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	<title>Arquivos Sociabilidade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Tue, 09 Jun 2026 14:26:11 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Sociabilidade - Blog IJEP</title>
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		<title>O que significa realmente conhecer alguém? Entre o encontro, a projeção e o mistério do outro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 20:55:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A gente acha que conhece as pessoas. Sabe o que elas gostam, onde trabalham, o que pensam, o que postam. Mas isso não é conhecer alguém. Isso é ter informação. Conhecer alguém é outra coisa.Acontece no encontro. No jeito que a pessoa reage quando algo não sai como esperado.Nos silêncios.Nos desconfortos.Nas contradições que aparecem com [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-que-significa-realmente-conhecer-alguem-entre-o-encontro-a-projecao-e-o-misterio-do-outro/">O que significa realmente conhecer alguém? Entre o encontro, a projeção e o mistério do outro</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px;line-height:1.1">
<p class="wp-block-paragraph">A gente acha que conhece as pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabe o que elas gostam, onde trabalham, o que pensam, o que postam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas isso não é conhecer alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso é ter informação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conhecer alguém é outra coisa.<br>Acontece no encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No jeito que a pessoa reage quando algo não sai como esperado.<br>Nos silêncios.<br>Nos desconfortos.<br>Nas contradições que aparecem com o tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é aí que muita gente desiste.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque conhecer de verdade exige atravessar a queda das projeções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquele momento em que o outro deixa de ser quem a gente imaginou&#8230;<br>e passa a ser quem ele é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem toda amizade sobrevive a isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas acabam quando a idealização cai.<br>Outras ficam, e se tornam mais reais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Menos encantadas&#8230;<br>mas muito mais verdadeiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez a amizade não seja sobre encontrar alguém que &#8220;combina&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas alguém com quem é possível continuar&#8230;<br>mesmo quando o mistério aparece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque no fundo&#8230;<br>ninguém conhece totalmente ninguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E talvez seja exatamente isso<br>que torna alguns encontros tão raros.</p>
</blockquote>



<h2 id="h-vivemos-em-uma-epoca-curiosa-nunca-tivemos-acesso-a-tanta-informacao-sobre-as-pessoas-e-ao-mesmo-tempo-talvez-nunca-tenha-sido-tao-dificil-dizer-que-realmente-conhecemos-alguem" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Vivemos em uma época curiosa. Nunca tivemos acesso a tanta informação sobre as pessoas e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil dizer que realmente conhecemos alguém.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sabemos onde as pessoas trabalham, o que estudaram, quais lugares frequentam, o que gostam de comer, que músicas escutam, quais filmes assistem. Em poucos minutos, uma busca na internet pode revelar uma quantidade impressionante de dados sobre a vida de alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mas, mesmo assim, algo permanece inacessível.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque conhecer alguém não é simplesmente acumular informações sobre essa pessoa. Existe uma diferença sutil e profundamente importante entre <strong>saber sobre alguém</strong> e <strong>conhecer alguém de verdade</strong>. Saber sobre alguém pertence ao campo dos fatos. Podemos listar características, eventos biográficos, preferências, escolhas. É possível organizar essas informações como quem organiza arquivos em uma base de dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Conhecer alguém, no entanto, pertence a outra dimensão. Ele acontece no encontro. E encontros humanos são sempre mais complexos do que qualquer conjunto de informações.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Carl Gustav Jung observou que cada pessoa carrega dentro de si uma realidade psíquica muito mais vasta do que aquilo que aparece na superfície da vida cotidiana. Aquilo que mostramos ao mundo, nossos papéis sociais, nossas histórias, nossas narrativas conscientes, representa apenas uma parte daquilo que somos.</p>



<h2 id="h-a-psique-e-em-grande-parte-inconsciente-jung-2013" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A psique é, em grande parte, inconsciente.” (JUNG, 2013).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa que conhecer verdadeiramente alguém implica entrar em contato não apenas com aquilo que a pessoa diz sobre si mesma, mas também com aquilo que se revela lentamente na relação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O modo como alguém reage às situações, as histórias que escolhe contar, os silêncios que aparecem em determinados momentos, as emoções que surgem inesperadamente, tudo isso compõe uma espécie de linguagem da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E essa linguagem não pode ser reduzida a dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela se revela no tempo.</p>



<h2 id="h-a-cultura-contemporanea-desenvolveu-uma-confianca-enorme-na-ideia-de-que-tudo-pode-ser-conhecido-atraves-da-informacao-quanto-mais-dados-possuimos-sobre-um-fenomeno-mais-acreditamos-compreende-lo" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A cultura contemporânea desenvolveu uma confiança enorme na ideia de que tudo pode ser conhecido através da informação. Quanto mais dados possuímos sobre um fenômeno, mais acreditamos compreendê-lo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse modelo funciona muito bem para diversos campos do conhecimento. Sistemas financeiros, redes de comunicação, tecnologia da informação e processos organizacionais dependem justamente da capacidade de coletar, organizar e interpretar grandes volumes de dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas quando aplicamos essa mesma lógica às relações humanas, algo começa a escapar. Podemos saber quase tudo sobre alguém e, ainda assim, não conhecer essa pessoa. Da mesma forma, às vezes conhecemos alguém profundamente mesmo sabendo muito pouco sobre sua história objetiva. Isso acontece porque o conhecimento humano não se limita à informação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele envolve presença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Envolve escuta.</p>



<h2 id="h-envolve-a-capacidade-de-perceber-nuances-que-nao-aparecem-nos-fatos-mas-se-manifestam-no-modo-como-uma-pessoa-habita-o-mundo" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Envolve a capacidade de perceber nuances que não aparecem nos fatos, mas se manifestam no modo como uma pessoa habita o mundo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A psicologia analítica reconhece que cada indivíduo é portador de uma história psíquica única. Experiências da infância, imagens arquetípicas, complexos emocionais e desejos inconscientes participam silenciosamente da construção da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Grande parte desses conteúdos não aparecem diretamente na narrativa consciente da pessoa. Eles se revelam no encontro. E, por isso, conhecer alguém exige algo que nenhuma base de dados pode oferecer: tempo compartilhado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das marcas mais curiosas da cultura contemporânea é a sensação de que tudo pode ser conhecido, explicado e organizado. Vivemos cercados por sistemas que prometem tornar o mundo cada vez mais transparente: algoritmos que antecipam preferências, redes sociais que revelam hábitos, plataformas que registram cada passo de nossas rotinas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse cenário, parece natural acreditar que conhecer alguém seja apenas uma questão de acesso à informação. Nós sabemos onde as pessoas trabalham, que lugares frequentam, o que publicam, com quem se relacionam. Podemos acompanhar suas opiniões, suas viagens, suas conquistas e até mesmo seus estados emocionais expressos em imagens e textos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, paradoxalmente, essa abundância de informação não necessariamente nos aproxima das pessoas. Em muitos casos, ela cria apenas a sensação de proximidade. A psique humana, no entanto, não se organiza apenas em torno daquilo que é visível. Existe uma dimensão profunda da experiência humana que não pode ser totalmente capturada por dados ou descrições objetivas.</p>



<h2 id="h-jung-observou-que-grande-parte-da-vida-psiquica-permanece-inconsciente-influenciando-silenciosamente-pensamentos-emocoes-e-comportamentos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Jung observou que grande parte da vida psíquica permanece inconsciente, influenciando silenciosamente pensamentos, emoções e comportamentos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa que mesmo a pessoa que mais acreditamos conhecer guarda dentro de si territórios desconhecidos. Não porque esteja escondendo algo, mas porque a própria natureza da psique humana é, em grande medida, misteriosa. Conhecer alguém, portanto, não é apenas reunir informações sobre essa pessoa. É participar de uma experiência que se revela lentamente, no encontro e na convivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando duas pessoas se encontram de forma verdadeira, algo acontece que não pode ser completamente previsto. Uma conversa pode abrir perguntas que antes não existiam. Um olhar pode despertar lembranças ou reflexões inesperadas. Às vezes, um simples diálogo produz mudanças profundas na maneira como alguém percebe a própria vida.</p>



<h2 id="h-jung-descreveu-esse-fenomeno-com-uma-imagem-muito-conhecida" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung descreveu esse fenômeno com uma imagem muito conhecida:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p class="wp-block-paragraph">“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver reação, ambas se transformam.” (JUNG, 2012, p. 49).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa frase aponta para um aspecto fundamental das relações humanas: os encontros verdadeiros são sempre transformadores. Eles nos confrontam com perspectivas diferentes, revelam aspectos de nós mesmos que permaneciam ocultos e, muitas vezes, ampliam nossa compreensão da realidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso acontece porque cada pessoa carrega dentro de si um universo psíquico singular. Quando dois universos se encontram, surge um campo relacional que não existia antes. Nesse campo, novas possibilidades de pensamento e sentimento podem emergir. E, às vezes, aquilo que começa como uma simples conversa transforma-se em um vínculo significativo. Entre as muitas formas que os encontros humanos podem assumir, a amizade entre homens e mulheres ocupa um lugar particularmente interessante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo, a cultura tratou esse tipo de relação com certa desconfiança. Muitas narrativas sociais sugeriam que homens e mulheres não poderiam desenvolver uma amizade profunda sem que ela se transformasse necessariamente em um relacionamento amoroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ideia, no entanto, revela mais sobre os limites culturais do que sobre a complexidade das relações humanas. Homens e mulheres podem, sim, desenvolver amizades intensas, baseadas em diálogo, admiração intelectual, troca emocional e crescimento mútuo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva da Psicologia Analítica, esse tipo de vínculo pode possuir uma função psíquica importante. Jung observou que cada pessoa carrega dentro de si imagens arquetípicas do feminino e do masculino, aquilo que ele chamou de Anima e Animus. Essas imagens influenciam profundamente a forma como percebemos e nos relacionamos com o outro.</p>



<h2 id="h-a-anima-e-o-arquetipo-da-vida-no-inconsciente-masculino-jung-2013-p-26" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A anima é o arquétipo da vida no inconsciente masculino.” (JUNG, 2013, p. 26).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um homem estabelece uma relação significativa com uma mulher, seja ela amorosa, profissional ou amistosa, aspectos de sua própria vida emocional podem ser mobilizados. Da mesma forma, uma mulher também pode entrar em contato com dimensões de seu próprio Animus através da relação com o masculino. Isso não significa que toda amizade entre homens e mulheres esteja marcada por projeções românticas ou conflitos inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Significa apenas que esse tipo de relação pode favorecer um diálogo psíquico entre dimensões complementares da experiência humana. Em muitos casos, esse diálogo torna-se um espaço de aprendizado mútuo. Homens podem desenvolver maior sensibilidade emocional. Mulheres podem ampliar formas de expressão intelectual ou assertiva. Ambos podem encontrar no outro uma perspectiva que desafia e enriquece a própria visão de mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, a amizade entre homens e mulheres pode funcionar como um território fértil para o desenvolvimento psicológico. Um espaço onde duas pessoas, sem necessariamente se tornar um casal, participam do crescimento uma da outra. Talvez seja justamente por isso que conhecer alguém nunca seja um processo completo. Por mais longa que seja uma relação, sempre permanece algo do outro que escapa à nossa compreensão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe um núcleo de mistério na experiência humana que não pode ser totalmente traduzido em palavras ou conceitos. A alteridade &#8211; a experiência de encontrar alguém que é verdadeiramente diferente de nós &#8211; lembra constantemente que o mundo não se resume às nossas próprias percepções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O outro possui uma interioridade própria, uma história única, uma forma singular de habitar o mundo. E talvez seja justamente isso que torna os encontros humanos tão preciosos. Eles nos lembram que a vida não é apenas um conjunto de informações organizadas. Ela é também um campo de experiências compartilhadas, de descobertas inesperadas e de relações que ampliam nossa consciência.</p>



<h2 id="h-conhecer-alguem-nesse-sentido-nunca-e-um-processo-terminado" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Conhecer alguém, nesse sentido, nunca é um processo terminado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É um caminho. Um caminho que se constrói no tempo, na escuta e na disposição de permanecer aberto ao mistério que cada pessoa carrega dentro de si. Quando duas pessoas se encontram pela primeira vez, aquilo que se apresenta na relação raramente corresponde à totalidade daquilo que cada uma é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada indivíduo chega ao encontro carregando histórias, experiências, expectativas e defesas. Ao longo da vida aprendemos, consciente ou inconscientemente, a mostrar certos aspectos de nós mesmos e a proteger outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung chamou de Persona essa dimensão da personalidade que se apresenta ao mundo. A Persona não é falsa no sentido de mentira; ela é, antes de tudo, uma forma de adaptação social. Através dela conseguimos circular na sociedade, trabalhar, estabelecer relações e ocupar determinados papéis.</p>



<h2 id="h-a-persona-e-aquilo-que-alguem-nao-e-realmente-mas-que-ele-e-os-outros-pensam-que-ele-e-jung-2013-p-305" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A persona é aquilo que alguém não é realmente, mas que ele e os outros pensam que ele é.” (JUNG, 2013, p. 305).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mecanismo é necessário. Sem alguma forma de Persona, a convivência humana seria extremamente difícil. No entanto, quando duas pessoas começam a se conhecer, aquilo que aparece inicialmente na relação costuma ser justamente essa camada mais visível e social da personalidade. O verdadeiro conhecimento do outro exige algo mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele exige tempo suficiente para que as máscaras sociais possam, aos poucos, relaxar. Pequenos gestos, contradições, fragilidades e histórias pessoais começam então a aparecer. É, nesse momento que a relação deixa de ser apenas um encontro entre papéis e começa a tornar-se um encontro entre pessoas. Mesmo quando acreditamos estar vendo o outro com clareza, existe um elemento que sempre participa das relações humanas: a projeção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Psicologia Analítica, projeção é o processo pelo qual os conteúdos da própria psique são atribuídos a outra pessoa. Aquilo que ainda não reconhecemos em nós mesmos pode ser percebido como pertencente ao outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse fenômeno é extremamente comum nos vínculos humanos. Às vezes idealizamos alguém, atribuindo-lhe qualidades que desejamos encontrar. Em outras ocasiões, reagimos negativamente a comportamentos que, na verdade, refletem conflitos internos nossos.</p>



<h2 id="h-jung-descreveu-esse-processo-de-forma-bastante-clara" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung descreveu esse processo de forma bastante clara:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“As projeções transformam o mundo em uma réplica do nosso próprio rosto desconhecido.” (JUNG, 2013, p. 233).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa que, em muitos encontros, não estamos lidando apenas com o outro real, mas também com imagens internas que projetamos sobre ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse fenômeno não precisa ser compreendido apenas de maneira negativa. Em muitos casos, as projeções funcionam como pontes que permitem à psique entrar em contato com aspectos ainda inconscientes de si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma projeção se torna consciente, aquilo que antes parecia pertencer exclusivamente ao outro começa a ser reconhecido como parte da própria experiência psíquica. Dessa forma, algumas relações humanas funcionam como verdadeiros espelhos. Elas revelam dimensões de nós mesmos que dificilmente seriam percebidas em isolamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro elemento fundamental para conhecer alguém é o tempo. A cultura contemporânea, marcada pela velocidade e pela instantaneidade, frequentemente cria a ilusão de que as relações podem se desenvolver rapidamente. Conversas intensas, trocas frequentes de mensagens e afinidades aparentes podem gerar a sensação de que já compreendemos profundamente a outra pessoa. Mas a experiência humana mostra que o verdadeiro conhecimento de alguém acontece de maneira muito mais lenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É no decorrer do tempo que surgem os pequenos detalhes da vida cotidiana: a forma como alguém reage ao conflito, como lida com frustrações, como se comporta em momentos de alegria ou de perda. Esses aspectos raramente aparecem nas primeiras interações. Eles se revelam na convivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conhecer alguém implica atravessar diferentes fases da vida ao lado dessa pessoa. Significa observar mudanças, amadurecimentos, dúvidas e transformações. A identidade humana não é estática. Cada indivíduo está em constante processo de desenvolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung descreveu esse movimento como Processo de Individuação, o caminho pelo qual a pessoa se aproxima gradualmente da totalidade de sua própria psique.</p>



<h2 id="h-individuacao-significa-tornar-se-um-ser-unico-e-indivisivel-jung-2011-p-275" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“Individuação significa tornar-se um ser único e indivisível.” (JUNG, 2011, p. 275).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando acompanhamos alguém ao longo do tempo, testemunhamos partes desse processo. E talvez seja justamente essa experiência compartilhada que torna certos vínculos tão significativos. Entre as muitas formas de relação humana, a amizade ocupa um lugar singular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diferente dos vínculos familiares, que muitas vezes são determinados pela história e pela biologia, a amizade nasce da escolha. Ela se constrói a partir de afinidades, interesses comuns e, muitas vezes, de um certo reconhecimento silencioso entre duas pessoas. Na amizade, existe uma liberdade particular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os amigos podem compartilhar pensamentos, dúvidas e reflexões que nem sempre encontram espaço em outros contextos. Conversas que começam de forma casual podem se transformar em diálogos profundos sobre a vida, os valores e o sentido da existência.</p>



<h2 id="h-em-algumas-situacoes-a-amizade-torna-se-um-espaco-privilegiado-para-o-desenvolvimento-psicologico-os-dois-individuos-que-se-encontram-em-momentos-semelhantes-de-suas-trajetorias-podem-oferecer-um-ao-outro-algo-extremamente-valioso-escuta-questionamento-e-presenca" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Em algumas situações, a amizade torna-se um espaço privilegiado para o desenvolvimento psicológico. Os dois indivíduos que se encontram em momentos semelhantes de suas trajetórias podem oferecer um ao outro algo extremamente valioso: escuta, questionamento e presença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Através dessas trocas, aspectos da própria personalidade começam a se tornar mais claros. Perguntas que permaneciam difusas encontram novas formas de expressão. Ideias que antes pareciam isoladas ganham sentido no diálogo com o outro. Neste contexto, a amizade pode participar do Processo de Individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não porque os amigos tenham a função de analisar ou orientar a vida um do outro, mas porque o encontro humano cria um espaço onde a consciência pode se ampliar. A presença do outro, com sua história e sua perspectiva singular, torna-se um convite permanente à reflexão. E, muitas vezes, é justamente nesses encontros, simples, cotidianos, aparentemente sem pretensão, que surgem algumas das conversas mais transformadoras da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar das profundas transformações sociais ocorridas nas últimas décadas, a amizade entre homens e mulheres ainda costuma ser cercada por certo grau de desconfiança cultural. Em muitas narrativas sociais, permanece a ideia de que a proximidade entre um homem e uma mulher inevitavelmente conduz ao campo amoroso ou sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa suposição aparece frequentemente em conversas cotidianas, em filmes, em literatura popular e até mesmo em discursos psicológicos simplificados. Segundo essa visão, homens e mulheres não conseguiriam sustentar uma amizade profunda sem que, em algum momento, o desejo erótico emergisse como elemento central da relação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, a experiência humana mostra que as relações são muito mais complexas do que esse modelo sugere. A proximidade entre homens e mulheres pode, de fato, despertar tensões eróticas. Isso não deveria causar surpresa. A psique humana é atravessada por forças afetivas e simbólicas que nem sempre seguem limites rígidos entre amizade, admiração e desejo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconheceu que as relações entre homens e mulheres frequentemente mobilizam imagens arquetípicas profundas.</p>



<h2 id="h-todo-homem-carrega-dentro-de-si-a-imagem-eterna-da-mulher-nao-a-imagem-de-uma-mulher-particular-mas-de-uma-mulher-determinada-jung-2013-p-26" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“Todo homem carrega dentro de si a imagem eterna da mulher, não a imagem de uma mulher particular, mas de uma mulher determinada.” (JUNG, 2013, p. 26).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essas imagens psíquicas influenciam profundamente a forma como percebemos o outro sexo. Em muitos encontros, aquilo que inicialmente nos atrai ou nos intriga não é apenas a pessoa concreta que está diante de nós, mas também a imagem arquetípica que ela constela dentro da psique. É, nesse ponto que muitas amizades entre homens e mulheres se tornam psicologicamente interessantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A presença da tensão simbólica entre masculino e feminino pode enriquecer o diálogo e ampliar a consciência de ambos os lados. A relação torna-se um espaço onde cada um entra em contato com aspectos da própria psique que talvez permanecessem menos desenvolvidos em contextos exclusivamente masculinos ou femininos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marie-Louise von Franz, importante colaboradora de Jung, observou que o encontro com o outro sexo frequentemente desempenha um papel essencial no desenvolvimento psicológico.</p>



<h2 id="h-o-encontro-com-o-outro-sexo-e-um-dos-fatores-mais-importantes-no-processo-de-desenvolvimento-da-personalidade-von-franz-1990-p-112" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“O encontro com o outro sexo é um dos fatores mais importantes no processo de desenvolvimento da personalidade.” (VON FRANZ, 1990, p. 112).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando esse encontro acontece dentro de um campo de amizade, e não apenas de relação amorosa, ele pode produzir efeitos particularmente interessantes. A amizade entre homens e mulheres permite que exista diálogo sem que todas as energias da relação sejam absorvidas pela expectativa romântica. Nesse espaço, torna-se possível explorar ideias, compartilhar reflexões e desenvolver intimidade intelectual e emocional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não significa que a dimensão erótica esteja completamente ausente. Em muitos casos, ela aparece como uma tensão latente que faz parte da complexidade da relação. Mas a existência dessa tensão não precisa necessariamente conduzir à transformação da amizade em relacionamento amoroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando reconhecida com maturidade, ela pode inclusive contribuir para aprofundar o vínculo, permitindo que duas pessoas permaneçam conscientes das forças psíquicas que atravessam a relação. Assim, a amizade entre homens e mulheres pode funcionar como um espaço privilegiado de crescimento psicológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Homens podem entrar em contato com dimensões emocionais que frequentemente são pouco estimuladas em ambientes exclusivamente masculinos. Mulheres podem ampliar sua relação com o pensamento, a assertividade e outras formas de expressão frequentemente associadas ao masculino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung observou que o desenvolvimento psicológico envolve justamente o diálogo entre diferentes dimensões da psique.</p>



<h2 id="h-a-psique-e-uma-realidade-complexa-composta-por-opostos-que-precisam-entrar-em-relacao-jung-2013-p-89" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A psique é uma realidade complexa, composta por opostos que precisam entrar em relação.” (JUNG, 2013, p. 89).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma amizade entre homem e mulher consegue sustentar esse diálogo sem reduzir a relação apenas ao campo do desejo, algo bastante interessante acontece. O encontro torna-se um espaço de ampliação da consciência. Duas pessoas, com histórias e experiências diferentes, ajudam uma à outra a perceber aspectos do mundo, e de si mesmas, que talvez permanecessem invisíveis em outros contextos. E talvez seja justamente essa possibilidade de crescimento mútuo que torna algumas dessas amizades tão profundamente significativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um homem e uma mulher desenvolvem uma relação próxima, nem sempre é simples compreender a natureza do vínculo que se estabelece entre eles. A proximidade emocional, o diálogo profundo e a sensação de reconhecimento mútuo podem despertar sentimentos que transitam entre diferentes dimensões da experiência humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em alguns casos, trata-se de amizade genuína. Em outros, o que aparece na relação é a projeção de imagens inconscientes que pertencem à própria psique. A Psicologia Analítica oferece uma chave importante para compreender essa dinâmica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um homem encontra uma mulher que ressoa a Ânima, é comum que ela se torne portadora de qualidades simbólicas que ultrapassam a pessoa concreta. Algo da vida psíquica profunda passa a se projetar sobre ela. O mesmo ocorre, em direção oposta, quando uma mulher projeta aspectos de seu Animus em um homem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesses momentos, a relação pode adquirir uma intensidade particular. Surge uma sensação de fascínio, de profundidade ou de destino compartilhado que parece difícil de explicar apenas em termos racionais. Jung descreveu esse fenômeno de forma bastante direta:</p>



<h2 id="h-onde-reina-a-projecao-da-anima-ali-se-encontra-um-dos-maiores-encantamentos-da-vida-jung-2013-p-28" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“Onde reina a projeção da anima, ali se encontra um dos maiores encantamentos da vida.” (JUNG, 2013, p. 28).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse encantamento, no entanto, possui uma característica importante: ele não pertence exclusivamente ao outro. Grande parte da energia emocional que aparece na relação tem origem na própria psique de quem projeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essa dinâmica não é reconhecida, a amizade pode facilmente transformar-se em enamoramento. O outro passa a ser percebido como alguém excepcional, quase portador de qualidades extraordinárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em muitos casos, o que está sendo amado não é exatamente a pessoa real, mas a imagem psíquica que foi projetada sobre ela. Isso não significa que o sentimento seja falso. Pelo contrário, ele pode ser extremamente intenso e transformador. Mas a compreensão desse processo ajuda a perceber que algumas relações possuem uma função psicológica específica. Elas servem como espelhos. Através do outro, a pessoa entra em contato com aspectos da própria alma que permaneciam inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marie-Louise von Franz descreveu esse processo ao afirmar que as projeções frequentemente desempenham um papel importante no desenvolvimento psicológico.</p>



<h2 id="h-a-projecao-e-uma-tentativa-inconsciente-de-tornar-visivel-algo-que-ainda-nao-foi-reconhecido-na-propria-psique-von-franz-1990-p-98" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A projeção é uma tentativa inconsciente de tornar visível algo que ainda não foi reconhecido na própria psique.” (VON FRANZ, 1990, p. 98).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a projeção começa a se dissolver, algo interessante pode acontecer. A relação pode perder parte da intensidade romântica inicial, mas ganhar uma nova qualidade de consciência. O outro deixa de ser portador de uma imagem idealizada e passa a ser reconhecido como pessoa real, com suas próprias complexidades e limites. É nesse momento que algumas relações se transformam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O enamoramento diminui, mas algo mais estável pode surgir em seu lugar: a amizade. A amizade, nesse sentido, representa um encontro menos dominado por projeções e mais aberto à realidade do outro. Ela não exige que o outro corresponda a uma imagem ideal. Ela permite que duas pessoas se encontrem como realmente são.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente, algumas das amizades mais profundas entre homens e mulheres surgem justamente depois que certas projeções se tornam conscientes. Quando o fascínio inicial se transforma em compreensão, a relação pode adquirir uma qualidade mais tranquila e, ao mesmo tempo, mais verdadeira. Duas pessoas passam a se encontrar sem a necessidade de corresponder às expectativas idealizadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe espaço para diálogo, discordância, aprendizado e crescimento mútuo. Esse tipo de amizade possui uma força particular porque não depende da idealização. Ela nasce da experiência compartilhada de reconhecer a humanidade do outro. Neste sentido, a amizade pode representar um estágio mais maduro do encontro entre masculino e feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não porque o desejo desapareça completamente, mas porque ele deixa de dominar a relação. A presença do outro continua sendo significativa, mas não exige que a relação se transforme em algo que talvez não corresponda ao caminho de cada um. E quando isso acontece, a amizade torna-se um espaço de liberdade. Duas pessoas podem caminhar lado a lado, compartilhando ideias, experiências e reflexões, sem que a relação precise assumir uma forma predeterminada.</p>



<h2 id="h-e-talvez-seja-justamente-essa-liberdade-que-torna-algumas-amizades-entre-homens-e-mulheres-tao-raras-e-tao-preciosas-talvez-uma-das-maiores-dificuldades-da-cultura-contemporanea-seja-reconhecer-que-o-amor-pode-assumir-formas-diferentes-daquelas-que-estamos-acostumados-a-imaginar" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">E talvez seja justamente essa liberdade que torna algumas amizades entre homens e mulheres tão raras e tão preciosas. Talvez uma das maiores dificuldades da cultura contemporânea seja reconhecer que o amor pode assumir formas diferentes daquelas que estamos acostumados a imaginar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas narrativas sociais ainda sugerem que a proximidade profunda entre duas pessoas precisa necessariamente conduzir ao relacionamento amoroso. Quando isso não acontece, surge a impressão de que algo ficou incompleto ou mal resolvido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, a experiência humana mostra que algumas relações encontram sua forma mais verdadeira justamente fora do modelo romântico. A amizade pode ser uma dessas formas. Quando duas pessoas conseguem sustentar um vínculo baseado em respeito, diálogo e reconhecimento mútuo, sem que a relação precise se tornar possessiva ou exclusiva, algo raro acontece. O encontro deixa de ser dominado pela necessidade de possuir o outro. Ele se torna um espaço de liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista da Psicologia Analítica, essa possibilidade está relacionada ao amadurecimento da relação com as projeções inconscientes. À medida que imagens idealizadas se dissolvem, o outro deixa de ser portador de expectativas psíquicas e passa a ser percebido como indivíduo real.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung observou que o desenvolvimento psicológico envolve justamente essa capacidade de reconhecer a alteridade.</p>



<h2 id="h-a-relacao-verdadeira-com-o-outro-so-se-torna-possivel-quando-as-projecoes-sao-retiradas-jung-2013-p-132" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A relação verdadeira com o outro só se torna possível quando as projeções são retiradas.” (JUNG, 2013, p. 132).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando isso acontece, a relação ganha uma nova qualidade. A presença do outro continua sendo significativa, mas já não precisa corresponder a uma imagem idealizada ou a um papel previamente definido. Duas pessoas podem simplesmente compartilhar experiências, pensamentos e momentos da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tipo de vínculo não elimina as tensões naturais da relação entre masculino e feminino. Pelo contrário, reconhece sua existência sem permitir que elas determinem completamente o destino da relação. Existe espaço para admiração, para troca intelectual, para aprendizado mútuo. Existe espaço, sobretudo, para o reconhecimento de que cada pessoa permanece sendo um mistério. Conhecer alguém nunca é um processo completo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais longa que seja uma amizade, sempre haverá aspectos da interioridade do outro que permanecem inacessíveis. Cada ser humano carrega dentro de si uma história, uma imaginação e uma profundidade que não podem ser totalmente traduzidas. Talvez seja justamente essa dimensão de mistério que torna os encontros humanos tão significativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eles nos lembram que a vida não é apenas um conjunto de informações organizadas, mas uma experiência compartilhada entre consciências que se encontram. Algumas dessas relações tornam-se breves. Outras permanecem ao longo dos anos. E algumas, silenciosamente, participam do Processo de Individuação de ambos os envolvidos. Não porque tenham sido planejadas para isso. Mas, porque, no encontro entre duas histórias, algo da alma encontra espaço para se reconhecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja isso que realmente significa conhecer alguém. Não dominar sua história. Não compreender completamente sua interioridade. Mas permanecer aberto ao mistério que cada pessoa traz consigo e permitir que esse encontro transforme, ainda que discretamente, o curso da própria vida.</p>



<h2 id="h-e-voce-tem-cuidado-das-suas-amizades-tem-cultivado-elas" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">E você tem cuidado das suas amizades, tem cultivado elas?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Boas reflexões!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/">Ms. Natalhe Vieni – Analista Didata em Formação</a></strong></p>



<h2 id="h-esp-gabriel-yamaya-analista-em-formacao" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gabriel-yamaya/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/gabriel-yamaya/">Esp. Gabriel Yamaya – Analista em Formação</a></h2>



<h2 id="h-dra-simone-magaldi-didata-e-fundadora-do-ijep" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. Simone Magaldi – Didata e Fundadora do IJEP</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:19px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>A natureza da psique</strong>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>A prática da psicoterapia</strong>. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. <strong>A grande mãe: um estudo fenomenológico das constituições femininas do inconsciente</strong>. São Paulo: Cultrix, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <strong>A interpretação dos contos de fadas</strong>. São Paulo: Paulus, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <strong>O processo de individuação</strong>. In: JUNG, C. G. (Org.). <em>O homem e seus símbolos</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <strong>A passagem do meio: da crise à individuação</strong>. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. <strong>Sociedade do cansaço</strong>. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Quando os titãs capturam os relacionamentos afetivos e a violência vira seu palco</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-os-titas-capturam-os-relacionamentos-afetivos-e-a-violencia-vira-seu-palco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Pimentel Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Nov 2025 14:09:55 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Resumo</strong>: Nesse artigo, a temática da violência crescente nos relacionamentos afetivos é ampliada e debatida, passando pela metáfora dos titãs e da inconsciência ao se relacionar. A questão de como a ira e a agressividade ganham força também é abordada, levando em consideração a cultura atual e os ditames coletivos. Uma visão da sombra coletiva é destacada como um dos pilares da violência e da agressividade rompante na sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-premissa-de-todo-relacionamento-afetivo-saudavel-criativo-e-funcional-o-conhecimento-minimo-sobre-a-natureza-subjetiva-daquele-que-se-propoe-a-compartilhar-dores-alegrias-sorrisos-e-angustias-com-o-outro" style="font-size:20px">É premissa de todo relacionamento afetivo saudável, criativo e funcional o conhecimento mínimo sobre a natureza subjetiva daquele que se propõe a compartilhar dores, alegrias, sorrisos e angústias com o outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A delegação da responsabilidade própria de se autogerir e de se administrar emocionalmente ao outro acaba solapando um desenvolvimento conjunto e direcionado para uma finalidade construtiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Logo, abrir mão da própria capacidade de reconhecer quais aspectos precisam ser elaborados (presentes em uma projeção de conteúdos inconscientes), encarcera o movimento recíproco do dar e receber. A dinâmica do poder e do controle é a ferramenta titânica mais eficiente para a promoção da violência e da anestesia do tear vínculos e relações. &nbsp;Ferramenta estimulada a todo momento pela cultura, grupos e mídias sociais e contextos familiares.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:21px"><blockquote><p>Não resta dúvida que o mal provém, em grande parte, da inconsciência ilimitada do homem, como também é verdade que um conhecimento mais profundo nos ajuda a lutar contra as causas psíquicas do mal.</p><cite>Jung, OC.10/3, §166</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Quanto mais inconscientes somos sobre o que nos atravessa, mais a consciência é invadida por conteúdos sombrios e pelas constelações dos complexos. Assim, em uma dinâmica conjugal, a razão e o discernimento são afastados, sendo substituídos pela ação do aspecto primitivo inconsciente de todo ser humano, anunciando a entrada em campo da força violenta e bruta dos titãs. Deste modo, se tem um embate entre sombras e não entre vozes conscientes e direcionadas a um amor compartilhado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica" style="font-size:20px">Jung explica:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>De modo geral, estas resistências ligam-se a projeções que não podem ser reconhecidas como tais e cujo conhecimento implica um esforço moral que ultrapassa os limites habituais do indivíduo. Os traços característicos da sombra podem ser reconhecidos, sem maior dificuldade, como qualidades pertinentes à personalidade, mas tanto a compreensão como a vontade falham, pois a causa a emoção parece provir, sem dúvida alguma, de outra pessoa.</p><cite>OC 9.2, §16</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-outro-alicerce-para-relacoes-abusivas-e-violentas-e-o-falsear-aquilo-que-somos" style="font-size:20px">Um outro alicerce para relações abusivas e violentas é o falsear aquilo que somos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A espontaneidade é o aroma que encanta e atrai multidões como também desperta fúria e perseguições. A angústia em ver no parceiro/a aquele lado que tanto foi renegado ou subvalorizado por mim, provoca terremotos e tsunamis emocionais profundas, capazes de destronar a consciência e levar o indivíduo a todo tipo de barbárie.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A inveja &#8211; aspecto genuinamente humano &#8211; daqueles que conseguiram expressar aquilo que tanto foi negado por mim é uma força que ganha intensidade quando a superficialidade se torna regra nas relações. A frustração interna em não ter trabalhado possibilidades e potências inerentes e múltiplas do ser se espelha em uma frustração externa, que se faz ser reconhecida independente da vontade pessoal, das defesas e compensações inconscientes.&nbsp; Esse movimento profundo de autoalienação cobra um preço alto e exige uma conscientização amarga, que infelizmente é desaguado nos parceiros/as.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A autoalienação é uma erva daninha que se espalha e se expressa de inúmeras formas. Seja em uma busca insaciável por um corpo perfeito, volumoso, com veias e voz grossa; seja por encantos de uma distorcida imagem social luxuosa ostentada em redes sociais com viagens e objetos de luxo. <strong>O território desconhecido em mim é o lugar de morada dos titãs</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Na mitologia, as figuras simbólicas dos titãs representam tanto uma força poderosa,&nbsp; intensa, construtiva da terra como a destruição brutal e domínio da consciência pelos instintos e forças primitivas. <strong>March</strong> comenta: “<strong><em>Depois Urano fecundou Gaia, que deu à luz a raça dos deuses primordiais conhecidas como titãs: Oceano, Ceos, Crio, Hiperio etc..</em></strong>” (March, 2016, p.42)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vale-ressaltar-que-a-fuga-de-si-mesmo-nao-poder-ser-abafada-por-uma-dependencia-afetiva-ou-seja-por-uma-ausencia-constante-daquilo-que-me-toca-e-me-afeta-genuinamente" style="font-size:20px">Vale ressaltar que a fuga de si mesmo não poder ser abafada por uma dependência afetiva, ou seja, por uma ausência constante daquilo que me toca e me afeta genuinamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A maior plenitude de uma consciência é ter a sensibilidade psíquica, corporal, espiritual de poder ser tocada, mexida, afetada, sendo posteriormente elaborada, ampliada e integrada. Entretanto, não é um movimento inconsciente ao outro enredado por traumas, dores, ausências maternas, paternas que irá preencher um vazio infinito de valorização e de reconhecimento. Esse poço apenas pode ser preenchido por uma redenção ao centro solar, uno, que vivifica toda a vida; a autopercepção honesta, profunda e misericordiosa entoada pelo Si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-titanica-de-um-ser-humano-ignora-todas-as-dependencias-e-interrelacoes-necessarias-com-o-meio-que-o-cerca" style="font-size:20px">A violência titânica de um ser humano ignora todas as dependências e interrelações necessárias com o meio que o cerca.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O que se tem é o uso da natureza como uma serviçal pronta para qualquer tipo de satisfação imediata e fugaz. Então, a partir do momento que há um corte no olhar observador que singulariza a natureza viva daquilo que chega até mim, o descarte, a agressão e o uso desalmado ganham palco. Então, podendo levar à fúria dos inconscientes e à derrocada de um encontro criativo e vivo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A sequência desses fenômenos é de certo modo ordenada por dois arquétipos, o da anima que exprime vida incondicional, e o do “velho sábio”, que personifica a mente.</p><cite>Jung, OC.14/1. §307</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ataque-violento-contra-a-figura-feminina-denota-uma-agressao-contra-a-propria-vida-que-se-torna-insuportavel-de-ser-vivida-e-sentida-aquela-que-se-torna-falsa" style="font-size:20px">O ataque violento contra a figura feminina denota uma agressão contra a própria vida que se torna insuportável de ser vivida e sentida, aquela que se torna falsa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A projeção da anima em mulheres, na comunidade homoafetiva e em tudo aquilo ligado ao sensível se transforma no alvo inconsciente a ser destruído por lembrar ao ego a dor e angústia profunda de se abandonar. A figura do feminino passa a carregar a ameaça constante do precipício que convida o ego massificado e ignorante de si mesmo a pular dentro (como uma tentativa de se resgatar).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-negacao-da-anima-da-vida-e-sua-conexao-gera-uma-ferida-angustiante-que-a-todo-tempo-relembra-sua-presenca-e-o-seu-vazio-jung-cita" style="font-size:20px">A negação da anima, da vida e sua conexão, gera uma ferida angustiante que a todo tempo relembra sua presença e o seu vazio. <strong>Jung </strong>cita:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A anima em seu aspecto negativo, isto é, quando ela, permanecendo inconsciente, oculta-se no sujeito e exerce uma influência possessiva sobre ele. Os sintomas principais dessa possessão são de uma parte caprichos cegos e confusões compulsivas, e de outra parte isolamento, frio e sem nenhum relacionamento, numa atitude de princípios (confusão de ideias).</p><cite>OC. 4/2, §204</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-monick-complementa" style="font-size:20px"><strong>Monick</strong> complementa:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Na fúria, a tempestade de resposta emocional nasce da necessidade urgente que o homem experimenta de proteger e salvar a sua identidade, o seu próprio ser- isso e/ou a retaliação da ofensa que está sobre ele, como ela é percebida subjetivamente. A ira pode ser a emoção que se sente quando não há nada a fazer. É mais provável que surja a fúria quando o homem se sente incapaz.</p><cite>Monick, 1993, p. 116</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espirito-da-epoca-cada-vez-mais-raso-seco-egoista-indiferente-estimulando-a-produtividade-e-performance-a-todo-custo-alavanca-a-ira-e-o-controle" style="font-size:20px">O espírito da época cada vez mais raso, seco, egoísta, indiferente estimulando a produtividade e performance a todo custo alavanca a ira e o controle.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como consequência, a raiva profunda em ser decepado, castrado, dividido e desmembrado em uma cama que não cabe a grandeza e a riqueza de ser quem somos é enterrada no inconsciente. Logo, a não permissão de sermos vistos com a totalidade intrínseca e inerente ao humano somado com a anestesia da capacidade de ligação com o mundo, com a natureza com aquilo que nos cerca, acaba constelando os titãs e ogros que habitam em todos nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ampliando-o-tema-monick-comenta" style="font-size:20px">Ampliando o tema, Monick comenta:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A fúria masculina é uma indicação de que um homem está em contato pessoal e doloroso com um ferimento profundo, até mesmo com o não-ser. Pode-se receber essa fúria, e afastar-se dela, julgando-a com dureza adequada, mas sem um mínimo de compreensão. </p><cite>Monick, 1993, p. 119</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Até que ponto a cultura vigente permite que haja um espaço para que a raiva e a exposição de feridas masculinas emocionais sejam elaboradas? Enquanto coletivo, abafamos a fúria ou damos espaço para que ela seja ouvida?</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-revolta-da-sombra-se-faz-presente-na-consciencia-de-todos-aqueles-que-vivem-de-maneira-inconsciente" style="font-size:20px">A revolta da sombra se faz presente na consciência de todos aqueles que vivem de maneira inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Seu motim, seu grito, é proclamado em alto e bom tom em todos de forma explicita ou implícita, degradando relacionamentos e vínculos conjugais. Como consequência, a raiva se intensifica e toma o lugar da consciência.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O campo amplo e vasto do inconsciente, não alcançado pela crítica e pelo controle da consciência, acha-se aberto e desprotegido para receber todas as influências e infecções psíquicas possíveis.</p><cite>Jung, OC. 10/1, §493</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Nas consciências pautadas pelo princípio masculino, pode se expressar através da sequência extrema de socos e golpes em algo delicado; pela brutalidade de respostas desconcertantes e fora de contexto; pela indiferença do sentir do outro; na cegueira em momentos de abertura daquilo que fere e causa sofrimento, angústia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Por outro lado, nas consciências pautadas pelo princípio feminino, pode se manifestar através de manipulações emocionais sutis e perversas; pelo controle da vida e dos movimentos do outro com uma voz aveludada e mansa; pela ambiguidade proposital de palavras, falas e atos; pela sedução e jogo de sinais afetivos deturpados e com aroma podre; ou até mesmo pelo uso efetivo e camuflado de benefícios que esconde a busca por um novo pai e não um parceiro ao lado.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Dizer que um indivíduo “teve um acesso de raiva” significa que algo caiu sobre ele e o subjugou; que o demônio está montado nele; que está possesso e que alguma coisa penetrou em seu íntimo.</p><cite>Jung, OC.8.2, §627</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">É importante destacar que gentileza e proteção, compaixão e apoio, atos de afeto e trocas são raízes de qualquer relacionamento saudável que busca uma construção conjunta. Entretanto, quando a invisibilidade do outro; quando há a percepção de um corpo vivo como um objeto ou um negócio que pode angariar benefícios; quando a minha total inconsciência sobre o que me desafia e me atravessa; a terra alquímica da união entre polos diferentes se torna seca, abrindo rachaduras através das quais o clamor das sombras e o grito dos titãs internos saem e fazem presença. Sendo todo esse processo iluminado com a coroa da violência e da destruição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-fenomeno-moderno-comum-na-atualidade-e-colocar-estigmas-nas-relacoes-padroes-de-classificacao" style="font-size:20px">Um fenômeno moderno comum na atualidade é colocar estigmas nas relações, padrões de classificação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A fuga de relações profundas ao classificar “ficantes” em várias categorias cobra seu preço quando a ausência do contato (necessidade arquetipicamente humana) fala mais forte. Ao se colocar barreiras, requisitos a serem conquistados, avaliações empresariais e capitalistas em um campo afetivo e de aproximação e constituição de vínculos, uma faixa preta de alienação é amarrada nos olhos, na percepção de alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A máquina das redes socias em criar fantasias, as denúncias falsas de agressões de parceiros/as, a demonização e destruição da imagem masculina com a vulgarização interesseira da feminina alimentam nossos titãs. Formas de violência profunda que permeiam o campo social e coletivo. Se engana quem pensa que essa força agressiva, titânica, estimulada a todo instante “desaparece” em um passe de mágica ou por discursos ideológicos. É necessário o enfrentamento de si mesmo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A culpa coletiva psicológica é uma fatalidade trágica; atinge a todos, justos e injustos, que, de alguma maneira, se encontravam na proximidade do crime.</p><cite>Jung, OC.10/2, §405</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mais-uma-vez-a-sombra-coletiva-tem-seu-peso-sua-voz-e-sua-forca-de-atuacao-no-inconsciente-coletivo-e-pessoal" style="font-size:20px">Mais uma vez, a sombra coletiva tem seu peso, sua voz e sua força de atuação no inconsciente coletivo e pessoal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Aquilo que não é reconhecido na dinâmica coletiva se manifesta em dinâmicas particulares, seja em relacionamentos seja em uma indisponibilidade para criar vínculos. O caminho não é a instrumentalização dessa força para se obter lucro, mas sim uma identificação, mediação, integração e diálogo não excludente da sua própria existência e eficácia.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importunam, diretamente ou indiretamente, como por exemplo traços inferiores de caráter e outras tendências incompatíveis.</p><cite>Jung, OC.9.1, §513</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Por fim, a amplitude da experiência humana, que permite uma ampliação de consciência, está sendo encaixotada em uma esteira de massificação e padronização de produtos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O produto do relacionamento perfeito, instagramável, que atende todos os requisitos de um casal margarina que anda pelos campos com um cachorro <em>gold retriver</em>. Ou seja, uma ilusão que captura e sequestra a possibilidade de transformação mútua quando se relaciona afetivamente com alguém. A propaganda é: compre esse produto e não se preocupe em integrar os conteúdos sombrios e dos complexos. A máquina das redes socias e denúncias fazem o resto.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Quando os titãs capturam os relacionamentos afetivos e a violência vira seu palco&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/H_tk5-ZsZbc?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pedro-rocha/">Pedro Pimentel Rocha &#8211; Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique</strong>.<strong>OC.8.2</strong> Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo. OC.9/1</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Aion. Estudo sobre o simbolismo do Si-mesmo</strong>.<strong>OC.9.2</strong> Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Presente e futuro. OC.10/1</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Aspectos do drama contemporâneo. OC.10/2</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Civilização em transição. OC.10/3</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Mysterium Coniunctionis. OC.14/1</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Mysterium Coniunctionis. OC.14/2</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARCH, J. <strong>Mitos clássicos</strong>. 2ªd – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016</p>



<p class="wp-block-paragraph">MONICK, E. <strong>Castração e fúria masculina: a ferida fálica</strong>. São Paulo: editora paulinas, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>A nova pandemia global: o vírus da indiferença</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-nova-pandemia-global-o-virus-da-indiferenca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Pimentel Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Aug 2025 14:10:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[guerras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Neste artigo, a indiferença ganha palco, mostrando como esse vírus simbólico atua em diferentes campos da vida humana e coletiva. Como também seus efeitos e como todos nós estamos propensos à anestesia da nossa alma em uma época na qual o Eu individualista é constantemente estimulado. Um paralelo com os rumores de guerra é [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Neste artigo, a indiferença ganha palco, mostrando como esse vírus simbólico atua em diferentes campos da vida humana e coletiva. Como também seus efeitos e como todos nós estamos propensos à anestesia da nossa alma em uma época na qual o Eu individualista é constantemente estimulado. Um paralelo com os rumores de guerra é levantado como fenômeno colateral da contaminação do ser indiferente à vida, às pessoas, ao mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre rumores de guerra e comportamentos cada vez mais destoantes daquilo considerado como alma, um vírus invisível se espalha pela sociedade levantando muros e promovendo a anestesia da vida e das relações: a indiferença.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nunca foi tão comum nos depararmos com frases e súplicas anunciando: “<strong>o que está acontecendo com as pessoas? Todo mundo ficou doido? Estamos regredindo para um estado animalesco? A cegueira se tornou coletiva? Estamos na geração de zumbis</strong>?”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma característica fundamental do ser humano é a possibilidade de se sentir afetado, tocado, remexido, por algo; afinal a alma e o corpo possuem poros que permitem a penetração das experiências do mundo e a consecutiva expressão da sensibilidade. Na psicologia junguiana, a anima mundi é um conceito bastante difundido, embora negado e coibido a todo instante na atualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <em><strong>anima mundi</strong></em> é uma sensibilidade primordial presente desde quando o homem vive imerso na natureza intercambiando ações, construções e interrelações. É a alma do mundo, a alma que liga todos os seres, a natureza e formas de vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-discorre-sobre-anima-mundi-ao-citar" style="font-size:19px">Jung discorre sobre anima mundi ao citar:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Diz ele que o <em>sensus naturae</em> é um sentido superior à capacidade perceptível do homem, e insiste, que os animais também o possuem.  A doutrina do <em>sensus naturae</em> desenvolveu-se a partir da ideia da alma do mundo que tudo penetra e da qual se ocupou também um outro Guilielmus Parisiensis, predecessor de Alvernus, e conhecido por Guillaume de Conches, escolástico platônico que ensinou em paris.” (OC 8/2, §393)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alma-do-mundo-e-uma-forca-natural-responsavel-por-todos-os-fenomenos-da-vida-e-da-psique-jung-oc-8-2-393" style="font-size:19px">“A alma do mundo é uma força natural, responsável por todos os fenômenos da vida e da psique.” (Jung; OC.8/2, §393)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os significados e a profundidade basilar da experiência humana são construídos pela relação, pelo intercambiar, nunca por isolamento ou apatia. Jung, de forma bastante esclarecedora, comenta:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Da mesma forma que as diversas partes de um organismo vivo atuam simultaneamente, numa harmonia recíproca e significativa, assim também os acontecimentos do mundo se acham mutuamente numa relação significativa, que não pode ser deduzida da causalidade imanente” (Jung, OC.8/3, §917).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando viver é algo pesado, sem sentido e totalmente automático, não há mais o Eros, a capacidade de se relacionar com aquilo que chega até mim, seja por anestesiar a minha existência ou por um isolamento narcísico daquilo que me toca. Se não há relacionamento, a tensão necessária para que ocorra a transformação e o desenvolvimento da consciência é enterrada, solapando potências e a possibilidade de diferenciação e integração da multiplicidade da vida. A <em><strong>anima mundi</strong></em> e o encanto perfumando da Anima entram na lista dos procurados; e, contaminadas pelo vírus da indiferença, pessoas e estruturas de uma sociedade (baseada no consumo, na disputa e na concorrência) acabam sendo drenadas e desconfiguradas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-emma-jung-contribui-recitando-as-seguintes-palavras" style="font-size:19px">Emma Jung contribui recitando as seguintes palavras:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“O papel de transmitir conteúdos inconscientes, no sentido de torná-los visíveis, recai acima de tudo sobre a anima. Ela ajuda na percepção de coisas que de outra maneira permanecem no escuro. Há uma condição prévia para isso: trata-se de uma espécie de escurecimento da consciência, portanto da instalação de uma consciência mais feminina, que é menos penetrante e clara que a masculina, mas que num âmbito mais amplo percebe coisas ainda vagas” (Emma, p. 45, 2020).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os rumores de guerra externas clamam pela conscientização da cisão interna presente na subjetividade da massa e pela identificação de si com a disputa emocional com aqueles que habitam o mundo &#8211; pautado no vencer a todo custo. Na ausência da relação com o outro, as referências são perdidas e impossíveis de serem construídas, reformuladas. Tanto as referências pessoais como as coletivas se perdem. Assim, o <strong>inconsciente coletivo</strong> ganha energia psíquica e seus conteúdos primitivos e arcaicos, representados por imagens arquetípicas, invadem o campo consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como resultado, a função primordial do discernimento, da mediação e da correlação do ego e do campo da consciência ficam abalados, prejudicados. Deste modo, o comportamento de massa e a indiferença e apatia, a incapacidade de se indignar, se alastram como um vírus. O mais letal de todos, sucumbindo a humanidade e provocando uma guerra consigo mesmo, com a natureza, com as diferentes formas de vida, com o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">&nbsp;A criatividade, a capacitar de criar, é possível quando a opostos se tensionam, se relacionam. A apatia e o sentimento de solidão se fortalecem quando nada mais é criado, nada mais é tensionado. Várias terapias e técnicas são criadas com o intuito de trazer sentido e significado para uma realidade seca e fria, sem contatos, sem troca e sem a capacidade de se indignar perante a realidade imposta. Será que são eficientes em um mundo contaminado pela indiferença?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-todo-ser-criador-e-uma-dualidade-ou-uma-sintese-de-qualidades-paradoxais-por-um-lado-ele-e-uma-personalidade-humana-e-por-outro-um-processo-criador-impessoal-jung-oc-15-157" style="font-size:19px">“Todo ser criador é uma dualidade ou uma síntese de qualidades paradoxais. Por um lado, ele é uma personalidade humana, e por outro, um processo criador, impessoal.” (Jung, OC 15, §157)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A capacidade de ação e de escolha criativa, rica, múltipla perpassa pelo conhecimento do mundo do outro, pelo palco desconhecido por mim. É no cruzar fronteiras, é o sair da estagnação, é ouvindo o grito do arquétipo do herói que realidades são transformadas e nosso mundo interno renovado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com a inovação da inteligência artificial (que chegou no mundo levantando dúvidas sobre o futuro da humanidade), a fantasia de uma solução imediata, virtual e fria se tornou uma obsessão. Algo a se conquistar a todo custo. Campo fértil para que o vírus da indiferença se alastre.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Logo, vale a pena destacar as principais áreas de atuação do vírus da indiferença</strong>: relacionamentos afetivos que não mais se sustentam; a vivência interna que aumenta o conhecimento de nós mesmos se tornando cursos de coaching; e a diminuição do contato com outro ser humano estimulando a loucura. Deste modo, a subvalorização dos elementos do princípio feminino (como receptividade, sensibilidade, acolhimento, abertura para o outro, se relacionar) se torna um efeito colateral perigoso, indesejado e brutal.  </p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“ela (a anima) é algo que vive por si mesma e que nos faz viver; é uma vida por detrás da consciência, que nela não pode ser completamente integrada, mas da qual pelo contrário esta última emerge” (Jung, OC.9/1. §57)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Há uma demanda crescente na prática clínica sobre a dificuldade em construir relacionamentos ricos em troca, em encontrar pessoas abertas e disponíveis para uma união, em sustentar os desafios e os sabores amargos presentes em um se relacionar, em se entregar para um outro corpo tanto nas relações sexuais como no conhecimento do próprio prazer e seus limites. O vírus da indiferença contamina o campo relacional e a possibilidade do vínculo, pois todo encontro é também uma transformação de sistemas psíquicos diferentes interagindo constantemente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quanto-mais-se-busca-a-independencia-e-a-indiferenca-mais-guerras-pela-busca-do-amor-sao-travadas" style="font-size:19px">Quanto mais se busca a independência e a indiferença, mais guerras pela busca do amor são travadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Emma Jung</strong> explica: “<strong><em>A configuração de relações pertence preferencialmente à configuração da vida, e esta é a área apropriada para a energia criativa feminina</em></strong>” (Emma, p.39, 2020)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A terceirização do próprio processo de conhecimento e desenvolvimento de consciência é o mais novo produto das prateleiras digitais e marketing em redes sociais. Um requisito fundamental para qualquer jornada de individuação é sair da postura de indiferença consigo mesmo e olhar todos os contrastes e conteúdos sombrios que nos tocam e provocam. Não há curso digital que substituirá a própria jornada e construção de um conhecimento de si próprio. Não há integração de conteúdo inconsciente de forma automática e paga, mas sim através de um processo pessoal, singular, subjetivo, reflexivo. Assim, ser indiferente ao próprio processo é se identificar com o processo do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-von-franz-comenta" style="font-size:19px">Von franz comenta:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“A única orientação que recebem é na reunião com outros xamãs, mediante a troca de experiências, o que lhes possibilita não estarem a sós com suas experiências interiores. De um modo geral, os mais jovens procuram os xamãs mais velhos, receosos de que se não o fizerem poderão enlouquecer, como também nos aconteceria” (Franz, p.30, 2022).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando não se tem com quem compartilhar nossas angústias, sonhos e temores, quando a indiferença assume o palco da vida, a loucura se torna uma via de escape, uma via para a expressão dos conteúdos inconscientes, compensando a vida que deixou de ser humana e ficou estéril.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por fim, é no comungar, no se aproximar, no se permitir afetar e ser tocado, no contato com o outro, que se reconhece a verdade natureza da alma humana. Como consequência, se afasta o autoritarismo e a ilusão da individualidade absoluta preponderante que vai dominando e destruindo outras formas de vida diferentes. Rompantes autoritários pelo mundo nunca foram tão frequentes. Demostrando assim que <strong>o</strong> <strong>vírus letal da indiferença não é mais apenas individual, mas coletivo</strong>. Reforçando a ideia junguiana de uma psicologia pautada em um intercâmbio entre o individual e o coletivo, entre o singular e o arquetípico.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: A nova pandemia global: o vírus da indiferença" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/MZ-gZStTXkE?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/pedro-rocha/">Pedro Pimentel Rocha &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, V. <strong>Alquimia. Uma introdução ao simbolismo e seu significado na psicologia de Carl. G. Jung. </strong>2º. Ed<strong>.</strong> São Paulo: Editora Cultrix, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, E. <strong>Animus e anima. Uma introdução à psicologia analítica sobre os arquétipos do masculino e feminino inconscientes</strong>. 2º. Ed<strong>.</strong> São Paulo: Editora Pensamento Cultrix, 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>O espírito na arte e na ciência</strong>. OC.15. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique</strong>. OC.8/2. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Sincronicidade</strong>. OC.8/3. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. OC.9/1. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A armadilha do super desempenho e do excesso de positividade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-armadilha-do-super-desempenho-e-do-excesso-de-positividade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Denise Largman]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Feb 2025 18:36:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Burnout]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[função transcendente]]></category>
		<category><![CDATA[Han]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade do canasaço]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade do desempenho]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10208</guid>

					<description><![CDATA[<p>A pressão interna, exigente de perfeição, de produtividade, de utilidade, vem nos transformando em verdadeiras máquinas eficientes enquanto que, ao mesmo tempo, vivemos um século marcado por várias doenças psíquicas, como a Depressão, Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), Transtorno de personalidade  limítrofe  (TPL),  Síndrome  de  Burnout (SB).  Byung-Chul Han desenvolve esse tema [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A pressão interna, exigente de perfeição, de produtividade, de utilidade, vem nos transformando em verdadeiras máquinas eficientes enquanto que, ao mesmo tempo, vivemos um século marcado por várias doenças psíquicas, como a Depressão, Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), Transtorno de personalidade  limítrofe  (TPL),  Síndrome  de  Burnout (SB). </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Byung-Chul Han</strong> desenvolve esse tema em seu ensaio <em>A Sociedade do Cansaço</em>, mostrando como nós, ocidentais, estamos doentes em decorrência do nível de auto exploração e auto extorsão do “sujeito de desempenho”. Aqui trago essa temática à luz da psicologia analítica, que nos mostra a problemática da <strong>unilateralidade da consciência e a negação da sombra.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hoje-nega-se-a-falta-de-capacidade-de-ser-tao-produtivo-e-de-nao-termos-que-ser-uteis-a-todo-momento-hoje-somos-uma-sociedade-em-que-o-chefe-e-interno-bem-diferente-da-sociedade-do-seculo-passado-em-que-havia-um-controle-com-normas-rigidas-e-punicoes-para-quem-descumprisse-o-estabelecido-as-pessoas-tinham-algo-ou-alguem-externo-para-ser-combatido-a-ser-negado" style="font-size:18px"><strong>Hoje nega-se a falta de capacidade de ser tão produtivo e de não termos que ser úteis a todo momento</strong>. Hoje somos uma sociedade em que o chefe é interno, bem diferente da sociedade do século passado em que havia um controle com normas rígidas e punições para quem descumprisse o estabelecido. As pessoas tinham algo ou alguém externo para ser combatido, a ser negado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Hoje o opressor mora dentro de nós, pedindo mais, exigindo mais, numa coação interna. Então surgem os conflitos.</strong> Percebemos, através de muita dor, que a busca da produtividade ilimitada e da <em>performance</em> impostas pela nossa autocobrança, não estão em ressonância com o si-mesmo. Quando somos os comandantes de nossas próprias vidas há um amadurecimento, que não está livre de sofrimento, já que é necessária a escuta interior do nosso lado sombrio.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>A integração desses opostos pode nos levar a um novo tipo de sociedade, que não será controladora, nem de desempenho, mas integral e humana.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-preciso-mais-preciso-de-mais-preciso-demais" style="font-size:18px">PRECISO MAIS, PRECISO DE MAIS, PRECISO DEMAIS!!!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Acredito que cada vez mais vemos acontecer, ao nosso lado, ou conosco mesmos, a exigência da perfeição, da produtividade total, da necessidade de ser útil, estimulados por uma voz dominadora interior dizendo sempre: você não fez o bastante, eu sei que pode mais!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Byung-Chul Han</strong> (2017), filósofo coreano e professor de filosofia na Universidade de Berlim tornou-se popular no Brasil com seu ensaio<strong> <em>Sociedade do Cansaço</em></strong><em>.</em> Nele Han coloca que a sociedade do início do séc. XXI é marcada, patologicamente, por doenças neuronais, como a depressão, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a síndrome de burnout (SB), diferentemente do século anterior, marcado pela loucura e a delinquência. E o que aconteceu?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-excesso-de-controle-e-negatividade-externos-caminhamos-para-o-excesso-de-positividade-e-coacao-internas" style="font-size:18px">DO EXCESSO DE CONTROLE E NEGATIVIDADE EXTERNOS, CAMINHAMOS PARA O EXCESSO DE POSITIVIDADE E COAÇÃO INTERNAS</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No século passado, diz Han, vivíamos uma sociedade controladora, havia uma estrutura externa nos monitorando, normas a serem seguidas e, sujeitos que não se adequavam às regras, eram punidos. Havia também uma nítida divisão entre quem era amigo ou inimigo, o que era próprio ou estranho e, como defesa, atacava-se o diferente, “em virtude de sua alteridade”. A divisão também se encontrava no tempo: horas de trabalho, horas de escola, horas de lazer. Não havia nenhuma dificuldade com a determinação de espaço/tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta era a sociedade da negatividade, ou seja, havia algo externo a nós, o impositor, o chefe, o padre, o pai, e que também era passível de ser combatido. Lutávamos para vencer as proibições ou as regras que eram impostas externamente a nós ou então simplesmente nos submetíamos a elas. Mas vencemos!!!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hoje não temos mais isso. Segundo Han (Cf. HAN, 2017, pp. 23-30), a sociedade do séc. XXI é determinada pelo desempenho, pela hiperprodutividade, pelo poder ilimitado da positividade. Tornando a pessoa seu próprio chefe, seu próprio algoz, forçando-a a ultrapassar todos os limites, porque é apregoado que ela pode, basta esforçar-se. Hoje não existe mais a figura do agente controlador, o sujeito faz esse papel consigo mesmo, ele é o dono do seu próprio destino. Mistura-se liberdade com coação interna, de sempre ter que ser melhor, e nada escapa ao excelente desempenho, como superar o número de passos que andamos num dia, ou quantos litros de água conseguimos tomar, ou seja, qualquer instância é passível de ser performada. A competição interna, imposta pelos seus pares, pelas mídias sociais e por uma persona perfeccionista levam o sujeito aos limites extremos de exigência própria em todos os setores da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sem-chefe-passamos-a-produzir-mais" style="font-size:18px">SEM CHEFE PASSAMOS A PRODUZIR MAIS</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Esta é a forma mais eficaz que a sociedade capitalista encontrou de alcançar patamares cada vez mais altos de produção e consumo desenfreado, como Han coloca:</strong></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Para elevar a produtividade, o paradigma da disciplina é substituído pelo paradigma do desempenho ou pelo esquema positivo de poder, pois a partir de um determinado nível de produtividade, a negatividade da proibição tem um efeito de bloqueio, impedindo um maior crescimento. A positividade do poder é bem mais eficiente que a negatividade do dever. Assim o inconsciente social do dever troca de registro para o registro do poder. O sujeito de desempenho é mais rápido e mais produtivo que o sujeito da obediência. </p><cite>(HAN, 2017, p. 25)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Han, o Burnout e a Depressão ocorrem pela imposição social da <em>performance, </em>o que segundo ele, produz “infartos psíquicos”. O sujeito depressivo “não pode mais poder”, levando-o a sentimentos de culpa, invalidez, autoacusações e a uma autoagressão, em guerra consigo mesmo: “A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade. Reflete aquela humanidade que está em guerra consigo mesma” (HAN, 2017, p.29).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo Maslach &amp; Jackson, “a Síndrome de burnout pode ser considerada uma resposta crônica aos estressores interpessoais advindos da situação laboral, uma vez que o ambiente de trabalho e sua organização podem ser responsáveis pelo sofrimento e desgaste que acometem os trabalhadores”. (<em>apud</em> CARDOSO <em>et al</em>, 2017, p.122)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-negacao-do-que-vem-do-lado-contrario" style="font-size:18px">NEGAÇÃO DO QUE VEM DO LADO CONTRÁRIO</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Todas essas reflexões mostram uma problemática já levantada por Jung no século passado, quando não existiam essas terminologias: a cisão entre os conteúdos do consciente e inconsciente (JUNG, 2014, p.31).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tanto o excesso de negação como o excesso de positividade são unilaterais. A unilateralidade provoca cisão, pois no inconsciente a força contrária cresce proporcionalmente a sua repressão. A positividade nega a negatividade e vice-versa. Tanto a sociedade controladora, quanto a sociedade do desempenho, são contraditórias, sofrem pressão do seu oposto de forma neurótica. A sociedade apenas mudou a sua forma, mas continua unilateralizada e com certezas absolutas!</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Cada um de nós evita encarar seus problemas, enquanto possível. Não se deve mencioná-los, ou melhor ainda, nega-se a sua existência. [&#8230;] Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem, entretanto, nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento. [&#8230;] Para obtermos certeza e claridade, precisamos de uma consciência mais ampla e superior. </p><cite>(JUNG, 2013, p.344)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-afinal-sermos-os-comandantes-de-nossas-proprias-vidas-nao-e-uma-coisa-boa" style="font-size:17px">MAS, AFINAL, SERMOS OS COMANDANTES DE NOSSAS PRÓPRIAS VIDAS NÃO É UMA COISA BOA?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung, em uma conferência sobre <strong><em>As etapas da vida human</em>a</strong>, explica como ocorre o processo de desenvolvimento da infância para a juventude, bem semelhante ao processo que levou a sociedade controladora para a sociedade do desempenho:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>No estágio infantil da consciência, ainda não há problemas; nada depende do sujeito, porque a própria criança ainda depende inteiramente dos pais. [&#8230;] Até este período, a vida psicológica do indivíduo é governada basicamente pelos instintos e por isto não conhece nenhum problema. Mesmo quando limitações externas se contrapõe aos impulsos subjetivos, estas restrições não provocam uma cisão interior do próprio indivíduo. Este se submete ou as evita, em total harmonia consigo próprio. Ele ainda não conhece o estado de divisão interior, induzido pelos problemas. Este estado só ocorre quando aquilo que é uma limitação exterior torna-se uma limitação interior, isto é, quando um impulso se contrapõe a outro. </p><cite>(JUNG, 2013, pp. 346-347)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste texto Jung mostra a questão do desenvolvimento, que nos parece bem semelhante com o processo que ocorreu com a sociedade, partindo de um sistema controlador, como ocorre com a criança que depende inteiramente dos pais, agentes externos, e desenvolve-se para a juventude, quando o agente limitador passa a ser interno. Não existe mais um chefe de fora, regulador. Este agora é um algoz interior, exigente de desempenho, de performance, de produtividade, de utilidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-de-evolucao-doi" style="font-size:18px">O PROCESSO DE EVOLUÇÃO DÓI</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Parece que o nível que a sociedade se encontra hoje é um patamar além da sociedade anterior, porém não livre de sofrimento. Jung, na mesma conferência, coloca que apenas conhecemos conteúdos que estejam ligados a outro e só podemos alcançar um nível de consciência mais alto quando já tivermos passado pelo processo anterior (Cf. JUNG, 2013, p. 346), ou seja, o nível que a sociedade se encontra hoje é a evolução da sociedade anterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porém, essa evolução está se mostrando bem doída. Jung exprime, no seguinte trecho, como o processo de conscientização é penoso: “[&#8230;] e é assim que vemos qualquer problema que nos obriga a uma consciência maior e nos afasta mais ainda do paraíso de nossa infantilidade inconsciente”. (JUNG, 2013, p. 344).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-sim-voce-pode-nao-esta-em-ressonancia-com-o-si-mesmo" style="font-size:18px">O “SIM, VOCÊ PODE!” NÃO ESTÁ EM RESSONÂNCIA COM O SI-MESMO</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Han aponta o Burnout e a depressão como estados do ser que não pode mais, que chegou no seu limite total. Jung nos fala: “<strong>só o Ser Humano adulto é que pode ter dúvidas a seu próprio respeito e discordar de si mesmo</strong>.” (JUNG, 2013, p. 347). O conflito desse sujeito para com essa sociedade está na sua percepção de que a vida em busca de produtividade ilimitada, <em>performance,</em> empenho total à nível físico e emocional, impostos pela consciência coletiva através de seus pares, das mídias sociais e de um complexo do ego motivacional que lhe diz o tempo todo “sim, você pode”, não está em ressonância com o si-mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este é um indivíduo problemático, mas não neurótico como o restante da sociedade autômata. “O neurótico é doente porque não tem consciência dos seus problemas, ao passo que o indivíduo problemático sofre com seus próprios problemas conscientes sem ser doente”. (Cf. JUNG, 2013, p. 348)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao" style="font-size:18px">CONCLUSÃO:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viver como seres conscientes é um processo árduo. Muito mais fácil, até certo ponto, seguir a manada como seres autômatos. Porém a alma nos impulsiona. Os sintomas da cisão com o nosso verdadeiro propósito de vida são pesados! Vemos isso justamente em todos os casos existentes de doenças que se manifestam na esfera psíquica, social, espiritual e física. Essa sociedade cansada está realmente esgotada, como Han fala, “infartados psíquicos” (Cf. HAN, 2017, p. 27). Sem dúvida o fato de termos chegado nesse nível de sociedade, em que possuímos o impulso interno para nossa superação, é um ganho. Porém precisamos aprender a escutar o nosso lado sombrio, que não quer performar, que não quer ser o melhor. Esse lado existe e não pode ser abafado. <strong>O si-mesmo é o centro psíquico integrador desses dois lados</strong>!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A função transcendente, trazida por Jung, é uma função do ser humano e por isso é natural, segue seu caminho, queiramos aceitá-la ou não. Porém, para que a união desses opostos ocorra há necessidade de haver uma leitura simbólica que una essas antinomias, senão o cansaço ou as doenças serão apenas eventos, e nada mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Então, evoluamos mais! Já saímos da sociedade controladora, estamos na sociedade do desempenho e, com muito esforço de consciência, individualmente poderemos alcançar a integração com o si-mesmo e assim uma sociedade mais humana e consciente!&nbsp;&nbsp;</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Denise Largman &#8211; Analista em formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/liaromano/"><strong>Lia Romano &#8211; Analista Didata IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">CARDOSO, Hugo Ferrari, <em>et al</em>. Síndrome de burnout: análise da literatura nacional entre 2006 e 2015. In: <em>Rev. Psicol., Organ. Trab</em>.&nbsp;vol.17&nbsp;no.2&nbsp;Brasília&nbsp;Abr.- Jun.&nbsp;2017. Disponível em:&lt;<a href="https://doi.org/10.17652/rpot/2017.2.12796">https://doi.org/10.17652/rpot/2017.2.12796</a>&gt;. Acesso em: 14 nov. 2024.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HAN, Byung-Chul. <em>A sociedade do cansaço</em>. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; <em>A natureza da psique</em>. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">______. <em>Psicologia do inconsciente</em>. 24 ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Um olhar Junguiano para a Inclusão: Integração, Sombra e Singularidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-olhar-junguiano-para-a-inclusao-integracao-sombra-e-singularidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 20 Dec 2024 15:20:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A inclusão é o tema de muitas discussões na contemporaneidade, abordando a necessidade de acolher a diversidade humana e promover equidade. Iniciei minha trajetória profissional dentro da Educação e assim percorri esse caminho durante 33 anos da minha vida, professora de séries iniciais e alfabetizadora com muito orgulho. Durante essa jornada, me deparei com alguns [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A inclusão é o tema de muitas discussões na contemporaneidade, abordando a necessidade de acolher a diversidade humana e promover equidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Iniciei minha trajetória profissional dentro da Educação e assim percorri esse caminho durante 33 anos da minha vida, professora de séries iniciais e alfabetizadora com muito orgulho. Durante essa jornada, me deparei com alguns casos de inclusão, inclusive foi o que me motivou a cursar a psicopedagogia para entender como funcionava a “mente’ dessas crianças com TDAH, DISLEXIA, TOD, depressão e ansiedade infantil e nos últimos anos de sala de aula, TEA. Sim, entender como eles processam as informações e como veem o mundo que, com certeza, não é igual a mim ou de muitos de vocês.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-afinal-o-que-e-inclusao" style="font-size:19px">Afinal, o que é inclusão?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">O pesquisador Romeu Kasumi Sassaki (2002) conceitua “inclusão social” como o processo pelo qual a sociedade se adapta para poder incluir, em seus sistemas sociais gerais, pessoas com necessidades especiais e, simultaneamente, estas se preparam para assumir seus papéis na sociedade. A “inclusão social” constitui, então, um processo bilateral no qual as pessoas, ainda excluídas, e a sociedade buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidade para todos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-trouxe-algo-sobre-a-inclusao" style="font-size:19px">Jung nos trouxe algo sobre a inclusão?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Ele nos trouxe uma visão muito profunda da psique humana onde os conceitos de individuação, arquétipos, inconsciente individual e coletivo, sombra, anima e animus são primordiais. E, sob a ótica da Psicologia Analítica, a inclusão pode ser entendida tanto como um processo externo como interno, relacionado a integração da sombra e à incessante busca pela luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Neste artigo, pretendo olhar alguns <strong>conceitos junguianos</strong> como ferramentas para que possamos enriquecer a compreensão da inclusão. Ampliando seu significado para além do âmbito social e político.  </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Até a segunda metade do séc. XX não havia sequer a distinção entre as categorizadas “Doenças mentais”. As famosas <strong>salas especiais</strong> eram designadas a surdos e cegos de elite burguesa, outros encaminhados para hospícios ou asilos correcionais. Segundo <strong>Sá</strong> (2009, p.26) “<em>A denominada Educação Inclusiva nasceu nos Estados Unidos, pelas mãos da Lei Pública 94.142, de 1975</em>”, dando início a projetos voltados para efetivar a Educação Inclusiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5"><strong>Minetto</strong> (2010 p. 46) discorre que a luta pela inserção e normalização das pessoas com necessidades especiais fortaleceu-se no século XX através do movimento denominado de “Paradigma da Integração”, que defendia o direito do aluno com necessidades educacionais especiais (ANEE) se matricular na escola regular, desde que ele se adaptasse as condições e estrutura da escola, ou seja, a instituição escolar continuava rígida e ilesa. Tanto o ambiente como a metodologia permaneciam intactos, os alunos com necessidades especiais que deveriam se adequar e enfrentar os seus próprios desafios.  Desde o ocorrido será que o nosso Sistema Educacional vigente mudou muito?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fortalecimento-da-luta-pelos-direitos-vem-se-intensificando-novos-pontos-de-vista-vem-sendo-discutidos-e-desenvolvidos-porem-ainda-ha-muita-discrepancia-entre-conceitos-e-praticas" style="font-size:18px">O fortalecimento da luta pelos direitos vem se intensificando, novos pontos de vista vêm sendo discutidos e desenvolvidos, porém ainda há muita discrepância entre conceitos e práticas!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Enfim, a legislação voltada à educação inclusiva vem se modificando lentamente ao longo dos anos. De modo que percebemos algumas mudanças e movimentos sociais que defendem o direito desses cidadãos. Antigamente eles eram exilados e colocados em lugares distantes, aos poucos um movimento de integração vem ocorrendo e trazendo o direito a participação dessas pessoas a sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Inclusão nos coloca num lugar um tanto quanto desafiador, afinal, quando falamos em inclusão falamos em exclusão, como também em integração e desintegração. Do mesmo jeito é capaz de aceitar e integrar, o ser humano também é capaz de rejeitar e desintegrar; de desassociar e praticar uma verdadeira violência com seu semelhante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-que-estamos-falando-que-um-e-a-sombra-do-outro" style="font-size:19px">Será que estamos falando que um é a sombra do outro?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Segundo Jung “<strong>sombra é a parte negativa da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal</strong>.” (JUNG, 2007b, p.58)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-acreditava-que-todos-tem-uma-sombra-que-ela-e-composta-de-aspectos-reprimidos-ou-negados-da-nossa-personalidade-sendo-assim-qual-seria-a-sombra-da-inclusao-quais-aspectos-sombrios-relevantes-a-serem-levantados-e-desvelados" style="font-size:18px">Jung acreditava que todos têm uma sombra que ela é composta de aspectos reprimidos ou negados da nossa personalidade. Sendo assim qual seria a sombra da inclusão? Quais aspectos sombrios relevantes a serem levantados e desvelados?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Talvez possamos pensar que a dificuldade que encontramos para incluir venha da nossa não aceitação de tudo que nos é sombrio, ou talvez da dificuldade de aceitar o diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Jung não discutiu exatamente o conceito de inclusão, porém através de seu pensamento inovador e inclusivo, ele nos traz que&#8230;</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“A inclusão de uma personalidade humana, única (especialmente quando ligada à natureza divina indefinível), corresponde ao individual absoluto do si-mesmo, que liga o único ao eterno e o individual ao mais geral. O si-mesmo é uma união dos opostos.” </p><cite>JUNG,2012, p.31</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Afinal, incluir ou excluir?  Um é o oposto do outro e, ao mesmo tempo que incluímos os <strong>neurodivergentes</strong>, excluímos outras crianças que também tem direitos que, pelo olhar da sociedade, são vistas como “normais”. Que olhar é esse do atual espírito da época?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Estima-se que de 15 a 20% da população mundial seja <strong>neurodivergente.</strong> No Brasil o IBGE pesquisa a <strong>neurodivergência </strong>junto a demais deficiências, totalizando em pesquisa de julho/2023 (PNAD) um total de 18,9 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência (8,9% do total).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“O termo <strong>neurodiversidade </strong>(<em>neurodiversity</em>) foi usado pela primeira vez em 1998 pela jornalista Judy Singer, que cunhou o termo para promover a ideia de que as diferenças neurológicas, como autismo e TDAH, são variações naturais da função cerebral, em oposição a serem vistos como desordens a serem corrigidas.” </p><cite>Reis, Leandro. Neurodiversidade – Olhando o potencial das diferenças como estratégia- disponível em https:&lt;//labnetwork.com.br/notícias.> Acesso em:09/11/2024</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-voces-percebem-o-quanto-o-pensamento-de-jung-e-atual-e-o-quanto-temos-que-olhar-para-essas-pessoas-neurodivergentes-e-valoriza-las-por-seus-feitos-talentos-e-habilidades" style="font-size:18px">Vocês percebem o quanto o pensamento de Jung é atual e o quanto temos que olhar para essas pessoas neurodivergentes e valorizá-las por seus feitos, talentos e habilidades?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Em seu livro, <em>Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo</em> (2018, p.100) Jung menciona que “<strong>O mundo existe porque seus opostos são mantidos em equilíbrio. O racional é contrabalanceado pelo irracional e aquilo que se planeja, pelo que é dado</strong>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A partir disso, talvez, possamos pensar que o equilíbrio que mantem a vida possível está justamente em aceitar a nossa sombra. E, quando falamos do assunto deste artigo, devemos aceitar os neurodivergentes, pois todos temos nossas divergências.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Quando falamos em inclusão temos que olhar também para as famílias desse sujeito, afinal por trás deles existem outras vidas que também merecem ser atendidas. &nbsp;O que existe por trás dessa criança que precisa ser acolhida e inserida em nossa sociedade? Ou melhor “quem” está por trás desses sujeitos?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-tras-desse-sujeito-existe-uma-familia-um-pai-uma-mae-enfim-cuidadores-que-vivem-a-procura-de-um-diagnostico-com-a-esperanca-que-este-seja-a-resolucao-de-todos-os-problemas" style="font-size:18px">Por trás desse sujeito existe uma família, um pai, uma mãe, enfim cuidadores que vivem à procura de um diagnóstico com a esperança que este seja a resolução de todos os problemas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Assisto a muitas famílias que quando chegam à clínica estão desesperançosas, preocupadas e cansadas de diagnósticos infundados ou mesmo a busca de um profissional que lhe diga o que fazer ou resolva de imediato seu problema. Podemos falar até que estão em busca de um milagre, para que assim todas as dificuldades ocorridas ao longo dos anos, sejam resolvidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Difícil e delicada situação, estamos falando sobre os bastidores da inclusão, um campo completamente invisível, onde os impactos são vivenciados por famílias de sujeitos que não são respeitados em suas singularidades. Enfrentam o luto constante e silencioso pela falta de suporte e compreensão do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">A imagem de inclusão que é vista por fora é muito diferente daquela que acontece no dia a dia dessas famílias, dentro de suas casas, com seus desafios clínicos e toda a rede de apoio, quando existe. Elas vivem a constante expectativa que alguém os acolha e respeite seus filhos que, muitas vezes ou até a maioria das vezes, são rejeitados pela sociedade, que enfrentam olhares de julgamento e palavras de desrespeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Sem falar de como essa criança se sente ao ouvir e vivenciar toda essa “maratona” em médicos e especialistas. Impactante em seu desenvolvimento emocional? Com certeza<strong>! &nbsp;</strong>O sentimento de inadequação e exclusão está impregnado, tolhemos no sujeito a capacidade de sonhar e desejar!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Na clínica, essas dores emocionais, aparecem em forma de sintomas que vão desde comportamentos desafiadores até dificuldade de relacionamento, depressão ou até mesmo ansiedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-como-devemos-olhar-para-esse-sujeito-sera-que-damos-a-devida-atencao-ou-melhor-sera-que-temos-um-olhar-junguiano-para-as-suas-singularidades" style="font-size:18px">E como devemos olhar para esse sujeito? Será que damos a devida atenção, ou melhor, será que temos um olhar junguiano para as suas singularidades?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Quando digo singularidades não estou me referindo apenas ao sujeito e suas particularidades, mas também a toda sua extensão e inserção no coletivo, na sociedade. Penso que, quanto mais a sociedade mantém as práticas assistencialistas, menos está disposta a se modificar e incluir. Afinal, incluir não está somente na capacidade de adaptação de currículos, provas diferenciadas ou PEI’s, ou até mesmo em seus belos discursos, e sim na sensação de pertencimento e respeito as diferentes formas de se expressar e aprender, seja na escola, na clínica ou em qualquer grupo social.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Em muitas escolas ainda faltam profissionais especializados, suporte aos educadores para que se sintam seguros e consigam trabalhar com a inclusão de maneira sensível frente aos desafios diários. Muitas vezes, esses educadores se sentem cansados, desgastados e desmotivados porque trabalham sozinhos, sem apoio da coordenação ou direção.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-infelizmente-ainda-temos-escolas-que-quando-acolhem-casos-de-inclusao-parecem-que-estao-abrindo-uma-excecao-que-estao-fazendo-um-favor-para-aquela-familia" style="font-size:18px">Infelizmente ainda temos escolas que, quando acolhem casos de inclusão, parecem que estão “abrindo uma exceção”, que estão fazendo “um favor” para aquela família.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Infelizmente, quando trabalham com inclusão em sala de aula, os educadores dependem de diagnósticos que lhes são exigidos. Para que, com base nestes diagnósticos, possam promover atividades adaptadas e um ambiente onde há a realização de uma série de prescrições. Com o objetivo de remediar as suas incapacidades, pensando na melhor estratégia educativa para que possa atender toda essa demanda. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Se é inegável que a transformação da cultura da escola constitui uma peça fundamental no processo inclusivo, também é inegável que tem de haver um esforço concentrador em diferentes níveis do sistema – sala de aula, escola, como também num contexto legislativo, político e social mais amplo, afinal a inclusão exige uma transformação da sociedade. Para se criar um sistema educativo promissor,respeitando as necessidades e diferenças dos educandos, reconhecendo que ninguém é igual a ninguém, somos todos diferentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Enfim, precisamos de um olhar atento para esses pontos essenciais, escola- família- especialistas- sociedade. A importância de todos estarem conectados e em sintonia por um único objetivo, criar uma rede de apoio real e segura para garantir a verdadeira inclusão desse sujeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">E a verdadeira inclusão está em atitudes, em fazer com que esse sujeito se sinta parte integrante dos espaços onde vive, valorizando suas diferenças e que suas necessidades emocionais e de suas famílias, também sejam atendidas. Com empatia e vivacidade convidá-los a entrar num jogo, o jogo da vida, despertar a energia faltante e necessária para a sua própria evolução. Claro que sempre respeitando e valorizando as suas singularidades!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica-a-inclusao-transcende-as-fronteiras-do-social-para-se-tornar-um-processo-psicologico-essencial" style="font-size:18px">Sob a perspectiva da Psicologia Analítica, a inclusão transcende as fronteiras do social para se tornar um processo psicológico essencial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Como mencionado acima, a teoria de Jung nos fala que sem a tensão dos opostos a vida não é possível, é somente através dela, que passamos por um processo de construção, o processo de individuação</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">O <strong>processo de individuação</strong>, um conceito central de Jung, promove a realização do verdadeiro EU, “tornar-se um ser único”. Ajudando as pessoas a integrarem suas várias partes, conscientes e inconscientes, luz e sombra, aceitar, flexibilizar e assim, viver de uma forma autêntica e genuína. Para conseguirmos transformar as instituições e ampliar vários aspectos para que de fato se tornem inclusivas, primeiramente temos que “reformar” as mentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5">Assim, a verdadeira inclusão começa dentro de cada um de nós, quando reconhecemos e acolhemos as partes de nós mesmos e do mundo, quando navegamos pelos nossos aspectos luz e sombra. Esse processo, embora desafiador, nos aproxima de uma sociedade mais justa e compassiva, na qual a diversidade é celebrada como um reflexo da totalidade do self coletivo. Harmonizar a relação família-escola, propondo uma prática pedagógica coletiva, dinâmica, flexível e singular. Como dizia nosso imemorável <strong>Paulo Freire</strong> (<em>Pedagogia do Oprimido</em>, 1974) “<strong>Ninguém pode ser autenticamente humano, enquanto impede outros de serem também</strong>.”</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Um olhar Junguiano para a Inclusão: Integração, Sombra e Singularidade&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/W8vjigcJJJ0?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/elaine-cristina-bedin/"> <strong>Elaine Bedin – Membro Analista em Formação IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"> Dra. E. Simone D. Magaldi &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">Bénard da Costa, A.M. (1998). Projeto &#8220;Escolas inclusivas&#8221;. Inovação, 11(2), 57-85.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">JUNG, C. G. O desenvolvimento da Personalidade.14ª ed. Petrópolis, Vozes,2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">_____, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente.10ª ed. Petrópolis, Vozes, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">_____, Carl Gustav, Psicologia e Alquimia, 6 ed.- Petrópolis, Vozes,2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">_____, Carl Gustav. Arquétipos e o Inconsciente Coletivo- Petrópolis, Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">_____, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2007b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">MINETTO, Maria de Fátima Joaquim ET ALL. /Diversidade na aprendizagem de pessoas portadoras de necessidades especiais. / Maria de Fátima Joaquim Minetto ET ALL – Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">SÁ, Márcia Souto Maior Mourão. Legislações e políticas públicas em Educação Inclusiva. 2ª. Ed. – Curitiba: IESDE Brasil S.A., 2009</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">SASSAKI, Romeu Kazumi. Inclusão: construindo uma sociedade para todos.4 ed. Rio de Janeiro: WVA, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">UNESCO (2003). Superar a exclusão através de abordagens inclusivas na educação</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.5">REIS, Leandro-08/04/2024.Disponível em:<a href="https://labnetwork.com.br/noticias/neurodiversidade-olhando-o-potencial-das-diferencas-como-estrategia/">https://labnetwork.com.br/noticias/neurodiversidade-olhando-o-potencial-das-diferencas-como-estrategia/</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Ensaio: O “treinador de vencedores” e o complexo de vítima</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/ensaio-o-treinador-de-vencedores-e-o-complexo-de-vitima/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leandro Scapellato]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Apr 2024 20:00:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[vítima]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8905</guid>

					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, discute-se a complexidade de sair do papel de vítima em busca do sucesso, utilizando a teoria junguiana. Destaca-se a necessidade de acolhimento das experiências traumáticas, confronto dos complexos emocionais e reassunção de responsabilidades para alcançar a verdadeira libertação. O sucesso é redefinido como a capacidade de transformar padrões prejudiciais e assumir o controle sobre a própria vida.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Dia desses uma amiga me enviou um vídeo de um famoso “treinador de vencedores” falando sobre as pessoas precisarem sair do lugar de vítimas se quiserem ter “sucesso” na vida. Ela queria saber minha opinião sobre o “deixar de ser vítima”, e esta aqui é minha resposta, aproveitando para trazer um pouco da teoria junguiana:</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia em si, sobre a necessidade de sair do papel de vítima, guarda a sua verdade. Mas o problema é que quando ela é defendida superficialmente, de maneira generalista, sem uma real análise sobre o que se diz e o que isso significa dentro na complexidade da vida humana particular. Em cada caso, também guarda potencial de <strong>injustiças</strong> extremas e não traz melhora psíquica alguma para o indivíduo — às vezes, inclusive, traz pioras drásticas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Não é preciso buscar muito para assistir “especialistas” de diversas perspectivas invalidando experiências traumáticas, situações sociais e acobertando responsabilidade de agressores como forma de “cura”.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que isso não aconteça, primeiramente é preciso compreender que sair do papel de vítima em nada tem a ver com tirar a responsabilidade de quem atuou ativamente nas injustiças acontecidas, quando elas realmente aconteceram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não à toa, o primeiro passo em um trabalho de cuidado nesses casos é o de acolhimento da dor e da realidade psíquica de quem sofre. Para que essa pessoa possa validar e vivenciar seus sentimentos e emoções frutos do acontecido, sem culpa, e tomar atitudes relacionadas a isso, quando necessárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Sair do papel de vítima não tem nada a ver com essa parte da trajetória, e qualquer profissional que defenda o contrário pode se tornar, também, um agressor de seus clientes</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-entao-o-que-significa-sair-do-papel-de-vitima">Mas, então, o que significa sair do papel de vítima?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em um trabalho sério, no tempo adequado e respeitando as particularidades de cada pessoa, significa, em algum momento do caminho, depois do acolhimento e cuidado das feridas, sair internamente do peso de ser apenas a vítima — ou da glória, porque muitas vezes esse papel pode ser usado para ganhos diversos na vida ou vingança consciente ou inconsciente —, e isso em nada interfere nas esferas objetivas do acontecido, quando existem. Seja ela administrativa, criminal ou judicial, por exemplo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É muito comum pessoas dominadas pelo que chamarei didaticamente de <strong>complexo de vítima </strong>serem guiadas<strong> inconscientemente</strong> por caminhos que tragam novas experiências traumáticas que de alguma maneira lembrem as antigas. Vale ressaltar que os complexos são núcleos afetivos de personalidade, formados a partir de experiências emocionais significativas do indivíduo, e funcionam como aglomerados de conteúdos psíquicos temáticos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se algum complexo se encontra dominante na psique, ele possui relativa autonomia e deseja e se “alimenta” de acontecimentos da mesma temática presente no acontecimento significativo do seu surgimento. Então, para esse complexo específico, que possui em si a temática da injustiça sofrida, é interessante que continuemos a nos colocar em situações traumáticas que venham fortalecer esse lugar de vítima — pois isso, para ele, significa fortalecimento até que ele se torne um imperador tirano absoluto em nossa psique, o dono incontestável de nossa “casa” psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-somos-possuidos-por-um-complexo-somos-guiados-por-ele">Quando somos possuídos por um complexo, somos guiados por ele.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele molda o mundo à nossa volta, influenciando nossas atitudes e oferecendo uma visão favorável a ele, que se impõe hierarquicamente ao ego. Por isso, <strong>o complexo de vítima não nos deixa perceber sinais claros de que alguns caminhos ou pessoas não serão benéficas para a nossa vida</strong> — mas depois que as coisas “dão errado”, todos esses sinais se tornam rapidamente óbvios e, além de nos sentirmos vítimas do outro, tornamo-nos vítimas de nós mesmos, porque costumamos nos julgar negativamente por termos sidos ingênuos. Chamamo-nos de imbecis e nos massacramos a nós mesmos. Repetimos conosco aquilo que afirmamos que o outro fez. <strong>Tornamo-nos nossos próprios algozes.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Primeiramente, guiados por um complexo que esteja exercendo bastante poder em nossa psique, somos atraídos por um algoz em potencial, para que a temática seja fortalecida em nossa vida. <strong>Ficamos fascinados por esse algoz e nos tornamos cegos em relação a esse potencial destrutivo</strong>. E, depois que algo acontece, percebemos essa atração e nos sentimos culpados por ela, por termos “escolhido” isso, e <strong>nos tornamos nossos próprios algozes</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alem-disso-o-complexo-que-se-encontra-dominante-e-capaz-de-controlar-o-que-conseguimos-ver"><strong>Além disso, o complexo que se encontra dominante é capaz de controlar o que conseguimos ver. </strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nós passamos a enxergar apenas o que ele deseja que enxerguemos.  E isso faz com que ele seja capaz de, caso a realidade concreta não seja aquela desejada por ele, criar realidades psíquicas, fantasias, que distorcem a realidade concreta para que nos sintamos vítimas, mesmo quando isso não está acontecendo concretamente. Sobre isso, o analista junguiano <strong>Edward Whitmont</strong> escreveu:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Imagine um motorista de automóvel que, sem saber, está usando óculos de lentes vermelhas. Ele acharia difícil estabelecer a diferença entre sinais de trânsito vermelhos, amarelos e verdes e estaria correndo constante risco de sofrer um acidente. De nada lhe valeria que algumas ou até mesmo a maior parte das luzes que percebe como vermelhas realmente fossem vermelhas. Para ele, o perigo consiste na incapacidade de diferenciar e separar aquilo que sua &#8220;projeção vermelha&#8221; lhe impõe. Quando ocorre uma projeção da sombra, não somos capazes de diferenciar a realidade da outra pessoa dos nossos próprios complexos. Não distinguimos fatos de fantasias. [&#8230;]. (WHITMONT, 1995, p. 145)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Resumidamente, quando caminhamos em direção à repetição de nossas dores, continuamos vítimas e perdemos ainda mais de nossa autonomia. O ego, que deveria colocar ordem “na casa”, como um bom zelador, torna-se apenas um observador fora da hierarquia, impotente em relação ao que acontece. Por seu turno, o complexo de vítima ganha mais poder em nossa psique, para nos guiar novamente para novas roupagens do mesmo caminho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-agora-vamos-ao-ponto-principal-o-que-significa-sair-do-papel-de-vitima">Agora vamos ao ponto principal: o que significa sair do papel de vítima?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Significa um caminho, um processo, que envolve fortalecer o ego positivamente, para que consigamos confrontar o complexo que se encontra dominante em nossa psique e a realidade fantasiada — recolhendo nossas projeções. Significa enxergarmos os sinais de repetição antes que ela aconteça e conseguirmos sustentar uma mudança de atitude — como, por exemplo, não entrar em determinado trabalho que já deixou claro que nos guiará novamente para o excesso negativo; ou não cultivar um relacionamento sério com uma pessoa que já deu sinais claros de ser abusiva. Além de “<strong>tirar os óculos de lentes vermelhas</strong>”, para desmontar conscientemente as nossas fantasias de injustiça, caso elas existam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir desse ponto, significa também, aí sim — percebe o problema do discurso raso do “treinador de vencedores”? —, compreender as próprias responsabilidades no acontecido, mesmo que sutis e fora do mundo concreto, e encontrar leveza nessas responsabilidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando começamos a acessar nossas responsabilidades naquilo que nos acontece repetidamente, é muito doloroso. É infernal — e por isso muitos não chegam até essa fase e preferem se proteger eternamente, de maneira infantil, no lugar de vítima —, mas quando você compreende a dinâmica da vida e que suas responsabilidades, quando existem, não anulam as responsabilidades concretas do outro, isso tudo se torna uma libertação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Enquanto somos apenas vítimas, estamos presos a algo que não podemos mudar, porque está apenas no outro</strong>. Mas quando enxergamos nossas responsabilidades, tornamo-nos capazes de transformar as coisas que estão sob nosso domínio, tirando força e ganhando controle sobre o complexo que teima em guiar nossos caminhos. E isso é uma liberdade porque significa que não mais estamos presos ao que fizeram conosco no passado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E essa é minha definição de “sucesso”.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Ensaio: O “treinador de vencedores” e o complexo de vítima&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/cMPZaWHhP9Y?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leandroscapellato/">Membro-analista em formação: Leandro Scapellato</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Analista didata: Dr. Waldemar Magaldi</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencia">Referência:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">WHITMONT, Edward C. A busca do símbolo: conceitos básicos da psicologia analítica. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossas Pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



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		<title>O Brinco de Ouro da Princesa</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-brinco-de-ouro-da-princesa-mitologia-do-futebol/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jan 2024 22:51:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No Brasil, a relação entre torcedores e seus clubes é uma paixão profunda, integrada à identidade cultural. Além do apoio esportivo, essa conexão cria uma comunidade única, onde as emoções durante as partidas são intensas. Vitórias geram celebrações efusivas, enquanto derrotas podem causar tristeza palpável. Os estádios se tornam templos onde rituais, superstições e tradições fortalecem esse vínculo. As rivalidades entre clubes acentuam ainda mais essa paixão, transformando jogos em embates culturais carregados de história e emoção.<br />
Isso nos leva a questionar se existe uma mitologia do futebol e o que observar essa experiência cultural e emocional que une pessoas de diferentes origens em torno de uma mesma paixão poderia nos ensinar sobre a sociedade contemporânea.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>:<em> No Brasil, a relação entre torcedores e seus clubes é uma paixão profunda, integrada à identidade cultural. Além do apoio esportivo, essa conexão cria uma comunidade única, onde as emoções durante as partidas são intensas. Vitórias geram celebrações efusivas, enquanto derrotas podem causar tristeza palpável. Os estádios se tornam templos onde rituais, superstições e tradições fortalecem esse vínculo.</em> <em>As rivalidades entre clubes acentuam ainda mais essa paixão, transformando jogos em embates culturais carregados de história e emoção. Isso nos leva a questionar se existe uma mitologia do futebol</em>.<em> Um convite para a refletir sobre a sociedade contemporânea,</em> <em>a partir dessa <span>experiência</span></em>, <em><span>cultural e emocional</span>, q<span>ue une pessoas de diferentes origens em torno de uma mesma paixão</span>.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-algumas-semanas-atras-estava-me-perguntando-o-que-poderia-fazer-no-final-de-semana-e-no-sabado-alguns-amigos-indagaram" style="font-size:18px">Algumas semanas atrás, estava me perguntando o que poderia fazer no final de semana, e, no sábado, alguns amigos indagaram:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;-<em>Que tal irmos ao Brinco?</em>&#8220;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“-<em>Que brinco?</em>” perguntei, um tanto surpreso pela proposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;-<em>O brinco de ouro!</em>&#8221; complementaram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não conhecendo ainda muito bem a cidade, fiquei me perguntando que lugar estranho seria esse, mas o convite parecia anunciar a possibilidade de alguma diversão. Fiquei bem curioso…o nome soava como tirado de alguma lenda medieval.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seria-o-palco-de-algum-mito-moderno"><strong>Seria o palco de algum mito moderno?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Q<strong>uando me disseram que o nome completo deste lugar era &#8220;O Brinco de Ouro da Princesa&#8221;,&nbsp;comecei a ficar bem mais animado, pois soava como um verdadeiro convite para aventuras.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">E, eu, imerso no universo de Carl Gustav Jung, em cuja obra, referências a mitos, lendas e histórias ancestrais são tão frequentes que formaram a base da Psicologia Analítica, comecei a imaginar cavalos e cavaleiros, armaduras e donzelas em perigo precisando de resgate imediato, reis, rainhas, princesas e infelizes, mas inevitáveis, guerras para poder conquistar um eterno graal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, não estava tão longe da verdade, pois esse brinco já foi de reis e legião, mesmo se “Urbana”. E lá muito se fala, também, em defesas fortes e ataques imparáveis necessários para as vitórias. Lá se confrontaram inúmeras vezes tropas tramando batalhas para poder levar taças de volta para casa, identificadas por suas bandeiras e brasões coloridos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O “Brinco de ouro” foi um presente dado</strong>, <strong>em 1953</strong>, <strong>a esta que tem o apelido de “Princesa do Oeste”: a cidade de Campinas, no interior de São Paulo. E é hoje o decrépito estádio do Guarani Futebol Clube que há muito tempo não vê nada de ouro.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sei se assistir a uma partida de futebol no Brasil é algo divertido, mas com certeza é uma observação antropológica que nos leva a questionar, à vista de todas as histórias que o país tem relacionadas a esse esporte e à intensidade das emoções que provoca, se haveria uma mitologia do futebol, e em segundo lugar, o que essa mitologia teria para nos ensinar nos dias de hoje.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mitologia">Mitologia</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre que se ouve a palavra mitologia, imediatamente vem à mente a mitologia grega. O conjunto de mitos que eram narrados originalmente de forma oral na Grécia antiga, dos quais os primeiros registros são comumente associados aos poetas Hesíodo e Homero. Certamente todos se lembram do longo poema <em>A Odisseia</em>, que narra a Guerra de Troia e a volta de Ulisses para Ítaca. A mitologia grega, ao longo de todas as histórias de heróis e deuses do Olimpo, acaba por entreter, mas sempre apresentando fenômenos da natureza e valores sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras culturas, por mais que a palavra mitologia não seja empregada, certamente porque nas tradições oriundas das culturas católicas e judaicas essas histórias de deuses e de situações de enfrentamento de elementos naturais que levam à construção de valores e questionamento de modelos sociais são, de forma geral, escritos religiosos e por isso não são sempre vistos assim para a população geral, mas também são mitos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-de-fato-algo-magico-no-futebol-no-mundo-todo-e-especialmente-no-brasil">Há, de fato, algo mágico no futebol no mundo todo e, especialmente, no Brasil.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A imensa maioria dos brasileiros, de todos os gêneros, mesmo os que não seguem quotidianamente o futebol, se une para assistir e fazer a festa quando o Brasil joga na Copa do Mundo. Essa paixão pelo jogo irradia tanto que até se faz sentir nos outros países. E sua relação com a bola redonda virou uma das marcas registradas do povo brasileiro e contribui para colocar o país no <em>mapa mundi</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não é o um fenômeno exclusivo do futebol. Já ouvimos relatos de expatriados dizendo o quanto se emocionavam quando o Ayrton Senna corria, pois sabiam que no domingo o mundo inteiro se lembraria do seu “tão amado país de origem”. Contudo, há sempre uma emoção especial quando a “seleção canarinha” entra em campo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mesmo acontece com os times nacionais. Os torcedores vestem a camisa do seu time do coração em muitas ocasiões, tais como eventos familiares, passeios em shopping e até, às vezes, em situações mais formais, como se fosse um sinal de reconhecimento entre iniciados, de pertencimento a alguma sociedade nada secreta. Tanto quanto com a seleção, para alguns, os resultados do seu clube influenciam diretamente no estado de espírito e podem direcionar as emoções do dia, tão forte é o relacionamento de “amor” com o clube.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-jogadores-sao-vistos-pelos-seus-fas-como-modelos-e-ate-deuses">Os jogadores são vistos pelos seus fãs como modelos e até deuses</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os jogadores são vistos pelos seus fãs como modelos e até deuses e acompanhamos as trajetórias de atletas como o Pelé, que passou de rei do futebol a ministro, e as conquistas fora campo por jogadores tidos como lendas dos gramados, de prazeres absolutamente inalcançáveis para o comum dos mortais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, como os Deuses da Grécia antiga, esses heróis capazes das maiores conquistas nos campos, com arte, talento, inteligência estratégica, também têm defeitos. Lembramos as exuberâncias sociais de Maradona e seu vício em cocaína, de inúmeros escândalos sexuais e diversos crimes que seriam pesadamente cobrados para o comum dos mortais, mas que parecem mais facilmente perdoáveis ou compreensíveis devido à toda a alegria que proporcionam a essa população que, de um pouco de tudo, permanece carente. Mas se podemos perceber, nessas histórias altamente mediatizadas, todos os elementos constitutivos dos mitos, estamos longes de testemunhar o anúncio de alguma nova luz para a humanidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-mircea-eliade-os-mitos-sao-arquetipos-transmitidos-por-meio-da-narrativa-mitica">Para Mircea Eliade os mitos são arquétipos transmitidos por meio da narrativa mítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele nos mostra como o mito é relevante para se compreender determinados comportamentos que surgem na sociedade. O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser (ELIADE, 2011, p.11).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que possamos falar em mitologia, precisaria que essas narrativas dessem lugar a histórias simbólicas que teriam como objetivo, ou pelo menos como efeito, um crescimento ou esclarecimento do funcionamento da coletividade em que estão inseridas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-posto-muitas-similaridades-existem-entre-historias-mitologicas-e-narracao-de-jogos-de-futebol">Isso posto, muitas similaridades existem entre histórias mitológicas e narração de jogos de futebol.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Carlos Byington em seu artigo “O arquétipo da alteridade e a riqueza simbólica do futebol” nos esclarece sobre as funções simbólicas e culturais do futebol. Ele descreve que o jogo é repleto de expressões arquetípicas: imagens e atitudes primordiais que todos nós partilhamos e que nos definem como a “espécie humana’. Explica, ainda, que o jogo acontece geralmente dentro dos dois maiores símbolos Junguianos da totalidade: o quadrado do campo e seus quatro lados e a mandala que é representada pelo círculo da arena (Byington, 1982).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todo jogo começa com a bola no centro e a emoção que toma conta das torcidas quando o árbitro apita o início da partida, chega imediatamente à periferia dessa gigante mandala popular em um frenesi contagiante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deus-e-um-circulo-infinito-cujo-centro-esta-em-todos-os-lugares-e-sua-circunferencia-em-nenhum" style="font-size:20px">“<strong>Deus é um círculo infinito cujo centro está em todos os lugares e sua circunferência em nenhum</strong>”</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E, lembrando <strong>Blaise Pascal</strong> quando disse “<em>Deus é um círculo infinito cujo centro está em todos os lugares e sua circunferência em nenhum</em>”, entendemos o poder numinoso do jogo de futebol.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Byington</strong> (1982) traz também um outro aspecto interessante para entender o fenômeno do futebol. O jogo seria uma expressão viva dos dois principais elementos que constituem a psique humana. Os arquétipos matriarcais e patriarcais. Promovendo uma luta entre a sensualidade feminina, expressa pela criatividade dos lances e refinamento técnico com toda a entrega emocional, que o jogo necessita, e os princípios masculinos, da ordem, força, poder e conquista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Harmonizados, contudo, pelo arquétipo da <strong>alteridade</strong>, ancorado em nossa sociedade pelos mitos de <strong>Cristo</strong> e<strong> Buda</strong>, que “permitem a relação da sensualidade matriarcal e do poder patriarcal em igualdade de condições na personalidade e na Cultura”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alteridade">Alteridade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Arquétipo da <strong>Alteridade</strong> substituiu os exercícios guerreiros pelas competições desportivas, que propõem um confronto de polaridades. Dentre as quais estão o desejo e o poder, a mente e o corpo, a razão e a emoção, a cabeça e o resto do corpo, a grosseria e a destreza, a vitória e a derrota, a euforia e a depressão, a alegria e a tristeza, a inteligência racional e o instinto, sem que um polo destrua o outro (Byington, 1982). E conclui dizendo:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O futebol é um exercício de confrontação de opostos, durante o qual várias emoções são experimentadas, isto é, soltas, exercidas, conhecidas, elaboradas e refinadas. Mais eficiente que qualquer Universidade, o futebol é uma escola de treinamento emocional, democrático e ético da alma coletiva, contendo alto potencial pedagógico civilizador. (Byington, Carlos, 1982)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-aspecto-essencial-quando-observamos-o-futebol-e-sua-dimensao-coletiva">Outro aspecto essencial quando observamos o futebol é sua dimensão coletiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não poderia haver jogos sem torcidas e sabemos o quanto “jogar em casa” é determinante para o resultado final, devido à “energia” que os torcedores, em massa, entregam para seu time. Durante o jogo, esta identificação (torcedor-time) chega a tal ponto que precisa ser limitada e contida&#8230; Esta delimitação física é necessária para favorecer a identificação emocional que, assim, pode atingir com segurança o grau intenso de empolgação necessária para que o povo se torne também agente do drama que se desenrola (<strong>Byington, 1982</strong>).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> (2013b, 329) se refere a este comportamento como <em>participação mística</em>, empregando o termo do antropólogo <strong>Lucien Levi-Bruhl</strong>, para descrever “<strong>este fato psicológico que entre o sujeito e o objeto não há aquela distinção absoluta que se encontra em nossa mente racional</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vestir as cores uniformiza as pessoas e permite fundir-se com a massa, no que aparenta ser uma consciência coletiva. Todos viraram palmeirenses, corintianos ou no caso bugres e, neste momento, ao que parece, a humanidade igualmente fanatizada que se encontra do outro lado do estádio vira motivo de ódio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-colocar-a-camisa-do-time-parece-ser-como-colocar-o-brasao-e-fazer-parte-de-uma-coletividade-invencivel">Colocar a camisa do time parece ser como colocar o brasão e fazer parte de uma coletividade invencível.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todos nós já ouvimos dizer e muitas vezes gritar: “Sou corintiano e sofredor!”.&nbsp; Isso, aliás, é um mote muito significativo da importância do time para muitos torcedores, o sofrimento partilhado. No momento em que veste a camisa, a pessoa parece perder sua própria identidade para tornar-se um torcedor, às vezes com uma identificação tão forte que continua fora do estádio.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> certamente chamaria de identificação com a <strong>persona</strong><em>,</em> essa máscara social que precisamos usar para nos adaptar ao coletivo. E é ali que tem outro aspecto fundamental para entendermos os mecanismos do fanatismo por esporte: ao vestir a camisa, torna-se torcedor e perde sua individualidade para virar meramente um elemento da torcida (que parece ser um organismo vivo e autônomo). <strong>Ficou claramente evidenciada a simbologia arquetípica e imensa carga afetiva desses comportamentos</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Cada vez que um arquétipo aparece em sonho, na fantasia ou na vida, ele traz consigo uma “influência” específica ou uma força que lhe confere um efeito numinoso e fascinante ou que impele à ação. (Jung, 2013a, 109)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-portanto-podemos-entender-a-torcida-como-um-conglomerado-de-pessoas-ligadas-por-uma-mesma-energia-afetiva-projetada-sobre-o-time-e-seus-herois-seu-exercito-sagrado" style="font-size:16px"><strong>Portanto, podemos entender a torcida como um conglomerado de pessoas ligadas por uma mesma energia afetiva, projetada sobre o time e seus heróis </strong>&#8211;<strong> seu exército sagrado.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se o cavalheiro veste o brasão por amor e fidelidade à dama que o escolheu como campeão para vingar sua honra, o mesmo se escuta sempre nos estádios: “onde há de reinar o amor ao time e os jogadores se sacrificam por amor à camisa”. Todavia, permanecer um minuto observando os torcedores adentrando a arena provoca imediatamente uma percepção totalmente oposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu me lembro de um dos primeiros jogos que assisti ao vivo. Foi para a inauguração do estádio do Corinthians em vista à Copa do Mundo de 2014. Eu era responsável pela supervisão da entrada dos torcedores no estádio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-ouvi-no-radio-a-gavioes-esta-chegando-quis-olhar-de-perto-esse-fenomeno-que-e-uma-das-principais-torcidas-organizadas-do-pais-e-me-dirigi-a-entrada" style="font-size:18px">Quando ouvi no rádio: “A Gaviões está chegando”, quis olhar de perto esse fenômeno que é uma das principais torcidas organizadas do país, e me dirigi à entrada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando vi, de um lado, esse amontoado de gente com suas camisas marchando que nem um exército bem organizado debaixo de sua bandeira gigante e, de outro lado, a tropa de choque da Polícia Militar protegida por capacetes e escudos, voltei para dentro, tamanha era a violência potencial que emergia daquele encontro prestes a acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E naquele Brinco de ouro, violência é também o que se destacava nas palavras proferidas e atitudes dos torcedores do Guarani, neste sábado. O que me levou a me perguntar por que, neste momento, em que supostamente celebramos a alteridade e o amor pelo clube, o que mais se percebe é violência explícita e verbalização do ódio pelo adversário. O que pode parecer sem sentido já, que neste dia, o adversário era a Ponte Preta, outro time de Campinas, ou seja, este outro odiado poderia ser o vizinho ou professor da escola do seu filho ou seu médico.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><strong>Byington</strong> (1982), novamente começa a nos indicar um possível caminho quando diz que o futebol se joga com os pés e que “<strong>os pés representam a base física do ser humano, como bem ilustra a figura mitológica do centauro</strong>&#8220;.</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Eles pertencem à metade inferior do corpo, associada aos processos inconscientes, “instintivos e vegetativos”. Também poderíamos associar o <strong>gol</strong>, o Clímax do jogo &#8211; com sua intensa explosão afetiva, que libera a torcida da tensão do jogo até então ainda não definido &#8211; como a expressão simbólica de um <strong>gozo coletivo</strong> reprimido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-simbologia-do-futebol" style="font-size:20px">Simbologia do futebol</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como, de acordo com Jung (2014, 634), a função psicológica da mandala é religar a Consciência ao centro da personalidade, podemos pensar que o apego ao futebol é um chamado simbólico, catalisado pela dinâmica energética da mandala para observarmos o quanto essas questões primordiais e arcaicas ainda agem como elementos centrais da personalidade, e que a despeito de qualquer ilusão de evolução espiritual, o corpo ainda parece falar mais alto de que a alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, o que chama atenção é que este carinho verbalizado pelo time</strong>. No volume coletivo do estádio que se transforma numa massa de ódio professando injúrias contra a mãe do juiz. Mas também direcionada de forma extremamente violenta à torcida oposta, como se o uniforme virasse uma armadura com poder de transmutar o quieto rapaz de classe média urbana em um soldado numa guerra santa, detentor da verdade e de todos os direitos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-similitude-com-seitas-religiosas-e-marcante">A similitude com seitas religiosas é marcante.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A similitude com seitas religiosas é marcante. Em ambos os casos, a proposta de amor que vincula o grupo, fundamento ideológico dessas associações de seres humanos, costuma dar lugar à expressão de uma segregação baseada na aparente diferença de pensamento ou de pertencimento a outro grupo religioso, étnico ou cultural, e para a torcida, de outro pais, cidade ou bairro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung considera a <strong>atitude religiosa</strong> como a procura por algo externo, maior de que o ser. Para proporcionar um sentido a um mundo onde muitas perguntas permanecem desprovidas de respostas, e frente a esse abismo metafisico uma necessidade de proteção. E sobre a religião também nos explica que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não só o cristianismo, com sua simbólica salvífica, mas, de um modo geral, todas as religiões, e mesmo as formas mágicas das religiões dos primitivos, são psicoterapias. São formas de cuidar e curar os sofrimentos da alma e os padecimentos corporais de origem psíquica (JUNG, 2013, 20).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-tambem-nos-lembra-que-todo-simbolo-devido-a-sua-origem-arquetipica-ao-mesmo-tempo-sempre-carrega-luz-e-sombra">Jung também nos lembra que todo símbolo, devido à sua origem arquetípica, ao mesmo tempo, sempre carrega luz e sombra.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essas imagens contêm não só o que há de mais belo e grandioso no pensamento e sentimento humanos, mas também as piores infâmias e os atos mais diabólicos que a humanidade foi capaz de cometer. Graças à sua energia específica, pois comportam-se como centros autônomos carregados de energia, exercem um efeito fascinante e comovente sobre o consciente. Consequentemente, podem provocar grandes alterações no sujeito. Isso é constatado nas conversões religiosas, em influências por sugestão e, muito especialmente, na eclosão de certas formas de esquizofrenia. (JUNG, 2013a, 109)</p>



<p class="wp-block-paragraph">E com sua alegoria entre o campo de futebol e a mandala, <strong>Carlos Byington</strong> (1982) nos dá um gancho, com certa liberdade de interpretação, para começar a elaborar um princípio de resposta. Se o Campo de futebol é um quadrado dentro da mandala formada pela arena, existe também outra mandala ao centro do campo. Assim, poderíamos fantasiar que essa perspectiva de um símbolo dentro de outro também pode ser invertida e que, portanto, a dinâmica psíquica inversa também poderia ser catalisada pela configuração do estádio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isto é, se fora do estádio se fala em amor, valores morais, éticos e transformadores do esporte, ao adentrar o recinto, liberta-se também a palavra da sombra, e o lado obscuro da comunidade se manifesta livremente. As torcidas organizadas, assim como as escolas de samba tem forte conexão com a periferia e as comunidades. Aliás, algumas escolas são ligadas as torcidas. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa maneira, podemos começar a perceber que a violência da torcida é uma resposta arquetípica. Uma projeção da violência do ressentido da vida, ainda não assimilada e que precisa se expressar de alguma forma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-de-que-nos-serve-essa-reflexao" style="font-size:19px">Mas de que nos serve essa reflexão?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mas de que nos serve essa reflexão sobre um tema tão comum no Brasil? E que somos obrigados a concluir que não conseguimos entender por completo? Afinal de contas, exageros de torcidas, agressões em estádios estão tão banais no país que nem chamam mais a atenção da mídia. No entanto, é imprescindível lembrar que o futebol acompanha sempre movimentos políticos e sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seja o movimento da “nação corintiana” e das torcidas organizadas, que nasce em 1969, com a criação da “Gaviões da Fiel”, talvez coincidentemente (ou não), logo após o ato inconstitucional n.5 (AI5) &#8211; expressão mais importante da ditadura militar, ou as decisões de localização das copas do mundo que acompanham pautas econômico-sociais. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembramos os ex-presidentes do Brasil que se declararam publicamente corintianos ou palmeirenses. Da forma como Hitler, Mussolini ou Franco tentaram aproveitar a popularidade deste esporte para ganhar massa eleitoral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isto não significa que haja qualquer tendência ou orientação política nas torcidas organizadas, mas que elas representam expressões visíveis de necessidades comuns que juntam pessoas de universos socioeconômicos completamente diferentes. Por isso, como certas seitas religiosas, se inteligentemente manipuladas podem influenciar no destino de uma nação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pergunta que faço é: qual a origem deste ressentimento que amedronta ao ponto de ocasionar uma resposta de proteção tão violenta? da qual nem estado nem religião conseguem dar conta? Não se tem resposta. <strong>Estudos mostraram que não há relação direta entre poder aquisitivo e violência das torcidas</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-resumo-porque-toda-esta-luz-manifesta-se-em-sombra-ninguem-sabe" style="font-size:21px">Em resumo, porque toda esta luz manifesta-se em sombra, ninguém sabe.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mas seja talvez ali que reside a grande lição que devemos aprender, a importância da observação da ressurgência de figuras arquetípicas</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> explica, no primeiro capítulo de&nbsp; “Aspectos do drama contemporâneo”, que as manifestações da juventude alemã nos anos 30 evidenciavam à ressurgência do Deus mítico Wotan: o “<strong>furor teutónicus</strong>” (Jung, 2012, 388).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que, para o observador atento e conhecedor da mitologia, anunciava a chegada do nacional socialismo (Jung, 2012, 385). Nos alertando sobre o fato de que para entender os acontecimentos humanos é preciso atentar-se às expressões simbólicas, pois elas são as manifestações do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre que tentamos entender uma situação cultural, política ou histórica, se nos mantivermos somente no racional, sem trazer o inconsciente para a reflexão, reduzimos nossa percepção dos fatores humanos, uma vez que a consciência não passa da parte visível do ‘i<strong>ceberg da psique</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-essa-reflexao-nos-ensina-de-relevante-para-os-dias-de-hoje" style="font-size:19px"><strong>E o que essa reflexão nos ensina de relevante para os dias de hoje?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É tristemente simples&#8230;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o <strong>futebol</strong> não passa de um ensaio elegante e lúdico de uma batalha, durante a partida são colocados em jogo os mesmos arquétipos, regidos pelas mesmas energias humanas que nas batalhas de verdade, só que pacificados pelo contexto do esporte. Exatamente como mitos e contos encenam de forma artísticas qualidade e defeitos da realidade íntima de todos os homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, nesses momentos turvos em que percebemos que o mundo permanece imerso em conflitos armados e ameaças de genocídios, cujos motivos ninguém consegue entender (já que ninguém até hoje conseguiu resolver), todos os professores de Direito e Geopolítica, todos os Diplomatas, Chefes de estado e pseudointelectuais precisam voltar-se para um lugar de maior humildade e entender que as constantes alegações de motivos econômicos e políticos nunca foram respostas adequadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somente poderá haver um esboço de solução quando se levar em consideração todas as dimensões humanas subjacentes, escondidas atrás dos fatos palpáveis, o que somente a observação dos símbolos &#8211; que são a linguagem do inconsciente &#8211; permite revelar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E espero, que com a graças dos deuses, isso aconteça antes de que as últimas princesas tenham de vender seus últimos brincos de ouro para permanecerem vivas, mesmo que somente em nossos sonhos.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: O Brinco de Ouro da Princesa" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Oh8lf9Agv-I?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Analista em Formação: Sebastien Baudry</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Analista Didata: Maria Cristina Guarnieri</a></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências: </h1>



<p class="wp-block-paragraph">Byington, Carlos, Revista Psicologia Atual, Ano 5 nº 25, São Paulo, 1982. Última revisão em maio de 2006</p>



<p class="wp-block-paragraph">ELIADE, Mircea. Mito e Realidade São Paulo, SP: Perspectiva, 2011</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Aspectos do drama contemporâneo 10/2 Obra Completa. 5 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>A prática da psicoterapia</em>. 16/1 Obra Completa. 16 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Psicologia do inconsciente</em>. 7/1 Obra Completa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>A natureza da psique</em>. 8/2 Obra Completa.&nbsp; 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 9/1 Obra Completa.&nbsp; 1’ ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossas Pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="577" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-1024x577.png" alt="" class="wp-image-8736" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-1024x577.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-768x433.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-1536x865.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-450x254.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-1200x676.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2.png 1640w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça também nossos Congressos Junguianos:&nbsp;<a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">Congressos IJEP (pages.net.br)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>A Criança invisível – Santa Dulce e os Coringas contemporâneos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-crianca-invisivel-santa-dulce-e-os-coringas-contemporaneos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 10:17:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[coringa]]></category>
		<category><![CDATA[criança abandonada]]></category>
		<category><![CDATA[Elton John]]></category>
		<category><![CDATA[INVISIBILIDADE]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[SANTA DULCE]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Hoje, 13 de outubro/2019, é um dia especial! Devido a comemoração festiva do Círio de Nossa Senhora de Nazaré e da canonização da Santa Dulce dos Pobres, logo após o dia da Padroeira do Brasil e dia das crianças. Neste contexto, acabei de assistir os filmes Coringa e, tardiamente, Rocketman, biografia do cantor Elton John. A soma desses afetos que vivenciei desencadeou fortes emoções e reflexões, que tomo a liberdade de compartilhar para quem se interessar.<br />
A palavra que mais me atravessou foi: INVISIBILIDADE.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Hoje, 13 de outubro/2019, é um dia especial! Devido a comemoração festiva&nbsp;do&nbsp;Círio de Nossa Senhora de Nazaré e da canonização da Santa Dulce dos Pobres, logo após o dia da Padroeira do Brasil e dia das crianças. Neste contexto, acabei de assistir os filmes Coringa e, tardiamente, Rocketman, biografia do cantor Elton John. A soma desses afetos que vivenciei desencadeou fortes emoções e reflexões, que tomo a liberdade de compartilhar para quem se interessar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra que mais me atravessou foi: <strong>INVISIBILIDADE</strong>. Há muitos anos escrevo textos e comento nas aulas que esse é o drama do homem contemporâneo, com sua miserabilidade egoísta, devido ao contínuo estado de alarme, ou por já estar excluído ou pelo medo da exclusão social e do abandono, sem perceber que o abandono e a exclusão começam em nosso íntimo, ao deixarmos de ver nossa criança interior e, consequentemente, nossa alma, porque nos desconectamos dos aspectos saudáveis do complexo materno, onde o cuidado, o acolhimento, a atenção, a nutrição – física e espiritual – e amor são praticados e aprendidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a conexão com a criança interior é que irá possibilitar o surgimento da potencialidade do velho sábio, permitindo que toda potencialidade criativa e ética estejam associadas, possibilitando o estado de alegria do viver, mesmo quando surgem obstáculos. Bem diferente do que nossa atual sociedade capitalista estimula, que é a identificação com o <em>Puer Aeternos</em>, o <em>Peter Pan</em>, da terra do nunca, lugar em que o cantor Michael Jackson, uma outra criança abandonada, se refugiou para tentar lidar, literal e patologicamente, com suas criança ferida, reproduzindo mais feridas nas crianças que ele recebia. A&nbsp;relação com a criança interna não tem nada a ver com a identificação com ela. Essa relação exige distanciamento emocional, para compreendermos que tudo que fizeram ou deixaram de fazer faz parte do nosso caminho evolutivo, e o que mais importa é o que faremos com isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Em todo adulto espreita uma criança &#8211; uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa&#8221; (Jung, O Desenvolvimento da Personalidade, p. 175)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A criança saudável é séria com sua diversão. Lembrando que diversão tem a ver com diversidade e a patologia da criança é que leva para a adversidade, o caminho da divisão diabólica, ao invés da integração simbólica. Desta forma, divertir equivale a integrar o diverso, com entrega, compromisso e ritmo. Bem diferente do que acontece com o <em>Puer</em>, onde as relações são efêmeras, líquidas e vazias, apesar de espetaculares. Na dimensão opositiva do<em> Puer </em>está o <em>Senix</em>, o velho ranzinza e sectário, que não tem paciência para nada. Esse é o futuro que nos espera, caso continuemos nesta dinâmica, um amontoado de velhos excluídos e doentes, por deixarem de consumir&nbsp;o supérfluo, passam a consumir os serviços de saúde, aguardando o chamado da morte sem nunca terem vivido. Isso me fez lembrar do livro: A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando deixamos de lado os aspectos saudáveis do arquétipo da criança, a&nbsp;meu ver, também estamos com dificuldades em lidar com os benefícios positivos do complexo materno. Essa situação reflete na falta de cuidado, na exacerbação do medo e na busca desenfreada e iludida de poder. Mas, o que mais impacta negativamente é o distanciamento do processo de individuação, caminho teleológico para a realização humana, em busca de sentido e significado existencial, por meio do servir, como Jung comenta a respeito deste arquétipo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;é uma personificação de forças vitais, que vão além do alcance limitado da nossa consciência, dos nossos caminhos e possibilidades, desconhecidos pela consciência e sua unilateralidade, e uma inteireza que abrange as profundidades da natureza. Ela representa o mais forte e inelutável impulso do ser, isto é, o impulso de realizar-se a si mesmo&#8221; (Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, página 171, p. 289).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Rocketman, quando o cantor Elton Hércules John, com muita visibilidade, apesar de muito doente, numa clínica para dependências, abusos e compulsões, consegue dar o abraço na sua criança interior, Reginald Kenneth Dwight, sempre invisível, tudo se transformou, não muito diferente da trajetória de Fred Mercury, que somente após cair no fundo do poço, adquirir autoconhecimento e amor-próprio, que conseguiu superar os vícios patológicos, apesar que, neste caso, a AIDS não permitiu longevidade. Bem diferente do que aconteceu com Arthur Fleck , com seu complexo materno negativo e total invisibilidade social, após tantos abusos, inclusive do Estado que deixou de tratar e medicar seus transtornos&nbsp; psíquicos, ultrapassou o limite, na forma do personagem Coringa, que passou a existir, ou seja, ter visibilidade, apesar de patológica, como estava acontecendo com Elton John.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste contexto que as comemorações e festividades para as variações da imagem arquetípica da Grande Mãe se justificam. Graças a essa conexão que conseguimos, mesmo que de forma inconsciente, recordar nossa criança interior. O problema é que, com tantos estímulos artificiais, efêmeros e descartáveis, rapidamente voltamos para nossa dimensão egoísta, invisíveis e cegos para não vermos os sofrimentos alheios, assim também fugimos dos nossos, investindo e desperdiçando toda a vida apenas para as questões materiais da sobrevivência, da competição, do acúmulo, do prazer efêmero. Infelizmente, cada vez mais, sem amor e compaixão, como foi o legado da vida da agora Santa Dulce dos Pobres, que lutou para dar cuidado, inclusão e visibilidade para as crianças mal-amadas, sofridas e abandonadas, nossos coringas contemporâneos, nosso futuro será nefasto!</p>



<p class="wp-block-paragraph">13 de outubro de 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paz e Bem, graças ao reconhecimento e aceitação consciente da Guerra e do Mal que habitam em nós!</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDEMAR MAGALDI FILHO. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa, oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&gt;&gt;&gt; @ijep_jung &lt;&lt;&lt;</p>
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		<title>Onde e como vivem os deuses hoje? Expressões arquetípicas na sociedade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/onde-e-como-vivem-os-deuses-hoje-expressoes-arquetipicas-na-sociedade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Jul 2022 13:38:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4335</guid>

					<description><![CDATA[<p>Bolsa Hermès de dois milhões de reais! Qual sentido disso diante de tantas iniquidades?<br />
As mitologias são os registros das expressões da alma humana diante do desafio evolutivo e, por isso, possuem várias vertentes, mas todas acabam revelando aspectos da psique humana. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A análise da estética e da existência humana levou Friedrich Nietzsche, à luz dos aforismas heraclitianos, refletir a tensão entre Apolo e Dioniso, evidenciada nas expressões artísticas, que retrata polaridades como vontade de combate e embriaguês, Logos e Eros, simetria e assimetria, beleza e feiura, amor e pornografia, presentes de forma abundante, tanto no âmago da nossa atual sociedade, quanto na política. Sua crítica dirigia-se contra a dualidade, as posições unilaterais e binárias, onde um lado exclui e se antagoniza com o outro, sugerindo a integração destes deuses para que possamos pensar fora da dualidade, de forma integrativa, transpessoal e simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva da mitologia greco-romana, os humanos não&nbsp;são criaturas do Olimpo e nem do Hades, do Céu ou do Inferno, porque estamos no meio, onde o maior desafio, proposto pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, é o processo de individuação, que equivale a integração das polaridades, por meio da capacidade simbólica e da prática da alteridade, e não a de ficarmos polarizados ainda mais. O investimento é para integrarmos nossos aspectos supraterrestres com os infraterrestres na dimensão terrestre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As mitologias são os registros das expressões da alma humana diante do desafio evolutivo e, por isso, possuem várias vertentes, mas todas acabam revelando aspectos da psique humana. Neste artigo partirei do recorte da tradição órfica, ao deixar evidente que, em nosso íntimo, coexistem o Bem e o Mal. Porque, segundo os órficos – século VI a.C., a origem da humanidade acontece após o assassinato do menino Dioniso Zagreu, quando um grupo de Titãs, revoltados com os deuses olímpicos e incentivados pela deusa Hera, que desejava se livrar do filho bastardo de seu marido, mataram e comeram o jovem deus, preservando apenas seu coração. Dioniso Zagreu era filho de Zeus com Perséfone, esposa de Hades e rainha do mundo dos mortos. Zeus também é um titã, que destronou Cronos, seu pai, com a ajuda de seus irmãos Hades e Poseidon, expulsando os demais titãs. Zeus, com seus raios, vinga-se da morte de seu filho, fulminado todos os titãs, que viraram cinzas – terra ou humus. O coração de Dioniso Zagreu foi recuperado e Zeus consegue “transferi-lo” para Semele, sua nova amante mortal, dando origem ao segundo Dioniso, também chamado de Iaco ou Baco, mas isso é uma outra narrativa e não cabe aqui.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi Prometeu, um titã filho de Jápeto e de Ásia, irmão de Atlas, Epimeteu e Menoécio, e progenitor de Deucalião, amigo de Zeus e que o ajudou a destronar seu pai Cronos, que criou a raça humana, utilizando-se das cinzas dos titãs fulminados por Zeus, que tinham acabado de comer Dioniso Zagreu,&nbsp; da água para moldar esse humus e depois do fogo e do ar para animar e dar consciência a raça humana. Apesar de sua imortalidade, ele se dedicou para possibilitar a evolução do homem, sua criação, concedendo-nos o poder de pensar e raciocinar. Ele também nos transmitiu os mais variados ofícios e aptidões, deixando Zeus enciumado e colérico, fazendo Prometeu sofrer terríveis consequências por ajudar a humanidade e até de ter roubado o fogo, ou a luz de Zeus, para possibilitar a ampliação da consciência da humanidade. Desta narrativa é que surge o episódio trágico da caixa de Pandora, onde as pragas, com exceção da esperança, foram soltas para atormentar a raça humana, e outras peripécias de Prometeu e Epimeteu, seu irmão que, contrário a ele, só medita depois de fazer, mas isso também não é relevante para este texto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deste mitologema começamos a compreender a dupla natureza da raça humana: a dionisíaca e a titânica, onde de forma ambivalente somos a resultante de forças antagônicas entre luz e sombra, bem e mal, divino e profano, espiritual e material, instintivo e arquetípico. Desta tensão, graças a diferenciação da consciência, e do surgimento do Ego, como seu representante, podemos exercer o livre arbítrio para conquistarmos a superação da dualidade, mas isso não é tarefa fácil!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta perspectiva que faço a análise e ampliação das diversas representações arquetípicas dos deuses e heróis da mitologia, divergindo um pouco do recorte nietzschiano que polarizou Apolo e o segundo Dionísio, alinhando-me mais com a visão junguiana, que nos apresenta a tensão que existe entre os espectros infravermelho e ultravioleta da luz, representando simbólica e reciprocamente os instintos, que para mim é a dimensão titânica em nós, e os arquétipos que, nesta análise, representa Dioníso Zagreu, a vida anímica, como resultado da união de Zeus e Perséfone, do imanente com o transcendente, a Luz com as Trevas, de Eros com Thanatos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ficamos unilateralizados e identificados em um dos lados da imagem simbólica, perdemos a possibilidade criativa e transcendente de superarmos e integrarmos corpo e alma, matéria e espírito, soma e psique, instinto e arquétipos. Ao permanecermos fixados em um dos polos de qualquer representação mítica, ficamos intoxicados e, inevitavelmente, cometeremos a&nbsp;<em>hybris</em>, que é a desmedida, que nos faz cair em desgraça, porque deixamos de lidar com a representação da imagem arquetípica de forma simbólica, que é integrativa e transpessoal, devido nossa identificação diabólica, a que nega o outro polo, literalizando e unilateralizando a potencialidade arquetípica, muitas vezes reduzida a códigos de condutas, amplamente usados e abusados pelas religiões e pelos governos autoritaristas, registrado historicamente na cumplicidade de Estado e Religião, com o mesmo propósito de tirar a liberdade, a autonomia e a soberania dos indivíduos e, consequentemente, da sociedade, que é a polis, para se perpetuarem no poder, interditando a igualdade e a fraternidade, fomentando a competição, o medo e destruindo qualquer expressão de amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao tentarmos compreender o momento geopolítico que estamos atravessando, com excesso de polaridade, maniqueísmo, intolerância, literalidade, medo e desejo de poder imperando, fica claro que o lado titânico está prevalecendo sobre o lado dionisíaco. Óbvio que essa situação não pode perdurar, porque a natureza é pendular e, de um modo ou de outro, com maior ou menor crise e tragédia, o fenômeno da enantiodromia surgirá.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Graças ao calor do fogo, os homens tornarem-se sociáveis, e isto nos remete às contribuições da deusa Héstia, figura mitológica que cuida da lareira e, consequentemente, do lar. Graças a Héstia, uma deusa vestal, a humanidade aprendeu a ficar reunida em volta do fogo e no aconchego e proteção do lar. Desta prática é que surgiu a linguagem, a capacidade de partilhar emoções e sonhos, planejar, conviver e até amar fraternalmente uns aos outros. Como toda expressão arquetípica é bipolar, o lado sombrio e obscuro desta deusa produz medo e exclusão do diferente, tornando-o em desigual, transformando-o em inimigo que precisa ser destruído e eliminado! Por isso, neste momento titânico que está contaminando a humanidade contemporânea, esta representação arquetípica está desmedida, justificando as pessoas estarem extremamente intolerantes com os diferentes, apoiarem a construção de muros, com atitudes xenofóbicas e apego exagerado ao território.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a hipertrofia unilateralizada de Héstia, Ares, o deus da guerra, também fica acionado e em alerta, pronto para atuar, com sua armadura e seus apetrechos siderais, ativando seu desejo de sangue, totalmente distante de Afrodite, que lhe poderia dar gentileza e respeito pelo outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste mesmo cenário, também de forma desmedida, está o deus Hermes, aquele que poderia nos ajudar a transitar entre os mundos material e espiritual, de Bios e Zoé, nos dando mensagens, ideias, caminhos, capacidade comercial, para nossa evolução e transcendência, porque Hermes é um psicopompo, aquele que transporta a alma, nos ensina a arte da hermenêutica e, na metáfora alquímica, contribui para que possamos transformar nossos aspectos plúmbicos em áureos. Porém, como tudo está dicotomizado e unilateralizado, o lado sombrio de Hermes acabou produzindo o excesso de informações rasas e fugazes, as fake News com seus memes, o neoliberalismo e o globalismo, onde o que mais importa é o ganho material, o acúmulo e a riqueza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na realidade, todas as figuras mitológicas estão ocupando o cenário contemporâneo, e como são negadas pela consciência da maioria, como disse Jung no passado, elas acabam virando doenças e fazem as maiores estripulias nos consultórios dos médicos, principalmente quando elas se manifestam de forma unilateral e literal, como está acontecendo neste momento titânico, devido ao medo do término do dinamismo patriarcal e do anúncio da crise que essa mudança de paradigma, para o dinamismo da alteridade, está causando. Resta-nos apenas fé e resiliência para nos manter íntegros, sem sucumbir na ilusão que o partidarismo e a unilateralidade produzem, por darem o falso sentimento de pertencimento, segurança territorial e conhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi Filho, Psicólogo, analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião, especialista em psicologia analítica, psicossomática, arteterapia e homeopatia, professor e coordenador dos cursos de pós-graduação lato-sensu, que titulam e formam especialistas em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – em SP; RJ e BSB. Autor do livro: “Dinheiro, saúde e sagrado” – Ed. Eleva Cultural.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="http://www.elevacultural.com/">www.elevacultural.com</a></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi Filho &#8211; 30/11/2019</em></strong></h4>



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			</item>
		<item>
		<title>Abandono Social</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/abandono-social/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Maluf]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2022 12:27:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[abandono]]></category>
		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
		<category><![CDATA[mendigo]]></category>
		<category><![CDATA[morador de rua]]></category>
		<category><![CDATA[pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vivemos hoje um estado de calamidade pública. A população em situação de rua vem crescendo de forma acentuadamente drástica. Basta olhar pela janela e trilhar as calçadas. Segundo fontes SISAB de 2020, 221.869 pessoas se encontram em situação de rua, sendo 34,7% mulheres e 65,35% homens.&#160; Parece que na pandemia o número dobrou nas grandes [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos hoje um estado de calamidade pública. A população em situação de rua vem crescendo de forma acentuadamente drástica. Basta olhar pela janela e trilhar as calçadas. Segundo fontes SISAB de 2020, 221.869 pessoas se encontram em situação de rua, sendo 34,7% mulheres e 65,35% homens.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Parece que na pandemia o número dobrou nas grandes cidades.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A população vulnerável socialmente&nbsp;que vive a pobreza extrema é formada também por trabalhadores que exercem atividades informais. 70% dos moradores de rua trabalham como catadores de reciclagem, flanelinhas, em construção, limpeza e carregadores. 15,7% da população em SP são pedintes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encontramos na rua uma diversidade de pessoas e circunstâncias. A questão da saúde é um problema bastante grave também. As drogas são bastante presentes entre moradores de ruas e as patologias psiquiátricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A maioria de quem mora na rua faz pelo menos uma refeição ao dia.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em dezembro de 2019, foi instituído um decreto (decreto n°7053) que define população em situação de rua como grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos de as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou moradia provisória.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="816" height="518" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1.jpg" alt="" class="wp-image-4100" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1.jpg 816w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-300x190.webp 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-768x488.webp 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-150x95.webp 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-450x286.webp 450w" sizes="(max-width: 816px) 100vw, 816px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">É um tema bastante amplo pois mesmo em situação de rua encontramos situações das mais diversas pois falamos de humanos. Faltam-nos políticas públicas e iniciativas sociais privadas para adentrar a essa realidade. Que situação é essa vivida por alguém na rua que conseguiu muitas vezes se libertar dos compromissos e pressões coletivas sociais, mas abraça a dor e a ferida social da invisibilidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao pensarmos em rua e pobreza, pensamos em bem e mal e logo somos arremessados a uma instância rígida de nossa criação cristã, precisamos muitas vezes alimentar o mau fora de nós para sermos bons. Essa ideia acaba sendo alimentada por muitas igrejas, constelando o arquétipo do salvador e alimentando no morador em situação de rua o arquétipo do invalido nutrindo a pobreza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8230;pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus (Lucas 18: 24-25). Numa sociedade unilateralizada que carrega a literalidade&nbsp;como característica, acaba entendendo a citação acima de forma literal. Logo que nos deparamos com essa imagem de pessoas habitando ruas que se contrasta com nossas mansões, pensamos no sentido da vida e de alguma forma a representação da imagem de Deus</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung afirma que, desde que “todos os opostos são de Deus”, devemos nos curvar diante desse “peso”. Os opostos são a pré-condição indestrutível e indispensável de toda vida psíquica escreveu Jung em 1955 no Mysterium Coniunctions.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung afirma também que é através da psique que podemos estabelecer que Deus age sobre nós. E a expressão da psique se dá através de nossa cosmovisão e, portanto, atitude diante do mundo. Então&#8230; o que será que acontece com a nossa sociedade, com os indivíduos que se tornam indiferentes aos que habitam as ruas? O que será que leva um indivíduo a habitar as ruas?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Quem são esses indivíduos que perambulam pelas noites sombrias quando a luz cai; já que diante da luz são rejeitados e expelidos às sarjetas? São expelidos à margem de nossos caminhos. Para reconhecer esses “corpos perambulantes” preciso de alma e no mundo desalmado, o olhar é pelos olhos da razão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Sem alma não há relação entre as polaridades que constituem a natureza humana. Sem diálogo entre os lados, não há alcance ao que é divino e caímos na experiência de um aparthaid que julgamos ser natural. Separamos do mundo o imundo gerando cisão, rompimento, negação e violência social. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Se tudo é uno, quando integro o outro em mim, me aproximo do coletivo.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Pensar em mundo é vislumbrar a totalidade que envolve sistemas e contradições relacionais devido à diversidade de experiências vivas. Jung fala da busca de totalidade no processo de individuação, e a totalidade compreende as oposições e aproximação entre elas. Portanto se me distancio e nego o imundo, nego parte do meu mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Completude ou unidade é a condição original de existência, antes que o primeiro “pensamento” entre e comece a discriminar e diferenciar isso “daquilo”. (DONALD, pensamentos de Jung sobre Deus pg25.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mistura de conteúdos no princípio da criação, separamos através da função de discriminar durante o processo de desenvolvimento para poder posteriormente unir de forma consciente. Mas o homem contemporâneo parece literalizar essa ideia e vivê-la fora de si.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A totalidade é um estado onde consciência e inconsciente trabalham juntos em harmonia, onde estas instancias estabelecem um diálogo possibilitando a integração de aspectos sombrios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse apartado da sociedade faz parte de uma “classe” a parte, (termo usado por alguns indivíduos que vivem essa situação.)&nbsp; São invisíveis no meio de tanta gente por serem incômodos pela sua aparência suja e seu fedor. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós?! Somos limpos e polidos e assim somos aceitos e não nos misturamos e nem sequer dialogamos com esse outro lado. Esse corpo negado e rejeitado a ponto de se tornar invisível é a própria sombra que projetamos no pedinte imundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se defronta com considerável resistência”. (Jung &#8211; OC 9/2 § 14)</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Hoje em dia, defrontamo-nos com o lado escuro da natureza humana toda vez que abrimos um jornal ou ouvimos o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a nossa moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia em nossas próprias células. Nossos ancestrais animalescos, afinal de contas, sobreviveram graças às presas e às garras. A besta em nós está viva, muito viva — só que a maior parte do tempo encarcerada.” (Ao encontro da sombra – Robert Bly pag. 20)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa sombra materializada nesses indivíduos não é anônima, ela têm nome e história com muitas marcas. Somos “Josés” somados a cada parte de nós que lê esse texto e reverbera essas ideias e imagens em si, pois formamos uma unidade. Essa é a totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;Cada um, uma história que vai além do pessoal e é coletiva também.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Um corpo tem que ocupar um lugar no espaço. Qual é esse espaço que o morador em situação de rua ocupa? Esse corpo nos assusta e desperta nossos medos de fracasso já que ainda não tomamos ciência de quê fracassamos como sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É o medo pelo que ele nos representa. Vivemos em bolhas distantes umas das outras onde não há relação e diálogo entre elas, empobrecendo a nossa condição humana. Não comungamos de ideias e perdemos propósitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão da psicologia analítica se não aproximarmos essas polaridades continuaremos tomados pelo monoteísmo da consciência e corremos o risco do aprisionamento em nossas certezas e verdades que são frutos de nossos complexos de poder que habitam as sombras e um ego rígido que nos acorrenta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses indivíduos caminham lentamente pois não tem energia, enquanto nós corremos, pois temos pressa e assim não aprofundamos nosso olhar. Vivem a fome, o frio e a solidão em seus corpos enquanto nós nos fartamos a mesa e vivemos com 5.000 likes nas redes sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seus olhos&#8230; Um olhar perdido sem sentido, sem direção enquanto nós focados fixamente no sucesso. Esses indivíduos têm uma pisada desalinhada com os pés sujos e cascudos para dar conta da realidade árida e dura enquanto nós fazemos malabarismos em nossos saltos altos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como opção nós caminhamos muitas vezes para nos buscar e muitos deles caminham para fugir de si&#8230; A população de rua vem aumentando drasticamente, o que reflete o aumento da exclusão social fruto de valores sociais que nutrem um modelo econômico que vivemos, onde nem todos se enquadram.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Muito para poucos e pouco para muitos&#8230;”&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse é o corpo social que se torna fruto dos corpos individuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;O mendigo pedinte e sem teto é a antítese da imagem e vida desejada por nós cidadãos de “sucesso” &#8230; Esse é o espírito da nossa época que eles também fazem parte. Como seria se perceber menos perfeito e mais inteiro com todas as carências e sujeiras que carregamos na alma?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como é se deparar com corpos desnutridos, arcados e sujos, famintos de comida, já que estamos em corpos famintos de espiritualidade e humanidade que se expressa na materialidade do excluído? Só atingiremos a divindade quando mudarmos o olhar para com o tema da espiritualidade que se realiza de forma concreta, inclusive no corpo. Nessa desunião que vivemos, separamos o bom do mal sem condição para o diálogo e adoecemos como indivíduo e sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Não posso perfumar e nem performar a alma”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Essa é uma das batalhas internas em tempos modernos onde a ilusão do controle é alimentada socialmente para manter a persona polida. Sendo assim a tendência é projetar e rejeitar todo o dejeto naquele que em mim não cabe em lugar nenhum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Minha intenção é questionar e quem sabe despertar outros olhares sobre o tema invocando assim algo dessa energia ligada ao feminino, resgatando quem sabe a capacidade em acolher e se relacionar com o outro em mim para perceber o outro nele nessa aproximação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tentar entender a dinâmica desse grupo de indivíduos na tentativa de desenvolver aquilo que de forma consciente ou inconsciente “tiramos” deles em relações de uso, abuso e poder. É uma tentativa mais consciente de reparação, não para aliviar a culpa, mas sim por sentir-se parte integrante e ativa dessa sociedade com propósito de evoluir como humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;Precisamos nos aproximar para olhar de forma mais profunda.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">“Sim, uma pessoa nunca é representada por ela mesma. Uma pessoa só é alguma coisa em relação a outros indivíduos. Só obtemos dela um retrato completo quando a vemos em relação, a seu entorno, assim como não sabemos nada sobre uma planta ou um animal quando não conhecemos seu habitat”. (traumanalyse,253 sobre o amor- Jung)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos fazemos parte desse cenário, cada corpo em seu lugar e todos direta ou indiretamente pagamos o preço da fome, da miséria e da violência. Como num mosaico somos pedaços que compõem o TODO.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Se você não quiser arruinar se moralmente só existe uma pergunta a fazer: Qual é a necessidade que você mesmo carrega quando se comove com a situação aflitiva de seu irmão?” (Briefi II, 395, Jung Sobre o amor) Vamos repensar caminhos e sentidos e para isso preciso parar e mergulhar nesse universo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Sim&#8230; sofremos de fome, fome de alma e de espírito. Vivemos em corpos “sarados” lustrados por personas ajustadas, polidas e perfumadas. Isso é um problema? Não, se não negarmos seu contraponto, mas, como diz Jung:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Reconheçamos que nada é tão difícil quanto suporta-se a si mesmo” o que também explica a projeção da sombra social. Segundo Jung “ninguém vive fora de sua pele,” e só acessamos o outro através da empatia no olhar que conectar a ferida do outro a minha. (Jung pag 373. Oc7/2)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dessa fala entendemos nossas projeções sombrias sobre esses indivíduos, esquecendo assim de nossas faltas e também dos excessos que formam essa dinâmica polar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que não achar lugar na consciência para ser constelado, fica excluído e pode se associar aos complexos sociais dominantes, nos tornando em seguida dominados pela nossa própria dominação. Assim como a rua abraça o não acolhido, esses complexos sociais são âncora à sombra coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Olhar no olho desse outro e estabelecer diálogo é possibilitar olhar com os olhos subjetivos para o interior de si e recordar assim “quem sou” de forma mais inteira, atualizando o passado e presente em aspectos emocionais que foram rasgados, arranhados e que se tornaram feridas veladas. Olho para o outro como espelho do outro de mim&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos individualmente o que vivemos coletivamente e vice-versa. Entendo que precisamos desenvolver consciência mais ecológica para entender esse corpo que vive no corpo de Gaia.&nbsp;O corpo negado de Gaia é a própria negação da energia do feminino, que acaba projetado no corpo do indigente imundo, negando parte do corpo social.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;Que corpo é esse sofrido e não amado?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Que relação é essa que estabelecemos com o outro onde nos esfriamos e nos distanciamos do amor em seu sentido maior, potencializando o nosso complexo de poder criando adversários fora de nós Como lidar com a pobreza social se não começamos pela nossa pobreza e vulnerabilidades de alma. O complexo negado atua em nós, nos conduzindo á trágica realidade onde geramos mais pobreza e nos anestesiamos diante dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<strong>“A invisibilidade só deixará de existir pela mudança no olhar.”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Me pergunto se todas as guerras, derramamento de sangue e miséria não assaltaram a criação quando um homem procurou ser senhor de outro (&#8230;) E essa miséria não irá embora (&#8230;) quando todas as ramificações da humanidade considerarem a terra como um tesouro comum a todos.”&nbsp;(Gerrard winstannley, the new law rightteouness, 1649 – Calibã e a Bruxa pag 112)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto isso consideramos esse grupo de moradores em situação de rua como o metaverso da “nossa” sociedade sombria. Nos falta amorosidade e maturidade para olharmos esse assunto com pés no chão.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Enquanto buscamos poder anulamos o poder do amor.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ali onde predomina o amor não há vontade de poder, e onde há predominância do poder, não há amor. Um é a sombra do outro.&nbsp;&nbsp;Aquele que se coloca no ponto de vista do Eros tem um oposto compensador da vontade de poder. Mas aquele que enfatiza o poder tem como compensação o Eros. Vista do ângulo unilateral do posicionamento da consciência, a sombra é uma parte de menor importância da personalidade, e por isso é reprimida por uma intensa resistência. Mas aquilo que é reprimido precisa tornar-se consciente para que se crie uma tensão dos opostos, sem a qual não há possibilidade de continuidade de movimento. De certa forma, a consciência é em cima e a sombra é embaixo e como que está no alto sempre tende a descer às profundezas. O quente ao frio, assim toda a consciência, talvez até sem se perceber, busca por seu oposto inconsciente, sem o qual ela é condenada à estagnação, ao assoreamento ou à fossilização. Só nós o posto é que a vida se acende.” (Jung OC 7&nbsp;<a>§&nbsp;</a>78)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida e a psique nos impulsionam a realizar potencial. Tornar-se si mesmo nos aproximando do coletivo.&nbsp;Buscamos nosso lugar através do sentimento de pertencimento a si e ao mundo. Desenvolver a centelha divina em nós é realizar o inconsciente no sentido do servir para vir a ser. <strong>Muitos de nós nunca foi sonhado, então como pode sonhar?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Infelizmente deixamos de ser Homem de argila para sermos Homens de lata!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;“E apesar de todas as diferenças, a unidade da humanidade haverá de se impor de modo inexorável.”(Jung Oc 10/1§ 568)</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ana Paula Maluf</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bibliografia&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Calibã e a Bruxa – SILVA FEDERICI – Ed. Elefante</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aspectos do feminino – C.G JUNG – Ed. Vozes&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensamentos de Jung sobre Deus – DONALD R. DYER, PH.D.- Ed. Madras</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psicologia do inconsciente – C.G JUNG 7/1 – Ed. Vozes&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A natureza da psique – C.G JUNG 8/2 – Ed. Vozes</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao encontro das sombras – Connie Zweig e Jeremiah&nbsp;&nbsp;Abrams -Ed. CULTRIX</p>



<p class="wp-block-paragraph">Presente e futuro – C.G. JUNG 10/1&nbsp;&nbsp;&#8211; Ed. Vozes</p>



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