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	<title>Arquivos contágio psíquico - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Fri, 05 Dec 2025 13:26:48 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos contágio psíquico - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Epidemia psíquica e sombra coletiva: uma leitura junguiana da violência policial no RJ</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/epidemia-psiquica-e-sombra-coletiva-violencia-policial-no-rio-de-janeiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Pessanha Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 14:33:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[epidemia psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por que cenas de morte e violência são recebidas com alívio e não com horror pela população? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça? Neste artigo, eu analiso o recente episódio da violência policial no Rio de Janeiro, que tirou a vida de mais de 120 pessoas, pela lente da psicologia analítica. O objetivo é entender o que está por trás da naturalização da violência no Brasil — e o que podemos fazer para romper esse ciclo.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Por que cenas de morte e violência são recebidas com alívio e não com horror pela população? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça? Neste artigo, eu analiso o recente episódio da violência policial no Rio de Janeiro, que tirou a vida de mais de 120 pessoas, pela lente da psicologia analítica. O objetivo é entender o que está por trás da naturalização da violência no Brasil — e o que podemos fazer para romper esse ciclo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dia-25-de-outubro-de-2025-rio-de-janeiro-complexo-da-penha-e-do-alemao-duas-comunidades-altamente-populosas-na-cidade-e-dominadas-por-uma-violenta-faccao-criminosa" style="font-size:19px">Dia 25 de outubro de 2025, Rio de Janeiro, Complexo da Penha e do Alemão &#8211; duas comunidades altamente populosas na cidade e dominadas por uma violenta facção criminosa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Neste dia, uma megaoperação policial deixou mais de uma centena de mortos. Na manhã seguinte, os moradores da comunidade, entre homens, mulheres e até mesmo crianças entraram na mata e resgataram mais de 60 pessoas mortas. A cena dos corpos enfileirados no chão, cobertos de sangue e com mães e mulheres chorando abraçadas a eles não sai da minha cabeça. Sem dúvida nenhuma, foi uma das cenas mais aterrorizantes que vi em toda minha vida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A violenta operação policial, que resultou nessas mortes com características de execução policial, expôs novamente uma ferida simbólica da sociedade brasileira: a <strong>naturalização da violência e a aprovação popular de ações letais </strong>conduzidas pelo Estado. Segundo pesquisa AtlasIntel, divulgada pelo jornal <em>Valor Econômico</em>,<strong> 55% dos brasileiros — e 62,2% dos cariocas — afirmaram apoiar a operação</strong>.&nbsp; O dado, mais do que estatístico, é sintoma de um <strong>padrão psíquico coletivo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Por que cenas de morte e brutalidade são recebidas com alívio</strong> <strong>e não com horror? Por que as pessoas não se sensibilizam com as imagens dos corpos resgatados por moradores e expostos em local público? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça?</strong></p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-o-poder-do-inconsciente-coletivo"><a></a><strong>O poder do inconsciente coletivo</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para a psicologia analítica de Carl Gustav Jung os fenômenos sociais não se explicam apenas por fatores racionais ou políticos, mas também por forças simbólicas, arquetípicas e inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além de todo o repertório apreendido a partir de experiências pessoais e toda a gama de conteúdos do inconsciente que nunca tiveram energia psíquica para alcançar a consciência, há uma camada do inconsciente, mais profunda, a qual Jung chamou de <strong>inconsciente coletivo</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-inconsciente-coletivo-e-o-que-nos-faz-igual-a-toda-humanidade" style="font-size:19px">Segundo Jung, o inconsciente coletivo é o que nos faz igual a toda humanidade.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Eu optei pelo termo ‘coletivo’ pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal; isto é, contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são<em>cum grano salis</em> os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo, portanto, um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo.</p><cite>JUNG, 2012, OC 9/1, §3</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A existência do inconsciente coletivo nos mostra que a consciência individual não é totalmente livre, neutra ou autônoma. Pelo contrário: ela é fortemente influenciada por fatores herdados e também pelas condições do ambiente em que vivemos, ou seja, do inconsciente coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">As estruturas que compõem o inconsciente coletivo, Jung denominou-as inicialmente de “imagens primordiais” para em seguida chamá-las de arquétipos e instintos. Para a análise do fenômeno em questão, vamos nos ater aqui apenas ao conceito de arquétipo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Arquétipos</strong> são imagens universais que moldam a experiência humana. Existe um arquétipo para cada situação típica da vida. As repetições destas situações ficam gravadas no inconsciente e quando vivemos novamente essas situações, agimos de acordo com a memória que está gravada pelos arquétipos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica-esse-fenomeno" style="font-size:19px">Jung explica esse fenômeno:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Como fatores que influenciam o comportamento humano, os arquétipos desempenham um papel em nada desprezível. É principalmente mediante o processo de identificação que os arquétipos atuam alternadamente na personalidade total. Esta atuação se explica pelo fato de que os arquétipos provavelmente representam situações tipificadas da vida.</p><cite>JUNG, 2013,OC 8/2, §254</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando constelados por crises, medos ou tensões sociais, esses arquétipos assumem formas culturais específicas e podem dominar o comportamento coletivo — um processo que Jung descreveu como <strong>possessão arquetípica</strong>. Este termo é usado para descrever quando a consciência é tomada por um conteúdo inconsciente, através da sombra expressa pela voz dos complexos.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-o-complexo-cultural-da-violencia-redentora"><a></a><strong>O complexo cultural da violência redentora</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A violência policial no Rio de Janeiro, que já é considerada um dos maiores episódios de violações de direitos humanos da história do país, e a aprovação da ação do Estado pela população pode ser compreendida como a constelação de um <strong>complexo cultural da violência redentora</strong> — um padrão emocional e simbólico que associa o uso da força à eliminação do mal. Trata-se de um complexo, alimentado por séculos de desigualdade, escravidão, autoritarismo e exclusão social. Sua narrativa central é simples: “o mal precisa ser eliminado pela força”. Nesse imaginário, o Estado armado é o herói que vence o inimigo (o bandido, o favelado, o marginal). Este tipo de complexo cultural é constelado sempre que a sociedade sente medo e impotência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-o-e-um-complexo-cultural" style="font-size:19px">Mas o que o é um <strong>complexo cultural</strong>?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Os autores&nbsp; Samuel Kimbles e Thomas Singer criaram a teoria dos Complexos Culturais a partir de uma leitura contemporânea da teoria dos complexos de Jung. Segundo os autores, o complexo cultural é a forma pela qual crenças e emoções profundamente arraigadas atuam tanto na vida de um grupo quanto na psique individual, servindo como mediação entre o sujeito e sua coletividade — seja ela uma comunidade, uma nação ou uma cultura específica (apud Cambray e Carter, 2020, p. 271). Portanto, podemos dizer que os complexos culturais também atuam de forma autônoma, influenciando o inconsciente coletivo do grupo, ao mesmo tempo que é influenciado pelo indivíduo. Esses complexos são constelados pelo <strong>contágio psíquico</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Quando o afeto coletivo domina o indivíduo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir deste triste e violento episódio podemos ver que foi constelado na sociedade, ou seja, emergiram do inconsciente coletivo, algumas emoções arquetípicas, tais como medo, raiva, desejo de vingança e de justiça. Estas emoções, como são coletivas, podem ser contagiosas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-explica-jung" style="font-size:19px">Como explica Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo é ativado, ninguém mais é a mesma pessoa.</p><cite>JUNG, 2013, OC 18/1, §93</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O processo pelo qual emoções, ideias e impulsos inconscientes se espalham entre indivíduos, criando uma identificação coletiva inconsciente é chamado de <strong>contágio psíquico.</strong> Nas redes sociais, esse contágio se intensifica. O indivíduo, tomado por esse afeto coletivo, acredita estar pensando com a razão, quando na verdade está identificado com um conteúdo inconsciente. Ele passa de sujeito autônomo para mera massa de manobra política e social.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-do-pessoal-para-o-coletivo"><a></a><strong>Do pessoal para o coletivo</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Mas qual mecanismo psíquico que conecta as pessoas ao complexo cultural? Essa identificação pode ser explicada e entendida a partir do complexo pessoal. Cada pessoa possui seus <strong>complexos</strong>, que são conteúdos inconscientes, carregados de afetos, cujos núcleos emocionais são formados por experiências de vida. De acordo com Jung, os complexos são autônomos, podendo atuar sobre a consciência e exercer influência (inconsciente) nas decisões e comportamentos dos indivíduos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um <em>corpus alienum</em> (corpo estranho), animado de vida própria.</p><cite>JUNG, 2013, OC 8/2, § 201</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-sua-obra-jung-chega-a-dizer-que-os-complexos-se-comportam-como-personalidades-secundarias-ou-parciais-dotadas-de-vida-espiritual-autonoma-oc-11-21" style="font-size:19px">Em sua obra, Jung chega a dizer que os complexos “se comportam como personalidades secundárias ou parciais, dotadas de vida espiritual autônoma&#8221; (OC/11, §21).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>O complexo não é bom, nem ruim, mas sua função é nos mostrar um incômodo inconsciente</strong>. Sendo assim, podemos dizer que os complexos pessoais dos indivíduos que não se sensibilizaram com as imagens das vítimas da megaoperação policial no Rio de Janeiro ressoam com o complexo cultural da violência redentora quando há afinidade afetiva no campo pessoal. Quem cresceu sob um pai autoritário ou ausente tende a admirar o Estado punitivo; quem sentiu impotência ou humilhação por sua condição social encontra na violência uma forma de compensação; e quem teme perder o controle da própria vida projeta o mal no outro, sentindo alívio quando esse outro é eliminado. Estes são apenas alguns exemplos de complexo pessoal, conectados ao complexo cultural constelado. Dessa maneira, o cultural e o pessoal se alimentam mutuamente: a sociedade oferece a narrativa e o indivíduo fornece a emoção reprimida.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-coletiva"><a></a><strong>A sombra coletiva</strong></h3>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sob a luz da psicologia analítica junguiana, a violência aprovada pela maioria pode ser entendida com <strong>a projeção de uma sombra coletiva</strong>. Para Jung, a sombra é composta por partes reprimidas da nossa personalidade. Ele define como “a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal” (OC 7/1, §103) e completa:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará (&#8230;). Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente más, não haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o homem se choca contra as regras consagradas pela tradição. </p><cite>JUNG, 1978 OC 11 /1 §131 e 134</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando não reconhecemos esses aspectos em nós mesmos — ou seja, quando não nos tornamos conscientes de sua existência —, tendemos a negá-los. Integrar a sombra exige justamente o contrário: reconhecer e aceitar essas partes reprimidas, o que implica assumir nossas imperfeições e enfrentar nossos dilemas éticos e morais. Como esse processo é difícil e muitas vezes doloroso, preferimos projetar nos outros essas qualidades incômodas, numa tentativa inconsciente de eliminá-las de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim, transferimos aos outros nossas falhas e responsabilidades, sempre prontos a justificar nossos erros com desculpas externas. Como, por exemplo, esse tipo de justificativa que é tão comum: “Por que você se atrasou? Porque o trânsito estava ruim.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-aquilo-que-e-negado-com-muita-veemencia-se-manifesta-na-mesma-intensidade-e-vai-ganhando-corpo" style="font-size:19px">Tudo aquilo que é negado com muita veemência se manifesta na mesma intensidade e vai ganhando corpo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (OC 7/1, §350) diz “que a sombra personifica o que o indivíduo recusa a reconhecer ou admitir e que, no entanto, sempre se impõe a ele direta ou indiretamente, tais como traços inferiores de caráter ou outras tendências incompatíveis”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ampliando esse conceito para o coletivo, podemos dizer que tudo aquilo que a sociedade nega em si mesma — o ódio, a revolta diante da falta de assistência digna do Estado, a submissão às regras impostas por facções criminosas e a culpa por, de algum modo, participar desse sistema injusto, seja como consumidor de drogas ou como conivente com as desigualdades sociais — é projetado sobre o outro, geralmente o mais vulnerável. O morador da favela, o jovem negro, o “bandido” passam então a encarnar o mal. O extermínio transforma-se em um ritual inconsciente de purificação simbólica — o sacrifício do bode expiatório, tema recorrente nos mitos e na história humana.<strong></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anestesiamento-social"><strong>Anestesiamento social</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O efeito desse cruel mecanismo social é a <strong>dessensibilização</strong> — a perda da empatia. A capacidade de reconhecer e se conectar à ferida do outro é o que nos torna humanos. A exposição contínua a cenas de brutalidade cotidiana produz um anestesiamento social, um embotamento afetivo que transforma o horror em rotina e a violência em espetáculo. Jung descreve esse processo como uma <strong>regressão do ego</strong>, isto é, um retorno a formas mais primitivas de funcionamento psíquico, em que os instintos dominam a consciência. Nesse estado regressivo, o pensamento crítico e a reflexão ética cedem lugar ao desejo de punição, o prazer inconsciente na destruição do outro e a adesão emocional a narrativas violentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung adverte que, quando a consciência perde contato com o inconsciente simbólico, com os mitos, por exemplo, “<strong>cria-se uma consciência desenraizada, que não se orienta pelo passado, uma consciência que&nbsp; sucumbe desamparada a todas as sugestões, tornando-se suscetível praticamente a toda epidemia psíquica</strong>” (OC 9/1, §267).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essa “<strong>epidemia psíquica</strong>” é o que vemos na naturalização da violência. Como já vimos anteriormente, uma espécie de contágio emocional coletivo em que o medo, a raiva e o desejo de vingança passam a dominar o campo social. Assim, a repetição das imagens de morte e de exclusão não apenas banaliza o sofrimento, mas <strong>rebaixa o nível de consciência coletiva</strong>, alimentando a sombra social. A violência que se torna hábito é, no fundo, o sinal de uma psique coletiva adoecida, incapaz de conter ou simbolizar seus impulsos destrutivos. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung via nesses fenômenos não apenas sintomas sociais, mas <strong>avisos do inconsciente coletivo</strong>: quando o humano se desumaniza, é porque a cultura perdeu o vínculo com o eixo do Self. Também chamado de si-mesmo, não é só o centro da consciência, mas também, inclui todo o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-objetivo-do-nosso-desenvolvimento-psicologico-processo-de-individuacao-e-a-realizacao-do-self" style="font-size:19px">Segundo Jung, o objetivo do nosso desenvolvimento psicológico (processo de individuação) é a realização do Self.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para Jung, à medida que nossa psique vai se desenvolvendo e o si-mesmo vai emergindo do inconsciente, o indivíduo passa a se preocupar menos com sua individualidade e mais com o coletivo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contratendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo. As complicações que ocorrem neste estágio já não são conflitos de desejos egoístas, mas dificuldades que concernem à própria pessoa e aos outros. Neste estágio aparecem problemas gerais que ativaram o inconsciente coletivo; eles exigem uma compensação coletiva e não pessoal. É então que podemos constatar que o inconsciente produz conteúdos válidos, não só para o indivíduo, mas para outros: para muitos e talvez para todos.</p><cite>JUNG, OC 7/2, § 275</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-caminho-da-redencao"><strong>O caminho da redenção</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Enquanto continuarmos negando a sombra coletiva, o país seguirá repetindo seus rituais de extermínio — como se a destruição do outro pudesse curar nossas próprias feridas. Mas a violência não redime, apenas se renova. O desafio é imenso e se dá em dois aspectos inseparáveis: o <strong>coletivo</strong>, que exige coragem política e compromisso social, e o <strong>individual</strong>, que demanda autoconhecimento e transformação interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No aspecto coletivo, precisamos enfrentar o que é concreto e visível: a desigualdade que empurra vidas para a margem, o racismo cultural que naturaliza quem deve morrer, a necropolítica que discrimina e criminaliza e o medo que autoriza o Estado a matar em nosso nome. É preciso construir políticas que humanizem — que tratem segurança como direito, não como guerra; que substituam o abandono por cuidado e a vingança por justiça. Exige, acima de tudo, dar educação e oportunidades de trabalho para a população carente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No aspecto individual, o trabalho é mais silencioso e talvez mais difícil: olhar para dentro, reconhecer a própria sombra, admitir o ódio, o medo e a indiferença que habitam em nós. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-lembra-que" style="font-size:19px">Jung nos lembra que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do autoconhecimento, atuando consequentemente, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, vai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos.</p><cite>JUNG, OC 7/2, §275</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Só quando deixamos de projetar o mal no outro é que o ciclo da violência começa a se romper. Transformar o país começa por transformar o nosso olhar interno. A verdadeira redenção não está no extermínio, mas na <strong>consciência</strong>. Somente uma sociedade que encara a própria escuridão — e aprende a nomeá-la — pode, enfim, escolher a luz.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/">Ana Paula Pessanha Lima &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">AtlasIntel: 55% aprovam megaoperação que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro &#8211; Valor Econômico, 31 de outubro de 2025. Disponível em: <a href="https://valor.globo.com/politica/noticia/2025/10/31/atlasintel-55percent-aprovam-megaoperacao-que-resultou-em-121-mortes-no-rio-de-janeiro.ghtml">https://valor.globo.com/politica/noticia/2025/10/31/atlasintel-55percent-aprovam-megaoperacao-que-resultou-em-121-mortes-no-rio-de-janeiro.ghtml</a>. Acesso em 02 de novembro de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAMBRAY, Joseph, CARTER, Linda (org.) Psicologia analítica – Perspectivas contemporâneas em análise junguiana. Rio de Janeiro, Editora Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A psicologia do inconsciente. Obras Completas. v 7/1. 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Obras Completas. v 7/2. 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Obras Completas. v 8/2. 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras Completas. v 9/1. 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Obras Completas. v 11/1. 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A vida Simbólica. Obras Completas. v 18/1. 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Contágio psíquico e a atmosfera familiar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/contagio-psiquico-e-a-atmosfera-familiar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jul 2022 10:45:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4434</guid>

					<description><![CDATA[<p>Neste artigo visamos estudar o fenômeno do Contágio Psíquico no ambiente familiar a fim de reconhecer e refletir sobre sua atuação e sobre sua gênese ontológica, muitas vezes falseada pelo racionalismo e pela ilusão da inteira diferenciação entre os integrantes da família. Recorremos, para tanto, a C. G. Jung para reconhecer e aprofundar sobre a psique familiar e participação mística; e também a Erich Neumann para entender a presenta do fenômeno do Contágio Psíquico no desenvolvimento da consciência humana.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Nas Obras Completas, quando C. G. Jung (2018) discorre sobre o grupo familiar, tende a utilizar o termo&nbsp;“atmosfera familiar”, o que, de fato, é muito interessante para ampliarmos o fenômeno do contágio psíquico. Uma atmosfera (do grego antigo:&nbsp;ἀτμός, vapor, ar, e&nbsp;σφαῖρα, esfera)&nbsp;é&nbsp;uma camada de gases que envolve (geralmente) corpos materiais.&nbsp;Em uma família, podemos aproximar, homologicamente, esse termo &#8220;corpos materiais&#8221; dos egos que a compõe, tendo aí uma diferenciação entre um e outro. Contudo, tudo isso é relativamente uma ilusão. Em qualquer ambiência micro ou macro-cósmica, um corpo sempre retroagirá sobre o outro. Ou seja, a ideia de diferenciação do eu (ego) e do outro é parcialmente satisfatória. Devemos, de antemão, considerar a ideia dos “gases”, que são indiferenciados. Essa indiferenciação é demasiadamente profunda. A partir da&nbsp;física quântica, perceberemos que nada&nbsp;é&nbsp;matéria, mas energia se relacionando, e sabemos que energia é informação transitando no tempo e no espaço. Já,&nbsp;no cotidiano humano, se levarmos em consideração a hereditariedade biológica ou até mesmo o quanto ficamos semelhantes fisionomicamente com os nossos pais com o passar dos anos perceberemos que não somos tão diferenciados assim,&nbsp;literal e simbolicamente. Para C. G. Jung, podemos denominar essa ambiência de inconsciente familiar e até coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para aprofundarmos a ideia de gases, talvez seja interessante ter em mente a problemática de Hillman: eu não sei se a psique está em mim ou se eu estou na psique. Se considerarmos uma psique familiar, ou seja, uma consciência da família com seus valores, leis, hierarquias, hábitos etc; e o inconsciente familiar que ultrapassa o pessoal e garante uma influência geracional, poderemos vislumbrar que há algo de indiferenciado e, portanto, de livre acesso de conteúdos inconsciente na psique familiar. Isso fica mais claro nos dias atuais pois já existem pesquisas sobre psicopatologia e família que demonstram a sugestionabilidade dos familiares de desenvolverem a patologia presente em pelo menos um único indivíduo, como a depressão, o pânico, a ansiedade, etc. Curiosamente, parece que a atmosfera familiar também acontece interespécies e não se restringe à psicopatologias. Estive em diversos diálogos com médicos veterinários e muitos relatam que, frequentemente, atendem animais em que o tutor possui a mesma patologia, como metástases.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Evidentemente, existem estudos que levantam a hipótese de que há unicamente hereditariedade genética nas psicopatologias. Em nossa opinião, é necessário relativizar essa hipótese, visto que ela cai em um determinismo, e todo determinismo é uma grande unilateralidade racionalista. O próprio C. Jung já discorreu sobre: &#8220;muita coisa que&nbsp;é&nbsp;interpretada como hereditariedade em sentido estrito&nbsp;é&nbsp;antes uma espécie de contágio psíquico que consiste em uma adaptação da psique infantil ao inconsciente dos pais.” (JUNG, 2017, § 248)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para adentrarmos a ideia de contágio psíquico no ambiente familiar, vale recorrermos a Erich Neumann (1995) (2014) quando descreve-nos os estágios de desenvolvimento da consciência. O primeiro estágio inicia-se desde a concepção e se encerra no primeiro ano de vida. Até então, o neonato, segundo o autor, não possui autonomia corporal. Se o compararmos com outros mamíferos nos primeiros momentos de vida até completarem 12 meses perceberemos que o ser humano nasce prematuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann (1995) aponta que ao longo do desenvolvimento da consciência os estágios são dominâncias e permanências de imagens arquetípicas cuja superação de cada estágio pelo indivíduo cria uma relativa diferenciação para assim surgir o ego solar. Isso significa que toda vivência humana interior ou exterior é mediada pelas imagens, sendo a primeira mais direta (do inconsciente para o ego) e a segunda mais indireta (a concepção do mundo feita pelo ego para ele mesmo). É importante frisar isso pois Neumann propõe entendermos os estágios como imagens. Do período intrauterino ao primeiro ano de vida, a imagem que o autor sugere é a&nbsp;<em>uroboros</em>&nbsp;– a cobra que morde a própria calda, portanto, não possuindo fim ou começo, seria uma simbiose, em um primeiro momento com o todo experiencial; e depois, em um segundo momento, com a mãe. Mais especificamente, para o autor, seria o Self migrando ou criando um atrator, primeiro para o&nbsp;<em>uno</em>&nbsp;urobórico e depois para a Grande Mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann (1995) aponta que o desenvolvimento da consciência é homologicamente semelhante tanto filo quanto ontogenicamente, portanto, estes estágios primeiros são matriarcais. E, quando a consciência segue o seu desenvolvimento, prosseguindo para o estágio patriarcal até o ego solar, os estágios antecessores ainda permanecem na psique, não sendo um processo unilateral, mas um processo que se estabelece em camadas. Isto é importante conceber para chegarmos ao fenômeno da participação mística que C. G. Jung atualizou de Levy Brühl. Este epifenômeno, ou seja, esse abandono do ego e retorno ao estado urobórico fica evidente quando Jung afirma que, ”via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será&nbsp;uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo&nbsp;é&nbsp;ativado, ninguém mais&nbsp;é&nbsp;a mesma pessoa.”–&nbsp;(JUNG, 2019, p. 61-62).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso se dá, porque a consciência provém do inconsciente. O que nos permite depreender que a relativa diferenciação só é possível se houver,&nbsp;<em>a priori,</em>&nbsp;indiferenciação. Mesmo que fosse possível construir muros egóicos para diferenciar-se de um terreno ilimitado, não escaparíamos da atmosfera invasora e necessária para estarmos vivos e respirando. É por meio deste terreno e dessa atmosfera indiferenciados que a primeira comunicação humana atua e nunca deixará de atuar na vida do indivíduo: o contágio psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O contágio psíquico possui pouca relação entre egos, senão cairíamos em um fenômeno mecânico de imitação macaqueada. Ele ocorre sem freios devido à ilusão racionalista de que somos inteiramente diferenciados. Se desvelássemos este véu da diferenciação e considerássemos que somente em parte somos diferenciados, perceberíamos que o contágio se estabelece do inconsciente para a consciência. Isto é, a emergência do fenômeno do contágio não é causal: aquele ri pois o outro está rindo; ou chora pois o outro está chorando; ou boceja pois outro está bocejando. A relação do contágio é sincronística do&nbsp;<em>vocatus atque non vocatus devs aderi&nbsp;</em>(invocado ou não deus está presente), isto é, […] quando possuído, não&nbsp;é&nbsp;mais um indivíduo,&nbsp;ele passa a ser o próprio possuidor, ou seja, a força psíquica coletiva (a imagem) que o contágio leva e traz.&nbsp;Isso acontece, em maior ou menor grau, garantindo menos ou mais autonomia para o próprio&nbsp;ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso mesmo, no ambiente familiar,&nbsp;é supérfluo o esforço dos pais de esconder algo considerado negativo dos filhos, pois, aquilo que não é falado ou não é exposto é tão presente e impactante na psique individual quanto aquilo que é. A diferença é que um está na luz e o outro na sombra, garantindo mais elaboração consciente ao primeiro e menos elaboração ao segundo. Assim, no caso da criança, ela terá que lidar com o contágio psíquico de conteúdos coletivos e familiares sem o suporte paterno e materno, o que pode conferir uma experiência destrutiva para ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A criança faz de tal modo parte da atmosfera psíquica dos pais que as dificuldades ocultas aí&nbsp;existentes e ainda não resolvidas podem influir consideravelmente na saúde dela. A participação mística (<em>participation mystique</em>), que consiste na identidade primitiva e inconsciente, faz com que a criança sinta os conflitos dos pais e sofra como se os problemas fossem dela própria. Não são jamais os conflitos patentes e as dificuldades visíveis que têm esse efeito envenenador, mas as dificuldades e problemas dos pais mantidos ocultos, ou mantidos inconscientes. O causador de tais perturbações neuróticas sem exceção alguma&nbsp;é&nbsp;sempre o inconsciente. Coisas que pairam no ar ou que a criança percebe de modo indefinido, a atmosfera abafada e cheia de temores e apreensões, tudo isso penetra lentamente na alma da criança, como se fossem vapores venenosos&#8221;.&nbsp;(JUNG, 2018, § 217)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonardo Torres: Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Ditada: Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E.&nbsp;<strong>A Crian</strong><strong>ça</strong>. São Paulo: Editora Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E.&nbsp;<strong>Hist</strong><strong>ó</strong><strong>ria da Origem da Consci</strong><strong>ê</strong><strong>ncia.&nbsp;</strong>São Paulo: Editora Cultrix, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A Natureza da Psique</strong>. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>O Desenvolvimento da Personalidade</strong>. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A Vida Simb</strong><strong>ó</strong><strong>lica I</strong>. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TORRES, L.&nbsp;<strong>Contágio Psíquico</strong>: a loucura das massas e suas reverberações na mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2021. ISBN 978-65-993921-0-8.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-leonardo-torres-11-03-2022"><strong><em>Leonardo Torres &#8211; 11/03/2022</em></strong></h4>
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		<title>Contágio Psíquico na Psicoterapia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/contagio-psiquico-na-psicoterapia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Mar 2022 10:59:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[contaminação psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem o objetivo de compreender o papel do Contágio Psíquico no setting terapêutico, desmistificando e reanimando a relação entre cliente e analista.  O espírito de nossa época nos faz conceber a realidade a partir do egoísmo, do individualismo e da alta performance, mesmo para os junguianos, que há muito já discutem o fenômeno da multiplicidade da psique, do [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Este artigo tem o objetivo de compreender o papel do <strong>Contágio Psíquico</strong> no setting terapêutico, desmistificando e reanimando a relação entre cliente e analista. </em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O espírito de nossa época nos faz conceber a realidade a partir do egoísmo, do individualismo e da alta performance, mesmo para os junguianos, que há muito já discutem o fenômeno da multiplicidade da psique, do impulso ao servir à coletividade e a ideia de que perfeição não é sinônimo de totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como analista,&nbsp;é difícil desvencilhar-se de uma ilusão de responsabilidade de responder questões proferidas pelos clientes, como “o que eu faço?”, “o que esse sonho significa?”. Quem nunca se pegou pensando e exigindo de si uma palavra naquele silêncio aparentemente interminável no decorrer da sessão. Esse impulso de resolução nos parece, analisando fugazmente, um sintoma desse espírito da época. Talvez, por isso, um dos maiores desafios do analista é despojar-se das vestimentas do conselheiro, do curador, do resolutor e da ilusão de poder que sua poltrona nos concede.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas não somente o analista. Muitas psicologias, pautadas ainda pelo espírito da época, tornam-se cegas àquilo que acontece num campo inconsciente entre cliente e analista. Ou, quando percebem aquilo que acontece inconscientemente, fogem como se estivessem diante do diabo. E talvez, essa seja uma metáfora interessante, afinal, o diabo é Lúcifer, o portador da luz, que ao impulso do Si-mesmo, vem desestruturar uma possível persona rígida do analista.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-seria-aquilo-que-acontece-inconscientemente">O que seria “aquilo que acontece inconscientemente?”</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos desconsiderar que ao escolher um analista, já existe de antemão uma expectativa, uma fantasia, uma projeção do cliente. E, ao entrar em contato com o cliente, é humanamente impossível afirmar que o profissional está em uma posição de neutralidade e imparcialidade diante do analisando. Ao meu ver, a expectativa do indivíduo de se tornar cliente de um determinado analista já evoca algo no próprio analista. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-acontece-pois-o-egoismo-e-o-individualismo-sao-relativas-ilusoes" style="font-size:19px"><strong>Isso acontece, pois o egoísmo e o individualismo são relativas ilusões</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As raízes da psique de cada pessoa se entrelaçam da mesma forma que as raízes das árvores se entrelaçam numa floresta. Reconhecemos a floresta não como diversas árvores, mas como um coletivo de árvores, ou melhor, um organismo vivo. As expectativas não são somente conscientes, pelo contrário, muitas vezes elas não passam sequer pelo campo da consciência, permanecendo inconscientes e atuantes na vida do indivíduo – são também raízes entrelaçadas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-mesmo-a-ilusoria-neutralidade-do-analista-na-teoria-junguiana-significa-negar-um-dos-principais-principios-da-psicologia-analitica-o-coletivo">Por isso mesmo, a ilusória neutralidade do analista, na teoria junguiana, significa negar um dos principais princípios da Psicologia Analítica: o coletivo.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">A limitação da consciência no tempo e no espaço&nbsp;é&nbsp;uma realidade tão avassaladora, que qualquer desvio desta verdade fundamental&nbsp;é&nbsp;um acontecimento da mais alta significação teórica, pois provaria que a limitação no tempo e no espaço&nbsp;é&nbsp;uma determinante que pode ser anulada. O fator anulador seria a psique, porque o atributo espaço-tempo se ligaria a ela, consequentemente, no máximo como qualidade relativa e condicionada. Em determinadas circunstâncias, contudo, ela poderia romper a barreira do tempo e do espaço, precisamente por causa de uma qualidade que lhe&nbsp;é&nbsp;essencial, ou seja, sua natureza transespacial e transtemporal [coletivo].&nbsp;(JUNG, OC 8/2, § 813)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se tomarmos essa ideia de um coletivo vivo, abandonando a ideia individualista, compreenderemos que a relação entre cliente e analista antes mesmo de iniciar-se conscientemente já acontece.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-encontro-analitico-nada-mais-e-do-que-uma-possibilidade-de-caminho-para-que-as-imagens-produzidas-no-subsolo-eclodam" style="font-size:17px"><strong>O encontro analítico nada mais é do que uma possibilidade de caminho para que as imagens produzidas no subsolo eclodam. </strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se decuparmos essa possibilidade de caminho encontraremos o vínculo, a empatia e a co-transferência que surgem no decorrer da análise. Não é possível saber quais destes vem primeiro, pois nos parece que estes três fenômenos estão inter-relacionados e reatroagem entre si – são, portanto, um&nbsp;<em>continuum&nbsp;</em>fenomenológico. Sabemos também, de acordo com&nbsp;<strong>meu livro “Contágio Psíquico”&nbsp;</strong>(TORRES, 2021), que estes três fenômenos são os possibilitadores da&nbsp;<strong>contaminação psíquica</strong>, seja nas relações interpessoais, em grupo, em sociedade ou na humanidade.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O vínculo que queremos dar a entender é como um liame, um laço, uma aliança, uma confiança estabelecida entre cliente e analista no <em>setting </em>terapêutico. <strong>Confiar é con- (juntos), fiar (tecer)</strong>. É reconhecer que as raízes entre analista e clientes estão enlaçadas. Poderíamos até dizer que é mais do que isso: é reconhecer que essas raízes convergem para uma raiz em comum. Na análise, tecemos em parceria um ambiente seguro e sigiloso em que o cliente possa reconhecer e estar aberto às imagens que podem surgir e estar confortável a expressá-las para o analista. Este movimento é uma comunhão, no sentido de ir tecendo até encontrar esta única raiz. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-contaminacao-psiquica-ocorre-de-antemao-devido-a-essa-unica-raiz" style="font-size:18px">A <strong>contaminação psíquica </strong>ocorre de antemão devido a essa única raiz<strong>.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isto é, <strong>a contaminação não é em cadeia</strong> – de um para o outro, mas sintônica (ou sincronística), emerge dessa única raiz ao mesmo tempo no cliente e no analista. Para surgir este processo, é imprescindível que o analista retire o seu jaleco. É uma exigência natural e humana provinda do cliente que o analista se coloque como um ser humano. C. G. Jung aponta que &#8220;esta exigência deveria ser satisfeita, pois o homem, totalmente sem qualquer espécie de relação humana, cai no vazio” (JUNG, OC 16/2, §285). Este vazio, para o presente artigo, pode ser considerado como uma rua sem saída, ou seja, a análise não transcorre. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A empatia não é de maneira alguma uma solidariedade ou uma simpatia. Muito menos é um “colocar-se no lugar do outro” como o senso comum profere aos ventos. Todos esses falsos sinônimos de empatia a concebem como se fosse um exercício cognitivo ou lógico. Como explico&nbsp;<strong>em meu livro “Contágio Psíquico”</strong>, empatia pode ser entendida a partir do verbo “empatar”. É necessário certa correspondência nas vivências para a empatia se estabelecer. Como num jogo em que houve empate, ambos os times obtiveram um resultado igual, mas se esforçando de formas diferentes. Ambos devem lidar com angústia, frustração, sentimento de dever cumprido ou não. As emoções provenientes do empate correspondem-se entre si, mas possuem suas respectivas vivências. Conscientemente, não é possível detalhar, quantificar ou categorizar tudo o que se passa ou se passou nestas vivências, mas é possível reconhecer a correspondência.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Esta relação de pessoa a pessoa&nbsp;é&nbsp;a pedra de toque de toda análise que não se dá&nbsp;por satisfeita com um pequeno resultado parcial ou que emperra sem resultado algum. Nesta situação psicológica o [cliente] se coloca diante do [analista] em igualdade de condições, com os mesmos direitos e com o mesmo e impiedoso espírito crítico que ele próprio teve que suportar por parte do médico no decorrer do tratamento. O [analista] deveria, pois, abrir espaço ao [cliente], para que este o critique livremente, pois o [cliente] precisa sentir-se, de fato, humanamente em pé&nbsp;de igualdade.&nbsp;(JUNG, OC 16/2, §290)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O pé de igualdade, isto é, o empate e as diferentes formas de vivências criam uma relativa dissonância entre analista e cliente ao analisar determinados momentos e acontecimentos da vida do analisando. Como estão em comunhão, a reatividade dá espaço para uma proatividade ao se revisitar os incômodos e queixas do analisando, gerando pontos de vistas diferentes e possibilitando que ambos vislumbrem os momentos e acontecimentos de tensão de formas diferentes. Uma vivência acaba contaminando a outra. Isso é, de certa maneira, circum-ambular aquilo que incomoda o analisando, o que pode fazer com que ele acolha seu incômodo em diferentes perspectivas, criando a possibilidade para uma ampliação da consciência. E, por fim, encontrando um propósito para o seu sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não só nos contaminamos pelas vivências, mas pela imagem do outro também. A co-transferência, termo proposto por Waldemar Magaldi, é a conjunção dos termos transferência e contra-transferência da Psicologia Analítica. Também ocorre de forma inconsciente e, por isso mesmo, é tanto o diabo quanto o ouro da análise. Ela consiste em diversas projeções entre analista e cliente, criando uma relação ilusória, não menos importante, que deve ser compreendida à medida em que o vínculo e a empatia se estabelecem, isto é, a intimidade é criada.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">Aprendi que&nbsp;é&nbsp;um perigo sério fechar-se dentro deste jogo. Só&nbsp;temos a ganhar com a desmistificação da relação analítica, porque ela escraviza tanto o analista como o analisando. [&#8230;] quando o terapeuta se humaniza na relação com o outro, este tem a possibilidade de se abrir e de viver seu desenvolvimento (BONAVENTURE, 1985, p. 86).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa compreensão não se esgota, pois, as projeções ocorrem recorrentemente (e é assim que nos relacionamos), mas, de uma forma criativa, pode rumar para uma auto-análise da análise. A dinâmica da co-transferência conduz o analista a se contaminar por conteúdos psíquicos íntimos do cliente, bem como o cliente se contamina pela imagem do analista. Não é, portanto, o indivíduo analista&nbsp;<em>per se,&nbsp;</em>mas a imagem do analista que está no jogo da contaminação. O contrário também ocorre: o cliente não é o indivíduo&nbsp;<em>per se</em>&nbsp;mas a imagem de cliente do próprio analista. Essa dinâmica faz o analista reconhecer o seu ferido interior e, simultaneamente, o cliente acaba também por reconhecer o seu curador interior. Quantas vezes não nos pegamos, sozinhos, fantasiando uma conversa com nossos analistas e com nossos clientes?&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-verdadeiro-analista-antes-de-tudo-precisa-expor-sua-alma-senao-ficamos-apenas-no-encontro-das-personas-magaldi-2019" style="font-size:19px"><strong><em>“Um verdadeiro analista, antes de tudo, precisa expor sua alma, senão ficamos apenas no encontro das personas” (MAGALDI, 2019)</em></strong><strong><em></em></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">C. G. Jung afirma que nessa dinâmica de contaminação psíquica a imagem de analista e cliente podem remontar estruturas relacionais mnêmicas (imagens), isto é, do passado, fazendo com que o cliente perceba o analista (e&nbsp;<em>vice versa</em>) como pai, mãe, filho, amante, cônjuge ou qualquer outra possibilidade criativa e/ou destrutiva que o inconsciente&nbsp;trouxer. São, normalmente, figuras que tiveram influência na história do cliente e do analista. Vale a ressalva: se a co-transferência ocorre de maneira destrutiva e não é trabalhada, confrontada e discutida, sem que ambos, cliente e analista, coloquem-se em prontidão para compreender a contaminação dos conteúdos inconscientes e a relação estabelecida, a análise é interrompida, criando um enorme perigo e possíveis consequências desastrosas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tais efeitos sobre o médico ou a enfermeira, dependendo das circunstâncias, podem ir muito longe. Sei de casos em que em situações-esquizofrênicas-limite foram assumidos breves intervalos psicóticos, acontecendo que precisamente neste momento os pacientes gozam de um bem-estar particular. Pude observar até&nbsp;um caso de paranoia induzida em um médico que fazia o tratamento analítico de uma paciente com mania de perseguição latente em estágio inicial. Isso nada tem de espantoso, uma vez que certos distúrbios psíquicos podem ser altamente contagiosos, quando o próprio médico possui uma predisposição latente (JUNG,&nbsp;OC 16/2, n.r. 17).</p>



<p class="wp-block-paragraph">C. G. Jung (2011b,§345) discorre que isso ocorre quando o analista possui uma ferida aberta semelhante a do cliente, que não foi trabalhada em análise e supervisão. Por mais que o analista invoque sua ilusória autoridade, de nada adianta, pois a <strong>contaminação</strong> é de complexos e imagens arquetípicas, isto é, conteúdos autônomos, por vezes avassaladores, e podem possuir e contagiar o analista subitamente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-contra-isso-nao-adiantam-certificados-jalecos-ou-poltronas">E contra isso não adiantam certificados, jalecos ou poltronas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Somente a consciência é capaz</strong> – não de criar uma barreira anti-contágio, mas de ab-reagir ao que já foi contaminado. Se o analista lançar mão de sua ilusória autoridade, seu trabalho não passará de um blefe intelectual, pois, como poderia ajudar o [cliente] a superar sua inferioridade doentia, se sua própria inferioridade é tão evidente? Como pode o [cliente] sacrificar subterfúgios neuróticos se vê que o médico brinca de esconder consigo mesmo, como que receando que a sua inferioridade seja descoberta no momento em que deixar cair a máscara profissional da autoridade, da competência e da superioridade no saber? (JUNG, OC 16/2, §288)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso leva-nos a concluir que o fenômeno do&nbsp;<strong>Contágio Psíquico</strong>&nbsp;é de grande importância para a análise pois ele é o caminho que leva ao ouro alquímico. Se pudermos refletir sobre a&nbsp;<strong>contaminação</strong>&nbsp;estabelecida de antemão entre analista e cliente, isto é, quando cliente e analista estabelecem uma comunhão, reconhecem suas dissonâncias vivenciais e os conteúdos projetados entre si e podem refletir sobre isso com alma, a análise pode rumar para um processo criativo de evolução para ambos, cliente e analista.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leostorres/">Leonardo Torres &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"> <a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia"><strong>Bibliografia</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BONAVENTURE, Leon.&nbsp;<strong>Entrevista</strong>. In: PORCHAT, Ieda. &amp; BARROS, Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, W.&nbsp;<strong>Autoanálise da Injúria Cardíaca.</strong>&nbsp;https://www.ijep.com.br/artigos/show/autoanalise-da-injuria-cardiaca</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong>.&nbsp;&nbsp;Editora Vozes Limitada, 2011a. 8532641342.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A vida simb</strong><strong>ó</strong><strong>lica</strong>.&nbsp;&nbsp;Editora Vozes Limitada, 2011b. 8532641245.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>Ab-rea</strong><strong>çã</strong><strong>o, an</strong><strong>á</strong><strong>lise dos sonhos, transfer</strong><strong>ê</strong><strong>ncia</strong>.&nbsp;&nbsp;Editora Vozes Limitada, 2018. 8532645321.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TORRES, L.&nbsp;<strong>Contá</strong><strong>gio Ps</strong><strong>í</strong><strong>quico:&nbsp;</strong>a loucura das massas e suas reverberações na mídia.&nbsp;&nbsp;Eleva Cultural, 2021. 6599392105.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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		<title>O Napoleão de Hospício brasileiro</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-napoleao-de-hospicio-brasileiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Aug 2021 17:59:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[Pânico]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[delírio coletivo]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre as homologias entre o Esclarecimento e a loucura coletiva que nele eclodiu e o atual momento político-social-pandêmico brasileiro. Analisando, principalmente, a possibilidade de estarmos presenciando um contágio psíquico de delírio coletivo em maior e em menor grau.&#160; Dwyer (2018) afirma que, no ano de&#160;1840,&#160;quando ocorreu o retorno [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Este trabalho tem o objetivo de refletir sobre as homologias entre o Esclarecimento e a loucura coletiva que nele eclodiu e o atual momento político-social-pandêmico brasileiro. Analisando, principalmente, a possibilidade de estarmos presenciando um contágio psíquico de delírio coletivo em maior e em menor grau.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dwyer (2018) afirma que, no ano de&nbsp;1840,&nbsp;quando ocorreu o retorno dos restos mortais de Napoleão à França,&nbsp;cerca de&nbsp;treze&nbsp;ou&nbsp;quatorze&nbsp;indivíduos foram admitidos no mesmo hospital psiquiátrico, em Bicêtre, afirmando ser o próprio &#8220;Napoleão&#8221;.&nbsp;Evidentemente, cada um deles considerava o outro louco. Este fenômeno, curiosamente, já ocorria antes mesmo da morte de Napoleão Bonaparte: no ano de 1818, há relatos de que pelo menos cinco indivíduos foram admitidos no hospital Charenton acreditando&nbsp;também ser&nbsp;Napoleão.&nbsp;Todos eles comportavam-se como o próprio: de sua famosa postura corporal até seu comportamento social, sendo mais imperial, orgulhoso, arrogante, abrupto, tirânico, caprichoso e colérico. A ilusão não afetou somente homens, segundo os relatos, algumas mulheres também foram afetadas. Todos eles se levavam demasiadamente&nbsp;a sério, davam ordens e exigiam lealdade.&nbsp;Em troca, tratavam os outros com desdém.&nbsp;Autores como Dwyer (2018) e Murrat (2012) discorrem que casos como estes são considerados delírios.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estes delírios não ocorreram somente com a figura de Napoleão, mas também com outros soberanos. No ano de 1839, um homem denominado Raoul Spifame, advogado no Parlamento de Paris, foi internado no hospital psiquiátrico Bicêtre por acreditar ser o rei Henrique II, da França. Segundo Murrat (2012), os jornais da época relataram que a semelhança fisionômica com o rei era verdadeira, o que levou muitos amigos e colegas a chamarem Spifame de &#8220;vossa majestade&#8221; ou &#8220;vossa excelência&#8221;, fazendo ele acreditar piamente que era o próprio soberano. Este caso em especial possui uma peculiaridade que deve ser evidenciada, de acordo com Murrat (2012), em um certo dia, um guarda pendurou um espelho na cela de Spifame, que ao aproximar-se do espelho, reconheceu a própria imagem refletida como a do rei Henrique II e inclinou-se rápida e profundamente em reverência. Para a autora, &#8220;Raoul prova simultaneamente que não é louco, já que faz a diferença e dá a prova de que se dissocia do soberano, personagem distinto do advogado encerrado em Bicêtre&#8221; e ainda conserva seu racionalismo e cognição (MURRAT, 2012, p.170).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso fica evidente quando estudamos Hillman (2012), que vai além da psiquiatria clássica que entende delírio como uma &#8220;crença falsa&#8221;, o autor aponta que um delírio paranóico, por exemplo, é uma persuasão de sentimento, pela evidência de sentidos, surgindo até uma logicidade incorrigível. O autor ainda discorre que independente do tipo de delírio e de quão longa e tenazmente ele seja mantido, devemos lembrar aquilo que dizem todos os manuais de psiquiatria, que via de regra o comportamento, o intelecto e as emoções de pacientes que disso sofrem estão preservados, de forma que se suas premissas fossem verdadeiras, seu comportamento e seu discurso passariam quase que por normais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Casos como os citados acima foram tratados isoladamente por psiquiatras, psicólogos e psicanalistas até então. Mas seria de grande valia reconhecer que tipo de fenômeno psíquico coletivo está por trás dos delirantes internados, afinal, é muito provável que o número de indivíduos que deliraram na época foi superior aos registros dos hospitais psiquiátricos. O máximo diagnosticado sobre tais episódios como um único fenômeno foi feito por François Leuret, reconhecendo-os como uma loucura coletiva de monomania de orgulho, devido às circunstâncias político-sociais da revolução francesa, da guilhotina e do Esclarecimento. Murrat (2012), em seu livro, também avança em passos largos demonstrando um imbricamento entre a política e a loucura, mas não satisfaz a perspectiva junguiana, sem a análise de reconhecer os casos como um movimento coletivo e delirante, visto que a autora não apresenta uma compreensão do fenômeno a partir do inconsciente coletivo, o que seria de grande valia. Para adicionar esta concepção, vale lembrar o que Jung (2013) aponta sobre a influencia do inconsciente coletivo na sociedade:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo é ativado, ninguém mais é a mesma pessoa (JUNG, 2013, p. 61-62, vol. 18/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">No tocante, já perseguimos fenômenos semelhantes – no livro &#8220;<em>Contágio Psíquico: a loucura das massas e suas reverberações na mídia</em>&#8221; relatamos casos de indivíduos que confundiram&nbsp;<em>outrem&nbsp;</em>com o diabo e com bruxas; discorremos sobre episódios delirantes de envenenamentos, OVNIS e órgãos genitais desaparecendo; entre outros.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A afirmação do autor de que &#8220;ninguém é mais a mesma pessoa&#8221; deve ser ressaltada. Isto é, quando o movimento provém do inconsciente coletivo e de suas imagens arquetípicas, nem o rei, nem o padre, nem o filósofo, nem o carrasco, nem o cidadão são os mesmos, todos estão contagiados pelo o que emerge da coletividade. Isso leva-nos a crer que os prisioneiros de Bicêtre e Chareton são uma pequena parte do movimento coletivo ocorrido na época. Ou seja, na perspectiva junguiana, cai por terra a defesa de que casos como os supracitados são extremos e não deveriam ser comparados a líderes políticos ou uma população que aparentemente possui uma mínima lucidez. Se o próprio Spifame manteve sua lucidez, como reconhecer que a sociedade francesa da época ou até mesmo a atualidade está realmente lúcida? Hillman (2012) aponta que&nbsp;o delírio não pode ser determinado por critérios sociais, já que os próprios critérios sociais podem ser/estardelirantes.&nbsp;Para corroborar, Jung (2013b, p. 286-287) afirma que o estado de extremo de desequilíbrio mental é uma oportunidade de vislumbrar certos &#8220;fenômenos psíquicos com clareza quase exagerada&#8221;; e também, de reconhecer &#8220;fenômenos que muitas vezes são percebidos apenas de maneira obscura dentro dos limites normais. O estado anormal funciona&nbsp;às vezes como lente de aumento&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Simbólica e enantiodromicamente, podemos compreender que a época das Luzes, buscando a lucidez total, fez muitos indivíduos perderem literal e metaforicamente a cabeça, transformando tudo na mais crassa barbárie.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Murrat (2012) aponta que ao passo que muitos da aristocracia eram condenados à &#8220;viúva&#8221;, outros eram trancafiados nos hospitais psiquiátricos, que cresceram de maneira vertiginosa nesta época. A autora ainda afirma que, nas execuções, os cidadãos espectadores tinham rompantes de contágios psíquicos acreditando que a cabeça separada do corpo ainda piscava os olhos. E, os estudiosos, em nome da&nbsp;ética e&nbsp;da&nbsp;moral, afirmavam veementemente que a guilhotina era a melhor maneira de executar alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não seria estranho depreender que toda época foi atingida pelo delírio coletivo das Luzes e das Sombras em maior ou menor grau, seja acreditando ser Napoleão, seja acreditando ser igualitário, fraternal e liberal com a guilhotina debaixo do braço. Esqueceram-se do inconsciente coletivo e de suas sombras em prol de uma lucidez delirante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra sociedade que parece ter esquecido de sua sombra é aquela em que o &#8220;cidadão de bem&#8221; faz parte; aquela que elegeu o atual presidente brasileiro; aquela que acredita fielmente que a arma e a cloroquina vão salvar a todos na terra plana. Curiosamente, avessa a Adorno e Horkheimer, críticos do Esclarecimento, mas a favor das ideias do pseudo-filósofo Olavo de Carvalho e das Fake News. Estes vão às ruas pedir atos inconstitucionais; clamar pela morte e matar líderes da esquerda; e ainda, acreditam piamente que Deus é um apoiador desse movimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não somente o presidente, mas parte da população parece estar delirante. Não seria incorreto afirmar que estamos vivendo uma reedição da monomania orgulhosa, ou seja, do comportamento napoleônico imperial, orgulhoso, arrogante, abrupto, tirânico, caprichoso&nbsp;e colérico. Ainda podemos somar a propagação do mal, a barbárie e o movimento genocida que deixou morrer mais de 550 mil brasileiros por COVID-19 até então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece que o delírio coletivo é um grande viabilizador da propagação e da banalização do mal. Aqui não devemos polarizar a atual mentalidade coletiva brasileira entre delírio e mal, pois, os dois agem de mãos dadas. Acompanhar a CPI da COVID-19 revela isso. Faz-nos, a cada momento, questionar como é possível ser capaz de corroborar e intermediar possíveis tentativas de corrupção sabendo que parte da população brasileira, se não morre pela pandemia, morre pela fome? Como é possível considerar que a propina é de mais valia do que as sepulturas já cavadas no país? Como é possível colaborar com um Ministro que já proclamou que prefere o saco preto à vacina?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não devemos também e nem queremos excluir a responsabilidade dos envolvidos com a corrupção, mas compreender que em suas perspectivas, tanto o presidente quanto seus apoiadores parecem delirar coletivamente, crendo que estão cumprindo seus trabalhos, automaticamente maléficos, assim como a guilhotina o fez.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como defender-se deste movimento contagioso? Talvez não seja possível e já estamos delirando juntos. Mas, Edgar Morin, em entrevista, recentemente, trouxe-nos temperança:&nbsp;com frequência, é preciso ser um desviante minoritário para estar no real. Embora, aparentemente, nele não haja nenhuma perspectiva, nenhuma possibilidade, nenhuma salvação, a realidade não está paralisada para sempre, ela tem seu mistério e sua incerteza. O importante é não aceitar o fato consumado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonardo Torres – Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista ditataresponsável: Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Dwyer, Philip. Napoleon: Passion, Death and Resurrection, 1815-1849. Lodres: Bloomsbury, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl Gustav. A Vida Simbólica: escritos diversos. Petrópolis: Vozes, 2013.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Petrópolis, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hillman, J. Paranoia. Petrópolis: Vozes, 2012.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Morin, Edgar. Entrevista.&nbsp;<a href="http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/610964-cem-anos-de-morin-filosofo-da-complexidade">http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/610964-cem-anos-de-morin-filosofo-da-complexidade</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Murrat, Laure. O Homem que se achava napoleão: por uma história política da loucura. São Paulo: Três Estrelas, 2012.&nbsp;</p>



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