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	<title>Arquivos Professores do IJEP - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Professores do IJEP - Blog IJEP</title>
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		<title>O Gigante Sem Coração: Uma Análise Simbólica do Conto Nórdico à Luz da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-gigante-sem-coracao-uma-analise-simbolica-do-conto-nordico-a-luz-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Keller Alves Villela Ocaña Bruno]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 12:45:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia nórdica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo apresenta uma análise simbólica do conto nórdico “O Gigante Sem Coração” a partir dos fundamentos da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. A narrativa é examinada como expressão arquetípica do processo de individuação, articulando imagens como a sombra, o complexo autônomo, a dissociação afetiva, a anima, o Self e a integração das funções psíquicas.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-gigante-sem-coracao-uma-analise-simbolica-do-conto-nordico-a-luz-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung/">O Gigante Sem Coração: Uma Análise Simbólica do Conto Nórdico à Luz da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este artigo apresenta uma análise simbólica do conto nórdico “<strong>O Gigante Sem Coração</strong>” a partir dos fundamentos da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. A narrativa é examinada como expressão arquetípica do processo de individuação, articulando imagens como a sombra, o complexo autônomo, a dissociação afetiva, a anima, o Self e a integração das funções psíquicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O conto funciona como um mapa simbólico da jornada interior, ilustrando o enfrentamento da sombra, a reconexão com o afeto e a restauração da totalidade psíquica. A análise demonstra que contos de fadas, longe de serem meras histórias infantis, constituem veículos privilegiados para a compreensão dos processos psíquicos profundos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Convido vocês hoje a embarcarem comigo numa aventura. Numa terra distante repleta de personagens que fazem despertar em nós a criança adormecida, a criança com olhos curiosos e alma aventureira. Trago para essa aventura um conto nórdico e os convido a lê-lo com os olhos curiosos de uma criança e deixarem a imaginação percorrer esses caminhos junto com nosso herói. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Farei uma análise a luz da psicologia analítica – a minha análise, e os convido a fazer o mesmo. Aventurem-se a fazer sua própria análise do conto, ouçam o que sua voz interior diz sobre cada personagem, percebam que emoções serão despertadas a cada novo passo do caminho. E acima de tudo divirtam-se!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-gigante-sem-coracao"><strong>O GIGANTE SEM CORAÇÃO</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote has-regular-font-size is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<em>Era uma vez um rei que tinha sete filhos. Certo dia, convocou-os e disse:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&#8211; Queridos filhos, já estou velho e gostaria de ver vocês casados. Partam pelo mundo afora e procurem cada um uma esposa. Ficará comigo apenas o caçula, Halvor, para me fazer companhia enquanto vocês estiverem fora.&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O escudeiro do rei escolheu nas cocheiras reais os seis melhores cavalos, e os príncipes puseram-se a caminho. Depois de algum tempo, chegaram a um país distante onde reinava um poderoso soberano. Este tinha sete filhas, lindíssimas, que estavam em idade de se casar. Os príncipes pediram as princesas em casamento. O rei não se opôs.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas os seis príncipes não tinham esquecido o irmão caçula: escolheram para ele a filha mais moça do poderoso soberano. Era bonita e fresca como uma flor de jasmim, e não hesitou em acompanhar as irmãs até o país distante onde iria se encontrar com o príncipe Halvor.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Uma manhã, os príncipes e as princesas empreenderam o caminho de volta. Mas, para regressarem a seu país, os príncipes tinham que passar perto de uma alta montanha negra onde morava um terrível gigante. Eles se encontraram com ele, e o gigante pediu que lhe entregassem a princesa mais moça. Claro que os príncipes não concordaram e, como o gigante queria tomá-la à força, os príncipes desembainharam suas espadas para defendê-la. O gigante, então, fez um gesto mágico com a mão e imediatamente as princesas e os príncipes ficaram petrificados.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A única que escapou foi a princesa mais jovem, que foi levada até uma caverna.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Entretanto, o velho rei e seu caçula continuavam esperando a chegada dos príncipes e suas noivas. Ao cabo de um ano, ninguém; ao cabo do segundo ano, também ninguém. Então, o príncipe Halvor decidiu ir procurar seus irmãos. Só que o velho rei não concordava com isso.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Fique comigo, filho. Se você também me abandonar, ficarei sozinho e muito infeliz.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O príncipe Halvor ajoelhou-se na frente do pai, suplicando-lhe que eu deixasse partir. Tanto insistiu, que o rei acabou cedendo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O próprio rei foi escolher o cavalo para ele, mas escolheu um cavalo muito fraco e muito velho. “Assim ele não chegará muito longe e logo voltará para perto de mim”, pensou o rei.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O príncipe Halvor partiu, então, à procura de seus irmãos. Viajou muito, durante dias e noites a fio, até chegar a uma torrente. Como estava procurando uma passagem para ele seu cavalo, percebeu de repente, na beira do rio, uma enguia que tinha sido jogada fora da água pela correnteza. Rapidamente, colocou-a de volta dentro da água. A enguia, então, emergiu da água e disse ao príncipe:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Obrigada, príncipe, você me salvou a vida. Nunca esquecerei a ajuda que você me prestou; Se precisar de mim, pode contar com meu auxílio. &#8211; E desapareceu dentro da torrente.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Halvor continuou seu caminho, chegando a uma planície rochosa. Lá, bem no meio, avistou um gavião que tentava alçar voo. Mas os seus esforços eram em vão, pois estava esgotado pela fome.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O príncipe tinha em seu bolso um pedacinho de pão &#8211; era o último – mas, sem hesitar, esmigalhou-o e deu as migalhas ao gavião. Ele comeu tudo, depois abriu as asas e voou. Virou a cabeça em direção à alvor e disse-lhe com voz quase humana:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Obrigado, o príncipe, você salvou a minha vida. Nunca esquecerei a ajuda que você me prestou; se precisar de mim, pode contar com meu auxílio.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O príncipe continuou seu caminho, chegando a uma floresta muito sombria.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Ao atravessar um pedaço da mata, ouviu uns gemidos. Caminhou na direção deles, chegando a uma clareira onde viu um lobo muito magro, que estava morrendo de fome. Estava tão fraco, que não conseguia se levantar. O príncipe ficou com dó dele e sacrificou seu cavalo para alimentá-lo. O lobo comeu à vontade e recuperou num instante as suas forças. Então ele se pôs de pé e disse ao príncipe:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Obrigado, príncipe, por ter me salvado a vida. Para recompensá-lo, quero servi-lo fielmente. Agora tenho a força de dois cavalos. Sele-me e vamos à procura de seus irmãos. Sei onde podemos encontrá-los.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Halvor Colocou a sela no lobo, montou nele e partiram como uma flecha. O lobo correu a toda velocidade por muito tempo, e só parou quando chegaram a uma grande montanha negra.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Chegamos &#8211; anunciou o lobo. Nesta montanha vive um gigante que transformou seus irmãos e suas noivas em estátuas de pedra. Acho que o gigante saiu, mas sem dúvida iremos encontrar lá dentro uma bela princesa, que é sua prisioneira.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O príncipe desceu de sua montaria e entrou na montanha. Atravessou as doze magníficas salas do castelo subterrâneo e só na décima terceira sala encontrou o que estava buscando.&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Ao longo de uma parede descobriu seis estátuas de pedra: seus infelizes irmãos. Ao longo de outra parede, mais seis estátuas: as infelizes noivas de seus irmãos. Na frente das estátuas estava uma jovem, linda e fresca como uma flor de jasmim, chorando silenciosamente. A moça era tão cheia de graça e de beleza, que Halvor logo ficou apaixonado por ela.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Não chore, princesa – suplicou &#8211; venha comigo, vou levá-la para longe desse gigante malvado.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Mas não posso abandonar as minhas irmãs petrificadas &#8211; soluçou a princesa.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Depois disse, inquieta:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Estou ouvindo o gigante voltar, fuja depressa.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Não vou fugir sem você &#8211; decidiu o príncipe, desembainhando sua espada.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas a princesa o reteve, dizendo:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Você não vai poder fazer nada contra ele, ele é invulnerável, pois não tem coração. Agora esconda-se rapidamente aqui na chaminé e fique quieto.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Está bom, mas não se esqueça de perguntar ao gigante onde ele esconde seu coração.&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Logo que o príncipe se escondeu dentro da chaminé, a terra se pôs a tremer e imediatamente depois apareceu na porta o gigante. Cheirou a sala e perguntou com um ar desconfiado:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Estou cheirando carne humana. Diga-me: quem está aqui?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Ninguém &#8211; respondeu a princesa. Mas, espere, agora estou me lembrando que hoje de manhã uma gralha deixou cair na chaminé um osso humano. Logo o joguei fora, mas vai ver que o cheiro ficou.&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Estas palavras tranquilizaram o gigante, que jantou calmamente e foi se deitar.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>No dia seguinte pela manhã, na hora do desjejum, a princesa lhe disse:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Suponho que esta noite você teve um sonho ruim, pois você estava gemendo e gritando que alguém tinha roubado seu coração.&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Não é possível &#8211; respondeu o gigante sorrindo &#8211; pois escondi muito bem meu coração.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Onde? Muito longe?&nbsp;&nbsp;&#8211; perguntou a princesa.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Não &#8211; replicou o gigante. Na frente da montanha, há um grande rochedo de granito. Debaixo dele, escondi meu coração.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Depois do desjejum, o gigante foi embora. Halvor saiu de seu esconderijo e foi à procura do rochedo de granito. E, de fato, encontrou na frente da montanha o rochedo; removeu com dificuldade, mas não havia nada em baixo, o coração não estava lá.&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Não faz mal &#8211; disse Halvor a princesa, indo colher algumas flores ali por perto.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Levou-as para a princesa, que fez um lindo ramalhete e o colocou em cima do rochedo de granito.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>De noite, quando o gigante voltou, Halvor estava de novo escondido na chaminé. O gigante cheirou o ar e disse:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Estou cheirando, estou cheirando carne humana!</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Não, não é possível &#8211; replicou a princesa. Deve ser o osso que caiu na chaminé ontem.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O gigante aproximou-se da chaminé e olhou dentro, mas felizmente não descobriu o príncipe ali escondido.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Você está certa princesa, até agora a chaminé está com o cheiro desse osso. Agora diga-me, por que há flores em cima do rochedo na frente da montanha?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Você não sabe que eu o amo! &#8211; falou suavemente a princesa. Agora que sei que seu coração está debaixo daquele rochedo, todo dia levarei flores para enfeitá-lo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Estas palavras comoveram o gigante, que respondeu:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Na realidade, meu coração não está escondido debaixo daquele rochedo, eu o escondi num cofre de prata que coloquei na décima terceira sala.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>No dia seguinte, assim que o gigante partiu, Halvor abriu o cofre de prata na décima terceira sala e, com a princesa, procurou minuciosamente. Mas, em vão, o coração do gigante não estava lá.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Não faz mal &#8211; disse Halvor à princesa, que estava bastante decepcionada. E de novo ele se pôs a colher flores, entregando-as depois à princesa. Ela fez uma bela coroa com as flores e a colocou em cima do cofre de prata, na décima terceira sala.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Quando o gigante voltou de noite, sentiu de novo cheiro de carne humana, mas a princesa o acalmou:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Ainda é o cheiro daquele osso. Parece que nunca ficaremos livres dele!</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Desta vez o gigante não olhou dentro da chaminé, mas, tendo percebido a coroa de flores em cima do cofre de prata, perguntou:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; O que essa coroa está fazendo ali em cima do cofre?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Você sabe que eu o amo &#8211; disse gentilmente a princesa &#8211; e como sei que seu coração está dentro do cofre, vou colocar flores frescas lá todo dia.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Estas palavras comoveram o gigante a tal ponto que ele confiou o seguinte à princesa:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Como estou vendo que você gosta realmente de mim, princesa, vou revelar-lhe onde escondi meu coração. Atrás de nove montanhas, no lado sombrio, há um lago azul. No meio do lago, há uma ilha e, na ilha, uma igreja. Na igreja há um poço e, dentro do poço, nada um pato que tem na sua barriga um ovo. E é dentro desse ovo que se encontra meu coração.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; É uma pena que seja tão longe, pois eu gostaria de enfeitar o poço diariamente com flores &#8211; disse a princesa, simulando tristeza.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O gigante ficou muito feliz ao ouvir isso e foi se deitar.&nbsp;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>No dia seguinte, imediatamente após a saída do gigante, Halvor chamou o lobo, que durante todo esse tempo aguardava na floresta. Colocou a sela nele e se despediu da princesa, indo à procura do coração do gigante.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Viajaram por muito tempo, atravessaram nove montanhas e chegaram na orla do lago azul. Nadaram até a ilha, onde encontraram a igreja. Na igreja, havia um poço onde nadava um pequeno pato branco. O príncipe quis apanhá-lo estendendo a mão, mas, no mesmo instante, o pato abriu as asas e saiu voando pela janela semiaberta. Mas, por acaso, o gavião, cuja vida o príncipe havia salvo outrora, também se encontrava lá. Ele se jogou por cima do pato, que, assustado, deixou cair nas águas do lago o ovo que estava segurando com tanto cuidado. Inesperadamente, a enguia que o príncipe havia salvo antes, surgiu na superfície do lago com o ovo na boca, entregando ao príncipe.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; Quebra o ovo! &#8211; ordenou o lobo ao príncipe.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O príncipe obedeceu e quebrou o ovo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>De repente, o tempo ficou escuro, ouviram se trovões, a terra tremeu e doze relâmpagos foram vistos por cima das montanhas.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8211; O gigante agora virou pó &#8211; explicou o lobo sábio. E seus irmãos e suas noivas estão livres. Sente-se rápido nas minhas costas e vamos ao encontro deles.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O príncipe obedeceu às ordens do lobo. Eles nadaram até a borda do lago e depois atravessaram as nove montanhas, parando em frente a montanha negra, onde se encontrava o castelo subterrâneo do gigante.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Os irmãos e suas noivas estavam impacientes à espera de Halvor. Todos estavam sãos e salvos e de bom humor, mas a princesinha, linda e fresca como uma flor de jasmim, ficou mais feliz ainda quando o Halvor a tomou em seus braços.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Depois, foram todos juntos até a casa do pai dos príncipes, o velho rei. Este nem sonhava mais rever seus filhos e ficou tão feliz, que mandou tocar solenemente todos os sinos do reino durante três dias, do amanhecer até o anoitecer.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O casamento dos sete príncipes e das sete princesas foi tão bonito, que os habitantes daquela terra ainda hoje comentam a festa.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Há contos que parecem ter sido escritos não para crianças, mas para a alma.&nbsp;<em>“O Gigante Sem Coração”</em>, difundido na tradição nórdica, é um desses relatos que, sob a aparência simples de uma aventura heroica, guarda uma arquitetura simbólica profunda. Ele fala de algo que todos conhecemos intimamente: o medo de sentir, o impulso de esconder o coração, a força destrutiva daquilo que reprimimos e a necessidade de recuperar partes perdidas de nós mesmos.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-analise-do-conto"><strong>Análise do Conto</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ler esse conto à luz da psicologia analítica de Carl Gustav Jung é como acender uma lanterna dentro de uma caverna antiga. As figuras que ali habitam — o gigante, o herói caçula, os irmãos aprisionados, as princesas, os animais auxiliares — revelam-se expressões vivas de processos psíquicos universais. O conto não descreve apenas uma aventura externa, mas um drama interior, uma jornada rumo a individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O gigante que domina o reino e aprisiona personagens não é apenas um vilão. Ele pode ser considerado uma imagem da&nbsp;<strong>sombra</strong>, esse conjunto de aspectos rejeitados da personalidade que, quando ignorados, podem ganhar proporções monstruosas. A desmedida do gigante não é gratuita: ela simboliza a força que conteúdos reprimidos adquirem quando deixados no inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além disso, o gigante opera como um&nbsp;<strong>complexo autônomo</strong>, isto é, uma formação psíquica que adquire independência e exerce domínio sobre o Ego. Sua capacidade de aprisionar personagens e paralisar o fluxo da narrativa reflete o modo como complexos não integrados, sequestram energia psíquica e limitam o desenvolvimento da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mais inquietante, porém, é o fato de que o gigante esconde o próprio coração. Ele o retira do peito e o deposita longe, protegido, inacessível. É difícil imaginar metáfora mais precisa para a dissociação afetiva. Quantas vezes, diante da dor, da perda ou do medo, não fazemos o mesmo? Escondemos o nosso coração para não sofrer, mas ao fazê-lo nos tornamos rígidos, violentos, incapazes de sentir. O gigante é a caricatura desse movimento psíquico: invulnerável por fora, mas morto por dentro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É o filho mais jovem quem parte para enfrentar o gigante. Nos contos de fadas, o caçula não é apenas o mais frágil: ele é o mais aberto, o menos endurecido, o que ainda não se cristalizou em defesas rígidas. Ele pode ser considerado a representação do&nbsp;<strong>ego</strong>&nbsp;em desenvolvimento – jovem ainda – e por isso mesmo, capaz de transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto os irmãos mais velhos — presos a padrões repetitivos — fracassam, o caçula avança porque mantém uma relação viva com o inconsciente. Ele não teme pedir ajuda, não teme errar, não teme aprender. Sua força não está na espada, mas na flexibilidade, na paciência, na resiliência. É essa qualidade que permite que ele enfrente o gigante sem ser devorado por ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os irmãos e as princesas aprisionados pelo gigante são mais do que personagens secundários. Eles representam funções psíquicas sequestradas pela sombra: capacidades emocionais, cognitivas e relacionais que não puderam se desenvolver porque o coração — o centro afetivo — foi escondido. Os irmãos agem no impulso para defender a princesa e acabam sendo petrificados pelo gigante junto com estas – só a mais nova escapa e fica com o gigante, mais tarde ela terá que ajudar o herói usando um pouco de astúcia e paciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-princesas-especialmente-evocam-a-nbsp-anima-o-principio-feminino-interno-que-regula-a-sensibilidade-a-imaginacao-e-o-vinculo-quando-a-anima-esta-aprisionada-a-vida-interior-se-torna-arida-liberta-la-e-recuperar-a-capacidade-de-sentir-de-relacionar-se-de-sonhar" style="font-size:18px">As princesas, especialmente, evocam a&nbsp;<strong>anima</strong>, o princípio feminino interno que regula a sensibilidade, a imaginação e o vínculo. Quando a anima está aprisionada, a vida interior se torna árida. Libertá-la é recuperar a capacidade de sentir, de relacionar-se, de sonhar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo da jornada, o herói recebe ajuda de três animais – a enguia, o gavião e o lobo – não animais comuns, mas animais mágicos. Eles conversam com o herói, não o atacam em momento nenhum, muito pelo contrário. Eles aceitam a ajuda do príncipe, agradecem e prometem que virão em seu auxílio caso ele precise. Na linguagem junguiana, os animais representam o instinto, essa sabedoria arcaica que a consciência moderna frequentemente despreza. Eles são guias que conhecem caminhos que a razão desconhece.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Cada um agindo a seu modo, com suas particularidades, com sua visão – a enguia vive no fundo das águas, já o gavião voa alto vendo tudo de cima, enquanto o lobo tem a força e a velocidade necessária para levar o príncipe aonde ele precisa chegar. Mas antes que possam cumprir suas funções precisam ser alimentados por ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A presença deles indica que a individuação não é um processo puramente racional. É preciso ouvir o corpo, os sonhos, os impulsos profundos. O príncipe só encontra o coração do gigante porque aceita essa ajuda instintiva. Sem ela, permaneceria perdido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Halvor ao chegar à caverna/castelo subterrâneo tende a agir como seus irmãos fizeram anteriormente, mas a princesa não permite, pois sabe que de nada adiantará, pois o gigante não tem coração, não pode ser atingido, a força bruta de nada adiantará. Ela que, a princípio, só sabia chorar e se conformar com seu destino, com a chegada de alguém disposto a salvá-los, ganha novo ânimo e com astúcia consegue descobrir onde o gigante guarda seu coração. É como se ela ganhasse energia na medida que encontra seu par. <strong>A energia masculina e feminina trabalhando juntas</strong>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos observar também que ao chegar Halvor tem que percorrer 13 salas, e é na décima terceira que ele encontra os irmãos e as princesas petrificadas – seis rapazes e seis moças, e a princesa que chorava, totalizando treze pessoas. O número 13 é muitas vezes visto como um número de azar, mas também pode ser considerado o início de um novo ciclo. Algo precisa acontecer para que a mudança ocorra, e é o herói que tem que realizar a tarefa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com a ajuda da princesa ele descobre o esconderijo do coração do gigante e, com a ajuda do lobo, parte em busca dele. O esconderijo é longe e o rapaz terá que enfrentar muitos obstáculos, muitas dificuldades e desafios.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos considerar a busca pelo coração como uma&nbsp;<strong>descida simbólica ao inconsciente</strong>. Não é por acaso que o coração está escondido em um lugar remoto, protegido por camadas e mais camadas de obstáculos. Recuperá-lo exige coragem, persistência e, sobretudo, disposição para enfrentar aquilo que foi evitado por tanto tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando o príncipe finalmente encontra o coração e o destrói, não se trata de um ato de violência, mas de libertação. O que é destruído não é o afeto, mas a defesa que o isolava. O coração volta a pulsar no mundo, e o gigante — símbolo do complexo autônomo — perde seu poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com a queda do gigante, tudo volta ao seu lugar. Os aprisionados são libertos, o reino floresce, a vida retorna. Essa restauração não é apenas narrativa: ela simboliza a reintegração da psique.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“O Gigante Sem Coração” nos lembra que esconder o coração pode parecer uma estratégia de sobrevivência, mas é sempre uma forma de morte. Recuperá-lo exige enfrentar a sombra, dialogar com o instinto, libertar partes aprisionadas da alma. É um trabalho árduo, mas profundamente humano e recompensador.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No fim, o conto nos diz algo simples e essencial: só é inteiro quem ousa sentir.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: O Gigante Sem Coração: Uma Análise Simbólica do Conto Nórdico" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/x7nvARsAiqI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/keller/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/keller/">Keller Villela &#8211; Membro Analista IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone D. Magaldi &#8211; Analista didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencia" style="font-size:18px"><strong>Referência:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BONAVENTURE, Jette. O que conta o conto? São Paulo, Editora Paulus, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-gigante-sem-coracao-uma-analise-simbolica-do-conto-nordico-a-luz-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung/">O Gigante Sem Coração: Uma Análise Simbólica do Conto Nórdico à Luz da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/velho-e-voce-um-olhar-junguiano-sobre-o-envelhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 May 2025 12:47:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[etapas da vida]]></category>
		<category><![CDATA[idosos]]></category>
		<category><![CDATA[invisibilidade do idoso]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10453</guid>

					<description><![CDATA[<p>A velhice é um tema demasiado evitado por boa parte das pessoas. O medo do envelhecimento é uma sombra que paira sobre a sociedade contemporânea, profundamente enraizado em valores culturais que exaltam a juventude, a produtividade e a beleza como padrões quase inquestionáveis. Mais do que uma simples resistência às mudanças corporais ou à perda [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A velhice é um tema demasiado evitado por boa parte das pessoas. <strong>O medo do envelhecimento é uma sombra que paira sobre a sociedade contemporânea</strong>, profundamente enraizado em valores culturais que exaltam a juventude, a produtividade e a beleza como padrões quase inquestionáveis. Mais do que uma simples resistência às mudanças corporais ou à perda de vitalidade, esse temor revela a inquietação diante da finitude, do isolamento e da possível invisibilidade social que o avançar da idade pode trazer. <strong>Em um mundo que associa o envelhecer ao declínio, alimentamos uma espécie de negação coletiva e mergulhamos em uma busca incessante por prolongar a juventude que, como um reflexo, escapa das mãos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Conforme o último censo do IBGE<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a> (2022), as pessoas com mais de 60 anos chegaram a 15,6% da população brasileira, um aumento de 56,0% em relação a 2010. Entre 2010 e 2022, a expectativa de vida aumentou, e passa a ser em média 75,5 anos<a id="_ftnref2" href="#_ftn2">[2]</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-afirma-jung-oc-8-2-802-que-nossa-longevidade-comprovada-pelas-estatisticas-atuais-e-um-produto-da-civilizacao" style="font-size:18px">Afirma Jung (OC 8/2, §802) que “<strong>nossa longevidade comprovada pelas estatísticas atuais é um produto da civilização</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mais do que um fenômeno biológico, a extensão da vida humana é fruto de uma complexa teia de transformações culturais, científicas e sociais que moldaram nosso modo de existir. Desde a descoberta de vacinas até os avanços da medicina preventiva, passando pelas melhorias nas condições sanitárias e pelo acesso ampliado à informação, a civilização construiu os alicerces para que o ser humano pudesse viver mais. Contudo, esse ganho de anos não deve ser visto apenas como um triunfo técnico, mas também como um desafio existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Envelhecer é um processo natural da existência humana, mas, ao mesmo tempo, carrega desafios complexos, há um diálogo inconsciente com a proximidade da finitude, com as limitações físicas, com a perda do viço e ganho da opacidade do corpo. E muitos idosos ficam um tanto aprisionados num aspecto nostálgico, com saudades de um passado que pode ter sido bom, diferente das angústias e dores da atualidade dos dias.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diz-jung-oc-8-2-800-que-a-vida-natural-e-o-solo-em-que-se-nutre-a-alma-quem-nao-consegue-acompanhar-essa-vida-permanece-enrijecido-e-parado-em-pleno-ar" style="font-size:19px">Diz Jung (OC 8/2, §800) que “a vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Talvez seja por este motivo que “muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração” (JUNG, OC 8/2, §800). &nbsp;Há aqueles que, ao invés de se adaptarem ao curso natural da existência, estacionam psicologicamente no passado, como pilares nostálgicos de uma juventude que já não existe, mas cujas memórias permanecem vívidas. Essas pessoas, presas às lembranças de um tempo que não dialoga mais com o presente, perdem o vínculo com o fluxo vital. No entanto, a vida exige transformação. <strong>É como se nossa consciência tivesse deslizado um pouco de suas bases naturais e não soubesse mais como se orientar pelo tempo natural</strong> (JUNG, OC 8/2, §802).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aceitar-o-envelhecimento-nao-significa-negligenciar-o-cuidado-com-o-corpo-ou-abandonar-se-passivamente-ao-inevitavel" style="font-size:19px">Aceitar o envelhecimento não significa negligenciar o cuidado com o corpo ou abandonar-se passivamente ao inevitável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Pelo contrário, trata-se de <strong>um convite à reconciliação com o tempo, uma oportunidade para cultivar a autoestima de maneira equilibrada e honesta</strong>. Cuidar de si é um gesto de amor-próprio, e isso pode incluir atividades físicas e procedimentos estéticos que tragam bem-estar, desde que não se tornem obsessão. O equilíbrio está em reconhecer que os sinais são marcas de uma vida vivida, carregadas de histórias, experiências e sabedoria. Cuidar do corpo é uma forma de honrar a própria jornada e a verdadeira beleza está em harmonizar-se com a vida, valorizando o que se é em cada fase. Afinal quando aceito com serenidade, o envelhecimento pode ser um ato de maturidade e um testemunho da riqueza que o tempo nos confere.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Além disso, é importante atentar para a <strong>sombra coletiva acerca do envelhecer</strong>, pois a cultura contemporânea, com sua obsessão por performances e aparências, projeta a velhice como um lugar de ausência de produtividade, relevância, vigor e sexualidade, eclipsando os idosos numa sociedade que idolatra o novo e despreza o que é velho. Mas a sombra não se contenta em ficar oculta; ela se infiltra nas atitudes, nas escolhas e nos exageros que vemos ao nosso redor. Exageros esses que apontam para a terrível capa de invisibilidade que recaem nos idosos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Há um apagamento silencioso e insidioso que permeia o convívio familiar com os mais velhos, muitas vezes operando de forma inconsciente, como uma teia que lentamente os retira do protagonismo de suas próprias vidas. Essa invisibilidade os coloca nos bastidores, onde deixam de ser atores principais de sua história para se tornarem espectadores da dinâmica familiar que, gradualmente, os desconsidera. Esse movimento, que talvez não seja intencional, resulta em uma intensificação de sua dependência, roubando-lhes a autonomia e reduzindo sua capacidade de decidir sobre sua própria existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-cotidiano-familiar-por-vezes-de-forma-inconsciente-os-idosos-sao-tratados-como-seres-altamente-frageis-que-devem-ser-protegidos-a-qualquer-custo" style="font-size:19px">No cotidiano familiar, por vezes de forma inconsciente, os idosos são tratados como seres altamente frágeis, que devem ser protegidos a qualquer custo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Esse zelo excessivo, talvez motivado pelo amor e preocupação, frequentemente resvala em práticas que acabam retirando a autonomia daqueles que envelhecem</strong>. O ato de assumir as decisões ou impor limites sem considerar suas capacidades pode ser entendido mais do que um gesto desatento; é uma forma sutil de apagamento e, nesse processo, perde-se de vista a rica e complexa história que cada idoso carrega consigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Esquecem-se do caminho longo e árduo que percorreram, da vida social e profissional que construíram, da base emocional e material que ofereceram àqueles que hoje os cercam, ignoram-se os papéis que desempenharam como pilares de referência e exemplo, como construtores de alicerces que sustentaram tantas vidas e histórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao tratá-los apenas pelo prisma da fragilidade, os familiares negligenciam a importância de reconhecer e valorizar a trajetória de quem, um dia, foi o protagonista de tantas conquistas e desafios. É fundamental lembrar que o envelhecimento não apaga as realizações, não invalida a sabedoria acumulada nem diminui o valor intrínseco do ser humano.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-respeitar-a-autonomia-dos-idosos-e-tambem-respeitar-a-sua-historia-reconhecer-que-o-envelhecer-nao-a-diminui" style="font-size:19px"><strong>Respeitar a autonomia dos idosos é também respeitar a sua história, reconhecer que o envelhecer não a diminui</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Um outro aspecto importante a ser olhado é que a sociedade contemporânea é regida pela pressa e pelo ritmo acelerado que exalta a produtividade, a eficiência e o imediatismo, e por isso os idosos podem se tornar vítimas de uma silenciosa exclusão. A falta de paciência para lidar com seu tempo mais lento é um reflexo de uma sociedade do descarte, que se esqueceu daqueles que pavimentaram os caminhos por onde outros agora correm.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa impaciência é um sintoma da desvalorização do envelhecer pois, em um sistema capitalista que reduz o indivíduo à sua capacidade de produzir e consumir, o idoso, ao deixar de ocupar o lugar de engrenagem ativa, é muitas vezes relegado à margem e sua idade avançada tende a ser percebida como um fardo e não uma conquista de sobrevivência e sabedoria. Ou então, para aqueles que possuem melhor poder aquisitivo, viram “nicho de mercado”, num processo de objetificação do ser.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-voracidade-do-capitalismo-identifica-nesse-grupo-uma-nova-oportunidade-de-obtencao-de-lucro-onde-produtos-e-servicos-sao-oferecidos-talvez-com-o-intuito-de-atender-a-uma-demanda-artificialmente-criada" style="font-size:19px"><strong>A voracidade do capitalismo identifica nesse grupo uma nova oportunidade de obtenção de lucro, onde produtos e serviços são oferecidos talvez com o intuito de atender a uma demanda artificialmente criada</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Os idosos são, assim, transformados em consumidores compulsórios de uma infinidade de soluções que prometem juventude eterna, conforto e <em>status</em>, mas que, em sua essência, podem reforçar estereótipos e desumanizar o processo de envelhecer. Por trás da publicidade sedutora e dos <em>slogans </em>otimistas, existe a insidiosa mensagem de que a velhice é algo a ser combatido, escondido ou domesticado, e não uma etapa digna de celebração. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-processo-vai-alem-do-campo-material-infiltrando-se-nas-relacoes-sociais-e-culturais" style="font-size:19px"><strong>Esse processo vai além do campo material, infiltrando-se nas relações sociais e culturais</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A figura do idoso é constantemente remodelada para se encaixar em padrões de mercado que ditam como ele deve viver, parecer e até sentir. A liberdade de ser é substituída pela imposição de um modelo idealizado de envelhecimento, onde o consumo se torna a régua pela qual medimos a validade da vida. Essa abordagem, ao mesmo tempo que explora a capacidade de compra dos idosos, ignora suas necessidades mais fundamentais: respeito, inclusão e pertencimento. No lugar de acolher suas singularidades e reconhecer suas trajetórias, o mercado os transforma em alvos comerciais acima da dignidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para lidar com a ampliação da consciência e das reflexões acerca do envelhecimento, além de tantos outros processos do viver, Jung (OC 7/1, §113) reflete que a pessoa “precisa aprender a distinguir o eu do não-eu, isto é, da psique coletiva”. Ressalta que para diferenciar o eu do não-eu “é indispensável que o homem – na função de eu – se conserve em terra firme, isto é, cumpra seu dever em relação à vida e, em todos os sentidos, manifeste sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana” (JUNG, OC 7/1, §113).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-o-avancar-da-idade-ha-um-convite-para-a-busca-de-significacao-de-sentido-da-propria-vida" style="font-size:19px">Com o avançar da idade, há um convite para a busca de significação de sentido da própria vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O envelhecimento, muitas vezes percebido como um declínio inevitável, pode ser, na verdade, um processo profundamente transformador, um convite silencioso à metanóia – essa mudança de perspectiva que nos impulsiona a olhar para dentro, rever nossas crenças, e reorientar o sentido da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-1-113-reflete-que-estamos-diante-do-problema-de-encontrar-o-sentido-que-possibilite-o-prosseguimento-da-vida-entendendo-se-por-vida-algo-mais-do-que-simples-resignacao-e-saudosismo" style="font-size:19px">Jung (OC 7/1, §113) reflete que “estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da vida (entendendo-se por vida algo mais do que simples resignação e saudosismo)”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para ele, com o avançar da idade, o “<strong>papel junto ao jovem difere do que exercemos junto a uma pessoa mais amadurecida. No que se refere ao primeiro, basta afastar todos os obstáculos que dificultam sua expansão e ascensão. Quanto à última, porém, temos que incentivar tudo quanto sustente sua descida”</strong> (JUNG, OC 7/1, §114). É contundente ao afirmar o quão errônea é a ideia de que “os velhos podem ser abandonados, pois já não prestam para nada, uma vez que sua vida ficou para trás e só servem como escoras petrificadas do passado. É enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de expansão”. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">E lindamente aponta que “<strong>o entardecer da vida humana é tão cheio de significação quanto o período da manhã. Só diferem quanto ao sentido e intenção</strong>” (JUNG, OC 7/1, §114).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao mergulharmos nas reflexões de Jung, somos confrontados com uma verdade inevitável: a existência humana é tecida por ciclos que demandam sentidos distintos em cada fase da vida. Na juventude, a energia vital pulsa em direção à expansão, à conquista de horizontes e ao desbravamento de possibilidades. Contudo, à medida que avançamos para o entardecer da existência, emerge a necessidade de encontrar um significado mais profundo, uma direção que transcenda a simples resignação ou nostalgia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-perspectiva-junguiana-nos-convida-a-reconhecer-que-o-envelhecimento-nao-e-um-declinio-mas-uma-transicao-um-convite-a-introspeccao-e-a-aceitacao-das-verdades-mais-essenciais" style="font-size:19px">A perspectiva junguiana nos convida a reconhecer que o envelhecimento não é um declínio, mas uma transição, um convite à introspecção e à aceitação das verdades mais essenciais. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Nesse período, o desafio é sustentar a jornada para dentro, o mergulho no próprio ser porque é na descida simbólica que encontramos a riqueza das nossas raízes, o legado de experiências e sabedorias acumuladas ao longo do caminho, pois “<strong>o que a juventude encontrou e precisa encontrar fora, o homem no entardecer da vida tem que encontrar dentro de si</strong>” (JUNG, 7/1, §114).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Infelizmente, vivemos em uma sociedade que tende a negar o valor desse entardecer, relegando os idosos à invisibilidade ou reduzindo sua importância à funcionalidade prática de outrora. Contudo, como aponta Jung, é um grave engano supor que a vida perde seu sentido ao fim da fase de expansão. Pelo contrário, <strong>o crepúsculo da existência traz consigo um convite para um novo tipo de significado, mais interiorizado e contemplativo, mas igualmente pleno e necessário, mais consonante com o Self</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Assim, a maturidade deve ser vivida como uma oportunidade para completar o ciclo da vida com profundidade e inteireza. Envelhecer é reconhecer que a descida também é parte do caminho, que a plenitude também está no recolher, é a possibilidade de ser inteiro, não apesar da idade, mas justamente por causa dela. Nas dobras do tempo, o corpo e a alma nos conduzem a uma nova travessia, um tempo em que a espiritualidade se renova, e a vida, em sua sabedoria silenciosa, floresce de formas mais profundas.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Z2utAC-dnqA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/daniela/"><strong>Daniela A. Euzebio – Membro Analista</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">IBGE. Disponível em: <em>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos</em>. Acesso em 13 jan. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">IBGE. Disponível em: <em>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos</em>. Acesso em 13 jan. 2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBI, Jolande. Complexo, Arquétipo e Símbolo na Psicologia de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2017</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2014 (Obras completas v. 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015 (Obras completas v. 7/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><em>Se interessa pelo tema do envelhecimento? Confira o <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">X Congresso Junguiano do IJEP</a>:</em></strong></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="532" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png" alt="" class="wp-image-10410" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Inscrição e programação</strong>: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep ">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep </a></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Fonte: IBGE. Disponível em: <a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos">https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos</a>. Acesso em 13 jan. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Fonte: IBGE. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos. Acesso em 13 jan. 2025</p>



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		<title>Sonhos Coletivos sobre Ondas Gigantes: Jörmungund acordou e o Ragnarok começou</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ragnarok/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Dec 2023 17:54:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia nórdica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[serpente da árvore da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ragnarok, a escatologia Nórdica começa assim: com catástrofes climáticas. Uma delas em especial é produto de Jörmungund, a serpente de Midgard, que produz ondas gigantescas que varrem terra e céu. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Desvende sonhos coletivos e conexões mitológicas: ondas gigantes, Jörmungund e o Ragnarok contemporâneo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">“Todos os que virem os irmãos Fenrir, o lobo, e a serpente de Midgard Jörmungund, filhos de Loki, conhecerão a morte. Esse é o princípio do fim.” – Mitologia Nórdica, Neil Gaiman. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Ragnarok, a escatologia Nórdica começa assim: com catástrofes climáticas. Uma delas em especial é produto de Jörmungund, a serpente de Midgard, que produz ondas gigantescas que varrem terra e céu.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente, sonhei e tenho recebido muitos sonhos com ondas gigantes invadindo a terra. Não somente isso, esses sonhos iniciaram antes mesmo do mar invadir diversos locais no Brasil e no mundo neste fim de ano de 2023. Por isso mesmo, minha curiosidade se aguça a entender e perguntar “quem está aí?”. E, como um lampejo, a resposta foi Jörmungund.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes que comecemos a colocar tudo em caixas do bem e do mal, vale a ressalva junguiana que tudo e todos, ao mesmo tempo, são positivos e negativos, criativos e destrutivos, bons e maus. Jörmungund não é diferente, por isso destino essa reflexão à serpente.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jörmungund, a serpente de Midgard, é filha de Loki com a gigante Angrboda; e inimiga mortal de Thor, o deus do trovão.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Angrboda já nos dá uma pista em sua etimologia:&nbsp;<em>Angr</em>-: Este elemento do nome vem da palavra nórdica antiga &#8220;angr&#8221;, que significa &#8220;tristeza&#8221;, &#8220;aflição&#8221; ou &#8220;dor&#8221;. Mas, podemos também pensar em “anger”: raiva. Este termo está associado a sentimentos de miséria ou angústia. &#8211;<em>boda</em>: Este segmento vem da raiz &#8220;boda&#8221;, que significa &#8220;mensageira&#8221; ou &#8220;aquela que anuncia&#8221;. Na mitologia nórdica, os nomes frequentemente refletem as características ou o destino de uma pessoa ou ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já, Loki, é uma divindade andrógina, complexa e multifacetada, frequentemente associado ao arquétipo do &#8220;trickster&#8221; ou enganador, por isso mesmo Loki não deve ser visto nem como herói, nem vilão. Loki é filho de Fárbauti e Laufey e é muitas vezes descrito como um jötunn (gigante), mas vive entre os deuses Aesir, em Asgard. Loki usa sua astúcia e habilidade verbal para manipular situações a seu favor. Loki é em síntese um símbolo da ambiguidade. Ele não é inteiramente mau, nem completamente bom. Sua natureza trickster o torna um ser antinômico, paradoxal&nbsp;<em>per se</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos imaginar que a dualidade amoral se acasala com angústia raivosa. Dessa união surgem três filhos: Fenrir, Jörmungund e Hel. É deste segundo que quero aprofundar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia Odin sonha que Loki tem filhos e isso o preocupa. Quase como se ele sentisse o leve vento de Ragnarok passar por sua barba ruiva. O Pai de Todos pede, então, para Thor e Tyr averiguar no mundo dos gigantes – um lugar onde os deuses nunca são bem-vindos. Os deuses encontram os três filhos de Loki. E, curiosamente, os gigantes permitem que os filhos sejam levados. O que causa preocupações em Thor e arrepios em Tyr.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chegando a Odin, os deuses apresentam a serpente: “Jörmungund cospe um veneno negro nocivo. A serpente cuspiu esse veneno em mim, mas errou. Por isso amarramos sua cabeça à árvore desse jeito, num tronco de pinheiro”, disse Tyr; que na viagem ficou menor devido ao seu rápido crescimento. “É uma criança”, observou Odin. – “Ainda está em fase de crescimento. Vamos mandá-la para onde não possa machucar ninguém.”&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tronco de pinheiro está associado à Yggdrasil – a árvore do mundo; apesar da&nbsp;Yggdrasil ser mais comumente descrita como um freixo. Existe aqui uma prenuncia da missão da serpente. Enquanto criança ela é amarrada ao pinheiro; já adulta, o pinheiro é amarrado à ela. Possui, portanto, uma característica de cosmos/caos, isto é, nem somente caos, nem somente cosmos. Assim como outras mitologias e símbolos urobóricos (a serpente que morde o próprio rabo). Jörmungund é, portanto, o&nbsp;<em>a priori&nbsp;</em>do&nbsp;<em>a priori.&nbsp;</em>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já o veneno, podemos nos lembrar de Vênus – a deusa da beleza e da fertilidade. Para que haja o belo, sabemos que é necessário um observador, um observado e, principalmente, a beleza que une os dois. Para isso é necessário de antemão, a diferenciação. Já, o veneno é seu lado sombrio: a feiura, a putrefação e a indiferenciação.&nbsp;Jörmungund é um ser que cria a indiferenciação. Poderíamos dizer que ela é o que sustenta o universo. Chegou antes dele e talvez seja a última a fechar as portas desse eterno retorno se algum dia tiver fim. Por ter característica urobórica, devemos ter em mente os ciclos. Jörmungund também representa a ciclicidade do todo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mito, Odin levou Jörmungund até o confim do mar, localizado além de todas as regiões conhecidas, um mar que envolve Midgard. Naquela fronteira distante, ele soltou Jörmungund, assistindo enquanto o ser se deslocava sinuosamente e submergia sob as ondas, afastando-se cada vez mais. Com seu olho solitário, manteve seu olhar sobre Jörmungund até que a serpente sumisse de vista, questionando-se sobre sua decisão. Odin, Pai de Todos, sabe o que está por vir. A serpente, então, se desenvolveu nas águas cinzentas do oceano que envolve o mundo, crescendo até ser capaz de rodear a terra inteira. Jörmungund passou a ser conhecida como a Serpente de Midgard.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É demasiadamente óbvio que podemos relacionar o mar com o inconsciente, mas seria reducionista e até patética uma interpretação de um sonho coletivo de ondas gigantes afirmar que é o inconsciente querendo dominar. O mar é misterioso, turvo, sem luz, gênese da vida, volátil e amedrontador. Mas qual a relação da serpente com o mar?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos, por um lado, entender que Jörmungund foi reprimida. Sua presença era perigosa demais; sua força destrutiva era amedrontadora; e ela era ainda uma criança. Odin, talvez, com sua incerteza pode ter pensado “e se mantivéssemos ela aqui? Será que Ragnarok aconteceria?”. Talvez o Pai de Todos soubesse que Ragnarok deveria acontecer, e por isso mesmo, o fez.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, podemos entender que era o destino de Jörmungund. Assim como Zeus sabia de tudo o que aconteceria na Guerra de Troia, talvez Odin saberia o que estava por vir, e sentia por isso. Devemos lembrar que Odin é um deus belicoso que traz a tempestade e a morte. É sua natureza, mas também é de sua natureza a proteção.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eis que a escatologia nórdica começa: o Ragnarok. Acontece enquanto os deuses estão dormindo. Todos menos Heimdall, que se vê impotente de impedir o fim. Por isso Odin chora e ri: irmãos lutam contra irmãos, pais matam filhos. Mães e filhas são postas umas contra as outras. Irmãs entram em batalha contra irmãs e veem seus filhos assassinarem uns aos outros. Assim como estamos presenciando no mundo hoje e sempre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ventos cruéis devastam tudo e “o crepúsculo chegará para o mundo, e os lugares onde os humanos vivem se transformarão em ruínas, queimando com intensidade e, logo em seguida, desmoronando e se desfazendo em cinzas e devastação” (Gaiman, 2017).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos deixar de correlacionar esses acontecimentos escatológicos com as ondas de calor que vivemos nos últimos dias, os tornados súbitos que surgiram; tempestades de areia no norte do país, vulcões, e muitos outros vividos nesses últimos meses de 2023. A teoria junguiana não é cerebrocêntrica – podemos entender o planeta como um&nbsp;<em>uno&nbsp;</em>que cria sintomas para percebermos quanto patológicos somos. O Ragnarok que vivemos hoje está, definitivamente, nos avisando sobre a crise ecológica.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mito, surge o Fimbulwinter, o Grande Inverno – um frio que dói na respiração e congela as lágrimas. Podemos relacionar a respiração e as lágrimas com a alma. É, portanto, um frio que dói na alma – a frieza do coração. Quantos de nós não estamos ignorando as crises em que estamos inseridos? Nossa inconsciência prenuncia a catástrofe.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A catástrofe e a tragédia são como Loki em união com Angrboda: uma amoral angustiante. Não à toa, o que se segue são os terremotos. As montanhas começam a tremer e desmoronar. Estamos sem chão. “Os terremotos são tão poderosos que todos os grilhões, correntes e amarras serão destruídos. Todos” (Gaiman, 2017).&nbsp;&nbsp;Aquilo que nos sustenta desaparece: desde nossos padrões sociais às instituições que realizam a manutenção sistêmica do consumismo, do individualismo e do capitalismo estão para rachar, mas eles também são deuses e ainda segue a batalha.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos em uma crise sem precedentes. Crise significa a possibilidade da função transcendente ocorrer. De um símbolo surgir e podermos rumar para uma nova atitude. Como sabemos, é necessário que a alma traga o que vem do inconsciente para criar tensão na consciência. E, num ato de construção, sem que um dos lados desista e submeta-se, um terceiro surja. Estamos sonhando com ondas gigantes pois o Ragnarok contemporâneo está em andamento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mito, a alma traz os filhos de Loki. Gaiman aponta que “Fenrir, o grande lobo, vai se libertar de sua prisão. Sua boca se abrirá, e sua mandíbula superior chegará aos céus, enquanto a inferir tocará a terra. Não há nada que ele não possa devorar, nada que ele não possa destruir. Chamas saem de seus olhos e de suas narinas. Onde quer que o lobo Fenrir vá, um rastro de fogo e destruição restará em seu caminho”. (Gaiman, 2017)</p>



<p class="wp-block-paragraph">No mito, os mares varrerão a terra devido a Jörmungund, a serpente de Midgard, que vai se contorcer em ira, cada vez mais perto da terra. “O veneno de suas presas vai ser derramado na água, envenenando toda a vida marinha. A serpente lançará sua peçonha no ar em um borrifo, matando todas as aves marinhas que a respirarem”. (Gaiman, 2017)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Evidentemente, no mito, os deuses tentam impedir, assim como os deuses contemporâneos estão tentando. Thor assassina Jörmungund. Com seu martelo, o deus do trovão dará um golpe na cabeça da serpente. Sabendo de seu veneno, Thor tenta esquivar-se pulando para trás, quase três metros de distância, mas não é suficiente. Em um ato último, a serpente abre sua boca e seu veneno atinge o deus do trovão, que cai ao chão, morto, envenenado pela criatura que matou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos relacionar Thor com Prometeu – o redentor da humanidade, aquele que entrega o fogo dos deuses aos humanos. Thor é um deus celeste, portador do raio e do fogo divino. Thor pode ser um símbolo da consciência.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jörmungund e Thor formam o par inconsciente e consciência, inimigos mortais e amantes. Sua batalha é a própria tensão da função transcendente. É necessário o empate para gerar a empatia entre os dois e o terceiro elemento surgir. Não à toa a ideia de&nbsp;<em>opus contra natura&nbsp;</em>(obra contra a natureza) pode ser trabalhada pelo alquimista, mas também pelo ferreiro (Eliade, 1983).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Heimdall, a ética; e Loki, o amoral, também vão batalhar mortalmente. Eles também formam um par de opostos. Nesta batalha, Heimdall diz a Loki que ele e seus filhos não venceram, algo ainda resiste: a Árvore da Vida – Yggdrasil. Nela, diz Heimdall a Loki: “estão escondidos dois: a mulher Vida e o homem Desejo de Viver. Não é o fim. É simplesmente o fim dos velhos tempos. O renascimento sempre se segue à morte”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No fim, aposto tudo ser queimado, as águas limparam as cinzas, lavando a terra para algo novo, assim como a Alquimia nos ensina com a calcinação e a solução. O verde floresce e se erguerá; o novo Sol toma o lugar do Sol engolido; A Vida e o Desejo de Viver sairão do pinheiro ou do freixo de Yggdrasil. O homem e a mulher, segundo o mito, farão amor, assim Eros retoma seu fluxo. Daí, ressurge a humanidade.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E então:&nbsp;“Asgard terá desaparecido, mas Idavoll se erguerá onde antes ficava Asgard, esplêndida e constante. Os filhos de Odin, Vidar e Vali, estarão lá. Em seguida virão os filhos de Thor, Módi e Magni. Eles trarão Mjölnir com eles, porque, com a morte de Thor, é preciso dois para carregar o martelo. Balder e Hod voltarão do mundo inferior, e os seis se sentarão à luz do novo Sol e conversarão entre si, recordando mistérios e discutindo o que poderia ter sido feito diferente, se perguntando se aquele resultado era inevitável. Vão falar de Fenrir, o lobo que devorou o mundo, e da serpente de Midgard, e vão se lembrar de Loki, que era um dos deuses mesmo não sendo um deles, que salvou os deuses e os destruiu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Olhem. Ali, o que é aquilo? — dirá Balder então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">– O quê? — perguntará Magni.</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Ali. Brilhando no capim alto. Estão vendo? E ali.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vejam, tem outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E eles vão se ajoelhar no capim alto, deuses parecendo crianças. Magni, filho de Thor, será o primeiro a encontrar um dos objetos no capim alto, e, quando o encontrar, saberá o que é. É uma peça de xadrez de ouro, do tipo que os deuses usavam para jogar quando ainda eram vivos. É uma pequena escultura dourada de Odin, o Pai de Todos, em seu trono alto: o rei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E vão encontrar mais peças. Ali estará Thor, segurando seu martelo. Ali estará Heimdall, com a trombeta nos lábios. Frigga, esposa de Odin, é a rainha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Balder erguerá uma das peças de ouro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Este parece você — dirá Módi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">– Sou eu — concordará Balder. — Eu muito tempo atrás, antes de morrer, quando era um dos Aesir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;E vão encontrar outras peças na grama, algumas bonitas, outras nem tanto. Ali, meio enterrados na terra negra, estarão Loki e seus filhos monstruosos. Haverá um gigante do gelo. Ali estará Surt, com o rosto em chamas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Logo descobrirão que tem todas as peças de que precisariam para montar um jogo completo. Eles vão montar uma partida de xadrez: no tabuleiro sobre a mesa, os deuses de Asgard vão encarar seus eternos inimigos. A recém-criada luz do sol refletirá nos homens do xadrez, em uma tarde perfeita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Balder vai sorrir como o sol nascente, estender a mão e mover a primeira peça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o jogo começa outra vez.” (GAIMAN, 2017).&nbsp;</p>



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<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">ELIADE, M.&nbsp;<strong>Ferreiros e Alquimistas.&nbsp;</strong>Madrid: Aliança Editorial, 1983.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GAIMAN, N.&nbsp;<strong>Mitologia Nórdica.&nbsp;</strong>Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonardo Torres, membro analista em formação IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi, membro didata IJEP</p>
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		<title>Afrodite não está no espelho: uma crítica aos padrões estéticos da contemporaneidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/afrodite-nao-esta-no-espelho-uma-critica-aos-padroes-esteticos-da-contemporaneidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Nov 2023 20:25:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A beleza não tem usado espelhos, não possui perfil nas redes sociais, não está na décima segunda cirurgia de plástica. Na arte, Afrodite aparece tão pouco e ainda mesmo não é percebida. A beleza sumiu do mundo. Afrodite, a dourada, a deusa da beleza, do amor, dos beijos mais doces, fugiu do mundo. E aqui estamos nós, procurando-a. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A beleza não tem usado espelhos, não possui perfil nas redes sociais, não está na décima segunda cirurgia de plástica. Na arte, Afrodite aparece tão pouco e ainda mesmo não é percebida.&nbsp;<strong>A beleza sumiu do mundo.</strong>&nbsp;Afrodite, a dourada, a deusa da beleza, do amor, dos beijos mais doces, fugiu do mundo. E aqui estamos nós, procurando-a.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A beleza ou Afrodite é fugitiva por culpa nossa; estamos presos em movimentos grandiosos. Movimentos esses que tentaram enquadrar Afrodite neles. Afrodite não cabe nas enormidades que criamos<strong>. Não porque ela é maior, mas porque ela é imensurável. Afrodite ou a beleza não cabe ao racionalismo ou ao padronismo.</strong>&nbsp;Quanto mais curtidas uma arte, uma foto, um perfil possuem, mais longe Afrodite estará.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da arte às revistas de “beleza”, aos filtros das redes sociais, às cirurgias plásticas extremas. Afrodite não está mais aqui.&nbsp;<strong>Não à toa existe uma enorme variedade de definição do conceito de beleza na história e no mundo. Todas respondem, ninguém acerta.</strong>&nbsp;Afinal, quem conseguiria flechar a mãe do maior arqueiro de todos? Que Apolo me desculpe.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-afrodite-ou-a-beleza-nao-pertence-aos-olhos-de-quem-ve-nem-mesmo-ao-objeto-visto-mas-a-ela-mesma">Afrodite ou a beleza não pertence aos olhos de quem vê, nem mesmo ao objeto visto, mas a ela mesma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso é tão difícil de conceber a beleza. <strong>Beleza é beleza</strong>. Assim, este artigo não tem a pretensão de conceituar beleza, mas apontar onde ela não está.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A qualidade generalizante deste artigo é necessária. Não estou aqui apontando que a soma total dos indivíduos está cooptada pelos padrões estéticos.&nbsp;<strong>Minha intenção é apontar que a alma coletiva está sofrendo da doença dos padrões estéticos,</strong>&nbsp;sendo mais ou menos aparente nos indivíduos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não quero me delongar nas consequências da fuga de Afrodite nas discussões políticas, sociais e ambientais. Certamente elas são importantes, porém não cabem em um único artigo. <strong>Hoje detenho-me em apontar as consequências da fuga no corpo e na imagem visual do corpo. </strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-humanidade-hoje-possui-uma-extrema-deficiencia-em-viver-a-aisthesis-estetica-do-corpo">A humanidade hoje possui uma extrema deficiência em viver a <em>aisthesis</em> (estética) do corpo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A estética do corpo hoje nos remete erroneamente às ideais: visualidade e padrão de beleza. A palavra estética provém da palavra <em>aisthesis</em>– capacidade de sentir o mundo, compreendê-lo pelos sentidos, é o exercício das sensações. Portanto, <strong>a estética do corpo nada mais é do que a capacidade de se sentir corpo e compreender-se pelos sentidos.</strong> Devemos lembrar que alma também é corpo. Se o corpo sai de cena, a alma também sai.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem mesmo o atleta conhece isso. O atleta busca enormidades e grandiosidades. Ele conhece o corpo de forma mecânica e quebra recordes com isso, mas não faz maravilhas. Nunca mais apareceu um Garrincha, pois Afrodite sumiu e <strong>as abstrações entraram: números de otimização e de performance. O mais importante é ganhar. </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A visualidade e o padrão não são inimigos, tornam-se inimigos no momento que tendem ao enormismo. Como aponta James Hillman, tudo o que é enorme é feio<strong>. O enorme aqui empregado pelo autor é algo que não possui finitude. Esse enorme é compulsivo, obsessivo, não possui limites.&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Devemos abstrair de forma última em prol da otimização.</strong> Um rosto deve possuir tais e tais medidas; o corpo deve ser liso, sedoso, sem pelos; manchas e pintas são inaceitáveis; os órgãos genitais devem possuir determinada cor, formato e tamanho. O sexo atualmente é visual e padronizado. Foi cooptado pela imagem visual do sexo da atualidade: a pornografia. O grande fenômeno disso é, sem dúvidas, a pornografia – um lugar onde Afrodite jamais pisou.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-e-dificil-alguem-olhar-no-espelho-hoje-e-a-beleza-estar-la"><strong>Como é difícil alguém olhar no espelho hoje e a beleza estar lá.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A voz que chega não é a da beleza ou de Afrodite. A imagem visual do corpo foi cooptada pelo enormismo sem limites. A palavra abstração, vale lembrar, sempre é uma <strong>subtração</strong>. E o que foi subtraído nessa dinâmica foi a beleza, a <em>aisthesis</em>, o corpo e a alma. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Em troca, a abstração nos traz números: quilos, gramas, centímetros, metros – que leva a uma busca errônea pela harmonia.&nbsp;<strong>Curioso é aquele procedimento de “harmonização facial”. Melhor seria se fosse chamado de “padronização capitalista facial”.</strong>&nbsp;Na mitologia, Harmonia é filha de Afrodite. Se a deusa se foi, como poderia conceber a filha?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a beleza se exibe por meio da&nbsp;<em>aisthesis&nbsp;</em>do corpo (cheiros, gostos, visões, texturas, músicas) e a harmonia nasce dela e estamos a cada dia mais distantes delas pois estamos subtraindo-as, q<strong>uem estaria falando em nossos ouvidos quando estamos diante do espelho? Os seres do enormismo são os titãs.&nbsp;</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aquilo-que-a-humanidade-atualmente-entende-por-beleza-nao-e-de-forma-alguma-beleza-e-compulsao-e-obsessao"><strong>Aquilo que a humanidade atualmente entende por beleza não é de forma alguma beleza, é compulsão e obsessão.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Grande parte da humanidade vive hoje uma epidemia psíquica de transtorno compulsivo obsessivo. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A psicologia profunda não pode mais deter-se somente à análise do indivíduo.&nbsp;<strong>É necessária uma análise da coletividade.&nbsp;</strong>Não podemos somente conceber que existe uma fraqueza ou um defeito em nós sem antes duvidarmos da inquestionabilidade dos padrões coletivos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Retornamos ao titanismo.&nbsp;<strong>Por estar ligado à abstração padronizante, não faz parte do nosso mundo, portanto, não possui limites.</strong>&nbsp;É uma voz que vem do Tártaro, um lugar mais abaixo do submundo; na minha imaginação, mais infernal do que o inferno.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por não possuir limites, o limite é reprimido quando vem as vozes novamente:&nbsp;<strong>“só vai ser mais esse procedimento e pronto”; “só menos um quilinho” e parece que jamais acabará.&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Será possível deixarmos de confundir a voz dos titãs com a de Afrodite? É um desejo meu.&nbsp;<strong>Afinal, o enormismo desvirtua-nos da alma, ameaçando nossa saúde mental e física.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A obsessão por padrões de beleza abstratos, promovidos por indústrias e pela mídia, cria um delírio coletivo, que chamamos de realidade, em que a beleza foge e restam os números, medidas e conformidade com normas inatingíveis. É dever da psicologia profunda acompanhar a humanidade <strong>no questionamento dos padrões coletivos e feios</strong>, <strong>convidando novamente Afrodite para o nosso mundo. </strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leostorres/">Leonardo Torres – Membro analista em formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Membro didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências: </strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. <strong>Cidade e Alma</strong>. São Paulo: Studio Nobel,1993. </p>



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		<title>Vampyroteuthis Infernalis e o ego demasiadamente ego</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vampyroteuthis-infernalis-e-o-ego-demasiadamente-ego/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Sep 2023 16:11:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Medo]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[arquetípico]]></category>
		<category><![CDATA[arquétipo]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[luminoso]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[vilem flusser]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Descubra as fascinantes características do Vampyroteuthis Infernalis e sua relação com o ego humano neste ensaio filosófico baseado na obra de Vilém Flusser. Explore as conexões entre bioluminescência, psicossomática e comunicação neste mergulho nas profundezas da mente e do oceano.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;<em>Vampyroteuthis Infernalis</em>: Um Tratado&#8221; é uma obra do filósofo tcheco-brasileiro<strong> Vilém Flusser</strong> que explora uma série de temas filosóficos por meio do estudo do <em>vampirotheutis infernalis</em>, uma espécie de <strong>lula abissal</strong>. O livro é um ensaio filosófico que utiliza o animal <em>vampyroteuthis infernalis</em> como um <strong>espelho</strong> para nós seres humanos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-o-vampyroteuthis-infernalis">Sobre o Vampyroteuthis infernalis</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Vampyroteuthis infernalis, também conhecido como &#8220;vampiro do inferno&#8221;, é uma espécie de lula que vive em ambientes extremos nas profundezas do oceano. Uma das características mais notáveis do Vampyroteuthis infernalis é a sua capacidade de <strong>bioluminescência</strong>. Ele tem órgãos emissores de luz, fotóforos, localizados em várias partes do seu corpo, inclusive nos tentáculos. Essa característica é usada para confundir predadores e pode ser um método de comunicação entre membros da mesma espécie.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O molusco possui um corpo gelatinoso que o ajuda a flutuar nas águas profundas e escuras onde vive. A sua estrutura corporal é mais próxima da de uma água-viva do que da de outras lulas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-viver-do-vampyroteuthis-infernalis">O viver do Vampyroteuthis infernalis</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entre seus oito braços, existe uma espécie de membrana que se parece com a asa de um morcego. Isso contribui para o seu nome popular e para sua capacidade de se mover de forma eficiente.<strong> Já, seus braços ou tentáculos também são seus órgãos genitais e é com eles que o molusco descobre o mundo ao seu redor. </strong>O animal tem a capacidade de <strong>mudar a cor de sua pele</strong>, o que serve para camuflagem e possivelmente para comunicação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <em>Vampyroteuthis infernalis</em> é encontrado em águas profundas. Geralmente profundidades que variam de seicentos a novecentos metros, embora possam ir ainda mais fundo. Ele habita zonas onde a luz do sol não penetra, em um ambiente conhecido como zona afótica do oceano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A alimentação deste animal é menos compreendida, mas acredita-se que ele se alimenta de detritos orgânicos que caem do oceano acima, conhecidos como &#8220;<strong>neve marinha</strong>&#8220;. É um animal fascinante que desafia muitas de nossas compreensões convencionais sobre a vida marinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No livro, o <em>vampyroteuthis </em>é apresentado como um alienígena em relação a nós. Por causa dessa diferença, ele serve como um contraponto para explorar as<strong> </strong>limitações e possibilidades do pensamento humano. Flusser compara o animal ao ser humano de uma forma mais externa – as estratégias de sobrevivência, comunicação e percepção dessa criatura às nossas, destacando tanto as diferenças quanto as semelhanças inesperadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de Flusser não ter sido simpático à teoria C. G. Jung, gostaria de subvertê-lo e propor <em>vampirotheutis infernalis </em>como um <strong>conteúdo psíquico</strong>, ou seja, não um animal separado de nós, mas também <strong>uma <em>imago</em> que se defronta com o ego em algum momento da vida</strong>. Perguntemo-nos: <strong>quem é este vampiro infernal em mim</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espanto-do-espanto">O espanto do espanto</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vale a imaginação: em algum momento da vida o molusco resolve vir à terra ou nós às profundezas. Um humano vê o molusco e se espanta. Seu espanto é duplo. Primeiro, ao ver tamanha criatura e a monstruosa diferença entre ele humano. Segundo, <strong>o</strong> <strong>espanto do espanto</strong>, ao perceber o quanto o próprio ser humano é ser uma criatura peculiar assim como o <em>vampirotheutis infernalis</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento, sem dúvidas, o indivíduo sentirá o “<strong>humano, demasiadamente humano</strong>” que Nietzsche pregoou. Podemos ir além, o indivíduo percebe que o vampiro do inferno não veio das profundezas literais do mar, mas da <strong>psique</strong>. Ele é um ser espiritual diante do pequeno ego. Portanto, melhor seria parafrasear Nietzsche: “ego, demasiadamente ego”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa paráfrase pode ser entendida como um indício de uma hierofania – uma <strong>aparição divina</strong>. <strong>Momento em</strong> <strong>que o ego reconhece o seu tamanho diante de outros conteúdos espirituais ou psíquicos, sentindo uma repulsão e uma atração, ao mesmo tempo, pelo conteúdo manifesto</strong>. No caso, o vampiro infernal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-racionalismo-e-comunicacao">Racionalismo e comunicação</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Retornando ao livro, Flusser utiliza este animal como um &#8220;modelo perculiar” para compreender aspectos fundamentais da existência humana, incluindo temas como consciência, comunicação, tecnologia e cultura. Aqui quero destacar alguns deles. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os humanos (egos), embebidos do <strong>racionalismo</strong>, usam a<strong> </strong>linguagem<strong> </strong>altamente abstrata para comunicar ideias, emoções e conceitos. O <em>vampyroteuthis</em>, por outro lado, utiliza uma forma mais direta e imediata de comunicação por meio de mudanças de cor e padrões na sua pele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando a lula como um ser de dentro, fica evidente o quanto é possível discorrer sobre a psicossomática neste ponto. O próprio bebê neonato comunica-se mais como lula do que como ego racionalista. O tipo de choro e a coloração da pele do neonato mudam de acordo com a sua demanda, seja fome ou cólica, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, nós adultos não perdemos isso, mas tentamos esconder com maquiagens e afins. Nada obstante, o vampiro em nós nos suplanta chegando nas dermatites generalizadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Flusser discute como os humanos usam a tecnologia, ferramentas, máquinas e sistemas para mediar nossa relação com o mundo. Esta mediação nos permite alterar nossa percepção e interpretação da realidade. Comparando, o <em>vampyroteuthis</em> usa suas habilidades biológicas inatas, como a bioluminescência, para interpretar e interagir com seu ambiente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que nos remete, também, a uma possível metáfora e analogia ao filme &#8220;A Chegada&#8221; (2016), no qual a renomada linguista Louise Banks é chamada a codificar mensagens de seres alienígenas, o que faz explorando as diferentes formas de <strong>conexão</strong> possíveis, descobrindo que a <strong>comunicação</strong> vai muito além das linguagens escrita e falada como a conhecemos hoje, compreensão que acaba por refletir até mesmo nas suas percepções sobre tempo e espaço.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-lume-central-abissal">O lume central abissal</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente C. G. Jung já chamou as profundezas abissais de “lume central”. É desse que surgem as imagens psíquicas, as representações arquetípicas, as visões, as fantasias e os sonhos. A realidade de dentro é comunicada por uma luminescência desse ser que, por vezes, espera que fechemos os olhos à noite para se comunicar com o pequeno ego, por outras, invade a luz do dia confundindo o pequeno ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante colocar em xeque o processo civilizatório e a cultura.  Em resumo, eles organizam conhecimento, valores e práticas humanas em uma sociedade, como também consolidam os preconceitos – isto é as repressões psíquica de forma social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, qualquer preconceito é uma neurose. Isso força o leitor a questionar o que sabemos sobre nossa própria cultura, realidade e a considerar se nossas maneiras de organização social, moral e ética são realmente &#8216;universais&#8217; ou apenas particularidades humanas. A lula de dentro não quer saber de moralidade e organização.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vampyroteuthis-anima-e-animus">Vampyroteuthis + Anima e Animus</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O <em>vampyroteuthis</em> poderia ser reconhecido como uma representação do arquétipo da Anima e do Animus na teoria de C. G. Jung,<strong> forçando-nos a enfrentar as partes escondidas e não reconhecidas de nossa psique</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ritmo, tradicionalmente, o arquétipo da <strong>Anima </strong>representa o feminino interior no psiquismo masculino, enquanto o <strong>Animus</strong> representa o masculino interior no psiquismo feminino. <strong>Estes arquétipos agem como um espelho, refletindo aspectos de nós mesmos que são frequentemente relegados ao inconsciente devido às normas sociais e culturais</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Com sua bioluminescência e adaptações para um ambiente hostil, a lula é uma manifestação contundente desses arquétipos, que também habitam as &#8220;profundezas&#8221; de nossa mente inconsciente.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large has-small-font-size is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sua aparência estranha e capacidades de comunicação fora do comum servem como um lembrete de que há aspectos da existência humana que são igualmente estranhos e enigmáticos. Ele nos faz questionar as estruturas e suposições que tomamos como garantidas, e nos confronta com as partes de nós mesmos que preferimos manter ocultas.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-profundezas-da-psique">Profundezas da psique</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao equiparar as manifestações biológicas do <em>vampyroteuthis</em>, como a bioluminescência, com as manifestações arquetípicas, como sonhos e visões, estamos de certa forma honrando a &#8220;luminescência&#8221; interior de nossa própria psique. Ambas as formas de comunicação são tentativas de iluminar o desconhecido, de fazer sentido de um mundo que é muito maior e mais complexo do que nossa compreensão limitada pode abranger.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Assim, a obra de Flusser e o vampyroteuthis servem como um convite para explorar as &#8220;águas profundas&#8221; de nossa própria psique, para nos familiarizarmos com os aspectos menos compreendidos de nossa própria humanidade.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O animal e os arquétipos nos oferecem uma oportunidade para a introspecção e a auto-descoberta, nos instigando a ir além das limitações do ego e a explorar o vasto oceano do inconsciente. E tal como o vampyroteuthis, os arquétipos, em sua interação com o ego, revelam que somos, todos nós, &#8220;monstros&#8221; em nossas próprias maneiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por final vale lembrar que disse que <em>desse abismo nós temos permissão somente para conhecer as bordas</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leostorres/">Leonardo Torres &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Diretor e Analista Didata IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">FLUSSER, Vilem. Vampirotheutis Infernalis: um tratado. São Paulo: Editora Ubu, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Trabalho e Lazer: entre a Máscara Brilhante e a Alma Suicida</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/trabalho-e-lazer-entre-a-mascara-brilhante-e-a-alma-suicida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Jun 2023 17:52:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mercado de Trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[cansaço]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[lazer]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[trabalho]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7805</guid>

					<description><![CDATA[<p>Neste cenário contemporâneo, o indivíduo se vê constantemente dividido entre a demanda de produtividade representada pela "máscara do colaborador" e a necessidade vital de sua alma, muitas vezes negligenciada, conduzindo a um estado de angústia e exaustão. A máscara do trabalho e a ansiedade gerada por ela obscurecem a conexão do indivíduo com a sua essência, muitas vezes levando ao esgotamento e à autodestruição. Paradoxalmente, a ideia de lazer foi corrompida pela lógica produtivista, se tornando um palco para autopromoção em vez de um espaço para descompressão. Reconhecer a angústia e reivindicar um lazer verdadeiro são passos essenciais para restaurar a conexão com a alma e construir uma existência mais plena e autêntica.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O despertador toca e lá vai você para mais um dia. Para se ambientar, você lembra que foi um sobrevivente de uma pandemia, não precisa mais de máscaras e já está no ano de 2023. Lembra, no entanto, que uma máscara especificamente você precisa – a do colaborador.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, hoje é segunda, dia de trabalhar. Ontem não foi um dia sem trabalho, você respondeu aquela mensagem de Whatsapp do chefe, deu uma conferida numa planilha ou outra e abriu a caixa de e-mails só para não se assustar amanhã. </p>



<p class="wp-block-paragraph">No chuveiro, já relembra da planilha e pensa “eu não posso esquecer aquela alteração que eu pensei em fazer ontem! Tenho que fazer assim que me sentar no computador”. Então, vem o café da manhã, que tem que ser rápido, pois como é de praxe, você sempre demora para acordar na segunda-feira. Sim, a função “soneca” de todos os celulares trabalham mais nas segundas-feiras pelo mundo inteiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seja presencial ou em home office, neste momento você está praticamente pronto para embarcar nas planilhas, planejamentos, atendimentos, reuniões, seja o que for. E, num piscar de olhos, você se cala com a boca de feijão. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-calar-se">Calar-se&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mas esse calar-se não traz um silêncio ou um ócio. Traz as lembranças aceleradas da manhã de trabalho – do que deve ser feito ainda e do que pode ser melhorado. Nada pode ser deixado para trás. Afinal, é a sua carreira que está em jogo. Assim como o operário deve apertar todos os parafusos na fábrica e o motorista de Uber deve aceitar todas as corridas, você não pode deixar a oportunidade passar!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente, apesar de você corresponder e responder prontamente as demandas do mundo de fora, no mundo de dentro acontecem coisas que dá vontade de ignorar: aquela ansiedade quando o despertador toca; aquela aflição quando o chefe envia mensagem ou e-mail; aquela angústia provinda dos lapsos de memória que levam você a se perguntar “eu tomei banho hoje?” “o que eu tomei de café da manhã?”. Sem falar da melancolia de domingo à noite ao som do programa Fantástico. Tanto ansiedade como aflição, angústia levam o indivíduo a um sentimento de “prisão”. Mas como poderia, se com a máscara do colaborador e seu status, seu dinheiro e suas férias você pode fazer o que quiser?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tomemos-a-palavra-angustia-para-analise">Tomemos a palavra “angústia” para análise.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra &#8220;angústia&#8221; vem do latim &#8220;angustia&#8221;, que significa &#8220;estreiteza, aperto, constrangimento&#8221; e deriva de &#8220;angustus&#8221;, que significa &#8220;estreito&#8221;. O termo passou para as línguas românicas com um sentido mais abstrato, referindo-se a um sentimento de desconforto mental ou emocional. Este termo pode ser rastreado ainda mais para trás, até o proto-indo-europeu (uma língua reconstruída que é o ancestral comum de todas as línguas indo-europeias), na qual a raiz &#8220;*angh-&#8221; significa &#8220;apertado, dolorosamente apertado, angustiado&#8221;.  </p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto o seu papel social, cheio de status, está poderoso, monetizado e relativamente livre nas férias, a sua alma está sofrendo. Este aperto é mais do que um simples aperto. É a alma se automutilando, devorando ela mesma. Assim como uma fera que depois de uma luta mortal tem sua barriga aberta e acaba comendo as próprias entranhas.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><a><strong>Num ato suicida e faminto, quando cárcere de alguém somente preocupado com sua máscara, a alma se mata quantas vezes for preciso em prol de deprimir o indivíduo e o seu sorriso brilhante.&nbsp;</strong></a></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-nessa-imagem-que-voce-se-encontra">É nessa imagem que você se encontra.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Suicida e faminto à deriva oceânica do neoliberalismo, sozinho esperando o vento que te levará ao tesouro dos “1 milhão de reais aos 30 anos”. A palavra &#8220;oportunidade&#8221; que enfatizamos acima tem a ver com essa imaginação. Sua origem no latim &#8220;<em>opportunitas</em>&#8220;. Esta, por sua vez, vem de &#8220;<em>obportus</em>&#8220;, uma combinação de &#8220;<em>ob-</em>&#8221; que significa &#8220;em direção a&#8221; e &#8220;<em>portus</em>&#8221; que significa &#8220;porto&#8221;. Por sua vez, &#8220;<em>obportus</em>&#8221; pode ser entendido como um vento favorável levando um navio em direção ao porto. Na língua latina, a palavra &#8220;<em>opportunitas</em>&#8221; era usada para descrever a chegada conveniente ou a chegada no tempo certo e foi adotada nas línguas românicas, inclusive no português, para indicar uma circunstância favorável, um momento propício ou uma chance.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ironicamente, este vento da oportunidade é mais próximo à alma do que à máscara. Existe uma relação etimológica entre &#8220;alma&#8221; e &#8220;vento&#8221; em muitas tradições culturais e linguísticas. Na tradição judaico-cristã, por exemplo, a palavra hebraica para espírito é &#8220;<em>ruach</em>&#8220;, que também pode significar &#8220;vento&#8221; ou &#8220;respiração&#8221;. No Novo Testamento, a palavra grega &#8220;<em>pneuma</em>&#8221; tem um significado semelhante. Estes termos são usados para se referir tanto ao espírito humano quanto ao Espírito Santo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-latim-a-palavra-anima-pode-significar-alma-mas-tambem-sopro-respiracao-ou-vida">Em latim, a palavra &#8220;<em>anima</em>&#8221; pode significar &#8220;alma&#8221;, mas também &#8220;sopro&#8221;, &#8220;respiração&#8221; ou &#8220;vida&#8221;. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra &#8220;<em>anima</em>&#8221; também deu origem à palavra &#8220;animal&#8221;, referindo-se a qualquer ser vivo que respira. Na filosofia grega antiga, a palavra &#8220;<em>psyche</em>&#8220;, que significa &#8220;alma&#8221;, também pode ser entendida como &#8220;sopro de vida&#8221;. Enquanto que na tradição hindu a palavra sânscrita &#8220;<em>prana</em>&#8221; refere-se à força vital universal que é inalada e exalada como a respiração &#8211; estabelecendo assim um vínculo entre a alma, o vento e a respiração. Portanto, embora as palavras &#8220;alma&#8221; e &#8220;vento&#8221; não tenham uma conexão direta etimológica em português, elas estão ligadas em várias tradições linguísticas e culturais por meio do conceito de respiração ou sopro de vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mascara-do-colaborador-nao-deixa-de-ser-importante-mas-usa-la-a-todo-momento-nao-te-permite-respirar-em-sua-totalidade">A máscara do colaborador não deixa de ser importante, mas usá-la a todo momento não te permite respirar em sua totalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A alma precisa estar presente para qualquer oportunidade surgir. Na realidade, usar a máscara todos os dias garante uma alta produtividade, mas não garante criatividade e diversidade de vida. Neste mundo acelerado produtivista, o indivíduo torna-se disperso e dividido entre várias tarefas. Com a ânsia de manter-se atento e produtivo, o indivíduo contemporâneo sacrifica o tempo de integração dos vários aspectos da personalidade. Para Byung Chul Han, manter-se na máscara é estar de olhos bem abertos; já para sentir o vento da alma, é necessário fechar os olhos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O indivíduo de olhos bem abertos tem a alma faminta pois o que ele ingere não a alimenta. A cada dia ele consome um excesso de positividade, de produtividade e de estimulações midiáticas dopaminérgicas. E quando ele escuta o ronco faminto da alma, o que reverbera na angústia sem igual, faz ela se calar consumindo benzodiazepínicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a alma não adormece, ela continua em seu ato fago-suicida. Levando o indivíduo a um estado de constante cansaço e esgotamento. Han chama esse estado social de &#8220;sociedade do cansaço&#8221; ou da exaustão. O verbo &#8220;exhaurire&#8221; pode ser dividido em duas partes: 1) &#8220;ex-&#8220;, que significa &#8220;fora&#8221;, e 2) &#8220;haurire&#8221; que significa &#8220;tirar&#8221; ou &#8220;drenar&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alma-foi-drenada-ou-tirada-de-cena-nessa-sociedade">A alma foi drenada ou tirada de cena nessa sociedade.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Byung Chul Han defende a ideia de ócio ativo e do lazer como uma saída para esta situação, o que se aproxima de Carl Gustav Jung quando aponta: é olhando para dentro que encontraremos a verdadeira oportunidade e criatividade do viver.&nbsp;</strong></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente, a palavra “lazer” é também relacionada a “oportunidade”. A palavra &#8220;lazer&#8221; em português tem suas origens na língua francesa. Ela vem da palavra &#8220;<em>loisir</em>&#8220;, que por sua vez vem do latim &#8220;<em>licere</em>&#8220;. &#8220;<em>Licere</em>&#8221; em latim significa &#8220;ser permitido&#8221;, o que indica uma atividade que é livre para ser realizada, sem obrigações. </p>



<p class="wp-block-paragraph">No francês antigo, &#8220;<em>loisir</em>&#8221; também tinha o significado de &#8220;oportunidade&#8221; ou &#8220;tempo livre&#8221;, que se assemelha ao nosso uso moderno da palavra &#8220;lazer&#8221;. Com o tempo, essa palavra passou para o português como &#8220;lazer&#8221;, mantendo o sentido de tempo livre para atividades que não são trabalho ou obrigações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada obstante, <strong>Byung Chul Han</strong> afirma que a própria noção de lazer está sendo corrompida, transformando-se em um meio de aumentar a produtividade em vez de ser um momento de reflexão, repouso e recuperação. Em contraste com a visão de lazer como um tempo livre e relaxante, Han propõe que estamos numa era de &#8220;trabalho de lazer&#8221; (<em>Freizeitarbeit</em>) em que as atividades recreativas são, frequentemente, incorporadas na lógica da maximização da produtividade e do autoaperfeiçoamento constante. Isso reflete uma sociedade em que cada momento, inclusive o lazer, é mercantilizado e torna-se outra oportunidade para &#8220;melhorar&#8221; as máscaras.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-pouco-de-foucalt-e-nietzsche">Um pouco de Foucalt e Nietzsche</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Michel Foucault</strong> aponta que vivemos em uma sociedade panóptica, em que estamos constantemente sendo vigiados e, portanto, nos disciplinamos para atender às normas sociais e às expectativas de desempenho. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Este conceito se aplica também ao lazer, onde cada atividade pode ser monitorada e avaliada. Redes sociais, por exemplo, tornaram-se espaços onde as atividades de lazer são exibidas. Transformando o lazer em um ato performativo e de busca por monetização.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Assim como quando Nietzsche olha para o abismo e ele olha de volta, o usuário da rede social olha para a imagem midiática, a imagem midiática olha para ele, em um ato punitiv</strong>o.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O panóptico foucaultiano foi internalizado</strong>. Este fenômeno pode levar a uma sensação de obrigação de &#8220;fazer lazer&#8221; de maneira produtiva e visível, o que, por sua vez, assassina a essência do lazer como uma oportunidade para desacelerar e desfrutar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Percebe-se, enfim, que o contexto social contemporâneo conduz o indivíduo a um ciclo incessante de trabalho, a um ritmo cada vez mais acelerado e mecanizado. A máscara do colaborador, necessária para a adaptação ao ambiente externo, transforma-se em uma casca dura, sufocando a alma e privando-a de respirar, de viver plenamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-angustia-e-oportunidade">Angústia e oportunidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ínterim, a angústia, fruto de um intenso aperto interno, emerge como um alerta contínuo da necessidade de nos reconectarmos com nossa essência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, a ideia de &#8220;oportunidade&#8221;, inicialmente ligada à máscara do colaborador, deve ser ressignificada para se alinhar com a alma, trazendo à tona a respiração, o sopro de vida. É imperativo para a autonomia do indivíduo que o foco não seja apenas na produtividade, mas também no espaço para a reflexão, a criatividade e a diversidade de experiências de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, a atual concepção de lazer é desafiada pela lógica da produtividade. Lógica essa que insidiosamente se infiltra até mesmo em nossos momentos de descanso. Ao invés de ser um momento de descompressão, o lazer torna-se outro palco para a performance e a autopromoção, uma vez que a sociedade panóptica nos impele a estar constantemente vigiados e a exibir nossas vidas nas redes sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cabe-nos-questionar-e-refletir-sobre-esses-modelos-impostos">Cabe-nos questionar e refletir sobre esses modelos impostos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A máscara do colaborador é necessária, mas não pode ser a única face da existência. </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Oportunidades, em sua essência mais pura, devem estar alinhadas à alma, ao sopro de vida. O lazer precisa ser recuperado como um tempo livre, como um espaço para a reflexão e a recuperação, não apenas outra arena para a demonstração de produtividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Reconhecer a necessidade de harmonia, dar voz à angústia e resgatar os alimentos da alma são passos fundamentais para a construção de uma existência mais plena, autêntica e integrada. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Enfim, em vez de ser meramente um colaborador sobrevivente na deriva oceânica do neoliberalismo, é necessário reivindicar nossa condição como seres humanos cheios de multiplicidade, capazes de navegar com consciência e propósito nas águas tumultuadas do mundo contemporâneo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro Analista em Formação: <strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leostorres/">Leonardo Torres</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro Analista Didata: <strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Trabalho e Lazer: entre a máscara brilhante e a alma suicida | Leonardo Torres" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/R1QspsdC7Ag?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS: </strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">FOUCAULT, Michel.&nbsp;Vigiar e Punir: o nascimento da prisão. 20ª ed. São Paulo: Vozes, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2. ed. ampliada. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Obras Completas. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">https://www.ijep.com.br/</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Vida Acadêmica: como fazer Pesquisa em Psicologia Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/pesquisa-em-psicologia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Mar 2023 17:40:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[artigo científico]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[monografia]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisa academica]]></category>
		<category><![CDATA[pesquisa junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[tcc]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ainda que em OC 8/2 Jung afirme que a sua psicologia não é uma cosmovisão (visão de mundo), tendo a discordar do mestre, pois quase qualquer fenômeno humano é passível de ser analisado e ampliado simbolicamente à luz das premissas da psicologia junguiana. Entretanto, para fazê-lo, é necessário que se pratique o que estou chamando [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Ainda que em OC 8/2 Jung afirme que a sua psicologia não é uma cosmovisão (visão de mundo), tendo a discordar do mestre, pois quase qualquer fenômeno humano é passível de ser analisado e ampliado simbolicamente à luz das premissas da psicologia junguiana. Entretanto, para fazê-lo, é necessário que se pratique o que estou chamando neste artigo de <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Certa vez uma pessoa me abordou dizendo que não conseguiria fazer mestrado ou doutorado na área da psicologia clínica junguiana em sua cidade de residência, pois não havia psicólogos(as) que produzissem <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Discordei dela no que tange a limitação do campo de pesquisa, dizendo que o mais importante era ela conseguir um(a) orientador(a) da área de humanas que tivesse simpatia pela psicologia junguiana (o que não é tarefa fácil fora dos núcleos junguianos), pois consigo enxergar a possibilidade de ampliar, analisar e aprofundar o entendimento de fenômenos psíquicos a partir do pensamento junguiano em muitas cadeiras acadêmicas, por exemplo, Comunicação, Ciências Sociais, Ciências da Religião, Teologia, Antropologia, História, Ciências Políticas, Marketing, Administração de Empresas, Literatura, Artes e Arquitetura, além das mais óbvias, Psicologia e Psiquiatria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E não é porque a pesquisa se deu na cadeira de Ciências Sociais, por exemplo, que ela não será benéfica para a prática clínica. Costumo dizer que o consultório recebe, em menor escala, toda a problemática humana do mundo, portanto, pelo menos em psicologia junguiana, a especificidade da área acadêmica onde se produzirá a pesquisa pouco importa, pois tudo que é humano importa à psicologia analítica, e nem tudo que é humano pertence, exclusivamente, à Psicologia tradicional, da graduação; todas as ciências humanas têm fenômenos psíquicos de sobra passíveis de serem investigados pela psicologia analítica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-voce-quer-ou-precisa-fazer-pesquisa-em-psicologia-voce-precisa-de-um-fenomeno-que-a-academia-tambem-chama-de-objeto-a-ser-pesquisado" style="font-size:19px"><strong>Se você quer (ou precisa!) fazer pesquisa em psicologia, você precisa de um fenômeno (que a academia também chama de objeto) a ser pesquisado!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Conto-lhes que o meu mestrado, e de alguns colegas de IJEP, foi na área de Comunicação. Para tanto, elegi um fenômeno muito claro: o sofrimento psíquico no ambiente de trabalho, e busquei entender como as mídias contemporâneas (optei por revistas da área de negócios/RH) apresentavam este sofrimento no trabalho ao grande público.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida eu o investiguei tendo como uma das bases epistemológicas para a construção de meus argumentos a psicologia de Jung – raramente uma pesquisa de mestrado ou doutorado tem apenas uma área de conhecimento específica em seu arcabouço teórico, porém, há uma ênfase em certa área, que no meu caso foram as premissas dos pensamentos simbólico e arquetípico, que tem como um dos seus principais autores C.G. Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo, o que fiz foi investigar um fenômeno muito claro, o sofrimento psíquico no ambiente de trabalho, para que eu pudesse construir um novo conhecimento acerca dele, explicando-o com a ajuda da psicologia junguiana. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-pesquisa-foi-publicada-no-livro-trabalho-sofrimento-e-autorrealizacao" style="font-size:23px">Esta pesquisa foi publicada no livro <em>Trabalho, sofrimento e autorrealização</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Confira meu livro: <a href="https://elevacultural.com/product/trabalho-sofrimento-psiquico-e-realizacao-pessoal/">https://elevacultural.com/product/trabalho-sofrimento-psiquico-e-realizacao-pessoal/</a></em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui começam alguns problemas que tenho observado especialmente nas monografias de alunos de pós-graduação. Mas penso que meus apontamentos sirvam para qualquer profissional que queira produzir <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Regularmente me deparo com pessoas que querem iniciar suas pesquisas a partir de um conceito junguiano. Apesar de isto ser possível, existe a chance de se cair em uma armadilha que deixa o pesquisador “refém” do conceito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras palavras, assim como em qualquer investigação científica, penso que a <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong> deve partir, <em>a priori</em>, do interesse de analisar e conhecer um fenômeno, e não um <strong>conceito</strong> junguiano. O conceito (ou teoria) serve para construir o argumento que explica o fenômeno e não o contrário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trocando em miúdos, uma coisa é investigar, por exemplo, “o complexo paterno nas mulheres heterossexuais”, o que tende a se tornar uma armadilha, ao invés de investigar “relacionamentos abusivos na contemporaneidade sofrido por mulheres heterossexuais”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A diferença entre o primeiro e o segundo é que o primeiro já insere o conceito no centro da pesquisa, e o segundo mostra um fenômeno bem claro, no qual, muito provavelmente, o conceito de complexo paterno será apresentado como parte da estratégia argumentativa, uma vez que para se construir uma pesquisa sólida, outros conceitos precisarão entrar “em cena” também.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-explorar-este-fenomeno"><strong>Como explorar este fenômeno?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para que a <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong> ocorra de maneira mais natural, é importante saber qual fenômeno se quer observar, e não são poucas as opções, a exemplo das diversas áreas do saber que mencionei acima. Mas muitas pessoas “travam” na hora de avançar em suas pesquisas por não encontrar o tema dentro das obras junguianas, dizendo <em>“eu queria pesquisar sobre tal fenômeno, mas em nenhum lugar Jung fala sobre isso”</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui está outro erro perigoso: ambas opções que menciono a seguir valem, mas há uma diferença significativa entre <strong>A)</strong> investigar o fenômeno À LUZ da psicologia analítica e <strong>B)</strong> investigar o fenômeno DENTRO psicologia analítica (dessa segunda forma de pesquisa faço um comentário mais abaixo).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ser mais claro, voltemos ao exemplo da minha pesquisa: eu investiguei o sofrimento psíquico no ambiente de trabalho. Onde Jung fala, literalmente, sobre sofrimento psíquico no ambiente de trabalho em sua obra? Tirando um parágrafo ou outro espalhado nas mais de 17.000 páginas de suas produções escritas, ele não fala em lugar algum!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, para construir uma pesquisa desta natureza, o que eu preciso entender primeiro é como as pesquisas contemporâneas classificam o sofrimento psíquico no trabalho. Em seguida, posso construir o entendimento desse dinamismo psíquico conforme Jung estruturou a psique em seus escritos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passo-a-passo">Passo a passo</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Partindo do pensamento junguiano, posso inferir – e inferências prévias fazem parte da construção de uma pesquisa – que todo tipo de sofrimento psíquico (não importa se é no ambiente de trabalho ou ambiente familiar) tem relação com a <strong>constelação de complexos do inconsciente pessoal na consciência</strong>. <strong>Isto é, algum conteúdo do inconsciente que devido ao maior afluxo de energia psíquica ganha força suficiente para incomodar a soberania e fantasia de controle do ego (OC 3; OC 8/1).</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O ego, por sua vez, categorizará este “incômodo” do complexo como “sofrimento”. Seguindo o raciocínio investigativo, precisamos lembrar que Jung nos diz que todo complexo tem um núcleo arquetípico (OC 3), e isso me autoriza a buscar imagens míticas, que são representações arquetípicas (OC 9/1), para ajudar na explicação do fenômeno que quero pesquisar (sofrimento psíquico no trabalho).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não preciso buscar mitos que reproduzam literalmente a temática do trabalho, pois o centro da pesquisa é o sofrimento humano. Por isso, qualquer mito que trate da temática do sofrimento me será útil para construir a pesquisa. Mas só sei disso tudo porque tenho um repertório relevante de psicologia analítica. Meu desafio como pesquisador, a partir de agora, é averiguar se essas conexões prévias estabelecidas são suficientemente robustas para tecerem minha pesquisa. E assim a pesquisa vai acontecendo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-se-eu-nao-tiver-uma-base-junguiana-que-me-leve-a-inferencias-previas-acerca-do-fenomeno-que-quero-investigar"><strong>E se eu não tiver uma base junguiana que me leve a inferências prévias acerca do fenômeno que quero investigar?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui não tem segredo e nem caminho mágico! Para qualquer tipo de pesquisa, não apenas na <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong>, é preciso muito conteúdo acadêmico. É a partir dele que as primeiras suposições começam a ganhar vida, para que depois sejam refinadas ao longo da pesquisa. A palavra-chave é: repertório! Quanto mais lemos, participamos de congressos, ou grupos de estudo de determinada área do saber, mais repertório formamos. É muito difícil produzir qualquer <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong> (ou qualquer outra área) com baixo repertório.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso que na grande maioria das minhas aulas de pós-graduação incentivo os futuros terapeutas e analistas junguianos que leiam Jung direto na fonte, em suas obras, para que tenham um repertório razoável na hora de escrever textos na área.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se você é incapaz de fazer qualquer tipo de inferência prévia acerca do fenômeno que você quer investigar, você precisa dar um passo atrás, construir repertório em torno dele e em torno da base epistemológica que você pretende pesquisar seu fenômeno, que no nosso caso, como pesquisadores da psicologia analítica, praticamente se reduz em: ler Jung (pelo menos no começo da jornada)!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ler-jung-e-dificil">Ler Jung é difícil?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Muitas vezes existe uma queixa de que ler Jung é difícil</strong>, sendo mais valioso recorrer a autores que escrevem sobre psicologia analítica de maneira menos empolada – sim, Jung é um leitura difícil, concordo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas ainda que eu entenda essa queixa tenho críticas a esta postura. Explico: qualquer tipo de conhecimento acadêmico de determinada área do saber, a meu ver, implica em conhecer razoavelmente bem o que o autor de referência registrou em seus escritos, mesmo que em algum momento se queira abandonar suas ideias para construir novas. <strong>Jung só abandou as ideias freudianas porque as conhecia MUITO bem</strong>!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a nossa pesquisa for em psicanálise, precisamos ler Freud. Se for em administração científica, precisamos estudar Frederick Taylor e Henry Ford (pais das administração científica). Tratando-se de neurociência do cérebro distribucionista, precisamos ler Miguel Nicolelis (um dos neurocientistas mais influentes do mundo). Se for na neurociência do cérebro localizacionista, precisamos ler Antonio Damásio (um dos neurocientistas mais citados do mundo). <strong>Se for em psicologia analítica, precisamos ler Jung, por razões óbvias</strong>!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para todas essas áreas que eu mencionei, existe um sem-número de outros autores que produziram novas pesquisas, mas isso não invalida que conheçamos razoavelmente bem os escritos dos autores de cabeceira de determinadas áreas acadêmicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muitas-coisas-sao-dificeis-na-vida">Muitas coisas são difíceis na vida&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto a C. G. Jung ter uma escrita de difícil leitura, é fato que <strong>muitas coisas são difíceis na vida</strong>. Mas quanto mais o lermos, tanto mais teremos maior destreza no entendimento da sua forma de escrita. Assim como um músculo ganha tônus quando é exercitado, a leitura de textos complexos se torna gradativamente mais fluída à medida que a pratiquemos. Costumo repetir a estudantes que se queremos praticar, pesquisar, ou escrever sobre psicologia junguiana, precisamos ler Jung. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Outros autores são bem-vindos, inclusive alguns deles possuem textos brilhantes, mas quando se está no início da jornada de se formar terapeuta junguiano(a) ou no início da jornada da <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong>, textos de outros autores podem ser intercalados com os textos de Jung. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Exemplo hipotético: sequenciar a leitura três livros do Jung e um de um autor junguiano, e depois repetir o ciclo. Ao longo do seu processo de formação de repertório (que é contínuo e não tem fim), você perceberá que terá lido muitos livros de Jung, ganhando, ao longo do tempo, um espaço para que leia outros bons livros de autores junguianos e não junguianos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-voltando-da-digressao"><strong>Voltando da digressão&#8230;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Fiz uma longa digressão que me pareceu necessária para enfatizar a importância da solidez do repertório para qualquer pesquisa. Isto por que esse repertório que ajuda a iniciar o contorno de qualquer pesquisa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-retornando-a-questao-do-fenomeno-x-conceito-menciono-outros-exemplos-que-ja-tive-contato" style="font-size:24px">Retornando à questão do <em>fenômeno x conceito</em>, menciono outros exemplos que já tive contato:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>1)</strong> me perguntam, por exemplo, “onde Jung fala de ansiedade na obra”, e respondo, ele não fala sobre isso, mas também fala!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras palavras, em nenhum lugar da obra junguiana se encontrará a <strong>categorização</strong> psicopatológica da ansiedade (menos ainda se compararmos ao DSM ou CID da atualidade). Mas a todo tempo Jung está falando da gênese da ansiedade, que também é a manifestação de um complexo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, <strong>precisamos entender o que seria a dinâmica da ansiedade conforme a estrutura psíquica que Jung apresenta</strong>. E não procurar o fenômeno em sua literalidade na obra!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>2)</strong> também já me abordaram dizendo que em nenhum lugar da obra Jung fala sobre preconceito racial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Literalmente, isto é verdade, porém, precisamos entender qual é a dinâmica psíquica de qualquer preconceito que não apenas o racial. <strong>Trata-se de projeção de sombra e/ou complexo, e sobre isso, Jung fala o tempo todo em sua obra</strong>. Isso implica em pesquisarmos o que é projetado quando se fala especificamente de preconceito racial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poderia dar diversos outros exemplos, mas o brilhantismo da psicologia analítica está em nos oferecer as bases para entender as estruturas e a dinâmica de fenômenos psíquicos. Por isso não carece que o fenômeno específico que nos interessa pesquisar esteja literalmente mencionado na obra junguiana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-se-eu-discordar-das-ideias-junguianas-e-querer-refuta-las"><strong>E se eu discordar das ideias junguianas e querer refutá-las?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa é aquela opção que eu disse mais acima sobre investigar determinado assunto DENTRO da psicologia analítica. Devo mencionar que existe também a possibilidade de se construir esse tipo de pesquisa, que é aquela que confronta o conceito junguiano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um exemplo seria desconstruir a ideia clássica que Jung nos deu sobre os conceitos de anima e animus; apresentando mediante pesquisa empírica, tal como Jung o fez, uma nova visão dessa simbologia de masculino e feminino arquetípicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro exemplo, seria construir uma estrutura epistemológica que visasse discordar ou refutar um dos textos monográficos de Jung, como <em>Resposta a Jó</em>, <em>Tipos Psicológicos</em> ou <em>Aion</em>, apontando erros, inconsistência de argumentos ou ausência de determinada fundamentação por parte do autor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que diferencia esse tipo de pesquisa da anterior é o nível de complexidade. Na primeira, usamos o autor e sua teoria para investigar um fenômeno, isto é, não “brigamos” com o autor. Já na segunda, a teoria do autor é o próprio fenômeno, por isso a teoria deve ser posta à prova!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-analisando-caso-a-caso">Analisando caso a caso</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No primeiro caso – pesquisar o fenômeno à luz da teoria –, precisamos ter um conhecimento razoável sobre a teoria do autor e autores correlatos para investigar nosso fenômeno de interesse. </p>



<p class="wp-block-paragraph">No segundo caso – investigar ou criticar a própria teoria –, precisamos ter um conhecimento PROFUNDO do autor, da obra e da fundamentação utilizada por ele para construir sua obra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como mencionei , Jung discordou de Freud. Mas isso se deu a<strong>pós uma profunda e profícua colaboração acadêmica entre ambos</strong>. Na época, Jung estudou <strong>criticamente</strong> todos os escritos de Freud e de seus colaboradores mais próximos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso de construir uma pesquisa de magnitude tal, capaz de refutar a obra de um autor, sugiro que ela seja feita num contexto adequado a isto, com a devida profundidade, a exemplo do <strong>doutorado </strong>acadêmico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um texto-artigo que, por exemplo, equivale às monografias das especializações do IJEP, que têm cerca de 30 páginas, é cientificamente impossível desconstruir as ideias mais sólidas de Jung. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Por isso, sugiro que deixemos este tipo de questionamento para pesquisas mais longínquas e profundas.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-de-onde-comecamos-nossa-pesquisa-em-psicologia-analitica"><strong>E de onde começamos nossa pesquisa em psicologia analítica?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">De uma pergunta! Sim, qualquer pesquisa precisa partir de uma dúvida e não de certezas. As certezas até podem se tornar hipóteses (com isso, deixando de ser certezas), ou pelo menos uma hipótese, mas é preciso que tenhamos <strong>prontidão</strong> para aceitar que esta talvez não seja verdade. <strong>E esse é outro imbróglio</strong>!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não raro, observo pessoas que pesquisam temas em Jung apenas para legitimarem as próprias crenças. Com isso, incorrem no erro de cair em generalizações que não se aplicam, como dizer que determinado ritual ou prática é o “caminho” para a individuação, quando tal ritual ou prática, representa, no máximo, um simbolismo da individuação, mas muito distante de ser o caminho em si, que pode ser descrito apenas por metáforas e nunca por determinismos (OC 5; OC 12).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo, a problematização de uma pesquisa é sempre uma pergunta bem objetiva e bem clara, com ponto de interrogação no fim. <em>Falo aqui da interrogação para acentuar que de fato é uma pergunta que deve ser feita!</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A esta pergunta bem objetiva e bem clara, ofereceremos uma resposta tão clara quanto e também convicta, a qual chamaremos de hipótese – essa convicção será colocada à prova e a pesquisa responderá se estávamos certos ou errados quanto à esta convicção.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-exemplificando">Exemplificando</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Tomemos o exemplo de uma pesquisa e consequente artigo sobre a simbologia do <em>burnout</em> escrito por mim em parceria com <strong>Leonardo Torres</strong> e <strong>José Balestrini</strong>, e publicado no periódico científico <em>Intexto</em> em mar/2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>pergunta-problema</strong> do artigo foi: <em>quais símbolos podem ser levantados e explorados a partir dos martírios míticos, sendo estes fenômenos da psique humana que não correspondem a uma leitura dentro de um espaço-tempo?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A este problema, respondemos com a seguinte <strong>hipótese</strong>: <em>Pelo mito das Danaides, que sofreram o martírio de preencher com água pela eternidade toneis sem fundo, torna-se possível compreender as causas do sofrimento em sentido simbólico, bem como apontar caminhos que sugerem a forma de lidar com esta problemática atual.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Com essas duas sentenças, uma interrogativa e outra afirmativa, criou-se um desafio suficientemente sólido a ser enfrentado na pesquisa. Isto pois nada nos garante, <em>a priori</em>, que o mito das Danaides comprova nossa hipótese.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Será justamente a construção do argumento que demonstrará, paulatinamente, se a hipótese é comprovada ou refutada. Independentemente do resultado, a pesquisa já teve validade. Note-se que <strong>o que importa na pesquisa é o que se conclui dela</strong>, e não se nossa crença (transformada em hipótese) é legitima ou não.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-esta-razao-comento-com-alunos-que-se-eles-tem-a-crenca-profunda-em-algo-que-lhes-confere-um-valor-pessoal-importante-para-que-nao-pesquisem-sobre-caso-o-contrario-existem-pelo-menos-dois-riscos" style="font-size:17px">Por esta razão comento com alunos que se eles têm a crença profunda em algo, que lhes confere um valor pessoal importante, para que não pesquisem sobre. <strong>Caso o contrário existem pelo menos dois riscos:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">1) Generalizar algo que não é generalizável (vide exemplo que mencionei mais acima). Uma vez que, como já sabemos por Jung, muitas experiências psíquicas são absolutamente individuais, não passíveis de generalizações;</p>



<p class="wp-block-paragraph">2) Concluir que a crença não encontra respaldo quando confrontada com a psicologia junguiana, o que pode causar uma frustração relevante. Será que é preciso passar por isso? <em>Não sou eu que vou responder, mas vale a pena considerar que talvez um outro tema, com menor custo emocional, pode ser mais aprazível</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, é mais fácil articular cientificamente sobre temas que já possuímos bons repertórios. Quanto maior e mais qualificado o repertório que temos acerca de um fenômeno, tanto na psicologia junguiana como em ciências correlatas, maior a chance de se construir uma <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong> bem articulada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-acabar"><strong>Para acabar!</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de encerrar este breve ensaio, comento que uma <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong> pode ser por um lado terapêutica e por outro lado a representação de uma perseveração, ou seja, a repetição de algo que, na prática, não sai do lugar – a famosa constelação de complexo. Isso se dá porque os complexos também “participam” da construção da nossa pesquisa, por isso pesquisar um assunto que é muito “caro” à nossa história individual, pode ser muito ruim, porque a pesquisa sensibilizará núcleos afetivos em torno da temática que podem ser bem desconfortáveis. Contudo, construir uma pesquisa em torno de um tema muito pessoal pode ter um efeito coterapêutico. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Como decidimos? Penso que discutir isso na própria análise pessoal (partindo do pressuposto de que todos aqueles que querem se tornar terapeutas ou analistas estão em análise pessoal), pode ser de grande valia. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Por esses motivos, não fecho questão afirmando o que pode ou não ser pesquisado em termos emocionais. Contudo alerto que <strong>uma pesquisa tem potencial de sensibilização</strong>, daí a necessidade de pautar essa questão na própria análise.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pesquisa-em-psicologia-analitica-pode-nos-levar-a-muitos-lugares">A <strong>pesquisa em psicologia analítica</strong> pode nos levar a muitos lugares</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A pesquisa em psicologia pode nos levar a muitos lugares: publicação de artigos em periódicos especializados, participação em mesas redondas de congressos, palestras em fóruns relacionados ao seu tema de pesquisa, participação em podcasts, videocasts, programas de rádio ou de TV. Pode levar também a publicação de livros ou pelo menos de capítulos em livros temáticos que abarcam diversos autores. Porém, o mais importante, é saber que pesquisar é ir além; é questionar, ampliar, aprofundar no entendimento de um fenômeno psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E mesmo que essa pesquisa não culmine em qualquer tipo de publicação, como visto acima, ela estimulará seu raciocínio investigativo e crítico. <strong>EXATAMENTE o que se espera de um terapeuta ou analista em sua prática clínica:</strong> investigação, ampliação e aprofundamento dos conteúdos apresentados pelos analisandos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Penso que escrever algumas páginas sobre determinado tema é bem menos desafiador do que lidar com cada alma humana que passa pelo nosso consultório. Quantas páginas de pesquisa poderiam ser escritas para cada um de nossos analisandos? Esse também seria um ótimo problema para uma pesquisa.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Boa jornada!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/rafaelrodrigues/">Rafael Rodrigues de Souza – Analista Didata em Formação</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicogênese das doenças mentais <strong>(OC 3)</strong>. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação <strong>(OC 5)</strong>. 9 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A energia psíquica <strong>(OC 8/1)</strong>. 8 ed. corrigida. Petrópolis: Vozes, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique <strong>(OC 8/2)</strong>. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia <strong>(OC 12)</strong>. 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Vida acadêmica em Jung – o ato de fazer pesquisa em psicologia analítica." width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/MLviL30q6Y0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">https://www.ijep.com.br/</a></p>
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		<title>Mais mulheres e mais feminino nas organizações</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mais-mulheres-nas-organizacoes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Dec 2022 11:45:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mercado de Trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres no mercado de trabalho]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É cada vez mais recorrente a atenção dada por empresas, instituições e até pelo meio político ao tema da maior participação das mulheres em seus quadros. Especialmente nas grandes organizações existem metas muito claras para aumentar a quantidade de mulheres, prioritariamente nos níveis de liderança. Mas o que a psicologia junguiana pode dizer sobre isso? Muitas coisas.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">É cada vez mais recorrente a atenção dada por empresas, instituições e até pelo meio político ao tema da maior participação das mulheres em seus quadros. Especialmente nas grandes organizações existem metas muito claras para aumentar a quantidade de mulheres, prioritariamente nos níveis de liderança.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-a-psicologia-junguiana-pode-dizer-sobre-isso-muitas-coisas"> Mas o que a psicologia junguiana pode dizer sobre isso? Muitas coisas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por um lado, precisamos destacar que este movimento de dar mais espaço às mulheres se trata de uma reparação histórica, oriundo da conquista pela igualdade e liberdade de gênero em termos de participação social, cultural e política. Por outro lado, sabemos que há muito ainda para caminhar quando nos distanciamos da ideia mais literal de gênero e refletimos sobre o simbolismo do feminino nas organizações. Dito de outra forma, apoiamos e valorizamos que exista um movimento que incentive a maior participação de mulheres nas empresas, mas isso está longe de significar uma paridade ou integração entre feminino e masculino em termos simbólicos, como princípios arquetípicos e não como gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda que algumas mulheres questionem tal propositura, a dominância dentro de uma estrutura empresarial típica é masculina, e mesmo as mulheres, de certa forma, precisam assumir este modelo, se “masculinizando” psiquicamente para conseguir respeito e valor dentro desse universo patriarcal. Muitas vezes há uma confusão sobre esta perspectiva, pois algumas mulheres considerarão que não precisam desta “masculinização” psíquica para atuarem nas empresas, pois se consideram “muito vaidosas” e “muito femininas”. Isto é meia verdade, pois vestir-se de determinada maneira ou expressar determinada vaidade estética, se refere num primeiro momento à persona, que, neste sentido, pouco ou nada tem a ver quando evocamos os feminino e masculino simbólicos e arquetípicos. Em outras palavras, é possível que uma mulher seja muito feminina, no sentido da persona, mas bastante masculina no inconsciente, até mesmo por uma questão adaptativa – isso nada tem a ver com orientação sexual. Em alguns casos, que não parece ser a maioria, observamos mulheres que, por exemplo, refutam a ideia de licença maternidade de 6 meses por “deixar a mulher muito tempo fora da organização” ou dizerem que “preferem trabalhar com homens pois esses são mais objetivos” – extração essas da experiência do autor no mundo corporativo assim como das conversas em consultório, sem querer com isso generalizar estas falas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Naturalmente quando abordamos a temática de masculino e feminino na psicologia junguiana evocamos os arquétipos de anima e animus. Tais estruturas da psique objetiva têm passado por um certo revisionismo por serem tidas como binárias e heteronormativas. Como qualquer ciência o conhecimento deve ser constantemente edificado e não nos opomos às discussões criativas e profundas sobre isto, mas refutá-las sob o argumento exclusivo de binarismo e heteronormatividade, sem aprofundar em pesquisa, num primeiro momento, nos parece uma argumentação empobrecida, porque parte de um princípio errado, que é associar “anima” com mulher/vagina e “animus” com homem/pênis. É verdade que no momento que Jung descreveu tais arquétipos, ele fizera uma descrição mais ou menos simplificada, do animus sendo a parcela masculina inconsciente da mulher e a anima a parcela feminina inconsciente do homem (OC 9/1). Mas ao adentrarmos na profundidade do simbolismo destes arquétipos, observaremos que estes são, na verdade, princípios criativos do inconsciente coletivo, que permitem ao ego conectar-se com o inconsciente, e isso nada tem a ver, exclusivamente, com os gêneros homem-mulher; são princípios arquetípicos, portanto humanos e atemporais, sem compromisso com gênero – como qualquer arquétipo. Relembremos dos princípios de yin e yang da filosofia antiga chinesa que também comungam da ideia de oposição entre feminino e masculino como princípios criativos:&nbsp;<em>“Desde os tempos mais remotos da cultura chinesa, o yin está associado ao feminino e o yang, ao masculino”&nbsp;</em>(Capra 2006, p. 33).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Adicionalmente, é muito comum a discussão sobre anima e animus girar em torno de relacionamentos afetivos, haja visto alguns livros clássicos na psicologia junguiana, tais como&nbsp;<em>We</em>&nbsp;(Robert Johnson),&nbsp;<em>O casamento está morto, viva o casamento</em>&nbsp;(Adolf Guggenbühl-Craiga) e&nbsp;<em>Parceiros Invisíveis</em>&nbsp;(John Sanford). Contudo, a força arquetípica de anima e animus vai além disso e pode ensinar muito sobre a ausência, ou menor participação, do feminino nas organizações.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para melhor explicarmos nossas argumentações, tomemos as organizações como se estas fossem um único ser humano. Em termos tipológicos junguianos, a consciência desse humano-empresa seria muito provavelmente do tipo pensamento extrovertido (princípio de Logos) com sensação auxiliar, e sua função inferior seria o sentimento introvertido (princípio de Eros). A afirmação de Jung “<em>A psicologia da mulher se baseia no princípio de Eros, que une e separa, ao passo que o homem, desde sempre, encontra no Logos seu princípio supremo”&nbsp;</em>(OC 10/3, §255), já nos ajuda a identificar que sentimento e Eros, estão mais associados ao feminino, e em nossa acepção estão na função inferior da humano-empresa, portanto, a menos reconhecida e integrada na consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Adicionalmente às argumentações acima, ao fazer o profundo estudo das tipologias (uma teoria junguiana bastante deturpada no universo corporativo) Jung dissera num primeiro momento que o pensamento era uma função exclusivamente do homem e o sentimento exclusivamente da mulher (OC 6). Depois ele perceberia que isso não se sustentava, podendo ser homens e mulheres tipos pensamento ou sentimento. Ainda assim, ao descrever o tipo sentimento, ele menciona que este é mais comumente encontrado na consciência das mulheres (OC 6). Com isso, voltando ao nosso humano-empresa, fica claro que o princípio regente na consciência das organizações é masculino, ficando os aspectos femininos na sombra. </p>



<h2 class="wp-block-heading">O pensamento é qualificação e quantificação. O sentimento é valorização, empatia, sensatez.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Citemos algumas das características do animus (princípio arquetípico masculino):</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>“O animus, portanto, também tem o poder mágico da palavra, e assim os homens que atuam pela palavra podem, no bom e no mau sentido, exercer grande poder sobre a mulher”</em>&nbsp;(Emma Jung, 2006, p. 32).</p><p><em>“O que o animus tem a transmitir é mais o sentido que a imagem”</em>&nbsp;(Emma Jung, 2006, pág. 39).</p><p><em>“[&#8230;] o inconsciente contém as imagens as quais, mediadas pelo animus, tornam-se manifestas, quer como imagens da fantasia, quer inconscientemente como a vida atuante e vivida</em>&nbsp;(OC 9/1, §350).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O animus evoca uma ideia de racionalidade cartesiana, mediador, estabelecedor de sentido; é a flecha de Apolo (Bolen, 2002). Se incrementamos essa perspectiva com os atributos do yang da filosofia chinesa teremos os adjetivos: expansivo, exigente, agressivo, competitivo, racional, analítico; céu, sol, dia, verão, secura, calidez, superfície (Capra, 2006).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhemos agora paras as características da anima:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“A anima [&#8230;] possui justamente essa receptividade e falta de preconceito em relação ao irracional, e por essa razão ela é qualificada de mensageira entre o inconsciente e a consciência”&nbsp;(Emma Jung, 2006, p. 68).</p><p>“A anima, por sua vez, na medida em que se distingue da sombra, personifica o inconsciente coletivo”(OC 9/1, §439).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A anima é a própria imagem do inconsciente, é relação, integração, acolhimento, regeneração, maternagem. Na perspectiva do yin temos os adjetivos: contrátil, conservador, receptivo, cooperativo, intuitivo, sintético; terra, lua, noite, inverno, umidade, frescor, interior (Capra, 2006).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos parece que apresentando este olhar, fica mais claro quando dizemos que as organizações além de carecerem de mais mulheres, carecem de mais feminino – isso significa, especialmente, o estabelecimento de um bom termo dos homens com suas animas, mas também um reestabelecimento do feminino egoico da mulher, de forma que não precise se “masculinizar” em sentido simbólico, para poder atuar numa empresa.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece irônico, por exemplo, que algumas organizações usem o termo “colaborador” quando se referem aos seus funcionários, uma vez que, na maneira como as relações de trabalho são estabelecidas na atualidade, a ideia de colaboração não passa de uma ilusão, pois na prática o que se tem nas empresas são relações de comando e controle, porém, estabelecidas de maneiras mais sofisticadas nos últimos anos, com uma persona que sugere uma ideia de colaboração. Colaboração é feminina, é anima. Integração, escuta, acolhimento, humanização das relações, tudo isso é feminino. Cuidar do meio-ambiente, ter políticas internas e externas (com os fornecedores) em prol do meio-ambiente, reciclar, cuidar de Gaia (planeta Terra), é feminino. Construir um legado social genuíno (e não performático), mudando o papel das empresas de instituições que visam unicamente o lucro para instituições que contribuam para a redução das desigualdades sociais, desigualdade educacional, liberdade de expressão, liberdade religiosa e consciência política, é feminino. Desenvolver políticas organizacionais que levem em conta as necessidades das mães e dos pais, é feminino – está mais do que comprovada que a licença paternidade estendida contribui para o bem-estar do filho e da mãe. A licença maternidade de 4 ou (6 meses nas empresas “cidadãs”) no Brasil ainda é bastante inferior ao dos países nórdicos, por exemplo, que já reconheceram a necessidade de 2 anos de dedicação materna ao bebê – mas sabemos que estes países estão na vanguarda. Oferecer garantias de que uma mulher possa voltar da licença maternidade sem perder o emprego e garantir ao pai a liberdade de se ausentar do trabalho para ajudar mães recentes e bebês recém-nascidos, é feminino. Integrar gênero, cor, credo, raça, é feminino. As pautas raciais e LGBT+ nas empresas são absolutamente insuficientes quando olhamos para a maioria empresas que não são as grandes corporações – estas puxam o debate, mas ainda de maneira tímida, pois a maioria dos trabalhadores brasileiros, por exemplo, trabalham em pequenas e médias empresas. Diversos outros exemplos poderiam ser listados aqui, mas estes parecem ser suficientes para nosso texto. E cabe lembrar que existem iniciativas que caminham nesse sentido, portanto, nosso texto não é um sopro no vazio. Temos, por exemplo, políticas empresariais alinhadas ao ESG (governança social, ambiental, corporativa) que visam o cuidado com o meio-ambiente, social e político em sentido amplo, empresas com espaços para aleitamento dos bebês, fábricas com creches&nbsp;<em>in loco</em>&nbsp;para os bebês, empresas que adotaram a premissa do capitalismo consciente (aquele que oferece uma contraparte social de seu trabalho) e outras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, para não sermos injustos e parecermos unilaterais em nosso texto, como se o princípio feminino fosse eminentemente bom e o masculino ruim, convém mencionar que, agora sim enviesando para o gênero, é importante para o ego feminino ter um bom termo com seus aspectos masculinos simbólicos inconscientes. O que nos preocupa, de um lado ou de outro, é justamente a unilateralização. Quando dizemos que as empresas precisam de mais feminino é porque este está no inconsciente corporativo, não reconhecido, portanto, produzindo doenças, burnout, destruindo o meio ambiente, colocando pessoas contra si. É necessário que as qualidades mais nobres da anima venham à tona. No que tange o masculino, seus atributos típicos como qualificar, quantificar ou de dar sentido, são necessidades humanas, que precisam fazer parte de uma organização saudável, mas se integrando ao feminino, e não atuando de maneira unilateral, que muitas vezes é bárbara, querendo “destruir a concorrência”, como se isso fosse algo bom para a humanidade.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading">Sendo otimista, acho que nunca tivemos uma chance na história de começar desde já fazer esses movimentos, começando pelo olhar sobre a nossa própria psique individual.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/rafaelrodrigues/">Rafael Rodrigues de Souza</a> – Analista Didata em formação</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata – <a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho</a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Mais mulheres e mais feminino nas organizações | Rafael Rodrigues" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/NlbBiiaTZEU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BOLEN, Jean Shinoda. Os deuses e os homens: uma nova psicologia da vida e dos amores masculinos. São Paulo: Paulus, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos (OC 6).&nbsp;7 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo (OC 9/1). 8 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Civilização em transição (10/3) 6 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Emma. Animus e anima. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>
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		<item>
		<title>A mente simulacro e o Labirinto das fake news</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-mente-simulacro-e-o-labirinto-das-fake-news/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Nov 2022 14:09:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[fake news]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Brasil pós-eleições de 2022 presenciou movimentos um tanto quanto peculiares. Não estou me referindo aqui a quem escolheu um ou outro candidato, mas àquele grupo menor que não aceitou o resultados das urnas, alegando fraude, ficando cega para todo o processo de antifraude que a democracia brasileira desenvolveu, mesmo com a declaração do atual presidente reconhecendo sua derrota. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O Brasil pós-eleições de 2022 presenciou movimentos um tanto quanto peculiares proveniente das <strong>fake news</strong>. Não estou me referindo aqui a quem escolheu um ou outro candidato, mas àquele grupo menor que <strong>não aceitou o resultados das urnas</strong>, alegando fraude, ficando cega para todo o processo de antifraude que a democracia brasileira desenvolveu, mesmo com a declaração do atual presidente reconhecendo sua derrota. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhando mais atentamente, pode-se reconhecer que o estopim das manifestações dessa minoria foram as mídias digitais que possibilitaram a disseminação de fake news – as notícias falsas.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-em-pesquisas-anteriores-revelamos-o-quanto-o-fenomeno-das-fake-news-e-contagiante-ou-infeccioso"> Em pesquisas anteriores, revelamos o quanto o fenômeno das fake news é contagiante ou infeccioso. </h3>



<p class="wp-block-paragraph">Quem dispara as fake news não está preocupado com a veracidade da notícia – pois, quer, <em>a priori</em>, <strong>evocar emoções como o medo na população</strong> com intuitos bem definidos. O resultado deste movimento maléfico é tão satisfatório que na época da vacinação contra o COVID-19, <strong>sete em cada dez brasileiros acreditava nestas notícias falsas.</strong> E, evidentemente, hoje não é diferente. </p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante ressaltar de antemão que os meios de comunicação são os centros da sociabilidade humana – o papel desses centros é de criar realidade. <strong>Sobre realidade, vale lembrar, no entanto, que ela é um delírio coletivo aceito por uma maioria e nada mais, isto é, um consenso de imagens de uma sociedade que mantém e regula o <em>modus operandi </em>cultural e social.</strong> </p>



<p class="wp-block-paragraph">Em épocas mais remotas, o centro da comunicação e da sociabilidade estava focada nos xamãs, depois na Igreja. Nesta época os mitos criavam consensos e narravam desde a criação do mundo até as peripécias dos deuses. Então, as sociedades se organizavam e se civilizavam a partir dessas cosmovisões e do confronto entre elas. Ainda sobre o confronto entre cosmovisões, não à toa temos ainda hoje diversas narrativas sobre mitos e deuses, pois isso garantia que o fenômeno da realidade fosse furtacor e promovia certa alteridade. </p>



<h2 class="wp-block-heading">A ritualização possuía um papel importante aqui – era também uma atualização e uma superação das tensões entre cosmovisões. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Então, na comunicação de massa como a televisão e o rádio. O que fez com que a modernidade se reorganizasse na que vemos atualmente – consumista, meritocrática e padronizada. Mais recentemente, as mídias digitais criam bolhas de <strong>informação e desinformação</strong> – levando a criação de consenso e de realidade à fragmentação. Aqui não está se defendendo a ideia de que em épocas mais remotas não haviam notícias falsas, mas apontar que nunca na história houve um momento tão fragmentado e volátil da realidade. Encontrar a causalidade do momento atual não é tarefa difícil – basta perguntar: <strong>“pois, a quem serve o Graal?”</strong>. </p>



<h2 class="wp-block-heading">Isto é, a quem serve a criação da realidade proveniente das Fake News? </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para os povos primevos até um pouco antes da consolidação da Igreja, a criação de consenso servia à população, garantindo desde a sobrevivência até a passagem dos ensinamentos da tribo. Com a Igreja e o patriarcado houve uma transição até encontrarmos uma sociedade na qual o consenso e a realidade serviam a poucos indivíduos (poder). Então, a partir da cultura de massas e da modernidade, a criação do consenso e da realidade passa a servir ao capital. </p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, as redes sociais, filhas da cultura de massa, somente evidenciaram esse processo. Hoje a criação da realidade, pautada pela disseminação do medo, é <strong>uma mantenedora do capital (e do poder que ele gera)</strong>, <strong>infestando e contagiando</strong> a mente da população com o pânico e fazendo-a cometer os atos mais delirantes possíveis. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Em síntese, a imagem que se pode evocar para simbolizar o que o brasileiro presencia no clima pós-eleições é o do <strong>Labirinto</strong>. Constituído por um conjunto de caminhos tortuosos, confusos e intrincados, eles possuem o intuito de desorientar aqueles que são capturados. Na mitologia grega, o labirinto de Creta, construído por Dédalo – exímio arquiteto, enclausurava Minotauro. Quem o assassinou, Teseu, tendo que entrar no Labirinto, iria facilmente se perder se não fosse o fio de Ariadne que lhe proporcionava <strong>uma referência com o mundo exterior. </strong></p>



<h2 class="wp-block-heading">O fenômeno das fake news é um labirinto que possui ventanias que criam um empuxo de captura. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Então, quem entra perde-se de tal maneira que passa a acreditar que o próprio labirinto é mais real do que qualquer outra realidade. Aquilo o que Jean Baudrillard denomina de <strong>simulacro</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Este real mais real que a realidade seria, no caso, uma unilateralização totalitária de ideias. Porque o  indivíduo no labirinto percebe somente duas direções, para frente ou para trás, mesmo quando existe uma bifurcação. Deixando assim sua cosmovisão divida entre bem e mal; certo e errado; bonito e feio; etc. As tonalidades da vida não são mais reconhecidas neste lugar tortuoso. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Por ser uma unilateralização totalitária e não haver outros tons não é possível reconhecer conexões e relações entre os fenômenos da vida. Por isso mesmo, algumas opiniões e comportamentos tendem a ser contraditórios, como, aqui no Brasil, pedir uma intervenção militar para evitar uma ditadura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, não seria exagero sugerir que quem está preso no labirinto possui uma mente simulacro. O <strong>simulacro nada mais é do que uma dissociação. </strong>Entendemos dissociação na psicologia por conteúdos e aspectos da personalidade que foram excluídos da consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Como diria C. Jung, a mão direita do indivíduo não saiba o que a mão esquerda faz. </h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>O médico precisa estabelecer um relacionamento com os dois lados da personalidade de seu paciente, pois somente assim poderá recompor o homem em sua integridade e não se ater apenas a um dos lados, reprimindo o outro. Isso o paciente fez sempre, porque a cosmovisão moderna não lhe deixa outra alternativa. Em princípio, sua própria situação individual é a mesma que a coletiva. Ele é um microcosmo social que reflete em pequena escala as características da grande sociedade ou, ao contrário, o indivíduo é a menor unidade social a partir da qual resulta, por acúmulo, a dissociação coletiva. Esta última hipótese nos parece mais provável, na medida em que o indivíduo é o único portador imediato e vivo da personalidade singular, enquanto que a sociedade e o Estado representam apenas ideias convencionais e só podem pleitear a realidade quando se acham representados por um certo número de indivíduos. (JUNG, 10/1, §553).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo assim, isso faz com que o indivíduo crie uma fobia à diversidade de outras realidades, fazendo com que ele não crie uma reflexão, uma crítica e julgamentos das ocorrências na sociedade, levando a unilateralização da vida e a quase extinção da alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O distanciamento da adversidade é, sob a ótica junguiana, um distanciamento do si-mesmo. E somente ele poderá livrar-nos do contágio psíquico de pânico e da <strong>dissociação psíquica</strong> a qual vivemos hoje. Como acreditamos no si-mesmo, com maior ou menor sofrimento, superaremos essa fase, e quem sabe capacitar-nos-emos melhor para enfrentar as <strong>possessões psíquicas</strong> que teremos que enfrentar hoje e no futuro. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, este trabalho é singular – pessoal. Para C. G. Jung, ninguém se pode valer de <strong>fórmulas</strong> “tenho que”; “deve fazer”; “os 5 passos para”, pois isso seria cair novamente na coletividade unilateral e totalitária.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Autor e Membro analista em formação: <a href="https://blog.sudamar.com.br/?s=leonardo+torres" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Leonardo Torres</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro didata: <a href="https://blog.sudamar.com.br/?s=waldemar+magaldi">Waldemar Magaldi</a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="A mente simulacro e o Labirinto das fake news | Leonardo Torres" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/uRofnAKWSo0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong>: </p>



<p class="wp-block-paragraph">BAUDRILLARD, Jean.&nbsp;<strong>Simulacros&nbsp;e&nbsp;simulação</strong>. Lisboa: Relogio d&#8217;Agua, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Presente e futuro</strong>.&nbsp; Editora Vozes Limitada, 2011. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Contrera; Torres; Balestrini.&nbsp;Fake News e a irrupção do Imaginário.&nbsp;In: ANAIS DO 30° ENCONTRO ANUAL DA COMPóS , 2021, São Paulo.&nbsp;<strong>Anais eletrônicos&#8230;</strong>&nbsp;Campinas, Galoá, 2021.&nbsp;Disponível em: &lt;<a href="https://proceedings.science/compos/compos-2021/papers/fake-news-e-a-irrupcao-do-imaginario?lang=en">https://proceedings.science/compos/compos-2021/papers/fake-news-e-a-irrupcao-do-imaginario?lang=en</a>&gt;. Acesso em: 29 nov. 2022.</p>



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		<title>A solidão nossa de cada dia&#8230;</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-solidao-nossa-de-cada-dia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Natalhe Vieni]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 04 Nov 2022 12:27:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[abandono]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[isolamento]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Solidão]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">No dicionário da língua portuguesa a palavra solidão está classificada como&nbsp;estado de quem se acha ou se sente desacompanhado ou só; isolamento.&nbsp;&nbsp;Mas não pude deixar de me perguntar, será que somente quando estamos sozinhos de fato que nos sentimos assim, com certeza não! Muitas vezes mesmo em meio a uma multidão estamos sós. Num mundo muito regido pela performance e pela persona, quase sempre estamos sós, pois como poderíamos compartilhar qualquer sorte de coisas com outros, sendo que queremos que os outros nos vejam de determinada forma, esta que muitas vezes é bem diferente daquilo que eu sou ou de como me sinto.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito ouvimos falar sobre exatamente isso, ser sozinha(o) ou estarmos sozinhas (os), mas gostaria de falar de um outro tipo de solidão, aquela que se sente na alma, e muitas vezes me pergunto se tais indivíduos aprenderam algum dia a compartilharem , seja por imposição de sua história de vida, ou seja até pelo espírito de nossa época que nos impulsiona para um autismo, esse muito diferente daquele dos autistas, falo aqui de um estado imposto ao indivíduo em que ele deve condenar quem ele é ao ostracismo de sua própria mente, ou até para o fundo do inconsciente, onde ele se perde. Quantas vezes nos chegam clientes, ou nós mesmos nos assustamos com nossas próprias sentenças ao dizer: “Não sei o que eu quero”, isso pode se traduzir: “Não sei mais -ou de fato nunca aprendi- quem eu sou de verdade”. Olhando assim rapidamente tudo isso sempre me pareceu extremamente triste, um cenário desolador. Mas não visualizo como poderia ser diferente uma vez que desde que nascemos o espírito da nossa época, personalizado em todas as pessoas que encontramos na vida nos imputa uma forma de ser e de agir, e “Ai de nós se não o escutarmos!”. Há fórmulas para tudo, mas qual será a fórmula para sair da solidão?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Qual será a fórmula para eu me encontrar comigo mesmo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">De certa forma muitos dos clientes que nos procuram tem essa pergunta impressa de modo velado em suas falas, e cabe a nós terapeutas, ajudar o Self a demonstrar como fazer isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ponto acredito que a teoria Analítica de Carl Jung tem um papel protagonista neste processo pois ela acredita que o indivíduo não deve se contentar com uma vida vazia, sem sentido e polarizada somente no lado desse personagem imposto pelo mundo, a tão falada persona, mas sim deve conhecer a si mesmo e reencontrar o seu&nbsp;<em>Daimon</em>, que para Jung correspondia ao portador do seu sentido de vida. Mas para minimamente conhecê-lo o único caminho possível é primeiramente conhecer a si mesmo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito me espanta, (e acho que sempre vai espantar!) que na maioria das vezes a análise ou a autoanalise faz o indivíduo conhecer e reconhecer em si coisas que nunca tinha visto, será que em certa medida o mundo contemporâneo está criando pessoas que não se conhecem, perdidos no voraz espírito da época da sociedade das mídias digitais?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos produzindo cada vez mais pessoas sozinhas e solitárias?</p>



<p class="wp-block-paragraph">É muito comum acharmos que nos conhecemos e que conhecemos os outros pelas redes, pois como diz o filósofo sul coreano Byung-Chul Han, que está profundamente posicionado nas mesmas raízes filosóficas que Jung, que diz em seus livros:&nbsp;<em>Sociedade do Cansaço e Sociedade Paliativa: a dor hoje</em>, que nos colocamos (ou fomos colocados) em uma redoma panóptica, tal qual as prisões, em que toda nossa vida pode ser vista e acompanhada pelas outras pessoas através das redes sociais, e o que intriga mais os estudiosos de tal fenômeno é que ninguém nos empurra para tal abuso, somos nós mesmos que nos colocamos nesta posição, podemos ainda dizer que não é necessário que nada de externo nos cobre para fazer isso, o que cobra, podemos nomeá-lo de abusador, está dentro de nós, ele nos cobra muitas coisas, inclusive isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas quem o colocou dentro de nós senão o espírito voraz de nossa época, o insaciável.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Insaciável porque vivemos na época da performance, e nada nunca será o suficiente!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a solidão ficou posicionada dentro de nós na sombra, uma vez que nesta posição panóptica que nos colocamos, a vida deve ser livre de qualquer tipo de canto, de qualquer dificuldade ou sofrimento. Acredito que a solidão está profundamente fincada na sombra, pois além de se encaixar nessa posição de algo que possa provocar sofrimento, ela nos é desconhecida e pode atrapalhar a produtividade, pois se pensarmos bem, ela nos leva para dentro e para baixo, posição propícia , como nos mostra Jung, para refletirmos profundamente sobre a vida que levamos, então é natural que no mundo de superfícies brilhantes ela seja evitada a todo custo, pois no geral o mundo não quer pessoas que pensam e compreendem ao próprio mundo, inclusive.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acontece que na Psicologia Analítica é quase um imperativo que façamos esse movimento de ir para dentro de nós e para baixo, até as profundezas dos infernos que existe dentro de cada um de nós e trazemos de lá verdadeiros tesouros, sejam possibilidades nossas que abandonamos, ou partes nossas mesmo que largamos ao longo de nossas vidas ou seja a possibilidade de ressignificar nossas feridas, a isso damos o nome aqui de: “integrar a sombra ao Ego”, esse é um dos movimentos mais desejados numa terapia profunda, ela vai ampliando a consciência do indivíduo e fazendo ele caminhar em seu processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vamos passear um pouco no que diz Jung sobre esta temática:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Nada fecha tanto o homem sobre si mesmo e o separa do convívio dos demais do que a “posse” de segredos que julga importantes e que guarda ansiosa e ciosamente. Muitas vezes são os atos e pensamentos “pecaminosos” que separam os homens e os mantêm afastados uns dos outros. Aqui a confissão tem, não raro, um verdadeiro efeito de redenção. A incrível sensação de alívio que costuma seguir-se ao ato da confissão deve ser atribuída à readmissão daquele que estava perdido no seio da comunidade humana. A solidão e o isolamento moral anterior, tão difíceis de suportar, cessam com a confissão. E aqui está o verdadeiro valor psicológico da confissão.” (JUNG, 2013, p.198)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ponto ele está elencando a importância do indivíduo sair do estado de solidão induzido pela necessidade de guardar algum segredo, mesmo que dele mesmo, e ao realizar essa confissão que na maioria das vezes é confessada, para si mesmo, ou para o Ego que o defendia dessa verdade a todo custo, ele cria um vínculo e faz uma projeção com o confessor, Jung chama de “ vinculação moral” que ele faz com o confessor, que passa a ser o detentor dos segredos, criando então uma relação de transferência, e não podemos nos esquecer que toda a análise Junguiana acontece na transferência, esse vínculo é inicialmente criado e, tanto o terapeuta como o analisando usam dele para se conhecer e ressignificar seus complexos, principalmente os que estão negativos. Por exemplo, um indivíduo que tem um complexo materno negativo e pode usar desse momento para confessar sua vontade imensa de “ matar sua mãe , ou a relação que tem com ela”, e na projeção de mãe que faz sob o terapeuta tem a possibilidade de experienciar uma diferente relação com a mãe, provocando que sua própria mãe interior renasça e a mãe literal ou a relação com ela passe a ter um segundo plano, e por fim, ele mesmo é capaz de exercer este papel em sua vida, sem nem precisar mais do terapeuta ou da análise .&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outro momento ele diz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Nietzsche, por reconhecimento e compreensão, o desespero e a amargura de sua solidão. Poder-se-ia esperar que um homem genial se deleitasse com a grandeza de seu próprio pensamento, renunciando ao aplauso barato das massas que despreza; mas ele sucumbe à força do instinto gregário, à sua busca e ao seu encontro; seu chamado se dirige irremediavelmente à tribo e precisa ser ouvido(&#8230;).” (JUNG,2013, p.32)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ponto Jung estava falando sobre a solidão que acomete a todos os grandes gênios, ou aqueles que tem de certa forma um pensamento muito além do nosso tempo, mas isso pode ser ampliado a todos nós que porventura nascemos em famílias ainda tão reféns da persona, ou todo e qualquer um que faz uma ampliação da consciência, ela ocasionalmente vai se deparar com a solidão, pois o caminho da individuação é quase sempre solitário, uma vez que cada alma tem o seu tempo e cada um está em algum ponto deste mesmo caminho.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos nos esquecer que o movimento natural ou os marcos essenciais da vida são de certa forma solitários, todos nascemos sozinhos, gozamos a vida e até na própria relação sexual estamos sozinhos, passamos por inúmeras experiências durante a vida e por fim morremos sozinhos, isso pensando que ninguém nunca será capaz de sentir por nós, mesmo que acompanhados nestes momentos, ninguém nunca será capaz de entrar no outro e saber como ele realmente se sente.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante que corremos tanto da solidão, mas a maior parte de nossa vida é passada em nossa própria companhia e muito sabiamente devemos aprender ou reaprender a gostar de nós mesmos e podemos assim formar uma nova relação com a solidão, onde ela pode ser uma sábia conselheira, porque permite que nós consultemos nossa profundeza e de lá retornemos com as melhores respostas, bem alinhadas com o nosso Self que tudo sabe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre isso Jung nos diz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Sê esta nossa partida, ave ou Satanás, gritei me erguendo: Retorna às tempestades e às praias plutônicas da noite! Nem deixes negra pluma como penhor da tua mentira! Deixa minha solidão intacta! (&#8230;)” (JUNG, 2013, p. 74)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesses versos do poeta Edgar Alan Poe, em “The Raven” (O Corvo), citado por Jung, o corvo que nos visita, deseja roubar-nos essa possibilidade de ficar com nossa própria solidão e buscar dentro de nós as respostas do Self. Embora este texto fale sobre a perda de um amor, Jung faz uma aproximação da vivência da solidão para nós reencontrarmos o amor por nós mesmos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ponto me lembro da Daniela Euzébio que dia desses me citou um conceito muito interessante, ela me disse da necessidade de os indivíduos aprenderem a “Flanar”, que no dicionário da língua portuguesa é especificado como&nbsp;andar ociosamente, sem rumo, nem sentido certo; flanear, flainar, perambular. Nesse sentido devemos fazê-lo para conviver com nossa própria solidão e dar espaço para nos ver, ver a cidade e tudo fora e dentro de nós de uma outra perspectiva, para isso sem dúvida é necessário respeitar o silêncio e o tempo da alma, o ócio, para que possa a própria psique possa realizar, talvez, até a redistribuição da energia psíquica que está represada em assuntos específicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outro ponto das obras completas Jung diz:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando o iniciado, à noite, dirigia-se para a gruta sagrada, oculta na solidão da floresta, a cada passo novas impressões despertavam uma emoção mística em seu coração. As estrelas que brilhavam no céu, o vento que agitava a folhagem, a fonte ou o riacho que corriam marulhantes até o vale, mesmo a terra em que pisava, tudo era sagrado a seus olhos, e toda a natureza que o envolvia despertava o temor respeitoso pelas forças infinitas que agiam no universo.”&nbsp;(JUNG, 2013, p. 96)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fazendo uma reflexão sobre a simbologia da floresta, essa amplitude rica de vida, cor, e transformações profundas, mas que como podemos ver, precisa da solidão para que se revele diante de nossos olhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outra passagem Jung busca na obra de Nietzche a energia necessária para a transformação, encontrada na solidão:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O sinal de fogo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui, onde entre mares cresceu a ilha,&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">uma pedra sacrifical erguida bruscamente,&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">aqui, sob um céu escuro,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zaratustra, acende seu fogo celestial&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta chama com ventre esbranquiçado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Até frias distâncias lança labaredas seu anseio,</p>



<p class="wp-block-paragraph">para alturas cada vez mais puras estende seu pescoço &#8211;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">uma serpente se impacienta empertigada:</p>



<p class="wp-block-paragraph">este sinal diante de mim ergui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha própria alma é esta chama:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">por novas distâncias insaciável,&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">sobe, sobe, seu silencioso ardor&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo que é solitário procuro agora:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">respondei à inquietação da chama,&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">apanhai para mim, pescador em altos montes,&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">minha sétima, derradeira, solidão!</p>



<p class="wp-block-paragraph">(JUNG, 2013, p. 120)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui Jung está demonstrando que este símbolo – a solidão- é o precursor da libido, vale a pena relembrar sempre que este conceito para Jung, não está posicionado somente no campo sexual, Jung entende que a libido pode e é usada em qualquer área da vida, aliás precisamos dessa “vontade” para que haja a vida, e sem ela nos tornamos um autômato, vivendo uma vida vazia e na maioria das vezes sem um sentido definido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num outro ponto ele mostra que a solidão também está com raízes primordiais fincadas com a existência de Deusas antigas, que se “sentavam em seus tronos de solidão”, desse modo podemos ampliar que essa associação é feita no inconsciente coletivo, ela também pode estar sendo vivida como um conteúdo sombrio por conta de todo o rechaço ao feminino, que aconteceu e continua acontecendo desde que o patriarcado se instaurou. Dessa forma ele diz que o individuo deve receber via complexo materno a libido, a energia vinda da mãe, para que a use ao seu dispor, agora se este complexo está negativo, esse movimento se torna impossível, e se as mães não aprenderam sobre a solidão devido ao aprisionamento de seus femininos como podem também repassar aos seus filhos essa força motivadora e criativa advinda da solidão, ou do caos criativo do feminino? Impossível!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele diz ainda que a libido que retorna da solidão, vem da mãe, ou do complexo materno, que ela pode tornar-se ameaçadora como uma cobra, símbolo do pavor mortal que temos de quebrar a relação que temos com a mãe, causando a nossa própria morte. Simbolicamente ele nos diz que dói matar o filho dependente de atenção e cuidados, para surgir o adulto que está em nós, escolher, arcar com as escolhas igualmente, dói, e por isso fingimos dessa morte e preferimos confortavelmente nos manter “acompanhados” de situações ou pessoas que fazem esse papel de uma mãe, assim nos furtamos o direito de sofrer essa dor, a de arcar com nossas próprias escolhas. Desse modo posso me manter na posição de espectador da minha própria vida e há um conforto imenso nessa posição. Dói, e no mundo contemporâneo toda dor deve ser evitada. Nos esquecemos que a dor, assim como a solidão são provocadoras de catarse. Então a solidão não está verdadeiramente posicionada na posição de uma manifestação do mal, talvez seja difícil senti-la, até por não estarmos acostumados a olhá-la desta forma, mas ela pode &#8211; assim como todos os sentimentos tidos como ruins &#8211; se tornar um portal para a transformação do indivíduo, não por acaso ouvimos falar muito dela no livro&nbsp;<em>intitulado Símbolos da Transformação</em>&nbsp;(JUNG,2013).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Solidão e jejum são por isto os mais antigos meios conhecidos para apoiar a meditação que deverá permitir acesso ao inconsciente.” (JUNG,2013, p. 395)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem sabe possamos nos reconciliar com esta parte nossa, ressignificar a solidão dentro de nós e chegar num ponto que Jung também nos conta em sua obra, ele diz que há um perigo à espreita quando falamos sobre solidão e sobre aprender a apreciar a nossa própria companhia, pois depois disso há uma força quase mística que nos impulsiona a não querer mais contato com o mundo, pois passamos a nos apreciar tanto que todo o resto nos parece fugaz e supérfluo. Não sei se este polo também seria interessante, pois toda e qualquer polarização a longo prazo se mostra destrutiva para a psique, mas esse pensamento e a observação deste fenômeno na vida de alguns indivíduos, nos faz constatar que a solidão é nossa amiga e não um monstro assustador que nos espreita todos os dias antes de irmos dormir!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Boas ampliações a todos!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Natalhe Vieni- Analista em Formação IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone Magaldi- Membro Didata IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Freud e a Psicanálise. 7ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________. Símbolos da Transformação. 9ª ed.&nbsp;&nbsp;Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________. Memórias, sonhos e reflexões. (reunidas e editadas por Aniela Jaffé). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. Sociedade Paliativa: a dor hoje.&nbsp;&nbsp;1ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes,2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________. Sociedade do Cansaço. 2ª ed.&nbsp;Petrópolis, RJ: Vozes,2017.</p>
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