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	<title>Arquivos Adolescência - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Adolescência - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Adolescência e falha simbólica: uma leitura da violência na cultura contemporânea</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/adolescencia-e-falha-simbolica-uma-leitura-da-violencia-na-cultura-contemporanea/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Jun 2026 13:57:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[asno de ouro]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[Lievegoed]]></category>
		<category><![CDATA[Marie-Louise von Franz]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[von franz]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio propõe uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, das ampliações realizadas por Marie-Louise von Franz em O Asno de Ouro e da compreensão de Bernard Lievegoed acerca das fases da vida. Discute-se a adolescência como um momento crítico da constituição da consciência, marcado pela separação psíquica em relação ao mundo infantil, pela emergência da sexualidade e pela busca de pertencimento e identidade. Von Franz aprofunda essa reflexão ao descrever determinadas manifestações de brutalidade juvenil como expressões de uma masculinidade imatura e impulsiva, associada a formas degradadas de passagem para o mundo adulto. Em diálogo com essas formulações, Lievegoed compreende a adolescência como o grande despertar da realidade, período marcado pela busca de sentido e lugar no mundo. O ensaio propõe compreender determinadas formas contemporâneas de violência juvenil como expressões de falhas na elaboração simbólica da entrada na vida adulta. </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este ensaio propõe uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, das ampliações realizadas por Marie-Louise von Franz em <em>O Asno de Ouro</em> e da compreensão de Bernard Lievegoed acerca das fases da vida. Discute-se a adolescência como um momento crítico da constituição da consciência, marcado pela separação psíquica em relação ao mundo infantil, pela emergência da sexualidade e pela busca de pertencimento e identidade. Von Franz aprofunda essa reflexão ao descrever determinadas manifestações de brutalidade juvenil como expressões de uma masculinidade imatura e impulsiva, associada a formas degradadas de passagem para o mundo adulto. Em diálogo com essas formulações, Lievegoed compreende a adolescência como o grande despertar da realidade, período marcado pela busca de sentido e lugar no mundo. O ensaio propõe compreender determinadas formas contemporâneas de violência juvenil como expressões de falhas na elaboração simbólica da entrada na vida adulta. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir de Jung, von Franz e Lievegoed, refletindo sobre falhas simbólicas na passagem para a vida adulta.</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Na mesma época ocorreu outro acontecimento importante, enquanto eu percorria o longo trajeto entre Klein-Hüningen, lugar onde morávamos, e a escola em Basiléia.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tive a sensação arrebatadora de emergir de uma névoa espessa, tomando consciência de que agora eu era eu.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Era como se atrás de mim houvesse um muro de névoa além do qual eu ainda não existia. Neste instante preciso eu me tornei eu por mim mesmo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Antes eu estivera lá mas tudo se produzia passivamente; dali em diante, eu o sabia: agora eu sou eu. Agora eu existo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Tal acontecimento pareceu-me extraordinariamente significativo e inusitado.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Havia autoridade em mim.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>MSR, p.63.</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-algumas-manifestacoes-contemporaneas-de-violencia-entre-adolescentes-e-jovens-adultos-voltaram-a-causar-inquietacao-nao-como-tema-abstrato-mas-como-realidade-tanto-na-ficcao-quanto-na-vida-cotidiana" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Algumas manifestações contemporâneas de violência entre adolescentes e jovens adultos voltaram a causar inquietação. Não como tema abstrato, mas como realidade, tanto na ficção quanto na vida cotidiana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na ficção a minissérie britânica “<strong>Adolescência</strong>” (2025), amplamente premiada, recoloca o adolescente no centro da cena cultural não mais como uma etapa idealizada de passagem, mas como um território de risco psíquico no qual a violência irrompe quando os processos de simbolização falham. Essa ficção encontra reflexos na realidade contemporânea, como demonstra o Caso Orelha (2026), em Florianópolis, no qual um cão comunitário foi brutalmente agredido por adolescentes. Sob o olhar da Psicologia Analítica, o animal nesses episódios encarna o polo instintivo da própria psique juvenil que, por não ser reconhecido nem simbolizado internamente, é atacado externamente em uma tentativa desesperada de controle. Tal falta na mediação simbólica ecoa no estupro coletivo em Copacabana (2026), cujas imagens de celebração dos agressores revelam uma falha da sociedade em prover limites e alteridade. Esses eventos lembram o Caso Galdino Pataxó (1997), em que jovens de classe média reduziram um líder indígena à condição de objeto, queimando-o sob o pretexto de uma brincadeira. Em todos esses casos, o conflito com a dimensão instintiva deixa de ser elaborado internamente e passa a manifestar-se diretamente no comportamento, transformando o processo de desenvolvimento em um cenário de violência.</p>



<h2 id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-a-adolescencia-configura-se-como-momento-critico-do-desenvolvimento-quando-essa-travessia-ocorre-sem-sustentacao-simbolica-suficiente-aquilo-que-nao-pode-ser-elaborado-tende-a-ser-atuado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">À luz da Psicologia Analítica, a adolescência configura-se como momento crítico do desenvolvimento. Quando essa travessia ocorre sem sustentação simbólica suficiente, aquilo que não pode ser elaborado tende a ser atuado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dessa forma, este ensaio propõe uma leitura simbólica da violência masculina na adolescência a partir da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, de sua compreensão do desenvolvimento psíquico e das transformações que acompanham a passagem da infância para a juventude. Em diálogo com Jung, serão utilizadas as ampliações realizadas por Marie-Louise von Franz em sua leitura de <em>O Asno de Ouro</em>, de Apuleio, sobretudo no que se refere à masculinidade imatura, à sombra e às explosões destrutivas presentes em determinados grupos juvenis. A reflexão será ainda complementada pela perspectiva do psiquiatra holandês Bernard Lievegoed, cuja compreensão da adolescência como crise de sentido e despertar da realidade permite ampliar a discussão para além da dimensão intrapsíquica, alcançando também o empobrecimento simbólico da cultura contemporânea. A articulação entre esses autores oferece um campo para pensar a violência não apenas como falha moral ou social, mas como expressão de uma dificuldade de elaboração psíquica em um momento da constituição da identidade.</p>



<h2 id="h-a-emergencia-da-consciencia-e-a-travessia-adolescente" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>A emergência da consciência e a travessia adolescente</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung (2013a, §103), a consciência não está presente de forma organizada nos primeiros anos de vida. Embora existam processos psíquicos desde cedo, eles ainda não se articulam em torno de um eu capaz de produzir continuidade consciente. O desenvolvimento da consciência ocorre gradualmente, à medida que diferentes conteúdos psíquicos passam a organizar-se em torno do ego. Esse processo intensifica-se do nascimento até o final da puberdade psíquica, período em que se estabelece uma diferenciação progressiva entre consciência e inconsciente. Jung descreve esse movimento como a emergência da consciência a partir do inconsciente, “como uma nova ilha aflora sobre a superfície do mar” (2013a, §103). Nesse contexto, educação e cultura possuem papel fundamental, pois auxiliam a formação da consciência e a integração psíquica do indivíduo.</p>



<h2 id="h-jung-2012-1007-observa-que-a-formacao-psiquica-da-crianca-nao-e-determinada-principalmente-pelos-ensinamentos-conscientes-transmitidos-pelos-pais-mas-pela-atmosfera-emocional-inconsciente-na-qual-ela-cresce" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung (2012, §1007) observa que a formação psíquica da criança não é determinada principalmente pelos ensinamentos conscientes transmitidos pelos pais, mas pela atmosfera emocional inconsciente na qual ela cresce.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tensões silenciosas, medos, conflitos reprimidos e formas de estar no mundo atravessam a vida familiar e imprimem-se na psique infantil de maneira profunda e duradoura. A criança não absorve apenas palavras ou regras morais, incorpora estados emocionais, modos de relação e atitudes afetivas que passam a constituir sua própria forma de sentir e perceber a realidade. Assim, aquilo que permanece inconsciente nos adultos frequentemente reaparece, na vida psíquica do filho.</p>



<h2 id="h-ao-discutir-o-desenvolvimento-da-consciencia-jung-2013a-107a-descreve-a-adolescencia-como-um-processo-gradual-de-diferenciacao-em-relacao-ao-ambiente-familiar" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Ao discutir o desenvolvimento da consciência, Jung (2013a, §107a) descreve a adolescência como um processo gradual de diferenciação em relação ao ambiente familiar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A criança inicia a vida em uma condição de identidade primitiva com os pais e necessita desprender-se progressivamente dessa fusão para constituir-se como sujeito. Nesse percurso, a escola representa o primeiro encontro mais amplo com o mundo para além da família, e o adulto deixa de ocupar apenas uma função pedagógica para assumir também uma função simbólica. Mais do que transmitir conteúdos, cabe aos pais e educadores sustentar referências humanas capazes de auxiliar o jovem em sua entrada na vida adulta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung alerta que tanto o excesso quanto a fragilidade da autoridade parental podem comprometer esse movimento, vínculos excessivamente fusionais dificultam a autonomia, enquanto a ausência de continência impede a construção de limites internos. “O adolescente está destinado para o mundo, e não para continuar a ser sempre apenas filho de seus pais” (2013a, §107a). Quando essa separação não ocorre de forma suficientemente elaborada, a busca de pertencimento tende a deslocar-se para identificações coletivas e formas precárias de afirmação da identidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em diferentes culturas, essa passagem para a vida adulta foi tradicionalmente sustentada por rituais de iniciação que tinham a função simbólica de romper a dependência infantil e introduzir o jovem em uma nova forma de pertencimento coletivo (2013b §725). Muitas dessas cerimônias possuíam caráter corporal e, por vezes, cruel, expressando simbolicamente a intensidade dessa transformação psíquica.</p>



<h2 id="h-no-periodo-da-puberdade-ocorre-aquilo-que-jung-2013b-756-denomina-um-verdadeiro-nascimento-psiquico-marcado-pela-emergencia-do-eu-diante-das-intensas-transformacoes-corporais-e-emocionais-da-adolescencia" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">No período da puberdade ocorre aquilo que Jung (2013b, §756) denomina um verdadeiro nascimento psíquico, marcado pela emergência do eu diante das intensas transformações corporais e emocionais da adolescência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A irrupção da sexualidade é acompanhada por conflitos, excessos e instabilidade emocional, aquilo que Jung chama de “os anos difíceis da adolescência” (2013b, §756). A travessia adolescente exige, assim, não apenas maturação biológica, mas também condições psíquicas e culturais capazes de sustentar a entrada no mundo adulto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao abordar a puberdade masculina, Jung (2013c, §217) descreve um momento de desorganização psíquica, no qual o jovem passa a experimentar impulsos e intensidades emocionais que excedem sua capacidade de elaboração consciente. Segundo ele, o adolescente terá a sexualidade do homem adulto, mas ainda tem a alma de criança, vivendo uma dissociação entre maturidade corporal e imaturidade psíquica. A emergência da sexualidade introduz conflitos morais, fantasias intensas, instabilidade emocional e dificuldades de julgamento, produzindo uma experiência frequentemente marcada por excessos, idealizações e oscilações abruptas de afeto.</p>



<h2 id="h-nesse-periodo-2013c-217-o-jovem-torna-se-particularmente-vulneravel-a-influencia-do-grupo-e-as-formas-coletivas-de-afirmacao-da-masculinidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nesse período, (2013c, §217) o jovem torna-se particularmente vulnerável à influência do grupo e às formas coletivas de afirmação da masculinidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O linguajar obsceno, os desafios entre pares e determinadas manifestações de brutalidade podem surgir como tentativas precárias de elaboração dessa energia ainda não integrada. A adolescência masculina aparece, assim, como um campo de tensão entre impulsividade e construção da consciência, no qual a experiência do corpo e do desejo frequentemente antecede a capacidade simbólica de lhes atribuir sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas formulações permitem compreender a adolescência não apenas como uma etapa biográfica marcada por transformações corporais e emocionais, mas como um momento de reorganização psíquica, no qual a entrada na vida adulta exige separação progressiva das identificações infantis, elaboração do instinto e construção de novas formas de pertencimento. É nesse ponto que Marie-Louise von Franz aprofunda a reflexão junguiana ao analisar, em <em>O Asno de Ouro</em>, formas de masculinidade imatura nas quais a violência, o desafio grupal e a brutalidade aparecem como tentativas precárias de afirmação viril e de entrada no mundo adulto.</p>



<h2 id="h-a-falha-da-iniciacao-masculina" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>A falha da iniciação masculina</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao ampliar <em><strong>O Asno de Ouro</strong></em>, de Apuleio, Marie-Louise von Franz descreve determinadas manifestações de violência masculina como expressões de uma masculinidade ainda não integrada à consciência em uma passagem, os ladrões do romance aparecem como figuras impulsivas, movidas por espasmos de virilidade incapazes de sustentar verdadeira transformação interior (Von Franz, 2021, p.98). Há neles intensidade, desafio e brutalidade, mas não direção, responsabilidade ou capacidade de suportar tensão psíquica. Para von Franz, essa virilidade inconsciente permanece regressiva e ligada ao complexo materno, produzindo formas precárias de afirmação masculina que oscilam entre atuação impulsiva, pertencimento grupal e destruição. Nesse contexto, o ato violento pode surgir como tentativa desesperada de provar existência, coragem ou identidade diante de um eu ainda frágil e pouco diferenciado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Von Franz</strong> aproxima essa dinâmica de certos comportamentos adolescentes contemporâneos, nos quais desafios grupais, agressões cruéis e atos extremos aparecem como “pseudo-rituais” de passagem. Quando adolescentes se desafiam mutuamente a cometer brutalidades, inclusive contra corpos vulneráveis, a violência deixa de representar força amadurecida e passa a revelar justamente sua ausência. <em>“Esses espasmos de virilidade [&#8230;] são fadados a falhar” </em>(Von Franz, 2021, p.98).</p>



<h2 id="h-em-dialogo-com-jung-tais-manifestacoes-podem-ser-compreendidas-como-formas-degradadas-de-iniciacao-nas-quais-o-risco-o-sofrimento-e-a-crueldade-aparecem-dissociados-de-qualquer-elaboracao-simbolica-efetiva" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Em diálogo com Jung, tais manifestações podem ser compreendidas como formas degradadas de iniciação, nas quais o risco, o sofrimento e a crueldade aparecem dissociados de qualquer elaboração simbólica efetiva.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eles pertencem, tipicamente, a certas fases da luta do jovem contra o complexo materno. Podem ser vistos, por exemplo, nestas atitudes horríveis e explosões súbitas de brutalidade entre alguns adolescentes, como nos casos em que se desafiam mutuamente a jogar querosene numa pessoa e atear fogo, como se isso pudesse chancelar sua virilidade. (Von Franz, 2021, p.98)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As formulações de von Franz permitem compreender que determinadas manifestações de brutalidade adolescente não surgem apenas da impulsividade ou da agressividade em si mesmas, mas de uma tentativa fracassada de transformação psíquica. Por trás dos desafios grupais, das atuações violentas e das formas primitivas de afirmação viril, encontra-se frequentemente um jovem ainda incapaz de sustentar internamente a travessia entre o mundo infantil e a vida adulta. A violência aparece, então, não apenas como destruição, mas também como busca distorcida de pertencimento, identidade e reconhecimento. É justamente nesse ponto que Bernard Lievegoed amplia a discussão ao compreender a adolescência como o período do “grande despertar da realidade”, momento em que o jovem passa a confrontar-se não apenas com o corpo, o desejo e o grupo, mas também com as questões fundamentais de sentido, verdade e direção existencial.</p>



<h2 id="h-o-despertar-da-realidade-e-a-busca-de-sentido" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>O despertar da realidade e a busca de sentido</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Bernard Lievegoed compreende a adolescência como o momento do grande despertar da realidade, no qual o mundo protegido da infância começa a se romper e o jovem passa a confrontar-se com a complexidade, a solidão e as exigências do mundo externo (Lievegoed, 1970). Se na infância a experiência fundamental deveria ser a de que “o mundo é bom”, e no período escolar a fantasia permitiria à criança construir criativamente sua interioridade, a adolescência introduz uma nova tarefa psíquica para encontrar uma posição própria diante da realidade e começar a assumir a si mesmo como indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse processo emergem as perguntas fundamentais da juventude: “Quem sou eu? O que eu quero? De que sou capaz?”. A adolescência aparece, assim, como um período marcado pela busca de verdade, pertencimento, direção existencial e reconhecimento. Entretanto, essa travessia ocorre em meio a uma profunda sensação de impermanência, insegurança e ausência de base fixa. O jovem encontra-se diante da necessidade de separar-se das identificações infantis antes que exista verdadeira estabilidade interior. Lievegoed observa que, nesse contexto, surgem formas intensas e incondicionais de julgamento e ação, frequentemente “tanto mais violentas quanto mais o eu pessoal estiver inseguro de si mesmo” (Lievegoed, 1970, p.42)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Lievegoed, a intensidade dos ideais, o fascínio pelos grupos, a idolatria de figuras heroicas e as experiências extremas podem então funcionar como tentativas de responder à pergunta central da adolescência: qual é o meu lugar no mundo? Quando essa busca não encontra mediações humanas, simbólicas e criativas suficientemente consistentes, a energia vital característica da juventude pode deslocar-se para formas imitativas de pertencimento e manifestações destrutivas que oferecem, ainda que precariamente, sensação de identidade e reconhecimento grupal.</p>



<h2 id="h-consideracoes-finais" class="wp-block-heading" style="font-size:22px"><strong>Considerações finais</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir das contribuições de Jung, von Franz e Lievegoed, a adolescência pode ser compreendida como um momento crítico do desenvolvimento psíquico, no qual o jovem é convocado a separar-se das identificações infantis, confrontar o despertar do instinto e construir uma posição própria diante do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa travessia, porém, não ocorre de forma linear nem puramente individual, sendo atravessada pelas marcas emocionais inconscientes da família, pelas exigências culturais de pertencimento e pelas dificuldades contemporâneas de sustentação simbólica da entrada na vida adulta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse contexto, determinadas manifestações de brutalidade masculina podem ser entendidas não apenas como expressão de agressividade, mas como tentativas precárias e regressivas de afirmar identidade, virilidade e reconhecimento diante de um ego ainda inseguro e pouco estruturado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A violência grupal, os desafios extremos, a crueldade contra corpos vulneráveis e a necessidade compulsiva de prova aparecem, assim, como formas degradadas de rituais de passagem, nas quais o ato substitui a elaboração simbólica e o pertencimento coletivo ocupa o lugar de uma identidade ainda frágil e em construção. Entre o instinto e o sentido, a tarefa é restituir um lugar simbólico para aquilo que hoje se expressa como destruição.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lucianaantonioli/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lucianaantonioli/"><strong>Luciana Antonioli &#8211; Analista Didata em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Fonte da imagem – Acervo pessoal. Aquarela de Luciana Antonioli, 2026.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Estudos experimentais</strong>. 3<sup>a</sup> ed. Petrópolis: Vozes, 2012. v. 02</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. 9<sup>a</sup> ed. Petrópolis: Vozes, 2013a. v. 17</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique</strong>. 4<sup>a</sup> ed. Petrópolis: Vozes, 2013b. v. 8/2</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Civilização em transição</strong>. Petrópolis: Vozes, 2013c. v. 10/03</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Memórias, sonhos, reflexões</strong>. <em>[S.l.]</em>: Nova Fronteira, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIEVEGOED, Bernard. <strong>Fases da vida &#8211; crises e desenvolvimento da individualidade</strong>. 3<sup>a</sup> ed. São Paulo, SP: Antroposófica, 1970. (p. 36 &#8211; 44)</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <strong>O asno de ouro: o romance de Lúcio Apuleio na perspectiva da psicologia analítica junguiana</strong>. 1<sup>a</sup> ed. São Paulo, SP: Editora Vozes, 2021.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="488" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--1024x488.png" alt="" class="wp-image-13218" style="aspect-ratio:2.098448862919837;width:739px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--1024x488.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--300x143.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--768x366.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--150x72.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG--450x215.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<item>
		<title>O menino Ney: a peleja entre o puer e a sombra em Neymar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-menino-ney-a-peleja-entre-o-puer-e-a-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Dec 2025 12:38:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
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		<category><![CDATA[eterna adolescência]]></category>
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		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[puer aeternus]]></category>
		<category><![CDATA[sombra coletiva]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neymar é uma figura controversa: por um lado, com seu "futebol moleque", é criativo, ousado e habilidoso; por outro, um homem infantilizado, inconsequente e sombrio. Ao "homenino", tudo é permitido e concebido. Neymar foi colocado numa espécie de Terra do Nunca e não quer sair de lá. Em terminologia junguiana, Neymar está identificado com Puer aeternus, o arquétipo da criança-divina que, quando na polaridade negativa, a pessoa fica presa nunca espécie de adolescência e se recusa a amadurecer. Neste ensaio, proponho, de forma despretensiosa, um diálogo entre a teoria junguiana e as narrativas midiáticas, em um exercício argumentativo e hipotético, para explorar o arquétipo do puer aeternus, tomando Neymar como referência.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Neymar é uma figura controversa: por um lado, com seu &#8220;futebol moleque&#8221;, é criativo, ousado e habilidoso; por outro, um homem infantilizado, inconsequente e sombrio. Ao &#8220;homenino&#8221;, tudo é permitido e concebido. Neymar foi colocado numa espécie de Terra do Nunca e não quer sair de lá. Em terminologia junguiana, Neymar está identificado com Puer aeternus, o arquétipo da criança-divina que, quando na polaridade negativa, a pessoa fica presa nunca espécie de adolescência e se recusa a amadurecer. Neste ensaio, proponho, de forma despretensiosa, um diálogo entre a teoria junguiana e as narrativas midiáticas, em um exercício argumentativo e hipotético, para explorar o arquétipo do puer aeternus, tomando Neymar como referência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-percebe-se-que-na-sociedade-contemporanea-em-sua-rica-diversidade-ha-uma-notavel-e-crescente-tendencia-de-rejeitar-o-processo-natural-do-envelhecimento" style="font-size:18px">Percebe-se que na sociedade contemporânea, em sua rica diversidade, há uma notável e crescente tendência de rejeitar o processo natural do envelhecimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma espécie de sombria pressão social para manter a imagem jovial, levando muitas pessoas a se sentirem compelidas a buscar meios extremos para retardar ou até mesmo reverter sinais de envelhecimento, a manter corpos perfeitos e rostos sem rugas divulgados no narcísico espelho do Instagram. O apego à ideia da perpetuação da juventude não se limita apenas a preocupação estética; também pode refletir um temor do desconhecido, da perda de vitalidade e da inevitável aproximação da morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica estima que em 2023 mais de 2 milhões de procedimentos foram realizados pelos brasileiros<a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a>. Em contrapartida, em 2022 o IBGE apontou aumento da longevidade nos cidadãos do nosso país<a href="#_ftn2" id="_ftnref2">[2]</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estamos imersos num Espírito da Época no qual a juventude é exaltada de forma exacerbada e a velhice é temida. Para Jung, o termo Espírito da Época, ou &#8220;Zeitgeist&#8221; em alemão, refere-se ao conjunto de ideias, valores, crenças, atitudes e comportamentos que predominam em uma determinada época ou cultura. É como um &#8220;clima psicológico&#8221; que molda a forma como as pessoas pensam, sentem e se comportam. O temor e a aversão ao envelhecimento permeiam tanto o inconsciente individual quanto o coletivo na contemporaneidade. Segundo a máxima de que &#8220;o que está fora também está dentro&#8221;, essa apreensão também pode estar profundamente ligada ao arquétipo do <em>puer aeternus</em>, o eterno jovem, pois reflete uma relutância em aceitar o processo natural de maturação e envelhecimento que caracteriza a jornada da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Von-Franz</strong> (1992, p. 9) reflete acerca do <em>puer aeternus</em> como arquétipo do deus criança-divina, “o deus da vida, da morte e da ressurreição — o deus da juventude divina, correspondente aos deuses orientais Tamuz, Átis e Adônis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-titulo-puer-aeternus-portanto-significa-juventude-eterna" style="font-size:18px">O título puer aeternus, portanto, significa juventude eterna&#8221;.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O <em>puer aeternus</em>, ou &#8220;eterno jovem&#8221;, é um arquétipo que representa uma pessoa que se recusa a amadurecer emocionalmente, preferindo permanecer em um estado de juventude e irresponsabilidade. De forma apressada e bastante resumida, em sua polaridade negativa, os <em>pueri</em> &nbsp;(plural de puer e puella) apresentam relutância em assumir responsabilidades consideradas adultas; buscam continuamente liberdade e aventura; têm a tendência a evitar compromissos duradouros; se recusam em enfrentar as realidades do envelhecimento e da maturidade emocional; buscam (por vezes de forma desesperada) pela preservação da juventude e da vitalidade física; são muito impacientes e volúveis emocionalmente; possuem um <em>donjuanismo</em> e dificuldades em estabelecer vínculos afetivos como característica, e enorme dificuldade de adaptação a rotina.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O sociólogo e filósofo <strong>Zygmunt Bauman</strong> (2001, p. 8) reflete que as principais características da modernidade líquida são: &nbsp;desapego, provisoriedade e acelerado processo da individualização, tempo de liberdade e, concomitantemente, de insegurança. Talvez o Espírito da Época esteja tão líquido quanto as relações estabelecidas pelo “espírito <em>puer”</em> que pulsa na contemporaneidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os fluidos se movem facilmente. Eles &#8216;fluem&#8217;, &#8216;escorrem&#8217;, &#8216;esvaem-se&#8217;, &#8216;respingam&#8217;, &#8216;transbordam&#8217;, &#8216;vazam&#8217;, &#8216;inundam&#8217;, &#8216;borrifam&#8217;, &#8216;pingam&#8217;, são &#8216;filtrados&#8217;, &#8216;destilados&#8217;; diferentemente dos sólidos, não são facilmente contidos &#8211; contornam certos obstáculos, dissolvem outros e invadem ou inundam seu caminho&#8230; Associamos &#8216;leveza&#8217; ou &#8216;ausência de peso&#8217; à mobilidade e à inconstância: sabemos pela prática que quanto mais leves viajamos, com maior facilidade e rapidez nos movemos (Bauman, 2001, p. 8).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-analise-didatica-trabalharemos-a-figura-publica-e-polemica-de-neymar-jr-o-menino-ney-para-refletir-nao-apenas-o-puer-que-o-habita-mas-a-sombra-projetada-em-seu-estilo-de-vida" style="font-size:18px">Como análise didática, trabalharemos a figura pública e polêmica de Neymar Jr, o “menino Ney”, para refletir não apenas o <em>puer</em> que o habita, mas a sombra projetada em seu estilo de vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A intenção é dialogar com a teoria no campo da Psicologia Analítica e das notícias coletadas na mídia, num exercício argumentativo e hipotético, sem nenhuma pretensão de limitar ou fechar o tema.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neymar da Silva Santos Júnior, aos 11 anos de idade, chegou às categorias de base do Santos, de onde não saiu mais até tornar-se profissional. Dotado de grande talento e virtuosismo, à medida que o adolescente crescia sustentava precocemente a família com seu salário, promovendo gradativamente a melhora no padrão de vida parental<a href="#_ftn3" id="_ftnref3">[3]</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com suas jogadas criativas, Neymar possui singular capacidade de driblar em espaços apertados, escapar da marcação de vários jogadores e criar oportunidades de gol para si mesmo e para seus companheiros de equipe. Sua visão antecipa as jogadas e, por vezes, resulta em assistências decisivas. É um jogador extremamente criativo, buscando maneiras de surpreender seus adversários, pois não tem medo de tentar formas ousadas e inventivas em campo. Tudo isso temperado com um “jeito moleque”, conquistou o coração dos torcedores e a atenção dos clubes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hiper-estimulado-e-protegido-pelos-pais-desejado-e-promovido-pelos-clubes-enaltecido-e-ovacionado-pelos-fas-nao-demorou-muito-para-sua-meteorica-ascensao" style="font-size:18px">Hiper estimulado e protegido pelos pais, desejado e promovido pelos clubes, enaltecido e ovacionado pelos fãs, não demorou muito para sua meteórica ascensão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Um profissional de alto rendimento como ele requer compromisso e dedicação, mas Neymar driblou as regras e viveu uma vida permeada de festas, romances, escândalos financeiros e sexuais. De certo modo, parte de seus admiradores o isentam de suas responsabilidades quando o tratam por “menino Ney”. Ao menino, tudo é permitido e concedido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em geral, aquele que se identifica com o arquétipo do <em>puer aeternus</em> “<em>permanece durante muito tempo como adolescente, isto é, todas aquelas características que são normais em um jovem de dezessete ou dezoito anos continuam na vida adulta, juntamente com uma grande dependência da mãe</em>” em boa parte dos casos (VON-FRANZ, 1992, p. 9).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em sua polaridade positiva, os <em>pueri</em> são muito criativos, estimulantes e mantém o charme da juventude. São divertidos, interessantes, agradáveis de conversar desde que sejam conversas superficiais, não gostam de situações convencionais. <strong>Geralmente o charme juvenil do <em>puer aeternus</em> se prolonga até os últimos estágios da vida</strong> (VON-FRANZ, 1992, p. 9).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-e-novidade-que-neymar-tem-um-lado-religioso-e-nao-esconde-de-ninguem" style="font-size:18px">Não é novidade que Neymar tem um lado religioso e não esconde de ninguém.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Evangélico e conservador, suas polêmicas são antigas&#8230; Em 2015 usou faixa na cabeça escrita 100% Jesus ao ganhar a Liga dos Campeões jogando pelo Barcelona durante a comemoração no estádio olímpico de Berlim, após a vitória por 3 a 1 sobre o Juventus. Tal manifestação causou polêmica na França, e os torcedores o acusaram nas redes sociais de proselitismo religioso<a id="_ftnref4" href="#_ftn4">[4]</a>. Outra polêmica foi ostentar um enorme crucifixo ao desembarcar na Arábia Saudita, para se apresentar ao seu time (islâmico) contratante Al Hilal<a id="_ftnref5" href="#_ftn5">[5]</a>. Numa atitude desrespeitosa e arrogante, o <em>puer</em> Neymar percebe-se como alguém especial, e que “não tem necessidade de adaptar-se, pois as pessoas é que têm que adaptar-se a um gênio como ele” (VON FRANZ, 1992, p.10).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-paradoxalmente-o-lado-evangelico-de-neymar-e-facilmente-sublimado-pelas-festas-babilonicas-que-promove-numa-combinacao-de-ostentacao-mulheres-bebidas-e-sabe-se-la-quais-outras-situacoes-dionisiacas-algumas-de-suas-festas-duram-dias-promovidas-de-casas-a-cruzeiros" style="font-size:18px">Paradoxalmente, o lado evangélico de Neymar é facilmente sublimado pelas festas babilônicas que promove. Numa combinação de ostentação, mulheres, bebidas e sabe-se lá quais outras situações dionisíacas, algumas de suas festas duram dias, promovidas de casas à cruzeiros.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como vimos anteriormente, desde menino, ao revelar sua enorme habilidade, obteve o apoio obsessivo e incondicional do pai, ex-jogador fracassado, que incentivou o jovem a alavancar sua carreira. Neymar Jr vive a vida não vivida de seu pai; este mesmo que, ao projetar sua vida frustrada no filho, o impede de crescer e ser responsável por seus atos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neymar pai, assume as inconsequências do filho para que os problemas não atrapalhem sua performance dentro de campo. Problemas como sonegação de impostos na Espanha; liberação da acusação de amigos por estupro; atenuar as acusação do filho de traições amorosas; minimizar os flagras das festas quando deveria estar recluso se recuperando de lesões entre outros escândalos. Hiper protegido pelo pai e blindado das consequências de seus atos, o menino Ney é mantido cativo numa espécie de Terra do Nunca pela figura paterna.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não assumir a consequência de seus atos faz com que a sombra emerja, pois, conforme Jung (2013, OC 9/2, §14) “<em>a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais</em>”. Neste processo de conscientização, é necessário reconhecer os aspectos sombrios da personalidade como eles realmente são. Essa prática é uma base essencial para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, costuma enfrentar resistência significativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A relação com a mãe é de quase reverência. Seu iate, palco de várias festas, foi batizado de Nadine, em deferência a ela. Em seu Instagram pessoal, Neymar fez uma homenagem no dia das mães se referindo como “minha super heroína”.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="553" height="413" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4.png" alt="" class="wp-image-11664" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4.png 553w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4-300x224.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4-150x112.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-4-450x336.png 450w" sizes="(max-width: 553px) 100vw, 553px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Fonte: Instagram – acesso em 12 mar. 2023</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2001-p-98-diz-que-o-aspecto-negativo-do-puer-aeternus-indica-o-si-mesmo-preso-no-inconsciente-e-que-nao-se-realiza-na-pratica-o-desenvolvimento-bloqueado-depende-muitas-vezes-de-uma-ligacao-muito-estreita-do-filho-com-a-mae" style="font-size:18px">Jung (2001, p. 98) diz que o aspecto negativo do <em>puer aeternus</em> indica o “<em>si mesmo preso no inconsciente e que não se realiza na prática. O desenvolvimento bloqueado depende muitas vezes de uma ligação muito estreita do filho com a mãe</em>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por sua vez, a mãe não esconde uma predileção em namorar homens muito mais jovens, atléticos, na mesma faixa etária do filho. Podemos arriscar a pensar em projeção, uma vez que, para Jung (2013, OC 6, §881), projeção significa “<em>transferir para o objeto um processo subjetivo” e que “pertencem à esfera da sombra, isto é, ao lado obscuro da própria personalidade</em>” (JUNG, 2013, OC 9/2, §19).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-idealizacao-da-mae-pelo-filho-ocorre-devido-a-uma-serie-de-razoes-que-pode-incluir-a-tentativa-de-preenchimento-do-vazio-emocional-na-busca-por-realizacao-pessoal-atraves-do-sucesso-dele" style="font-size:18px">Essa idealização da mãe pelo filho ocorre devido a uma série de razões, que pode incluir a tentativa de preenchimento do vazio emocional na busca por realização pessoal através do sucesso dele.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste caso, a mãe pode demonstrar comportamento superprotetor e manipulador em relação ao filho, além de codependência emocional, onde ela inconscientemente espera que o filho atenda suas necessidades; tentativa de controle; dificuldade em aceitar a falibilidade do filho (que, aos olhos dela, é sempre perfeito).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por outro lado, o filho fica inconscientemente estigmatizado na condição de “pequeno príncipe”, infantilizado e fragilizado, e tem a tendência de buscar a mãe projetivamente em suas companheiras. Uma espécie de “donjuanismo” faz com que o filho inconscientemente reproduza as dinâmicas experimentadas com a mãe em seus relacionamentos amorosos, buscando parceiras com características semelhantes a ela. O menino Ney coleciona beldades e pouco se fixa nas relações, numa falta de comprometimento afetivo com as mulheres que se envolve. Num misto de encantamento e tédio, envolve-se amorosamente, mas trai suas companheiras, expondo-as, por vezes, a situações públicas e constrangedoras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Além deste imbróglio familiar que foi levantado de forma tão didática e despretensiosa neste texto, temos os amigos. Neymar é como <strong>Peter Pan</strong> cercado por seus &#8220;parças&#8221;, os amigos inseparáveis que decidiram ter como missão na vida desfrutar do reino do amigo-príncipe. E o acompanham pelo mundo, aplaudindo, incentivando, defendendo e desfrutando de privilégios que nunca teriam, graças à fortuna do menino Ney, sem jamais o contrariar ou o questionar. Os “parças” são uma espécie de meninos perdidos da Terra do Nunca, que veem em Peter Pan seu ídolo, inspiração e chefe.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neymar-e-talentoso-milionario-vive-de-forma-luxuosa-se-relaciona-com-as-mais-lindas-mulheres-com-mais-de-221m-de-seguidores-1-no-instagram-seu-estilo-de-vida-e-cobicado-por-milhares-de-fas" style="font-size:18px"><strong>Neymar é talentoso, milionário, vive de forma luxuosa, se relaciona com as mais lindas mulheres. Com mais de 221M de seguidores<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><strong>[1]</strong></a> no Instagram, seu estilo de vida é cobiçado por milhares de fãs.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Fica a reflexão que talvez Neymar seja uma espécie de receptáculo da sombra coletiva</strong>, pois, “<em>a sombra coletiva, agregada e institucional sempre contém a sombra não examinada de cada um de nós. Aquilo do qual somos inconscientes, ou não desejamos enfrentar, contribuirá para nossa sombra coletiva e institucional</em>” (HOLLIS, 2010, p. 138).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso de Neymar, a figura do <em>puer aeternus</em> resplandece com força arquetípica. Ele é o menino eterno, brincante, seduzido pelo instante orgástico, pela leveza irresponsável do agora. Esse puer, ainda que fascinante, provoca inquietação, pois nos lembra tanto o desejo secreto de viver livres das amarras quanto o risco de sermos devorados pela própria recusa em amadurecer. Sua conduta desperta nossas sombras individuais e coletivas, pois revela aquilo que por vezes ocultamos: a nossa dificuldade em sustentar escolhas, limites, consequências, e o desejo de uma sedutora vida permeada de luxos e facilidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neymar encarna, assim, uma mensagem ambígua e um tanto sombria: a de que a juventude e a liberdade podem ser buscadas a qualquer custo, mesmo quando o preço é a erosão do compromisso, o adiamento da responsabilidade e a impossibilidade de sustentar um eixo interno mais maduro. Ele nos confronta com o dilema eterno entre o impulso do puer brincante e a exigência transformadora da vida adulta, dilema que, no fundo, pertence menos ao atleta e mais ao inconsciente deste “homenino”.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;O menino Ney: a peleja entre o puer e a sombra em Neymar&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/05CtpCSpQxE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela A. Euzebio – Didata em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BAUMAN, Zygmunt. Modernidade liquida. Rio de Janeiro: Zahar,</p>



<p class="wp-block-paragraph">2001</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. O livro do Puer: ensaios sobre o Arquétipo do Puer Aeternus. São Paulo: Paulus, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. A sombra interior. Por que pessoas boas fazem coisas ruins? São Paulo &#8211; Novo Século, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Cartas, Volume I. São Paulo: Ed. Vozes, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 6).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. Puer Aeternus: a luta do adulto contra o paraíso da infância. 2ª ed. São Paulo: Paulus,1992.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Acesso em 22 de abril de 2024</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Fonte: <a href="https://www.sbcp-sp.org.br/na-midia/cirurgias-plasticas-devem-somar-2-milhoes-de-procedimentos-em-2023-aponta-pesquisa/">https://www.sbcp-sp.org.br/na-midia/cirurgias-plasticas-devem-somar-2-milhoes-de-procedimentos-em-2023-aponta-pesquisa/</a>. Acesso em 29 jan. 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Fonte: <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/expectativa-de-vida-sobe-de-768-para-77-anos-no-brasil-diz-ibge/">https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/expectativa-de-vida-sobe-de-768-para-77-anos-no-brasil-diz-ibge/</a>. Acesso em 29 jan. 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref3" id="_ftn3">[3]</a> Fonte: Wikipedia. Disponiível em: <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Neymar#Biografia">https://pt.wikipedia.org/wiki/Neymar#Biografia</a>. Acessado em: 19 fev. 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref4" id="_ftn4">[4]</a> Fonte: Le Figaro. Disponível em <a href="https://www.jusbrasil.com.br/noticias/le-figaro-diz-que-faixa-de-neymar-100-jesus-foi-vista-como-proselitismo-por-torcedores/197437074#:~:text=Campe%C3%A3o%20pela%20primeira%20vez%20da,o%20jornal%20%E2%80%9CLe%20Figaro%E2%80%9D">https://www.jusbrasil.com.br/noticias/le-figaro-diz-que-faixa-de-neymar-100-jesus-foi-vista-como-proselitismo-por-torcedores/197437074#:~:text=Campe%C3%A3o%20pela%20primeira%20vez%20da,o%20jornal%20%E2%80%9CLe%20Figaro%E2%80%9D</a>. Acesso em 22 abr. 2024</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref5" id="_ftn5">[5]</a> Fonte: Metrópole. Disponível em <a href="https://www.metropoles.com/entretenimento/neymar-chama-atencao-ao-chegar-na-arabia-saudita-com-crucifixo-veja">https://www.metropoles.com/entretenimento/neymar-chama-atencao-ao-chegar-na-arabia-saudita-com-crucifixo-veja</a>. Acesso em 22 abr. 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Adolescência: percurso entre a criança amada e o adulto reconhecido</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/adolescencia-percurso-entre-a-crianca-amada-e-o-adulto-reconhecido/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Dec 2019 19:25:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[pedagogia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vivemos em uma sociedade que passa por constantes mudanças. Pessoas e coisas são cada vez mais descartáveis, aspectos que refletem nas vivências, provocando mudanças de comportamentos. Pais, psicoterapeutas, educadores e todos os envolvidos nas áreas voltadas ao ser humano, ficam perplexos diante do aumento dos índices de suicídio, do uso de entorpecentes, das doenças psicossomáticas [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos em uma sociedade que passa por constantes mudanças. Pessoas e coisas são cada vez mais descartáveis, aspectos que refletem nas vivências, provocando mudanças de comportamentos. Pais, psicoterapeutas, educadores e todos os envolvidos nas áreas voltadas ao ser humano, ficam perplexos diante do aumento dos índices de suicídio, do uso de entorpecentes, das doenças psicossomáticas e da ingestão de remédios pelos adolescentes. Surgem questões importantes: O que leva um indivíduo a se drogar para viver? &nbsp;&nbsp;Para que tirar a vida? Será um vazio existencial que precisa ser preenchido? Ou quem sabe a ilusão de acabar com o sofrimento? Não basta justificarmos com os porquês, precisamos ir além e compreendermos o sentido dessa triste realidade. Com esse olhar, convido-os para ampliarmos algumas questões, que envolvem o período cíclico da vida, denominado adolescência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A palavra adolescência vem do latim adolescere, que significa crescer. A sua definição varia conforme a cultura em que se vive. Historicamente, o termo adolescência é recente. Ariès nos trouxe essa constatação: “Só se saía da infância ao se sair da dependência” (1981, p.42). Assim, era considerado adulto quem não dependia mais dos seus pais. Da mesma forma, Papalia, Olds &amp; Feldman, 2006 descrevem essa dinâmica e afirmam que no Séc. XX as crianças ocidentais entravam no mundo adulto quando amadureciam fisicamente ou quando definiam a sua vocação. Geralmente saíam de casa cedo, optando pelo casamento e gerando filhos. Hoje a puberdade começa mais cedo e a escolha da profissão tende a ocorrer mais tarde.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em termos gerais, existe uma concordância que a&nbsp;adolescência é a&nbsp;fase&nbsp;que marca a transição entre a infância e a vida adulta, que envolve grandes mudanças físicas, cognitivas e psicossociais e dura em torno de 10 anos, iniciando depois dos 10 anos e terminando em torno dos 20 anos.&nbsp;Na sua fase inicial ocorrem várias alterações físicas. Durante o período, continuam ocorrendo as mudanças físicas, acompanhadas de mudanças interiores, que envolvem a aversão ao controle dos pais e a entrada com maior importância dos amigos, resultando em muitos conflitos familiares. Para alguns, são considerados os anos mais difíceis. Na fase final, ocorre a crise da identidade, com o planejamento da vida e a inclusão de maior responsabilidade, culpabilidade definida por lei. Ou seja, a partir deste momento o indivíduo responde legalmente por seus atos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vindo ao encontro, para Jung a personalidade do ser humano é desenvolvida aos poucos:&nbsp;“A personalidade já existe em germe na criança, mas só se desenvolverá aos poucos por meio da vida e no decurso da vida. Sem determinação, inteireza e maturidade não há personalidade”&nbsp;(2013, p. 182).&nbsp;Legião Urbana, com a música “Tempo Perdido”, amplia a realidade que permeia os adolescentes. Por um lado, tudo muito intenso e rápido, em contrapartida uma sensação que eles têm todo o tempo do mundo:&nbsp;<strong>“</strong><strong>Mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo (…)&nbsp;Somos tão jovens”.&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre tantas&nbsp;características que marcam a adolescência, podemos citar as mudanças hormonais e glandulares, que influenciam no crescimento do corpo, e as alterações emocionais, que aparecem em forma de raiva, mágoa, tristeza, perda e medo. Nesta fase eles se preocupam com a aparência, pensam de forma abstrata, fazem generalizações, descobrem novas realidades, tornando-se imediatistas e imprevisíveis. É um período em que os amigos tomam grande espaço, participando de grupos e tribos. Questionamentos sobre a vida aparecem e as principais inquietações giram em torno da identidade, testando o mundo e expondo-se a riscos.&nbsp;Para Jung, a adolescência é marcada por transformações:&nbsp;<em>&#8220;</em>O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual”&nbsp;(2013, p. 347).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Neste sentido, cito mais uma vez a Legião Urbana, que retrata muito bem questões voltadas ao período, com a música “Pais e Filhos”, ouvida e cantada por muitos de nós:&nbsp;<em>&#8220;</em>Sou uma gota d&#8217;água. Sou um grão de areia. Você me diz que seus pais não lhe entendem. Mas você não entende seus pais. Você culpa seus pais por tudo. E isso é absurdo. São crianças como você. O que você vai ser quando você crescer?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Constituição Brasileira, no artigo 227, assegura a proteção integral à criança e ao adolescente. Igualmente, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990), é um importante instrumento de defesa dos direitos e deveres de crianças e adolescentes, que estão vivendo um período de intenso desenvolvimento físico, psicológico, moral e social. Sabemos que muitos órgãos se envolvem com seriedade para garantir esses direitos e deveres, porém em termos gerais ainda existe muito para fazer.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Nos consultórios de psicoterapia aparecem diferentes sintomas para serem ressignificados. Um deles é a ausência e/ou a omissão dos pais, muitas vezes compensadas com presentes e outras facilidades. De forma similar, algumas escolas particulares, com alto nível de exigência teórica e pouco olhar para outras dimensões, contribuem para a formação de sintomas. Os adolescentes se sentem desestimulados e incapazes, afetando a sua autoestima e abrindo&nbsp;espaço para doenças psicossomáticas.&nbsp; Para alguns, escolher uma profissão no final do Ensino Médio é angustiante. Igualmente, passarem no vestibular, perceberem que fizeram uma escolha errada e abandonarem o curso em seguida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Deparamo-nos com realidades preocupantes e cada vez mais presentes: adolescentes que tiram suas vidas diante de frustrações. Como não vivenciaram as pequenas frustrações, sentem-se incapazes de lidar&nbsp;com as dores da alma e escolhem morrer. Hillman, em seu livro Suicídio e Alma, auxilia-nos na compreensão da vida e da morte. De fato, diante da possibilidade de suicídio, precisam morrer muitas coisas para o ser humano não se matar. Renato Russo expressou essa realidade com sua voz encantadora:&nbsp;<em>&#8220;</em>Estátuas e cofres. E paredes pintadas. Ninguém sabe o que aconteceu. Ela se jogou da janela do quinto andar. Nada é fácil de entender”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">As relações tornaram-se virtuais e a liquidez dos relacionamentos modernos tornaram as pessoas e os objetos descartáveis, realidade que pode ser comparada com a crise de identidade dos adolescentes na busca de um caminho para trilharem com segurança. Lipovetsky (2005), afirma que a sociedade de consumo foi construída sobre as aparências, com o uso desenfreado de bens não duráveis. &nbsp;De forma idêntica, Bauman (2004), nos mostra que a liquidez dos relacionamentos modernos envolve as relações virtuais, que aparentam facilidade e transparência, em detrimento da autenticidade que parece pesada e lenta demais. Para buscar respostas diante das incertezas da vida, podemos digitar uma palavra no Google e aparecem várias possibilidades. As informações disponíveis na internet nem sempre são aplicáveis na vida prática e geralmente causam mais inquietações diante da padronização estabelecida. A angústia continua porque o mundo virtual não conhece nosso campo relacional, não percebe as expressões do nosso corpo que retratam um mal estar na alma e não consegue promover o que mais precisamos: alguém que, de uma forma diferenciada, estabeleça conosco um vínculo de confiança, que nos ouça e que nos dê uma oportunidade de dar voz ao que sentimos. Escutar e dar voz, papel que o psicoterapeuta promove com sabedoria!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questões que envolvem a sexualidade também fazem parte das demandas nos consultórios. A iniciação da vida sexual, movida por ansiedade e preocupações, exige esclarecimentos e orientações sobre a existência ou não de disfunções. Troca constante de parceiros, experimentação do prazer com meninos e meninas, em busca da resposta para sua identificação sexual também aparecem como demandas. Depressão, suicídio, ansiedade, distúrbios alimentares e drogas. Símbolos de beleza, insatisfação com o físico, anorexia nervosa e a bulimia nervosa. Uso de objetos cortantes e bebidas alcóolicas. Mundo virtual substituindo relações reais. É o adolescente gritando por ajuda, tão bem interpretado pela Legião Urbana:&nbsp;“Quero colo, vou fugir de casa (&#8230;). Só vou voltar depois das três”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No decorrer dos anos, diferentes autores de diferentes áreas se empenharam nos estudos sobre a adolescência. Edinger (1972), contribui com os conceitos psicológicos de Jung, que nos permite entender o adolescente, principalmente na sua diferenciação em relação aos pais, momento em que os arquétipos do pai e da mãe perdem a predominância. Assim, ocorre a entrada do herói, na interação com o grupo do mesmo sexo, buscando uma identidade própria. Da mesma forma, os arquétipos da anima na psique do menino e do animus na menina, possibilitando o relacionamento e atração pelo sexo, oposto ou até igual à identificação sexual do ego.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para maior compreensão, Erik Erikson propõe a Teoria Psicossocial, envolvendo 8 estágios do desenvolvimento humano, descrevendo a fase dos 12 aos 18 anos como de identidade x confusão. De acordo com Aberastury e Knobel (1983) algumas características são comuns nos adolescentes. Entre elas podemos identificar a busca de si mesmo e da identidade, a tendência grupal, a necessidade de intelectualizar e fantasiar, as crises religiosas, a vivência do tempo, a sexualidade, a atitude social reivindicatória, as condutas contraditórias, a separação progressiva dos pais e as constantes flutuações do humor. Tânia Zagury, educadora e filósofa, contribui com algumas reflexões (2004, p. 45). Para ela, o maior perigo para um jovem não são as drogas: é não crer no futuro e na sociedade em que vive. A falta de esperança pode levar à depressão, ao individualismo, ao consumismo, ao suicídio, à marginalidade e às drogas. Neste processo, é fundamental a integridade dos adultos e atitudes coerentes com seus discursos, que servem de exemplos para eles, que poderão fazer algumas bobagens, mas nada que fira a ética e os valores que aprenderam. Mais importante que satisfazer desejos é ensinar princípios éticos. Adolescentes querem amor, aceitação e respeito. Querem ser ouvidos, protegidos e valorizados!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo as ideias de Calligares, a nossa sociedade incentiva a cultura da autonomia e da independência. É transmitido a ambição de não repetir a vida dos que o geravam, mas de se destacar, porém precisa seguir as regras sociais e não provocar a violência e a desordem. Sair da adolescência significa ser um adulto desejável e invejável, reconhecido pelas relações amorosas/sexuais e o poder, no campo produtivo, financeiro e social. Por outro lado, ele nos deixa indagações:&nbsp;“Por que se tornar adulto se os adultos querem virar adolescentes? (&#8230;) O dever dos jovens é envelhecer. Suma sabedoria. Mas o que acontece quando a aspiração dos adultos é manifestamente a de rejuvenescer?”&nbsp;(2.000, p.74).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, por sua vez, contribui significativamente e nos alerta sobre aspectos importantes na formação da personalidade:&nbsp;“Os filhos são estimulados&nbsp;para aquelas realizações que os pais jamais conseguiram; a eles são impostas as ambições que os pais nunca realizaram. Tais métodos e ideais produzem monstruosidades na educação (&#8230;) Ninguém pode educar para personalidade se não tiver personalidade”&nbsp;(2013, p. 182).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Alguns estudiosos se arriscam, sugerindo alternativas em relação ao que pode auxiliar na educação dos adolescentes. Entre as sugestões apontadas aparece o pertencimento aos grupos de esporte, de música ou religiosos, mas o essencial é que eles se sintam importantes e que saibam que são bons em alguma coisa. A família, independente de como é constituída, tem um papel fundamental, envolvendo-os para realizarem juntos algumas coisas, como passeios, viagens, refeições, entre outros. Vale lembrar que o diálogo, envolvendo uma comunicação assertiva, é uma das melhores opções para resolução de conflitos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante de tantos problemas, a saída criativa é olhar para a angústia, simbolicamente conversar com ela, perceber qual aspecto da vida está gritando por mudanças e permitir que elas ocorram. Olhar para as dores e não encará-las como fim, mas percebê-las como oportunidades, como portas que se abrem para novos sentidos e significados. Entorpecentes e remédios muitas vezes têm a função de&nbsp;“bengalas”, que auxiliam a caminhada, suavizando as dores psíquicas, porém não promovendo a cura da alma. E mais uma vez trago a contribuição de Jung que traduz com sabedoria as reflexões sobre a adolescência:&nbsp;“Somente o outono revela o que a primavera produziu, e somente a tarde manifesta o que a manhã iniciou”&nbsp;(2013, p. 183). Ele complementa:&nbsp;“Somente será possível que alguém se decida por seu próprio caminho, se esse caminho for considerado o melhor”&nbsp;(2013, p. 185). E a caminhada não precisa ser dolorida.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Culmino minhas ampliações com mais um trecho da música Pais e Filhos, cantada com a voz marcante de Renato Russo, que permite compreendermos o amor como essência na adolescência e em todas as fases da vida:&nbsp;“É preciso amar as pessoas. Como se não houvesse amanhã. Por que se você parar pra pensar. Na verdade não há”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claci Maria Strieder, Pedagoga, Psicóloga, Especialista em Psicossomática e Psicologia Junguiana, Analista em formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Brasília/DF &#8211;  Contato: (61) 99951.0003 &#8211; <a href="mailto:clacims@gmail.com" target="_blank" rel="noreferrer noopener">clacims@gmail.com</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ABERASTURY, A. KNOBEL, M. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. 3ª edição. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ARIÉS, P.&nbsp;<em>História social da criança e da família</em>. 2ª edição. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CALLIGARES, Contardo. A adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, E. Ego e arquétipo: Uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos fundamentais de Jung. Cultrix, São Paulo: 1972.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ERIKSON, E. H. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN J.&nbsp; Suicídio e alma. Petrópolis: Vozes; 1993.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10ª edição. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________________O desenvolvimento da personalidade. 14ª edição. Petrópolis. Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia de Letras, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PAPALIA, D. E., OLDS, S. W., &amp; FELDMAN, R. D. (2006). Desenvolvimento humano (8ª ed.). Porto Alegre: Artmed.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZAGURY, Tania. Os direitos dos pais: construindo cidadãos em tempos de crise. 6ª edição. Record, Rio de Janeiro, 2004.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-claci-maria-strieder"><strong><em>Claci Maria Strieder</em></strong></h4>
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