<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos Metanoia - Blog IJEP</title>
	<atom:link href="https://blog.ijep.com.br/category/metanoia/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.ijep.com.br/category/metanoia/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 13 Jul 2026 18:17:02 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0.2</generator>

<image>
	<url>https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-logo-ijep-32x32.png</url>
	<title>Arquivos Metanoia - Blog IJEP</title>
	<link>https://blog.ijep.com.br/category/metanoia/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>NOÉ E A METANOIA &#8211; Catástrofe, travessia e transformação psíquica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/noe-e-a-metanoia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Adriane Grein Basso]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jul 2026 17:56:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[metade da vida]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[noé]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[simbolismo da alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[transformação]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=13492</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo propõe uma leitura simbólica dos mitos de dilúvio, especialmente da narrativa de Noé, a partir da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, buscando compreender sua relação com a metanoia e o processo de envelhecimento no indivíduo contemporâneo. Partindo da recorrência das narrativas cataclísmicas em diferentes civilizações, o texto investiga o dilúvio como imagem arquetípica associada à dissolução de antigas estruturas psíquicas, à desorientação e às experiências limiares que marcam o meio da vida. A metanoia é compreendida como um processo de transformação em que formas anteriores de adaptação e identificação começam a desorganizar-se, possibilitando o surgimento de uma nova relação com o si-mesmo. Nesse contexto, o artigo busca refletir sobre como essas imagens míticas ainda expressam aspectos fundamentais da experiência humana e das transformações psiquicas no meio da vida.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/noe-e-a-metanoia/">NOÉ E A METANOIA &#8211; Catástrofe, travessia e transformação psíquica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong><strong> </strong>O presente artigo propõe uma leitura simbólica dos mitos de dilúvio, especialmente da narrativa de Noé, a partir da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, buscando compreender sua relação com a metanoia e o processo de envelhecimento no indivíduo contemporâneo. Partindo da recorrência das narrativas cataclísmicas em diferentes civilizações, o texto investiga o dilúvio como imagem arquetípica associada à dissolução de antigas estruturas psíquicas, à desorientação e às experiências limiares que marcam o meio da vida. A metanoia é compreendida como um processo de transformação em que formas anteriores de adaptação e identificação começam a desorganizar-se, possibilitando o surgimento de uma nova relação com o si-mesmo. Nesse contexto, o artigo busca refletir sobre como essas imagens míticas ainda expressam aspectos fundamentais da experiência humana e das transformações psiquicas no meio da vida.</p>



<h2 id="h-existem-momentos-em-que-aquilo-que-organizava-a-existencia-deixa-de-oferecer-direcao" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Existem momentos em que aquilo que organizava a existência deixa de oferecer direção.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O caminho desaparece, estruturas que sustentavam desabam ou tornam-se insuficientes e o indivíduo passa a atravessar regiões desconhecidas de si mesmo. Como a crisálida que dissolve o corpo da lagarta para que outra forma de vida possa emergir, a metanoia frequentemente é vivida como desorientação, colapso e travessia. Antes do nascimento da borboleta, existe dissolução.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A imagem do dilúvio aparece de maneira recorrente nas narrativas mitológicas de diferentes civilizações. Chuvas intermináveis, águas que invadem o mundo, continentes que afundam, deuses que se arrependem da humanidade, homens que constroem embarcações para atravessar o caos. Essas histórias carregam algo que ultrapassam o medo de catástrofes naturais, apontando para experiências psíquicas humanas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tal como a infância e a puberdade, Jung considera o meio da vida, que se situa aproximadamente aos quarenta anos, uma etapa crucial do desenvolvimento da personalidade, que pode acarretar profundas transformações no indivíduo. Embora expressões como “crise da meia idade”, “passagem do meio”, “experiencia limiar”, a noção de metanoia parece especialmente fecunda por indicar não apenas uma crise mas a possibilidade da uma significativa modificação das estruturas psicológicas. Nesse sentido, a metanoia pode ser compreendida como experiencia limiar, em que antigas estruturas, formas de adaptação e identificações, anteriormente eficazes começam a dissolver-se, desorganizando-se, enquanto uma nova relação com o si-mesmo busca emergir.</p>



<h2 id="h-assim-ao-voltarmos-o-olhar-para-os-mitos-de-diluvio-o-que-eles-ainda-poderiam-revelar-sobre-o-individuo-contemporaneo-e-o-processo-de-envelhecimento" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Assim ao voltarmos o olhar para os mitos de dilúvio, o que eles ainda poderiam revelar sobre o indivíduo contemporâneo e o processo de envelhecimento?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso em mente, este artigo tem por objetivo principal colocar sob as lentes da psicologia analítica os mitos cataclísmicos, em especial o dilúvio trazido pela narrativa hebraica, buscando compreender de que forma essa imagem arquetípica se relaciona com a jornada de envelhecimento no indivíduo contemporâneo.</p>



<h2 id="h-o-mito" class="wp-block-heading"><strong>O mito</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os mitos são manifestações da psique humana de grande valia para a investigação científica do inconsciente, pois atinge-se suas estruturas básicas através da exposição ao material cultural presente na mitologia, conforme ressalta Marie-Lousie von Franz (2022, p. 19).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma, voltar o olhar aos mitos é também aproximar-se dos processos psíquicos do homem contemporâneo, pois essas imagens arquetípicas continuam a dizer, sobre os movimentos de dissolução, conflito, transformação e renovação que atravessam a experiência humana.</p>



<h2 id="h-e-nessa-direcao-a-de-reconhecer-o-mito-como-linguagem-da-alma-que-jung-escreve" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">É nessa direção, a de reconhecer o mito como linguagem da alma, que Jung escreve:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">Todos os acontecimentos mitologizados da natureza tais como verão e o inverno, as fases da lua, as estações chuvosas etc., não são de modo algum alegorias destas experiências objetivas, mas sim, expressões simbólicas do drama interno e inconsciente da alma, que a consciência humana consegue aprender através da projeção – isto é, espelhadas nos fenômenos da natureza. (2014, § 7).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme ressaltado anteriormente a destruição da humanidade pela invasão das águas é uma temática que se repete em vários mitos, de diferentes civilizações ao longo da história. O registro mais antigo conhecido de um mito de dilúvio vem da antiga Mesopotâmia. Trata-se do texto sumério conhecido como <em>G</em><em>ê</em><em>nesis de Eridu</em> (também referido como “história do dilúvio” ou “mito do dilúvio sumério”), datado de aproximadamente dezoito séculos antes de Cristo, e que reaparece com variações em obras posteriores como: <em>Atrahasis</em> (século XVII a.C.) e Epopeia de Gilgamesh.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na epopeia de Gilgamesh, Utnapishim é advertido pelo Deus Ea (uma divindade associada às águas profundas, à sabedoria, à criação, e ao conhecimento oculto), que os outros deuses decidem enviar o dilúvio para destruir a humanidade e quebrando parcialmente o silêncio orienta Utnapishtim a construir uma embarcação para preservar a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Índia antiga, o mito de Manu narra a travessia conduzida por Matsya, o peixe divino que o orienta a preservar as sementes da vida durante o grande dilúvio. Já na Grécia antiga, o mito de Deucalião e Pirra descreve a recriação da humanidade após uma inundação enviada por Zeus. Há ainda relatos de dilúvio nas mitologias nórdica, irlandesa, chinesa, polinésia e aborígene australiana, bem como na tradição egípcia. Narrativas semelhantes também aparecem entre povos ameríndios, como maias, muiscas, mapuches e hopis, demonstrando que o dilúvio não se refere apenas a uma catástrofe natural, mas à recorrente experiência simbólica de colapso, travessia e regeneração que acompanha a história humana.</p>



<h2 id="h-no-verbete-dil-u-vio-consta" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No verbete <em>Dil</em><em>ú</em><em>vio, </em>consta:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">&#8230; Dentre os cataclismos naturais, o diluvio se distingue por seu caráter não definitivo. Ele é o sinal da germinação e da regeneração. Um dilúvio não destrói senão porque as <em>formas </em>estão usadas e exauridas mas ele é sempre seguido de uma nova humanidade e de uma nova história. Evoca a ideia de reabsorção da humanidade na água e de instituição de uma nova época, com uma nova humanidade. (CHEVALIER, 2022, p. 397).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Com exceção do mito indiano de Manu, nos mitos de dilúvio a catástrofe aparece associada a excessos da humanidade: transgressões morais, violações rituais, desobediência às leis divinas ou ultrapassagem de limites considerados sagrados. Em muitas narrativas, como na tradição bíblica, o próprio Deus se arrepende de ter criado o homem (Gn 6,6), indicando uma ruptura entre a humanidade e a ordem que sustenta a vida.</p>



<h2 id="h-o-arrependimento-e-a-cata-strofe" class="wp-block-heading"><strong>O arrependimento e a catá</strong><strong>strofe.</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Antes da chegada do dilúvio, os filhos de Deus se uniram as filhas dos homens e deram à luz a gigantes. Javé viu que a maldade do homem crescia na terra e se arrependeu de sua criação, no livro do Genesis consta:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">Javé viu que a maldade do homem crescia na terra e que todo projeto do coração humano era sempre mau. Então Javé se arrependeu de ter feito o homem sobre a terra, e seu coração ficou magoado. E Javé disse: “Vou exterminar da face da terra os homens que criei, e junto também os animais, os répteis e as aves do céu, porque me arrependo de os ter feito”. (Gn 6, 1-7).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para Edward F. Edinger (2020, p. 31), o mal decorre da relação proibida entre os reinos divino e humano. Ou seja, o eu está contaminado pela identificação com conteúdo arquetípico, resultando em inflação (os gigantes). Este estado de coisas provoca o dilúvio: <em>O eu inflado alienou-se seriamente do si-mesmo e está ameaçado de extinçã</em><em>o</em><em>”</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Etimologicamente as palavras: “desastre” e “catástrofe”, descrevem experiências de ruptura da ordem. <em>Desastre</em> (de <em>dis</em> + <em>astrum</em>) traz a ideia de estar “fora do astro”, como se houvesse um desalinhamento entre céu e terra, crença antiga segundo a qual calamidades sinalizavam um desequilíbrio cósmico e, portanto, uma quebra na relação entre o humano e as forças maiores que sustentam o mundo. Já <em>cat</em><em>á</em><em>strofe</em>, de raiz grega, indica um “fim súbito” e uma virada para baixo (<em>kata</em>), como no teatro grego, quando os acontecimentos se voltam contra o protagonista e a verdade se impõe: ela envolve derrota, desilusão, limites impostos de fora e o encerramento de uma narrativa que já não pode continuar como antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica aparece, em muitos mitos, como a imagem do ser humano tentando se apoderar do poder dos deuses — ou agindo em desrespeito a eles. É o que os gregos chamavam de <em>hybris</em>: a desmedida, o ultrapassar dos limites humanos. Em termos psicológicos, podemos compreender a <em>hybris</em> como uma identificação do ego com conteúdos arquetípicos.</p>



<h2 id="h-conforme-jung-2012b-563-a-consciencia-se-hipnotiza-a-si-mesma-e-portanto-nao-e-aberta-ao-dialogo-consequentemente-esta-exposta-a-calamidades-que-podem-ate-ser-fatais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Conforme Jung (2012b, §563) a consciência<em>: “se hipnotiza a si mesma e, portanto, não é aberta ao diálogo. Consequentemente está exposta a calamidades que podem até ser fatais”</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em outra passagem (JUNG, 2014, §254) segue advertindo que o grande risco psíquico associado à individuação, <em>“o tornar-se quem se é”,</em> está na possibilidade de identificação do ego com o si-mesmo; essa atitude gera uma inflação que ameaça dissolver a consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim sendo, quando um desastre nos atinge, somos forçados a encarar uma verdade incontornável: a impotência do ego diante de forças infinitamente maiores. A própria experiência do desastre derruba a fantasia de que podemos viver sem limites, de modo autônomo e plenamente independente. Com a catástrofe a virada se impõe, e os limites se escancaram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Culturalmente estes mitos também tinham a função de através da ameaça de um dilúvio mundial encorajar a percepção de Deus, o que psicologicamente verifica-se igualmente verdadeiro, uma vez que, conforme ressalta Edward F. Edinger (2006, pág. 87): “&#8230;<em>uma ameaça de inundação vinda do inconsciente pode ter efeito salutar sobre um ego presunçoso e produzir a consciência da necessidade de relacionamento com o transpessoal”</em>.</p>



<h2 id="h-no-e-o-hero-i-solar" class="wp-block-heading"><strong>No</strong><strong>é: o heró</strong><strong>i solar.</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao contrário da humanidade que perece, Noé não busca apropriar-se de poderes que não lhe pertencem, recusando assim a identificação com o arquétipo que caracteriza a inflação. Essa renúncia é a condição de possibilidade da escuta. Uma vez que, conforme Jung (2012b, §563) leciona, uma consciência inflacionada enxerga apenas a si mesma, só tendo consciência de sua própria presença, não aprende com o passado, não compreende o presente e não extrai lições uteis para o futuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De tal modo, é precisamente porque Noé não usurpa o lugar do divino que pode ouvi-lo. Colocando-se a serviço da voz que o chama, ele mantém o eixo ego-self em funcionamento: recebe orientação sem se tornar a fonte dessa orientação. A construção da arca é, nesse sentido, menos uma obra de Noé do que uma obra através de Noé, o ego atuando como instrumento consciente de uma inteligência que o transcende.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme Jung (2013, §311) explica, a jornada de Noé é um exemplo de herói solar, aonde: “<em>todos os seres vivos morrem; só ele e a vida preservada por ele são levados para uma nova criaçã</em><em>o</em><em>”</em>. A arca, assim como o mar, é um símbolo feminino, análogo ao ventre materno, na qual o sol mergulha para renascer.</p>



<h2 id="h-e-com-este-horizonte-em-vista-que-jung-escreve" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">É com este horizonte em vista que Jung escreve:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">A caixa ou arca é um símbolo feminino, isto é, o ventre materno, que era um conceito familiar aos mitologistas antigos. A caixa, a pipa ou cesta com o precioso conteúdo muitas vezes é imaginada como flutuando sobre a água, o que constitui uma analogia à trajetória do Sol. O Sol transpõe o mar como o deus imortal que toda noite submerge no mar materno para renascer pela manhã (JUNG, 2013, §307).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o dilúvio não expressa apenas aniquilamento; ele figura uma regressão ao estado indiferenciado, ao caos inaugural das águas, chamada pelos alquimistas de <em>solutio</em>, que psicologicamente pode ser traduzido como uma ativação do inconsciente que ameaça dissolver as estruturas enrijecidas do ego e um retorno a <em>prima mat</em><em>é</em><em>ria </em>(Edinger, 2006, p. 87). Sendo que as grandes transições da vida costumam ser experiencias de <em>solutio.</em></p>



<h2 id="h-ao-desenvolver-esta-reflexao-jung-afirma-que" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Ao desenvolver esta reflexão, Jung afirma que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">Quando a libido se afasta do “mundo superior” luminoso — seja por decisão, inércia ou imposição do destino — ela recua para as próprias profundezas, reencontrando a fonte de onde um dia irrompeu. Esse movimento de regressão a conduz de volta ao ponto em que, pela primeira vez, entrou no corpo. (JUNG, 2013, §449).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos constantemente realizando pequena transformações e adaptações, por meio de compensações inconscientes, que nos mantem adaptáveis e flexíveis para continuar vivendo, contudo, grandes transformações a que está se referindo aqui, costumam exigir uma quantidade significativa de energia e um longo período de tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como observa Murray Stein (2007, p. 39), esse processo pode durar anos e se expressar por sintomas recorrentes, como depressão e desinteresse, sensação de fracasso e desilusão (com a vida ou com pessoas), frustração por sonhos não realizados, medo da morte e a percepção de que já não há tempo para viver o que se considera uma vida plena, que muitas vezes é acompanhado por uma dor profunda daquilo que se foi e que jamais se voltará a ser.</p>



<h2 id="h-esquecida-a-arca-flutua-sobre-as-aguas" class="wp-block-heading"><strong>Esquecida, a arca flutua sobre as águas.</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Noé tinha seiscentos anos quando entra na arca e Javé fecha a porta por fora, <em>“quando se arrebatam as fontes do oceano e se abriram as portas do cé</em><em>u</em><em>”</em><em> </em>(Gn 7,11).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste contexto a vida de Noé dentro da arca pode ser compreendida como o símbolo não apenas de proteção, mas da capacidade de sustentar o processo, o que não significa o fim da tormenta mas onde a arca torna-se então imagem de contenção da própria transformação psíquica, um espaço onde o velho mundo já não existe, enquanto o novo ainda não pode ser alcançado. Suspenso sobre as águas, ainda à mercê de muitos perigos, representa a condição intermediária da travessia, onde só lhe cabe sustentar uma relação com aquilo que o ultrapassa sem possuir garantias, respostas imediatas ou direção clara. A entrada na arca não é a cessação da tormenta, mas o início de uma fase, uma vez que Javé fechou a porta por fora, criando um ambiente hermético e percebe-se no decorrer dos versículos que esqueceu de Noé e a arca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os quarenta dias e quarentas noites em que a chuva cai por toda a terra, parecem análogos aos quarenta dias de Jesus no deserto, que ressaltam o sofrimento que decorre de assumir o serviço imposto pelo Self. É, contudo, um sofrimento de natureza diferente: existe uma aliança já em curso, mas este é o momento em que a voz silencia e nenhuma bússola pode detectar um caminho. Apenas capacidade de suportar a incerteza, a frustração, a impaciência, e o esforço para perseverar mesmo diante de todas essas condições, sustentando a vida dentro da arca.</p>



<h2 id="h-o-retorno-da-pomba-ao-entardecer-com-um-ramo-novo-de-oliveira" class="wp-block-heading"><strong>O retorno da pomba ao entardecer com um ramo novo de oliveira</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O capítulo oito do Gênesis, marca mais uma mudança na dinâmica do dilúvio. Após o período de inundação, suspensão e confinamento dentro da Arca, inicia-se lentamente um movimento de retirada das águas e reaparecimento da terra. Contudo, esse processo não ocorre de forma imediata. A narrativa insiste na duração, na lentidão e na espera. Mesmo após Deus “lembrar-se” de Noé, as águas continuam baixando pouco a pouco, e a terra permanece por longo tempo inabitável. Psicologicamente, isso sugere que a transformação psíquica não se resolve no momento em que a consciência estabelece relação com o si-mesmo; ao contrário, existe um prolongado período intermediário onde o novo, apesar de já poder ser vislumbrado, ainda não pode ser habitado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após as águas começarem a baixar Noé envia o corvo e depois a pomba, que retorna sem nada, e na segunda vez volta trazendo um ramo novo de oliveira, surgindo a primeira imagem de renovação. Contudo trata-se de um sinal frágil, visto que a oliveira é uma arvore de crescimento lento, que exige tempo para amadurecer e produzir, mas que quando o faz produz por séculos, cujas raízes descem tão fundo que sobrevivem ao fogo e ao corte, rebrotando do que parecia destruído. A nova terra se anuncia, mas o que chega não é uma possibilidade ainda não consolidada de prosperidade, ou seja, não é uma recompensa, mas uma vocação. Não se trata assim de reconstruir o mundo anterior, mas do surgimento gradual de uma nova relação com a existência.</p>



<h2 id="h-o-arco-iris-e-a-alianca" class="wp-block-heading"><strong>O Arco íris e a aliança </strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre o arco-íris, Jung discorre:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4">Ele propôs ao ancestral Noé uma &#8220;aliança&#8221;`[&#8230;] Para fortalecer esta aliança e mantê-la viva, Javé instituiu o arco-íris como sinal do pacto. Mais tarde, ao produzir as nuvens que traziam os raios e a inundação em seu bojo, também faria aparecer o arco-íris que lembraria a ele, Javé, e a seu povo o pacto outrora celebrado. De fato, a tentação de utilizar um aglomerado de nuvens para a experiência de um dilúvio não era pequena e por isso era aconselhável ligar a este fenômeno um sinal que indicasse a autoria da obra e advertisse, enquanto era tempo, contra uma possível catástrofe. (2012a, §577).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O arco íris vem como símbolo da aliança selada com Deus e os homens, que sugere que após sobreviver a dissolução provocada pelo diluvio, uma conexão entre ego e o si-mesmo torna-se possível. Após a destruição, o próprio Deus parece modificar sua posição perante a humanidade, garantindo que não irá mais destrui-la, sendo o arco entre as nuvens uma lembrança para si mesmo deste compromisso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A narrativa bíblica afirma que, embora “os projetos do coração do homem sejam maus desde a juventude” (Gn 8,21), Deus decide não mais destruir a terra. Há aqui um reconhecimento da própria condição humana, de sua imperfeição e ambiguidade constitutivas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psicologicamente, isso pode ser compreendido como o estabelecimento de uma relação menos afastada entre consciência e inconsciente, na qual a existência das tensões e contradições humanas já não exige extermínio, mas pode ser sustentada dentro de uma relação dialética. O que não significa que o inconsciente deixe de existir de forma autônoma, imprevisível e muitas vezes perturbadora, nem uma promessa de ausência de sofrimento e conflitos, a imperfeição permanece, o que muda é a relação com ela.</p>



<h2 id="h-nos-textos-alquimicos-jung-esclarece-que-o-arco-iris-omnes-colores-todas-as-cores-e-a-integracao-de-todas-as-qualidades-sendo-um-simbolo-analogo-ao-pavao-e-de-fundamental-importancia-para-a-compreensao-da-obra-assim-escreve" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Nos textos alquímicos, Jung esclarece que o arco íris, “<em>omnes colores</em>” (todas as cores) é a integração de todas as qualidades, sendo um símbolo análogo ao pavão e de fundamental importância para a compreensão da obra. Assim escreve:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph">O arco-íris como <em>“nuncia Dei” </em>(mensageiro de Deus) é naturalmente de importância especial para compreensão da <em>opus </em>(obra), pois a integração de todas as cores, por assim dizer, indica a chegada ou a proximidade ou até mesmo a presença de Deus. (JUNG, 2012c, §52).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, diante disso, cabe notar que toda esta jornada não elimina o sofrimento, nem tampouco conduz à perfeição, mas inaugura a possibilidade de uma vida menos organizada por uma unilateralidade da consciência e mais aberta à escuta da alma, ao mistério e à sustentação dialética entre consciência e inconsciente. A transformação consiste justamente nessa mudança qualitativa da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, muito mais do que uma vista cansada ou a diminuição do vigor físico, o meio da vida pode representar uma oportunidade, não sem riscos, de um intenso desenvolvimento psicológico, em que o indivíduo finalmente deixa de viver uma existência provisória e começa a habitar uma vida mais alinhada com as forças suprapessoais que o constituem, estabelecendo a religação com o self.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso revela como a visão contemporânea do envelhecimento frequentemente conduz a uma regressão psíquica: o indivíduo permanece preso à tentativa de voltar para terras antigas que já não existem mais, em vez de se abrir às novas possibilidades que emergem nesse tempo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos, portanto, muito longe de saber quanta vida cabe em uma vida, quando ela não é reduzida à repetição de um único manual de existência. Quando as águas sobem, e as terras conhecidas já não existem mais, é preciso coragem para se lançar ao desconhecido, mas o sofrimento de permanecer pode ser profundamente mais dolorido e vazio. E que tipo de vida pode nascer daí? Essa resposta não pode ser pensada de antemão. Ela só pode ser vivida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/adriane-grein-basso/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/adriane-grein-basso/">Adriane Grein Basso – Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: NOÉ E A METANOIA – Catástrofe, travessia e transformação psíquica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Vl_tePIK6Aw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário etimológico da língua portuguesa. 4. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DOMINGUES, Joelza Ester. Dilúvios mitológicos, a ira divina para a destruição da humanidade. Ensinar História, 14 ago. 2020. Disponível em: https://ensinarhistoria.com.br/diluvios-mitologicos/. Acesso em: 13 maio 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, Edward F. Anatomia da psique: <em>o simbolismo alqu</em><em>ímico na psicoterapia</em>. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ A Bíblia e a psique: <em>simbolismo da individua</em><em>ção no Antigo Testamento. </em>Petropólis: Vozes, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ESPERANÇA. In: Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis. São Paulo: Editora Melhoramentos, [s.d.]. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, Marie-Louise von. A interpretação dos contos de fada. 2.ed. São Paulo: Paulus, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. A passagem do meio: <em>da mis</em><em>éria ao significado na meia-idade</em>. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2012a.</p>



<h2 id="h-psicologia-e-alquimia-6-ed-petropolis-vozes-2012b" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">______ Psicologia e alquimia. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2012b.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">______ Mysterium Conuctionis: <em>pesquisas sobre a separaçã</em><em>o e composi</em><em>ção dos opostos na psíquicos na alquimia. Rex e Regina; Adão e Eva, A conjunçã</em><em>o.</em> 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2012c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____ A natureza da psique. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2012 d.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____ Símbolos da transformação: <em>an</em><em>álise dos prelúdios de uma esquizofrenia</em>. 9 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MURRAY, Stein. No meio da vida: <em>uma perspectiva junguiana.</em> São Paulo: Paulus, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PAULUS. Bíblia Pastoral: Gênesis 6. Disponível em: https://biblia.paulus.com.br/biblia-pastoral/antigo-testamento/pentateuco/genesis/6. Acesso em: 13 maio 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/noe-e-a-metanoia/">NOÉ E A METANOIA &#8211; Catástrofe, travessia e transformação psíquica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Partejar a si mesmo: renascimento psíquico na maturidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/partejar-a-si-mesmo-renascimento-psiquico-na-maturidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Pessanha Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 18:08:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[crises de vida]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento pessoal]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[perda de identidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[segunda metade da vida]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[transformação]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12579</guid>

					<description><![CDATA[<p>Quando aquilo que sustenta a identidade do indivíduo já não faz mais sentido, talvez não seja fracasso — mas um chamado. A Psicologia Analítica compreende esse vazio da maturidade como uma exigência de renascimento psíquico: uma travessia em que o antigo eu precisa morrer para que algo mais verdadeiro possa emergir. “Partejar a si mesmo” é a imagem desse processo — doloroso, inevitável e profundamente transformador. Este artigo propõe olhar o envelhecimento não como declínio, mas como território iniciático, onde a pergunta decisiva finalmente se impõe: quem sou eu quando já não sou quem fui?</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/partejar-a-si-mesmo-renascimento-psiquico-na-maturidade/">Partejar a si mesmo: renascimento psíquico na maturidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong><em>Quando aquilo que sustenta a identidade do indivíduo já não faz mais sentido, talvez não seja fracasso — mas um chamado. A Psicologia Analítica compreende esse vazio da maturidade como uma exigência de renascimento psíquico: uma travessia em que o antigo eu precisa morrer para que algo mais verdadeiro possa emergir. “Partejar a si mesmo” é a imagem desse processo — doloroso, inevitável e profundamente transformador. Este artigo propõe olhar o envelhecimento não como declínio, mas como território iniciático, onde a pergunta decisiva finalmente se impõe: quem sou eu quando já não sou quem fui?&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-momentos-da-vida-em-que-aquilo-que-antes-sustentava-o-sentido-trabalho-papeis-sociais-expectativas-reconhecimento-posicao-social-deixa-de-responder-as-perguntas-mais-profundas-da-alma-nbsp" style="font-size:18px">​​Há momentos da vida em que aquilo que antes sustentava o sentido — trabalho, papéis sociais, expectativas, reconhecimento, posição social — deixa de responder às perguntas mais profundas da alma.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-vida-segue-mas-algo-essencial-se-perde" style="font-size:18px"><strong>A vida segue, mas algo essencial se perde</strong>. Aquilo que antes organizava a identidade já não oferece sustentação. Instala-se um sentimento de vazio, uma perda de vitalidade, um desânimo, que frequentemente é confundido com fracasso pessoal ou até mesmo uma patologia. Esse estado costuma ser vivido com angústia, no entanto, esse esvaziamento não é, em si, depressão nem sinal de adoecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-trata-se-muitas-vezes-de-uma-crise-de-identidade-o-individuo-ja-nao-se-reconhece-naquilo-que-antes-lhe-dava-contorno" style="font-size:18px">Trata-se, muitas vezes, de uma <strong>crise de identidade</strong>: o indivíduo já não se reconhece naquilo que antes lhe dava contorno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que agradava, já não satisfaz mais; valores que eram importantes perdem a força; surge a experiência de não saber mais quem se é. Esse desconhecimento de si pode ser profundamente desestabilizador — e exatamente por isso, carregado de <strong>potencial transformador</strong>. Perguntas antes irrelevantes tornam-se urgentes. “Por que eu gostava disso e agora não gosto mais?”, “O que, afinal, ainda faz sentido para mim?, “O que a vida quer de mim?”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na Psicologia Analítica, esse momento pode indicar uma <strong>exigência psíquica de transformação</strong>, típica da segunda metade da vida. A busca que se impõe já não é externa. Não se trata de novos projetos, novos papéis ou novos reconhecimentos. Trata-se de uma busca <strong>interior</strong>, que não pode ser simplesmente decidida ou planejada. Ela precisa ser gestada, sustentada e, finalmente, parida. É nesse horizonte que emerge a imagem central deste artigo: <strong>“partejar a si mesmo”</strong>, como símbolo de um processo interno árduo, inevitável e criativo do amadurecimento psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-etapas-da-vida" style="font-size:22px"><strong>As etapas da vida</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung descreve a primeira metade da vida como orientada fundamentalmente pela <strong>adaptação ao mundo exterior</strong>. O desenvolvimento da psique, nesse período, está centrado no fortalecimento e na estruturação do ego, que precisa se diferenciar progressivamente do inconsciente (JUNG, <em>2013</em>).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nessa etapa o indivíduo desenvolve a personalidade parcialmente consciente, constrói a persona, sua vida funcional e produtiva. Trabalho, família, vida social e conquistas materiais tornam-se eixos organizadores da identidade. Trata-se de uma fase necessária e legítima do desenvolvimento psíquico. Sem um ego suficientemente estruturado, não há base para desenvolvimento de processos mais complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Contudo, Jung é enfático ao afirmar que essa lógica não pode reger toda a existência. Na <strong>segunda metade da vida</strong> surge uma relação diferente entre ego e Self. É o que Jung denomina <strong>metanoia</strong>: uma crise profunda de reorientação psíquica, na qual ocorre um questionamento radical dos valores até então vigentes. A libido (energia psíquica), antes predominantemente dirigida ao mundo externo, volta-se para o mundo interno. O ego passa a buscar o si-mesmo (centro regulador da psique) a procura de uma nova orientação para a vida. É chegado o momento do resgate da alma. A esse movimento Jung dá o nome de <strong>processo de individuação</strong>, entendida como o objetivo do desenvolvimento psíquico em direção à realização da totalidade da personalidade, ao tornar-se verdadeiramente quem se é.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para ilustrar essa inversão de valores, Jung compara o desenvolvimento humano ao curso diário do sol:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:5px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Suponhamos um Sol dotado de sentimentos humanos e de uma consciência humana relativa ao momento presente. De manhã, o Sol se eleva do mar noturno do inconsciente […] Precisamente ao meio-dia, o Sol começa a declinar e este declínio significa uma inversão de todos os valores e ideais cultivados durante a manhã” (JUNG, <em>A natureza da psique</em>, OC 8/2, §778).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-inversao-nao-e-patologica-nem-opcional-simplesmente-acontece-quando-o-ego-insiste-em-viver-a-maturidade-segundo-a-logica-da-juventude-expansao-produtividade-adaptacao-externa-o-sofrimento-e-inevitavel" style="font-size:18px">Essa inversão não é patológica nem opcional, simplesmente acontece. Quando o ego insiste em viver a maturidade segundo a lógica da juventude — expansão, produtividade, adaptação externa —, o sofrimento é inevitável.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Da mesma forma que o indivíduo preso à infância recua apavorado diante da incógnita do mundo e da existência humana, assim também o homem adulto recua assustado diante da segunda metade da vida, como se o aguardassem tarefas desconhecidas e perigosas, ou como se sentisse ameaçado por sacrifícios e perdas que ele não teria condições de assumir, ou ainda como se a existência que ele levara até agora lhe parecesse tão bela e tão preciosa, que ele já não seria capaz de passar sem ela.” (JUNG, <em>A natureza da psique</em>, OC 8/2, §777)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sofrimento-nesse-contexto-surge-pela-resistencia-a-transformacao-psiquica" style="font-size:18px">O sofrimento, nesse contexto, surge pela <strong>resistência à transformação psíquica</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung foi muito claro ao afirmar que é a recusa em aceitar a mudança, em atender ao chamado do Self, que traz sofrimento. Segundo ele, “para o homem que envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo. Depois de esbanjar luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe seus raios para iluminar a si-próprio.” (JUNG, 2013)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, é muito comum vermos essa recusa perdurar até depois da metanoia, que costuma acontecer por volta dos 40 anos. Importante deixar claro que o envelhecimento, não leva necessariamente ao amadurecimento psíquico. Para que isto ocorra, o indivíduo deve aceitar esse chamado com consciência e confiança. O processo de amadurecimento pode acontecer tardiamente, ou até mesmo, nunca acontecer.&nbsp; E se assim for, se vive uma velhice sem sentido, em profunda depressão, acompanhado somente das lembranças do passado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-renascimento-psiquico" style="font-size:22px"><strong>O renascimento psíquico</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A recusa em viver o envelhecimento sem sentido pode levar as pessoas ao processo do <strong>renascimento psíquico</strong>. Jung se debruçou sobre esse tema, considerando-o como um arquétipo. Isso porque a ideia de renascimento está presente na história da humanidade e amplamente difundida por meio de mitos em diferentes culturas. O renascimento pode ser ocasionado por um evento externo, como por exemplo, uma doença ou a morte de um ente querido, ou interno, como o caso da metanoia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Renascimento, portanto, <strong>não equivale a recomeçar a vida</strong> nem a buscar uma juventude tardia. Trata-se de uma <strong>morte simbólica</strong> de antigas identificações egóicas, acompanhada de desorganização do ego e da emergência de novas imagens orientadoras do Self. Jung descreve diferentes formas de renascimento: a <em>renovatio</em>, na qual funções psíquicas são fortalecidas sem alteração essencial da personalidade; a <strong>transformação no sentido de ampliação</strong>, a possibilidade de modificação da personalidade; e o <strong>renascimento indireto</strong>, pela participação em processos ou ritos de transformação (JUNG, <em>2014</em>). Na maturidade, é frequentemente a transformação que se impõe.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse processo não é confortável. Ele envolve perda de certezas, desorientação e espera. O ego perde centralidade, e o Self passa a orientar a vida psíquica. Novas imagens e valores emergem do inconsciente, exigindo elaboração simbólica e ética.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-partejar-a-si-mesmo" style="font-size:22px"><strong>Partejar a si mesmo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O renascimento desejado na maturidade é, portanto, um processo consciente, ou seja, de ampliação de consciência. E exige muito trabalho e dedicação. É nesse campo que se insere a imagem simbólica de <strong>“partejar a si mesmo”</strong>. Partejar a si mesmo não é um projeto de autoaperfeiçoamento; é responder ao <strong>chamado do Self</strong>. É uma experiência psíquica: o nascimento de algo novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como todo parto, trata-se de um processo marcado por dor, tempo próprio e impossibilidade de controle. O novo não nasce por decisão racional; ele nasce <strong>apesar do ego</strong>. Partejar a si mesmo é suportar os lutos inerentes à maturidade: deixar morrer personas que garantiam pertencimento, abandonar ideais de onipotência, integrar aspectos sombrios da personalidade que permaneceram dissociados durante a vida produtiva. O que nasce não é um “novo eu” idealizado, mas uma <strong>nova relação entre ego e Self</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para partejar a si mesmo, é necessário um ego suficientemente flexível, capaz de sustentar a tensão com o inconsciente, sem colapsar nem se defender rigidamente. Esse processo ocorre no tempo do <em>kairós</em>, o tempo da alma, e não no tempo cronológico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-transformacao-psiquica-exige-tomada-de-consciencia" style="font-size:18px">A transformação psíquica exige <strong>tomada de consciência.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse processo só se torna possível por meio daquilo que Jung denominou <strong>função transcendente</strong> &#8211; um processo que emerge da tensão entre consciente e inconsciente:&nbsp; passado e futuro, vida externa esvaziada e exigência interna ainda informe. Quando o ego suporta essa tensão sem repressão ou identificação inflacionada, surgem símbolos vivos — sonhos, imagens, sintomas significativos — que mediam a transformação psíquica. Jung afirma que, nesse movimento, conteúdos inconscientes são assimilados pela consciência, ampliando-a e produzindo uma nova atitude diante da vida (JUNG, 2013).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Ninguém que haja passado pelo processo de assimilação do inconsciente poderá negar o fato de ter-se emocionado profundamente e de ter-se transformado.</p><cite>JUNG, <em>O eu e o inconsciente</em>, OC 7/2, §361</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse momento da vida, as perguntas que se impõem não dizem mais respeito ao que foi conquistado ou desempenhado externamente, mas à <strong>verdade psíquica</strong> que sustenta — ou não — essa trajetória.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><em>“As personas (máscaras sociais) que desempenhei durante toda minha vida estão conectadas aos valores do Self?”</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><em>“Reconheço minhas partes reprimidas da personalidade (sombras), aqueles piores defeitos ou então aquela potencialidade que não tive coragem de assumir?”</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><em>“Quem eu sou para além da história e dos papeis que representei?”</em></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-recusa-da-espera-da-morte" style="font-size:22px"><strong>A recusa da espera da morte</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sob essa perspectiva, o envelhecimento pode ser compreendido como um <strong>portal iniciático</strong>. A perda de valor da persona social não é um empobrecimento, mas uma convocação à interiorização. A recusa em “esperar a morte” — tão frequente em culturas que associam valor à produtividade — pode ser lida como resposta do Self à estagnação psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como imagem contemporânea desse processo temos o filme <strong>Azul Profundo</strong>. O filme acompanha uma mulher idosa que, após a aposentadoria forçada, se vê retirada do mundo produtivo e confrontada com a expectativa social de recolhimento e espera passiva da morte. Em vez disso, a personagem recusa essa morte psíquica antecipada e inicia um movimento de reinvenção subjetiva, ainda que marcado por solidão, estranhamento e conflito. A crise vivida pela protagonista não se configura como depressão, mas como <strong>desorientação existencial</strong>: aquilo que antes estruturava o cotidiano já não existe, e nada ainda ocupou o lugar deixado por essa perda. A personagem não “se reinventa”; ela <strong>atravessa uma morte simbólica</strong>. A recusa em simplesmente “esperar a morte” não se expressa como rebeldia, mas como <strong>persistência em permanecer viva psiquicamente</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-observa-que-quando-o-desenvolvimento-psiquico-e-interrompido-a-vida-perde-sentido-e-o-individuo-adoece-nao-por-envelhecer-mas-por-deixar-de-se-transformar-jung-2013" style="font-size:18px">Jung observa que, quando o desenvolvimento psíquico é interrompido, a vida perde sentido e o indivíduo adoece não por envelhecer, mas por deixar de se transformar (JUNG, 2013).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O filme encarna essa afirmação ao mostrar que a velhice, quando reduzida à inutilidade social, torna-se insuportável; mas quando vivida como território de escuta e transformação, pode adquirir outro estatus simbólico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, o filme ilustra com precisão a imagem de <strong>“partejar a si mesmo”</strong>: algo precisa morrer, algo ainda não tem forma, e o ego — despojado de seus antigos papéis — precisa suportar a dor, o tempo e a incerteza desse processo. O novo sentido, se surgir, não virá como conquista do ego, mas como resposta silenciosa do Self à coragem de não viver de forma falsa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como disse Jung: “a vida tem de ser conquistada sempre e de novo&#8221; (JUNG, 2013). Quando a vida externa já não oferece sentido, a psique não está falhando. Ela está exigindo transformação. Nem todo envelhecimento conduz à individuação; mas <strong>sem atravessar a crise</strong>, ela não ocorre.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Partejar a si mesmo</strong> não é escolha confortável, nem promessa de plenitude. É seguir o chamado da alma, quando já não é mais possível viver de outra forma. Em última instância, é responder à pergunta que inaugura a maturidade: <strong>quem sou eu quando já não sou quem fui?</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: &quot;Partejar a si mesmo renascimento psíquico na maturidade&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/EC0BaGsVZ-Y?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/"><strong>Ana Paula Pessanha Lima &#8211; Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h3>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2015). <em>O eu e o inconsciente</em> (OC 7/2). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2013). <em>A natureza da psique</em> (OC 8/2). Petrópolis: Vozes.<br>JUNG, C. G. (2014). <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em> (OC 9/1). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. (2013). <em>Desenvolvimento da Personalidade </em>(OC 17). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/partejar-a-si-mesmo-renascimento-psiquico-na-maturidade/">Partejar a si mesmo: renascimento psíquico na maturidade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>METANOIA E MENOPAUSA, A CRISE DA MEIA IDADE FEMININA</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/metanoia-e-menopausa-a-crise-da-meia-idade-feminina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laiana Nascimento Neves Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Mar 2026 18:46:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[menopausa]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analitica]]></category>
		<category><![CDATA[PsicologiaJunguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12500</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo trata da crise da meia idade associada à menopausa e traz algumas reflexões de como essa crise pode ser vivenciada e superada de forma positiva ou negativa, uma vez que a crise é inevitável. Porém, tudo dependerá do manejo, de como se lida com a crise e se há abertura para lidar com a nova realidade. E diante disso, se continuará reprodutiva do ponto de vista criativo e espiritual ou se ficará presa à questão da reprodução biológica e desperdiçará toda a capacidade de continuar procriando.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/metanoia-e-menopausa-a-crise-da-meia-idade-feminina/">METANOIA E MENOPAUSA, A CRISE DA MEIA IDADE FEMININA</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo trata da crise da meia idade associada à menopausa e traz algumas reflexões de como essa crise pode ser vivenciada e superada de forma positiva ou negativa, uma vez que a crise é inevitável. Porém, tudo dependerá do manejo, de como se lida com a crise e se há abertura para lidar com a nova realidade. E diante disso, se continuará reprodutiva do ponto de vista criativo e espiritual ou se ficará presa à questão da reprodução biológica e desperdiçará toda a capacidade de continuar procriando.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A metanoia, conhecida popularmente como crise da meia idade, é o processo que se interpõe na vida de um sujeito que se encontra no meio da vida, e acontece, aproximadamente, entre 35 a 50 anos. Trata-se de uma fase de transição que causa angústia, pois uma crise de ordem psíquica se instala, surgindo diversos questionamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Geralmente, o indivíduo reavalia todas as áreas da vida e muitas vezes constata que grande parte das suas realizações não fazem mais sentido ou que houve uma alteração de valores. Surgem as insatisfações, e tudo o que antes satisfazia, bem como o que também o preenchia, agora não o preenche mais. O Ego – o administrador da consciência, também chamado por Jung de Eu – entra em sofrimento e o sujeito costuma ter a sensação de vazio, tristeza e perda de sentido da vida. Sente-se perdido e solitário na escuridão, como nas palavras de Dante em sua obra A divina comédia – Inferno:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-metade-do-caminho-da-vida-pelo-qual-caminhamos-acordei-e-me-vi-no-meio-de-uma-floresta-escura-onde-a-estrada-certa-havia-desaparecido-completamente-dante-1974" style="font-size:18px"><strong>“Na metade do caminho da vida pelo qual caminhamos, acordei e me vi no meio de uma floresta escura onde a estrada certa havia desaparecido completamente.”</strong> (Dante, 1974)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Deste modo, o Ego é assolado por pensamentos do tipo: o que eu passei anos construindo e pelo que me dediquei tanto para alcançar. Agora não vejo mais graça! E agora?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em paralelo a essa questão psíquica, em termos comportamentais, o sujeito pode ser visto como desajustado pela comunidade em que se encontra inserido, uma vez que as mudanças surgem e é possível que sejam observadas como transgressões. E o sujeito sente-se então incompreendido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste momento da vida, ocorrem muitas vezes as transições de carreira profissional, a mudança de parceiros amorosos ou a reestruturação dos relacionamentos, a mudança de ciclos de amizades, a realização do não vivido na primeira metade da vida, o abandono ou mudança de religião e outros&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há uma queda do movimento de progressão da energia psíquica, que facilita ao Ego a retirada de algumas projeções &#8211;&nbsp; que sempre são inconscientes. Este momento de crise pode acontecer de forma mais violenta na proporção da unilateralidade da atitude consciente, e esse fenômeno Jung chama de enantiodromia, gerando compensatoriamente a regressão da energia psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com a diminuição das projeções, devido ao reconhecimento da sombra, o mundo externo, em um movimento de progressão da energia psíquica predominante na primeira metade da vida, destinada à construção da persona, o indivíduo começa a enxergar as pessoas com quem se relaciona, os objetivos conquistados e os sistemas aos quais está inserido como realmente são; com sua respectiva luz e sombra; e não mais com uma visão, muitas vezes, idealizada e romantizada como fora outrora na primeira metade da vida adulta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conforme-citacao-de-jung" style="font-size:18px">Conforme citação de Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong>Todo processo energético se assemelha a um corredor que procura alcançar sua meta com o máximo esforço e o maior dispêndio possível de forças. A ânsia do jovem pelo mundo e pela vida, o desejo de consumar altas esperanças e objetivos distantes constituem o impulso teleológico manifesto da vida que se converte em medo da vida, em resistências neuróticas, depressões e fobias, se fica preso ao passado, sob algum aspecto, ou recua diante de certos riscos sem os quais não se podem atingir as metas prefixadas. Mas o impulso teleológico da vida não cessa quando se atinge o amadurecimento e o zênite da vida biológica. A vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e a mesma irresistibilidade com que a subia antes da meia idade, porque a meta não está no cume, mas no vale, onde a subida começou. A curva da vida é como a parábola de um projétil que retorna ao estado de repouso, depois de ter sido perturbado no seu estado de repouso inicial.</strong></p><cite>Jung, OC 8/2, §798</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Configura-se então um diálogo entre o Ego e o Si- mesmo.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E uma vez que algo é visto, não tem como “desver”. Mas, ainda bem que se vê! Pois ao indivíduo é dado a grande oportunidade de revisitar as áreas de sua vida, refletir sobre o sentido do seu existir e a possibilidade de viver a segunda metade da vida com sentido e propósito de alma. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em uma sociedade capitalista, voltada para o externo, pautada no monoteísmo da consciência, onde o sujeito é convocado o tempo todo a <em>performance</em> de sucesso e ao hedonismo, há consequentemente uma resistência a voltar-se para dentro, ao viver com alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em um cenário como esse, quão grande dor e sofrimento é sentido pelo ego em meio a um processo de metanoia, uma vez que a energia psíquica, em um movimento de regressão introversiva, nesse processo de transição, exerce uma força atrativa que direciona a voltar-se às demandas do mundo interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porém, há uma razão de ser. Na metanoia há a crise, mas também esta pode levar a transcendência. Simbolicamente, acontece uma morte e um renascimento, produz-se uma bagunça e depois organiza, ciclos se fecham e outros se abrem, deixa-se o velho para dá lugar ao novo. É um momento de turbulência!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas há uma ordem que engendra o caos. Por trás de toda a desordem estabelecida na metanoia, a manifestação da crise e as transgressões, há uma exigência do Si-mesmo que deseja realizar-se. E, passada a transição, podemos inverter a perspectiva e dizer então que: do caos vem a ordem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-e-quando-a-metanoia-e-menopausa-acontecem-simultaneamente" style="font-size:18px"><strong>Mas e quando a metanoia e menopausa acontecem simultaneamente?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No universo feminino, devida à faixa etária em que ocorre a experiência da metanoia, acoplado a isso, geralmente acontece também a menopausa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A crise da meia idade feminina pode ser mais evidente, uma vez que, a chegada da perimenopausa, que é o início da flutuação hormonal e o período que se estende até a menopausa propriamente dita, que por sua vez se configura como sendo a ausência de menstruação por doze meses consecutivos; vem com sintomas físicos importantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como o início da metanoia, a perimenopausa não tem uma data certa de chegada. A mulher começa a perceber que tem alguma coisa acontecendo, mas não sabe bem ao certo o que é. Várias alterações de ordem física e emocional começam a ser sentidas por ela e pelo entorno relacional. Sintomas como ciclos menstruais irregulares, fogachos, suores noturnos, insônia, aumento de peso corporal, cansaço e irritabilidade, são os mais comuns.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-um-chacoalhar-das-estruturas" style="font-size:18px"><strong>Há um chacoalhar das estruturas.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Durante esse período, até que se chegue a constatação de que se trata do anúncio da menopausa e até mesmo depois de fechado o diagnóstico de tais alterações, a mulher entra em crise. Como corpo e mente são um só, a queda do estrogênio causa também um sofrimento ao ego, que passa a ter a sensação de instabilidade e descontrole no corpo. A mulher se vê em uma fase em que não se reconhece mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além dos questionamentos feitos acerca das áreas da vida que geralmente são feitos no transcurso da metanoia, a mulher brasileira, ao se deparar com o encerramento da capacidade reprodutiva, ainda lida com mais algumas questões; em uma sociedade etarista, onde envelhecer é perder o seu valor e que apenas a juventude é vista como beleza.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somado a isso, menopausa ainda é um tabu na sociedade brasileira e poucos estudos e pesquisas médicas foram realizados no mundo sobre essa fase da vida da mulher. Há ainda muita desinformação e nem mesmo entre as próprias mulheres esse assunto costuma ser abordado. Paira uma espécie de constrangimento, uma espécie de vergonha, o que prejudica a troca de ideais, informações e o acolhimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As mulheres quando jovens não são orientadas e nem preparadas para a chegada dessa fase da vida feminina. Deste modo, não é de se entranhar os relatos de se sentirem perdidas, incompreendidas e solitárias, pois muitas não dialogam sobre o que estão passando com a chegada dos sintomas, por não sentirem que haja espaço e acolhimento para essa temática.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-um-momento-liminar-e-uma-encruzilhada-e-uma-transicao-e-uma-metamorfose" style="font-size:18px"><strong>É um momento liminar, é uma encruzilhada, é uma transição, é uma metamorfose!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">À vista disso, o que se configura com a chegada da menopausa é mais um dos ritos de passagem que ocorrem na vida da mulher. É mais uma das metamorfoses que acontecem ao longo da vida feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como a puberdade e a menarca, que é a primeira menstruação, e posteriormente, para aquelas que se tornam mães, e para aquelas que passam pelo puerpério, alterações físicas e psíquicas também se apresentaram. E os sintomas da transição para a menopausa tendem a amenizar em aproximadamente dois anos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-menopausa-como-tributo-do-si-mesmo-para-levar-o-ego-ao-processo-de-individuacao" style="font-size:18px"><strong>Menopausa como tributo do Si-mesmo para levar o ego ao processo de individuação.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A chegada da menopausa configura também um chamado, um convite a evolução e ao amadurecimento. Metaforicamente, e diferente do que a sociedade atual prega, há uma liberação da mulher, com o fim da capacidade de reproduzir fisicamente, para passar a reproduzir criativamente e espiritualmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É dada a mulher a oportunidade de fazer a travessia e viver o seu mito pessoal, trazendo autenticidade e sentido para a própria vida. E deste modo, com a liberação que a menopausa traz, a possibilidade de entregar sua contribuição à coletividade. Estando livre para exercer outros papeis na sociedade e com as experiências vividas, transbordar o potencial que há para guiar, orientar, auxiliar e liderar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-tem-de-ser-conquistada-sempre-e-de-novo-jung-oc-8-2-142" style="font-size:18px"><strong>“A vida tem de ser conquistada sempre e de novo.” (Jung, OC 8/2,</strong><strong> </strong><strong>§ 142)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao perceber o chamado da alma, a mulher se depara com a incerteza dos desdobramentos da segunda metade da vida. Porém, caso não atenda ao chamado, ficará passível a uma vida neurótica, adoecida e sem significado. Ficando o ego alienado do Si-mesmo, atendendo muitas vezes, ao chamado de uma sociedade descompromissada com a realização da alma.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: METANOIA E MENOPAUSA, A CRISE DA MEIA IDADE FEMININA" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/WgHfzHN5cjc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Laiana Nascimento Neves Soares</strong> &#8211; <strong>Analista em formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi </strong>&#8211; <strong>Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">DANTE, A. <strong>The divine comedy: hell</strong>. Translated by Dorothy L.Sayers. Penguin Books, 1974.<strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong>.<strong>OC.8.2</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/metanoia-e-menopausa-a-crise-da-meia-idade-feminina/">METANOIA E MENOPAUSA, A CRISE DA MEIA IDADE FEMININA</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/entre-o-vivido-e-o-nao-vivido-a-sabedoria-da-velhice/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rosana T W Hanada]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 15:20:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[Velhice]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12466</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/entre-o-vivido-e-o-nao-vivido-a-sabedoria-da-velhice/">Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao"><strong>Introdução</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Envelhecer é, talvez, uma das experiências humanas mais universais e, paradoxalmente, menos compreendidas. Em uma sociedade que idolatra a produtividade, a juventude e o desempenho, o processo de envelhecimento costuma ser visto sob a ótica da perda: perda do corpo, do vigor, do espaço social, da autonomia. Entretanto, para a Psicologia Analítica, a velhice representa muito mais do que um declínio orgânico. Trata-se de um período decisivo para a alma, um momento em que os conteúdos esquecidos, negados ou não vividos ao longo da vida retornam, convidando a consciência para um diálogo profundo com o inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A metáfora solar utilizada por Jung ilustra esse processo ao afirmar que “<strong>a vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e irresistibilidade com que a subia antes da meia-idade</strong>” (JUNG, 2013a, §798). A consciência, antes dirigida ao mundo e às suas exigências, passa a se voltar para o íntimo, em que um pedido de reorganização e de sentido começa a emergir. É nesse ponto que a velhice revela sua dimensão simbólica: um tempo em que a vida nos devolve a nós mesmos. É um convite à interiorização, ao recolhimento e à pergunta essencial: <em>“O que foi feito da minha vida e o que ainda falta integrar?”</em> O envelhecimento é uma espécie de retorno ao próprio eixo, quando o ego, já cansado de manter as personas, encontra-se diante da tarefa inevitável de olhar para si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta reflexão nasce de duas fontes: minha trajetória pessoal e o estudo desenvolvido em meu trabalho sobre envelhecimento na conclusão do curso de psicologia junguiana. A intenção desse artigo é oferecer um olhar cuidadoso e humano sobre uma etapa que, embora temida, pode ser rica e libertadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-envelhecimento-como-movimento-de-interiorizacao" style="font-size:22px"><strong>O Envelhecimento como Movimento de Interiorização</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung comparou a vida humana ao curso do sol: da aurora ao zênite, a energia progride para fora e para frente, expandindo-se em direção ao mundo (Cf. JUNG, 2014, §114). É o período da juventude e da maturidade inicial, dedicado à formação das personas, ao aprendizado social, ao trabalho, aos papéis familiares e à conquista de um lugar no mundo. Trata-se da fase em que a consciência se fortalece por meio da relação com o exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, ao atravessar o meio-dia simbólico da vida, algo começa a mudar internamente. A força que impulsionava o indivíduo para fora passa a demandar retorno, introspecção e simplificação. O olhar antes voltado para conquistas e estabilidade começa a buscar silêncio, significado e profundidade. Jung descreve esse fenômeno como uma mudança natural do eixo energético, um deslocamento do foco da adaptação externa para a integração interna, pois:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>O ser humano não chegaria aos setenta ou oitenta anos se esta longevidade não tivesse um significado para a sua espécie. Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida.</p><cite>JUNG, 2013a, § 787</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-segunda-metade-da-vida-a-alma-pede-um-outro-tipo-de-alimento-menos-material-mais-simbolico-menos-performatico-mais-essencial" style="font-size:18px">Na segunda metade da vida, a alma pede um outro tipo de alimento: menos material, mais simbólico; menos performático, mais essencial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É o período em que muitas pessoas começam a questionar seus valores, suas identidades e até mesmo a necessidade de manter certas máscaras sociais. A persona, tão necessária na adaptação ao mundo externo (Cf. JUNG, 2015, §246), começa a se mostrar estreita para conter o movimento da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse processo costuma ser acompanhado por sentimentos de estranhamento, inquietação ou certo vazio. O que antes parecia suficiente, como carreira, desempenho, reconhecimento, segurança, status, já não oferece o mesmo sentido. É o inconsciente que está chamando a atenção da consciência para a necessidade de reorganização interna (Cf. JUNG, 2013b, §331b).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A vida moderna reforça um padrão que prolonga artificialmente a lógica da juventude: produtividade contínua, culto ao corpo, aceleração, hiperconexão, negação da fragilidade e da vulnerabilidade. Essa força cultural empurra o indivíduo a permanecer na expansão, mesmo quando sua psique pede quietude. O conflito entre essas duas dinâmicas, a externa coletiva e a interna individual, gera sofrimento e angústia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, do ponto de vista junguiano, este é justamente o momento mais potente da existência. É quando a pessoa tem a oportunidade de questionar as narrativas que construiu sobre si mesma e de permitir que as partes esquecidas de sua alma, muitas vezes relegadas ao inconsciente por exigências da persona e do contexto social, venham à luz (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). É uma fase em que as perguntas se tornam mais importantes que as respostas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-meia-idade-a-pessoa-fica-mais-suscetivel-a-ocorrencia-da-metanoia-que-pode-significar-expansao-da-consciencia-ir-alem-da-razao-logica-transcender-converter-se-ter-mudanca-de-crencas-ou-visao-de-mundo-magaldi-2023" style="font-size:18px">Na meia-idade, a pessoa fica mais suscetível à ocorrência da metanoia, que pode significar “expansão da consciência, ir além da razão lógica, transcender, converter-se, ter mudança de crenças ou visão de mundo” (MAGALDI, 2023).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O envelhecimento, então, deixa de ser interpretado como perda e passa a ser compreendido como um convite para reorganizar a vida a partir da verdade interior, não mais das expectativas externas, mas um chamado para viver “melhor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caminho da individuação, esse movimento de interiorização representa maturação (Cf. JUNG, 2014, §91). Assim como o sol que se põe tingindo o céu de cores que só o entardecer pode produzir, o envelhecimento oferece tonalidades de sabedoria que não estão disponíveis em outras fases da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-nao-vivida-e-o-retorno-dos-conteudos-esquecidos" style="font-size:22px"><strong>A Vida Não Vivida e o Retorno dos Conteúdos Esquecidos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao atravessar a metade da vida, muitas pessoas descobrem que o passado, antes acomodado em silêncios, retorna, muitas vezes, com surpreendente intensidade. Sensações de nostalgia, lembranças persistentes, perguntas sobre escolhas feitas ou evitadas, e um sentimento difuso de que “algo essencial ficou para trás” começam a ocupar a paisagem interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-nesse-momento-que-nossa-vida-nao-vivida-se-ergue-dentro-de-nos-exigindo-nossa-atencao-johnson-2010-p-9" style="font-size:18px"><em>“É nesse momento que nossa vida não vivida se ergue dentro de nós, exigindo nossa atenção” (JOHNSON, 2010, p. 9).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung (Cf. 2013, §789), a vida vivida de forma expandida, útil, eficiente, com boa imagem social, emprego adequado e bom casamento são conquistas importantes e necessárias na primeira metade da vida, mas:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="is-style-large wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Infelizmente não são objetivos suficientes nem têm sentido para muitos que não veem na aproximação da velhice senão uma diminuição da vida e consideram seus ideais anteriores simplesmente como coisas desbotadas e puídas! Quantas coisas na vida não foram vividas por muitas pessoas – muitas vezes até mesmo potencialidades que elas não puderam satisfazer, apesar de toda a sua boa vontade – e assim se aproximam do limiar da velhice com aspirações e desejos irrealizados que automaticamente desviam o seu olhar para o passado (ibidem, p. 357).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nada-do-que-deixamos-de-viver-desaparece-tudo-e-preservado-no-inconsciente-a-espera-de-um-momento-propicio-para-emergir" style="font-size:18px">Nada do que deixamos de viver desaparece; tudo é preservado no inconsciente, à espera de um momento propício para emergir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A meia-idade é o momento propício para que isso ocorra, conteúdos antes reprimidos encontram passagem para a consciência, trazendo à tona aspectos esquecidos, negados ou simplesmente negligenciados (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). A psique tenta reparar e integrar aquilo que ficou sem lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas imagens que emergem, os sentimentos que insistem, as memórias que reaparecem têm o propósito de ampliar a consciência, mesmo quando provocam desconforto. A nostalgia que muitos sentem é um sinal simbólico de que fragmentos da personalidade desejam ser reconhecidos. Ela aponta para partes legítimas de nós mesmos que, por circunstâncias diversas, não puderam se desenvolver.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-a-vida-nao-vivida-nao-e-apenas-sombra-dolorosa-contem-tambem-brilho-vocacao-e-vitalidade-que-nao-encontrou-expressao-cf-johnson-2010-p-147" style="font-size:18px">Por isso, a vida não vivida não é apenas sombra dolorosa: contém também brilho, vocação e vitalidade que não encontrou expressão (Cf. JOHNSON, 2010, p. 147).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitas pessoas, ao envelhecer, se surpreendem ao reencontrar antigos desejos, gostos esquecidos, aspirações que adormeceram, sensibilidades que haviam sido abafadas pela necessidade de adaptação. Tudo isso ressurge, não para ser realizado literalmente, mas para ser integrado simbolicamente (<em>ibidem,</em> p. 239).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando esses aspectos retornam e não são reconhecidos, costumam produzir inquietação interna. A pessoa pode experimentar irritação frequente, rigidez, desânimo, ressentimentos difíceis de localizar, ou uma sensação persistente de inadequação. O sujeito percebe que viveu uma vida inteira respondendo às expectativas externas, familiares, sociais, culturais, e agora sente o peso de ter se afastado demais de si mesmo. Em alguns casos, esse processo pode manifestar-se em sintomas físicos, depressivos, sensação de fracasso ou medo de que o tempo restante não seja suficiente para viver de forma autêntica, conforme Stein (<em>apud </em>Pandini, 2014, p. 24).&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-fundamental-compreender-que-integrar-a-vida-nao-vivida-nao-significa-recuperar-literalmente-o-que-nao-foi-feito-algo-impossivel-e-muitas-vezes-fantasioso" style="font-size:18px">É fundamental compreender que integrar a vida não vivida não significa recuperar literalmente o que não foi feito – algo impossível e, muitas vezes, fantasioso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A integração ocorre quando se permite que o significado daquilo que não foi vivido encontre expressão de alguma forma. Isso pode acontecer por meio da criatividade, da arteterapia, de novos interesses, de diálogos profundos, de maior liberdade emocional, de transformações internas, ou simplesmente pela capacidade de olhar para a própria história com autoperdão, compaixão e compreensão. Ao reconhecer esses conteúdos, o indivíduo resgata energia psíquica que estava aprisionada e sente-se mais inteiro, mais coerente consigo mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Envelhecer, assim, revela-se como um processo de reencontro. Não se trata apenas de revisitar o que passou, mas de compreender quem se tornou e quem ainda pode ser. A vida não vivida, quando acolhida, torna-se ponte entre o que fomos e o que podemos integrar. Ela permite que a última etapa da vida seja vivida em totalidade, com a serenidade de quem reconhece, nas palavras de Caetano Veloso, “a dor e a delícia de ser o que é” da canção “Dom de Iludir”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-envelhecer-a-luz-da-psicologia-analitica" style="font-size:22px"><strong>Envelhecer à luz da psicologia analítica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Portanto, envelhecer é muito mais do que atravessar a última etapa cronológica da vida. Se a primeira metade da vida se organiza em torno da formação das personas, da adaptação ao mundo e da consolidação do ego, a segunda metade inaugura um processo inverso: a alma pede profundidade, interiorização e plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A velhice nos convida a rever a biografia pela ótica da presença. Não mais perguntamos “o que conquistei?”, mas “quem me tornei?”. Nessa fase, a necessidade de manter imagens sociais se afrouxa, permitindo que a autenticidade ganhe espaço. A consciência volta-se para temas outrora evitados como a vida não vivida, sendo uma oportunidade tardia de reconciliação. A proximidade da finitude, longe de ser apenas fonte de insegurança, desperta a urgência de viver o que ainda pode ser vivido, de integrar o que ficou esquecido e de honrar aquilo que não se pôde realizar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hillman-lembra-que-esses-fragmentos-da-biografia-nao-sao-descartaveis-eles-precisam-ser-transformados-pela-reflexao-tardia-em-substancia-capaz-de-fortalecer-o-carater" style="font-size:18px"><strong>Hillman</strong> lembra que esses fragmentos da biografia não são descartáveis, eles precisam ser transformados pela reflexão tardia em substância capaz de fortalecer o caráter.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A revisão da vida, esse gesto de olhar para trás não apenas para recordar, mas para compreender, permite que erros e acontecimentos antes dispersos revelem padrões e significado. É como se a velhice nos oferecesse a oportunidade de organizar nossa narrativa interna, reconhecendo que cada experiência, mesmo as mais dolorosas, fazem parte de nossa alma (Cf. HILLMAN, 2001, p.24).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando vivido com consciência, o envelhecimento torna-se um processo alquímico. O supérfluo se dissolve, o essencial se intensifica, e aquilo que parecia fragmentado encontra coerência (Cf. MAGALDI, 2020). Revisar a vida não é apagar dores nem refazer escolhas, mas reconhecer seu propósito no desenvolvimento da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ser humano não envelhece para morrer, mas para se tornar inteiro. O envelhecimento é a fase em que o Self, essa instância que transcende o ego, orienta com mais clareza seu chamado (Cf. JUNG, 2013a, §787). É como se, no crepúsculo da vida, a alma adquirisse uma outra luminosidade, menos solar, mais interior; menos expansiva, mais verdadeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, envelhecer torna-se um ato de coragem, a coragem de olhar para si, de acolher o que faltou, de reconciliar o vivido e o não vivido, de aceitar a própria história e de permitir que a vida siga seu curso natural. E é justamente nesse gesto de entrega, desapego e autenticidade que se revela a maior possibilidade dessa etapa: viver, finalmente, a vida como merece ser vivida – porque <strong>envelhecer é fazer da vida uma obra. E toda obra verdadeira, quando chega ao fim, não se encerra: se revela.</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/LrYSraK8mqI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/beatriz-whitaker/">Rosana T W Hanada – Analista em formação IJEP</a></strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James<em>. </em><em>A força do caráter</em> <em>e a poética de uma vida longa</em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A passagem do meio. </em>Da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JOHNSON, Robert. <em>A vida não vivida: </em>A arte de lidar com sonhos não realizados e cumprir o seu propósito na segunda metade da vida. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A Natureza da Psique. </em>10.ed.Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ O <em>Desenvolvimento da Personalidade</em>. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicologia do Inconsciente</em>. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar (2020). <em>Alquimia e Psicologia Junguiana</em>. <em>&lt;https://www.youtube.com/watch?v=zxKBRbY2ENE&gt; </em>Acesso em 29 nov. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar (2023). Metanoia na Psicologia Analítica.&nbsp; &lt;<em>https://blog.ijep.com.br/metanoia-na-psicologia-analitica&gt;/</em> Acesso em 25 nov. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PANDINI, Ana. <em>Metanoia:</em> caminho para o desenvolvimento no meio da vida.&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tese Doutorado USP. São Paulo, 2014. 176 f. Disponível em: &lt;<em>https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-19122014-110846/pt-br.php</em>&gt;&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="1019" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-1024x1019.png" alt="" class="wp-image-12470" style="aspect-ratio:1.0046691354049266;width:528px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-1024x1019.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-300x300.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-150x149.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-768x764.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso-450x448.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/03/x-congresso.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Conheça o <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><strong>X Congresso Junguiano do IJEP</strong></a>: &#8220;<strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">Crise da Meia Idade: O direito de envelhecer e de Morrer</a></strong>&#8221; &#8211; Online e Gravado &#8211; Certificado 30h: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep ">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep </a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/entre-o-vivido-e-o-nao-vivido-a-sabedoria-da-velhice/">Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>No meio da vida, é preciso imaginar Sísifo infeliz</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/na-meio-da-vida-e-preciso-imaginar-sisifo-infeliz/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wagner Borges]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Dec 2025 13:44:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[morte e renascimento]]></category>
		<category><![CDATA[morte simbólica]]></category>
		<category><![CDATA[sísifo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=11451</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: O mito de Sísifo, numa perspectiva junguiana, pode ilustrar a resistência humana a abrir mão de uma atitude psíquica obsoleta para a descoberta de uma nova e necessária atitude. O escritor franco-argelino, Albert Camus, defende que Sísifo representa o ideal heróico humano em face do absurdo da vida. Por isso, para ele, seria preciso [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/na-meio-da-vida-e-preciso-imaginar-sisifo-infeliz/">No meio da vida, é preciso imaginar Sísifo infeliz</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O mito de Sísifo, numa perspectiva junguiana, pode ilustrar a resistência humana a abrir mão de uma atitude psíquica obsoleta para a descoberta de uma nova e necessária atitude. O escritor franco-argelino, Albert Camus, defende que Sísifo representa o ideal heróico humano em face do absurdo da vida. Por isso, para ele, seria preciso imaginar Sísifo feliz no Tártaro. A partir de dados de um estudo realizado com pessoas bem-sucedidas na meia-idade, mas paradoxal e perturbadoramente infelizes, este pequeno ensaio aborda Sísifo como um complexo afetivo, contrapõe a leitura clássica à de Camus e propõe uma rota de saída do nosso mais íntimo Tártaro, o qual costumamos visitar no meio da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-crise-da-meia-idade-e-assunto-antigo-no-meio-junguiano" style="font-size:20px">A crise da meia-idade é assunto antigo no meio junguiano.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Foi no meio da vida que Jung produziu o conteúdo d’<em>O Livro Vermelho</em>, lírica nascente do que viria a se tornar boa parte de suas obras completas. No entanto, por muito tempo, o tema parece ter sido negligenciado pelos meios acadêmicos científicos tradicionais. Com o envelhecimento da população mundial, porém, o assunto emerge na academia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estudo publicado há três anos pelo National Bureau of Economic Research (NBER) dos Estados Unidos, intitulado The Midlife Crisis, confere um verniz materialista-científico à metanoia, palavra do grego que significa “mudança de mentalidade” e que, no meio junguiano, costuma designar também o drama que muitas pessoas vivem ao chegar ao meio-dia da vida. Realizado por um grupo de economistas, a pesquisa envolveu uma amostra de 500 mil pessoas de países ricos — Áustria, Canadá, Finlândia, França, Holanda, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos — e, na visão dos pesquisadores, revelou que a crise da meia-idade não é misticismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-o-estudo-assinado-por-giuntella-et-al-2022-p-19-20-ha-evidencias-longitudinais-de-extrema-angustia-entre-adultos-de-meia-idade-entre-quarenta-e-cinquenta-anos-em-paises-ricos" style="font-size:19px">Segundo o estudo, assinado por <strong>Giuntella</strong> (et al., 2022, p. 19-20), há “<em>evidências longitudinais de extrema angústia entre adultos de meia-idade [entre quarenta e cinquenta anos] em países ricos</em>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O que parece fugir inteiramente à razão dos pesquisadores, segundo os quais, “<em>esses indivíduos estão próximos de seus ganhos máximos ao longo da vida e, em geral, não passaram por nenhuma doença grave</em>”. Ou seja, com grana e, em tese, ainda com vitalidade de sobra, tais “evidências de extrema angústia”, o que inclui depressão extrema, ideações suicidas, suicídio, distúrbios do sono, entre outros, só podem ser, na palavra dos próprios pesquisadores, um “paradoxo pertubador” da “sociedade moderna”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>É possível afirmar que, sob a lente junguiana, não há, no sentido apontado pelo estudo, paradoxo na metanoia, embora haja perturbação de sobra</strong>. Mas como pode não ser paradoxal se os caras estão no ápice de suas carreiras, com segurança financeira e são, em grande medida, bem-sucedidos? Por que estariam infelizes, deprimidos e pensando ou cometendo suicídio?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossos-quereres-sao-menos-nossos-do-que-supomos-e-mudam-ao-longo-da-existencia" style="font-size:19px">Nossos quereres são menos nossos do que supomos e mudam ao longo da existência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como escreveu <strong>Jung</strong> (2013a, p. 354): “<em>Não podemos viver a tarde de nossas vidas segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer</em>”. Contudo, numa sociedade que supervaloriza a hiperprodutividade, o vigor, a beleza sensual, o sucesso, a conquista material e a força, é difícil enxergar vida na poesia, na sabedoria, na intuição, é difícil fazer da dor pérola, do sofrimento significado, das rugas troféus, da velhice uma bênção e, da morte, ressurreição — talvez nunca tenha sido fácil. Tem-se assim, então, um mundo de Sísifos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sísifo, o mais astuto dos mortais e rei de Corinto, ficou famoso na Grécia Antiga por ultrapassar seus limites humanos ao meter-se num assunto dos deuses. Delatou Zeus em uma de suas luxuriosas incursões entre os humanos e extorquiu o deus-rio Asopo para conseguir uma fonte d’água para a sua cidade. O fim até era nobre, mas os meios eram questionáveis e Zeus, em seu divino orgulho ferido, pediu sua cabeça. Sísifo, porém, se negaria a morrer: primeiro, enganaria Tânatos; depois, Hades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por tanta ousadia e desaforo aos deuses, foi condenado ao Tártaro, onde deveria rolar uma enorme e pesada pedra montanha acima, consciente de que jamais seria capaz de levá-la ao topo. A poucos centímetros do cume, inevitavelmente perderia suas forças, sendo obrigado a deixar que a pedra rolasse montanha abaixo. Era, assim, obrigado a voltar ao pé da montanha, pegar a pedra de novo para reiniciar o trabalho sem sentido a que estava eternamente condenado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-deuses-viraram-doencas" style="font-size:19px"><strong>Os deuses viraram doenças</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na perspectiva da moral clássica, Sísifo é mais um exemplo do desejo humano de não se curvar diante das forças misteriosas e impiedosas dos deuses — ou da natureza. Extrapolar a própria condição humana e se identificar com as intenções, que, para os gregos, não eram humanas, mas divinas, era o maior dos pecados que um homem poderia cometer: a <em>hýbris</em>. Sísifo não aceitou a sua humana mortalidade e fez “das tripas coração” para não morrer. Assim, acabou condenado a uma imortalidade sem vida no mundo dos mortos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O espírito dos novos tempos é diferente do da Grécia Antiga. Pensamentos, desejos, sentimentos, sonhos e imaginações, mesmo que não venham das nossas deliberações conscientes, mas a partir de fontes misteriosas que parecem ter autonomia, são tratadas sempre com pronomes possessivos. É tudo “meu” ou “minha”. Com essa mentalidade reinante, o que acontece quando a produção espontânea e inconsciente da psique não está de acordo com a minha vontade consciente? Se tudo em mim sou eu e não há espaço para outros em mim, então, essas imagens só podem ser a prova de que adoeci. Daí vem a famosa máxima de Jung segundo a qual os deuses viraram doenças.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-indicadores-de-extrema-angustia-na-meia-idade-aos-quais-alude-a-pesquisa-que-inspira-este-ensaio-sao-aos-olhos-contemporaneos-doencas" style="font-size:19px">“Os indicadores de extrema angústia” na meia-idade, aos quais alude a pesquisa que inspira este ensaio, são, aos olhos contemporâneos, doenças.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na visão junguiana, assim como os deuses, as doenças querem revelar algo. Mas o que? Seria a resistência inútil do homem de meia-idade a aceitar a morte de quem ele foi na primeira metade da vida adulta para encontrar a nova versão de si na segunda metade? A hipótese deste ensaio é a de que sim. É interessante, então, imaginar que, na meia-idade, a depressão, por exemplo, cujo significado etimológico é pressão para dentro, possa ser, no plano simbólico, um indesejável mergulho nas regiões mais profundas do Hades de si próprio. As entranhas da terra (ou da alma) são a cova e o útero ao mesmo tempo. É necessário realizar o sacrifício de uma parte de quem éramos para renascermos numa nova perspectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Albert Camus em seu ensaio <em>O Mito de Sísifo</em>, escrito em 1942, quando os gritos da Segunda Grande Guerra soavam em alto e bom som, trouxe uma perspectiva diferente, redentora e heróica de Sísifo, lendo-o como um personagem da resistência humana ao absurdo da existência e da vontade dos deuses, vendo nisso um mérito. Com apenas 28 anos, o escritor franco-argelino, que ganharia o Nobel em 1957, talvez não pudesse aceitar a vontade dos deuses quando ela permitia que os nazistas controlassem Paris e boa parte da Europa. Camus (2021, p. 141) escreve: “D<em>eixo Sísifo na base da montanha! [&#8230;] Sísifo ensina a fidelidade superior que nega os deuses e ergue as rochas [&#8230;] A própria luta para chegar ao cume basta para encher o coração de um homem. É preciso imaginar Sísifo feliz</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-busca-da-resposta" style="font-size:19px"><strong>Em busca da resposta</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Independentemente do contexto histórico, todos trazemos, em si, um complexo de Sísifo, ou seja, uma personalidade autônoma sensível a gatilhos afetivos que nos dispõe a negar e resistir às mortes simbólicas que a vida exige de nós. Na meia-idade, esse complexo tende a se pronunciar, o que é natural, afinal, só desenvolvemos uma nova cosmovisão porque, antes, estivemos envolvidos em outra. Não há como ignorar Sísifo, tampouco se deve, mas ele precisa entender que tão importante quanto saber o que se quer da vida é saber o que a vida quer da gente. Por isso, na meia-idade, é preciso imaginar Sísifo infeliz, disposto a abrir mão da influência que tem sobre nós para nos deixar seguir em frente, o que significa aceitar a morte de uma velha maneira de enxergar o mundo para poder reencontrar a vida em uma nova perspectiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-interessante-observar-pelo-mito-que-a-resistencia-a-morte-costuma-estar-associada-a-dificuldade-de-deixar-para-tras-um-lugar-onde-se-e-rei" style="font-size:19px">É interessante observar, pelo mito, que a resistência à “morte” costuma estar associada à dificuldade de deixar para trás um lugar onde se é rei.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Fica mais difícil, como ocorreu com Sísifo, abrir mão da glória para descobrir uma nova jornada cujo destino é incerto. Pode ser o caso daquele empresário que fez de seu vigor intelectual, disposição física e ambição juvenil uma fonte de riqueza, mas, na virada do sol íntimo, começa a experimentar uma falta de significado existencial no mundo corporativo, o que se expressa, por exemplo, num <em>burnout</em>. Ele não quer deixar de ser quem se esforçou tanto para se tornar. Ao mesmo tempo, no fundo, não vê mais a sua alma se refletir em suas conquistas anteriores.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A primeira metade da vida, como escreveu Jung, segue imperativos bem distintos da segunda. Enquanto a juventude adulta costuma ser marcada pela conquista de um lugar no mundo, um caminhar extrovertido de demarcação de território e conquista de reconhecimento e segurança social, a segunda metade tende a nos levar para dentro, na busca por corresponder a demandas mais éticas que morais, na direção de honrar a nossa criança, a qual não quer outra coisa senão poder ser verdadeira sem deixar de ser amada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-segunda-metade-da-vida-seremos-obrigados-a-descobrir-que-somos-mais-do-que-qualquer-papel-social-que-cumprimos" style="font-size:19px">Na segunda metade da vida, seremos obrigados a descobrir que somos mais do que qualquer papel social que cumprimos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Que todo o poder e segurança alcançados são importantes, mas não conseguem mais conferir sentido à nossa existência. Mas qual então seria o sentido? Cada um haverá de encontrar a resposta em si. Não há mais espaço para reducionismos, é na amplitude da alma e na conciliação de desejos e aspirações conflitantes, o que pressupõe vencer e perder ao mesmo tempo, que nos encontramos individual e coletivamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mais-tempo-acordados" style="font-size:19px"><strong>Mais tempo acordados</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A maior parte do que escrevo não é mera pesquisa acadêmica. Estou às vésperas de completar quarenta e cinco anos, mas já aos trinta e cinco algo em mim procurava me dizer que eu poderia acabar no Tártaro de mim mesmo, identificado com o meu astuto Sísifo e, como ele, carregando em vão uma pedra montanha acima. É difícil reconhecer que a pedra e a montanha não enchem meu coração, reconhecer que, às vezes, a desistência é a escolha mais nobre e recompensadora. Como jornalista, tive uma longa carreira, mas <strong>a partir de dado momento a profissão não mais me nutria a alma</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pelos cinco primeiros anos dos últimos dez, tentei aplicar, na segunda metade da vida, receita parecida à aplicada na primeira. Minhas expectativas juvenis sempre me prometeram mais do que fui capaz de me dar. Não havia tantas glórias assim a abandonar, havia mais anseios de glórias não alcançadas. Por isso, tinha vontade de ficar e seguir tentando. Eis outra razão pela qual é difícil desistir da pedra e da montanha: a sensação de que, ao fazê-lo, fracassamos. Quanto mais corria na direção das velhas aspirações, porém, colocando-as como a cenoura motivadora, menos vontade de avançar o burro sentia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>James Hillman</strong> (2001, p. 12) escreve que a crise da meia-idade: “<em>refere-se menos ao fato de ser velho demais do que ser jovem demais [&#8230;] não se refere à falta de capacidade, mas à falta de ilusão [&#8230;] aos quarenta anos não temos oitenta, e temos muito mais ‘tempo acordados’ pela frente do que no nosso passado</em>”. O que eu precisava aceitar, então, era a morte, a morte das ilusões juvenis que tinham inspirado a minha jornada até ali. É difícil sepultar as ilusões quando ainda as vemos como sonhos. Eu precisava encontrar, no Hades do meu íntimo, um novo sentido, algo que me permitisse unir o ordinário e o extraordinário da vida. Assim, cheguei à clínica junguiana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-foi-um-movimento-racional-minha-alma-e-meu-corpo-exigiram-apesar-de-toda-a-minha-resistencia-egoica" style="font-size:19px">Não foi um movimento racional: minha alma e meu corpo exigiram, apesar de toda a minha resistência egóica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando falo em corpo, não é força de expressão, porque, até que se prove o contrário, nada nos permite supor que seja possível uma vida animada sem que haja um corpo. Por isso, toda mudança psíquica tem reverberações físicas e toda mudança física reverbera na psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Tanto é que estudo recente da Universidade Monash revela mudanças significativas no cérebro humano entre os quarenta e cinquenta anos, como atesta o texto de Valencia (BBC News Brasil, 2024): &#8220;’<em>É como se, antes dos 40, os circuitos passassem pelas unidades do cérebro conectados a redes muito sofisticadas’, indica a neurocientista [Sharna Jamadar]. ‘Depois dos 40, o que observamos é que os circuitos se conectam com todos os circuitos, quase sem discriminação’</em>&#8220;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Neumann</strong> (Cf. 2024, p.340) defende que a integração de aspectos da totalidade psíquica, nessa etapa da vida, despertam crises existenciais marcadas por fortes emoções, as quais, a depender do caso, podem colocar o ego em risco, como atesta a angústia extrema que tende a marcar essa época da vida. Arrisco dizer, portanto, que as evidências fisiológicas trazidas pelos pesquisadores da Universidade Monash se somam às comportamentais quando se trata da metanoia da meia-idade, reforçando assim a maneira pela qual a psicologia analítica enxerga o desenvolvimento da personalidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com tudo isso, é possível dizer que as transformações psicossomáticas da meia-idade teriam a finalidade de desvendar um novo horizonte, o qual talvez só sejamos capazes de enxergar quando dispostos a morrer para velhos padrões, para sonhos caducos e para expectativas de grandeza egóicas. Um novo horizonte, sem a ilusão das certezas, sisudas ou polianas, cheio de dúvidas e com a possibilidade de inúmeras respostas, todas certas e erradas, a depender do contexto e da finalidade. Um novo horizonte em que não é preciso erguer, em vão, a pedra ao topo da montanha, porque a imortalidade não é o propósito, o propósito é apenas viver quantas vidas forem necessárias neste mesmo sopro de existência.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Na meio da vida, é preciso imaginar Sísifo infeliz&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/h1r8as2-yNw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/wagnerhilario/">Wagner H P Borges — Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi — Membro Didata pelo IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 22ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">GIUNTELLA, Osea; MCMANUS, Sally; MUJCIC, Redzo; OSWALD, Andrew J.; POWDTHAVEE, Nattavudh; TOHAMY, Ahmed. The Midlife Crisis. NBER, 2022. Disponível em: https://www.nber.org/papers/w30442#fromrss. Acesso em: 17 de agosto de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HILLMAN, James. A força do caráter: e a poética de uma vida longa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HOLLIS, James. A passagem do meio — da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_________. A natureza da psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">_________. O desenvolvimento da personalidade. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">NEUMANN, Erich. História das origens da consciência — Uma jornada arquetípica, mítica e psicológica sobre o desenvolvimento da personalidade humana. 2ª Ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">VALENCIA, Alejandro M. Como o cérebro humano se &#8216;reconfigura&#8217; a partir dos 40 anos (e o que fazer para mantê-lo saudável). BBC News Brasil, 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c51z402jjz4o. Acesso em: 24 de agosto de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/na-meio-da-vida-e-preciso-imaginar-sisifo-infeliz/">No meio da vida, é preciso imaginar Sísifo infeliz</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Cinema, Solidão e criatividade para viver na meia idade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/cinema-solidao-e-criatividade-para-viver-na-meia-idade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Silvana Gomes Venâncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Aug 2025 19:26:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=11046</guid>

					<description><![CDATA[<p>Ao iniciar esse texto, três filmes vem à minha cabeça: Nossas Noites, protagonizados por Jane Fonda e Robert Redford, A Substância, dirigido belamente por Coralie Fargeat e estrelado por Demi Moore. A diretora francesa dirigiu outro filme que me chamou atenção, Vingança, que mostra, assim como no filme A Substância, como o mundo pode ser [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/cinema-solidao-e-criatividade-para-viver-na-meia-idade/">Cinema, Solidão e criatividade para viver na meia idade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>Ao iniciar esse texto, três filmes vem à minha cabeça: Nossas Noites, protagonizados por Jane Fonda e Robert Redford, A Substância, dirigido belamente por Coralie Fargeat e estrelado por Demi Moore. A diretora francesa dirigiu outro filme que me chamou atenção, Vingança, que mostra, assim como no filme A Substância, como o mundo pode ser violento com as mulheres. O vermelho, o horrendo é ressaltando, tudo ali é dor e violência. Num filme, uma mulher jovem vinga a violência que sofreu, no outro, uma mulher mais velha se mutila. Em Nossas Noites, a maravilhosa e deslumbrante Jane Fonda convida o vizinho para dormir com ela, literalmente dormir. O terceiro filme será dirigido pela atriz e diretora Bárbara Paz. O filme gira em torno do personagem do carismático Willem Dafoe, um “profissional do afeto”, alguém que oferece conforto platônico a pessoas solitárias.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esses-filmes-falam-de-solidao-e-da-sensacao-de-abandono-viver-e-dor-o-sofrimento-faz-parte-da-vida-humana-mas-existem-dores-que-parecem-que-doem-mais-pois-elas-sao-as-dores-da-alma" style="font-size:20px">Esses filmes falam de solidão e da sensação de abandono. Viver é dor, o sofrimento faz parte da vida humana, mas existem dores que parecem que doem mais, pois elas são as dores da alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Essas dores podem deixar marcas no corpo. Elas mutilam a alma e mutilam o corpo, quando não tratadas ou olhadas com profundidade, independente do medo. Esses filmes abordam a solidão, a dor de ser esquecida e as tentativas de lidar com elas. No filme <em>A Substância </em>há uma contradição dos opostos, de uma forma gritante e sufocante, entre a juventude desejada e a velhice, que se aproxima sem dó e sem piedade, anunciando o caminho para o&nbsp; fim. Esses dois estágios da vida só podem conviver juntos de modo simbólico e ressignificado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Qualquer tentativa de unir os dois, de modo concreto literal, só irá causar mais danos à Psique</strong>. Quando o otimismo da juventude, com a garra de conquistar o&nbsp; mundo, junto com a ideia de que há um futuro pela frente, cessa com a velhice, tudo isso somado à consciência da realidade da morte, pode ser uma experiência sufocante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavra-de-carl-jung" style="font-size:20px">Nas palavra de <strong>Carl Jung</strong>:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px;line-height:1.4"><blockquote><p>O otimismo com que julgamos a juventude fracassa nessa hora. Temos, naturalmente, um repertório de conceitos apropriados a respeito da vida, que ocasionalmente ministramos aos outros, tais como: “Todo mundo um dia vai morrer”, “ninguém é eterno” etc., mas quando estamos sozinhos e é noite, e a escuridão e o silêncio são tão densos, que não escutamos e não vemos senão os pensamentos que somam e subtraem os anos da vida, e a longa série daqueles fatos desagradáveis que impiedosamente nos mostram até onde os ponteiros do relógio já chegaram, e a aproximação lenta e irresistível do muro de trevas que finalmente tragarão tudo o que eu amo, desejo, possuo, espero e procuro; então toda a nossa sabedoria de vida se esgueirará para um esconderijo impossível de descobrir, e o medo envolverá o insone como um cobertor sufocante.</p><cite>C. G. Jung. OC 8_2 &#8211; A Natureza da psique &#8211; § 796</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">No filme <em><strong>A Substância</strong> </em>essa oposição é exposta de um modo muito doloroso. Para uma existir, a outra precisa sair de cena. Elas não podem conviver no mesmo espaço. Uma dá lugar a outra, mas não sem dor. Existe inveja, raiva, competição. A consciência não consegue unir os opostos, ou se é jovem ou velha e o filme mostra muito bem isso. Nenhuma das duas consegue ceder e doar nada a outra, sabedoria, jovialidade, tempo,&nbsp; vontade de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Quem assistiu o filme <em>A Substância</em>, sabe como essa história termina. Quando a alma não se prepara para esse momento não há como unir o que Cronos separou. Será que é possível essa preparação? Talvez seja necessária muita criatividade e o cultivo da espiritualidade para que todas as fases da vida sejam bem-vindas, acolhidas como ciclos da natureza. No entanto, deixamos de ser natureza há muito tempo. O mundo ocidental não tolera o velho, o fraco, o declínio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-seja-por-causa-desse-racionalismo-utilitarista-que-so-valoriza-algo-para-um-determinado-fim-que-as-mulheres-com-mais-de-50-anos-se-tornam-invisiveis" style="font-size:20px">Talvez seja por causa desse racionalismo utilitarista, que só valoriza algo para um determinado fim, que as mulheres com mais de 50 anos se tornam invisíveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Somos invisíveis para o mercado de trabalho e para o “mercado” de relacionamentos. “A mulher tem data de validade”, muitos usam essa frase. O perigo é quando acreditamos nela. A personagem de Demi Moore deixou de ser atraente para seus empregadores, assim como muitas mulheres deixam de receber os olhares nas ruas, deixando de ser “paqueradas”, no sentido de um olhar de brilho. Muitas mulheres moram sozinhas, sem a presença dos filhos, de amigas ou de parceiros sexuais e afetivos. É aí que tudo termina, iniciando ou uma corrida para recuperar a juventude perdida ou uma reclusão solitária, sem que haja um olhar atento para novos modelos de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A solidão das mulheres pode ser gerada por&nbsp; uma fala silenciosa que diz: “fica em casa com a sua velhice ou pareça jovem”. Isso fica visível no filme de Carolie Fargeat, a personagem de Demi Moore fica em casa se entupindo de comida e de programas fúteis na televisão, e a jovem, vive experiências sem vida, sem sentido, numa corrida desesperada por novas emoções. Duas atitudes opostas que não se entrelaçam. Talvez a aceitação para o envelhecimento e a realidade da finitude, seja a consciência de que nem a juventude e nem a velhice tragam tudo o que precisamos para ter uma vida mais consciente. É necessário encarar os medos, da vida e da morte, além de sentir que envelhecer é um privilégio de quem viveu e esse momento pode significar a plenitude da vida, de uma fase mais madura, com inteireza e aceitação.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Tenho observado que aqueles que mais temem a vida quando jovens, são justamente os que mais têm medo da morte quando envelhecem.</p><cite>C. G. Jung. OC 8/2, A Natureza da psique, §797</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-medo-e-paralisante-petrifica-a-consciencia-e-dualista-excludente-e-isso-ou-aquilo-nao-ha-espaco-para-dualidades-e-sim-para-dualismos-dicotomias-abismos-e-separacoes" style="font-size:20px">O medo é paralisante, petrifica. A consciência é dualista, excludente, é isso ou aquilo, não há espaço para dualidades e sim para dualismos, dicotomias, abismos e separações.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A natureza da consciência é de concentrar-se em poucos conteúdos, seletivamente, elevando-os a um máximo grau de clareza. A consciência tem como consequência necessária e condição prévia a exclusão de outros conteúdos igualmente passíveis de conscientização. Esta exclusão causa inevitavelmente uma certa unilateralidade dos conteúdos conscientes. </p><cite>C. G. Jung, OC 9/1, Os arquétipos e o inconsciente coletivo, §276</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-medo-da-vida-esconde-o-medo-da-morte-e-vice-e-versa-um-medo-exclui-a-consciencia-do-outro-estamos-diante-da-face-de-uma-mesma-moeda" style="font-size:20px">O medo da vida esconde o medo da morte e vice e versa, um medo exclui a consciência do outro, estamos diante da face de uma mesma moeda.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">No entanto, o Self é criativo, une realidades, permitindo a função transcendente, o símbolo que une, que transforma a realidade excludente. Por isso, é possível que haja muitas mortes na juventude e muita vida na velhice.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A vida é teleológica <em>par excellence</em>, é a própria persecução de um determinado fim, e o organismo nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura alcançar. O termo de cada processo é o seu objetivo.” </p><cite>C. G. Jung, OC 8/2, A Natureza da psique, §798</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Todas as etapas de uma vida estão contidas em outras. Neste sentido, a juventude nada mais é do que um estágio intermediário para a maturidade. O medo da vida, de assumir riscos, de sofrer, será o prenúncio do medo da morte. Só os vivos podem morrer. Quem na juventude vive, avança etapas, dá passos na vida, mesmo experienciando momentos de muitas dores, decepções, torna-se apto a uma velhice com mais criatividade e sabedoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O filme <em><strong>Nossas Noites</strong></em> sugere uma saída criativa para a solidão dos personagens. Os atores Jane Fonda e Robert Redford tinham quase 80 anos no lançamento do filme em 2017. Dois velhos, que moram sozinhos. Assim como, que eu também, moro sozinha e tenho muitas amigas que moram sós e poucos amigos na mesma condição. Existem mais mulheres em instituições de longa permanência e isso só reforça o problema&nbsp; da solidão das mulheres. Talvez uma forma de lidar com esta questão esteja mais em outro filme protagonizado também por Jane Fonda, E <em>Se Vivêssemos todos juntos? </em>Ou na série <em>Grace and Frankie</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O interessante aqui é a forma inusitada trazida pelo filme <em>Nossas Noites</em>, com temas sobre a solidão e a sexualidade de quase octogenários. No fundo, o filme <em>Nossas Noites </em>não trata somente de relacionamentos amorosos, mas de amizade, de busca de afeto e de companheirismo. Ao invés de se sentir infeliz, remoendo escolhas, ressentida com uma juventude que se foi, a personagem de Jane Fonda sai do seu lugar e bate à porta.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Mas o impulso teleológico da vida não cessa quando se atinge o amadurecimento e o zênite da vida biológica. A vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e a mesma irresistibilidade com que a subia antes da meia idade, porque a meta não está no cume, mas no vale, onde a subida começou. A curva da vida é como a parábola de um projétil que retorna ao estado de repouso, depois de ter sido perturbado no seu estado de repouso inicial. </p><cite>C. G. Jung. OC 8/2, A Natureza da psique, §798</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aceitar-a-descida-na-nbsp-curva-da-vida-na-meia-idade-nao-e-uma-tarefa-facil-mas-e-libertadora" style="font-size:20px">Aceitar a descida na&nbsp; curva da vida, na meia idade não é uma tarefa fácil, mas é libertadora.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A vida que eu vivi até aqui foi uma preparação para esse momento. Costumo dizer, que depois dos 50 anos tudo deve ser mais lento, saboreado, há menos tempo pela frente. Se eu for mais rápido, mais rápido eu chego ao destino final. No entanto, há uma pseudo contradição nessa fala, ao mesmo tempo que a vida pede calma, ela pede urgência para tomar algumas decisões. Em <em>Nossas Noites</em>, a personagem de Jane Fonda não perde tempo, bate à porta e convida o vizinho para partilhar suas noites, sua cama. Uma solução criativa para algo que a incomodava profundamente. Essa atitude está longe do convencional, não houve uma aproximação com o intuito de formar um relacionamento, mas algo direto, firme, inovador.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Do meio da vida em diante, só aquele que se dispõe a morrer conserva a vitalidade, porque na hora secreta do meio-dia da vida se inverte a parábola e nasce a morte. A segunda metade da vida não significa subida, expansão, crescimento, exuberância, mas morte, porque o seu alvo é o seu término. A recusa em aceitar a plenitude da vida equivale a não aceitar o seu fim. Tanto uma coisa como a outra significam não querer viver. E não querer viver é sinônimo de não querer morrer. A ascensão e o declínio formam uma só curva. </p><cite>C. G. Jung, OC 8/2, A Natureza da psique, §800</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Não sei qual será a abordagem do filme da Bárbara Paz, protagonizado por Willem Dafoe, mas o fato de falar de um “profissional do afeto”, é bem interessante. Cerca de 31% dos divorcios ocorrem entre mulheres com mais de 50 anos, sem contar com as que se divorciaram antes disso, sendo assim, teremos um número grande de mulheres sozinhas. Os “profissionais do afeto” seriam a solução para a solidão das mulheres? Creio que não. Carl Jung fala de aceitação para ter mais vitalidade. Será que é possível ter uma vida com vitalidade sozinha? Acredito que não.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Viver sozinha não diz respeito a relacionamentos amorosos ou a idade, mas estar disposta a se expor, a abrir a vida para o novo, para novas relações, para construção de boas amizades. É sobre ter novos projetos. <strong>Aceitar a morte, e o declínio é abraçar a vida com toda força, com tudo o que ela traz. Somente as mulheres que aceitam sua idade, sua nova condição de vida, terão a vitalidade, a força, e a criatividade para inventar novas formas de viver</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Cinema, Solidão e criatividade para viver na meia idade" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/M4Lmbetb5zo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/silvana-venancio/">Silvana Venâncio &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>*Jornalista, licenciada em Filosofia, Arteterapeuta, Doutora em Teologia e Analista Junguiana em Formação</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia" style="font-size:20px">Bibliografia:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">C. G. Jung. OC 9/1 &#8211; Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ OC 8/2 &#8211; A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/cinema-solidao-e-criatividade-para-viver-na-meia-idade/">Cinema, Solidão e criatividade para viver na meia idade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Sabedoria para uma vida plena</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sabedoria-para-uma-vida-plena/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Jun 2025 18:59:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10491</guid>

					<description><![CDATA[<p>“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Este é o segundo verso da canção Dom de iludir, de Caetano Veloso. Em contraponto ao título, carrega uma grande verdade: querendo ou não, cada pessoa sente, ao longo da vida, a dor e a delícia do que é e de assim [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sabedoria-para-uma-vida-plena/">Sabedoria para uma vida plena</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">“<strong>Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é</strong>”. Este é o segundo verso da canção <em>Dom de iludir</em>, de Caetano Veloso. Em contraponto ao título, carrega uma grande verdade: querendo ou não, cada pessoa sente, ao longo da vida, a dor e a delícia do que é e de assim ser. Neste sentido do saber — provar o sabor pela experiência —, é certo que “cada um sabe”. <strong>Tomar consciência do que se é, no entanto, envolve um processo árduo e difícil do qual muitos — talvez a maioria — fogem, acabando de fato por ficar com ilusões de si mesmos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O saber com sabor que a canção evoca, gerado pela ampliação de consciência, é próprio do programa da segunda metade da vida, na linguagem da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung. O objetivo deste artigo é discorrer um pouco sobre o caminho que leva a crescer em sabedoria, tornando-se quem de fato se é.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-humana-na-concepcao-de-jung-e-como-a-trajetoria-do-sol" style="font-size:19px">A vida humana, na concepção de Jung, é como a trajetória do sol.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A primeira metade, da qual fazem parte a infância, a adolescência e juventude e o início da idade adulta, caracteriza-se pelo desenvolvimento e estruturação do ego, que precisa chegar à sua autonomia. Para isso é suposta sobretudo a adaptação externa, em resposta às exigências da vida e à necessidade de ampliar seus horizontes para fincar raízes no mundo, simbolizada principalmente pela saída da casa dos pais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Tem importância crucial aqui os papéis que se exerce na sociedade, cuja escolha pode até ter um fundo individual, mas o conteúdo é geral e coletivo. Jung dá a eles o nome de personas, remetendo às máscaras usadas pelos atores no teatro grego. Trata-se de “<strong>um recorte mais ou menos arbitrário e acidental da psique coletiva, [&#8230;] máscara que <em>aparenta uma individualidade</em> [&#8230;], quando, na realidade, não passa de um papel</strong>” (JUNG, 2018b, §246, grifos do autor). Apesar de se tentar convencer aos outros e a si mesmo de que se trata de uma individualidade, representa algo de secundário em relação a ela. Pouco da essência aparece aqui, sendo mais um necessário “compromisso entre o indivíduo e a sociedade”, ainda que a verdadeira individualidade, que Jung chama de “si-mesmo inconsciente”, esteja sempre presente e se faça “sentir de forma indireta.” (Ibid., §247)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-a-segunda-metade-da-vida-formada-pela-fase-adulta-a-partir-mais-ou-menos-dos-40-anos-isto-e-a-maturidade-e-a-velhice-caminha-para-o-declinio-da-vida-e-o-horizonte-da-morte-o-que-nao-necessariamente-significa-decadencia-e-menos-valia" style="font-size:19px">Já a segunda metade da vida, formada pela fase adulta a partir mais ou menos dos 40 anos, isto é, a maturidade, e a velhice, caminha para o declínio da vida e o horizonte da morte, o que não necessariamente significa decadência e menos-valia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao contrário, o grande motor é a pergunta pelo sentido e significado de tudo o que foi desenvolvido até aqui. Entra-se sobretudo na adaptação interna, com a necessidade de escutar o chamado da alma para trilhar o caminho de descobrir e se tornar cada vez mais quem de fato se é, resgatando o que ficou para trás e deixando emergir muitos dos conteúdos que foram renegados por sua incompatibilidade com as personas. A eles Jung (2016, §63) chama de sombra, na qual se pode “<strong>vislumbrar não só restos incompatíveis — e por isso rejeitados — da vida cotidiana, ou tendências condenáveis do homem animalesco primitivo, mas [&#8230;] também os germes de novas possibilidades de vida</strong>”. Para esta integração mais ampla e profunda, é preciso estar à escuta do Self, ao mesmo tempo centro e totalidade da vida psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2018a-784-no-entanto-lamenta-o-despreparo-com-o-qual-a-maioria-das-pessoas-atravessa-a-metanoia-a-transformacao-da-primeira-para-a-segunda-metade-da-vida" style="font-size:19px">Jung (2018a, §784), no entanto, lamenta o despreparo com o qual a maioria das pessoas atravessa a metanoia, a transformação da primeira para a segunda metade da vida:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O pior é que pessoas inteligentes e cultas vivem sua vida sem conhecerem a possibilidade de tais mudanças. Entram inteiramente despreparadas na segunda metade de suas vidas. [&#8230;] E, pior do que isto, damos este passo, sob a falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideais continuarão como dantes. Não podemos viver a tarde de nossas vidas segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-lado-do-despreparo-de-nao-ser-comum-tratar-dessas-transformacoes-e-educar-para-elas-ha-tambem-uma-negacao-por-medo-da-mudanca-que-levara-cada-vez-mais-a-individualidade" style="font-size:19px">Ao lado do despreparo, de não ser comum tratar dessas transformações e educar para elas, há também uma negação, por medo, da mudança que levará cada vez mais à individualidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Afinal, os papéis sociais não deixam de ser um refúgio na multidão. Corre-se o risco, então, de se enrijecer nas personas, e estas se tornarem, mais do que máscaras que se pode colocar e tirar, verdadeiras armaduras, das quais não se sai mais, como é retratado no conto <em>O cavaleiro preso na armadura</em>, de Robert Fisher (1987).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O cavaleiro “pensava ser bondoso, gentil e amoroso. Ele fazia tudo que um cavaleiro bondoso, gentil e amoroso faz.” (p. 3) Na primeira frase, o conto já mostra como ele estava tomado pela consciência coletiva, cujos conteúdos “se apresentam como verdades universalmente aceitas” (JUNG, 2018a, §423). Vive, assim, em uma “identificação incondicional com uma ‘verdade’ necessariamente unilateral” (Ibid., §425). O cavaleiro tem tanta certeza de saber quem é, e de que a armadura o representa, que não percebe que ela na verdade esconde seu verdadeiro eu, impedindo-o “de sentir muita coisa” (FISHER, 1987, p. 7), até que tenta tirá-la e já não consegue.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O tempo atual também carrega muitas verdades sobre o que se deve ser. Verdades essas acreditadas e buscadas pela maioria: um indivíduo alegre, autodeterminado, empoderado, <em>fitness</em>, rico, conectado, com muitos seguidores, influenciador, que esbanja bens, viagens e procedimentos estéticos. Mas quem é esta pessoa? Qual a sua singularidade?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-trilha-do-saber-com-sabor" style="font-size:19px"><strong>A trilha do saber com sabor</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Sair da armadura supõe para o cavaleiro um longo caminho e muita ajuda para trilhá-lo. A psicoterapia significa o acompanhamento nesta direção, visando apoiar no processo de descobrir e se tornar quem se é, chamado na Psicologia Analítica de individuação; caminho de toda a vida, mas fundamental na segunda metade dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">De fato, segundo Jung (2020, §289), determinação, inteireza e maturidade são os três fatores importantes para o adulto atingir a personalidade, “a realização máxima da índole inata e específica de um ser vivo em particular”. Isso seria, portanto, “o melhor desenvolvimento possível da totalidade de um indivíduo determinado”, para o que se requer “a vida inteira de uma pessoa, em todos os seus aspectos biológicos, sociais e psíquicos.” É a trilha da busca de sentido e significado, para a qual vale a pena se entregar; caminho de sabedoria, do saber com sabor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-isso-e-preciso-no-ensinamento-de-jung-fidelidade-a-sua-propria-lei-ibid-295-grifos-do-autor" style="font-size:19px">Para isso é preciso, no ensinamento de Jung, “<em>fidelidade à sua própria lei</em>” (Ibid., §295, grifos do autor).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A palavra que melhor a representa é <em><strong>pistis</strong></em>, “lealdade repleta de confiança”. Para ser fiel à própria lei torna-se necessário confiar nela, “perseverar com lealdade e esperar com confiança; enfim, é a mesma atitude que uma pessoa religiosa deve ter para com Deus” (Ibid., §296).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>A infidelidade à lei interior, ao contrário, leva à perda do sentido da sua própria vida</strong>. Jung acredita, no entanto, que a maioria das pessoas não faz a pergunta “fatal” por este sentido, o que considera até uma proteção e indulgência da natureza (Cf. Ibid., §314).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>A voz interior chega a ser chamada por ele de demônio, tal risco representa o caminho de formação da personalidade</strong>. Essa voz significa “simultaneamente o perigo máximo e o auxílio indispensável” (Ibid., §321). Isso acontece porque geralmente nela se encontram misturados “o mais baixo e o mais alto, o melhor e o pior, o mais verdadeiro e o mais fictício, o que produz um abismo de confusão, ilusão e desespero” (Ibid., §319). Para que escolher dar ouvidos a ela, então? O próprio Jung, que alerta para os perigos, oferece o porquê. É que “a voz interior é a voz de uma vida mais plena e de uma <em>consciência</em> mais ampla e abrangente” (Ibid., §318, grifo do autor).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O cavaleiro preso na armadura entrou nesta trilha não por vontade própria, mas pelo ultimato que recebeu da esposa de sair da armadura, o que tentou inutilmente sozinho. Entrou na floresta à procura do mago Merlin, sobre quem lhe foi dito que era alguém que poderia lhe ajudar a “trazer seu verdadeiro eu para diante do olhar” (FISHER, 1987, p. 9). Para conseguir sair da armadura, Merlin alertou-o sobre a importância do processo: “faz muito tempo que você a usa. Não dá para se livrar dela da noite para o dia” (Ibid., p. 14). Mais uma vez, a semelhança com a psicoterapia e o seu tempo não são mera coincidência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-daria-para-detalhar-aqui-todo-o-caminho-que-foi-necessario-ao-cavaleiro-trilhar-no-processo-de-procura-de-seu-verdadeiro-eu" style="font-size:19px">Não daria para detalhar aqui todo o caminho que foi necessário ao cavaleiro trilhar no processo de procura de seu verdadeiro eu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Em breves palavras, no entanto, ele teve que percorrer primeiro o Caminho da Verdade, tomando consciência de seus passos dentro da armadura e o efeito deles em si, nos demais e no mundo ao seu redor. Nele, teve que adentrar o Castelo do Silêncio, ficando tempo suficiente em contato com a própria solidão até ouvir a voz do seu verdadeiro eu; o Castelo do Conhecimento, crescendo na consciência de si, dos aspectos que escondia por medo de não ser amado, e do chamado da alma, a “ambição do coração” (p. 50), servindo à qual se beneficia a todos; e o Castelo da Vontade e da Ousadia, no qual deveria enfrentar “o Dragão do Medo e da Dúvida” (p. 54).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Chegando ao Vértice da Verdade, o cavaleiro encontrou a seguinte inscrição em uma rocha: “<strong>não posso conhecer o desconhecido, se ao conhecido me agarro</strong>” (p. 59). <strong>E precisou corajosamente se soltar do que pensava ser, suas crenças e julgamentos</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-fabula-tem-muita-semelhanca-com-o-processo-da-individuacao-que-nao-e-meta-mas-caminho" style="font-size:19px">Esta fábula tem muita semelhança com o processo da individuação, que não é meta, mas caminho.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A diferença é que não se encontra em um determinado momento dele o verdadeiro eu, mas, ao se dar ouvidos mais e mais à voz interior e atender na vida os seus chamados, vai se descobrindo continuamente as próprias singularidades e se tornando cada vez mais quem se é. Trata-se da trilha da sabedoria, do saber com sabor, como revela a tradição judaica: “Começo da Sabedoria é o genuíno desejo de ser por ela educado” (Sb 6,17).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-percorre-la-no-ensinamento-de-jung-apesar-de-nao-ser-facil-e-passo-a-passo-de-autorrealizacao" style="font-size:19px">Percorrê-la, no ensinamento de Jung, apesar de não ser fácil, é passo a passo de autorrealização:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O caminho por descobrir é como algo psiquicamente vivo, que a filosofia clássica chinesa denomina <em><strong>Tao</strong></em>, e comparando-o a um curso de água que se movimenta inexoravelmente para a meta final. Estar dentro do <em><strong>Tao</strong></em> significa perfeição, totalidade, desígnio cumprido, começo e fim, e a realização completa do sentido inato da existência. Personalidade é <em><strong>Tao</strong></em>. (2020, §323, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Se investir apenas na adaptação externa é o verdadeiro “dom de iludir” — ao outro e sobretudo a si próprio —, deixar-se iniciar na sabedoria, para experimentar e tomar consciência da “dor e da delícia de ser o que é”, pede um outro dom. Trata-se do dom de se desnudar, de confiar na voz interior mais profunda, a do Self e, seguindo seu chamado, trilhar os caminhos que levam a tirar a armadura e ir se tornando cada vez mais quem se é.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Sabedoria para uma vida plena" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/P9u9VVSKPwQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/tania-pulier/">Tania Pulier — Analista em formação &#8211; IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/lilian/">Lilian Wurzba — Analista didata &#8211; IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A BÍBLIA. Tradução ecumênica. São Paulo: Loyola; Paulinas, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">FISHER, Robert. <em>O cavaleiro preso na armadura</em>. Balneário Camboriú: Nova Era, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav. <em>A energia psíquica</em>.14. ed. Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">___. <em>A natureza da psique</em>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2018a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">___. <em>O eu e o inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2018b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">___. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="www.ijep.com.br"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10497" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Matrículas abertas</strong>:&nbsp;<a href="http://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso Canal no <strong><a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">YouTube</a></strong>: <strong>+700 vídeos de conteúdo Junguiano</strong>!</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sabedoria-para-uma-vida-plena/">Sabedoria para uma vida plena</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/velho-e-voce-um-olhar-junguiano-sobre-o-envelhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 May 2025 12:47:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[etapas da vida]]></category>
		<category><![CDATA[idosos]]></category>
		<category><![CDATA[invisibilidade do idoso]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10453</guid>

					<description><![CDATA[<p>A velhice é um tema demasiado evitado por boa parte das pessoas. O medo do envelhecimento é uma sombra que paira sobre a sociedade contemporânea, profundamente enraizado em valores culturais que exaltam a juventude, a produtividade e a beleza como padrões quase inquestionáveis. Mais do que uma simples resistência às mudanças corporais ou à perda [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/velho-e-voce-um-olhar-junguiano-sobre-o-envelhecimento/">Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A velhice é um tema demasiado evitado por boa parte das pessoas. <strong>O medo do envelhecimento é uma sombra que paira sobre a sociedade contemporânea</strong>, profundamente enraizado em valores culturais que exaltam a juventude, a produtividade e a beleza como padrões quase inquestionáveis. Mais do que uma simples resistência às mudanças corporais ou à perda de vitalidade, esse temor revela a inquietação diante da finitude, do isolamento e da possível invisibilidade social que o avançar da idade pode trazer. <strong>Em um mundo que associa o envelhecer ao declínio, alimentamos uma espécie de negação coletiva e mergulhamos em uma busca incessante por prolongar a juventude que, como um reflexo, escapa das mãos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Conforme o último censo do IBGE<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a> (2022), as pessoas com mais de 60 anos chegaram a 15,6% da população brasileira, um aumento de 56,0% em relação a 2010. Entre 2010 e 2022, a expectativa de vida aumentou, e passa a ser em média 75,5 anos<a id="_ftnref2" href="#_ftn2">[2]</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-afirma-jung-oc-8-2-802-que-nossa-longevidade-comprovada-pelas-estatisticas-atuais-e-um-produto-da-civilizacao" style="font-size:18px">Afirma Jung (OC 8/2, §802) que “<strong>nossa longevidade comprovada pelas estatísticas atuais é um produto da civilização</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mais do que um fenômeno biológico, a extensão da vida humana é fruto de uma complexa teia de transformações culturais, científicas e sociais que moldaram nosso modo de existir. Desde a descoberta de vacinas até os avanços da medicina preventiva, passando pelas melhorias nas condições sanitárias e pelo acesso ampliado à informação, a civilização construiu os alicerces para que o ser humano pudesse viver mais. Contudo, esse ganho de anos não deve ser visto apenas como um triunfo técnico, mas também como um desafio existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Envelhecer é um processo natural da existência humana, mas, ao mesmo tempo, carrega desafios complexos, há um diálogo inconsciente com a proximidade da finitude, com as limitações físicas, com a perda do viço e ganho da opacidade do corpo. E muitos idosos ficam um tanto aprisionados num aspecto nostálgico, com saudades de um passado que pode ter sido bom, diferente das angústias e dores da atualidade dos dias.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diz-jung-oc-8-2-800-que-a-vida-natural-e-o-solo-em-que-se-nutre-a-alma-quem-nao-consegue-acompanhar-essa-vida-permanece-enrijecido-e-parado-em-pleno-ar" style="font-size:19px">Diz Jung (OC 8/2, §800) que “a vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Talvez seja por este motivo que “muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração” (JUNG, OC 8/2, §800). &nbsp;Há aqueles que, ao invés de se adaptarem ao curso natural da existência, estacionam psicologicamente no passado, como pilares nostálgicos de uma juventude que já não existe, mas cujas memórias permanecem vívidas. Essas pessoas, presas às lembranças de um tempo que não dialoga mais com o presente, perdem o vínculo com o fluxo vital. No entanto, a vida exige transformação. <strong>É como se nossa consciência tivesse deslizado um pouco de suas bases naturais e não soubesse mais como se orientar pelo tempo natural</strong> (JUNG, OC 8/2, §802).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aceitar-o-envelhecimento-nao-significa-negligenciar-o-cuidado-com-o-corpo-ou-abandonar-se-passivamente-ao-inevitavel" style="font-size:19px">Aceitar o envelhecimento não significa negligenciar o cuidado com o corpo ou abandonar-se passivamente ao inevitável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Pelo contrário, trata-se de <strong>um convite à reconciliação com o tempo, uma oportunidade para cultivar a autoestima de maneira equilibrada e honesta</strong>. Cuidar de si é um gesto de amor-próprio, e isso pode incluir atividades físicas e procedimentos estéticos que tragam bem-estar, desde que não se tornem obsessão. O equilíbrio está em reconhecer que os sinais são marcas de uma vida vivida, carregadas de histórias, experiências e sabedoria. Cuidar do corpo é uma forma de honrar a própria jornada e a verdadeira beleza está em harmonizar-se com a vida, valorizando o que se é em cada fase. Afinal quando aceito com serenidade, o envelhecimento pode ser um ato de maturidade e um testemunho da riqueza que o tempo nos confere.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Além disso, é importante atentar para a <strong>sombra coletiva acerca do envelhecer</strong>, pois a cultura contemporânea, com sua obsessão por performances e aparências, projeta a velhice como um lugar de ausência de produtividade, relevância, vigor e sexualidade, eclipsando os idosos numa sociedade que idolatra o novo e despreza o que é velho. Mas a sombra não se contenta em ficar oculta; ela se infiltra nas atitudes, nas escolhas e nos exageros que vemos ao nosso redor. Exageros esses que apontam para a terrível capa de invisibilidade que recaem nos idosos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Há um apagamento silencioso e insidioso que permeia o convívio familiar com os mais velhos, muitas vezes operando de forma inconsciente, como uma teia que lentamente os retira do protagonismo de suas próprias vidas. Essa invisibilidade os coloca nos bastidores, onde deixam de ser atores principais de sua história para se tornarem espectadores da dinâmica familiar que, gradualmente, os desconsidera. Esse movimento, que talvez não seja intencional, resulta em uma intensificação de sua dependência, roubando-lhes a autonomia e reduzindo sua capacidade de decidir sobre sua própria existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-cotidiano-familiar-por-vezes-de-forma-inconsciente-os-idosos-sao-tratados-como-seres-altamente-frageis-que-devem-ser-protegidos-a-qualquer-custo" style="font-size:19px">No cotidiano familiar, por vezes de forma inconsciente, os idosos são tratados como seres altamente frágeis, que devem ser protegidos a qualquer custo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Esse zelo excessivo, talvez motivado pelo amor e preocupação, frequentemente resvala em práticas que acabam retirando a autonomia daqueles que envelhecem</strong>. O ato de assumir as decisões ou impor limites sem considerar suas capacidades pode ser entendido mais do que um gesto desatento; é uma forma sutil de apagamento e, nesse processo, perde-se de vista a rica e complexa história que cada idoso carrega consigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Esquecem-se do caminho longo e árduo que percorreram, da vida social e profissional que construíram, da base emocional e material que ofereceram àqueles que hoje os cercam, ignoram-se os papéis que desempenharam como pilares de referência e exemplo, como construtores de alicerces que sustentaram tantas vidas e histórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao tratá-los apenas pelo prisma da fragilidade, os familiares negligenciam a importância de reconhecer e valorizar a trajetória de quem, um dia, foi o protagonista de tantas conquistas e desafios. É fundamental lembrar que o envelhecimento não apaga as realizações, não invalida a sabedoria acumulada nem diminui o valor intrínseco do ser humano.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-respeitar-a-autonomia-dos-idosos-e-tambem-respeitar-a-sua-historia-reconhecer-que-o-envelhecer-nao-a-diminui" style="font-size:19px"><strong>Respeitar a autonomia dos idosos é também respeitar a sua história, reconhecer que o envelhecer não a diminui</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Um outro aspecto importante a ser olhado é que a sociedade contemporânea é regida pela pressa e pelo ritmo acelerado que exalta a produtividade, a eficiência e o imediatismo, e por isso os idosos podem se tornar vítimas de uma silenciosa exclusão. A falta de paciência para lidar com seu tempo mais lento é um reflexo de uma sociedade do descarte, que se esqueceu daqueles que pavimentaram os caminhos por onde outros agora correm.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa impaciência é um sintoma da desvalorização do envelhecer pois, em um sistema capitalista que reduz o indivíduo à sua capacidade de produzir e consumir, o idoso, ao deixar de ocupar o lugar de engrenagem ativa, é muitas vezes relegado à margem e sua idade avançada tende a ser percebida como um fardo e não uma conquista de sobrevivência e sabedoria. Ou então, para aqueles que possuem melhor poder aquisitivo, viram “nicho de mercado”, num processo de objetificação do ser.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-voracidade-do-capitalismo-identifica-nesse-grupo-uma-nova-oportunidade-de-obtencao-de-lucro-onde-produtos-e-servicos-sao-oferecidos-talvez-com-o-intuito-de-atender-a-uma-demanda-artificialmente-criada" style="font-size:19px"><strong>A voracidade do capitalismo identifica nesse grupo uma nova oportunidade de obtenção de lucro, onde produtos e serviços são oferecidos talvez com o intuito de atender a uma demanda artificialmente criada</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Os idosos são, assim, transformados em consumidores compulsórios de uma infinidade de soluções que prometem juventude eterna, conforto e <em>status</em>, mas que, em sua essência, podem reforçar estereótipos e desumanizar o processo de envelhecer. Por trás da publicidade sedutora e dos <em>slogans </em>otimistas, existe a insidiosa mensagem de que a velhice é algo a ser combatido, escondido ou domesticado, e não uma etapa digna de celebração. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-processo-vai-alem-do-campo-material-infiltrando-se-nas-relacoes-sociais-e-culturais" style="font-size:19px"><strong>Esse processo vai além do campo material, infiltrando-se nas relações sociais e culturais</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A figura do idoso é constantemente remodelada para se encaixar em padrões de mercado que ditam como ele deve viver, parecer e até sentir. A liberdade de ser é substituída pela imposição de um modelo idealizado de envelhecimento, onde o consumo se torna a régua pela qual medimos a validade da vida. Essa abordagem, ao mesmo tempo que explora a capacidade de compra dos idosos, ignora suas necessidades mais fundamentais: respeito, inclusão e pertencimento. No lugar de acolher suas singularidades e reconhecer suas trajetórias, o mercado os transforma em alvos comerciais acima da dignidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para lidar com a ampliação da consciência e das reflexões acerca do envelhecimento, além de tantos outros processos do viver, Jung (OC 7/1, §113) reflete que a pessoa “precisa aprender a distinguir o eu do não-eu, isto é, da psique coletiva”. Ressalta que para diferenciar o eu do não-eu “é indispensável que o homem – na função de eu – se conserve em terra firme, isto é, cumpra seu dever em relação à vida e, em todos os sentidos, manifeste sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana” (JUNG, OC 7/1, §113).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-o-avancar-da-idade-ha-um-convite-para-a-busca-de-significacao-de-sentido-da-propria-vida" style="font-size:19px">Com o avançar da idade, há um convite para a busca de significação de sentido da própria vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O envelhecimento, muitas vezes percebido como um declínio inevitável, pode ser, na verdade, um processo profundamente transformador, um convite silencioso à metanóia – essa mudança de perspectiva que nos impulsiona a olhar para dentro, rever nossas crenças, e reorientar o sentido da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-1-113-reflete-que-estamos-diante-do-problema-de-encontrar-o-sentido-que-possibilite-o-prosseguimento-da-vida-entendendo-se-por-vida-algo-mais-do-que-simples-resignacao-e-saudosismo" style="font-size:19px">Jung (OC 7/1, §113) reflete que “estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da vida (entendendo-se por vida algo mais do que simples resignação e saudosismo)”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para ele, com o avançar da idade, o “<strong>papel junto ao jovem difere do que exercemos junto a uma pessoa mais amadurecida. No que se refere ao primeiro, basta afastar todos os obstáculos que dificultam sua expansão e ascensão. Quanto à última, porém, temos que incentivar tudo quanto sustente sua descida”</strong> (JUNG, OC 7/1, §114). É contundente ao afirmar o quão errônea é a ideia de que “os velhos podem ser abandonados, pois já não prestam para nada, uma vez que sua vida ficou para trás e só servem como escoras petrificadas do passado. É enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de expansão”. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">E lindamente aponta que “<strong>o entardecer da vida humana é tão cheio de significação quanto o período da manhã. Só diferem quanto ao sentido e intenção</strong>” (JUNG, OC 7/1, §114).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao mergulharmos nas reflexões de Jung, somos confrontados com uma verdade inevitável: a existência humana é tecida por ciclos que demandam sentidos distintos em cada fase da vida. Na juventude, a energia vital pulsa em direção à expansão, à conquista de horizontes e ao desbravamento de possibilidades. Contudo, à medida que avançamos para o entardecer da existência, emerge a necessidade de encontrar um significado mais profundo, uma direção que transcenda a simples resignação ou nostalgia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-perspectiva-junguiana-nos-convida-a-reconhecer-que-o-envelhecimento-nao-e-um-declinio-mas-uma-transicao-um-convite-a-introspeccao-e-a-aceitacao-das-verdades-mais-essenciais" style="font-size:19px">A perspectiva junguiana nos convida a reconhecer que o envelhecimento não é um declínio, mas uma transição, um convite à introspecção e à aceitação das verdades mais essenciais. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Nesse período, o desafio é sustentar a jornada para dentro, o mergulho no próprio ser porque é na descida simbólica que encontramos a riqueza das nossas raízes, o legado de experiências e sabedorias acumuladas ao longo do caminho, pois “<strong>o que a juventude encontrou e precisa encontrar fora, o homem no entardecer da vida tem que encontrar dentro de si</strong>” (JUNG, 7/1, §114).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Infelizmente, vivemos em uma sociedade que tende a negar o valor desse entardecer, relegando os idosos à invisibilidade ou reduzindo sua importância à funcionalidade prática de outrora. Contudo, como aponta Jung, é um grave engano supor que a vida perde seu sentido ao fim da fase de expansão. Pelo contrário, <strong>o crepúsculo da existência traz consigo um convite para um novo tipo de significado, mais interiorizado e contemplativo, mas igualmente pleno e necessário, mais consonante com o Self</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Assim, a maturidade deve ser vivida como uma oportunidade para completar o ciclo da vida com profundidade e inteireza. Envelhecer é reconhecer que a descida também é parte do caminho, que a plenitude também está no recolher, é a possibilidade de ser inteiro, não apesar da idade, mas justamente por causa dela. Nas dobras do tempo, o corpo e a alma nos conduzem a uma nova travessia, um tempo em que a espiritualidade se renova, e a vida, em sua sabedoria silenciosa, floresce de formas mais profundas.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Z2utAC-dnqA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/daniela/"><strong>Daniela A. Euzebio – Membro Analista</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">IBGE. Disponível em: <em>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos</em>. Acesso em 13 jan. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">IBGE. Disponível em: <em>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos</em>. Acesso em 13 jan. 2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBI, Jolande. Complexo, Arquétipo e Símbolo na Psicologia de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2017</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2014 (Obras completas v. 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015 (Obras completas v. 7/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><em>Se interessa pelo tema do envelhecimento? Confira o <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">X Congresso Junguiano do IJEP</a>:</em></strong></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img decoding="async" width="1024" height="532" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png" alt="" class="wp-image-10410" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Inscrição e programação</strong>: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep ">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep </a></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Fonte: IBGE. Disponível em: <a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos">https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos</a>. Acesso em 13 jan. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Fonte: IBGE. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos. Acesso em 13 jan. 2025</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">Acompanhe também nosso Canal no YouTube</a>!</strong> <strong>+700 vídeos de conteúdo Junguiano de qualidade!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Pós-graduações, cursos, formação de Analistas Junguianos e eventos</strong>: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos siga também no<strong><a href="https://www.instagram.com/ijep_jung/"> Instagram</a></strong>!</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/velho-e-voce-um-olhar-junguiano-sobre-o-envelhecimento/">Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Longevidade: Uma jornada transformadora ou assustadora?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/longevidade-uma-jornada-transformadora-ou-assustadora/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 May 2025 11:49:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[segundametadedavida]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10442</guid>

					<description><![CDATA[<p>“A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que, contudo, são um.” C.G. Jung Resumo: Pessoas 50+: Esse público está crescendo de forma intensa no Brasil. Esse texto tem como objetivo analisar como essas pessoas estão se preparando para vivenciar essa etapa da vida. Como estão lidando com as mudanças que estão se [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/longevidade-uma-jornada-transformadora-ou-assustadora/">Longevidade: Uma jornada transformadora ou assustadora?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que, contudo, são um.”</em></p><cite>C.G. Jung</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em><strong>Resumo</strong>: Pessoas 50+: Esse público está crescendo de forma intensa no Brasil. Esse texto tem como objetivo analisar como essas pessoas estão se preparando para vivenciar essa etapa da vida. Como estão lidando com as mudanças que estão se processando em seu corpo físico, em suas emoções, em seu meio social e principalmente em seu mundo interno. Onde estão buscando referências ou apoios para atravessarem essa etapa da jornada? Enfim, esse texto é um convite à reflexão de: “Quem sou eu além da minha história de vida e dos papéis que interpretei?”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>60.212.062 pessoas 50+ no Brasil</strong>, esse é o número informado pelo <a href="https://contador.longevidade.com.br">Contador de Longevidade</a>, atualizado em 21/04/2025, às 15h44, momento em que começo a escrever essas linhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para o cálculo desse número, o Contador de Longevidade utiliza-se de dados do IBGE e uma interface que permite a contabilização em tempo real.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-se-a-tecnologia-e-capaz-de-mensurar-de-forma-tao-apurada-a-realidade-do-crescimento-da-populacao-que-se-encaminha-para-o-entardecer-da-vida-qual-e-o-cenario-legitimo-dessa-populacao" style="font-size:19px">Mas se a tecnologia é capaz de mensurar de forma tão apurada a realidade do crescimento da população que se encaminha para o entardecer da vida, qual é o cenário legítimo dessa população?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Como ela está enfrentando as mudanças que advém nessa fase? As alterações físicas, as transformações hormonais, a falência das crenças e valores?</strong> A constatação de que se tem mais tempo vivido do que para se viver, além de sentimentos que começam a visitá-la de forma perturbadora, como por exemplo a solidão e o medo da morte?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Jung</strong>, em seu livro <em><strong>Natureza da Psique</strong></em>, nos diz que os indivíduos entram totalmente despreparados na segunda metade de suas vidas, pois inexiste uma preparação para essa nova etapa, como por exemplo, as universidades que incluem e orientam os jovens para o início da fase adulta, ou pelo menos deveriam!</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>Entramos totalmente despreparados na segunda metade da vida, e, pior do que isto, damos este passo, sob a falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideais continuarão como dantes</strong>. Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer.  </p><cite>(JUNG, 2013, p. 355)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deparamos-aqui-com-mudancas-que-nao-sao-somente-fisicas-mas-de-principios-e-valores" style="font-size:19px">Deparamos aqui com mudanças que não são somente físicas, mas de princípios e valores. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Enquanto somos jovens e começamos a escalar a montanha de nossas vidas, nos orientamos por ideais e crenças que no entardecer da vida, muitas vezes, se tornam totalmente inadequados ou obsoletos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Aquilo que nos guiou durante o início de nossa jornada não fornece mais satisfação e plenitude, é como se estivéssemos com um mapa e descobríssemos, quase no final do trajeto, que o destino estava errado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>James Hollis</strong>, em seu livro <em><strong>Passagem do Meio</strong></em>, diz que esse momento ocorre quando a pessoa se vê obrigada a encarar a sua vida como algo além do que sucessão de anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Nessa fase o indivíduo tem a oportunidade de reexaminar a sua vida e se questionar: “<strong>Quem sou eu além da minha história de vida e dos papéis que interpretei?</strong>”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Como durante toda vida fomos condicionados a assumir e representar papéis, como o de filhos, companheiros, arrimos de família, mãe, pai, amigos, profissional etc., nós projetamos e cristalizamos nossa identidade exclusivamente neles e muitas vezes, ficamos identificados com essa persona e paralisamos nosso processo de experimentação e crescimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para <strong>Hollis</strong> (1995, p. 30), “podemos dizer que a pessoa se encontra na passagem do meio quando o pensamento mágico da infância e o pensamento heroico da adolescência não mais coincidem com a vida que ela vivenciou”. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-momento-da-vida-a-pessoa-necessita-enfrentar-questoes-ate-entao-evitadas-e-assumir-responsabilidades" style="font-size:19px">Nesse momento da vida a pessoa necessita enfrentar questões até então evitadas e assumir responsabilidades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa fase é um verdadeiro chamado para a mudança e para a transformação, ela convoca o indivíduo a uma interiorização, o foco que durante a primeira metade da vida estava direcionado para fora de si, vai gradativamente invertendo-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É muito comum o indivíduo dizer que perdeu o interesse por atividades, lugares, ou pessoas, que antigamente lhe eram atraentes e que um vazio existencial ou uma angústia pela busca de um propósito em sua vida começa a ser uma questão constante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-primavera-da-vida-o-individuo-projeta-e-busca-fora-de-si-o-sentido-de-sua-vida-por-esta-razao-e-habitual-que-suas-escolhas-estejam-desconectadas-de-sua-vocacao" style="font-size:19px">Na primavera da vida, o indivíduo projeta e busca fora de si o sentido de sua vida, por esta razão, é habitual que suas escolhas estejam desconectadas de sua vocação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Sua graduação e sua carreira profissional, normalmente, são baseadas naquilo que é rentável, na sucessão familiar ou em <em>status</em>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O trabalho é aquilo a que nos dedicamos para ganhar dinheiro e satisfazer nossas necessidades econômicas. A vocação (do latim <em>vocatus</em>) é o que somos chamados a fazer com a energia da nossa vida. Sentir que somos produtivos é uma parte fundamental da nossa individuação, e deixar de responder à nossa vocação pode causar dano à alma. </p><cite>(HOLLIS, 1995, p. 101)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-individuo-nesta-fase-da-vida-direciona-sua-energia-na-conquista-de-dinheiro-poder-e-de-status-e-muitas-vezes-paga-um-preco-muito-alto-por-esse-objetivo" style="font-size:19px">O indivíduo nesta fase da vida direciona sua energia na conquista de dinheiro, poder e de <em>status</em> e muitas vezes paga um preço muito alto por esse objetivo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na sociedade atual, um exemplo clássico são os <em>workaholics, </em>que dedicam horas excessivas ao trabalho em busca de alto desempenho. Como forma de regular esse comportamento obsessivo, a psique leva o corpo à uma psicossomatização. Conduzindo o indivíduo a um quadro de exaustão física, emocional e mental &#8211; intitulado de Síndrome de <em>Burnout </em>ou Esgotamento Profissional<em>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa desconexão com a vocação individual, ou as escolhas feitas priorizando os interesses materiais em detrimento dos interesses da alma, levam o indivíduo, no entardecer da vida, a constatar que algo está errado em sua trajetória.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Alguns se sentem perdidos, outros percebem que seu casamento está falido, alguns que sua vida profissional está desalinhada à sua vocação, ou que aquilo que disseram ser a receita para o sucesso e a felicidade não funcionou para eles, mesmo que tenham conquistado tudo aquilo que projetaram. Essa desconexão e desalinho com a realidade subjetiva faz com que esses indivíduos comecem a se deparar com alguns sintomas que podem ser físicos, emocionais ou espirituais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Hollis</strong> diz que os sintomas são como presentes para o indivíduo reajustar a rota da vida. Seria como uma exigência do Si-Mesmo (Self), e que “<strong>O indivíduo é intimado, psicologicamente, a morrer para o velho eu para que o novo possa nascer</strong>.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hollis-metaforiza-o-inicio-dessa-fase-como-sendo-uma-especie-de-pressao-tectonica-e-ondulacoes-sismicas-que-visam-abrir-espaco-para-que-o-si-mesmo-possa-realizar-se" style="font-size:19px">Hollis metaforiza o início dessa fase como sendo uma espécie de pressão tectônica e ondulações sísmicas, que visam abrir espaço para que o Si-mesmo possa realizar-se.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Invariavelmente, muito antes de a pessoa tornar-se consciente de uma crise os indícios e os sintomas já estão presentes: a depressão reprimida, o abuso do álcool, o uso de maconha para intensificar o ato sexual, casos amorosos, constantes mudanças de emprego, e assim por diante – esforços de anular, desprezar ou deixar para trás as pressões interiores. A partir do ponto de vista terapêutico, os sintomas devem ser bem recebidos, pois eles não apenas servem de flechas que apontam para a ferida, como também exibem uma psique saudável e autorreguladora em funcionamento.</p><cite>(HOLLIS, 1995, p.23)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>O Si-mesmo representa a unidade e a totalidade da personalidade</strong>. Devido a totalidade ser composta de conteúdos conscientes e inconscientes ela só pode ser descrita em parte, pois, outra parte continua irreconhecível e indimensionável (<em>cf. Jung,</em> <em>Tipos Psicológicos, §902</em>).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Enquanto permanecermos basicamente identificados com o mundo exterior, objetivo, estaremos separados da nossa realidade subjetiva. É claro que somos sempre seres sociais, mas somos também seres espirituais com um telos ou um misterioso propósito individual. </p><cite>(HOLLIS, 1995, p.135)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Desta maneira, constatamos que o indivíduo, ao chegar ao entardecer da vida, necessita fazer um mergulho em seu mundo interior. Confrontar sua realidade subjetiva e ouvir o chamado de sua alma, para ser capaz de realizar seu <strong>processo de individuação</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2013a-dizia-que-era-um-dever-e-uma-necessidade-para-o-homem-que-envelhece-destinar-atencao-ao-seu-proprio-si-mesmo" style="font-size:19px">Jung (2013a) dizia que era um dever e uma necessidade para o homem que envelhece destinar atenção ao seu próprio si-mesmo.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe os seus raios para iluminar-se a si mesmo. Em vez de fazer o mesmo, muitos indivíduos idosos preferem ser hipocondríacos, avarentos, dogmatistas <em>elad iores temporis acti</em> (louvadores do passado) e até mesmo eternos adolescentes, lastimosos sucedâneos da iluminação do si-mesmo, consequência inevitável da ilusão de que a segunda metade da vida deve ser regida pelos princípios da primeira. </p><cite>(JUNG, 2013a, p. 356)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É muito comum encontrarmos indivíduos presos ao passado, petrificados na vida, sobrevivendo de forma nostálgica, temendo e afastando os conteúdos sombrios sobre a velhice que se aproxima e querendo negar o fluxo da vida.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Os indivíduos de hoje estão à deriva e sem orientação, sem modelos e sem ajuda para atravessar os diversos estágios da vida. Desse modo, o entardecer da vida, que exige a morte antes do renascimento, é frequentemente vivenciada de forma assustadora e separadora, pois quase não existem mais ritos de passagem e quase nenhuma ajuda dos companheiros que estão igualmente à deriva. </p><cite>(HOLLIS, 1995, p.32)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-realizar-essa-travessia-o-que-nos-auxiliara-nessa-transicao-onde-buscar-orientacao-ou-um-modelo-a-seguir" style="font-size:19px">Como realizar essa travessia? O que nos auxiliará nessa transição? Onde buscar orientação ou um modelo a seguir?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">No entardecer da vida, entra em cena um quesito fundamental que nos auxiliará a minimizar o medo do desconhecido e realizar essa travessia de forma transformadora. Esse quesito é a <strong>Espiritualidade</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A espiritualidade na meia-idade é um novo despertar &#8211; na metade de nossas vidas &#8211; para o Espírito que há dentro de nós, e para o Espírito que nos cerca, no qual vivemos, nos movemos e temos nossa existência. No final da juventude, ou despertamos para &#8220;o mais querido e profundo frescor das coisas&#8221;, o mistério da vida e da morte, a consciência de uma nova vida, frequentemente surgida de nossas maiores dores e sofrimentos, ou nos tornamos velhos cansados, cínicos e, consequentemente, &#8220;apagados&#8221;. A espiritualidade se torna, na meia-idade, a razão e o modo como vivemos nossas vidas. (BRENNAM, 2004, p.10)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-diz-que" style="font-size:19px">Jung diz que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Nossas religiões têm sido sempre, ou já foram, estas escolas; mas para quanto de nós elas o são ainda hoje? Quantos dos nossos mais velhos se prepararam realmente nessas escolas para o mistério da segunda metade da vida, para a velhice, para a morte e a eternidade?” </p><cite>(Jung, 2013a)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-base-nesses-questionamentos-de-jung-eu-finalizo-esse-texto-convidando-os-as-seguintes-reflexoes" style="font-size:19px">Com base nesses questionamentos de Jung, eu finalizo esse texto convidando-os às seguintes reflexões:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quantas dessas 60.286.428 pessoas 50+ no Brasil &#8211; número atualizado em 08/05/2025, às 20h54, horário que finalizo meu artigo &#8211; estão se preparando para vivenciar essa etapa da vida de forma saudável, transformadora e de maneira a seguir o fluxo para o anoitecer da vida e rumo ao grande mistério que é a morte?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quantos estão se libertando das crenças limitadoras e projeções idealizadas na primeira fase da vida, que tanto petrificam ou acorrentam essa caminhada?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quantos estão buscando a espiritualidade para se lançarem nesse processo de autoconhecimento, autoiluminação e integração do eu com o Si-mesmo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Apesar da vida ser essa pausa luminosa entre esses dois grandes mistérios, nós não podemos nos dar ao luxo de pausar nosso processo de individuação, pois poderemos decretar nosso óbito em vida, com medo do que acontecerá após a cortina se fechar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><em>Apesar da vida, muitas vezes, parecer assustadora, desejo que você faça dela uma jornada transformadora.</em></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Longevidade: Uma jornada transformadora ou assustadora?" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/7y4a2i9bZuE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211; Membro Analista em formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone D. Magaldi &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2"><a href="https://contador.longevidade.com.br">https://contador.longevidade.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2">BRENNAN, Anne; BREWI, Janice. <em>Arquétipos Junguianos</em> A Espiritualidade na meia idade. São Paulo: Madras, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2">HOLLIS, James. A Passagem do Meio. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2">JUNG, C.G. &nbsp;A Natureza da Psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2">_________&nbsp; &nbsp;Tipos Psicológicos. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Congressos Junguianos – Online e Gravados:&nbsp;</em></strong><em><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos</a></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>X Congresso Junguiano IJEP&nbsp;(9, 10, 11 Junho/2025)</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Online e Gravado – 30h Certificação</strong></em></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img decoding="async" width="1024" height="532" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png" alt="" class="wp-image-10410" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>30 palestras com os Professores e Analistas Junguianos do IJEP: Saiba mais e se inscreva:</em><strong>&nbsp;</strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Acompanhe nosso Canal no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung">https://www.youtube.com/@IJEPJung</a></em></strong></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br/"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10445" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em><a href="https://www.ijep.com.br/">Pós-graduações – Matrículas abertas</a>:</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Arteterapia e Expressões Criativas – Presencial São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Psicologia Junguiana – Online ou Presencial São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Psicossomática – Online ou Presencial São Paulo</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>* Dois anos de duração; Certificado pelo MEC; Aulas mensais aos sábados</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas">Curso de introdução à Teoria de C.G. Jung – Online – Matrículas abertas</a></em></strong>&nbsp;<strong><em>(32h/a)</em></strong></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10446" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/longevidade-uma-jornada-transformadora-ou-assustadora/">Longevidade: Uma jornada transformadora ou assustadora?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Metanoia e relacionamento amoroso: caminhos para si mesmo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/metanoia-e-relacionamentos-amorosos-caminhos-para-si-mesmo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marta Beatriz Conceição Guedes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 May 2025 14:15:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10422</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: A metanoia, na visão da psicologia analítica, refere-se à transformação psíquica na segunda metade da vida, direcionando a energia do mundo externo para o mundo interno, impulsionada pela consciência da finitude. Relacionamentos amorosos, quando deixam de ser baseados em projeções e transferências, tornam-se caminhos para a individuação, pois superam as idealizações românticas, e passam [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/metanoia-e-relacionamentos-amorosos-caminhos-para-si-mesmo/">Metanoia e relacionamento amoroso: caminhos para si mesmo</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Resumo</strong>: A <strong>metanoia</strong>, na visão da psicologia analítica, refere-se à transformação psíquica na segunda metade da vida, direcionando a energia do mundo externo para o mundo interno, impulsionada pela consciência da finitude. Relacionamentos amorosos, quando deixam de ser baseados em projeções e transferências, tornam-se caminhos para a individuação, pois superam as idealizações românticas, e passam a investir em autoconhecimento, abandonando pautas infantis e aceitando a si e o outro em sua singularidade. Relações autênticas emergem quando ambos os parceiros assumem responsabilidade por seu desenvolvimento, elevando a relação para  o nível da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na metade da vida o título do best-seller de <strong>Marshal Berman</strong> se materializa em cada indivíduo: <strong>tudo que é sólido desmancha no ar</strong>. Nossas certezas, padrões físicos e psíquicos, gostos e desgostos sofrem abalos sísmicos que nos fazem questionar quem nós realmente somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A esse momento crísico Jung deu o nome de <strong>metanoia</strong>, processo que acontece na segunda metade da vida e que tem como característica a mudança na direção da energia psíquica, que na primeira metade da vida está voltada para o mundo externo e agora passa a apontar para o mundo interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A palavra <em>metanoien</em>, que significa &#8220;mudar de mente&#8221; ou &#8220;mudar a maneira de pensar”, que na segunda metade da vida é uma forma do ser humano ser resgatado da inconsciência, para tornar-se consciente de si. Neste período, com a mudança da direção do foco do ego, este passa a ter um diálogo mais intenso com o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-podemos-questionar-o-que-motivaria-essa-modificacao-na-segunda-metade-da-vida" style="font-size:19px">Podemos questionar o que motivaria essa modificação na segunda metade da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Jung</strong> propõe que tal mudança se daria em virtude da consciência da morte, que se torna uma realidade mais próxima, e que necessariamente deve ser aceita.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ademais, para além da crescente consciência da morte física, se considerarmos apenas o processo em si, é possível observar que a metanoia proporciona algumas mortes simbólicas, seja do ideal de eu, seja no ideal de vida. Jung indica que este processo de morte simbólica tem como intuito proporcionar a individuação do sujeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Dentre um dos aspectos da vida humana que sofre grande influência da metanoia, podemos citar o casamento, que é visto contemporaneamente como o sanatório geral, fonte <em>apenas</em> de bem-estar, sofrendo a projeção do ideal da alegria e da felicidade “até que a morte nos separe”. Contudo, o casamento não deveria ser visto apenas como fonte de prazer, possuindo também um caráter religioso, de salvação (Hollis, 2011), posto que pode ser entendido como um dos caminhos para realização do processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A vida, em sua essência, é um processo contínuo de transformação, que teria como objetivo para o ser humano tornar-se mais próximo da pessoa inteira que se pretende ser (Hollis, 2011). Contudo, apesar de desejar saber quem de fato somos, há uma grande chance de evitarmos o derradeiro encontro conosco, pois estamos sempre projetando essas forças psíquicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-de-jung" style="font-size:19px">Nas palavras de Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Se o confronto com a sombra é obra do aprendiz, o confronto com a anima é a obra-prima. A relação com a anima é outro teste de coragem, uma prova de fogo para as forças espirituais do homem. Jamais devemos esquecer que, em se tratando da anima, estamos lidando com realidades psíquicas, as quais até então nunca foram apropriadas pelo homem, uma vez que se mantinham fora do âmbito psíquico, sob a forma de projeções. (OC 9/1, §61)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Isso porque, tal encontro requer que nos dispamos dos nossos falsos ‘eus’. Para tornamo-nos quem somos, uma série de mortes simbólicas precisam ocorrer, já que não dá para passar de uma fase a outra carregando ativos todos os aspectos da fase anterior. Essas mortes não são apenas de algumas capacidades físicas, mas também psicológicas, e representam o desprendimento de aspectos da nossa personalidade que já não servem. A cada dia, somos convidados a enfrentar essas pequenas mortes, que nos permitem renascer em versões mais autênticas e integradas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A característica comum deste momento da vida é a desconstrução do falso self, que se formaria, principalmente dos valores e estratégias pregadas pelo coletivo. Cada pessoa é, então, convidada a desenvolver uma nova identidade, novos valores, novas atitudes em relação ao self, e ao mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo <strong>Holllis</strong> (2011), todos os relacionamentos amorosos usam dois estratagemas psicodinâmicos, a <em>projeção</em> e a <em>transferência</em>. Para ele, todos os relacionamentos começariam com a <em>projeção</em>, o que significa que conteúdos imagéticos pessoais são lançados para o outro na relação. Assim, o problema da projeção é que a relação não se dá com o outro, mas com as próprias imagens internalizadas, comprometendo o caráter único que a experiência da relação permite, distorcendo a realidade a serviço das imagens do passado. Haveria “o murmúrio dos nossos fantasmas (&#8230;) como um psicodrama que enfeitiça a consciência” (Hollis, 2011).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Já na <strong>transferência</strong>, transferiríamos padrões históricos e seus previsíveis resultados para as novas relações, principalmente as relações parentais estabelecidas na infância.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-como-e-possivel-manter-relacionamentos-amorosos-duradouros-carregando-toda-essa-bagagem-ainda-mais-que-tais-relacionamentos-evocam-complexos-poderosos-que-aparecem-muitas-vezes-de-forma-obsessiva" style="font-size:19px">Nesse sentido, como é possível manter relacionamentos amorosos duradouros carregando toda essa bagagem? Ainda mais que tais relacionamentos evocam complexos poderosos, que aparecem muitas vezes de forma obsessiva?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Há que se ressaltar que na alma da cultura contemporânea, de todas as ideologias que a compõe, talvez a mais poderosa, mais atraente e possivelmente a mais ilusória é a fantasia do amor romântico, que prega que existe alguém lá fora que é certo para nós, uma alma gêmea, uma pessoa que nos compreenderá complemente, que cuidará de nós, que lerá nossas necessidades sem mesmo que precisemos verbalizar, que curará todas as nossas feridas (vejamos aí o grande o sucesso que os doramas tem no país).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-outro-magico-hollis-2011-nos-libertaria-da-carga-de-nos-desenvolver-de-crescer-de-atender-sozinhos-as-nossas-necessidades" style="font-size:19px">Esse “<strong>outro mágico</strong>” (Hollis, 2011) nos libertaria da carga de nos desenvolver, de crescer, de atender sozinhos as nossas necessidades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Contudo, a conta entre fantasia e realidade não fecha. Tanto que no Brasil foi constatado o aumento do número de divórcios em 2022, chegando à marca de 420 mil. A pesquisa do IBGE ainda demonstra que quase metade dos casamentos que terminam em divórcio duram menos de 10 anos; que cerca de 47,7% dos casais se divorciam com menos de 10 anos de união; 25,9% permanecem juntos entre 10 e 19 anos até o divórcio, e 26,4% se separam com mais de 20 anos de casamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Observando os dados, principalmente que metade dos casamentos terminam com menos de 10 anos, podemos imaginar que as duas principais causas psicológicas que levam à separação nos relacionamentos são impor expectativas exageradas sobre o outro e transferir bagagem velha para o presente. Fato é que aquilo que não sabemos sobre nós quase sempre prova ser uma terrível carga sobre os outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Se o relacionamento não se dá no nível da alma, ou seja, com um sentido maior, ele não se sustenta. Relacionamentos pautados exclusivamente na projeção ou na transferência tendem a terminar sem atingir o seu maior intuito, que é ser um caminho de individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-forma-atrativa-da-projecao-e-enorme-quem-nao-seria-atraido-por-uma-parte-faltante-de-sua-vida-psicologica-quem-nao-gostaria-de-se-encontrar-sem-ter-que-passar-pela-dor-de-se-desenvolver" style="font-size:19px">A forma atrativa da projeção é enorme. Quem não seria atraído por uma parte faltante de sua vida psicológica? Quem não gostaria de se encontrar sem ter que passar pela dor de se desenvolver?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Fato é que quanto mais fraca a consciência de uma pessoa, mais provável é que ela se fixe na projeção, mesmo que a realidade tenha se afastado disso há muito tempo, e mais ela permanecerá cativa dos seus complexos, ou seja, do poder da história, da pauta de intenções, do anseio e da roda da repetição. Contudo, tal mecanismo relacional não possibilita contato com outro, apenas consigo mesmo, mas sem saber disto. Já a queda da projeção possibilita ganho de consciência, o que não é fácil, pois, afinal, &#8220;<strong>não se chega à claridade pela representação da luz, mas tornando consciente aquilo que é obscuro</strong>.” (Jung, 2011, p. §335)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Estar apaixonado é de certa forma fácil e agradável.</strong> É um estar entorpecido temporariamente, é um desejo de fusão com o outro, especialmente para aqueles que não costumam olhar para si e que não assumem a responsabilidade por atender as próprias necessidades. Como a projeção é mais de nós mesmos, nós “despersonalizam o outro a quem dizemos amar. Ele se torna um objeto, um artefato de nossa psique, e a partir daí não estamos mais num relacionamento ético com ele.” (Hollis, 2011)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Estar apaixonado expressa, em certa medida, um desejo de obliteração de si a partir da dissolução <em>no</em> e <em>com </em>o outro. Tal fato psíquico nos leva a um processo regressivo, infantilizado e dependente, o que nos afasta do processo de individuação, de se tornar cada vez mais consciente de si.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hollis-enumera-tres-implicacoes-para-a-questao-do-apaixonamento" style="font-size:19px">Hollis enumera três implicações para a questão do apaixonamento:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px;line-height:1.4">O que não conhecemos sobre nós tende a ser projetado na nossa vítima;</li>



<li style="font-size:19px;line-height:1.4">Tendemos a projetar no outro as nossas pautas infantis, acabando por não investir no próprio crescimento;</li>



<li style="font-size:19px;line-height:1.4">Como o outro não pode assumir a responsabilidade pelo nosso crescimento, as projeções inevitavelmente caem, e o que inicialmente parecia amor passa a ser uma luta pelo poder.</li>
</ol>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-para-melhor-amar-e-relacionar-se-o-que-podemos-fazer-para-o-outro-e-por-nos-e-assumirmos-a-responsabilidade-pelo-nosso-desenvolvimento-e-a-partir-dai-e-que-podemos-investir-na-relacao-como-um-caminho-para-individuacao" style="font-size:19px">Assim, para melhor amar e relacionar-se, o que podemos fazer para o outro e por nós é assumirmos a responsabilidade pelo nosso desenvolvimento. E a partir daí é que podemos investir na relação como um caminho para individuação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Contudo, tal intento é dificílimo, pois é necessário que cada um dos indivíduos envolvidos analise corajosamente a sua própria psicodinâmica, que muitas vezes possui raízes no sistema familiar. Além disso, ter hombridade de responsabilizar-se por sua própria jornada, abandonando suas pautas infantis, assumindo-se, com tudo que o compõe, sem sobrecarregar o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-projecao-e-a-transferencia-mecanismos-psiquicos-inconscientes-apesar-de-inicialmente-confortaveis-sao-nefastas-a-longo-prazo" style="font-size:19px">A <strong>projeção</strong> e a <strong>transferência</strong>, mecanismos psíquicos inconscientes, apesar de inicialmente confortáveis são nefastas a longo prazo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quando frustradas, são vistas pelo ego como uma derrota. Mas nos trazem elementos preciosos de um aspecto nosso que quer voltar para nós. Este é o momento de aproveitarmos a oportunidade de crescer, ampliando um pouco mais a consciência de si.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Tal atitude constrói um relacionamento genuíno, vivo, íntimo, trazendo a verdade inescapável de que qualquer relacionamento “não pode alcançar um nível mais alto de desenvolvimento que o nível de maturidade que ambos os parceiros trazem para a relação” (Hollis, 2011).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao assumirmos a nossa diversidade nas relações, a diferença entre os pares, nos confrontamos com o mistério da união e com o mistério que é o outro, o que amplia o desenvolvimento psicodinâmico, aproximando-nos da totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Afinal, num relacionamento entre indivíduos, não projetivo, caminhamos para a individuação, já que “<strong>o ser humano que não se liga a outro não tem totalidade, pois esta só é alcançada pela alma, e esta, por sua vez, não pode existir sem o seu outro lado que sempre se encontra no </strong>&#8216;<strong>tu</strong>&#8216;” (Jung, 2012).</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Metanoia e relacionamento amoroso: caminhos para si mesmo" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/KApy4n0O8aU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/marta-guedes/">Marta Guedes &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:20px">Referências:</h1>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">Guggenbühl-Craig, A. (1980). <em>O casamento está morto &#8211; Viva o casamento!</em> São Paulo, SP: Símbolo S.A. Indústrias Gráficas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">Hollis, J. (2011). <em>Encontranso significado na segunda metade da vida.</em> Osasco, SP: Novo Século Editora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">Jung, C. G. (2011). <em>Estudos alquímicos.</em> Petrópolis, RJ: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">Jung, C. G. (2012). <em>Ab-reação, anpalise dos sonhos e transferência.</em> Petrópolis, RJ: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.4">Martins, A. (27 de março de 2024). Número de divórcios no Brasil bate recorde e chega a 420 mil, mostra IBGE. (R. Exame, Ed.) Brasil. Fonte: https://exame.com/brasil/numero-de-divorcios-no-brasil-bate-recorde-e-chega-a-420-mil/</p>



<p class="has-luminous-vivid-orange-color has-text-color has-link-color wp-elements-2cd919af258a995d5f1b3583d1d05283 wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em><strong>X Congresso Junguiano IJEP&nbsp;(9, 10, 11 Junho/2025)</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Online e Gravado – 30h Certificação</strong></em></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img decoding="async" width="1024" height="532" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png" alt="" class="wp-image-10410" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><em>30 palestras com os Professores e Analistas Junguianos do IJEP: Saiba mais e se inscreva:</em><strong>&nbsp;</strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep</a></p>



<p class="has-vivid-green-cyan-color has-text-color has-link-color wp-elements-00c3050f75640d060cbd93a9a6ad93e3 wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><em>Acompanhe nosso Canal no YouTube:&nbsp;https://www.youtube.com/@IJEPJung</em></strong></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/metanoia-e-relacionamentos-amorosos-caminhos-para-si-mesmo/">Metanoia e relacionamento amoroso: caminhos para si mesmo</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
