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	<title>Arquivos Casamento - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Tue, 09 Jun 2026 18:22:15 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Casamento - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Caso ela diga não: as bases psicológicas da agressividade masculina</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/caso-ela-diga-nao-as-bases-psicologicas-da-agressividade-masculina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 20:28:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[caso ela diga não]]></category>
		<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[james hollis]]></category>
		<category><![CDATA[masculino]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sob a sombra de saturno]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[violência nos relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma análise sobre a agressividade masculina a partir de uma tendência digital violenta, interpretando-a como o sintoma de uma sombra coletiva enraizada na repressão emocional. Argumenta-se que a sociedade restringe o repertório sentimental dos homens, legitimando apenas a raiva como expressão aceitável, o que mascara um profundo medo da vulnerabilidade e uma dependência de símbolos de controle.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/caso-ela-diga-nao-as-bases-psicologicas-da-agressividade-masculina/">Caso ela diga não: as bases psicológicas da agressividade masculina</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Uma análise sobre a agressividade masculina a partir de uma tendência digital violenta, interpretando-a como o sintoma de uma sombra coletiva enraizada na repressão emocional. Argumenta-se que a sociedade restringe o repertório sentimental dos homens, legitimando apenas a raiva como expressão aceitável, o que mascara um profundo medo da vulnerabilidade e uma dependência de símbolos de controle.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<strong>Caso ela diga não</strong>” foi um conjunto de vídeos de grande alcance, que se popularizou recentemente as redes sociais. Neles um homem simula um pedido de casamento que tem como resposta uma negativa. Em seguida, o suposto noivo esmurra e chuta violentamente um objeto que, na encenação, representa a mulher. Longe de uma simples ‘brincadeira’ de internet, essa trend ilustra uma realidade de violência dirigida a imagem do feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nos 4 ou 5 minutos em que você lerá esse artigo, uma média de 170 mulheres passarão por algum tipo de agressão física</strong>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídios, registrando a marca de 4 mulheres mortas por dia simplesmente por serem mulheres. Dados estes que não representam apenas números isolados, mas o sintoma de uma patologia social profunda.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mês de março, tradicionalmente dedicado à celebração das lutas e conquistas femininas, encerrou-se sob o peso de duras notícias. Eventos como a viralização dessas <em>trends</em> e os casos de violência real, como estupros coletivos, evidenciam a profundidade de nossa sombra coletiva, revelando o quanto ainda precisamos avançar para que o simbolismo do 8 de março não seja ofuscado pela persistente agressividade direcionada a mulher.</p>



<h2 id="h-quando-se-trata-de-violencia-contra-a-mulher-as-acoes-perpetradas-nao-vem-de-longe-vem-em-grande-parte-das-vezes-de-parceiros-e-companheiros-proximos-nbsp" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Quando se trata de violência contra a mulher, as ações perpetradas não vêm de longe. Vêm, em grande parte das vezes, de parceiros e companheiros próximos.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Então surgem questionamentos comuns do porquê da continuidade do vínculo abusivo por parte da mulher ou como esta mulher pode escolher tal parceiro, recaindo o julgamento sobre aquela que vivencia a agressão. Ou ocorre um reducionismo em rotular o agressor como um &#8216;monstro&#8217; e um &#8216;louco&#8217;. Entretanto quais seriam os movimentos psíquicos inconscientes por detrás desses atos?</p>



<h2 id="h-reconhecemos-a-violencia-atestamos-os-numeros-mas-o-que-esta-no-interior-de-quem-comete-tais-atitudes-o-que-acontece-no-interior-da-psique-masculina" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Reconhecemos a violência, atestamos os números, mas o que está no interior de quem comete tais atitudes? O que acontece no interior da psique masculina?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, no lugar de nos restringirmos a uma visão simplista, este breve estudo caminhará para a análise das dinâmicas do mundo interno, assim como observará os movimentos psíquicos inconscientes, que sustentam essa realidade, deslocando a atenção para o âmago da psique masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">James Hollis escreve em <em><strong>Sob a sombra de Saturno</strong></em> que os homens vivem sob uma pesada sombra saturnina, fazendo referência ao titã grego conhecido como Crono ou o Saturno, na versão romana. Este era o deus da agricultura, que participa da criação, por uma face, e por outra, liga-se a histórias sangrentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Filho de Urano e Géia, Crono assume o poder castrando o próprio pai. Este dominado pelo temor diante do potencial de sua própria descendência, rejeitava seus filhos e aprisioná-los no ventre da Terra. Diante dessa opressão, Géia forjou uma foice e instigou Crono a confrontar a autoridade paterna. O golpe desferido por Crono, que resultou na castração de Urano, deu origem a dois fenômenos: do sangue fecundado na terra nasceram os gigantes, enquanto da espuma do esperma lançado ao mar emergiu Afrodite. Entretanto, ao substituir o pai, Crono-Saturno replicou a mesma trajetória tirânica. Ele passa a devorar seus filhos com Réia, dos quais apenas um, Zeus, consegue escapar com ajuda da astúcia materna. A inevitável revolta de Zeus culminou em uma guerra de dez anos que, embora tenha instaurado forças civilizadoras, não rompeu o ciclo: o novo soberano também sucumbiu ao complexo de poder, tornando-se, por sua vez, um dominador.</p>



<h2 id="h-aqui-a-mitologia-e-tomada-como-simbolo-de-movimentos-psiquicos-nbsp-olhando-para-a-parte-inconsciente-e-arquetipica-muitos-homens-ate-hoje-sao-nbsp-governados-por-esse-exato-padrao-de-medo-e-um-legado-psicologico-saturnino" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Aqui a mitologia é tomada como símbolo de movimentos psíquicos.&nbsp;Olhando para a parte inconsciente e arquetípica, muitos homens até hoje são&nbsp;governados por esse exato padrão de medo. É um legado psicológico saturnino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A ponte entre mitologia e atualidade está na percepção de ameaça ao controle. O legado de Crono-Saturno impõe culturalmente ao homem provar o seu valor constantemente por meio da dominação.&nbsp;Entretanto essa necessidade de controle funciona muito mais como uma armadura diante de uma vida governada pelo medo. Por baixo dessa defesa, escondido no inconsciente, existe um terror paralisante do fracasso, de parecer fraco ou impotente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então a agressividade física ou verbal não é uma demonstração de força real, e sim mecanismo de defesa desesperado guiado pelo medo de perder o ‘trono’, dentro de uma ilusão de poder sobre as outras pessoas. E no caso observado no presente artigo, sobre as mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um medo profundo, e, grande parte das vezes, ignorado pela consciência. Além das expectativas sociais restritivas, em que é exigido aos homens a competição, a não demonstração de fraqueza, e, destacadamente, a necessidade de nunca perder o poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O senso de valor do homem contemporâneo raramente deriva de sua essência ou do simples fato de existir. Pelo contrário, seu valor é condicionado à produção, ao <em>status</em> e ao controle exercido sobre o ambiente e sobre o outro. Então quando uma falha profissional ocorre ou há a perda de domínio em um relacionamento, isso não é sentido apenas como contratempos cotidianos, mas como ameaças existenciais. O medo atinge, por assim dizer, uma esfera de temor da aniquilação do ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os homens não são chamados a cultivar o princípio <em>Eros</em>, que está relacionado ao amor, aos vínculos, à conexão íntima. São empurrados para esse campo do trabalho, da prontidão, para uma postura combativa e de preocupação constante. Resta-se, assim, a retirada do afeto. Na ausência de <em>Eros</em>, o que sobra é a busca desmedida pelo poder. O temor existencial consome o masculino destituído de ritos e símbolos.</p>



<h2 id="h-neste-ponto-emerge-algo-paradoxal-se-a-figura-masculina-detem-historicamente-hegemonia-e-destaque-nos-campos-social-politico-e-financeiro-por-que-a-psique-do-homem-evidencia-tal-fragilidade-na-pratica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Neste ponto, emerge algo paradoxal: se a figura masculina detém historicamente hegemonia e destaque nos campos social, político e financeiro, por que a psique do homem evidencia tal fragilidade na prática?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa contradição sugere uma profunda discrepância entre a persona de autoridade e a frágil condição do mundo interno. É como se, metaforicamente, observássemos uma árvore de copa frondosa sustentada por raízes superficiais. Existe a projeção na esfera externa de uma imagem de expansão e domínio. Muito embora, na parte interna, não exista um aprofundamento no solo da própria subjetividade. Quando sopra o vento de uma crise pessoal ou uma rejeição é experimentada, a árvore é arrancada por inteiro ou seu tronco é partido pela rigidez egóica. Não há o enraizamento necessário para sustentar a estrutura e o peso de sua própria existência diante da adversidade.</p>



<h2 id="h-hollis-descreve-que-os-homens-carregam-oito-segredos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Hollis descreve que os homens carregam oito segredos:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li><em>A vida dos homens é tão governada por expectativas restritivas com relação ao papel que devem desempenhar quanto a vida das mulheres.</em></li>



<li><em>A vida dos homens é basicamente governada pelo medo.</em></li>



<li><em>O poder do feminino é imenso na organização psíquica dos homens.</em></li>



<li><em>Os homens conluiam-se numa conspiração de silêncio cujo objetivo é reprimir sua verdade emocional.</em></li>



<li><em>O ferimento é necessário porque os homens precisam abandonar a Mãe e transcender o complexo materno.</em></li>



<li><em>A vida dos homens é violenta porque suas Almas foram violadas.</em></li>



<li><em>Todo homem carrega consigo profundo anseio pelo seu pai e pelos seus Pais tribais.</em></li>



<li><em>Para que os homens fiquem curados, precisam ativar dentro de si o que não receberam do exterior.</em></li>
</ol>



<h2 id="h-no-sexto-deles-e-apontado-a-violacao-da-alma-masculina-mas-violada-como-no-sentido-de-que-a-cultura-exige-aos-homens-cortarem-partes-deles-mesmos-os-ferimentos-do-masculino-manifestam-se-no-que-hollis-denomina-assassinios-da-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No sexto deles, é apontado a violação da alma masculina. Mas violada como? No sentido de que a cultura exige aos homens cortarem partes deles mesmos. Os ferimentos do masculino manifestam-se no que Hollis denomina &#8216;assassínios da alma&#8217;.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como sociedade, perdemos os rituais de passagem. Em outros tempos, existiam espaços para ensinar o homem a lidar com o luto, com a dor e com fracasso, por exemplo. Mas, historicamente, dentro de uma construção patriarcal, o desenvolvimento do masculino é pautado pela repressão sistemática da vulnerabilidade. Ao menino, é negado o direito ao choro e à expressão de dor e de sensibilidade, por exemplo. É muito comum rotular-se uma simples manifestação de afeto como um sinal de debilidade. Essa educação, que reprime a esfera emocional, gera uma desconexão paulatina do indivíduo com sua própria subjetividade.</p>



<h2 id="h-sem-recursos-simbolicos-para-transformar-o-sofrimento-em-sentido-os-ferimentos-tornam-se-destrutivos-ao-inves-de-iniciaticos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Sem recursos simbólicos para transformar o sofrimento em sentido, os ferimentos tornam-se destrutivos, ao invés de iniciáticos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Neste ponto, um dos poucos sentimentos socialmente aceitos para o masculino é a raiva, que aparece como via de escoamento do desconforto experimentado. A alma violada, ao ser silenciada e obrigada a suportar a dor em isolamento, acumula uma raiva, que atinge patamar da ira, transbordando em depressão, somatizações ou, frequentemente, na projeção paranoica de sua sombra sobre alvos convenientes: mulheres, crianças e outros homens (HOLLIS, p. 143).</p>



<h2 id="h-quando-se-deixa-de-nutrir-a-alma-nesta-negligencia-em-relacao-ao-cultivo-da-vida-animica-ocorre-uma-deterioracao-do-contato-com-o-mundo-interno" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Quando se deixa de nutrir a alma, nesta negligência em relação ao cultivo da vida anímica, ocorre uma deterioração do contato com o mundo interno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-se-deixa-de-nutrir-a-alma-nesta-negligencia-em-relacao-ao-cultivo-da-vida-animica-ocorre-uma-deterioracao-do-contato-com-o-mundo-interno-no-caso-dos-homens">No caso dos homens, esse distanciamento frequentemente culmina na projeção de conteúdos internos não elaborados sobre a figura feminina, que passa a carregar o peso das demandas e carências da alma masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica de projeção acaba por despertar um medo arcaico do feminino. Trata-se de uma força ameaçadora da autonomia do ego, que tem suas raízes na primeira infância. Nesse estágio, a figura materna transcende a função de cuidadora. Ela passa a encarnar o próprio arquétipo da vida. É um poder literal sobre a vida e a morte daquela criança. A dependência é vital, pois dela emanam tanto a saciedade quanto a fome, o acolhimento ou o abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, pela perda de ligação com o mundo simbólico e a fragmentação dos rituais de passagens significativos, esse cordão umbilical não é rompido. O indivíduo assim carece de um marco de transição. O menino, por vezes, não atinge o desmame emocional necessário, permanecendo vinculado à imagem de potência geradora e, simultaneamente, temendo ser devorado ou subjugado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ainda persiste esse gênero de ligação com a figura materna, o adulto, mesmo com uma persona muito bem adaptada e de reconhecimento social, permanece, no lado inconsciente, como uma criança buscando a aprovação divina da mãe, que é projetada facilmente na figura da companheira amorosa, por exemplo.</p>



<h2 id="h-ocorre-uma-projecao-da-mae-primordial-gigantesca-da-infancia" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Ocorre uma projeção da mãe primordial gigantesca da infância.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Desde modo, ele não consegue olhar para a mulher real, que é um ser humano falho, vulnerável, com vontades próprias. Inconscientemente, é sentida uma força capaz de validar a existência dele ou de o destruir e o abandonar. Mas isso tem a capacidade de criar uma ambivalência. Por um lado, tem-se uma necessidade infantil de cuidado materno, de ser mimado, de não ser questionado. Por outro lado, há um terror absoluto de ser controlado, de ser engolido ou rejeitado por essa imagem feminina enorme, que o próprio homem projetou inconscientemente na mulher.</p>



<h2 id="h-quando-o-homem-ferido-olha-para-a-mulher-atraves-desta-lente-psiquica-distorcida-e-adoentada-e-dificil-processar-um-nao-como-no-exemplo-da-trend-de-uma-recusa-ficticia-do-pedido-de-casamento" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Quando o homem ferido olha para a mulher através desta lente psíquica distorcida e adoentada, é difícil processar um ‘não’, como no exemplo da <em>trend</em> de uma recusa fictícia do pedido de casamento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O ‘não’ toma outras proporções e conversa com este medo inconsciente. Não se vê o outro que está na frente como ser independente, mas surge o ímpeto de controlar aquilo que ele, inconscientemente, ainda percebe como uma força soberana sobre sua própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ponto, a violência se manifesta como um sintoma central, em que as questões levantadas ao longo do texto se articulam. Tudo converge para este núcleo paralisante da falha. Juntamente com isso, ocorre a ausência de conexão com o mundo interno para saber lidar com a dor da perda e, fundamentalmente, o terror diante do poder feminino, que detém a capacidade de rejeitá-lo. Quando esses conteúdos não encontram espaço para elaboração interna, eles transbordam de forma destrutiva, transformando o quadro psíquico em agressão física.</p>



<h2 id="h-a-violencia-contra-a-mulher-e-o-desfecho-de-uma-serie-de-conflitos-internos-nao-resolvidos" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A violência contra a mulher é o desfecho de uma série de conflitos internos não resolvidos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando esses sentimentos não são trabalhados, eles transbordam de forma destrutiva, transformando angústia em agressão física. Embora essa breve análise se disponha a olhar possíveis raízes psíquicas do problema, jamais justifica o ato, que permanece sendo criminoso. Para interromper esse sintoma coletivo, não basta apenas punir o comportamento. É necessário um trabalho interno, em que os homens enfrentem suas próprias dores em busca de uma base emocional sólida e de uma relação madura com o próprio mundo interno.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lorenaoliveira/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lorenaoliveira/">Lorena de Sousa Oliveira &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências bibliográficas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil. 5. ed. São Paulo: FBSP, 2025. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/items/7c9f57aa-e7d6-4d96-8f11-768fe85a2084. Acesso em: 15 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. O medo do feminino: e outros ensaios sobre a psicologia feminina. São Paulo: Paulus, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Vida Conjugal (Casamento) e o Autoconhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-vida-conjugal-casamento-e-o-autoconhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 10 Aug 2022 18:58:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Historicamente, <strong>o casamento é um arranjo cultural</strong>,&nbsp;visto como possibilidade de manutenção dos relacionamentos entre grupos sociais, associado ao cristianismo,&nbsp;que passou por diferentes adaptações no decorrer dos anos. Hoje ainda é movido por romantismo e algumas crenças nos induzem a pensar que&nbsp;sempre teremos alguém ao nosso lado. Em termos gerais, a visão conjugal do <strong>casamento</strong> é que ele envolve a união de dois seres por toda a vida, pelos atos de amor e pelos filhos que esse amor traz. Inicialmente, todos os melhores sonhos são projetados nele e&nbsp;os envolvidos têm como propósito uma vida em conjunto. Mas C. G. Jung nos alertou:&nbsp;“Como relacionamento psíquico o matrimônio é algo complicado, sendo constituído por uma série de dados subjetivos e objetivos que em parte são de natureza muito heterogênea” JUNG, O/C 17, par. 324). E complementou: “Não existe nenhum relacionamento psíquico entre dois seres humanos, se ambos se encontrarem em estado inconsciente” (JUNG, O/C 17, par. 325). Também não existem receitas prontas que resolvam questões relacionadas ao conteúdo psíquico que envolve a vida conjugal.&nbsp;Para tanto, o&nbsp;caminho mais assertivo é promover&nbsp;o autoconhecimento de cada cônjuge, que possibilita tornar conscientes os conteúdos inconscientes,&nbsp;favorecendo assim o encontro de indivíduos para viverem o enlace matrimonial.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo diferentes estudos, existem muitos rituais e vários simbolismos para celebrarmos a cerimônia do <strong>casamento</strong>, com troca de votos e alianças:&nbsp;<strong>para os amantes da natureza a melhor opção é a&nbsp;</strong><em>Cerimônia das Areias</em>.&nbsp;O&nbsp;<em>Ritual da Árvore</em>, simboliza o&nbsp;cultivo do amor, da prosperidade e da fertilidade. Já a&nbsp;<em>Cerimônia dos Balões</em>, envolve mensagens em balões que&nbsp;<strong>são soltos&nbsp;e sobem aos céus com as intenções para o casal.&nbsp;</strong>O rito da&nbsp;<em>Caixa de Vinho</em>&nbsp;é interessante, pois representa uma melhor&nbsp;qualidade do <strong>casamento</strong> com o passar do tempo.&nbsp;&nbsp;A&nbsp;<em>Cerimônia Judaica da Quebra de Taças</em>, envolve o&nbsp;equilíbrio entre os momentos felizes e tristes que serão enfrentados pelo casal. Na cultura japonesa, a&nbsp;<em>Cerimônia do Darumá-san</em>&nbsp;incentiva a&nbsp;disciplina, a coragem, a dedicação e a paciência. Na tradição oriental,&nbsp;<em>San-san-kudo (três-nove</em>),&nbsp;<strong>o número três significa boa sorte e o número nove simboliza a aspiração à máxima boa sorte</strong>. Também existe o&nbsp;<em>Ritual da Lavagem dos Pés</em>, enfatizando&nbsp;<strong>respeito, humildade, carinho, serviço e amor ao próximo.&nbsp;Por fim, o&nbsp;</strong><em>Rito das Velas</em>, que r<strong>epresenta a união de duas famílias e a criação de uma nova.&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo com as diferentes possibilidades de cerimônias, ainda predomina o tradicional <strong>casamento</strong> na igreja e ele começa com a famosa&nbsp;<em>Marcha Nupcial</em>&nbsp;(Felix Mendelssohn) ou mesmo a&nbsp;<em>Ave Maria</em>&nbsp;(Franz Schubert), desperta emoções no casal e nos convidados, refletindo um mundo de promessas e de felicidade. A cerimônia idealizada por muitos envolve grandes investimentos, principalmente de tempo e de dinheiro. O processo criativo toma conta da concretização do evento, com diferentes formas de expressões artísticas:&nbsp;<a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/o-registro-fotografico-do-casamento--t19">registro fotográfico</a><a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/o-video-do-casamento--t20">, vídeo</a>,&nbsp;<a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/a-musica-para-o-casamento--t21">músicas,&nbsp;</a><a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/a-decoracao-para-o-casamento--t22">decoração,&nbsp;</a><a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/os-convites-de-casamento--t23">convites,&nbsp;</a>transporte,&nbsp;<a href="https://www.casamentos.com.br/artigos/os-detalhes-do-casamento--t24"></a>costura do vestido de noiva, noivo, dama de honra, pajem, testemunhas/ padrinhos, preparo de alimentos para a recepção dos convidados, viagem da lua de mel e outros mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vindo ao encontro, podemos perceber que até hoje recebemos influências de muitas gerações e também dos escritos da Bíblia Sagrada, que trazem a ideia de que Deus criou a mulher para ser a companheira do homem: “Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele (Gênesis 2:18). É transmitido pela igreja que o propósito de Deus para o <strong>casamento</strong> é gerar filhos. Da mesma forma, que o <strong>casamento</strong> deve durar para sempre, até que a morte separe o casal. E quantas mortes em vida ocorrem na vida conjugal? Morte da confiança, do respeito, do companheirismo, contrapondo as promessas matrimoniais: &#8220;Prometo ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe por todos os dias da minha vida.&#8221; Não é algo fácil de se cumprir, principalmente no mundo imediatista e descartável em que vivemos! Martha Medeiros, com a crônica Promessas Matrimoniais, traz valiosas reflexões, que são diferentes das promessas tradicionais: “Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar? […] Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda? […] Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que <strong>casamento</strong> algum elimina?”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Legalmente, para se efetivar um <strong>casamento</strong>, não basta a cerimônia religiosa. Segundo determinação do código civil, o <strong>casamento</strong> é a união entre duas pessoas, que estabelecem comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres.&nbsp;É realizado em Cartório de Registro Civil, por um juiz de paz, na presença de testemunhas. Tanto no <strong>casamento</strong> religioso, como no civil, é necessário um representante para oficializar a união. Isso nos remete à Himeneu, a divindade que preside <strong>casamentos</strong>.&nbsp;Na mitologia, a deusa&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Hera">Hera</a>&nbsp;rege casamentos, porém Himeneu,&nbsp;filho de Apolo com Afrodite,&nbsp;é o&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Pante%C3%A3o_grego">deus grego</a>&nbsp;do&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Casamento">casamento</a>. Segundo a revista&nbsp;<em>A Mente é Maravilhosa</em>, o mito de Himeneu apresenta um ato de bravura, reconhecido por todos. Ele foi capturado por piratas junto com um grupo de mulheres, que não perceberam que ele era um homem. Foram colocados em cativeiro num navio e Himeneu acalma as mulheres apavoradas e elas confiam na sua habilidade. Ao anoitecer, ele percebeu que os piratas haviam bebido demais, então escapa e aniquila todos os sequestradores, liberta as mulheres e as leva para suas famílias. A partir disso, ele passou a presidir muitos dos casamentos como eterno agradecimento pelo seu ato de bravura e sugeriu-se que havia uma conexão entre esta divindade e o&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/H%C3%ADmen">hímen</a>, até pouco tempo muito valorizado no ato do casamento por diferentes culturas com padrões machistas, pregando a dominação do gênero masculino sobre o feminino.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitos filmes traduzem luzes e sombras sobre casamento. Entre tantos que apresentam essa temática, podemos citar:&nbsp;<strong><em>O Casamento dos Meus Sonhos</em></strong><strong>, que envolve</strong>&nbsp;um evento romântico inesquecível.&nbsp;<strong><em>Cinco Anos de Noivado</em></strong><strong>, apresenta noivado longo</strong>, com cerimônia diurna. A despedida de solteiro comparece em&nbsp;<strong><em>Noivas em Guerra</em></strong><strong>&nbsp;e&nbsp;<em>Casamento Grego</em>&nbsp;ocorre em</strong>&nbsp;cerimônia gigantesca.&nbsp;&nbsp;<strong><em>Mamma Mia</em></strong><strong>, por sua vez, inspira noivos</strong>&nbsp;praianos. E para descontrair e rir muito,<strong>&nbsp;<em>Missão Madrinha de Casamento</em>.&nbsp;</strong>A crença que o amor envolve duas metades que se unem e se completam é um dos padrões enraizados e fonte de muitas inquietações e sofrimentos. Neste sentido, Jung nos deixou reflexões: “Para tornar-se consciente de mim mesmo, devo poder distinguir-me dos outros. Apenas onde existe essa distinção, pode aparecer um relacionamento” (JUNG, O/C 17, par. 326). Da mesma forma, orientou-nos sobre a importância de trazer conteúdos inconscientes para a luz da consciência: “Quanto maior for a extensão da inconsciência, tanto menor se tratará de uma escolha livre no casamento; de modo subjetivo isto se faz notar pela coação do destino, claramente perceptível em toda a pessoa apaixonada” (JUNG, O/C 17, par. 327). No começo do relacionamento projetamos e vivemos muitos sonhos, mas mesmo assim adaptar-se ao mundo do outro é algo desafiador.<strong>&nbsp;Guiados pela liberdade da escolha ou pelo destino, sempre temos tempo de ressignificarmos velhos padrões.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda se preserva o romantismo nos relacionamentos e as músicas revelam esse aspecto, como&nbsp;<em>Velha Infância</em>, canção de Tribalistas, traduzindo uma grande paixão que envolve a fase inicial do casamento: “Seus olhos, meu clarão, me guiam dentro da escuridão, seus pés me abrem o caminho, eu sigo e nunca me sinto só”.&nbsp;Da mesma forma, Roberto Carlos expressa pela voz o simbolismo do amor: “Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer, como é grande o meu amor por você”. Grandes nomes eternizam a música&nbsp;<em>Eu Sei Que Vou Te Amar</em>, enaltecendo o amor e projetando nele uma vida inteira: “Eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar (&#8230;) Eu sei que vou sofrer, a eterna desventura de viver, à espera de viver ao lado teu, por toda a minha vida. E Roupa Nova, com&nbsp;<em>Linda Demais</em>, exalta as expectativas no outro: Vem fazer diferente, o que mais ninguém faz. Faz parte de mim, me inventa outra vez. Vem conquistar meu mundo, dividir o que é seu. Mil beijos de amor em muitos lençóis, só eu e você. O tempo passa, a paixão inicial também e a vida se encarrega de mostrar outros aspectos do relacionamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem sempre as adaptações ao casamento ocorrem como o esperado e os problemas comparecem. Jung já dizia: “O não-querer-ver e a projeção dos próprios erros estão no início da maioria das brigas e são a mais forte garantia de que a injustiça, a hostilidade e a perseguição não morrerão tão cedo. Ao nos mantermos inconscientes sobre nós mesmos, também não vemos nossos próprios conflitos” (JUNG, Sobre o amor, p.55). Simbolicamente complementou: “Percebemos o cisco no olho do outro e não vemos a viga de madeira em nosso próprio olho” (JUNG, O/C 18/2, par.1803s). Provérbios e ditados populares<strong>&nbsp;</strong>também apresentam essas questões sobre casamento, muitas vezes de forma divertida, ao mesmo tempo expressando projeções e frustrações:<strong>&nbsp;“</strong>O casamento é uma fortaleza sitiada; os que estão de fora querem entrar à viva força e os que estão dentro gostariam bastante de sair dela”;&nbsp;&#8220;Casamento de imposição é de curta duração&#8221;; &#8220;Casamento é loteria&#8221;; “O amor faz passar o tempo, e o tempo faz passar o amor”.&nbsp;“Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Será? É preocupante o número crescente de violência que ocorre na convivência conjugal, muitas vezes expressada por&nbsp;agressão física, abuso sexual, controle, humilhação, intimidação, coerção ou manipulação, envolvendo violência psicológica, patrimonial e moral, resultando até em mortes, vitimizando muito mais as mulheres, conforme nos mostram as estatísticas e afetando a vida psíquica dos filhos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung, depois de algum tempo, geralmente após anos de convívio, o relacionamento se transforma e as crises comparecem:&nbsp;“A paixão muda de aspecto e passa a ser dever, o querer transformar-se inexoravelmente em obrigação; as voltas da caminhada, que antes estavam cheias de surpresas e descobertas, agora nada mais são do que rotina. O vinho acabou de fermentar e começa a clarear. Desenvolvem-se tendências conservadoras, se tudo está em ordem. Em vez de se olhar para frente, muitas vezes, sem querer, se olha agora para o passado; principia-se a prestar contas sobre a maneira pela qual a vida se desenvolveu até o momento” (JUNG, O/C 17, par.331a). Outro aspecto importante que precisamos ressignificar é que, com o casamento não passamos a ser uma unidade, que pensa, sente e age da mesma forma. A relação se fortalece quando respeitamos as diferenças. As insatisfações comparecem quando vemos no outro todos os aspectos que não vemos em nós e não sabemos lidar com eles. O relacionamento conjugal requer que estejamos cada vez mais conscientes das nossas luzes e sombras, como orientou Jung: “Raras vezes, ou até mesmo nunca, um matrimônio se desenvolve tranquilo e sem crises, até atingir o relacionamento individual. Não é possível tornar-se consciente sem passar por sofrimentos” (JUNG, O/C 17, par. 331). E quando os cônjuges estão conscientes, analogicamente iluminam um ao outro, possibilitando transformações e integrações de conteúdos psíquicos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos únicos, integrais e ao mesmo tempo sedentos de amor e de reconhecimento. E o casamento também envolve o amor e reconhecimento! Tamanha é a sua importância que o simbolismo do amor comparece em diferentes expressões escritas, como a de Fernando Pessoa, no poema<strong>&nbsp;</strong><em>O Amor</em>: “O amor, quando se revela, não se sabe revelar. Sabe bem olhar p’ra ela, mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente, não sabe o que há de dizer”. Igualmente, O&nbsp;<em>Poeminha Amoroso</em>, de Cora Coralina, traduz o amor: “Este é um poema de amor, tão meigo, tão terno, tão teu&#8230; É uma oferenda aos teus momentos de luta e de brisa e de céu&#8230;E eu, quero te servir a poesia, numa concha azul do mar ou numa cesta de flores do campo”. Do mesmo modo,&nbsp;<em>As Sem-Razões do Amor</em>, de Carlos Drummond de Andrade, expressam um estado de graça: “Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga”. E ainda, em&nbsp;<em>Amar é Mudar a Alma de Casa,&nbsp;</em>Mário Quintana enfatiza a confiança, tão necessária para viver o amor: “Amar, é aquilo que embasa, é ter comprometimento. Amar é voar sem asa, e porque amar é acolhimento, amar é mudar a alma de casa”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O&nbsp;casamento envolve<strong>&nbsp;</strong>um exercício contínuo de confiança. De acordo com&nbsp;Waldemar Magaldi Filho, no seu artigo&nbsp;<em>Casamento e Psicologia Junguiana</em>: “[&#8230;] Confiança depende de um constante fiar com o outro, tecendo juntos a trama da vida, que é feita pelos fios da alegria, da tristeza, do prazer, da dor, do medo e da fé, fazendo laços e nós harmoniosos e desfazendo os patológicos”. Projetamos no nosso cônjuge alguns dos nossos aspectos sombrios, que muitas vezes são as causas das desavenças. Ao mesmo tempo, em função das influências externas, usamos máscaras &#8211; denominadas personas &#8211; para nos apresentarmos de forma mais favorável, porém muitas vezes envolvidas por medo das dificuldades e medo de nos entregarmos ao amor. O medo da intimidade e a perda da privacidade são fatores que assustam os indivíduos, dificultando a verdadeira entrega ao relacionamento. De forma similar, a falta de uma comunicação mais assertiva é causa de muitos embates. Somos tomados por inúmeras atividades, vivemos apressados e não temos mais tempo para estabelecermos um diálogo saudável.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar dos padrões tradicionais, historicamente os relacionamentos conjugais mudaram de roupagem e novas formas de vivermos o amor comparecem. Nas esferas políticas o casamento homoafetivo já é amplamente discutido e a pluralidade deve ser contemplada e respeitada. Independente das escolhas, somos livres para optarmos pela vida conjugal, que envolve alegrias e desafios, principalmente no aprendizado e no&nbsp;exercício da paciência, do respeito, da compreensão e do amor. E quando a convivência se tornar inviável e todas as possibilidades de viver em harmonia conjugal forem esgotadas, a melhor saída é a separação. Não é saudável arrastar pela vida inteira uma escolha que não foi bem sucedida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para amar precisamos nos desarmar da possessividade, da desconfiança, dos preconceitos, do egoísmo e outros aspectos sombrios que dificultam os relacionamentos. Para tanto, o autoconhecimento é fundamental, pois possibilita tornarmos conscientes os conteúdos inconscientes que nos atravessam. A partir do momento que somos mais conscientes das nossas luzes e sombras e ressignificarmos os aspectos doentios, convivermos com o outro se torna mais fácil.&nbsp;&nbsp;Precisamos entender que nos unirmos ao outro não significa abrirmos mão do que somos. Como disse Jung: “Mesmo o melhor casamento não é capaz de apagar as diferenças individuais e tornar os estados dos esposos absolutamente idênticos” (JUNG, O/C 17, par. 331b).&nbsp;Assim, estaremos mais preparados para vivermos a união conjugal, que enlaça a integração de opostos, favorecendo&nbsp;o encontro de indivíduos conscientes que se abraçam e se entrelaçam na vivência do amor, ingrediente indispensável na vida conjugal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claci Maria Strieder – Membro Analista em Formação</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fontes de Referência:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ANDRADE, C. D<em>. As sem-razões do amor.&nbsp;</em>Poema publicado na obra&nbsp;<em>Corpo,&nbsp;</em>1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BÍBLIA Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRAGA, Roberto Carlos<em>. Como é grande o meu amor por você</em>. Álbum&nbsp;Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. CBS,1967.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CORALINA, C. O Poeminha amoroso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<em>Civilização em transição</em>. Petrópolis. Vozes: 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>. Petrópolis. Vozes: 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________&nbsp;<em>Sobre o amor</em>&nbsp;[tradução de Inês A. Lohbauer]. Aparecida, SP: Ideias &amp; Letras, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar.: Artigo Casamento e Psicologia Junguiana</p>



<p class="wp-block-paragraph">MEDEIROS,&nbsp;<a href="https://www.pensador.com/autor/martha_medeiros/">Martha</a>. Crônica promessas matrimoniais, 2003.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<a href="https://www.pensador.com/frase/MjA4Nzg/">https://www.pensador.com/frase/MjA4Nzg/</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MORAES, V. de &amp; JOBIM, A. C. Eu sei que vou te amar, 1958.</p>



<p class="wp-block-paragraph">QUINTANA, M. Amar é mudar a alma de casa.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, F. Presságio. 1928.</p>



<p class="wp-block-paragraph">REVISTA &#8211; A mente é maravilhosa. Mito de Himeneu.&nbsp;<a href="https://amenteemaravilhosa.com.br/o-mito-de-himeneu/">https://amenteemaravilhosa.com.br/o-mito-de-himeneu/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">ROUPA NOVA.&nbsp;<em>Linda demais</em>. RCA, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TRIBALISTAS. Velha Infância. Rio de Janeiro.&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Phonomotor_Records">Phonomotor Records</a>,&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">EMI, 2002.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Medo de amar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/medo-de-amar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 18:53:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>"Quem guarda com fome o diabo vem e come". A partir desta frase, Dr. Waldemar Magaldi Filho, analista didata do IJEP, reflete a respeito do medo de amar tão presente na contemporaneidade, onde os indivíduos até se despem para terem suas relações sexuais, mas não conseguem intimidade de alma! Por que será que isso está acontecendo? E como poderemos reverter essa triste realidade, onde o poder destrói o amor, conforme nos ensinou Carl Gustav Jung.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>&#8220;Quem guarda com fome o diabo vem e come&#8221;</strong>, essa frase nos faz refletir a respeito da dificuldade que muitas pessoas têm em serem generosas, doadoras, solidárias e cuidadoras, ficando interditadas, tanto de desfrutarem dos seus talentos, conquistas e riquezas com si mesmas, quanto de compartilharem suas capacidades e disponibilidades afetivas, materiais, intelectuais e até espirituais com os outros! É rotineiro vermos pessoas, mesmo com desejo e capacidade de serem mais generosas e carinhosas com o seu entorno relacional, por vários motivos, não conseguirem ser doadoras, ficando fixadas, unilateralmente, na persona de um indivíduo sério, insensível, lógico, racional, frio, hermético, infantil ou distante, apesar de estar, em seu íntimo, ressentido com sua vida de isolamento e solidão. Incapaz de compreender que a gentileza desperta, reciprocamente, a contrapartida por parte daqueles que não sofrem do mesmo mal e que, na realidade, só iremos colher os frutos das sementes que plantamos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que será que isso acontece? Será que o atual condicionamento ideológico deste capitalismo patrimonialista e neoliberal agravou essa situação ao cultuar o medo, estimular a competição, o individualismo egoísta, o consumo e a descartabilidade? Minha hipótese, para justificar essa problematização, diante deste comportamento nefasto, é que sim! Porque, esse padrão de vida que prioriza o acúmulo quantitativo é antagônico com a qualidade das relações, intrapsíquicas e extra psíquicas, fazendo-as ficarem cada vez mais vazias, liquidas, efêmeras e superficiais. É triste constatarmos que as pessoas, cada vez mais, estão com <strong>medo de amar</strong>. Obvio que amar e fazer a caridade, que são as atitudes mais nobres e evolutivas da nossa espécie, não é tarefa fácil e, por mais paradoxal que pareça, geram muita dor. <em>Eros</em> e <em>Phatos</em> sempre andam juntos para que a alma possa evoluir ao sofrer a experiencia do amor. Essa afirmação me faz lembrar do saudoso Chico Xavier que dizia: <em>“Se você tem a coragem de fazer a caridade, deve ter a força para suportar a ingratidão”</em>, ressaltando que coragem significa: ação do coração.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta direção, fica mais fácil compreendermos por que muitos indivíduos, principalmente aqueles que o Ego está identificado com o gênero masculino, ficam mais suscetíveis a esse padrão, por conta do patriarcalismo que está na base fundante da nossa sociedade capitalista, materialista, territorialista e patrimonialista. Nossa economia faz com que as pessoas economizem até a generosidade, tudo vira negócio, que é a negação do ócio, porque tempo é dinheiro e, por isso mesmo, necessitamos estar ocupados e negociando, <em>busy</em> e <em>busines</em> na língua inglesa. Precisamos sempre estar ocupados, sem tempo para o ócio que produz criatividade, intimidade e interioridade, porque essas experiencias assustam e produzem medo. Atualmente escuto inúmeros relatos de pessoas que não conseguem produzir, por estarem aprisionadas numa circularidade ordinária e cotidiana, queixando-se por estarem enredadas e abduzidas nas suas telas virtuais, numa espécie de autismo digital, obnubiladas com jogos eletrônicos, pornografia, séries televisivas, estalqueamento compulsivo nas redes sociais, entre outras distrações para fugirem de si mesmas e, consequentemente, dos outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro sintoma social, reflexo desta atual cultura capitalista, é esse comportamento de humanização dos animais, sombriamente correndo o risco de promover, ainda mais, a desumanização dos humanos. Parece que isso acontece com pessoas que, apesar de estarem economizando sua generosidade com o outro, como na sua essência existe o chamado para o amor, acabam deslocando para seus <em>Pets</em> todo carinho, atenção, cuidado, ludicidade, entrega, doação e intimidade que não conseguem dar a outro ser humano. Isso, de alguma forma, alivia, transitoriamente, a pulsão amorosa não vivenciada, mas, no futuro, acaba desembocando em sintomas depressivos e compulsivos. Lógico que aqui não estou depreciando o cuidado e a atenção que precisamos ter com os animais, aliás, com todo o ecossistema, mas parece que, de algum modo, sentimos inveja da liberdade que os animais domésticos têm em serem autênticos e espontâneos ao expressarem livremente seus sentimentos, recebendo e retribuindo incondicionalmente o amor. Pena que a maioria das “mães”, “pais” e “irmãos” de Pets não aprendem com eles e passam a fazer o mesmo com os humanos que estão no seu meio de convívio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Também temos a questão cultural do sentimento de vergonha ao expressarmos nossas emoções, principalmente as mais ternas, por serem equivocada e maldosamente, associadas a fragilidade, inferioridade ou fraqueza. Esse é outro legado das épocas primitivas, do patriarcado das religiões abraâmicas do antigo testamento, que estão retornando nesse infeliz movimento retrógrado que estamos presenciando. A vinda de Cristo anunciou a revolução da nova era aquariana, mas parece que o patriarcado, ainda dominante neste sistema capitalista, defensivamente, criou a institucionalização monetarista das tradições religiosas, destruiu os conceitos revolucionários do evangelho cristão, a boa nova, por vaidade, poder e enriquecimento. Atualmente, a maioria dos templos viraram teatros à serviço do mercado, retroagindo ao velho testamento ou, com maior gravidade, ao neossionismo. Com isso, o patriarcado patrimonialista e retrógrado, que gera mais desigualdade, exclusão e destruição humana e ambiental, está cada vez mais evidente!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, comentando a respeito deste tema, uma aluna e analisanda me lembrou da questão da dinâmica do afeto e da fuga presentes na tragédia escrita por Ovídio (43a.C.-17d.C), onde constatamos as consequências nefastas pelo fato do Cupido ter ferido, simultaneamente, o deus Apolo com a flecha de ouro do Eros e a ninfa Dafne com a flecha de chumbo do Anteros, fazendo-a fugir desesperadamente do amor de Apolo, até transformar-se num loureiro, uma árvore, deixando-a apenas na sua condição vegetativa, assim como muitos humanos enredados em suas raízes de medo, vergonha e condicionamentos. Porque o oposto do amor não é o ódio, mas o medo e, infelizmente, somos condicionados na ilusão de que para conseguirmos aplacar o medo precisamos do poder. Porém, quanto mais poder, menos amor, menos autoridade e mais infelicidade e autoritarismo, arbitrário e invasivo. Conforme essa citação de C. G. Jung: <em>&#8220;Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.&#8221;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra queixa que acolho nos meus atendimentos como analista junguiano&nbsp;é a sexualidade casual, efêmera e simplesmente mecânica, quando muito, performática. Muitos jovens relatam experiencias sexuais onde conseguem tirar a roupa e terem intimidade física, mas não vão além disso. Parece que a <em>extimidade</em>, onde a vida privada do corpo e da matéria idealizados, é possível de ser exposta nas mídias sociais, mas a intimidade da alma fica impossível de ser compartilhada na vida privada, numa relação a dois. Claro que isso reflete o atual simulacro da existência. De fato, deve ser muito difícil o diálogo quando não sabemos, de fato, o que somos. Nesta situação não temos nada a entregar e, consequentemente, nada a receber, porque se não nos conhecemos e amamos, jamais poderemos conhecer e a amar o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A teoria da dádiva, representada pela trilogia: dar, receber e retribuir, que aprofundei no primeiro capítulo do livro Dinheiro, Saúde e Sagrado, de minha autoria publicado em 2004, nos permite refletir que sem troca a vida fica árida. De fato, é triste vermos pessoas com tanto potencial para serem doadoras não partilharem suas riquezas. Infelizmente, até no meio acadêmico vemos isso: o conhecimento é meu e não vou dá-lo de <strong>graça</strong>, eu sei quanto sofri, investi e lutei para conquistá-lo, agora não partilho com ninguém. Essas pessoas sempre hasteiam a bandeira da meritocracia, esquecendo-se de que não pode existir igualdade sem que antes aconteça a equidade! E é obvio que essa pessoa sabe, no seu íntimo, que ela é uma privilegiada em relação a maioria carente e excluída. No capítulo do livro citado concluo que: “a graça que não é de graça não tem graça”. E é por isso que, apesar de todo acúmulo, que possibilita sensação de riqueza e segurança para afugentar o medo, a vida dessas pessoas é sem graça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jesus, ao dizer: &#8220;quem nunca errou que atire a primeira pedra&#8221;, e pelo fato de não ter atirado pedra alguma, assume, naquele momento, sua dimensão humana, reconhecendo nossa condição errante! Porém, o mais importante da sua atitude foi se importar com quem estava numa situação de risco social, discriminação e exclusão, porque o “Reino dos Céus” está disponível para todos os humanos, e jamais para a minoria rica, poderosa, sectária e falso puritana, que não investe em ações de equidade, para sonharmos um dia com a liberdade, igualdade e fraternidade! Cristo anunciou a nova era, mas o dinamismo patriarcal, com medo da nova dinâmica evolutiva, apego ao materialismo e capacidade de transformar tudo em negócio economicamente rentável, destruiu os conceitos revolucionários do evangelho, a boa nova, que veio anunciar a revolução aquariana. Infelizmente, esse retrocesso defensivo ao patriarcado cria obstáculos para a evolução humana, a <strong>alteridade</strong>, o dinamismo do próximo estágio evolutivo. Confundem obscurantismo com conservadorismo usando, abusivamente, de justificativas advindas de “poderes superiores”, como o do Estado, ditatorialmente, e o da Religião, de forma fanática, ambos atrelados à teologia da prosperidade, que prostituiu tudo e todos para servirem o Mercado, que está falindo, devido seu atual modelo econômico insustentável, por estar destruindo a humanidade, visando apenas poder, lucro e acúmulo, gerando mais destruição, exclusão e desigualdades!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa salvação depende da educação reflexiva, crítica, humanista, amorosa e espiritual! Assim como a água não é molhada, mas pode molhar as coisas que não são ou estão impermeáveis ou hidrófugas, o símbolo não é estruturante, mas pode produzir esse efeito para quem não esteja na dimensão oposta ou defensiva a ele, que é a diabólica. Ou seja, quem não esteja polarizado e aprisionado em sua unilateralidade, distante da potencialidade integrativa, criativa e evolutiva da alma, estará aberto ao símbolo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para diminuirmos a impermeabilidade patriarcal deste momento, precisamos de muita amorosidade e diálogo reflexivo, apesar do medo e das resistências, que a ilusão do poder e do distanciamento amoroso produzem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Qualquer diálogo que se aventure nesses domínios protegidos pelo medo e pela resistência, visa o essencial, e, impelindo um dos parceiros à integração de sua totalidade, obriga também o outro a uma tomada de posição mais total, ou seja, impele-o igualmente a uma totalidade, sem a qual ele não estaria em condição de conduzir o diálogo até aqueles desvãos da psique povoados de mil temores. (C. G. Jung &#8211; Natureza da Psique, par. 213)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ser humano é o resultado do contínuo exercício evolutivo do contraditório e adversidades. Lidar com os vários atores intrapsíquicos já é um esforço enorme, somado aos extras psíquicos, a diversidade torna-se espetacular e assustadora. Por isso que a maioria, ignorante de si mesma, sucumbe para a unilateralidade, vivendo de forma miserável, territorialista e egoísta, mesmo dando esmolas, continua discriminando, apoiando os sectarismos e as exclusões! Somente com estímulo da capacidade crítica, reflexiva e inclusiva, visando a alteridade, que reverteremos essa situação deplorável em que nos encontramos, onde o patriarcado retrógrado está tentando imperar novamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Intimamente sabemos que a natureza não pode ser controlada por muito tempo. Ao nos tornarmos mais realistas e flexíveis, abrindo mão da ilusão do controle, diminuirão a frequência e a exuberância das crises, dos descontroles, das tragédias e desastres. Para isso, é preciso relativizar as normas, por meio do exercício da crítica reflexiva e inclusiva, objetivando, democraticamente: equidade, liberdade, igualdade, fraternidade, paz, amor e ética. Mas, quando surgem as crises e seus sintomas, é necessário fazermos uma boa anamnese, equivalente a recordar – relembrar ou rememorar as emoções, e seus respectivos afetos – que estão associadas a cada sintoma, incluindo a análise simbólica do órgão, do sistema, da função e do tecido familiar, social, laboral ou cultural que está doente, com seus sintomas e suas consequências, tanto no que o indivíduo ou o coletivo deixou de fazer, quanto no que ele passou a fazer devido seu surgimento, para encontrarmos os segredos do amor ferido que está no amago de cada sintoma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do que adiantou termos caído do paraíso, ao transgredirmos os limites impostos, para adquirirmos a consciência do bem e do mal e evoluirmos espiritualmente, se estamos cometendo o maior dos pecados que é a negação da consciência, crítica e reflexiva, para que a prática da alteridade e do amor universal, inclusivo e fraternal, devido a irracionalidade, ao egoísmo e ao medo, ainda serem nossa realidade presente? Parece termos esquecido que a consciência acontece graças a relação com o outro! É por meio do diálogo que conseguimos nos conhecer, principalmente quando esse diálogo apresenta o contraditório, caso contrário assumiremos a posição de déspota e ditador, sem refletir e compreender o ponto de vista do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;É o sacrifício do homem puramente natural, do ser inconsciente e natural, cuja tragédia começou com o ato de comer a maçã no paraíso. A queda do homem segundo a Bíblia nos apresenta o despontar da consciência como uma maldição, e é assim que vemos qualquer problema que nos obriga a uma consciência maior e nos afasta mais ainda do paraíso de nossa infantilidade inconsciente. Cada um de nós, espontaneamente, evita encarar seus problemas, enquanto possível; não se deve mencioná-los, ou melhor ainda, nega-se sua existência. Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabus. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem, entretanto, nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento. Assim, a negação artificial dos problemas não gera a convicção; pelo contrário, para obtermos certeza e claridade, precisamos de uma consciência mais ampla e superior.” (C. G. Jung , A Natureza da Psique, par.751)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O segredo, quando fica hermeticamente guardado, sem ser secretado na forma de palavras, mesmo que para um único confidente, será expresso na forma de sintomas. Porque os sintomas de adoecimento, sejam eles quais forem, são as secreções simbólicas das feridas do amor próprio. Infelizmente, os médicos contemporâneos, sufocados pela pressão do mercado, raramente conseguem perceber o sofrimento psíquico do outro, vendo apenas a literalidade do sintoma. Mas, o que me deixa mais triste, é quando isso acontece no convívio familiar, porque cada um está olhando para seu próprio umbigo e para suas dores, morrendo de medo de ver o sofrimento do outro. Isso é uma pena, porque quando ajudamos o outro, na realidade, estamos nos ajudando</p>



<p class="wp-block-paragraph">No fundo, o medo e a resistência que todo ser humano experimenta em relação a um mergulho demasiado profundo em si mesmo é o pavor da descida ao Hades. Se fosse resistência apenas, o caso não seria tão grave. Na realidade, porém emana desse substrato anímico, desse espaço obscuro e desconhecido uma atração fascinante, a qual ameaça tomar-se tanto mais avassaladora quanto mais nele se penetrar. (C. G. Jung – Psicologia e Alquimia, par. 439)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com relação ao medo e a dificuldade que mutas pessoas tem para se entregar ao amor, temos a seguir essa maravilhosa contribuição de C. G. Jung, onde ele comenta que o amor é o rseultado de uma conquista evolutiva da humanidade, e que é um erro fugir dele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;O amor tem mais do que um ponto em comum com a convicção religiosa: exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento. Pelo fato de isto ser muito difícil, poucos mortais podem orgulhar-se de tê-lo conseguido. Mas, por ser o amor devotado e fiel o mais belo, nunca se deveria procurar o que pode torná-lo fácil. Alguém que se apavora e recua diante da dificuldade do amor é péssimo cavaleiro de sua amada. O amor é como Deus: ambos só se revelam aos seus mais bravos cavaleiros.&nbsp;Da mesma forma critico o casamento experimental. O simples fato de assumir um casamento experimental significa que existe de antemão uma reserva: a pessoa quer certificar-se, não quer queimar a mão, não quer arriscar nada. Mas com isto se impede a realização de uma verdadeira experiência. Não é possível sentir os terrores do gelo polar na simples leitura de um livro, nem se escala o Himalaia assistindo a um filme.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério. Considero um desacerto falarmos nos dias de hoje da problemática sexual sem vinculá-la ao amor. As duas questões nunca deveriam ser separadas, pois se existe algo como problemática sexual esta só pode ser resolvida pelo amor. Qualquer outra solução seria um substituto prejudicial. A sexualidade simplesmente experimentada como sexualidade é animalesca. Mas como expressão do amor é santificada. Por isso não perguntamos o que alguém faz, mas como o faz. Se o faz por amor e no espírito do amor, então serve a um Deus; e o que quer que faça não cabe a nós julgá-lo pois está enobrecido. ( C. G. Jung CW X/3 parágrafos 232/233).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Amor é o fruto da atitude de amar! Para poder&nbsp;desfrutá-lo é necessário abrir mão do controle, libertando, respeitando e confiando em si-mesmo, para poder fazer o mesmo com o outro, sem racionalização, condicionamentos ou idealizações. Porque só podemos dar o que temos e só iremos receber aquilo que damos, se não nos amarmos, aceitando o que somos em contínuo relacionamento com o si-mesmo, não poderemos amar e aceitar o que o outro é, estimulando-o também a ser livre, se amar e&nbsp;se relacionar continuamente com si-mesmo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encerro este texto com um conto, de autoria desconhecida, que relata quando um jovem foi visitar um sábio conselheiro expondo suas dúvidas a respeito de seus sentimentos por sua jovem e bela esposa. O sábio escutou-o, olhou-o nos olhos e disse-lhe apenas uma coisa: Ame-a, e logo se calou. Disse o rapaz: mas, ainda tenho dúvidas, eu perdi o desejo e a atração. Disse-lhe novamente o sábio: ame-a. Diante do desconcerto do jovem, depois de um breve silêncio, o sábio diz: meu filho, amar é uma decisão, não um sentimento ou um desejo. <strong>Amar é dedicação, é atitude.&nbsp; Amar é um verbo e o fruto dessa ação é o próprio amor.</strong> O amor é um exercício de jardinagem. Arranque o que faz mal, prepare o terreno, semeie, seja paciente, regue e cuide. Esteja preparado porque haverá pragas, secas ou excessos de chuvas, mas nem por isso abandone o seu jardim. Ame, ou seja, aceite, valorize, respeite, dê afeto, ternura, admire e compreenda. Simplesmente: ame porque:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>A inteligência sem amor, te faz perverso.</li>



<li>A justiça sem amor, te faz implacável.</li>



<li>A diplomacia sem amor, te faz hipócrita.</li>



<li>O êxito sem amor, te faz arrogante.</li>



<li>A riqueza sem amor, te faz avarento.</li>



<li>A docilidade sem amor, te faz servil.</li>



<li>A pobreza sem amor, te faz orgulhoso.</li>



<li>A beleza sem amor, te faz ridículo.</li>



<li>A autoridade sem amor, te faz tirano.</li>



<li>O trabalho sem amor, te faz escravo.</li>



<li>A simplicidade sem amor, te deprecia.</li>



<li>A lei sem amor, te escraviza.</li>



<li>A política sem amor, te deixa egoísta.</li>



<li>A vida sem AMOR&#8230; não tem sentido.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph">“Os jovens amantes procuram a perfeição, velhos amantes aprendem a arte de unir retalhos e descobrem a beleza na variedade das peças&#8230;”. Essa frase do filme Colcha de Retalhos, de 1995, nos dá a medida do que é uma relação amorosa de fato, onde os amantes aprofundam em suas relações, sem medo de se afogarem. Por saberem que o amor liberta, e só quem é livre é que terá acesso à felicidade de estabelecer, consciente e reflexivamente, suas relações de dependência e servidão!</p>



<p class="wp-block-paragraph">07 de setembro de 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paz e Bem, graças ao reconhecimento e aceitação consciente da Guerra e do Mal que habitam em nós!</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDEMAR MAGALDI FILHO. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



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<iframe title="União ou Fusão? Como é seu Casamento? Waldemar Magaldi" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/m516B6iyxN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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			</item>
		<item>
		<title>Quando o amor acaba</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-o-amor-acaba/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 17:43:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[eros]]></category>
		<category><![CDATA[namoro]]></category>
		<category><![CDATA[paixão]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No começo dos relacionamentos amorosos há o encantamento.&#160; Descobrimos as afinidades, sentimos o desejo, a química do corpo e da alma, temos aquela vontade crescente de estar cada vez mais perto. A pupila dos olhos dilata para reter a imagem da presença de quem amamos. O romance inicia e o fluxo da vida se faz [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">No começo dos <strong>relacionamentos amorosos</strong> há o encantamento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Descobrimos as afinidades, sentimos o <strong>desejo</strong>, a química do corpo e da alma, temos aquela vontade crescente de estar cada vez mais perto. A pupila dos olhos dilata para reter a imagem da presença de quem amamos. O romance inicia e o fluxo da vida se faz presente, com ele a intimidade, o casamento, os filhos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o <strong>amor</strong> se faz vigente, fantasiamos ter o outro para sempre, traçamos planos de viver e de envelhecer ao lado de quem amamos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas com a dinâmica da vida há um estabelecimento da rotina e com ela surgem os mais diversos problemas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os descuidos diários fazem com que o <strong>amor</strong> se desgaste, acarretando num possível afrouxamento das expectativas e consequente perda de admiração pelo parceiro. Com isso, não se esperam mais grandes feitos do outro, o futuro vira um acumulado de dias bolorentos e o desejo sexual escorre pelo ralo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Aquele defeito que achávamos graça torna-se irritante. Com o acumulado de silêncios, discussões, desconexões e intolerâncias geram inúmeros conflitos e, quando nos damos conta, o <strong>amor</strong> acaba. Um sentimento que julgávamos indestrutível, se foi.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Às vezes nós deixamos de amar, às vezes o <strong>amor</strong> do outro é que nos deixa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O término do <strong>amor</strong> nem sempre tem a ver com separação de corpos e sim com o afastamento das almas. Perde-se a intimidade, o companheirismo, a paciência, o tesão, as afinidades. Paira sobre o casal um silêncio gelado, onde existe mais interesse nas entranhas do celular e nas teias das redes sociais do que na vida do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para alguns casais o <strong>amor romântico</strong> se transmuta em amizade, onde uma espécie de irmandade ou até coleguismo prevalece na relação. Com a relação mais fraterna é comum que haja queda no desejo sexual pelo outro.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo quando o amor esvai, alguns casais optam por ficarem juntos e os motivos podem ser diversos: co-dependência emocional, medo da solidão, dogmas religiosos, filhos, dinheiro, status social, etc. Seja por consenso, anestesiamento ou medo, optam por compartilhar a solidão a dois.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O final de uma relação é dolorido, e os sentimentos são diferentes e penosos para quem abandona ou é abandonado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O término é difícil&#8230;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sentimos que o desenvolvimento muitas vezes contraditório da vida, ora permeado por amizade, parceria, cumplicidade e tesão, ora por brigas, ciúmes, falta de troca e intimidade, esvaece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como as coisas, os amigos que antes eram do casal entram no inventário existencial. E lidar com a dor dos filhos deixa a dinâmica ainda mais dura e difícil.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas separações são mais simples, outras bastante dramáticas e complexas. Cada um com sua história sabe a dor e desespero quando o amor finda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É natural que o término traga sensação de desorientação, pois a rotina foi dramaticamente alterada. Por vezes há a mudança de casa, de horários, não sabemos ao certo como lidar com o impacto da separação na vida das crianças, o orçamento aperta, a vida desorganiza. Uma espécie de vertigem emocional nos abarca&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lidar com a dor é difícil. O processo de separação nos faz experimentar uma espécie de morte da vida conhecida, da perda de parte da nossa identidade e do modo que nos apresentamos socialmente, um sentimento de esfacelamento familiar, e às vezes uma sensação de fracasso. As perdas não são poucas e o sofrimento é intenso.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso é preciso ter paciência. A dor da morte do amor gera em nós um processo de luto.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de penoso, viver o luto é importante pois permite uma reorganização da nova fase de vida. No luto, entramos em contato com sentimentos desconfortáveis, angústias, inquietações, numa incômoda retórica do que não deu certo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como somos plurais, cada pessoa tem uma forma e intensidade para atravessar este campo minado. Jung diz que “não podemos afirmar se alguma coisa é errada ou certa. A vida humana e o destino humano são tão paradoxais que mal podemos estabelecer uma regra que correspondam a eles”. (Jung, 2005, p. 53). Contraditoriamente, passar por essa fase complicada do luto nos ajuda na reorganização psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, é preciso ter paciência durante o processo. Nesta fase, é comum nos fechar para balanço e fazer uma espécie de inventário existencial. Neste momento, estamos tomados pelos complexos e ficamos muito sensibilizados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante o processo do luto do amor, percebemos que por vezes nos desconectamos de nós mesmos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Descobrimos uma espécie de autoabandono e vemos o quanto deixamos de nos cuidar, quanto não vivemos o que gostaríamos em prol de uma doação desmedia ao outro. Deixamos de fazer o que gostamos, descuidamos da nossa alimentação, da saúde, dos prazeres, e percebemos o quão desconexos estamos de nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a dor excessiva ameniza, num movimento nem sempre consciente tendemos a buscar mudanças. Tentamos resgatar a autoestima ao melhorar o cuidado pessoal, mudar o cabelo, as roupas, o corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O importante nesta fase é redescobrir-se e fazer com que este processo tenha sentido e aderência de quem somos, e não uma tentativa inócua de “voltar ao mercado do amor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta nova fase surge o desejo (às vezes inconsciente) de uma nova persona.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém melhorar a autoestima não é apenas cuidar da aparência e do corpo, mas buscar uma reconexão de si. É descobrir, entender e respeitar seus limites; priorizar o sentimento de bem-estar; criar bons hábitos; realizar sonhos; adquirir leveza; olhar-se sem crítica destrutiva.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como persona e sombra são pares de opostos na psique, também se faz importante o confronto com a sombra, pois nela constituem problemas de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na tomada de consciência da sombra, reconhecemos os aspectos obscuros da nossa personalidade, tais como são na realidade (Jung, O.C. 9/2, 2013, p.19 §14). E isso é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento, pois conseguimos criar consciência daquilo que possivelmente deu errado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entrar em contato com a sombra é uma forma de acessar e entender nossos complexos, traumas, baixa autoestima, autossabotagem, medos, ansiedades, inseguranças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caminhar pelo vale pantanoso da sombra não é tarefa fácil, mas pode ser libertador. Jogar luz àquilo que nos aflige traz consciência para tomadas de decisões um pouco mais cuidadosas e responsáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na fase de reconstrução de si, repensar a forma de viver é salutar. Nos ajuda a recuperar o sentido, a entender nossos valores, a fazer as pazes com quem somos, a preencher alguns vazios existenciais com um sopro de acalanto da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Relembrar o que passamos na jornada amorosa também nos auxilia a perceber os ensinamentos vividos, pois toda troca traz uma importante experiência.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais doloroso que seja um final de relação, houve momentos importantes que marcaram a vida. Sejam memórias boas ou não, refletir sobre o processo nos ajuda a assimilar seus aprendizados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada um tem um ritmo, um tempo de recolhimento. Cada pessoa é um universo e, como tal, tem uma pulsação diferente de retomada da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida floresce no momento certo e com ela uma nova versão de nós desabrocha. Nem sempre melhor ou pior, mas diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao estarmos mais conectados aos nossos processos internos, nos sentiremos menos ameaçados e fragilizados na presença do outro, e baixamos a guarda para estabelecer relações mais íntimas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As reflexões e aprofundamentos nos processos de ampliação da consciência nos ajudam a perceber que não temos que ser perfeitos, mas pessoas completas com nossa luz e escuridão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viver um dia de cada vez, apreciar os bons momentos e entender que as dificuldades são as pedras que sedimentam os caminhos da nossa jornada nos ajudam a aceitar aquilo que não podemos mudar, a ter coragem para mudar o que for preciso e sabedoria para discernir entre as duas coisas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniela Aimar Euzebio – Membro Analista em formação do IJEP (SP)</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone Magaldi – Membro didata do IJEP</p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas de C.G.Jung, v. 9/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Sobre o amor. São Paulo: Ideias &amp; Letras, 2005.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Breve histórico da terapia de casal</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/breve-historico-da-terapia-de-casal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria da Glória G. de Miranda]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 May 2022 11:54:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[terapia de casal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As intervenções psicológicas com casais, no início, variavam de acordo com o momento histórico e com as diferentes abordagens teóricas dos terapeutas que se propunham à essa prática. Este artigo pretende abordar como essa prática foi sendo construída.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">É possível inferir, sendo um tanto generalista, que a terapia de casal tem início quando indivíduos, por suposta decisão, passaram a conviver como um par amoroso. Livros sagrados de culturas e credos distintos, canções antigas e textos clássicos apresentam conselhos aos casais para que seus casamentos sejam promissores, felizes, harmônicos e duradouros. As mulheres sempre foram as principais destinatárias desses conselhos, uma vez que, no patriarcado, a elas era e ainda é atribuída a função de ser a base de sustentação do casamento e de responsabilizar-se pela vida afetiva do casal. Na modernidade, as conquistas femininas de autonomia e reconhecimento são expressivas, porém não o suficiente para dividir esse peso de forma mais equânime entre os parceiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos livros sobre terapia de família, a menção à terapia de casal, quando existe, ocupa uma porção reduzida do texto, evidenciando a pequena importância que os estudiosos da família deram à terapia de casal na prática clínica. Pode-se supor, por um lado, que a tradição clínica de atendimento individual considerava a entrada de qualquer membro da família, incluindo o parceiro, como maléfica ao processo individual. Por outro lado, o desenvolvimento da Terapia Sistêmica enfatizou a necessidade de trabalhar a família como um todo, atenuando o foco no casal. (C.f., NETO, 2005, p. 46-47)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As intervenções psicológicas com casais, no início, variavam de acordo com o momento histórico e com as diferentes abordagens teóricas dos terapeutas que se propunham à essa prática. Neto descreve as variadas combinações utilizadas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">[&#8230;] cada membro do casal, simultaneamente atendido em sessões individuais, com terapeutas diferentes; cada membro do casal, simultaneamente atendido, em sessões individuais com o mesmo terapeuta; cada membro do casal atendido em sessões individuais, com o mesmo terapeuta consecutivamente, ou seja, à análise de um cônjuge seguia-se a análise do outro; do casal em conjunto com o mesmo terapeuta.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;(NETO, 2005, p. 48)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diferentes pesquisadores do desenvolvimento da Terapia de Casal, apontam quatro fases metodológicas e conceituais predominantes na história dessa abordagem. A&nbsp;primeira fase&nbsp;tem início com o Aconselhamento Matrimonial onde a orientação teórica era diversificada e indiferenciada. A&nbsp;segunda fase&nbsp;caracterizou-se pela aplicação da psicanálise ao casal. Na&nbsp;terceira fase&nbsp;o enfoque sistêmico familiar é introduzido. A&nbsp;quarta e última fase&nbsp;representou vários intentos de articulação dos distintos modelos e abordagens utilizados nas Terapias de Casal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Considerada como a&nbsp;primeira fase&nbsp;do desenvolvimento da Terapia de Casal, o Aconselhamento Matrimonial vai de 1929 até 1932, começando com a fundação de três Institutos Clínicos de Aconselhamento Matrimonial nos EUA, embora atendimentos de casais já existissem anteriormente. Nesse período, atuavam profissionais de formações diversas, guiados pelo “bom senso”. Para esses profissionais (clérigos, médicos, educadores, assistentes sociais), o atendimento de casais representava uma atividade auxiliar de sua principal profissão. Aconselhavam jovens casais – em sessões em separado &#8211; &nbsp;sobre a importância de desempenhar bem os papéis conjugais, correspondendo às expectativas da sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A&nbsp;segunda fase&nbsp;que vai de 1934 a 1945, tem início com a fundação do “American Association of Marriage Counselors”. Surgem também, centros de treinamento que&nbsp; contribuíram para a melhor formação e qualificação profissional. Mesmo com essas mudanças, o modelo de atendimento permaneceu o mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na&nbsp;terceira fase, de 1946 a 1963, a terapia de casal consolidou-se e em 1963 a profissão obteve o reconhecimento oficial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A&nbsp;quarta fase, de 1964 até 1978, assinala um intenso crescimento, incitando a busca de maior clareza quanto aos padrões de atendimento ao casal e o desenvolvimento de competências necessárias dos terapeutas. Nos anos sessenta, as relações conjugais começam a ser objeto de estudo, desenvolvendo intervenções cientificamente importantes ao tema. Como consequência, um grupo de profissionais ligados ao Aconselhamento Matrimonial aproximou-se da Psicanálise, grupo de maior prestígio na prática clínica. Nessa década, a Terapia Sistêmica de Família acabara de nascer e não tinha ainda credibilidade. Somente no final da década de sessenta, a entrevista conjunta do casal passa a predominar nos atendimentos. O ano de 1978&nbsp; marcou o fim do termo “Aconselhamento Matrimonial” e o nascimento da “American Association for Marriage and Family Therapy”. (Cf. NETO, 2005, p. 50-52)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Psicanálise aplicada ao atendimento de casais passa por diferentes períodos. No primeiro deles – da década de 1930 até a década de 1960 &#8211; &nbsp;a teoria e a técnica psicanalítica tradicionais eram os instrumentos utilizados no trabalho com casais. No segundo período – da metade da década de 1960 até a década de 1980 – ocorre uma diminuição do interesse na aplicação da psicanálise à situação conjugal. As críticas do próprio grupo psicanalítico quanto a aplicação da psicanálise em situações não tradicionais e o crescimento da Terapia Sistêmica de Família, contribuíram para esse esmorecimento. Nesse período, a Abordagem Sistêmica acusava a Psicanálise de ser personalista e voltada ao intrapsíquico. Somente a partir da década de 1980 surgiu um novo interesse pela Psicanálise que se mantém até hoje. Importante ressaltar que, nesse período, somente psiquiatras podiam se tornar psicanalistas. Assim, um grupo de Psicanalistas não satisfeitos com o método tradicional, iniciaram experimentações empíricas e modificações na técnica. Novamente, sofreram fortes críticas da Abordagem Sistêmica que questionava o modelo e a compreensão por demais individual. O imenso desafio de atender o par conjugal conjuntamente permaneceu e vários formatos de atendimento foram experimentados: “Terapia Colaborativa” na qual dois analistas atendiam o casal, comunicando-se sobre os processos, com o objetivo de manter o casamento. Tratamentos combinados também foram propostos com sessões conjuntas, com sessões individuais e de grupo com vários propósitos e combinações. A tarefa do terapeuta nesse período era destacar e corrigir as percepções distorcidas de ambos os cônjuges, permitindo uma relação liberta da irracionalidade. Assim, caberia ao analista decidir ou auxiliar na decisão do que era “mais racional”. Somente na década de 1960, a realização de sessões conjuntas prevaleceu, contudo, na Terapia conjugal, a ênfase ainda recaía nas defesas dos parceiros, no uso de associações livres realizadas conjuntamente e na análise dos sonhos, as associações eram realizadas pelos dois. Segundo Vargas (2004) Em 1937, Jacob Levy Moreno, publicou o artigo “Interpersonal Therapy end the Psychopatology of Interpersonal Relation” no qual descreve o primeiro caso de tratamento psicodramático que se tornou Terapia de casal; o vínculo conjugal foi utilizado como instrumento terapêutico. J.L. Moreno, desde 1930, tratava de casais e de famílias, por meio de psicodrama e psicoterapia de grupo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nas décadas de 1980 e 1960, estudos, reflexões e descobertas permitiram novas perspectivas e olhares sobre a questão das patologias psicológicas. Pioneiros como: Bateson, Haley, Weakland, Lidz, Wynne, Lang e Esterson criaram a Terapia Sistêmica de Famílias como um novo campo de estudo e intervenção. A parceria de Wynne, Lidz, Lang e Esterson colocou em relevo o envolvimento da família na esquizofrenia e, provavelmente foi fonte de inspiração para o clássico estudo “Toward a Theory of Esquizofreny” de Bateson, Jackson, Haley e Weakland(1956), onde, pela primeira vez, apresentam a teoria do duplo vínculo e o envolvimento da estrutura e dinâmica familiar na eclosão e manutenção da psicopatologia. Tais estudos enfatizaram a importância de intervenções na família com foco de tratamento:</p>



<p class="wp-block-paragraph">As abordagens sistêmicas desenvolveram-se em larga medida como uma reação às limitações percebidas nas terapias que atribuíam as disfunções psicológicas e sociais a apenas problemas no individual, seja este visto como de natureza biológica, psicológica, psicodinâmica ou comportamental. (Fraenkel (1997) Apud Neto, 2005, p. 58)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Schutzemberger (1997, p. 22) relata o trabalho relevante do “grupo de Palo Alto” que enuncia a hipótese do “duplo vínculo”, “dupla opressão” (<em>double bind)</em>&nbsp;: “perturbação grave de comunicação na família; mensagens&#8230;são estruturadas de tal forma que, ao afirmar verbalmente alguma coisa, afirmam ao mesmo tempo outra diferente, supomos que pela linguagem do corpo.”&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Durante a metade da década de 1960, a década de 1970 e início da década de oitenta, a Terapia Sistêmica de Família foi soberana. Todo tratamento conjugal deveria passar pela visão da família. Tratar algo menos que a família era considerado inadequado. Destaca-se, nessa fase, o trabalho relevante de Salvador Minuchin e seu enfoque biopsicossocial da Abordagem Sistêmica à saúde onde expressa que os problemas humanos são emergentes do sistema biopsicossocial. Todos os problemas biomédicos são psicossociais e vice-versa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Abordagens experienciais humanísticas, como as contribuições de Virginia Satir, ficaram marginalizadas até meados da década de 1980 em razão do seu afastamento do movimento de Terapia de Família.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em 1986, Gurman e Jacobson publicaram “Clínical Handbook of Marital Therapy” que se tornou um clássico, quase um “manual” da Terapia de Casal. Robustas pesquisas empíricas sobre a conjugalidade, revisões de conceitos e teorias e a criação de centros de pesquisa e treinamento de terapeutas de casais, marcaram este período.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Durante a década de 1970 e início da década de 1980, importantes aspectos do conhecimento foram intensamente contestados, contribuindo para o questionamento da teoria e prática utilizadas na Terapia de casal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O movimento feminista polemizou o pensamento científico, apontando seus pressupostos falocêntricos e patriarcais. A produção científica sobre a conjugalidade, até então restrita aos padrões da sociedade ocidental judaico-cristã, ampliou o seu olhar para diferentes culturas e novos questionamentos surgiram. A visão crítica do feminismo quanto as diferenças de gênero socialmente construídas, desafiaram crenças sobre a construção de complementaridades dos papéis entre os parceiros, na relação conjugal. Desse modo, preconceitos que perpassavam leituras teóricas e intervenções clínicas foram explicitados como prescrições sociais e não como erroneamente eram entendidas, como afirmações de um fato científico. O conceito de circularidade nas relações do casal que considerava sempre a coparticipação de ambos em eventos provocadores de constrangimento, intimidação e violência de todos os tipos, sendo as mulheres as principais vítimas, foi fortemente atacado. Neto aponta:</p>



<p class="wp-block-paragraph">A crítica feminista, como preconizada pelo Akerman Violence Project (Goldner, Penn, Sheinberg e Walker, 1990), coloca que a construção de teorias circulares, como proposta pela perspectiva sistêmica, serve também como manutenção de uma descrição socialmente construída. E ainda que na visão linear de causalidade, no caso, de que homens são os responsáveis únicos pela violência contra as mulheres, é outra visão possível e mais moralmente comprometida com a proteção das vítimas. Assim, eles apontam que nós, enquanto seres sociais, escolhemos quando e quais teorias, pelo menos no campo das ciências humanas, usaremos para abordar e ressaltar um aspecto da realidade e, ainda, qual sentido construiremos. Portanto consideram que a escolha teórica implica em uma responsabilidade moral, por convidar a uma práxis social. (NETO, 2005, p.&nbsp; 63)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Novos modelos de atendimento do casal foram propostos, dentre eles, destaca-se a Terapia Conjugal Comportamental que enfatiza o desenvolvimento de habilidades. Preconizou o ensino de habilidades comunicacionais para solução de problemas supondo que tais habilidades criariam padrões saudáveis de casamentos satisfatórios. &nbsp;Estas habilidades seriam ensinadas aos casais em módulos, em uma sequência relativamente estabelecida. Importante ressaltar que a Terapia de Casal Comportamental descuida dos fatores familiares e transgeracionais, fundamentais no entendimento da dinâmicas da maioria dos casais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cabe destacar também, a escola de Terapia de Casal Focada na Emoção que reaproxima a Terapia de Família e Casal à abordagem humanística e experiencial, inicialmente desenvolvida por Virginia Satir. Carl Rogers e Fritz Pearls fazem parte desta escola. Preconizam que os humanos têm uma necessidade inata para contatos emocionais consistentes, seguros e íntimos. Assim, o conflito conjugal retrata ligações afetivas não expressas e não emocionalmente satisfeitas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em 1990, a eficácia dos modelos de Terapia de Casal aplicados aos conflitos conjugais já gozava de reconhecimento e iniciou-se uma nova fase de expansão. Intervenções preventivas, tratamento de transtornos psiquiátricos em modelos interdisciplinares passaram a fazer parte de várias pesquisas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No final do século XX as taxas de divórcio se elevaram e os profissionais envolvidos no atendimento de casais, retomaram o caráter preventivo do antigo Aconselhamento Matrimonial. Diferentes teorias abraçaram o trabalho de prevenção como: a abordagem cognitiva, comportamental, sistêmica, experiencial, humanística e psicodinâmica. Múltiplos modelos de intervenções são propostos, desde workshops com casais a abordagens que trabalham o casal separadamente, com número fixo de sessões. A Terapia Breve, a Terapia de casal dialogando com a Terapia Sexual, a Teoria do Apego (Bowlby) articulada com a Terapia de Casal. Importante salientar, que a Teoria do Apego analisa o relacionamento do indivíduo com figuras significativas no decorrer do seu desenvolvimento. Este relacionamento primário, interfere, significativamente, no padrão de apego que o indivíduo estabelece com pessoas significativas no aqui e agora. Bowlby descreve três padrões básicos dos modelos de apego: o modelo de base segura (confiança e cuidado), o apego ansioso (insegurança, ansiedade, ambivalência), o apego evitativo (aversão e desejo).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Psicologia Analítica desenvolvida por C.G. Jung, com suas contribuições muito relevantes para a Terapia de Casal, não é, sequer, mencionada. &nbsp;Neto aponta essa omissão:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os trabalhos de pioneiros como C.G. Jung que escreveu no contexto de sua obra, já no início do século XX, sobre aspectos ligados ao relacionamento conjugal, e pesquisou aspectos ligados à transmissão transgeracional de complexos inconscientes, podem ser adotados como ponto de partida (Jung, 1977; Clarck, 1993). Porém, esta contribuição não é sequer mencionada pela maioria dos revisores. No entanto, todos apontam para as contribuições ocorridas no início do século XX, nos EUA, como significativas. Tal posição parece dever-se ao fato de que a maior parte das escolas de Terapia de Casal ter surgido, nos EUA, durante o século XX. (Neto, 2005, pg. 49)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A omissão da Psicologia Junguiana é bem conhecida por todos os profissionais que a abraçaram no seu campo de atuação, a academia é apenas um exemplo. Aguardem o próximo artigo: Breve histórico da Terapia de Casal na clínica junguiana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Autora: Maria da Glória G. Miranda &#8211; Analista didata em formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata: Maria Cristina M. Guarnieri</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;<strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SCHUTZENBERGERANNE, Anne A</strong>.&nbsp;<em>Meus Antepassados.&nbsp;</em>São Paulo:Paulus,1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>VARGAS, Nairo S</strong>.&nbsp;<em>Terapia de Casais: Uma Visão Junguiana.&nbsp;</em>São Paulo: Madras, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>NETO, Orestes Diniz.&nbsp;</strong><em>Jogos Conjugais:&nbsp;</em>Proposta de um Modelo Construcionista Social para Terapia de Casais. 241 f. Dissertação (Doutorado em Psicologia), PUCRJ, Rio de Janeiro, 2005.</p>



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<iframe title="BREVE HISTÓRICO DA TERAPIA DE CASAL" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/E3my_vX00wo?start=2&#038;feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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		<item>
		<title>Casamento e Psicologia Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/casamento-e-psicologia-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Mar 2022 23:57:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Casamento é uma relação para ser vivida, onde cada cônjuge deve estar disponível para a manutenção da relação, por meio do diálogo e da confiança. Lembrando que cônjuge é aquele que irá conjugar os verbos, que são as ações da vida psíquica, biológica, social, espiritual, profissional e social com o seu/sua parceiro/a, em todos os [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Casamento é uma relação para ser vivida</strong>, onde cada cônjuge deve estar disponível para a manutenção da relação, por meio do diálogo e da confiança. Lembrando que cônjuge é aquele que irá conjugar os verbos, que são as ações da vida psíquica, biológica, social, espiritual, profissional e social com o seu/sua parceiro/a, em todos os tempos e modos. &nbsp;Neste sentido, confiança depende do constante fiar com o outro, tecendo juntos a trama da vida, que é feita pelos fios da alegria, da tristeza, do prazer, da dor, do medo e da fé, fazendo laços e nós harmoniosos e desfazendo os patológicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, devido à falta de autoconhecimento, geralmente acabamos buscando em nossos parceiros as compensações ou complementações das nossas dificuldades, o que pode gerar decepções ou paralisias futuras, abalando a confiança. Onde a confiança depende do constante fiar com o outro, tecendo juntos a trama da vida, que é feita pelos fios da alegria, da tristeza, do prazer, da dor, do medo, do amor e da fé, fazendo laços e nós harmoniosos e desfazendo os patológicos,&nbsp;numa contínua parceria em direção à realização existencial de cada um.<br>O amor, por sua vez, deve ser a base. Porém, é importante deixar claro que ninguém pode dar o que não tem, mas consequentemente, também não poderá receber o que não pode dar. Isso é fundamental, porque nossa tendência é a de buscar no outro o que não conseguimos encontrar em nós mesmos. Aí, acusamos o outro ou desejamos modificar o outro, sem percebermos que se desejamos mudar nosso destino, toda transformação pretendida deve acontecer, primeiramente, em nosso íntimo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais comum é que cada indivíduo acaba projetando no seu parceiro alguns dos seus aspectos sombrios e, ao mesmo tempo, acaba despertando no outro algumas identificações, igualmente projetivas, que fazem parte do jogo das atrações ou repulsões do encontro amoroso. O interessante é que, na maioria das vezes, as pessoas se encantam muito mais com os conteúdos projetados e idealizados do que com a realidade. É um jogo de luzes e sombras onde cada parceiro acaba &#8220;comprando&#8221; o que quis ou pode ver dos conteúdos projetados no outro. O problema é que, muitos encontros acabam produzindo alianças e daí surgem as decepções mútuas. Porque, no convívio, cada companheiro quer receber o que imaginou ter visto e &#8220;comprado&#8221; no outro, transformando-o em devedor, muitas vezes sem perceber que também é devedor de algo que não pode ou não tem para dar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso afirmo que a relação mais difícil de termos é com nós mesmos e depois com os nossos credores, aqueles que &#8220;compraram&#8221; de nós algo que não podemos ou não temos para dar ou que, pelas mudanças naturais da vida, não queremos continuar dando. Nesse momento é que surgem as crises, pois nos sentimos tolhidos, aprisionados e impedidos de fazer mudanças. Na realidade, todos nós usamos máscaras (personas) para nos apresentar de uma maneira que consideramos mais favorável, devido às influências familiares, sociais, entre outras. E, neste sentido, os amantes só poderão se encontrar de verdade quando forem suprimidos os véus, ou, usando a terminologia junguiana, quando houver o desnudamento das personas.<br>É interessante notarmos que quando um homem resolve casar com uma mulher, no seu íntimo, ele deseja que ela não mude em nada. Bem diferente das mulheres que se casam desejando, no seu íntimo, que aconteça muitas mudanças no futuro marido &#8211; mais atenção, presença, maturidade, cumplicidade. Essa realidade é um dos principais fatores para os fracassos conjugais, principalmente depois que a mulher vira mãe! Porque a experiência da maternidade, que é um marco significativo na vida das mulheres, faz com que seus instintos maternais fiquem totalmente aflorados, bem diferentes dos homens que, na maioria das vezes, se sentem inseguros e até deixados de lado por conta da relação entre a mãe e o bebe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como nossa sociedade está muito competitiva, iludida com os avanços tecnológicos e voltada para as conquistas materialistas do patriarcado, se torna muito comum vermos casais transformarem suas relações numa extensão dessa realidade. Ou seja, deixam de lado o investimento matrimonial, que deveria ser o exercício da alteridade, onde cada um pode aprender a ver-se com os olhos do outro, colocando de lado o próprio umbigo para engajar-se na realização do seu parceiro. Condição necessária para o casamento poder resistir às mudanças e demandas naturais, tanto das partes quanto do entorno existencial. Desta forma, um casamento saudável exige cumplicidade e foco na realidade, para que as idealizações fiquem de lado, como nesta frase que tirei do filme Colcha de Retalhos: &#8220;Os jovens amantes procuram a perfeição, velhos amantes aprendem a arte de unir retalhos e descobrem a beleza na variedade das peças&#8230;&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"><strong>Autor: Waldemar Magaldi</strong></p>
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		<title>O lugar da fantasia e dos desejos pessoais diante dos papéis e convenções num relacionamento íntimo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-lugar-da-fantasia-e-dos-desejos-pessoais-diante-dos-papeis-e-convencoes-num-relacionamento-intimo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Jun 2021 22:55:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[relacionamento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O que difere um relacionamento de amizade de um relacionamento íntimo como o casamento é o sexo. Muito se fala sobre sexo, algumas vezes de forma extremamente mecânica e cheio de regras, quase que um protocolo a se seguir, porém, resultando em julgamentos e ações de pouca intimidade de fato.&#160; E antes de desenvolver minha [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que difere um relacionamento de amizade de um relacionamento íntimo como o casamento é o sexo. </strong>Muito se fala sobre sexo, algumas vezes de forma extremamente mecânica e cheio de regras, quase que um protocolo a se seguir, porém, resultando em julgamentos e ações de pouca intimidade de fato.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E antes de desenvolver minha ideia sobre o tema, gostaria de fazer algumas pontuações importantes, para que os recortes dados neste artigo possam ser compreendidos por todos: ao usar a palavra ‘<strong>casamento</strong>’&nbsp;também considerarei qualquer tipo de relacionamento íntimo estável. Como as referências citadas usam como ilustração de casal um homem e uma mulher, manterei pela norma, mas peço para que considerem também outras possibilidades de união, afinal, a dinâmica psíquica no <strong>relacionamento</strong> que abordarei neste texto é do ser humano, logo, respeita toda forma de <strong>amor</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre inúmeros fatores que podem atrapalhar a questão sexual num casamento como estresse, cobranças, autoestima, etc., pouco se fala sobre o papel da <strong>fantasia</strong> e dos desejos diante da dinâmica de um casal. E é este o ponto que eu quero trazer para reflexão neste artigo. <strong>Qual é o lugar da fantasia e dos desejos mais íntimos diante dos papéis e convenções que o casamento pode aflorar?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Jung</strong>, em um <strong>casamento</strong> encontramos a experiência individual de duas pessoas atuando concomitantemente com a parte que cabe a cada um no próprio relacionamento. Desta forma, devemos considerar e analisar a “psicologia do relacionamento e não apenas psicologia de um indivíduo isolado. É até&nbsp;difícil separar o que são partes individuais das partes que pertencem ao relacionamento”. (JUNG, 1991, 602s) Ou seja, além de olhar para os conteúdos que cada pessoa vivencia na relação, precisamos também notar como o próprio casamento vai se desenhando, qual forma ele toma, com quais características, necessidades e sombras. Pois, tomando o lugar de um ‘terceiro elemento’ atuando, o casamento em si também precisa ser contemplado na dinâmica da intimidade.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E talvez seja este ponto que nos impacta tanto. O casamento até então como relacionamento ou união de pessoas que se amam e desejam compartilhar uma história em comum se torna uma instituição casamento, carregado de tradições, regras, exigências, carregado de conteúdos simbólicos que se sobrepõem a própria experiência compartilhada do casal. Podemos então considerar que o casamento em si vem acompanhado de um conteúdo arquetípico que acaba influenciando a psique individual. Jung cita que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) todos nós somos casados assim, de acordo com antiquíssimas regras, ideias consagradas, tabus, etc. O casamento é um sacramento com leis irrevogáveis; devemos criticar os costumes, não as pessoas individualmente. (JUNG, 1991, 91)&nbsp;&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais que o casamento tenha uma influência arquetípica,&nbsp;“em períodos históricos diferentes, casamento e família também tiveram significados diferentes. Todas as instituições sociais, inclusive casamento e família, estão continuamente se modificando”. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.21) Agora, é curioso como mesmo tendo muitas possibilidades de reescrever a história desta vivência, continuamos olhando para o casamento como um grande sacrifício que exige dos parceiros dedicação e confronto constante diante dos anseios pessoais e também coletivos do casal. E de fato, é algo inerente ao casamento a constante reavaliação, entrega e ponderação entre os parceiros que desejam usar esta experiência como uma oportunidade de autoconhecimento e ampliação da consciência. Como tudo na nossa vida, a experiência do casamento também é um grande paradoxo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que se tenha uma troca saudável entre os parceiros é preciso que duas pessoas inteiras – e não perfeitas, vale lembrar – estejam disponíveis para a relação. Quando o <strong>casamento</strong> como uma instituição se torna maior ou mais importante do que a vivência em si, perdemos a qualidade do relacionamento e, consequentemente, a qualidade da sexualidade entre o casal.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma, quando os conteúdos individuais são deixados de lado para vivenciar apenas os protocolos da relação, o casal acaba priorizando os papéis e as funções e, como Jung explica, “(&#8230;) A vontade própria que mantém o “eu” é rompida, a mulher torna-se mãe, o homem torna-se pai e assim ambos são privados da liberdade e transformados em instrumentos da vida que continua. (JUNG, 2013, §330). Quando isto acontece, a sexualidade é fortemente prejudicada e consequentemente, a espontaneidade dos parceiros em compartilhar todos os desejos íntimos se enfraquece, isso quando não se perde totalmente no contexto das funções.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Importante também diferenciar sexualidade do sexo. Tecnicamente falando, sexualidade e genitalidade devem ser olhados como algo distinto. Nem sempre o casal que tem uma prática sexual ativa tem uma sexualidade saudável, que garante conexão, prazer, intimidade e troca entre os parceiros. Quando os papéis se tornam maiores do que as individualidades num casamento, percebemos primeiramente o enfraquecimento da sexualidade com consequente perda na qualidade e prazer no ato sexual.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, como podemos então entender a sexualidade? Sua atuação dentro de um relacionamento íntimo&nbsp;é muito mais ampla, “implica necessariamente o envolvimento de quatro dimensões: afetividade, emoção, comunicação e prazer” (NORONHA, LOPES e MONTGOMERY, 1993, p.48)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>sexo</strong> enquanto experiência natural e cultural se transformou ao longo dos anos em sexualidade, ou seja, foi capaz de assumir qualidades e significados além do ato sexual e da penetração, como também na parte <strong>emocional, afetiva, social, erótica, e se resgatou seu caráter espiritual.&nbsp;</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) o sexual não é redutível ao genital. Assim, sexualidade não designa apenas as atividades e o prazer que dependem do funcionamento do aparelho genital, mas envolve toda série de excitações e de atividades presentes desde a infância, que proporcionam prazer irredutível à satisfação de uma necessidade fisiológica fundamental (como respiração, fome) e que estão, a título de componentes, na chamada forma normal do amor sexual (TEDESCO e CURY, 2007, p.28)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É&nbsp;no&nbsp;âmbito da sexualidade que o desejo e admiração entre o casal se tornam evidentes pois fazem parte da manutenção da libido sexual, do autoconhecimento e do jogo erótico de sedução dos parceiros. Quando o casal se perde nos papéis e convenções, as funções acabam tomando o lugar do erótico, tão vital para a exploração e cumplicidade no relacionamento. É comum vermos queixas que ao longo dos anos o casal perde o toque, o beijo, o olhar para o outro e também para si próprio. A sexualidade afetiva acaba se tornando também uma função, até mesmo no ato sexual; em muitos casos com mais obrigações do que prazer.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A fusão sexual expressa a ponte que une, em nós, todas as incompatibilidades e oposições predominantes. Até certo ponto, o homem e a mulher completam um ao outro, e até certo ponto não estão, de forma alguma, sincronizados um ao outro. No ato de amor, toda polaridade e fragmentação do ser é superada. Aí está seu fascínio (&#8230;) O ato de amor é, acima de tudo, muito mais que uma expressão de relacionamento pessoal entre um certo homem e uma certa mulher. É um símbolo que vai além do relacionamento pessoal. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.103)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se pensarmos que o sexo é algo natural e ligado aos nossos instintos, o que nos desperta prazer e desejo é&nbsp;também algo ligado a individualidade de cada um. A variedade das fantasias e vivências sexuais são tão múltiplas quanto a variedade psíquica. No universo das <strong>fantasias</strong> podemos olhar para nós como um outro, podemos nos experimentar em diferentes peles e situações, podemos, inclusive, nos aproximar de possibilidades que não necessariamente bancaríamos (ou precisaríamos) viver no mundo concreto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A sexualidade entendida como uma forma de relacionamento interpessoal entre um homem e uma mulher também não abrange a totalidade do fenômeno. A maioria das fantasias sexuais são vividas independentemente do relacionamento humano; estão ligadas às pessoas com as quais dificilmente se pode ter qualquer relacionamento ou com quem um relacionamento seria impossível (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.91)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se olharmos para as fantasias como algo vivo e dinâmico da nossa intimidade, conseguimos compreender tantos outros elementos simbólicos que nos afetam e também influenciam nossas relações. Ao invés de vivenciarmos esses desejos como algo sombrio, poderíamos viver ou ao menos olhar para esses aspectos como parte da nossa totalidade psíquica. No livro “O casamento está morto. Viva o casamento!”&nbsp;Guggenbuhl-Craig propõe o exercício de olharmos para a sexualidade e fantasias como parte do processo de individuação, pois, sendo também essencial para o relacionamento íntimo, ajudaria os próprios parceiros a lidar com as questões não olhadas na psique. Se uma das tarefas do processo de individuação&nbsp;é trazer para a consciência parte dos conteúdos da sombra &#8211; tanto pessoal quanto coletiva e também arquetípica -, as fantasias seriam também porta de acesso a esses conteúdos, e talvez por isto, as pessoas tenham tanto temor em entrar em contato com seus desejos íntimos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A individuação necessita de símbolos vivos. Mas onde, hoje em dia, encontramos símbolos vivos atuantes? Símbolos que sejam tão vivos e efetivos como os Deuses da antiga Grécia ou do processo alquímico? Exatamente neste ponto um novo entendimento da sexualidade se nos revela. Ela não é idêntica à reprodução e seu significado não é exaurido nas relações humanas ou na experiência do prazer. A sexualidade, com todas as suas variações, pode ser entendida como uma fantasia de individuação, uma fantasia cujos símbolos são tão vivos e tão efetivos que podem até mesmo influenciar nossa psicologia. E, desta forma, os símbolos não são propriedade exclusiva de uma elite acadêmica, mas de todas as pessoas. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.94)&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda explorando esta ideia, o autor destaca sobre a sexualidade dentro de um relacionamento íntimo&nbsp;“(&#8230;) este poderoso acontecimento no qual o homem e a mulher se tornam um, física e psicologicamente, deve ser entendido como um símbolo vivo do&nbsp;<em>mysterium coniunctionis</em>, a meta do caminho da individuação”. (p. 103) E, sendo um símbolo vivo, nos convida periodicamente a confrontar com nossos conteúdos inconscientes, inclusive nos dando oportunidades de entrarmos em contato com a nossa ânima/ânimus:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>&nbsp;Quais são as possibilidades para um homem de chegar a um acordo com o feminino? Uma possibilidade pode estar no relacionamento com uma mulher, como por exemplo, num casamento; outra pode consistir em fantasias sexuais, incluindo as homossexuais, &#8211; onde o feminino pode ser experimentado com outro homem cuja meta não é reprodução, relacionamento humano ou prazer, mas a confrontação com a anima, com o feminino. Outra possibilidade existe num relacionamento para um ajustamento para a mulher. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.94)&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Quando nos permitimos ampliar o olhar para os nossos desejos e encontrar no casamento um campo seguro, livre e protegido para compartilhar nossas conteúdos psíquicos, perdemos o receio de mostrar todas as nossas fantasias, até&nbsp;porque será um acordo entre o casal colocá-las em prática ou então apenas poder olhar e imaginá-las. Caberá ao casal delimitar a atuação desses desejos na prática sexual, reforçando a cumplicidade na exposição desses conteúdos. Quando o casal atinge este estágio de intimidade, sofre menos pressão do coletivo refletido nas condutas da sociedade e também nos questionamentos sobre a moralidade.&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) Ainda assim, existem casais cuja sexualidade é constringida por certas pressões para a normalidade. Cada parceiro permite-se revelar ao outro apenas dentro de certos limites, e cada um se contém naquilo que acredita não ser permitido. Por conseguinte, raramente um marido e uma mulher satisfazem completamente um ao outro. Ao invés de cada um encorajar o outro a expressar e relatar suas fantasias sexuais mais secretas e peculiares, um certo medo de anormalidade domina a cena, até mesmo uma tendência à condenação moralista de qualquer coisa que não pertença, incondicionalmente, a um dos parceiros. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.112)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Evoluímos tanto como sociedade, mas ainda somos impactados por preceitos impostos ao longo das gerações. Ainda temos medo de olhar para o nosso universo interior e descobrir nossos segredos. Receamos sermos julgados pelos outros, tendo nossos valores roubados por meros preconceitos. Aceitamos os papéis, mas esquecemos de quem dá vida a esses papéis. Nos distanciamos dos nossos parceiros justamente quando eles seriam os melhores companheiros para a troca das nossas verdades. Aqui, não importa o quão conservador ou não cada pessoa é. O que importa é o quanto nos sentimos livres para nos olharmos como uma totalidade e, com isso, nos conhecermos cada vez mais dentro dos universos pessoais e coletivos. O quanto permitimos que o nosso relacionamento se aprofunde, evitando relações rasas e falsas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fica claro que o casamento como oportunidade de autoconhecimento não&nbsp;é fácil. A confrontação com a sombra no casamento nunca termina, é preciso encarar nossos céus e infernos juntamente com os do parceiro; tanto psicologicamente quanto no mundo das fantasias. Mas é somente cuidando da forma como esta dinâmica&nbsp;é vivenciada que se torna possível o fortalecimento dos parceiros como casal e também o amadurecimento psíquico individual.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como não&nbsp;é&nbsp;possível esgotar os conteúdos inconscientes da psique, também não podemos nos enganar que todas, extremamente todas as fantasias e todos os desejos serão compartilhados com o parceiro. Por mais que a troca seja essencial para um relacionamento, é preciso também sempre cuidar para que uma parte da individualidade seja preservada. Isso é extremamente saudável, afinal, só conseguimos evoluir em uma relação se a nossa condição individual for mantida, com seus conteúdos positivos e negativos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando as individualidades se abrem para o relacionamento, transformam a experiência do casamento em um agente ativo e atuante do processo de individuação, com energia suficiente para a transformação individual e do próprio relacionamento em si.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que saibamos dar voz ao nosso inconsciente também através da <strong>vida dos desejos e fantasias</strong>, proporcionando um relacionamento maduro e uma sexualidade saudável. Que saibamos usufruir deste processo com leveza, alegria e diversão, já que o mundo dos desejos e fantasias nos permite uma boa dose de humor. Olhar para essas questões com naturalidade é extremamente sadio. Isso é respeitar nossos limites e também respeitar nosso parceiro também em sua intimidade. Isso nos liberta e nos protege. Isso nos transforma.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Marcella Helena Ferreira</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Junguiana em formação, com especialização em Psicossomática e Terapeuta Ayurveda</p>



<p class="wp-block-paragraph">marcellahlferreira@gmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Maria Cristina Guarnieri</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata&nbsp;responsável</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="O lugar da fantasia e dos desejos pessoais diante dos papéis e convenções num relacionamento íntimo" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/YTmHbkzcrhs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências Bibliográficas</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBUHL-CRAIG Adolf, O casamento está morto. Viva o casamento!,2d. São Paulo, SP: Símbolo, 1980.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG Carl Gustav; O desenvolvimento da personalidade, 14 ed. Vol.17. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a</p>



<p class="wp-block-paragraph">____________ TRAUMANALYSE. Segundo anotações dos seminários de 1928-1930. Editado por William McGuire; traduzido do inglês por Brigitte Stein. Olten/Freiburg i. Br. 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NORONHA, Decio Teixeira, Gerson Pereira LOPES, e Malcom MONTGOMERY. Tocoginecologia Psicossomática. São Paulo, SP: Almed, 1993</p>



<p class="wp-block-paragraph">TEDESCO, J. Julio A., e Alexandre Faisal CURY. Ginecologia Psicossomática. São Paulo: Atheneu, 2007</p>
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		<title>Amor e relacionamentos na juventude contemporânea</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/amor-e-relacionamentos-na-juventude-contemporanea/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Nov 2020 18:03:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Casamento]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_886.jpeg" alt="Amor e Relacionamentos na Juventude Contemporânea Psicologia Junguiana"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A humanidade hoje vive em um contexto eletro-plastificado, como afirma Magaldi (2019) e Contrera (2017), em que as relações (amizades, namoros e casamentos) dão-se mais pelas imagens photoshopadas das redes sociais (a persona da persona) do que por uma real relação entre personalidades. Hoje parece que a relação é à três – não triângulos amorosos, mas a terceira parte, no caso, sendo a rede social. Não à toa, existem pesquisas que demonstram que casais que menos postam nas redes sociais são os mais felizes, já os que realizam mais publicações de si mesmos em momentos românticos tendem a querer legitimar o amor mediante às curtidas, comentários e compartilhamentos (EMERY&nbsp;<em>et al.</em>, 2014). Nestes casos, os relacionamentos parecem&nbsp;<em>fast-food</em>, consome-se o relacionamento, mas nenhum nutre verdadeiramente. Quase não há mais aquelas reações alquímicas entre duas personalidades a qual C. Jung menciona. Vale lembrar que existem aplicativos-cardápios em que um indivíduo seleciona o outro, e se ambos aceitarem (derem&nbsp;<em>match</em>), podem partir para a fricção genital (BALESTRINI, 2019). No fim, a depressão que Magaldi (2020) relaciona a esta era plastificada, é também, no fundo, uma busca pelo amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem estuda C. G. Jung certamente deparou-se com a famosa passagem do poder sendo a sombra do amor e&nbsp;<em>vice-versa</em>. Não à toa, no conjunto &#8220;Civilização em Mudança&#8221;, das Obras Completas, C. G. Jung (2012) (2013) presenteia o leitor com uma complexa análise sobre o século XIX. Diagnosticando o momento como autoritário, tempestuoso, bélico e destrutivo, apontando para a emergência da divindade Wotan possuindo a Alemanha nazista.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste mesmo conjunto, por outro lado, especificamente no livro “Civilização em Transição”, Jung (2013) traz uma singular reflexão sobre o amor e a dificuldade dos indivíduos contemporâneos entregarem-se e mergulharem nele. O amor “exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega a seu Deus participa da manifestação da graça divina&#8221; (JUNG, 2013, p. 122-123).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso demonstra que o amor é uma potência que também deve possuir-nos e ser possuída. E deixar-se possuir, principalmente pelo amor, é tudo o que o ego hierárquico e controlador não quer. Não é raro escutar entre amigos e na clínica frases como &#8220;e se minha paixão me trair? E se me meu amor me deixar? E se eu for passado para trás?&#8221; como se o indivíduo já se colocasse em uma posição inferior ao ser amado, ou seja, em uma posição hierárquica, portanto, revelando assim não uma relação amorosa, mas de poder. Nesta dinâmica, o ego sempre quer &#8220;sair por cima&#8221; da relação.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A possessão do amor não está ligada à manipulação das massas como ocorreu na Alemanha com a possessão de Wotan, mas a entregar-se à Totalidade. Talvez o poder esteja para o Ego assim como o amor está para o Self. Como diz Jung (2013) o amor é para poucos e a aventura perpassa os três mundos gregos: é difícil, sinuosa e quase impossível como o submundo, e por isso mesmo, é tão reveladora como o Olimpo, e se passa no mundo mortal.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É curioso perceber que no decorrer de sua obra C. G. Jung aponta para o termo &#8220;constelação&#8221; de complexos ou de arquétipos, contudo, principalmente nestas obras que tocam a contemporaneidade o autor pontua, mesmo que intuitivamente, a questão da “possessão” – não metafísica, mas trazendo as ideias da mentalidade primitiva (participação mística) de Lévy-Bhurl, apesar de muitos autores contemporâneos embebidos pelo racionalismo o desconsideraram. Já, C. Jung apropriou-se de suas ideias para demonstrar não uma mentalidade primitiva já superada, como muitos diriam, mas para entender, psico-antropologicamente, o&nbsp;<em>modus operandi&nbsp;</em>de uma recém-nascida consciência sentindo fortemente ainda a interligação do Inconsciente Coletivo e Pessoal, e que dependendo da possessão arquetípica poderia colocar os indivíduos afetados tanto em um contexto de poder como o da Alemanha Nazista como um de amor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na psicologia analítica, a princípio, pode-se entender que&nbsp;indivíduos apaixonados<strong>&nbsp;</strong>acabam por projetar a/o anima/animus um no outro, criando variadas expectativas. Este é o primeiro e talvez inevitável passo no apaixonar-se. É o momento em que aquela paixão inicial, como&nbsp;<em>pathos,</em>&nbsp;ou melhor, o “sofrer” e o “passar por&#8221; inicia-se e desfaz-se rapidamente.&nbsp;É&nbsp;como se a perfeição se apresentasse para o apaixonado e, repentinamente, numa quarta-feira comum, o parceiro aparecesse inteiramente imperfeito e irreconhecível. Este é o momento exato em que os apaixonados são colocados diante das portas de Hades, a fim de sair das expectativas mundanas e buscar a profundidade. Hoje, é neste momento em que os relacionamentos (amizades, namoros e casamentos) são abandonados, pois para mergulhar na profundidade é necessário abandonar tudo o que a humanidade contemporânea está extremamente agarrada: as personas, as redes sociais e suas plastificações.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se os apaixonados abandonam tais cascas e vão em frente, eles encontrarão discussões, brigas e momentos de infelicidade. O olhar para dentro – para as explosões, implosões, expectativas e perspectivas egóicas – é crucial, pois descer às profundezas é confrontar-se com a sombra pessoal e coletiva. Como filho de uma época, no meu caso, é necessário me defrontar com o patriarcado e o machismo incrustado no meu ser, a fim de ganhar autonomia sobre ele. A luta é, portanto, coletiva e pessoal, para dentro e para fora, e por isso um casamento sempre é duplo: com a pessoa escolhida e a/o anima/animus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Inversamente aos contos da Disney e aos filmes de comédia romântica, Eros revela-se somente quando Psiquê retorna do submundo de Hades e petrifica-se. Ou seja, é somente entregando-se às profundezas de todos os mundos, sofrer/passar por elas, queimar as mãos e arriscar tudo que o amor se revelará verdadeiramente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em síntese, como afirma Jung (2013), o amor “custa caro e nunca deveríamos torná-lo barato”. Parece que a contemporaneidade ainda está negociando com o amor oferecendo imagens midiáticas, personas, dinheiro, etc. Não importa a quantidade destas sejam ofertadas, o amor nunca se revelará enquanto o primeiro passo à profundidade e à entrega não for dado, ou seja, o amor custa amor e nada mais e por isso é tão caro.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS:&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">BALESTRINI, J.&nbsp;<em>Sexo Casual ou Fricção Genital?&nbsp;</em>2019<em>.&nbsp;</em>Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/sexo-casual-ou-friccao-genital">https://www.ijep.com.br/artigos/show/sexo-casual-ou-friccao-genital</a>&nbsp;Acessado em: 04 nov. 2020.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">CONTRERA, M.&nbsp;<em>Mediosfera</em>. Porto Alegre: 2017.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">EMERY, L. F., MUISE, A., DIX, E. L., &amp; Le, B. Can You Tell That I’m in a Relationship? Attachment and Relationship Visibility on Facebook.&nbsp;<em>Personality and Social Psychology Bulletin,&nbsp;</em>40(11), 1466–1479. 2014.&nbsp;<a href="https://doi.org/10.1177/0146167214549944">https://doi.org/10.1177/0146167214549944</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<em>Aspectos do Drama Contemporâneo.&nbsp;</em>Petrópolis: Vozes, 2012.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<em>Civilização em Transição.&nbsp;</em>Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, W.&nbsp;<em>Crise e Depressão na Era do Plástico</em>. 2019. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/crise-e-depressao-na-era-do-plastico">https://www.ijep.com.br/artigos/show/crise-e-depressao-na-era-do-plastico</a>Acessado em: 04 nov. 2020.&nbsp;</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Leonardo Torres&nbsp;</em></strong></h4>
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		<item>
		<title>Relacionamentos afetivos e sexualidade: expressão e contenção do amor</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/relacionamentos-afetivos-e-sexualidade-expressao-e-contencao-do-amor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2020 19:12:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Complexa é a humanidade e complexos são os relacionamentos afetivos e sexuais, razão pela qual não podemos compreendê-los sob um único enfoque.&#160; De um modo geral, a sexualidade pode ser compreendida sob quatro critérios: biológico, sociocultural, psicológico e espiritual. Segundo Cavalcante &#38; Cavalcante (2006), no aspecto biológico, o indivíduo pode ser considerado disfuncional se as [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Complexa é a humanidade e complexos são os relacionamentos afetivos e sexuais, razão pela qual não podemos compreendê-los sob um único enfoque.&nbsp; De um modo geral, a sexualidade pode ser compreendida sob quatro critérios: biológico, sociocultural, psicológico e espiritual. Segundo Cavalcante &amp; Cavalcante (2006), no aspecto biológico, o indivíduo pode ser considerado disfuncional se as diferentes reações fisiológicas estão bloqueadas. O conceito de desvio reflete o pensamento num grupo cultural e em determinado momento, levando em consideração que a sociedade é dinâmica, sendo que o “normal” hoje, pode não ser mais amanhã, portanto reflete o olhar sociocultural. No aspecto psicológico, entra em cena a adequação, envolvendo a visão particular de cada um sobre a satisfação do seu comportamento sexual e com a do seu parceiro. As disfunções, os desvios e as inadequações, independente da identidade de gênero ou da orientação sexual, podem ser compreendidas e ressignificadas, para que influenciem de forma saudável nos relacionamentos. Carl Gustav Jung, contribui significativamente com sua teoria para compreensão do critério espiritual ao afirmar que ele está relacionado ao&nbsp;transcendente da alma, que envolve a ampliação da consciência para tornar-se si mesmo, permitindo o encontro do ego com o Self. Segundo o autor,&nbsp;“vivemos protegidos por nossas muralhas racionalistas contra a eternidade da natureza” (2013, v. 8/2, par. 739) e, podemos romper com as muralhas que nos separam da natureza que há em nós.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O mundo contemporâneo é marcado pelo patriarcado e os&nbsp;meios cultural e social interferem na nossa formação. Durante muito tempo, nascer homem ou mulher fez a diferença. As famílias torciam para que o primeiro filho do casal fosse do sexo masculino e, ao nascer uma menina, alguns homens diziam “ter fraquejado”. E assim se propagou uma jornada de uma cultura machista, que incentivou o rapaz “ser pegador”, em busca de prazer e, a moça “preservada” até o casamento e sem permissão para sentir prazer. &nbsp;Neste sentido, a interferência da religião e da tradição foi grande, disseminando a ideia de castigo e de culpa da mulher. Com o nascimento dos filhos, também se preservava a continuidade da espécie e da família, lugar sagrado com uniões indissolúveis, apesar de para alguns representar sofrimento, até a separação por morte física. Da mesma forma, muitos valores enaltecedores foram transmitidos pelo inconsciente coletivo. Essas vivências fazem parte da nossa transgeracionalidade, em forma de heranças arquetípicas nas diferentes dimensões e que aos poucos mudam de configuração.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De um modo geral, ao falarmos de sexualidade podemos percorrer um caminho longo, que começa na infância. Pesquisadores nos mostram que o bebê, na fase oral em que leva tudo à boca, sente-se no paraíso ao sugar o leite da mãe.&nbsp; A criança, conforme vai crescendo, amplia sua capacidade de percepções, desperta para as sensações prazerosas, principalmente no controle do esfíncter anal e genital, tornando-se cada vez mais curiosa. Na puberdade, com uma carga hormonal intensa, a menina vivencia a menarca e o menino a ejaculação. Os adolescentes, fisicamente com o corpo pronto para serem inseridos no mundo adulto, geralmente têm suas primeiras experiências sexuais, dentro ou fora de relacionamentos amorosos. Alguns adultos vivem a sexualidade livremente ou optam em estabelecerem vínculos familiares, escolhendo a vida conjugal e a procriação. Já na metade da vida, além da vivência sexual, surgem as experiências com o climatério e andropausa, que podem ser brandas ou intensas. Na velhice, ocorrem muitas transformações, porém nada impede que a sexualidade seja vivida, pois ela nos acompanha vida afora, com momentos de ascensão e declínio, envolvendo o amor e as diferentes formas de amar. Neste sentido, o amor se expressa em canções, poemas, presentes e presenças. Quem não se encanta com Marisa Monte, expressando a grandeza do amor em&nbsp;<em>Amor I Love You?&nbsp;</em>&nbsp;Com leveza de alma, ela canta:&nbsp;“Deixa eu dizer que te amo, deixa eu pensar em você, isso me acalma, me acolhe a alma, isso me ajuda a viver”. Igualmente, o cantor Roberto Carlos, encantando multidões com a música&nbsp;<em>Como é Grande o Meu Amor Por Você</em>. Da mesma forma,&nbsp;<a href="https://www.pensador.com/autor/carlos_drummond_de_andrade/">Carlos Drummond de Andrade</a>, exaltou o amor em versos: “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Alguns estudiosos em relacionamentos, afirmam que as diferenças cerebrais explicam tantas divergências.&nbsp;John Gray, no livro&nbsp;<em>Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus,&nbsp;</em>trouxe a ideia de que os homens só utilizam um hemisfério cerebral ao executarem atividades,&nbsp;fazendo uma coisa de cada vez&nbsp;e, as mulheres conseguem utilizar os dois lados,&nbsp;tendo a capacidade de exercerem várias atividades ao mesmo tempo. Algumas dessas características aparecem em situações corriqueiras. A neurociência, por sua vez, apresenta-nos estudos sobre a diferença de conexões que ocorrem no cérebro de homens e mulheres, alertando-nos de que as diferenças anatômicas não são determinantes e também não são suficientes para explicar as diferenças de comportamento, que em grande parte se devem à influência cultural. Jung contribuiu com estudos e limitou-se a tratar do casamento como problema psicológico: “Como relacionamento psíquico o matrimônio é algo de complicado, sendo constituído por uma série de dados subjetivos e objetivos que em parte são de natureza muito heterogênea” (2013, p.324).&nbsp; Cientificamente comprovadas ou não, sabemos que as diferenças existem e interferem nos relacionamentos.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Existem diferentes tipos de amor e os mais conhecidos são três:&nbsp;<em>Philos, Eros e Ágape</em>. O&nbsp;<em>Amor Philos</em>&nbsp;é um amor fraternal, é um sentimento de simpatia natural, afinidade mental e cultural com os amigos e familiares. O&nbsp;<em>Amor Eros</em>&nbsp;expressa o amor com paixão e romantismo, podendo envolver o desejo passional, sensual e sexual, que é estimulado e vivenciado em diferentes produções criativas: filmes, poesias, músicas e obras de arte (Magaldi Filho, 2014, p. 73-74). &nbsp;A mitologia traz Eros, o anjo da paixão e das afinidades, disparando flechas que incendeiam o coração dos amantes. E Roupa Nova, com a música&nbsp;<em>Todo Azul do Mar</em>, traduziu esse romantismo:&nbsp;“Foi assim como ver o mar, a primeira vez que meus olhos se viram no seu olhar&#8230; Quando eu mergulhei, no azul do mar, sabia que era amor e vinha pra ficar”. Finalmente, o&nbsp;<em>Amor Ágape</em>&nbsp;é desinteressado, puro, genuíno e invencível. É divino, elevado, transcende os sentidos humanos. É aquele que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta” (1Cor 13:4-7). Essa forma de amar vem ao encontro dos versos de Fernando Pessoa: “Amo como o amor ama. Não sei razão pra amar-te mais que amar-te. Que queres que te diga mais que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?” Pensando no aspecto alquímico dos&nbsp;relacionamentos, podemos imaginar que o ideal é harmonizar os três tipos de amor. Uma dose de cada um e na medida certa, torna a experiência do amor em plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante do sofrimento instaurado a partir de crenças enraizadas, principalmente pela dificuldade em compreendermos as diferenças existentes entre o masculino e feminino, idealizamos um&nbsp;<em>Amor Maior</em>, como cantado por Jota Quest: “É preciso amar direito (&#8230;) Amor de dentro pra fora, amor que eu desconheço”. Para indivíduos centrados no ego, a contenção do amor ocupa grande espaço, acreditando que amar é sinônimo de fraqueza e falta de controle. E como se fosse possível controlarmos alguma coisa&#8230; Vindo ao encontro, Clarice Lispector nos traduziu em forma de poesia sua profundeza de alma: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Para alguns, esse amor nem sempre é possível, com vivências de solidão e&nbsp;dificuldades para encontrarem parceiros que queiram estabelecer relações duradouras, pois foram incentivadas a resolverem seus problemas sozinhos e não desenvolveram a troca, tão necessária na conjugalidade. Essas questões nos permitem pensar na influência do meio social nas relações afetivas, como trouxe Féres-Carneiro (1987), afirmando que a nossa autonomia é incentivada desde cedo, com estímulos para alcançarmos a nossa independência, ouvindo frases como:&nbsp; Faça você! Você constrói seu caminho! Desta forma, os homens são incentivados para serem especialistas nas técnicas de sedução e conquista e, apresentam dificuldades na intimidade com o mundo feminino. As mulheres, apesar da emancipação e da autonomia feminina, conservam o amor romântico, que está fragmentado e, continuam em busca da alma gêmea. Já não prevalecem “para sempre e único”, da mesma forma a entrega total do outro está comprometida com idealizações nem sempre atingíveis.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo Magaldi Filho, a evolução cíclica da mulher estimula a evolução do homem, processo em que o feminino instiga o masculino. O que a mulher busca no homem? O herói que vai salvá-la de algo, o pai que vai protegê-la, o filho que poderá cuidar e o sábio que era unificar os três homens anteriores. O que o homem busca na mulher? A Eva, atraente e sensual, a Maria que irá proporcionar um lar, a Helena que está ao seu lado para o que der e vier e a Sofia, a sábia que irá coordenar as três anteriores. (2014, p. 186-187). Ainda, de acordo com o autor, a evolução tem como base a alteridade que deve incluir o princípio feminino, renegado por muitos anos pelo patriarcado. A mulher sábia transita entre o bom, o belo e o verdadeiro e isso pode assustar o homem: “A mulher tem mais facilidade para lidar com sua feminilidade (&#8230;) Ela muda, agrada e acolhe (o útero acolhe). Em contrapartida, o homem assusta-se: o masculino é assustado e a amedrontado. Por isso, o homem divide, agride e foge” (2014, p. 188). A alquimia do amor envolve a compreensão das diferenças que existem e a expressão do que sentimos, que potencializa o que une o universo masculino e feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A história nos mostra os ideais de casamento em diferentes épocas. No passado, o casamento tinha a função de ligar duas famílias e permitir que elas se perpetuassem. No séc. XVIII, surgiu um novo ideal de casamento: que os cônjuges se amassem. Hoje, é raro pessoas casarem sem desejo e amor. As mulheres em geral procuram mais por uma relação amorosa e os homens almejam constituir uma família. No início da relação, na hora da conquista, mostramos o melhor de nós, mas os conflitos aparecem na convivência: &nbsp;a sobrecarga de um e a folga do outro, investimentos errados, objetos fora do lugar, problemas de saúde, sexo extraconjugal, excesso de bebidas, as dificuldades financeiras, entre outros. Igualmente, a rotina e o cansaço passam a ocupar o espaço da criatividade e os cuidados conosco e com o outro não são mais os mesmos. Passamos a sentir necessidade de termos o nosso espaço e deixamos de investir no outro e na relação. No consultório, utilizo o exemplo simbólico da bolinha de neve, que vai rolando morro abaixo, aumentando de tamanho e ao bater em algo, causa impacto e destruição. E o que fazer para evitar a destruição do relacionamento? A utilização da comunicação assertiva é uma saída. É um caminho mais longo, porém geralmente mais eficaz. Ela envolve paciência, habilidade e escolhas. Ao mesmo tempo, é manifestação de respeito, carinho e amor, tão necessários nos relacionamentos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Difícil falar e citar uma regra geral para tanta complexidade. Assim como cada ser humano, cada história é única. E como trabalhar relações desgastadas? Trabalhando cada caso em particular ou com a psicoterapia de casal, momento em que os conflitos que permeiam controle, cobrança, comparação, culpa e castigo, podem ser integrados.&nbsp;O mundo virtual também nos oferece muitos recursos para aprimorarmos nossa performance sexual. Basta clicarmos e nos deparamos com muitas informações que podem ser funcionais ou não. Vários produtos são oferecidos pelo Sex Shop, que auxiliam no aumento da libido, mas o problema pode ser mais complexo: não reagimos só pelo instinto, necessitamos de essência, somos seres integrais! Ginecologistas e urologistas devem fazer parte da nossa vida. De forma idêntica, o psicólogo e o terapeuta sexual têm um papel fundamental para nos auxiliar na promoção do autoconhecimento e na vivência conjugal.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; É nítido que o governo, a religião e a família continuam despreparadas, transmitindo uma visão distorcida da sexualidade saudável. Os tempos mudaram, as possibilidades de vivermos a nossa vida sexual também, porém os valores transmitidos de geração em geração se perpetuam negativamente em algumas sociedades, a ponto de ainda ser comum homem bater em mulher e, consequentemente muitos enquadrados na Lei Maria da Penha. Enquanto isso, muitas mulheres ainda permanecem em silêncio, são violentadas, abusadas e mortas, índice comprovado pelas estatísticas. O sentimento de culpa por parte da mulher e posse por parte do homem prevalecem, sendo comum ouvirmos de quem comete tais crimes “se não for minha, não será de mais ninguém”. Mata-se em nome do amor! Paixão patológica, disfarçada de amor, que invade e domina, causadora de muito sofrimento. Neste contexto, homens também são agredidos e os índices de violência para com eles estão aumentando gradativamente.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com o surgimento dos conflitos, percebem-se diferentes investimentos para dar um novo sentido e significado às crises oriundas da convivência. Permanecer juntos “até que a morte os separe” é o que que se ouve nas cerimônias de casamento. E quantas mortes ocorrem, antes da morte física. Morte do encantamento, da confiança e de sonhar juntos!&nbsp;Em alguns casos, mantêm-se o casamento para não abalar o desenvolvimento emocional dos filhos, sendo que evitar brigas constantes e não conviver na mesma casa, faria menos mal para eles. É desafiador conjugar duas individualidades, assumir regras que envolvem um sistema de trocas, manter a relação prazerosa e útil. Quando o encantamento acaba, a relação acaba.&nbsp;Um indivíduo é a extensão do outro, ao mesmo tempo é diferenciado do outro. Cada um precisa ter seu espaço e o relacionamento precisa corresponder às expectativas de cada um dos envolvidos.&nbsp;De acordo com a autora Maria Helena M. Guerra, Jung também se confrontou com as dores do amor: “Por um lado, a necessidade de ser fiel ao que vivia, às suas emoções e aos seus sentimentos; por outro, o desejo de permanecer adaptado à sociedade, de manter sua persona, de reconhecer-se como sempre fora, valorizando a razão, a coerência, a ciência e acreditando ter o domínio de sua alma. Esta foi a grande tensão, o jogo de forças entre o espírito das profundezas e o espírito da época. (2011, p. 60).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conviver gera crises e quando esgotam as possibilidades de harmonia, a separação é a melhor solução, podendo ter efeitos positivos, como a ressignificação dos padrões de relacionamento. É dolorido ver o outro morrer em vida dentro de nós e nós morrermos no outro. São escolhas doloridas, que envolvem um antagonismo e um processo de luto a ser elaborado, ao mesmo tempo que as funções parentais devem ser asseguradas e mantidas. Hoje, deparamo-nos com a elevação do grau de exigências nos relacionamentos afetivos e na vivência da sexualidade, que conjuga o prazer e a procriação. Como vivemos cercados de muitas opções, as relações também se tornam descartáveis, principalmente com a falta de confiança, paciência e persistência. É necessário transitarmos também na dimensão espiritual, qualificarmos as relações e potencializarmos o que une. &nbsp;Neste sentido, trago a fala de Rubem Alves: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.” A convivência envolve silêncios e ruídos, que podem ser favoráveis à sua manutenção ou ao seu término. Relacionamentos envolvem a expressão do amor com ciclos saudáveis de prazer, simbolicamente representados pela integração do sol, da lua e do barulho da chuva. E na contenção do amor, perdemos essa preciosidade de vivermos a plenitude do amor.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;Claci Maria Strieder, analista em formação pelo Ijep.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leituras de apoio:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ALVES, Rubem&nbsp;<a href="https://citacoes.in/citacoes-de-vida/">https://citacoes.in/citacoes-de-vida/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">ANDRADE, Carlos Drummond.&nbsp;<em>Amar se aprende amando</em>. São Paulo:&nbsp;<a href="https://www.companhiadasletras.com.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Companhia das Letras</a>, 2018.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">BÍBLIA De&nbsp;<em>Jerusalém</em>. São Paulo: Paulus, 2003.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, J. –&nbsp;<em>Mitologia Grega Vol. 1</em>, Petrópolis: Vozes, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAVALCANTI, R. &amp; CAVALCANTI, M.&nbsp;<em>Tratamento clínico das inadequações sexuais</em>. 3. Ed. São Paulo: Roca, 2006.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">FÉRES-CARNEIRO, T.&nbsp;<em>Aliança e Sexualidade no casamento e recasamento contemporâneo.</em>&nbsp;Psicologia: Teoria e Pesquisa, 3, 250-261, Porto Alegre, 1987.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;_____________&nbsp;<em>Casamento contemporâneo:&nbsp;</em>o difícil convívio da individualidade com a conjugalidade. Psicologia: Reflexão e Crítica, vol.11, nº2. Porto Alegre, 1998.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRAY, John.&nbsp;&nbsp;<em>Orácúlo de</em>&nbsp;<em>Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus.&nbsp;</em>1ª Ed. São Paulo: Editora Pensamento, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUERRA, Maria Helena R. M.&nbsp;<em>O livro vermelho: o drama de amor de C. G. Jung.</em>&nbsp;São Paulo: Linear B, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<em>A natureza da psique.&nbsp;</em>14ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LISPECTOR, Clarice.&nbsp;<em>Uma aprendizagem ou O Livro dos prazeres.&nbsp;</em>Rio de Janeiro:&nbsp;Editora Rocco,<strong>&nbsp;</strong>1998</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar.&nbsp;<em>Dinheiro, saúde e sagrado</em>: interfaces culturais, econômicas e religiosas à luz da psicologia analítica. 2ª edição – São Paulo: Eleva Cultural, 2014.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, Fernando.&nbsp;<em>Livro do desassossego</em>. São Paulo: Brasiliense, 1989.&nbsp;</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder</em></strong></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>Amor na perspectiva da psicologia analítica: príncipes em sapos; belas em feras</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/amor-na-perspectiva-da-psicologia-analitica-principes-em-sapos-belas-em-feras/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Jun 2019 11:55:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Tenho uma colega que, em certa época, trabalhou com revisão de romances populares. Segundo ela, os pequenos livros eram planejados numa estrutura padrão. No início havia sempre algo que impedia que a heroína gostasse do protagonista, em geral apresentado com qualidades, como beleza física, nobreza de caráter e prosperidade econômica &#8211; atributos devidamente evidenciados num cenário exótico. Lá pelo terceiro capítulo havia uma guinada que levava a um relacionamento sexual, não raro tórrido. Ao redor do quarto ou quinto capítulo, outro acontecimento levava a jovem a conhecer melhor o herói e até aceitar um relacionamento, muitas vezes &#8220;contra sua vontade&#8221; -algo como casar com o moço bom, bonito e rico para salvar um pai da falência. Próximo do sétimo ou oitavo capítulo, havia um&nbsp;turning point&nbsp;na história que levava a mocinha a descobrir que seu amor verdadeiro estava ali, ao seu lado. A partir daí era seguir o caminho para o final feliz &#8211; condição&nbsp;sine qua non, afinal a consumidora comprava o livro justamente pela garantia de que o desfecho não a decepcionaria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E minha colega ia revisando as histórias, que de novo só traziam o local onde se desenrolavam os fatos e os nomes dos protagonistas. Até que certo dia lá estava ela a revisar o romance do mês quando notou que já havia passado da metade do livro e nenhum dos conflitos previsíveis da história havia acontecido.&nbsp; Ela começou a revisar o sétimo capítulo e, qual não foi sua surpresa ao ler as palavras iniciais: &#8220;E, então, Steve mudou&#8221;. O(a) autor(a), provavelmente, havia se esquecido de articular a trama, já tinha avançado por uns três capítulos e talvez não quisesse jogar fora o material, decidindo então &#8220;forçar&#8221; o mocinho a uma guinada súbita, sem maiores explicações, apenas para manter a estrutura desse tipo de romance e agradar sua leitora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É óbvio que guinadas nos scripts amorosos&nbsp;(AMÉLIO; MARTINEZ, 2005)eventualmente acontecem na vida, mas embora pareçam abruptas aos olhos dos demais o fato é que elas foram cozinhadas no fogo lento dos processos psíquicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há vários fenômenos envolvidos nesse processo de estruturação do ego da criança &#8211; entendido no contexto junguiano como um complexo, uma carga emocional constelada ao redor do núcleo formado por uma imagem arquetípica a partir das experiências pessoais de cada indivíduo. Na criança, a representação do feminino e do masculino é formada a partir da mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O menino terá o modelo do feminino (anima) formado a partir da relação consciente com o ego da mãe ou a figura que exercer este papel de maternagem. Por isso, o menino tem uma figura de feminino bem definida &#8211; a anima é uma unidade. Daí a fantasia da &#8220;musa&#8221;: ao entrar na adolescência, o jovem sabe que tipo de mulher busca com precisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso da menina, a representação do masculino (animus) é oriunda do inconsciente da mãe (animus) ou de quem exercer este papel, sendo que Jung dizia que não se tratava de uma figura única, mas de uma legião. Não há, portanto, a fantasia de um &#8220;muso&#8221;. Assim, ao entrar na adolescência, a jovem não tem um modelo de homem tão definido, mas pode se apaixonar por várias facetas do masculino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas imagens arquetípicas &#8211; que serão essenciais no relacionamento amoroso &#8211; vão sendo construídas a partir da experiência que a criança tem com os pais e em como eles reagem em suas relações e com seu entorno. No caso de ter se sentido abandonada, por exemplo, a criança reagirá como se o mundo fosse ruim. Bem cuidada, como se o mundo fosse um lugar bom, onde se pode viver sem medo. É óbvio que a criança não está numa bolha, mas inserida num contexto social. De toda forma, tratam-se de interpretações. O risco é o de a psique do adulto permanecer no estágio infantil, representada na criança que espera que haja alguém sempre pronta a estender a mão para apoiá-la em caso de queda, para satisfazer suas vontades e tomar conta dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As representações ligadas ao universo parental começam a ser revistas a partir da puberdade, quando gradualmente começam a ocorrer as primeiras vivências amorosas. No começo, em geral, os relacionamentos amorosos ainda são platônicos, ganhando uma materialidade com o passar dos anos, em geral de acordo com o tempo histórico e social no qual o(a) jovem está inserido(a).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O interessante é que as relações amorosas &#8211; parte integrante desta busca pelo sentido que se dá por meio da experimentação consciente da vida &#8211; é como um jogo de dois tempos. No primeiro tempo, vamos dizer dos 12 até o redor dos 40 anos, o foco está na formação da identidade, passando pela construção dos corpos físico, emocional e mental, que são ancorados nas esferas social e histórica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo dessa primeira fase da idade adulta, o(a) jovem em tese começa a testar suas asas para se descolar da família de origem e consolidar seu próprio núcleo familiar; conquista seu espaço no mundo profissional, alguns até conseguem usar&nbsp; seus recursos extras, seja de tempo ou econômicos, para apoiar serviços sociais. Nessa fase, o relacionamento amoroso se alimenta das sombras projetadas inconscientemente no outro, nas habilidades nubladas, nos pontos não desenvolvidos, enfim, nos aspectos ainda desconhecidos do jovem que serão projetados como numa tela no parceiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A analista junguiana alemã Marie-Louise von Franz (1915-1998) explica:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Filhos ou filhas que vivenciaram o pai como autoritário (quer ele efetivamente o tenha sido ou não) apresentam a tendência de projetar sobre todas as autoridades paternas &#8211; como um professor, um pastor, um médico, um chefe, o Estado e até mesmo a imagem de Deus &#8211; a propriedade negativa &#8220;autoritária&#8221; e de reagir diante delas de maneira correspondentemente defensiva&#8221;. Aquilo que é projetado, contudo, quando examinado mais de perto, não é de modo nenhum apenas uma imagem da lembrança do pai, mas representa a tendência autoritária do próprio filho ou filha&nbsp;(FRANZ, 2011).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o analista junguiano estadunidense John A. Stanford (1929-2005), quando um homem e uma mulher projetam respectivamente sua anima e seu animus um no outro, ocorre o processo de fascinação mútua conhecido como &#8220;ficar apaixonado&#8221;&nbsp;(STANFORD, 1980).</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/admin/jscripts/tiny_mce3/plugins/ajaxfilemanager/upload_files/quat%C3%A9rnio.jpg" alt=""/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Figura&nbsp;1: O Esquema de projeção proposto por Stanford (1980)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nada como um dia após o outro e a intensa convivência para o príncipe encantado virar sapo, ou a princesa virar rã. A projeção que uniu o casal-até-que-a-morte-nos-separe cai por terra e, por trás dela, surge o outro como ele é &#8211; ou sempre foi.&nbsp; Como uma projeção só pode ser trocada por outra, não é difícil neste momento ocorrer o &#8220;apaixonamento&#8221; por um(a) terceiro(a), tela nova no qual a projeção pode novamente ser feita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais a pessoa se conhece, em tese menos projetaria seus conteúdos inconscientes nos outros, uma vez que estaria em processo de tomar consciência desses conteúdos desconhecidos em si mesma. Von Franz chega a apontar os cinco estágios desse jogo de projeção: 1) a pessoa se convence de que a experiência interior e inconsciente é uma realidade externa; 2) ocorre a percepção de que há uma discrepância entre a imagem projetada e a realidade; 3) a pessoa reconhece esta discrepância; 4) o indivíduo reconhece que estava errado; 5) a pessoa passa a buscar o significado dessa projeção em si mesmo e não no outro&nbsp;(Von Franz apud HOLLIS, 2015, p. 47).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caso a pessoa consiga integrar suas sombras por meio de processos psicoterápicos, ela mudará, ainda que gradualmente. Pode ocorrer, neste caso, de seu parceiro resistir à mudança, levando ao conflito e, às vezes, ao fim da relação.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para o analista junguiano estadunidense James Hollis, são dois os desafios da meia idade, que ele chama de &#8220;caminho do meio&#8221;. O primeiro é o encontro com a limitação, com o enfraquecimento e com a mortalidade. Não deixa de ter relação, portanto, com a imagem do trio que tocou Buda e levou-o à saga da iluminação: a noção de que não há como vencer, na materialidade, a velhice, a doença e a morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segunda maior deflação das expectativas da meia-idade, segundo ele, é o encontro com as limitações dos relacionamentos&#8221;&nbsp;(HOLLIS, 2015, p. 47):</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Outro Íntimo que satisfará nossas necessidades, que tomará conta de nós, que sempre estará presente para nos apoiar, é finalmente visto como pessoa comum, como nós mesmos, também necessitada, e que projeta sobre nós expectativas bastante semelhantes às nossas. Os casamentos frequentemente terminam na meia-idade, e uma das principais causas é a enormidade das esperanças infantis que se impõem sobre a frágil estrutura existente entre duas pessoas. Os outros não satisfarão e nem podem satisfazer as necessidades grandiosas da criança interior, de modo que somos deixados, e sentindo-nos abandonados e traídos&nbsp;(HOLLIS, 2015, p. 47).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como ele aponta, a salvação, a cura, não está lá fora. &#8220;A vida tem uma maneira de dissolver as projeções e precisamos, em meio ao desapontamento e ao desconsolo, começar a assumir a responsabilidade pela nossa satisfação&#8221;&nbsp;(HOLLIS, 2015, p. 47).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para o analista junguiano, &#8220;(&#8230;) existe uma excelente pessoa dentro de nós, alguém que mal conhecemos, e que está pronta e disposta a ser a nossa constante companheira (HOLLIS, 2015, p. 47-48). Uma possível analogia, talvez, fosse a protagonista de&nbsp;A Bela e a Fera,&nbsp;que entrou recentemente em cartaz na versão cinematográfica que traz no papel principal a atriz inglesa Emma Thompson &#8211; mais conhecida como a Hermione da saga&nbsp;Harry Potter.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escrita em 1740 pela francesa Gabrielle-Suzanne Barbot, Dama de Villeneuve, e adaptada em 1756 por Jeanne-Marie LePrince de Beaumont,&nbsp;a história também é conhecida pelo título&nbsp;A Bela e o Monstro. A essência da obra é a de que a aceitação do outro como ele realmente é faz com que o parceiro amoroso revele-se melhor do que aparentemente é ou parecia ser, pelo menos aos olhos da companheira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por extensão, seria apenas quando abandonamos as expectativas e birras da criança que há em nós e que aceitamos a responsabilidade de crescer e buscar em nós mesmos o significado que move nossa vida, confiando que nossa psique nos mostrará o caminho, que poderíamos finalmente tentar viver de uma forma madura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não significa que tudo será perfeito. Mas, ao menos, que não apontaremos um dedo para o outro quando os demais quatro dedos da mão em forma de arma apontam para nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a cortina do palco das projeções cai, o outro pode passar de vilão a ser o aliado companheiro &#8211; com seus defeitos inclusos &#8211; dessa maravilhosa jornada rumo ao mistério e ao desconhecido de que é feita a vida, que só pode ser experenciada por meio do assombro, da gratidão, da reverência &#8211; e, claro, de muita tolerância e paciência. Sim, &#8220;e Steve mudou&#8221; da água para o vinho, de uma hora para outra, é uma fantasia que acontece apenas nos romances escritos com linhas mal alinhavadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra. Monica Martinez, analista em formação do IJEP &#8211; Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, especialista em Psicologia Junguiana, jornalista, escritora, doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pós-doutorado pela Umesp. Realizou estágio pós-doutoral na Universidade do Texas em Austin. Atende na Vila Madalena, zona Oeste de São Paulo. Email:&nbsp;<a href="mailto:analisejunguianasp@gmail.com">analisejunguianasp@gmail.com</a>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">AMÉLIO, A.; MARTINEZ, M.&nbsp;Para viver um grande amor. São Paulo: Gente, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, M.-L. VONZ.&nbsp;Psicoterapia. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, J.&nbsp;A passagem do meio: da miséria ao significado da meia-idade. 11. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">STANFORD, J. A.&nbsp;The invisible partners: how the male and female in each of us affects our relationships. New Jersey: Paulist Press, 1980.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Monica Martinez</em></strong></h4>
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