao-ha-nenhum-problema-em-que-pessoas-lgbt-sejam-representadas-como-viloes-afinal-ser-parte-de-um-grupo-minoritario-nao-pode-ser-entendido-como-sinonimo-de-virtude-o-problema-esta-no-recorte-da-realidade-feito-pela-mpa-onde-o-unico-lugar-que-personagens-lgbt-poderiam-figurar-era-nesses-papeis" style="font-size:19px">A princípio, não há nenhum problema em que pessoas LGBT sejam representadas como vilões, afinal, ser parte de um grupo minoritário não pode ser entendido como sinônimo de virtude. O problema está no recorte da realidade feito pela MPA, onde o único lugar que personagens LGBT poderiam figurar, era nesses papéis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quando separamos a realidade em duas esferas distintas, separadas, bom versus mal, sem espaço para nuances, complexidades e contradições temos uma consequência óbvia, projeção sombria. Se alguém é o representante do bem, há de haver um representante do mal, torna-se fácil negar a própria sombra e projetá-la no outro, desviando o olhar que deveria se voltar para si, para fora, para aquele que representa o que não presta. Eis aqui o problema que o <strong>Código Hays</strong> e os vilões <em>queer coded</em> criaram em Hollywood, um imaginário coletivo que associava direta e repetidamente comportamento que desviava das normas de gênero a falta de caráter e vilania. Reforça-se, então, a desumanização do outro, já não se é humano, se é algo menos que isso, visto que, quando aparece nos filmes, está sempre a praticar maldades ou se comportar de maneira imoral.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-tipo-de-representacao-impacta-diretamente-na-forma-que-o-grupo-representado-e-tratado-na-sociedade-amplificando-dinamicas-de-exclusao-e-violencia-ja-estabelecidas" style="font-size:19px">Esse tipo de representação impacta diretamente na forma que o grupo representado é tratado na sociedade, amplificando dinâmicas de exclusão e violência já estabelecidas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É fácil observar que tornar um grupo uma caricatura de humanidade (seja o vilanizando ou o transformando em alívio cômico) deforma a comportamento do grupo majoritário, tornando-o mais preconceituoso. Mas e o que acontece com o grupo representado, nesse caso, pessoas LGBT? Imagine uma pessoa que em seus anos formativos é exposta majoritariamente a personagens bem encaixados na norma cis hetero, as poucas exceções que aparecem ocupam o lugar do antagonista, do mal, daquilo que, ao final, é derrotado. Essa criança cresce e lentamente começa a se perceber diferente (muitas vezes sozinha, mas também porque é apontada como diferente pelos outros). Vai gradualmente identificando que, sua estranheza ressoa com a estranheza desses personagens, vilões, o mal. Como fica a saga do herói quando lhe contam desde cedo que seu destino é ser vilão?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Obviamente, essa relação com a indústria cultural é só um dos elementos de repressão que uma pessoa LGBT encontra no caminho e não é um determinante singular de sua experiência, mas usando o vilão como metáfora e como as pessoas lidam com essa temática pode ser revelador de como se lida com a lógica da exclusão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-das-formas-dessa-expressao-e-a-identificacao-com-a-figura-do-vilao" style="font-size:19px">Uma das formas dessa expressão é a identificação com a figura do vilão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A pessoa que foi sempre colocada à margem, devolve a violência diretamente, geralmente tornando-se o comentador ácido da vida do outro, apontado a falta na narrativa dos outros, demonstrando que o mal e o patético que lhe imputam está presente em todos, devolvendo o desconforto a quem lhe oprime. Aqui vale falar do estereótipo da bicha má, degredada pelos outros, mas extremamente rápida em dar uma resposta desconcertante que gera reação imediata, riso ou raiva. É uma maneira de lidar com a agressividade do meio, mas cobra um preço caro: re-identifica o indivíduo com seu papel de proscrito e cria um muro de proteção de difícil transposição, podendo isolar a pessoa de relações mais sinceras e afetivas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outra-opcao-e-a-da-negacao-total-do-lugar-do-vilao-aqui-surge-o-que-muitas-vezes-e-chamado-no-meio-lgbt-de-chaveirinho-de-hetero" style="font-size:19px"><strong>Outra opção é a da negação total do lugar do vilão</strong>. Aqui surge o que muitas vezes é chamado no meio LGBT de “chaveirinho de hetero”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A pessoa que tenta, a qualquer custo, se desintensificar de qualquer valor, estética ou símbolo que a associe a seus pares “queer” e tenta de toda maneira se inserir no universo simbólico normativo. Podem ser vistos fazendo discursos moralistas, atacando qualquer tipo de expressão que rompa com a normatividade de gênero e fazendo falas de terror moral. O medo de ser o vilão, de ser o proscrito, é tão aterrador para esse indivíduo que ele prefere renunciar a sua subjetividade e da relação com seus pares para se sentir, minimamente, integrado ao mundo “normal”. Parece desnecessário falar que essa dinâmica de sujeição não resulta em uma vida muito saudável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Outra expressão é a de brincar com a figura do vilão. Absorver o absurdo de ser um proscrito em si e devolver ao mundo de outra maneira, escancarando a violência como arte. É o lugar da drag queen, do humorista, de quem transforma tragédia em riso. Aqui a estranheza pode ser celebrada, cantada, transformada em algo desejável. Nessa expressão, a potência criativa do inconsciente pode ser acessada pela pessoa e mudar relações no mundo tanto externo quanto interno. O artista abre portas de transformação para si e para os outros, quebra a fôrma dura do que é permitido e do que é proibido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Há ainda a posição de quem reescreva a história do vilão, quem decide mostrar o outro lado da história, quem não aceita a dinâmica preto-no-branco e busca reintegrar as partes. Aqui quem luta por direitos, conta as histórias da comunidade, denuncia, escancara o preconceito faz suas batalhas. Essa também é uma postura da arte, das potências criativas do inconsciente, mas aqui não se faz da tragédia riso, aqui conta-se a tragédia como ela é. Essa é a busca de recontar a história para sanar a neurose coletiva. Resgatar a humanidade e a dignidade que lhes foram negadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Faz-se necessário agora voltar à segunda parte do título do artigo: vergonha e Orgulho LBGT. Fica claro que, mesmo quando a figura do vilão é imposta sobre o indivíduo há diferentes posturas possíveis para se lidar com esse papel e aqui o tal do Orgulho faz toda a diferença.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É importante frisar que Orgulho LGBT (que é aqui grafado com O maiúsculo por um motivo) é diferente do orgulho, pecado capital cristão. Geralmente quando pensamos em orgulho pensamos no pecado do excesso de si, da hubris, da falta de humildade ou modéstia. Mas não é nessa acepção que o termo Orgulho LGBT se encaixa. Orgulho aqui surge como a antítese da vergonha: como a postura de quem se recusa a ser diminuído ou destratado por sua natureza. Orgulho nessa acepção se opõe a necessidade de se esconder para sobreviver, ao medo, a angústia do não-pertencimento. Orgulho como recusa a ser transformado em ser abjeto, menos que humano, caricatura de gente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">E esse Orgulho é um dos elementos que tornam diferente a expressão do “local do vilão” nas pessoas LGBT. O que difere “bichas más” e “chaveirinhos” de artistas e militantes é poder se Orgulhar de quem se é. Para quem pode se assenhorar de si com Orgulho, na busca de exorcizar a vergonha, é possível entrar em contato com as camadas mais profundas de si, encontrar o potencial criativo em si e devolver ao mundo algo mais interessante do que recebeu, no seu Orgulho de se ser quem é, executar uma verdadeira operação alquímica. Se há uma polarização entre aceitar plenamente o papel do proscrito imposta socialmente e negá-lo completamente, negando que essas violências existem; o Orgulho LGBT surge como terceira via, função transcendente, fruto da criatividade psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É interessante notar como posturas morais e formas de representar pessoas atravessam o tempo. O Código Hays foi criado há mais de 90 anos, abolido há quase 60 anos, e ainda assim, a moralidade de seu tempo ainda ecoa em nossas vidas. Na análise (de qualquer pessoal, mas especialmente de grupos marginalizados), precisamos abrir espaço para superar essas representações enviesadas e limitantes, dar espaço ao Orgulho do analisando, para que, afastado da vergonha e das limitações do discurso hegemônico, possa criar para si uma forma de ser mais interessante, mais alinhada com o Self e respeitosa com natureza de cada um.</p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gabriel/">Gabriel Andrade &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



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		<item>
		<title>O Armário como símbolo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-armario-como-simbolo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jul 2024 19:17:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[armário]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[lgbtgia+]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na visão junguiana, símbolo é a melhor representação possível de alguma coisa que jamais poderá ser conhecida plenamente. No entanto, isso não significa que não possamos estudar um símbolo, buscar entender como ele se relaciona com o mundo ao nosso redor e com nós mesmos, mesmo sabendo que nossa tarefa nunca será completa. Nesse ensaio busco exatamente isso, costurar fatos e visões sobre um símbolo, o armário, mas não qualquer armário, o armário LGBTQIA+, aquele que fala de uma certa vergonha e de um certo orgulho. Não espero aqui esgotar o que pode ser dito sobre o tema, nem contemplar todas as possibilidades e vivências possíveis nesse universo. Mas espero ampliar a visão sobre um símbolo que dá conta de uma vivência muito particular das minorias de gênero e sexualidade.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Na visão junguiana, símbolo é a melhor representação possível de alguma coisa que jamais poderá ser conhecida plenamente. No entanto, isso não significa que não possamos estudar um símbolo, buscar entender como ele se relaciona com o mundo ao nosso redor e com nós mesmos, mesmo sabendo que nossa tarefa nunca será completa. Nesse ensaio busco exatamente isso, costurar fatos e visões sobre um símbolo, o armário, mas não qualquer armário, o armário LGBTQIA+, aquele que fala de uma certa vergonha e de um certo orgulho. Não espero aqui esgotar o que pode ser dito sobre o tema, nem contemplar todas as possibilidades e vivências possíveis nesse universo. Mas espero ampliar a visão sobre um símbolo que dá conta de uma vivência muito particular das minorias de gênero e sexualidade.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos começar buscando a origem desse símbolo, de como começamos a usar o termo armário para nos referirmos à condição de uma sexualidade ou identidade de gênero que não tornamos pública, que é vivida de maneira escondida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos começar buscando a <strong>origem desse símbolo</strong>, de como começamos a usar o termo <strong>armário</strong> para nos referirmos à condição de uma sexualidade ou identidade de gênero que não tornamos pública, que é vivida de maneira escondida. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-termo-sair-do-armario-surge-nos-estados-unidos-e-parece-ter-se-popularizado-apenas-apos-a-decada-de-60" style="font-size:18px">O termo “sair do armário” surge nos Estados Unidos, e parece ter se popularizado apenas após a década de 60.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O termo original “to come out of the closet” foi formado a partir de duas outras expressões.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira, “<em><strong>to come out</strong></em>” diz respeito àquilo que no Brasil conhecemos por debutar: uma espécie de iniciação social de uma mulher jovem à vida adulta, a festa no qual uma moça jovem é apresentada à sociedade (e a candidatos a marido). Na década de 30 nos EUA, homossexuais começaram a usar o termo (<em>to come out</em>) como uma referência para entrar no mundo social gay. A princípio esse <em>debut</em> se dava com os pares, e por vezes numa festa. Era um marco de entrada num mundo social específico frequentado por pessoas homossexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segunda parte da expressão parece ter vindo de uma outra expressão idiomática da língua inglesa “<em>to have a skeleton in the closet</em>”. Literalmente &#8220;ter um esqueleto no armário&#8221; que significa ter um segredo embaraçoso ou um fato escondido sobre a própria vida, que pode ferir sua reputação caso revelado. Como para a maioria a homossexualidade era vivida como uma vergonha, essa era um “<em>skeleton in the closet</em>”, algo a ser escondido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eventualmente-as-duas-expressoes-se-fundiram-no-termo-que-conhecemos-hoje-to-come-out-of-the-closet-que-pelo-capricho-da-traducao-no-brasil-tornou-se-sair-do-armario" style="font-size:17px">Eventualmente as duas expressões se fundiram no termo que conhecemos hoje “<em>to come out of the closet</em>”. Que, pelo capricho da tradução, no Brasil tornou-se sair do armário.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A força que o pensamento pró-direitos dos homossexuais ganhou nos EUA pós-<strong>Stonewall</strong> acabou por exportar a expressão que acabou se popularizando não só em português, mas também em espanhol e francês. <strong>Se olharmos para a origem dessa expressão percebemos algo que é muito comum em símbolos: a ambiguidade</strong>. A expressão surge de um elemento festivo, de aceitação, de orgulho (o debutar), e de um elemento de vergonha (o armário com seus esqueletos).&nbsp;E é exatamente entre esses polos que pendula a experiência de sair do armário da maioria das pessoas LGBTQIA+.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, essa é uma análise de uma dimensão social do símbolo, coletiva</strong>. Precisamos entender melhor como é a vivência individual dos eventos que esse símbolo representa. E para a pessoa LGBTQIA+ o armário não surge dessa ambiguidade, mas sim do polo da vergonha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-armarios-nao-surgem-do-nada"><strong>Armários não surgem do nada</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para o filósofo francês <strong>Didier Eribon</strong>, a injúria é um elemento marcante da vivência dos homossexuais (e aqui estendo esse entendimento aos demais grupos LGBTQIA+). E é exatamente a injúria que costuma ser a razão pela qual o armário surge na vida de alguém. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O armário não é um evento natural.</strong> <strong>É a consequência de ser desviante numa sociedade que tem em si papéis de gênero e sexualidade muito bem estruturados</strong>. <strong>Normas que dizem o que pode e o que não pode ser vivido e expresso</strong>.<strong> E mais que isso, como tratar aqueles que violam tais normas.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-muito-cedo-todos-somos-ensinados-formas-corretas-de-ser-em-relacao-ao-nosso-genero-a-respeito-de-quem-somos-e-como-devemos-nos-portar" style="font-size:18px">Desde muito cedo, todos somos ensinados formas “corretas” de ser em relação ao nosso gênero, a respeito de quem somos e como devemos nos portar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E eventualmente também descobrimos que, quando pisamos fora da linha, há consequências, muitas vezes violentas. Frequentemente, é dentro de casa que primeiro a criança se entende “errada” no seu jeito de ser. É o menino que gosta de coisas de menina &#8211; que é afeminado &#8211; ou a menina que só quer brincar com os meninos &#8211; que não é uma <em>princesinha</em>. Na escola, a punição por sair da norma se repete: meninos devem se portar de um jeito, meninas de outro! Na igreja, entre os amigos da vizinhança, com a família extensa, em vários momentos somos lembrados que ser menino e ser menina tem norma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a maioria não haverá grandes problemas em se adequar a tais normas, excluir certos comportamentos, certos gostos, acontece quase sem custos, e a criança segue a diante. Mas para uma minoria, parece que há algo que as perturba. Abrir mão de seu jeito de ser “fora da norma” parece custar mais caro, o entendimento que há coisas de si que é necessário esconder desesperadamente do mundo surge cedo demais. Nas interações sociais aparece um lugar angustiado: é o armário nascendo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-medida-que-a-crianca-cresce-e-torna-se-adolescente-o-armario-cresce-e-se-transforma-com-ela" style="font-size:18px">À medida que a criança cresce e torna-se adolescente, o armário cresce e se transforma com ela.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com a chegada da puberdade, surge o desejo sexual e o adolescente começa a ser confrontado com o fato de que as normas de gênero que ele vinha aprendendo desde a infância não diziam respeito apenas a como ele deveria se comportar, mas também a <em>com quem </em>e <em>como</em> ele deveria se relacionar. Mais uma vez, para a maioria, não haverá problemas em viver dentro da norma, o desejo fluirá facilmente rumo à heterossexualidade e a vida seguirá.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-para-uma-minoria-algo-de-perturbador-sera-vivido" style="font-size:18px">Mas para uma minoria, algo de perturbador será vivido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns perceberão que seu desejo não está no sexo oposto, mas sim no mesmo sexo. Outros descobrirão que, apesar de desejarem pessoas do sexo oposto, também desejam pessoas do mesmo sexo. Outros descobrirão (ou talvez só percebam com mais clareza) que não se identificam com o gênero de nascimento. Outros se sentirão extremamente desconfortáveis em se colocar dentro das normas de gênero vigentes. Alguns até sentirão apatia em relação a qualquer dinâmica sexual. É para esses que o armário surgirá. Não como opção, mas como <strong>necessidade</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como já disse antes, fora das normas sociais de gênero e sexualidade há consequências claras (e violentas). Para evitar tais consequências o jovem se esconde no armário. E mais uma vez, fica clara como o armário é algo ambíguo. É um local que garante (ou ao menos tenta garantir) uma certa segurança nas relações sociais. Mas é também uma prisão em que não se pode habitar o mundo de maneira mais espontânea e alinhada com a própria interioridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Esconder-se no armário é uma maneira de garantir uma convivência tranquila na própria casa e com a família</strong>. <strong>É uma forma de não sofrer bullying na escola, de não ser perseguido no trabalho. Uma forma de ser aceito na igreja. Uma forma de ter um lugar entre os amigos, de viver sem lidar com uma série de coisas que não são fáceis de lidar, ainda mais na juventude.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-tal-seguranca-vem-a-um-custo-elevado-a-fidelidade-a-si-proprio" style="font-size:19px">Mas tal segurança vem a um custo elevado: a fidelidade a si próprio.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Dentro do armário uma pessoa não pode viver seus desejos, ou se os vive, o faz nas sombras, escondida dos outros. E aqui não falo apenas dos aspectos sexuais do desejo, mas também do desejo de se expressar. A possibilidade de se expressar livremente torna-se um risco. Assim, a pessoa passa a adotar comportamentos típicos da norma de gênero &#8211; não porque se identifica com eles, mas para evitar ser detectada em seu “desvio”. Quando menos se espera, a pessoa percebe que viver dentro do armário já é o seu normal. Que o habita cotidianamente e que já tem nele algo certo em sua vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-que-e-feito-um-armario">Do que é feito um armário?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É difícil dar conta de tudo que compõe um armário, todos serão feitos sob medida para o indivíduo e seu meio</strong>. No entanto alguns elementos são essenciais, a mentira a respeito de quem se é e o que se deseja é inegável. Talvez seja o que é mais elementar para que o armário possa exercer seu papel de esconderijo. Para ficar dentro do armário é necessário, para muitos, esconder seus interesses e gostos, opiniões, forma de falar, de andar, de gesticular. É necessário um amplo patrulhamento das formas de se expressar. Para alguns isso é mais fácil que para outros. Para uns é uma tarefa quase que impossível (a brincadeira maldosa a respeito desses últimos é que seu armário seria uma cristaleira – a pessoa pode estar escondida, mas todo mundo a vê, pois as portas são de vidro).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-quem-conhece-a-psicologia-analitica-e-facil-perceber-que-esses-elementos-que-compoe-o-armario-fazem-parte-de-um-complexo-especifico-a-persona" style="font-size:17px">Para quem conhece a psicologia analítica, é fácil perceber que esses elementos que compõe o armário fazem parte de um complexo específico, a persona.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É interessante lembrar que a persona é o complexo que nos adapta ao mundo exterior</strong> e que não é constituída de aspectos de elementos individuais, mas sim de elementos da psique social que o indivíduo arranja de uma forma a se apresentar ao mundo. Para a maioria, esse arranjo da persona se dará seguindo facilmente os limites dados pelas normas sociais. Mas para pessoas LGBTQIA+ esse arranjo parece ser mais tenso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Há um certo descompasso entre os elementos de persona disponíveis para cada gênero e aquilo que parece mais autêntico para o indivíduo</strong>. Um homem pode se ver forçado a abandonar certos gostos por serem femininos. Uma mulher se vê forçada a se comportar como uma princesinha para ser aceita. Uma pessoa trans vai performar seu gênero de nascimento, apesar de não se sentir de forma alguma identificada com ele. Uma pessoa assexual vai fingir desejo para não ser entendida como estranha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então podemos dizer que armário é feito, dentre outras coisas, de <strong>elementos da persona</strong> que, apesar de funcionais para sua função adaptativa em relação ao mundo exterior, encontram-se em profundo <strong>descompasso com a interioridade da pessoa</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-ha-consequencias-nesse-descompasso-fechada-dentro-de-um-armario-desencontrada-de-si-mesmo-a-pessoa-esta-na-escuridao" style="font-size:19px">E há consequências nesse descompasso: fechada dentro de um armário, desencontrada de si mesmo, a pessoa está na escuridão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez até aqui o texto possa ter passado a impressão de que a construção do armário é uma empreitada consciente do indivíduo, mas não é bem o caso. Há algo de consciente num armário, sem dúvida, mas há muita sombra também. Muito do que alguém esconde para estar no armário é escondido tão cedo na vida que é completamente esquecido. Certas atitudes escolhidas a dedo para mascarar um desejo se tornam tão habituais que se tornam automáticas e passa-se a acreditar que são espontâneas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Negar-se quem se é se torna tão cotidiano que vai se esquecendo de si. A persona do armário vai cobrando seu preço. O preço que qualquer um paga por investir em demasia numa persona: a desconexão com seu próprio mundo interior. A escuridão do armário vai se tornando uma escuridão interna, da própria alma</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-viver-no-escuro-do-armario">Viver no escuro do armário</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Viver dentro do armário tem uma série de consequências, e talvez uma das mais importantes seja a <strong>dificuldade de lidar consigo próprio</strong>. <strong>Ter de fazer um constante esforço para manter uma persona drena uma quantidade de energia significativa da vida. E se interiorizar-se pode ser uma tarefa demasiado dolorosa</strong>. Com o desejo nas sombras, projeções de toda natureza estão livres para acontecer e as relações da pessoa podem ficar prejudicadas, especialmente as relações com outras pessoas LGBTQIA+.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O constante patrulhamento de si pode virar um patrulhar dos outros</strong>. Ou até mesmo alimentar uma paranoia que apenas tomará mais espaço da vida do indivíduo. Paixões proibidas podem virar obsessões venenosas, desejos ocultos podem virar parafilias. <strong>A constante negação de si pode virar ódio e se voltar contra si na forma de comportamentos autodestrutivos</strong>. O cenário desenhado aqui certamente parece sombrio, mas a verdade é que cada um viverá seu armário de maneira muito peculiar e cada um terá maior e menor dificuldade com cada aspecto dele, mas dificilmente alguém sai impune de viver lá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente nem todos poderão sair do armário, muitos terão de viver lá por algum tempo (ou até indefinidamente). Seja porque dependem de uma família que não aceita sua sexualidade, seja porque é perigoso fazê-lo, física ou psicologicamente. Seja porque seu ganha pão depende disso. <strong>Sair do armário é uma decisão que cada um deve tomar por si</strong>. <strong>Não há nem momento nem forma certa de fazê-lo, há apenas tempos e formas possíveis</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-escuro-do-armario-para-a-luz-do-dia">Do escuro do armário para a luz do dia</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sair do armário não é uma tarefa fácil, tampouco é uma tarefa única. Para a maioria, esse evento se dará muitas vezes, talvez se repetindo de novo e de novo ao longo da vida. Mas há um momento de saída, um que todos tem de passar se quiserem se pacificar com sua condição LGBTQIA+: <strong>sair do armário para si mesmo</strong>. Esse primeiro momento de admitir para si mesmo quem se é e o que se deseja é fundamental para dar sequência a qualquer outro movimento em relação a sua própria sexualidade e/ou gênero. É só a partir do que será experimentado após esse movimento interno que se pode avaliar a possibilidade e como se lançar de fora do armário para o mundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitos-se-perguntam-sera-necessario-sair-do-armario-e-necessario-que-os-outros-fiquem-sabendo-da-sua-intimidade" style="font-size:20px">Muitos se perguntam: será necessário sair do armário? É necessário que os outros fiquem sabendo da sua intimidade?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E por um lado estão certos, ninguém precisa saber de detalhes da vida sexual dos outros ao se redor. Entretanto, <strong>ser LGBTQIA+ transcende o que acontece na intimidade do quarto</strong>. Para entendermos isso basta olhar para como vive um casal heterossexual: o casamento é uma cerimônia social e pública, todos esperam que um casal bem estabelecido viva junto, nas redes sociais postam fotos juntos e muitas vezes até fazem demonstrações públicas de afeto. Isso tudo faz parte de ser um casal, e se um casal LGBTQIA+ está no armário nada disso será possível.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Logo, assumir a própria sexualidade não é só uma questão de sexo. É uma questão que engloba todos os elementos da vida social que dizem respeito a uma vida a dois</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para pessoas trans a questão é de outra natureza: numa sociedade que a ideia de identidade está intimamente ligada à ideia de gênero, viver dentro do armário é uma impossibilidade de se viver de maneira minimamente espontânea no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há muitas outras nuances dessa questão que não é possível cobrir aqui, mas creio que os exemplos anteriores bastam para deixar claro que sair do armário é maior do que só revelar um desejo ao mundo, é revelar uma identidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitas-coisas-precisam-ser-consideradas-quando-se-pensa-em-sair-do-armario" style="font-size:19px">Muitas coisas precisam ser consideradas quando se pensa em sair do armário.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira provavelmente são as <strong>relações familiares</strong>: como meus pais vão reagir? Vou ser aceito? Posso sofrer alguma consequência dessa revelação? Essas são perguntas que frequentemente angustiam quem não se assumiu, e para muitos, o principal motivo de se manterem escondidos. A inclusão em seu meio social costuma ser outro motivo frequente de angústia. Especialmente quando se faz parte de algum <strong>grupo religioso</strong> que não é inclusivo com pessoas LGBTQIA+. O ambiente de trabalho também entra nessa contabilidade de motivos e, frequentemente, dentre pessoas em certas carreiras como militares, policiais ou entre pessoas que tem grande visibilidade pública (como artistas e políticos), muitos escolhem permanecer escondendo sua identidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-tambem-motivos-com-os-quais-simplesmente-nao-se-pode-negociar-sendo-o-principal-deles-a-violencia" style="font-size:20px"><strong>Há também motivos com os quais simplesmente não se pode negociar, sendo o principal deles a violência</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Pessoas LGBTQIA+ são vítimas frequentes de crimes de ódio, ou seja, são vitimizadas simplesmente por serem quem são</strong>. É importante lembrar que em alguns países essa violência é perpetrada pelo próprio estado que criminaliza os LGBTQIA+. Em alguns deles chegando a condenar à morte quem sai do armário ou é descoberto vivendo os desejos às escondidas. Para essas pessoas sair do armário só será possível se saírem do local onde vivem, o que implica em outras questões também complexas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Também é importante notar que muitas pessoas vivem parte de suas vidas dentro e parte fora do armário</strong>. Não é incomum que pessoas LGBTQIA+ mantenham <strong>vidas duplas</strong>, nunca assumindo sua condição para a família ou no trabalho, mas vivendo abertamente entre amigos e parceiros. Obviamente essa não é a melhor das situações, mas garante uma vida mais autêntica e saudável do que viver completamente no armário e é, por muitas vezes, a melhor saída possível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fora-do-armario">Fora do armário</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sair do armário não soluciona a vida de ninguém, mas certamente torna muitas coisas mais simples e claras</strong>. Por outro lado, encontrar o mundo lá fora sem a proteção que o armário dava apresenta uma série de novos desafios. O primeiro será ter de lidar abertamente com as pequenas agressões do dia a dia, que por vezes ficarão mais intensas. Outro desafio é lidar com a vida familiar. Não é incomum pessoas LGBTQIA+ virarem o <strong>bode expiatório</strong> da família e muitas vezes haverá uma pressão (explícita ou não) de que a pessoa mude, “se torne normal”, ou volte para dentro do armário para garantir o bem e a respeitabilidade da família.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-comunidade-lgbtqia-e-outra-fonte-de-angustia-para-muitos-depois-de-se-assumir" style="font-size:18px">A comunidade LGBTQIA+ é outra fonte de angústia para muitos depois de se assumir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos nutrem uma fantasia de encontrar um grupo especial de pessoas que os irá acolher de uma maneira que nunca foram antes, mas a realidade é diferente. <strong>Ser um grupo minoritário não significa não ter uma série de problemas, inclusive reproduzindo muitas das violências sofridas fora do grupo dentro dele</strong>. Para muitos, se deparar com essa realidade bem menos aprazível que o que imaginou é um choque e por vezes só reforça um sentimento de solidão já presente na fase do armário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao sair do armário, também é comum que a pessoa viva uma espécie de segunda adolescência, caso o faça já na vida adulta. É uma fase em que a pessoa tenta compensar a falta de uma série de experiências da juventude. Muitas vezes se envolvendo em situações que se espera de alguém muito mais jovem e com menos discernimento. No entanto, essa fase é importante para que a pessoa possa resgatar vivências que lhe foram interditadas anteriormente, só é necessário ter serenidade para fazê-lo evitando excessos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-desses-desafios-e-fora-do-armario-que-existe-uma-possibilidade-de-uma-vida-mais-completa" style="font-size:22px">Apesar desses desafios é fora do armário que existe uma possibilidade de uma vida mais completa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Poder se expressar e se relacionar autenticamente liberta muito da energia gasta na manutenção da persona do armário para outras atividades e facilita o processo de interiorização. Já que muitos desejos e medos deixam de ser fantasias e podem ser vividos e encarados na realidade de maneira mais madura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o indivíduo conseguir se voltar para seu inconsciente após sair do armário, poderá viver uma etapa mais avançada da saída do armário, <strong>a reconciliação com essa fase de sua vida</strong>. Poder revisitar o período que se sentiu impedido de se expressar e viver o que queria de maneira mais espontânea pode ser importante para permitir que a pessoa viva o momento presente menos atada às frustrações do passado. Facilitando, assim, o surgimento de novas atitudes na consciência, mais coerentes e funcionais com essa nova fase da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Há muito mais que se poderia falar sobre esse tema, há muitos mais meandros e especificidades que poderiam ser explorados, vivências e temporalidades específicas que merecem tanta atenção quanto os exemplos que foram dados aqui.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Espero que esse texto consiga trazer à luz um tanto da vergonha que viver dentro do armário impõe sobre uma vida, porque é essa vergonha que precisa ser trabalhada. É ela o motivo de falarmos Orgulho LGBTQIA+, não é um orgulho de simplesmente se ser LGBTQIA+, <strong>é o orgulho que precisamos encontrar para exorcizar a vergonha que encontramos quando o armário tomou conta de nossas vidas</strong>.</em></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gabriel/">Gabriel Andrade &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



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<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<title>Barbies, Ursos e Mitologias Gays</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/barbies-ursos-e-mitologias-gays/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Aug 2022 19:09:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Homossexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Esse artigo traz uma reflexão sobre o curioso hábito da comunidade gay masculina de se classificar em uma miríade de tribos. Qual o motivo dessas classificações e como podemos entender esse fenômeno na clínica?</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Barbies, ursos, pocs, twinkies, twunks, lontras, discretos, pintosas e mais. A profusão de tribos que a comunidade gay (aqui só o G do LGBTQIA+ mesmo) usa para se classificar pode ser um tanto estranha para quem a observa de fora. Trata-se de uma tipologia que varia, tanto geograficamente quanto com o tempo, mas que sempre marca a diferença entre corpos e comportamentos. Mas o que há por traz desse afã classificatório? Esse artigo busca entender, a luz da psicologia junguiana, porque esse sistema de tribos existe na comunidade gay e como isso repercute na psique desses homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiramente, é necessário dizer que essa tipologia não é de forma alguma universal. Como dito anteriormente, ela é variável, tal qual as gírias, dependem do local e mudam com o tempo. Nesse sentido se assemelham muito com as tribos adolescentes. Mas enquanto as tribos adolescentes se organizam em torno, geralmente, de interesses comuns como músicas e hobbies, a tipologia gay é marcadamente focada em corpos e comportamentos. Há título de exemplo podemos falar de algumas classificações comuns nesse mundo: barbies são gays com corpos malhados, podendo ser mais ou menos masculinos, ursos são gays geralmente gordos e peludos e mais masculinos, lontras são peludos como ursos mas magros, discretos evitam transparecer qualquer traço de feminilidade enquanto uma pintosa será tudo menos masculina. Há também as classificações que marcam diferenças socioeconômicas e etárias, mas essas surgem dentro de um contexto de chacota e dificilmente alguém quer ser entendido como uma bicha pão-com-ovo (de baixa renda) ou uma cacura (um gay mais velho).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Para quem não está familiarizado com esses termos essa taxonomia pode muito bem causar um bocado de estranhamento, mas talvez o estranhamento seja uma abordagem interessante para o fenômeno, afinal, por que seria interessante classificar pessoas dessa maneira? Afinal, é estranho que um grupo que já é marginalizado queira entre seus pares gerar mais categorias e eventual (re)marginalização. Também é estranho porque entre heterossexuais não existe de maneira tão patente esse fenômeno. É interessante notar aqui que também existe tal fenômeno entre mulheres lésbicas, mas em menor grau.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira explicação possível para tal fenômeno seria sociológica. Essa classificação faz parte de um jogo de desejo, valor e pertencimento. O que faz bastante sentido, mas não parece bastar, afinal, esses jogos não são exclusividade da comunidade gay. Deve haver algo específico nas vivências gays que favoreçam o surgimento dessas classificações</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez a primeira pista resida na natureza dessas classificações: são iminentemente superficiais, focadas em aspectos visuais e padrões de comportamento, e são, obviamente, coletivas como qualquer classificação social seria. Podemos imaginar então que essas classificações se ordenam dentro do reino da persona. Mas seria razoável imaginar essas categorias como personas?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Os Arquétipos do Inconsciente Coletivo Jung diz que “Exagerando um pouco, poderíamos até dizer que a persona é o que não se é realmente, mas sim aquilo que os outros e a própria pessoa acham que se é.” (JUNG, 2014, §221) Nesse sentido, as classificações das tribos gays funcionam como personas, estando pautadas essencialmente naquilo que pode ser visto pelos outros, o corpo e uma postura mais masculina ou feminina. Em outro trecho Jung diz que “A persona é uma aparência, uma realidade bidimensional, como se poderia designá-la ironicamente.” (JUNG, 2015, §246). Considerando a natureza quase caricata de uma classificação como barbie ou urso, poderíamos dizer que essas classificações se aproximam do conceito de persona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas observemos outra definição para persona, dessa vez do livro Tipos Psicológicos: “A persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico à individualidade.” (JUNG, 2013, §735). &nbsp;Podemos dizer que as classificações das quais estamos tratando se enquadram nessa definição? Afinal tais classificações adaptam alguém a sociedade? A sociedade em geral com certeza não, mas definitivamente podem servir para se navegar dentro da comunidade gay. Obviamente, uma persona só faz sentido dentre aqueles que reconhecem aquele “personagem”, então apenas entre quem entende o que é um twink, fara sentido ser ou não ser um twink. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É talvez seja esse o ponto central desse artigo: tais classificações, por pior que sejam, estão de alguma maneira servindo para que indivíduos transitem dentro da comunidade gay. Esses personagens estão na realidade pautando maneiras de se ser gay, dando imagens a vivências múltiplas do que é ser um homossexual masculino. Obviamente categorias não possuem a complexidade nem a potência de personas mais antigas e elaboradas como personas profissionais, por exemplo, nem tão pouco costumam ser de tamanha importância para o indivíduo quanto essas. Mas não deixam de pautar as subjetividades e ordenar vivências. Contudo o leitor há de perguntar, não são essas classificações muito pobres e superficiais? E uma resposta sincera seria sim, são. Mas há uma razão para essa superficialidade: a escassez de narrativas de vida homossexuais nas quais se pautar. Poderíamos até dizer, uma escassez de mitologia que dê conta dessas subjetividades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E aqui entra o segundo ponto desse artigo: de onde homens homossexuais estão retirando material para entender a própria vivência relacional? &nbsp;Primeiramente a maioria dos homossexuais adultos de hoje não teve contato com histórias de vida de outros homossexuais enquanto cresciam, já deixando um vácuo de referências do que é ser gay. Já na mídia até pouco tempo era quase inexistente na mídia de amplo alcance narrativas sobre personagens homossexuais (sejam homens ou mulheres). Os poucos personagens homossexuais que surgiam costumavam ser vilões ou estar em algum tipo de papel cômico, geralmente jocoso. Havia poucas representações saudáveis possíveis para um homem gay nessas narrativas. Mesmo em produções que tratavam de questões LGBTQIA+ as narrativas não costumavam ser mais favoráveis, visto que, por muito tempo, quase todas tratavam mais dos aspectos trágicos dessas condições, e, por melhor que o filme seja, é difícil imaginar uma vida a dois feliz com O Segredo de Brokeback Mountain como horizonte. E se nessas duas instâncias o material já é pobre, não há nem o que se dizer em relação a disponibilidade de material mitológico e literário acerca do tema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa aridez narrativa pode ter sido uma das forças motrizes para o surgimento dessas classificações. Na ausência de boas histórias com bons personagens, foi surgindo uma plêiade de estereótipos mais ou menos caricatos para tentar dar conta de subjetividades que não se encontravam representadas facilmente. Obviamente, isso tem um custo psíquico para os indivíduos que passam a se identificar com esses papéis, como lembra Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “Essas identificações com o papel social são fontes abundantes de neuroses. O homem jamais conseguirá desembaraçar-se de si mesmo, em benefício de uma personalidade artificial. A simples tentativa de fazê- lo desencadeia, em todos os casos habituais, reações inconscientes: caprichos, afetos, angústias, ideias obsessivas, fraquezas, vícios etc. O “homem forte” no contexto social é, frequentemente, uma criança na “vida particular”, no tocante a seus estados de espírito. Sua disciplina pública (particularmente exigida dos outros) fraqueja lamentavelmente no lar e a “alegria profissional” que ostenta mostra em casa um rosto melancólico. Quanto à sua moral pública “sem mácula”, tem um aspecto estranho atrás da máscara – e não falemos de atos, mas só de fantasias: suas mulheres teriam muitas coisas para contar. Quanto ao seu abnegado altruísmo, a opinião dos filhos é outra.” (JUNG, 2015, §307)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Que poderíamos então imaginar de um homem gay que chegue na análise identificado com um desses personagens? Que neuroses estariam ocultas por trás dos esforços para ser uma barbie? O que ocultaria um orgulho exagerado em ser um urso? A que custos ocorre a performance necessária para ser entendido como discreto? Certamente, cada caso precisa de atenção própria e estender generalizações talvez só nos leve de volta para a superficialidade que essas classificações trazem a princípio. De qualquer forma, uma das funções da análise nesses casos seria alargar os horizontes imaginais da experiência do que é ser um homem gay. Para além dos estereótipos postos, quem é o indivíduo por trás da máscara? A pessoa que existe por trás de um desses personagens bidimensionais necessariamente será muito mais interessante do que qualquer classificação da conta, mas talvez ela não tenha boas maneiras de contar a sua história para si própria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para esses indivíduos a análise talvez possa ser um lugar para reverter essa aridez de narrativas. Mesmo que não tenhamos uma ampla disponibilidade de narrativas mitológicas sobre homossexualidade masculina elas existem. E para muitos casos será útil valer-se desses mitos para encontrar formas mais interessantes de se imaginar gay. Talvez a parceria entre Gilgamesh e Enkidu possa ensejar uma discussão sobre dinâmicas de casal. Ou talvez o caso de Ossaim seduzindo Oxóssi possa ajudar numa discussão sobre as consequências de se mudar para a casa do namorado. Certamente, o rapto de Ganimedes por Zeus também poderá dizer algo sobre a condição de homens gays. As incursões amorosas de Apolo com seus parceiros masculinos, no entanto, provavelmente só renderão ampliações para cenários menos favoráveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas se na mitologia não encontrarmos algo que nos seja interessante a produção cultural dos últimos tem proporcionado novos personagens (agora mais complexos e menos abjetos) que também podem ajudar num processo de se reinventar gay. Recentemente, a série Heartstopper, adaptada do quadrinho de mesmo nome, traz o retrato de um amor adolescente entre dois rapazes, algo impensável há uma década num programa de TV. O filme Me Chame Pelo Seu Nome trata do tema do primeiro amor (e da primeira decepção amorosa). Filmes como De Repente Califórnia e Delicada Atração mostram casais gays que se formam, mesmo perante adversidades. Weekend relata o relacionamento efêmero, mas intenso entre dois homens ao longo de um fim de semana. E mesmo numa série humor, o relacionamento de Mitchell e Cameron de Modern Family talvez ajude alguém a se entender como parte de um casal. Obviamente os filmes de abordagem mais trágica e de crítica social como Brokeback Mountain, Filadélfia, Garotos de Programa e Maurice também podem ser muito interessantes no contexto da análise, mas é sem dúvida um alívio que não tenhamos apenas filmes tristes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Certamente há muito mais nesse curioso hábito classificatório do que esse artigo da conta. Mas espero que esse possa ajudar analistas, analisandos e curiosos a expandir um pouco suas visões sobre a questão das identidades gays. A verdade é que não existe um jeito só de se ser homossexual (como não existe um jeito só de se ser heterossexual) e é necessário abandonar classificações e papéis que absorvemos em nossa trajetória, tenham elas vindo de uma sociedade heteronormativa ou de dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Tais classificações, afinal, acabam por limitar as experiências e subjetividades do indivíduo. As temáticas LGBTQIA+ praticamente inexistem na obra junguiana, e nem poderia ser diferente, seria absolutamente anacrônico esperar o contrário. Mas isso não significa de maneira alguma que a clínica junguiana não tenha muito a oferecer aos homossexuais. Na análise podemos buscar formas de existir que sejam não só mais saudáveis, mas que também estejam em maior consonância com o Self e o processo de individuação da pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gabriel Andrade – Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magali &nbsp;&#8211; Analista Didata</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bibliografia</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente. 27.ed. Petrópolis, Vozes, 2015</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 11.ed. Petrópolis, Vozes, 2014</p>



<p class="wp-block-paragraph">______. Tipos Psicológicos. 7.ed. Petrópolis, Vozes, 2013</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Barbies, Ursos e Mitologias Gays" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/_HY_6dSd9-g?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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		<title>Identidade de Gênero e a Alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/identidade-de-genero-e-a-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 03:19:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Gay]]></category>
		<category><![CDATA[heteronormatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Homossexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[lgbtiqa+]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[transsexual]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Heteronormatividade e a negação da diversidade de orientações sexuais e referencias de gênero. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Numa discussão recente a respeito de atendimentos psicoterapêuticos, fomos brindados com a exposição de um caso de uma jovem de 20 anos que estava queixosa por ter tido que terminar seu relacionamento com um colega. Ela tinha grande atração por ele, mas o achava um &#8220;careta&#8221;, porque ele queria transformar a relação deles para de ficante, fixo e fiel! Ou seja, aquilo que antigamente chamávamos de namoro sério.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando começamos a buscar melhor compreensão da queixa, chegamos ao cerne do sofrimento, a moça tem fortes convicções de se manter identificada com a&nbsp;pansexualidade, surpreendendo-nos inclusive com um discurso de que ela é até partidária do sexo incestuoso, afirmando que se &#8220;rolar&#8221; desejo e atração bilateral entre mãe e filha ou filho, pai e filha ou filho, e entre irmãos, hétero ou homossexualmente, qual o problema?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa exposição nos leva a refletir a respeito dessa imensa diversidade de identificação sexual. Creio que já temos catalogadas 69 possibilidades de tipos de orientação sexual e sexualidade, quando são combinados a identidade sexual mentalmente reconhecida e aceita, a atração sexual, a forma de expressão e a condição fisiológica de cada indivíduo, que agora pode ser modificada por intervenções cirúrgicas e químicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, o que tudo isso significa? Será que existe alguma razão para que essa diversidade, atualmente, esteja tão evidenciada, despertando ativistas de todas as crenças, validando ou negando a ideologia de gênero e todas as demais teorias, geralmente influenciadas pela identificação de seu idealizador e seguidores?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece que essa realidade vem confirmar a teoria de Freud, de que o princípio do prazer, via sexualidade, é a base fundante de todas as motivações humanas! Isso nos coloca numa condição de absoluto hedonismo, onde o corpo e o ego viram referências absolutas e dominantes. Já a alma, coitada, fica num plano secundário, a meu ver, tentando se expressar nos inúmeros sintomas psiquiátricos e todos os demais, que são psicossomáticos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra possibilidade de compreensão desse quadro seria considerar que estamos tratando do contrário do prazer, isto é, de um processo de alienação da propriocepção corporal. Desse modo, a performance substitui a vivência, reiterando essa cisão entre corpo e alma. Neste caso, o corpo passa a ser apenas um laboratório alheio de toda e qualquer experiência, que não pertence à essência do ser. Este pode sofrer qualquer tipo de estímulo, independentemente de estar atrelado à dor ou ao prazer, inclusive justificando a crescente onda de automutilação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva da analise junguiana, vamos em busca do simbólico, restabelecendo a capacidade imaginativa e toda sua potencialidade curativa. Isso se faz no sentido de promover a integralidade do ser, contribuindo para diminuir essa triste realidade, onde o literal passou a ser a única condição aceita!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma, precisamos refletir simbolicamente qual o significado e o sentido desse momento para a natureza anímica da humanidade, onde o ego está absolutamente encantado pela imagem da persona materialista, idealizada e projetada nas redes sociais. Nesse contexto ele atua como senhor absoluto sobre o corpo e o princípio de prazer ou alívio do desprazer imediato e, não raro, inconsequente. Por isso, temos tantas meninas de 13 anos grávidas, sem saber quem é o pai, porque a concepção aconteceu no bonde do baile funk, ou em qualquer tipo de balada!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso desafio é tirarmos a primazia da imagem superficial, para que a alma possa assumir seu lugar de centro direcionador da vida. E, assim, diminuir a exuberância da perspectiva unilateral e materialista. Arquétipos e instintos são a priori. Já o gênero é biológico, pois vem de gene. Tanto que só existem duas possibilidades genéticas em função dos cromossomos: XY, para o masculino (Yang), e XX, para o feminino (Ying). Cada um destes princípios confere características únicas e universais para formas, cores, sons, texturas, cheiros e sabores. Salvo, obviamente, exceções raras e que possuem condições aberrantes e patológicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que se faz com a identidade, atração e comportamento sexual é outra questão e, salvaguardando a pressão sócio cultural deste hedonismo e supervalorização do prazer corporal, não são opções. Tratam-se, na verdade, de condições anímicas, na forma de um imperativo da alma sobre o corpo. Por isso mesmo, qualquer forma de expressão deve ser respeitada, acolhida e amada, desde que não seja promiscua, abusiva e invasiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como estamos dominados pelo pensamento binário e excludente, sofremos as consequências do conflito entre a ideologia de gênero. Esta acredita na ausência de sexo a priori, afirmando que ele vai surgindo como resultado de construções culturais e sociais. Do outro lado, a ciência biológica, reduz tudo ao gene, eliminando as influências culturais e sociais, chegando a negar a epigenética, isto é, a influência da crença na expressão genética. Para superarmos essa crise, precisamos encontrar o caminho do meio, aquele vai integrar a polaridade, por meio da função transcendente. A alma habita o corpo e vive na sociedade e é ela que deve ser valorizada, respeitada e aceita, independentemente da forma de expressão criativa que cada um assuma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos resgatar a relação com a alma e valorizar a condição única, complexa e criativa de cada ser humano. Tratar o ser integral, ajudando-o a ingressar conscientemente no processo de individuação. Ao invés de ficarmos tentando catalogar e definir sua identidade, atração e atitude sexual, patologizando ou engessando-o num estereótipo qualquer, onde sua característica peculiar passe a ser mais importante do que sua alma.&nbsp;A alma é perene, hospede transitória de matérias orgânicas compostas em organismos que são finitos e decompostos, apesar de animar o corpo. Acho que a dimensão genética do gênero do organismo hospedeiro, apesar de influencia-la na sua experiência existencial, não é preponderante, porque alma não tem gênero!&nbsp;Evidenciar a matéria é uma ilusão transitória. A Psique é a informação que permanece na forma de energia. Esta sim, de forma perene!</p>



<p class="wp-block-paragraph">*WALDEMAR MAGALDI FILHO. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Identidade de gênero e a alma*, texto de Waldemar Magaldi, analista junguiano do IJEP.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi Filho &#8211; 15/06/2019</em></strong></h4>



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			</item>
		<item>
		<title>A cura gay &#8211; LGBTQIA+</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-cura-gay-lgbtqia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jun 2022 15:38:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[cura gay]]></category>
		<category><![CDATA[Gay]]></category>
		<category><![CDATA[Homofobia]]></category>
		<category><![CDATA[Homossexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando me perguntam se meu trabalho como analista junguiano cura gays, e toda gama das expressões LGBTQIA+, prontamente respondo que o propósito maior da minha atividade profissional, que deveria ser a de todo profissional de ajuda e da saúde, é o de promover a cura, que implica o cuidar, por meio do autoconhecimento, ativando o curador interno que existe em cada um de nós, no maior número possível de pessoas, incluindo os LGBTQIA+. Este ensaio reflete esse tema, incluindo a Homofobia e a Heteronormatividade como instrumentos do poder patriarcal.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A CURA GAY &#8211; LGBTQIA+</p>


<p>Ultimamente, por conta do tema da &#8220;<strong>cura gay</strong>&#8220;, vários clientes e alunos me interpelam em busca de compreensão e ampliação tanto do famigerado projeto de lei de 2016, que tem esse nome, e da atual visibilidade e influência que indivíduos com vários tipos de ativismos literais, unilaterais e preconceituosos, incluindo a <strong>homofobia</strong>, estão tendo na política e na mídia. Infelizmente, isso reflete a falta de sensibilidade dos nossos políticos diante da natureza humana e a permissividade do judiciário que deveria estar agindo para punir e interditar todos eles. É incrível, e triste, como que a maioria desses “políticos” só age em causa própria, defendendo seus interesses pessoais e fazendo tudo para poder aparecer e se perpetuarem no poder, retroalimentando a <strong>Homofobia</strong> e a <strong>Heteronormatividade</strong> como instrumentos do poder patriarcal.</p>
<p><!-- /wp:post-content --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>Antes de tudo, precisamos compreender o significado da palavra &#8220;cura&#8221;. O conceito de cura, nas visões da <strong>psicologia junguian</strong>a, <strong>arteterapia</strong> e <strong>psicossomática</strong>, vai muito além da supressão dos sintomas, porque a cura implica na cicatrização das férias com integralidade, plenitude e consistência do ser, tornando-o comprometido, de forma consciente e consequente, com o seu caminho da realização existencial, para que sua vida tenha sentido, amorosidade, significado e propósito de servir, com liberdade e autonomia, prerrequisitos necessários para a conquista da felicidade.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Cura deveria ser sinônimo de cuidado e inteireza</strong>, que depende da contínua relação do eu com o inconsciente, proporcionando autoconhecimento, por meio da compreensão dos aspectos sombrios e do reconhecimento da presença dos vários tipos de complexos que habitam nosso íntimo. Essa condição é que vai possibilitar a capacidade de resiliência diante das possíveis adversidades e traumas, fazendo com que o indivíduo possa identificar, diferenciar, compreender e aceitar suas potencialidades, fraquezas, incongruências e distonias. A palavra cura também é usada no processo de consistência e resistência de materiais como concreto, cimento, polímeros e até do queijo, que também passa por um procedimento de cura para atingir sua melhor consistência e sabor.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>Desta forma, quando me perguntam se meu trabalho como <strong>analista junguiano</strong> cura gays, e toda gama das expressões<strong> LGBTQIA+</strong>, prontamente respondo que o propósito maior da minha atividade profissional, que deveria ser a de todo profissional de ajuda e da saúde, é o de promover a cura por meio do autoconhecimento, ativando o curador interno que existe em cada um de nós, para que o maior número possível de pessoas, incluindo a comunidade<strong> LGBTQIA+</strong>, a partir do autoconhecimento aprendam a se respeitarem, aceitando suas peculiaridades e idiossincrasias, com qualidades, potencialidades e defeitos, para adquirirem amor próprio e autonomia no sentido da realização do si-mesmo, assumindo a integralidade da sua essência.</p>
<p>O autoconhecimento possibilita o surgimento da autoconsciência e a capacidade de lidar com as tensões naturais entre o eu e o inconsciente, a persona e a sombra, o individual e o social, entre outras. Por isso, tenho orgulho em afirmar que meu objetivo como <strong>analista junguiano</strong> e atuar como um espelho, o menos deformado possível, criando condições para que o compromisso com a cura seja atingido tanto para <strong>heterossexuais</strong> quanto para os <strong>LGBTQIA+</strong>.  Neste sentido, posso afirmar que, ao longo de mais de 40 anos atendendo almas humanas, tive o prazer de ajudar muitas pessoas se aproximarem da sua integralidade, assumindo suas essências e respeitando sua natureza, com orgulho e respeito, independentemente de estarem alinhados com a <strong>heteronormatividade</strong>, vivendo e vivenciando, harmoniosamente, seu desejo e sua orientação sexual, sua identidade e aparência de gênero, não permitindo que ninguém transforme sua condição, que pode ser diferente da maioria, em desigualdade.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>Gênero tem a ver com gene. Biológica e geneticamente falando, não existe possibilidade de gênese de vida sem os pares de opostos complementares advindos do androcentrismo e do ginocentrismo. <strong>Carl Gustav Jung</strong>, na sua teoria, nos apresentou os <strong>arquétipos</strong> da <strong>Anima</strong> e do <strong>Animus</strong>, que representam a polaridade opositiva com a identificação de gênero do Ego, que pode tender mais para o espectro masculino ou feminino, independentemente de estar alinhada com a orientação sexual e a herança genética ser XX ou XY. Porém, precisamos lembrar que não atendemos categorias, classificações, rótulos ou estereótipos, porque cada ser humano é, apesar da universidade e do determinismo do inconsciente, único, complexo e criativo, apesar de que muitas pessoas padecem com suas condições<strong> egodistônicas</strong>.</p>
<h2>Qual objetivo da análise junguiana atendendo homossexuais, homofóbicos e heteronormativos?</h2>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>É obvio que, <strong>se o indivíduo está em conflito</strong> entre seu sexo biológico, sua orientação ou desejo sexual, sua identidade de gênero ou a forma da sua expressão ou aparência de gênero, isso irá produzir muita dor e sofrimento, que é significativamente amplificada por conta deste patriarcado <strong>falocêntrico</strong>, com toda sua discriminação e preconceito estrutural desta contemporaneidade hipócrita com sua <strong>heteronormatividade</strong>, por se julgar conservadora mas que, na realidade, é absolutista, retrograda e exageradamente patriarcal, interditando o surgimento do dinamismo da alteridade, para termos equidade, inclusão, respeito, igualdade, empatia e amorosidade com todas as formas, expressões e diversidade de vida, independente de gênero, raça, credos, origem e cultura.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p><strong>Quando existe o conflito e sofrimento psicológico</strong>, temos que contribuir para que essa distonia entre o ego e a alma fique menos exagerada, da mesma forma que também não é interessante a unilateralidade, porque esta é igualmente patológica. Nos primórdios da psicanálise era nomeado de <strong>egossintonia</strong> os indivíduos que tinham comportamentos, valores e sentimentos harmonizados com as normas, regras e moral dominante, e de <strong>egodistonia</strong> para aqueles que que estavam em conflito, gerando muito sofrimento psíquico. Lembrando que a alma não é moral e nem sede as regras morais, que são códigos de conduta cultural. Mas quando damos vazão a ela o que surge é a ética e esta é muito mais abrangente do que a moral, apesar de muitas vezes entrar em rota de colisão com ela.</p>
<p><!-- /wp:paragraph --><!-- wp:paragraph --></p>
<p>O inconsciente, por conta da sua potencialidade arquetípica, é universalista e, de certo modo, determinista, quando negado e interditado de realizar-se no nosso existir! Neste caso, seus conteúdos, que não foram reconhecidos e realizados pelo ego, tornam-se destino cego e trágico, na forma de projeção da sombra, no nosso entorno relacional, ou nos invadem autonomamente, numa espécie de possessão dos conteúdos sombrios, produzindo os mais variados tipos de sintomas físicos e ou psíquicos! Por isso, o autoconhecimento e a conexão com o si-mesmo, despotencializando a ilusão do poder e o monoteísmo da razão, são tão necessários para que o amor, a saúde e a plenitude da vida, com sentido e significado, aconteçam!</p>
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<p>Um outro problema é que muitas pessoas fanáticas, preconceituosas e alienadas de si mesmas, tendem a transformar o diferente em desigual e, no caso da <strong>homossexualidade</strong> e toda forma de expressão <strong>LGBTQIA+</strong>, de forma leviana e perversa, também associam à<strong> promiscuidade</strong>. Porém, é importante deixarmos claro que <strong>promiscuidade</strong>, corrupção e falta de ética são práticas inerentes de todas as pessoas egoístas e ignorantes, que na realidade são inseguras e, na maioria das vezes, fogem desesperadamente daquilo que discriminam e atacam, por não conseguirem reconhecer ou lidar com essas tendencias nelas mesmas refugiando-se, iludidamente, na busca de poder.</p>
<h2>A homofobia estrutural e a heteronormatividade transformam a homossexualidade em doença ou em crime.</h2>
<p>Psicologicamente, quanto mais elas conquistam poder, mais tentam projetar suas sombras nos diferentes e nas minorias, mais se afastam do amor. Por isso, o processo do autoconhecimento promove a cura e a ética, como resultante, eliminando os impulsos <strong>promíscuo</strong>s, corruptos, fanáticos e de poder, tanto de <strong>heteros</strong> quanto de<strong> gays</strong>. Acho que seria muito mais interessante pensarmos num projeto de lei para promover a reversão corrupta dos políticos, curando-os! Isso seria muito mais interessante e teria muito mais efeito social. Porque, se os políticos forem curados, certamente, eles investirão pesadamente na educação e, com isso, toda a diversidade será compreendida como uma enorme diversão existencial, com amor, igualdade, fraternidade e liberdade para todos!</p>
<p>Na obra de Jung até tem alguns relatos em que ele dá a entender que aconteceu uma espécie de &#8220;reversão&#8221; da homossexualidade masculina em alguns casos que ele expõe. Porém, isso não tem nada a ver com a psicopatologização da homossexualidade, porque ele trabalhou o sofrimento psíquico do cliente. Os casos em que Jung relata essa mudança de atitude da orientação sexual aconteceram quando a homossexualidade era reativa, e não essencial, e isso estava deixando o indivíduo em contínua crise, dor psicoafetiva e incapacidade de acontecer a adaptação para a vida e sua consequente evolução. Como já citei anteriormente, a cura tem a ver com a aceitação da natureza peculiar de cada um e a realização do si-mesmo, independentemente do não alinhamento entre o gênero biológico e os padrões heteronormativos. Nosso trabalho é o de contribuir para que todos os indivíduos possam conseguir se entregar para o mistério da conjunção (Mysterium Coniunctionis) da integração dos <strong>princípios masculinos</strong> e <strong>femininos</strong>, as bodas místicas da união do sol com a lua ou o ouro e a prata, para que possa ser alcançada dimensão do Rebis, o hermafrodita ou andrógeno espiritual! O resultado desta integração eliminará a segregação e a desigualdade entre os gêneros no mundo exterior, porque o andrógeno espiritual nos possibilita acolher todas as expressões de gênero que é a verdadeira <strong>cura gay</strong>!</p>
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<p><strong>WALDEMAR MAGALDI FILHO</strong>, Psicólogo, especialista em <strong>Psicologia Junguiana</strong>, Psicossomática, <strong>Arteterapia</strong> e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;<strong>Dinheiro, Saúde e Sagrado</strong>&#8221; &#8211; Ed. <strong>Eleva Cultural</strong>. Coordenador e professor dos cursos de especialização em <strong>Psicologia Junguiana</strong>,<strong> Arteterapia</strong> e <strong>Psicossomática</strong> do <strong>IJEP</strong> &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a>)</p>
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		<title>DRAG QUEENS, FEMININO E OS GAYS</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/drag-queens-feminino-e-os-gays/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 Oct 2021 14:31:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo busca explorar a performance artística das drag queens. Buscando entender a relação com o feminino interior dos artistas e seu impacto no público. Como manifestação artística, entende-se que a performance apresenta aspectos inconscientes e que podem nos ajudar a entender a relação com o feminino, principalmente nos homens gays.</p>
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<figure class="wp-block-image is-resized"><img decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_550.jpeg" alt="DRAG QUEENS, FEMININO E OS GAYS drag queens" width="588" height="909"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Este artigo busca explorar a performance artística das drag queens. Quem seria essa personagem que surge nos palcos dos bares e boates LGBT, comanda o início do movimento por direitos LGBT e agora ocupa os holofotes da televisão e da música? Que aspectos podem ser observados nessa performance e por que tem uma associação tão forte com os homens gays? Aliás, o que é uma drag queen?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Drag queens são artistas que fazem uso da feminilidade estereotipada e exacerbada, em sua maioria homens “fantasiados” de mulher (JESUS, 2012, p. 18). Não se trata de como o indivíduo se sente em relação à sua própria percepção, tanto interna quanto externa, na verdade é o que ele faz como expressão artística. A drag queen não tem nenhum compromisso com a mulher real, se passar por mulher ou ainda ser confundida com uma mulher nas ruas, mas sim de personificar um feminino, um constructo que pode conter várias mulheres como observado por Greaf (2015, p. 4). Esse compromisso com a realidade só é observado quando esses artistas buscam personificar uma pessoa real, geralmente uma grande diva ou referência feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A arte&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;pode ser performada por qualquer pessoa. Vale lembrar que a drag não possui relação estrita com identidade de gênero ou orientação sexual do artista, e essa arte também foi chamada no Brasil de transformismo, sendo o termo “<em>drag queen</em>” uma importação linguística (Cf. AMANAJÁS, 2014, p. 3; JESUS, 2012). Mesmo assim essas artes foram se diferenciando ao longo do tempo, onde o ator transformista, continuou sua existência em programas de TV, palcos de teatro, a&nbsp;<em>drag queen</em>&nbsp;seguia em outro universo estético e simbólico, com indumentárias exageradas, referenciadas por ícones da moda e drag queens americanas (Cf. SANTOS, 2014, p. 197).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O termo&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;puro e simples é uma gíria inglesa antiga de bastidores do teatro, para o uso de roupas de mulher por homens, hoje em dia é atualizado para definir inclusive mulheres que se vestem como homens (a exemplo&nbsp;<em>drag king</em>).&nbsp;<em>Drag queen</em>&nbsp;é um termo criado usando puramente gírias gays (no inglês, queen é uma maneira que os gays usam para se referir a outro gay) que para Baker (1994) é o termo que melhor define essa arte, principalmente por ligá-la ao mundo gay automaticamente, no entanto nem todos os artistas que realizam essa performance acham que é o melhor termo para defini-la (BAKER, 1994, p. 17-8).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do tempo, vestir-se de mulher, foi ganhando cada vez mais valor para a comunidade gay. “Em uma sociedade dominada pelo masculino, com papéis sexuais cada vez mais definidos, um homem se vestir de mulher era sequer tolerado como piada; era algo irracional, ameaçador” (BAKER, 1994, p. 110). “É importante notar que não é a&nbsp;<em>drag&nbsp;</em>em si que significa homossexualidade, mas as ações e trejeitos dos homens que o fazem – e o efeito disso nas testemunhas” (BAKER, 1994, p. 113).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Valores negativos são atribuídos à homossexualidade e ao feminino pela sociedade. Todos, inclusive os homens, sofrem com essa repressão, mas os meninos gays mais próximos da feminilidade, ou efeminados, são afetados de maneira mais intensa por essa mensagem negativa, gerando dessa forma uma negação do eros e um ódio a todo tipo de manifestação do mesmo, chamada de “homofobia internalizada”, que leva à criação de personas mentirosas e aprisionadoras em troca da aceitação social, tudo isso às custas da própria alma (Cf. BARCELLOS, 2011, p.70).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Homens com um feminino aparente, principalmente os homens gays, são obrigados a reprimir esse lado para sobreviver à violência psicológica e até física que lhes é imposta. Como o feminino (ainda) é percebido na sociedade atual como inferior, fraco e indesejado, ser homem e ter comportamentos femininos é praticamente uma ofensa. Ter um lado feminino é considerado uma fraqueza e dessa forma, deve ser escondido, muitas vezes compensado, por uma persona encarceradora e opressora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O homem considera uma virtude reprimir da melhor maneira possível seus traços femininos [&#8230;]. A repressão de tendências e traços femininos determina um acúmulo dessas pretensões no inconsciente” (JUNG, 2011, p. 79). Nesse sentido, homens que apresentem comportamentos tidos como femininos, algo que, apesar de não ser necessariamente um significado de homossexualidade, é mais observável em homens gays, tendem a ter um acúmulo maior de pretensões femininas em seu inconsciente, muito provavelmente em sua sombra. Ainda nesse sentido, Jung (2011, p. 79) continua: “[&#8230;] o homem, em sua escolha amorosa, sente-se tentado a conquistar a mulher que melhor corresponda à sua própria feminilidade inconsciente: a mulher que acolha prontamente a projeção de sua alma”. Nos casos em que a mulher não é o interesse amoroso e/ou sexual, a feminilidade inconsciente pode, então, se projetar de outras maneiras: amor fraternal, identificação, admiração e idolatria daquelas mulheres que correspondem ao feminino inconsciente, ao mesmo tempo a tarefa de integrar esse feminino ainda existe. Jung não aborda essas outras formas de afeto ao feminino pelo homem, ele afirma que no caso do homem homossexual, o componente de heterossexualidade do filho fica preso à mãe (JUNG, 2000, p. 95), sendo então essa uma assunção minha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Greaf (2015, p. 5) diz que na performance de uma&nbsp;<em>drag</em>, podem ser encontradas várias mulheres, ou várias características femininas, no entanto, considerando que as barreiras de gênero (masculino/feminino) não são tão definidas como se pensava, não podemos definir a personificação da drag como hiperfeminina, mas um feminino masculinizado, ou ainda, a captura de uma construção social do que seria uma mulher para a construção de um personagem. A personagem drag seria uma manifestação do feminino apreendido por meio dos olhos e do corpo de um homem, no entanto não se trata de uma imitação, o intérprete assume sua personalidade feminina temporariamente, performando o feminino de acordo com os estereótipos vigentes (BRAGA, 2018, p. 27) ou apreendidos. Essa descrição da personagem drag vai de encontro à definição de&nbsp;<em>anima</em>&nbsp;de Jung. Nesse sentido a mulher expressa na personagem&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;é uma imago projetada da&nbsp;<em>anima</em>, com características sombrias, apreendida e expressa pela consciência masculina, muito provavelmente pelo complexo materno, por isso a personagem da drag tende a ser uma mulher com atitude fálica, pois a libido vai para a criação, em seu próprio corpo, dessa imago idealizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhuma mulher é como uma&nbsp;<em>drag queen</em>&nbsp;[&#8230;], elas carregam de forma tão exagerada os signos ligados ao feminino que é como se, além de ultrapassar a fronteira entre os gêneros, essa figura explodisse o outro lado, ou seja, a própria ideia de feminino que fazemos hoje. Ela o faz sobretudo na sua atitude predominantemente fálica no espaço público. Ela assedia, seduz, provoca e é ao mesmo tempo um ser impenetrável (MALUF, 1999, p. 274-5).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ritual de se fazer&nbsp;<em>drag queen</em>&nbsp;é chamado de “montação”, pois é diferente do ato de apenas se vestir de mulher. Se montar implica em se transformar de maneira temporária em um ser feminino com referência à imago da mulher, de maneira exagerada e exacerbada. Nesse processo o homem se transforma em uma mulher simbólica e manifesta características reprimidas ou sombrias de sua personalidade sob uma máscara feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A montação não é um ato simples, mas um ritual de transformação; é criar e expressar a personagem&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;por meio do próprio corpo, em que o masculino vai se escondendo e o feminino vai aparecendo. Psicologicamente pode-se dizer que essa mulher inconsciente vai emergindo à medida em que é investida de libido (maquiagem, figurino, peruca) enquanto o homem, ou o ego masculino, vai submergindo, mas sem de fato afundar. A&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;é o encontro desses dois aspectos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A performance&nbsp;<em>drag</em>, por trazer o elemento feminino de maneira tão exuberante, de alguma maneira se relaciona com a construção da imagem do feminino no inconsciente do homem gay, e sua manifestação consciente pode ser uma demonstração do fascínio pela anima, ou ainda, a descoberta de um feminino que por ser tão reprimido, agora quer compensar essa vida na sombra por meio da exacerbação e do exagero, quer mostrar que existe, é uma mistura de fúria, beleza e luxúria digna das deusas. Drag foi uma maneira de inverter o estigma da efeminação por ser gay e usar isso como um crachá de orgulho (BAKER, 1994, p.238).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A persona, imagem construída pelo homem tal como ele quer ser, é compensada interiormente pela fraqueza feminina; e assim como o indivíduo exteriormente faz o papel de homem forte, por dentro se torna mulher, torna-se anima (JUNG, 2011, p.85). Uma persona masculinizada, construída para esconder um feminino, pode criar inconscientemente uma sombra hiperfeminina, essa anima então será projetada de alguma maneira. Viver o feminino como algumas drags vivem é sinônimo de liberdade, de força, de um lugar possível de se sentir forte e completa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Homens que não sigam o padrão de comportamento esperado pelos padrões de gênero, recebem a mensagem, consciente e inconscientemente, de que não são homens, dessa forma, o masculino consciente fica fragilizado, enquanto a vida e o interior feminino crescem no inconsciente, compensando uma persona aprisionadora, como dito por Barcellos (2011, p. 70).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando se cria um personagem no palco, ou num poema, drama ou romance, normalmente se pensa que isso é apenas um produto da imaginação, mas aquele personagem por um caminho secreto, fez-se a si mesmo” (JUNG, 1985, p. 68). A personagem da&nbsp;<em>drag queen</em>, então, existe no inconsciente de seu intérprete, ela é construída a partir da vivência do homem com o feminino e permeada com suas percepções a seu respeito, sendo um misto de homenagem, admiração e ao mesmo tempo de escárnio e exacerbação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se então afirmar que a interpretação ou incorporação de&nbsp;<em>drag queens</em>&nbsp;pelos homens gays pode ter um componente de manifestação de um feminino inconsciente reprimido, compondo parte da anima. A&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;é uma das possíveis respostas a uma alma ferida, onde masculino e feminino naquele corpo tentam se curar da tentativa de se adaptar aos valores binários de gênero que até hoje a sociedade tenta impor e seguir. Esse feminino que desabrocha nessas performances sai da ferida que o masculino tem, pelas frequentes mensagens homofóbicas e sexistas que recebe durante a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar dessa relação com o feminino, não raramente as drag queens são acusadas de misoginia, ao satirizar o feminino, exacerbando características que são consideradas femininas, por uma lente machista, o que pode ser verdade em alguns casos, mas não é o objetivo da drag como manifestação artística. Ao satirizar a construção social da mulher, a drag nem sempre a oprime, mas busca libertá-la dos constructos sociais aos quais o patriarcado tem tentado trancafiar. Nesse sentido, Baker (1994) afirma:</p>



<p class="wp-block-paragraph">À primeira vista parece ser o caso [a misoginia], mas o que elas estão realmente fazendo é criticar essas estruturas sociais – a divisão rígida de papéis entre os sexos e os valores heterossexistas que são seguidos – que fazem mulheres e homens se comportarem dessas maneiras. A drag queen não está ridicularizando a vida comum das mulheres reais, ou da mulher como tal, mas da sociedade em geral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A arte&nbsp;<em>drag</em>&nbsp;é um possível caminho simbólico para integração e vivência do feminino por homens gays e por aqueles que sentem o impulso e o desejo de performar nessa arte. Ela vem trazer força e qualidades que o feminino inconsciente tem, mas foi reprimido. Essa persona obscura e feminina, como todo aspecto sombrio, tem muito a contribuir no desenvolvimento psicológico e no cumprimento dos desígnios do Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além de ser a manifestação de um feminino inconsciente e reprimido, a&nbsp;<em>drag queen</em>&nbsp;tem essa presença incômoda e que leva seu público a todo momento se questionar sobre o que está vendo, se é homem, se é mulher, se é os dois. Esse questionamento dos papéis de gênero é importante e tem o papel de libertar a todos, tanto homens, quanto mulheres da prisão imposta pela construção social dos gêneros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Performar como&nbsp;<em>drag queen&nbsp;</em>tem potencial para integrar conteúdos femininos inconscientes daqueles que se sentem à vontade ao fazê-lo.&nbsp;<em>Drags</em>&nbsp;transitam entre os gêneros e mostram que quando um homem abraça e aceita seu lado feminino ele não se torna mais fraco, pelo contrário, lhe dá mais força.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mauro Soave Junior – Membro analista em formação do IJEP-Bsb</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone Magaldi – Membro didata do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">AMANAJÁS, Igor.&nbsp;<em>Drag queen: um percurso histórico pela arte dos atores transformistas</em>. Revista Belas Artes, São Paulo, n. 16, set-dez/ (2014), p. 1-23. Disponível em: &lt;http://www.belasartes.br/revistabelasartes/?pagina=player&amp;slug=<em>drag</em>-queen-umpercursohistorico-pela-artedos-atores-transformistas&gt;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BARCELLOS, G. O amor entre parceiros do mesmo sexo e a grande tragédia da homofobia in SALLES, Carlos Alberto C.; CÉSAR e MELO, Jussara M. de F &#8211; (orgs).&nbsp;<em>Estudos sobre a Homossexualidade: Debates Junguianos&nbsp;</em>(2011). São Paulo &#8211; Vetor Editora, p. 65-86</p>



<p class="wp-block-paragraph">BAKER, R.&nbsp;<em>DRAG</em>:&nbsp;<em>A history of female impersonation in the performing arts&nbsp;</em>(1994).&nbsp;New York University Press. New York.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRAGA, Lucas.&nbsp;<em>A Marcação da Feminilidade em Corpos Masculinos: A Construção de uma Performance Drag</em>. 2018. 110 f. TCC (Graduação) &#8211; Curso de Comunicação Social &#8211; Publicidade e Propaganda, Escola de Educação, Tecnologia e Comunicação, Universidade Católica de Brasília, Brasília, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GREAF, Catilyn.&nbsp;<em>Drag queens and gender identity</em>. Journal of Gender Studies. (2015). Disponível em: http://dx.doi.org/10.1080/09589236.2015.1087308, p. 1-11.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JESUS, Jaqueline G.&nbsp;<em>Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos</em>. EDA/FBN Brasília, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Arquétipos e o Inconsciente Coletivo&nbsp;</em>(2000). Petrópolis &#8211; Ed. Vozes</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, _________.&nbsp;<em>Fundamentos de psicologia analítica&nbsp;</em>(1985). Petrópolis – Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, _________.&nbsp;<em>O eu e o inconsciente&nbsp;</em>(2011). Petrópolis – Vozes</p>



<p class="wp-block-paragraph">MALUF, Sônia, W. O dilema de Cênis e Tirésias: Corpo, Pessoa e as Metamorfoses de Gênero.&nbsp;<em>in Falas de Gênero, Teorias, Análises, Leituras</em>. SILVA, Alcione L.; LAGO, Mara, C. S.; RAMOS, Tânia, R. O. (Orgs). São Paulo &#8211; Mulheres, 1999, p. 261-275.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANTOS, J. F. dos.&nbsp;<em>&#8220;Tupiniqueens&#8221;: a invenção drag na cultura brasileira</em>. História Agora. São Paulo, n. 26, v. 1, 2014, p. 186-203.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-mauro-soave-junior-27-10-2021"><strong><em>Mauro Soave Junior &#8211; 27/10/2021</em></strong></h4>
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		<title>Relacionamentos afetivos e sexualidade: expressão e contenção do amor</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/relacionamentos-afetivos-e-sexualidade-expressao-e-contencao-do-amor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2020 19:12:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[namoro]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamento tóxico]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Complexa é a humanidade e complexos são os relacionamentos afetivos e sexuais, razão pela qual não podemos compreendê-los sob um único enfoque.&#160; De um modo geral, a sexualidade pode ser compreendida sob quatro critérios: biológico, sociocultural, psicológico e espiritual. Segundo Cavalcante &#38; Cavalcante (2006), no aspecto biológico, o indivíduo pode ser considerado disfuncional se as [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Complexa é a humanidade e complexos são os relacionamentos afetivos e sexuais, razão pela qual não podemos compreendê-los sob um único enfoque.&nbsp; De um modo geral, a sexualidade pode ser compreendida sob quatro critérios: biológico, sociocultural, psicológico e espiritual. Segundo Cavalcante &amp; Cavalcante (2006), no aspecto biológico, o indivíduo pode ser considerado disfuncional se as diferentes reações fisiológicas estão bloqueadas. O conceito de desvio reflete o pensamento num grupo cultural e em determinado momento, levando em consideração que a sociedade é dinâmica, sendo que o “normal” hoje, pode não ser mais amanhã, portanto reflete o olhar sociocultural. No aspecto psicológico, entra em cena a adequação, envolvendo a visão particular de cada um sobre a satisfação do seu comportamento sexual e com a do seu parceiro. As disfunções, os desvios e as inadequações, independente da identidade de gênero ou da orientação sexual, podem ser compreendidas e ressignificadas, para que influenciem de forma saudável nos relacionamentos. Carl Gustav Jung, contribui significativamente com sua teoria para compreensão do critério espiritual ao afirmar que ele está relacionado ao&nbsp;transcendente da alma, que envolve a ampliação da consciência para tornar-se si mesmo, permitindo o encontro do ego com o Self. Segundo o autor,&nbsp;“vivemos protegidos por nossas muralhas racionalistas contra a eternidade da natureza” (2013, v. 8/2, par. 739) e, podemos romper com as muralhas que nos separam da natureza que há em nós.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O mundo contemporâneo é marcado pelo patriarcado e os&nbsp;meios cultural e social interferem na nossa formação. Durante muito tempo, nascer homem ou mulher fez a diferença. As famílias torciam para que o primeiro filho do casal fosse do sexo masculino e, ao nascer uma menina, alguns homens diziam “ter fraquejado”. E assim se propagou uma jornada de uma cultura machista, que incentivou o rapaz “ser pegador”, em busca de prazer e, a moça “preservada” até o casamento e sem permissão para sentir prazer. &nbsp;Neste sentido, a interferência da religião e da tradição foi grande, disseminando a ideia de castigo e de culpa da mulher. Com o nascimento dos filhos, também se preservava a continuidade da espécie e da família, lugar sagrado com uniões indissolúveis, apesar de para alguns representar sofrimento, até a separação por morte física. Da mesma forma, muitos valores enaltecedores foram transmitidos pelo inconsciente coletivo. Essas vivências fazem parte da nossa transgeracionalidade, em forma de heranças arquetípicas nas diferentes dimensões e que aos poucos mudam de configuração.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De um modo geral, ao falarmos de sexualidade podemos percorrer um caminho longo, que começa na infância. Pesquisadores nos mostram que o bebê, na fase oral em que leva tudo à boca, sente-se no paraíso ao sugar o leite da mãe.&nbsp; A criança, conforme vai crescendo, amplia sua capacidade de percepções, desperta para as sensações prazerosas, principalmente no controle do esfíncter anal e genital, tornando-se cada vez mais curiosa. Na puberdade, com uma carga hormonal intensa, a menina vivencia a menarca e o menino a ejaculação. Os adolescentes, fisicamente com o corpo pronto para serem inseridos no mundo adulto, geralmente têm suas primeiras experiências sexuais, dentro ou fora de relacionamentos amorosos. Alguns adultos vivem a sexualidade livremente ou optam em estabelecerem vínculos familiares, escolhendo a vida conjugal e a procriação. Já na metade da vida, além da vivência sexual, surgem as experiências com o climatério e andropausa, que podem ser brandas ou intensas. Na velhice, ocorrem muitas transformações, porém nada impede que a sexualidade seja vivida, pois ela nos acompanha vida afora, com momentos de ascensão e declínio, envolvendo o amor e as diferentes formas de amar. Neste sentido, o amor se expressa em canções, poemas, presentes e presenças. Quem não se encanta com Marisa Monte, expressando a grandeza do amor em&nbsp;<em>Amor I Love You?&nbsp;</em>&nbsp;Com leveza de alma, ela canta:&nbsp;“Deixa eu dizer que te amo, deixa eu pensar em você, isso me acalma, me acolhe a alma, isso me ajuda a viver”. Igualmente, o cantor Roberto Carlos, encantando multidões com a música&nbsp;<em>Como é Grande o Meu Amor Por Você</em>. Da mesma forma,&nbsp;<a href="https://www.pensador.com/autor/carlos_drummond_de_andrade/">Carlos Drummond de Andrade</a>, exaltou o amor em versos: “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Alguns estudiosos em relacionamentos, afirmam que as diferenças cerebrais explicam tantas divergências.&nbsp;John Gray, no livro&nbsp;<em>Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus,&nbsp;</em>trouxe a ideia de que os homens só utilizam um hemisfério cerebral ao executarem atividades,&nbsp;fazendo uma coisa de cada vez&nbsp;e, as mulheres conseguem utilizar os dois lados,&nbsp;tendo a capacidade de exercerem várias atividades ao mesmo tempo. Algumas dessas características aparecem em situações corriqueiras. A neurociência, por sua vez, apresenta-nos estudos sobre a diferença de conexões que ocorrem no cérebro de homens e mulheres, alertando-nos de que as diferenças anatômicas não são determinantes e também não são suficientes para explicar as diferenças de comportamento, que em grande parte se devem à influência cultural. Jung contribuiu com estudos e limitou-se a tratar do casamento como problema psicológico: “Como relacionamento psíquico o matrimônio é algo de complicado, sendo constituído por uma série de dados subjetivos e objetivos que em parte são de natureza muito heterogênea” (2013, p.324).&nbsp; Cientificamente comprovadas ou não, sabemos que as diferenças existem e interferem nos relacionamentos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Existem diferentes tipos de amor e os mais conhecidos são três:&nbsp;<em>Philos, Eros e Ágape</em>. O&nbsp;<em>Amor Philos</em>&nbsp;é um amor fraternal, é um sentimento de simpatia natural, afinidade mental e cultural com os amigos e familiares. O&nbsp;<em>Amor Eros</em>&nbsp;expressa o amor com paixão e romantismo, podendo envolver o desejo passional, sensual e sexual, que é estimulado e vivenciado em diferentes produções criativas: filmes, poesias, músicas e obras de arte (Magaldi Filho, 2014, p. 73-74). &nbsp;A mitologia traz Eros, o anjo da paixão e das afinidades, disparando flechas que incendeiam o coração dos amantes. E Roupa Nova, com a música&nbsp;<em>Todo Azul do Mar</em>, traduziu esse romantismo:&nbsp;“Foi assim como ver o mar, a primeira vez que meus olhos se viram no seu olhar&#8230; Quando eu mergulhei, no azul do mar, sabia que era amor e vinha pra ficar”. Finalmente, o&nbsp;<em>Amor Ágape</em>&nbsp;é desinteressado, puro, genuíno e invencível. É divino, elevado, transcende os sentidos humanos. É aquele que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta” (1Cor 13:4-7). Essa forma de amar vem ao encontro dos versos de Fernando Pessoa: “Amo como o amor ama. Não sei razão pra amar-te mais que amar-te. Que queres que te diga mais que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?” Pensando no aspecto alquímico dos&nbsp;relacionamentos, podemos imaginar que o ideal é harmonizar os três tipos de amor. Uma dose de cada um e na medida certa, torna a experiência do amor em plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante do sofrimento instaurado a partir de crenças enraizadas, principalmente pela dificuldade em compreendermos as diferenças existentes entre o masculino e feminino, idealizamos um&nbsp;<em>Amor Maior</em>, como cantado por Jota Quest: “É preciso amar direito (&#8230;) Amor de dentro pra fora, amor que eu desconheço”. Para indivíduos centrados no ego, a contenção do amor ocupa grande espaço, acreditando que amar é sinônimo de fraqueza e falta de controle. E como se fosse possível controlarmos alguma coisa&#8230; Vindo ao encontro, Clarice Lispector nos traduziu em forma de poesia sua profundeza de alma: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Para alguns, esse amor nem sempre é possível, com vivências de solidão e&nbsp;dificuldades para encontrarem parceiros que queiram estabelecer relações duradouras, pois foram incentivadas a resolverem seus problemas sozinhos e não desenvolveram a troca, tão necessária na conjugalidade. Essas questões nos permitem pensar na influência do meio social nas relações afetivas, como trouxe Féres-Carneiro (1987), afirmando que a nossa autonomia é incentivada desde cedo, com estímulos para alcançarmos a nossa independência, ouvindo frases como:&nbsp; Faça você! Você constrói seu caminho! Desta forma, os homens são incentivados para serem especialistas nas técnicas de sedução e conquista e, apresentam dificuldades na intimidade com o mundo feminino. As mulheres, apesar da emancipação e da autonomia feminina, conservam o amor romântico, que está fragmentado e, continuam em busca da alma gêmea. Já não prevalecem “para sempre e único”, da mesma forma a entrega total do outro está comprometida com idealizações nem sempre atingíveis.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo Magaldi Filho, a evolução cíclica da mulher estimula a evolução do homem, processo em que o feminino instiga o masculino. O que a mulher busca no homem? O herói que vai salvá-la de algo, o pai que vai protegê-la, o filho que poderá cuidar e o sábio que era unificar os três homens anteriores. O que o homem busca na mulher? A Eva, atraente e sensual, a Maria que irá proporcionar um lar, a Helena que está ao seu lado para o que der e vier e a Sofia, a sábia que irá coordenar as três anteriores. (2014, p. 186-187). Ainda, de acordo com o autor, a evolução tem como base a alteridade que deve incluir o princípio feminino, renegado por muitos anos pelo patriarcado. A mulher sábia transita entre o bom, o belo e o verdadeiro e isso pode assustar o homem: “A mulher tem mais facilidade para lidar com sua feminilidade (&#8230;) Ela muda, agrada e acolhe (o útero acolhe). Em contrapartida, o homem assusta-se: o masculino é assustado e a amedrontado. Por isso, o homem divide, agride e foge” (2014, p. 188). A alquimia do amor envolve a compreensão das diferenças que existem e a expressão do que sentimos, que potencializa o que une o universo masculino e feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A história nos mostra os ideais de casamento em diferentes épocas. No passado, o casamento tinha a função de ligar duas famílias e permitir que elas se perpetuassem. No séc. XVIII, surgiu um novo ideal de casamento: que os cônjuges se amassem. Hoje, é raro pessoas casarem sem desejo e amor. As mulheres em geral procuram mais por uma relação amorosa e os homens almejam constituir uma família. No início da relação, na hora da conquista, mostramos o melhor de nós, mas os conflitos aparecem na convivência: &nbsp;a sobrecarga de um e a folga do outro, investimentos errados, objetos fora do lugar, problemas de saúde, sexo extraconjugal, excesso de bebidas, as dificuldades financeiras, entre outros. Igualmente, a rotina e o cansaço passam a ocupar o espaço da criatividade e os cuidados conosco e com o outro não são mais os mesmos. Passamos a sentir necessidade de termos o nosso espaço e deixamos de investir no outro e na relação. No consultório, utilizo o exemplo simbólico da bolinha de neve, que vai rolando morro abaixo, aumentando de tamanho e ao bater em algo, causa impacto e destruição. E o que fazer para evitar a destruição do relacionamento? A utilização da comunicação assertiva é uma saída. É um caminho mais longo, porém geralmente mais eficaz. Ela envolve paciência, habilidade e escolhas. Ao mesmo tempo, é manifestação de respeito, carinho e amor, tão necessários nos relacionamentos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Difícil falar e citar uma regra geral para tanta complexidade. Assim como cada ser humano, cada história é única. E como trabalhar relações desgastadas? Trabalhando cada caso em particular ou com a psicoterapia de casal, momento em que os conflitos que permeiam controle, cobrança, comparação, culpa e castigo, podem ser integrados.&nbsp;O mundo virtual também nos oferece muitos recursos para aprimorarmos nossa performance sexual. Basta clicarmos e nos deparamos com muitas informações que podem ser funcionais ou não. Vários produtos são oferecidos pelo Sex Shop, que auxiliam no aumento da libido, mas o problema pode ser mais complexo: não reagimos só pelo instinto, necessitamos de essência, somos seres integrais! Ginecologistas e urologistas devem fazer parte da nossa vida. De forma idêntica, o psicólogo e o terapeuta sexual têm um papel fundamental para nos auxiliar na promoção do autoconhecimento e na vivência conjugal.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; É nítido que o governo, a religião e a família continuam despreparadas, transmitindo uma visão distorcida da sexualidade saudável. Os tempos mudaram, as possibilidades de vivermos a nossa vida sexual também, porém os valores transmitidos de geração em geração se perpetuam negativamente em algumas sociedades, a ponto de ainda ser comum homem bater em mulher e, consequentemente muitos enquadrados na Lei Maria da Penha. Enquanto isso, muitas mulheres ainda permanecem em silêncio, são violentadas, abusadas e mortas, índice comprovado pelas estatísticas. O sentimento de culpa por parte da mulher e posse por parte do homem prevalecem, sendo comum ouvirmos de quem comete tais crimes “se não for minha, não será de mais ninguém”. Mata-se em nome do amor! Paixão patológica, disfarçada de amor, que invade e domina, causadora de muito sofrimento. Neste contexto, homens também são agredidos e os índices de violência para com eles estão aumentando gradativamente.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com o surgimento dos conflitos, percebem-se diferentes investimentos para dar um novo sentido e significado às crises oriundas da convivência. Permanecer juntos “até que a morte os separe” é o que que se ouve nas cerimônias de casamento. E quantas mortes ocorrem, antes da morte física. Morte do encantamento, da confiança e de sonhar juntos!&nbsp;Em alguns casos, mantêm-se o casamento para não abalar o desenvolvimento emocional dos filhos, sendo que evitar brigas constantes e não conviver na mesma casa, faria menos mal para eles. É desafiador conjugar duas individualidades, assumir regras que envolvem um sistema de trocas, manter a relação prazerosa e útil. Quando o encantamento acaba, a relação acaba.&nbsp;Um indivíduo é a extensão do outro, ao mesmo tempo é diferenciado do outro. Cada um precisa ter seu espaço e o relacionamento precisa corresponder às expectativas de cada um dos envolvidos.&nbsp;De acordo com a autora Maria Helena M. Guerra, Jung também se confrontou com as dores do amor: “Por um lado, a necessidade de ser fiel ao que vivia, às suas emoções e aos seus sentimentos; por outro, o desejo de permanecer adaptado à sociedade, de manter sua persona, de reconhecer-se como sempre fora, valorizando a razão, a coerência, a ciência e acreditando ter o domínio de sua alma. Esta foi a grande tensão, o jogo de forças entre o espírito das profundezas e o espírito da época. (2011, p. 60).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conviver gera crises e quando esgotam as possibilidades de harmonia, a separação é a melhor solução, podendo ter efeitos positivos, como a ressignificação dos padrões de relacionamento. É dolorido ver o outro morrer em vida dentro de nós e nós morrermos no outro. São escolhas doloridas, que envolvem um antagonismo e um processo de luto a ser elaborado, ao mesmo tempo que as funções parentais devem ser asseguradas e mantidas. Hoje, deparamo-nos com a elevação do grau de exigências nos relacionamentos afetivos e na vivência da sexualidade, que conjuga o prazer e a procriação. Como vivemos cercados de muitas opções, as relações também se tornam descartáveis, principalmente com a falta de confiança, paciência e persistência. É necessário transitarmos também na dimensão espiritual, qualificarmos as relações e potencializarmos o que une. &nbsp;Neste sentido, trago a fala de Rubem Alves: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.” A convivência envolve silêncios e ruídos, que podem ser favoráveis à sua manutenção ou ao seu término. Relacionamentos envolvem a expressão do amor com ciclos saudáveis de prazer, simbolicamente representados pela integração do sol, da lua e do barulho da chuva. E na contenção do amor, perdemos essa preciosidade de vivermos a plenitude do amor.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;Claci Maria Strieder, analista em formação pelo Ijep.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ALVES, Rubem&nbsp;<a href="https://citacoes.in/citacoes-de-vida/">https://citacoes.in/citacoes-de-vida/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">ANDRADE, Carlos Drummond.&nbsp;<em>Amar se aprende amando</em>. São Paulo:&nbsp;<a href="https://www.companhiadasletras.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Companhia das Letras</a>, 2018.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">BÍBLIA De&nbsp;<em>Jerusalém</em>. São Paulo: Paulus, 2003.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, J. –&nbsp;<em>Mitologia Grega Vol. 1</em>, Petrópolis: Vozes, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAVALCANTI, R. &amp; CAVALCANTI, M.&nbsp;<em>Tratamento clínico das inadequações sexuais</em>. 3. Ed. São Paulo: Roca, 2006.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">FÉRES-CARNEIRO, T.&nbsp;<em>Aliança e Sexualidade no casamento e recasamento contemporâneo.</em>&nbsp;Psicologia: Teoria e Pesquisa, 3, 250-261, Porto Alegre, 1987.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;_____________&nbsp;<em>Casamento contemporâneo:&nbsp;</em>o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade. Psicologia: Reflexão e Crítica, vol.11, nº2. Porto Alegre, 1998.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRAY, John.&nbsp;&nbsp;<em>Orácúlo de</em>&nbsp;<em>Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus.&nbsp;</em>1ª Ed. São Paulo: Editora Pensamento, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUERRA, Maria Helena R. M.&nbsp;<em>O livro vermelho: o drama de amor de C. G. Jung.</em>&nbsp;São Paulo: Linear B, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<em>A natureza da psique.&nbsp;</em>14ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LISPECTOR, Clarice.&nbsp;<em>Uma aprendizagem ou O Livro dos prazeres.&nbsp;</em>Rio de Janeiro:&nbsp;Editora Rocco,<strong>&nbsp;</strong>1998</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar.&nbsp;<em>Dinheiro, saúde e sagrado</em>: interfaces culturais, econômicas e religiosas à luz da psicologia analítica. 2ª edição – São Paulo: Eleva Cultural, 2014.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, Fernando.&nbsp;<em>Livro do desassossego</em>. São Paulo: Brasiliense, 1989.&nbsp;</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder</em></strong></h4>
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