Site icon Blog IJEP

Reforma Psiquiátrica Brasileira, Bioética e Psicologia Junguiana e Arquetípica

reforma psiquiátrica no brasil

reforma psiquiátrica no brasil

O Brasil encontra-se num período de implementação da reforma psiquiátrica que tem como um dos seus marcos principais a Lei 10.216, de 06 de abril de 2001 que reorienta o modelo assistencial, baseado nas concepções e práticas centradas na doença e no hospital psiquiátrico, para uma rede substitutiva de serviços de base territorial – “serviços comunitários de saúde mental” (BRASIL, 2001, Art. 2o § único, item IX). É indicado que “o tratamento visará, como finalidade permanente, a reinserção social do paciente em seu meio. ” (BRASIL, 2001, Art. 4o § 1o) além de garantir a qualquer pessoa acometida de transtorno mental o direito de “ser tratada […] visando alcançar sua recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade; ” (BRASIL, 2001, Art. 2o, § único, item II).

Como o processo envolve a substituição de práticas centradas na doença é fundamental a problematização do olhar sobre o que é considerado “doença” ou transtorno mental para se caminhar no sentido da contextualização do que aparece como sofrimento psíquico; isto, necessariamente, envolve aspectos éticos uma vez que, recuperando o sentido grego de “ethos”, pode-se entendê-lo como o lugar onde se vive. Como a “bioética tem por objetivo abordar todas as questões éticas que enfrentamos em nossa vida diária e que se relacionam com a saúde, com o progresso cientifico e o ambiente” (Vincini & Keenan, 2011) p.14 está liga-se diretamente ao lugar ou posição que os sujeitos ocupam no mundo onde vivem, inclui a maneira de ser e as formas de pensar que orientam os sujeitos nas relações com os outros e consigo mesmo. Problematizam-se assim comportamentos, posturas e formas de vida e fala-se de disposições, costumes e moral.

A psicologia arquetípica tem como um de seus principais pensadores James Hillman que aprofundou questões, ideias e reflexões que se apresentaram através de Carl Gustav Jung. Esta perspectiva aponta a dominação abstrata e descontextualizadora do olhar literalista, unificador que realiza a “tarefa de coagular o múltiplo e uma unicidade de significado que nós chamamos de fatos, informações, realidades.” (HILLMAN, 2010) p.291. Em consonância diz Adorno (1985) que seriam nas operações de construção de unidade e identidade, que se torna igual o desigual e que se instala um sistema de equivalências; tudo pode ser transformado em unidade e visto como uma coisa (reificação) e adquire uma forma que permite trocas (forma mercadoria).

A sociedade burguesa está dominada pelo equivalente. Ela torna o heterogêneo comparável, reduzindo-o a grandezas abstratas. (…). Para o esclarecimento, aquilo que não se reduz a números e, por fim, ao uno, passa a ser ilusão (…)

(ADORNO, 1985) p.8

Mas, seria o princípio da unificação, orientado pela forma lógica do eu transcendental que, aplicado ao diverso, daria a toda coisa a forma de um objeto e “coisificaria” o mundo. Isto faz crer que a “subjetividade nos é interior e que o mundo material que nos cerca é “inorgânico”, morto, nada floresce nele.” (Hillman, 1989) p.136. O “eu” único e interno daria sustentação a identidade heroica do “self-made-man, que constrói sozinho o seu destino e com inquebrantável força de vontade.” (HILLMAN, 1997) p.16.

De forma diversa a psicologia arquetípica aponta que:

(…) não posso ter certeza se a psique está em mim ou se estou na psique como estou nos meus sonhos, como estou no clima das paisagens e das ruas da cidade (…). Onde termina este ambiente e começo eu, e será possível eu começar sem estar em algum lugar, (…). (HILLMAN, 1997) p.168

Assim, não seria suficiente trabalhar individualmente: “a menos que a psicoterapia leve em conta a doença do mundo, ela nunca vai poder funcionar realmente, (…) ” (Hillman, 1989) p.140. Assim como para Jung “de modo algum basta para isto uma psicologia de orientação exclusivamente pessoal.” (Jung, 2008) p.426; ele afirmava que “o tratamento analítico poderia ser considerado um reajustamento da atitude psicológica” (Jung, 1984) § 142 diante do risco da dominação de uma vontade tirânica do Eu.

(…) as funções parciais foram em grande parte postas a serviço do Eu (vontade do homem) levando a uma vontade tirânica de um governo interior (…). (Jung, 1978) p.60

Este trabalho busca aproximar a perspectiva da psicologia arquetípica das questões da reforma psiquiátrica brasileira nos seus aspectos éticos e segue através de três noções que podem ser vistas como fundamentos no processo da reforma. Primeiro a “territorialização” ou contextualização do que aparece como sofrimento psíquico; segundo o que está se denominando neste texto de “clínica não normativa”, como uma prática em que o sujeito é reconhecido como posição de indeterminação; que só tem realidade efetiva em tensão no contexto onde surge; terceiro a “desinstitucionalização” ou criação de lugares de vida onde se possa tomar distância das normas únicas e criar normas novas compartilhadas.

1.      Territorialização ou contextualização do que aparece como sofrimento psíquico

O manual diagnóstico e estatístico da Associação psiquiátrica Americana (DSM-IV) e o código internacional de doenças (CID X) da organização mundial da saúde (OMS) descrevem transtorno mental como:

Cada Transtorno é conceitualizado como uma síndrome (…) clinicamente importante, que ocorre em um indivíduo e que está associado com sofrimento ou incapacitação ou com risco significante aumentado de sofrimento atual, morte, dor, deficiência, ou uma perda importante da liberdade (DSM IV TM – APA, 1995) p.xxi

(…) Transtorno (…) é usado aqui para indicar a existência de um conjunto de sintomas ou comportamentos clinicamente reconhecível associado, na maioria dos casos, a sofrimento e interferência com funções pessoais. (CID-10 OMS, 1993) p.5

As descrições psicopatológicas dos códigos internacionais como o CID X e o DSM IV são apresentadas como síndromes ou entidades nosológicas frequentes e estáveis.

(…) surgem em certas associações, certos clusters mais ou menos frequentes. Define-se, portanto, as síndromes como agrupamentos relativamente constantes e estáveis de determinados sinais e sintomas. (…) A síndrome é puramente uma definição descritiva de um conjunto de momentâneos e recorrentes sinais e sintomas. (Dalgalarrondo, 2008) p. 26

Busca-se nestes códigos a neutralidade teórica, isenção, eliminar as discordâncias ou variadas gradações de significados; são excluídas as diferenças entre cada pessoa e transformam-se os sintomas em objetos quantificáveis. Ao ter uma aplicabilidade em uma ampla gama de contextos esperada, reforça o sentido da generalização descontextualizada; isto permite que a multiplicidade, as contradições, conflitos e tensões presentes nos contextos vivos, singulares possam ser homogeneizados e sejam submetidos às regras de equivalência e cálculo.

Os diagnósticos na CID X e no DSM IV são expressão de objetos estruturados por procedimentos de universalização próprios ao pensamento conceitual abstrato, tanto que os critérios que se afirmam são os de: concordâncias sensíveis e específicas entre entrevistadores, diagnósticos etc. Importante é a “confiabilidade” (como concordância entre entrevistadores), a “validade” (onde a concordância entre o diagnóstico atribuído e o que o indivíduo realmente teria) e finalmente a “fidedignidade” (em seus aspectos sensível e específico). Assim as múltiplas manifestações, sentidos, olhares são unificados em princípios de equivalência; os atributos das categorias são apresentados unificados em afinidade com o pensamento da matemática.

As “diretrizes diagnósticas” são então fornecidas na maioria dos casos, indicando o número e o balanço de sintomas usualmente necessários antes que um diagnóstico confiável. (CID-10 OMS, 1993) p.1

Portanto, esta concepção hegemônica de doença opera tendo como fundamento as categorias diagnósticas configuradas como abstrações desterritorializadas e descontextualizadas das condições de vida presente de cada sujeito singular. No entanto, como os sujeitos vivem em contextos específicos onde o tecido social os atravessa e os constituem, eles investem em diferentes intensidades nas expectativas de seguir valores ligados à realização de uma vida bem sucedida. Neste processo de socialização constituem-se vários complexos associativos, entre eles o do “eu” e configuram-se identidades socialmente reconhecidas, tipos ideais; internalizam-se padrões que podem ser utilizados, normativamente, sobre os sujeitos, a psique e a vida. Haveria um tipo de sofrimento por não poder tomar distância das normas (em especial as ditas “saudáveis”) que funcionando como dispositivos disciplinares dominantes obrigam o sujeito a realizar certos valores, certas expectativas, que, para o mesmo, parecem totalmente ligadas à realização de uma vida bem sucedida.

De forma diversa, para a psicologia Junguiana e arquetípica a “doença” aparece quando há o domínio permanente de um complexo insuperável ou a fixação de um complexo, que não se modifica de forma alguma (Jung, 1999) p.58. Uma vez que, nesta perspectiva, todos são sempre conduzidos de alguma forma por algum complexo organizado em padrões, estilos de consciência ou fantasias dominantes (padrões arquetípicos), doença instala-se quando o valor (na forma do interesse, importância e atenção) está concentrado em um único padrão ou como toda forma de fundamentalismo.

Podem ser traçadas semelhanças profundas entre esta forma de pensar e as idéias de George Canguilhem no texto “O Normal e o Patológico” (Canguilhem, 2000) quando é afirmado que doença acontece quando só se pode admitir uma única norma, não se pode ultrapassá-la, infringir a norma habitual e constituir normas novas.

(…) o doente é doente por só poder admitir uma norma. O doente não é anormal por ausência de norma, e sim por incapacidade de ser normativo. (Canguilhem, 2000) p. 149

(…) o que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir normas novas em situações novas. (Canguilhem, 2000) p.160

Como foi dito, o horizonte da reforma psiquiátrica é realizar recuperação pela inserção na família, no trabalho e na comunidade: “O tratamento visará, como finalidade permanente, a reinserção social do paciente em seu meio” (BRASIL, 2001) Art. 4o § 1o. Neste sentido é importante a substituição de práticas centradas na doença abstrata e descontextualizada.

O sentido majoritariamente aceito de “doença ou transtorno mental” está diretamente vinculado às descrições abstratas dos códigos internacionais e estes se apoiam no termo indivíduo que é usado de forma naturalizada: “uma síndrome (…) clinicamente importante, que ocorre em um indivíduo” (DSM IV TM – APA, 1995) pg.xxi. A ideia do indivíduo configurou-se com os atributos do sujeito moderno como o “eu” único e interno, identidade heroica do “self-made-man”. Para contextualizar o sofrimento psíquico esta noção de indivíduo precisa ser revista e desidentificada dos atributos ligados aos atributos desta forma, com aponta Foucault em Vigiar e Punir (Foucault, 2009) ao fazer uma genealogia da ideia de indivíduo.

O indivíduo é sem dúvida o átomo fictício de uma representação “ideológica” da sociedade; realidade fabricada por essa tecnologia específica de poder que se chama a “disciplina” (Foucault, 2009) p.185

A figura do indivíduo passou a ser vivida de forma internalizada e apenas em seu aspecto literal associada a atributos como autonomia, autenticidade e auto-identidade. Entretanto, autonomia pode ser entendida no sentido derivado do “grego auto-nomia (lei própria), significando atuodeterminação, autogoverno” (Costa, 2011) p.67. Seria a autonomia individual da vontade e das condutas que permitiria uma instância deliberando racionalmente na interioridade das pessoas como legisladores de si próprios e se auto-determinando; porém “autonomia”, implica na pressuposição na crença em constituição transcendental de objetos da experiência que pode e já foi problematizada por autores como Hegel (Hegel, 1995). De outra forma o termo é usado por Kinoshita ao falar de reabilitação como “um processo de restituição do poder contratual do usuário, com vistas a ampliar a sua autonomia”. (Kinoshita, 1996) p.55; autonomia aqui entendida como “a capacidade de um indivíduo gerar normas, ordens para a sua vida, conforme as diversas situações que enfrente.” (Kinoshita, 1996) p.55; separa-se a autonomia da autossuficiência no sentido da independência. Os sujeitos seriam tão mais autônomos quanto mais dependentes de inúmeras coisas, relações etc. Os menos autônomos seriam os que dependem excessivamente de muitas poucas coisas ou relações.

Os diagnósticos categoriais aglutinariam conjuntos de características do que parecer inadequado, inadaptado, descontrolado e que produzam interferência ou aumento do risco de sofrimento, para este padrão ou este estilo de consciência considerado como única norma saudável. A norma saudável tornou-se a realização dos princípios de autonomia, independência, unidade, identidade, autenticidade e autodeterminação. As ameaças a estes valores que são fundamentos da noção identitaria de indivíduo ou devem ser temporários e controláveis ou serão critérios de doença.

Invertendo a lógica habitual, para a psicologia arquetípica o transtorno se configuraria quando a norma “saudável” se torna dominante e é vivida pelo “eu” como sua vontade e esta se impõe tiranicamente. O sofrimento psíquico seria efeito da cisão e da luta do padrão dominante contra todas as outras configurações organizadas por diferentes padrões, normas ou estilos de consciência. Pode-se fazer uma releitura e entender que a “doença” apresentar-se-ia quando o “eu” (complexo do ego) estiver tão aderido à norma “saudável” (abstrata, unificadora e literalizante) que não pode tolerar infrações à norma habitual e nem instituir normas novas em situações novas.

Isto permite compreender porque a “doença mental” aparece como o outro da razão, da saúde e da vida realizada, mas pode ser vista, exatamente, como impossibilidade de tomar distância da norma ou padrão “ideal” vivido como “o que deu mais certo”, “o que funcionou melhor”; padrão que foi mais fortemente desejado, reconhecido, valorizado de forma positiva não apenas pelo sujeito, mas nas relações sociais afetivamente investidas. Em geral elementos hegemonicamente valorizados.

Como o meio ou ambiente em saúde mental não tem limite entre exterior e interior das pessoas, mas apresentam-se em ideais, valores, pensamentos, sentimentos, etc. estes atravessam e constituem a todos; “não apenas a psique está em nós, tal qual um conjunto de dinamismos, mas nós estamos na psique.” (Hillman, 2010) p.206.  Assim, são as idéias e valores que orientam a sociedade e a todos nela, mas não só dirigem como constituem a identidade do “eu” e os diversos outros complexos atuando nas pessoas famílias, culturas etc. As formas de viver, pensar, de sentir etc. seriam alegorias de fantasias dominantes, estilos de consciência ou estilos imaginativos de discurso que funcionariam como “padrões arquetípicos” organizando os eventos em constelações e lhes dando sentido. Em “Revendo a Psicologia” Hillman contra-educa e instabiliza os pontos de sustentação do pensar habitual propondo que nunca verdadeiramente temos idéias! Elas é que nos têm, suportam, contêm e nos governam. As Idéias como formas de olhar. “eu nunca verdadeiramente tenho idéias; elas têm, suportam, contem e governam a mim.” (Hillman, 2010) p.130.

Para o pensamento Junguiano/arquetípico as situações em que configurarem-se o domínio de qualquer padrão ou norma vivida como única e o sujeito não puder tomar distância, estará totalmente absorvido pelo meio; pode-se então reconhecer este estado como “doença”.

Para a realização da reforma psiquiátrica precisar-se-ia tomar distância da norma única de que só pode ver doença como uma categoria diagnóstica abstrata, ligada a um indivíduo e também criar novas normas como reconhecer “doença” como um estado de coisas ou um efeito de relações em determinados contexto.

Um orientador pragmático pode ser a noção de crise em saúde mental que se apresentariam como rompimento, perda ou enrijecimento de vínculos ou relações articuladas que deveriam dar sustentação a um lugar móvel, flexível e múltiplo para o sujeito em seu contexto, nas redes sociais em que vive. Não se restringe simplesmente a presença de qualquer sintoma ou conjunto destes, nem se orienta, primariamente, pelo diagnóstico do transtorno mental. Seria valorizado o uso de termos que guardam imprecisão como “usuário grave” ou “transtornos mentais severos e persistentes”.

(…) embora correspondente, em termos gerais, aos transtornos mentais severos e persistentes, é uma noção imprecisa e, dessa forma, abriu um campo fértil de discussões que possibilitou o aprofundamento de seu significado, problematizando-a nas situações singulares e em diálogo com as necessidades das realidades locais. (NICÁCIO, 2003)p.178

2.      “Clínica não normativa”

Se a noção de indivíduo naturalizada como conjunto de atributos do sujeito moderno produz efeitos descrito, qual a noção de sujeito a ser utilizada? Os trabalhos de Michel Foucault fazem pensar que toda clínica, ao ter no seu horizonte uma noção positiva de sujeito, usaria esta mesma para normatizar a vida. Ou seja, sujeito não poderia ser descrito por nenhum atributo determinado para não reproduzir uma clínica normatizadora. Afinal qualquer que seja a norma esteja ela implícita, oculta ou idealizada se apresentaria no dever ser e, a partir da oposição desta, seria construído o “patológico”. Através de exames quantificar-se-ia, calculando e dando notas a mais ou a menos; e assim os aparelhos disciplinares hierarquizariam, numa relação mútua, os “bons” e os “maus” indivíduos. Através dessa microeconomia de penalidades perpétuas, opera-se uma diferenciação que não são dos atos, mas dos próprios indivíduos e de “sua natureza”. Por isso é o “poder disciplinar correlato de uma individualidade “natural” e “orgânica”” (FOUCAULT, 2009) p.150. Assim a essência do funcionamento da medicina e da psicologia pode apresentar-se como uma prática disciplinar que normatiza. Isto pode fazer do espaço de tratamento não apenas o local onde a patologia pode ser ouvida e curada, mas o espaço onde práticas disciplinares podem ser eficazes e ter eficiência. Assim as exigências de racionalidades (conhecimento unificado) podem ser invertidas em exigências de dominação.

A noção de sujeito precisa ser revista, desidentificada de todos os atributos em especial dos ligados à ideia de indivíduo moderno (autonomia, autenticidade, auto-identidade, unidade etc.). A autenticidade como expressão da individualidade autônoma é ligada a noção romântica de gênio e a ideia de expressão indicando a manifestação intencional dos sentimentos do artista. Mas como colocar como princípio ético autenticidade quando “eu nunca verdadeiramente tenho idéias; elas têm, suportam, contem e governam a mim. […]” (Hillman, 2010) p.130. ou como já apontado “[…] as funções parciais foram em grande parte postas a serviço do Eu (vontade do homem) (Jung, 1978) p.60.

Já a unidade reflexiva teria como função de assegurar a “auto-identidade” que garantiria que as representações mentais que aparecem em mim “são minhas”; cada movimento seria desdobramento da mesma identidade e esta unidade permitiria ver os sintomas, automatismos etc. como não meus. No entanto esta unidade pressupõe a elevação do princípio de identidade e não contradição à condição de postulados ontológicos e não apenas premissas lógicas; está também na base da noção de personalidade como capacidade de narrar sua própria vida na primeira pessoa através de uma unidade coerente. Para Jung unidade da consciência é uma mera ilusão. “Gostamos de pensar que somos unificados; mas isso não acontece nem nunca aconteceu […]” (Jung, 1983) p.67. Assim, sempre se é conduzido de alguma forma, por algum complexo, em inúmeras constelações. O homem “normal” vive uma divisão de tal forma que um lado não sabe o que o outro faz e isto seria uma consequência de toda a história da humanidade.

(…) a existência de dois “sujeitos” ou (em linguagem comum) de duas personalidades dentro do mesmo indivíduo. (…) Não é, de forma alguma, um sintoma patológico: é um fato normal (…) (Jung, et al., 1964) p. 23

Reconhecer sujeito como posição de indeterminação aponta para além da ideia do objeto como polo fixo da identidade; determinação para além da ideia da determinação atributiva de predicados limitadores, ou de propriedades particulares e o “Ser” como modo de posição do existente em uma situação, posto num contexto.

O trabalho em saúde mental não normativo acontece transformando as condições que mantêm o que aparece resistindo as identidades fixas e ao lugar de doente. Sujeito surge resistindo às identidades e as normas únicas. Poderia ser dito que o sujeito aparece como o que resiste a continuidade do que a consciência objetificou com unidade, como refere Jung:

Entendo por sujeito, convêm dizer desde já, todos aqueles estímulos, sentimentos, pensamentos, e sensações vagos e obscuros que não é possível demonstrar que promânem da continuidade da vivência consciente do objeto, mas que pelo contrário, surgem como perturbação e obstáculo, […]

(Jung, 1981a) p.478

A clínica junguiana e arquetípica como não normativa busca colocar-se ao lado do que insiste, do que resiste nos contextos e “emprestar” poder contratual a isto, contextualizando as abordagens terapêuticas nesta direção.

Eticamente esta posição é muito importante para a reforma psiquiátrica, pois nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental coloca-se como fundamental a contextualização ou a territorialização do que aparece como sofrimento psíquico. O horizonte não seria tratar categorias diagnósticas, mas devolver o sofrimento vivido para o contexto em que se apresenta, com o sentido que tem para aquele sujeito singular nas relações em que vive, com as condições materiais que apresenta no momento.

3.      Desinstitucionalização

O “hospital psiquiátrico” surge como paradigma do que deve ser transformado, pois aponta para o afastamento do contexto, isolamento da doença, identificação do sujeito como “o doente” e institucionalização. Não se trata de negar a importância de tomar distância de normas e contextos em determinados momentos e por vezes isto precisa de condição materiais para tal como um lugar de abrigo e de acolhida. Porém como o sofrimento é efeito das relações em contexto é preciso agir onde estas se configuram. O que esta em questão é a lógica de funcionamento e assim serviços ambulatoriais podem se organizar na lógica anterior a reforma oferecendo serviços por categorias diagnósticas específicas e mesmo equipamentos estratégicos da reforma psiquiátrica podem funcionar no sentido contrário ao proposto quando ao invés de acompanhar sujeitos no mundo, nas relações em que vivem sirvam para isolá-los. Por vezes o isolamento coloca-se com a aparência de proteção ou como o que oferece uma alternativa de lugar para se viver trazendo para o interior do serviço tudo o que existe no mundo. Reproduz-se assim uma instituição total, por vezes sem se dar conta.

A desinstitucionalização sustenta-se uma clínica que acompanhando sujeito no mundo, empresta poder contratual a este no campo das relações familiares e sociais específicas com as condições de moradia e de pertencimentos a grupos ou campos socioculturais vivos e presentes.

Se as crises em saúde mental mostram o rompimento, perda ou enrijecimento de vínculos ou relações articuladas então, trabalhar em saúde mental tem como um dos horizontes a produção de relações; buscar a construção de um olhar e uma mudança do lugar social ocupado pelos sujeitos em crise, onde prevaleça o respeito às diferenças e a possibilidade do efetivo exercício das potencialidades e trocas sociais; que supere os preconceitos e a exclusão e que intervenha na representação social da loucura é também um horizonte ético e bioético. O sentido e a demanda do sofrimento apresentado, só podem ser compreendidos no interior da relação do sujeito ao “outro” e aos outros; contextualizado no território vivo em que psíquico não se distingue de social, nem de material ou das condições de vida (trabalho, cultura, moradia etc.).

Fazer operar uma rede de atenção institucional cuja função é desinstitucionalizar parece um paradoxo, mas é o desafio.

Coloca-se em prática assim uma clínica que só tem como se realizar no limite entre sujeitos e as relações, quer sejam nos campos sociais, familiares, trabalho, moradia, justiça etc. Afinal é nestes campos e nas condições presentes que o domínio de qualquer padrão ou norma vivida pode se instalar como única. Os padrões dominantes podem estar muito internalizados e automatizados na pessoa identificada com o sofrimento psíquico mais intenso, no entanto precisam de sustentação, não apenas da pessoa, mas dos contextos em que são atualizados. Estes momentos acontecem no presente da vida que está sendo vivida; quer seja nos encontros com os familiares, nos momentos em que se relaciona com “outros” na escola, trabalho, cotidiano do mercado, banco ou em serviços de saúde e da seguridade social.  Quanto mais os padrões se repetirem automaticamente, independente das diferenças dos contextos, quanto mais o sujeito for conduzido pelo mesmo padrão de forma independente e mais isto produzir rompimento com as redes de relação que lhe dão sustentação no mundo, mais se configura uma situação de crise. 

Embora uma clínica não normativa não imponha uma norma específica, tem como horizonte interferir e produzir resistência a qualquer padrão normativo dominante, em qualquer campo de relações, que esteja produzindo o rompimento das relações de sustentação que dão ao sujeito condições para continuar se transformando e mudando de posições na vida no mundo. E neste sentido é sempre no limite das relações do sujeito em contexto, no mundo presente e vivo.

Conclusão

 Assim, como a bioética aborda questões éticas na vida diária que se relacionam com a saúde e liga-se ao lugar ou posição que os sujeitos ocupam no mundo onde vivem, os princípios éticos que orientam as estratégias ou atividades desenvolvidas (dentro ou fora de qualquer serviço de saúde) devem possibilitar, na sua realização, a ampliação do repertório comunicativo e expressivo e favorecer a construção e utilização de processos promotores de novos lugares sociais e inserção nos diversos campos. As ações não serão apenas preparações para a vida que acontecerá quando se sai do lugar de tratamento. Defende-se, eticamente, uma clínica que aconteça no presente; que acompanhe os sujeitos em cenários da vida cotidiana; faça a mediação de relações para a criação de novos campos de negociação e de diálogo que propiciem a participação dos sujeitos; empreste recursos e valores sociais para aumentar a potencia da posição que o sujeito apresenta no campo; vise ampliar as redes sociais e reduzir as desigualdades de oportunidades.

Autor: Ajax Perez Salvador

Obras Citadas

ADORNO, Theodoro e MAX Horkheime. Dialética do Escalrecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

BRASIL, Presidência da República. “Lei n. 10216,.” Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Brasilia: Imprensa oficial, 06 de Abril de 2001. Diário Ofical da União [República federativa do Brasil – http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LEIS_2001/L10216.html].

CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense, 2000.

CID-10 OMS . Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da Organização Mundial da Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

COSTA, José Raimundo Evangelista da. “Respeito à autonomia do doente mental: umestudo bioético em clínica psiquiátrica.” Bioethikos (2011): 65-75.

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.

DSM IV TM – APA. Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais da American Psychiatric Association. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir – o nascimento da prisão. Petropólis: Vozes, 2009.

HEGEL, G.W.F. Enciclopédia das ciências filosóficas – A Ciência da lógica. Vol. 1. São Paulo: edições Loyola, 1995.

HILLMAN, James. Entre Vistas. São Paulo: Vozes Ltda, 1989.

-. O Código do Ser. Rio de Janeiro: Objetiva ltda, 1997.

-. Re-vendo a psicologia. Petropólis: Editora Vozes Ltda, 2010.

JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Vols. VIII-2. Petrópolis: Vozes, 1984.

-. Fundamentos de Psicologia Analítica. Vol. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 1983.

-. La psicologia de la transferencia. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1978.

-. Psicogênese das doenças mentais. Vol. III. Petrópolis: Vozes, 1999.

-. Símbolos da transformação: análise dos preludios de uma esquizofrenia. Vol. V . Petrópolis: Vozes, 2008.

-. Tipos Psicológicos. Rio de Janeiro: Zahar, 1981a.

JUNG, Carl Gustav, et al. O Homem e seus Símbolos. Trad. Maria Lúcia Pinho. 5a. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964.

KINOSHITA, Roberto Tykanori. “Contratualidade e Reabilitação.” PITTA, Ana (org). Reabilitação Psicossocial no Brasil. 2ª. São Paulo: Hucitec, 1996. 55-59.

NICÁCIO, Maria Fernanda de Silvio. Utopia Da Realidade – Contribuições da desinstitucionalização para a invenção de serviços de saúde mental. Tese de doutorado. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2003.

VINCINI, Andrea e James F. KEENAN. “O futuro da Bioética.” Bioethikos (2011): 10-20.

Exit mobile version