<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos Transdisciplinaridade - Blog IJEP</title>
	<atom:link href="https://blog.ijep.com.br/category/transdisciplinaridade/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.ijep.com.br/category/transdisciplinaridade/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Tue, 31 Oct 2023 13:56:58 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0.2</generator>

<image>
	<url>https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-logo-ijep-32x32.png</url>
	<title>Arquivos Transdisciplinaridade - Blog IJEP</title>
	<link>https://blog.ijep.com.br/category/transdisciplinaridade/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Lições de uma grande transformadora: Elisabeth Kubler-Ross</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/licoes-de-uma-grande-transformadora-elizabeth-kubler-ross/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rita Macieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 13:33:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Transdisciplinaridade]]></category>
		<category><![CDATA[Elizabeth Kubler-ross]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5709</guid>

					<description><![CDATA[<p>O significado da borboleta como símbolo de transformação é amplamente conhecido e utilizado há muito tempo. No entanto, coube a Elisabeth Kubler-Ross utilizar amiúde o ciclo de vida da borboleta como metáfora para a morte.&#160; Nascida em Zurique em 08 de Julho de 1926 e falecida em 24 de Agosto de 2004 em Scottsdale no [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/licoes-de-uma-grande-transformadora-elizabeth-kubler-ross/">Lições de uma grande transformadora: Elisabeth Kubler-Ross</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O significado da borboleta como símbolo de transformação é amplamente conhecido e utilizado há muito tempo. No entanto, coube a Elisabeth Kubler-Ross utilizar amiúde o ciclo de vida da borboleta como metáfora para a morte.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nascida em Zurique em 08 de Julho de 1926 e falecida em 24 de Agosto de 2004 em Scottsdale no Arizona, Elisabeth Kubler-Ross, pode ser considerada uma das grandes transformadoras do século passado. Ela mesma, assim como a borboleta que ela tanto utilizava como simbologia, realizou, causou e viveu muitas e profundas transformações.  </p>



<p class="wp-block-paragraph">Psiquiatra e autora de mais de 20 livros, dentre eles “Sobre a Morte e o Morrer”, traduzidos em vários idiomas, dedicou grande parte de sua vida a entender e acompanhar aqueles que estavam morrendo, ajudando-os na aceitação na morte próxima e no momento da transição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afirmava não temer a própria morte e desejava seguir somente aquilo que  acreditava. Segundo E. Kubler-Ross, “a vida não acaba quando você morre. Ela começa”. Em seus últimos anos de vida, sofreu várias complicações em sua saúde, que a debilitaram profundamente. Uma vez disse a respeito do impedimento de realizar sua própria morte: “Eu sou como um avião que deixou o hangar e não levantou vôo. Eu preferia voltar ou voar para longe”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas de suas preocupações eram voltadas para os profissionais de saúde e para os cuidadores daqueles que estavam próximos da morte, mas também para aquilo que estes poderiam dizer às pessoas que estavam vivendo a experiência de confronto com uma doença séria. E ainda, o que dizer ou não para pessoas enlutadas. Por isto, criou algumas orientações livremente traduzidas abaixo:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Profissionais e Cuidadores</strong><em>:</em></p>



<ol class="wp-block-list">
<li><strong>1.</strong><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</strong><strong>Seja cuidadoso com o que você diz. Tente evitar clichês tais como:</strong></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“É como Deus quer” ou “Deus tem um plano”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>”Ele/ela está em um lugar melhor”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Deus precisava de um anjo”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Tudo acontece por uma razão”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“As coisas serão sempre para melhor”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Você é jovem. Pode ter mais filhos”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Você não se sente grato por ter duas outras crianças?”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“O tempo curará”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Você tem que ser forte (por sua esposa, marido, filhos)”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Seu filho, esposo(a), pai/mãe não quereriam ver você mal”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Você não superou isto ainda?”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Pelo menos não foi a outra criança”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Pelo menos eles não sofreram mais”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Você não deveria ficar triste. Foi o melhor”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Você pode tentar outra vez”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&#8220;Pelo menos eles viveram uma vida boa”.</em></p>



<ol class="wp-block-list" start="2">
<li><strong>2.</strong><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</strong><strong>Ajude nos Rituais de Facilitação</strong></li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">Cada cultura determinará a natureza e a extensão do ritual. Seja sensível às necessidades de grupos diversos. Estes rituais podem incluir:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Banhar o falecido</li>



<li>Vestir ou desvestir o falecido&nbsp;</li>



<li>Segurá-lo por um período de tempo extenso</li>



<li>Conversar com o falecido</li>



<li>Beijar e examinar o falecido<em>&nbsp;– “Eu queria olhar seu corpo. Tocá-lo. Acho que eles pensaram que eu estava louco”.</em></li>



<li>Embalar o falecido em uma cadeira de balanço<em>&nbsp;– “Eu nunca o embalei. Isto feriu-me muito tempo.Todos os pais não deveriam ninar seus filhos sempre se é só para dizer adeus?”</em></li>



<li>Pegar fotografias e vídeos</li>



<li>Tomar uma mecha de cabelo, roupas ou outra coisa pessoal do falecido.<em>&nbsp;</em></li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Extraído a partir do “O Poder da Compaixão: Uma Nova Atitude em Cuidados de Saúde”de Joanne Cacciatore, inspirada por Elisabeth Kubler-Ross, © 2003&nbsp;&nbsp;</strong></p>



<ol class="wp-block-list">
<li>Seja honesto com os membros da família. Comunique às crianças o prognóstico ou a morte, gentil mas honestamente. Encoraje-as a fazerem perguntas e esteja com elas. É importante para elas sentirem que não estão experienciando este trauma sozinhas.</li>



<li>Compreenda o processo de luto e seja um facilitador efetivo nele.</li>



<li>Entenda o verdadeiro significado da Teoria dos Estágios de E. Kubler-Ross</li>



<li>Ajude dando suporte às crianças enlutadas da família tanto quanto pais e avós. As crianças estão freqüentemente sofrendo uma imensa confusão e dor e elas precisam do suporte gentil de seus cuidadores.</li>



<li>Ofereça explicações médicas utilizando termos para leigos. Não use vernáculos clínicos. Mantenha-se simples, honesto e inteligível.</li>



<li>Assegure-se de só propor autópsia e doação de órgãos ou tecidos quando for culturalmente apropriado.</li>



<li>Cuide de seu próprio luto!&nbsp;&nbsp;</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">E. Kubler-Ross criticou duramente o sistema de saúde americano e a falta de cuidados recebidos quando de uma de suas internações. Afirmou não ter recebido no hospital uma real compaixão e empatia, ou simplesmente, ter alguém para conversar ou segurar-lhe a mão. Ressalta que é importante para os indivíduos da área de saúde trabalhar para as pessoas, para o bem das pessoas, com todo o seu coração e alma. Assim amando seus trabalhos, a compaixão os envolverá naturalmente. Segundo ela, a jornada da saúde começa em amar seu trabalho, amar sua família, amar seu país e por último, amar uns aos outros.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-rita-de-cassia-macieira"><strong><em>Rita de Cássia Macieira</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/licoes-de-uma-grande-transformadora-elizabeth-kubler-ross/">Lições de uma grande transformadora: Elisabeth Kubler-Ross</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Tempos Modernos e a Psicologia Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tempos-modernos-e-a-psicologia-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jul 2022 18:55:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Transdisciplinaridade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[modernidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[tempos modernos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5461</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este estudo nos possibilita compreender a última pesquisa feita pela igreja católica que anuncia que 70% dos homens que relatam seus pecados nos confessionários assumem terem cometido luxúria, enquanto que 40% das mulheres vaidade. Ou seja, esses dados só servem para confirmar o quanto nossa cultura ainda é machista, exigindo dos homens o prazer sexual imediato e muitas vezes inescrupuloso, transformando as mulheres em objetos de desejo que, por sua vez, investem cada vez mais em moda e cosmética para se sentirem desejadas, infelizmente, na maioria das vezes, como meras mercadorias.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/tempos-modernos-e-a-psicologia-junguiana/">Tempos Modernos e a Psicologia Junguiana</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Estamos atravessando por um período de muitas transformações. Além das questões ambientais, que já nos assustavam há alguns anos, temos a crise do sistema econômico, com risco de desemprego em massa e mais exclusão social. Aliado a tudo isso, estudos psiquiátricos internacionais apontam que até 2020 35% da população estará sofrendo de depressão e outros 35% estarão dependentes de algum tipo de substancia psicoativa, lícita ou ilícita, ou de comportamentos abusivos, como jogos, compras, sexo, entre outros. De fato, esse cenário não é nada animador e nos faz refletir onde erramos ou deixamos de investir e o que podemos fazer para mudarmos esse futuro tão insólito e assustador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse sentido que, há algum tempo, eu e alguns colegas das áreas de saúde e humanas estamos investindo nossas energias em estudos de psicologia junguiana, ciências da religião, psicossomática, arteterapia, expressões criativas e nos temas relacionados às dependências, abusos e compulsões, incluindo atendimentos sociais com acompanhamento transdisciplinar. Este estudo nos possibilita compreender a última pesquisa feita pela igreja católica que anuncia que 70% dos homens que relatam seus pecados nos confessionários assumem terem cometido luxúria, enquanto que 40% das mulheres vaidade. Ou seja, esses dados só servem para confirmar o quanto nossa cultura ainda é machista, exigindo dos homens o prazer sexual imediato e muitas vezes inescrupuloso, transformando as mulheres em objetos de desejo que, por sua vez, investem cada vez mais em moda e cosmética para se sentirem desejadas, infelizmente, na maioria das vezes, como meras mercadorias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, felizmente, nossa experiência deixa bem evidente que existe uma saída para toda essa crise, que eu tenho chamado de impermeabilização ou plastificação do ego e do planeta, onde a troca verdadeira cada vez mais está comprometida. A saída, a nosso ver, é investirmos pesado na educação, principalmente dos educadores. Pois ninguém pode levar o outro para além de onde conseguiu chegar. Por isso é necessário criamos um movimento de valorização e autoconhecimento para todos os educadores. Só assim poderemos, em médio prazo, reverter essa situação tão angustiante. Mas, para que isso possa acontecer, precisamos exigir dos nossos governantes esse tipo de compromisso, pois sem a adesão deles é óbvio que o caminho será mais lento.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Waldemar Magaldi Filho*</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*<strong>Waldemar e Simone Magaldi</strong>&nbsp;são analistas junguianos, doutores em Ciências da Religião e fundadores do&nbsp;<strong>IJEP</strong>&nbsp;–<strong>Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</strong>&nbsp;(<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a>), que oferece cursos de pós-graduação em Brasília, São Paulo e outras cidades, titulando e formando especialistas nas áreas de Psicoterapia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e DAC – Dependências, Abusos e Compulsões.</em></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi Filho &#8211; 19/03/2019</em></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos">&nbsp;Voltar</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/tempos-modernos-e-a-psicologia-junguiana/">Tempos Modernos e a Psicologia Junguiana</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Androides e a Ilusão da Humanidade Puramente Artificial</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/androides-e-a-ilusao-da-humanidade-puramente-artificial/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 May 2022 22:12:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[Transdisciplinaridade]]></category>
		<category><![CDATA[atualidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4132</guid>

					<description><![CDATA[<p>Durante os estudos para a minha participação no Congresso Junguiano do IJEP, fiz a reflexão sobre a nossa conexão com a natureza. Me perguntei como seria se a humanidade se desconectasse totalmente das suas raízes naturais e orgânicas. Nessa elaboração cheguei a um ponto de que já fantasiamos isso na figura do robô humanoide, mais [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/androides-e-a-ilusao-da-humanidade-puramente-artificial/">Androides e a Ilusão da Humanidade Puramente Artificial</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Durante os estudos para a minha participação no Congresso Junguiano do IJEP, fiz a reflexão sobre a nossa conexão com a natureza. Me perguntei como seria se a humanidade se desconectasse totalmente das suas raízes naturais e orgânicas. Nessa elaboração cheguei a um ponto de que já fantasiamos isso na figura do robô humanoide, mais comumente chamado de androide, nas obras de ficção científica e na linguagem em geral.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Androide é designado no dicionário online Michaelis como um autômato com figura de homem e que imita os movimentos dos seres animados[1]. No Dicionário Online de Português, também temos a definição de aparelho ou máquina que se assemelha à figura humana, sendo seus movimentos idênticos aos dos humanos[2].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acredito que existe um desejo egóico na consciência, principalmente na ocidental, de se destacar de uma vez por todas da dependência vital que temos da natureza como meio ambiente, Grande Mãe, assim como da natureza que habita em nossa psique, o inconsciente. O quanto esse desejo e essa luta não desembocam na figura do androide, essa figura que responde apenas a comandos binários pré-programados, teoricamente não precisa de uma alimentação completa e balanceada, não precisa refletir sobre a sua existência, não precisa lidar com seus dejetos orgânicos e com a sua própria sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma de suas passagens mais significativas, Jung chegou a afirmar que sua obra (a psicologia analítica) visa, acima de tudo, “romper com as muralhas que nos separam da natureza que há em nós” (JUNG, 2011, v. 8/2, par. 739). O autor afirmou, ao longo de toda a sua pesquisa científica, a necessidade do homem de se realizar, assim como uma semente se realiza tornando-se árvore. A esse processo, que consiste no ato de tornar-se si mesmo, ele deu o nome de individuação. Ao longo da obra de Jung é possível identificar, ainda, inúmeras passagens alegóricas nas quais o autor comparava os fenômenos naturais aos processos inconscientes e maturacionais dos seres humanos (Duarte, 2017).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung fala em sua obra que para que possamos elaborar uma neurose é necessário realizar a&nbsp;<em>coniunsci oppositorum</em>, ou seja, integração dos opostos que se encontram na consciência e no inconsciente e criar um símbolo por meio da função transcendente. Esse processo ocorre inúmeras vezes durante nossa vida e é chamado de individuação. Esse é o processo de desenvolvimento psicológico, em que olhamos para dentro em busca de nós mesmos, na busca do nosso verdadeiro Eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O abandono da nossa natureza significa uma cisão de nós mesmos e talvez essa dissociação, do homem com o meio e com sua própria natureza, esteja à frente dos principais problemas ecológicos da atualidade (Duarte, 2017). A crise ecológica parece ser um tanto distante e abstrata, mas tem ligação direta com a nossa vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa crise é nossa sombra coletiva. Uma neurose planetária que busca nos levar a uma reflexão sobre nossa relação com a natureza nos mais diversos aspectos. O espírito da nossa época, governado pelo capitalismo consumista, transformou a natureza em produto, matéria-prima. Esquecemos que da natureza vem nosso alimento e a nossa vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jogamos nossos mais diversos detritos para a natureza e esquecemos que logo em seguida precisaremos ir até ela colher nossa comida, nossos remédios e beber a nossa água. Não há nada que exista em nosso planeta que não tenha sido originado na natureza. Não há nada que existe no mundo que não tenha passado pela psique. Nosso descaso com a natureza externa, mostra nosso desprezo pela nossa própria natureza psíquica. Queremos uma vida sem os incômodos da organicidade e do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, curiosamente, essa criatura imaginária, o androide, não escapa das intempéries da psique humana. Quando não se tornam revoltosos contra a humanidade, ou ainda, nos escravizam (a exemplo: Eu, Robô e Matrix) se voltam a uma atitude reflexiva e quase invejosa sobre a humanidade (IA: Inteligência Artificial, O homem Bicentenário) desejando viver coisas que a programação binária não permite.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os androides aparecem principalmente como ferramentas para realização de atividades que são consideradas monótonas, perigosas ou servis, que não exigem reflexão e que muitas vezes são repetitivas, tanto que as leis da robótica, inventadas por Isaac Asimov em 1950 no livro, Eu, Robô (Aleph), são apenas 3: 1) um robô não pode ferir um humano ou permitir que um humano sofra algum mal; 2) os robôs devem obedecer às ordens dos humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei; e 3) um robô deve proteger sua própria existência, desde que não entre em conflito com as leis anteriores[3].</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] para o julgamento científico, o indivíduo constitui uma mera unidade que se repete indefinidamente e pode ser igualmente expresso por uma letra ou um número. Para a compreensão, o homem em sua singularidade consiste no único e no mais nobre objeto de sua investigação, sendo necessário o abandono de todas as leis e regras que, antes de tudo, se encontram no coração da ciência [&#8230;]. (Jung, 2013,&nbsp;§497).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa fala de Jung já traz luz sobre o problema da robotização da vida. Há um desejo de transformar as pessoas em números, letras e massificar a compreensão da sociedade, esquecendo que somos uma composição de indivíduos. O espírito capitalista simpatiza com essa visão e não é à toa que robôs substituem pessoas a cada dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos vivendo em um mundo de relações extremas e binárias: ou é isso, ou é aquilo. Não há meio termo. Esse é o pensamento robótico. Pensando aqui no androide como o homem 100% cultural, não iremos mais nos alimentar de comida, mas de recursos. Não teremos mais dilemas, nem sentimentos, apenas estatísticas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[&#8230;]A separação de sua natureza instintiva leva o homem civilizado ao conflito inevitável entre consciência e inconsciente, entre espírito e natureza, fé e saber, ou seja, à cisão de sua própria natureza que, num dado momento, se toma patológica, uma vez que a consciência não é mais capaz de negligenciar ou reprimir a natureza instintiva [&#8230;]. (Jung, 2013, §558).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung já alertava sobre o conflito homem natural x homem cultural. Para ele não podemos ser unilateralizados em nenhum desses extremos. Precisamos da cultura para viver em sociedade, da tecnologia para garantir bem-estar, saúde, informação e alimentos para todos. No entanto precisamos da natureza para fornecer tudo isso e, ao contrário do que se parece imaginar, ela não é infinita. Nossas ações têm impacto sobre o sistema ecológico e os desequilíbrios afetam diretamente nossa vida. Não podemos viver apenas na esfera egóica, precisamos do inconsciente para trazer criatividade, mistério e criação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coincidência ou não, já estamos a mercê de exércitos de robôs virtuais que comandam as redes sociais e algoritmos. Não há espaço na análise desses robôs para a reflexão. Apenas respondem a comandos e nos inundam com seu trabalho de repetição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O androide muitas vezes é retratado como o fim à humanidade, de forma que a inteligência artificial considera a existência humana imperfeita, arriscada e perigosa, a partir de então a destruição do ser humano em carne e osso passa a ser a solução para os problemas. Nesse sentido evoco a reflexão sobre o quanto nosso ego individual e nossa consciência coletiva não querem acabar com essa existência orgânica e incômoda, para dar lugar a um ideal de existência estéril, binária e artificial, onde tudo pode ser controlado?</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] Quanto mais o homem conseguiu dominar a natureza, mais lhe subiu à cabeça o orgulho de seu saber e poder, e mais profundo o seu desprezo por tudo que é apenas natural e casual, isto é, pelos dados irracionais, inclusive a própria psique objetiva que não é a consciência. [&#8230;] (Jung, 2013, §562)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez esse desejo manifesto na imagem do androide revele um anseio antigo do humano de viver eternamente, e isso só é possível saindo do ciclo de vida e morte da natureza, levado às vias da literalidade. Estamos tentando fugir da nossa própria natureza, negar nossa sombra, nossa carne e nos refugiar numa vida artificial, mas esquecemos que da natureza viemos e a ela voltaremos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente esse desejo egóico, manifestado na imagem do androide 100% racional e cultural, ao invés de nos levar para um lugar de ampla consciência faz justamente o oposto. Transforma o homem apenas em uma unidade indiferenciada no coletivo. Para Jung:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;]Quanto mais uma pessoa é inconsciente, tanto mais ela se conforma aos cânones do comportamento psíquico. Mas, quanto mais ela toma consciência de sua individualidade, tanto mais acentuada se torna sua diferença em relação a outros indivíduos e tanto menos corresponderá ela à expectativa comum. Além disso, suas reações se tornam muito menos previsíveis. [&#8230;] (Jung, 2000. §344).</p></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] Como se sabe, a natureza não é tão pródiga com seus dons a ponto de dar, por exemplo, a uma grande inteligência também o dom do coração. Via de regra, quando um é dado, o outro falta, quando uma faculdade se aperfeiçoa isso acontece, na maior parte das vezes, à custa de todas as outras. Um capítulo especialmente penoso é precisamente a falta de integração entre sentimento e intelecto que, na experiência, dificilmente se compatibilizam. (Jung, 2013, §569)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio Jung refletia sobre a incapacidade humana de abarcar e se aperfeiçoar em todos os aspectos da vida. Talvez, seja uma lei natural a que não se pode ter tudo nessa vida, para que precisemos observar nos outros o que falta em nós com uma atitude integrativa e não defensiva. Ele mesmo diz que não há sentido em formular a tarefa que se impõe à nossa época e ao nosso mundo como uma espécie de exigência moral (Jung, 2013, §570).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Reconhecer que temos nossas finitudes, limitações e incapacidades nos traz humildade. Reconhecer que em nós há a natureza e que é ela que nos torna humanos é uma reverência ao sagrado e ao profano. É um bom passo para uma integração maior com o mundo e com nosso verdadeiro Eu.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Androides e a Ilusão da Humanidade Puramente Artificial | Mauro Soave Junior" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/G2TUz1spg8c?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mauro Angelo Soave Junior – Membro Analista em Formação</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E. Simone Magaldi – Analista didata</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências Bibliográficas</p>



<p class="wp-block-paragraph">Duarte, Alisson J. O. Ecologia da alma: a natureza na obra científica de Carl Gustav Jung. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, v. 35, p. 5-19, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. A Natureza da Psique, Vol. 8/2, Vozes, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C.G. Presente e futuro Vol. 10/1: Civilização em Mudança &#8211; Parte 1: Volume 10, Vozes, 2013.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph">[1]https://michaelis.uol.com.br/palavra/o0Nq/androide/#:~:text=Aut%C3%B4mato%20com%20figura%20de%20homem,%2C%20andr%C3%B3s%2Boide%2C%20como%20fr%20andro%C3%AFde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[2]&nbsp;https://www.dicio.com.br/androide/</p>



<p class="wp-block-paragraph">[3]&nbsp;https://super.abril.com.br/cultura/as-tres-leis-da-robotica/</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/androides-e-a-ilusao-da-humanidade-puramente-artificial/">Androides e a Ilusão da Humanidade Puramente Artificial</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Jung e a Heresia do Método</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dimas Künsch]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2020 19:35:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Transdisciplinaridade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6259</guid>

					<description><![CDATA[<p> A Alemanha da Segunda Guerra Mundial oferece a Jung, de forma dramática, a oportunidade de afirmar a sua visão de que o mito importa, como parte do esforço humano de conhecimento. Em Jung, o método, como caminho do conhecimento, evoca liberdade de espírito</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/">Jung e a Heresia do Método</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">No ano de 1936, no ensaio intitulado “Wotan”, Carl Gustav Jung (1875-1961) solicitava a leitores e ouvintes que esquecessem por alguns instantes o ano em que se encontravam e também a ideia de que, “coerentemente com essa data”, deveriam “explicar racionalmente o mundo, tomando por base os fatores econômicos, políticos e psicológicos”. Não era, vamos dizer assim, a gloriosa Razão que merecia ser invocada para se compreender (no sentido de integrar ao campo do conhecimento) o movimento sociocultural e espiritual que levaria dali a poucos anos ao horror da mais avassaladora de todas as guerras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Preocupado até o fundo da alma com o rufar dos tambores e com a marcha cadenciada dos soldados e das milícias nazistas, e adentrando o vasto, misterioso e muito complexo universo das sombras e do Mal, Jung pedia licença para “proferir uma heresia”: “a de que o velho Wotan, com seu caráter abissal e inesgotável, é uma explicação bem mais acertada do nacional-socialismo do que todos os outros três fatores reunidos” (OC 10/2, 2012, § 385).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A elegância do gesto deixava no entanto entrever uma disputa nada amistosa no território da chamada produção de conhecimento, isto é, desse esforço humano interminável por nos compreendermos a nós mesmos e ao mundo em que habitamos. O criador da Psicologia Analítica estava simultaneamente reivindicando, com esse seu gesto, o direito a se opor à trama estreita, redutora e reducionista das explicações de tipo lógico-racional, para propor horizontes compreensivos de maior envergadura espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No exercício ousado da “heresia” de traçar um paralelo entre “Wotan redivivo e a corrente social, política e psíquica” que sacudia a Alemanha de então, Jung se vale da autoridade moral e cognitiva de um compreensivo “como se” – um “talvez”, mais do que um “portanto” –, para deixar patente a sua visão do método. Burla, com isso, a confiança irrestrita no método racional-científico e anuncia, pela via da aproximação consciente ao universo em movimento das linguagens dos símbolos e das metáforas, o seu desamparo frente a um sistema cognitivo estacionado nos estreitos limites da “pequena Razão” (Nietzsche), no dogma e,&nbsp;<em>last but not least</em>, na violência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung deixa explícita, nesse como em outros contextos, tanto no plano do indivíduo quanto do social, a aposta num certo método, não ortodoxo e em estreita consonância com o sentido mais elevado do termo grego&nbsp;<em>methodos</em>, de&nbsp;<em>meta</em>&nbsp;= através de, por meio de, e&nbsp;<em>hodos</em>, via, trajetória, caminho: um caminho de busca de compreensão, se necessário com incontáveis&nbsp;<em>cum grano salis</em>, e não sob o jugo da camisa-de-força dos trilhos de uma linha férrea. Um caminho entre outros possíveis, mas um caminho, não mais que um caminho, que o credencia a afirmar com convicção o que vem logo na sequência: “Na verdade, os deuses constituem personificações de forças psíquicas” (OC 10/2, 2012, § 387).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A referência à “heresia” não é fora de propósito. Pelo contrário. No “Prefácio a ‘Ensaios sobre História Contemporânea’”, pequena coletânea publicada em Zurique, em 1946, que inclui os textos “Wotan” e “Após a catástrofe”, aqui citados, Jung traz uma observação que corrobora a ideia de que seu pensamento incomodava às elites pensantes, preocupadas com o pretenso rigor e a pureza do paradigma filosófico-científico dominante. Ele lembrava que sua já antiga e muito forte preocupação com os destinos da Alemanha, patente nos textos que escreveu e nas conferências que proferiu a respeito do assunto, desde os tempos da Primeira Guerra Mundial, “provocaram todo tipo de mal-entendidos”, soando “de modo estranho e inusitado para muitos” (OC 10/2, 2012, p. 12). De novo muito elegante o nosso Jung!</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Opostos complementares</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A força da aposta na heresia do método, de que os trechos citados representam um exemplo muito pequeno no conjunto da obra junguiana, não poderia se exprimir de forma mais dramática e contundente que no ensaio “Depois da catástrofe”, de 1945. Trata-se da primeira vez que Jung, como ele mesmo lembra na primeira linha do texto, voltava a escrever sobre a Alemanha: “O mito tornou-se realidade, e hoje grande parte da Europa encontra-se em ruínas” (OC 10/2, 2012, § 400).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Wotan, o “desencadeador de tempestades”, o “arquétipo Wotan” (OC 10/2, 2012, § 391), que “incorpora tanto o lado impulsivo-emocional quanto o lado intuitivo-inspirador” (OC 10/2, 2012, § 393), remete o autor à discussão sobre o problema da culpa coletiva, “essa identidade interior ou&nbsp;<em>participation mystique</em>&nbsp;com os acontecimentos na Alemanha” (OC 10/2, 2012, § 402), e,&nbsp;<em>mutatis mutandis</em>, ao tema da sombra, com suas estratégias de projeção, como se o culpado fosse sempre e inevitavelmente o outro, o inimigo, o diferente. Vale a pena, antes de continuar, prestar atenção ao fato de que a visão integradora dos opostos, na leitura que Jung faz da divindade mítica, nos conduz a mais uma das marcas da heresia do método junguiano, configurada na chamada&nbsp;<em>coincidentia oppositorum</em>, ou complementaridade dos opostos, numa clara renúncia ao ponto de vista dualista, unilateral, reducionista.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando ao tema da projeção da sombra, Jung refuta fortemente essa estratégia no contexto da ruína anunciada, e o faz em primeiro lugar numa referência direta ao destino do povo alemão, para corrigir logo em seguida, quando diz que “o assassinato ocorre, em parte, dentro de cada um, e todos, em parte, o cometeram”. Ele complementa, linhas adiante: “Estamos irremediavelmente imiscuídos na impureza do mal” (OC 10/2, 2012, § 408). Que “ninguém imagine poder escapar a esse jogo de contrários”, reforça. “Até um santo deveria orar pelas almas de Hitler e Himmler, da Gestapo e da SS a fim de reparar a vergonha que sofria em sua própria alma” (OC 10/2, 2012, § 410).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem a pequena e neutra Suíça de Jung dever-se-ia imaginar livre das dinâmicas sombrias do Mal: “Quem somos nós para achar que algo semelhante nunca se passaria conosco?” (OC 10/2, 2012, § 412). Para Jung, nenhum orgulho histórico se justifica, em parte alguma, menos ainda na Europa: “Acreditávamos ter acabado com todos os fantasmas, mas o que na verdade se constatou foi que eles não mais surgiam nas casas mal-assombradas e velhas ruínas, e sim nas cabeças de europeus aparentemente normais” (OC 10/2, 2012, § 431).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aparentemente “normais”, ou “saudáveis”, diríamos hoje. Aparentemente. Mas nesse mundo das sombras, as aparências de fato enganam. O mito platônico da caverna o indica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse confronto dos alemães com sua sombra e culpa coletiva se dá no centro de um furacão. Um e outro lado da moeda, ou os “pares internos de opostos”, como lembra Jung (OC 10/2, 2012, § 439), integram a personalidade humana: “O destino obrigou os alemães a se confrontarem com os pares internos de opostos”, ele diz, para evocar a imagem da obra-prima de Goethe, com toda sua força expressiva: “Mefistófeles é o outro lado de Fausto e não pode mais dizer: ‘Isso era, pois, a essência do cão’, mas teve que confessar: ‘Isso é o meu outro lado, meu alter ego, minha sombra infelizmente demasiado real e inegável’”. Como não poderia deixar de fazer, neste e em vários outros trechos de sua extensa obra, Jung insiste no caráter arquetípico, humano e universal da sombra. “Todos nós podemos identificar esta sombra de que emerge o homem de nosso tempo. Não precisamos atribuir a máscara do demônio ao alemão” (OC 10/2, 2012, § 440).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A heresia do método – fundada na ideia-chave de que “humanos é que somos, não máquinas”, como proclama o personagem principal de&nbsp;<em>O Grande Ditador</em>, de Charles Chaplin – sustenta-se, em Jung, na confiança, que ele manifestava, de não estar nem de longe proferindo meras opiniões. Isso o leva não apenas a retomar a ideia de que nós os humanos somos feitos assim, um eterno jogo sem perde nem ganha de opostos, mas a estabelecer, também, à revelia do pensamento científico de linha dura, algo assim como um “princípio-esperança” (Ernst Bloch). Humana, a sombra não é coisa do capeta!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso aparece com todas as letras quando Jung afirma que, “na verdade, pouco se ganha em perder de vista a própria sombra, ao passo que o conhecimento da culpa e do mal que habitam em cada um traz muitas vantagens”. Exemplos de “vantagens”: “a consciência da culpa pode [&#8230;] converter-se no mais poderoso movente moral”, e “sem culpa não pode haver maturação psíquica nem tampouco ampliação do horizonte espiritual” (OC 10/2, 2012, § 440).<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/jung-e-a-heresia-do-metodo#_edn1"><sup>[i]</sup></a></p>



<p class="wp-block-paragraph">O olhar se volta necessariamente para a pessoa, o indivíduo, numa alusão inicial em nada velada ao pensamento de Paulo: “Onde a culpa é grande, a graça pode também ser imensa. Semelhante fato produz uma transformação interior infinitamente mais importante do que as reformas políticas e sociais que, na verdade, de nada valem nas mãos de homens injustos”, pontua Jung (OC 10/2, 2012, § 441). “Sempre nos esquecemos disso, porque olhamos com fascínio para as circunstâncias que nos rodeiam em lugar de examinar nosso coração e nossa consciência. Todo demagogo se aproveita dessa fraqueza humana e denuncia alto e bom som o descaminho das circunstâncias exteriores. No entanto, o que em última instância não caminha bem é o homem.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Jung, a heresia do método se faz compulsoriamente parceira da crítica ao fascínio desmedido pela ciência e pela tecnologia. A máquina não pode roubar o lugar do homem. Numa Europa orgulhosa de si, sob efeito da inflação do Ego na concepção do próprio Jung, ciência e tecnologia avançaram até um ponto antes não imaginado, “mas o homem, que deve utilizar de maneira racional todas essas maravilhas, foi inteiramente esquecido” (OC 10/2, 2012, § 442). Desvinculada dos seus sentidos humanos e sociais, como podemos intuir, a técnica, em vez de ferramenta, remédio, “cura”, como indica um dos sentidos do grego&nbsp;<em>pharmakon</em>&nbsp;(daí “farmácia”), assume o outro lado do mesmo termo, no sentido de droga e veneno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A centralidade da pessoa, que serve como firme alicerce para a irreverência do método, leva Jung a afirmar a relevância individual, social e política do autoconhecimento e do convívio crítico com as próprias sombras, de “aceitação consciente da culpa coletiva”, de se viver “apesar do mal”. “Uma renovação mental abrangente” se faz necessária, “devendo ser conquistada por cada um”. Para tanto, as “velhas fórmulas” não bastam. “Elas precisam ser geradas novamente em cada época pela alma humana” (OC 10/2, 2012, § 443).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Força extremamente poderosa”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando, linhas atrás, afirmei que “Wotan” e “Depois da catástrofe” oferecem não mais que um pequeno exemplo da aposta, feita por Jung, na heresia do método, provavelmente não estava dizendo nada de errado. Mas muito correto também pode não ser. Não se trata, de fato, pequenos exemplos. Com efeito, Jung não está se referindo a acontecimentos ordinários, ou de relevância histórica inferior. “Não posso esconder ao leitor que nunca um artigo me custou tanto esforço moral e humano. Eu não podia aquilatar o quanto tudo isso&nbsp;<em>me</em>&nbsp;afeta”, confessa Jung, fazendo questão de grifar a alusão a si mesmo, no “me” do final da frase, que aparece com itálico (OC 10/2, 2012, § 402).</p>



<p class="wp-block-paragraph">As duas guerras mundiais representam, de longe, e de modo bastante especial para Jung, a maior de todas as tragédias do século XX. É como se todo otimismo, vindo lá detrás, no bojo de um movimento cultural que ganhou expressão muito forte no Iluminismo, revelasse de repente sua mais completa fragilidade interior no confronto com a dura realidade da história humana. Já no final do século XIX, esse otimismo, tão fortemente afetado pela arrogância e pelo desprezo, havia produzido nos setores europeus dominantes a sensação de se estar vivendo no melhor e mais avançado de todos os mundos possíveis – uma das primeiras manifestações da ideia de que “a história acabou” vem dali, não de Francis Fukuyama, um dos ideólogos do governo Reagan, nos anos 1980. Um otimismo que esbarra contra e se estraçalha nas cercas de arame farpado de Auschwitz, para se usar uma imagem dramática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora, Hegel (1770-1831) não havia anunciado que a História, em seu movimento dialético, levaria a Humanidade à gloriosa conquista do “Espírito Absoluto”? Karl Marx (1818-1883) não havia intuído a derrota da burguesia e do capitalismo, como resultado das contradições dialéticas da História, culminando na tomada de poder pelo proletariado e na instauração do socialismo, para se chegar, numa etapa posterior, à glória da sociedade comunista? Augusto Comte (1798-1857), nessa mesma linha e quase ao mesmo tempo, não havia celebrado que a Humanidade, agora adulta, havia alcançado o estágio mais elevado da civilização, o da Ciência Positiva, contra toda ignorância, contra todo atraso, contra todo mito e contra toda religião?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A circunstância, quase hilária nesse contexto, de Comte fundar uma religião, a Religião Positiva, com seus sacerdotes, seu catecismo, seus templos e seus rituais, e de ter-se autoproclamado “sumo-sacerdote da Religião Positiva”, mostra como é bom não levar muito a sério a ideia de rigor do método. Na história humana como na vida de cada pessoa, uroboricamente, a cobra costuma viver de morder o próprio rabo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mais sombria manifestação do Mal na história do orgulhoso Ocidente branco e cristão se revestia, para Jung, de significados humanos e psíquicos difíceis de dimensionar – e incapazes de ser compreendidos, isto é, integrados numa visão mais complexa, pelos recursos oferecidos pelo método científico tradicional, pelo esquadro e a régua das linguagens da matemática e do rigor. A heresia tem um preço: em mais de uma ocasião e por mais de uma razão, Jung acabou sendo duramente criticado, perseguido até, por setores ocupados em buscar culpados pela catástrofe, em apontar o dedo e projetar sobre outros o peso incomensurável de suas próprias sombras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung se defende: “Fui acusado de ‘não ter dito antes’ o que agora critico em relação à Alemanha. Sentiria muita alegria se meus críticos conseguissem me provar que eles próprios pronunciaram publicamente, em 1933, algo semelhante ou com maior clareza. Minhas conferências eram públicas e assistidas por centenas de pessoas. Tudo foi dito, portanto, no tempo certo, em alto e bom som” (OC 10/2, 2012, § 462a). Jung se refere, nesse trecho, a conferências pronunciadas em Colônia e Essen, na Alemanha, naquele ano, nas quais, entre outras coisas relacionadas à conjuntura do momento histórico, ele dizia que “o homem coletivo ameaça sufocar o indivíduo sobre cuja responsabilidade repousa, em última instância, toda obra humana”. E perguntava: “Entretanto, quem é capaz de opor resistência a essa força de atração tão poderosa que arrasta tudo e todos?” (OC 10/2, 2012, § 462).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, não parece de forma alguma exagerado acatar, com leveza de espírito e com o sentido da responsabilidade individual e coletiva, o que Jung, em todo esse contexto pessoal e coletivo de tragédia e dor, afirma explícita e implicitamente sobre o método, com a consequente crítica ao “cogito” da ciência estabelecida. Na guerra, os demônios andam à solta, não por último os demônios da mais avançada tecnologia da arte de matar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conclusão análoga poder-se-ia tirar sobre significado e valor de tudo quanto Jung, nesse mesmo contexto, nos apresenta sobre a sombra. Ali, onde o Mal se deixa ver e sentir com a sua força irresistível, o tema do confronto com a sombra individual e coletiva parece assumir uma importância e uma dramaticidade ímpares. Não passa despercebido o fato de que o texto que acompanha os dois ensaios de que se está tratando seja justamente “A luta com a sombra”, uma conferência realizada para um programa veiculado pela BBC, em 3 de novembro de 1946.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ensaio, Jung retoma o tema da “psicopatologia de massa”, empenha-se na leitura da tragédia da Segunda Guerra à luz da “força extremamente poderosa das sombras” (OC 10/2, 2012, § 455) e, depois de diagnosticar em Hitler “uma personalidade inteiramente psicopática, incapaz, desajustada e irresponsável, cheia de fantasias ocas e pueris”, representando “as sombras e a parte inferior de toda personalidade num grau extremo” (OC 10/2, 2012, § 454), assim respondia à pergunta “O que deveriam ter feito os alemães?”: “Todo alemão poderia ter reconhecido em Hitler as suas próprias sombras e percebido o terrível perigo que representava”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O confronto com a sombra, no entanto, nada possui de fácil: “Cada um de nós poderia ter tomado consciência de sua própria sombra e ter-se encontrado com ela. Como então esperar que os alemães tivessem compreendido tudo isso se ninguém no mundo consegue compreender uma verdade tão simples?”. A dinâmica ordem-e-caos exige o que para muitos parece impossível: “O mundo jamais alcançará um estado de ordem sem reconhecer essa verdade” (OC 10/2, 2012, § 455).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A crítica à “massificação” do homem europeu retorna, com ênfase, em “Posfácio a ‘Ensaios sobre História Contemporânea’”. É no indivíduo que pensa Jung: “Não falo para nações, falo para indivíduos, para alguns poucos que sabem que nossas realidades culturais não caem do céu, consistindo em realizações de homens individuais”. Para Jung, “se tudo está indo mal é porque o indivíduo vai mal, é porque eu estou mal” (OC 10/2, 2012, § 462).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Considerações finais</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez se devesse dar o título de “considerações iniciais” a essa viagem curta e rápida ao território da busca incansável de Jung por se aproximar ao mundo da psique humana e de suas necessárias ligações com temas como o Mal e a sombra, a vida individual e coletiva, o social, o político e o cultural.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao se atribuir à visão junguiana o qualificativo de “complexa”, roçamos apenas de leve na aposta de Jung em uma busca de compreensão de tipo multiangular, multiperspectívico, plural dos fenômenos sociais e humanos. O outro lado dessa mesma ação inclui, mais do que a irreverência, a rebeldia intelectual contra o reducionismo, o determinismo e o mecanicismo que costumam acompanhar, de muito perto e quais fantasmas assustadores, as formas ditas mais rigorosas e sérias de aplicação do método científico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao trazer para o centro do debate noções tão fundamentais como as do simbólico e do mitológico, as figuras de linguagem, as linguagens da arte e outras expressões do vasto campo da produção humana de sentidos sobre a vida e o mundo, Jung ressitua o sujeito frente ao método, tece a crítica ao cientificismo e, poderíamos dizer, enquadra de um modo novo, diverso e divertido, o tema do próprio conhecimento. Quase que o ouvimos dizer, referindo-se ao método e aos esforços humanos de compreensão, que, enfim, o sábado foi feito para o homem. Não o contrário.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Dimas A. Künsch &#8211;&nbsp; Analista em formação pelo IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">REFERÊNCIAS</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Aspectos do drama contemporâneo</em>. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. [OC 10/2, 2012].</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (Orgs.).&nbsp;<em>Ao encontro da sombra</em>. São Paulo: Cultrix, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FOTO: THALES CARRARO</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/jung-e-a-heresia-do-metodo#_ednref1"><sup>[i]</sup></a>&nbsp;Sanford, numa entrevista a Patrick Miller (em ZWEIG; JEREMIAH, 1994, p. 44), traduz o que de fato pensava Jung, ao afirmar que ele “estava certo quando disse que noventa por cento da sombra é ouro puro. Tudo o que foi reprimido (seja lá o que for) contém uma quantidade tremenda de energia, com um grande potencial positivo. Por isso a sombra, não importa quão perturbadora ela possa ser, não é intrinsecamente má. O ego, com sua recusa de introvisão e com sua recusa de aceitar o todo da personalidade, contribui muito mais para o mal do que a própria sombra”.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Dimas A. Künsch &#8211; 18/12/2020</em></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos">&nbsp;Voltar</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/">Jung e a Heresia do Método</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Intolerância &#8211; aspectos sombrios da psique</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/intolerancia-aspectos-sombrios-da-psique/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Nov 2020 19:15:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Raiva]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[Transdisciplinaridade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[intolerância]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5773</guid>

					<description><![CDATA[<p>Com o crescente avanço do mercado da tecnologia e, principalmente da utilização de redes sociais, fica cada vez mais evidente que um clique inicial para unir pessoas de diferentes lugares e expandir conhecimentos, tornou-se também um espaço de reprodução da intolerância, dividindo pensamentos e afastando uns dos outros. Quero ressaltar a minha admiração e o [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/intolerancia-aspectos-sombrios-da-psique/">Intolerância &#8211; aspectos sombrios da psique</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Com o crescente avanço do mercado da tecnologia e, principalmente da utilização de redes sociais, fica cada vez mais evidente que um clique inicial para unir pessoas de diferentes lugares e expandir conhecimentos, tornou-se também um espaço de reprodução da intolerância, dividindo pensamentos e afastando uns dos outros. Quero ressaltar a minha admiração e o reconhecimento dos aspectos positivos que o mundo virtual nos proporciona, porém são cada vez mais comuns as queixas nos consultórios sobre comentários inoportunos e ofensivos, que podem possibilitar contato com o mundo sombrio e patológico de quem os emite, como de quem os recebe, ativando a constelação de complexos. Ao mesmo tempo, ações impulsivas e radicais, podem evidenciar um sofrimento psíquico, resultante da falta de integração das diferentes polaridades. Neste sentido, trago reflexões acerca do tema: a intolerância sempre existiu ou se fortaleceu com o espaço de fácil acesso aos meios virtuais? &nbsp;Embora tenhamos ao nosso dispor a tecla “delete” para bloquear ou excluir o que não nos interessa mais, não é tão simples deletar aspectos sombrios que se manifestam pelo psiquismo em forma de intolerância. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Carl Gustav&nbsp;Jung,&nbsp;deixou-nos grandes reflexões e&nbsp;apresentou seis dimensões que interferem na nossa vida: família, trabalho, amor, vida social, corpo e espiritualidade. Quando harmoniosamente vividas, apresentam-se de forma saudável, permitindo a plenitude. Quando não bem vividas, transformam-se em questões patológicas. Para vivermos as diferentes dimensões, utilizamos recursos internos, que na psicologia analítica junguiana denominamos de personas e sombras. De acordo com diferentes autores, entende-se por persona, um processo consciente do ego, que envolve&nbsp;aspectos do eu que apresentamos ao mundo exterior como máscara social e ideal de nós mesmos, que é funcional e extremamente necessária, em função das adaptações. Fazem parte da sombra os aspectos ocultos ou inconscientes repletos de potencialidade, bons ou maus, que por alguma razão, o ego está reprimindo e nunca teve acesso, recusa admitir ou conhecer.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, em seu livro&nbsp;<em>Psicologia e Alquimia&nbsp;</em>(1994),<em>&nbsp;</em>deixou-nos estudos sobre a alquimia, que é metafórica e nos permite perceber o símbolo transformador de energia que cura, em contínuo processo de dissolver e coagular, ciclo evolutivo da ampliação da consciência, promovendo morte e renascimento. De uma forma resumida, a mortificatio<em>,&nbsp;</em>uma das sete operações alquímicas, faz referência à experiência de morte e está associada ao negrume, ao que está na sombra, a derrotas e impossibilidades. O que é movido pelo ego cai nessa nigredo para sofrer as transformações necessárias para o aumento de consciência de si. As dores da alma (nigredo) vão se transformando e, tornando-se mais claras (albedo), para finalmente serem ressignificadas, com novo sentido e significado (rubedo). Outro olhar interessante é o que nos remete aos estudos da psicossomática, em que&nbsp;o ato de vomitar envolve o não digerido no processo digestivo. Simbolicamente, também está relacionado com a intolerância, sendo que ao “vomitarmos”, tiramos o ruim que está dentro de nós e o jogamos fora, para o coletivo e, pela sujeira e mau cheiro, requer limpeza do ambiente, que pode ser uma valiosa oportunidade de entrar em contato com a putrefação do nosso mundo interno e promovermos as transformações.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No contexto de promovermos cada vez mais a tolerância, os meios social, histórico e cultural influenciam significativamente. Podemos usar como exemplo um marco que ocorreu em 1996, com a aprovação pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, o&nbsp;<em>Dia Internacional da Tolerância</em>. A&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/ONU">ONU</a>&nbsp;o instituiu no dia&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/16_de_Novembro">16 de novembro</a>&nbsp;de cada ano, em reconhecimento à Declaração de Paris (1995), ressaltando a importância dos direitos fundamentais, preservando a dignidade e o valor da pessoa humana. De forma idêntica, é possível percebermos a influência do&nbsp;meio em que estamos inseridos, reforçando comportamentos e valores por meio de expressões populares, que&nbsp;<strong>também ressaltam a ideia de praticarmos a tolerância.</strong>&nbsp;Algumas expressões exaltam aspectos positivos de uma construção social. Quem nunca ouviu a frase “só se atiram pedras em árvores frutíferas?”&nbsp;<strong>“Roupa suja se lava em casa” enfatiza o bom senso de resolvermos os problemas onde eles estão inseridos. Verdadeira ou não, “quem com ferro fere, com ferro será ferido”, é a expressão que nos convida a refletirmos sobre o que emitimos ao universo. Muitas vezes não prestamos atenção na força de algumas frases, porém&nbsp;</strong>aos poucos elas vão se estruturando, criando sentido e significado. Talvez agora muito mais, ao vermos pessoas de diferentes níveis culturais se exporem com intolerância diante de qualquer divergência de opinião, principalmente nas redes sociais. É como se a liberdade de expressão vivesse um retrocesso e o respeito mútuo precisasse ser repensado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como foi sábia Cora Coralina (2007), que nos deixou sua simplicidade em forma de poesia, contendo a essência de vida: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Como pedagoga, entre tantos autores renomados que admiro, permito-me mencionar também uma frase da educadora Maria Montessori, que vem ao encontro do tema proposto: “É para uma grande obra que somos chamados. Eis aí a grande tarefa social que nos espera: colocar em funcionamento o valor potencial do homem, permitir-lhe atingir o desenvolvimento máximo de seus dinamismos, prepará-lo verdadeiramente para mudar a sociedade humana, fazê-la mudar para um patamar superior” (2004, p.21). Ela propõe uma educação para a paz e não para a competição, que é o princípio de qualquer guerra. A competição, tão estimulada em nossa sociedade, pode ser o pano de fundo da falta de respeito com o próximo e a si mesmo. Da mesma forma, trago a contribuição da psicologia, que envolve uma amplidão de conhecimentos e se utiliza de diferentes compreensões para trabalhar aspectos conscientes e inconscientes do psiquismo. Entre tantas possibilidades, cito a função espelho, que ajuda o cliente perceber o aspecto sombrio que carrega dentro de si. Existem técnicas específicas nas diversas abordagens da psicologia, que estimulam entrar em contato com o outro e colocar-se no seu lugar, como a técnica da cadeira vazia e da imaginação ativa, possibilitando o contato com os conteúdos inconscientes, por meio da personificação. Esse exercício estimula o surgimento da empatia, que é a porta de entrada da alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já dizia Nise da Silveira:&nbsp;&#8220;A criatividade é o catalisador por excelência das aproximações de opostos. Por seu intermédio, sensações, emoções, pensamentos, são levados a reconhecerem-se entre si, a associarem-se, e mesmo tumultos internos adquirem forma&#8221;(1981, p.11). Ela também dizia que o&nbsp;mal pode ser combatido com música e poesia. Essa afirmação permite pensarmos sobre a intolerância em diferentes contextos, com a voz de Lenine: “Ela é quem dinamita a mina. É ela. Ela vem e espalha conflito. Ganha nem que seja no grito&#8230; Traz em cada mão o desassossego. Vai furar no chão, um buraco negro.” O grupo musical&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk00ydqmsOmMcMV8XDe6ns6MhPDuLBg:1603066439032&amp;q=Legi%C3%A3o+Urbana&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAONgVuLSz9U3MMyJNzTPW8TK55Oannl4cb5CaFFSYl4iAOkabKwfAAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjh8Zjtr7_sAhVkHbkGHSwRCoMQMTAAegQICRAD">Legião Urbana</a>, com a canção&nbsp;<em>Os Anjos,&nbsp;</em>convida-nos para refletir: “Hoje não dá&#8230; A maldade humana agora não tem nome&#8230; Como se faz uma receita pra intolerância e injustiça. Vamos lá&#8230;” Em contrapartida, Ana Carolina, com a música&nbsp;<em>Tolerância,</em>&nbsp;propõe a vivência do amor com respeito às diferenças: “Como água no deserto, procurei seu passo incerto, pra me aproximar a tempo&#8230; Não me importa a sua crença, eu quero a diferença, que me faz te olhar de frente, pra falar de tolerância e acabar com essa distância entre nós dois&#8230; Se pareço ainda estranho, se não sou do seu rebanho e ainda assim te quero&#8230; É que o amor é soberano e supera todo engano, sem jamais perder o elo. Com a música&nbsp;<em>Inclassificáveis&nbsp;</em>(<strong>Arnaldo Antunes-1996)</strong><em>,</em>&nbsp;regravada por Ney Matogrosso em 2008, fica evidente o convite para a valorização da mistificação da nossa cultura brasileira: “Somos o que somos, somos o que somos, inclassificáveis, inclassificáveis…”. Somos únicos e integrais, somos a conexão de diferentes dimensões em busca vivências e convivências harmoniosas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mitologia grega também nos oferece elementos para entendermos o mal e a intolerância humana. O Mito de Procusto, envolve a história de um bandido gigante, na serra de Elêusis, que conservava em sua casa uma cama feita de ferro, com a sua medida e que servia de arapuca para seus convidados. Ele amarrava nela as suas vítimas e as adaptava à medida da sua cama, cortando as partes maiores e esticando até caber na medida os tamanhos inferiores. Atená, uma das deusas gregas, cansada com as injustiças de Procusto e o clamor das vítimas, tentou convencê-lo a mudar de atitude, mas ele se negou, afirmando estar fazendo justiça ao acabar com as diferenças entre os homens. O monstro mitológico teve um fim trágico. Ele foi capturado pelo herói Teseu, que o amarrou na sua cama de ferro e lhe cortou a cabeça e os pés (Brandão, 2000). Analogicamente, o mito nos propicia reflexões sobre aspectos que envolvem a intolerância. Quantas vezes nos deparamos com o espírito de Procusto, descartando quem não cabe nas nossas medidas? Quantas vezes assumimos o papel de Procusto para apagar os que pensam e agem de forma diferente? Quantas vezes preparamos a cama de Procusto para cortar e esticar os outros? E o que fazemos com os nossos monstros internos? Monstros em forma de incitação à violência, discriminação e intolerância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda, segundo Jung, o lado sombrio da alma, é composto por instintos primitivos e sentimentos reprimidos, que podem ser ressignificados. É o que ele quis nos passar com a seguinte frase:&nbsp;“As pessoas, quando educadas para enxergarem claramente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes; pelo menos, assim se espera. Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza.” (2013, par.28). Esclarecendo que respeito, do latim&nbsp;<em>respiciere</em>, significa olhar outra vez, olhar com outras lentes, na mesma medida em que nos deixamos ser vistos, para que surjam reconsiderações. Com essa fala, imagino que Jung tentou nos dizer que o processo de cura envolve o contato com o sombrio em forma de angústia e, a partir da integração de polaridades, surge o espaço para a expressão criativa e ressignificação dos padrões patológicos. Desta forma,&nbsp;a alteridade é um dos caminhos que nos permite compreender, colocar-nos no lugar e aceitar o outro com sua singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para culminar minhas ampliações, mais uma vez evidencio o “cantar com a alma” de Lenine, com sua música&nbsp;<em>Paciência,&nbsp;</em>metaforizando um convite para um mundo melhor: “Enquanto todo mundo espera a cura do mal, e a loucura finge que isso tudo é normal, eu finjo ter paciência. E o mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós um pouco mais de paciência&#8230; Será que é o tempo que lhe falta pra perceber, será que temos esse tempo pra perder e quem quer saber, a vida é tão rara&#8230; Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, eu sei, a vida não para&#8230;”&nbsp; Temos um tempo precioso e raro, que é o tempo presente e, o que vamos fazer com ele depende de cada um de nós. Tempo de ressignificarmos aspectos sombrios do nosso psiquismo, tempo de promovermos a tolerância. Sempre podemos fazer escolhas! A vida é tão rara e não para&#8230; A vida pede calma e envolve a alma!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claci Maria Strieder, analista em formação pelo IJEP &#8211;&nbsp;<a href="mailto:clacims@gmail.com">clacims@gmail.com</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Fontes de consulta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza.&nbsp;<em>Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega</em>. Petrópolis: Vozes, 1991, 2.vols.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>CORALINA, Cora. Trecho do poema Exaltação de Aninha (O Professor) de Cora Coralina, in: Vintém de cobre: meias confissões de Aninha, 9. ed., São Paulo: Global, 2007.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<em>Psicologia e alquimia.</em>&nbsp;Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;_________&nbsp;<em>Psicologia do inconsciente</em>. Petrópolis/RJ: Vozes,&nbsp;2013.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">MONTESSORI, Maria (1870-1952).&nbsp;<em>A educação e a paz</em>. Trad. Sonia Maria Alvarenga Braga. Campinas, SP: Papirus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, Nise da.&nbsp;<em>Imagens do inconsciente</em>. Rio de Janeiro: alambra, 1981.</p>



<p class="wp-block-paragraph">www.lyrics.com&nbsp;› lyric › Legião+Urbana › Os+Anjos</p>



<h3 class="wp-block-heading">www.youtube.com&nbsp;› watch&nbsp;Ana Carolina &#8212; Tolerância &#8211; Clipe Oficial – YouTube</h3>



<p class="wp-block-paragraph">www.youtube.com&nbsp;› watch Arnaldo Antunes – Inclassificáveis – You Tube</p>



<p class="wp-block-paragraph">www.youtube.com&nbsp;› watch&nbsp; Lenine – Intolerância – You Tube.</p>



<p class="wp-block-paragraph">www.youtube.com&nbsp;› watch&nbsp; Lenine – Paciência – You Tube.&nbsp;</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/intolerancia-aspectos-sombrios-da-psique/">Intolerância &#8211; aspectos sombrios da psique</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O jovem adulto: reflexões sobre o vazio existencial e a plenitude da vida</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-jovem-adulto-reflexoes-sobre-o-vazio-existencial-e-a-plenitude-da-vida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2020 19:21:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Transdisciplinaridade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[jovem adulto]]></category>
		<category><![CDATA[plenitude]]></category>
		<category><![CDATA[vazio existencial]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5786</guid>

					<description><![CDATA[<p>O mundo jovem adulto, em torno dos 20 aos 40 anos, é marcado por um período de nossas vidas em que somos conduzidos para fora, buscando a plenitude das nossas potencialidades, no alcance da realização pessoal. É um processo que envolve coragem, determinação e escolhas. &#160;Geralmente deixamos a casa dos pais, assumimos o primeiro emprego, [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-jovem-adulto-reflexoes-sobre-o-vazio-existencial-e-a-plenitude-da-vida/">O jovem adulto: reflexões sobre o vazio existencial e a plenitude da vida</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O mundo jovem adulto, em torno dos 20 aos 40 anos, é marcado por um período de nossas vidas em que somos conduzidos para fora, buscando a plenitude das nossas potencialidades, no alcance da realização pessoal. É um processo que envolve coragem, determinação e escolhas. &nbsp;Geralmente deixamos a casa dos pais, assumimos o primeiro emprego, casamos ou estabelecemos outros relacionamentos importantes, temos filhos e acompanhamos o desenvolvimento deles. Somos movidos por ideais, que simbolicamente nos fazem lembrar das palavras do poeta Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis&#8230; ora! Não é motivo para não querê-las&#8230; Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta fase, vivemos em busca de grandes metas &#8211; sucesso, saúde e felicidade – que são incentivadas pela nossa sociedade e reforçadas especialmente pela mídia. A preocupação maior é em torno do TER (cargos, bens materiais, relação estável, entre outros), alimentando o nosso ego. Ao mesmo tempo, trazemos dentro de nós uma carga genética física e emocional, com marcas e vivências de várias gerações, que nos permitem um olhar para a nossa singularidade. Neste sentido, Hillman trouxe uma reflexão: “Cada pessoa possui dentro de si uma singularidade que pede para ser vivida e que já está presente antes mesmo de ser vivida” (2001, p. 16). Em outras palavras, é a presença do inconsciente pessoal e coletivo, ao mesmo tempo um convite para o SER, incentivando-nos para a caminhada rumo ao Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Surgem questões importantes: como conciliar a vivência da liberdade, da independência financeira, das relações afetivas duradouras, neste mundo acelerado e descartável? Possibilidades nem sempre presentes, que podem gerar um mal-estar, uma sensação de desamparo, incompletude e desmotivação, traduzidas em vazio existencial, descritas de algum modo por Sigmund Freud em O Mal-Estar da Civilização e, também por Zygmunt Bauman, em O Mal-estar da Pós-Modernidade. Percebe-se que até hoje predomina a cultura do evitamento da dor e do silêncio com o sofrimento psíquico, amenizado com medicalizações, porém Jung, em seus estudos sobre a psique humana, metaforicamente nos alertou sobre os distúrbios neuróticos, que podem ser manifestados mais cedo ou mais tarde e que precisam de um olhar diferenciado: “O vinho da juventude nem sempre se clarifica com o avançar dos anos: muitas vezes até se turva” (2013, p. 352).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existem inúmeros autores que estudam o desenvolvimento humano e cito alguns que me auxiliam na ampliação de algumas questões comuns nesse período de vida. Segundo Papalia, D. E., Olds, S. W., &amp; Feldman, R. D. (2006, p. 367), os aspectos do desenvolvimento físico, cognitivo e psicossocial se entrelaçam. A fase do jovem adulto é marcada pelas habilidades físicas e sensórias. A cognição envolve o pensamento relativo, pós-formal, que auxilia em experiências nos diferentes contextos, com inteligência emocional, compreensão de si e do outro. Da mesma forma, o desenvolvimento psicossocial está relacionado à questões que estruturam a vida pessoal e social, que envolvem escolhas sobre a formação, a profissão, os laços de amizade e os relacionamentos afetivos, valiosos para a saúde e o bem-estar. Neste contexto, deparamo-nos com diferentes realidades e as angústias nos impulsionam para a procura de possibilidades criativas e recomeços. &nbsp;As universidades são cada vez mais frequentadas por pessoas de diferentes idades, em busca da segunda graduação e de especializações. O mundo do trabalho, que é bem diversificado e expandido para o campo virtual, também é ocupado por maior número de mulheres em profissões tradicionalmente exercidas por homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vindo ao encontro, Erik Erikson nos deixou a ideia de que as pessoas se desenvolvem durante toda vida. Ele apresentou para o período do jovem adulto a sexta crise do desenvolvimento: intimidade versus isolamento. Hoje nos deparamos com estilos em que a intimidade e interioridade tendem ao silêncio e, em seu lugar são exaltadas as performances nas cenas espetaculosas do mundo virtual. Ao mesmo tempo, o senso de pertencer na intimidade está presente em ciclos de vidas conjugais e não-conjugais. Apesar das mais variadas oportunidades em diferentes dimensões, chega um momento que a questão de permanecer sozinho ou não, fala mais alto e, muitos se decidem pelo casamento. Jung, na sua época já dizia: “A escolha do parceiro normalmente se realiza por motivos inconscientes e instintivos, desde que o casamento não tenha sido arranjado pela inteligência, pela astúcia ou pelo tal amor providente dos pais” (2013, p.204). Em nome do amor fazemos escolhas e promovemos encontros, como Fernando Pessoa trouxe em seu versos: “Quando te vi, amei-te já muito antes. Tornei a achar-te quando te encontrei&#8230;” (Alves, 2005, p. 101).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em termos gerais, podemos caracterizar o casamento como a busca de realização, escolha que ocorre cada vez mais tarde, com menos filhos e, com a opção de adoção ou a utilização dos métodos alternativos de concepção. Os filhos representam a conservação da espécie, a continuidade da família e os sonhos concretizados. Jung, trouxe-nos essa afirmação em outra expressão: “A imensa maioria dos homens desde tempos imemoráveis sentiu necessidade da continuação da vida” (2013, p.359). Assim sendo, a vida familiar varia de acordo com a cultura e os relacionamentos se organizam de várias formas, sendo que a divisão de tarefas, adotada por muitos, pode contribuir para a deterioração ou melhora do casamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O modelo humanista, defendido por Maslow, propõe a existência de um conjunto de necessidades comuns à todos os seres humanos e também, que todos são atuantes em seu próprio desenvolvimento, por meio da escolha, da criatividade e da autorrealização. Dessa forma, cada um é responsável pela sua caminhada e nem sempre as escolhas são saudáveis, necessitando da ruptura de padrões estabelecidos. No sentido metafórico, a música Sentado À Beira Do Caminho, cantada por Erasmo Carlos, retrata essa realidade: “Vejo caminhões e carros apressados a passar por mim. Estou sentado à beira de um caminho que não tem mais fim&#8230; Meu olhar se perde na poeira desta estrada triste&#8230;” Mais uma vez trago Jung, que dizia: “Sem haver necessidade, nada muda e menos ainda a personalidade humana” (2013, p. 184). Nos consultórios, cada vez mais estão presentes as dificuldades em estabelecermos relacionamentos estáveis, os problemas oriundos da convivência conjugal e a educação dos filhos. As disfunções geralmente são marcadas por ansiedade ou por características depressivas, que também envolvem o empenho e desempenho sexual. As separações e os divórcios são frutos do isolamento em redes virtuais, das disfunções eréteis e transtornos pré-menstruais, das violências domésticas e, tantos outros problemas não integrados, envolvendo um período doloroso de resolução e de adaptação. São realidades de um mundo que incentiva a aparência e a contenção da expressão dos sentimentos, em que os “não ditos” podem se transformar em doenças, envolvendo as diferentes dimensões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filósofo Rudolf Steiner, criador da Antroposofia, defendeu a ideia de que a vida é cíclica e é dividida em fases de sete anos. De acordo com o autor, dos 21 aos 42 anos, o ser humano se insere na sociedade e faz as escolhas. Desta forma, dos 21 aos 28 anos &#8211; fase dos limites – ocorre a ápice da fertilidade e é o início da fase da alma, surgindo diferentes emoções e dúvidas. Dos 28 aos 35 anos &#8211; fase organizacional &#8211; ocorre a crise do talento, com questionamentos sobre qual caminho seguir. Finalmente, dos 35 aos 42 anos, com a crise de autenticidade, surge a fase da alma e da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vindo ao encontro, Jung nos deixou inúmeras reflexões sobre a importância de ampliarmos a nossa consciência. Entre elas, podemos citar a dificuldade de lidarmos com as incertezas. Temos uma tendência de projetarmos e criarmos expectativas, centradas em certezas e em resultados imediatos, que podem se tornar problemas e, para tanto, ele propõe uma forma diferente de compreendermos nossas demandas: “Os problemas, portanto, implicam a possibilidade de ampliar a consciência, mas também a necessidade de nos desprendermos de qualquer traço de infantilismo e de confiança inconsciente na natureza (p. 344). Ele complementa: “Sem consciência, não existem problemas” (p.345). Um exemplo atual é a presença do COVID-19, provocando inquietações diante da dualidade de nos recolhermos em nossas casas para protegermos os que estão em situação de risco ou continuarmos a nossa jornada de trabalho com atividades externas. Quantas posturas conflitantes, julgamentos e confusões nos cercam! O desconhecido, em forma de medo, coloca-nos diante do perigo de riscos e a possibilidade de fugirmos do problema. Em contrapartida, propicia-nos um momento oportuno para refletirmos sobre o que o inconsciente coletivo nos mostra e que precisa ser ressignificado. Como disse Jung, duas diferenças geram as dificuldades: “a desigualdade de tempo no desenvolvimento e o alcance da personalidade espiritual” (2013, p.206). Entre muitas questões que envolvem o momento, podemos pensar sobre o que representa o isolamento: a saída da turbulência social e o encontro com as nossas sombras que evitamos reconhecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda, sobre o desenvolvimento humano, Jung dizia: “A curva psicológica da vida, entretanto, recusa-se a se conformar com estas leis da natureza. A discordância às vezes começa já antes, na subida” (2013, p.363). Ele complementa: “Um jovem que não luta nem triunfa perdeu o melhor de sua juventude” (2013, p.364). Essas ampliações nos convidam a pensar no sentido e significado das nossas escolhas, que podem suscitar diferentes crises e possibilitar a entrada na metanóia, fase em que geralmente repensamos estilos dominantes, produzimos mudanças e novas adaptações, não necessariamente na metade da vida ou em idade cronológica específica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para finalizar, cito Jung, com mais considerações sobre a curva da vida: “A recusa em aceitar a plenitude da vida equivale a não aceitar o seu fim. Tanto querer viver é sinônimo de não querer morrer. A ascensão e o declínio formam uma só curva” (2013, p.364). Uma só curva, com ascensão e declínio e, muitas oportunidades no decorrer do percurso. São colocações que nos permitem ampliar e compreender que o vazio existencial e a plenitude da vida sempre envolvem nossas escolhas. Para tanto, podemos errar e recomeçar sempre, em qualquer momento de nossas vidas, integrando as polaridades razão e sentimento. São as vivências que nos permitem obter o conhecimento do coração, que não encontramos nos livros de ensinamentos racionais. Algumas vezes, perdas são necessárias para dar espaço ao novo, simbolicamente representado por algo que alimente a nossa alma. Podemos transcender e viver as nossas potencialidades com plenitude!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claci Maria Strieder, analista junguiana em formação pelo IJEP. Brasília/DF &#8211;&nbsp; Contato: (61) 99951.0003 &#8211;&nbsp;clacims@gmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: Melancolia, fotografia da escultura de Albert Gyorgy, em Genebra, retratando sobre o vazio existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ALVES, Rubem. A maçã e outros sabores. Campinas: Papirus Editora, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BAUMAN, S. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ERIKSON, E. H. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FREUD, S. O mal-estar na civilização. Edição Stanford Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, Vol. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. O código do ser: em busca do caráter e da vocação pessoal. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________________O desenvolvimento da personalidade. 14ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIEVEGOED, Bernard.&nbsp; Fases da vida. Crises e desenvolvimento da Individualidade. São Paulo: Editora Antroposófica, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PAPALIA, D. E., OLDS, S. W., &amp; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento humano (8ª ed.). Porto Alegre: Artmed, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">QUINTANA, Mário. Espelho mágico. Porto Alegre: Editora Globo, 1951.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SCHULTZ, Duane P; SCHULTZ, Sydney Ellen. História da Psicologia Moderna. 10ª ed. São Paulo: Cengage Learning, 2016.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder&nbsp;</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-jovem-adulto-reflexoes-sobre-o-vazio-existencial-e-a-plenitude-da-vida/">O jovem adulto: reflexões sobre o vazio existencial e a plenitude da vida</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O Mítico Círculo de Eranos (parte 1) (Eranoskreis)</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-mitico-circulo-de-eranos-parte-1-eranoskreis/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Isa Carvalho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 14:50:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Transdisciplinaridade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[eranos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6182</guid>

					<description><![CDATA[<p> Este artigo, desenvolvido em duas partes, propõe um breve estudo sobre a origem e a longevidade do Círculo de Eranos e a importância de R. Otto, C.G. Jung, H. Corbin e K. Kerényi, dentre outros, para o desenvolvimento e aprofundamento de conceitos como "numinoso", "arquétipo", "imaginal" e "mitologema". Analisa, também, a contribuição dos encontros de Eranos para a formulação de uma abordagem interdisciplinar para os estudos sobre o imaginário.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-mitico-circulo-de-eranos-parte-1-eranoskreis/">O Mítico Círculo de Eranos (parte 1) (Eranoskreis)</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">PARTE 1 &#8211; ORIGEM E LONGEVIDADE</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um pouco ao acaso, me deparei com uma menção ao Círculo de Eranos (Eranoskreis) em um artigo de J. Hillman (artigo este intitulado &#8220;Abandonando a Criança&#8221;, que compõe a obra &#8220;Estudos de Psicologia Arquetípica&#8221; &#8211; 1981, do mesmo autor). Ao final, Hillman menciona que o artigo fora apresentado no Congresso Eranos de 1971, fazendo parte do Anuário 40, e essa breve alusão ao tempo e à longevidade desse evento foi suficiente para produzir uma &#8220;faísca divina&#8221; de curiosidade. Sendo assim, como afirmam os gnósticos, já que estamos falando do Círculo de Eranos, agora, ela só poderá ser liberada, a faísca, através da&nbsp;gnose, isto é, do conhecimento profundo dessa mesma faísca. Não sei se chegarei a tanto, mas talvez tenha chegado o momento de conhecer um pouco mais sobre o Círculo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vale ressaltar que o presente artigo e o que será escrito na sequência fazem parte de um momento inicial dessa jornada de conhecimento, daí acredito que, ao serem publicados, ambos apresentarão um tratamento muito mais intuitivo e cheio de entusiasmo do que propriamente rico de conteúdo teórico para os já iniciados no tema. Que sirvam, pois, de faíscas divinas para que outros não-iniciados como eu sintam também curiosidade e resolvam pesquisar mais sobre o Círculo de Eranos, um dos eventos coletivos de caráter interdisciplinar mais instigantes e longevos, com 55 encontros durante seu ciclo tradicional (1933-1988), retomando, após breve interrupção,&nbsp; em 1990 com a inauguração de um novo ciclo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Já tinha ouvido falar de modo muito&nbsp;en passant&nbsp;&#8211; como no movimento de xadrez, sem ocupar espaço na minha mente &#8211; dos míticos encontros do Círculo de Eranos, que aconteciam todo verão a partir do ano de 1933 às margens do Lago Maggiore, em Ascona, na Suíça, e dos quais Jung participou ativamente proferindo quatorze conferências, mas não podia imaginar a importância que esses eventos tiveram na construção de uma nova tipologia de estudo, propondo uma abordagem verdadeiramente interdisciplinar e antecipando uma tendência que seria mais observável a partir da segunda metade do século XX.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Apesar de reconhecidamente riquíssimas, o Círculo de Eranos vai além de suas contribuições científicas, porque, desde o início, esses encontros se revestiram de um mistério, de uma simbologia e de uma mitologia toda própria, presentes no nome do evento e da casa, no local onde se realizava, na anfitriã que os promovia, nos convidados ilustres que advinham das mais diversas áreas do saber, na definição dos temas, na ordem das conferências e na contribuição singular de cada um dos presentes, tornando o &#8220;banquete&#8221; de ideias algo da mais alta&nbsp;finesse&nbsp;gastronômica em termos intelectuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não pense o leitor que seja superficial relacionar o Círculo de Eranos à alta gastronomia, porque a palavra grega&nbsp;Eranos&nbsp;significa, justamente, &#8220;banquete frugal&#8221;, onde cada participante leva um prato ou uma bebida para partilhar. O significado original do termo, que aparece pela primeira vez no mito grego da Odisseia de Homero, faz referência a um núcleo espiritual, onde cada participante tem a liberdade e espontaneidade de expressão por meio da arte e de textos que retratem a es­sência do ser humano, numa espécie de &#8220;dança de mentes criativas&#8221; (ERANOS FOUNDATION, n.d.).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nascido como um espaço aberto e como local de encontro entre Ocidente e Oriente, o Círculo de Eranos é fundado por Olga Fröebe-Kap­teyn, tendo Rudolf Otto como padrinho e Carl G. Jung como&nbsp;spiritus rector. O intuito era promover um diálogo interdisciplinar e intercultural, algo muito interessante para a época, visto que, justamente no ano de 1933, explodem na Europa os movimentos de separação racial, de ódio e de limpeza étnica. Diante desse eclipse da razão, e de um Ocidente que ressuscitava velhos mitos de poder e de expansão territorial, a experiência de Eranos revelou-se uma resistência simbólica, requerendo de todos os participantes uma capacidade empática que tornou possível, além da troca de saberes, a instituição de um núcleo comum de pesquisa e interesse sobre a essência do ser humano (BARONE &#8211; 1995).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Olga Fröebe-Kap­teyn (1881-1962), estudiosa holandesa que possuía uma invulgar curiosidade em relação aos temas espirituais e teosóficos do Ocidente e do Oriente, hoje considerada por muitos historiadores como uma das maiores promotoras da cultura e da ciência de seu tempo, era a elegante anfitriã que recebia em sua casa um seleto grupo de pesquisadores das mais diversas áreas, como ciência da religião, antropologia, sociologia, psicologia, história da religião, mitologia, fenomenologia, biologia, física, história da arte, dentre outras. Mesmo antes do início dos encontros do Círculo, já se reuniam em sua casa poetas, pintores e intelectuais que se dedicavam ao estudo mais profundo de suas especialidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A figura de Fröebe-Kap­teyn aparece em minha mente revestida de muito mistério e fascínio, mas também de muita força, pois se trata de uma viúva cujo marido morreu em um acidente aéreo em setembro de 1915, quatro meses após o nascimento de suas filhas gêmeas, Ingeborg e Bettina, sendo que a primeira, portadora de grave retardamento mental, foi vítima do programa de eugenismo e eutanásia da Alemanha nazista. Essa incansável ativista se revela também uma produtiva pintora, criando 80 obras entre 1926 e 1934.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em 1920, Fröebe-Kap­teyn recebe a casa de Ascona como herança do pai e batiza o local com o nome de Casa Gabriela. Começa a projetar um espaço de encontro, uma sala de conferências, onde pudesse reunir as mentes mais proeminentes de sua época. Como boa promotora que era, foi capaz de atrair para seus encontros nomes como Gilbert Durand, Carl Gustav Jung, Richard Wilhelm, Károly Kerényi, D. T. Suzuki, Heinrich Zimmer, Mircea Eliade, Erich Neumann, Henry Corbin, Adolf Portmann, Joseph Campbell, Max Knoll, dentre dezenas de outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O primeiro encontro do Círculo aconteceu em 1933, fatídico ano em que Hitler foi nomeado chanceler na Alemanha, e continuou a ser organizado anualmente até 1988, mesmo sem a presença física da anfitriã a partir de 1962, ano de seu falecimento. Foram 55 anos de ininterruptos encontros às margens do Lago Maggiore, conferindo ao Círculo de Eranos uma longevidade impressionante, o que contribui para aumentar seu aspecto mítico e sua aura de mistério e simbolismo. Apesar dos encontros anuais terem continuado a acontecer de 1990 até os dias de hoje, sob a organização da Fundação Eranos e da Associação &#8220;Amici di Eranos&#8221;, não se comparam, penso eu, em curiosidade e caráter de ineditismo aos encontros do Círculo de Eranos Tradicional (1933-1988).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O formato dos encontros correspondia ao princípio interdisciplinar, já que cada um dos conferencistas apresentava sua visão sobre um tema previamente proposto, sendo que a mesma deveria refletir a essência espiritual de Eranos, isto é, a orientação primordial dos encontros definida por Froebe-Kapteyn, Wilhelm e Jung. Talvez aqui se faça necessário um retorno no tempo para analisarmos a pré-história de Eranos e para resgatarmos como e quando os fundadores se conheceram e chegaram à formulação dos princípios básicos dos encontros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Froebe-Kapteyn, no primeiro decênio do século XX, interna-se no sanatório de Monte Verità, em Ascona, para uma curta estadia. Em 1920, resolve se fixar na cidade. O Monte Verità era um dos centros europeus que promoviam diversos movimentos reformadores, os chamados &#8220;Lebens­reformbewegungen&#8221; (movimentos de reforma da vida), e estava ligado aos grupos esotéricos de Munique. Froebe-Kapteyn manteve estreito contato com ambos os centros, de Ascona e de Munique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A ânsia pela sabedoria orien­tal estava em voga nos vários círculos dos movimentos reformadores. Entre 1920 e 1930, outro centro reformador intitulado &#8220;Schule der Weisheit&#8221; &#8211; a Escola da Sabedoria de Hermann Keyserling (1880-1946) organizou, em Darmstadt, dez seminários onde, então, se en­contraram Froebe-Kapteyn, Jung e Wilhelm. Muitos dos conferen­cistas da &#8220;Schule der Weisheit&#8221;, depois do seu desaparecimento, frequenta­ram, a partir de 1933, as conferências de Eranos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos vários depoimentos dos participantes do Círculo, podemos observar referências ao espírito de liberdade e espontaneidade que reinava durante os oito dias de evento. Na organização do programa, na ordem das conferências ou nas atividades sociais propostas, Froebe-Kapteyn se empenhava em conferir ao encontro um ar de ineditismo e criatividade, propondo atividades complementares de caráter interdisciplinar que aconteciam também no jardim sempre repleto de pessoas de &#8220;todos os lugares da Terra&#8221; e animado por intensos e estimulantes diálogos realizados normalmente em torno do tema proposto. (CORBIN, 1963).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As conferências aconteciam sempre na segunda quinzena de agosto, sendo que ali, na Casa Gabriela, naquele &#8220;lugar de encontro entre o Ocidente e o Oriente&#8221;, Jung, proferiu, em 1933, a conferência intitulada&nbsp;&#8220;O empirismo do processo de Individuação&#8221;, sob o tema&nbsp;Yoga e Meditação no Oriente e no Ocidente, seguida, em 1934, pela conferência&nbsp;&#8220;Sobre os arquétipos do Incons­ciente coletivo&#8221;, sob o tema&nbsp;Simbolismo Oriental e Ocidental e a Orientação da Alma,&nbsp;e de outra, datada de 1948,&nbsp;&#8220;Sobre o Self&#8221;, dentro do tema&nbsp;Sobre o Humano, onde podemos ver claramente refletidos os contornos espirituais de Eranos que o próprio Jung ajudou a delinear. Isto para citar apenas três das catorze conferências proferidas por ele ao longo dos anos em que participou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A importância de Jung como&nbsp;Spiritus Rector&nbsp;dos encontros é observada também na sugestão que este fez à anfitriã de que um gênio desconhecido parecia animar o lugar. Daí terem decidido instalar, no terraço da Casa Gabriela, uma espécie de pequeno al­tar de pedra contendo uma escultura denominada&nbsp;Genius Loci Ignoto, de autoria do escultor Paul Speck, sim­bolizando o Espírito de Eranos, ou seja, a força real e criativa que animava o &#8220;banquete&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Convidados pelo&nbsp;Genius Loci Ignoto&nbsp;a uma reflexão interdisciplinar, muitos acadêmicos discutiram e amadureceram ali conceitos que vieram a fazer parte dos fundamentos de suas obras. Conceitos como Arquétipo, Numinoso, Mitologema e Imaginal (Mundus Imaginalis), respectivamente, foram desenvolvidos por Jung, Otto, Kerényi e Corbin em muitos dos encontros. Mesmo não tendo proferido conferências no Círculo de Eranos, a presença de Rudolf Otto e de seu conceito &#8220;Numinoso&#8221; era mencionada e fortalecida pelas referências que se fazia a ambos nas apresentações dos outros participantes.&nbsp;Falaremos mais especificamente na segunda parte desse artigo sobre como esses autores se influenciaram mutuamente no desenvolvimento desses conceitos em suas obras durante os encontros do Círculo de Eranos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Através da diversidade dos saberes filosófico, antropoló­gico, psicológico, biológico, histórico­-religioso e teológico, os conferencistas de Eranos tentavam contrastar com seus conceitos, o materialismo positivista e o racionalismo cartesia­no da modernidade, voltando-se para a tradição român­tica e os seus valores de &#8220;verdade&#8221; do mito, do politeísmo da imaginação e da arte, da pluralidade da psique, e, como diria DURAND (1975), da essência da &#8220;alma tigrada&#8221;. Nesse sentido, podemos afirmar com TILO SCHABERT (2004), que o &#8220;Círculo de Eranos&#8221; representa um movimento multicultural de revitalização da he­rança espiritual eclipsada pela moder­nidade, visando, enfim, novos olhares para desvelar a &#8220;alma do mundo&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O&nbsp;Genio Loci Ignoto&nbsp;certamente inspirou também os 57 anuários produzidos pelo Círculo de Eranos, compreendendo o período de 1933 a 1988, tendo havido duas publicações extras. &nbsp;Os&nbsp;Eranos-Jahrbürcher&nbsp;atestam a quantidade e qualidade das produções científicas promovidas por esses encontros. Contendo preciosas contribuições de pensadores das mais diversas áreas, eles também confirmam o espírito de Eranos, isto é, seu tom aberto à interdisciplinaridade e à inovação nas relações entre os saberes da época e se revelam muito à frente de seu tempo. Uma análise atenta de seu conteúdo poderá oferecer material inédito para uma nova reflexão cultural do século XX.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isa Fernanda Vianna Carvalho</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro Analista em Formação</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agosto de 2018</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;-</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências Bibliográficas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">BARONE, E. Eranos tagungen. Dal mito alla filosofia? &#8211;&nbsp;Filosofia e Teolo­gica,&nbsp;v. 8, n. 1, p. 149-165, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CORBIN, H.&nbsp;Mundus imaginalis or the imaginary and the imaginal. Zürich/New York: Spring, 1972.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_______.Eranos. Eranos­-Jahrbuch, XXXI, 1963, p. 9-12. [Cor­respondente à sessão realizada em 1962].</p>



<p class="wp-block-paragraph">DURAND, G. A imaginação simbólica. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_______. As estruturas antropológicas do imaginário. Ed. Presença, Lisboa, 1997/2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_______. O imaginário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_______. LÉthique du pluralisme et le problème de la cohérence.&nbsp;Era­nos-Jahrbuch, n. 44, p. 267-343, 1975.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ERANOS FOUNDATION. Disponível em&nbsp;<a href="http://www.eranos.org/content/html/start_english.html">http://www.eranos.org/content/html/start_english.html</a>. Acesso em 16.06.18</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Ed. Vozes, Petrópolis, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SCHABERT, T. The Eranos Experience. In: BARONE, E. Eranos tagungen. Dal mito alla filosofia? p. 149-165, 1995.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Rudolf Otto, padrinho do Círculo de Eranos e um de seus idealizadores, nunca chegará a proferir uma conferência no evento, porque, além de já estar aposentado em 1929, sofria de profunda depressão, de acordo com alguns historiadores. Em 1936, cai de uma torre de mais de 20 metros e vem a falecer de pneumonia em 1937.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Isa Carvalho &#8211; 16/06/2019</em></strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-mitico-circulo-de-eranos-parte-1-eranoskreis/">O Mítico Círculo de Eranos (parte 1) (Eranoskreis)</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Transdisciplinaridade e os aspectos psicossocias</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/transdisciplinaridade-e-os-aspectos-psicossocias/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rita Macieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2019 13:26:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Transdisciplinaridade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[transdisciplinaridade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5698</guid>

					<description><![CDATA[<p>&#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; Cuidar dos aspectos psicossociais da unidade de cuidados paciente/família desde o momento do diagnóstico até a reabilitação do paciente ou fase terminal da doença e morte exigirá da equipe multiprofissional um entendimento maior do adoecimento enquanto um processo dinâmico. Durante este processo, tanto o paciente, quanto seus familiares e [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/transdisciplinaridade-e-os-aspectos-psicossocias/">Transdisciplinaridade e os aspectos psicossocias</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Cuidar dos aspectos psicossociais da unidade de cuidados paciente/família desde o momento do diagnóstico até a reabilitação do paciente ou fase terminal da doença e morte exigirá da equipe multiprofissional um entendimento maior do adoecimento enquanto um processo dinâmico. Durante este processo, tanto o paciente, quanto seus familiares e equipe cuidadora passam por diferentes fases, com necessidades diversas, o que tornará indispensável diferentes intervenções para suprir a nova demanda. O que nos leva a concluir que cuidar é uma operação extremamente complexa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Na história da evolução dos cuidados, houve um tempo em que os cuidados a serem ofertados deveriam contemplar a integralidade do ser adoentado e a doença era vista como um desequilíbrio (Macieira, 2001)1&nbsp;na relação do doente consigo mesmo, em suas relações sociais ou com o seu meio e ainda, e não menos importante, com a sua parte divina e espiritual. No entanto, o grande volume de informações trazidas pelos avanços científicos nas áreas de saúde, principalmente a partir do século XX, criou a necessidade de especializações profissionais, e com isto, a fragmentação dos conhecimentos. O conhecimento segmentado, formador de angústia profissional, tornou imprescindível a criação de equipes multiprofissonais de forma a não perder de vista a totalidade e a multidimensionalidade do ser cuidado. A evolução contínua impõe a seguir, o que conhecemos atualmente pelo nome de transdisciplinaridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como consequência destes inegáveis progressos, a transdisciplinaridade é, nos dias de hoje, uma prática necessária. Entretanto, surgiram novas questões: quem cuida do quê? quem avalia e quem dá suporte? qual deve ser a formação adequada? onde está o limite de atuação de cada profissional? como atender à complexidade que é o existir humano? &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para responder a estas perguntas, entendemos transdisciplinaridade como sendo a atuação de um conjunto de profissionais de saúde, que compreendem a realidade, congregam e elaboram os diversos saberes específicos, desenvolvem propostas de atuação integrada, implementam programas interdisciplinares e atuam de forma transdisciplinar (Veit e cols, 2009)2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A transdisciplinaridade oportuniza a discussão dos casos, revisão de condutas e objetivos, possibilita o respeito à diferentes perspectivas, favorece o contato e a comunicação e serve ao propósito de apoio e troca entre os membros da equipe. Além disto, a transdisciplinaridade (Veit e cols, 2009)2favorece o tomar decisões pautadas no conhecimento e na ética, após discuti-las entre as disciplinas e os profissionais de uma equipe, ter flexibilidade para reconhecer valores, direitos e realidades diferentes, respeitar a diversidade de saberes e trabalhar com indivíduos (outros profissionais, pacientes e familiares) com características pessoais e singularidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referencias:</p>



<p class="wp-block-paragraph">1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Macieira RC. O Sentido da vida na experiência de morte. Ed. Casa do Psicólogo. São Paulo. 2001</p>



<p class="wp-block-paragraph">2.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Veit MT (org.) Transdisciplinaridade em Oncologia: Caminhos para um atendimento integrado. Realização: ABRALE &#8211; Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coordenação das seções: Celia Roseli Duarte Redó, Karin Sá Fernandes, Marcia Maria Alves de Carvalho Stephan, Marilia Bense Othero, Rita de Cássia Macieira e Vicente Augusto de Carvalho. HR Gráfica e Editora, SP &#8211; 2009</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rita de Cassia Macieira &#8211;&nbsp;Professora do IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Estudo e Pesquisa e co-coordenadora do curso de PSICOLOGIA INTEGRATIVA TRANSPESSOALPsico-Oncologista com Certificado de Distinção em Conhecimentos pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia. Mestre em Saúde Materno Infantil pela Faculdade de Medicina da Universidade de Santo Amaro. Presidente da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia, gestão 2008/2010.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Rita de Cassia Macieira</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/transdisciplinaridade-e-os-aspectos-psicossocias/">Transdisciplinaridade e os aspectos psicossocias</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
