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	<title>Arquivos dependência química - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Fri, 08 May 2026 13:53:47 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos dependência química - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Afogando as mágoas no álcool e sendo tragado por ele</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/afogando-as-magoas-no-alcool-e-sendo-tragado-por-ele/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 24 Mar 2026 19:13:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[adicção]]></category>
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		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[sintomas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Psicossomática considera o indivíduo como um ser biopsicosocioespiritual, ou seja, sua parte psíquica, física e espiritual, interagem dentro de um ambiente socioeconômico-cultural e que o adoecimento é um desequilíbrio que acontece quando existe um conflito da consciência com o inconsciente. Com esse olhar holístico, ela vai em busca do sentido dos sintomas, que são um sinal de desordem.</p>
<p>Quais seriam essas desordens na psique do alcoolista?</p>
<p>Qual seria a razão desse desejo irresistível em beber?</p>
<p>O que leva uma pessoa a chegar ao fundo do poço e mesmo assim querer continuar a beber?</p>
<p>Podemos pensar simbolicamente que a alma que não se embriaga com a vida, necessita embriagar-se com o álcool? Boa leitura!</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/afogando-as-magoas-no-alcool-e-sendo-tragado-por-ele/">Afogando as mágoas no álcool e sendo tragado por ele</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>Beber começa como um ato de vontade, caminha para um hábito e finalmente afunda na necessidade. </em></p><cite>Benjamin Rush</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: A Psicossomática considera o indivíduo como um ser biopsicosocioespiritual, ou seja, sua parte psíquica, física e espiritual, interagem dentro de um ambiente socioeconômico-cultural e que o adoecimento é um desequilíbrio que acontece quando existe um conflito da consciência com o inconsciente. Com esse olhar holístico, ela vai em busca do sentido dos sintomas, que são um sinal de desordem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quais-seriam-essas-desordens-na-psique-do-alcoolista" style="font-size:18px"><a>Quais seriam essas desordens na psique do alcoolista?</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Qual seria a razão desse desejo irresistível em beber?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O que leva uma pessoa a chegar ao fundo do poço e mesmo assim querer continuar a beber?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos pensar simbolicamente que a alma que não se embriaga com a vida, necessita embriagar-se com o álcool? Boa leitura!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Durante a minha vida, o alcoolismo foi uma sombra que me espreitava, às vezes, seguia silenciosamente os meus passos, em outras circunstâncias, lançava sua escuridão nos meus dias, tornando-os terríveis e desesperadores, como a mais densa, profunda e escura noite.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Inspirando-me em São João da Cruz posso dizer que esses momentos, apesar de avassaladores, foram extremamente benéficos e profícuos para que eu pudesse fortalecer a minha fé, unir-me a Deus e transformar todo aquele sofrimento em crescimento espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando adulta, fui estudar para entender o conceito e a dinâmica do alcoolismo, que inicialmente, para mim, não passava de defeito de caráter, fraqueza e “falta de vergonha na cara”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu via que algumas pessoas ingeriam uma quantidade de bebida alcóolica excessiva e só ficavam extremamente inconvenientes, enquanto outras, uma única dose comprometia totalmente seu organismo e sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Algumas pessoas apresentavam esse comportamento logo após vivenciarem uma situação muito estressante ou perda significativa, como a morte de um ente querido, uma separação conjugal, ou a saída dos filhos de casa, o que reforçava a intenção inconsciente da fuga ou alívio para sua dor, outros, entretanto, bebiam porque gostavam.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Após concluir a Pós-graduação de Psicologia Analítica e começar a atender, comecei a receber em minha clínica clientes que apresentavam questões com o álcool, alguns dependentes e outros como codependentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-durante-os-atendimentos-eu-pude-perceber-que-existia-uma-dor-profunda-e-muitas-vezes-inacessivel" style="font-size:18px">Durante os atendimentos eu pude perceber que existia uma dor profunda e muitas vezes inacessível.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A pessoa até apresentava a intenção de parar de beber, mas, existia algo dentro dela que a dominava, que subjugava suas forças e na primeira oportunidade, ela simplesmente se rendia e afogava suas mágoas e suas dores na bebida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu observava também que algumas dessas pessoas que ficavam com esse comprometimento que se iniciava no corpo físico, ampliava-se para o escopo emocional, afetava a vida familiar, profissional e espiritual, não abandonavam esse vício, mesmo sendo ele tão destrutivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu me perguntava se era uma questão de personalidade, de falta de vontade, de caráter, ou se existia um componente biológico, mental ou psicológico que as aprisionavam nessa dinâmica, nessa compulsão obsessiva que prejudicava não só o alcoolista, mas a sua família, o seu ambiente profissional e a sociedade de forma geral.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Eu também pude observar que esse movimento de sobriedade (consciência) e embriaguez (inconsciência) era rítmico e cada vez mais intenso. Com o passar do tempo era necessário uma dose maior e com isso, os sintomas se intensificavam, ficavam mais visíveis e muito mais perturbadores e inconvenientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que antigamente afetava só a mente e o corpo do indivíduo, começava a prejudicar sua vida familiar, profissional e social. Gota a gota, dose a dose, o problema vai pingando, transbordando e inundando tudo ao seu redor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-uso-abusivo-do-alcool-e-um-dos-principais-problemas-da-sociedade-atual" style="font-size:21px">O uso abusivo do álcool é um dos principais problemas da sociedade atual.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar de ser uma droga psicotrópica, ou seja, provoca mudança no comportamento do usuário, o álcool é legalmente comercializado e seu consumo é amplamente aceito socialmente e estimulado por intensa propaganda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O uso do álcool em excesso provoca o rebaixamento da consciência e como os seus efeitos iniciam-se no cérebro, com a alteração do Sistema Nervoso Central, o indivíduo entra num processo de deterioração que afeta a percepção, coordenação e funções motoras, perda de memória e progressivamente, intoxicação das células do corpo, comprometimento do sistema imunológico e em estágios mais avançados da doença, pode ocorrer a destruição de órgãos vitais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O Alcoolismo é conhecido cientificamente como a Síndrome de Dependência de Álcool (SDA), ele é um grave problema de saúde pública, pois acarreta o aumento nos índices de acidentes no trabalho e no trânsito, com a intensificação de sua gravidade, eleva a violência urbana, além de aumentar os atendimentos médicos realizados pelos CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial &#8211; Álcool e Drogas), sendo considerado um dos transtornos mentais mais prevalecentes na sociedade. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-de-ser-amplamente-estudado-e-ter-um-quadro-clinico-bem-estabelecido-muitas-vezes-a-sda-passa-despercebida-mesmo-em-avaliacoes-psiquiatricas-cf-gigliotti-2004" style="font-size:18px">Apesar de ser amplamente estudado e ter um quadro clínico bem estabelecido, muitas vezes, a SDA passa despercebida mesmo em avaliações psiquiátricas. (Cf. GIGLIOTTI, 2004)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psicossomática nos auxilia a entender melhor a dinâmica do alcoolismo, pois ela vê o homem de forma holística e tem como objetivo, encontrar o sentido dos sintomas e não necessariamente suas causas. O sintoma é um sinal de desordem.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A consciência se desequilibra e isso se torna visível e palpável na forma de sintomas corporais e, para tanto, torna-se necessário apurarmos a escuta desse sintoma. A partir disso, podemos pensar a doença e a cura como refletindo estados de consciência. A doença seria a perda da harmonia ou de uma ordem até então conquistada e, nesse caso, a cura não seria a vitória sobre o sintoma, mas ela teria como pressuposto uma expansão da consciência, isto é, nossa própria busca da totalidade. (GUARNIERI, 2024, p. 4)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quais seriam as desordens na psique do alcoolista? O que esses sintomas querem mostrar? Qual seria a razão desse desejo irresistível em beber? O que leva uma pessoa a “chegar ao fundo do poço” e mesmo assim querer continuar a beber? Podemos pensar simbolicamente que a alma que não se embriaga com a vida, necessita embriagar-se com o álcool?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (2013a, p. 281) afirma que o corpo e a alma são supostamente um par de opostos, constituindo uma só realidade e expressando uma só entidade, cuja natureza não é possível se conhecer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-o-corpo-nada-significa-sem-a-psique-da-mesma-forma-que-a-psique-nada-significa-sem-o-corpo-in-spinelli-2010-p-77" style="font-size:18px">Para Jung “O Corpo nada significa sem a psique, da mesma forma que a psique nada significa sem o corpo” (In SPINELLI, 2010, p. 77).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O indivíduo é considerado um ser biopsicosocioespiritual, ou seja, sua parte psíquica, física e espiritual, interagem dentro de um ambiente socioeconômico-cultural.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&nbsp;O adoecimento é um desequilíbrio que acontece quando existe o conflito da consciência com o inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Milam</strong> (1986) elenca como fatores predisponentes para o alcoolismo: o metabolismo anormal, a preferência por álcool, a hereditariedade, a influência pré-natal e as suscetibilidades étnicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No tocante ao metabolismo anormal, os alcóolatras apresentam o mau funcionamento das enzimas do fígado, o que dificulta a eliminação do álcool pelo organismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em relação à preferência por álcool, cada pessoa reage de forma diferente ao gosto e aos efeitos da substância.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outro fator predisponente que, apesar das provas, alguns profissionais e pesquisadores relutam em aceitar, é a hereditariedade, mas estudos do psiquiatra e pesquisador Donald Goodwin constatam que o alcoolismo é transmitido dos pais para os filhos através dos genes. <a href="#_ftn1" id="_ftnref1">[1]</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Goodwin evidenciou que os filhos de alcóolatras tem um risco quatro vezes maior de contrair a doença do que os filhos dos não-alcóolatras, e mesmo, os filhos de pais não-alcóolatras, apresentaram taxas relativamente baixas, mesmo quando criados por pais adotivos alcóolatras. (Cf. MILAM, 1986, p. 46-47)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outro fator predisponente é a Influência Pré-Natal. A grávida ao beber faz com que o feto beba junto, isso pode causar ao feto a Síndrome Alcóolica Fetal (SAF) e poderá tornar o bebê dependente ainda no ventre.</p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-large" id="h-o-recem-nascido-e-de-fato-um-alcoolatra-anos-mais-tarde-quando-tomar-seu-primeiro-drinque-podera-sentir-uma-reativacao-instantanea-de-sua-dependencia-milam-1986-p-49" style="font-size:18px">“O recém-nascido é, de fato, um alcóolatra. Anos mais tarde, quando tomar seu “primeiro” drinque, poderá sentir uma reativação instantânea de sua dependência” (MILAM, 1986, p. 49).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Um fator que também aparece nas pesquisas é a suscetibilidade étnica ao álcool. Foram constatadas diferenças extremas nos índices de alcoolismo e reações fisiológicas ao álcool entre vários grupos étnicos. Outra descoberta recente é que “<em>existe um relacionamento direto entre a extensão do tempo que um grupo étnico esteve exposto ao álcool e a taxa de alcoolismo dentro desse grupo</em>” (MILAM, 1986, p. 50).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A evidência científica indica claramente um intercâmbio dos diversos fatores hereditários, fisiológicos &#8211; metabólicos, hormonais e neurológicos que atuam em conjunto e assim determinam a suscetibilidade do indivíduo ao alcoolismo. Seria um engano simplificar as interações no organismo, fazendo parecer que um gene específico, ou uma enzima, ou um hormônio é o único responsável por uma cadeia de eventos que conduzem em linha reta à dependência física e ao alcoolismo. (MILAM, 1986, p. 51)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-milam-corrobora-dessa-maneira-com-o-conceito-da-psicossomatica-que-afirma-ser-o-individuo-um-ser-biopsicosocioespiritual-em-que-todas-as-partes-estao-integradas-e-conectadas" style="font-size:18px">Milam corrobora dessa maneira com o conceito da Psicossomática, que afirma ser o indivíduo um ser biopsicosocioespiritual, em que todas as partes estão integradas e conectadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas esferas não podem ser separadas e quando há um desequilíbrio entre a consciência e a inconsciência, surge o sintoma, que poderá se manifestar em qualquer uma das partes, pois não há separação entre energia e a matéria, entre o psíquico e o somático e entre o corpo e o espírito. (Cf. ROMANO, 2025)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-independentemente-da-esfera-em-que-se-manifeste-todos-esses-sintomas-tem-como-fator-desencadeante-primordial-o-complexo-constelado" style="font-size:18px">Mas independentemente da esfera em que se manifeste, todos esses sintomas têm como fator desencadeante primordial o complexo constelado.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que é, portanto, cientificamente falando, um &#8220;complexo afetivo&#8221;? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua tonalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um corpus alienum (corpo estranho), animado de vida própria. <strong>Com algum esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original.</strong> (JUNG, 2013a, p. 43-44. Grifos meus).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta é exatamente a dinâmica vivenciada pelo alcoolista, ele até pode negar sua impotência diante do álcool, pode reprimir seu desejo, mas a compulsão, ou seja, essa necessidade mórbida, essa incapacidade de resistir a esse impulso, o domina como uma obsessão, aumentando sua ansiedade e impelindo-o ao comportamento repetitivo, que é o ato de beber.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos associar essa perda de controle do alcoolista em relação a bebida, com a ação do complexo quando constelado, que afetado por uma forte emoção, apresenta vontade própria e um grau elevado de autonomia, atuando com vida própria e por conter forte carga emocional, perturba totalmente o funcionamento da consciência, sendo impossível negar sua existência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O complexo afetado vai se constelar, ou seja, ganhará uma estrutura de disponibilidade, expectativa e prontidão à reação, que se dará a partir dos parâmetros definidos por experiências anteriores. Quando isso se dá, o complexo se revitaliza e se atualiza, aglutinando o resultado desta nova experiência em torno de si. A partir deste mecanismo, o complexo assume uma espécie de magnetismo para vivências semelhantes, que envolvam a mesma temática. A cada repetição, ele se cronifica: ganha mais vigor e, mais robusto, é capaz de atrair novas experiências que o confirmem e o atualizem. Essa autodeterminação e coerência interior conferirão ao complexo um grau de autonomia, como uma nova personalidade fragmentada e alheia às vontades do ego, que atuará a depender da carga de energia psíquica que conseguem deter no determinado momento. (ANTONIOLI, 2024, p. 10)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos fazer uma analogia dessa nova personalidade fragmentada, que é uma característica do complexo quando está ativo, com o comportamento de uma pessoa que está sob o efeito do álcool, pois ela age como se fosse outra entidade totalmente diferente, é como se ela realmente tivesse adquirido outra personalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-irmandades-de-autoajuda-os-comportamentos-dos-adictos-sao-classificados-metaforicamente-da-seguinte-forma" style="font-size:18px">Nas Irmandades de autoajuda, os comportamentos dos adictos são classificados metaforicamente da seguinte forma:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>1ª fase</strong>: É a fase do Pavão, onde o indivíduo começa a beber para desinibir-se, para perder a vergonha, sentir-se charmoso e para chamar a atenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos associar essa fase à necessidade de superação do complexo de inferioridade, de timidez ou de insegurança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>2ª fase</strong> é conhecida como a do Macaco, onde a pessoa é o bobo da corte, é aquele indivíduo que faz todos os outros rirem devido ao seu comportamento ridículo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui podemos associar a necessidade do indivíduo em ser aceito, em pertencer ao grupo e de ofuscar o complexo de rejeição ou de abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>3ª fase</strong> é tida como a do Leão. O indivíduo se julga valente, quer agredir e brigar com todo mundo e arrumar confusão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos vincular esse comportamento ao desejo de poder e de autoridade do indivíduo, que quando sóbrio, normalmente é uma pessoa com dificuldade em expor suas vontades e opiniões, evita enfrentar conflitos e até apresenta aspectos de covardia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>4ª fase</strong> é a o Porco. Nessa fase o indivíduo perde o autocuidado e não se importa mais com a aparência ou com a sua condição física.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aqui podemos dizer que a baixa autoestima se apoderou do indivíduo, nada, nem ninguém, (família, saúde, trabalho, estudo) importam para ele, o único foco de interesse é a bebida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>5ª fase</strong> é reconhecida como a do Rato. O indivíduo perde sua dignidade e “chega ao fundo do poço”, mas ele está tão devastado pela doença que nem consegue perceber isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos dizer que esse momento da dependência é como se uma das personalidades fragmentadas estivesse conduzindo o indivíduo diretamente aos braços da morte.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-e-a-potencia-do-complexo-se-desejarmos-uma-comparacao-medica-nada-melhor-do-que-comparar-os-complexos-com-as-infeccoes-ou-com-tumores-malignos-que-nascem-sem-a-minima-participacao-da-consciencia-jung-2013a-p-48" style="font-size:18px">Assim é a potência do complexo: “Se desejarmos uma comparação médica, nada melhor do que comparar os complexos com as infecções ou com tumores malignos que nascem sem a mínima participação da consciência” (JUNG, 2013a, p. 48).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos traçar um paralelo do complexo com a vontade de beber do alcoolista, a parte consciente sabe que precisa parar de beber, que ele é impotente em relação ao álcool e que sua vida está se tornando incontrolável, mas a parte inconsciente o domina e o impele no sentido contrário, fazendo com que ele seja subjugado por essa compulsão patológica, que é o ato de beber.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como diz Jung (2013a), “<em>Não possuímos os complexos, eles que nos possuem”, e para concluir essa reflexão, podemos parafraseá-lo dizendo, “Não é o alcoolista que bebe, é a bebida que o traga</em>”.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Afogando as mágoas no álcool e sendo tragado por ele&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/UgaAO8Kfio0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211; Analista Junguiana em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ANTONIOLI, Luciana. <em>Os Complexos e o Simbolismo do Adoecimento</em><em>.</em>Curso dePsicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DIEHL, A. et al. <em>Dependência Química: </em>prevenção, tratamento e políticas públicas. Porto Alegre: Artmed, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GIGLIOTTI, A e BESSA, M. A. <em>Síndrome de dependência do álcool</em>: critérios e diagnósticos, Rev. Bras. Psiquiatr. 26 (1): 11-13, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://doi.org/10.1590/S1516-44462004000500004">https://doi.org/10.1590/S1516-44462004000500004</a> acessado em 16/07/2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUARNIERI, Maria Cristina. <em>Introdução à Psicossomática</em>. Curso de Psicossomática, IJEP. São Paulo, 2024.Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A Natureza da Psique.</em> 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>MILAM, James Robert; KETCHAM, Katherine. Alcoolismo: Os mitos e a realidade. 2.ed. São Paulo</em>: Nobel, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAMOS, Denise Gimenes. <em>A psique do corpo</em>: A dimensão simbólica da doença. 4.ed. São Paulo: Summus Editorial, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ROMANO, Lia Rachel B. <em>Psiconeuroendocrinoimunologia e adoecimento. </em>Curso dePsicossomática, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>Revisão de Psicossomática</em>. Curso de Psicossomática, IJEP. São Paulo, 2025.Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SPINELLI, Maria Rosa (Org.). <em>Introdução à Psicossomática</em>. São Paulo: editora Atheneu, 2010.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Donald Goodwin, <em>Is Alcohism Hereditary? </em>(Nova York: Oxford University Press, 1976)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<item>
		<title>Deméter, Perséfone e Hades: O Mito Revisitado à Luz da Psique Contemporânea e a Drogadição</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/demeter-persefone-e-hades-o-mito-revisitado-a-luz-da-psique-contemporanea-e-a-drogadicao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Sep 2025 13:47:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[demeter]]></category>
		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[perséfone]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O mito de Deméter, sua filha Core, e Hades, o senhor do submundo, permanece uma das narrativas mais primordiais e pulsantes da psique humana. Longe de ser um mero conto de deuses, ele funciona como um espelho da alma, uma estrutura arquetípica onde se refletem as mais íntimas ressonâncias da condição humana, especialmente no que tange à relação mãe-filha, à perda, ao crescimento e à transformação. Em sua beleza crua, o mito nos convida a explorar as profundezas de nossa própria existência, catalisado pela força invisível de Afrodite, cuja influência tece as paixões e os conflitos que impulsionam tanto a destruição quanto o crescimento evolutivo. Ao revisitar esta história, integramos a profundidade da psicologia analítica de Jung para iluminar sua chocante relevância em nosso tempo, um tempo marcado por ausências, vazios e uma busca desesperada por totalidade, que de forma equivocada pode acabar em drogadição.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong><em>O mito de Deméter, sua filha Core, e Hades, o senhor do submundo, permanece uma das narrativas mais primordiais e pulsantes da psique humana</em></strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Longe de ser um mero conto de deuses, ele funciona como um <strong>espelho da alma</strong>, uma estrutura arquetípica onde se refletem as mais íntimas ressonâncias da condição humana, especialmente no que tange à relação mãe-filha, à perda, ao crescimento e à transformação. Em sua beleza crua, o mito nos convida a explorar as profundezas de nossa própria existência, catalisado pela força invisível de Afrodite, cuja influência tece as paixões e os conflitos que impulsionam tanto a destruição quanto o crescimento evolutivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Ao revisitar esta história, integramos a profundidade da psicologia analítica de Jung para iluminar sua chocante relevância em nosso tempo, um tempo marcado por ausências, vazios e uma busca desesperada por totalidade, que de forma equivocada pode acabar em drogadição</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>O mito reflete a relação simbiótica entre mãe e filha, marcada pelas etapas da vida feminina marcadas pelo sangue, como a menarca, o parto, a menopausa e a menacme, além de evidenciar a síndrome do ninho vazio</strong>. Paralelamente, a realidade do patriarcado impõe regras através da figura de Zeus, mas sem a presença desse pai na intimidade familiar, destacando a ausência de uma figura paterna amorosa e presente. Ao mesmo tempo, Afrodite permeia todos os personagens, desencadeando conflitos passionais que podem levar a um crescimento evolutivo ou à destruição, mostrando a complexidade das relações humanas e a influência do amor e do desejo em nossas vidas.</p>



<p class="has-large-font-size wp-block-paragraph"><strong>O Grito no Abismo: O Rapto e o Despertar Forçado</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Imagine a cena: <strong>Core</strong>, a &#8220;jovem anônima&#8221;, a donzela em sua plena inocência, colhe flores num prado banhado de luz, &#8220;inconsciente dos abismos que a esperam&#8221;. É a imagem da juventude protegida, da psique ainda não confrontada com sua própria sombra. De repente, a terra se fende, e dela emerge <strong>Hades</strong>, o soberano do invisível, o deus do que jaz oculto. Seu rapto não é apenas um ato de violência, mas uma potentíssima imagem da iniciação psíquica. É a &#8220;morte da donzela interior&#8221;, um mergulho forçado nas &#8220;trevas mais profundas do reino dos mortos&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Em termos junguianos, Hades personifica o inconsciente – pessoal e coletivo – com suas &#8220;imagens, instintos, sentimentos que são arquetípicos&#8221;. <strong>A queda de Core é o encontro inevitável com o que desconhecemos em nós mesmos</strong>. A paixão de Hades, inflamada pela mão de Afrodite, serve como o catalisador que rompe o véu da consciência ingênua. A lição é dura, mas essencial: a vida, em sua plenitude, exige que nos atrevamos a descer, a confrontar o sombrio para que o novo possa, enfim, florescer. Este é o primeiro passo na jornada da individuação, a ruptura violenta com a simbiose materna para o doloroso nascimento do eu.</p>



<p class="has-large-font-size wp-block-paragraph"><strong>O Lamento da Terra e a Fria Negociação Patriarcal</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong><em>A resposta de Deméter ao desaparecimento da filha é a encarnação do arquétipo da Grande Mãe em sua dor e fúria</em></strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A &#8220;mãe arquetípica&#8221;, fonte de &#8220;dedicação integral, nutrição, cuidados, aconchego&#8221;, transforma-se na &#8220;mãe enlutada, velha e enrugada como a terra ressequida&#8221;. Sua dor é tão vasta que ela impõe sua vontade sobre a própria natureza: a terra se torna estéril, as sementes se recusam a brotar, e a fome ameaça deuses e mortais. Este inverno cósmico é o símbolo da &#8220;depressão característica do &#8216;ninho vazio e da solidão'&#8221;, uma recusa do útero da terra em gerar vida enquanto sua própria vida foi roubada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">É neste ponto que a figura de <strong>Zeus</strong>, o patriarca celestial, se torna crucial. Ele, que consentiu com o rapto, representa a ordem patriarcal que impõe regras &#8220;desprovidas de alma e intimidade&#8221;. Sua intervenção não nasce da empatia, mas da necessidade de manter o equilíbrio cósmico e os sacrifícios dos mortais. A negociação que se segue é um pacto frio, uma solução de compromisso que não cura a ferida, mas a institucionaliza. <strong>A ausência de um &#8220;pai amoroso presente&#8221; é gritante</strong>; Zeus governa à distância, suas decisões impactando profundamente a intimidade familiar sem que ele participe dela. O resultado é a criação das estações: o tempo de Perséfone na superfície com sua mãe traz a primavera e o verão, enquanto seu retorno ao submundo traz o outono e o inverno. O mundo, a partir de então, passa a viver sob o ritmo cíclico da perda e do reencontro, um testemunho eterno da ferida deixada pela negociação patriarcal.</p>



<p class="has-large-font-size wp-block-paragraph"><strong>A Alquimia da Alma: De Core a Perséfone, Rainha de Dois Mundos</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A verdadeira jóia do mito reside na transformação de <strong>Core</strong>. No submundo, a &#8220;boa menininha&#8221; passiva é forçada a amadurecer. O reino de Hades, inicialmente um lugar de terror, torna-se o cadinho para sua alquimia interior, um espaço de &#8220;retraimento meditativo para o crescimento interior&#8221;. O ato de comer as sementes de romã é o ponto de virada. Longe de ser apenas um truque, é um ato de aceitação. A romã, símbolo da &#8220;sexualidade e do vínculo conjugal inquebrantável&#8221;, representa a integração consciente do mundo subterrâneo. Ao comê-la, Core deixa de ser uma vítima passiva e sela seu destino, tornando-se Perséfone, a temível e respeitada Rainha do Submundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Ela se transforma na figura que pode transitar &#8220;nos dois mundos, o do Inferno e o da Luz&#8221;. Essa capacidade de se mover entre a realidade do ego e a &#8220;realidade arquetípica&#8221; do inconsciente é a própria essência da saúde psíquica e da individuação. <strong>Perséfone não é mais a Core inocente nem a esposa aprisionada; ela é uma nova entidade, uma mulher integral que &#8220;penetra as raízes da dor e descobre o caminho da própria cura&#8221;</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Esta jornada espelha profundamente a busca da mulher contemporânea pela identidade integral. Pressionada a desempenhar múltiplos papéis – a filha obediente (Core), a esposa (Rainha de Hades), a futura mãe (continuadora do legado de Deméter) –, a mulher moderna luta para encontrar a si mesma em meio a tantas expectativas. A jornada de Perséfone ensina que a totalidade não vem da escolha de um mundo em detrimento do outro, mas da coragem de habitar o limiar, de integrar a luz e a sombra, e de se tornar soberana de seu próprio e complexo universo interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mito-de-hades-e-persefone-ecoa-de-forma-assustadora-nos-dilemas-atuais-funcionando-como-um-diagnostico-para-as-feridas-de-nossa-sociedade" style="font-size:21px">O mito de <strong>Hades</strong> e <strong>Perséfone</strong> ecoa de forma assustadora nos dilemas atuais, funcionando como um diagnóstico para as feridas de nossa sociedade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>A Ausência do Pai e o Patriarcado Rígido:</strong>&nbsp;A figura de Zeus, o pai ausente e autoritário, reflete um mal-estar contemporâneo. O &#8220;patriarcado tirânico&#8221; que valoriza um &#8220;ego hiper-racional, controlador, avesso à emoção&#8221;, cria indivíduos de ego rígido, como &#8220;armaduras pesadas que impedem o movimento, a adaptação, a respiração da alma&#8221;. Sem a presença de um pai amoroso que promova ritos de passagem saudáveis, os jovens são lançados no mundo sem um ego flexível, capaz de negociar com as profundezas. Quando o &#8220;submundo&#8221; pessoal os confronta, esses egos quebradiços colapsam, incapazes de integrar a experiência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>A Drogadição como um Falso Submundo:</strong>&nbsp;A sociedade moderna, ao desvalorizar o &#8220;mundo imaginal&#8221; e os rituais, gerou um profundo vácuo de significado. A alma, &#8220;faminta por transcendência&#8221;, busca atalhos. A drogadição surge como um &#8220;rapto moderno&#8221;, uma tentativa desesperada de alcançar um estado alterado de consciência. Como aponta a análise, &#8220;literalizamos nossa busca por experiências profundas&#8221;. A droga se torna um &#8220;reino de Hades artificial&#8221;, um mergulho forçado no inconsciente que oferece a descida, mas raramente a sabedoria do retorno. É uma busca por totalidade que resulta em uma &#8220;totalidade indiferenciada&#8217; urobórica artificial&#8221;, uma armadilha que aniquila em vez de transformar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>A Busca pela Totalidade em um Mundo Fragmentado:</strong>&nbsp;A jornada de Perséfone é um mapa para a cura. Ela nos ensina que a plenitude não está em permanecer na luz da inocência, mas em ter a coragem de descer às nossas próprias profundezas, confrontar nossos medos e impulsos sombrios, e emergir transformado. A solução para as crises contemporâneas não está na condenação moral, mas em &#8220;ousar reinventar&#8221; nossa abordagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-large-font-size" id="h-o-rapto-moderno-da-alma-a-drogadicao-como-um-falso-submundo"><strong>O Rapto Moderno da Alma: A Drogadição como um Falso Submundo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O eco mais sombrio e trágico do rapto de Core ressoa na epidemia silenciosa da drogadição, que se manifesta como um sintoma agudo do vazio da alma contemporânea. Se Hades fendeu a terra para arrastar a donzela para o invisível, hoje o &#8220;rapto&#8221; se dá através de um portal químico, uma fenda artificial que promete acesso imediato às profundezas, mas que raramente oferece o caminho de volta. É a busca desesperada por um rito de passagem em uma cultura que aboliu seus rituais; é a &#8220;literalização da busca por experiências profundas&#8221; em um mundo que perdeu o contato com o seu &#8220;mundo imaginal&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-large-font-size" id="h-a-fome-da-alma-e-o-prado-esteril-da-modernidade"><strong>A Fome da Alma e o Prado Estéril da Modernidade</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A sociedade moderna, com sua obsessão pela racionalidade, produtividade e pela superfície polida das aparências, sistematicamente secou o prado florido onde a alma jovem poderia brincar. O &#8220;patriarcado tirânico&#8221;, com suas &#8220;regras morais desprovidas de alma e intimidade&#8221;, ensina a reprimir, a controlar e a performar, mas não a sentir, a explorar ou a se conectar com o mistério interior. A alma, &#8220;faminta por transcendência&#8221;, encontra-se em um deserto de significado. Sem mitos que a guiem, sem rituais que marquem suas transições e sem anciãos que validem suas jornadas interiores, ela grita por uma experiência que quebre a monotonia do real tangível. A droga surge, então, como uma resposta perversa a essa prece. Ela oferece a promessa de um &#8220;estado alterado de consciência&#8221;, um substituto sintético para o sagrado, um atalho para o abismo que parece mais atraente do que a planície estéril da existência cotidiana.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-large-font-size" id="h-o-hades-quimico-uma-descida-sem-reino-uma-coroa-de-espinhos"><strong>O Hades Químico: Uma Descida sem Reino, uma Coroa de Espinhos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><em>O Hades mitológico, embora temível, é um reino estruturado. É o domínio do inconsciente, um lugar de leis próprias, de ordem e, crucialmente, de transformação.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"> Perséfone desce para um cosmos, onde, apesar da violência inicial, ela encontra um papel e um poder, tornando-se rainha. O &#8220;<strong>Hades químico</strong>&#8220;, por outro lado, é o caos puro. Não é um reino, mas um vórtex de dissolução. A descida induzida por substâncias não leva a um encontro com os arquétipos em uma narrativa coerente, mas a uma inundação caótica de imagens e sensações que o ego é incapaz de processar. É um &#8220;mergulho forçado&#8221; sem fundo, uma queda que não termina em um trono, mas em um ciclo vicioso de dependência. A romã que Perséfone come a vincula a um novo status e a uma nova sabedoria; a droga, essa romã artificial, não nutre, mas devora, criando um &#8220;vínculo inquebrantável&#8221; não com um reino, mas com a própria substância da sua destruição.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-large-font-size" id="h-a-falha-na-integracao-o-colapso-do-ego-e-a-impossibilidade-de-ser-persefone"><strong>A Falha na Integração: O Colapso do Ego e a Impossibilidade de Ser Perséfone</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><em>A jornada de Core a Perséfone é uma lição sobre a necessidade de um &#8220;ego estruturante&#8221; forte e, ao mesmo tempo, flexível.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O ego de Core, inicialmente frágil, é forçado a se desenvolver para sobreviver e governar no submundo. Ele aprende a mediar entre a luz e a escuridão. O indivíduo que busca refúgio na drogadição, muitas vezes, parte de um ego já fragilizado ou excessivamente rígido pela couraça patriarcal. Ao se expor à torrente do inconsciente químico, esse ego não se fortalece; ele se fragmenta. Em vez de se tornar o barqueiro que navega as águas profundas, o ego naufraga na própria inundação que provocou. A experiência não pode ser integrada. Não há &#8220;crescimento interior&#8221;, apenas um &#8220;retraimento meditativo&#8221; que se torna isolamento e aniquilação. A pessoa não se torna Rainha de Dois Mundos; torna-se escrava de um único e falso mundo, perdendo a cidadania tanto no reino da luz quanto no da escuridão. O resultado não é a individuação, mas a desintegração, a busca por uma &#8220;totalidade indiferenciada&#8221; que é, na verdade, a anulação do self.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-large-font-size" id="h-a-dor-de-demeter-e-as-estacoes-da-dependencia"><strong>A Dor de Deméter e as Estações da Dependência</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Nesta tragédia moderna, a figura de Deméter é encarnada pela família, pelos amigos e pela comunidade que assistem, impotentes, ao desaparecimento de seu ente querido. Eles vivem o mesmo inverno da deusa: a terra de seus corações se torna &#8220;ressequida&#8221;, a esperança murcha, e eles vagam por um mundo que perdeu a cor, procurando por uma filha ou um filho que, embora fisicamente presente, está psiquicamente em outro lugar. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A negociação com Zeus se repete nas tentativas de intervenção, nas idas e vindas de clínicas de reabilitação, nas promessas quebradas e nas recaídas. As &#8220;estações&#8221; do mito tornam-se os ciclos cruéis da dependência: os breves períodos de sobriedade são a &#8220;primavera&#8221; de uma esperança frágil, rapidamente seguida pelo &#8220;inverno&#8221; do retorno ao uso, um ciclo que exaure a &#8220;persistência materna&#8221; e deixa um rastro de luto contínuo. É a dor de uma perda que nunca se conclui, pois o raptado está sempre à vista, mas perpetuamente fora de alcance.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Em última análise, o mito nos chama a agir como a &#8220;persistência materna&#8221; de Deméter, criando comunidades e redes de apoio que atuem como um útero protetor para aqueles raptados pelo vazio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-jornada-de-persefone-nos-mostra-que-e-possivel-atravessar-o-terror-e-emergir-como-um-soberano-sabio" style="font-size:22px"><em><strong>A jornada de Perséfone nos mostra que é possível atravessar o terror e emergir como um soberano sábio</strong>. </em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Que a profundidade desta história ancestral nos inspire a construir pontes para que todos possam, como ela, florescer em sua totalidade, tornando-se senhores de seus próprios &#8220;dois mundos&#8221;, não aprisionados por um Hades que destrói, mas iniciados por um Hades que transforma. Precisamos urgentemente:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Criar Ritos de Passagem Modernos:</strong>&nbsp;Espaços seguros como a psicoterapia profunda, a arteterapia e retiros de autoconhecimento que permitam um encontro guiado e significativo com o &#8220;Hades&#8221; interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Cultivar o Mundo Imaginal:</strong>&nbsp;Revalorizar a arte, a criatividade, a intuição e o contato com a natureza como portais para a alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Fomentar a Flexibilidade Psíquica:</strong>&nbsp;Promover a integração do masculino e do feminino dentro de cada indivíduo, ensinando que a verdadeira força reside na vulnerabilidade e na capacidade de adaptação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:22px"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<item>
		<title>Dependência química e alcoolismo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/dependencia-quimica-e-alcoolismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Jul 2022 21:02:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[Alcoolismo]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[DAC]]></category>
		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
		<category><![CDATA[Drogadição]]></category>
		<category><![CDATA[Drogadicção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[vícios]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>DAC é a doença que produz uma variedade enorme de sintomas que vão desde a adicção de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, usadas como drogas, passando por distúrbios alimentares, como anorexia, bulimia, hiperfagia ou ortorexia, e comportamentais, com oneomaia, que é compulsão pelas compras, vigorexia, da busca de vigor, vicio em jogos, indivíduos workaholic, parafilias sexuais, entre outras manias compulsórias que interditam a liberdade dos doentes (atualmente já existem mais de cem classificações psiquiátricas, mas todas possuem o mesmo núcleo, que é a ferida do amor próprio). </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos numa sociedade onde, infelizmente, lazer e prazer estão associados ao consumo. Por isso, não podemos restringir o problema das&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Dependências, Abusos e Compulsões</strong>, apenas a fatores psicopatológicos ou biológicos, porque as questões políticas, econômicas e culturais da nossa atual sociedade de consumo também contribuem para essa epidemia onde 5% da população mundial já é usuária de drogas e é previsto que em 2100, de acordo com as atuais estatísticas, mais da metade da população mundial estará dependente de algum tipo de substância psicoativa ou atividades comportamentais que produzem dependência das substancias endógenas, aquelas que são produzidas pelo próprio organismo, por conta dos vícios em games, redes sociais, pornografia e outras práticas do universo virtual, associadas a 1 bilhão de mortes que serão causadas pelo tabagismo ativo ou passivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>DAC</strong>&nbsp;é a doença que produz uma variedade enorme de sintomas que vão desde a adicção de substâncias psicoativas, lícitas ou ilícitas, usadas como drogas, passando por distúrbios alimentares, como anorexia, bulimia, hiperfagia ou ortorexia, e comportamentais, com oneomaia, que é compulsão pelas compras, vigorexia, da busca de vigor, vicio em jogos, indivíduos&nbsp;<em>workaholic</em>, parafilias sexuais, entre outras manias compulsórias que interditam a liberdade dos doentes (atualmente já existem mais de cem classificações psiquiátricas, mas todas possuem o mesmo núcleo, que é a ferida do amor próprio). A&nbsp;<strong>Dependência</strong>, acontece quando a liberdade do Ego se apresenta bastante limitada. O&nbsp;<strong>Abuso</strong>&nbsp;é a repetição exacerbada de uma experiência considerada saudável ou normal produzindo sofrimento ao Ser. A&nbsp;<strong>Compulsão</strong>, por sua vez, já inclui o conflito psíquico, quando o Ego é dominado pelos complexos mantendo o doente escravizado pelo objeto ou comportamento, que outrora pode ter sido de prazer, mas agora torna-se imperativo para não gerar o desprazer da sua abstinência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do uso social ao problemático, o álcool é a droga mais consumida no mundo. Segundo dados de 2004, da Organização Mundial de Saúde (OMS), aproximadamente 2 bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas. O uso indevido de álcool é um dos principais fatores que contribuem para a diminuição da saúde mundial, sendo responsável por 3,2% de todas as mortes e por 4% de todos os anos perdidos de vida útil. Por outro lado, o sucesso no tratamento da&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;é muito pequeno. Menos de 20% das pessoas que ingressam num programa transdisciplinar conseguem a abstinência, geralmente depois de passarem, no mínimo, por duas recaídas. Por isso, associo os transtornos de&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;a questões psicossomáticas, por terem sua etiologia no construto psicoafetivo do dependente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante deixarmos claro que psicossomática não é um adjetivo de uma queixa ou de um sintoma qualquer, sejam eles físicos, psíquicos, sociais, ambientais, entre outros. Em nossos cursos, ministrados pelo IJEP, insistimos muito que a nossa condição de vida é psicossomática e, nesta premissa, não podemos limitar nossos estudos exclusivamente na busca reducionista das causas das doenças. Precisamos ir além das causas, buscamos o sentido, ou seja, para onde aquele sintoma pode estar apontando, que caminho de evolução pode haver nele? Consequentemente, ao invés de procurarmos uma explicação generalista e reducionista sobre as causas dos sintomas e das doenças, tentamos compreender sua manifestação na totalidade de cada ser, no processo evolucional e individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O alcoolismo, assim como todas as adições e dependências, é simultaneamente um sintoma individual e social, registrado histórica e antropologicamente há milênios. A grande pergunta é: Por que a humanidade busca experiências com substâncias psicoativas que produzem estado alterado de consciência? É uma busca de alívio, saídas, encontros ou desencontros com o si mesmo? As experiências de picos e de vales, produzidas por qualquer adição, nos deixam perplexos e nos remete para hipotetizarmos uma série de causas, mas na raiz de qualquer justificativa, o que temos como resultante é a falta de sentido e de significado existencial do doente, devido a inexistência de um propósito de vida que vai além da biosobrevivência, dos prazeres imediatos, da ilusão do sucesso, da fama ou da riqueza material. Ou seja, existem muitos fatores que influenciam uma adição. É um absurdo buscarmos uma causa única, porque a doença é multifatorial incluindo as predisposições genéticas, ancestrais, sociais, familiares, espirituais e vivenciais e todas, em alguma intensidade, contribuem para que aconteça a&nbsp;<strong>DAC</strong>. Por isso, a ajuda ao doente exige atitudes compreensivas, confortantes, acolhedoras e, simultânea e paradoxalmente, energicamente assertivas, limitantes e restritivas, abandonando qualquer tentativa de encontrar a culpa do doente ou os culpados que contribuíram para a doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, sempre digo aos codependentes, que é o entorno relacional do doente que, na maioria das vezes, por não reconhecerem que podem estar dependentes da dependência do seu ente querido, ou seja, dependem da dependência do dependente, que eles não devem continuar acreditando, iludidamente, que podem ser culpados, que podem controlar ou até curar seu dependente. Porque, desta forma, e nesta dinâmica, acabam mais atrapalhando do que ajudando, contribuindo ainda mais para as contínuas recaídas do tratamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A busca de estado alterado de consciência, que é gratificante, por produzir, transitoriamente, alívio e prazer, está diretamente ligada com falta de sentido existencial. Muitas vezes ouvi alguns jovens dizerem que usavam drogas para ficarem “descolados” deixarem de ser “caretas”, se sentirem pertencentes, mais criativos, alegres, confiantes, entre outras justificativas para defender seu vício, obviamente negado como tal, porque ainda se julgam livres, sem reconhecer sua dependência da substância e do estado alterado de consciência que ela produz. Sendo que, na medida que o consumo vai ficando mais frequente, o organismo vai adquirindo resistência e tolerância, exigindo cada vez mais quantidade e frequência.&nbsp; Até que eles acabam deslocados do processo adaptativo e evolutivo sócio, econômico, profissional, relacional e familiar, tornando-se dependentes e alienados, cada vez mais distantes de si mesmos, agravados pelas complicações físicas. Ou seja, o indivíduo perdeu a referência da sua essência e, consequentemente, da sua vocação e seu chamado. Neste caso surge o mau destino e todos os eventos desastrosos e trágicos, pela inconsciência da sua trajetória existencial, ficando à mercê do catastrófico. C. G. Jung nos alerta para a necessidade da relação do Eu com o inconsciente e para o risco desta falta de autoconhecimento:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] as pretensões do inconsciente se impõem categoricamente ao consciente e causam nefasta dissensão que se exterioriza sobretudo no seguinte: as pessoas já não sabem o que realmente querem e não encontram prazer em nada, ou querem demais de uma vez só e têm prazer demais, mas em coisas impossíveis. A repressão das pretensões infantis e primitivas, necessária por motivos culturais, leva facilmente a neuroses ou ao abuso de drogas narcóticas como álcool, morfina, cocaína etc. Em casos mais sérios ainda, o desfecho da dissensão pode ser o suicídio.” (CW6 &#8211; §639)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os profissionais de saúde, por convenção, estabelecem que a dependência química implica na necessidade psíquica do indivíduo frente a adição, e o vício é o estágio mais avançado da dependência química, onde o organismo já não consegue funcionar adequadamente sem a presença da substância de adição. Mas, tanto o dependente químico quanto o viciado são indivíduos doentes que necessitam de tratamento. Ninguém está nessa por vontade própria, com lucidez e consciência plena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de cura é muito complexa e de grande ambiguidade. Por exemplo, em função do meu conhecimento em homeopatia e psicologia junguiana, acredito que é possível morrer curado. Mas, filosofia aparte, é inconcebível acreditar que apenas uma droga poderia curar a dependência de outra droga. Nossa experiência aponta para um tratamento transdisciplinar, preferencialmente o menos invasivo possível, que propicie autoconhecimento para que o doente possa descer nas profundezas do seu ser e, como Fausto de Goethe, resgatar sua alma. Por isso, não são raros os casos em que a experiencia metafórica de “fundo de poço” são determinantes na conquista da abstinência e sobriedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O caminho de tratamento das&nbsp;<strong>DAC</strong>&nbsp;começa pela desintoxicação, depois exige o reconhecimento da dependência e o desejo de abstinência, levando em consideração a síndrome da dependência, abordando a família, fazendo a conscientização do risco das recaídas, o ressignificar dos velhos hábitos, o reconhecimento das situações de risco para recaída e a produção de estratégias de abstinência de curto prazo, porque a “batalha” é diária e, na maioria dos casos, pelo resto da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As adições são doenças com características de comorbidade e codependêcia, desta forma nada que aja isoladamente pode ser eficaz. A cura depende de muitas intervenções nos aspectos pessoais, psíquicos, físicos, sociais, familiares e até espirituais. Porém, sem o real compromisso do dependente quase nada se pode fazer. Toda intervenção arbitrária e truculenta acaba gerando mais problemas e danos do que cura. Paciência e amor são as ferramentas essenciais para o sucesso do tratamento. Mesmo assim, teremos que encarar potencias muito significativas para que a transformação do ser aconteça. Mudanças sempre desencadeiam mecanismos de defesa e, nestes casos, teremos que enfrentar as reações biológicas, onde cada célula deseja manter o indivíduo no seu padrão viciante, além das resistências neuro cerebrais, psicoafetivas, familiares e sócio culturais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque o cérebro, assim como nossas estruturas somáticas, tende a padrões viciantes, por isso é tão difícil mudança de hábitos, como a rotina alimentar para aqueles que desejam perder peso. Nosso cérebro consome de 20 a 25% da glicose e do oxigênio do organismo, apesar de representar, na média, apenas 2% do peso corporal, nesta perspectiva, a massa cerebral consome, proporcionalmente, de 60% a 80% a mais do que a corporal. Ele é uma máquina voraz, constantemente ligada para garantir a manutenção da vida biológica, produzindo rotinas e padrões repetitivos e automáticos, para a manutenção da vida, associando-as com os mecanismos de prazer e recompensas, produzindo dopaminas, serotoninas, endorfinas e outras substâncias. Desta forma, quando o sistema de recompensas é ativado entramos em modo automático de repetição e, em muitos casos, de compulsão, dificultando, cada vez mais, a capacidade de crítica reflexiva, tirando a autonomia da consciência. E esse mesmo mecanismo acontece, de forma ainda mais efetiva, com as substâncias psicoativas, como álcool outras drogas de abuso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso muito diálogo, muita sinceridade e muita disponibilidade para enfrentarmos um mundo tão desigual e sem perspectivas. Os vínculos estão sendo substituídos por eficácia e pelo acúmulo de bens. Os valores afetivos estão ficando em segundo plano. Nossos jovens estão perdidos e completamente diluídos frente a tantas demandas. Precisamos dar possibilidades criativas, sentimento de pertença e autoestima mais elevada aos jovens. Estamos assistindo uma crescente falta de entusiasmo para a vida. O grande desafio que temos para o futuro da humanidade é o engajamento entusiástico dos jovens para com as questões sociais e ecológicas. Sem isso teremos uma sociedade individualista, buscando um prazer hedônico e sem sentido. A dessacralização e o desencantamento do mundo, provocado pelo utilitarismo materialista e racional devem ser repensadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encerro esse artigo lembrando que em 1996, a Unesco (Organização da Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), divulgou um estudo mundial sobre a educação, desembocando nesses quatro pilares:&nbsp;<strong>Aprender a ser</strong>;&nbsp;<strong>Aprender a conviver</strong>;&nbsp;<strong>Aprender a aprender</strong>; e&nbsp;<strong>Aprender a fazer</strong>; Observe que tudo começa pelo autoconhecimento, porque só assim que poderemos alcançar um sistema político democrático, de governança e não predatório,&nbsp; por ser sustentável e humanista, que poderá contribuir para um cenário onde a diferença entre os mais ricos e a população não seja tão desigual e desumana e que o consumo e a riqueza material deixem de ser sinônimos de prazer e sucesso.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>WALDEMAR MAGALDI FILHO</em>&nbsp;&#8211; Psicólogo, Especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e Doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, Analista didata do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa – e coordenador dos cursos de pós-graduação em Psicologia Junguiana; Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Email:&nbsp;wmagaldi@ijep.com.br</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi &#8211; 19/02/2021</em></strong></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>Abandono Social</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/abandono-social/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Maluf]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2022 12:27:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
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		<category><![CDATA[morador de rua]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vivemos hoje um estado de calamidade pública. A população em situação de rua vem crescendo de forma acentuadamente drástica. Basta olhar pela janela e trilhar as calçadas. Segundo fontes SISAB de 2020, 221.869 pessoas se encontram em situação de rua, sendo 34,7% mulheres e 65,35% homens.&#160; Parece que na pandemia o número dobrou nas grandes [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos hoje um estado de calamidade pública. A população em situação de rua vem crescendo de forma acentuadamente drástica. Basta olhar pela janela e trilhar as calçadas. Segundo fontes SISAB de 2020, 221.869 pessoas se encontram em situação de rua, sendo 34,7% mulheres e 65,35% homens.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Parece que na pandemia o número dobrou nas grandes cidades.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A população vulnerável socialmente&nbsp;que vive a pobreza extrema é formada também por trabalhadores que exercem atividades informais. 70% dos moradores de rua trabalham como catadores de reciclagem, flanelinhas, em construção, limpeza e carregadores. 15,7% da população em SP são pedintes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Encontramos na rua uma diversidade de pessoas e circunstâncias. A questão da saúde é um problema bastante grave também. As drogas são bastante presentes entre moradores de ruas e as patologias psiquiátricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A maioria de quem mora na rua faz pelo menos uma refeição ao dia.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Em dezembro de 2019, foi instituído um decreto (decreto n°7053) que define população em situação de rua como grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos de as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou moradia provisória.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="816" height="518" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1.jpg" alt="" class="wp-image-4100" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1.jpg 816w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-300x190.webp 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-768x488.webp 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-150x95.webp 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-450x286.webp 450w" sizes="(max-width: 816px) 100vw, 816px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">É um tema bastante amplo pois mesmo em situação de rua encontramos situações das mais diversas pois falamos de humanos. Faltam-nos políticas públicas e iniciativas sociais privadas para adentrar a essa realidade. Que situação é essa vivida por alguém na rua que conseguiu muitas vezes se libertar dos compromissos e pressões coletivas sociais, mas abraça a dor e a ferida social da invisibilidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao pensarmos em rua e pobreza, pensamos em bem e mal e logo somos arremessados a uma instância rígida de nossa criação cristã, precisamos muitas vezes alimentar o mau fora de nós para sermos bons. Essa ideia acaba sendo alimentada por muitas igrejas, constelando o arquétipo do salvador e alimentando no morador em situação de rua o arquétipo do invalido nutrindo a pobreza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8230;pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus (Lucas 18: 24-25). Numa sociedade unilateralizada que carrega a literalidade&nbsp;como característica, acaba entendendo a citação acima de forma literal. Logo que nos deparamos com essa imagem de pessoas habitando ruas que se contrasta com nossas mansões, pensamos no sentido da vida e de alguma forma a representação da imagem de Deus</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung afirma que, desde que “todos os opostos são de Deus”, devemos nos curvar diante desse “peso”. Os opostos são a pré-condição indestrutível e indispensável de toda vida psíquica escreveu Jung em 1955 no Mysterium Coniunctions.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung afirma também que é através da psique que podemos estabelecer que Deus age sobre nós. E a expressão da psique se dá através de nossa cosmovisão e, portanto, atitude diante do mundo. Então&#8230; o que será que acontece com a nossa sociedade, com os indivíduos que se tornam indiferentes aos que habitam as ruas? O que será que leva um indivíduo a habitar as ruas?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Quem são esses indivíduos que perambulam pelas noites sombrias quando a luz cai; já que diante da luz são rejeitados e expelidos às sarjetas? São expelidos à margem de nossos caminhos. Para reconhecer esses “corpos perambulantes” preciso de alma e no mundo desalmado, o olhar é pelos olhos da razão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Sem alma não há relação entre as polaridades que constituem a natureza humana. Sem diálogo entre os lados, não há alcance ao que é divino e caímos na experiência de um aparthaid que julgamos ser natural. Separamos do mundo o imundo gerando cisão, rompimento, negação e violência social. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Se tudo é uno, quando integro o outro em mim, me aproximo do coletivo.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Pensar em mundo é vislumbrar a totalidade que envolve sistemas e contradições relacionais devido à diversidade de experiências vivas. Jung fala da busca de totalidade no processo de individuação, e a totalidade compreende as oposições e aproximação entre elas. Portanto se me distancio e nego o imundo, nego parte do meu mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Completude ou unidade é a condição original de existência, antes que o primeiro “pensamento” entre e comece a discriminar e diferenciar isso “daquilo”. (DONALD, pensamentos de Jung sobre Deus pg25.)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mistura de conteúdos no princípio da criação, separamos através da função de discriminar durante o processo de desenvolvimento para poder posteriormente unir de forma consciente. Mas o homem contemporâneo parece literalizar essa ideia e vivê-la fora de si.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A totalidade é um estado onde consciência e inconsciente trabalham juntos em harmonia, onde estas instancias estabelecem um diálogo possibilitando a integração de aspectos sombrios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse apartado da sociedade faz parte de uma “classe” a parte, (termo usado por alguns indivíduos que vivem essa situação.)&nbsp; São invisíveis no meio de tanta gente por serem incômodos pela sua aparência suja e seu fedor. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós?! Somos limpos e polidos e assim somos aceitos e não nos misturamos e nem sequer dialogamos com esse outro lado. Esse corpo negado e rejeitado a ponto de se tornar invisível é a própria sombra que projetamos no pedinte imundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se defronta com considerável resistência”. (Jung &#8211; OC 9/2 § 14)</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Hoje em dia, defrontamo-nos com o lado escuro da natureza humana toda vez que abrimos um jornal ou ouvimos o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a nossa moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia em nossas próprias células. Nossos ancestrais animalescos, afinal de contas, sobreviveram graças às presas e às garras. A besta em nós está viva, muito viva — só que a maior parte do tempo encarcerada.” (Ao encontro da sombra – Robert Bly pag. 20)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa sombra materializada nesses indivíduos não é anônima, ela têm nome e história com muitas marcas. Somos “Josés” somados a cada parte de nós que lê esse texto e reverbera essas ideias e imagens em si, pois formamos uma unidade. Essa é a totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;Cada um, uma história que vai além do pessoal e é coletiva também.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Um corpo tem que ocupar um lugar no espaço. Qual é esse espaço que o morador em situação de rua ocupa? Esse corpo nos assusta e desperta nossos medos de fracasso já que ainda não tomamos ciência de quê fracassamos como sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É o medo pelo que ele nos representa. Vivemos em bolhas distantes umas das outras onde não há relação e diálogo entre elas, empobrecendo a nossa condição humana. Não comungamos de ideias e perdemos propósitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão da psicologia analítica se não aproximarmos essas polaridades continuaremos tomados pelo monoteísmo da consciência e corremos o risco do aprisionamento em nossas certezas e verdades que são frutos de nossos complexos de poder que habitam as sombras e um ego rígido que nos acorrenta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses indivíduos caminham lentamente pois não tem energia, enquanto nós corremos, pois temos pressa e assim não aprofundamos nosso olhar. Vivem a fome, o frio e a solidão em seus corpos enquanto nós nos fartamos a mesa e vivemos com 5.000 likes nas redes sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seus olhos&#8230; Um olhar perdido sem sentido, sem direção enquanto nós focados fixamente no sucesso. Esses indivíduos têm uma pisada desalinhada com os pés sujos e cascudos para dar conta da realidade árida e dura enquanto nós fazemos malabarismos em nossos saltos altos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como opção nós caminhamos muitas vezes para nos buscar e muitos deles caminham para fugir de si&#8230; A população de rua vem aumentando drasticamente, o que reflete o aumento da exclusão social fruto de valores sociais que nutrem um modelo econômico que vivemos, onde nem todos se enquadram.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Muito para poucos e pouco para muitos&#8230;”&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse é o corpo social que se torna fruto dos corpos individuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;O mendigo pedinte e sem teto é a antítese da imagem e vida desejada por nós cidadãos de “sucesso” &#8230; Esse é o espírito da nossa época que eles também fazem parte. Como seria se perceber menos perfeito e mais inteiro com todas as carências e sujeiras que carregamos na alma?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como é se deparar com corpos desnutridos, arcados e sujos, famintos de comida, já que estamos em corpos famintos de espiritualidade e humanidade que se expressa na materialidade do excluído? Só atingiremos a divindade quando mudarmos o olhar para com o tema da espiritualidade que se realiza de forma concreta, inclusive no corpo. Nessa desunião que vivemos, separamos o bom do mal sem condição para o diálogo e adoecemos como indivíduo e sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>“Não posso perfumar e nem performar a alma”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Essa é uma das batalhas internas em tempos modernos onde a ilusão do controle é alimentada socialmente para manter a persona polida. Sendo assim a tendência é projetar e rejeitar todo o dejeto naquele que em mim não cabe em lugar nenhum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Minha intenção é questionar e quem sabe despertar outros olhares sobre o tema invocando assim algo dessa energia ligada ao feminino, resgatando quem sabe a capacidade em acolher e se relacionar com o outro em mim para perceber o outro nele nessa aproximação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tentar entender a dinâmica desse grupo de indivíduos na tentativa de desenvolver aquilo que de forma consciente ou inconsciente “tiramos” deles em relações de uso, abuso e poder. É uma tentativa mais consciente de reparação, não para aliviar a culpa, mas sim por sentir-se parte integrante e ativa dessa sociedade com propósito de evoluir como humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;Precisamos nos aproximar para olhar de forma mais profunda.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">“Sim, uma pessoa nunca é representada por ela mesma. Uma pessoa só é alguma coisa em relação a outros indivíduos. Só obtemos dela um retrato completo quando a vemos em relação, a seu entorno, assim como não sabemos nada sobre uma planta ou um animal quando não conhecemos seu habitat”. (traumanalyse,253 sobre o amor- Jung)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos fazemos parte desse cenário, cada corpo em seu lugar e todos direta ou indiretamente pagamos o preço da fome, da miséria e da violência. Como num mosaico somos pedaços que compõem o TODO.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Se você não quiser arruinar se moralmente só existe uma pergunta a fazer: Qual é a necessidade que você mesmo carrega quando se comove com a situação aflitiva de seu irmão?” (Briefi II, 395, Jung Sobre o amor) Vamos repensar caminhos e sentidos e para isso preciso parar e mergulhar nesse universo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Sim&#8230; sofremos de fome, fome de alma e de espírito. Vivemos em corpos “sarados” lustrados por personas ajustadas, polidas e perfumadas. Isso é um problema? Não, se não negarmos seu contraponto, mas, como diz Jung:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Reconheçamos que nada é tão difícil quanto suporta-se a si mesmo” o que também explica a projeção da sombra social. Segundo Jung “ninguém vive fora de sua pele,” e só acessamos o outro através da empatia no olhar que conectar a ferida do outro a minha. (Jung pag 373. Oc7/2)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dessa fala entendemos nossas projeções sombrias sobre esses indivíduos, esquecendo assim de nossas faltas e também dos excessos que formam essa dinâmica polar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que não achar lugar na consciência para ser constelado, fica excluído e pode se associar aos complexos sociais dominantes, nos tornando em seguida dominados pela nossa própria dominação. Assim como a rua abraça o não acolhido, esses complexos sociais são âncora à sombra coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Olhar no olho desse outro e estabelecer diálogo é possibilitar olhar com os olhos subjetivos para o interior de si e recordar assim “quem sou” de forma mais inteira, atualizando o passado e presente em aspectos emocionais que foram rasgados, arranhados e que se tornaram feridas veladas. Olho para o outro como espelho do outro de mim&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos individualmente o que vivemos coletivamente e vice-versa. Entendo que precisamos desenvolver consciência mais ecológica para entender esse corpo que vive no corpo de Gaia.&nbsp;O corpo negado de Gaia é a própria negação da energia do feminino, que acaba projetado no corpo do indigente imundo, negando parte do corpo social.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;Que corpo é esse sofrido e não amado?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Que relação é essa que estabelecemos com o outro onde nos esfriamos e nos distanciamos do amor em seu sentido maior, potencializando o nosso complexo de poder criando adversários fora de nós Como lidar com a pobreza social se não começamos pela nossa pobreza e vulnerabilidades de alma. O complexo negado atua em nós, nos conduzindo á trágica realidade onde geramos mais pobreza e nos anestesiamos diante dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<strong>“A invisibilidade só deixará de existir pela mudança no olhar.”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Me pergunto se todas as guerras, derramamento de sangue e miséria não assaltaram a criação quando um homem procurou ser senhor de outro (&#8230;) E essa miséria não irá embora (&#8230;) quando todas as ramificações da humanidade considerarem a terra como um tesouro comum a todos.”&nbsp;(Gerrard winstannley, the new law rightteouness, 1649 – Calibã e a Bruxa pag 112)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto isso consideramos esse grupo de moradores em situação de rua como o metaverso da “nossa” sociedade sombria. Nos falta amorosidade e maturidade para olharmos esse assunto com pés no chão.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Enquanto buscamos poder anulamos o poder do amor.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ali onde predomina o amor não há vontade de poder, e onde há predominância do poder, não há amor. Um é a sombra do outro.&nbsp;&nbsp;Aquele que se coloca no ponto de vista do Eros tem um oposto compensador da vontade de poder. Mas aquele que enfatiza o poder tem como compensação o Eros. Vista do ângulo unilateral do posicionamento da consciência, a sombra é uma parte de menor importância da personalidade, e por isso é reprimida por uma intensa resistência. Mas aquilo que é reprimido precisa tornar-se consciente para que se crie uma tensão dos opostos, sem a qual não há possibilidade de continuidade de movimento. De certa forma, a consciência é em cima e a sombra é embaixo e como que está no alto sempre tende a descer às profundezas. O quente ao frio, assim toda a consciência, talvez até sem se perceber, busca por seu oposto inconsciente, sem o qual ela é condenada à estagnação, ao assoreamento ou à fossilização. Só nós o posto é que a vida se acende.” (Jung OC 7&nbsp;<a>§&nbsp;</a>78)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida e a psique nos impulsionam a realizar potencial. Tornar-se si mesmo nos aproximando do coletivo.&nbsp;Buscamos nosso lugar através do sentimento de pertencimento a si e ao mundo. Desenvolver a centelha divina em nós é realizar o inconsciente no sentido do servir para vir a ser. <strong>Muitos de nós nunca foi sonhado, então como pode sonhar?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Infelizmente deixamos de ser Homem de argila para sermos Homens de lata!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;“E apesar de todas as diferenças, a unidade da humanidade haverá de se impor de modo inexorável.”(Jung Oc 10/1§ 568)</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ana Paula Maluf</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bibliografia&nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Calibã e a Bruxa – SILVA FEDERICI – Ed. Elefante</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aspectos do feminino – C.G JUNG – Ed. Vozes&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensamentos de Jung sobre Deus – DONALD R. DYER, PH.D.- Ed. Madras</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psicologia do inconsciente – C.G JUNG 7/1 – Ed. Vozes&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A natureza da psique – C.G JUNG 8/2 – Ed. Vozes</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao encontro das sombras – Connie Zweig e Jeremiah&nbsp;&nbsp;Abrams -Ed. CULTRIX</p>



<p class="wp-block-paragraph">Presente e futuro – C.G. JUNG 10/1&nbsp;&nbsp;&#8211; Ed. Vozes</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Transitando entre Vícios e Virtudes</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/transitando-entre-vicios-e-virtudes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Mar 2022 23:49:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[vícios]]></category>
		<category><![CDATA[virtudes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vícios e virtudes são opostos complementares, presentes na psique coletiva, que precisam encontrar expressão consciente na mente de cada um, para evitar que fiquem inconscientes e projetados nos outros, ou que surjam polarizados patologicamente nas nossas vidas. Vício é todo hábito, geralmente com características impulsivas, obsessivas ou compulsivas, que oscila entre as atitudes de extremo [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Vícios e virtudes são opostos complementares</strong>, presentes na psique coletiva, que precisam encontrar expressão consciente na mente de cada um, para evitar que fiquem inconscientes e projetados nos outros, ou que surjam polarizados patologicamente nas nossas vidas. Vício é todo hábito, geralmente com características impulsivas, obsessivas ou compulsivas, que oscila entre as atitudes de extremo excesso ou deficiência. E toda vez que uma pessoa fica polarizada, de forma unilateral e monotemática, com excesso de ação ou inação, um quadro patológico está instalado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nascemos com fortes tendências aos vícios, por conta da nossa estrutura cerebral de gratificação e recompensa e de toda a fisiologia bioquímica. Somado a isso temos as várias carências, desde as materiais até as espirituais e para suprir essa sensação de vazio e nossas deficiências tendemos aos excessos. Com isso, o ego, que é um arquétipo manifestado na forma de complexo administrador da consciência, deixa de cumprir sua maior missão, que é a de servir à alma, representante do eu superior, e se volta para a materialidade, que é finita e angustiante, por estar ligada apenas ao eu inferior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Carl Jung afirmou que &#8220;cada um tem em si algo do criminoso, do gênio e do santo&#8221;. Com isso, temos a possibilidade de reconhecer nossas carências e potencialidades, por meio da analise dos nossos vícios e tentar supri-las, não por meio de coisas externas, porque são transitórias e fugazes, mas por meio de alimentos internos, do mundo espiritual. Porém, como somos condicionados, desse o nascimento, a suprir todas as nossas carências na dimensão material, em busca desesperada de riqueza, comida, compra de coisas, aquisição de títulos, beleza estética de acordo com a moda vigente, trabalho em excesso e sem o sentido do servir ou fanatismo em religiões ou partidos políticos, para termos a ilusão do pertencimento. Tudo isso prejudica o processo de individuação, que é o caminho que o ego deve percorrer para atender ao si mesmo, em busca da realização anímica e espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De todas essas atitudes viciantes, para tentar suprir nossas carências, o desejo de poder para dominar o outro é o mais perverso, tanto para o si mesmo quanto para seu entorno relacional, porque para dominar o outro é necessário transforma-lo em inferior, ativando suas carências e, consequentemente, seus vícios, inclusive dele depender de você. Onde se instala o poder surgem os aprisionamentos e a ausência do amor, com mais necessidade para suprir o vazio interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os vícios aprisionam e as virtudes libertam, mas para ser virtuoso é necessário transcender à materialidade, em busca de sentido e significado existencial. Neste momento a plenitude do ser supre as carências e o egoísmo dá lugar ao altruísmo, porque o sentimento de abundancia vai impulsionar para servir deixando-nos mais próximos da integralidade e do pleno, e quanto mais plenitude, mais virtude e amor e menos carências e vícios. Mas como disse anteriormente, só por meio de um trabalho de autoconhecimento, encarando a sombra, nossos vícios, que muitas vezes aparecem como atitudes politicamente corretas, e suas respectivas carências, que conseguiremos alcançar a virtuosidade do servir e amar o amor.</p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"><strong>Autor: Waldemar Magaldi</strong></p>
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		<title>AA e Carl Gustav Jung</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/aa-e-carl-gustav-jung/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Simone Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2019 22:05:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[AAA]]></category>
		<category><![CDATA[alcoólicos anônimos]]></category>
		<category><![CDATA[Alcoolismo]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“O VALOR DA VIDA” To William Griffith Wilson Alcoholics Anonymous EUA 30.01.1961 Der Mr. Wilson,&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Sua carta foi muito bem vinda. Nunca mais tive noticias de Roland H. e às vezes me pergunto como ele estaria passando. Minha conversa com ele, que corretamente lhe contou, teve um aspecto que ele não conhecia. A razão foi [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>“O VALOR DA VIDA”</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>To William Griffith Wilson</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Alcoholics Anonymous</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>EUA</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">30.01.1961</p>



<p class="wp-block-paragraph">Der Mr. Wilson,&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sua carta foi muito bem vinda. Nunca mais tive noticias de Roland H. e às vezes me pergunto como ele estaria passando. Minha conversa com ele, que corretamente lhe contou, teve um aspecto que ele não conhecia. A razão foi que eu não podia dizer-lhe tudo. Naquele tempo eu tinha que ser extremamente cauteloso em tudo que dizia. Descobri que eu era mal interpretado em todos os sentidos. Por isso fui muito cauteloso ao falar com Roland H. Mas o que realmente levei em consideração foi o resultado de muitas experiências com homens de seu tipo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sua ansiedade por álcool corresponde, num nível mais baixo, à sede espiritual do ser humano pela totalidade, expressa em linguagem medieval: a união com Deus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como formular semelhante entendimento numa linguagem que não fosse mal interpretada hoje?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O único caminho correto e legítimo para tal experiência é que ela nos acontece realmente, e só pode acontecer-nos quando caminhamos numa trilha que nos leva a uma compreensão mais elevada. Podemos ser levados a este objetivo por um ato da graça e por meio de um contato pessoal e honesto com amigos ou através de uma educação superior da mente, além dos limites do mero racionalismo. Vejo por sua carta que Roland H. escolheu o segundo caminho que foi, sob as devidas circunstâncias, obviamente o melhor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estou fortemente convencido de que o princípio do mal que prevalece neste mundo leva a necessidade espiritual não reconhecida à perdição, se não contar com a contra-reação de uma atitude verdadeiramente religiosa ou com a parede protetora da comunidade humana. Uma pessoa comum, não protegida por uma ação do alto e isolada da sociedade, não pode resistir ao poder do mal, que é chamado apropriadamente de demônio. Mas o uso de tais palavras faz surgir tantos erros que é melhor manter-se longe delas ao máximo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eis as razões por que não pude dar a Roland H. a explicação cabal e suficiente. Mas ao senhor eu confio porque concluo de sua carta, muito decente e honesta, que o senhor formou uma opinião sobre os chavões errôneos que se ouvem sobre o alcoolismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Veja o senhor: álcool em latim é&nbsp;<em>spiritus</em>, a mesma palavra para a experiência religiosa mais elevada e também para o veneno mais prejudicial. A fórmula benéfica é pois:&nbsp;<em>spiritus contra spiritum.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Agradeço novamente sua gentil carta.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>I remain</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Yours sincerel,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">C. C. Jung&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">William Griffith Wilson, 1896-1971, foi um dos fundadores da associação, originalmente americana, e depois mundial, dos “alcoólicos anônimos” (AA). A fundação ocorreu em 1934. Sua carta a Jung (23.01.1961) e a resposta acima foram publicadas na revista mensal&nbsp;<em>AA Grapevine. The International Monthly Journal of Alcoholics Anonymous,&nbsp;</em>em janeiro de 1963 e novamente em janeiro de 1968. Em sua carta, Mr. Wilson mencionou o caso do alcoólico Roland H., que foi analisado por Jung e cuja cura contribuiu para a fundação&nbsp;da associação: após tentativas frustradas de cura, a análise de um ano e levou uma cura momentânea. Após um ano, Roland H. recaiu e procurou Jung de novo (1931). Este lhe explicou a inutilidade de um tratamento psiquiátrico no seu caso; somente uma experiência religiosa ou espiritual poderia livra-lo de sua situação desesperadora. A observação de Jung, feita com cautela, revelou-se correta. Após uma “conversion experience” no seio da “Oxford Group” Roland H. ficou definitivamente curado.&nbsp;&nbsp;Através de um amigo comum curado da mesma maneira, o destinatário soube disso e teve ele mesmo uma experiência religiosa curadora bem como a visão de um grupo de alcoólicos que contavam suas experiências espirituais uns aos outros. Isto levou à fundação da “Society of Alcoholics Anonymous”. Depois da morte do destinatário descobriu-se o seu verdadeiro nome; Em vida era conhecido apenas como “Bill W.”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Cartas.</em></strong>&nbsp;Volume III.&nbsp;&nbsp;Carl Gustav Jung.&nbsp;&nbsp;Ed. Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>OS DOZE PASSOS DO NA</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>1O&nbsp;) ADMITIMOS QUE ÉRAMOS IMPOTENTES PERANTE NOSSA ADICÇÃO, QUE NOSSAS VIDAS TINHAM SE TORNADO INCONTROLÁVEIS.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>2O&nbsp;) VIEMOS A ACREDITAR QUE UM&nbsp;PODER MAIOR&nbsp;DO QUE NÓS PODERIA DEVOLVER-NOS À SANIDADE.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>3O&nbsp;) DECIDIMOS ENTREGAR NOSSA VONTADE E NOSSAS VIDAS AOS CUIDADOS DE&nbsp;DEUS, DA MANEIRA COMO NÓS&nbsp;O&nbsp;COMPREENDÍAMOS.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>4O&nbsp;) FIZEMOS UM PROFUNDO INVENTÁRIO MORAL DE NÓS MESMOS.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>5O&nbsp;) ADMITIMOS A&nbsp;DEUS, A NÓS MESMOS E A OUTRO SER HUMANO A NATUREZA EXATA DAS NOSSAS FALHAS.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>6O&nbsp;) PRONTIFICAMO-NOS INTEIRAMENTE A DEIXAR QUE&nbsp;DEUS&nbsp;REMOVESSE TODOS ESSES DEFEITOS DE CARÁTER.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>7O&nbsp;) HUMILDEMENTE PEDIMOS A&nbsp;ELE&nbsp;QUE REMOVESSE NOSSOS DEFEITOS.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>😯&nbsp;) FIZEMOS UMA LISTA DE TODAS AS PESSOAS QUE TÍNHAMOS PREJUDICADO, E DISPUSEMO-NOS A FAZER REPARAÇÕES A TODAS ELAS.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>9O&nbsp;) FIZEMOS REPARAÇÕES DIRETAS A TAIS PESSOAS, SEMPRE QUE POSSÍVEL, EXCETO QUANDO FAZÊ-LO PUDESSE PREJUDICÁ-LAS OU A OUTRAS.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>10O&nbsp;) CONTINUAMOS FAZENDO O INVENTÁRIO PESSOAL E, QUANDO ESTÁVAMOS ERRADOS, NÓS O ADMITÍAMOS PRONTAMENTE.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>11O&nbsp;) PROCURAMOS, ATRAVÉS DE&nbsp;PRECE E MEDITAÇÃO, MELHORAR NOSSO CONTATO CONSCIENTE COM&nbsp;DEUS, DA MANEIRA COMO NÓS&nbsp;O&nbsp;COMPREENDÍAMOS, ROGANDO APENAS O CONHECIMENTO DA&nbsp;SUA VONTADE EM RELAÇÃO A NÓS, E O PODER DE REALIZAR ESTA VONTADE.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>12O&nbsp;) TENDO EXPERIMENTADO UM&nbsp;DESPERTAR ESPIRITUAL, COMO RESULTADO DESTES PASSOS, PROCURAMOS LEVAR ESTA MENSAGEM A OUTROS ADICTOS, E PRATICAR ESTES PRINCÍPIOS EM TODAS AS NOSSAS ATIVIDADES.</strong></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Simone Magaldi &#8211; 19/03/2019</em></strong></h4>



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