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	<title>Arquivos Persona e Sombra - Blog IJEP</title>
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	<link>https://blog.ijep.com.br/category/persona-e-sombra/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 12 Mar 2026 17:01:37 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Persona e Sombra - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2026 16:43:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[amor e sexo]]></category>
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		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<category><![CDATA[vício em pornografia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/">Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><em>Resumo:</em><strong><em> </em></strong><em>Vivemos numa época em que o sexo circula com facilidade, imagens se oferecem explicitamente e sem resistência, e o prazer parece ao alcance das mãos facilitado pela projeção das telas. Um excesso de auto estímulo e de facilidades faz com que algo nos encontros reais se perca. Há um esvaziamento de Eros. Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino.</em></p>



<p style="font-size:18px"><em>Num flerte entre a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a filosofia contemporânea de Byung-Chul Han, o texto infere no vício em pornografia como fenômeno psíquico e cultural. Desnudamos Narciso, sombra, anima e projeção como cena imagética para revelar como a excitação compulsiva e compulsória pode coexistir com a dor e desconexão da alma, e o empobrecimento da intimidade (minha e do outro). Um convite para pensar o desejo desejante que se retroalimenta como sofrimento e a tela como extensão projetiva da dor psíquica que aponta o que está oculto no inconsciente.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexo-e-bom-e-muita-gente-gosta" style="font-size:20px">Sexo é bom e muita gente gosta.</h2>



<p style="font-size:18px">O erotismo faz parte da saúde sexual, emocional, mental e afetiva. “Transar”, fazer amor, “pegar alguém” faz parte do cotidiano e não deveria ser um tabu na contemporaneidade. Quando estamos num relacionamento, nos sentimos conectados e desejados, a sexualidade surge como uma linguagem natural da intimidade. Quando fluído e consensual, uma vida sexual ativa ajuda na melhora da autoestima, na reconexão com o prazer e afetos, alivia o estresse, melhora a criatividade e sensação de bem-estar.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Rita Lee</strong>, em sua música <strong>Amor e Sexo</strong>, traz uma reflexão sobre este tema tão desejado, e ressalta com beleza poética a diferença complementar entres esses dois mundos: <strong>Amor é um livro / Sexo é esporte / Sexo é escolha / Amor é sorte</strong>. E se o sexo é esporte, a masturbação surge como braço integrante desta mesma sinfonia. É quando nos tornamos, ao mesmo tempo, amante e amado; em que descobrimos o ritmo do próprio desejo e a autonomia sobre o prazer. Neste autoerotismo saudável, aprendemos a habitar a nossa própria pele antes de nos entregar à pele do outro.</p>



<p style="font-size:18px">No entanto, é justamente na fronteira entre o conhecer-se e o perder-se que o cenário contemporâneo nos impõe um novo desafio. Quando o toque deixa de ser uma exploração dos sentidos para se tornar um refúgio mecânico diante de uma tela, o que era para ser descoberta pode se transformar em uma perda sombria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-dados-divulgados-pelo-site-pornhub-o-brasil-ocupa-o-4º-lugar-entre-os-paises-que-mais-acessam-conteudo-pornografico-no-mundo-a-frente-aparecem-estados-unidos-mexico-e-filipinas-que-compoem-o-top-tres-global-fonte-correio-brasiliense-2025" style="font-size:18px">Segundo dados divulgados pelo site Pornhub, o Brasil ocupa o 4º lugar entre os países que mais acessam conteúdo pornográfico no mundo. À frente aparecem Estados Unidos, México e Filipinas, que compõem o top três global (Fonte: Correio Brasiliense, 2025).</h2>



<p style="font-size:18px">Se a masturbação pode ser compreendida como ensaio do prazer, a pornografia assume o papel da projeção da fantasia. As imagens oferecem roteiros prontos, intensificam estímulos e prometem facilitar o acesso ao gozo, reorganizando o ritmo do desejo em torno da rapidez, da repetição e da escalada visual. A pornografia permite acessar o inconfessável, a experimentar o prazer indizível, revela aquilo que é mais obscuro e até incompreendido do ser. Estimular-se usando as fantasias pornográficas passa a ser problema quando o consumo se torna compulsivo e interfere na economia psíquica, ao deslocar o erotismo da vivência para uma relação predominantemente imagética e solitária.</p>



<p style="font-size:18px">A compulsão por pornografia é entendida como uma manifestação do Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo (TCSC), caracterizada pelo consumo repetitivo, excessivo e incontrolável de conteúdo pornográfico, resultando em prejuízos significativos para o funcionamento psicológico, social, profissional ou ocupacional da pessoa (WERY; BILLIEUX, 2017). </p>



<p style="font-size:18px">Diferente do uso recreativo, o vício se revela quando o prazer dá lugar a um padrão persistente e fora de controle, onde a vontade de parar não encontra eco na ação, e as horas se perdem na solidão do quarto e no brilho da tela. Essa condição se distancia da ludicidade pelo seu caráter de prisão, e se manifesta na tentativa frustrada de silenciar o hábito, no tempo excessivo e na insistência em um caminho que o próprio indivíduo já reconhece como prejudicial, mas do qual não consegue mais se desviar sozinho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-vez-mais-cedo-criancas-e-adolescentes-entram-em-contato-com-pornografia-impulsionados-pela-facilidade-da-internet-e-ausencia-efetiva-de-barreiras-etarias-no-ambiente-digital" style="font-size:18px">Cada vez mais cedo, crianças e adolescentes entram em contato com pornografia impulsionados pela facilidade da internet e ausência efetiva de barreiras etárias no ambiente digital.</h2>



<p style="font-size:18px">Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil indicam que uma significativa parcela das crianças iniciou o uso da internet aos 6 anos de idade ou antes (CETIC.br, 2023). Essa precocidade amplia a exposição a riscos digitais, entre eles experiências ofensivas ou perturbadoras, relatadas por uma proporção expressiva de usuários entre 9 e 17 anos, conforme apontam os indicadores da pesquisa (CETIC.br, 2023). Nesse contexto, o primeiro contato com a sexualidade tende a ser desassistida e incide com maior frequência sobre meninos. Aquilo que deveria ser sustentado pela família, escola e sociedade no campo da educação sexual é substituído por um acesso clandestino a encenações exageradas, de relações performáticas e esvaziadas de afeto, sem erotismo saudável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-o-consumo-pornografico-adquire-densidade-simbolica-quando-entendido-como-meio-de-projecao-do-inconsciente" style="font-size:18px">À luz da Psicologia Analítica, o consumo pornográfico adquire densidade simbólica quando entendido como meio de projeção do inconsciente.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung (OC 6, §554) define projeção como <em>“um fato inconsciente, não submetido a controle consciente</em>”, um mecanismo pelo qual conteúdos psíquicos são deslocados para objetos externos, passando a ser percebidos como qualidades do outro e não como pertencentes ao próprio sujeito (OC 6; §862). Também afirma que certas projeções “pertencem à esfera da sombra, isto é, o lado obscuro da própria personalidade” (OC 9/2, §19). Importante ressaltar que, para Jung (OC 9/2, §14), “a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-ousamos-dizer-que-quando-a-pornografia-se-torna-a-unica-maneira-possivel-de-se-chegar-ao-orgasmo-dialogamos-com-um-comportamento-narcisista" style="font-size:18px">Então ousamos dizer que, quando a pornografia se torna a única maneira possível de se chegar ao orgasmo, dialogamos com um comportamento narcisista.</h2>



<p style="font-size:18px">Essa provocação se ancora no mito de Narciso que, ao permanecer fixado na contemplação do seu reflexo na água, acaba se afogando em sua projeção. Nesse contexto, a pornografia funciona como uma muleta do autoerotismo, na qual o indivíduo só consegue alcançar o gozo por meio das imagens projetadas nas cenas, deslocando a experiência erótica da relação com o outro para um circuito autorreferenciado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-e-importante-entender-a-especificidade-da-busca-compulsiva-do-tema-pornografico-e-qual-a-simbologia-esta-contida-por-tras-da-cena-pois-ela-oferece-uma-superficie-imagetica-que-acolhe-os-conteudos-sombrios" style="font-size:18px">Por isso é importante entender a especificidade da busca compulsiva do tema pornográfico e qual a simbologia está contida por trás da cena, pois ela oferece uma superfície imagética que acolhe os conteúdos sombrios.</h2>



<p style="font-size:18px">A objetificação do corpo, fantasias agressivas, impulsos de dominação, desejos dissociados do afeto, intensidades pulsionais e tantos outros fetiches encontram neste palco uma forma de expressão deslocada, ou seja, a pessoa é afetada pelas imagens porque algo de sua própria psique foi ali projetada. Entretanto, essa revelação ocorre de modo literal e empobrecido, sem elaboração simbólica, fixada em roteiros repetitivos e estereotipados, reforçando papéis de gênero, violências e ausência de afeto.</p>



<p style="font-size:18px">Para exemplificarmos, segundo dados divulgados pelo site Pornhub, as buscas que apresentam crescimento expressivo são termos como “sexo em grupo” (aumento de 544%), “punheta trans” (488%), “coroa gostosa transando” (442%) e “lésbicas tesoura” (231%) (Fonte: Correio Brasiliense, 2025). Chama atenção que “punheta trans” esteja no topo do campo de pesquisa pois, segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil liderou em 2024 pelo 16º ano consecutivo, os maiores índices globais de assassinatos contra essa população. Grande parte das vítimas são mulheres trans, jovens, negras e nordestinas, e os crimes são marcados por extrema violência (Fonte: CNN Brasil, 2025), ao mesmo tempo que os direitos sociais dessas pessoas estão sempre em fragilidade institucional. Também é interessante observar que o aumento do “conservadorismo” traz a reboque o aumento de buscas de sexo em grupo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-abordar-a-relacao-do-sujeito-com-sua-anima-a-dinamica-psiquica-revela-um-grau-ainda-mais-sensivel-de-complexidade" style="font-size:18px">Ao abordar a relação do sujeito com sua anima, a dinâmica psíquica revela um grau ainda mais sensível de complexidade.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung compreende a anima como o arquétipo da face feminina na psique masculina, cuja função consiste em mediar a relação entre consciência e inconsciente, atuando como ponte entre o mundo interior e a experiência relacional (JUNG, OC 9/2, §27). Ela personifica tendências psicológicas associadas à vida afetiva, à intuição e à sensibilidade, que frequentemente permanecem à margem da personalidade consciente. Quando essa função não encontra reconhecimento e elaboração, a anima tende a ser projetada em figuras externas. A pornografia oferece um campo imagético vasto e incessante, ao apresentar figuras femininas esvaziadas de subjetividade, reduzidas a corpos destinados a submissão da fantasia e do prazer unilateral do outro.</p>



<p style="font-size:18px">Nessa configuração, a <strong>anima</strong> perde sua dimensão simbólica e passa a ser vivenciada como imagem disponível ao consumo, deslocando o erotismo à objetificação. Essa dinâmica encontra um paralelo mítico na ação de Nêmesis, deusa da justa retribuição e do equilíbrio moral, que pune Narciso fazendo com que o amor recusado ao outro retorne sob a forma de um fascínio autorreferido pela própria imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-adverte-que-a-projecao-da-anima-empobrece-gravemente-a-capacidade-de-vinculo-pois-substitui-o-encontro-com-a-alteridade-real-por-uma-relacao-distorcida-na-qual-o-outro-e-apenas-suporte-para-conteudos-inconscientes-nao-elaborados-jung-oc-7-2-339" style="font-size:18px">Jung adverte que a projeção da anima empobrece gravemente a capacidade de vínculo, pois substitui o encontro com a alteridade real por uma relação distorcida, na qual o outro é apenas suporte para conteúdos inconscientes não elaborados (JUNG, OC 7/2, §339).</h2>



<p style="font-size:18px">O erotismo, que em sua dimensão simbólica convoca transformação, risco e reciprocidade, é reduzido a excitação visual controlável, onde tudo está sob o domínio das mãos. A experiência erótica deixa de ser um espaço de encontro e passa a operar como circuito fechado de autoestimulação, no qual o sujeito se relaciona consigo mesmo e com suas projeções.</p>



<p style="font-size:18px">Esse deslocamento convida a uma mudança de perspectiva clínica e teórica. O debate ganha profundidade quando se afasta de diálogos moralizantes e se aproxima do campo simbólico, pois a pornografia revela menos sobre desvios do desejo e mais sobre processos de dissociação entre imagem e corpo vivido, excitação e afeto, fantasia e relação, numa espécie de “afastamento da alma”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-cisao-tambem-se-inscreve-em-uma-ampla-logica-cultural-marcada-pela-hiperexposicao-aceleracao-do-consumo-e-pelo-esvaziamento-da-experiencia-do-outro-como-presenca" style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma ampla lógica cultural, marcada pela hiperexposição, aceleração do consumo e pelo esvaziamento da experiência do outro como presença.</h2>



<p style="font-size:18px">É nesse ponto que a reflexão de Byung-Chul Han ilumina o modo como a sociedade contemporânea transforma o erotismo em desempenho e a alteridade em superfície disponível, aprofundando a ruptura entre desejo, vínculo e experiência simbólica.</p>



<p style="font-size:18px">No caso do vício em pornografia, viver imerso nas projeções leva o indivíduo a um autoerotismo de maneira quase literal. A energia erótica é direcionada a imagens projetadas de si e se enovela numa relação consigo mesmo de uma maneira compulsiva, levando ao esgarçamento das relações principalmente afetivo-sexuais pois, diante do outro, tem-se dificuldade da troca com aquele que sente, reage e exige uma dedicação libidinal.</p>



<p style="font-size:18px">Por meio dos dados de buscas e temas em relevância, a pornografia pode evidenciar uma sombra moral, pois as procuras chamam a atenção pelo contraste com os temas destacados na vida pública das redes sociais. Este vício pode ser entendido como uma perseguição pela satisfação eterna de algo que não chega, pois existe o desejo desejante que jamais se sacia.</p>



<p style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma lógica cultural mais ampla, marcada pela hiperexposição, pela aceleração do consumo e a substituição progressiva da experiência do outro por superfícies disponíveis ao olhar e à apropriação imediata.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-agonia-do-eros-byung-chul-han-2017-p-56-faz-uma-provocacao-ao-dizer-que-a-pornografizacao-do-mundo-se-realiza-como-sua-profanacao-ela-profana-o-erotismo-e-a-profanacao-se-realiza-como-desritualizacao-e-dessacralizacao-han-2017-p-61" style="font-size:18px">Em <strong>Agonia do Eros</strong>, Byung-Chul Han (2017, p. 56) faz uma provocação ao dizer que “<em>a pornografização do mundo se realiza como sua profanação. Ela profana o erotismo”, e “a profanação se realiza como desritualização e dessacralização</em>” (HAN, 2017, p. 61).</h2>



<p style="font-size:18px">Continua ao descrever a erosão contemporânea do Eros como consequência direta de uma cultura que transforma o desejo em desempenho, e o encontro em mera positividade. Han (2017) acredita que o Eros só se constitui plenamente quando a relação envolve diferença e imprevisibilidade, pois a experiência erótica exige que o outro não seja reduzido a objeto de satisfação porque o desejo se sustenta justamente naquilo que escapa e se mantém como alteridade. É essa assimetria entre o eu e o outro que introduz risco, tensão e abertura ao desconhecido, elementos indispensáveis à vitalidade do Eros. Quando essa alteridade é dissolvida, o erotismo perde sua força transformadora e se converte em estímulo previsível e consumível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pornografia-se-insere-neste-escancaramento-descrito-por-han-no-qual-tudo-deve-estar-exposto-sem-zonas-de-misterio-ou-negatividade-para-ele-o-erotico-nao-esta-desprovido-de-misterio-han-2017-p-60" style="font-size:18px">A pornografia se insere neste “escancaramento” descrito por Han, no qual tudo deve estar exposto sem zonas de mistério ou negatividade. Para ele “o erótico não está desprovido de mistério” (HAN, 2017, p. 60).</h2>



<p style="font-size:18px">O corpo pornográfico é um corpo sem segredos e interioridade, oferecido ao olhar como mercadoria erótica, cuja função é responder imediatamente ao desejo, sem frustração ou elaboração simbólica. Nesse cenário, o Eros passa a funcionar como excitabilidade técnica, organizada segundo a lógica da escalada sensorial, o que empobrece tanto a experiência do prazer quanto a capacidade de vínculo.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Han</strong> observa que a sociedade contemporânea desloca o desejo para o campo do desempenho individual, transformando a sexualidade em um espaço de autoexploração, no qual o sujeito acredita exercer liberdade enquanto se submete a circuitos compulsivos de repetição. Essa leitura encontra ressonância direta na compreensão junguiana do narcisismo, pois a libido, impedida de se orientar em direção ao outro como alteridade viva, retorna ao próprio sujeito e se fixa em imagens que funcionam como espelhos ampliados de suas fantasias inconscientes. O resultado é uma economia libidinal autorreferida, na qual o prazer se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia de sentido.</p>



<p style="font-size:18px">Nesse ponto, a pornografia revela sua afinidade profunda com a lógica narcísica descrita tanto pelo mito quanto pela clínica. Assim como Narciso se apaixona por uma imagem que o reflete e o captura, o sujeito contemporâneo se vê enredado em imagens que prometem satisfação infinita e entregam repetição compulsiva, num movimento que conduz à saturação do desejo e ao empobrecimento do encontro.</p>



<p style="font-size:18px">Byung-Chul Han descreve esse processo como a transformação do Eros em pornografia, entendida como um regime no qual a exposição total substitui a tensão erótica, e a proximidade excessiva elimina a distância necessária à experiência amorosa. O desaparecimento do outro é a agonia do Eros (HAN, 2017, p. 74).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-junguiano-esse-cenario-pode-ser-compreendido-como-um-colapso-da-funcao-simbolica-da-anima-cuja-mediacao-entre-consciencia-e-inconsciente-se-fragiliza-quando-o-feminino-psiquico-e-reduzido-a-condicao-de-imagem-erotizada-e-consumivel" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, esse cenário pode ser compreendido como um colapso da função simbólica da anima, cuja mediação entre consciência e inconsciente se fragiliza quando o feminino psíquico é reduzido à condição de imagem erotizada e consumível.</h2>



<p style="font-size:18px">Jung adverte que a anima, quando projetada de maneira não elaborada, aprisiona o sujeito em fantasias que impedem o amadurecimento da relação e a integração dos afetos (JUNG, OC 7/2, §339). A pornografia intensifica esse processo ao oferecer imagens prontas e roteiros estereotipados, pois cristaliza a projeção em cenas fixas, repetidas e empobrecidas, impedindo que o conteúdo inconsciente seja simbolizado e transformado.</p>



<p style="font-size:18px">Han (2017) acrescenta que o desaparecimento da alteridade conduz a uma forma de gozo solitário, no qual o sujeito se relaciona apenas consigo mesmo, ainda que sob a ilusão de multiplicidade de parceiros e experiências. Essa dinâmica ilumina o paradoxo contemporâneo do vício em pornografia: quanto maior a oferta de imagens e estímulos, mais restrito se torna o campo do desejo, que passa a girar em torno dos mesmos temas, das mesmas cenas e das mesmas intensidades, produzindo um fechamento progressivo da vida erótica e afetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-vicio-em-pornografia-pode-ser-compreendido-como-uma-busca-incessante-por-satisfacao-total-que-jamais-se-cumpre-pois-esta-fundada-na-eliminacao-da-alteridade-e-na-recusa-da-vulnerabilidade-inerente-ao-encontro-erotico" style="font-size:18px">Assim, o vício em pornografia pode ser compreendido como uma busca incessante por satisfação total que jamais se cumpre, pois está fundada na eliminação da alteridade e na recusa da vulnerabilidade inerente ao encontro erótico.</h2>



<p style="font-size:18px">Trata-se de um desejo que se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia, pois cada nova imagem promete preencher uma falta que se reinscreve imediatamente após o gozo, reproduzindo a lógica de todo comportamento compulsivo. Nesse sentido, a pornografia revela muito mais que conteúdos sombrios individuais, ela expressa uma sombra cultural marcada pela dificuldade coletiva de sustentar o Eros como experiência simbólica e transformadora.</p>



<p style="font-size:18px">Diante desse fenômeno, a clínica é convocada a oferecer um espaço onde o sujeito possa reencontrar a dimensão imagética do desejo, reconhecendo os fragmentos da sua anima, sombra e de conflitos não elaborados projetados nas telas.</p>



<p style="font-size:18px">Sustentar essa travessia implica recolocar o erotismo no campo da alteridade. Relacionar-se com o outro implica sustentar o risco das dores e amargores relativo ao encontro, condição que restitui ao Eros sua potência de transformação, pois é no reflexo do olhar deste outro onde existe a possibilidade da quebra da autorreferenciação e solidão.</p>



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<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Soave – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p>BRASIL é o país que mais mata pessoas trans e travestis, aponta dossiê. CNN Brasil, [s. l.], 29 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-e-travestis-aponta-dossie/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p>COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisas/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p>CORREIO BRAZILIENSE. Brasil é o 4º maior consumidor de pornografia no mundo. Correio Braziliense, Brasília, 30 dez. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2025/12/7316169-brasil-e-o-4-maior-consumidor-de-pornografia-no-mundo.html. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p>HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2017;</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2);</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/2);</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 6);</p>



<p>WERY, A.; BILLIEUX, J. Problematic cybersex: Conceptualization, assessment, and treatment. Addictive Behaviors, v. 64, p. 238-246, 2017</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/">Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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		<item>
		<title>A Validação Social como Símbolo da Persona: Perspectivas da Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-validacao-social-como-simbolo-da-persona-perspectivas-da-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Helena Soares Marinho]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Jan 2026 20:23:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[cgjung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[midias digitais]]></category>
		<category><![CDATA[mídias sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[validação social]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: A validação social, entendida como o reconhecimento e aprovação por parte do outro, assume papel central na construção da identidade contemporânea. Sob a ótica da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, tal fenômeno revela uma dimensão simbólica: a relação entre a persona — a máscara social que permite o vínculo com o externo — [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: A validação social, entendida como o reconhecimento e aprovação por parte do outro, assume papel central na construção da identidade contemporânea. Sob a ótica da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, tal fenômeno revela uma dimensão simbólica: a relação entre a persona — a máscara social que permite o vínculo com o externo — e o self, princípio organizador e orientador da totalidade psíquica. Este artigo discute como a busca por validação social reflete um anseio arquetípico de pertencimento e como, em tempos digitais, essa relação pode tanto favorecer o processo de individuação quanto aprisionar o sujeito na imagem social de si.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-validacao-social-como-expressao-simbolica" style="font-size:19px">A Validação Social como Expressão Simbólica</h2>



<p id="h-a-validacao-social-como-expressao-simbolica-na-psicologia-analitica-o-simbolo-ocupa-um-papel-central-na-mediacao-entre-os-niveis-da-consciencia-e-do-inconsciente-jung-define-que-o-simbolo-e-a-melhor-expressao-possivel-de-um-fato-ainda-desconhecido-que-so-pode-ser-intuido-ele-o-define-como" style="font-size:19px"><br>Na Psicologia Analítica, o símbolo ocupa um papel central na mediação entre os níveis da consciência e do inconsciente. Jung define que o <strong>símbolo</strong> é a melhor expressão possível de um fato ainda desconhecido, que só pode ser intuído. Ele o define como:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>(…) Símbolo pressupõe sempre que a expressão escolhida seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada. (JUNG, 2022, Tipos Psicológicos, p. 487, §903).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">A validação social — expressa em curtidas, selos de verificação e seguidores — cumpre hoje uma função simbólica análoga: traduz em signos visuais o desejo humano de reconhecimento e pertencimento. No plano imaginal, cada ato de validação carrega a mensagem de que o sujeito é visto, aceito e, portanto, existe.</p>



<p style="font-size:19px">Esse anseio é arquetípico, pois toca a imagem primordial da comunhão, do ser aceito pelo grupo. <strong>Ailton Krenak</strong> observa que a vida só tem sentido quando é compartilhada; a existência é tecida na relação:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">&#8220;<em>A ideia de humanidade que nós temos precisa ser revista. Nós estamos o tempo todo querendo garantir a nossa individualidade, esquecendo que a vida é uma experiência coletiva.</em> <em>O sentido da vida está em reconhecer que ela não é um bem individual, mas uma experiência compartilhada com tudo o que existe. (KRENAK, 2020, p. 28–29).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">O reconhecimento tribal de outrora é reencenado no mundo digital por rituais imagéticos de aceitação — as curtidas, os compartilhamentos, os comentários. Se nas aldeias a identidade era afirmada pela palavra e pelo ritual, hoje é sancionada por métricas digitais. Entretanto, como advertiu Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><br><em>Enquanto um símbolo for vivo, é a melhor expressão de alguma coisa. E só é vivo enquanto cheio de significado. Mas, uma vez brotado o sentido dele, isto é, encontrada aquela expressão que formula melhor a coisa procurada, esperada ou pressentida do que o símbolo até então empregado, o símbolo está morto. (JUNG, 2022, Tipos Psicológicos, p. 487, §905).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><br>Quando a validação social se reduz a número ou estatística, perde o caráter simbólico e se converte em fetiche — uma imagem sem alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-desconexao-do-animus-e-da-anima" style="font-size:19px">A Desconexão do Animus e da Anima</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Emma Jung</strong>, em <em>Animus e Anima</em> (2020), descreve essas duas figuras como pontes vivas entre o consciente e o inconsciente: o animus, no psiquismo feminino, representa o princípio do logos — estruturante, reflexivo e criador de forma; a anima, no psiquismo masculino, expressa o princípio do eros — relacional, sensível e mediador do sentimento. Ambas são funções mediadoras que mantêm o ego em contato com o self, preservando a ligação com o inconsciente e com o sentido interior.</p>



<p style="font-size:19px">Quando o indivíduo se identifica excessivamente com a persona &#8211; a imagem social de si -, esse diálogo com o inconsciente se interrompe. O olhar volta-se para fora, buscando aprovação, e a escuta interior se silencia. O animus e a anima, então, tornam-se figuras distorcidas ou inoperantes, pois a energia psíquica é desviada do campo simbólico para o plano coletivo. A pessoa passa a se definir pelas opiniões e reações do outro, trocando a ressonância interior pela ressonância pública. <strong>Emma Jung</strong> adverte:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Quanto mais unilateral se torna a consciência, tanto mais o inconsciente reage com forças compensatórias; e se o contato com o inconsciente é perdido, essas forças manifestam-se de modo destrutivo ou estéril. (JUNG, E., 2020, p. 42).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Assim, a perda de relação com o animus e a anima é também a perda da função compensatória que sustenta a psique viva. O sujeito que busca validação apenas no olhar coletivo desliga-se dessas forças interiores — e, com isso, perde a vitalidade simbólica, a capacidade de imaginação e o sentido pessoal que brota do diálogo com o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quem-compensa-a-falta-de-valor-interno-com-a-persona-acaba-se-alienando-do-proprio-centro" style="font-size:19px">Quem compensa a falta de valor interno com a persona acaba se alienando do próprio centro.</h2>



<p style="font-size:19px">Como observa Emma Jung, a mulher que renega o animus torna-se prisioneira de opiniões rígidas e desumanizadas &#8211; o homem que reprime a anima endurece em racionalismo ou narcisismo. Em ambos os casos, o outro — seja o público, a rede ou o parceiro — torna-se o espelho onde se busca uma confirmação impossível. A validação social, quando vivida dessa forma, é o eco empobrecido da relação perdida com o próprio inconsciente. Somente a reintegração das figuras anímicas devolve à psique sua capacidade simbólica — o reconhecimento que não depende do aplauso, mas da escuta do próprio self.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mito-de-narciso-o-espelho-como-simbolo-da-validacao" style="font-size:19px">O Mito de Narciso: o Espelho como Símbolo da Validação</h2>



<p style="font-size:19px">Na mitologia grega, Narciso, filho da ninfa Liríope e do rio Céfiso, é descrito por Ovídio (Metamorfoses, III, 339–510) como um jovem tão belo que todos se apaixonavam por ele, mas incapaz de amar outro que não o próprio reflexo. Ao contemplar sua imagem na água, apaixona-se por si mesmo e, incapaz de romper o encantamento, definha até transformar-se em flor.</p>



<p style="font-size:19px">O mito representa a armadilha da identificação com a imagem, que Jung reconhece como um perigo da identificação com a própria persona enquanto aspecto individual da psique:<br>Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que alguém parece ser — nome, título, ocupação, isto ou aquilo. (JUNG, 2015, O Eu e o Inconsciente, p. 47, §246).</p>



<p style="font-size:19px">O reflexo de Narciso é o espelho arquetípico da persona — a máscara social que o indivíduo oferece ao mundo. Quando o ego confunde essa máscara com sua verdadeira essência, o olhar do outro passa a definir o valor do eu. O “espelho coletivo” das redes sociais é o novo lago de Narciso: o sujeito apaixona-se por sua própria projeção e confunde visibilidade com existência. A água, símbolo do inconsciente, devolve não apenas o rosto, mas o desejo. O “like” digital é o reflexo que cintila na superfície da psique contemporânea — cada notificação reafirma a ilusão de unidade, mas distancia o indivíduo de si. O mito de Narciso não trata apenas da vaidade, mas da alienação psíquica que surge quando a imagem substitui a experiência simbólica. O reflexo encanta, mas esvazia; promete identidade, mas captura o olhar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-voz-de-eco-e-o-eco-da-persona" style="font-size:19px">A voz de Eco e o eco da persona</h2>



<p style="font-size:19px">A tragédia de Narciso é inseparável da dor de Eco, a ninfa que o amava e foi condenada a repetir apenas as palavras dos outros. Incapaz de falar por si, Eco vive o destino oposto ao de Narciso: enquanto ele é prisioneiro da própria imagem, ela é prisioneira da voz alheia. Juntos, simbolizam dois modos de alienação contemporânea — a superexposição da persona e a perda da expressão autêntica. No contexto da validação social, Eco representa o sujeito que apenas reage, reproduz, comenta e repete, sem gerar discurso próprio: vive no reflexo sonoro do coletivo, ecoando o que agrada, o que é aceito, o que viraliza.</p>



<p style="font-size:19px">Em termos psicológicos, Eco encarna a dissociação da função da palavra viva — aquela que nasce do centro interior e cria sentido. Sua repetição é o eco das opiniões coletivas que reforçam o espelho narcísico. O “loop” entre Narciso e Eco traduz a dinâmica psíquica da era digital: o sujeito busca reconhecimento na própria imagem enquanto se alimenta do retorno dos outros, que apenas repetem o que ele projeta.</p>



<p style="font-size:19px">Ele, porque vê demais; ela, porque ouve demais. Ambos ilustram o desequilíbrio entre ver e ser visto, falar e ser escutado — uma ruptura simbólica entre imagem e palavra que empobrece a alma e distancia o sujeito do próprio mundo interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-self-e-o-risco-da-identificacao" style="font-size:19px">O Self e o Risco da Identificação</h2>



<p style="font-size:19px">Para Jung, o self é o arquétipo da totalidade, o centro organizador da psique que orienta a integração entre consciente e inconsciente. O processo de individuação consiste em realizar o potencial singular de ser, em um movimento contínuo de relação — e não de ruptura — entre o mundo interno e o externo. Nesse percurso, a persona desempenha um papel legítimo: é o modo como o indivíduo se apresenta e se relaciona socialmente, uma adaptação às regras sociais. No entanto, quando o sujeito se identifica excessivamente com essa máscara — frequentemente reforçada pela imagem digital —, a relação entre self e persona se desequilibra. O olhar exterior passa a ditar o valor interior, e o movimento de diálogo dá lugar à dependência do reflexo. James Hillman expressa essa inversão com clareza:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vivemos-sob-o-dominio-das-aparencias-nao-do-ser-hillman-2010-p-56" style="font-size:19px"><em>“Vivemos sob o domínio das aparências, não do ser.” (HILLMAN, 2010, p. 56).</em><br></h2>



<p style="font-size:19px">A cultura da validação social intensifica essa dinâmica: o indivíduo passa a existir apenas enquanto é reconhecido. Quando a persona perde sua função relacional e se torna um fim em si mesma, a psique empobrece. O “pertencer” converte-se em dependência, e o reconhecimento, em aprisionamento. O verdadeiro vínculo — com os outros e consigo mesmo — nasce do encontro vivo, não da exibição da imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao-o-simbolico-como-caminho-de-consciencia" style="font-size:19px">Conclusão: O Simbólico como Caminho de Consciência</h2>



<p style="font-size:19px">A validação social, sob a ótica da Psicologia Analítica, é um símbolo ambíguo: expressa a necessidade arquetípica de comunhão e o risco de dissolução da individualidade. Vivida inconscientemente, converte-se em busca por aprovação; vivida simbolicamente, oferece via de reflexão e integração. Reconhecer a validação como símbolo vivo, e não como valor absoluto, permite ao indivíduo retomar o caminho da individuação. O olhar do outro deixa de ser espelho narcísico e torna-se ponte entre o eu e o mundo.</p>



<p style="font-size:19px">Para Jung, o símbolo é a melhor formulação possível de um conteúdo ainda inconsciente e, portanto, o mediador entre o conhecido e o desconhecido; o crescimento da consciência, afirma o autor, não se produz pela negação de aspectos sombrios, mas pela ampliação do campo de consciência:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A consciência do eu consegue, pelo menos por algum tempo, reprimir a sombra, com um dispêndio não pequeno de energia. Mas se, por quaisquer motivos, o inconsciente adquire a supremacia, cresce a valência da sombra (…). Aquilo que se achava mais distante da consciência desperta e o que parecia inconsciente assume como que um aspecto ameaçador (…).</em> <em>(JUNG, 2013, Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-Mesmo, p. 42, §53).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px"><em>A tarefa simbólica do sujeito moderno é reeducar o olhar: ver além da imagem, ouvir além do eco e reencontrar, por trás da persona, o caminho silencioso do self.</em></p>



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</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maria-helena-soares-marinho/">Maria Helena Marinho Fernandes &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong><br><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p id="h-referencias-hillman-j-re-visao-da-psicologia-petropolis-vozes-2010-jung-c-g-tipos-psicologicos-petropolis-vozes-2013-jung-c-g-o-eu-e-o-inconsciente-petropolis-vozes-2015-jung-c-g-aion-estudos-sobre-o-simbolismo-do-si-mesmo-petropolis-vozes-2013-jung-emma-animus-e-anima-sao-paulo-ed-cultrix-1998-krenak-a-ideias-para-adiar-o-fim-do-mundo-sao-paulo-companhia-das-letras-2020-ovidio-metamorfoses-trad-paulo-e-de-campos-sao-paulo-editora-34-2008"><br>· HILLMAN, J. Re-visão da Psicologia. Petrópolis: Vozes, 2010.<br>· JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013.<br>· JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015.<br>· JUNG, C. G. Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-Mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013.<br>· JUNG, Emma. Animus e Anima. São Paulo: Ed. Cultrix, 1998.<br>· KRENAK, A. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.<br>· OVÍDIO. Metamorfoses. Trad. Paulo E. de Campos. São Paulo: Editora 34, 2008.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>O menino Ney: a peleja entre o puer e a sombra em Neymar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-menino-ney-a-peleja-entre-o-puer-e-a-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Dec 2025 12:38:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[daniela euzebio]]></category>
		<category><![CDATA[eterna adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
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		<category><![CDATA[neymar]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[puer]]></category>
		<category><![CDATA[puer aeternus]]></category>
		<category><![CDATA[sombra coletiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neymar é uma figura controversa: por um lado, com seu "futebol moleque", é criativo, ousado e habilidoso; por outro, um homem infantilizado, inconsequente e sombrio. Ao "homenino", tudo é permitido e concebido. Neymar foi colocado numa espécie de Terra do Nunca e não quer sair de lá. Em terminologia junguiana, Neymar está identificado com Puer aeternus, o arquétipo da criança-divina que, quando na polaridade negativa, a pessoa fica presa nunca espécie de adolescência e se recusa a amadurecer. Neste ensaio, proponho, de forma despretensiosa, um diálogo entre a teoria junguiana e as narrativas midiáticas, em um exercício argumentativo e hipotético, para explorar o arquétipo do puer aeternus, tomando Neymar como referência.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Neymar é uma figura controversa: por um lado, com seu &#8220;futebol moleque&#8221;, é criativo, ousado e habilidoso; por outro, um homem infantilizado, inconsequente e sombrio. Ao &#8220;homenino&#8221;, tudo é permitido e concebido. Neymar foi colocado numa espécie de Terra do Nunca e não quer sair de lá. Em terminologia junguiana, Neymar está identificado com Puer aeternus, o arquétipo da criança-divina que, quando na polaridade negativa, a pessoa fica presa nunca espécie de adolescência e se recusa a amadurecer. Neste ensaio, proponho, de forma despretensiosa, um diálogo entre a teoria junguiana e as narrativas midiáticas, em um exercício argumentativo e hipotético, para explorar o arquétipo do puer aeternus, tomando Neymar como referência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-percebe-se-que-na-sociedade-contemporanea-em-sua-rica-diversidade-ha-uma-notavel-e-crescente-tendencia-de-rejeitar-o-processo-natural-do-envelhecimento" style="font-size:18px">Percebe-se que na sociedade contemporânea, em sua rica diversidade, há uma notável e crescente tendência de rejeitar o processo natural do envelhecimento.</h2>



<p style="font-size:18px">Uma espécie de sombria pressão social para manter a imagem jovial, levando muitas pessoas a se sentirem compelidas a buscar meios extremos para retardar ou até mesmo reverter sinais de envelhecimento, a manter corpos perfeitos e rostos sem rugas divulgados no narcísico espelho do Instagram. O apego à ideia da perpetuação da juventude não se limita apenas a preocupação estética; também pode refletir um temor do desconhecido, da perda de vitalidade e da inevitável aproximação da morte.</p>



<p style="font-size:18px">A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica estima que em 2023 mais de 2 milhões de procedimentos foram realizados pelos brasileiros<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a>. Em contrapartida, em 2022 o IBGE apontou aumento da longevidade nos cidadãos do nosso país<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a>.</p>



<p style="font-size:18px">Estamos imersos num Espírito da Época no qual a juventude é exaltada de forma exacerbada e a velhice é temida. Para Jung, o termo Espírito da Época, ou &#8220;Zeitgeist&#8221; em alemão, refere-se ao conjunto de ideias, valores, crenças, atitudes e comportamentos que predominam em uma determinada época ou cultura. É como um &#8220;clima psicológico&#8221; que molda a forma como as pessoas pensam, sentem e se comportam. O temor e a aversão ao envelhecimento permeiam tanto o inconsciente individual quanto o coletivo na contemporaneidade. Segundo a máxima de que &#8220;o que está fora também está dentro&#8221;, essa apreensão também pode estar profundamente ligada ao arquétipo do <em>puer aeternus</em>, o eterno jovem, pois reflete uma relutância em aceitar o processo natural de maturação e envelhecimento que caracteriza a jornada da vida.</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Von-Franz</strong> (1992, p. 9) reflete acerca do <em>puer aeternus</em> como arquétipo do deus criança-divina, “o deus da vida, da morte e da ressurreição — o deus da juventude divina, correspondente aos deuses orientais Tamuz, Átis e Adônis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-titulo-puer-aeternus-portanto-significa-juventude-eterna" style="font-size:18px">O título puer aeternus, portanto, significa juventude eterna&#8221;.</h2>



<p style="font-size:18px">O <em>puer aeternus</em>, ou &#8220;eterno jovem&#8221;, é um arquétipo que representa uma pessoa que se recusa a amadurecer emocionalmente, preferindo permanecer em um estado de juventude e irresponsabilidade. De forma apressada e bastante resumida, em sua polaridade negativa, os <em>pueri</em> &nbsp;(plural de puer e puella) apresentam relutância em assumir responsabilidades consideradas adultas; buscam continuamente liberdade e aventura; têm a tendência a evitar compromissos duradouros; se recusam em enfrentar as realidades do envelhecimento e da maturidade emocional; buscam (por vezes de forma desesperada) pela preservação da juventude e da vitalidade física; são muito impacientes e volúveis emocionalmente; possuem um <em>donjuanismo</em> e dificuldades em estabelecer vínculos afetivos como característica, e enorme dificuldade de adaptação a rotina.</p>



<p style="font-size:18px">O sociólogo e filósofo <strong>Zygmunt Bauman</strong> (2001, p. 8) reflete que as principais características da modernidade líquida são: &nbsp;desapego, provisoriedade e acelerado processo da individualização, tempo de liberdade e, concomitantemente, de insegurança. Talvez o Espírito da Época esteja tão líquido quanto as relações estabelecidas pelo “espírito <em>puer”</em> que pulsa na contemporaneidade.</p>



<p style="font-size:18px">Os fluidos se movem facilmente. Eles &#8216;fluem&#8217;, &#8216;escorrem&#8217;, &#8216;esvaem-se&#8217;, &#8216;respingam&#8217;, &#8216;transbordam&#8217;, &#8216;vazam&#8217;, &#8216;inundam&#8217;, &#8216;borrifam&#8217;, &#8216;pingam&#8217;, são &#8216;filtrados&#8217;, &#8216;destilados&#8217;; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos &#8211; contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho&#8230; Associamos &#8216;leveza&#8217; ou &#8216;ausência de peso&#8217; à mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto mais leves viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos (Bauman, 2001, p. 8).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-analise-didatica-trabalharemos-a-figura-publica-e-polemica-de-neymar-jr-o-menino-ney-para-refletir-nao-apenas-o-puer-que-o-habita-mas-a-sombra-projetada-em-seu-estilo-de-vida" style="font-size:18px">Como análise didática, trabalharemos a figura pública e polêmica de Neymar Jr, o “menino Ney”, para refletir não apenas o <em>puer</em> que o habita, mas a sombra projetada em seu estilo de vida.</h2>



<p style="font-size:18px">A intenção é dialogar com a teoria no campo da Psicologia Analítica e das notícias coletadas na mídia, num exercício argumentativo e hipotético, sem nenhuma pretensão de limitar ou fechar o tema.</p>



<p style="font-size:18px">Neymar da Silva Santos Júnior, aos 11 anos de idade, chegou às categorias de base do Santos, de onde não saiu mais até tornar-se profissional. Dotado de grande talento e virtuosismo, à medida que o adolescente crescia sustentava precocemente a família com seu salário, promovendo gradativamente a melhora no padrão de vida parental<a href="#_ftn3" id="_ftnref3">[3]</a>.</p>



<p style="font-size:18px">Com suas jogadas criativas, Neymar possui singular capacidade de driblar em espaços apertados, escapar da marcação de vários jogadores e criar oportunidades de gol para si mesmo e para seus companheiros de equipe. Sua visão antecipa as jogadas e, por vezes, resulta em assistências decisivas. É um jogador extremamente criativo, buscando maneiras de surpreender seus adversários, pois não tem medo de tentar formas ousadas e inventivas em campo. Tudo isso temperado com um “jeito moleque”, conquistou o coração dos torcedores e a atenção dos clubes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hiper-estimulado-e-protegido-pelos-pais-desejado-e-promovido-pelos-clubes-enaltecido-e-ovacionado-pelos-fas-nao-demorou-muito-para-sua-meteorica-ascensao" style="font-size:18px">Hiper estimulado e protegido pelos pais, desejado e promovido pelos clubes, enaltecido e ovacionado pelos fãs, não demorou muito para sua meteórica ascensão.</h2>



<p style="font-size:18px">Um profissional de alto rendimento como ele requer compromisso e dedicação, mas Neymar driblou as regras e viveu uma vida permeada de festas, romances, escândalos financeiros e sexuais. De certo modo, parte de seus admiradores o isentam de suas responsabilidades quando o tratam por “menino Ney”. Ao menino, tudo é permitido e concedido.</p>



<p style="font-size:18px">Em geral, aquele que se identifica com o arquétipo do <em>puer aeternus</em> “<em>permanece durante muito tempo como adolescente, isto é, todas aquelas características que são normais em um jovem de dezessete ou dezoito anos continuam na vida adulta, juntamente com uma grande dependência da mãe</em>” em boa parte dos casos (VON-FRANZ, 1992, p. 9).</p>



<p style="font-size:18px">Em sua polaridade positiva, os <em>pueri</em> são muito criativos, estimulantes e mantém o charme da juventude. São divertidos, interessantes, agradáveis de conversar desde que sejam conversas superficiais, não gostam de situações convencionais. <strong>Geralmente o charme juvenil do <em>puer aeternus</em> se prolonga até os últimos estágios da vida</strong> (VON-FRANZ, 1992, p. 9).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-e-novidade-que-neymar-tem-um-lado-religioso-e-nao-esconde-de-ninguem" style="font-size:18px">Não é novidade que Neymar tem um lado religioso e não esconde de ninguém.</h2>



<p style="font-size:18px">Evangélico e conservador, suas polêmicas são antigas&#8230; Em 2015 usou faixa na cabeça escrita 100% Jesus ao ganhar a Liga dos Campeões jogando pelo Barcelona durante a comemoração no estádio olímpico de Berlim, após a vitória por 3 a 1 sobre o Juventus. Tal manifestação causou polêmica na França, e os torcedores o acusaram nas redes sociais de proselitismo religioso<a id="_ftnref4" href="#_ftn4">[4]</a>. Outra polêmica foi ostentar um enorme crucifixo ao desembarcar na Arábia Saudita, para se apresentar ao seu time (islâmico) contratante Al Hilal<a id="_ftnref5" href="#_ftn5">[5]</a>. Numa atitude desrespeitosa e arrogante, o <em>puer</em> Neymar percebe-se como alguém especial, e que “não tem necessidade de adaptar-se, pois as pessoas é que têm que adaptar-se a um gênio como ele” (VON FRANZ, 1992, p.10).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-paradoxalmente-o-lado-evangelico-de-neymar-e-facilmente-sublimado-pelas-festas-babilonicas-que-promove-numa-combinacao-de-ostentacao-mulheres-bebidas-e-sabe-se-la-quais-outras-situacoes-dionisiacas-algumas-de-suas-festas-duram-dias-promovidas-de-casas-a-cruzeiros" style="font-size:18px">Paradoxalmente, o lado evangélico de Neymar é facilmente sublimado pelas festas babilônicas que promove. Numa combinação de ostentação, mulheres, bebidas e sabe-se lá quais outras situações dionisíacas, algumas de suas festas duram dias, promovidas de casas à cruzeiros.</h2>



<p style="font-size:18px">Como vimos anteriormente, desde menino, ao revelar sua enorme habilidade, obteve o apoio obsessivo e incondicional do pai, ex-jogador fracassado, que incentivou o jovem a alavancar sua carreira. Neymar Jr vive a vida não vivida de seu pai; este mesmo que, ao projetar sua vida frustrada no filho, o impede de crescer e ser responsável por seus atos.</p>



<p style="font-size:18px">Neymar pai, assume as inconsequências do filho para que os problemas não atrapalhem sua performance dentro de campo. Problemas como sonegação de impostos na Espanha; liberação da acusação de amigos por estupro; atenuar as acusação do filho de traições amorosas; minimizar os flagras das festas quando deveria estar recluso se recuperando de lesões entre outros escândalos. Hiper protegido pelo pai e blindado das consequências de seus atos, o menino Ney é mantido cativo numa espécie de Terra do Nunca pela figura paterna.</p>



<p style="font-size:18px">Não assumir a consequência de seus atos faz com que a sombra emerja, pois, conforme Jung (2013, OC 9/2, §14) “<em>a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais</em>”. Neste processo de conscientização, é necessário reconhecer os aspectos sombrios da personalidade como eles realmente são. Essa prática é uma base essencial para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, costuma enfrentar resistência significativa.</p>



<p style="font-size:18px">A relação com a mãe é de quase reverência. Seu iate, palco de várias festas, foi batizado de Nadine, em deferência a ela. Em seu Instagram pessoal, Neymar fez uma homenagem no dia das mães se referindo como “minha super heroína”.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="553" height="413" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4.png" alt="" class="wp-image-11664" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4.png 553w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4-300x224.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4-150x112.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4-450x336.png 450w" sizes="(max-width: 553px) 100vw, 553px" /></figure>



<p>Fonte: Instagram – acesso em 12 mar. 2023</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2001-p-98-diz-que-o-aspecto-negativo-do-puer-aeternus-indica-o-si-mesmo-preso-no-inconsciente-e-que-nao-se-realiza-na-pratica-o-desenvolvimento-bloqueado-depende-muitas-vezes-de-uma-ligacao-muito-estreita-do-filho-com-a-mae" style="font-size:18px">Jung (2001, p. 98) diz que o aspecto negativo do <em>puer aeternus</em> indica o “<em>si mesmo preso no inconsciente e que não se realiza na prática. O desenvolvimento bloqueado depende muitas vezes de uma ligação muito estreita do filho com a mãe</em>”.</h2>



<p style="font-size:18px">Por sua vez, a mãe não esconde uma predileção em namorar homens muito mais jovens, atléticos, na mesma faixa etária do filho. Podemos arriscar a pensar em projeção, uma vez que, para Jung (2013, OC 6, §881), projeção significa “<em>transferir para o objeto um processo subjetivo” e que “pertencem à esfera da sombra, isto é, ao lado obscuro da própria personalidade</em>” (JUNG, 2013, OC 9/2, §19).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-idealizacao-da-mae-pelo-filho-ocorre-devido-a-uma-serie-de-razoes-que-pode-incluir-a-tentativa-de-preenchimento-do-vazio-emocional-na-busca-por-realizacao-pessoal-atraves-do-sucesso-dele" style="font-size:18px">Essa idealização da mãe pelo filho ocorre devido a uma série de razões, que pode incluir a tentativa de preenchimento do vazio emocional na busca por realização pessoal através do sucesso dele.</h2>



<p style="font-size:18px">Neste caso, a mãe pode demonstrar comportamento superprotetor e manipulador em relação ao filho, além de codependência emocional, onde ela inconscientemente espera que o filho atenda suas necessidades; tentativa de controle; dificuldade em aceitar a falibilidade do filho (que, aos olhos dela, é sempre perfeito).</p>



<p style="font-size:18px">Por outro lado, o filho fica inconscientemente estigmatizado na condição de “pequeno príncipe”, infantilizado e fragilizado, e tem a tendência de buscar a mãe projetivamente em suas companheiras. Uma espécie de “donjuanismo” faz com que o filho inconscientemente reproduza as dinâmicas experimentadas com a mãe em seus relacionamentos amorosos, buscando parceiras com características semelhantes a ela. O menino Ney coleciona beldades e pouco se fixa nas relações, numa falta de comprometimento afetivo com as mulheres que se envolve. Num misto de encantamento e tédio, envolve-se amorosamente, mas trai suas companheiras, expondo-as, por vezes, a situações públicas e constrangedoras.</p>



<p style="font-size:18px">Além deste imbróglio familiar que foi levantado de forma tão didática e despretensiosa neste texto, temos os amigos. Neymar é como <strong>Peter Pan</strong> cercado por seus &#8220;parças&#8221;, os amigos inseparáveis que decidiram ter como missão na vida desfrutar do reino do amigo-príncipe. E o acompanham pelo mundo, aplaudindo, incentivando, defendendo e desfrutando de privilégios que nunca teriam, graças à fortuna do menino Ney, sem jamais o contrariar ou o questionar. Os “parças” são uma espécie de meninos perdidos da Terra do Nunca, que veem em Peter Pan seu ídolo, inspiração e chefe.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neymar-e-talentoso-milionario-vive-de-forma-luxuosa-se-relaciona-com-as-mais-lindas-mulheres-com-mais-de-221m-de-seguidores-1-no-instagram-seu-estilo-de-vida-e-cobicado-por-milhares-de-fas" style="font-size:18px"><strong>Neymar é talentoso, milionário, vive de forma luxuosa, se relaciona com as mais lindas mulheres. Com mais de 221M de seguidores<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><strong>[1]</strong></a> no Instagram, seu estilo de vida é cobiçado por milhares de fãs.</strong></h2>



<p style="font-size:18px"><strong>Fica a reflexão que talvez Neymar seja uma espécie de receptáculo da sombra coletiva</strong>, pois, “<em>a sombra coletiva, agregada e institucional sempre contém a sombra não examinada de cada um de nós. Aquilo do qual somos inconscientes, ou não desejamos enfrentar, contribuirá para nossa sombra coletiva e institucional</em>” (HOLLIS, 2010, p. 138).</p>



<p style="font-size:18px">No caso de Neymar, a figura do <em>puer aeternus</em> resplandece com força arquetípica. Ele é o menino eterno, brincante, seduzido pelo instante orgástico, pela leveza irresponsável do agora. Esse puer, ainda que fascinante, provoca inquietação, pois nos lembra tanto o desejo secreto de viver livres das amarras quanto o risco de sermos devorados pela própria recusa em amadurecer. Sua conduta desperta nossas sombras individuais e coletivas, pois revela aquilo que por vezes ocultamos: a nossa dificuldade em sustentar escolhas, limites, consequências, e o desejo de uma sedutora vida permeada de luxos e facilidades.</p>



<p style="font-size:18px">Neymar encarna, assim, uma mensagem ambígua e um tanto sombria: a de que a juventude e a liberdade podem ser buscadas a qualquer custo, mesmo quando o preço é a erosão do compromisso, o adiamento da responsabilidade e a impossibilidade de sustentar um eixo interno mais maduro. Ele nos confronta com o dilema eterno entre o impulso do puer brincante e a exigência transformadora da vida adulta, dilema que, no fundo, pertence menos ao atleta e mais ao inconsciente deste “homenino”.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;O menino Ney: a peleja entre o puer e a sombra em Neymar&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/05CtpCSpQxE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela A. Euzebio – Didata em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>BAUMAN, Zygmunt. Modernidade liquida. Rio de Janeiro: Zahar,</p>



<p>2001</p>



<p>HILLMAN, James. O livro do Puer: ensaios sobre o Arquétipo do Puer Aeternus. São Paulo: Paulus, 1998.</p>



<p>HOLLIS, James. A sombra interior. Por que pessoas boas fazem coisas ruins? São Paulo &#8211; Novo Século, 2010.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Cartas, Volume I. São Paulo: Ed. Vozes, 2001.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 6).</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2).</p>



<p>VON FRANZ, Marie-Louise. Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância. 2ª ed. São Paulo: Paulus,1992.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Acesso em 22 de abril de 2024</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Fonte: <a href="https://www.sbcp-sp.org.br/na-midia/cirurgias-plasticas-devem-somar-2-milhoes-de-procedimentos-em-2023-aponta-pesquisa/">https://www.sbcp-sp.org.br/na-midia/cirurgias-plasticas-devem-somar-2-milhoes-de-procedimentos-em-2023-aponta-pesquisa/</a>. Acesso em 29 jan. 2023.</p>



<p><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Fonte: <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/expectativa-de-vida-sobe-de-768-para-77-anos-no-brasil-diz-ibge/">https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/expectativa-de-vida-sobe-de-768-para-77-anos-no-brasil-diz-ibge/</a>. Acesso em 29 jan. 2023.</p>



<p><a href="#_ftnref3" id="_ftn3">[3]</a> Fonte: Wikipedia. Disponiível em: <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Neymar#Biografia">https://pt.wikipedia.org/wiki/Neymar#Biografia</a>. Acessado em: 19 fev. 2024.</p>



<p><a href="#_ftnref4" id="_ftn4">[4]</a> Fonte: Le Figaro. Disponível em <a href="https://www.jusbrasil.com.br/noticias/le-figaro-diz-que-faixa-de-neymar-100-jesus-foi-vista-como-proselitismo-por-torcedores/197437074#:~:text=Campe%C3%A3o%20pela%20primeira%20vez%20da,o%20jornal%20%E2%80%9CLe%20Figaro%E2%80%9D">https://www.jusbrasil.com.br/noticias/le-figaro-diz-que-faixa-de-neymar-100-jesus-foi-vista-como-proselitismo-por-torcedores/197437074#:~:text=Campe%C3%A3o%20pela%20primeira%20vez%20da,o%20jornal%20%E2%80%9CLe%20Figaro%E2%80%9D</a>. Acesso em 22 abr. 2024</p>



<p><a href="#_ftnref5" id="_ftn5">[5]</a> Fonte: Metrópole. Disponível em <a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/neymar-chama-atencao-ao-chegar-na-arabia-saudita-com-crucifixo-veja">https://www.metropoles.com/entretenimento/neymar-chama-atencao-ao-chegar-na-arabia-saudita-com-crucifixo-veja</a>. Acesso em 22 abr. 2024.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Intolerância com os Intolerantes</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/intolerancia-com-os-intolerantes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Renata Pastorello]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 18:46:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[projeção]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo propõe uma reflexão sobre o paradoxo da intolerância, de Karl Popper, à luz da Psicologia Analítica. A partir de uma vivência cotidiana, analisa-se a intolerância como expressão da cisão entre ego e sombra e a necessidade de integração desses opostos pela função transcendente. A única intolerância que deveríamos admitir na sociedade e [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo:</strong> Este artigo propõe uma reflexão sobre o paradoxo da intolerância, de Karl Popper, à luz da Psicologia Analítica. A partir de uma vivência cotidiana, analisa-se a intolerância como expressão da cisão entre ego e sombra e a necessidade de integração desses opostos pela função transcendente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-unica-intolerancia-que-deveriamos-admitir-na-sociedade-e-principalmente-dentro-de-nos-e-a-intolerancia-com-a-intolerancia" style="font-size:19px">A única intolerância que deveríamos admitir na sociedade e principalmente dentro de nós é a intolerância com a intolerância.</h2>



<p style="font-size:19px">Este é o Paradoxo da intolerância formulado por Karl Popper que consiste em que a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da própria tolerância. Uma sociedade tolerante deve, para se preservar, reservar o direito de não tolerar a intolerância (especialmente quando ela envolve violência física, discursos de ódio ou a tentativa de suprimir o debate racional ou a imposição de uma ideia única).</p>



<p style="font-size:19px">Durante uma aventura pessoal em ser a única administradora de um Grupo de Whatsapp de bairro, onde o intuito deste grupo era promover um lugar civilizado de anúncios de produtos e/ou serviços para os moradores, pude perceber o quanto estamos, como sociedade, cultivando a intolerância e querendo que sejamos muito tolerantes com a intolerância alheia.</p>



<p style="font-size:19px">Neste contexto, os participantes ao invés de tolerarem as pequenas imperfeições do grupo, iam pela via contrária: vociferavam a exigência de regras tão perfeitas para que eles, os participantes, não tivessem que sustentar desconforto algum.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-experiencia-antropologica-evidenciou-se-este-espirito-do-tempo-em-que-o-que-e-fortalecido-e-o-desejo-de-satisfacao-do-ego-ao-inves-de-fortalecer-a-flexibilidade-deste-ego" style="font-size:19px">Nessa experiência antropológica evidenciou-se este espírito do tempo em que o que é fortalecido é o desejo de satisfação do ego, ao invés de fortalecer a flexibilidade deste ego.</h2>



<p style="font-size:19px">Um ego forte é como o material de uma ponte: é forte o suficiente para sustentar o peso que o atravessa, porém é flexível o suficiente para não se romper com o movimento da travessia. A intolerância é um sintoma da não aceitação da própria sombra, da cisão e oposição do ego aos conteúdos inconscientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-negar-o-mal-dentro-de-si-o-inconsciente-o-projeta-no-outro-e-justifica-a-violencia-moral-em-nome-do-bem-jung-chama-essa-dinamica-de-posse-pela-sombra" style="font-size:19px">Ao negar o “mal dentro de si”, o inconsciente o projeta no outro e justifica a violência moral em nome do “bem”. Jung chama essa dinâmica de posse pela sombra:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>com a projeção do mal, nós deslocamos o medo e a irritação que sentimos em relação ao nosso próprio mal para o opositor, aumentando ainda mais o peso da sua ameaça.</p><cite>(JUNG, 2019c, p.572)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">A projeção é um mecanismo do inconsciente de reorganizar a experiência psíquica buscando se relacionar com a consciência. Porém, na busca por um ego perfeito e imaculado, o indivíduo fragmenta o que é &#8220;indesejável&#8221; (a Sombra) e suprimi o diálogo com esses aspectos transformando-os em luta, esta podendo ocorrer do lado de dentro, como processos depressivos, e ou do lado de fora designando a resolução de forma externa.</p>



<p style="font-size:19px">Esta defesa egóica que luta pela manutenção de uma perfeição estática é o que o torna intolerante, sendo dominado muitas vezes por um complexo de inferioridade que, paradoxalmente, se manifesta como um complexo de superioridade ou tirania (como a exigência de regras &#8220;perfeitas&#8221; no grupo, que é uma forma de domínio moral).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ego-inflado-aparecendo-na-forma-de-unico-eu-em-nos-que-deseja-controlar-o-ambiente-as-regras-do-grupo-para-evitar-o-confronto-com-a-propria-multiplicidade-interna" style="font-size:19px">O ego inflado aparecendo na forma de único eu em nós que deseja controlar o ambiente (as regras do grupo) para evitar o confronto com a própria multiplicidade interna.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Como ponto de referência do campo da consciência, o eu é o sujeito de todos os esforços de adaptação na medida em que estes são produzidos pela vontade. [&#8230;] O eu conserva sua condição de centro do campo da consciência; mas, como ponto central da personalidade, tornou-se problemático. Constitui parte desta personalidade, não há dúvida, mas não representa a sua totalidade. </p><cite>(JUNG, 2019a, p.11)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">O antídoto para a cisão e a intolerância é a aceitação da dualidade e a integração de todos os aspectos da vida. Especialmente os aspectos que não são agradáveis ao julgamento do ego. O que o Jung chamou de Função Transcendente, a proposta da sua psicologia não está em abraçar um dos lados, ou seja, não é agirmos como se o inconsciente tivesse passe livre para o mundo externo e nem a repressão total deste inconsciente visando atender única e exclusivamente a adaptação externa:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Por “função transcendente” não se deve entender algo de misterioso e por assim dizer suprassensível ou metafísico, mas uma função que, por sua natureza, pode-se comparar com uma função matemática de igual denominação, e é uma função de números reais e imaginários. A função psicológica e “transcendente” resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes. </p><cite>(JUNG, 2019b, p.131)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Ou seja, a Função Transcendente é uma atividade natural da psique que une consciente e inconsciente, gerando uma nova atitude levando em consideração os dois mundos: interno e externo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-contexto-a-intolerancia-pode-simbolizar-uma-dificuldade-em-realizar-a-funcao-transcendente-a-intolerancia-demonstra-uma-recusa-interior-em-buscar-uma-nova-atitude-que-inclua-o-que-foi-projetado" style="font-size:19px">Neste contexto a intolerância pode simbolizar uma dificuldade em realizar a Função Transcendente; a intolerância demonstra uma recusa interior em buscar uma nova atitude que inclua o que foi projetado.</h2>



<p style="font-size:19px">A atitude tolerante, por outro lado, exige o trabalho psíquico de sustentar o desconforto, estabelecendo um diálogo com ele (o &#8220;erro&#8221; do outro, a imperfeição da regra). A flexibilidade do Ego (a ponte forte, porém flexível) só é possível quando ele está em relação com a totalidade. A intolerância é um sinal de que o ego se recusa a estabelecer um diálogo com o inconsciente e se tornou um centro rígido e tirânico.</p>



<p style="font-size:19px">A verdadeira &#8220;regra perfeita&#8221; está na estrutura interna do ego em utilizar a flexibilidade, para adaptar-se na medida do possível na estrutura externa. A aceitação da Sombra é o que torna a convivência possível. A intolerância social é, em última análise, o grito da alma que se recusa a confrontar a imperfeição mais íntima: a totalidade da vida que contém não somente a luz como a sombra.</p>



<p style="font-size:19px">Talvez o verdadeiro sentido do paradoxo de Popper não seja apenas político, mas também psicológico: precisamos aprender a ser intolerantes com a intolerância interior, com a parte de nós que deseja excluir, punir, aniquilar o diferente. Só assim o coletivo poderá se transformar — não pela repressão do mal, mas por sua integração consciente.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Intolerância com os Intolerantes" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/xZMfrKp0Qx0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/renata-pastorello/">Renata Pastorello – Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p style="font-size:16px">JUNG, Carl. G.<em> Aion</em>, 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2019</p>



<p style="font-size:16px">___________<em> A Natureza da Psique</em>, 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2019</p>



<p style="font-size:16px">___________<em>Presente e futuro</em>, 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2019</p>



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		<title>Jardineiros vs. Mecânicos da Alma: Uma Escolha de Carreira com Consequências Cósmicas </title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/jardineiros-vs-mecanicos-da-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 05 Sep 2025 10:41:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A senda da psicoterapia analítica junguiana é, com todo o charme e as idiossincrasias, a do jardineiro da Alma. Para o jardineiro, a alma não é uma máquina enferrujada, mas um ecossistema vivo, caótico, surpreendentemente fértil e, por incrível que pareça, curativo. Como se a alma fosse um jardim secreto com dragões e borboletas, e [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-senda-da-psicoterapia-analitica-junguiana-e-com-todo-o-charme-e-as-idiossincrasias-a-do-jardineiro-da-alma" style="font-size:20px"><strong><em>A senda da psicoterapia analítica junguiana é, com todo o charme e as idiossincrasias, a do jardineiro da Alma.</em></strong></h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Para o jardineiro, a alma não é uma máquina enferrujada, mas um ecossistema vivo, caótico, surpreendentemente fértil e, por incrível que pareça, curativo. Como se a alma fosse um jardim secreto com dragões e borboletas, e não um carburador entupido.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Nesta visão poética e funcional, <strong>o sintoma não é um erro de fabricação; é uma planta inesperada que brota do solo para sinalizar algo vital sobre a terra interior</strong>. Talvez falte um nutriente essencial (sentido, propósito, aquela paixão que faz o olho brilhar). Talvez o solo esteja envenenado (um trauma não digerido, uma dor antiga, ou o fato de estarmos num caminho que só a sanidade duvida). Ou talvez seja apenas uma flor selvagem e rara que o jardim &#8220;civilizado&#8221; da consciência ainda não aprendeu a reconhecer, porque, vamos combinar, a gente é meio cego para a beleza que não vem com manual de instruções.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">A angústia, essa velha amiga barulhenta, não é um defeito a ser calado, mas a energia da transformação represada, a água de um rio que busca, desesperadamente, um novo leito para correr. O trabalho do jardineiro, portanto, não é arrancar a planta (ai, que pecado!) ou represar a água (que perigo!), mas entender o solo. É um ato de integração, de ouvir a natureza, de sujar as mãos com a terra da própria existência, sabendo que a vida gosta de crescer, e a alma, de florescer.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-trono-vazio-e-o-velho-principio-ordenador-ou-por-que-o-rei-precisa-de-ferias-nbsp" style="font-size:20px"><strong>O Trono Vazio e o (Velho) Princípio Ordenador: Ou por que o Rei Precisa de Férias</strong>&nbsp;</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Existe um &#8220;rei&#8221; ou &#8220;pai&#8221; simbólico em nossa psique que, por mais bem-intencionado que seja, pode se tornar uma tirania</strong>. Não é só uma figura; é um princípio ordenador, aquela lógica fria que exige provas, desconfia da intuição e adora um dogma – seja ele científico, religioso ou cultural. Ele oferece a segurança de uma resposta pronta em troca da liberdade da pergunta viva, aquela que arrepia a espinha. É a voz da sociedade que dita o &#8220;normal&#8221; e patologiza o desvio sagrado, transformando a autenticidade em um diagnóstico.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">A psicologia comportamental e a psicofarmacologia, em suas formas mais reducionistas, são as guardas leais deste rei. Elas veem a alma como uma máquina com peças defeituosas. Para elas, o sintoma é um erro no código (Ctrl+Z, por favor!). A angústia é um desequilíbrio químico (um &#8220;remédio para isso, por favor!&#8221;). O propósito? Ah, isso é um conceito irrelevante, algo para poetas e gente que não tem o que fazer. A solução delas é a do mecânico: trocar a peça, ajustar o parafuso, reescrever o código. É um ato de supressão disfarçado de cura, como se a alma fosse um motor de carro e não um cosmos em miniatura.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-um-tempo-que-insiste-em-nos-transformar-em-maquinas-de-produtividade-e-em-nos-ajustar-com-a-quimica-da-adaptacao-uma-verdade-ancestral-ecoa-das-profundezas-quase-rindo-da-nossa-ingenuidade" style="font-size:19px"><strong>Em um tempo que insiste em nos transformar em máquinas de produtividade e em nos ajustar com a química da adaptação, uma verdade ancestral ecoa das profundezas, quase rindo da nossa ingenuidade</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Somos levados a crer que o pensamento é uma ferramenta, um produto do nosso &#8220;eu&#8221; consciente, a ser otimizado para o rendimento e o prazer fugaz. Mas, como Jung poeticamente nos ensina, o pensamento, em sua origem, não é invenção; é revelação.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Ele não brota de nós; ele nos acontece, como um relâmpago que ilumina a paisagem interior. É uma voz que precede o Ego, uma realidade que se impõe, vinda de um oceano de consciência onde nosso &#8220;eu&#8221; é apenas uma ilha, e não o continente. Esta é a linguagem da alma, aquela que a psicofarmacologia e a psicologia comportamental, em sua ânsia por controle e estruturas basilares, tentam silenciar, tratando o espírito como um defeito a ser corrigido, e não como uma fonte a ser ouvida. É uma pena, pois poderiam aprender tanto!&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Vivemos sob o jugo de uma consciência que ainda não atingiu seu cume, presa aos tronos vacilantes de símbolos antigos – o pai, o rei, a autoridade externa. A verdadeira jornada da alma, portanto, não é a da adaptação ao mercado e seus &#8220;influencers&#8221; de performance, mas a da rebelião sagrada. É o ato de, na linguagem dos sonhos e da vida, permitir que esse rei simbólico morra. Afinal, em sua majestade, ele talvez estivesse apenas precisando de umas boas férias&#8230; ou de uma aposentadoria forçada para o bem da monarquia interior.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Apenas no silêncio do seu trono vazio, a alma deixa de ser um fenômeno a ser estudado (e dissecado!) e se torna a voz que, finalmente, pode nos guiar</strong>. Não para produzir mais, mas para ser mais. <strong>A morte do rei não é o fim da história, é a grande cura; é o início da jornada</strong>. É o momento em que a alma, por tanto tempo uma província colonizada pela razão e pelo dogma, declara sua independência, levantando a bandeira da totalidade e, quem sabe, de uma boa gargalhada para celebrar a liberdade diante do mistério que virá.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Analogia Para Iluminar (e um pouco de drama):</strong> No reino da Psique, a Anima e o Animus são figuras arquetípicas específicas e poderosas, como sacerdotisa ou velho sábio, uma feiticeira ou um mago &#8211; guias misteriosos. Eles não são a magia do reino (essa é a Alma), mas são os que manejam e revelam ao regente (o Ego), conduzindo-o por caminhos perigosos, mas necessários para a integridade do reino. São eles que, às vezes, sussurram no nosso ouvido: &#8220;Vai lá, arrisca! A pior coisa que pode acontecer é virar uma boa história&#8230; ou um meme.&#8221;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-pouco-mais-psique-alma-anima-e-animus-nbsp" style="font-size:20px"><strong>Um pouco mais – Psique – Alma – Anima e Animus</strong>&nbsp;</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">A psicologia, em sua eterna, e por vezes cômica, busca para decifrar esse enigma ambulante que chamamos de ser humano, vez ou outra esbarra em conceitos que, de tão centrais, parecem complexos labirintos construídos pela própria alma em um dia de inspiração caótica. Com a bússola de Carl Gustav Jung em mãos – e um bom senso de humor e conexão com a realidade, para não nos perdermos nas profundezas –, vamos navegar utilizando digressões, metáforas e simbolizações, para tentarmos desvendar os mistérios da Psique, da Alma e dos arquétipos da Anima e do Animus. Afinal, esses são alguns dos conceitos de estudo dessa teoria científica, que tangencia os mistérios metafísicos do nosso existir de forma empírica, e que insiste em se meter onde não é chamada (e que bom que o faz!).&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-resumo-para-a-psicologia-que-se-atreve-a-olhar-para-a-propria-alma-sem-medo-de-ser-feliz-e-as-vezes-de-se-deparar-com-a-propria-bagunca-nbsp" style="font-size:19px">Em resumo, para a psicologia que se atreve a olhar para a própria alma sem medo de ser feliz (e às vezes, de se deparar com a própria bagunça):&nbsp;</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>A Psique é o campo de estudo total.</strong> O palco, o elenco, a plateia e o bilheteiro. Nosso objeto de estudo que nos atrapalha porque somos nós mesmos. A Borboleta que Sopra: A palavra grega <em>ψυχή</em> (<em>psyché</em>) evoca a borboleta – criatura leve, que simboliza a transformação e a mobilidade da vida psíquica. Mas também se conecta a <em>ψύχειν</em> (<em>psychein</em>), &#8220;soprar&#8221; ou &#8220;bafejar&#8221;, sugerindo um alento, um princípio de movimento, um sopro divino que nos torna, bem, psíquicos. Ou, como diria um bom comediante, &#8220;um sopro de ar fresco&#8230; ou nem tanto, dependendo do dia!&#8221; Se a vida interior fosse um reino, a Psique seria o reino inteiro, com suas terras conhecidas (a consciência do eu, onde a gente arruma a cama e tenta se portar bem) e seus vastos territórios inexplorados e misteriosos (o inconsciente, onde o dragão dorme e as ideias mais malucas nascem). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alma-e-a-forca-vital-e-autonoma-que-o-anima-ousadia-iridescente-que-nos-tira-do-sofa" style="font-size:19px"><strong>A Alma é a força vital e autônoma que o anima, ousadia iridescente que nos tira do sofá.</strong></h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">A energia que mantém o show rolando, mesmo quando o roteiro parece não fazer sentido. A Alma (em alemão, <em>Seele</em>), meu caro amigo, não é uma entidade pacata e comportada, sentada em um pedestal. Pelo contrário! Ela é o princípio ativo, autônomo, o dínamo que dá vida à Psique. Uma força motriz que, como um artista excêntrico, é iridescente, vibrante e, por vezes, um tanto quanto traiçoeira. Sua finalidade, acredite se quiser, é nos empurrar para a experiência plena da vida, mesmo que para isso precise nos pregar algumas peças.&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alma-e-aquilo-que-vive-por-si-so-e-gera-vida" style="font-size:19px"><strong>A Alma é &#8220;aquilo que vive por si só e gera vida&#8221;</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">É essa a energia cósmica que seduz a inércia da matéria, convencendo o indivíduo a viver, mesmo que para isso utilize &#8220;ciladas e armadilhas&#8221;, como Jung nos alertava. Ela é a própria serpente do nosso paraíso interior, que não sossega enquanto não nos convence da &#8220;excelência da maçã proibida&#8221; da experiência para o discernimento dos pares de opostos que compõe a integralidade. Sem ela, nos estagnaríamos na maior paixão humana: a inércia. E cá entre nós, quem precisa de tédio quando se pode ter uma aventura existencial, não é?&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">A palavra alemã <em><strong>Seele</strong></em> conecta-se ao grego <em>aiolos</em>, que significa &#8220;móvel, colorido, iridescente&#8221;. É a força vital que se move, se transforma e muda de cor, como uma pena de pavão em dia de sol.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anima-e-animus-sao-as-principais-estruturas-arquetipicas-dentro-desse-campo-funcionando-como-uma-ponte-essencial-para-o-autoconhecimento-e-a-integracao" style="font-size:19px"><strong>Anima e Animus são as principais estruturas arquetípicas dentro desse campo, funcionando como uma ponte essencial para o autoconhecimento e a integração.</strong></h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">São diretores de palco que, vez ou outra, empurram um ator para a luz do palco, mesmo que ele prefira ficar nos bastidores. No reino da Psique, a Alma seria a própria magia, a força vital que anima todas as criaturas, plantas e rios — até mesmo aqueles rios de lágrimas que nos lavam a alma. É a energia que impede que o reino se torne um deserto estéril, mesmo que isso implique tempestades, terremotos e, ocasionalmente, aquela crise de riso incontrolável no meio de uma situação séria.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anima-e-animus-sao-contrapontos-dos-principios-masculino-e-feminino-distintos-da-alma-em-sua-totalidade" style="font-size:19px">Anima e Animus são contrapontos dos princípios masculino e feminino, distintos da Alma em sua totalidade.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Eles são arquétipos específicos, um programa pré-instalado em nossa psique, que age como ponte e personifica qualidades relacionais, frequentemente projetadas no outro. São aquelas vozes que, às vezes, nos convencem a mandar uma mensagem “sincera” às três da manhã ou a tomar uma decisão que “parece boa na hora”.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">São mediadores entre a <strong>Persona</strong> — estrutura arquetípica necessária para nossa relação com o mundo externo, “construída” pelo nosso Ego teimoso e pressionada pela Sombra, que representa o inconsciente pessoal com seus complexos — e as profundezas do inconsciente coletivo. Anima e Animus são guias, as feiticeiras ou magos; as sacerdotisas misteriosas ou velhos sábios que nos conectam ao nosso centro ordenador, o Si-mesmo (Self), aquela voz sábia que a gente só ouve depois que começamos a deixar de nos esconder naquilo que julgamos saber. Como Jung observou, elas são um “fator” <em>a priori</em> da psique, algo que “emerge espontaneamente em humores, reações e impulsos”, uma “vida por detrás da consciência” da qual, por vezes, a própria consciência emerge. Ou seja, elas são figuras ancestrais que sabem mais do que a gente!&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Na psique masculina, a <strong>Anima </strong>é o arquétipo do feminino interior, a personificação de todos os traços femininos que, por pura desatenção social, permaneceram inconscientes. É como o lado “macio” do homem, que ele tenta esconder na frente dos amigos. Na psique feminina, essa função é elegantemente cumprida pelo Animus, o masculino interior, que é uma espécie de versão do “durão”, mas que, no fundo, só quer ser compreendido.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-o-que-e-tocado-pela-anima-ou-pelo-animus-se-torna-numinoso-magico-perigoso-incondicional-e-sim-tabu" style="font-size:19px"><strong>Tudo o que é tocado pela Anima ou pelo Animus se torna numinoso</strong>: mágico, perigoso, incondicional e, sim, tabu.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">São as “serpentes no paraíso” que seduzem para a vida e para o conhecimento, desafiando a ordem estabelecida. Jung nos lembra que elas “não estão totalmente erradas; pois a vida não é somente o lado bom, é também o lado mau. Porque aspiram à vida, que é sinônimo de troca, elas querem o bom e o mau.” Elas são aquele impulso irresistível que nos leva a explorar o desconhecido, mesmo que haja uma placa gigante escrita “Perigo!” — e depois rir do tombo.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">A Psique é ambivalente, multifacetada, querendo tanto o bem quanto o mal. Mas não por maldade, e sim porque seu objetivo não é a moralidade cartesiana, mas a totalidade da experiência. Ela é a inimiga jurada da estagnação, da unipolaridade, da inércia e daquela &#8220;razoabilidade&#8221; chata que insiste em limitar a vida a uma planilha de Excel.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Ter alma, portanto, é ter &#8220;a ousadia da vida&#8221; – e isso inclui a coragem de ser imperfeito, desorganizado, ocasionalmente hilário e ter a coragem de confrontar os códigos de costume moral.&nbsp;</strong></p>



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		<title>O procedimento estético mais cobiçado da modernidade: o resgate da autoestima</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-procedimento-estetico-mais-cobicado-da-modernidade-o-resgate-da-autoestima/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Pimentel Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Apr 2025 23:52:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O constante avanço dos procedimentos estéticos e a construção de uma autoestima. Nesse artigo, se aborda a relação desses dois elementos, perpassando pelo conceito e pela ampliação do que é ter uma autoestima saudável, bem como seu processo de construção. Inúmeros casos de deformação corporal e prejuízos na saúde, alguns levando até a morte, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Resumo</strong>: O constante avanço dos procedimentos estéticos e a construção de uma <strong>autoestima</strong>. Nesse artigo, se aborda a relação desses dois elementos, perpassando pelo conceito e pela ampliação do que é ter uma autoestima saudável, bem como seu processo de construção. Inúmeros casos de deformação corporal e prejuízos na saúde, alguns levando até a morte, são noticiados pela mídia a todo instante. Afinal, qual o sentido de tudo isso? Como a culpa e a vergonha de ser quem somos interferem nessa intrincada construção? <strong>Será que a persona tem influência nessa busca desmedida pelo belo através de seringas e ampolas</strong>? Este artigo explora essas questões sensíveis e angustiantes pontudas e estimuladas a todo instante pela cultura, pela mídia, por nós mesmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-injecoes-de-alegria-e-ampolas-de-autoestima-nunca-foi-tao-facil-comprar" style="font-size:21px">Injeções de alegria e ampolas de autoestima, nunca foi tão fácil comprar.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">O conceito de autoestima atravessa dois campos principais: a valorização das próprias competências e uma relação harmoniosa com o corpo. O gostar de si mesmo é uma conquista difícil de ser alcançada nos tempos atuais, quando se há uma padronização daquilo que é considerado saudável, aceito e belo. Com isso, as diferenças são jogadas na sombra. Assim, o valorizar o que há de singular e de diferente em nós acaba sendo um processo não estimulado ou visto como falta de empatia com o próximo.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Ter uma visão honesta e completa daquilo que somos e do que nos constitui lança o ego em uma encruzilhada de contradições e paradoxos. Não há possibilidade de amar pontos cegos, negados e desconhecidos pela consciência. Quando mais se rejeita, mais energia psíquica este conteúdo ganha, impactando e constrangendo o ego de maneira intensa e incontrolável. Portanto, o primeiro passo para desenvolver uma autoimagem consistente é aceitar as próprias falhas; é reconhecer que perfeição não há, mas sim inteireza.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-espelho-espelho-meu-existe-alguem-mais-bela-do-que-eu" style="font-size:21px">Espelho, espelho meu; existe alguém mais bela do que eu?</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Ter uma autoestima bem trabalhada não é algo fixo, imutável e permanente no tempo, tampouco um processo estanque. É um trabalho pessoal dinâmico, com oscilações e repleto de incertezas e descobertas. É de suma importância estabelecer uma conexão do Eu com o Si-mesmo, pois é nesse diálogo e integração que residem os valores mais genuínos e autênticos de cada indivíduo. A busca desmedida e constante por seringas e ampolas para aplacar o vazio existencial e de sentido interno nunca foi tão procurado; e simultaneamente tão ineficaz.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“O valor tanto energético como moral da personalidade consciente e inconsciente está sujeito às maiores variações no indivíduo.” (JUNG, OC.14/2, §281)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-redes-sociais-filtros-sao-criados-a-todos-instante-se-tornando-uma-regra-para-a-validacao-social-de-corpo-estetica-e-imagem" style="font-size:19px">Nas redes sociais, filtros são criados a todos instante, se tornando uma regra para a validação social de corpo, estética e imagem.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Um sequestro coletivo de traços de humanidade e diversidade é autorizado de forma subliminar a todo instante. A insegurança natural de ser quem se é acaba sendo anulada e exterminada a todo custo. A possibilidade de criação e desenvolvimento de consciência, permeada de riscos, incertezas e dúvidas, é esterilizada. Como consequência, insônias, crises de ansiedade, fobias sociais e distorção de imagem, viram queixas constantes e diárias.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>É bom ressaltar que o corpo é a extensão da psique</strong>. O não reconhecimento daquilo que se enxerga no espelho afeta intensamente o gostar e a liberdade de expor a própria imagem. Estamos cada vez mais inclusivos, humanos e fraternos. Será? <strong>É público e notório o aumento crescente e intenso por procedimentos estéticos, como a harmonização. Cirurgias plásticas, a busca pelo rosto quadrado, o levantamento de linhas de expressão. Qual a finalidade de todas essas intervenções</strong>? O cuidado consigo mesmo não pode ser álibi para um assassinato da própria natureza.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">O senso de autoestima conversa diretamente com o conceito de <strong>persona</strong>, desenvolvido por <strong>Jung</strong>. <strong>Persona é uma construção psicológica constituída por valores, aspectos, ideias e comportamentos, selecionados por todos nós com a finalidade de aceitação e movimentação no mundo social e coletivo. É tudo aquilo que escolho para me apresentar ao outro.</strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">O grande paradoxo começa quando há uma<strong> identificação com a persona</strong>. Mesmo sendo uma estrutura necessária, ao se identificar com esses aspectos, pode-se criar um falso eu, uma ilusão, uma fragmentação daquilo que somos em essência. Logo, ocorre um choque com a nossa natureza, criando dúvidas, confusões, angústias e incertezas sobre a nossa individualidade. Deste modo <strong>a autoestima e a espontaneidade são enterradas e solapadas</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.” (JUNG, OC.7/2, §246)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-expectativa-de-terceiros-seja-na-forma-do-nucleo-familiar-ou-de-um-coletivo-social-impacta-diretamente-a-autopercepcao-do-individuo" style="font-size:21px">A expectativa de terceiros, seja na forma do núcleo familiar ou de um coletivo social, impacta diretamente a autopercepção do indivíduo.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Quando há um conflito entre aquilo que sabemos sobre nós, a nossa função no mundo e a qualidade das relações subjetivas estabelecidas e o que a sociedade cria como expectativa de bom, moral e justo, o senso de identidade é o primeiro a ser sacrificado. É um sacrifício caro e contra a natureza, fortalecendo o sentimento de inadequação e o enfraquecimento da autoestima.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">A culpa e a vergonha são aspectos a serem amplificados nessa jornada da busca ao amor próprio. Um dos pontos cruciais a se pensar é a própria autorização de ser quem se é e viver harmoniosamente e coerentemente com sua singularidade, independente da avaliação constante do mundo e seus pilares de eficiência e alegria constante. A culpa por não seguir um padrão estimula a correção do dito imperfeito.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>O que fazemos com a culpa? Uma das grandes questões de um processo psicoterapêutico</strong>. É um mecanismo legítimo que nos coloca frente a frente com a responsabilidade e conscientização dos nossos atos, retirando a sua projeção nos outros, ou é uma algema instalada por ideais e ofensas falsas coletivas que impede o autorrespeito?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-experiencias-da-infancia-quando-sao-permeadas-por-episodios-de-humilhacao-ofensa-e-descredito-podem-abrir-feridas-emocionais-profundas-e-dolorosas" style="font-size:19px">As experiências da infância quando são permeadas por episódios de humilhação, ofensa e descrédito podem abrir feridas emocionais profundas e dolorosas. </h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Dessa maneira, imagens de experiências desafiadoras (que são atraídas e circundam complexos com um núcleo arquetípico) surgem e deixam rastros capazes de desvendar temas e conteúdos preciosos necessários à consciência. Ter a coragem e a honestidade demandadas ao lidar com questões arquetípicas como vaidade, soberba, inferioridade, rejeição, auxiliam fortemente o desenvolvimento e a formação do senso de existência e amor próprio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-constrangimento-decorrente-do-olhar-a-realidade-que-se-e-nunca-sera-maior-do-que-o-desconforto-de-viver-refem-de-dogmas-e-mandos-sem-sentido" style="font-size:19px">O constrangimento decorrente do olhar a realidade que se é nunca será maior do que o desconforto de viver refém de dogmas e mandos sem sentido.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Mas se esse homem conscientizar seus conteúdos inconscientes, tais como aparecerem inicialmente nos conteúdos fáticos de seu inconsciente pessoal e depois nas fantasias do inconsciente coletivo, chegará às raízes de seus complexos.” (JUNG, OC. 7/2, §387)</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Jacoby </strong>cita: “<strong><em>Com que rapidez nos sentimos envergonhados e com que intensidade, afinal de contas, depende da medida de tolerância que somos capazes de concentrar para nossos próprios lados sombrios</em></strong>.” (2023. p.41).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lidar-com-a-autoestima-e-um-convite-de-paz-com-os-nossos-proprios-demonios-e-questoes-sombrias-demonstrando-uma-autocompaixao-por-nos-e-pelos-outros" style="font-size:19px">Lidar com a autoestima é um convite de paz com os nossos próprios demônios e questões sombrias, demonstrando uma autocompaixão por nós e pelos outros.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">À medida que me reconheço e tenho consciência das minhas imperfeições, consigo respeitar e ser tolerante com o outro. Com a tolerância, uma união pode ocorrer e uma estima nascer. Eros pode reestabelecer o vínculo com a vida, com o corpo e com o autorrespeito.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">A capacidade de estabelecer limites e de dizer não sem ter a compressão desse ato como uma ofensa ao outro é um aspecto rico a ser debatido. Se colocar na posição de humilde e sempre prestativo para que a aceitação de quem se é ocorra é um perigo, que pode camuflar compensações inconscientes das mais variadas formas e conteúdo. A partir do momento que não estabeleço uma distância com o que chega até mim, uma simbiose inconsciente pode ocorrer, afastando cada vez mais a possibilidade de diferenciação e individualização. Por consequência, se não sei quem sou, uma dificuldade em valorar o que faço, o que penso, se instala.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-a-autenticidade-e-o-fruto-de-uma-autoestima-trabalhada" style="font-size:19px">Por fim, <strong>a autenticidade é o fruto de uma autoestima trabalhada</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">O centro da totalidade psíquica, o Si-mesmo, abre caminhos simbólicos, seja por sonhos, sincronicidade, expressões criativas, para que uma união seja realizada. Antes de mais nada, ter autoestima é ter conhecimento do mundo interno; dos paradoxos e das polaridades subjetivas; dos diálogos com conteúdos inconscientes. Processo impossível de acontecer se rejeitarmos a voz e o encontro com esse centro mandálico.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📝Artigo novo: &quot;O procedimento estético mais cobiçado da modernidade: o resgate da autoestima&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/blFXwiWV6wg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/pedro-rocha/">Pedro Pimentel Rocha – Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi – Analista Didata</strong> <strong>do IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:22px"><strong>Referências:</strong></p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JACOBY, M. <strong>A vergonha e as origens da autoestima. Abordagem Junguiana</strong>. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JUNG, C. G. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. OC.7/2. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.4">JUNG, C. G. <strong>Mysterium Coniunctionis</strong>. OC.14/2. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="has-luminous-vivid-orange-color has-text-color has-link-color wp-elements-fc40df6cbddff4d11be9709c55dbd258" style="font-size:18px"><em><strong>X Congresso Junguiano IJEP&nbsp;(9, 10, 11 Junho/2025)</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Online e Gravado – 30h Certificação</strong></em></p>



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<p class="has-luminous-vivid-orange-color has-text-color has-link-color wp-elements-c40715b522ea1a85eca82db21cd14f75" style="font-size:18px"><strong><em>Acompanhe nosso Canal no YouTube:&nbsp;https://www.youtube.com/@IJEPJung</em></strong></p>
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			</item>
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		<title>Um ensaio sobre a persona</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-ensaio-sobre-a-persona/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Oct 2024 20:29:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9549</guid>

					<description><![CDATA[<p>Parece-nos, apesar de não termos um registro formal, que a persona é uma das estruturas menos pesquisadas, ampliadas, e aprofundadas nas publicações junguianas – certa vez uma pessoa mencionou comigo em um congresso que fez uma pesquisa dos termos mais pesquisados na psicologia analítica a persona ficou em último lugar, contudo, nunca tive acesso a [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>         Parece-nos, apesar de não termos um registro formal, que a persona é uma das estruturas menos pesquisadas, ampliadas, e aprofundadas nas publicações junguianas – certa vez uma pessoa mencionou comigo em um congresso que fez uma pesquisa dos termos mais pesquisados na psicologia analítica a persona ficou em último lugar, contudo, nunca tive acesso a essa pesquisa. Apesar disto, tacitamente, fica clara a preferência dos autores em outros temas, tais como mitologia, anima, animus, sombra, individuação, sonhos dentre outros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-persona" style="font-size:17px">          E a persona?</h2>



<p>           Bem, são muitas confusões acerca da persona, é um arquétipo? É um complexo? Qual é a diferença entre persona e complexo? Quando o ego se identifica com a persona é a chamada inflação? Ela faz oposição à sombra? Quem inventou que ela se opõe à anima e/ou animus? Existe algo de “novo” que pode ser dito sobre a persona ou pesquisas que podem ser feitas a partir dela?</p>



<p>          Nas próximas linhas tentaremos elucidar alguns desses pontos e, mais ainda, ao final, tentaremos destacar a importância e os aspectos positivos da persona para a psique, pois muitas vezes parece que a única coisa a qual a persona serve é para ser “retirada” do ego para que se “entre” no processo de individuação, o que é inverossímil. <strong>Sendo fiel ao pensamento junguiano, nenhuma estrutura da psique é ruim em si</strong>.</p>



<p>         Os problemas aparecem quando há unilateralização de algo na consciência e consequente repressão de outros conteúdos no inconsciente, mas que também precisam “participar” de alguma forma da consciência. <strong>É isso com a sombra, com os complexos, e não é diferente com a persona</strong>. Ela é funcional enquanto estrutura da psique, mas disfuncional se o ego só vive a biografia da persona. Vamos construir este artigo em forma de quiz! Vocês observarão que nossa principal fonte de citações é o <strong>volume 7/2</strong> da Obra Completa, já que este é, de fato, o principal livro que Jung trabalha esse conceito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-comeco-o-que-e-persona"><strong>Do começo: o que é persona?</strong></h2>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dentre os diversos atributos da psique – e não são poucos – existe um seguimento que se propõe a se relacionar com o mundo externo e de certa forma se “parecer” com ele. Este seguimento é chamado de persona, palavra que etimologicamente vem do latim e significa máscara. É ela que gera a palavra “pessoa” em português e que manteve a mesma grafia latina em espanhol, sendo que nesse caso significa pessoa (e o que cria uma complicação quando lemos textos junguianos em espanhol).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-diz-jung" style="font-size:15px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diz Jung: </h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>A persona é um complicado sistema de relação entre a consciência individual e a sociedade; é uma espécie de máscara destinada, por um lado, a produzir um determinado efeito sobre os outros e por outro lado a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo.”</em> (OC 7/2, §304)</p></blockquote></figure>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse sentido, assim como qualquer outra estrutura, a persona tem uma função na psique que é natural, pois dela depreende aquilo que deixa o indivíduo mais “igual” à sociedade que faz parte, pois isso também é parte de algo fundamental: estabelecer uma relação compromissada com o mundo externo: <em>“ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que ‘alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo’” </em>(OC 7/2, §246).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-persona-e-um-complexo-ou-e-um-arquetipo"><strong>A persona é um complexo ou é um arquétipo?</strong></h2>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa resposta é menos simples do que parece, mas podemos compreender a persona tanto como um arquétipo como um complexo. O Prof. Dr. Waldemar Magaldi (2014, p. 177), afirma que <em>“Para Jung, a persona é um arquétipo, portanto é inevitável”</em>. Isso significa que a ter ou não ter uma persona não é uma escolha do indivíduo, dada que a realidade arquetípica é comum a qualquer pessoa. Mas lembremos que o arquétipo não é algo concreto, senão uma forma pré-definida, irrepresentável em si, que carece da experiência individual do sujeito para adquirir sentidos e significados que são passíveis de serem compreendidos à luz de imagens arquetípicas (mitos, contos, religiões e outros). </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-corrobora-com-a-ideia-de-coletividade-da-persona-mencionando-que" style="font-size:16px">         Jung corrobora com a ideia de coletividade da persona, mencionando que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p> <em>“Sendo esta última um recorte mais ou menos arbitrário e acidental da psique coletiva, cometeríamos um erro se a considerássemos (a persona), in toto, como algo ‘individual’. Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva</em>.” (OC 7/2, §245)</p></blockquote></figure>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O ponto é que quando Jung diz que a persona é algo coletivo, é porque ela representa uma ideia de consciência coletiva, que é oposto ao inconsciente coletivo, fonte dos arquétipos. Mas precisamos deduzir criativamente a partir do conceito de arquétipo outras possibilidades de entendimento da persona – pois nem tudo em Jung está literalmente explicado – e buscar relações conclusivas, ou ao menos aproximativas, a partir dos diversos princípios estabelecidos por ele, dando assim uma amplitude de entendimento da persona.</p>



<p>         Se ela é algo comum às pessoas, logo, ela é um arquétipo, pois tudo que é comum ao humano tem base arquetípica. Mas como todo arquétipo, sempre haverá uma correspondência individual na forma de complexo. Isso significa que do ponto de vista da estrutura basal da psique, a persona é um arquétipo, mas encontrará sua expressão no sujeito por meio de um complexo, isto é, a persona da pessoa será “montada” a partir das experiências individuais que buscarão refletir da melhor maneira possível uma ideia de imagem coletiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-vejamos-o-que-diz-jung" style="font-size:17px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vejamos o que diz Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>“A persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico à individualidade. O complexo funcional da persona diz respeito exclusivamente à relação com os objetos.”</em> (OC 6, §755)</p></blockquote></figure>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jung diz que a persona não tem nada do sujeito, mas não devemos tomar esta fala de maneira tão literal. É absolutamente natural que a construção da persona passe pelas estereotipias do sujeito, mas essas estereotipias servem a um ideal de coletivo, expresso na persona. Disso concluímos que persona é um arquétipo, mas também um complexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-persona-tambem-e-um-complexo-como-diferencia-la-de-um-outro-complexo"><strong>Se persona também é um complexo, como diferenciá-la de um outro complexo?</strong></h2>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na prática, essa preocupação é inócua, pois é uma diferenciação que geraria pouco ou nenhum resultado, por exemplo, para a prática clínica. Jung reforça em diversas situações de seus escritos que um complexo só se torna ofensor quando negligenciado pelo ego, tendo como efeito enantiodrômico poder de atração de energia psíquica, tornando-se um complexo constelado na consciência, ou seja, “ocupando” o espaço que tenta renegá-lo. É neste momento que o ego corre o risco de se identificar com o complexo, vivendo apenas a “biografia” deste.</p>



<p>         Logo, isso significa que uma identificação do ego com um complexo é sempre ruim, pois negligencia outros aspectos da psique que trazem a dinamização e harmonia necessárias para o estabelecimento de uma psique saudável, e isso vale para qualquer complexo, seja complexo paterno, complexo de inferioridade, complexo do dinheiro ou complexo da persona. Independentemente de qual seja o complexo, se esse ele tenta assumir a “regência” integral da consciência, o indivíduo sofrerá consequências no âmbito psíquico. Por isso que falar “complexo de professor” (termo que o autor usa com certa frequência), por exemplo, ou “persona de professor”, tem praticamente o mesmo efeito em termos psíquicos.</p>



<p>        Talvez a diferenciação que se tenha ao usar o termo “complexo” ou “persona”, é que quando se usa o primeiro, falamos da rede de afetos em torno de um determinado tema, e quando usamos o segundo, nos referimos à imagem pública típica que alude à determinada imagem – bastante comum em profissões – mas essa imagem pública pode ter caráter atrator de afetos, a ponto de “paralisar” o ego na imagem da persona. Falamos da identificação a seguir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-e-identificacao-com-a-persona"><strong>O que é identificação com a persona?</strong></h2>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como qualquer complexo, a persona pode ter força atratora para o ego, de forma que se isso acontecer, ele se perceberá exclusivamente a partir deste referencial, isto é, o ego pensa o indivíduo a qual ele pertence exclusivamente a partir de uma imagem pública. Exemplo clássico é o conto <em>O espelho</em> de Machado de Assis, no qual um homem que possui grau de alferes, antiga patente militar, não consegue ver seu reflexo no espelho quando tira sua farda, voltando a enxergar seu reflexo somente quando a recoloca. Arriscamos dizer que esse é um fenômeno bem comum na atualidade.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A maioria das descrições que uma pessoa faz de si, quase sempre não são nada mais do que sua persona. Se perceber a partir de um modelo que ultrapasse os limites da própria percepção externa de si é mais complicado do que parece. Mas numa situação como essa, tal despojamento da persona torna-se imperativo se o sujeito quiser estabelecer um melhor termo para com a vida. Contudo, <em>“Mudar a persona, a atitude externa, é uma das artes mais difíceis da educação”</em> (OC 6, §758).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-persona-so-funciona-porque-obteve-reforco-ao-longo-da-vida-do-sujeito" style="font-size:17px">         A persona só “funciona” porque obteve reforço ao longo da vida do sujeito.</h2>



<p>         Ao perceber que essa persona se parece com tudo aquilo que ele imagina de si, mas que em determinado ponto da vida é insuficiente para as demandas da psique, esse processo de desidentificação é deveras doloroso, diz a experiência clínica. Entretanto, <em>“A meta da individuação não é outra senão a de despojar o si-mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais”</em> (OC 7/2, §269).</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esse “despojar” se refere sempre ao ego. Então quando dizemos que “fulano é identificado com a persona”, devemos pensar que na verdade “o ego de fulano é identificado com a persona”, pois fulano, em termos psíquicos, é muito mais que ego.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-por-fim-sobre-este-topico-e-preciso-esclarecer-que-identificacao-com-a-persona-nao-e-rigorosamente-a-inflacao-do-ego-algo-que-alguns-autores-junguianos-dizem" style="font-size:17px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por fim, sobre este tópico, é preciso esclarecer que identificação com a persona não é rigorosamente a inflação do ego – algo que alguns autores junguianos dizem.</h2>



<p>          A inflação tem a ver com a identificação do ego com algo transcendente, ligado especialmente ao inconsciente coletivo, ou ao próprio Self, vide exemplos: <em>Esses dois tipos humanos são, ao mesmo tempo, grandes e pequenos em demasia; sua medida média individual, que nunca é muito segura, tende a tornar-se cada vez mais vacilante. Parece grotesco descrever tais estados como “semelhantes a Deus”. Mas como ambos, a seu modo, ultrapassam as proporções humanas, possuem algo de ‘sobre-humano’, podendo ser expressos figuradamente como ‘semelhantes a Deus’. Se quisermos evitar o emprego desta metáfora, poderíamos falar de inflação psíquica</em> (OC 7/2, §227). E <em>“o grande perigo psíquico ligado à individuação, o tornar-se quem se é, reside na identificação da consciência do eu com o si-mesmo. Isso produz uma inflação que ameaça dissolver a consciência”</em> (OC 9/1, §254).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-persona-e-sombra-sao-pares-de-opostos"><strong>Persona e sombra são pares de opostos?</strong></h2>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Eis uma polêmica muito comum na psicologia analítica, que é colocar a persona como oposta à sombra. Como mencionado acima, podemos depreender muitas conclusões a partir dos princípios que Jung nos ensinou com sua teoria, e sob diversos aspectos, num rompante de ampliação teórica, poderíamos pensar a persona como oposta à sombra. Mas, para fins pedagógicos, neste caso optamos por manter uma certa fidelidade teórica, e afirmar categoricamente que a persona se opõe à anima e animus (ou alma). Antes de mostrar algumas citações do Jung que comprovam isto, precisamos entender o princípio teórico por trás desta máxima. </p>



<p>          A persona corresponde ao ideal de consciência coletiva, ou seja, o sujeito busca parecer o que se espera dele no mundo exterior, enquanto a anima e o animus, afirma Jung em diversos momentos, são também imagens do inconsciente coletivo: <em>“é a anima que personifica o inconsciente coletivo” </em>(OC 5, §500) e <em>“o animus é também um psychopompos, isto é, um intermediário entre a consciência e o inconsciente, e uma personificação do inconsciente [coletivo]”</em> (OC 9/2, §33). Observando sob esta perspectiva, imaginamos que essa oposição persona-anima/us, fica mais clara. Em última instância, a persona faz a conexão com a consciência coletiva, para fora, e anima-animus faz a conexão com o inconsciente coletivo, para dentro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vejamos-algumas-afirmacoes-de-jung-sobre-isto" style="font-size:17px">         Vejamos algumas afirmações de Jung sobre isto:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>“A mulher tomada pelo animus corre sempre o risco de perder sua feminilidade, sua persona adequadamente feminina”</em> (OC 7/2, §337).</p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>“[&#8230;] como já indiquei, há uma relação compensatória entre persona e anima”</em> (OC 7/2, §304).</p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>“Denomino persona a atitude externa, o caráter externo; e a atitude interna denomino anima, alma”</em> (OC 6, §758).</p></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>“A anima tem função de mediadora entre a consciência e o inconsciente coletivo, como a persona o faz entre o eu e o mundo ambiente”</em> (OC 14/2, §163, nota de rodapé).</p></blockquote></figure>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pensamos que diante destas afirmações, não deveriam mais restar dúvidas quanto a isso numa acepção mais imediata do princípio teórico, contudo, ampliações são sempre bem-vindas, desde que adequadamente fundamentadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-segundo-jung-persona-faz-oposicao-a-anima-animus-por-que-tantos-junguianos-a-colocam-como-oposta-a-sombra"><strong>Se, segundo Jung, persona faz oposição a anima/animus, por que tantos junguianos a colocam como oposta à sombra?</strong></h2>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </strong>Primeiramente precisamos mencionar que a estrutura que faz oposição à sombra é o ego. A sombra, dentre outras coisas, é produto de tudo que foi rejeitado pelo ego, que visando uma melhor adaptação interna e externa para o sujeito, que relega ao inconsciente diversos conteúdos, criando a sombra, que faz contraste e contraposição ao ego. Fica difícil afirmar categoricamente o motivo dessa confusão teórica. A explicação mais arrogante e ao mesmo tempo a mais fácil, é dizer que existem pretensos junguianos que nunca leram a obra de Jung dedicadamente. Mas existe confusão a respeito disso mesmo nos textos junguianos. O famoso analista junguiano Murray Stein coloca em seus escritos que persona se opõe à sombra, mas precisamos lembrar que a despeito de seus bons textos de seu renome no campo junguiano, este autor usa a terminologia “psicanálise junguiana”, que parece em sua raiz algo bastante incoerente.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Outra tentativa de explicação desse imbróglio talvez fosse uma espécie de dedução lógica de que a persona é o que está fora, na consciência, e a sombra é o que está dentro, no inconsciente. Mas se essa premissa for verdadeira, o que faria oposição ao ego, também a sombra? A sombra tem tanta “luz” que é capaz de ter duas estruturas de consciência se opondo a ela? Parece estranho pensar desta forma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-por-fim-podemos-pensar-que-jung-contribui-em-certa-medida-com-esta-confusao-pois-ele-diz-que-o-inconsciente-pessoal-contem-conteudos-que-ainda-nao-amadureceram-para-a-consciencia-corresponde-a-figura-da-sombra-nbsp-oc-7-1-103" style="font-size:17px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por fim, podemos pensar que Jung contribui em certa medida com esta confusão, pois ele diz que <em>“O inconsciente pessoal contém [&#8230;] conteúdos que ainda não amadureceram para a consciência. Corresponde à figura da sombra”</em>&nbsp;(OC 7/1, §103).</h2>



<p>          Então a sombra seria a imagem do inconsciente pessoal. Logo, quando Jung diz que: <em>“O indivíduo tende a identificar-se com a máscara impelido pelo mundo, mas também por influências que atuam de dentro. ‘O alto ergue-se do profundo’, diz Lao-Tsé. É do íntimo que se impõe o lado contrário, tal como se o inconsciente oprimisse o eu com o mesmo poder que a persona exerce sobre ele</em> (OC 7/2, §308), parece que é a “sombra” que oprime este eu. Porém, precisamos considerar que o uso da palavra “inconsciente” para Jung quase sempre se refere ao inconsciente coletivo, cabendo ao leitor fazer as devidas distinções ao longo da leitura. Então esse “inconsciente” que pressiona o eu, é o inconsciente coletivo (anima-animus) e não a sombra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-afinal-de-contas-qual-e-a-funcao-saudavel-da-persona"><strong>E afinal de contas, qual é a função saudável da persona?</strong></h2>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa é a parte mais interessante deste texto, pois talvez seja o único trecho realmente criativo. A persona possui muitas qualidades saudáveis, uma delas é o pertencimento. Quantas crianças não quiseram aprender habilidades novas para ficarem mais “enturmadas” com os amiguinhos? Quantos adolescentes não querem usar “roupas da moda” para se sentirem pertencentes aos seus grupos? Quantos adultos não buscam cursos, leituras, treinamentos, que lhes deixem mais adaptados ao que se espera deles no trabalho? Tais movimentos são naturais e esperados – o problema consiste apenas na unilateralização deles.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-o-sentimento-de-pertenca-e-inegavelmente-gostoso-e-parte-dessa-recompensa-advem-do-fato-de-nos-parecermos-com-outros-e-pelo-fato-de-os-outros-virem-a-eles-mesmos-em-nos" style="font-size:17px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O sentimento de pertença é inegavelmente gostoso, e parte dessa “recompensa” advém do fato de nos parecermos com outros e pelo fato de os outros virem a eles mesmos em nós. </h2>



<p>         Naturalmente que não nos vemos nos outros apenas a partir da persona exclusivamente, mas também pela projeção de uma série de complexos. De qualquer forma, o sentimento de inclusão e pertencimento é algo que também toca a ideia de uma persona funcional, adaptada e querida pela coletividade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp-sobre-isso-jung-diz-o-seguinte" style="font-size:17px">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sobre isso Jung diz o seguinte:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>“Só quem estiver totalmente identificado com a sua persona até o ponto de não conhecer-se a si mesmo, poderá considerar supérflua essa natureza mais profunda. No entanto, <strong>só negará a necessidade da persona quem desconhecer a verdadeira natureza de seus semelhantes.</strong> A sociedade espera e tem que esperar de todo indivíduo o melhor desempenho possível da tarefa a ele conferida; assim, um sacerdote não só deve executar, objetivamente, as funções do seu cargo, como também desempenhá-las sem vacilar a qualquer hora e em todas as circunstâncias. Esta exigência da sociedade é uma espécie de garantia: cada um deve ocupar o lugar que lhe corresponde, um como sapateiro, outro como poeta. Não se espera que alguém seja ambas as coisas. Nem é aconselhável que o seja, pois seria estranho demais para os outros”</em> (OC 7/2, §305, grifos nossos).</p></blockquote></figure>



<p>           Colocamos ainda esta brilhante ampliação de Gustavo Barcellos, na qual a persona constitui também um grande elemento de construção empática, pois é por ela que reconhecemos que o outro também é parte de nós em alguma medida, tal como reconhecemos que nós pertencemos a ele em alguma medida:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>A persona &#8211; o jogo complexo de representações e os papéis sociais que desempenhamos nas interações com o mundo para adaptarmo-nos a suas demandas definidoras &#8211; também está no campo do Outro, que é amplo e multifacetado”</em> (BARCELLOS, 2019, p. 227-228).</p></blockquote></figure>



<p>             Continua ainda o autor dizendo que esse aspecto multifacetado da psique é bem representado arquetipicamente pelo deus Dionísio, e que ele, enquanto uma imagem da persona, “<em>rege o Outro porque é aquele que mostra para mim, ou tira de dentro de mim, o Outro que sou e que não sei que sou” </em>(BARCELLOS, 2019, p. 221), e que muitas vezes incomoda saber que “sou”!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-que-tipo-de-pesquisas-poderiamos-fazer-a-partir-da-ideia-de-persona"><strong>E que tipo de pesquisas poderíamos fazer a partir da ideia de persona?</strong></h2>



<p>          Seguramente você já ouviu a frase que começa com “a sociedade exige que sejamos de determinada maneira”. Essa frase revela na largada um conflito típico entre persona e alma. Na prática, em sentido estrito, a sociedade não exige nada, pois como enfatiza Jung, a sociedade não passa de um conglomerado de psiques individuais. Naturalmente existem padrões sociais, mas esses padrões podem naturalmente ser confrontados quando há um ego suficientemente forte e flexível para manejar situações atípicas.</p>



<p>          Na perspectiva da psicologia analítica, ao outorgar à “sociedade” o poder de exigir algo, o indivíduo está dizendo que na prática há uma correspondência interna de um ideal social, uma sociedade interna, que é de tal robustez que encontra projeção na sociedade externa. Se a sociedade externa “determina” o certo e o errado, o que o sujeito desadaptado está dizendo quando afirma que “a sociedade exige algo”, é que ele não conseguiu alcançar um ideal de persona que lhe traga um senso de pertencimento, o que gera um conflito de alma.</p>



<p>         Em outros termos, é como se o sujeito dissesse que se ele “vestir” a persona que se espera dele, ele terá um desconforto, pois esta se distancia de sua alma. Por outro lado, se ele simplesmente segue o que sua alma lhe sugere, resta-lhe um senso de não pertencimento coletivo, o que também é angustiante. Essa contradição e paradoxo só poderão ser resolvidos se o indivíduo buscar um diálogo franco com a sua “sociedade de dentro”, para que esta lhe dê as respostas de como chegar num bom termo entre princípios de alma e sentimento de pertencimento (coletivo).</p>



<p>        Ademais, tal saída, diz a experiência, não parece ser encontrada na construção de uma persona exclusivamente disruptiva ou agressiva, que dá à pessoa uma falaciosa fantasia de “autenticidade”. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-autenticidade-enfatiza-jung-oc-6-vem-de-dentro-e-nao-do-que-parecemos-ser-do-lado-de-fora" style="font-size:17px">         A autenticidade, enfatiza Jung (OC 6), vem de dentro, e não do que parecemos ser do “lado de fora”.</h2>



<p>          Na verdade, essa persona supostamente disruptiva acaba sendo uma persona da “anti-persona”, ainda algo bidimensional, tal como a persona típica, mas sem correspondência com alma; só parece ser autêntica por parecer ser disruptiva numa perspectiva externa, mas acaba sendo uma persona da disrupção, e não uma expressão genuína de autenticidade ou de disrupção.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vivamos, portanto, a multiplicidade de relações que uma persona saudável e intercambiável pode nos dar, mas com um ego consciente de que isto é apenas parte do que ele precisa compreender e manejar no seu processo de individuação. O processo de desidentificação com a persona só é necessário quando o ego se identifica com esta. Se ele reconhece conscientemente que este é um recurso, não precisa passar pelo processo de desidentificação, pois sabe que pode contar com ela quando precisar, mas pode sair dela quando for necessário, estabelecendo assim um bom termo com o mundo exterior e interior.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Um ensaio sobre a persona&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/EiTBjYX51dI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/rafaelrodrigues/">Rafael Rodrigues de Souza – Analista Didata em Formação IJEP</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p>BARCELLOS, Gustavo. Mitologias arquetípicas: figurações divinas e configurações humanas. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação (OC 5). 9 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p><a>JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos (OC 6). </a>7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p><a>JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente (OC 7/1). 24 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</a></p>



<p><a>JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente (OC 7/2). 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</a></p>



<p><a>JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo (OC 9/1). 8 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</a></p>



<p><a>JUNG, Carl Gustav. Aion – estudo sobre o simbolismo do si-mesmo (OC 9/2). 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</a></p>



<p><a>JUNG, Carl Gustav, com a colaboração de Marie-Louise von Franz. Mysterium coniunctionis: pesquisas sobre a separação e composição dos opostos psíquicos na alquimia (OC 14/2). 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</a></p>



<p><a>MAGALDI FILHO, Waldemar. Dinheiro, saúde e sagrado: interfaces culturais, econômicas e religiosas à luz da psicologia analítica. 2ª ed. São Paulo: Eleva Cultural, 2014.</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p>Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



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<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Criando intimidade com a sombra: Relação entre ego x sombra x persona</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/relacao-entre-ego-sombra-e-persona/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Dec 2023 15:34:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[integração da sombra]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sanford]]></category>
		<category><![CDATA[whitmont]]></category>
		<category><![CDATA[zweig]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8632</guid>

					<description><![CDATA[<p>Todos nós buscamos sempre entrar em contato com a nossa melhor versão e resistimos à ideia de que para chegarmos perto do melhor em nós teremos que inevitavelmente conhecer também a nossa pior versão. Imaginar que também somos o que não queremos, que aquilo que repudiamos no outro também pode pertencer a nós, que podemos fazer aquilo que não gostaríamos de assumir nem para nós mesmos é assustador. Mas a verdade é que nós somos imperfeitos e conhecer esse estranho que habita em nós é essencial para a busca da nossa totalidade.<br />
Faz parte do processo de desenvolvimento da personalidade a busca por pertencimento e aprovação do outro, porém, por mais que façamos manobras para nos tornar melhores, ‘limpando’ tudo que julgamos como ruim, não somos blindados do contato com a sombra.<br />
Não importa o quanto nossa persona esteja trabalhada ou o quanto adaptada ao coletivo ela esteja. O próprio meio, e não somente nossas questões pessoais, vão continuar nos proporcionando meios de contato com esses conteúdos sombrios a fim de reconhecermos o que tanto nos afeta e de qual forma podemos lidar com eles. Achamos que quanto mais ajustados à polaridade contrária da sombra, mais estaremos seguros. Contudo, acontece justamente o oposto. E é neste momento que o ‘ponto cego’ aparece.<br />
Quando mudamos a pergunta “o que eu tenho a ver com ela?” por “em qual momento eu a considerei como conflitante a mim?” conseguimos compreender o sentido desses conteúdos nos perturbar e decidimos como reagir à eles. Quando trazemos para perto da consciência, tiramos um pouco da carga afetiva desta energia autônoma e buscamos recursos para lidar com ela ou transformá-la. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Criando intimidade com a sombra. Reflexões sobre como a persona moldada para se adequar ao coletivo pode se distanciar do verdadeiro eu</em>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="border-style:none;border-width:0px;border-radius:0px;font-size:16px;font-style:italic;font-weight:300"><blockquote><p><em>“Ah, se fosse assim tão simples! Se houvesse pessoas más em um lugar, insidiosamente cometendo más ações, e se nos bastasse separá-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal atravessa o coração de todo ser humano. E quem se disporia a destruir uma parte do seu próprio coração?” Alexander Solzhenitsym</em></p></blockquote></figure>



<p>Dentro de nós, existe uma parte que não gostamos de olhar, que negamos, que contradiz o que gostaríamos de reconhecer em nós. Esta parte é chamada de <strong>sombra</strong>. Muitas vezes ela é um problema de ordem moral, pois vai contra o ego e a persona. Ou seja, vai contra o modo que conseguimos nos enxergar. Segundo Jung “nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento” (Jung, 2012, p19).</p>



<p>Imaginar que também somos o que não queremos, que aquilo que repudiamos no outro também pode pertencer a nós, que podemos fazer aquilo que não gostaríamos de assumir nem para nós mesmos, é assustador. Mas a verdade é que nós somos imperfeitos e conhecer esse estranho que habita em nós é essencial para a busca da nossa totalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sabemos-que-a-sombra-nao-e-apenas-aquilo-que-desconheco-totalmente-em-mim-mas-tambem-aquilo-que-minha-consciencia-considerou-contraria-a-atitude-ideal" style="font-size:17px">Sabemos que a sombra não é apenas aquilo que desconheço totalmente em mim, mas também, aquilo que minha consciência considerou contrária à atitude ideal.</h2>



<p>Como o ego é de natureza unilateral, qualquer coisa que se diferencie dele – assuntos negligenciados, inaceitáveis, reprimidos &#8211; vai se acumulando no inconsciente e se torna parte de uma personalidade inferior, ou seja, uma sombra pessoal.</p>



<p>A <strong>sombra</strong> é parte da psique inconsciente que interage com a consciência. Traz forte carga de afeto para ações e reações e que nos provoca desconfortos sempre que entramos em contato com ela. Esta sensação se dá porque lapidamos nossa personalidade e nosso modo de ver o mundo de forma que esses conteúdos fiquem reprimidos e distantes de nós. Ressaltando esta ideia, encontramos no livro ‘Ao encontro da Sombra’ um trecho que explica esta dinâmica:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“Por ser contrária à atitude consciente que escolhemos, não permitimos que a sombra encontre expressão na nossa vida; assim ela se organiza em uma personalidade relativamente autônoma no inconsciente, onde fica protegida e oculta” (Zweig, et al., 2012, p.28).</em></p>
</blockquote>



<p>Antes de prosseguirmos, gostaria de complementar esta parte conceitual de sombra com dois recortes feitos por <strong>Edward Whitmont</strong>, apresentados no capítulo “A evolução da sombra”:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“O termo sombra refere-se àquela parte da personalidade que foi reprimida em benefício do ego ideal. (&#8230;) Assim como as figuras oníricas ou fantasias, a sombra representa o inconsciente pessoal. Ela é como que um composto das couraças pessoais dos nossos complexos e, portanto, o portal de acesso a todas as experiências transpessoais mais profundas.” (Zweig, et al., 2012, p.36)</em></p>
</blockquote>



<p>Whitmont pontua a <strong>tendência arquetípica de projetarmos os conteúdos sombrios nos outros</strong>, replicando a dinâmica do bode expiatório. Como se todo o mal ou erro estivesse presente apenas no mundo exterior do outro e este deveria ser eliminado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“A sombra é a experiência arquetípica do ‘outro’, aquele que, por ser-nos estranho, é sempre suspeito. A sombra é o impulso arquetípico de buscar o bode expiatório, de buscar alguém para censurar e atacar a fim de nos vingarmos e nos justificarmos; ela é a experiência arquetípica do inimigo, a experiência da culpabilidade que sempre recai sobre o outro, pois estamos sob a ilusão de que conhecemos a nós mesmos e já trabalhamos adequadamente nossos próprios problemas. Em outras palavras, na medida em que é preciso que eu seja bom e justo, ele, ela ou eles tornam-se os receptáculos de todo o mal que deixo de reconhecer dentro de mim mesmo”. &nbsp;(Zweig, et al., 2012, p.39)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-incomodo-da-sombra" style="font-size:19px">O incômodo da sombra</h2>



<p>Apesar de a sombra conter pontos positivos e negativos em sua essência, geralmente seus conteúdos nos incomodam. Justamente porque os achamos inadequados e prejudiciais à lapidação da nossa personalidade. Na tentativa de compreender o porquê tais assuntos nos incomodam, costumamos tomar uma certa distância. Olhando para a característica atuante no outro e, só depois disto, abrimo-nos para a possibilidade de nos questionar sobre o motivo daquilo nos afetar tanto. Dificilmente aceitamos com facilidade que aquilo pode ser também uma condição nossa.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px;font-style:italic;font-weight:300"><blockquote><p>“quando nos recusamos a enfrentar a sombra, (&#8230;) nossas projeções transformam o mundo à nossa volta num ambiente que nos mostra a nossa própria face, mesmo que não a reconhecemos como nossa”. <strong>Whitmont</strong> (Zweig, et al., 1994, p.40)</p></blockquote></figure>



<p><strong>Faz parte do processo de desenvolvimento da personalidade a busca por pertencimento e aprovação do outro</strong>. Ao mesmo tempo que vamos nos identificando como indivíduo, começamos a lapidar nossas características de forma a potencializar aquilo que nos agrada e que também agrade o outro, enquanto vamos encontrando meios de esconder ou transformar os aspectos que achamos feios e inapropriados. Desta forma, conseguimos também encontrar recursos de adaptação às diversas situações, dando vida às versões de nós mesmos de acordo com o que nos é exigido. &nbsp;</p>



<p>Este recurso de adaptação do ego para o mundo exterior é chamado de <strong>persona</strong> &#8211; a qual pode ser positiva ou negativa. <strong>É a máscara que usamos para nos relacionarmos com os outros, para confrontar o mundo e as pessoas</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-persona-e-a-primeira-parte-de-nos-que-as-outras-pessoas-veem-e-a-nossa-parte-que-queremos-que-elas-vejam-sanford-1988-p-88" style="font-size:21px">“A persona é a primeira parte de nós que as outras pessoas veem, e a nossa parte que queremos que elas vejam” <strong>(Sanford, 1988, p.88)</strong></h2>



<p>Por conceito, a persona é positiva, pois nos ajuda a adequar ao coletivo. Contudo, ela pode se tornar negativa quando esta adaptação se transforma em uma mudança quase que total do que somos e como nos reconhecemos, visando uma adequação total com o coletivo mesmo que este modo não reflita a nossa própria essência. Podemos assumir que quando isso acontece, essa versão transformada se distancia de quem ela é de verdade, ou seja, do Self e da identificação egóica. O risco do indivíduo não saber mais diferenciar quem ele é da pessoa que ele quer parecer se torna cada vez mais concreto.</p>



<p>Por mais que façamos manobras para nos tornar melhores, ‘limpando’ tudo que julgamos como ruim, não somos blindados do contato com a sombra. Ela irá aparecer no nosso cotidiano, assombrando nossa persona, tirando-nos da nossa zona de conforto. Pela própria definição do termo, todo receio extremo, todo incomodo que nos afeta além do que podemos lidar faz parte da nossa sombra. Tudo o que nos impacta fortemente e não é considerado, também alimenta nossa sombra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-persona-x-anima-animus-sombra-x-ego">Persona x Anima/Animus &#8211; Sombra x Ego</h2>



<p>Antes de prosseguir, é importante ressaltar que <strong>a</strong> <strong>persona não faz polaridade com a sombra</strong> (como muitos confundem conceitualmente). <strong>Persona é uma estrutura psíquica que faz oposição à anima/animus</strong>, uma vez que ambos são recursos relacionais. Enquanto a persona se relaciona com o mundo exterior, anima/animus são recursos de relação com o mundo interior. </p>



<p>A <strong>sombra</strong>, por sua vez, se apresenta em <strong>oposição ao ego</strong>, conforme explicado no início deste artigo. Não vou me aprofundar nesta questão pois isso seria tema para um próximo artigo, mas essa explicação se faz necessária para entendermos o recorte feito neste texto.</p>



<p>Não importa o quanto nossa persona esteja trabalhada ou o quanto adaptada ao coletivo ela esteja. O próprio meio, e não somente nossas questões pessoais, vão continuar nos proporcionando meios de contato com esses conteúdos sombrios a fim de reconhecermos o que tanto nos afeta e de qual forma podemos lidar com eles. Porém, é nítido que quando isso acontece, buscamos a saída que parece ser mais garantida: nos blindamos desses conteúdos devolvendo para o outro a responsabilidade de transformação do conteúdo.</p>



<p>Neste cenário, como proteção, buscamos recursos para fortalecer nossa <strong>persona</strong>, melhorando aquilo que achamos que contrapõem o que nos denuncia, nos sentindo superior ao que nos incomoda. Encontramos ferramentas que eliminam o que não deve vir à tona, fazemos tudo como forma de controlar a ação desses conteúdos em nossas vidas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-achamos-que-quanto-mais-ajustados-a-polaridade-contraria-da-sombra-mais-estaremos-seguros-contudo-acontece-justamente-o-oposto" style="font-size:18px">Achamos que quanto mais ajustados à polaridade contrária da sombra, mais estaremos seguros. Contudo, acontece justamente o oposto.</h2>



<p>E é neste momento que o ‘ponto cego’ aparece. Se tento compreender meus conteúdos sombrios e adequá-los ao manejo da persona posso, como efeito contrário, alimentá-la, pois vou ‘resolver’ essa falta fortalecendo uma conduta que irá me afastar ainda mais dela; que vai provar para mim e para os outros que aquilo não me pertence.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-lidar-com-a-sombra-nao-basta-ter-conhecimento-sobre-ela-e-preciso-se-apropriar-da-questao-e-entender-sua-real-motivacao-de-existir" style="font-size:18px">Para lidar com a sombra não basta ter conhecimento sobre ela, é preciso se apropriar da questão e entender sua real motivação de existir.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>“A integração da sombra sempre coincide a dissolução da falsa persona. A pessoa torna-se muito mais realista a respeito de si mesma; ver a verdade sobre a nossa própria natureza sempre tem efeitos muito salutares. (&#8230;) Parar de mentir para nós mesmos a respeito de nós mesmos, essa é a maior proteção que podemos ter contra o mal”. (Sanford, p. 47)</em></p>
</blockquote>



<p>Agora que chegamos ao ponto de entender que mesmo diante de um trabalho de adaptação ao meio exterior, nossa persona não dará conta de esconder ou de se blindar diante da sombra, quero voltar um pouco no início deste artigo. Se toda sombra, antes de ser jogada ao inconsciente passa pelo filtro do ego ideal, não seria uma alternativa para lidar com esses conteúdos, voltar para nossa essência e investigar qual foi a motivação inicial do ego ter desconsiderado a integração desta característica?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-nunca-e-formada-de-modo-aleatorio" style="font-size:20px"><strong>A sombra nunca é formada de modo aleatório</strong>.</h2>



<p>Por isso falamos que a sombra também guarda um potencial enorme de transformação em nossas vidas. Se nós queremos nos conhecer verdadeiramente, temos que ir em busca da nossa totalidade, reconhecendo os aspectos de luz e sombra. Logo, sabendo mais sobre as nossas sombras, conseguimos entender também quais partes a consciência de cada um rejeita, quais partes ela não quer lidar e o porquê o ego decidiu que aqueles pontos deveriam ser filtrados da consciência. &nbsp;</p>



<p>Não paramos para pensar que em muitos casos acabamos vivendo características unilaterais só para não deixar esta sombra ter expressão, mas ela sempre dará um jeito de se apresentar para nós – seja através do comportamento do outro, seja através daquilo que nos afeta. Entrar em contato com a sombra não é ter que transformar todos os conteúdos; algumas características serão trabalhadas, outras deverão ser apenas suportadas. Mas, a partir do momento que nós nos apropriamos do que até então desconhecemos, deixamos de ficar totalmente vulneráveis aos seus conteúdos, pois saberemos também quais são nossos limites, o que podemos fazer e, assim, criamos oportunidades de nos conhecermos dentro da nossa unicidade e inteireza.</p>



<p>Tiramos do outro a responsabilidade de se tornar impecável dentro do nosso julgamento, permitimos que o coletivo e a nós mesmos sejam diferentes, as vezes conflitantes, mas dentro da verdade de cada um. Isto é parte da cura dos relacionamentos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tentar-entender-a-sombra-pela-persona-pode-ser-uma-manobra-falsa-que-vai-nos-colocar-apenas-como-superior-a-esses-conteudos" style="font-size:20px">Tentar entender a sombra pela persona pode ser uma manobra falsa que vai nos colocar apenas como superior a esses conteúdos.</h2>



<p>Se, depois deste primeiro reconhecimento, pararmos para investigar em qual momento da vida nosso ego ideal – parafraseando Whitmont – fantasiou que seriamos melhores se não tivéssemos tais características; se o julgamento como errado e feio veio de nós mesmos ou se nos foi ensinado pelo núcleo mais próximo, talvez, de fato, conseguiremos entender o sentido desta sombra ter se tornado sombra e reavaliar, se nas condições atuais, tais características devem ainda ser julgadas como inapropriadas por nós ou se já estamos prontos para lapidá-las ao nosso favor.</p>



<p>Quando mudamos a pergunta “o que eu tenho a ver com ela?” por “em qual momento eu a considerei como conflitante a mim?” conseguimos compreender o sentido desses conteúdos nos perturbar e decidimos como reagir à eles. Enquanto a sombra é inconsciente, nossa reação vem proporcional ao desconhecido que se tornou em mim. Quando trazemos para perto da consciência, tiramos um pouco da carga afetiva desta energia autônoma e buscamos recursos para lidar com ela ou transformá-la.</p>



<p>Assim, o que é nosso trabalhará ao nosso favor, mesmo que a princípio se pareça negativo. Este é o caminho para a nossa totalidade.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: Criando intimidade com a sombra: Relação entre ego x sombra x persona" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/2zUUQM5HVd0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/marcellaferreira/">Marcella Helena Ferreira &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:18px">Referências Bibliográficas:</h2>



<p><strong>JUNG, Carl Gustav. 2012a</strong>. <em>Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo.</em> 8°. Petrópolis: Vozes, 2012a.Vol.9/2</p>



<p><strong>__. 2012b</strong>. <em>O Eu e o Inconsciente.</em> 24°. Petrópolis: Vozes, 2012b.Vol.7/2</p>



<p><strong>ZWEIG, Connie e ABRAMS, Jeremiah. 1994</strong>. <em>Ao encontro da sombra</em>. 1°. São Paulo: Cultrix, 1994.</p>



<p><strong>SANFORD, John A. 1998.</strong> <em>Mal o lado sombrio da realidade</em>. 1°. São Paulo: Paulus, 1988.</p>



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		<title>Simbologia do Espelho e Sombra</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sobre-a-simbologia-do-espelho-e-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jun 2023 19:58:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia anal[itica]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu me lembrei esses dias de uma frase famosa do escritor britânico Alan Watts que, quando questionado sobre o motivo de porque não comia carne, teria respondido : “porque as vacas gritam mais alto que as cenouras quando as matam”. Qual é o interesse da colocação um tanto simplória acima? A qual, de fato, carece [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Eu me lembrei esses dias de uma frase famosa do escritor britânico <strong>Alan Watts</strong> que, quando questionado sobre o motivo de porque não comia carne, teria respondido :</em> <em>“porque as vacas gritam mais alto que as cenouras quando as matam”.</em></p>



<p>Qual é o interesse da colocação um tanto simplória acima? A qual, de fato, carece de aprofundamento, especialmente por pertencer a um autor tão consagrado e espiritual como Watts, um grande conhecedor da <strong>doutrina budista</strong> e amador dos pensamentos de<strong> Jung</strong>?</p>



<p>Porque ela provoca em mim um encadeamento de memórias que me levaram a refletir sobre um tema que acredito ser um dos pilares mais importante da psicologia analítica quando queremos extrapolar os limites do consultório e confrontar Jung com a vida real: a <strong>projeção da sombra</strong>.</p>



<p>A primeira delas, quanto a essa colocação sobre o sofrimento animal, é que: por mais que faça o mais absoluto sentido, <strong>é necessário lembrar em todos os aspectos da vida que este planeta é habitado por outros seres sensíveis</strong> além de nós. Somente arranha a superfície da filosofia budista sobre o tema.</p>



<p>O mestre Zen norte americano <strong>Philip Kapleau</strong> &#8211; referido como <em>roshi, </em>venerável sábio ou professor, traz uma visão bem diferente: a essa mesma pergunta: “<em>porque não comer animais</em>?”, deu uma resposta infinitamente mais interessante que este batido argumento de que todas as vidas são equivalentes e que, além de absolutamente esclarecedora, permite uma conexão evidente com Jung.</p>



<p>A segunda memória é uma viagem no tempo até momentos quase esquecidos da minha adolescência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-epoca-eu-sofri-muito-com-esse-dilema-pois-na-franca-onde-eu-cresci-era-comum-consumir-carne-de-cavalo-e-cavalos-eram-minha-grande-paixao">Na época eu sofri muito com esse dilema, pois, na França, onde eu cresci, era comum consumir carne de cavalo. E cavalos eram minha grande paixão.</h2>



<p>Lá, paradoxalmente, se em alguns lugares a tradição o mantém como alimento, este animal também é parte da vida quotidiana e seu uso continua no trabalho em fazendas, no esporte, no divertimento e ainda encontramos, no sul do país, rebanhos de cavalos selvagens.</p>



<p>Dizem que se o cachorro é o melhor amigo do homem, o cavalo é sua mais nobre conquista. É um animal tão nobre que nem sobre patas anda&#8230;ele tem pernas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-cavalo-e-indissociavel-da-historia-e-da-humanidade">O cavalo é indissociável da história e da humanidade.</h2>



<p>O Cavalo de batalha de Napoleão Bonaparte encontra-se exposto empalhado no museu da guerra em Paris. A conquista dos territórios do leste da Europa, e sua povoação a partir da Rússia, foi realizada pelos cossacos &#8211; eméritos cavaleiros. Tanto que <strong>Gengis Khan</strong> conseguiu estender seu fantástico império graças a relação estreita que os guerreiros mongóis tinham com seus cavalos. </p>



<p>Toda a história de Alexandre o Grande e suas conquistas estão ligadas ao seu amado <em>Bucephalus</em>. <strong>O que seria de Ulisses e da Odisseia e de toda a popularidade das histórias e da mitologia grega se não houvesse o episódio do Cavalo de Tróia</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-uma-relacao-de-cumplicidade-entre-os-homens-e-os-cavalos-que-se-encontra-em-todas-as-culturas-nbsp"><strong>Há uma relação de cumplicidade entre os homens e os cavalos que se encontra em todas as culturas</strong>.&nbsp;</h2>



<p>Ela é presente em vários relatos, de índios norte-americanos até os demais conquistadores. E é na <strong>Espanha</strong> onde encontramos um dos mais lindos espetáculos. Quando a dançarina de <strong>flamenco</strong> brinca de seduzir o animal com seu bailado, talvez como uma forma de ganhar o coração do seu cavaleiro, numa dissociação artística que enfatiza a lado simbólico do garanhão, macho, majestoso e poderoso que conecta a cabeça do humano à terra com&nbsp;suas 4 &#8220;pernas&#8221;.</p>



<p>Essa relação do homem com o cavalo, por ser transcrultural e atemporal, deixa pressupor uma relação <strong>arquetípica</strong>. Há algo em comum entre as duas espécies. Algo que as conecta além da utilidade, do trabalho, de uma forma ainda mais profunda e que não conseguimos entender.</p>



<p>Eu tive a oportunidade de presenciar, vivenciar, apreciar toda majestade deste nobre animal. Na época eu praticava hipismo e, para poder pagar aulas e competições, ajudava a cuidar dos animais na academia onde treinava. Era comum soltarmos alguns cavalos na arena de adestramento para se divertirem, desfrutando de um espaço maior de que nos estábulos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-foi-assim-que-um-dia-fui-agraciado-com-uma-experiencia-impar" style="font-size:19px">Foi assim que, um dia, fui agraciado com uma experiência ímpar.</h2>



<p>Fiquei durante um bom tempo assistindo ao <em>ballet</em> majestoso de um jovem imponente garanhão. Ele alternava galopes e batidas de cascos, relinches e bufadas, num inexorável bailado coreografado para mostrar a um outro animal o quanto poderoso era. Que o domínio do pedaço era dele e que, com certeza , o outro deveria se afastar se quisesse evitar uma luta fadada à derrota.</p>



<p>O mais interessante era que o temido adversário não existia. As paredes da arena, onde tudo aconteceu, eram revestidas de espelhos a fim de que que os cavaleiros pudessem olhar suas posturas e corrigi-las (conforme mandam as cartilhas desta disciplina exigente que é o adestramento equestre). O bicho, sem entender que isto não teria fim, estava tentando intimidar a si mesmo. <strong>Ele não percebia que o adversário era ele mesmo, refletido no espelho.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-espere-um-pouco-e-a-resposta-do-mestre-zen-sobre-comer-carne-de-animais">Mas, espere um pouco&#8230;E a resposta do mestre Zen sobre comer carne de animais?</h2>



<p>E sim, eu comi um dia, carne de cavalo. Tive outra experiencia parecida depois. Um filhote de cachorro ficava rosnando para sua própria imagem que via num espelho fixado à uma porta. Corria atrás e voltava como desapontado de não ter encontrado, do outro lado, nenhuma fera ameaçadora.</p>



<p>Isso, se não nos prova, pelo menos recorda o que muito se fala sobre a diferença essencial entre a psique humana e a dos animais. Especialmente dos mamíferos, que apesar de compartilharmos muito do DNA, da estrutura corporal, da mecânica da vida e da homeostase, algo entre nós difere: <strong>humanos tem a capacidade de perceber sua própria existência, a certeza de estar vivo que lhe confere o Ego, centro organizador da consciência</strong>. Humanos tem consciência e animais não, pelo menos não tanto, ao que parece.</p>



<p><strong>Jung</strong> escreveu pouco sobre a formação do Ego em si. Apesar disso, alguns psicólogos e psicanalistas abordam que esse encontro com o espelho é um dos momentos essenciais para a formação do Eu. Dessa maneira, para dar início ao desenvolvimento da personalidade e a esse processo sem fim, que Jung descreve como “<strong>individuação</strong>”, a aventura de <strong>se tornar quem de fato é</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-encontro-com-o-espelho">O encontro com o espelho</h2>



<p>O primeiro a estudar este momento, denominado &#8220;<strong>estágio do espelho</strong>”, foi o psicólogo francês <strong>Henri Wallon</strong>, em seu livro <em>Les origines do caractere chez l´enfant</em>  &#8211; as origens da personalidade na criança (1931). Trata-se do momento no qual a criança, ao reconhecer sua imagem refletida no espelho, começa a perceber que é <strong>um ser individual</strong>, que possui um corpo que a diferencia de outros seres humanos. <strong>René Zazzo</strong>, um dos pioneiros da psicologia da criança descreve, em 1977, na revista francesa “Enfance”, o processo do estágio do espelho em 4 fases:</p>



<ol class="wp-block-list" style="list-style-type:1">
<li>Reconhecimento da imagem do outro (a criança nunca está sozinha frente ao espelho);</li>



<li>A criança confunde sua imagem com a de outra criança e tende a brincar com ela;</li>



<li>Desconforto com seu reflexo e fuga obstinada do espelho;</li>



<li>Momento jubilatório da identificação da sua própria imagem.</li>
</ol>



<p>Lembrando que foi o também psicanalista francês <strong>Jacques Lacan</strong> quem trouxe este assunto para a psicanálise, o que fez no congresso da associação internacional de psicanálise em Marienbad, na então Checoslováquia (1936), antes de publicar na revista francesa de psicanálise (1949).</p>



<p>Ele continuou desenvolvendo o assunto durante toda sua carreira enfatizando aos poucos importância do olhar do outro nessa formação do Eu; haja vista que é quando é apresentado ao espelho, por um adulto, e que lhe é dito “olha, é você ali”. Geralmente por um dos pais cuja imagem reconhece ao lado da sua, que a criança começa a entender que este terceiro desconhecido, “sou eu”.</p>



<p>De fato, esse aspecto é fundamental. Justamente porque demonstra que precisamos do outro para nos reconhecer. É com a certeza que o outro sabe quem ele é que podemos começar a caminhar em direção a ele para iniciar a descoberta de nós mesmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-precisamos-do-olhar-do-outro-para-entender-quem-nos-somos">Precisámos do olhar do outro para entender quem nós somos.</h2>



<p><strong>Françoise Dolto</strong> (202), pediatra e psicanalista, elaborou outro ponto interessante: acrescentou que precisamos conceber esse espelho como “<strong>uma superfície psíquica oni-refletora</strong>”, considerando a importância de tudo que é refletido e recebido como volta da interação com o outro, como sons, fala, toques ou expressões corporais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Em resumo, precisamos entender que, para nos desenvolvermos, para nos tornarmos indivíduos plenos e autônomos, precisamos ao longo da vida nos deparar com <strong>espelhos simbólicos</strong> oferecidos pela interação com os outros.</em></p>
</blockquote>



<p>Em sumo, é o olhar do outro tanto quanto nosso olhar no outro que nos permite aprender e entender quem nós somos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-zen-budismo-nisso-tudo-calma-ai-que-chegamos-la">E o Zen budismo nisso tudo? Calma aí que chegamos lá&#8230;</h2>



<p>Para fazer essa conexão, devemos antes elaborar mais um pouco essa questão do espelho simbólico. Espelhos e reflexos aparecem em várias histórias e contos, da branca de neve até o mito de narciso.</p>



<p>“<strong>O</strong> <strong>retrato de Dorian Gray</strong>”, livro do <strong>Oscar Wilde</strong>, acaba mostrando a realidade escondida por trás da tardia boa consciência adquirida pelo protagonista da história. E, se todas essas narrativas parecem dar a lição de que, se olharmos bem para a imagem, iremos ver algo sombrio, é bem interessante a continuação da história de Alice.</p>



<p>Em “<strong>Alice no país das maravilhas</strong>”, <strong>Lewis Caroll</strong> nos mostra como <strong>no universo da criança imaginário e realidade de misturam</strong>. Contudo, na sua sequência, que muitos não conhecem, <strong>Alice através do espelho</strong>, a pequena aventureira atravessa o espelho para se deparar com figuras estranhas e altamente simbólicas.</p>



<p>Por isso, é muito relevante que o título original da novela fosse: <strong>Através do espelho, e o que Alice encontrou ali</strong> (traduzido para o português).</p>



<p>Isso nos faz pensar que para o nosso desenvolvimento, não basta olhar no espelho, pois isso nos fixaria no momento presente como <strong>Narciso</strong> preso na eterna admiração do seu reflexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-precisamos-olhar-atrave-s-e-ir-a-o-outro-lado-po-is-alem-da-imagem-refletida-ha-algo-precioso-p-ara-ser-encontrado" style="font-size:20px"><strong>Precisamos olhar atravé</strong>s e<strong> ir a</strong>o<strong> outro lado,</strong> po<strong>is, além da imagem refletida</strong> <strong>há algo precioso p</strong>ara ser<strong> encontrado</strong>.</h2>



<p>Quando falamos em desenvolvimento e aspectos sombrios, imediatamente lembramos o que Jung nós ensinou sobre a formação da personalidade. À medida que tomamos consciência da nossa existência e que se firma o Ego como centro organizador da consciência, responsável por guiar-nos pela vida em sociedade. </p>



<p>Juntamente e irremediavelmente se forma a <strong>sombra</strong>: parte do inconsciente pessoal com todos os conteúdos, desejos, vontades e atitudes reprimidas por serem julgadas inadequadas ao momento da consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreendendo-os-conteudos-sombrios">Compreendendo os conteúdos sombrios</h2>



<p><strong>É importante ressaltar sempre que sombrio não significa “do mal” ou “pecaminoso”, mas sim em oposição “à luz da consciência”, ou seja, tudo aquilo para que, no presente momento, é melhor não olhar, nem ter conhecimento.</strong></p>



<p>Outro aspecto importante é que esses conteúdos são “<strong>sombrios</strong>” justamente por terem sido reprimidos. Isso é a base de que chamam a “psicodinâmica” na qual se enquadram tanta a psicanálise quanto à psicologia analítica. São conteúdos que existiam no inconsciente &#8211; seja ele pessoal ou impessoal, coletivo. Os quais receberam energia suficiente, na forma de desejos e vontades, até serem elevados à consciência para serem realizados e vivenciados.</p>



<p>Entretanto, por serem incompatíveis com a percepção do Ego, com moral, ética, religião, valores individuais ou do coletivo o qual é envolvido, esses conteúdos são devolvidos e jogados para baixo do tapete do inconsciente.</p>



<p>Mas o ponto chave para <strong>Jung</strong> é que <strong>a psique é um sistema fechado no qual a energia não se volatiliza, não desaparece</strong>. Portanto, por mais que o Ego não queira enxergar essas vontades e desejos, esses permanecem ativos. Assim, permanecem na<strong> sombra</strong>, na <strong>escuridão afetiva</strong>. Até que, intensos demais para serem ignorados, reaparecem sob a forma de <strong>projeção</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p style="font-size:18px"><em>“&#8230; todas as tendências de adaptação ao mundo externo são reprimidas e somem no inconsciente. E, assim, quando percebidas, aparecem como não pertencendo à própria personalidade, mas como projetadas”.</em></p>
<cite> Jung, 2015, 267</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tendemos-a-jogar-nos-outros-e-nos-objetos-todas-essas-questoes-que-nos-inquietam-mas-que-nao-percebemos">Tendemos a “jogar” nos outros e nos objetos todas essas questões que nos inquietam, mas que não percebemos.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p style="font-size:18px"><em>“O objetivo essencial do opus psychologicum é o desenvolvimento da consciência, isto é, em primeiro lugar, a tomada de consciência dos conteúdos até então projetados. Esse esforço leva pouco a pouco ao conhecimento do outro, bem como ao conhecimento de si e, assim, a distinguir o que a pessoa é na realidade daquilo que nela é projetado ou o que ela fantasia a seu respeito.”</em></p>
<cite> Jung, 2011, 471</cite></blockquote>



<p>Começamos a dar aos outros qualidades e defeitos que não tem e, assim, criamos vínculos afetivos com artistas, líderes religiosos ou políticos, acreditando ser o que não são.</p>



<p>Começamos a amar e odiar personagens de ficção, nos ligar em novelas ou heróis de desenhos, jogadores e times de futebol e, muitas vezes, damos à eles mais importância de que a membros da família ou a amigos próximos. </p>



<p>Choramos o falecimento de cantores e cantoras que nunca encontramos, como se um pedaço de nós tivesse morrido também.</p>



<p>Mas se pensarmos bem, certamente <strong>um pedaço de nós</strong> se foi junto do famoso que partiu e de que tanto gostamos. Se foi o pedaço da nossa alma que o Ego nunca aceitou, esse aspecto nosso escondido que tivemos que pintar na cara do outro para nunca esquecermos que nos incomoda por dentro. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-projecao-jung-disse">Sobre projeção, Jung disse:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p style="font-size:18px"><em>“Esta expressão designa, pois, um estado de identidade que se tornou perceptível e, assim, objeto de crítica, seja da crítica do próprio sujeito, seja da crítica de outros.”</em></p>
<cite>Jung, 2015, 881</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p style="font-size:18px"><em>“Para configurar esta relação, o sujeito destaca de si um conteúdo, por exemplo, um sentimento, e o transfere para o objeto, dando vida a este e incluindo-o na esfera subjetiva.”</em></p>
<cite>Jung, 2015, 882</cite></blockquote>



<p>Assim, ao longo do decorrer da vida, <strong>fazemos dos outros nossos espelhos vivos</strong>, para que nosso “eu”, incapaz de olhar para dentro, com o olhar constante fixado para fora, possa enxergar o que lhe falta para tornar-se, na totalidade, quem há de ser. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-preciso-como-alice-atravessar-o-espelho">É preciso, como Alice, atravessar o espelho. </h2>



<p>Ir além da sensação, do afeto que a imagem refletida causa. Procurar do outro lado o sentido escondido e questionar, tal como fez o mestre Zen, para que seja possível responder a seguinte pergunta: <em>Não é proibido comer carne</em>. <em>Nada é proibido. Mas se você se deleita ao comer, o que diz sobre você que seu maior prazer advém da morte de outro ser?”</em></p>



<p><em>Nesse contexto, indago: o que significa sobre nós, como coletivo, curtir, assistir filmes de terror, “cidade alerta”, campeonatos de MMA, não chorarmos ao ver o espelho da sociedade dormindo na calçada e não fazer nada, xingar o torcedor do outro time porque é divertido?</em> </p>



<p><strong>Então</strong>, <strong>pergunto</strong>:<strong> o que diz ao seu respeito tudo aquilo de que gosta?</strong></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Analista em formação: Sebastien Baudry</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Analista didata: Maria Cristina Guarnieri</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS</h2>



<p>DOLTO, <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Fran%2525C3%2525A7oise_Dolto">F,</a> NASIO J.-D. L&#8217;enfant du miroir, Paris, França: Payot, 2002.</p>



<p>KAPLEAU, P. Zen Budismo – O Caminho da iluminação, Editora Arx.</p>



<p>JUNG, C. G. <em>Ab-reaçã</em><em>o, análise dos sonhos, transferê</em><em>ncia</em>. 16/2 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.</p>



<p>__________ <em>Tipos psicológicos</em>. 6 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p>WALLON, H. <em>Les origines du caractère chez l&#8217;enfant. Les préludes du sentiment de Personnalité</em>. Paris, França: <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Presses_universitaires_de_France">Presses universitaires de France</a>. 1983</p>



<p><a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Jacques_Lacan">LACAN,</a> J. <em>Le Stade du miroir comme formateur de la fonction du Je: telle qu&#8217;elle nous est révélée dans l&#8217;expérience psychanalytique</em>. Paris, França:&nbsp; <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Presses_universitaires_de_France">Presses universitaires de France</a>, 1949.</p>



<p>ZAZZO, R, <em>Image spéculaire et image anti spéculaire. Expériences sur la construction de l&#8217;image de soi. </em>Revista<em> Enfance</em><strong>, </strong>Paris Fance, 1977, 30-2-4, pp.223-230</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Sobre a Simbologia do espelho e sombra" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/1Z2pjLWjyh4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



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		<title>A síndrome do impostor e a sombra do sucesso</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-sindrome-do-impostor-e-a-sombra-do-sucesso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 15 Jun 2023 21:17:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexo]]></category>
		<category><![CDATA[sindrome do impostor]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7756</guid>

					<description><![CDATA[<p>O propósito deste artigo é provocar uma reflexão sobre um termo já estudado há algum tempo, mas que vem tomando mais espaço principalmente no mundo trabalho: A Síndrome do Impostor. Este fenômeno fala sobre as pessoas que apesar de atingirem reconhecimento, prestígio e sucesso se veem como impostoras, como uma fraude, não sentindo-se merecedoras de tamanho reconhecimento. Como a psicologia analítica pode contribuir para o entendimento deste sentimento? O quanto esta sensação de ser uma fraude, está relacionado com aspectos negados e, portanto, sombrios da personalidade destas pessoas? O quanto o nosso modelo atual de trabalho contribuiu para isto? Estas são provocações para ampliarmos a visão deste fenômeno sobre a ótica da psicologia de Carl Gustav Jung. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O presente artigo propõe uma reflexão, à luz da psicologia analítica, acerca da Síndrome do Impostor e a sombra do sucesso.</p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><strong><em>POEMA</em></strong></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>A poesia está guardada nas palavras – é tudo que</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>eu sei.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Meu fado é </em><em>o de n</em><em>ão saber quase tudo.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Sobre o nada eu tenho profundidades.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Não tenho conexão com a realidade.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Poderoso para mim nã</em><em>o </em><em>é aquele que descobre ouro.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Para mim poderoso é aquele que descobre as</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>insignific</em><em>âncias (do mundo e as nossas).</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Fiquei emocionado e chorei.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Sou fraco para elogios.</em><em></em></p>



<p class="has-text-align-center" style="font-size:14px"><em>Manuel de Barros</em><em></em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quem-nunca-se-sentiu-incompetente-incapaz-ou-nao-merecedor-de-um-reconhecimento-recebido">Quem nunca se sentiu incompetente, incapaz ou não merecedor de um reconhecimento recebido? </h2>



<p>Este tipo de sentimento tem se tornado bastante comum nos últimos tempos. O perceber-se como uma <strong>fraude</strong> é sentido em diversas fases e aspectos da vida: mulheres que trabalham fora e fazem a chamada jornada dupla, jovens estudantes, artistas, cientistas e pessoas reconhecidamente capazes por feitos grandiosos em suas áreas de atuação. Há um vasto campo de percepção deste <strong>fenômeno,</strong> e o intuito deste artigo é focar nos aspectos ligados ao mercado de <strong>trabalho</strong> e à <strong>carreira</strong> das pessoas que passam por esta situação.</p>



<p>O repórter Bruno Vaiano da revista Você S/A, na edição de maio/23, escreveu uma matéria sobre a <strong>Síndrome de Impostor</strong>, onde comenta que “o <strong>fenômeno</strong> consiste na sensação crônica, recorrente, de que você não fez por merecer o cargo que ocupa, o salário que ganha o diploma que tem ou outras conquistas.” (VAIANO, 2023, p. 38).</p>



<p>A chamada <strong>Síndrome de Impostor</strong> foi um termo criado em 1978 pelas psicólogas Pauline R. Clance e Suzane A. Imes, em uma pesquisa com 150 mulheres, intitulada “O <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong> em mulheres de grande <strong>sucesso</strong>: dinâmica e intervenção terapêutica”. Elas descrevem o quadro como “uma experiência interna de <strong>fraude</strong> intelectual, apesar das qualificações alcançadas, das honras acadêmicas e dos altos resultados em testes padronizados, do reconhecimento de elogios profissionais por parte de colegas e respeitadas autoridades&#8230; Elas não têm a sensação íntima do <strong>sucesso</strong> considerando-se impostoras” (MANN, 2021, p. 13). As autoras comentam que o <strong>sucesso</strong> alcançado, é atribuído há erros nos processos seletivos e por terem suas capacidades superestimadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-sindrome-do-i-mpostor"><strong>Sobre a Síndrome do </strong>I<strong>mpostor</strong></h2>



<p>O que se sabe sobre o tema? Apesar da pesquisa inicial datar de 1978, este tema vem se popularizando desde 2010, por meio das redes sociais, onde pessoas famosas, consideradas ícones em suas áreas,  passaram a compartilhar mais as suas vidas e rotinas e a relatar que sofrem desta percepção de que são uma <strong>fraude</strong>. Houve, a partir de 2013, uma crescente de publicações e estudos acadêmicos sobre o tema, mas nada ainda muito profundo e esclarecedor.</p>



<p>O que temos até o momento são associações com as gerações &#8211; pessoas nascidas entre 1980 e 1999, os <em>millenials. </em>Há também uma associação deste <strong>fenômeno</strong> com o crescente número de aumento de casos de depressão, stress e ansiedade gerados pelas cobranças do mundo do <strong>trabalho</strong> e pelo modelo atual de vida em nossa sociedade.</p>



<p>Segundo Clance e Imes, há uma incidência equivalente entre homens e mulheres. Contudo, na matéria publicada por Bruno Vaiano, ele comenta que estudos mais recentes apontando para uma prevalência maior entre mulheres do que homens, “e outros grupos que sofrem discriminação no mercado de <strong>trabalho</strong> e no mundo acadêmico, como minorias étnico-raciais.” (VAIANO, 2023, p. 33)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sindrome-ou-fenomeno">Síndrome ou Fenômeno?</h2>



<p>Há uma questão sobre o tema que é relevante ressaltar: Apesar de ter sido inicialmente denominado como “<strong>síndrome</strong>” este não se classifica como doença ou distúrbio mental. Por isso, as autoras do estudo preferiram chamá-lo de “<strong>fenômeno</strong>”, uma vez que &#8216;condição’ e ‘<strong>síndrome</strong>’ sugerem doença mental, ao passo que a experiência da <strong>impostura</strong> é na verdade muito mais pedestre do que isso, muito mais comum. Algo que, segundo Clance, ‘quase todo mundo enfrenta’ (MANN, 2021, p. 13).</p>



<p><strong>Vaiano</strong> concorda com esta posição e acrescenta que se você é de fato tratado como <strong>impostor</strong>, uma vez que condições sociais e econômicas favorecem este processo, isto não pode ser visto como uma doença individual, mas sim como um <strong>sintoma</strong> gerado por posição e valores sociais doentios.</p>



<p>O autor da matéria aponta ainda para o risco de distorções sobre o tema devido ao uso do termo de forma vulgar e fora do contexto, ocasionando a banalização do conceito e o distanciando do momento socioeconômico que estamos vivendo.</p>



<p><strong>Mann</strong> (2021) nos remete para fatores relacionados ao <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong>, tendo o núcleo familiar um destaque central neste processo, sendo este o lugar  onde a criança tem suas primeiras experiências de compensação e reconhecimento. Dentre as dinâmicas familiares citadas pela autora, temos a condição da criança prodígio – aquela que gera uma alta expectativa sobre seus pais e educadores, não podendo falhar nunca, de modo que em seus primeiros <strong>fracassos</strong> ou erros aparecem os sentimentos de <strong>impostura</strong>: ela não é tão boa assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-outra-dinamica-possivel-trata-de-um-contexto-em-que-ha-um-filho-que-se-destaca-mais-tornando-o-sucesso-inalcancavel-para-os-outros" style="font-size:20px">Uma outra dinâmica possível, trata de um contexto em que há um filho que se destaca mais, tornando o <strong>sucesso</strong> inalcançável para os outros.</h2>



<p>Neste caso, quando o filho menos prodigioso tem <strong>sucesso</strong>, ele acredita ser por algum infortúnio e não por mérito. Estes sentimentos vão se consolidando ao longo do crescimento, na escola, nos esportes, nos grupos de convívio e reproduzidos depois no mundo adulto, em seus futuros <strong>trabalhos</strong>.</p>



<p>Assim também se dá com as minorias, que por preconceito e discriminações das mais diversas, são menos favorecidas e não reconhecidas socialmente por razões como: deficiências, classe social, etnia, gênero. Em todos os casos, o <strong>sucesso</strong> não é compreendido como resultado de um talento e há um sentimento recorrente de ser uma <strong>farsa</strong>. Um comportamento comum presente nestas pessoas é a sabotagem: costumam diminuir o valor de seu alcance, ou diminuem a complexidade daquilo que fizeram. Desenvolvem atitudes como: medo de errar, não aceitam não saber tudo, não podem aceitar ajuda. Tudo isso de alguma forma pode fazer com que seu <strong>sucesso</strong> seja desmerecido.</p>



<p>Os meios sociais são fonte de grande sofrimento para estas pessoas. Pois trazem modelos e influências de pessoas de grande <strong>sucesso</strong>, que pela manobra das mídias não demonstram o quanto tiveram de dificuldades para chegar a determinadas posições. Como o <strong>impostor</strong> busca referências externas para justificar e sabotar seu <strong>sucesso</strong>, as comparações são inevitáveis. O resultado deste processo são pessoas sofrendo de medos difusos, ansiedade, stress e até mesmo depressão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreendendo-o-fenomeno-do-i-mpostor-a-luz-da-psicologia-analitica" style="font-size:22px"><strong>Compreendendo o Fenômeno do </strong>I<strong>mpostor à </strong>luz<strong> da psicologia analítica </strong></h2>



<p>Nos relatos sobre o <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong>, é comum que a pessoa se refira ao alcance daquele resultado, como se fosse um feito de “um outro nele”, &#8211; ou seja, alguém que ele não reconhece sendo ele próprio; ou mesmo um outro externo – a pessoa atribui o resultado a um mentor, ou um possível herói nas suas histórias – ‘o mérito desta conquista é de fulano’. Analisando estas questões sob a ótica da <strong>psicologia analítica</strong>, temos aqui a manifestação psíquica de componentes bastante estudados neste campo: a <strong>sombra</strong> e o mecanismo de <strong>projeção</strong>.</p>



<p><strong>A sombra aparece aqui como um contraponto da persona</strong>. Esta atua junto à consciência individual para que o indivíduo possa se adaptar, da maneira mais adequada que conseguir, ao seu meio social. No <strong>trabalho</strong>, os papéis a que somos chamados a realizar dá à nossa persona o tom necessário para que esta adaptação ocorra.</p>



<p>O ponto é que para que não haja uma rejeição, o ego quando usa de muita racionalidade e é capturado pelos apelos do mundo externo, adota uma postura rígida e afasta da consciência possíveis interferências à pseudo estabilidade que atingiu respondendo de maneira literal e racional às demandas do ambiente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-projecao-da-sombra">Projeção da sombra</h2>



<p>A <strong>sombra</strong> toma uma proporção equivalente à atitude egóica e se afasta da função consciente, podendo dominar o complexo do ego, e deixar o indivíduo em uma situação de grande fragilidade (apesar da aparente superioridade provocada pela atuação da persona e a inflação do ego) e estará formado um canal propicio para o surgimento dos sentimentos de <strong>impostura</strong>, como também para demais sintomas e doenças das mais variadas espécies.</p>



<p>O fato é que a <strong>sombra</strong> precisa se manifestar e, neste caso, a <strong>projeção</strong> é um recurso para que esta manifestação aconteça. A <strong>projeção</strong> é um mecanismo natural do nosso psiquismo, até que não tenhamos consciência dos nossos conteúdos inconscientes. A questão é quando este processo projetivo nos tira a oportunidade de ampliarmos nosso autoconhecimento, para reconhecer e integrar aspectos sombrios.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dai-ele-se-transforma-em-um-mecanismo-neurotico-whitmont-1999-nos-diz" style="font-size:18px">Daí, ele se transforma em um mecanismo neurótico, <strong>Whitmont</strong> (1999) nos diz:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Quando ocorre uma projeção de sombra, não somos capazes de diferenciar entre a realidade da outra pessoa e nossos próprios complexos. Não conseguimos distinguir entre fato e fantasia. Não conseguimos ver onde começamos e onde o outro termina. Não conseguimos ver o outro; nem a nós mesmos. </em></p>
<cite>(WHITMONT, 1999, p. 37)</cite></blockquote>



<p>É sabido que vivemos em uma sociedade onde o <strong>trabalho</strong> cobra cada vez mais resultados de alta performance e lidar com <strong>fracassos</strong> e frustrações torna-se bastante complicado. Questões como: realização pessoal, felicidade, pensamento positivo, são mandatórios e qualquer circunstância que retire a pessoa deste lugar idealizado, deve ser veementemente refutada. Ou seja, vivemos uma polarização, com um racionalismo contundente sobre como devemos viver a vida. Neste contexto, o homem então se distancia da sua natureza dual e, consequentemente, da possibilidade de viver uma relação sadia com suas manifestações inconscientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-a-natureza-da-psique-jung-traz-a-seguinte-fala" style="font-size:19px">Em A natureza da psique, <strong>Jung </strong>traz a seguinte fala:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>[&#8230;] Se o indivíduo estiver suficientemente preparado, a passagem para uma atividade profissional pode efetuar-se de maneira suave. Mas se ele se agarra a ilusões que colidem com a realidade, certamente surgirão problemas. Ninguém pode avançar na vida sem apoiar-se em determinados pressupostos.</em></p>



<p><em>Às vezes estes pressupostos são falsos, isto é, não se coadunam com as condições externas com as quais o indivíduo se depara. Muitas vezes, são expectativas exageradas, subestima das dificuldades externas, injustificado otimismo ou uma atitude negativista. Poderíamos mesmo organizar toda uma lista de falsos pressupostos que provocam os primeiros problemas conscientes.</em></p>
<cite>(JUNG, 2000, § 761)</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-dito-por-jung-nossos-pressupostos-sao-falsos" style="font-size:18px">Como dito por <strong>Jung</strong>, nossos pressupostos são falsos.</h2>



<p>São guiados hoje por um materialismo que nos afasta do nosso sentido de vida e do que James <strong>Hillman</strong> denominou de <em>daimon</em>, ou fruto do carvalho – que é o nosso vir a ser. Vivemos mecanicamente buscando respostas em um contexto externo confuso, raso, inconstante, incessantemente cansativo e sem sentido. Na fala de <strong>Hillman</strong>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>Vivemos em meio a uma multidão de invisíveis que nos governam: Valores Familiares, Autodesenvolvimento, Relações Humanas, Felicidade Pessoal, e ainda um conjunto de figuras míticas mais impiedosas chamadas Controle, Sucesso, Custo-benefício e (o invisível maior e mais presente) a Economia.</em></p>



<p><em>Estivéssemos nós na Florença do Renascimento, na Roma ou na Atenas da Antiguidade, nossos invisíveis dominantes seriam estátuas e altares, ou pelo menos pinturas, como os invisíveis florentinos, romanos e atenienses chamados Fortuna, Esperança, Amizade, Graça, Modéstia, Persuasão, Fama, Feiura, Esquecimento&#8230; Mas nossa tarefa aqui não é reconstituir todos os invisíveis, mas sim distingui-los, prestando atenção àquele que já foi chamado de seu daimon ou gênio, às vezes de sua alma ou sorte, e agora de seu fruto do carvalho. </em></p>
<cite>(HILLMAN, 1997, p. 107)</cite></blockquote>



<p>O citado autor complementa esta visão com a provocação de que a realidade psíquica faz parte deste universo invisível, mas que é ignorada. “<strong>Está em tudo, embora continuemos insistindo em dizer que é invisível</strong>” (HILLMAN, 1997, p. 109).</p>



<p>Nestas circunstâncias, seguimos criando e alimentando na <strong>sombra</strong> um monstro, pronto para apertar o botão vermelho a qualquer momento, o que na realidade psíquica poderá sim, nos destruir. Esta <strong>farsa</strong> sentida pelo <strong>impostor</strong> pode ser compreendida, portanto, como a falta de espaço e de legitimidade que a <strong>sombra</strong> possui de se integrar à função consciente como parte do processo de realização e também dos resultados e conquistas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-dinamica-unilateral-esquecemos-que-a-dualidade-faz-parte-da-natureza-humana-e-por-isso-a-tememos" style="font-size:20px">Na dinâmica unilateral esquecemos que a dualidade faz parte da natureza humana e, por isso, a tememos.</h2>



<p>Todo <strong>sucesso</strong> contém o <strong>fracasso</strong>. A aniquilação do <strong>fracasso</strong> como uma possibilidade, faz com que o ego se defenda, desenvolvendo uma série de sintomatologias e de comportamentos que já foram acima citados. Cada vez mais o processo de inflação egóica se estabelece e faz com que os nossos próprios processos inconscientes sejam estranhos a nós mesmos.</p>



<p>Daí a <strong>farsa,</strong> a sabotagem, a falta de segurança e de conhecimento de nossos próprios talentos, bem como a <strong>projeção</strong> de nossas capacidades em heróis externos para “culpar” por nossos resultados e realizações. Neste contexto, pode se estabelecer um paradoxo, onde <strong>trabalho</strong> e <strong>carreira</strong> correm o risco de torna-se polaridades, a <strong>sombra</strong> um do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-fazer-com-tudo-isso"><strong>O que fazer com tudo isso?</strong></h2>



<p>Pelo que vimos até aqui, um resultado individual, comprovado por feitos significativos e validado por profissionais de referência, são percebidos por seu idealizador como <strong>fraude</strong>, sorte, ou interferência externa. Algo que tem tudo para ser bom é visto e sentido com angustiante e negativo. Falando até certo ponto de modo simplista &#8211; pelo entendimento da <strong>psicologia anal</strong><strong>í</strong><strong>tica</strong> – é o resultado de uma <strong>projeção</strong> de <strong>sombra</strong>, por uma visão turva de si mesmo, que não considera erros, <strong>fracassos</strong> e frustrações como parte do processo de alcance de <strong>sucesso</strong>.</p>



<p>No caso, certamente há caminhos possíveis para que o indivíduo possa lidar com estes sentimentos de forma mais propositiva. Um dos passos importantes é reconhecer que persona, com sua função social não sintetiza quem somos. A identificação com a persona, assumindo-a como a própria individualidade, faz com que o ego deixe de lado outros aspectos importantes da personalidade total ocasionando assim, uma inflação do ego, sendo dado a este um valor superdimensionado. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-aponta-para-o-risco-desta-identificacao"><strong>Jung</strong> aponta para o risco desta identificação:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:16px"><em>O cargo que ocupo representa certamente minha atividade particular; mas é também um fator coletivo, historicamente condicionado pela cooperação de muitos e cuja dignidade depende da aprovação coletiva. Portanto, se identificar-me com meu cargo ou título, comportar-me-ei como se fosse o conjunto complexo de fatores sociais que tal cargo representa, ou como se eu não fosse apenas o detentor do cargo, mas também, simultaneamente, a aprovação da sociedade. Dessa forma me expando exageradamente, usurpando qualidades que não são minhas, mas estão fora de mim. &#8220;L&#8217;état, c&#8217;est moi&#8221;, é o lema de tais pessoas. </em></p>
<cite>(JUNG, 2016, § 227)</cite></blockquote>



<p>Diante desta fala, entende-se que não há espaço para ser alguém falível e surge o seguinte paradoxo: por meio da inflação do ego a unilateralidade vivenciada pelo indivíduo fragiliza a possibilidade de acesso aos conteúdos sombrios, que estão no centro do complexo afetivo.  Para lidar com as manifestações dos complexos é necessário que haja uma possibilidade de simbolizar, de entender o que esta manifestação está apresentando para a consciência que o ego não permite ver. </p>



<p>Em resumo, o ego quando se coloca em uma condição de unidade e superioridade numa tentativa de controle e domínio da situação ele infla e se fragiliza, deixando espaço para ser “derrotado” pela <strong>sombra</strong>, que esta mesma condição de inflação formou no inconsciente. O que parecia força vira fraqueza. “<strong>Sucesso</strong>” se transforma em “<strong>fracasso</strong>” – o <strong>impostor</strong> assume o comando.</p>



<p>Uma outra forma de olhar para o <strong>fenômeno</strong> da <strong>impostura</strong> é pensar que esta figura do <strong>impostor</strong> pode estar na <strong>sombra,</strong> ocultando ou reprimindo um potencial e até mesmo o destino vocacional, que as pessoas teimam em buscar no ambiente externo, que é tão sedutor e que desequilibra a possibilidade de conversa entre as instâncias consciente e inconsciente. Desse modo, este sentimento de <strong>fraude</strong> pode estar dizendo muito mais do que sobre um simples resultado de um <strong>trabalho</strong> ou um reconhecimento que não parece legítimo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-vital-se-aproximar-desta-porcao-fraude-da-personalidade-e-entender-o-que-nao-e-genuino">É vital se aproximar desta porção <strong>fraude</strong> da personalidade e entender o que não é genuíno.</h2>



<p>Esta reflexão poderá gerar possíveis respostas para os males e reveses impostos pela contradição criada pelas polaridades: <strong>sombra</strong> / persona; <strong>trabalho</strong> (mundo externo de realizações por meio de obrigações e sanções) / <strong>carreira</strong>, (mundo interno de realizações por meio do atendimento da alma e do chamado). O espaço que esta polaridade cria, passa a ser um desafio, um teste de resistência para o indivíduo, que quanto mais se apega à realidade para tentar compreender e escapar da angústia que esta gera, mais cresce a <strong>sombra</strong> e o embate. <s></s></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-hillman-ouvir-esta-voz-interna-e-responder-de-forma-adequada-a-ela-fala-sobre-o-carater-do-individuo-nao-que-seja-uma-missao-simples-ou-facil-mas-e-sem-duvidas-necessaria" style="font-size:19px">Para <strong>Hillman</strong>, ouvir esta voz interna e responder de forma adequada a ela fala sobre o caráter do indivíduo. Não que seja uma missão simples ou fácil, mas é, sem dúvidas, necessária. </h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p><em>A vocação torna-se uma vocação para a vida, em vez de ser imaginada em conflito com a vida. Vocação para a honestidade em vez de para o sucesso, para o amor e o acasalamento, para servir e lutar para viver. Esta perspectiva oferece uma revisão da vocação não apenas na vida das mulheres ou no enfoque das mulheres. Oferece outra ideia de vocação, na qual a vida é o trabalho [&#8230;] enquanto considerarmos as pessoas em termos de aquisição de poder ou experiência, não vemos seu caráter. Nossa lente foi preparada de acordo com uma receita média que é ideal para localizar o que não se enquadra no padrão. </em></p>
<cite>(HILMANN, 1997, p.274)</cite></blockquote>



<p>Para concluir a reflexão proposta neste artigo, penso que a <strong>carreira</strong> é um dos caminhos que temos para a realização e o desenvolvimento de nossa personalidade e de nosso estar no mundo. Por meio de nossa realização profissional podemos deixar nossa marca e nossa assinatura, conhecemos e nos tornamos conhecidos. Será que quem nos vê, vê o que pensamos que somos? A <strong>fraude</strong> está na realização ou na jornada? Ao não dar a devida atenção a isto, que padrão coletivo estamos perpetuando? Quanto mais próximos de nossa “invisível” realidade psíquica estivermos, mais legitimo será este caminho. Concluo com mais algumas palavras provocativas de <strong>Hillman</strong>:</p>



<p>Quem pode determinar onde o fruto do carvalho aprende mais ou onde a alma põe você à prova? [&#8230;] Haverá o <em>daimon</em> de querer o caminho que escolhemos? [&#8230;]&nbsp; Se o sucesso no teste pode ser uma confirmação, a reprovação pode ser a maneira como o <em>daimon </em>nos mostra que estávamos no rumo errado. (HILMANN, 1997, p. 117)</p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/gilmaraalves/"><strong>Analista em Formação</strong> – Gilmara Marques Fadim Alves</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/"><strong>Analista Didata</strong> – Maria Cristina Mariante Guarnieri</a></p>



<p><strong>Palavras-chave</strong>: síndrome, impostor, impostura, fraude, fracasso, farsa, fenômeno, sucesso, psicologia analítica, trabalho, carreira, Jung, Hillman.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas</strong>:</h2>



<ol class="wp-block-list" style="list-style-type:1">
<li>HILLMAN, J. <em>O código do ser. Uma busca do cará</em><em>ter e da voca</em><em>ção pessoal.</em> 2ª ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.</li>



<li>JUNG, C. G. <em>&nbsp;O eu e o inconsciente</em>. 27ª ed. Vol. VII/2. Petrópolis: Vozes, (1934) 2016.</li>



<li>JUNG, C. G. <em>&nbsp;A natureza da Psique</em>. 5ª ed. Vol. VIII/2. Petrópolis: Vozes, (1971) 2000.</li>



<li>MANN, S. <em>A Síndrome do Impostor. Como entender e superar esta inseguranç</em><em>a.</em> 1ª ed. Petrópolis: Vozes, Nobilis. 2021</li>



<li>VAIANO, B. <em>Síndrome do impostor</em>. In: Revista Você S/A. Ed. Maio/2023. São Paulo. Editora Abril.</li>



<li>WHITMONT, E. C. <em>A evolução da sombra</em>. In: ZWEIG,C &amp; ABRAMS, J. (orgs.). <em>Ao encontro da sombra</em>. São Paulo: Cultrix, 1999</li>
</ol>



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