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	<title>Arquivos Mulher - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Tue, 09 Jun 2026 18:22:15 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Mulher - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Caso ela diga não: as bases psicológicas da agressividade masculina</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/caso-ela-diga-nao-as-bases-psicologicas-da-agressividade-masculina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 20:28:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[caso ela diga não]]></category>
		<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[james hollis]]></category>
		<category><![CDATA[masculino]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[sob a sombra de saturno]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[violência nos relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma análise sobre a agressividade masculina a partir de uma tendência digital violenta, interpretando-a como o sintoma de uma sombra coletiva enraizada na repressão emocional. Argumenta-se que a sociedade restringe o repertório sentimental dos homens, legitimando apenas a raiva como expressão aceitável, o que mascara um profundo medo da vulnerabilidade e uma dependência de símbolos de controle.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/caso-ela-diga-nao-as-bases-psicologicas-da-agressividade-masculina/">Caso ela diga não: as bases psicológicas da agressividade masculina</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Uma análise sobre a agressividade masculina a partir de uma tendência digital violenta, interpretando-a como o sintoma de uma sombra coletiva enraizada na repressão emocional. Argumenta-se que a sociedade restringe o repertório sentimental dos homens, legitimando apenas a raiva como expressão aceitável, o que mascara um profundo medo da vulnerabilidade e uma dependência de símbolos de controle.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<strong>Caso ela diga não</strong>” foi um conjunto de vídeos de grande alcance, que se popularizou recentemente as redes sociais. Neles um homem simula um pedido de casamento que tem como resposta uma negativa. Em seguida, o suposto noivo esmurra e chuta violentamente um objeto que, na encenação, representa a mulher. Longe de uma simples ‘brincadeira’ de internet, essa trend ilustra uma realidade de violência dirigida a imagem do feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nos 4 ou 5 minutos em que você lerá esse artigo, uma média de 170 mulheres passarão por algum tipo de agressão física</strong>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídios, registrando a marca de 4 mulheres mortas por dia simplesmente por serem mulheres. Dados estes que não representam apenas números isolados, mas o sintoma de uma patologia social profunda.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mês de março, tradicionalmente dedicado à celebração das lutas e conquistas femininas, encerrou-se sob o peso de duras notícias. Eventos como a viralização dessas <em>trends</em> e os casos de violência real, como estupros coletivos, evidenciam a profundidade de nossa sombra coletiva, revelando o quanto ainda precisamos avançar para que o simbolismo do 8 de março não seja ofuscado pela persistente agressividade direcionada a mulher.</p>



<h2 id="h-quando-se-trata-de-violencia-contra-a-mulher-as-acoes-perpetradas-nao-vem-de-longe-vem-em-grande-parte-das-vezes-de-parceiros-e-companheiros-proximos-nbsp" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Quando se trata de violência contra a mulher, as ações perpetradas não vêm de longe. Vêm, em grande parte das vezes, de parceiros e companheiros próximos.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Então surgem questionamentos comuns do porquê da continuidade do vínculo abusivo por parte da mulher ou como esta mulher pode escolher tal parceiro, recaindo o julgamento sobre aquela que vivencia a agressão. Ou ocorre um reducionismo em rotular o agressor como um &#8216;monstro&#8217; e um &#8216;louco&#8217;. Entretanto quais seriam os movimentos psíquicos inconscientes por detrás desses atos?</p>



<h2 id="h-reconhecemos-a-violencia-atestamos-os-numeros-mas-o-que-esta-no-interior-de-quem-comete-tais-atitudes-o-que-acontece-no-interior-da-psique-masculina" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Reconhecemos a violência, atestamos os números, mas o que está no interior de quem comete tais atitudes? O que acontece no interior da psique masculina?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, no lugar de nos restringirmos a uma visão simplista, este breve estudo caminhará para a análise das dinâmicas do mundo interno, assim como observará os movimentos psíquicos inconscientes, que sustentam essa realidade, deslocando a atenção para o âmago da psique masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">James Hollis escreve em <em><strong>Sob a sombra de Saturno</strong></em> que os homens vivem sob uma pesada sombra saturnina, fazendo referência ao titã grego conhecido como Crono ou o Saturno, na versão romana. Este era o deus da agricultura, que participa da criação, por uma face, e por outra, liga-se a histórias sangrentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Filho de Urano e Géia, Crono assume o poder castrando o próprio pai. Este dominado pelo temor diante do potencial de sua própria descendência, rejeitava seus filhos e aprisioná-los no ventre da Terra. Diante dessa opressão, Géia forjou uma foice e instigou Crono a confrontar a autoridade paterna. O golpe desferido por Crono, que resultou na castração de Urano, deu origem a dois fenômenos: do sangue fecundado na terra nasceram os gigantes, enquanto da espuma do esperma lançado ao mar emergiu Afrodite. Entretanto, ao substituir o pai, Crono-Saturno replicou a mesma trajetória tirânica. Ele passa a devorar seus filhos com Réia, dos quais apenas um, Zeus, consegue escapar com ajuda da astúcia materna. A inevitável revolta de Zeus culminou em uma guerra de dez anos que, embora tenha instaurado forças civilizadoras, não rompeu o ciclo: o novo soberano também sucumbiu ao complexo de poder, tornando-se, por sua vez, um dominador.</p>



<h2 id="h-aqui-a-mitologia-e-tomada-como-simbolo-de-movimentos-psiquicos-nbsp-olhando-para-a-parte-inconsciente-e-arquetipica-muitos-homens-ate-hoje-sao-nbsp-governados-por-esse-exato-padrao-de-medo-e-um-legado-psicologico-saturnino" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Aqui a mitologia é tomada como símbolo de movimentos psíquicos.&nbsp;Olhando para a parte inconsciente e arquetípica, muitos homens até hoje são&nbsp;governados por esse exato padrão de medo. É um legado psicológico saturnino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A ponte entre mitologia e atualidade está na percepção de ameaça ao controle. O legado de Crono-Saturno impõe culturalmente ao homem provar o seu valor constantemente por meio da dominação.&nbsp;Entretanto essa necessidade de controle funciona muito mais como uma armadura diante de uma vida governada pelo medo. Por baixo dessa defesa, escondido no inconsciente, existe um terror paralisante do fracasso, de parecer fraco ou impotente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então a agressividade física ou verbal não é uma demonstração de força real, e sim mecanismo de defesa desesperado guiado pelo medo de perder o ‘trono’, dentro de uma ilusão de poder sobre as outras pessoas. E no caso observado no presente artigo, sobre as mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um medo profundo, e, grande parte das vezes, ignorado pela consciência. Além das expectativas sociais restritivas, em que é exigido aos homens a competição, a não demonstração de fraqueza, e, destacadamente, a necessidade de nunca perder o poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O senso de valor do homem contemporâneo raramente deriva de sua essência ou do simples fato de existir. Pelo contrário, seu valor é condicionado à produção, ao <em>status</em> e ao controle exercido sobre o ambiente e sobre o outro. Então quando uma falha profissional ocorre ou há a perda de domínio em um relacionamento, isso não é sentido apenas como contratempos cotidianos, mas como ameaças existenciais. O medo atinge, por assim dizer, uma esfera de temor da aniquilação do ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os homens não são chamados a cultivar o princípio <em>Eros</em>, que está relacionado ao amor, aos vínculos, à conexão íntima. São empurrados para esse campo do trabalho, da prontidão, para uma postura combativa e de preocupação constante. Resta-se, assim, a retirada do afeto. Na ausência de <em>Eros</em>, o que sobra é a busca desmedida pelo poder. O temor existencial consome o masculino destituído de ritos e símbolos.</p>



<h2 id="h-neste-ponto-emerge-algo-paradoxal-se-a-figura-masculina-detem-historicamente-hegemonia-e-destaque-nos-campos-social-politico-e-financeiro-por-que-a-psique-do-homem-evidencia-tal-fragilidade-na-pratica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Neste ponto, emerge algo paradoxal: se a figura masculina detém historicamente hegemonia e destaque nos campos social, político e financeiro, por que a psique do homem evidencia tal fragilidade na prática?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa contradição sugere uma profunda discrepância entre a persona de autoridade e a frágil condição do mundo interno. É como se, metaforicamente, observássemos uma árvore de copa frondosa sustentada por raízes superficiais. Existe a projeção na esfera externa de uma imagem de expansão e domínio. Muito embora, na parte interna, não exista um aprofundamento no solo da própria subjetividade. Quando sopra o vento de uma crise pessoal ou uma rejeição é experimentada, a árvore é arrancada por inteiro ou seu tronco é partido pela rigidez egóica. Não há o enraizamento necessário para sustentar a estrutura e o peso de sua própria existência diante da adversidade.</p>



<h2 id="h-hollis-descreve-que-os-homens-carregam-oito-segredos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Hollis descreve que os homens carregam oito segredos:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li><em>A vida dos homens é tão governada por expectativas restritivas com relação ao papel que devem desempenhar quanto a vida das mulheres.</em></li>



<li><em>A vida dos homens é basicamente governada pelo medo.</em></li>



<li><em>O poder do feminino é imenso na organização psíquica dos homens.</em></li>



<li><em>Os homens conluiam-se numa conspiração de silêncio cujo objetivo é reprimir sua verdade emocional.</em></li>



<li><em>O ferimento é necessário porque os homens precisam abandonar a Mãe e transcender o complexo materno.</em></li>



<li><em>A vida dos homens é violenta porque suas Almas foram violadas.</em></li>



<li><em>Todo homem carrega consigo profundo anseio pelo seu pai e pelos seus Pais tribais.</em></li>



<li><em>Para que os homens fiquem curados, precisam ativar dentro de si o que não receberam do exterior.</em></li>
</ol>



<h2 id="h-no-sexto-deles-e-apontado-a-violacao-da-alma-masculina-mas-violada-como-no-sentido-de-que-a-cultura-exige-aos-homens-cortarem-partes-deles-mesmos-os-ferimentos-do-masculino-manifestam-se-no-que-hollis-denomina-assassinios-da-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No sexto deles, é apontado a violação da alma masculina. Mas violada como? No sentido de que a cultura exige aos homens cortarem partes deles mesmos. Os ferimentos do masculino manifestam-se no que Hollis denomina &#8216;assassínios da alma&#8217;.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como sociedade, perdemos os rituais de passagem. Em outros tempos, existiam espaços para ensinar o homem a lidar com o luto, com a dor e com fracasso, por exemplo. Mas, historicamente, dentro de uma construção patriarcal, o desenvolvimento do masculino é pautado pela repressão sistemática da vulnerabilidade. Ao menino, é negado o direito ao choro e à expressão de dor e de sensibilidade, por exemplo. É muito comum rotular-se uma simples manifestação de afeto como um sinal de debilidade. Essa educação, que reprime a esfera emocional, gera uma desconexão paulatina do indivíduo com sua própria subjetividade.</p>



<h2 id="h-sem-recursos-simbolicos-para-transformar-o-sofrimento-em-sentido-os-ferimentos-tornam-se-destrutivos-ao-inves-de-iniciaticos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Sem recursos simbólicos para transformar o sofrimento em sentido, os ferimentos tornam-se destrutivos, ao invés de iniciáticos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Neste ponto, um dos poucos sentimentos socialmente aceitos para o masculino é a raiva, que aparece como via de escoamento do desconforto experimentado. A alma violada, ao ser silenciada e obrigada a suportar a dor em isolamento, acumula uma raiva, que atinge patamar da ira, transbordando em depressão, somatizações ou, frequentemente, na projeção paranoica de sua sombra sobre alvos convenientes: mulheres, crianças e outros homens (HOLLIS, p. 143).</p>



<h2 id="h-quando-se-deixa-de-nutrir-a-alma-nesta-negligencia-em-relacao-ao-cultivo-da-vida-animica-ocorre-uma-deterioracao-do-contato-com-o-mundo-interno" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Quando se deixa de nutrir a alma, nesta negligência em relação ao cultivo da vida anímica, ocorre uma deterioração do contato com o mundo interno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-se-deixa-de-nutrir-a-alma-nesta-negligencia-em-relacao-ao-cultivo-da-vida-animica-ocorre-uma-deterioracao-do-contato-com-o-mundo-interno-no-caso-dos-homens">No caso dos homens, esse distanciamento frequentemente culmina na projeção de conteúdos internos não elaborados sobre a figura feminina, que passa a carregar o peso das demandas e carências da alma masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica de projeção acaba por despertar um medo arcaico do feminino. Trata-se de uma força ameaçadora da autonomia do ego, que tem suas raízes na primeira infância. Nesse estágio, a figura materna transcende a função de cuidadora. Ela passa a encarnar o próprio arquétipo da vida. É um poder literal sobre a vida e a morte daquela criança. A dependência é vital, pois dela emanam tanto a saciedade quanto a fome, o acolhimento ou o abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, pela perda de ligação com o mundo simbólico e a fragmentação dos rituais de passagens significativos, esse cordão umbilical não é rompido. O indivíduo assim carece de um marco de transição. O menino, por vezes, não atinge o desmame emocional necessário, permanecendo vinculado à imagem de potência geradora e, simultaneamente, temendo ser devorado ou subjugado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ainda persiste esse gênero de ligação com a figura materna, o adulto, mesmo com uma persona muito bem adaptada e de reconhecimento social, permanece, no lado inconsciente, como uma criança buscando a aprovação divina da mãe, que é projetada facilmente na figura da companheira amorosa, por exemplo.</p>



<h2 id="h-ocorre-uma-projecao-da-mae-primordial-gigantesca-da-infancia" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Ocorre uma projeção da mãe primordial gigantesca da infância.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Desde modo, ele não consegue olhar para a mulher real, que é um ser humano falho, vulnerável, com vontades próprias. Inconscientemente, é sentida uma força capaz de validar a existência dele ou de o destruir e o abandonar. Mas isso tem a capacidade de criar uma ambivalência. Por um lado, tem-se uma necessidade infantil de cuidado materno, de ser mimado, de não ser questionado. Por outro lado, há um terror absoluto de ser controlado, de ser engolido ou rejeitado por essa imagem feminina enorme, que o próprio homem projetou inconscientemente na mulher.</p>



<h2 id="h-quando-o-homem-ferido-olha-para-a-mulher-atraves-desta-lente-psiquica-distorcida-e-adoentada-e-dificil-processar-um-nao-como-no-exemplo-da-trend-de-uma-recusa-ficticia-do-pedido-de-casamento" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Quando o homem ferido olha para a mulher através desta lente psíquica distorcida e adoentada, é difícil processar um ‘não’, como no exemplo da <em>trend</em> de uma recusa fictícia do pedido de casamento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O ‘não’ toma outras proporções e conversa com este medo inconsciente. Não se vê o outro que está na frente como ser independente, mas surge o ímpeto de controlar aquilo que ele, inconscientemente, ainda percebe como uma força soberana sobre sua própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ponto, a violência se manifesta como um sintoma central, em que as questões levantadas ao longo do texto se articulam. Tudo converge para este núcleo paralisante da falha. Juntamente com isso, ocorre a ausência de conexão com o mundo interno para saber lidar com a dor da perda e, fundamentalmente, o terror diante do poder feminino, que detém a capacidade de rejeitá-lo. Quando esses conteúdos não encontram espaço para elaboração interna, eles transbordam de forma destrutiva, transformando o quadro psíquico em agressão física.</p>



<h2 id="h-a-violencia-contra-a-mulher-e-o-desfecho-de-uma-serie-de-conflitos-internos-nao-resolvidos" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A violência contra a mulher é o desfecho de uma série de conflitos internos não resolvidos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando esses sentimentos não são trabalhados, eles transbordam de forma destrutiva, transformando angústia em agressão física. Embora essa breve análise se disponha a olhar possíveis raízes psíquicas do problema, jamais justifica o ato, que permanece sendo criminoso. Para interromper esse sintoma coletivo, não basta apenas punir o comportamento. É necessário um trabalho interno, em que os homens enfrentem suas próprias dores em busca de uma base emocional sólida e de uma relação madura com o próprio mundo interno.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lorenaoliveira/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lorenaoliveira/">Lorena de Sousa Oliveira &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências bibliográficas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil. 5. ed. São Paulo: FBSP, 2025. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/items/7c9f57aa-e7d6-4d96-8f11-768fe85a2084. Acesso em: 15 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. O medo do feminino: e outros ensaios sobre a psicologia feminina. São Paulo: Paulus, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A invalidação do feminino &#8211; Uma leitura simbólica através do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-invalidacao-do-feminino-uma-leitura-simbolica-atraves-do-mito-de-persefone-e-da-narrativa-de-ofelia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiza de Oliveira Burger]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2026 13:24:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre a invalidação do feminino a partir do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia. Mais do que analisar personagens míticas ou literárias, o texto busca compreender como determinadas imagens arquetípicas atravessam o tempo e se atualizam na psique contemporânea, revelando dinâmicas internas que ainda influenciam a forma como muitas mulheres se relacionam. À luz da psicologia analítica, a proposta é investigar de que modo o arquétipo da donzela pode tanto aprisionar quanto iniciar processos de transformação.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-que-o-mito-de-persefone-e-a-personagem-ofelia-criada-por-shakespeare-tem-em-comum" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre a invalidação do feminino a partir do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia. Mais do que analisar personagens míticas ou literárias, o texto busca compreender como determinadas imagens arquetípicas atravessam o tempo e se atualizam na psique contemporânea, revelando dinâmicas internas que ainda influenciam a forma como muitas mulheres se relacionam. À luz da psicologia analítica, a proposta é investigar de que modo o arquétipo da donzela pode tanto aprisionar quanto iniciar processos de transformação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-o-mito-de-persefone-e-a-personagem-ofelia-criada-por-shakespeare-tem-em-comum" style="font-size:18px">O que o mito de Perséfone e a personagem Ofélia criada por Shakespeare têm em comum?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-ambas-sao-exemplos-de-invalidacao-do-feminino-em-detrimento-de-um-masculino-abusador-um-masculino-que-acredita-ser-soberano-e-capaz-de-decidir-sobre-o-destino-dessas-mulheres-mais-do-que-elas-proprias" style="font-size:18px">Ambas são exemplos de invalidação do feminino em detrimento de um masculino abusador, um masculino que acredita ser soberano e capaz de decidir sobre o destino dessas mulheres mais do que elas próprias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não temos como precisar como, quando e onde nasceu o mito de Perséfone. Já a história de Ofélia é retratada no final do século XVI. Mas quantas Ofélias e Perséfones encontramos até hoje incapazes de cuidar do próprio destino e tomar suas próprias decisões?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-mito-core-era-a-filha-de-demeter-e-zeus-retratada-como-uma-menina-ingenua-que-vivia-sob-a-influencia-da-mae-mae-e-filha-viviam-como-se-numa-simbiose-prolongada" style="font-size:18px">No mito, <strong>Coré</strong> era a filha de Deméter e Zeus, retratada como uma menina ingênua que vivia sob a influência da mãe. Mãe e filha viviam como se numa simbiose prolongada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Até que um dia, Hades, guardião do submundo, tio de Coré e irmão de Zeus, decide raptar a sobrinha, com anuência do pai, e levá-la para morar com ele, obrigando-a a abandonar sua vida. Ao lado de Hades, Coré vira rainha do submundo e passa a se chamar Perséfone. O mito conta que depois de comer sementes de romã, ela fica presa no reino dos mortos sem poder voltar definitivamente para sua vida de outrora, e passa a se revezar entre o mundo dos vivos e dos mortos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por mais que o mito também possa ser analisado como uma representação simbólica da transformação de Core para Perséfone e sua libertação de um complexo materno negativo, que permitiu que ela descobrisse um outro lado de sua personalidade sem as amarras de uma mãe superprotetora, não podemos desconsiderar que se trata de uma violação da vontade do feminino e de um pacto patriarcal. <strong>Coré</strong> teve seu destino traçado pelo tio e pelo pai.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mito-fala-da-transformacao-de-uma-donzela-ingenua-de-certa-forma-aprisionada-nos-cuidados-da-mae-para-uma-rainha-poderosa-do-submundo-mas-a-pergunta-que-fica-e-core-teria-feito-essa-escolha-se-o-seu-poder-de-decisao-nao-tivesse-sido-violado" style="font-size:18px">O mito fala da transformação de uma donzela ingênua, de certa forma aprisionada nos cuidados da mãe, para uma rainha poderosa do submundo. Mas a pergunta que fica é: <strong>Coré teria feito essa escolha se o seu poder de decisão não tivesse sido violado</strong>?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Ofélia teve um destino parecido, porém mais trágico</strong>. Ela vivia com o pai, Polônio, e o irmão. Uma mulher doce e pura que se apaixona por Hamlet, que também demonstra ter apreço por ela. Quando o pai e o irmão percebem seu interesse por Hamlet a convencem de que ela jamais conseguiria se casar com ele, visto que ele era o príncipe herdeiro da Dinamarca, e ela de uma família simples. Era preciso deixar esse amor de lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, o pai não se incomodou em usar a aproximação dos dois para descobrir o que Hamlet tramava contra o rei (seu tio que ocupou essa posição ao se casar com sua mãe após o assassinato do pai). Polônio combina com o rei de provocar um encontro entre Ofélia e Hamlet para que ela tentasse descobrir quais eram os seus planos. Enquanto isso, eles ficariam escondidos ouvindo a conversa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hamlet percebe a armação, fica com raiva, e trata Ofélia mal, como se entre eles nunca tivesse havido nenhum sentimento. Ele passa a ignorar a moça e, num momento de raiva e desprezo, chega a sugerir que Ofélia vá para o convento e se torne freira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Logo depois, Polônio é assassinado, por engano, por Hamlet, que acreditava estar matando o rei. Por ordem do rei, ele é enviado para a Inglaterra e Ofélia perde ao mesmo tempo o pai, o homem que amava, e o irmão, que havia saído em missão para outra cidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ofelia-nao-sustenta-tanta-desilusao-e-sucumbe-a-loucura-se-transformando-em-uma-figura-fragil-e-desorientada-que-andava-pela-vila-cantarolando-cancoes-e-distribuindo-flores-ate-que-um-dia-em-uma-de-suas-perambulacoes-ela-cai-em-um-riacho-e-morre-afogada" style="font-size:18px">Ofélia não sustenta tanta desilusão e sucumbe à loucura, se transformando em uma figura frágil e desorientada que andava pela vila cantarolando canções e distribuindo flores. Até que um dia, em uma de suas perambulações, ela cai em um riacho e morre afogada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A história deixa o final aberto a intepretações. Não se sabe se Ofélia se suicida ou se foi um acidente. Mas não importa. Seu destino é resultado das decisões de figuras masculinas presentes em sua vida. Ela teve seus sentimentos invalidados, foi manipulada pela família e ridicularizada pelo homem que amava.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ofelia-e-persefone-como-dinamica-psiquica" style="font-size:20px"><strong>Ofélia e Perséfone como dinâmica psíquica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Perséfone e Ofélia são imagens arquetípicas que podem representar o arquétipo da donzela</strong>. De um lado, o frescor da juventude, a abertura para o novo e a curiosidade, e de outro, a passividade e a inocência que faz com que sejam facilmente manipuladas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-para-jung-o-conceito-de-arquetipo-indica-a-existencia-de-determinadas-formas-na-psique-que-estao-presentes-em-todo-tempo-e-em-todo-lugar-jung-2014-p-51-eles-representam-padroes-universais-de-comportamento-e-podem-influenciar-nossos-pensamentos-emocoes-de-forma-inconsciente" style="font-size:18px">Para Jung, o conceito de arquétipo indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar (JUNG, 2014, P.51). Eles representam padrões universais de comportamento e podem influenciar nossos pensamentos, emoções de forma inconsciente.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os arquétipos são formas de apreensão, e todas as vezes que nos deparamos com formas de apreensão que se repetem de maneira uniforme e regular, temos diante de nós um arquétipo, quer reconheçamos ou não o seu caráter mitológico. (JUNG, 2013, P.81)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sendo assim, Perséfone e Ofélia não são apenas personagens de livros ou de narrativas mitológicas, elas representam uma dinâmica psíquica que se repete e atravessa gerações. Por isso, é tão fácil observar comportamentos e dinâmicas parecidas em mulheres que conhecemos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nos mitos, lendas ou qualquer outro material mitológico mais elaborado obtém-se as estruturas básicas da psique humana através da grande quantidade de material cultural. (VON FRANZ, 2022, P.35)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O arquétipo da donzela não é apenas sinônimo de submissão ou invalidação, mas contém potencialidades para tal. Quando essas disposições se apresentam em determinados contextos sociais, podem assumir a forma de passividade e silenciamento. O que se repete não é o mito literal, mas a atualização simbólica de uma estrutura psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ofelias-e-persefones-em-nos-e-entre-nos" style="font-size:21px"><strong>Ofélias e Perséfones em nós e entre nós</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>É fácil identificarmos entre nós mulheres que vivem a mesma dinâmica narrada nas histórias de Perséfone e Ofélia.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quantas mulheres vemos abrindo mão de suas vidas e de suas histórias para viver a partir das expectativas de seus parceiros? Largam suas carreiras, mudam a forma de se vestir, renunciam às amizades, passam a considerar inapropriado aquilo que antes era motivo de felicidade e começam a questionar sua própria capacidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em algumas culturas, por exemplo, ainda é comum que os pais escolham os maridos para suas filhas através de casamentos arranjados, onde a mulher é vista como uma conveniência tanto para o pai quanto para a família do marido que vai recebê-la. Em outras, a influência negativa do pai pode não ser tão radical quanto um casamento arranjado, mas pode se apresentar, por exemplo, numa escolha profissional não reconhecida e aceita por esse pai.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As taxas absurdas de feminicídio também estão aí para mostrar que os homens continuam não aceitando as escolhas das mulheres, como se suas vidas e histórias pertencessem a eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-mas-aqui-nao-estamos-falando-apenas-de-homens-concretos-mas-tambem-de-uma-dinamica-patriarcal-internalizada-presente-tambem-nas-proprias-mulheres-muitas-vezes-nao-precisamos-de-um-algoz-quando-nos-mesmas-desempenhamos-esse-papel-em-nossas-vidas-um-mergulho-nas-profundezas" style="font-size:18px">Mas aqui não estamos falando apenas de homens concretos, mas também de uma dinâmica patriarcal internalizada, presente também nas próprias mulheres. Muitas vezes não precisamos de um algoz quando nós mesmas desempenhamos esse papel em nossas vidas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-mergulho-nas-profundezas" style="font-size:21px">Um mergulho nas profundezas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mergulho nas profundezas, quando é uma decisão própria, pode marcar a passagem da donzela inconsciente para uma mulher que participa ativamente da sua própria transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se nas narrativas descritas acima a descida ao inconsciente acontece por imposição externa, no plano psíquico ela pode se tornar um movimento voluntário de integração da própria sombra e de ampliação da consciência, permitindo integrar os aspectos da donzela sem permanecer aprisionada a eles.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, a sensibilidade deixa de significar fragilidade e passa a ser intuição e a abertura para as relações e a receptividade deixam de ser dependência e passividade e se transforma em vínculo consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A donzela não precisa ser negada nem superada, mas integrada como dimensão da psique feminina, sustentada por discernimento, limites e autoridade interna. Dessa forma, a descida não é mais vista como invasão, mas iniciação escolhida, encontro consigo mesma. A donzela deixa de ser aquela que somente é levada para se tornar a mulher que caminha com as próprias pernas e escolhe o seu caminho.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="A Invalidação do Feminino" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/cKYroOVnJbM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luiza-de-oliveira-burger/">Luiza de Oliveira Burger – Membro Analista em formação/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf – Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-r-eferencias" style="font-size:18px"><strong>R</strong>eferências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, MARIE – Louise von. A interpretação dos contos de fada. São Paulo: Paulus, 2022</p>



<p class="wp-block-paragraph">LACERDA, Rodrigo. Hamlet ou Amleto? São Paulo: Zahar,2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PACIORNIK, Francis. Despertando suas Deusas. Ebook.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-invalidacao-do-feminino-uma-leitura-simbolica-atraves-do-mito-de-persefone-e-da-narrativa-de-ofelia/">A invalidação do feminino &#8211; Uma leitura simbólica através do mito de Perséfone e da narrativa de Ofélia</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Serpente e a Cura: O trocar de pele no Processo de Individuação Feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-serpente-e-a-cura-o-trocar-de-pele-no-processo-de-individuacao-feminina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Itala Resende Carvalhal]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 15 Apr 2026 10:14:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[animus]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[cobra]]></category>
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		<category><![CDATA[processo de individuação feminino]]></category>
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		<category><![CDATA[Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo analisa o símbolo da serpente, à luz da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, como representação do processo de individuação feminina. A serpente, com sua capacidade de trocar de pele, simboliza a necessidade de abandonar padrões antigos, integrar a sombra e reconectar-se com a dimensão instintiva. A verdadeira cura do feminino ocorre por meio da transformação psíquica, da coragem de romper com papéis impostos e da busca por autenticidade.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-serpente-e-a-cura-o-trocar-de-pele-no-processo-de-individuacao-feminina/">A Serpente e a Cura: O trocar de pele no Processo de Individuação Feminino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>O artigo analisa o símbolo da serpente, à luz da psicologia analítica de&nbsp;Carl Gustav Jung, como representação do processo de individuação feminino. A serpente, com sua capacidade de trocar de pele, simboliza a necessidade de abandonar padrões antigos, integrar a sombra e reconectar-se com a dimensão instintiva. A verdadeira cura do feminino ocorre por meio da transformação psíquica, da coragem de romper com papéis impostos e da busca por autenticidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O Processo de Individuação, &#8220;torna-se si mesmo&#8221; conforme trazido por Jung, é a atividade de realização da personalidade, pois o sentido para onde caminha a nossa existência é ser total e integral</strong>. Entretanto, ao contrário do que possa parecer, não se trata de um ideal de perfeição moral, pois faz parte desse processo despir-se da imagem ideal de nós mesmos que criamos para nos adequar às expectativas externas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" id="h-individuacao-significa-tornar-se-um-ser-unico-e-na-medida-em-que-entendemos-por-individualidade-nossa-singularidade-mais-intima-tambem-tornar-se-o-proprio-si-mesmo-jung-2021-pg-63" style="font-size:18px"><em>“Individuação significa tornar-se um ser único e, na medida em que entendemos por individualidade nossa singularidade mais íntima, também tornar-se o próprio si-mesmo.” </em>(JUNG, 2021, pg. 63).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-assim-nesse-artigo-pretendo-analisar-como-na-experiencia-feminina-esse-processo-frequentemente-implica-no-confronto-com-uma-persona-construida-a-partir-de-exigencias-de-adaptacao-relacional-impostas-pelo-patriarcado" style="font-size:18px">Assim, nesse artigo pretendo analisar como na experiência feminina esse processo frequentemente implica no confronto com uma Persona construída a partir de exigências de adaptação relacional impostas pelo patriarcado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Historicamente, sabemos que o feminino foi associado à função de cuidado, fragilidade e submissão, o que fez com que muitas mulheres se identificassem com uma identidade centrada na resposta, expectativas e demandas dos outros, em detrimento da sua própria interioridade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-tanto-usaremos-um-dos-simbolos-mais-antigos-da-humanidade-a-serpente" style="font-size:18px">Para tanto, usaremos um dos símbolos mais antigos da humanidade, a <strong>serpente.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Presente em mitologias, rituais de iniciação e religiosos e frequentemente associada a conhecimentos ocultos e intuitivos, a serpente representa a dualidade, sendo ao mesmo tempo veneno e cura, bem e mal, perigo e sabedoria, destruição e renovação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-define-o-simbolo-como-a-melhor-expressao-possivel-para-um-fato-complexo-e-relativamente-desconhecido-que-ainda-nao-foi-claramente-apreendido-pela-consciencia-jung-2014a-148" style="font-size:18px">Jung define o símbolo como a melhor expressão possível para um fato complexo e relativamente desconhecido, que ainda não foi claramente apreendido pela consciência (JUNG, 2014a, §148).</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8220;<em>O símbolo da serpente é comumente ligado à transcendência por ela ser, tradicionalmente, uma criatura do mundo subterrâneo — portanto um &#8220;mediador&#8221; entre dois modos de vida.&#8221; </em>JUNG, 1987. pg.152)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em <em>O Homem e seus Símbolos (pg.154)</em>, Jung ressalta que, representada como símbolo terapêutico de Esculápio, deus grego da medicina, a serpente seja talvez o símbolo onírico mais comum de transcendência. Além de representar uma espécie de mediação entre a terra e o céu. Nos santuários de cura na Grécia Antiga dedicados a <strong>Asclépio</strong>, serpentes não venenosas desempenhavam um papel ritual central. Elas eram colocadas nos dormitórios onde os doentes passavam por rituais de purificação e acreditava-se que curavam os pacientes com toques ou ao lamber suas feridas durante sonhos terapêuticos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No Xamanismo, o significado espiritual da serpente também está relacionado a cura. Sua habilidade de se deslizar e rastejar pelo chão é vista como uma conexão com Gaia, a Mãe Terra e seus poderes de cura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-intrigante-da-serpente-e-o-fato-de-a-cura-de-seu-veneno-estar-no-proprio-veneno-nos-lembrando-que-assim-como-elas-somos-seres-complexos-e-duais-que-carregam-tanto-aspectos-positivos-quanto-negativos-luz-e-sombra" style="font-size:18px">Outro ponto intrigante da serpente é o fato de a cura de seu veneno estar no próprio veneno, nos lembrando que, assim como elas, somos seres complexos e duais que carregam tanto aspectos positivos quanto negativos, luz e sombra.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo da história várias mulheres também foram associadas a esse símbolo. Como a <strong>Medusa</strong>, cujo olhar transformava os homens em pedra e só podia ser contemplada em um espelho. Conta-se que Medusa era uma jovem lindíssima e muito orgulhosa de sua cabeleira que ousou competir em beleza com Atená, que eriçou-lhe a cabeça de serpentes e transformou-a em Górgona (monstro). (BRANDÃO, 1986, pg. 239)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E claro, não podemos esquecer de <strong>Eva</strong>, que no jardim do Éden cedeu às tentações da serpente, desobedecendo Deus e comendo o fruto proibido, fazendo com que Eva e Adão fossem expulsos do paraíso, ocorrendo a perda da inocência e introduzindo na história da humanidade a ideia de pecado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas histórias nos mostram como o símbolo da cobra está ligado a complexidade da natureza feminina, muitas vezes projetada como uma imagem simbólica de demonização, que geram medo da sua força, sensualidade, sabedoria e capacidade de transformação. Quando nos conectamos com esse símbolo, abraçamos nossa própria capacidade de superar desafios, transformar nossas vidas e, principalmente acessamos uma sabedoria profunda que está fortemente ligada à renovação e cura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-atraves-da-renovacao-a-cobra-ou-serpente-passa-por-um-processo-de-troca-de-pele-simbolizando-a-ideia-de-abandonar-o-antigo-e-se-transformar-em-algo-novo" style="font-size:18px">Através da renovação, a cobra ou serpente passa por um processo de troca de pele, simbolizando a ideia de abandonar o antigo e se transformar em algo novo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A troca de pele da cobra ocorre periodicamente para que ela possa crescer. Esse aspecto nos ensina sobre a importância de <strong>liberarmos padrões antigos</strong> e nos abrirmos para o crescimento pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sua capacidade de trocar de pele a torna um símbolo de<strong> transformação psíquica</strong>. A pele antiga não pode acompanhar o crescimento do corpo e precisa ser abandonada. O mesmo ocorre com padrões de comportamento que já não fazem mais sentido e nos aprisionam em papéis que nos impedem de fazer contato com o nosso verdadeiro eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O símbolo da cobra nos mostra a necessidade de desenvolver maturidade para mudar, transmutar e confiar na nossa própria capacidade de se regenerar, simbolizando a energia instintiva de forma primária e vital.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na perspectiva junguiana, <strong>o sentido de um símbolo é absolutamente complexo e nunca pode ser totalmente esgotado pela linguagem ou pelo argumento racional</strong>. Sempre restará um resíduo desconhecido que resiste à nossa interpretação. O símbolo é descrito ainda como o mecanismo de transformação da energia psíquica, funcionando como ponte entre o consciente e o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-simbolo-surge-da-tensao-entre-os-opostos-consciente-e-inconsciente-como-um-terceiro-elemento-unificador-que-permite-a-transicao-para-uma-nova-atitude-psiquica-nesse-sentido-e-que-estao-os-simbolos-como-elementos-extremamente-uteis-para-ativar-esta-funcao" style="font-size:18px"><strong>O símbolo surge da tensão entre os opostos (consciente e inconsciente) como um terceiro elemento unificador que permite a transição para uma nova atitude psíquica</strong>. Nesse sentido é que estão os símbolos como elementos extremamente úteis para ativar esta função.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sofrimento feminino diante da transformação muitas vezes está relacionado ao medo do próprio instinto, do desejo, da sexualidade e autonomia. Ao longo da opressão do patriarcado, o feminino foi frequentemente associado à culpa quando conectado ao desejo e liberdade. Fomos ensinadas a calar, falar baixo, a se comportar e a abrir mão de nossos desejos para desempenhar papéis de cuidado, seja como mães, filhas ou esposas, priorizando o outro muitas vezes em detrimento do nosso autocuidado e amor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sabemos-que-a-meta-do-processo-de-individuacao-e-a-realizacao-do-self" style="font-size:18px">Sabemos que a meta do Processo de Individuação é a realização do Self.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psique humana desenvolve um esforço constante para se completar e integrar conteúdos do inconsciente. E, para tanto é necessário se despir da Persona, nossa máscara social e ideal de nós mesmos. Dessa forma, quando a psique feminina exige diferenciação, essa Persona criada para atender às expectativas e exigências do patriarcado começa a ser ‘’desmascarada’’. O que antes oferecia pertencimento passa a representar esgotamento e aprisionamento. A mulher pode então experimentar a dolorosa sensação de não saber mais quem é fora do olhar do outro. A serpente, enquanto símbolo de renovação, expressa também essa ruptura, pois a pele que protege também limita.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A dissolução da Persona não ocorre sem sofrimento, pois implica a perda de reconhecimento externo. Jung adverte que a identificação excessiva com papéis sociais impede o desenvolvimento do Self. A dor da transformação revela, portanto, o conflito entre a necessidade de permanecer adaptada e o chamado interior por autenticidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A serpente, como visto, símbolo dual, carrega significados ligados à fertilidade, cura, sabedoria, perigo e regeneração. Na psicologia junguiana, ela pode ser compreendida como representação da energia instintiva da psique. Sua forma de locomover rastejando, a aproxima da terra, associando-a também a materialidade, ao corpo, ao desejo e à vitalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-de-individuacao-feminino-requer-a-integracao-desses-aspectos-instintivos-frequentemente-reprimidos" style="font-size:18px"><strong>O Processo de Individuação feminino requer a integração desses aspectos instintivos frequentemente reprimidos</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Sombra, conforme trazida por Jung, contém conteúdos reprimidos, negados, não reconhecidos pelo Ego. E, no caso de nós mulheres, muitas vezes podem integrar a Sombra elementos como raiva, assertividade, ambição, individualidade ou desejo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A dor emerge quando esses conteúdos começam a pressionar a consciência. A mulher pode sentir culpa ao afirmar limites ou medo e vergonha ao reconhecer seu próprio desejo e necessidades. Entretanto, a exclusão do instinto produz dissociação psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psicologia-analitica-nos-mostra-que-a-unilateralidade-da-consciencia-gera-desequilibrio-e-sofrimento" style="font-size:18px">A Psicologia Analítica nos mostra que a unilateralidade da consciência gera desequilíbrio e sofrimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A serpente, nesse sentido, não simboliza uma ameaça moral, mas a energia necessária para romper a fixação com essa pele que nos impede de ‘’crescer’’. Integrar a serpente é aceitar que o crescimento exige confrontar impulsos que desafiam a imagem construída de nós mesma e que foi imposta ao feminino por séculos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outro eixo fundamental do <strong>Processo de Individuação</strong> feminina é a relação com o <strong>Animus</strong>, o princípio masculino na psique da mulher. Quando inconsciente, o Animus pode manifestar-se como crítica interna severa, opiniões rígidas ou submissão a autoridades externas. Integrado, contudo, se torna fonte de discernimento, pensamento estruturado e autonomia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher que enfrenta a dissolução da Persona, muitas vezes imposta pela sociedade patriarcal, integra sua sombra instintiva, revisita seu papel na família e na sociedade e integra o Animus, em direção a uma experiência mais verdadeira de si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A serpente representa a transformação vital. Seu símbolo reforça que o crescimento é constante e exige mortes simbólicas. A pele antiga precisa ser abandonada para que a psique continue seu movimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, a cura do feminino arquetípico pode ser compreendida como um limiar iniciático. Não se trata de evitar o sofrimento de reconhecer séculos de submissão e abusos, mas de atravessá-lo com consciência em busca da cura, através da coragem de romper esses padrões e se regenerar. A serpente nos ensina que para se tornar quem se é necessário coragem para deixar morrer aquilo que já não sustenta a totalidade do SER MULHER.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/itala-carvalhal/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/itala-carvalhal/"><strong>Itala Resende Carvalhal</strong> &#8211; <strong>Analista em formação IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G, O Eu e o Inconsciente. Petrópolis, Ed. Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G, A natureza da Psique. Petrópolis, Ed. Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 11. Petrópolis, Ed. Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis, Ed. Vozes, 2016. JUNG, C. G. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. O Homem e Seus Símbolos, 06ª edição, Petrópolis, Ed. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza, Mitologia Grega, Volume 1, Petrópolis, Vozes, 1986.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-serpente-e-a-cura-o-trocar-de-pele-no-processo-de-individuacao-feminina/">A Serpente e a Cura: O trocar de pele no Processo de Individuação Feminino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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		<title>Algo do feminino se tornou inconsciente na mulher contemporânea?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/algo-do-feminino-se-tornou-inconsciente-na-mulher-contemporanea/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Mar 2026 20:03:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[animus]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[energia psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
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		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[masculino e feminino]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[mulher moderna]]></category>
		<category><![CDATA[mulher na contemporaneidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Muita coisa mudou nos últimos 100 anos nas vidas das mulheres ocidentais, especialmente aquelas que vivem nas grandes cidades. Algo do aspecto masculino (Animus) tornou-se bastante consciente e ativo, usando muito da energia psíquica das mulheres. Será que, de forma compensatória, teria algo do feminino nas mulheres foi tornado inconsciente, criando uma “nova” Anima? </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Muita coisa mudou nos últimos 100 anos nas vidas das mulheres ocidentais, especialmente aquelas que vivem nas grandes cidades. Algo do aspecto masculino (Animus) tornou-se bastante consciente e ativo, usando muito da energia psíquica das mulheres. Será que, de forma compensatória, teria algo do feminino nas mulheres foi tornado inconsciente, criando uma “nova” Anima? </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ultimo-seculo-e-marcado-por-mudancas-profundas-nas-vidas-das-mulheres-que-nasceram-e-vivem-no-ocidente-especialmente-nas-grandes-cidades" style="font-size:18px">O último século é marcado por mudanças profundas nas vidas das mulheres que nasceram e vivem no Ocidente, especialmente, nas grandes cidades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não tenho como me propor a refletir sobre as mulheres que nasceram e vivem no Oriente, por isso estabeleço o recorte a partir de minha própria experiência na vida e, mais recentemente, no que tenho experimentando no consultório, como analista em formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher conquistou direitos civis e políticos. O direito ao voto em Appenzell Innerrhoden, último cantão da Suíça de Jung, por exemplo, tornou-se realidade por decisão judicial em 1990 – e não por voto popular. O sufrágio universal feminino em Portugal ocorreu em 1976, após a Revolução dos Cravos. Nos Estados Unidos em 1920, na França em 1944 e no Brasil, em 1946, para citar alguns exemplos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste último século, as mulheres passaram a ter acesso massivo ao ensino superior, entraram no mercado de trabalho formal, especialmente após as guerras, e assim&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; passaram a conquistar independência econômica. Segundo o Censo do IBGE de 2022, 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As ideias do casamento e da maternidade como principais destinos da vida de uma mulher vêm sendo esvaziadas, não sem dúvida e sofrimento. Desde 1977, o Brasil conta com a Lei do Divórcio, que pode ser solicitado por qualquer um dos cônjuges, até de forma unilateral, mesmo que litigiosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitas mudanças também vêm acontecendo no território do corpo da mulher. Com acesso à contracepção (a pílula anticoncepcional é invenção dos anos 60), a sexualidade feminina ganhou dimensão para além da maternidade. O prazer feminino e o aborto tornaram-se assuntos frequentes na grande imprensa. A moda tornou possível &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;corpos expostos, silhuetas marcadas, peitos e bundas à mostra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-a-toa-esta-condicao-feminina-contemporanea-ganhou-novas-expressoes-e-coros-tambem-na-cultura-pop-de-formas-inimaginaveis-na-suica-de-jung" style="font-size:18px">Não à toa, esta condição feminina contemporânea ganhou novas expressões e coros também na cultura pop, de formas inimagináveis na Suíça de Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Coro &#8211;</strong> Após cansar-se do sofrimento gerado pelo pouco cuidado que o namorado lhe dava, incrementado por traições, a musicista americana Miley Cyrus canalizou um hino da independência afetiva feminina que alcançou bilhões de streamings nos últimos dois anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com <em><strong>Flowers</strong></em>, Cyrus ganhou seu primeiro Grammy, o prêmio máximo da música, aos 31 anos e protagonizou cena inesquecível na cultura pop na noite em que recebeu a honraria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-junguiano-o-refrao-da-musica-pode-ser-visto-simbolicamente-como-uma-conversa-olho-no-olho-com-um-aspecto-do-animus" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, o refrão da música pode ser visto, simbolicamente, como uma conversa olho no olho com um aspecto do Animus.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“I can buy myself flowers</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Eu posso comprar flores para mim mesma)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Write my name in the sand</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Escrever meu nome na areia)</em><em><br>Talk to myself for hours</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Conversar comigo mesma por horas)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Say things you don&#8217;t understand</em><em><br>(Dizer coisas que você não entende)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>I can take myself dancing</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Eu posso me levar para dançar)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>And I can hold my own hand</em><em><br>(E eu posso segurar minha própria mão)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Yeah, I can love me better than you can”</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>(Sim, eu posso me amar melhor do que você pode)</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Anima e Animus &#8211;</strong> Jung pensou a dimensão das forças inconscientes feminina e masculina a partir dos conceitos de Anima e Animus. A analista junguiana e esposa do autor Emma Jung, em seu <em>Animus e Anima</em>, buscou trazer uma explicação objetiva para o tema, a partir do olhar de uma mulher.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“São características femininas no homem e masculinas na mulher que normalmente estão sempre presentes em determinada medida, mas que são incômodas para a adaptação externa ou para o ideal existente, não encontrando espaço algum no ser voltado para o exterior” </em><em>(Página 16)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se para Jung, uma pessoa identificada conscientemente como mulher mantém no inconsciente a dimensão do masculino (Animus), a mulher contemporânea ocidental, que experimenta aspectos do masculino na vida prática, ou seja, na consciência, tem colocado a teoria à prova ou, ao menos, demandado novas leituras atualizadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-emma-jung-cuja-escrita-pode-por-vezes-assustar-a-mulher-contemporanea-devido-ao-tom-conservador-segue" style="font-size:18px"><strong>Emma Jung, cuja escrita pode, por vezes, assustar a mulher contemporânea devido ao tom conservador, segue:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O problema da mulher atual me parece estar muito mais na postura em relação ao logos do animus, em relação ao espiritual-masculino no sentido estrito”.</em></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“&#8230;uma determinada quantidade de espírito masculino amadureceu na consciência das mulheres e deve encontrar em suas personalidades seu lugar e sua atuação. Conhecer essas grandezas, ordená-las para que possam agir de maneira adequada é uma parte importante do problema do animus” (Página 20)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tais fatos trazem para a conversa aspecto fundamental da psicologia analítica. Se o inconsciente coletivo também é fruto da história de todos os tempos, as vivências contemporâneas o influenciam e, assim, se tornam parte do inconsciente e buscam se manifestar. Com aquele sorriso amedrontado, ouso dizer que não à toa a psicologia também é chamada de complexa.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A verdade eterna precisa da linguagem humana que se modifica de acordo com o espírito do tempo. As imagens primordiais são susceptíveis de transformações infinitas, mas nem por isso deixam de ser sempre as mesmas. No entanto só serão compreendidas de novo se renovarem a forma de se apresentarem. Elas requerem constantemente novas interpretações, se não quisermos que, devido a uma conceituação obsoleta, elas percam seu poder de atração”. (O/C </em><em>16/ 2 parágrafo 396) </em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Dúvida &#8211;</strong> Na minha vida e no consultório enxergo mulheres navegando de forma natural nas dimensões do aspecto masculino arquetípico. Pessoas com força de realização, com segurança na tomada de decisões, altamente hábeis na capacidade analítica. Mulheres que desejam, planejam e realizam sonhos, famílias, viagens, propriedades. Que criam e desenvolvem vínculos afetivos com amigos, familiares e amores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-ainda-assim-algo-falta-nessas-mulheres-algo-tem-nos-faltado" style="font-size:20px"><strong>Mas ainda assim, algo falta nessas mulheres. Algo tem nos faltado.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“&#8230;pode-se muito bem supor que, em grande parte, as formas mais primitivas da masculinidade já foram assimiladas pela mulher. Falando-se de maneira geral, elas há muito encontraram sua utilização na vida feminina, pois já faz tempo que</em><em> existem mulheres cuja força de vontade, objetividade, atividade e capacidade de atuação serviram como forças úteis em suas vidas, vividas por outro lado de forma completamente feminina.” (Página 20)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Será que, após termos integrado o aspecto masculino (Animus) na dimensão consciente da vida, algo do feminino arquetípico tornou-se inconsciente de forma compensatória, fazendo de nós mulheres contemporâneas seres que precisam agora dialogar com aspectos de uma nova Anima (um feminino arquetípico)?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-simbolicamente-os-sintomas-podem-estar-nos-dizendo-que-sim" style="font-size:21px"><strong>Simbolicamente, os sintomas podem estar nos dizendo que sim.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se Jung afirma que “O inconsciente é a Natureza e a Natureza nunca mente”, a liberdade conquistada pelo uso de hormônios contraceptivos ou que mascaram os sintomas da menopausa, por exemplo, pode resultar, em sua dimensão oposta complementar, na prisão de um corpo que silencia os ciclos da Natureza que, consequentemente, vai dar um jeito de se fazer ouvir, como é hábito do inconsciente por esta perspectiva.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mãe de cinco e que interrompeu a vida sexual com o marido por um período, evitando novas gestações, Emma Jung afirma que “&#8230;com a possibilidade de controle de natalidade, uma significativa quantidade de libido fica livre. Duvido que até mesmo a própria mulher possa avaliar de maneira correta quão grande é essa quantidade, que até então era utilizada para a constante preparação interior e estava consolidada” (Página 22).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-novo-e-sempre" style="font-size:18px"><strong>De novo e sempre</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na introdução do clássico pós-junguiano <em>Mulheres que correm com os lobos</em>, que já vendeu mais de 2,7 milhões de cópias globalmente, a analista Clarisse Pinkola Estés diz que as terras espirituais da Mulher Selvagem, durante o curso da história, foram saqueadas ou queimadas. “Com seus refúgios destruídos e seus ciclos naturais transformados à força em ritmos artificiais para agradar os outros”, completa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica um crescimento significativo no número de casos de câncer de mama no mundo até 2050. Dez por cento das mulheres em idade reprodutiva no planeta sofrem de endometriose, uma doença que inverte a tendência de parte do fluxo menstrual e faz com que a menstruação ocorra —&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; simbolicamente —&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;na cavidade abdominal da mulher, causando terríveis dores e até infertilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez por procurarem mais ajuda, talvez por estarem mais adoecidas, as mulheres têm cerca de duas vezes mais diagnósticos de depressão do que os homens. <strong>Emma</strong> afirma: “<em>para ela, tornar-se consciente significa a perda de um poder especificamente feminino</em>”. (Página 44)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-prefacio-de-seu-best-seller-estes-lanca-a-seta-sem-temer" style="font-size:18px"><strong>No prefácio de seu <em>best seller</em>, Estés lança a seta sem temer:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Todas nós temos anseio pelo que é selvagem. Existem poucos antídotos aceitos por nossa cultura para esse desejo ardente. Ensinaram-nos a ter vergonha desse tipo de aspiração. Deixamos crescer o cabelo e o usamos para esconder nossos sentimentos. No entanto, o espectro da Mulher Selvagem ainda nos espreita de dia e de noite. Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem decididamente quatro patas.”</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-arquetipo-como-instinto-uma-parte-do-feminino-foi-tornado-inconsciente-pela-influencia-do-espirito-do-tempo-em-nossos-corpos-no-ultimo-seculo-no-ocidente-o-masculino-vivido-como-patriarcado-que-busca-dominar-tudo-ate-mesmo-a-forma-de-ser-mulher-contemporanea" style="font-size:18px">O arquétipo como instinto. Uma parte do feminino foi tornado inconsciente pela influência do espírito do tempo em nossos corpos no último século, no Ocidente. O masculino vivido como patriarcado que busca dominar tudo, até mesmo a forma de ser mulher contemporânea.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez seja a hora de, novamente, buscarmos o novo de novo. Um novo equilíbrio entre o feminino e o masculino que nos habitam, algo que poderia ser facilitado pelo desenvolvimento e a transformação psíquica mais acelerada dos homens com os quais, inevitavelmente, convivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porque apesar de todas as conquistas comportamentais, ainda sinto e vejo no consultório e também nas conversas com as amigas que algo de uma alma arquetípica permanece. Talvez parte das mulheres ainda queira conciliar o “sexo frágil” ao que “não foge à luta” e ainda ousar buscar suas formas únicas de ser mulher por inteiro, afinal, como canta <strong>Rita Lee:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Toda mulher quer ser amada</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Toda mulher quer ser feliz</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Toda mulher se faz de coitada</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Toda mulher é meio Leila Diniz”</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">CYRUS, Miley. <em>Flowers.</em> <em>Los Angeles, Columbia Records e Smiley Miley Inc</em>, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Emma. <em>Animus e Anima</em>. 2ª edição. São Paulo: Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.Ab-reação, análise dos sonhos e transferência O/C 16//2. 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012. </p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTÉS, Clarissa Pinkola. <em>Mulheres que correm com os lobos</em>. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>METANOIA E MENOPAUSA, A CRISE DA MEIA IDADE FEMININA</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/metanoia-e-menopausa-a-crise-da-meia-idade-feminina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laiana Nascimento Neves Soares]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Mar 2026 18:46:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[menopausa]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analitica]]></category>
		<category><![CDATA[PsicologiaJunguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo trata da crise da meia idade associada à menopausa e traz algumas reflexões de como essa crise pode ser vivenciada e superada de forma positiva ou negativa, uma vez que a crise é inevitável. Porém, tudo dependerá do manejo, de como se lida com a crise e se há abertura para lidar com a nova realidade. E diante disso, se continuará reprodutiva do ponto de vista criativo e espiritual ou se ficará presa à questão da reprodução biológica e desperdiçará toda a capacidade de continuar procriando.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo trata da crise da meia idade associada à menopausa e traz algumas reflexões de como essa crise pode ser vivenciada e superada de forma positiva ou negativa, uma vez que a crise é inevitável. Porém, tudo dependerá do manejo, de como se lida com a crise e se há abertura para lidar com a nova realidade. E diante disso, se continuará reprodutiva do ponto de vista criativo e espiritual ou se ficará presa à questão da reprodução biológica e desperdiçará toda a capacidade de continuar procriando.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A metanoia, conhecida popularmente como crise da meia idade, é o processo que se interpõe na vida de um sujeito que se encontra no meio da vida, e acontece, aproximadamente, entre 35 a 50 anos. Trata-se de uma fase de transição que causa angústia, pois uma crise de ordem psíquica se instala, surgindo diversos questionamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Geralmente, o indivíduo reavalia todas as áreas da vida e muitas vezes constata que grande parte das suas realizações não fazem mais sentido ou que houve uma alteração de valores. Surgem as insatisfações, e tudo o que antes satisfazia, bem como o que também o preenchia, agora não o preenche mais. O Ego – o administrador da consciência, também chamado por Jung de Eu – entra em sofrimento e o sujeito costuma ter a sensação de vazio, tristeza e perda de sentido da vida. Sente-se perdido e solitário na escuridão, como nas palavras de Dante em sua obra A divina comédia – Inferno:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-metade-do-caminho-da-vida-pelo-qual-caminhamos-acordei-e-me-vi-no-meio-de-uma-floresta-escura-onde-a-estrada-certa-havia-desaparecido-completamente-dante-1974" style="font-size:18px"><strong>“Na metade do caminho da vida pelo qual caminhamos, acordei e me vi no meio de uma floresta escura onde a estrada certa havia desaparecido completamente.”</strong> (Dante, 1974)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Deste modo, o Ego é assolado por pensamentos do tipo: o que eu passei anos construindo e pelo que me dediquei tanto para alcançar. Agora não vejo mais graça! E agora?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em paralelo a essa questão psíquica, em termos comportamentais, o sujeito pode ser visto como desajustado pela comunidade em que se encontra inserido, uma vez que as mudanças surgem e é possível que sejam observadas como transgressões. E o sujeito sente-se então incompreendido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste momento da vida, ocorrem muitas vezes as transições de carreira profissional, a mudança de parceiros amorosos ou a reestruturação dos relacionamentos, a mudança de ciclos de amizades, a realização do não vivido na primeira metade da vida, o abandono ou mudança de religião e outros&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há uma queda do movimento de progressão da energia psíquica, que facilita ao Ego a retirada de algumas projeções &#8211;&nbsp; que sempre são inconscientes. Este momento de crise pode acontecer de forma mais violenta na proporção da unilateralidade da atitude consciente, e esse fenômeno Jung chama de enantiodromia, gerando compensatoriamente a regressão da energia psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com a diminuição das projeções, devido ao reconhecimento da sombra, o mundo externo, em um movimento de progressão da energia psíquica predominante na primeira metade da vida, destinada à construção da persona, o indivíduo começa a enxergar as pessoas com quem se relaciona, os objetivos conquistados e os sistemas aos quais está inserido como realmente são; com sua respectiva luz e sombra; e não mais com uma visão, muitas vezes, idealizada e romantizada como fora outrora na primeira metade da vida adulta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conforme-citacao-de-jung" style="font-size:18px">Conforme citação de Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong>Todo processo energético se assemelha a um corredor que procura alcançar sua meta com o máximo esforço e o maior dispêndio possível de forças. A ânsia do jovem pelo mundo e pela vida, o desejo de consumar altas esperanças e objetivos distantes constituem o impulso teleológico manifesto da vida que se converte em medo da vida, em resistências neuróticas, depressões e fobias, se fica preso ao passado, sob algum aspecto, ou recua diante de certos riscos sem os quais não se podem atingir as metas prefixadas. Mas o impulso teleológico da vida não cessa quando se atinge o amadurecimento e o zênite da vida biológica. A vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e a mesma irresistibilidade com que a subia antes da meia idade, porque a meta não está no cume, mas no vale, onde a subida começou. A curva da vida é como a parábola de um projétil que retorna ao estado de repouso, depois de ter sido perturbado no seu estado de repouso inicial.</strong></p><cite>Jung, OC 8/2, §798</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Configura-se então um diálogo entre o Ego e o Si- mesmo.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E uma vez que algo é visto, não tem como “desver”. Mas, ainda bem que se vê! Pois ao indivíduo é dado a grande oportunidade de revisitar as áreas de sua vida, refletir sobre o sentido do seu existir e a possibilidade de viver a segunda metade da vida com sentido e propósito de alma. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em uma sociedade capitalista, voltada para o externo, pautada no monoteísmo da consciência, onde o sujeito é convocado o tempo todo a <em>performance</em> de sucesso e ao hedonismo, há consequentemente uma resistência a voltar-se para dentro, ao viver com alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em um cenário como esse, quão grande dor e sofrimento é sentido pelo ego em meio a um processo de metanoia, uma vez que a energia psíquica, em um movimento de regressão introversiva, nesse processo de transição, exerce uma força atrativa que direciona a voltar-se às demandas do mundo interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porém, há uma razão de ser. Na metanoia há a crise, mas também esta pode levar a transcendência. Simbolicamente, acontece uma morte e um renascimento, produz-se uma bagunça e depois organiza, ciclos se fecham e outros se abrem, deixa-se o velho para dá lugar ao novo. É um momento de turbulência!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas há uma ordem que engendra o caos. Por trás de toda a desordem estabelecida na metanoia, a manifestação da crise e as transgressões, há uma exigência do Si-mesmo que deseja realizar-se. E, passada a transição, podemos inverter a perspectiva e dizer então que: do caos vem a ordem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-e-quando-a-metanoia-e-menopausa-acontecem-simultaneamente" style="font-size:18px"><strong>Mas e quando a metanoia e menopausa acontecem simultaneamente?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No universo feminino, devida à faixa etária em que ocorre a experiência da metanoia, acoplado a isso, geralmente acontece também a menopausa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A crise da meia idade feminina pode ser mais evidente, uma vez que, a chegada da perimenopausa, que é o início da flutuação hormonal e o período que se estende até a menopausa propriamente dita, que por sua vez se configura como sendo a ausência de menstruação por doze meses consecutivos; vem com sintomas físicos importantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como o início da metanoia, a perimenopausa não tem uma data certa de chegada. A mulher começa a perceber que tem alguma coisa acontecendo, mas não sabe bem ao certo o que é. Várias alterações de ordem física e emocional começam a ser sentidas por ela e pelo entorno relacional. Sintomas como ciclos menstruais irregulares, fogachos, suores noturnos, insônia, aumento de peso corporal, cansaço e irritabilidade, são os mais comuns.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-um-chacoalhar-das-estruturas" style="font-size:18px"><strong>Há um chacoalhar das estruturas.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Durante esse período, até que se chegue a constatação de que se trata do anúncio da menopausa e até mesmo depois de fechado o diagnóstico de tais alterações, a mulher entra em crise. Como corpo e mente são um só, a queda do estrogênio causa também um sofrimento ao ego, que passa a ter a sensação de instabilidade e descontrole no corpo. A mulher se vê em uma fase em que não se reconhece mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além dos questionamentos feitos acerca das áreas da vida que geralmente são feitos no transcurso da metanoia, a mulher brasileira, ao se deparar com o encerramento da capacidade reprodutiva, ainda lida com mais algumas questões; em uma sociedade etarista, onde envelhecer é perder o seu valor e que apenas a juventude é vista como beleza.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somado a isso, menopausa ainda é um tabu na sociedade brasileira e poucos estudos e pesquisas médicas foram realizados no mundo sobre essa fase da vida da mulher. Há ainda muita desinformação e nem mesmo entre as próprias mulheres esse assunto costuma ser abordado. Paira uma espécie de constrangimento, uma espécie de vergonha, o que prejudica a troca de ideais, informações e o acolhimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As mulheres quando jovens não são orientadas e nem preparadas para a chegada dessa fase da vida feminina. Deste modo, não é de se entranhar os relatos de se sentirem perdidas, incompreendidas e solitárias, pois muitas não dialogam sobre o que estão passando com a chegada dos sintomas, por não sentirem que haja espaço e acolhimento para essa temática.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-um-momento-liminar-e-uma-encruzilhada-e-uma-transicao-e-uma-metamorfose" style="font-size:18px"><strong>É um momento liminar, é uma encruzilhada, é uma transição, é uma metamorfose!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">À vista disso, o que se configura com a chegada da menopausa é mais um dos ritos de passagem que ocorrem na vida da mulher. É mais uma das metamorfoses que acontecem ao longo da vida feminina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como a puberdade e a menarca, que é a primeira menstruação, e posteriormente, para aquelas que se tornam mães, e para aquelas que passam pelo puerpério, alterações físicas e psíquicas também se apresentaram. E os sintomas da transição para a menopausa tendem a amenizar em aproximadamente dois anos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-menopausa-como-tributo-do-si-mesmo-para-levar-o-ego-ao-processo-de-individuacao" style="font-size:18px"><strong>Menopausa como tributo do Si-mesmo para levar o ego ao processo de individuação.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A chegada da menopausa configura também um chamado, um convite a evolução e ao amadurecimento. Metaforicamente, e diferente do que a sociedade atual prega, há uma liberação da mulher, com o fim da capacidade de reproduzir fisicamente, para passar a reproduzir criativamente e espiritualmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É dada a mulher a oportunidade de fazer a travessia e viver o seu mito pessoal, trazendo autenticidade e sentido para a própria vida. E deste modo, com a liberação que a menopausa traz, a possibilidade de entregar sua contribuição à coletividade. Estando livre para exercer outros papeis na sociedade e com as experiências vividas, transbordar o potencial que há para guiar, orientar, auxiliar e liderar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-tem-de-ser-conquistada-sempre-e-de-novo-jung-oc-8-2-142" style="font-size:18px"><strong>“A vida tem de ser conquistada sempre e de novo.” (Jung, OC 8/2,</strong><strong> </strong><strong>§ 142)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao perceber o chamado da alma, a mulher se depara com a incerteza dos desdobramentos da segunda metade da vida. Porém, caso não atenda ao chamado, ficará passível a uma vida neurótica, adoecida e sem significado. Ficando o ego alienado do Si-mesmo, atendendo muitas vezes, ao chamado de uma sociedade descompromissada com a realização da alma.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: METANOIA E MENOPAUSA, A CRISE DA MEIA IDADE FEMININA" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/WgHfzHN5cjc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Laiana Nascimento Neves Soares</strong> &#8211; <strong>Analista em formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi </strong>&#8211; <strong>Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">DANTE, A. <strong>The divine comedy: hell</strong>. Translated by Dorothy L.Sayers. Penguin Books, 1974.<strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong>.<strong>OC.8.2</strong>&nbsp;Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
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		<title>O Feminino Ferido, o Patriarcado e os Complexos Psíquicos nas Relações Abusivas: Uma Leitura Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-feminino-ferido-o-patriarcado-e-os-complexos-psiquicos-nas-relacoes-abusivas-uma-leitura-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula Guaratini]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Mar 2026 11:41:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo discute, a partir da psicologia analítica, os fatores simbólicos e estruturais que contribuem para a permanência de mulheres em relacionamentos abusivos. Articulam-se os conceitos junguianos de anima e animus, sombra, complexo, feminino ferido e patriarcado para compreender por que tantas mulheres aprendem a suportar, silenciar-se e assumir responsabilidades que não lhes pertencem. Defende-se que tais padrões não derivam de fraqueza, mas de dinâmicas psíquicas profundas que, quando compreendidas e integradas, tornam-se chave para a transformação e para o restabelecimento da dignidade do feminino. Por fim, aborda-se o caminho de saída, que exige segurança, rede de apoio e processo de análise terapêutica.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo discute, a partir da psicologia analítica, os fatores simbólicos e estruturais que contribuem para a permanência de mulheres em relacionamentos abusivos. Articulam-se os conceitos junguianos de anima e animus, sombra, complexo, feminino ferido e patriarcado para compreender por que tantas mulheres aprendem a suportar, silenciar-se e assumir responsabilidades que não lhes pertencem. Defende-se que tais padrões não derivam de fraqueza, mas de dinâmicas psíquicas profundas que, quando compreendidas e integradas, tornam-se chave para a transformação e para o restabelecimento da dignidade do feminino. Por fim, aborda-se o caminho de saída, que exige segurança, rede de apoio e processo de análise terapêutica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-feminino-ferido-o-patriarcado-e-os-complexos-psiquicos-nas-relacoes-abusivas-uma-leitura-junguiana" style="font-size:21px"><strong>O Feminino Ferido, o Patriarcado e os Complexos Psíquicos nas Relações Abusivas: Uma Leitura Junguiana</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O fenômeno do relacionamento abusivo, embora frequentemente analisado sob perspectivas sociológicas e jurídicas, também pode — e deve — ser compreendido por meio da psicologia analítica. Para Carl Gustav Jung, a psique humana é uma dinâmica viva, composta por complexos, imagens arquetípicas e padrões relacionais que moldam profundamente a forma como nos vinculamos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mulheres que permanecem em relações abusivas enfrentam não apenas pressões externas geradas por um sistema patriarcal, mas também conflitos internos que operam muitas vezes fora da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A cultura patriarcal feriu o feminino — tanto nas mulheres quanto nos homens — ao desqualificar sensibilidade, vulnerabilidade, intuição e cuidado, ao mesmo tempo em que inflou formas distorcidas do masculino. Como resultado, muitas mulheres internalizam a crença de que seu valor está na capacidade de compreender, acomodar e salvar o outro. Quando inseridas em relações abusivas, tais tendências tornam-se gatilhos para complexos de culpa, autocrítica, simpatia e responsabilidade desmedida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-patriarcado-sombra-cultural-e-o-feminino-ferido" style="font-size:21px"><strong>Patriarcado, Sombra Cultural e o Feminino Ferido</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung compreendia a sombra individual como tudo aquilo que a consciência rejeita ou não reconhece em si. No entanto, a sombra também pode ser compreendida como uma força coletiva que se manifesta culturalmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, <strong><em>Logos</em></strong> e <strong><em>Eros </em></strong>são dois princípios fundamentais da psique. <em>Logos</em> diz respeito à ordem, discernimento, clareza e delimitação; <em>Eros</em>, à relação, ao vínculo, à sensibilidade e à integração. No pensamento simbólico de Jung, eles se associam ao <strong>masculino</strong> e ao <strong>feminino</strong> — não enquanto gêneros biológicos, mas como modos arquetípicos de funcionamento da psique. Assim, o masculino (<em>Logos</em>) estrutura, separa e ilumina, enquanto o feminino (<em>Eros</em>) conecta, acolhe e vivifica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O patriarcado expressa uma sombra cultural que enalteceu <strong>unilateralmente</strong> a função psíquica masculina — ativa, racional, dominadora — e reprimiu a função psíquica feminina — receptiva, intuitiva, relacional. O resultado dessa assimetria histórica é o que diversas autoras como, Clarissa Pinkola Estés, Marie-Louise von Franz, Marion Woodman, chamam de <strong>feminino ferido</strong>: insegurança, silenciamento, perda da confiança na própria voz, sensação de inadequação, medo de ocupar espaço e tendência a priorizar as necessidades do outro. No inconsciente coletivo feminino, isso se traduz na valorização da adaptação excessiva, no medo do masculino impositivo que tolhe a liberdade e na capacidade de suportar o insuportável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa ferida cultural combina-se às experiências pessoais de cada mulher, formando <strong>complexos</strong> que podem predispor à manutenção de vínculos nocivos. Assim, o patriarcado não é apenas contexto cultural: é conteúdo psíquico introjetado, operando silenciosamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-psique-bem-desenvolvida-nao-unilateraliza-o-principio-masculino-ou-feminino-nem-privilegia-um-contra-o-outro-ao-contrario-conjuga-logos-e-eros-permitindo-pensamento-com-alma-e-sentimento-com-clareza-e-nesse-equilibrio-que-reside-a-profundidade-da-personalidade" style="font-size:18px">Uma psique bem desenvolvida não unilateraliza o princípio masculino ou feminino, nem privilegia um contra o outro. Ao contrário, <strong>conjuga <em>Logos</em> e <em>Eros</em>, permitindo pensamento com alma e sentimento com clareza. É nesse equilíbrio que reside a profundidade da personalidade.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além disso, a mulher desde muito cedo é educada e condicionada a desempenhar os papéis de filha obediente, irmã prestativa e mãe dedicada antes mesmo de ser convidada a reconhecer sua identidade feminina. Aprende, assim, a existir para o outro e atender as demandas que o mundo tem para ela, e não a partir de si mesma. O resultado é uma sensação íntima de não saber “o que é ser mulher” para além das funções que desempenha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-simbolico-e-junguiano-o-desenvolvimento-psiquico-feminino-pode-ser-visto-como-uma-travessia-por-imagens-arquetipicas" style="font-size:18px">Do ponto de vista simbólico e junguiano, o desenvolvimento psíquico feminino pode ser visto como uma travessia por imagens arquetípicas:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Eva</strong> – a mulher biológica, identificada como objeto sexual e procriativo, que vive a serviço da realização dos instintos primários; &nbsp;mulher <strong>Helena</strong> — a mulher da aparência, da agradabilidade e da adaptação, que vive no espelho do olhar alheio e representa o feminino que ainda não encontrou um centro próprio; <strong>Maria</strong> — o feminino devotado, sacrificial e abnegado, associado ao ideal da mãe perfeita, da mulher que cuida e renuncia, mesmo que isso aprisione seu desejo; <strong>Sofia</strong> — a mulher que busca sabedoria e sentido, voltando-se para dentro e perguntando-se quem é, o que quer e o que faz sua alma vibrar, conforme essa ampliação de Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Os exemplos mais expressivos dessas complicações encontramo-los certamente na fenomenologia erótica. A Antiguidade já conhecia a escala erótica das quatro mulheres: Chawwa (Eva), Helena (de Troia), Maria, Sofia; uma sequência que se repete de maneira alusiva no Fausto de Goethe, ou seja, na figura de Gretchen, enquanto personificação de uma relação puramente instintiva (Eva); de Helena, enquanto figura da anima, de Maria, enquanto personificação de uma relação celestial, isto é, religiosa e cristã, e do Eterno-Feminino (Sofia), enquanto expressão da &#8220;sapientia&#8221; alquímica. Pela denominação, deduz-se que se trata de quatro estágios do eros heterossexual, ou seja, da imagem da anima e, consequentemente, de quatro estágios culturais do Eros. O primeiro grau da Chawwa, Eva, Terra é apenas biológico, em que a mulher=mãe não passa daquilo que pode ser fecundado. O segundo grau ainda diz respeito a um Eros predominantemente sexual, mas em nível estético e romântico, em que a mulher já possui certos valores individuais. O terceiro grau eleva o Eros ao respeito máximo e à devoção religiosa, espiritualizando-o. Contrariamente a Chawwa, trata-se da maternidade espiritual. O quarto grau explicita algo que contraria as expectativas e ainda supera esse terceiro grau dificílimo de ser ultrapassado: é a sapientia. Mas como a sabedoria consegue sobrepujar o que há de mais santo e puro? A resposta pode estar na verdade elementar de que não raro algo que é menos significa mais. Este grau representa a espiritualização de Helena, portanto, do próprio Eros. Daí o paralelo, no Cântico dos Cânticos, entre a Sapientia e a Sulamita. (JUNG – OC16/2 &#8211; § 361)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher contemporânea precisa atravessar e integrar essas camadas, isto é, sair das identidades herdadas (Helena), reconhecer ideais internalizados (Maria) e finalmente tomar consciência do feminino a partir de si mesma (Sofia). É a transição de papéis impostos para uma identidade que nasce do próprio desejo e da própria alma — um movimento do espelho do outro para o próprio corpo, do dever para o desejo, da adaptação para a presença.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anima-animus-e-a-configuracao-dos-vinculos-abusivos" style="font-size:21px"><strong>Anima, Animus e a Configuração dos Vínculos Abusivos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para a Psicologia Junguiana, em cada indivíduo existe um arquétipo feminino e masculino internos — <strong><em>anima</em></strong> e <strong><em>animus</em></strong>. Quando essas figuras estão infladas ou distorcidas, criam processos de identificação que limitam a autonomia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando o <em>animus</em> se manifesta de forma madura, ele se torna mediador da capacidade de discriminação, assertividade e pensamento estruturado. Contudo, quando contaminado por complexos e pela sombra patriarcal, surge como voz interna crítica e implacável, marcada por julgamentos rígidos sobre o próprio valor, exigência de perfeição e racionalizações que justificam a permanência no sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse <strong><em>animus</em> sombrio</strong> reforça sentimento de culpa e a subserviência. A mulher que aprendeu que “ficar quieta é mais seguro do que reagir” não está apenas obedecendo a pressões externas, mas lidando com uma instância interna que a convence de que render-se é a única forma de sobreviver.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui é importante diferenciar <strong>subserviência</strong> de <strong>submissão</strong>: A mulher subserviente se coloca como serva da vontade alheia, cumprindo desejos do outro e tornando-se extensão do outro, sem reconhecer sua própria identidade. A mulher submissa, por sua vez, sente-se no dever de salvar seus amores — mãe, pai, filhos, irmãos, parceiro — vivendo sob a missão do amor e acreditando que deve contribuir para a realização do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-projecao-de-anima-e-animus-nos-parceiros-abusivos" style="font-size:21px"><strong>A projeção de anima e animus nos parceiros abusivos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Homens abusivos — que exercem controle, dominação ou violência — frequentemente projetam numa mulher a própria <em>anima</em> ferida — rejeitada, infantilizada ou depreciada — e tentam dominá-la no outro para evitar confrontá-la em si mesmos. A <em>anima</em> é a porta de entrada para o inconsciente e, para um ego imaturo, esse contato é assustador e ameaça o monoteísmo da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher, por sua vez, pode projetar no parceiro sua parte masculina madura, acreditando que ele tem potencial de mudança se ela o “amar o suficiente”. Essa dança de projeções cria vínculos profundos, poderosos e destrutivos, pois ela passa a “amar” mais o outro do que a si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os complexos são centrais para compreender tais dinâmicas. Jung descreveu-os como agrupamentos de energia psíquica que atuam de modo autônomo e compulsivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em mulheres que cresceram sob à cultura do patriarcado e apresentam histórias pessoais de insegurança afetiva, os complexos de culpa, autocrítica e responsabilidade pelo bem-estar do outro tornam-se especialmente ativados. Surge, então, a crença de que é dever da mulher reparar, curar ou mudar o comportamento do parceiro. O cuidado — que poderia ser virtude — transforma-se em prisão psíquica quando associado à compulsão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitas mulheres foram educadas para acreditar que sua função é manter a harmonia do ambiente. Quando o parceiro se desregula, questionam-se a si mesmas: “O que fiz de errado?” O complexo de culpa atua como prisão interna, criando a ilusão de poder, pois só tem culpa quem assume responsabilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A introjeção do animus sombrio alimenta vozes internas de inadequação: “eu sou o problema”, “não sou suficiente”. Esse diálogo interno mina o senso de merecimento e reduz a capacidade de reconhecer o abuso, muitas vezes reforçado por atitudes de <strong><em>gaslighting </em></strong>do parceiro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esses-complexos-atuam-em-conjunto-tornando-extremamente-dificil-romper-o-vinculo-abusivo-nao-por-fraqueza-mas-pela-energia-psiquica-concentrada-do-inconsciente" style="font-size:18px">Esses complexos atuam em conjunto, tornando extremamente difícil romper o vínculo abusivo — não por fraqueza, mas pela energia psíquica concentrada do inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Do mesmo modo<strong>, simpatia, medo de rejeição e de abandono, apego inseguro e baixa autoestima</strong> são respostas psíquicas a experiências passadas que deram origem a padrões de comportamento formados para garantir pertencimento e sobrevivência emocional. Eles aumentam a vulnerabilidade à manutenção de relações abusivas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, o alto nível de simpatia — <strong>sintonia com a ferida do outro</strong> — facilita compreender o sofrimento alheio, mas também permite justificar comportamentos destrutivos. O senso de responsabilidade e a necessidade de aprovação fazem com que a mulher priorize uma paz aparente, mesmo à custa de si mesma. O medo de rejeição intensifica o pavor de perder o outro e ativa memórias de abandono. O apego inseguro faz com que relações ambivalentes — amor seguido de abuso — pareçam familiares, ainda que dolorosas. A baixa autoestima é simultaneamente causa e consequência da dinâmica abusiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-abuso-como-reedicao-da-sombra-e-do-passado" style="font-size:21px"><strong>O Abuso como Reedição da Sombra e do Passado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung afirmava que a psique sempre busca repetição de padrões não resolvidos, na tentativa de integrá-los. Desse modo, relacionamentos podem reencenar traumas antigos ou dinâmicas familiares internalizadas. Relações abusivas frequentemente representam a atuação do inconsciente, especialmente da sombra ainda não integrada. Quando a mulher começa a reconhecer sua sombra — e a sombra do relacionamento — abre-se a possibilidade de mudança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tais relações não surgem do nada: muitas vezes reencenam padrões infantis, feridas de abandono, experiências traumáticas ou modelos familiares. A mulher pode, sem perceber, ser atraída por figuras que representam aspectos de sua própria sombra. Entretanto, ao reconhecer essa sombra — interna e externa — ela recupera autonomia, autoestima e poder pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao-resgate-do-feminino-e-reconstrucao-da-identidade-como-caminho" style="font-size:21px"><strong>Conclusão: Resgate do Feminino e Reconstrução da Identidade como Caminho</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A permanência de mulheres em relações abusivas, sob a perspectiva da psicologia analítica, decorre da convergência entre fatores psíquicos e socioculturais: a sombra coletiva do patriarcado, a educação para papéis relacionais, complexos de culpa e responsabilidade, além das distorções do <em>animus</em> e das projeções inconscientes. Essa combinação produz vínculos intensos e destrutivos que não se rompem pela vontade consciente, mas pelo fortalecimento do ego, pela ampliação da consciência e pela integração das feridas do feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Clinicamente, é essencial reconhecer que a mulher não permanece no abuso por fraqueza, mas por forças psíquicas autônomas que precisam ser compreendidas, nomeadas e integradas. O trabalho terapêutico consiste em: diferenciar o <em>animus </em>sombrio das funções discriminativas saudáveis; retirar projeções e recuperar partes dissociadas do <em>Self</em>; trabalhar complexos de culpa, autocrítica e responsabilidade excessiva; reconstruir o senso de merecimento e a capacidade de confiar na própria percepção; restaurar o vínculo com o corpo e regular o sistema nervoso. A saída do abuso é, portanto, um processo de individuação que exige paciência, segurança e apoio consistente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O fenômeno do abuso não pode ser compreendido apenas no nível individual: ele revela a ferida cultural do feminino, produzida pelo patriarcado e perpetuada por normas, expectativas e discursos que desvalorizam o <em>Eros</em>, a sensibilidade e a autonomia da mulher. É necessário reconhecer que o patriarcado atua como complexo cultural, moldando subjetividades e condicionando formas de amar. Superar essas estruturas requer uma mudança coletiva de valores, na qual a voz feminina — interna e externa — possa emergir, ser ouvida e legitimada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-saida-de-uma-relacao-abusiva-nao-e-apenas-ruptura-e-renascimento" style="font-size:18px">A saída de uma relação abusiva não é apenas ruptura, é renascimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a mulher recupera sua voz, seus limites e sua capacidade de confiar em si, bem como, quando ela aprende a ocupar espaço e confiar na sua percepção, ela restaura o princípio feminino em sua dignidade original. Esse processo é ao mesmo tempo individual e coletivo, pois cada mulher que se liberta abre caminho para outras. Que este conhecimento sirva como instrumento de cura, de despertar e reconexão com o <em>Self,</em> para que o feminino — em todas as suas formas — volte a ocupar seu lugar sagrado na psique e no mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Que este conhecimento possa servir não apenas como reflexão acadêmica, mas como instrumento de cura, de despertar, de renascimento, de restabelecimento da autoestima, de desenvolvimento da autonomia e da integração dos princípios feminino e masculino em cada um de nós.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-de-faria-guaratini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-de-faria-guaratini/">Paula de Faria Guaratini – Analista em Formação pelo IJEP</a></strong><br><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. v. 7/2. Petrópolis: Vozes, 2013.<br>______<em>Arquétipos e o Inconsciente Coletivo</em>. v. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2017.<br>______<em>A Prática da Psicoterapia</em>. v. 16/1. Petrópolis: Vozes, 2006.<br>______<em>A Natureza da Psique</em>. v. 8/2. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>Ab-reação, Análise dos Sonhos e Transferência. v. 16/2. </em>Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como o grito do feminino ferido</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-silencio-pesado-da-alma-a-obesidade-como-o-grito-do-feminino-ferido/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fernanda Biscalquim de Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 21:37:17 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como grito do feminino ferido. O corpo não mente o que a psique tenta esconder: segundo a Psicologia Analítica, a obesidade pode ser interpretada como um mecanismo de defesa da psique feminina contra a rigidez da consciência. Analisamos como, simbolicamente, a gordura atua como proteção contra um Complexo, sugerindo que o excesso físico é o reflexo do peso não suportado na alma. O convite é cessar a guerra contra o corpo, para então acolher o tirano interno e permitir-se sentir o feminino.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como grito do feminino ferido. O corpo não mente o que a psique tenta esconder: segundo a Psicologia Analítica, a obesidade pode ser interpretada como um mecanismo de defesa da psique feminina contra a rigidez da consciência. Analisamos como, simbolicamente, a gordura atua como proteção contra um Complexo, sugerindo que o excesso físico é o reflexo do peso não suportado na alma. O convite é cessar a guerra contra o corpo, para então acolher o tirano interno e permitir-se sentir o feminino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-nao-mente-o-que-a-psique-tenta-esconder" style="font-size:19px"><strong>O Corpo não mente o que a Psique tenta esconder</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Há um tipo de silêncio que pesa. Não é a quietude da paz, mas o silêncio das coisas não ditas, das dores engolidas junto com o jantar, dos desejos que sufocamos para caber no mundo. Na nossa era contemporânea, acostumamo-nos a olhar para a obesidade e ver apenas números. Reduzimos a complexidade da vida humana a uma simples equação fria: calorias que entram menos calorias que saem. Ou, num julgamento ainda mais cruel, patologizamos o corpo gordo como uma falha moral, um atestado de preguiça ou falta de vergonha.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Mas o corpo não mente. Ele é o terreno mais honesto que habitamos. A nossa boca pode sorrir enquanto o coração chora; a nossa mente pode racionalizar que &#8220;está tudo bem&#8221; enquanto o mundo desaba. Mas o corpo? Ele não tem essa diplomacia. Ele materializa a verdade. Ele desenha, em volume, o mapa exato do que a psique não consegue verbalizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao mergulharmos na Psicologia Analítica, especialmente sob a luz de Carl Gustav Jung e da análise profunda de Marion Woodman, somos convidados a tirar os óculos do preconceito e colocar os óculos da alma. Sob essa perspectiva, percebemos que o excesso de peso em mulheres transcende a biologia: ele é um símbolo vivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-reflexao-que-trago-aqui-nasce-de-uma-inquietacao-urgente" style="font-size:19px">Esta reflexão que trago aqui nasce de uma inquietação urgente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vejo uma cegueira coletiva que trata o sintoma — a gordura — com bisturis, injeções e dietas de fome, enquanto ignora solenemente o sofrimento da alma que habita aquele corpo. Existe uma &#8220;desnutrição do feminino&#8221; acontecendo e, paradoxalmente, ela se manifesta pelo excesso de peso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Penso que a obesidade feminina, em muitos casos, funciona como um mecanismo de defesa antiquado e desesperado. É uma resposta a um ataque interno. Existe um tirano na mente — um complexo usurpador e castrador — que exige perfeição, produtividade e uma frieza desumana. O corpo, na tentativa heroica de sobreviver a esse ataque e proteger a essência feminina vulnerável, cria uma armadura: uma capa de gordura protetora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Acredito, portanto, que a cura não reside na simples eliminação do peso corporal — o que poderia ser apenas mais uma imposição desse complexo tirânico —, mas na retomada da consciência do Feminino e no acolhimento desse complexo, transformando-o de algoz em aliado. É fundamental reconhecer o sofrimento emocional guardado no corpo, buscando a cura através do acolhimento, e não da luta contra si mesma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-unilateralidade-da-consciencia-a-mente-que-esqueceu-de-sentir" style="font-size:19px"><strong>A Unilateralidade da Consciência: A mente que esqueceu de sentir</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para compreender a dinâmica da obesidade emocional, essa &#8220;fome que não passa&#8221;, é indispensável revisitar a estrutura da psique descrita por Jung. O problema central da mulher moderna provavelmente reside na unilateralidade da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estamos imersos em uma cultura que exige luz e heroísmo o tempo todo. É um cenário onde a razão, a pressa e a aparência perfeita valem mais que tudo. E, nesse processo, desprezamos a natureza, o ritmo lento, o instinto e a sabedoria. Criou-se uma quebra profunda entre a nossa base instintiva (os desejos do corpo, as emoções) e as demandas rígidas da coletividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando a mente racional tenta silenciar a sabedoria biológica para se adequar a padrões externos, gera-se uma fragmentação interna insustentável. A mulher começa a viver &#8220;do pescoço para cima&#8221;. O corpo vira uma máquina que deve funcionar e não incomodar. Mas a psique, como a natureza, busca equilíbrio. A mulher obesa vive essa cisão de forma dramática: sua consciência rejeita o corpo, sente vergonha dele, tenta escondê-lo. E o que o inconsciente faz? Ele hipertrofia o corpo como compensação. É como se a alma gritasse: &#8220;Você tenta me fazer invisível, então eu serei enorme até que você seja obrigada a olhar para mim.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A premissa junguiana de que a psique possui uma realidade autônoma nos convida a ler o sintoma como um mensageiro. A obesidade, em meu ver, pode ser a linguagem dramática que o inconsciente encontra para dialogar com a rigidez mental. O corpo obeso não é um erro biológico, mas a concretização da Sombra; ele dá visibilidade e volume aos aspectos vitais da personalidade que foram exilados da consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-alerta-sobre-o-peso-moral-dessa-tarefa" style="font-size:19px"><strong>Jung nos alerta sobre o peso moral dessa tarefa:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">&#8220;A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade.” (Jung, O.C. 9/2, §14).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A gordura carrega a densidade dessa Sombra. Ela dá forma concreta àquilo que a mulher não se permite viver. A mulher &#8220;boazinha&#8221;, que nunca diz não, engole a raiva. A mulher &#8220;produtiva&#8221;, que nunca descansa, engole o desejo de prazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesses episódios de compulsão, ocorre uma dissociação momentânea. A &#8220;boa menina&#8221; sai de cena e o instinto faminto assume o comando para compensar a rigidez da consciência. A comida torna-se um símbolo de união distorcida com a vida. O verdadeiro &#8220;esforço moral&#8221;, como sugere Jung, reside em retirar a projeção da comida e encarar a fome simbólica da alma. É a coragem de perguntar: &#8220;Do que eu tenho fome?&#8221;. É a coragem de nutrir-se de sentido, para que o corpo não precise mais carregar o peso físico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-gordura-como-muralha-protetora-do-feminino" style="font-size:19px"><strong>A gordura como muralha protetora do Feminino</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A base da minha argumentação apoia-se na genialidade de Marion Woodman. Em sua obra A Coruja era Filha do Padeiro, ela estuda a obesidade não como gula, mas como medo. Um medo profundo de ser ferida. Ela define o fenômeno e sua função protetora com precisão:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>&#8220;Num nível, sua gordura a protege dos homens. Seu animus negativo a afasta do mundo, pondo-a num casulo. [&#8230;] A criança feminina interior precisa do corpo gordo para proteger-se de todo homem feito, bem como da responsabilidade do sentimento feminino maduro.&#8221; — (Woodman, Marion. A Coruja era Filha do Padeiro. p. 131-132).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vamos nos deter nessa imagem do &#8220;casulo&#8221;. A partir desse ponto, penso que seria possível afirmar que a gordura atua, metaforicamente, como o muro de um castelo medieval.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Muitas mulheres que lutam com o peso carregam dentro de si uma &#8220;fome de Mãe&#8221; — do arquétipo que nutre, acolhe e aceita incondicionalmente. Quando esse princípio é ferido, instala-se um vazio voraz no peito. E quem vive dentro desse vazio? Frequentemente, a <em>Puella Aeterna</em> (a eterna menina). Imagine uma princesa interior, extremamente sensível, criativa, espiritualizada, mas frágil como vidro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sem essa armadura adiposa, essa essência feminina sentir-se-ia aniquilada pelas exigências cruéis de um mundo patriarcal ou de uma psique interna dominada pelo patriarcado. O corpo grande é o escudo que permite a essa <em>Puella</em> sobreviver, refugiando-se na densidade da matéria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Num nível prático, a gordura &#8220;dessexualiza&#8221; a mulher aos olhos da cultura padrão, protegendo-a de olhares que ela talvez não saiba como lidar. A gordura cria uma distância física, um abismo entre ela e o outro. Esse excesso de corpo atua como uma âncora pesada que impede que a personalidade frágil &#8220;voe&#8221; e se desintegre diante das pressões externas. A gordura diz: &#8220;Eu sou sólida, eu existo, ninguém me derruba&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-o-animus-o-tirano-interior" style="font-size:19px"><strong>Será o <em>Animus</em> o Tirano interior?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Aqui adentramos o ponto crucial e mais doloroso do estudo: o papel do <em>Animus</em> negativo. Jung define o Animus como o componente masculino na psique feminina, responsável pelo Logos (discernimento, espírito, foco). No entanto, quando não integrado, ele deixa de ser um parceiro interno e se torna um &#8220;<em>Animus</em> Usurpador&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ele ocupa o lugar do Ego e governa a psique com opiniões coletivas rígidas e impessoais. Em <em>O Eu e o Inconsciente</em>, Jung adverte sobre essa possessão:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>&#8220;O animus parece uma assembleia de pais e outras autoridades, que formula opiniões incontestáveis e “racionais”, ex cathedra.&#8221;</em> — (Jung, C.G., §332).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Talvez possamos dizer que a mulher obesa está frequentemente &#8220;possuída&#8221; por esse tribunal interno. É uma voz que não descansa. Ela acorda com o <em>Animus</em> e vai dormir com ele. A voz diz: <em>&#8220;Você deveria ser magra&#8221;, &#8220;Olha o tamanho dessa barriga&#8221;, &#8220;Você não tem força de vontade&#8221;, &#8220;Você é uma fracassada&#8221;, &#8220;Ninguém vai te amar assim&#8221;.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse tirano ataca o corpo feminino, tratando-o como um objeto a ser esculpido à força, como se a carne fosse inimiga do espírito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E qual a resposta do corpo a essa ditadura? A Enantiodromia — a lei reguladora da psique que dita a reversão dos opostos. A natureza odeia extremos. Quanto mais o <em>Animus</em> impõe a dieta rígida na segunda-feira, a restrição calórica e a frieza, mais o instinto oscila violentamente para o extremo oposto na sexta-feira à noite: a compulsão, o caos, o excesso e o abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É uma guerra civil psíquica. De um lado, o general tirano (<em>Animus</em>); do outro, a rebelde faminta (Sombra). E a gordura? A gordura é a trincheira de resistência do feminino. O corpo cresce para resistir à tentativa de aniquilação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-dai" style="font-size:19px"><strong>&#8220;E Daí?&#8221;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante desses fatos, questiono: Qual a relevância prática de identificar o <em>Animus</em> negativo no estudo das causas da obesidade? A implicação é avassaladora, pois aponta a falência completa dos modelos atuais de emagrecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Minha crítica é que dietas restritivas e abordagens comportamentalistas focadas apenas no controle – no estilo “feche a boca e malhe&#8221;, ou “você precisa aplicar a caneta emagrecedora” – são, na verdade, ferramentas do próprio <em>Animus</em> controlador.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando um profissional de saúde, ou a própria mulher, prescreve rigidez a uma alma que já é tiranizada internamente pela própria rigidez, estamos colocando “lenha na fogueira”. Estamos alimentando a dissociação entre corpo e alma, não a curando. Estamos dando mais armas para o tirano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Percebo uma disparidade na abordagem multidisciplinar. Trata-se a gordura como inimiga, quando ela é mensageira. Tentar emagrecer uma mulher sem antes despotencializar seu <em>Animus</em> negativo é uma violência psíquica. O &#8220;efeito sanfona&#8221; não é falta de “vergonha na cara”; é o triunfo da natureza instintiva que derruba o regime do tirano para poder respirar. O corpo engorda de novo para se proteger da frieza da dieta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Precisamos mudar o modelo: de uma &#8220;estética do controle&#8221; para uma &#8220;ética do cuidado&#8221;. Transformar o corpo de um campo de batalha em um <em>Temenos</em>: um espaço sagrado e inviolável onde a alma pode habitar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-acolhimento-e-despotencializacao-o-caminho-da-cura" style="font-size:19px"><strong>Acolhimento e Despotencialização: O Caminho da Cura</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como, então, se dá a cura? Se a guerra não funciona, o que funciona? A proposta não é o aniquilamento do <em>Animus</em>, mas a sua transformação de Usurpador em Mediador. O Logos deve servir ao Eros. A mente deve servir ao amor, não o contrário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Woodman</strong> enfatiza que a cura passa pela concretização e pelo ritual. O corpo entende rituais, não conceitos abstratos. Em vez de lutar abstratamente contra o peso, a mulher é convidada a criar rituais de autocuidado que honrem o feminino rejeitado. Em <em>O Vício da Perfeição</em>, a autora explora como o ritual pode transformar o &#8220;demoníaco&#8221; (a compulsão cega) em &#8220;sagrado&#8221; (a celebração da vida).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-envolve-retirar-a-projecao-de-autoridade-da-comida-e-devolve-la-ao-proprio-self" style="font-size:19px">O processo envolve retirar a projeção de autoridade da comida e devolvê-la ao próprio Self. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isso exige diálogo interno, muitas vezes através da imaginação dirigida. É preciso sentar-se com esse <em>Animus</em> tirano e dizer: <em>&#8220;Eu te ouço, mas você não manda mais aqui&#8221;</em>. É preciso dar voz à <em>Puella</em>, à menina interior, e perguntar o que ela realmente quer. Talvez ela não queira um bolo; talvez ela queira pintar, dançar, dormir ou apenas chorar num colo seguro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao invés de obedecer cegamente às ordens do <em>Animus</em> negativo, a mulher aprende a questionar suas exigências de perfeição e a proteger sua criança interior de forma consciente. Quando ela aprende a defender sua própria sensibilidade, ela não precisa mais recorrer à gordura como escudo literal. O muro de gordura pode ser desmontado, tijolo por tijolo, porque agora existe uma fronteira psíquica segura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung fala sobre a Função Transcendente que dá uma terceira saída no conflito dos opostos. Na mulher obesa, essa saída acontece quando ela para de comer suas emoções e passa a usar sua voz e sua criatividade para expressar sua fome de vida. O caminho da cura é parar de projetar o sagrado na comida — como quem busca a redenção num pedaço de chocolate — e passar a ter um encontro real, consciente e prazeroso com a própria vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-resgate-do-sagrado" style="font-size:19px"><strong>O Resgate do Sagrado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao final desta reflexão, enxergo na obesidade não um fracasso, mas uma tentativa heroica e ao mesmo tempo trágica de sobrevivência. Talvez a nossa visão de mundo precise mudar para compreender que a gordura, tão demonizada, muitas vezes &#8220;salvou&#8221; a vida psíquica de muitas mulheres, impedindo uma fragmentação psicótica ou um colapso total. Há uma sabedoria no sintoma. O corpo fez o melhor que podia nas circunstâncias que tinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Anseio aprendermos a acolher o peso como parte essencial da transformação — um tempo de casulo — e não apenas como algo errado que precisa ser arrancado à força.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em síntese, a obesidade é o grito do feminino ferido que exige ser ouvido. A gordura que serve como um casulo protetor para a <em>Puella</em> contra um complexo que usurpou o trono da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A principal contribuição deste estudo é a inversão da lógica de tratamento: paramos de lutar contra a gordura e começamos a lutar pela alma. A despotencialização do <em>Animus</em> negativo ocorre pelo acolhimento e pela educação desse aspecto interno. O caminho da cura exige voltar a sentir o feminino e respeitar a inteligência do corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Deixo uma pergunta, não para ser respondida, mas para reverberar na alma: <strong>Se o peso que carregamos no corpo for apenas o reflexo do peso que não suportamos carregar na alma, o que aconteceria se, pela primeira vez, tivéssemos a coragem de largar o fardo da perfeição e simplesmente SER?</strong></p>



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<iframe title="Artigo: O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como o grito do feminino ferido" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/GQ0O1zC3Di4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/">Fernanda Biscalquim de Andrade – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata pelo IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion. Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petropólis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________A natureza da psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________O eu e o inconsciente. 27. ed. Petropólis: Vozes, 2015. _____________Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petropólis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WOODMAN, Marion. A Coruja era Filha do Padeiro: um Estudo Revelador Sobre a Anorexia Nervosa, Obesidade e o Feminino Reprimido. São Paulo. Cultrix, 5.ed. 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________O Vício da Perfeição: Compreendendo a Relação entre Distúrbios Alimentares e Desenvolvimento Psíquico. São Paulo. Summus Editorial, 1.ed. 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Subir a Montanha: O Legado da Individuação Feminina</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/subir-a-montanha-o-legado-da-individuacao-feminina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Itala Resende Carvalhal]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Dec 2025 18:24:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[blog ijep]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
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		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nesse poema, a poeta Rupi Kaur nos convida a refletir sobre a responsabilidade de honrar e perpetuar a luta das gerações passadas para que possamos contribuir com a evolução das futuras gerações de mulheres.  Através dele, proponho refletirmos o processo da individuação feminina de forma não apenas pessoal, mas também em seu caráter coletivo e transformador.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>Me levanto sobre o sacrifício de um milhão de mulheres que vieram antes e penso o que é que eu faço para tornar essa montanha mais alta para que as mulheres que vierem depois de mim possam ver além</em>.</p><cite><em>(Legado – Poema de Rupi Kaur)</em></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>Nesse poema, a poeta Rupi Kaur nos convida a refletir sobre a responsabilidade de honrar e perpetuar a luta das gerações passadas para que possamos contribuir com a evolução das futuras gerações de mulheres. Através dele proponho refletirmos o processo da individuação feminina de forma não apenas pessoal, mas também em seu caráter coletivo e transformador.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-mulher-que-se-conhece-se-tornando-aquilo-que-verdadeiramente-e-com-toda-a-sua-forca-sensibilidade-e-potencia-amplia-o-campo-psiquico-do-feminino-arquetipico-nbsp" style="font-size:19px">Cada mulher que se conhece, se tornando aquilo que verdadeiramente é, com toda a sua força, sensibilidade e potência, amplia o campo psíquico do feminino arquetípico.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-segundo-jung-2013-a-individuacao-e-a-realizacao-daquilo-que-e-originalmente-dado-como-totalidade-mas-que-so-pode-tornar-se-consciente-atraves-do-processo-vital" style="font-size:19px">Segundo Jung (2013), “a individuação é a realização daquilo que é originalmente dado como totalidade, mas que só pode tornar-se consciente através do processo vital.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O processo de individuação é a atividade de realização da nossa verdadeira personalidade, na busca pela sua integralidade, pois o sentido onde caminha a nossa existência é ser total e integral. É &#8220;tornar-se si-mesmo&#8221; ou &#8220;realizar-se do si-mesmo&#8221; (Jung, 2015). Para isso, é necessário integrar todos os nossos aspectos, até aqueles dos quais não nos orgulhamos, mas que também fazem parte de quem somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O início desse processo ocorre quando despimos as roupas da persona, nossa máscara social que nos protege, mas que também pode nos aprisionar. Esse desnudamento evidencia o nosso outro lado, a sombra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-assim-um-processo-dinamico-e-muitas-vezes-dolorido-onde-mortes-simbolicas-precisam-ocorrer-para-que-o-nosso-eu-mais-genuino-possa-emergir" style="font-size:19px">É, assim, um processo dinâmico e, muitas vezes, dolorido, onde mortes simbólicas precisam ocorrer para que o nosso eu mais genuíno possa emergir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2008) explica que &#8220;<em>o caminho da individuação significa tornar-se um ser único, na medida que por individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo</em>.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Embora seja a busca da nossa individualidade, em nada se confunde com egoísmo ou individualismo. Só podemos nos conhecer profundamente quando também entendemos que somos um todo. Jung (2015), segue esclarecendo que &#8220;<em>na medida em que o indivíduo humano, como utilidade viva, é composto de fatores puramente universais, é coletivo e de modo algum oposto à coletividade</em>.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim, quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmas, através do autoconhecimento e do resgate do nosso feminino, mais ampliamos o entendimento que permite uma consciência ampliada de que afetamos o coletivo. Jung (2015) afirma que<em> &#8220;É então que podemos constatar que o inconsciente produz conteúdos válidos, não só para o indivíduo, mas para outros: para muitos e talvez para todos</em>&#8220;. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A individuação não é, portanto, um ato isolado. A mulher que &#8220;sobe a montanha&#8221;, que procura se conhecer, fortalecer e caminhar rumo o seu processo de individuação contribui para curar feridas ancestrais e para criar possibilidades de ser no mundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-mulher-carrega-dentro-de-si-a-historia-de-todas-as-mulheres-tornar-se-consciente-disso-e-o-primeiro-passo-da-libertacao-nise-da-silveira-1981" style="font-size:19px"><em>&#8220;<strong>Cada mulher carrega dentro de si a história de todas as mulheres. Tornar-se consciente disso é o primeiro passo da libertação.&#8221; (Nise da Silveira, 1981</strong>)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A montanha é um símbolo universal de desafio e força. O ponto de encontro entre o céu e a terra. O subir a montanha representa a jornada de autoconhecimento e evoca estabilidade e superação. Sua ascensão é representada em muitas culturas como meio de conexão com o divino e da conquista interior: &nbsp;foi sobre uma montanha que Moisés recebeu as leis e que Buda despertou.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nos contos e mitos a montanha é muitas vezes usada como um símbolo para descrever os níveis de consciência que o herói ou a heroína precisa atravessar. A base representa a iniciação, o impulso no sentido de percorrer o caminho da realização do self. A parte central da montanha aparece como um estágio de amadurecimento dos aprendizados e desafios percorridos até então. Mas, também momento de provação, onde surge o cansaço, o perigo do desistir, a parte que nos testa. Já o cume representa o aprendizado consolidado, e a conquista do topo o ponto de encontro com a sabedoria e a plenitude. Na Bíblia, o cume simboliza um lugar de encontro com Deus.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na cultura do montanhismo brasileiro temos o livro do cume que se trata de um caderno, que é guardado no cume de uma montanha para aqueles que lá chegaram possam colocar seu nome e registrar sua conquista. No baralho cigano temos também o simbolismo da montanha&nbsp;representando&nbsp;dificuldades, obstáculos e desafios, tanto externos quanto internos que exigem esforço e persistência para serem superados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na psicologia junguiana, a montanha pode ser compreendida como símbolo do movimento da psique em direção ao Self, o centro organizador da personalidade e expressão da nossa totalidade interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-2008-o-self-e-o-arquetipo-da-ordem-e-da-totalidade-e-o-ponto-mais-alto-e-mais-profundo-da-psique-humana" style="font-size:19px"><strong>Segundo Jung (2008) </strong>&#8220;<strong>O Self é o arquétipo da ordem e da totalidade; é o ponto mais alto e mais profundo da psique humana.</strong>&#8220;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Cada mulher &#8220;torna a montanha mais alta&#8221; ao integrar aspectos sombrios, instintivos e reprimidos de si mesma. Ao escalar a montanha interior, entramos em contato com os nossos instintos, acolhemos nossas mágoas e raivas, curamos nossas feridas e reconhecemos nossa força. Despimos as ilusões e as exigências externas permitindo que sigamos de forma mais autêntica na nossa busca.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O feminino se ergue sobre as dores e conquistas das que vieram antes, sustentando o desejo de fortalecer as que virão. Ao honrar as mulheres que vieram antes, sem permanecer aprisionada às suas dores, a mulher contemporânea ergue novos degraus na montanha simbólica da consciência. Seu processo interior torna-se legado, herança viva para as que ainda virão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao caminhar cada vez mais no seu processo de individuação, a mulher não apenas realiza uma jornada pessoal de autoconhecimento, mas contribui para a ampliação do inconsciente coletivo do feminino, elevando simbolicamente a “montanha” que sustenta essa força.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A jornada de subida, entretanto, não se faz sem o confronto com as sombras. A montanha é também símbolo de desafio, solidão e esforço interior. Assim como o herói ou a heroína dos mitos precisa enfrentar forças obscuras antes de alcançar o cume, a mulher, em seu processo de individuação, é chamada a descer às profundezas do inconsciente, revisitando feridas, memórias e complexos que moldaram o feminino ao longo da história.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O inconsciente coletivo feminino carrega, há séculos, as marcas do patriarcado, com um longo processo de silenciamento, repressão e submissão. A mulher moderna, mesmo vivendo conquistas sociais e intelectuais, ainda se confronta com as heranças emocionais das que vieram antes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-poema-de-nbsp-rupi-kaur-nbsp-reflete-justamente-sobre-a-responsabilidade-de-nos-mulheres-em-honrar-e-perpetuar-a-luta-e-dores-das-geracoes-passadas" style="font-size:19px">O poema de&nbsp;Rupi Kaur&nbsp;reflete justamente sobre a responsabilidade de nós mulheres em honrar e perpetuar a luta e dores das gerações passadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Devemos reconhecer e se sentir gratas pelo caminho percorrido pelas mulheres que vieram antes de nós, transformando gratidão em ação. Honrar a ancestralidade é mais do que reverência, é um ato ativo de continuidade que evidencia o senso de dever e de necessidade de seguir o legado. &nbsp;A &#8220;montanha&#8221; que a poeta quer subir simboliza a voz, atos e caminhos que todas nós devemos percorrer para o avanço dos direitos e oportunidades para as mulheres.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-desejo-que-as-futuras-geracoes-vejam-mais-longe-expressa-a-essencia-do-processo-de-individuacao-um-ato-continuo-que-nao-termina-com-cada-geracao-ou-mulher-mas-na-continua-subida-do-coletivo" style="font-size:19px">O desejo que as futuras gerações &#8220;vejam mais longe’’ expressa a essência do processo de individuação. Um ato contínuo que não termina com cada geração ou mulher, mas na contínua subida do coletivo.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Quando uma mulher decide curar-se, ela transforma-se numa obra de amor e compaixão, já que não se torna saudável somente a si própria, mas também a toda a sua linhagem.</p><cite>BERT HELLINGER</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A mulher é, por natureza, geradora de vida e essa capacidade não se limita ao ato de gerar vida de forma literal, mas também se manifesta em nossas relações, em nossos gestos de cuidado e em nossa capacidade de amar e nutrir. Geramos vida através do nosso servir, da nossa forma de ser doar e amar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-energia-feminina-e-integradora-sabe-unir-opostos-transitar-entre-sensibilidade-e-forca-vulnerabilidade-e-coragem-intuicao-e-acao" style="font-size:19px">A energia feminina é integradora, sabe unir opostos, transitar entre sensibilidade e força, vulnerabilidade e coragem, intuição e ação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao se autoconhecer, a mulher transcende as limitações do ego e se conecta com o &#8220;tempo sagrado&#8221;, revelando uma sabedoria profunda e uma presença que harmoniza opostos. A individuação, nesse sentido, é também, portanto, um ato coletivo, pois cada mulher que desperta, desperta junto o inconsciente das demais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Durante séculos, fomos ensinadas pelo patriarcado a competir entre nós. No entanto, o verdadeiro feminino sabe integrar. Quando nos reunimos, curamos juntas. A força avassaladora de uma mulher vem de dentro, das profundezas do seu ser, e tem o poder de transformar tudo ao redor.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Tudo é possível para as mulheres quando encontramos a nossa voz, honramos a nossa identidade, batalhamos juntas por um objetivo comum e permanecemos de braços abertos aos céus, como a antiga Deusa Mãe, numa postura de orgulho e reconhecimento da sacralidade do feminino.</p><cite>MAUREEN MURDOCK, 2022</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-coletivo-feminino-permite-o-reconhecimento-do-nosso-poder-e-o-honrar-o-nosso-legado-resgata-imagens-positivas-de-mulheres-de-nossos-corpos-de-nossas-vontades-de-nossas-maes-e-avos-recordando-nos-de-que-somos-plenas" style="font-size:19px">O coletivo feminino permite o reconhecimento do nosso poder e o honrar o nosso legado resgata imagens positivas de mulheres, de nossos corpos, de nossas vontades, de nossas mães e avós, recordando-nos de que somos plenas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">“Subir a montanha” é, enfim, uma metáfora para o próprio movimento da psique rumo à individuação. O poema que inspira este artigo nos convoca a reconhecer o sacrifício ancestral não como peso, mas como base sólida sobre a qual podemos erguer uma nova consciência do feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A individuação feminina é um ato de amor e responsabilidade. Amor pelas raízes que sustentam e responsabilidade pelo legado que deixamos. Cada mulher que integra seus opostos, acolhe sua sombra e se reconcilia com o instinto e o sagrado, amplia a visão da montanha para todas as outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Juntas nos curamos!</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Subir a Montanha: O Legado da Individuação Feminina" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/fCFd-zJNuaA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/itala-carvalhal/">Itala Resende – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A Prática da Psicoterapia. Petrópolis, RJ: Vozes. 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Vol. VII/2. Petrópolis, RJ: Vozes. 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Aion. Vol. Petrópolis, RJ: Vozes. 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, Nise Imagens do Inconsciente, 3ª Edição, Tipo, RJ, 1981.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MURDOCK, Maureen, A Jornada da Heroína, Sextante, RJ 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>Do Adversário ao Guia Interior: A trajetória do Animus na vida da mulher [1]</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/do-adversario-ao-guia-interior-a-trajetoria-do-animus-na-vida-da-mulher-1/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Isa Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Dec 2025 21:02:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=11618</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca refletir sobre a dinâmica de construção da relação da mulher (ou de uma consciência identificada com aspectos do feminino) com o arquétipo do animus, buscando visualizar como este se manifesta nas imagens oníricas em diferentes momentos da vida e também como tais imagens colaboram para um maior entendimento e integração de seus conteúdos inconscientes.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo busca refletir sobre a dinâmica de construção da relação da mulher (ou de uma consciência identificada com aspectos do feminino) com o arquétipo do animus, buscando visualizar como este se manifesta nas imagens oníricas em diferentes momentos da vida e também como tais imagens colaboram para um maior entendimento e integração de seus conteúdos inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os três primeiros sonhos, apresentados e discutidos no livro <em>O Caminho dos Sonhos</em>, série de entrevistas de Fraser Boa com Marie-Louise Von Franz, fornecem-nos um panorama muito instigante sobre o caminho de evolução da relação com o animus e da trajetória simbólica da psique feminina, sugerindo uma perspectiva potencialmente orientadora do arquétipo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O quarto e último sonho, presente no livro <em>Os Sonhos e a Morte</em>, também de Von Franz, fornece-nos uma possibilidade de leitura que aponta para a consumação do casamento sagrado entre ambos os aspectos, o feminino e o masculino. Sejam esses aspectos conscientes ou inconscientes – o assim chamado <em><strong>Hierosgamos</strong></em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A série de sonhos a seguir nos convida a pensar no arquétipo do animus tanto como portador de uma maré de violências e desgraças quanto de sabedoria e orientação. Assemelhando-se, assim, ao arquétipo da anima para a psique identificada com aspectos do masculino.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É o animus que leva a mulher a empreender longas jornadas de autoconhecimento, ao mesmo tempo em que pode destruir e dizimar tudo aquilo que está sendo criado ao longo do caminho. É um arquétipo extremamente poderoso na psique feminina.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-vamos-aos-sonhos-da-serie" style="font-size:19px">Mas vamos aos sonhos da série:</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-exemplo-de-sonho-1-sonho-de-uma-inglesa-no-oitavo-mes-de-gravidez" style="font-size:19px"><strong>EXEMPLO DE SONHO 1: SONHO DE UMA INGLESA NO OITAVO MÊS DE GRAVIDEZ</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Nesse sonho eu subia de bicicleta até Pitchcombe Hill e me surpreendia com minha própria energia. Eu estava cheia de vitalidade. Quando cheguei no alto do morro vi nuvens se aproximando, ia cair uma tempestade. Alguns dos homens que estavam comigo sugeriram que esperássemos a chuva passar. Descemos das bicicletas e olhamos para o vale. Vimos lá longe uma grande onda, da qual saía um enorme peixe que veio deslizando pelo chão até nós. Um dos homens disse que o Armagedom se aproximava. Isso me deu um certo pânico, mas também uma sensação confortável porque estava entre amigos e sabia que tudo ia dar certo (</em>VON FRANZ, M. L., 1992, p. 183).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-exemplo-de-sonho-2-sonho-de-uma-jovem-na-primeira-gravidez" style="font-size:19px"><strong>EXEMPLO DE SONHO 2: SONHO DE UMA JOVEM NA PRIMEIRA GRAVIDEZ</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Eu estava no campo e à minha esquerda via uma velha casa de fazenda. Percebi que fazia parte de uma espécie de comunidade rural. Vi alguns cowboys que vinham descendo um morro. Quando chegaram embaixo, começaram a atirar em pessoas que saíam da casa, especialmente mulheres grávidas e crianças. Fiquei perturbada e perguntei o que estavam fazendo. Disseram que a única maneira de ter lucro era livrar-se do excedente de pessoas, que a comunidade podia alimentar a todos, mas que para realmente ter lucro era preciso livrar-se de algumas pessoas. Percebi que provavelmente me matariam também. Entrei na casa e me vesti de cowboy. O problema é que minha barriga estava tão grande que não dava para fechar a calça. Eu estava vestida de cowboy com a barriga aparecendo. Saí da casa sorrateiramente. Olhei para trás e vi que eles jogavam corpos numa fogueira </em>(VON FRANZ, M. L., 1992, p. 184).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-von-franz-faz-uma-analise-realmente-instigante-desses-sonhos-que-de-acordo-com-ela-e-com-o-entrevistador-fraser-boa-trazem-uma-tematica-que-aparece-com-frequencia-em-sonhos-de-mulheres-gravidas" style="font-size:19px">Von Franz faz uma análise realmente instigante desses sonhos que, de acordo com ela e com o entrevistador Fraser Boa, trazem uma temática que aparece com frequência em sonhos de mulheres grávidas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">As figuras ameaçadoras que querem destruir, perseguir ou matar as mulheres, representadas no primeiro exemplo como o enorme peixe e no segundo pelos <em>cowboys</em>. Tais figuras podem representar as muitas situações limiares na vida da mulher, nas quais algo deve ser destruído para que algo novo possa nascer, isto é, uma vida totalmente diferente em todos os sentidos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ambas-as-mulheres-vivem-por-obvias-razoes-isto-e-por-conta-da-gravidez-e-de-todas-as-incertezas-que-tal-estado-comporta-um-momento-de-falta-de-orientacao-e-de-guiamento" style="font-size:19px">Ambas as mulheres vivem – por óbvias razões, isto é, por conta da gravidez e de todas as incertezas que tal estado comporta – um momento de falta de orientação e de guiamento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A leitura de Von Franz é extremamente interessante também no sentido que estabelece pontes com os diversos papéis assumidos pelas mulheres na contemporaneidade, o que as tira do estado de interioridade, contemplação e quietude demandado pelo processo de gestação. Assim como uma nova vida deve ser gestada, também uma nova existência da mulher, um novo desenvolvimento, uma grande mudança, precisam ser gestadas e precisam da introspecção para que a orientação possa emergir a partir da relação com aspectos do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim como na gravidez, que assume um caráter de mudança definitiva na vida de uma mulher, outros momentos requerem e clamam por um processo de interiorização e autorreflexão. No entanto, na maioria das vezes, as mulheres não podem ou não conseguem parar para escutar, sentir, vivenciar plenamente tais momentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Algumas vezes, por medo do sentimento de vulnerabilidade que tais momentos trazem em si e, outras vezes, porque acreditam que toda a sua vida será transformada de modo definitivo e que terão que abrir mão de tudo que construíram ou que queriam construir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No primeiro sonho, uma enorme onda vista de cima, uma tempestade se aproxima, o Armagedom, a batalha final de Deus contra a humanidade, o fim de uma era e de uma existência. Dentro desse cenário, um grande peixe é arrastado pela enorme onda até perto deles. As reações emocionais, de certo modo, estão simbolicamente ligadas às ondas, às marés, às fases da Lua, e uma mulher grávida está intimamente conectada com os movimentos das águas e das emoções. O enorme peixe, a novidade, aquilo que sai do grande oceano e é arrastado para perto dela.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-grande-e-nova-responsabilidade-da-vida-um-ataque-que-emerge-a-partir-do-medo-do-desconhecido" style="font-size:19px">A grande e nova responsabilidade da vida, um ataque que emerge a partir do medo do desconhecido:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Os ataques são ainda piores durante a gravidez porque enquanto não há filhos a mulher ainda pode brincar com a ideia de divórcio, mas quando um bebê está a caminho ela se sente comprometida pelos próximos dez ou quinze anos. E aquele lado rebelde e amante da liberdade da personalidade da mulher se revolta.</p><cite>VON FRANZ, 1992, p. 185</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-no-segundo-sonho-a-mulher-ve-cowboys-que-atacam-e-agridem-gravidas-queimando-as-na-fogueira" style="font-size:19px">No segundo sonho, a mulher vê <em>cowboys</em> que atacam e agridem grávidas, queimando-as na fogueira. Segundo Von Franz, os <em>cowboys</em> simbolizam seu desejo intrínseco por ação e uma vida ativa, que não se alinha com a tranquilidade da gravidez. Embora não sejam representações do mal, destacam o conflito interno entre seu impulso por realizar e o período de introspecção que a gestação requer. Como em todos os momentos de profunda mudança e transição, o chamado para a introspecção entra em cena e imagens de intensa força e significado arquetípicos são observadas nos sonhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim como na anima para o homem, o animus para a mulher, nesses momentos, poderá assumir feições ameaçadoras e destrutivas, perigosas e aventureiras, indicando um excesso de energia para o mundo exterior das conquistas e realizações materiais, mas sem direção ou autocuidado. Ou também um completo exaurimento, resultante das batalhas e agressões internas que ocorrem entre aquilo que a mulher deseja conquistar no mundo exterior e aquilo que faz parte de sua natureza feminina e que clama por espaço e atenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Dependendo do aspecto assumido pelo animus, essas batalhas podem durar muitos anos até que, finalmente, ambas as instâncias da psique consigam conviver em harmonia, cada uma ocupando e germinando o próprio território com tranquilidade e constância, num equilíbrio de importância vital para a realização da mulher.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse momento de harmonia, o animus assume um aspecto completamente diferente na psique feminina. É quando começa a se tornar sua bússola, aquele que apoia, dá sustentação às ações da mulher, direcionamento e sentido. No próximo sonho, vemos um exemplo do animus na psique feminina começando a assumir um aspecto de guia interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-exemplo-de-sonho-3-sonho-de-uma-mulher-na-segunda-metade-da-vida" style="font-size:19px"><strong>EXEMPLO DE SONHO 3: SONHO DE UMA MULHER NA SEGUNDA METADE DA VIDA</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Nesse sonho eu nadava numa caverna muito profunda e escura. A água também era escura. Na extremidade da caverna havia uma rocha enorme. Nessa rocha estava um cachorrinho bege, felpudo, com os olhos de ouro. O animal sorria para mim e eu sabia que ele representava Cristo. Não sei como, mas eu sabia</em> (VON FRANZ, 1992, p. 187).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Von Franz discorre belamente sobre o simbolismo da caverna como sendo as profundezas da terra, da matéria, do nosso corpo e da nossa alma (Cf. VON FRANZ, 1992, p. 187), e ali, onde menos se espera, a sonhadora encontra Cristo, representado por um cachorrinho felpudo. Cristo não está lá fora, na imensidão dos céus, mas sim nas profundezas na terra, na profundidade do próprio ser. É ali que podemos encontrá-lo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-simbologia-do-cachorro-e-seu-processo-de-domesticacao-e-a-importancia-da-forca-instintiva-que-esse-ser-representa-sao-ampliados-por-von-franz-na-sua-analise" style="font-size:19px">A simbologia do cachorro e seu processo de domesticação e a importância da força instintiva que esse ser representa são ampliados por Von Franz na sua análise.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os cães nos dão segurança, seus instintos garantem que as ameaças serão detectadas e combatidas (Cf. VON FRANZ, 1992, p. 188). Ao mesmo tempo, o cãozinho felpudo de olhos dourados do sonho parece estar mais interessado em seu aspecto divino. É um cão que já assumiu o papel de guia, daquele que vai enxergar na escuridão e, de modo tranquilo, sorri para ela, como quem diz: “estou aqui, sou seu guia e tudo vai ficar bem”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Von Franz também destaca o fato do guia interior e suporte da alma da mulher ser visualizado como o Cristo, uma figura masculina ali representada pelo cachorro. Ressalta que, dentro das tradições religiosas e até mesmo culturais do Ocidente, desconsideramos, por não reconhecermos imageticamente, tais características em figuras femininas (Cf. VON FRANZ, 1992, p. 188-9).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>O animus pode vir ao nosso auxílio, vale dizer, pode ser convocado, nos momentos da vida em que se fazem necessárias algumas forças em oposição para gerar a energia necessária para o movimento, mudança e transformação</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ele vem nos apoiar na realização da tarefa do momento e, em sendo bem-sucedido, uma nova regulação acontecerá no eixo ego-Self que permitirá com que o indivíduo, no caso aqui a mulher, ultrapasse mais um desafio e reencontre seu equilíbrio para a grande realização do Self, isto é, para o processo de individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-exemplo-de-sonho-4-a-chegada-2" style="font-size:19px"><strong>EXEMPLO DE SONHO 4: A CHEGADA <a id="_ftnref2" href="#_ftn2"><strong>[2]</strong></a></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para o quarto e último exemplo de sonho, mais uma vez, colhi a inspiração da obra de Marie-Louise Von Franz, intitulada <em>Os Sonhos e a Morte – Uma Interpretação Junguiana</em> (VON FRANZ, M. L., 1990), onde ela cita um dos sonhos de uma série relatada por Jane Wheelwright (WHEELWRIGHT, J., 2022). Trata-se de uma jovem paciente, de nome Sally, de 37 anos, que enfrentou um câncer em estágio avançado na década de 60, época de poucos recursos para o tratamento da doença. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sonho-inicial-considerado-pela-autora-o-mais-importante-do-processo-de-analise-segue-abaixo" style="font-size:19px">O sonho inicial, considerado pela autora o mais importante do processo de análise, segue abaixo:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Cheguei a uma torre suméria com grandes rampas em zigue-zague até o topo. Era também a Faculdade Estadual da Califórnia do Sul, situada um pouco acima da Universidade da Califórnia do Sul. Eu tinha de subir até o topo – era uma provação terrível. Quando cheguei lá, olhei para baixo e vi, na cidade, construções sumérias, românicas, góticas e da antiga Índia. Aberto à minha frente havia um livro grande e requintado. Estava belamente ilustrado com detalhes arquitetônicos daquelas construções, seus frisos e esculturas. Acordei aterrorizada com a altura da torre </em>(WHEELWRIGHT, 2022, p. 28).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A bela torre suméria com grandes rampas em zigue-zague foi considerada por Von Franz, e também por Wheelwright, como uma imagem do Self, porque para os sumerianos, os zigurates &#8211; como eram chamadas essas torres &#8211; eram considerados o centro do mundo, o eixo que liga o céu e a terra. A sonhadora precisaria atingir “um nível muito mais alto de consciência antes de poder morrer” (VON FRANZ, 1990, p. 67).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Wheelwright também considera esse primeiro sonho um exemplo de grande sonho, não só por sua clara alusão a uma edificação que simbolizaria o próprio Self da sonhadora, mas também por seus aspectos histórico-culturais impessoais, pelas imagens que nos remetem a um acervo possível do que Jung denominou de inconsciente coletivo e os processos de desenvolvimento da psique ao longo do tempo (Cf. WHEELWRIGHT, 2022, cap. 3).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O zigurate sumério, com suas rampas em zigue-zague alcançando o ápice (semelhante à montanha, à pirâmide de três lados, à torre, à árvore, à escada de Jacó), é um símbolo ancestral na arquitetura que carrega um significado profundo e intricado. Supõe-se que tenha suas origens no período Neolítico, durante a era matriarcal suméria, pois no topo do zigurate, era realizado o ritual simbólico do matrimônio entre a divindade masculina e feminina. Durante esse período, a sacerdotisa, personificando a deusa, liderava o ritual, unindo-se a um filho ou a um jovem, que depois era sacrificado (Cf. WHEELWRIGHT, 2022, cap. 3).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-trata-se-de-um-sonho-cosmico-sonho-de-espaco-ordenado-intimando-a-consumacao-do-casamento-sagrado-o-hierosgamos-wheelwright-2022-p-29-o-objetivo-final-da-individuacao-von-franz-1990-p-67" style="font-size:19px">Trata-se de “um sonho cósmico, sonho de espaço ordenado, intimando a consumação do casamento sagrado – o Hierosgamos” (WHEELWRIGHT, 2022, p. 29), “o objetivo final da individuação” (VON FRANZ, 1990, p. 67).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O casamento sagrado, a totalidade, a necessidade de começar a vislumbrar a própria psique como algo que vai muito além do ego, do centro da consciência. O centro então é deslocado e é posicionado num nível mais alto, num local para onde ela deve se direcionar com muito esforço para o ritual final de união dos diferentes aspectos psíquicos:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela ascende a essa altíssima estrutura central que, como a árvore cósmica ou o pilar central, liga o céu e o inferno à terra. O esforço supera a experiência comum, vai além dos limites da vida humana e, talvez, do confronto com a morte. Se, através da análise, ela se esforçar conscientemente para alcançar o objetivo que o sonho aponta, terá necessariamente de embarcar em uma árdua e vertiginosa escalada. O possível caos subsequente seria aterrorizante, por isso não é de admirar que ela fique com medo (WHEELWRIGHT, 2022, p. 29).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No entanto, após o terrível esforço que consome muito da sua própria energia, a sonhadora se depara com um mapa, o livro majestoso e detalhado, ornado com ilustrações precisas dos elementos arquitetônicos das construções, que poderá atuar como seu guia interior. Ele, o animus, seria o intermediário entre ela e a cidade-Self interior, regulando o eixo para as trocas necessárias à jornada de sua última iniciação, considerando a preparação para a morte também como uma iniciação, onde a força orientadora do animus indicará o caminho espiritual para assimilar o significado dos imponentes símbolos do inconsciente que emergem no sonho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-faz-se-necessario-mais-uma-vez-e-desta-vez-talvez-seja-a-ultima-um-redimensionamento-do-ego-para-que-ele-possa-perceber-sua-limitacao" style="font-size:19px">Faz-se necessário, mais uma vez, e desta vez talvez seja a última, um redimensionamento do ego, para que ele possa perceber sua limitação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A sonhadora sente o medo do desconhecido, mas percebe que poderá contar com o auxílio de seu guia interior, o livro, o espírito, o depositário de algo muito mais amplo do que sua própria experiência pessoal de vida e morte do ego:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Psicologicamente, podemos compreender esse processo como uma transformação do egocentrismo em consciência do ego. Todos os nossos impulsos sombrios levam a um egocentrismo do desejo, do afeto e da vontade. A todo custo, a pessoa quer conseguir o que deseja, geralmente de modo infantil. Se o ego for capaz de tomar consciência desses impulsos e subordiná-los ao Self (ao “deus interior”), sua ígnea energia se transforma na descoberta da sua identidade. O ego então se conscientiza do seu limite; o caixão de chumbo, que parece confinar, se transforma num vaso místico, num sentimento de estar sendo preservado e “contido.</p><cite>VON FRANZ, 1990, p. 38</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vemos-no-sonho-muitos-opostos-sendo-colocados-lado-a-lado-o-velho-e-o-novo-ocidente-e-oriente-o-religioso-e-o-secular-o-feminino-e-o-masculino" style="font-size:19px">Vemos no sonho muitos opostos sendo colocados lado a lado: O velho e o novo, Ocidente e Oriente, o religioso e o secular, o feminino e o masculino. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Wheelwright considera que a justaposição dos opostos, especialmente de símbolos tão poderosos, refere-se a momentos de muito sofrimento e depressão, aos momentos de embates de forças internas (Cf. WHEELWRIGHT, 2022, cap. 3).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A morte, representando simbolicamente tanto a travessia final quanto a chegada a um novo ponto de partida, paradoxalmente, tem o potencial de abertura para novas existências: o que parece o fim absoluto é apenas o fim dos desejos e impulsos do ego que devem, finalmente, se inquinar diante do “guia interior”, e confiar na sua imensa sabedoria e capacidade de criação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A trajetória do animus na consciência feminina pode ser compreendida como um rito de passagem interior, no qual a mulher, ao atravessar as fases em que esse arquétipo se apresenta através das imagens oníricas como força crítica, opressiva ou sedutora, é chamada a transformar o conflito em aprendizado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-no-inicio-se-manifesta-como-figuras-adversarias-impondo-limites-e-resistencia-e-ate-oferecendo-perigo-aos-poucos-revela-se-como-energia-estruturante-cuja-funcao-e-desafiar-a-consciencia-a-expandir-se" style="font-size:19px">O que no início se manifesta como figuras adversárias, impondo limites e resistência, e até oferecendo perigo, aos poucos revela-se como energia estruturante, cuja função é desafiar a consciência a expandir-se.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse processo, cada confronto carrega em si a possibilidade de transmutação: a voz que julgava passa a sustentar discernimento, a rigidez que aprisionava abre-se em direção à liberdade criativa e o poder, que parecia dominar, converte-se em impulso para a realização autêntica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando integrado, o animus torna-se um guia interior — não mais um inimigo a ser combatido, mas uma presença que ilumina o caminho, aponta direções e conecta a mulher com sua própria totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa evolução não simboliza apenas a superação de uma polaridade interna, mas a conquista de uma consciência mais ampla, capaz de unir razão e imaginação, firmeza e entrega, mundo interno e vida concreta. Assim, o animus revela-se como ponte viva para o Self, conduzindo a mulher a habitar sua essência com plenitude, clareza e coragem.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo - Do Adversário ao Guia Interior: A trajetória do Animus na vida da mulher" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/PyjB3OJfjP4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/isacarvalho/">Isa Carvalho – Membro Analista pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/">Lilian Wurzba – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:17px"><strong>Referências Bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, M.L. <em>O Caminho dos sonhos.</em> São Paulo: Cultrix, 1992.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, M.L. <em>Os Sonhos e a Morte: </em>Uma Interpretação Junguiana.<em> </em>São Paulo: Cultrix, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WHEELWRIGHT, J. H. <em>Em busca da vida</em>. São Paulo: Paulus, 2022.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Conceito desenvolvido por Jung que corresponde à contraparte masculina presente na psique do sujeito que se identifica com aspectos do feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Título do sonho livremente atribuído pela autora do presente artigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Tapa de amor dói sim!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tapa-de-amor-doi-sim/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2025 23:21:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[barba azul]]></category>
		<category><![CDATA[codependência]]></category>
		<category><![CDATA[dependência emocional]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
		<category><![CDATA[Patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=11517</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-e-noticiada-todos-os-dias-nas-midias-sociais-e-nos-canais-de-telecomunicacao" style="font-size:19px">A violência é noticiada todos os dias nas mídias sociais e nos canais de telecomunicação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E parte nos comove e em outra medida nos mostra nossa insensibilidade ou normalização em relação à violência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNS, 2019), no Brasil, um contingente de 29,1 milhões de pessoas sofreu violência física, psicológica ou sexual em 2019; a violência atingiu 19,4% das mulheres e 17,0% dos homens. Companheiros, ex-companheiros ou parentes são os principais agressores das mulheres que sofreram violência física (52,4%), psicológica (32,0%) e violência sexual (53,3%). O domicílio é o principal local da agressão das mulheres. A violência sexual gerou consequências psicológicas (60,2%), físicas (19,4%) e sexuais (5,0%) para as vítimas. A pesquisa mostra&nbsp;que a violência atinge mais as mulheres, os jovens, as pessoas pretas ou pardas e a população de menor rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O espírito da época contemporânea é atravessado por recursos tecnológicos e midiáticos que evoluíram sobremaneira nos últimos 50 anos. Isso não significa que os utilizamos de maneira adequada. No Brasil (IBGE, 2021), a sensação de vitimização média a alta para situações que envolvam fotos, vídeos ou conversas divulgadas na internet contra sua vontade foi maior para o grupo etário de 25 a 39 anos. Ou seja, a violência não se restringe a presença do agressor(a) no ambiente físico, virtualmente existem riscos que precisam ser mais bem estudados para aprendermos a nos proteger, criar regulamentações e políticas públicas necessárias. Tudo é novo e ao mesmo tempo velho, pois a violência não é algo novo, mas uma construção histórica e cultural.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-historicamente-a-violencia-contra-as-mulheres-foi-respaldada-pelos-contextos-religiosos-e-patriarcais-conforme-ensina-borges-2020" style="font-size:19px">Historicamente, a violência contra as mulheres foi respaldada pelos contextos religiosos e patriarcais, conforme ensina BORGES (2020):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A Idade Média foi considerada por muitos historiadores como a Idade das Trevas, uma época de muita perseguição religiosa, várias doenças e ataques entre povos, porém foi nessa época que as mulheres conquistaram acesso a grande parte das profissões e também ao direito de propriedade, porém subjugadas como podemos destacar no trecho do livro MALLEUS MALEFICARUM:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>[..] convém observar que houve uma falha na formação da primeira mulher, por ter sido ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela do peito, cuja curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão do homem. E como, em virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre decepciona e mente (KREMER, SPRENGER 1991, pag. 116).</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As mulheres deste período eram muito desvalorizadas, pois a sociedade era toda centralizada na figura do homem, porém com as guerras, doenças e perseguições a expectativa de vida desse período tornou-se muito baixa. Decorrente desses fatos as mulheres tornavam-se viúvas de forma precoce, assim tinham que assumir como chefe de família. Entretanto, a participação das mulheres durante a Idade Média foi ainda mais concisa por meio de mulheres de destaque que estudaram em universidades e que participaram da vida política da época, exemplos como de Hilda de Whitby que fundou vários mosteiros e conventos pela Europa, da Duquesa da Aquitânia que lecionou e governou o feudo junto ao seu marido, e um dos maiores exemplos da história Joana D’arc.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Joana D’arc é uma das mais ilustres figura da história francesa, nasceu no período da Idade Média, em uma época bastante conturbada e sem muito espaço para manifestação do pensamento feminino. Essa valente figura rompeu com os paradigmas impostos pela sociedade, vestia roupas masculinas e possuía uma forte personalidade.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante dos dados expostos, fica evidente que a violência contra as mulheres é muito mais que apenas um problema cultural e localizado, mas uma inferência de que o corpo feminino é menos valioso que o masculino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-patente-que-a-mulher-vem-sendo-diminuida-enquanto-ser-humano-por-ser-taxada-de-suja-fragil-emocional-esses-dados-remontam-como-visto-acima-uma-trajetoria-de-milhares-de-anos" style="font-size:19px">É patente que a mulher vem sendo diminuída enquanto ser humano, por ser taxada de “suja”, “frágil”, “emocional”. Esses dados remontam, como visto acima, uma trajetória de milhares de anos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A persistência da violência contra as mulheres no Brasil segue sendo uma das expressões mais alarmantes das desigualdades de gênero no país. Em mais um ano, os dados do sistema de saúde revelam números elevados de homicídios femininos e de agressões a mulheres, evidenciando a continuidade desse fenômeno estrutural. A despeito das políticas públicas implementadas nas últimas décadas e dos avanços normativos – como a atualização da Lei do Feminicídio (Lei nº 14.994), em 2024 –, a letalidade feminina, especialmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade, segue como um problema público grave, e que, só em 2023, matou quase 4 mil mulheres (IPEA, 2025). Isso representa 4 mulheres mortas diariamente em consequência do feminicídio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-de-conquista-feminina-no-pais-com-as-normativas-de-lei-do-feminicidio-e-lei-maria-da-penha-sao-muito-atuais-sendo-promulgadas-em-2006-e-2015-respectivamente" style="font-size:19px">A história de conquista feminina no país com as normativas de Lei do Feminicídio e Lei Maria da Penha são muito atuais, sendo promulgadas em 2006 e 2015, respectivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isso significa que, anteriormente a 2006, essas violências não eram tratadas como uma violência direcionada à mulher pelo simples fato de ser mulher. Infelizmente, o Brasil ainda é um país com muitas subnotificações, tornando os dados aproximados com relação aos abusos sofridos e às marcas deixadas ao longo dos anos. Cabe ainda, relembrar que durante o período escravista no Brasil, a Lei do Ventre Livre, que estabelecia que os filhos nascidos de mães escravas seriam livres foi promulgada em 28 de setembro de 1871, apenas 17 anos antes do fim da escravidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-falamos-de-uma-populacao-mais-vulneravel-falamos-especialmente-de-mulheres-pretas-ou-pardas-com-baixos-salarios-poucos-direitos-trabalhistas-acesso-a-bens-e-servicos-restritos-a-sua-condicao-economica-como-mulheres-nessas-condicoes-sao-assistidas-quando-em-condicoes-de-violencia-domestica-e-abusos-spivak-celebre-autora-argumenta-se-o-subalterno-pode-falar-se-ele-a-tem-voz-para-spivak-2010-p-13-14-o-termo-subalterno-refere-se-as-camadas-mais-baixas-da-sociedade-constituidas-pelos-modos-especificos-de-exclusao-de-mercados-da-representacao-politica-e-legal-e-da-possibilidade-de-se-tornarem-membros-plenos-no-estrato-social-dominante" style="font-size:19px">Quando falamos de uma população mais vulnerável, falamos especialmente de mulheres pretas ou pardas com baixos salários, poucos direitos trabalhistas, acesso a bens e serviços restritos a sua condição econômica. Como mulheres nessas condições são assistidas quando em condições de violência doméstica e abusos? Spivak, célebre autora, argumenta se o subalterno pode falar, se ele(a) tem voz? Para Spivak (2010, p. 13-14) o termo subalterno refere-se “às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão de mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-atlas-da-violencia-2025-fornece-um-retrato-alarmante-e-preciso-da-violencia-de-genero-no-brasil-mulheres-continuam-sob-grave-ameaca-especialmente-dentro-de-casa-com-impacto-diferenciado-sobre-mulheres-negras-e-jovens" style="font-size:19px">O <em><strong>Atlas da Violência 2025</strong></em> fornece um retrato alarmante e preciso da violência de gênero no Brasil: mulheres continuam sob grave ameaça, especialmente dentro de casa, com impacto diferenciado sobre mulheres negras e jovens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A combinação entre violência letal, formas não letais e subnotificação aponta para a urgência de ações políticas, legais e sociais mais eficazes, ampliando o alcance da proteção e atuando na prevenção desde o ambiente familiar até o contexto estrutural (IPEA, 2025).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre os mamíferos, os chimpanzés e humanos regularmente matam adultos de sua própria espécie. Também compartilham outros males, como assassinatos políticos, espancamentos e estupros. O estupro é um ato comum aos orangotangos machos e gorilas machos matam bebês com muita frequência, embora essa atitude não seja exclusiva dos primatas (Wrangham e Peterson, 1996).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pergunta-se-se-ha-algo-com-os-primatas-que-os-predispoe-a-violencia-e-aos-seres-humanos" style="font-size:19px">Pergunta-se se há algo com os primatas que os predispõe a violência? E aos seres humanos?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-wrangham-e-peterson-1996-p-181-no-livro-o-macho-demoniaco-mostram-que-os-ataques-violentos-dos-chimpanzes-machos-contra-as-femeas-e-um-aspecto-sistematico-e-comum-os-autores-comparam-o-comportamento-dos-humanos-e-dos-chimpanzes-da-seguinte-forma-1-ambos-sao-casos-de-violencia-de-machos-contra-femeas-ou-homens-contra-mulheres-no-caso-humano-2-ambos-sao-exemplos-de-violencia-no-relacionamento-os-machos-conhecem-as-femeas-a-muito-tempo-membros-da-sua-comunidade-e-nao-havia-um-contexto-como-falta-de-comida-ou-aliancas-a-outros-grupos-para-justificar-o-comportamento-3-fatores-superficiais-desencadeiam-a-reacao-mas-a-questao-subjacente-e-o-controle-ou-a-dominacao-da-femea-pelo-macho" style="font-size:19px">Wrangham e Peterson (1996, p. 181) no livro “<strong>O macho demoníaco</strong>” mostram que os ataques violentos dos chimpanzés machos contra as fêmeas é um aspecto sistemático e comum. Os autores comparam o comportamento dos humanos e dos chimpanzés da seguinte forma: <strong>1)</strong> ambos são casos de violência de machos contra fêmeas, ou homens contra mulheres no caso humano; <strong>2)</strong> ambos são exemplos de violência no relacionamento &#8211; os machos conhecem as fêmeas a muito tempo, membros da sua comunidade e não havia um contexto como falta de comida ou alianças a outros grupos para justificar o comportamento; <strong>3)</strong> fatores superficiais desencadeiam a reação, mas a questão subjacente é o controle ou a dominação da fêmea pelo macho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os autores, pautados nas pesquisas com primatas, buscaram a associação entre a violência do macho/homem como fator biológico, instintivo e social. Entretanto, os próprios autores admitem que a complexidade do tema é maior que uma herança geracional, genética ou modulação de comportamentos ao longo da história. Se temos a maldição de um temperamento masculino demoníaco e uma capacidade maquiavélica para expressá-lo, somos também abençoados com uma inteligência que é capaz, através da sabedoria, afastar-nos do passado de grande primata. Se a inteligência é capaz de enxergar, a sabedoria é capaz de ouvir e ver ao longe, ou seja, a sabedoria é a perspectiva futura (WRANGHAM e PETERSON, 1996, p. 315).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-machismo-estrutural-resultado-do-patriarcado-e-a-subordinacao-da-mulher-as-necessidades-dos-homens-ao-longo-de-milenios-e-uma-base-importante-para-atitudes-violentas-e-possessivas-em-relacao-aos-corpos-femininos" style="font-size:19px">O machismo estrutural, resultado do patriarcado, e a subordinação da mulher às necessidades dos homens ao longo de milênios, é uma base importante para atitudes violentas e possessivas em relação aos corpos femininos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa construção de força masculina está mais vinculada à força física. Através da força, homens e animais machos imprimem abusos físicos, psicológicos e sexuais ao sexo oposto. Pensando na imagem arquetípica do masculino, esse seria o lado demoníaco do arquétipo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-2-245-254-menciona-em-sua-obra-a-persona-como-um-fragmento-da-psique-coletiva-comportamentos-ou-papeis-esperados-em-determinado-tempo-e-epoca-incluindo-os-papeis-de-homens-e-mulheres" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (OC 7/2, § 245-254) menciona em sua obra a <strong>persona</strong>, como um fragmento da psique coletiva, comportamentos ou papéis esperados em determinado tempo e época, incluindo os papéis de homens e mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esses papéis são construções sociais, influenciados pela história humana e sua evolução ao longo dos séculos. À medida que aumenta a influência do inconsciente coletivo, a consciência perde seu poder de liderança, e passa a se mover como uma peça de xadrez, à mercê do inconsciente. Esse colapso da consciência e domínio do inconsciente é desastroso ao indivíduo, ele perde o chão, desenraiza. Essa inundação pode ser refletida em paranoia e esquizofrenia, em excentricidade e atitude infantil, apartando-o da sociedade, ou entrando em um processo de restauração regressiva da persona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung, em seu livro “<strong>Aspectos do drama contemporâneo</strong>”, descreve as guerras europeias do século XX como uma onda de primitividade e violência, que seriam a manifestação de &#8220;poderes obscuros&#8221; que se intensificaram durante a Primeira Guerra e atingiram o auge na Segunda, em movimentos como o Nazismo e o Fascismo. Ele afirma que o &#8220;caos e a desordem do mundo&#8221; se refletem de forma semelhante na mente de cada pessoa, e que essa ausência de direção é equilibrada no inconsciente pelos &#8220;arquétipos da ordem&#8221;. A integração dos conteúdos inconscientes é apresentada como uma ação individual de concretização, compreensão e julgamento ético, que exige uma grande responsabilidade moral (§ 449-451).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-do-exposto-muitas-perguntas-ficam-em-suspenso" style="font-size:19px">Diante do exposto, muitas perguntas ficam em suspenso:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Quais complexos estão envolvidos nessa construção coletiva, que incide em diferentes tipos de violências? A violência e a necessidade de dominação podem ser atreladas a uma necessidade compensatória, busca-se dominar o outro na tentativa de se sentir superior? </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ousamos dizer que um estudo sobre o assunto seria muito rico e beneficiaria sobremaneira a humanidade. Entender essa necessidade de poder, especialmente em relação às mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma pesquisa sobre o perfil dos agressores presos em flagrante mostra que são homens adultos jovens em maior percentual, com baixa escolaridade, possuíam uma ocupação e havia relato de passagens pela polícia anteriormente em aproximadamente 30% dos casos, incluindo a própria violência doméstica. É interessante que o tipo de violência se caracteriza de forma distinta em relação ao consumo de substâncias: os agressores que consumiram somente álcool praticam mais violência física (39,7%); os que ingeriram álcool e drogas associados perpetraram mais violência psicológica (30%); e os usuários de drogas isoladas cometeram mais a psicológica (75%) &#8211; (MADUREIRA, et. al., 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estudo feito no Maranhão observou que os atos violentos foram praticados majoritariamente por indivíduos que não têm mais relações afetivas com as vítimas e entre as motivações para a violência destacam-se o inconformismo com o fim da relação, ciúmes, dentre outros (BEZERRA e RODRIGUES, 2021). Em grande parte dos casos, as violências contra a mulher são cometidas no ambiente doméstico, na frente dos filhos, gerando impactos na saúde emocional e psíquica de toda a família (LEITE, et. al., 2015).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-um-ditado-popular-que-diz-violencia-gera-mais-violencia" style="font-size:19px">Existe um ditado popular que diz “<strong>violência gera mais violência</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em ciclos repetitivos de vitimização e agressão, com trocas de papéis ao longo da vida e a reprodução de padrões de conduta, de forma sistêmica. Enquanto não ocorre uma quebra, um repensar, não há mudanças significativas. A relação entre vítima e agressores gera polaridades, e movimentos internos compensatórios se manifestam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-conto-brilhante-que-trabalha-essa-questao-chama-se-barba-azul" style="font-size:19px">Um conto brilhante que trabalha essa questão chama-se Barba Azul. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O <strong>Barba Azul</strong> seduz mulheres, casa com elas e depois as mata, jogando seus restos mortais no porão.Sua tática de sedução, afinal ele não é tão atraente assim, é o poder e dinheiro. Ele conquista a moça e sua família mostrando suas propriedades, seu conforto e o padrão de vida que a moça terá sob sua tutela.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até que um dia ele avisa que tem uma única sala que não pode ser aberta, senão a mataria. E não por acaso, ele entrega todas as chaves da casa para ela enquanto viaja (intencional? Perverso?). Quando volta e descobre que o porão foi aberto num arroubo de curiosidade da mulher, avisa que ela irá morrer. Ela, espertamente, usa de suas habilidades para enrolar o Barba Azul enquanto chama seus irmãos para ajudá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No fim, Barba Azul é morto e despedaçado, e seus pedaços espalhados pelos cantos do mundo. Note que ele nunca é eliminado de vez, ele fica espalhado, com menos energia psíquica, mas está lá, em algum lugar internamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Estudos observam que o manejo do trauma ocorre de maneira mais eficiente para pessoas que usaram de suas habilidades para escapar, se salvar ou resolver a situação</strong>. Quando entram em estado mais passivo ou letárgico, o trauma se instala com uma profundidade maior (LEVINE, 2022). Essa é a ideia do conto do Barba Azul. A única esposa que sobreviveu foi a que teve uma atitude, que lutou para sobreviver com inteligência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Cabe observar ainda, que nesse conto, demonstra-se uma dinâmica psíquica de agressor-vítima, em que a vítima em determinado momento passa a se identificar com o agressor, de forma a permanecer no relacionamento ainda que seja abusivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-esse-assunto-kast-2022" style="font-size:19px">Sobre esse assunto, Kast (2022):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tal &#8220;identificação com o agressor&#8221; é também um conhecido mecanismo de defesa ou de enfrentamento: quando temos medo de alguém, podemos assumir seu ponto de vista, traindo a nós mesmos no processo e assim estabilizando temporariamente nossa autoestima, pois fingimos estar de acordo com o mais forte – nós nos identificamos com o agressor.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-compele-se-dizer-que-as-razoes-que-mantem-as-vitimas-em-relacionamentos-sao-muitas-a-principal-delas-e-a-falta-de-independencia-financeira-contudo-o-agressor-se-nutre-do-medo-da-vitima-numa-tentativa-de-manter-o-controle-em-uma-relacao-desigual" style="font-size:19px">Compele-se dizer que as razões que mantém as vítimas em relacionamentos são muitas. A principal delas é a falta de independência financeira. Contudo, o agressor se nutre do medo da vítima, numa tentativa de manter o controle em uma relação desigual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-significativo-para-pensarmos-essa-questao-seria-a-relacao-de-codependencia-que-se-estabelece-entre-agressores-e-vitimas" style="font-size:19px">Outro ponto significativo para pensarmos essa questão seria a relação de codependência que se estabelece entre agressores e vítimas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Muitas pessoas incorporam uma entidade <strong>salvadora</strong>, capaz de redimir o outro(a) de seus desvios de conduta, como se o seu amor fosse suficiente para a mudança do outro(a). Na verdade, estamos em nossa jornada de autoconhecimento e precisamos nos ver com nossos aspectos sombrios, que nos atravessam para nos ensinar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-temos-em-jogo-sao-carencias-afetivas-e-complexos-constelados-que-nos-aprisionam-a-situacoes-que-nao-sao-saudaveis" style="font-size:19px">O que temos em jogo são carências afetivas e complexos constelados que nos aprisionam a situações que não são saudáveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relação aos homens, o que não pertence à consciência masculina (o não “eu”) é sentido como se não pertencesse ao eu, por isso, a imagem da <em>anima</em> (contraparte feminina) é projetada nas mulheres. Os índices de divórcios cada vez maiores apontam que essa projeção no sexo oposto, ocasiona relacionamentos complicados (JUNG, 9/1, § 61).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <strong><em>anima</em> </strong>é o arquétipo do significado ou sentido, o arquétipo da vida (JUNG, 9/1, § 66). Um homem que se priva de entrar em contato com seu aspecto psíquico feminino está desalmado e sem vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-poder-esta-muito-vinculada-a-imagem-de-homem-em-uma-sociedade-patriarcal-que-estabeleceu-ha-milhares-de-anos-uma-relacao-de-subordinacao-do-corpo-feminino-e-sua-capacidade-reprodutiva" style="font-size:19px">A ideia de poder está muito vinculada à imagem de homem em uma sociedade patriarcal, que estabeleceu há milhares de anos uma relação de subordinação do corpo feminino e sua capacidade reprodutiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Construiu-se uma divisão sexual, social e do trabalho entre homens e mulheres, delegando às mulheres os trabalhos tido como inferiores e menos valorizados, simbolizando seu papel na hierarquia social (BOURDIEU, 2024). Esse complexo cultural que atravessa gerações permeia o inconsciente coletivo traçando relações injustas entre os dois sexos ainda nos dias de hoje. Em nossa sociedade o que faz um homem ser considerado forte? Ter dinheiro, poder e mulheres, ou seja, ele precisa “possuir”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por outro lado, os homens expõem sua vulnerabilidade e sentimentos com muito mais facilidade para as mulheres do que entre os amigos. É compreensível que a população mais vulnerável estude sobre os seus “opressores”, para entender melhor o fenômeno e traçar formas de resistência. Isso significa que as mulheres estavam muito mais atentas aos homens do que o inverso, por uma questão de necessidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-submissao-das-mulheres-e-construida-ao-longo-de-todo-um-trabalho-de-socializacao-um-trabalho-que-tende-a-diminui-las-nega-las-fazem-parte-das-virtudes-negativas-da-abnegacao-resignacao-e-do-silencio-feminino" style="font-size:19px">A ideia de submissão das mulheres é construída ao longo de todo um trabalho de socialização. Um trabalho que tende a diminuí-las, negá-las, fazem parte das virtudes negativas da abnegação, resignação e do silêncio feminino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao mesmo tempo, aprisionam os homens em uma <em>persona</em> de domínio e os obrigando a afirmar sua virilidade. A virilidade entendida como a capacidade reprodutiva, sexual e social, aptidão ao combate e ao exercício da violência são uma carga ou cilada. Às mulheres fica relegada a fragilidade, a astúcia diabólica e a magia. Como a honra e a vergonha estão ligadas a virilidade masculina, práticas sexuais violentas como visita coletiva a bordeis, estupros coletivos realizados por adolescentes são formas de provar sua condição de homem (BOURDIEU, 2024, p. 86-91).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Bourdieu explana que o que chamamos de coragem tem suas raízes na covardia ou medo de ser excluído do mundo dos homens tidos como fortes, e para comprová-lo, atos como matar, torturar e violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão estão relacionados. A virilidade é uma noção relacional, construída diante dos outros homens, para os homens e contra a feminilidade, em uma espécie de medo do feminino, construída dentro de si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-contra-mulheres-e-feminicidio-provocados-pelos-homens-nos-dias-atuais-podem-ser-um-reflexo-dessa-persona-coletiva-de-um-masculino-toxico-e-ferido-em-sua-construcao-social-de-virilidade" style="font-size:19px">A violência contra mulheres e feminicídio provocados pelos homens nos dias atuais podem ser um reflexo dessa persona coletiva de um masculino tóxico e ferido em sua construção social de virilidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É comum esse tipo de ato ocorrer após o término de um relacionamento ou durante a tentativa de finalizar um ciclo de violência já estabelecido na família.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Atualmente, observamos uma crise do masculino, não coincidentemente após a legalização e aumento dos divórcios e o aumento de mulheres no mercado de trabalho, garantindo recursos financeiros e independência. Em consequência, ocorre um fenômeno sem precedentes: o aumento de mulheres chefiando os lares brasileiros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-grafico-01-numero-de-domicilios-pelo-sexo-do-responsavel-brasil" style="font-size:16px"><strong>Gráfico 01:</strong> Número de domicílios pelo sexo do responsável, Brasil.</h2>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="884" height="500" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png" alt="" class="wp-image-11518" style="aspect-ratio:1.768018416858509;width:552px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png 884w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-300x170.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-768x434.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-450x255.png 450w" sizes="(max-width: 884px) 100vw, 884px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: IBGE, <a href="https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6788">Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-patriarcal-aprisiona-mulheres-e-homens-criando-expectativas-personas-a-serem-alcancadas-gerando-empecilhos-para-um-crescimento-e-amadurecimento-mutuo-em-relacoes-mais-equitativas-e-menos-opressoras-para-ambos" style="font-size:20px">Essa estrutura patriarcal aprisiona mulheres e homens, criando expectativas (personas) a serem alcançadas, gerando empecilhos para um crescimento e amadurecimento mútuo, em relações mais equitativas e menos opressoras para ambos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Não se questiona os papéis se não houver um atravessamento ou incômodo por alguma das partes. Entretanto, mudanças não ocorrem de forma unilateral. Precisam envolver diversos atores, homens e mulheres em trabalho conjunto. O mundo está mudando porque as pessoas mudam e se transformam. As imagens de homens e mulheres estão sendo revistas, gerando conflitos entre os que querem conservar o que se entende por imagem de família, apegados a estruturas que não funcionam mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-arriscariamos-dizer-que-a-base-dos-conflitos-politicos-atuais-estao-calcados-nessa-polaridade-o-desejo-de-mudanca-e-conservacao-coexistindo-e-em-confronto-ao-mesmo-tempo-felizmente-os-movimentos-e-mudancas-sociais-estao-em-constante-fluxo-nao-conseguimos-impedir-o-curso-da-vida-e-da-alma" style="font-size:20px">Arriscaríamos dizer que a base dos conflitos políticos atuais estão calcados nessa polaridade: o desejo de mudança e conservação coexistindo e em confronto ao mesmo tempo. Felizmente, os movimentos e mudanças sociais estão em constante fluxo. Não conseguimos impedir o curso da vida e da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como mulheres e como analistas junguianas, não podemos ignorar as questões sociais de nosso tempo. A violência não é um fenômeno isolado — ela é coletiva, sistêmica, e nos atravessa em múltiplos níveis. Quando uma mulher sofre abusos físicos, psicológicos ou patrimoniais, todo o sistema ao seu redor é afetado. Somos parte de uma grande psique coletiva, que se manifesta em nossas individualidades. Cada ferida aberta em uma mulher reverbera em todas nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-michella-cechinel-reis-analista-em-formacao-pelo-ijep" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/"><strong>Paula de Azevedo Bernardi Peñas</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi</strong> &#8211; <strong>Analista Didata do IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Tapa de amor dói sim!" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/x36klunNvN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BEZERRA, A.R.; RORIGUES, Z.M.R. Violência contra as mulheres: o perfil da vítima e do agressor em São Luís-MA. Revista do Departamento de Geografia, v. 41, e176806, 2021. Disponível em: [https://revistas.usp.br/rdg/article/view/176806]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORGES, José Carlos. A mulher e suas concepções históricas. 2020. RC:52704. Disponível em: <a href="https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas">https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas</a>. Acesso em: 10.nov.2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOURDIEU, P. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. 23 ed. Rio de Janeiro: Difel, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019). Pesquisa Nacional de Saúde: acidentes, violências, doenças transmissíveis, atividade sexual, características do trabalho e apoio social. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, [Ministério da Saúde].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2021). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: vitimização &#8211; sensação de segurança. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CERQUEIRA, Daniel; BUENO, Samira (coord.). Atlas da Violência 2025. Brasília: Ipea; FBSP, 2025. Disponível em:<a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025"> </a><a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025">https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025</a>. Acesso em: 10 ago. 2025.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-c-g-o-eu-e-o-inconsciente-dois-escritos-sobre-psicologia-analitica-27-ed-rio-de-janeiro-vozes-2015" style="font-size:16px">JUNG, C.G. O eu e o inconsciente: dois escritos sobre psicologia analítica. 27 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2015.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Aspectos do drama contemporâneo: civilização em mudança. 5 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petropolis, RJ: Vozes, 2014, reimpressão 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: Viva sua própria vida. Ed. Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEITE, F. M. C. et al. Violência contra a mulher: caracterizando a vítima, a agressão e o autor. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, v. 7, n. 1, p. 2181-2191, 2015. Disponível em: [https://www.redalyc.org/pdf/5057/505750945029.pdf]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEVINE, P.A. O despertar do tigre: curando o trauma. 5 ed. São Paulo, Summus, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MADUREIRA, A.B.; et. al. Perfil de homens autores de violência contra mulheres detidos em flagrante: contribuições para o enfrentamento. Esc Anna Nery 2014;18(4):600-606. DOI: 10.5935/1414-8145.20140085.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">WRANGHAM, R.; PETERSON, D. O macho demoníaco: as origens da agressividade humana. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.</p>



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