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	<title>Arquivos ego - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos ego - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jun 2026 20:42:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como objetivo provocar uma reflexão sobre os efeitos da atuação da sombra, como complexo, na vida do indivíduo e sua consequente influência em processos de adoecimento. O adoecimento surge como uma forma simbólica da psique manifestar aspectos inconscientes que pedem reconhecimento e integração. O quanto menos reconhecemos as mensagens do inconsciente, mais força e energia o complexo acumula e os sintomas e doenças surgem, como tentativa de uma autorregularão psíquica. O autoconhecimento para compreensão do indivíduo, de suas motivações inconscientes e de suas decisões de vida são um caminho para uma adaptação saudável a um mundo cada vez mais adoecido.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:0.3">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Brucelose, febre tifoide, arteriosclerose, miopia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Catapora, culpa, cárie, cãibra, lepra, afasia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O pulso ainda pulsa</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>E o corpo ainda é pouco</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Titãs)<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><strong>[1]</strong></a></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo tem como objetivo provocar uma reflexão sobre os efeitos da atuação da sombra, como complexo, na vida do indivíduo e sua consequente influência em processos de adoecimento. O adoecimento surge como uma forma simbólica da psique manifestar aspectos inconscientes que pedem reconhecimento e integração. O quanto menos reconhecemos as mensagens do inconsciente, mais força e energia o complexo acumula e os sintomas e doenças surgem, como tentativa de uma autorregularão psíquica. O autoconhecimento para compreensão do indivíduo, de suas motivações inconscientes e de suas decisões de vida são um caminho para uma adaptação saudável a um mundo cada vez mais adoecido.</p>



<h2 id="h-palavras-chave-psicossomatica-doenca-complexo-sombra-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave: psicossomática, doença, complexo, sombra, Jung</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há uma lista infinita de sintomas de diversas origens e natureza. Pode-se destacar entre tantos: as questões com o peso (perda, aumento), fadiga, dores (cabeça, articulação, muscular), tontura / vertigem, sonolência ou insônia, náusea, taquicardia, impotência, tosse, prurido e muitos, muitos outros; às vezes isolados às vezes associados, por curto período ou recorrente. Os estudos da Psicossomática, a partir de uma abordagem analítica, contribuem para uma compreensão mais ampla e profunda sobre o sentido simbólico dos processos de adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir de um olhar retrospectivo para os estudos da Psicossomática, Ramos (2005, p. 22) comenta sobre as tribos primitivas. Elas lidavam com o processo do adoecer como “a consequência da violação de um tabu ou uma ofensa aos deuses”, os processos de cura dos xamãs e pajés incluíam chás de ervas, evocação de espíritos e palavras com poder de cura. Assim, a autoridade implícita na figura do xamã, com toda sabedoria que ele representava, tinha o poder de interferir no tratamento e no processo de cura dos indivíduos.</p>



<h2 id="h-no-pensamento-grego-cometer-a-hybris-que-era-uma-ofensa-a-um-deus-fazia-com-que-voce-ficasse-escravizado-por-ele-e-fosse-castigado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">No pensamento grego, cometer a <em>hybris</em>, que era uma ofensa a um deus fazia com que você ficasse escravizado por ele e fosse castigado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Daí a geração de um “sintoma”, refletindo o processo de sofrimento. Aqui também o valor da palavra era bastante forte. Havia a visão do homem integral, onde corpo e alma eram entendidos como um todo inseparável, trazendo assim uma atitude holística para os tratamentos. Com o desenvolvimento da civilização ocidental, chegamos ao pensamento científico e temos como representante Descartes. Conforme Ramos (2005) as ideias dele, devido à sua complexidade, foram interpretadas de forma equivocada provocando a percepção de que havia uma separação entre as instancias corpo e mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No início do século XIX, a chamada medicina romântica trouxe uma visão do homem global, com uma medicina que atuava de forma muito pessoal, tratando cada doente de forma única e integrada entre sociedade, arte, religião e a relação com outros. Uma visão que veio a contribuir depois com o conceito de<strong> Self</strong> da psicologia analítica. Surge então no final do século XIX o pensamento biomédico, onde, o olhar para a doença passa a ser reducionista, pois a base para a compreensão da mesma era a realização de análises biológicas: as pequenas partes de um todo entendidas separadamente. Tudo era mensurável, possível de ser classificado, e a simbologia das manifestações sintomáticas perde aqui seu lugar, fazendo com que a visão do homem, bem como do seu processo de adoecimento, fosse fragmentada.</p>



<h2 id="h-o-termo-psicossomatica-conforme-ramos-2005-surge-historicamente-pela-primeira-vez-em-1808-sendo-aceito-e-difundido-a-partir-do-seculo-passado-conforme-afirma-mello-fº" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O termo “Psicossomática” conforme Ramos (2005), surge historicamente pela primeira vez em 1808, sendo aceito e difundido a partir do século passado, conforme afirma Mello Fº:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O termo psicossomática surgiu a partir do século passado, depois de séculos de estruturação, quando Heinroth criou as expressões psicossomática (1918) e somatopsíquica (1928) distinguindo os dois tipos de influências e as duas diferentes direções. Contudo, o movimento só se consolidou em meados deste século com Alexander e a Escola de Chicago. Porém as incertezas sobre a relação mente-corpo se expressam na própria denominação psico-somático (com hífen) ainda utilizada entre estudiosos destes fenômenos e por médicos em geral. (Mello Fº, 2010, p. 29)                                                                                                                               </p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Ramos</strong> (2005) cita a importância de Helen Dunbar, médica americana e precursora dos estudos de psicossomática e psicobiologia, para o aprofundamento de estudos sistemáticos sobre o tema e para tornar o termo público. Dunbar foi influenciada em suas pesquisas pelos trabalhos de Jung. Isto ocorreu na época em que ele estuda os complexos por meio da análise das respostas do experimento de associação de palavras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desta época muitos estudos sobre a questão mente-corpo, como atores na formação das doenças evoluíram. Em 1936, <strong>Hans Selye</strong>, endocrinologista canadense, tem uma contribuição de grande valor para o entendimento do estresse, sendo este definido incialmente pelo autor, como doença de adaptação, o que contribuiu com a visão das transformações físicas a partir de processos de estresse.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No estudo da evolução do conceito de Psicossomática, Ramos (2005), destaca também a contribuição da teoria psicanalítica de Sigmund Freud, que buscava compreender como as emoções influenciavam na etiologia da formação das doenças. A visão aqui é de que, os conteúdos reprimidos no inconsciente eram os responsáveis pelos sintomas associados à histeria, porém com uma visão ainda limitada da extensão desta atuação, bem como das dimensões do inconsciente. Várias escolas então surgiram, com o objetivo de se ampliar as contribuições da psicanálise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Franz Alexander </strong>e <strong>Thomaz French</strong> (1940) fundaram a Escola de Chicago baseados na crença de que mente e corpo funcionavam de modo complementar, mas ainda separadamente. Outra importante escola foi a Escola de Paris, representada por Marty, M’Uzmam e David (1963). Em 1970, foi desenvolvido o conceito de alexitimia por John C. Nemiah e Peter E. Sifneos, referindo-se as pessoas que não reconhecem sentimentos e são incapazes de expressar e nomear os mesmos. </p>



<h2 id="h-atualmente-a-definicao-de-psicossomatica-passa-pela-compreensao-de-uma-area-que" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Atualmente a definição de Psicossomática passa pela compreensão de uma área que</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230; integre as três perspectivas: a doença com sua dimensão psicológica; a relação médico-paciente com seus múltiplos desdobramentos; a ação terapêutica voltada para a pessoa do doente, este entendido como um todo biopsicossocial. (Eksterman, A. in Mello Fº, 2010, p. 39.)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porém, na visão de Ramos (2005), com toda evolução não houve uma teoria que pudesse apresentar o conceito de Psicossomática com uma coerência entre teoria e prática terapêutica “não há uma teoria e abrangente unificadora” (Ramos, 2005, p. 43). Baseada em sua atuação terapêutica e em seus estudos, a autora constrói uma visão da psicossomática pautada no pensamento analítico de Jung, tratando o processo de adoecimento físico como uma expressão simbólica da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Compreender os complexos é fundamental na teoria junguiana, para que se possa pensar a doença de sua perspectiva simbólica. Os complexos são núcleos carregados de grande carga afetiva presentes no inconsciente pessoal. &nbsp;Formam-se a partir das vivências doloridas e traumáticas. São carregados de energia e podem dominar a vontade consciente e manifestar-se de modo a dominar o próprio complexo do ego. Segundo Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de <em><strong>autonomia</strong>, </em>vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um <em><strong>corpus</strong> <strong>alienum</strong> </em>corpo estranho, animado de vida própria. (Jung, OC 8/2 § 201, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-inconsciente-se-comunica-com-o-a-consciencia-por-meio-do-corpo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O inconsciente se comunica com o a consciência por meio do corpo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É neste que as manifestações são percebidas e sentidas. Para Jung, o corpo e alma, são duas dimensões que coexistem numa mesma estrutura e afetam-se simultaneamente, dependendo uma da outra para que a vida aconteça. <strong>As funções vitais atuam independente da vontade consciente do ego</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“O eu sequer tem uma pálida ideia da função reguladora e incrivelmente importante dos processos orgânicos internos a serviço do qual está o sistema nervoso simpático”. (Jung, OC 8/2, § 613).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando as emoções guardadas são acionadas elas podem fazer com que o funcionamento orgânico, inconsciente e silencioso, traga para o universo consciente a percepção então de seu funcionamento, por meio de reações e sintomas desagradáveis e que afetam nosso bem-estar (suores, taquicardias, angústias, sufocamentos, irritações, dores, tremedeiras, etc.).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesta dialética – corpo e psique &#8211; que os conteúdos inconscientes e as suas imagens ganham vida e os complexos, até então afastados da consciência, se “materializam”.</p>



<h2 id="h-quando-um-complexo-se-constela-ou-se-manifesta-e-possivel-compreender-que-ficou-mais-energizado-do-que-o-proprio-complexo-do-ego-que-nao-consegue-segurar-o-seu-impulso-para-a-manifestacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando um complexo se constela, ou se manifesta, é possível compreender que ficou mais energizado do que o próprio complexo do ego, que não consegue segurar o seu impulso para a manifestação. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-sintoma-entao-surge-porque-a-energia-do-complexo-e-capaz-de-afetar-o-organismo-e-gerar-respostas-fisiologicas-provocadas-pelas-emocoes" style="font-size:18px">O sintoma então surge porque a energia do complexo é capaz de afetar o organismo e gerar respostas fisiológicas provocadas pelas emoções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230; nossa consciência não está em condição de produzir um complexo autônomo a seu bel-prazer. [&#8230;] Quando eu disse, anteriormente, que a ideia deve necessariamente suscitar uma resposta das emoções, eu me referi a uma prontidão inconsciente que, por causa de sua natureza afetiva, atinge uma profundidade inteiramente inacessível à nossa consciência. Assim, nossa razão consciente não é capaz de destruir as raízes dos sintomas nervosos. Para isto seriam necessários processos emocionais que têm o poder de influenciar o sistema nervoso simpático. (Jung, OC 8/2, § 642)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-na-manifestacao-de-um-complexo-alem-do-sintoma-e-de-um-consequente-sofrimento-fisico-a-consciencia-tambem-e-afetada" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na manifestação de um complexo além do sintoma e de um consequente sofrimento físico, a consciência também é afetada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela passa a receber as mensagens indecifráveis, criadas pela distância entre consciência e inconsciente. Se o indivíduo não for capaz de compreendê-las como um canal de comunicação do inconsciente, está criado o campo para manifestação de processos de adoecimento ainda mais graves e profundos, com a fragmentação da unidade mente-corpo. O complexo cria neste momento uma polaridade, forte opositora da consciência e do ego, e atua como se fosse a totalidade do indivíduo. Neste processo a importância do símbolo é fundamental. Ramos (2005) afirma que a expressão simbólica do complexo em nosso corpo nos dá um caminho e oportunidade para resgatar a relação ego self. Dawson (2002) confirma esta percepção conforme citado abaixo:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na prática junguiana, as fantasias, os sonhos, a sintomatologia, as defesas e a resistência são todos vistos em termos de sua função criativa e sua teleologia. Pressupõe-se que eles refletem as tentativas da psique de superar obstáculos, construir significado e oferecer opções potenciais para o futuro, em vez de existirem apenas como respostas de inadaptação à história passada. (Dawson, 2002, p. 68).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A doença surge então como uma consequência de algo que precisa ser atendido e integrado em nossa personalidade total. Caso esta condição seja ignorada, os sintomas podem voltar ou mesmo pode aparecer como novas formas de doenças. O universo inconsciente é extremamente vasto de imagens e de representações e procura a todo instante fazer-se presente, nem sempre de forma inteligível ou agradável. Há a necessidade de se fazer um esforço no sentido de compreender e transformar estas mensagens em elementos vitais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psique é feita de uma série de imagens, no sentido mais amplo do termo, não é, porém, uma justaposição ou uma sucessão, mas uma estrutura riquíssima de sentido e uma objetivação das atividades vitais, expressa através de imagens. E da mesma forma que a matéria corporal, que está pronta para a vida, precisa da psique para se tornar capaz de viver, assim também a psique pressupõe o corpo para que suas imagens possam viver. (Jung, OC 8/2, § 618)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-sombra-e-como-um-repositorio-da-psique-que-mantem-aspectos-reprimidos-no-inconsciente-pessoal" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A sombra, é como um repositório da psique, que mantém aspectos reprimidos no inconsciente pessoal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">São aquelas qualidades não aceitas pelo indivíduo e por isso possuem um teor negativo ou inferior, que se virem à consciência podem adquirir um aspecto destrutivo.  Forma-se a partir de vivências pessoais e imagens primordiais deixadas de lado pela função do ego consciente, por representar algum tipo de ameaça à sua integridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na condição de conteúdos que querem ser esquecidos e não podem acessar a consciência, a sombra assume características equivalentes às do complexo, conforme afirma Stein (2015), “<em>A sombra, um complexo funcional complementar, é uma espécie de contra-pessoa. A sombra pode ser pensada como uma subpersonalidade que quer o que a persona não permitirá.</em>” (Stein, 2015, p. 101)</p>



<h2 id="h-nao-seria-errado-portanto-afirmar-que-quando-o-sintoma-organico-vinculado-a-um-complexo-se-associa-a-uma-imagem-arquetipica-que-este-passa-a-ter-um-carater-simbolico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Não seria errado, portanto, afirmar que quando o sintoma orgânico, vinculado a um complexo se associa a uma imagem arquetípica, que este passa a ter um caráter simbólico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A natureza arquetípica deste conteúdo dará forma, energia e sustentação ao complexo e se constelará quanto mais distante da consciência e menos possibilidade de simbolizar esta tiver. É nesta dimensão que o processo compensatório da psique atua, apontando par a necessidade de um reconhecimento e de uma posterior integração e psíquica. É o restabelecimento de uma ordem que foi desintegrada ou perdida. </p>



<h2 id="h-como-um-arquetipo-a-sombra-possui-forma-e-imagem-significativas-podendo-ser-nociva-a-vida-do-individuo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Como um <strong>arquétipo</strong>, a sombra possui forma e imagem significativas podendo ser nociva à vida do indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estes conteúdos são expulsos, como afirma Jung (OC 7/2) por meio da <strong>projeção</strong>, sendo transferido para o objeto e fazendo com que o indivíduo se libere deles. Porém a projeção é um mecanismo neurótico de defesa que não contribui para a integração dos aspectos sombrios que pertencem na verdade ao próprio indivíduo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mesmo quando acontece de as qualidades projetadas serem qualidades reais da outra pessoa [&#8230;], a reação afetiva que marca a projeção sugere que o complexo afetivo em nós embaça a nossa visão e interfere com a nossa capacidade de ver com objetividade e estabelecer relações de um modo humano. (Whitmont in Zweig, 1998 p. 37)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesta dinâmica psíquica temo a persona como o arquétipo mais próximo da consciência. Conforme o indivíduo se desenvolve ele recebe do meio mensagens e informações de como dever ser e agir para adaptar-se e ser bem aceito. Estas informações são absorvidas pelo ego que vai dando forma à persona, que tem como função adaptar o indivíduo ao meio em que ele vive. Ao passo que a persona se forma e se solidifica os conteúdos que não foram aceitos por ela e consequentemente pelo complexo do ego, se mantém no inconsciente, na sombra. “<em>O desenvolvimento do ego baseia-se na repressão do &#8220;errado&#8221; ou do &#8220;mau&#8221; e na promoção do &#8220;bom&#8221;.</em> “ (Whitmont in Zweig, 1998 p. 38). Segundo Whitmont, esta é uma condição arquetípica da formação do ego e da estruturação da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como a persona tem uma função social, ela nos dá a impressão de uma individualidade, porém é coletiva, uma vez que expressa qualidades arquetípicas do indivíduo no todo: profissão, títulos, posses, coisas que todas as pessoas além do indivíduo, também podem possuir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>identificação com a persona</strong>, assumindo-a como a própria individualidade, faz com que o ego deixe de lado outros aspectos importantes da personalidade total. Ocasionando, assim, uma inflação do ego,sendo dado a este um valor superdimensionado.</p>



<h2 id="h-sobre-a-persona-jung-afirma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sobre a persona, Jung afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que <em>aparenta uma individualidade, </em>procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva. Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de <em>real; </em>ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário. (Jung, OC 7/2, § 245 e 246, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta forte valorização dos aspectos da persona pode estar relacionada ao fato de necessitarmos, até um determinado ponto de correspondermos àquilo que a sociedade espera, mostrando muitas vezes algo que não corresponde ao que realmente somos. Quando a sombra necessita vir à superfície, esta necessidade de se fazer presente e conhecida pode gerar inúmeros conflitos, pois a atuação da persona impede a realização da sombra e essa fica ainda mais densa, aumentado o jogo de projeções para se manter. Esta não é uma condição sustentável por muito tempo.</p>



<h2 id="h-afirma-sanford-a-sombra-sera-mais-perigosa-quao-mais-distante-estiver-do-ego-e-da-personalidade-consciente-sanford-1988-p-72" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Afirma Sanford “a sombra será mais perigosa, quão mais distante estiver do ego e da personalidade consciente.” (Sanford, 1988, p. 72)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Forma-se então o seguinte paradoxo: por meio da inflação do ego a unilateralidade fragiliza a possibilidade do acesso aos conteúdos arquetípicos e sombrios, que estão no centro do complexo afetivo. Este, por sua vez, detém uma forte carga energética e se faz presente por meio de sintomas que se não forem adequadamente simbolizados se configuram como doença, que podem caminhar na direção da destruição do organismo e de sua estrutura física, sede do complexo do ego e da consciência. Em resumo, o ego quando se coloca em uma condição de unidade e superioridade (inflação) se fragiliza, deixando espaço para ser “derrotado” pela sombra que esta mesma condição de inflação formou no inconsciente. O que parecia força vira fraqueza. Corpo e alma se separam e nesta tensão buscam se reencontrar, por meio da doença.</p>



<h2 id="h-na-tentativa-de-uma-autorregulacao-a-dinamica-psiquica-estabelece-uma-possibilidade-da-dinamica-entre-a-consciencia-e-o-inconsciente-elaborem-as-tensoes-existentes-por-meio-da-expressao-simbolica-do-sintoma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na tentativa de uma autorregulação, a dinâmica psíquica estabelece uma possibilidade da dinâmica entre a consciência e o inconsciente elaborem as tensões existentes, por meio da expressão simbólica do sintoma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Devemos lembrar que para psicologia junguiana, a visão da psicossomática tem como premissa, o fato de que psique e soma são uma unidade. Logo, um desequilíbrio no processo de um aspecto ou de outro, gera consequentemente uma necessidade de equilíbrio para compensar a polarização criada. Sonhos, fantasias, sintomas e doenças podem ser compreendidos como uma busca do ser total ou do Self, de reorganizar uma harmonia perdida.</p>



<h2 id="h-e-por-meio-do-mecanismo-compensatorio-e-autorregulador-do-inconsciente-que-possiveis-caminhos-surgem" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É por meio do mecanismo compensatório e autorregulador do inconsciente que possíveis caminhos surgem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Atitudes muito rígidas, sob o ponto de vista de uma consciência que não está disposta a reconhecer e integrar conteúdos sombrios e ameaçadores dificulta a percepção destes sinais, que não começam grandes, mas que vão tomando vultos mais significativos, ao passo que a polarização vai tornando-se mais voluptuosa. Assim, devemos considerar que do inconsciente emana uma energia que lança luz sobre os aspectos do adoecimento, tendo este um caráter teleológico e se apresentando como mensageiro de sentido e do potencial de transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A autorregulação, não tem como caráter primordial a eliminação do sintoma simplesmente, mas indicação de possíveis saídas. É um convite para a interiorização. Por isso, o sintoma deve ser escutado. Esta é uma linguagem por meio da qual a psique nos conta o que devemos fazer, ou para onde devemos seguir no caminho infindável do processo de individuação.&nbsp;</p>



<h2 id="h-por-fim" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>Por fim,</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O foco deste artigo é provocar uma reflexão sobre como a dinâmica psíquica, quando não compreendida, pode exprimir-se por meio de sintomas e doenças. Neste caso, o complexo e a sombra, funcionam como “aliados”, manifestando-se nas mais diversas situações da vida. Ambos representam traços inferiores, reprimidos e obscuros da personalidade, tem natureza emocional e autonomia. O que o complexo do ego rejeitou e reprimiu forma no inconsciente os complexos, estes se separam da personalidade total e vão compor a sombra individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Estes conteúdos são de relevante valor, pois é aí que está escrita a história de vida do indivíduo. </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Temos a tendência de considerar que esta biografia se faz por meio das realizações concretas no mundo, que são obras do universo consciente e pouco se dá conta do quanto esses feitos só foram possíveis e viáveis pela ativa participação do mundo inconsciente.</p>



<h2 id="h-o-inconsciente-e-vivo-e-ativo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O inconsciente é vivo e ativo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ele nos acompanhada por toda a vida, em seus aspectos positivos e negativos. Temos uma necessidade real de adaptação ao mundo e às questões cotidianas, mas essa adaptação não pode acontecer sem um pensamento crítico, sem um olhar sincero para nossos desejos, mas também para nossos medos e nossas vulnerabilidades. Por vezes, é esta pequena fresta que não deixamos entrar luz, que precisa ser iluminada para termos uma resposta mais lúcida às questões da vida.   </p>



<h2 id="h-e-honesto-conosco-buscar-reconhecer-quem-em-nos-decide-pelos-caminhos-que-tomamos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É honesto conosco buscar reconhecer <strong>quem</strong>, em nós, decide pelos caminhos que tomamos. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Provavelmente, numa resposta objetiva dirá que o sujeito da escolha foi nossa consciência, poque ela sabe&#8230; sabe o que melhor, sabe o que agrada, sabe o que será sucesso!!  E tudo bem, se e apenas se, as nossas questões internas e mais prementes não estiverem subjugadas a uma sombra, reprimidas e desmerecidas. Muitas vezes neste lugar mais sombrio está o lampejo de criatividade e o potencial que tanto insistimos em buscar fora – no outro, no trabalho, na viagem&#8230;</p>



<h2 id="h-nao-podemos-esquecer-que-todo-sintoma-esta-a-servico-de-equilibrar-um-sistema-integrado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Não podemos esquecer que todo sintoma está a serviço de equilibrar um sistema integrado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os sintomas servem para compensar desequilíbrios internos. Logo, escutar o ambiente externo e sufocar a voz interior na sombra pode ter consequências desastrosas para a real saúde do indivíduo nas esferas bio-psico-social-espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viver em meio à dualidade e à paradoxos, é uma condição humana e arquetípica. É somente em meio a polaridades e a busca de integração de forças contrarias, que temos a oportunidade de evoluir e aprender. Passar por desconforto, fatores estressores, manifestações incomodas do complexo e da sombra, são uma realidade e sempre existirão. Temos que aprender a dar para estes elementos o espaço que eles nos pedem para transformá-los em aliados e não em nossos detratores. Eles são parte de nós, querem ser reconhecidos, aceitos e integrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/">Gilmara Marques Fadim Alves – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina M. Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/9di30oUrn_o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li>DAWSON, Terence, YOUNG-EISENDRATH, Polly. <em>Manual de Cambridge para Estudos Junguianos</em>. São Paulo. 2002. Artmed</li>



<li>JUNG, Carl Gustav.<em> O eu e o inconsciente</em>. 27ª ed. OC 7/2. Petrópolis: Vozes, 2016.</li>



<li>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 3ª ed. OC 8/2. Petrópolis: Vozes, 1991.</li>



<li>MELLO Fº, Julio de&#8230; [et al]. <em>Psicossomática hoje</em>. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.</li>



<li>RAMOS, Denise G. <em>A Psique do corpo: uma compreensão simbólica da doença</em>. São Paulo: Summus, 2005</li>



<li>SANFORD, J. A. <em>Mal: O lado sombrio da realidade</em>. &#8211; Coleção Amor e Psique. São Paulo: Paulus, 1998</li>



<li>ZWEIG,C &amp; ABRAMS, J. (orgs.). <em>Ao encontro da sombra</em>. São Paulo: Cultrix, 1999</li>
</ol>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> <em>https://www.letras.mus.br/titas/48989/</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>A sede pela realização em tempos áridos de alienação</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-sede-pela-realizacao-em-tempos-aridos-de-alienacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 14:06:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Esse artigo levanta a questão da tão buscada realização, ser realizado. Como podemos entender o que é real, o que é concreto? Coloca-se a figura arquetípica do diabo, passando pelos conceitos de sombra, persona e individuação, bem como as falas e expressões socias na prática clínica sobre o alienar-se em prol de uma chancela social de ser realizado.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Esse artigo levanta a questão da tão buscada realização, ser realizado. Como podemos entender o que é real, o que é concreto? Coloca-se a figura arquetípica do diabo, passando pelos conceitos de sombra, persona e individuação, bem como as falas e expressões socias na prática clínica sobre o alienar-se em prol de uma chancela social de ser realizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Atualmente, há uma pressão constante e visceral para que todos sejam completamente realizados em todos os campos possíveis da vida. Entretanto, esse ópio coletivo acaba drenando a vitalidade úmida da alma, bem como as oportunidades de auto revelação e expressão, sustentado na ignorância e superficialidade do terreno pessoal de conhecimento. Afinal, o que é realização, o que é ser realizado na vida?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao se pensar em algo realizado, a concepção do que é real aparece e se mostra. Ser real ou possuir qualidades que remetam a uma vivência real atravessa o reconhecimento da singularidade presente em cada um, como também a retirada da identificação com a persona e com os ditames coletivos e seus dogmas inquestionáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viver em um coletivo preservando o subjetivo é uma combinação alquímica complexa e desafiadora, pois há o risco de ora sucumbir em uma mistura indiscriminada da expectativa gerada em nós, ora se excluir completamente da sociedade, levando a vida de um ermitão alicerçada no argumento de ser contra o sistema- gerando uma não adaptação necessária no mundo externo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“As possibilidades de desenvolvimento comentadas nos capítulos anteriores são, no fundo, alienações de si-mesmo, modos de despojar o si-mesmo de sua realidade, em benefício de um papel exterior ou de um significado imaginário. Em ambos os casos, verifica-se uma preponderância do coletivo.” (JUNG, OC.7/2, §267)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na psicologia Junguiana, o conceito de <strong>persona</strong> revela o modo como nos relacionamos com o mundo externos e seus objetos, a construção que elaboramos sustentada em imagem, qualidades e bases morais.</p>



<h2 id="h-muitas-vezes-o-peso-dessa-mascara-dessa-persona-solapa-quem-realmente-somos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Muitas vezes, o peso dessa máscara, dessa persona, solapa quem realmente somos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aquilo que tem o poder de realização, demonstrado ao longo dos mitos, contos e narrativas arquetípicas, muitas vezes não se encontra em um coletivo massificado que funciona como uma engrenagem perfeita e automática, mas sim em campos, em territórios, desconhecidos, distantes e contrastantes.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.” (JUNG, OC.7/2, §246)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como ousarei ser um biólogo em uma família tradicional de médicos? A tradição dos meus ancestrais tem a força de trabalhar no campo da engenharia. Posso ingressar no campo da psicologia? Aprendi que a vida que realmente importa é aquela com um casamento firme e estável. Porém, a ideia de viver sendo solteiro/a me atrai, ou vice versa. Como lido com isso? A crença religiosa dos meus grupos de amigos é mais tradicional, mais ortodoxa. Entretanto me identifico com religiões ou cultos de origem africana ou oriental. Posso me permitir experienciar caminhos diferentes?</p>



<h2 id="h-se-permitir-questionar-o-proprio-caminho-e-um-ato-de-bravura" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Se permitir questionar o próprio caminho é um ato de bravura.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quem questiona ou reflete sobre seus passos e suas pegadas consegue ampliar suas marcas. A vida não é uma linha reta já definida impossível de ter curvas e reviravoltas. Todavia, se aventurar em outros caminhos contrários ou desconhecidos convoca os fantasmas da insegurança e das dúvidas sobre a própria competência e autorização interna de se reinventar. Essa postura é coibida pelo espirito da época vigente, pois o lema é: trabalhe, não pense; pague seus tributos e confie nos caminhos que todos já fizeram e foram “aprovados” pelo grupo. Ter uma atitude aquariana de ir ao oposto do já determinado e realizar um encontro com sua própria essência e individualidade leonina é rechaçado a todo instante, mas é o caminho que promove uma realização.</p>



<h2 id="h-o-conceito-do-se-individuar-do-tao-conhecido-processo-de-individuacao-passa-na-trilha-do-se-realizar-do-encontrar-aquilo-que-e-mais-genuino-e-autentico-em-si-devolvendo-e-compartilhando-com-o-coletivo-posteriormente-tudo-aquilo-que-conheceu-na-sua-propria-jornada" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O conceito do se individuar, do tão conhecido processo de individuação, passa na trilha do se realizar, do encontrar aquilo que é mais genuíno e autentico em si, devolvendo e compartilhando com o coletivo posteriormente tudo aquilo que conheceu na sua própria jornada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Logo, é um processo de desenvolvimento psíquico, uma elaboração da personalidade para um encontro com a totalidade, no qual há uma <strong>diferenciação da massa</strong> e uma <strong>integração em sua própria natureza</strong>, se tornando real.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“No processo de individuação antecipa uma figura proveniente da síntese dos elementos conscientes e inconscientes da personalidade. É, portanto, um símbolo de unificação dos opostos, um mediador, ou um portador da salvação, um propiciador de completude.”</em> <em>(JUNG, OC.9/1, § 278)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na lâmina 10 do tarô, a roda, há uma roda navegando em um mar; ou flutuando no ar. Esse tema arquétipo convida a não se apegar ao que foi construído e se lançar em uma reviravolta, em ficar balançando ou suspenso em um novo eixo. É uma porta, um portal, uma rachadura que se abre naquilo que é definitivo. Ser realizado abre inúmeras possibilidades de vivências. Afinal, qual a base da construção daquilo que nomeamos como válido? Quais pensamentos e orientações nos inspiram e para quais caminhos levam? O que fazemos com o que nos foi dado e estruturado?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Carregamos uma imagem tão bem formanda sobre nós, certezas tão arraigadas e consolidadas em um suposto saber. Assim como a terra rígida, seca, compactada, naturalmente raxa e abre vincos, a autodeterminação cega e alienada sobre o que há no profundo, formando uma carapaça de “intelectualidade” e bons costumes apoiadas em uma moral virtuosa, possui um prazo de validade. No primeiro impacto, se quebra. Nos primeiros ventos ou ondas do mar psíquico, não se sustenta. O fim de um casamento, a perda de um emprego, uma traição inesperada, uma quebra financeira, uma morte dolorida ou uma experiência anímica traumática. A roda gira, balança, revelando e forçando a realização da natureza interior.</p>



<h2 id="h-uma-figura-arquetipica-presente-nos-campos-ferteis-do-inconsciente-coletivo-e-o-diabo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Uma figura arquetípica presente nos campos férteis do inconsciente coletivo é o diabo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Anjo caído que governa a matéria e suas riquezas. Senhor do oculto e daquilo que não se vê. A asa dupla que estabelece encruzilhadas e dúvidas; que questiona até que ponto conhecemos a totalidade da nossa natureza, inclusive a parte sombria. Um detalhe vale a pena ser colocado: a sombra tem riquezas. Queremos ser realizados? Então teremos que conversar com essa grande figura alada! Não é se identificar com o mal puro, com o mal coletivo e destruidor &#8211; como já dizia Jung, esse mal é real, tem efeitos psicológicos e concretos; mas sim conciliar as potências internas que ficaram misturadas e alocadas no território sombrio da realidade psíquica.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A autonomia da psique cheira ao primitivo como algo demoníaco e mágico. Consideramos esta atitude perfeitamente normal do primitivo. (&#8230;) havia uma crença generalizada e natural em seres sobre-humanos que, segundo nosso conhecimento atual, eram personificações de conteúdos inconscientes projetados” (JUNG, OC.10/3, §843)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sombra não é somente um território de podridão e perversidade. Lá contém energia psíquica bruta, não elaborada, rica em força, que não teve a oportunidade de sequer ser reconhecida. O ouro se encontra no fundo e é resultado de um processo constante e longo de temperatura e pressão. Negociamos, conversamos, mediamos, resgatamos, através dessa figura de duas asas, aquilo que nos pertence por direito da vida.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A sombra, embora seja uma figura negativa per definitionesm, deixa entrever muitas vezes traços ou associações positivas, os quais apontam para um cenário de outro tipo. É como se ela escondesse conteúdos significativos sob um invólucro inferior” (JUNG, OC 9/1, §485)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-realizacao-surge-quando-a-prima-materia-se-transmuta-em-lapis-em-ouro-alquimico-apos-um-processo-de-idas-e-vidas-de-subidas-e-descidas-de-altos-e-baixos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A realização surge quando a prima matéria se transmuta em lápis, em ouro alquímico após um processo de idas e vidas, de subidas e descidas, de altos e baixos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É quase um senso comum que a realização vem no final da vida, depois de uma caminhada árdua de encontros e desencontros. Estamos com paciência, tolerância, para vivenciar esse tempo? Conseguimos sustentar a angústia que esse processo estimula? Em uma época na qual o imediatismo é soberano, não há espaço para a inteligência e para os processos lunares, de autoconhecimento profundo. Uma postagem e uma curtida valem muito mais do que o silêncio de encontrar a si mesmo, mesmo que seus efeitos colaterais sejam um aumento da sensação de solidão, de viver uma vida falsa ou aquela insônia que perturba a nossa paz fraudulenta.</p>



<h2 id="h-lancemos-agora-a-pergunta-de-um-milhao-voce-venderia-sua-alma-em-troca-de-um-reconhecimento-coletivo-e-a-seguranca-de-um-pertencer-em-grupos-sinalizando-um-sucesso-uma-chancela-do-eu-me-realizei" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Lancemos agora a pergunta de um milhão. Você venderia sua alma em troca de um reconhecimento coletivo e a segurança de um pertencer em grupos, sinalizando um sucesso, uma chancela do “Eu me realizei”?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somos inundados a todo momento por marcadores socias de uma realização: uma eficiência, uma produtividade no trabalho reconhecido por todos; promoções sucessivas e repletas de glória; carros importados e viagens anuais para Europa; graduação em Medicina; um casamento alegre, vivo, instagramável, com filhos, cachorros. A grande questão não é conseguir todos esses marcadores, mas sim ser definidos por eles. Negociar a alma, ou seja, aquilo que há de mais profundo, a água que umidifica a vida, o humus que conecta e aduba a consciência e o viver o aqui e agora, pode levar a derrocada de uma realização real e profunda.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Individuação significa tornar-se único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais intima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se a si -mesmo” ou “realizar-se do si-mesmo””. ( JUNG, OC</em> <em>7/2, §266)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-na-pratica-clinica-nao-e-raro-ouvir-de-pessoas-a-queixa-de-se-sentir-falsificado-vivendo-de-uma-maneira-artificial-mesmo-obtendo-tudo-que-o-coletivo-exige-e-chancela" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na prática clínica, não é raro ouvir de pessoas a queixa de se sentir falsificado, vivendo de uma maneira artificial, mesmo obtendo tudo que o coletivo exige e chancela.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Eu me sinto como uma fraude para minha esposa”; “o meu trabalho é somente para pagar boleto”; “não consigo mais ter libido, nem ereção na hora do sexo”; “me sinto um grande impostor para mim mesmo”. </em>As águas internas, a ânima, o eros, precisam de um corpo, de uma terra adequada para poder se concretizar, se realizar, se manifestar. Compramos gato por lebre quando o assunto é autocuidado e expressão do nosso pleno potencial. A cegueira com sua enganação de si se tornou a nova referência do bom sucesso e do que é real.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A culpa é do masculino destruidor ou a culpa é das mulheres que querem ser bancadas. Até mesmo o encontro mais profundo dessas duas potências da realidade psíquica foi deturpado. A diferenciação e a união/agregação se tornaram brigas e rixas, aprofundando o abismo do encontro com o outro, ou seja, o encontro com nós mesmos, que leva ao caminho de se tonar real.</p>



<h2 id="h-por-fim-a-busca-insaciavel-para-sermos-realizados-com-sua-furia-enlouquecida-baseada-em-uma-corrida-de-vantagens-intoxica-quem-entra-nessa-ilusao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Por fim, a busca insaciável para sermos realizados com sua fúria enlouquecida baseada em uma corrida de vantagens intoxica quem entra nessa ilusão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ser real, não é andar pela vida de maneira inconsequente e irreflexiva achando que o meio ambiente e o meio que nos cerca é obrigado a aceitar aquilo que eu sou, meus comportamentos e minhas ideias e falas. É olhar para dentro e conseguir enxergar a multiplicidade com sua complexidade; é ir além de um sucesso profissional, de ter um relacionamento pleno; é encontrar aquilo que há de mais caro em nós mesmos, é nos encontrar e nos enfrentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É não ser perfeito, é ser inteiro. É expressar a verdade que nos toca, é ampliar imagens e os afetos que nos atravessa; é olhar para as fraquezas e as potencialidades. É ter a abertura para o mundo, reconhecer que a realidade do outro e a minha realidade constroem verdades distintas, que precisam ser integradas e acolhidas para que um dia consigamos transformar a realidade coletiva com suas verdades preconceituosas ou discriminatórias. É ser concreto e íntegro conectado com a totalidade, criando e sendo criativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pedro-rocha/">Pedro Pimentel Rocha &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo convite:</p>



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</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. OC.7/2. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. OC.9/1. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Civilização em transição</strong>. OC.10/3. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="414" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-1024x414.png" alt="" class="wp-image-13090" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-1024x414.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-300x121.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-768x311.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-150x61.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-450x182.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-1200x486.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao.png 1500w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Inscrições abertas no <strong>Curso de Introdução à Teoria de C.G. Jung</strong> &#8211; Para Graduados em Geral &#8211; Vagas limitadas: <a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas" type="link" id="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>O que fazer com um sonho frustrado?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-que-fazer-com-um-sonho-frustrado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2026 21:58:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[caetano veloso]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[frustrações]]></category>
		<category><![CDATA[o quereres]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhadas com alguma doçura, as Neurociências nos contam que biologia é poesia. Os mesmos circuitos neuronais ativados quando sonhamos dormindo estão também ativos, idênticos, quando sonhamos acordados, no mais puro devaneio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No descanso da consciência, sono, tudo pode nos ocorrer. Símbolos surreais contam histórias aparentemente desconexas, frequentemente imorais e magicamente reveladoras, quando observadas com algum interesse, curiosidade e insistência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixarei-hoje-os-sonhos-sonhados-na-escuridao-da-noite-livres-de-ampliacoes-para-me-render-aqueles-que-alimentamos-a-luz-de-uma-pretensa-consciencia-que-insiste-em-se-acreditar-capaz-de-realiza-los" style="font-size:16px">Deixarei hoje os sonhos sonhados na escuridão da noite livres de ampliações, para me render àqueles que alimentamos à luz de uma pretensa consciência que insiste em se acreditar capaz de realizá-los.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sonhamos. Desde pequenos podemos fantasiar vidas para nós mesmos. A profissão, a casa, os amigos, as viagens, o amor. Sonhamos uma família, o almoço de domingo, a noite de Natal. Inventamos nomes para os filhos, vestidos para o casamento, casas para a praia, malas para as viagens, escritório para a empresa, uniformes para o servir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo passa e nem sempre as invenções despudoradas se manifestam na vida entendida como real. Podem seguir nos ocorrendo todas as noites, entre a fronha do travesseiro e a cabeça pesada pelas tentativas incessantes de compreender os motivos das frustrações e, ainda, pelos esforços de esquecer o sonho, a fim de não fazê-lo doer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por muitas vezes ao longo da vida de muitas vidas não adiantou sonhar, imaginar, sentir no corpo a sensação de que aquelas ideias se realizariam. Para cada sonho também há, na vida, a contraparte perfeita de sua frustração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-fazer-com-essa-parte-sombria-da-qual-tentamos-fugir-pesados-pela-vergonha-da-nao-realizacao-em-uma-epoca-em-que-se-acredita-tudo-poder" style="font-size:17px">E o que fazer com essa parte sombria, da qual tentamos fugir, pesados pela vergonha da não-realização, em uma época em que se acredita tudo poder?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez valha antes de mais nada aceitar que, diferente do que podemos acreditar, o sonho sonhado na vigília também é fruto do inconsciente. No texto <em>Criptomnésia, de Estudos Psiquiátricos, </em>Jung nos lembra que “O inconsciente premedita todos os novos pensamentos e combinações. E quando a consciência se aproxima do inconsciente com um desejo, foi o inconsciente que previamente lhe inspirou este desejo”. (<em>OC 1 </em><strong>§ </strong>172)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verso do fracasso não entra no samba-exaltação do ego contemporâneo, que acredita que pode tudo o que quer, ritmado pela tríade “força, foco e fé”. A exclusão do verso triste da canção, talvez, faça a falta da realização doer ainda mais pois a torna pretensamente invisível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é raro ver que o sambista sente no corpo a dor do que não realizou, mesmo tentando calar sua batida ou buscando reinventá-la criativamente. Os sonhos, agora sim, os sonhados no mais profundo da noite, tendem a revelar compensatoriamente aquilo que a consciência não dá conta de sentir, pois frustrada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-onde-nao-queres-nada-nada-falta-diz-caetano-veloso-em-o-quereres-sera" style="font-size:17px">“E onde não queres nada, nada falta”, diz Caetano Veloso em <em>O Quereres</em>. Será?</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.6"><em>“Talvez a maioria dos histéricos que frui plenamente de seus sentidos seja doente porque possui grande massa de recordações, dotada de muita emoção e, por isso, profundamente arraigada no inconsciente; já não pode ser controlada e tiraniza a consciência e a vontade do doente. Em mulheres trata-se às vezes de esperança frustrada de amor ou de um casamento infeliz; em certos homens pode ser uma posição insatisfatória ou méritos não reconhecidos. Os doentes procuram excluir suas emoções da vida diária; por isso, de noite elas os atormentam com sonhos ruins, e de dia os importunam com repentinos ataques de ansiedade precordial, inibem as forças de ação, levam as pessoas a procurar as seitas, produzem dor de cabeça que desafia todos os curandeiros, todos os meios mágicos da eletricidade, banhos de sol e dietas alimentares. Também o gênio tem que carregar o peso da superioridade de um complexo psíquico; se o conseguir, ele o fará com prazer; se não o conseguir, ele o fará com sofrimento. Terá que executar as ‘ações sintomáticas’ que seu talento lhe inspira; colocará na poesia, na pintura, na composição musical o seu sofrimento”.&nbsp; (C.G. Jung, OC 1 §176)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez um gesto de rebeldia contemporânea seja assumir a si mesmo e depois ao mundo seus fracassos. Como complexos cheios de afeto, ao serem vividos com o sabor da frustração percam a potência, mas se manteriam vivos no potencial de realização. A não realização de um sonho não deveria matá-lo na tentativa de esquecê-lo. Se foi do inconsciente que surgiu, não caberia a consciência domesticá-lo, calá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma sociedade que sustentasse a frustração poderia ler epitáfios assim: “Tentou, bravamente, mas não conseguiu dançar”. Num outro, poderia estar escrito: “Chamaria Luiza, a filha que não teve”. E ainda: “Morreu acreditando que amaria e seria amada”. Ou “Preparou todos os domingos o almoço para a família que não vinha”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lapides-talhadas-a-partir-do-compromisso-com-a-honestidade-de-pessoas-que-ousaram-uma-vida-vivida-na-plenitude-sem-disfarces-sustentados-por-personas-bem-sucedidas-e-sombras-amarguradas" style="font-size:17px">Lápides talhadas a partir do compromisso com a honestidade de pessoas que ousaram uma vida vivida na plenitude, sem disfarces sustentados por Personas bem-sucedidas e Sombras amarguradas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não seriam lápides criadas na unilateralização do sucesso, da conquista, do amor e da alegria. Tais frases revelariam, com frustração, a insistência no sonho: o homem que queria dançar, a mulher que desejou ser mãe, a que queria um amor recíproco, a que perdoou a família todas as vezes que foram necessárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Eu queria querer-te e amar o amor<br>Construirmos dulcíssima prisão<br>E encontrar a mais justa adequação<br>Tudo métrica e rima, e nunca dor</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas a vida é real e de viés<br>E vê só que cilada o amor me armou<br>Eu te quero e não queres como sou<br>Não te quero e não queres como és”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung </strong>nos explica que a palavra <em>criptomnésia </em>provém da literatura científica francesa. “Criptomnésia significa <em>‘<strong>recordações não reconhecidas como tais</strong></em>’”. Assim como os sonhos que, frustrados, deixam de ser sonhados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uma parte da cura para uma sociedade tão adoecida poderia ser a sustentação do fracasso. “<em>Do querer que há e do que não há em mim</em>”, conclui o poeta.</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;O que fazer com um sonho frustrado?&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/4S114HfmbtU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-jung-c-g-estudos-psiquiatricos-o-c-1-9ª-edicao-petropolis-editora-vozes-2012" style="font-size:16px">JUNG, C.G.<em> Estudos Psiquiátricos O/C 1.</em> 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VELOSO, Caetano. <em>O Quereres. </em>Salvador, Philips/PolyGram (atual Universal Music), 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-12921" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-300x169.jpg 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-768x432.jpg 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1536x864.jpg 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-150x84.jpg 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-450x253.jpg 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1200x675.jpg 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Venha participar &#8211; Inscrição Comum R$ 120,00</strong> &#8211; Certificado de 30h: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia ">https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia </a></p>



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		<title>As aventuras do Seu Albo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/as-aventuras-do-seu-albo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 14:44:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[albedo]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[nigredo]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[rubedo]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12894</guid>

					<description><![CDATA[<p>"O ‘homem sem sombra’, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo."</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-prologo" style="font-size:20px">Prólogo</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>O ‘<strong>homem sem sombra</strong>’, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo</em>.</p><cite>C.G. JUNG, OC 8/2, §409</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Seu Albo era uma figura conhecida na região. Se autodefinia como uma pessoa muito correta, com retidão de caráter e convicto de que era contra qualquer tipo de maldade. Uns diziam que ele tinha 30 anos, outros uns 60, mas todos sabiam que seu nome era Albo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em um dia de folga, sempre acompanhado de suas convicções, andava displicentemente pelas ruas de sua cidade quando viu jovens vestidos com roupas estravagantes:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Essa juventude está perdida! – disse a si mesmo, vestindo sua sandália com meias sociais, short bege e camisa florida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mais alguns metros de caminhada e, surpresa, encontrou um amigo da juventude.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Grande amigo! Você viu a pouca vergonha que está neste país? Estão destruindo nosso bem maior: a família! – disse Albo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O pai de Albo tinha sido alcoólatra e, antes de morrer precocemente, teve diversos episódios de violência contra sua mãe. Já Seu Albo já tinha se separado três vezes, contudo, segundo ele, isso se deu porque elas não eram boas mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Verdade Albo, esse mundo está perdido – respondeu o amigo, dando aquelas respostas tão óbvias e esperadas que só perdem em automatismo e irreflexão para quando levamos um tombo e tentamos nos proteger com as mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Bom te ver amigo! Precisamos marcar alguma coisa – naturalmente que na cabeça do Seu Albo essa “alguma coisa” era algum encontro fortuito numa casa de prostituição qualquer; normal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-continuou-sua-caminhada-e-nela-ficava-a-refletir-sobre-muitas-situacoes-da-vida-por-exemplo-como-as-pessoas-eram-egoistas-como-ninguem-respeitava-mais-nada-como-este-pais-estava-jogado-as-tracas-como-os-valores-sabe-se-la-do-que-tinham-sido-perdidos-e-como-ninguem-percebia-isso" style="font-size:18px">Continuou sua caminhada, e nela ficava a refletir sobre muitas situações da vida, por exemplo: como as pessoas eram egoístas, como ninguém respeitava mais nada, como este país estava jogado às traças, como os valores (sabe-se lá do que) tinham sido perdidos e como “ninguém” percebia isso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Acidentalmente e distraidamente, Seu Albo entrou numa ciclovia, e por pouco não foi atropelado por uma bicicleta. Ficou muito irritado!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Quem você pensa que é? – Vociferou contra o ciclista!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sou um ciclista, pedalando uma bicicleta, na ciclovia, que é uma via feita para ciclistas pedalarem suas respectivas bicicletas&#8230; – respondeu.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E você sabe com quem está falando? – Carteirou (?).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sei&#8230; com um “albo” – disse o ciclista em voz baixa e voltou à sua pedalada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas não passou de um susto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-seu-albo-voltou-para-sua-casa-e-resolveu-dar-uma-volta-de-carro-poucos-metros-dirigindo-e-ele-quase-atropelou-uma-pessoa-que-atravessava-na-faixa-de-pedestres" style="font-size:18px">Seu Albo voltou para sua casa e resolveu dar uma volta de carro. Poucos metros dirigindo e ele quase atropelou uma pessoa que atravessava na faixa de pedestres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Você endoideceu de atravessar desse jeito? – buzinou e berrou em seguida!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-mix-de-susto-e-alivio-a-pessoa-continuou-sua-caminhada-em-silencio-apenas-murmurou-albo" style="font-size:18px">Num mix de susto e alívio, a pessoa continuou sua caminhada em silêncio. Apenas murmurou “albo”&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Essas pessoas que não prestam atenção por onde andam me tiram do sério – disse Albo a si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dirigiu seu carro até o local onde praticava sua religião. Seu Albo a praticava com muito fervor e devoção. Sempre dizia que ter fé era essencial e que Deus só sabia fazer o bem. Por outro lado, ele não entendia como outras pessoas poderiam praticar religiões diferentes da sua, ou como podiam praticar uma religião menos evoluída que a sua: “Só pode ser coisa do diabo”, falava regularmente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-jovem-colega-desse-espaco-religioso-aparentemente-demonstrando-sensatez-se-incomodou-com-as-falas-de-albo" style="font-size:18px">Um jovem colega desse espaço religioso, aparentemente demonstrando sensatez, se incomodou com as falas de Albo:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo, de onde raios você tirou que uma religião que é diferente da sua só pode ser coisa do diabo ou algo que o valha?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Meu filho, – usando o termo “filho” num tom que misturava acolhimento e soberba – você ainda vai aprender. Deus é bom, logo, essas coisas ruins que vemos das outras religiões só podem ser coisas do diabo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Na perspectiva religiosa, quem criou o mundo, Seu Albo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Deus, é claro!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Bem, e isso inclui seres vivos, entidades e figuras históricas, certo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Evidente!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Então Deus criou o diabo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Não seja ingênuo, filho. Deus não é culpado pela criação do diabo. A maldade vem do livre-arbítrio que Deus outorgou – quis usar uma palavra difícil para parecer culto – aos seres humanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Se Deus criou tudo, o livre-arbítrio e o mal não seriam uma criação de Deus?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Filho, é muito difícil conversar com você. Para seu governo, saiba que algumas das minhas crenças foram até comprovadas cientificamente!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo, mas se foi comprovado cientificamente, será que isso não deixou de ser uma experiência de fé? A fé que eu aprendi na mesma religião que praticamos, é aquela que contempla a dúvida, que caminha na incerteza e que é guiada por princípios éticos, que independem de uma comprovação concreta, senão da própria experiência sagrada e individual que qualquer pessoa pode ter. Isso é muito diferente daquilo que hoje chamamos de “cientificamente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Quanta bobagem! Deixemos essa conversa para quando você conseguir argumentar, entender o que é Deus e o que fé, vai ler – e saiu, cheio de dúvidas, mas sem dar chance ao inquisidor, assim Seu Albo o considerava, continuar seus argumentos “vazios” (?).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-o-jovem-achou-interessante-que-seu-albo-ja-tivesse-entendido-o-que-era-deus" style="font-size:18px">Já o jovem achou interessante que Seu Albo já tivesse entendido o que era Deus&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Algum tempo passou e Seu Albo foi tomado por uma angústia. Não sabia descrevê-la muito bem, mas estava muito introspectivo, de poucas palavras, às vezes até chorava “escondido” em sua casa. Percebeu que ele tinha que mudar algumas atitudes em sua vida. Começou a se dar conta que por vezes tinha uma postura radical ou inflexível, até mesmo arrogante. Constatou pela sua própria reflexão que precisava mudar e colocar essas mudanças em prática. Soube que usar pronomes neutros era uma nova forma de se comunicar, muito mais inclusiva e que provavelmente o deixaria menos radical ou intransigente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Agora uso pronomes neutros! Assim consigo englobar todas as pessoas quando me referir a elas – comentou com um conhecido do bairro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo&#8230; a expressão “todas as pessoas” já não é neutra e inclusiva?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; A neutralidade está em você usar pronomes que incluam pessoas de qualquer orientação sexual ou gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E se falo “todos”, não faço isso?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Coisas do patriarcado – bufou. – Você não sabe nada de inclusão! Sou inclusivo!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Mas posso falar “todos”?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Fale o que quiser, mas isso não é inclusivo!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Então estou excluído da sua lista de que é ser inclusivo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; De certa forma, sim!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Você acabou de dizer que era inclusivo, mas me excluiu&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Claro que sou inclusivo! Inclusivo e diverso! Veja só: na empresa que eu trabalho fizemos programas de diversidade. Agora usamos pronomes neutros, temos programas de liderança feminina, temos projetos para PcDs, coitados (?)! Chamamos até uma monja budista para dar uma palestra aos funcionários.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Muito bacana essa iniciativa! Penso que a ideia de diversidade também passa pela ideia de diversidade religiosa, algo que é muito bonito e potente aqui no Brasil. Que tal chamarem um Pastor ou uma Mãe de Santo para uma palestra na próxima vez?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Não&#8230; Daria muita polêmica – disse Seu Abo tentando sair do assunto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Você não é inclusivo e diverso? – retrucou o homem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixa-eu-te-explicar-usou-essa-expressao-para-ganhar-tempo-pois-na-pratica-nao-sabia-o-que-falar-continuou" style="font-size:18px">&#8211; Deixa eu te explicar&#8230; – usou essa expressão para ganhar tempo pois, na prática, não sabia o que falar. Continuou:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211;&nbsp; Eu era uma pessoa muito extrema, mas agora sou mais flexível. Por isso resolvi virar inclusivo – Seu Albo era conhecido na empresa em que trabalhava por ser um líder incoerente e sempre com ideias que emergiam de última hora. Não raro a equipe tinha que trabalhar muitas horas além do expediente normal para operacionalizar suas ideias “diversas” e “inclusivas”, que não consideravam nem excesso de horas trabalhas, nem uma vida saudável na relação com o trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sei, e o que mais faz? – indagou seu conhecido do bairro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sou uma pessoa boa, faço as coisas certas, sou ético! Ajudo as pessoas, especialmente as da minha equipe – ao falar isso se lembrou de quando um de seus funcionários lhe confidenciou algo muito particular e, no dia seguinte, boa parte da equipe abordou esse funcionário para tratar do tema. O funcionário, consternado, indagou Seu Albo em seguida, ao passo que ele disse que não tinha falado “com ninguém”, só com outra pessoa da equipe, mas que o fez apenas querendo ajudar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Teve até uma vez que depois de eu tentar ajudar uma pessoa com a maior das boas vontades, ela pediu demissão e teve a pachorra de falar que eu a expus – contou ao conhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sei quem é essa pessoa Seu Albo, e até onde eu soube, ela foi exposta mesmo – afirmou o conhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Ela é uma mal-agradecida, isso sim! – grasnou.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-caminhar-da-jornada-da-vida-seu-albo-se-tornou-ativista-critico-do-consumismo-vazio-e-resolveu-se-envolver-com-pautas-ambientais-embora-fizesse-questao-de-usar-seu-carro-movido-a-combustivel-fossil-pois-segundo-ele-nao-queria-dirigir-um-carrinho-de-golfe-anabolizado" style="font-size:18px">No caminhar da jornada da vida, Seu Albo se tornou ativista, crítico do consumismo vazio e resolveu se envolver com pautas ambientais, embora fizesse questão de usar seu carro movido a combustível fóssil, pois, segundo ele “não queria dirigir um carrinho de golfe anabolizado”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Agora também não consumo carne por uma motivação muito clara: sou a favor do bem-estar animal – disse com alegria!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E consumir carne é sinônimo de sofrimento animal, Seu Albo? – indagou um colega de trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Claro! Animais também merecem ser bem tratados. Amo cachorros – Seu Albo se esquecera que a poucos anos atrás tinha feito uma cirurgia que o livrou de um problema de saúde mais grave, e que praticamente todas as cirurgias que hoje são feitas em seres humanos, eram, e continuam sendo, desenvolvidas com pesquisas que utilizam animais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-dessas-falas-e-ou-comportamentos-a-angustia-parecia-acompanha-lo" style="font-size:18px">Apesar dessas falas e/ou comportamentos, a angústia parecia acompanhá-lo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Certo dia teve um sonho. Nele via pessoas nadando e se chafurdando numa piscina ou poço de lama, não sabia muito bem quem eram, mas lhe pareciam muito familiares, embora não conseguisse descrever seus rostos. Claramente se divertiam com aquilo, como se fosse uma brincadeira. Mas o que aquela lama parecia mesmo era cocô. Ele não sabia explicar como aquilo parecia legal e empolgante. Era uma verdadeira esbórnia de merda. Quis participar também. Caminhou em direção à piscina/poço. Quando foi pular, acordou.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Finalmente, resolveu procurar por análise. Disseram-lhe que a análise junguiana era muito boa, pois trabalharia questões mais profundas e lá seus sonhos seriam investigados em detalhes. Levou a sério e logo teve seu primeiro encontro com o terapeuta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sabe Analista, sou uma pessoa muito resiliente! O problema é que as pessoas têm inveja de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E o que você tem de invejável?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Eu sou uma pessoa boa, faço as coisas certas, sou ético, respeito as pessoas, protejo o meio-ambiente e os animais, sou inclusivo e diverso, defendo a religião e a fé. Não tenho político de estimação, família para mim é sagrada e meus valores são inegociáveis. Minha vida vai muito bem. O problema são as pessoas que questionam minhas falas e meus comportamentos&#8230; Elas não me entendem!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; O problema são as pessoas&#8230; entendi. De quais pessoas estamos falando?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; De quase todas as quais eu me relaciono ou me relacionei de alguma forma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Todas é muita coisa, não?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Na verdade, acho que só tem uma &#8211; os olhos da Albo lacrimejaram, e continuou:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Eu! Eu não me entendo. E às vezes acho que sou um merda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por qualquer acaso da vida, este texto caiu nas mãos de Seu Albo, que o leu atentamente. Ao terminar, apenas disse a si mesmo:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossa-tenho-um-amigo-que-e-exatamente-assim" style="font-size:18px">&#8211; Nossa, tenho um amigo que é exatamente assim.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8212;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-epilogo" style="font-size:22px">Epílogo</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Muitas vezes é trágico ver como uma pessoa estraga de modo evidente &nbsp;a própria vida e a dos outros, e como é incapaz de perceber até que ponto essa tragédia parte dela e é&nbsp; alimentada progressivamente por ela mesma. Não é a sua consciência que o faz, pois esta lamenta e amaldiçoa o mundo desleal que dela se afasta cada vez mais. Pelo contrário, é um fator inconsciente que trama as <strong>ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito</strong>” </em>(OC 9/2, §18).</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O <strong>retorno ao caos</strong> era considerado pelos alquimistas como uma parte da obra. E o estado da nigredo (negrura) e mortificatio (mortificação, morte), seguido do ignis purgatorii (fogo do purgatório ) e da albedo (alvura). O espírito do caos é indispensável para a obra [&#8230;]. O inconsciente é bom e mau, ou nem bom nem mau. Ele é a mãe de todas as possibilidades”</em> (OC 14/1, §247).</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Entre os alquimistas, o Paraíso é um símbolo popular do albedo (alvura), isto é, do estado de <strong>inocência readquirido</strong>&#8230;”</em> (OC 9/2, §373).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-termos-psiquicos-a-albedo-so-cumpre-com-seu-objetivo-alquimico-quando-compoe-um-par-de-opostos-com-a-nigredo-levando-de-maneira-consequente-a-citrinitas-amarelecimento-e-em-seguida-a-rubedo-vermelhidao-que-e-um-simbolismo-da-sintese-dos-opostos" style="font-size:18px">Em termos psíquicos, a <em>albedo</em> só cumpre com seu objetivo alquímico quando compõe um par de opostos com a nigredo, levando de maneira consequente à <em>citrinitas</em> (amarelecimento) e em seguida à <em>rubedo</em> (vermelhidão), que é um simbolismo da síntese dos opostos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Do contrário, uma pessoa “alba” será aquela que vive sua fantasia paradisíaca de si mesma, composta pelas próprias verdades, circunscrita ao conhecimento dos padrões típicos e mais aprazíveis do ego, como se esse fosse toda a psique. Ela chamará a isso de “autoconhecimento”. Em suma, uma pessoa “alba” será aquela que viverá uma suposta “clareza” dos limites da consciência, como se esta fosse sua totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Albo</em>: (do latim), claro, branco. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/rafaelrodrigues/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/rafaelrodrigues/">Rafael Rodrigues de Souza &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Crescer dói?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/crescer-doi/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula Borba dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2026 21:51:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[crescer]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento humano]]></category>
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		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[etapas de crescimento]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[red: crescer é uma fera]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A partir de uma leitura simbólica do filme Red: Crescer é uma Fera, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong>A partir de uma leitura simbólica do filme <em>Red: Crescer é uma Fera</em>, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-filme-red-crescer-e-uma-fera-2022-e-uma-animacao-da-pixar-sensivel-e-envolvente-que-conta-a-historia-de-mei-lee-uma-adolescente-de-13-anos-que-vivencia-descobertas-e-tensoes-tipicas-desta-etapa-da-vida" style="font-size:18px">O filme <em><strong>Red: Crescer é uma Fera</strong> (2022)</em> é uma animação da Pixar sensível e envolvente que conta a história de Mei Lee, uma adolescente de 13 anos que vivencia descobertas e tensões típicas desta etapa da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto é surpreendida por mudanças latentes no corpo e no humor, ela também precisa lidar com sua família e com as heranças transgeracionais que compõem sua história. Mais do que uma trama sobre adolescência e seus ritos de passagem, é um convite para observarmos o poder transformador de nos relacionarmos com o outro e com as emoções que nos atravessam a partir desses encontros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-partir-desse-pano-de-fundo-que-este-texto-se-propoe-a-investigar-a-pergunta-titulo-crescer-doi" style="font-size:20px">É a partir desse pano de fundo que este texto se propõe a investigar a pergunta título: crescer dói?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa apresenta Mei como a filha “perfeita”, profundamente dedicada a corresponder às expectativas dos pais, sobretudo de sua mãe, Ming, cuja postura zelosa, amorosa e controladora organiza toda a dinâmica familiar, enquanto o pai, Jin, cuida e oferece suporte de forma mais discreta. Esse vínculo, marcado por amor, orgulho e pressão, é o terreno onde nasce a tensão central: ao entrar na adolescência, Mei começa a vivenciar desejos e transformações corporais que a afastam da criança obediente que sempre foi. Entre o conforto da infância e o chamado do novo, ela experimenta o primeiro ciclo menstrual e, simultaneamente, descobre que suas emoções mais fortes a fazem transformar-se em um panda vermelho gigante.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Através do Panda Vermelho, a personagem vai nos ensinando que só podemos nos desenvolver psiquicamente dialogando com as emoções que nos compõem e que nossas relações são terrenos férteis para nossa dialética emocional. É no encontro com nossos entes queridos que podemos fazer reencontros e confrontos com as múltiplas e contraditórias partes que nos habitam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-ensina-gugguenbul-craig-somente-mediante-ao-intercambio-emocional-com-aqueles-com-quem-vive-uma-relacao-de-amor-e-que-uma-nova-dimensao-pode-penetrar-em-seu-mundo-amortecido-guggenbuhl-craig-2004-p-138-139" style="font-size:18px">Como ensina Gugguenbül-Craig: “somente mediante ao intercâmbio emocional com aqueles com quem vive uma relação de amor é que uma nova dimensão pode penetrar em seu mundo amortecido” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 138-139).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na teoria, parece simples, e até poético, imaginar essa troca emocional, mas Mei revela o quanto esse processo pode ser assustador quando temos de encarar os aspectos destrutivos e agressivos da nossa própria “fera”. Isso acontece porque relacionar-se exige intimidade com o outro e, antes de tudo, conosco mesmos. Ela evidencia o quanto é difícil aceitarmos nossas partes sombrias e indesejáveis, e como, muitas vezes, fugimos da tarefa de cuidar de nossos vínculos, evitando conversas difíceis. Assim como Mei, quantas vezes não evitamos o confronto em nome de uma suposta harmonia? Talvez por medo de ficarmos vulneráveis, de decepcionarmos quem amamos ou de sermos feridos. E, pouco a pouco, vamos nos tornando menos permeáveis e sensíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É justamente nesse ponto de tensão, quando a tentativa de esconder ou conter o que é doloroso já não se sustenta, que a narrativa avança. Após um episódio marcante na escola, Mei recolhe-se ao quarto, um espaço que, simbolicamente, já não comporta seu novo tamanho nem o peso do que ela tenta esconder. É, então, que seus pais revelam a verdade: o panda é uma herança familiar transmitida de mãe para filha desde a ancestral Sun Yee, que recebeu esse poder como dádiva para proteger sua família durante a guerra. O segredo, enfim, vem à tona, junto da promessa de um ritual que poderá conter a fera na próxima lua vermelha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-trama-o-panda-vermelho-simboliza-o-que-na-psicologia-junguiana-chamamos-de-complexos" style="font-size:18px">Na trama, o Panda Vermelho simboliza o que, na psicologia junguiana, chamamos de complexos:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> núcleos emocionais autônomos, carregados de significados, afetos intensos e impulsos que emergem tanto da história pessoal quanto da herança coletiva. Na família Lee, esse legado aparece em explosões emocionais e comportamentos repetitivos, nos quais as mulheres são tomadas pelo panda como se perdessem momentaneamente a própria consciência, um retrato preciso de um complexo constelado. O filme, assim, evidencia a força dos complexos familiares que atravessam gerações e mostra como a família passou a realizar rituais para aprisionar esse espírito em amuletos, numa tentativa de livrar-se desse estado avassalador e impedir que as emoções comandassem suas ações.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica soa muito próxima da nossa própria contemporaneidade, em que nos tornamos cada vez mais defendidos e impermeáveis, acreditando que negar ou conter nossas emoções impede o “estrago feito pelo panda”. E é possível compreender o tamanho desse temor, pois, segundo Jung, ao lidar com tais forças, estamos, de certo modo, lidando com a ira de Deus, que ele assim definiu:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>É um nome apropriado para todas as grandes emoções que ocorrem em meu próprio sistema psíquico e que dominam minha vontade consciente, apoderando-se do controle sobre mim mesmo. É por este nome que designo tudo o que se atravessa de forma violenta e desapiedosa, o itinerário por mim traçado; tudo o que subverte minhas concepções subjetivas, meus planos objetivos, e interfere no curso da minha vida, seja para o bem seja para o mal (JUNG,&nbsp; p. 146, 2012).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo da narrativa, Mei experimenta na própria pele o quanto é arriscado e trabalhoso “desafiar os deuses”, sobretudo quando isso envolve decepcionar os pais; trata-se do processo de diferenciação descrito pela psicologia analítica, em que o jovem começa a se reconhecer como alguém distinto da família e passa a buscar a própria identidade. À medida que aguarda o dia do eclipse lunar, ela aprende a se relacionar com seu Panda Vermelho, permitindo-se viver suas experiências, conquistando autenticidade e reconhecendo-se no mundo para além do olhar materno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-movimento-descobre-que-incorporar-o-urso-tambem-traz-ganhos-torna-se-popular-na-escola-e-recebe-o-afeto-incondicional-das-amigas" style="font-size:18px">Nesse movimento, descobre que incorporar o urso também traz ganhos: torna-se popular na escola e recebe o afeto incondicional das amigas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ponto de virada surge quando decide ir ao show de sua banda preferida, mesmo sem a aprovação dos pais, trabalhando para juntar o dinheiro necessário para os ingressos, uma metáfora clara de que toda transformação exige esforço e tem um preço. E, ao afirmar que “não é um simples show, é um portal para a vida adulta”, Mei ecoa uma imagem que Jung também propõe, ao comparar a passagem da infância para a adolescência a um verdadeiro nascimento:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>No estágio infantil da consciência, ainda não há problemas; nada depende do sujeito, porque a própria criança depende inteiramente dos pais. É como se não tivesse nascido ainda inteiramente, mas se achasse mergulhada na atmosfera dos pais. O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, que este frequentemente se impõe desmedidamente (JUNG, 2013a, p. 346-347).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A imagem do parto como metáfora para o nascimento psíquico da adolescência é profundamente rica. Do ponto de vista do bebê, podemos imaginar o desconforto de não caber mais naquele espaço antes seguro e acolhedor, que, de repente, se torna estreito e insuficiente. Para nascer, ele precisa se lançar por um canal apertado rumo a um mundo vasto, com muita claridade e completamente desconhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As contrações que impulsionam essa passagem são dolorosas, inevitáveis e requerem esforço mútuo; tanto mãe quanto bebê dependem de se renderem ao fluxo natural da vida. E, do ponto de vista materno, o parto natural é uma experiência de dor visceral, que exige entrega absoluta e deixa marcas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-nascimento-do-adolescente-tambem-nao-sera-indolor-pais-e-filhos-atravessam-tensoes-intensas-e-o-processo-nao-termina-no-parto" style="font-size:18px">Assim, o nascimento do adolescente também não será indolor: pais e filhos atravessam tensões intensas, e o processo não termina no parto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Depois dele, existe o desafio de adaptação: o bebê precisa aprender novas formas de respirar e alimentar-se, enquanto a mãe enfrenta o puerpério, um período emocionalmente denso e exigente. Da mesma maneira, a entrada na adolescência inaugura um novo modo de existir, que demanda força, coragem e um reajuste honesto do vínculo entre pais e filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse contexto simbólico que surge o segundo grande conflito da trama: Mei descobre que o show de sua boyband favorita acontecerá exatamente no dia do ritual destinado a aprisionar seu panda. Essa “coincidência” a obriga a encarar uma escolha inevitável entre lealdade à família e seu próprio rito de passagem. É impossível ter as duas coisas ao mesmo tempo. Inicialmente inclinada a seguir o ritual, ela se sensibiliza com a atitude do pai, que lhe mostra gravações em que aparece feliz com as amigas e revela que o panda de Ming, sua mãe, era muito mais destrutivo, carregando uma ferida antiga.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-reconhecer-essa-historia-e-validar-a-singularidade-da-filha-o-pai-atua-como-uma-especie-de-guia-interno-ajudando-a-a-perceber-que-pode-e-precisa-decidir-a-partir-de-si-mesma" style="font-size:18px">Ao reconhecer essa história e validar a singularidade da filha, o pai atua como uma espécie de guia interno, ajudando-a a perceber que pode, e precisa, decidir a partir de si mesma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao crescer, os filhos inevitavelmente rompem expectativas, e isso dói nos pais. Ming expressa essa dor de forma explosiva quando Mei abandona o ritual e escolhe manter seu panda para ir ao show, surgindo como um panda colossal que simboliza sua fúria e medo. No confronto final, mãe, filha, avó e tias entram juntas em uma espécie de floresta mágica (o inconsciente familiar), onde encaram feridas herdadas e aceitam que Mei seguirá com seu panda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse processo, Ming reconhece o peso de ter vivido para agradar a própria mãe e, ao soltar essa exigência, permite que Mei faça escolhas mais autênticas. A separação é dolorosa, mas necessária: Mei sustenta sua decisão apesar do medo, e Ming&nbsp; suporta o corte simbólico do cordão umbilical. Por fim, ao encontrar a ancestral que originou o panda, Mei pergunta se pode se arrepender, mas recebe apenas um abraço afetuoso e silencioso, um chamado para confiar em si mesma, mesmo diante do desconhecido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-crescer-afinal-e-um-caminho-sem-retorno-uma-vez-ampliada-a-consciencia-nao-e-possivel-voltar-ao-estado-anterior" style="font-size:18px">Crescer, afinal, é um caminho sem retorno; uma vez ampliada a consciência, não é possível voltar ao estado anterior.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é exatamente isso que vemos ao final do filme: Mei emerge mais autêntica e serena, capaz de ressignificar o panda e, com isso, romper o padrão familiar que a aprisionava. Agora, ela dialoga com suas emoções, nem se submete cegamente a elas, nem tenta eliminá-las. Sua mãe também cresce: guarda o espírito do Panda em um novo amuleto, um bichinho virtual que precisa ser cuidado e alimentado. O Panda, antes preso num pingente rígido e silencioso, passa a ter espaço para se relacionar com ela, que, por sua vez, deve sustentar esse vínculo vivo. Afinal, “<em>quando duas pessoas se encontram, suas psiques se defrontam em sua totalidade; o consciente e o inconsciente, o dito e o não dito, tudo afeta o outro</em>” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 50).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-com-o-longa-metragem-testemunhamos-a-forca-do-crescimento-individual-e-familiar-que-emerge-de-um-processo-amoroso-e-doloroso-de-mudanca-crescer-so-e-possivel-a-partir-das-relacoes-e-da-coragem-de-transgredir-e-doi-mas-vale-a-pena" style="font-size:18px">Por fim, com o longa-metragem, testemunhamos a força do crescimento individual e familiar que emerge de um processo amoroso e doloroso de mudança. <strong>Crescer só é possível a partir das relações e da coragem de transgredir e dói, mas vale a pena</strong>!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É um trabalho para toda a vida, aqui ilustrado na turbulência sagrada da adolescência e no impacto que ela provoca no universo parental. Encerro refletindo se o nosso maior desafio é lançar dos amuletos que nos aprisionam ou anestesiam, das antigas formas de proteção que já não nos servem para libertar o espírito do nosso próprio Panda, portanto, o convite permanece no ar: o que ainda mantemos aprisionado em nós, acreditando ser segurança, mas que, na verdade, impede o nosso crescimento?</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Crescer Dói?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/2bi7x24762E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/"><strong>Paula Borba dos Santos</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/">Glória G. de Miranda &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:19px"><strong>Referências bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BENEDITO, Vanda. <strong>Desafios à Terapia de Casal e de Família</strong>: Olhares junguianos da clínica contemporânea. 1. ed. São Paulo, Summus Editorial, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf.<strong> O Abuso do Poder na Psicoterapia.</strong> 1. ed. São Paulo, Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Escritos diversos</strong>: Psicologia e Religião Ocidental e Oriental. 3. ed. Petrópolis, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; <strong>A natureza da Psique.&nbsp; </strong>10. ed. Petrópolis, Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.<strong>Civilização em Transição.&nbsp; </strong>6. ed. Petrópolis, Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>O Desenvolvimento da Personalidade. </strong>14. ed. Petrópolis, Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RED: crescer é uma fera. Direção: Domee Shi. Produção: Lindsey Collins. [<em>S. l.</em>]: Pixar Animation Studios; Walt Disney Pictures, 2022. 1 filme (aprox. 100 min), son., color.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>A dinâmica narcisista como um caminho de criação de consciência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-dinamica-narcisista-como-um-caminho-de-criacao-de-consciencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniella Schmidt]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 11:01:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
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		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
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		<category><![CDATA[Narciso]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O objetivo deste artigo é oferecer uma ampliação sobre o mito de Narciso, destacando e refletindo dinâmicas psíquicas importantes, que estão presentes desde o início na história. O que nos condena e às nossas relações? E, principalmente, como é possível, mesmo encurralados em extremos e polaridades, encontrarmos aquilo que ajuda a mirar o caminho?</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O objetivo deste artigo é oferecer uma ampliação sobre o mito de Narciso, destacando e refletindo dinâmicas psíquicas importantes, que estão presentes desde o início na história. O que nos condena e às nossas relações? E, principalmente, como é possível, mesmo encurralados em extremos e polaridades, encontrarmos aquilo que ajuda a mirar o caminho?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Afinal, Narciso já nasceu condenado. Era belo demais. Isto, por si só, constituía um grande pecado contra os deuses: um mortal mais bonito que um deus não era permitido. Para os gregos, tratava-se de uma <em>hybris</em>, um descomedimento, quando algo ultrapassa sua medida. Conforme vai crescendo, provoca paixões em todos, mulheres, homens, ninfas (Brandão, 1987).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O excesso está presente desde o berço. Pelo olhar da Psicologia Analítica, esse descomedimento pode se dar quando uma energia arrebatadora, coletiva, se impõe sobre uma situação, capaz de tomar para si não apenas um, mas muitos indivíduos. Testemunha-se, no mito, a irresistibilidade exercida pela poderosa constelação de uma imagem de natureza arquetípica, relacionada ao fascínio e desejo pelo Belo, pelo Perfeito. Um complexo autônomo foi ativado e toma conta da consciência. &nbsp;O relativo deixa de existir em nome do absoluto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-vezes-ficamos-encurralados" style="font-size:20px"><strong>Às vezes ficamos encurralados</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse excesso que nasce com Narciso pode ser visto como a representação de uma espécie de possessão arquetípica. Ele nem precisa se ver para já se encontrar identificado. Os arquétipos estruturam a base coletiva fundamental da psique humana, são conteúdos autônomos que possuem um caráter numinoso, ou seja, “mágico”, espiritual. Podem ter um efeito integrador ou dissociador. Enquanto o indivíduo permanece inconsciente da influência de uma imagem arquetípica, a possessão se mantém. Como sob um feitiço, a inflação se instala e afasta a individualidade, a vida interior subjetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-seguinte-trecho-de-jung-poderia-auxiliar-narciso-a-compreender-sua-tarefa" style="font-size:18px">O seguinte trecho de Jung poderia auxiliar Narciso a compreender sua tarefa:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“A característica da reação patológica é em primeiro lugar a identificação com o arquétipo que determina um tipo de inflação ou possessão pelos conteúdos emergentes, cuja irresistibilidade é um desafio a qualquer terapia. A identificação pode transcorrer no melhor dos casos como uma inflação mais ou menos inócua. Em todo caso, a identificação com o inconsciente significa uma certa fragilidade da consciência e nisso reside o perigo. A identificação não é “feita” por nós, não “nos identificamos”, mas sofremos inconscientemente o tornar-nos idênticos a um arquétipo, isto é, somos por ele possuídos. Em casos graves é mais importante fortificar previamente o eu do que compreender e assimilar os produtos do inconsciente.” (Jung, 2021a, p. 356)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse seria um dos trabalhos de Narciso. É preciso ver, olhar e, então reconhecer para se ter a chance de desprender-se de um enredamento desse tipo. Jung (2021a, p.48) reforça essa proposição quando diz que “<strong>o perigo principal é sucumbir à influência fascinante dos arquétipos, o que pode acontecer mais facilmente quando as imagens arquetípicas não são conscientizadas</strong>”. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com isso, ressalta a importância da tomada de consciência. Sobre investir na construção de um ego estruturante, ou seja, capaz de se adaptar e de lidar com os conteúdos objetivos e subjetivos que o cercam. Esse “ver”, a tomada de consciência, pressupõe ser capaz de discernir, separar, refletir, encarar. Trata-se da difícil tarefa da formação do ego para a conquista da individualidade no processo de individuação. O eu precisa nascer, crescer e amadurecer. O desenvolvimento da consciência é instigado por um impulso interno, inconsciente, que conduz ao encontro com o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desenvolver-uma-perspectiva-para-alem-do-que-se-conhece" style="font-size:20px"><strong>Desenvolver uma perspectiva para além do que se conhece</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É preciso se relacionar com o diferente, o outro, tanto dentro quanto fora de si. No caminho da criação de consciência, vamos construindo e desconstruindo pontos de vista, opiniões, entendimentos, convicções. Experimentando polaridades distintas em nós e na vida que nos cerca, dando espaço para a totalidade psíquica se expressar e se realizar. Desenvolver consciência é um trabalho árduo e contínuo, que resulta na compreensão de que somos muito mais do que sabemos ser. Jung explica que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“A consciência é a função ou atividade que mantém a relação dos conteúdos psíquicos com o eu. Consciência não é a mesma coisa que psique, pois a psique representa o conjunto de todos os conteúdos psíquicos; estes não estão todos necessariamente vinculados ao eu, isto é, relacionados de tal forma com o eu que lhes caiba a qualidade de conscientes”. (Jung, 2021b, p.440)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se a consciência surge à partir do mar do inconsciente de onde viemos, a separação e a diferenciação da dimensão arquetípica são tarefas inegociáveis para criação do sujeito. Fazemo-nos inteiros pelo discernimento, no contato com esse outro em nós, representado por aspectos de Sombra, complexos, ambiguidades e contradições, o belo e o feio em si mesmo. É importante refletir. Narciso ainda se encontrará com o espelho, que o levará à possibilidade de criar reflexão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-enquanto-o-espelho-nao-vem" style="font-size:18px">Enquanto o espelho não vem&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pode ser prudente mantermos por perto tanto nossa pequenez quanto o diálogo criativo com o inconsciente.&nbsp; Lembrar que ego e consciência são uma pequena fração da psique humana, ou seja, conhecemos, diretamente, apenas uma parte do que somos. Para além do que se vê, existe o Inconsciente: autônomo, indomável, criativo, pulsante; o “psíquico desconhecido” (Jung, 2021c, p.131-132). As chances do ego residem em saber se ele é capaz de estabelecer um relacionamento com o inconsciente e a Alma, de forma humilde e atenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A totalidade psíquica convida o “eu” a se desenvolver e, pelo amadurecimento, se desprender das identificações coletivas, rumo a uma individualidade que possa estar à serviço da coletividade, mas não guiada por ela. Para seguir este caminho, precisa-se mais que apenas ver, precisa-se ver além. Ver a si e além de si. A alteridade é necessária, e, à partir, dela o exercício da nossa capacidade de ampliar e incluir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alteridade-comeca-dentro-de-cada-individuo-tem-a-ver-com-reconhecer-a-diferenca" style="font-size:18px">A alteridade começa dentro de cada indivíduo, tem a ver com reconhecer a diferença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psique é, por natureza, antinômica: consciente e inconsciente, feminina e masculina, luz e sombra. Suas relações se dão através de mecanismos compensatórios e complementares, que exercem uma ação autorreguladora do aparelho psíquico. Existimos entre polaridades e o intercâmbio energético entre elas configura-se saúde psíquica. Então, se existe um “eu” na totalidade da esfera psíquica, há também o “não-eu”. Não é possível conhecer a si mesmo sem estar diante do outro e, enquanto isso não acontece, não alcançamos a alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez Narciso tenha ficado tempo demais “encarcerado” na evitação sugerida pelo Oráculo, o qual disse que ele viveria muitos anos com a condição de não se ver.&nbsp; A imagem do mito traz um jovem frio, alheio às relações de afeto, ao interesse pelo outro, desconectado de Eros. Experimentando o mundo apenas na incipiência de sua esfera individual, regredido e fixado em um aspecto infantil, distante de sua profundidade. Pode-se pensar que ele está inteiro consigo, mas, na verdade, lhe falta contraste, o contraponto relacional capaz de lhe revelar a inteireza. Como uma criança não tem consciência da complexidade e diversidade em si e na vida, Narciso percebe apenas uma pequena parte do que ele e o mundo podem ser.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-perigo-do-excesso" style="font-size:20px"><strong>O perigo do excesso</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto não se afasta, minimamente, do jugo do arquétipo, o indivíduo preso numa dinâmica narcisista mantém-se no excesso e identificado. Em outras palavras, exageradamente unilateralizado, o que também pode ser uma posição considerada como “pecado”, uma <em>hybris</em> para a totalidade psíquica: ser, demasiadamente, uma coisa só. Uma consciência fixada unilateralmente está tomada por um complexo dominante, desprovida de suas habilidades de discernimento e diferenciação, enfeitiçada. No caso de Narciso, isso aparece como uma maldição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mito começa a revelar as consequências desse descomedimento:&nbsp; comportamentos obsessivos, fixados e que, enantiodromicamente, se compensam nas extremidades. Muitos desejam ardentemente o jovem, enquanto ele rejeita quem se aproxima. Essa é uma dinâmica que já se delineava na história e que se amplifica com o aparecimento da relação de Eco e Narciso, como se uma lupa fosse colocada para que não se perdesse de vista. De um lado, o desejo ardente e compulsivo pelo amor-objeto. Do outro, a fuga e total falta de interesse, desconexão. À fixação unilateral de Narciso faltava a oposição, por isso ele não se interessava.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tensao-leva-a-criacao" style="font-size:20px"><strong>A tensão leva à criação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez a vivência dessa dinâmica opositiva e compensatória, “desejo x desinteresse”, possa ser a projeção de algo novo, de uma necessidade interna que começa a se inquietar no âmago de Narciso. Uma necessidade ainda não conhecida por ele, mas que pulsa nas profundezas da sua psique. A unilateralidade sofre a pressão da tensão dos opostos e a angústia fundamental para que algo novo possa se realizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando se fica preso no extremo de uma polaridade, sem diálogo e sem relativização, o resultado são relações e indivíduos fechados e alheios ao interesse pelo o que é do outro, pelo o que a troca pode oferecer, isolados para novos afetos e possibilidade. Perde-se amplitude e profundidade. Também não se vive situações de conflito, crise e angústia, tão necessárias para o amadurecimento pessoal e conquistas de aptidões e recursos internos para lidar com a vida com inteligência emocional. Deixa-se de fazer contato com dimensões humanas importantes que levam à experiência integral da psique, como a vivência da raiva, frustração, decepção; situações onde é preciso se reinventar, buscar novas referências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-unilateralidade-e-um-aspecto-inerente-ao-ego-tem-a-ver-com-a-formacao-da-identidade-consciente-do-individuo" style="font-size:18px">A unilateralidade é um aspecto inerente ao ego, tem a ver com a formação da identidade consciente do indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A consciência escolhe, decide e, naturalmente, elege um aspecto ou caminho, negligenciando outro. Algo sempre fica para trás, escondido ou não desenvolvido. Pela dinâmica energética compensatória da psique, aquilo que não foi vivido na consciência perde valor e passa para a esfera do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por um lado, isso é um mecanismo inato e necessário para a construção da individualidade, da singularidade humana, para o dar-se conta de si. Por outro, pode vir a ser aquele pecado ou feitiço que condena. Quando a tensão entre os opostos aumenta, quanto maior a identificação unilateral, mais intensamente os conteúdos inconscientes e suas projeções atuarão para compensar e autorregular os excessos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espelho-tambem-pode-salvar" style="font-size:20px"><strong>O espelho também pode salvar</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Então, Narciso é o rapaz que nasce mais belo que os deuses, cuja mãe tenta afastá-lo de um contato consigo mesmo. Afinal ele não pode se ver se quiser continuar vivo. Cresce rodeado de pessoas apaixonadas e interessadas por ele; tanto desejo que leva Narciso a experimentar um comportamento oposto compensatório, afastando-se e negando o relacionamento. Vivencia em si os dois extremos: é, ao mesmo tempo, a fonte de grande desejo e a sua negação. Se nada mais acontecesse no mito, como seria suportar uma vida inteira de tanto desencontro?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A qualidade da relação que o indivíduo estabelece consigo se projeta em seus relacionamentos interpessoais. Assim, quanto mais se conhece e se acolhe, quanto mais se vê, mais prontidão apresentará para estabelecer vínculos profundos e verdadeiros. Por outro lado, é na experiência da alteridade, através do relação com o outro, que é possível, a cada um, vislumbrar a própria alma, a imensidão inconsciente que quer se realizar. É esse outro o único capaz de se opor às convicções do eu, instaurando uma dialética em direção ao novo. O diálogo flexível com opostos nos amplia e através das relações nos vemos melhor e crescemos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica" style="font-size:18px">Jung explica:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“O si-mesmo, enquanto polo oposto, ou o absolutamente “Outro” do mundo, é a conditio sine qua non do conhecimento do mundo e da consciência de sujeito e objeto. É a alteridade psíquica que possibilita verdadeiramente a consciência. A identidade não possibilita a consciência. Somente a separação, o desligamento e o confronto doloroso através da oposição, pode gerar consciência e conhecimento.”&nbsp; (Jung, 2021a, p. 173)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Então, de novo, é preciso ver, a si e além, além daquilo que se mostra à primeira vista. Coisa que Narciso vai adiando pelo caminho. Demora, mas, quando a sede é grande e não dá mais para seguir em tanta secura emocional, chega a necessária hora de começar um movimento novo. Finalmente, chega a hora de Narciso se ver, mas, na verdade, ainda não vê realmente a si mesmo. No reflexo do lago, de depara com uma imagem, aquele excesso que o condena. Reencontra-se com a imagem constelada no início e segue tomado por ela, mas, agora, condenando-se ao apaixonamento cego e à superficialidade. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas, abaixo do que se vê, algo novo acontece. Pela primeira vez, o desejo e o encanto passam a fazer parte da consciência de Narciso. Ele não apenas rejeita e se isola. Ele agora precisa, se interessa, busca. Ainda distante do verdadeiro outro, mas, quem sabe, esse pode ser seu próximo passo: através do ato da reflexão, retirar a projeção do espelho para, enfim, encontrar-se com aquele algo mais, a Sombra e tudo que ela tem a oferecer. Afinal, esse é o caminho para o encontro afetivo genuíno. Como resume Jung, “O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra” (Jung, 2021a, p. 30)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com o trecho abaixo, Jung faz pensar se o feitiço do mito de Narciso pode estar mais perto do fim quando o jovem se debruça sobre seu reflexo, ensinando-nos que a predisposição para o diálogo e para a reflexão atenta pode nos salvar da superficialidade e do entorpecimento que nos mantém cegos e desconectados de nós e das nossas relações:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Verdadeiramente, aquele que olha o espelho da água vê em primeiro lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira.” (Jung, 2021a, p. 29)</p>
</blockquote>



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<iframe title="Artigo: &quot;A dinâmica narcisista como um caminho de criação de consciência&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/huHkhBcuEh0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela-schmidt/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela-schmidt/">Daniella Schmidt &#8211; Membro Analista em Formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega, volume II. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2021c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2021a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2021b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: Narcissus, Jacopo Tintoretto (1519–1594)</em> &#8211; <em>Domínio Publico</em>. <em>Disponível em: <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tintoretto_-_Narcyz.jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tintoretto_-_Narcyz.jpg</a></em></p>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>O Exílio Simbólico da alma na Era do Biohacking: uma crítica Junguiana ao Mito da Performance no Neoliberalismo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-exilio-simbolico-da-alma-na-era-do-biohacking/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vania Lucia Otoboni]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 21:30:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[ego]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo analisa, a partir da Psicologia Analítica, como a cultura da performance e as práticas de biohacking intensificam a unilateralidade da consciência e fragilizam o eixo ego–Self.  Os principais sintomas contemporâneos — burnout, ansiedade, depressão e fadiga moral — são compreendidos como manifestações compensatórias do inconsciente diante da hipertrofia racional e do empobrecimento da vida simbólica.  O texto propõe uma leitura clínica na qual tais sintomas funcionam como sinais reguladores, convocando a uma reorganização psíquica e à retomada da designação humana como fator irracional que motiva à emancipação da massa gregária em busca do desenvolvimento da personalidade e à inteireza.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo analisa, a partir da Psicologia Analítica, como a cultura da performance e as práticas de <em>biohacking </em>intensificam a unilateralidade da consciência e fragilizam o eixo ego–Self.&nbsp; Os principais sintomas contemporâneos — burnout, ansiedade, depressão e fadiga moral — são compreendidos como manifestações compensatórias do inconsciente diante da hipertrofia racional e do empobrecimento da vida simbólica. &nbsp;O texto propõe uma leitura clínica na qual tais sintomas funcionam como sinais reguladores, convocando a uma reorganização psíquica e à retomada da designação humana como fator irracional que motiva à emancipação da massa gregária em busca do desenvolvimento da personalidade e à inteireza.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao"><strong>Introdução</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A contemporaneidade neoliberal com um capitalismo selvagem e competitivo – que disputa aceleração de performance humana e de mercado, produziu um sujeito que vive sob o domínio do rendimento. Em meio à aceleração e competitividade permanente, o corpo torna-se projeto de otimização, e a mente, território de operações técnicas na busca de cognição de excelência. &nbsp;A lógica da performance transforma a vida psíquica em extensão do produtivismo neoliberal: mais foco, mais eficiência, mais resiliência, mais juventude — sempre mais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-cenario-a-pergunta-essencial-da-existencia-quem-sou-cede-lugar-a-exigencia-pragmatica-como-posso-funcionar-melhor" style="font-size:19px">Nesse cenário, a pergunta essencial da existência (“quem sou?”) cede lugar à exigência pragmática (“como posso funcionar melhor?”).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É nesse ambiente que o fenômeno do <em>biohacking</em> se expande: protocolos de aprimoramento cognitivo, modulação genética, estimulação cerebral, monitoramento contínuo e hiper disciplinamento corporal tornam-se práticas cotidianas. Contudo, esse movimento técnico de expansão contrasta com uma retração simbólica. À medida que o corpo é aperfeiçoado, a experiência interior empobrece. Quanto mais o ego tenta comandar a psique como se fosse máquina, mais se distancia de seus fundamentos simbólicos.<strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Neste ensaio, o termo <em>Self</em> é utilizado, em duplo sentido junguiano como centro organizador e regulador da totalidade da psique, princípio que orienta o equilíbrio entre consciente e inconsciente &#8211; e como a totalidade dos processos psíquicos incluindo tanto conteúdos conscientes como inconscientes. Já <em>alma</em> designa sua expressão vivencial — a dimensão sensível, reflexiva e simbólica pela qual o humano se reconhece em profundidade. (Cf. JUNG, 2015, OC 6, § 752)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O exílio contemporâneo da alma não significa sua eliminação, mas o enfraquecimento da ponte entre consciência e inconsciente pela ausência do cultivo de uma vida interna através de simbolizações, ritos e momentos reflexivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-interioridade-perde-densidade-e-a-vida-psicologica-passa-a-ser-regida-quase-exclusivamente-pelos-criterios-da-utilidade-para-o-mundo-exterior-a-alma-e-o-ponto-de-partida-de-todas-as-experiencias-humanas-e-todos-os-conhecimentos-que-adquirimos-acabam-por-levar-a-ela-jung-2013a-oc-8-2-261" style="font-size:19px">A interioridade perde densidade, e a vida psicológica passa a ser regida quase exclusivamente pelos critérios da utilidade para o mundo exterior. “<em>A Alma é o ponto de partida de todas as experiências humanas, e todos os conhecimentos que adquirimos acabam por levar a ela</em>” (JUNG, 2013a, OC 8/2, §261)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com isso, instala-se uma unilateralidade típica das épocas de transição histórica: a hipertrofia da racionalidade instrumental e a negligência do sentir, perceber e intuir. A unilateralidade psíquica, quando dominante, gera compensações inevitáveis — sintomas que emergem como mensageiros do desequilíbrio. Burnout, depressão, ansiedade, insônia e sensação de vazio não são apenas patologias clínicas: tornaram-se símbolos de uma cultura que substituiu profundidade por desempenho e contemplação por autogerenciamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este artigo analisa, à luz da psicologia analítica, como a lógica da performance neoliberal e o imaginário tecnocientífico do <em>biohacking </em>produzem um sujeito desconectado de sua própria totalidade. Propõe-se compreender tais fenômenos não apenas como tendências sociais, mas como expressões arquetípicas de uma época que tenta suprimir sua sombra enquanto sacrifica a interioridade. Ao final, defende-se que uma ética simbólica do limite — capaz de restaurar o diálogo entre consciência e inconsciente — é condição para que a vida psíquica recupere sentido, profundidade e movimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-1-o-culto-neoliberal-a-performance-e-a-colonizacao-da-vida-psiquica" style="font-size:20px">1. <strong>O Culto Neoliberal à Performance e a Colonização da Vida Psíquica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sociedade contemporânea consagrou a performance como novo ideal civilizatório. Já não vivemos sob o modelo disciplinar descrito por Foucault (Cf.1975, pp.125-154) onde o poder moldava corpos por meio de coerção externa, mas estamos como aponta Byung-Chul Han, sob uma forma de <em>psicopolítica </em>na qual a dominação opera por meio da autovigilância voluntária e da exploração psíquica de si (Cf. HAN, 2015, pp. 38-45), a auto coerção do conceito <em>DIY – Do It by Yourself</em>. O sujeito torna-se empresário de sua própria existência, calculando cada gesto, cada esforço, cada instante de sua energia vital como investimento, sempre com vistas à máxima produtividade e buscando perpetuar-se e defender-se em um ambiente inóspito e competitivo na busca de consolidação de capital.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-cenario-o-rendimento-deixa-de-ser-mera-exigencia-profissional-para-transformar-se-em-imperativo-ontologico" style="font-size:18px">Nesse cenário, o rendimento deixa de ser mera exigência profissional para transformar-se em imperativo ontológico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A subjetividade é convertida em capital psicológico e o indivíduo passa a ser avaliado por métricas utilitaristas: <strong>memória, foco, disciplina, eficiência, velocidade de resposta, capacidade multitarefa</strong>. Trata-se de uma mutação antropológica na qual a dimensão simbólica e interior do humano cede espaço a uma lógica operacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na obra de Carl Gustav Jung encontramos diversas referências aos períodos históricos marcados por “doenças psíquicas coletivas”, associadas ao contágio emocional entre indivíduos e à unilateralidade da consciência — um “monoteísmo da consciência” que rompe o equilíbrio psíquico e favorece o adoecimento individual e cultural (Cf. 2014, OC 9/1, §276).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-atualidade-essa-unilateralidade-manifesta-se-na-absolutizacao-da-razao-instrumental-e-na-reducao-do-ser-humano-a-um-organismo-otimizado" style="font-size:18px">Na atualidade, essa unilateralidade manifesta-se na absolutização da razão instrumental e na redução do ser humano a um organismo otimizado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desaparece o mistério do existir e com ele a experiência profunda da interioridade. A vida perde densidade simbólica e torna-se transparente, tecnificada, calculada — uma vida “sem alma”. A completude humana é manter-se na tensão dos opostos e vem da compensação entre a consciência e o inconsciente, tanto pessoal como coletivo ou herdado, e se afastar dos conteúdos do inconsciente, pode causar consequências desagradáveis aos indivíduos. (Cf. JUNG, 2013a, OC 8/2, §138-139)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-cultura-da-performance-cria-um-modelo-psicologico-de-sujeito-que-deve-ser-permanentemente-mais-mais-saudavel-mais-bonito-mais-jovem-mais-produtivo-mais-inteligente-e-constantemente-sufocado-pela-exposicao-em-midias-sociais" style="font-size:18px">A cultura da performance cria um modelo psicológico de sujeito que deve ser permanentemente mais: mais saudável, mais bonito, mais jovem, mais produtivo, mais inteligente e constantemente sufocado pela exposição em mídias sociais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse “<em>mais</em>” infinito é a marca da inflação do ego moderno — um eu desconectado de qualquer referência ontológica profunda, que ignora a alma e rompe com sua função autorreguladora, porém profundamente adaptado em uma cultura e um meio social que impõem um ritmo competitivo na busca do prestígio, reconhecimento e dinheiro onde a alma não tem tempo para reflexões, e empreender tempo para si significa ficar desatualizado e ultrapassado pelo outro concorrente na vida material e acelerada.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como consequência, o indivíduo contemporâneo vive um esgotamento crônico não apenas físico, mas ontológico: sofre de fadiga de sentido focado somente no mundo externo esquecendo-se da sua vida interna, com medo do silêncio, da morte e de uma falta de completude. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pela tirania do ideal de produtividade, a consciência patologiza e manifesta sintomas por vias sombrias: epidemia de transtornos de ansiedade, depressão, burnout, pânico, insônia e uma desesperada sensação de inadequação acompanhada de culpa pela própria fragilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta busca do desempenho desloca a angústia existencial da pergunta <strong>“quem sou?”</strong> para a fuga hiperativa do <strong>“o que devo fazer?”</strong>. Esse desvio trágico inaugura a grande patologia espiritual do nosso tempo: a substituição do ser pelo fazer, doença silenciosa que lança as bases para a idolatria tecnocientífica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-2-biohacking-e-aperfeicoamento-cognitivo-o-corpo-como-laboratorio-do-ego" style="font-size:20px">2. <strong>Biohacking e Aperfeiçoamento Cognitivo: o corpo como laboratório do ego</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se a sociedade do desempenho criou a urgência de ultrapassar limites humanos, o biohacking surgiu como promessa de superação biológica. Originalmente associado a práticas experimentais de saúde e autocontrole corporal, rapidamente evoluiu para um movimento tecnocientífico global que visa aumentar artificialmente as capacidades físicas e cognitivas. O corpo deixa de ser experiência subjetiva e torna-se um projeto de engenharia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entre-suas-principais-tecnicas-encontram-se" style="font-size:18px"><strong>Entre suas principais técnicas encontram-se:</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:17px">Drogas de performance cognitiva (nootrópicos, microdosagem de psicodélicos, modafinil, metilfenidato);</li>



<li style="font-size:17px">Doping cognitivo de luxo, associado a elites corporativas e acadêmicas;</li>



<li style="font-size:17px">Terapia genética &#8211; modulação de genes ligados ao envelhecimento e desempenho neurológico;</li>



<li style="font-size:17px">Implantes neurais e interfaces cérebro-máquina para expansão de memória e cálculo;</li>



<li style="font-size:17px">Estimulação magnética transcraniana (TMS) para otimização de humor, atenção e aprendizagem;</li>



<li style="font-size:17px">Próteses de memória e suporte neural baseado em computação distribuída;</li>



<li style="font-size:17px">Monitoramento biológico contínuo com sensores corporais;</li>



<li style="font-size:17px">Hiper disciplinamentos corporais visando longevidade extrema e culto ao corpo.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O corpo humano passa a ser percebido não como organismo vivo, simbólico, integrado e portador de história, mas como <em>hardware</em> a ser atualizado. A subjetividade torna-se <em>software</em> mental que pode ser otimizado, reprogramado ou aumentado. Esse imaginário é claramente devedor do mito do homem-máquina de La Mettrie, para o qual ser humano é apenas uma condição transitória superável pela técnica, numa base&nbsp;<strong>materialista e mecanicista</strong>&nbsp;, reforçando o dualismo corpo-alma e defendendo a possibilidade de aprimoramento e transformação da condição humana através do conhecimento e da tecnologia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, do ponto de vista da psicologia junguiana, esta operação viola um princípio psíquico fundamental: <strong><em>a vida não tolera o monoteísmo da consciência</em></strong>. Tudo aquilo que é negado pela consciência retorna como sombra. Ao converter o corpo em máquina e a psique em algoritmo, o <em>biohacking</em> promove uma cisão radical entre interioridade e exterioridade, alma e biologia, Self e ego.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-afirmou-que-a-psique-e-um-sistema-auto-organizado-em-busca-de-totalidade-simbolica" style="font-size:18px">Jung afirmou que a psique é um sistema auto-organizado em busca de totalidade simbólica. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando o ego tenta controlar e ampliar artificialmente suas funções, rompe-se a relação de equilíbrio entre consciente e inconsciente e “o progresso conquistado pela vontade é sempre <em>convulsivo</em>.&nbsp;(2014, OC 9/1, § 276–277).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A consequência não é expansão humana, mas empobrecimento do ser. O crescimento tecnológico não é acompanhado por maturação psicológica, gerando uma forma inédita de patologia: a <em>megalotimia tecnológica, </em>desejo de poder ilimitadosem consciência de destino ou limite e este individuo é um subproduto cultural e do meio social e depende dos outros para validar sua autoestima. Simplesmente este individuo não consegue viver sem plateia de admiradores. O maior medo, reside em ser identificado com o fracasso ou na ala dos perdedores (Cf. LASCH, 1979, p.62)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O <em>biohacker</em> contemporâneo acredita que pode dominar a biologia, mas torna-se ele próprio dominado por uma compulsão de aperfeiçoamento permanente — um Fausto digital em permanente pacto com a técnica. Assim como no mito, o preço é sempre a alma: quanto mais poder adquirido, mais se distancia de si mesmo. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-3-narciso-digital-e-o-culto-a-performance-corporal-o-corpo-como-espetaculo-do-ego" style="font-size:18px">3. <strong>Narciso Digital e o Culto à Performance Corporal: o corpo como espetáculo do ego</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Fazendo-se uma analogia com a mitologia grega, pode-se dizer que Prometeu é o arquétipo da <em>hybris</em> ou orgulho imprudente tecnológico. Narciso é o arquétipo dominante da cultura contemporânea, pois ao invés de se voltar para a profundidade, o sujeito pós-moderno fixa-se na superfície. Sua essência é de um caçador que busca alcançar metas e despendem grande quantidade de energia na manutenção de sua imagem perfeita. Ele não busca mais a individuação — busca aprovação constante social e seguidores. &nbsp;Sua identidade não nasce de um movimento interior, mas de um reflexo exterior. O homem contemporâneo apaixona-se por sua própria imagem refletida, mas, por não reconhecer que é apenas reflexo, perde-se no vazio ontológico que o aprisiona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hoje, essa dinâmica manifesta-se na tirania do corpo perfeito. A era do <em>biohacking</em> sustenta um culto sofisticado à performance física e estética, mascarado sob discursos de “saúde”, “longevidade” e “bem-estar”, e todas devem ser instagramáveis ou passiveis de exposição em redes sociais. Na prática, porém, a busca pela longevidade tornou-se a nova forma de evitar a angústia da morte. O culto ao corpo é, de fato, uma guerra psicológica contra a condição humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-e-esculpido-obsessivamente" style="font-size:18px"><strong>O corpo é esculpido obsessivamente:</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Dietas extremas,Jejuns intermitentes e regimes bioquímicos de modulação hormonal,</li>



<li style="font-size:18px">Terapias antienvelhecimento, infusões de peptídeos e modulações epigenéticas;</li>



<li style="font-size:18px">Esteroides anabolizantes e micro dose de testosterona;</li>



<li style="font-size:18px">Cirurgias e harmonizações faciais como linguagem identitária;</li>



<li style="font-size:18px">Treinos exaustivos e monitoramento metabólico 24h;</li>



<li style="font-size:18px">Rituais dopamínicos de alto prazer e baixa interioridade.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em termos junguianos, o culto à imagem é um claro sintoma de dissociação psíquica: quando o ego não suporta sua própria sombra, projeta seu valor no exterior e passa a viver de forma compensatória. O corpo perfeito é defesa inconsciente contra o sentimento de insuficiência interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quanto mais músculos, menos contato com a vulnerabilidade. Quanto mais filtros, menos contato com a verdade interior. Quanto mais performance, menos sentido de si. Esse corpo exibido é solitário. Ele é funcional, mas não simbólico. É visto, mas não habitado. Fascina, mas não realiza. Ele existe para evitar uma pergunta fundamental: quem sou sem minha performance?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E assim, Narciso digital caminha para seu destino trágico: morrer afogado na superfície. Sem perceber, seu reflexo devora sua presença real. Sua alma não desaparece — ela apenas é esquecida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-4-o-exilio-simbolico-da-alma-e-a-psicose-da-era-tecnologica" style="font-size:18px">4. <strong>O Exílio simbólico da Alma e a Psicose da Era Tecnológica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nenhuma civilização sobrevive quando perde a própria alma. O esvaziamento simbólico que atravessamos hoje não é apenas psicológico — é espiritual. Quando uma cultura rompe o eixo entre Self e consciência, a vida interior enfraquece, e o resultado é uma sociedade que funciona externamente, mas adoece por dentro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psique moderna sofre uma inflação do ego que tenta expulsar o mistério e a profundidade. Com isso, tudo o que sustenta a interioridade — sonhos, silêncio, imaginação, rituais — torna-se supérfluo diante da lógica da utilidade. O que parece inútil à performance é, justamente, essencial à alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Expulsa do centro da vida psíquica, a alma recolhe-se ao inconsciente e retorna sob a forma de sintomas: depressão, burnout, ansiedade, fadiga moral. São sinais de uma cultura que perdeu o sentido e já não sabe nomear seu próprio sofrimento. Por isso, vivemos o que pode ser chamado de <em>psicose cultural funcional</em>: seguimos produzindo, mas estamos desconectados de nós mesmos. A morte simbólica da alma manifesta-se quando:</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" width="801" height="227" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro.png" alt="" class="wp-image-12035" style="aspect-ratio:3.52891276685989;width:639px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro.png 801w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro-300x85.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro-768x218.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro-150x43.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro-450x128.png 450w" sizes="(max-width: 801px) 100vw, 801px" /></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psicologia analítica nomearia esse fenômeno como <strong>psicose cultural funcional</strong>: uma sociedade inteira perdeu contato com os fundamentos simbólicos da realidade, mas continua a operar, a produzir e a consumir — como um paciente psiquicamente desconectado que, ainda assim, segue funcional no mundo externo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-individuo-vira-escravo-de-si-mesmo-e-alienado" style="font-size:18px"><strong>O indivíduo vira escravo de si mesmo e alienado:</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:17px">O corpo vira máquina</li>



<li style="font-size:17px">A consciência vira algoritmo – dados pragmáticos e definidos para realizar uma tarefa</li>



<li style="font-size:17px">A subjetividade vira dados (<strong>coletados, analisados e transformados em dados quantificáveis</strong>)</li>



<li style="font-size:17px">O desejo vira estímulo cerebral modulável de pouca duração</li>



<li style="font-size:17px">A identidade vira narrativa artificial instagramável</li>



<li style="font-size:17px">A transcendência vira irrelevância estatística</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas o Self não se deixa matar. Como princípio regulador da psique, ele busca compensação. Quando não é ouvido, ele pressiona a consciência com sintomas, crises e rupturas. Por isso as doenças contemporâneas não são falhas de serotonina nem erros de dopamina — são gritos da alma. O sofrimento hoje é o novo mito: <em>ele revela que ainda existe algo em nós que resiste ao exílio interior</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao" style="font-size:19px"><strong>Conclusão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A técnica tenta substituir a alma, mas não pode. Pode modular humor, mas não criar sentido; pode ampliar memória, mas não gerar sabedoria; pode prolongar a vida biológica, mas não tocar o mistério de existir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O avanço técnico não constitui, em si, salvação psicológica: quando não acompanhado por uma maturação simbólica, transforma-se em agente de exílio da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Propomos a revalorização de uma <strong>ética simbólica do limite</strong> — práticas clínicas e culturais que reinvistam o mundo interno com significado: imaginação ativa e trabalho com sonhos, revisitar rituais culturais dentro de comunidades profissionais e formação crítica sobre tecnologia e corpo. Só assim a técnica poderá servir ao humano, e não o aprisionar num ciclo de aperfeiçoamento que suprime a capacidade de interiorização e, por fim, o sentido de existir estancando os indivíduos em certezas somente sociais e da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Carl Gustav Jung menciona: “<em>A vida é um fluxo, um fluir para o futuro e não um dique que estanca e faz refluir</em>”. (2014, OC 9/1, §278).</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A unilateralidade de uma vida centrada na aparência e no desempenho é um estanque por si gerando vazios e falta de sentido na busca da completude da vida.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/vania-lucia-otoboni/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/vania-lucia-otoboni/">Vânia L. Otoboni &#8211; Analista em Formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista Didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul<em>. Sociedade do cansaço. </em>Petrópolis: Vozes, 2017<em>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>______Psicopolítica: </em>o neoliberalismo e as novas técnicas de poder<em>. </em>Petropólis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A Natureza da psique</em>. 10&nbsp; ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>______&nbsp;Aion: </em>estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petropólis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>______A vida simbólica.</em> 7.ed.Petropólis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;______Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo. </em>11 ed.Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>______Tipos Psicológicos.&nbsp; </em>Digital ed. Petropólis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LASCH, Christopher<em>.</em> <em>A cultura do Narcisismo</em>. São Paulo: Fosforo, 1979</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>Lavar a Louça: Um olhar simbólico sobre uma prática diária</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/lavar-a-louca-um-olhar-simbolico-sobre-uma-pratica-diaria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Held dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Feb 2026 23:16:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre o ato cotidiano de lavar a louça, compreendendo-o como uma metáfora do processo de ampliação da consciência, sob a perspectiva da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. A partir da observação desse gesto simples, são exploradas as correspondências simbólicas entre sujeira e sombra, água e inconsciente, limpeza e integração psíquica. Assim como o alimento nutre o corpo, o contato com o inconsciente nutre a alma, exigindo a constante “lavagem” das projeções e resíduos psíquicos. Lavar a louça, nesse contexto, torna-se um rito diário de autoconhecimento e humildade, no qual o indivíduo, ao cuidar de sua própria “louça psíquica”, contribui também para a transformação coletiva.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre o ato cotidiano de lavar a louça, compreendendo-o como uma metáfora do processo de ampliação da consciência, sob a perspectiva da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. A partir da observação desse gesto simples, são exploradas as correspondências simbólicas entre sujeira e sombra, água e inconsciente, limpeza e integração psíquica. Assim como o alimento nutre o corpo, o contato com o inconsciente nutre a alma, exigindo a constante “lavagem” das projeções e resíduos psíquicos. Lavar a louça, nesse contexto, torna-se um rito diário de autoconhecimento e humildade, no qual o indivíduo, ao cuidar de sua própria “louça psíquica”, contribui também para a transformação coletiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:19px"><strong>INTRODUÇÃO</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Lavar a louça é um hábito cotidiano e inevitável, alguém sempre precisará fazê-lo! Afinal, precisamos nos alimentar todos os dias e, consequentemente, aparecerão louças sujas para lavar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O simples ato de utilizar utensílios à mesa é expressão de um processo civilizatório milenar. Ao longo da história, aprendemos a fabricar e empregar instrumentos para preparar e consumir os alimentos, distanciando-nos gradualmente da forma direta e instintiva de alimentação de nossos ancestrais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sujar e depois lavar são, portanto, atos inseparáveis do processo de nutrição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nutrir-se é um ato que nos traz prazer, sustento e vida, carrega também o lado inevitável de lidar com os resíduos que permanecem após o banquete. Há sempre, depois de um belo almoço de domingo, uma pia repleta de louças à nossa espera, um lembrete de que todo prazer implica também algum tipo de trabalho, e que toda nutrição, deixa vestígios que precisam ser cuidados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-consciencia-e-simbolo" style="font-size:19px"><strong>CONSCIÊNCIA E SÍMBOLO</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sob a perspectiva junguiana, nada é exclusivamente bom ou ruim, tudo contém os dois lados. A maneira como rotulamos algo como bom ou mau, belo ou feio, Deus ou diabo, advém da função da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">De acordo com <strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">Balestrini Junior</a></strong> e <strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/leostorres/">Torres</a></strong> (2022, p. 236) “<em>Se pudermos, de alguma forma, oferecer uma “definição” do que é consciência, poderíamos dizer que ela é um processo de percepção sensorial, categorização, valoração e avaliação das possibilidades da experiência fenomênica</em>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para os propósitos deste artigo, é importante esclarecer o que Jung compreende por símbolo:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“A essência do símbolo consiste em apresentar uma situação que não é totalmente compreensível em si e só aponta intuitivamente para seu possível significado. A criação de um símbolo não é um processo racional, pois este não poderia gerar uma imagem que apresentasse um conteúdo, no fundo, incompreensível. A compreensão do símbolo exige uma certa intuição que capta, aproximadamente, o sentido desse símbolo criado e o incorpora na consciência.” (JUNG, 2015, p. 136)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim, o símbolo expressa algo que ultrapassa o entendimento puramente racional, remetendo a um conteúdo psíquico que busca ser integrado à consciência. Sob essa perspectiva, a imagem da nutrição pode ser compreendida simbolicamente como a nutrição da alma. Alimentar-se, nesse sentido, não se limita à dimensão física, mas implica também um movimento de ampliação da consciência. Sendo assim, será que, para alimentarmos nossa alma, não iremos, também, gerar sujeiras e por consequência ter que “lavar a louça”?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sujeira-e-a-sombra" style="font-size:19px"><strong>A SUJEIRA E A SOMBRA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O que, no trecho acima, se designa como “sujeira” pode, sob à luz da teoria junguiana, ser compreendido simbolicamente como a sombra. Assim como, no cotidiano, não é possível nos alimentarmos sem gerar algum tipo de sujeira, o simples fato de existirmos também implica a criação de sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Segundo Jung (2013, p. 91), a “<em>Sombra é para mim a parte “negativa” da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal</em>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em outra parte, Jung (1978, p. 105) aprofunda que “<em>Todo individuo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará</em>.” &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Convém destacar que a sombra não se restringe a conteúdos negativos da personalidade. Inclui igualmente potenciais e qualidades socialmente valorizados, que podem ser projetados em outros objetos que sirvam de “gancho” para tais conteúdos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Desta forma, assim como lavar a louça várias vezes ao dia se faz necessário para evitar o acúmulo e o consequente aumento do trabalho, também se faz necessário o exercício contínuo de ampliação da consciência, um processo que poderíamos compreender como uma “limpeza da sombra”.&nbsp; Mesmo que, pela perspectiva junguiana, não seja possível a eliminação total da sombra, seu reconhecimento e integração são essenciais para a ampliação da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este artigo aborda a temática de lavar a louça, porque toda vez que eu realizo essa atividade, tenho a impressão de que algo na minha psique se organiza. É como se eu fosse dando espaço para que pensamentos até então “truncados” se manifestassem de maneira mais fluida. Muitas vezes durante o ato de lavar a louça, surgem soluções para problemas que, até então, pareciam insolúveis. De fato, a ideia de realizar este artigo surgiu exatamente nesse contexto: enquanto lavava a louça, perguntei a mim mesma qual tema poderia elaborar para o próximo artigo do IJEP?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-agua-e-o-inconsciente" style="font-size:19px"><strong>A ÁGUA E O INCONSCIENTE</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">&nbsp;Para Jung “a água é o símbolo mais comum do inconsciente” (JUNG, 2016, p. 36), em outro texto ele aprofunda essa relação ao afirmar:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>[&#8230;] a água é tangível e terrestre, também é o fluido do corpo dominado pelo instinto, sangue e fluxo de sangue, o odor do animal e a corporalidade cheia de paixão. O inconsciente é a psique que alcança, a partir da luz diurna de uma consciência espiritual, e moralmente lúcida, o sistema nervoso designado há muito tempo por “simpático”. Este não controla como o sistema cerebroespinal a percepção e a atividade muscular e através delas o meio ambiente; mantém, no entanto, o equilíbrio da vida sem os órgãos dos sentidos, através das vias misteriosas de excitação, que não só anunciam a natureza mais profunda de outra vida, mas também irradia sobre ela um efeito interno. (JUNG, 2016, p. 37)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No processo alquímico, a água aparece como uma das principais imagens simbólicas, representada pela <em>Solutio</em>. Conforme Edinger explica:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>As imagens básicas que se referem a esse símbolo são as que estão nadando na água, banhando-se, tomando ducha, talvez se afogando, dissolução; mas também batismo, rejuvenescimento através do processo, através de uma provação pela água. Solutio é uma imagem da descida para o inconsciente que possui o efeito de dissolver a estrutura sólida e ordenada do ego. Para o alquimista, a solutio significava o retorno da matéria diferenciada ao seu estado original indiferenciado, prima materia. A água era vista como o útero, e entrar na água, a solutio, era retornar ao útero para renascer. (EDINGER, 2008, p. 66)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir dessa perspectiva, a água não se limita a ser um elemento físico; ela se torna um símbolo do fluxo da vida psíquica e dos conteúdos inconscientes. Ao manipulá-la, guiando seu curso, permitindo que flua ou simplesmente observando seu movimento, entramos em contato com os aspectos instintivos e emocionais da psique, abrindo espaço para que o inconsciente se manifeste simbolicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim, conforme a pia vai ficando organizada e a louça se torna limpa, a sensação de satisfação e alívio ganham um espaço maior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-mesmos-devemos-lavar-as-nossas-loucas" style="font-size:19px"><strong>NÓS MESMOS DEVEMOS LAVAR AS NOSSAS “LOUÇAS”</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Também é importante considerar que devemos lavar nossas próprias “louças”. Diferente do ato literal, em que podemos delegar a tarefa a outra pessoa, no sentido simbólico cada um é responsável pela própria “sujeira” psíquica. Durante esse processo, é comum tentarmos transferir responsabilidades ou conflitos para os pais, cônjuges ou outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Tal feito de tentar responsabilizar outras pessoas pelos nossos atos, na psicologia analítica é chamado de projeção, “que indica o processo psicológico de estranhamento segundo o qual o sujeito &#8211; na relação que mantém com um objeto &#8211; transfere e inclui no próprio objeto qualquer gênero de conteúdos que sejam fundamentalmente de sua pertinência.” (PIERI, 2022, p.397)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-como-lavamos-a-louca-psiquica" style="font-size:19px"><strong>MAS COMO LAVAMOS A “LOUÇA” PSÍQUICA?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este artigo propõe uma analogia entre o gesto cotidiano de lavar a louça e o movimento de ampliação da consciência. Mas é evidente que o ato, isoladamente, não transforma a psique, ainda que, para mim, traga certa ordem interior. Se assim fosse, provavelmente o mundo estaria em um estado muito mais harmonioso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O ato de lavar a louça diariamente pode ser compreendido, simbolicamente, como o processo de análise, no qual vamos trazendo à consciência os aspectos sombrios inconscientes e integrando as “sujeiras” psíquicas para que novas possam emergir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Realizar terapia e dispor-se ao mergulho no inconsciente torna-se, portanto, um ato de responsabilidade consigo mesmo e para com o coletivo, com todos que compartilham e compartilharão este mundo. Jung (2013, p.12) ressalta essa relação entre o cuidado individual e a transformação coletiva:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. Em tempo algum, meditar sobre si mesmo foi uma necessidade tão imperiosa e a única coisa certa, como nesta catastrófica época contemporânea. Mas quem se questiona a si mesmo depara invariavelmente com as barreiras do inconsciente, que contém justamente aquilo que mais importa conhecer.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>CONCLUSÃO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">“Lavar a louça” psíquica é um ato simbólico de autoconhecimento e humildade. Assim como a água limpa os resíduos da matéria, o contato com o inconsciente dissolve as impurezas emocionais e as projeções que nos impedem de enxergar com clareza. O processo analítico, tal como o ato de lavar a louça, exige presença, repetição e entrega, pois a sujeira sempre retorna, assim como os conteúdos que insistem em emergir da sombra. Ao assumir a responsabilidade por essa limpeza interior, cada indivíduo participa silenciosamente da purificação coletiva, transformando o mundo a partir do gesto mais íntimo e cotidiano: o de cuidar da própria alma.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/carolina-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/carolina-santos/">Carolina Held dos Santos &#8211; Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BALESTRINI JUNIOR, José Luiz; TORRES, Leonardo; A Consciência: Um Campo Interacional e Dialético. IN: MAGALDI FILHO, Waldemar (Org.) <em>Fundamentos da Psicologia Analítica,</em> São Paulo: Eleva Cultural, 2022.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, Edward F.; <em>O Mistério da Coniunctio &#8211; </em>Imagem alquímica da individuação. São Paulo: Paulus, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Psicologia e Religião </em>Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Psicologia do inconsciente</em>. Ed. digital. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________<em>Tipos Psicológicos. </em>Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo </em>Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PIERI, Paolo Francesco. <em>Dicionário Junguiano.</em> Petrópolis: Editora Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Matrículas abertas</strong>: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3.png" alt="" class="wp-image-11997" style="width:692px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Depressão e Redes Sociais: Impactos, relações e desafios</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/depressao-e-redes-sociais-impactos-relacoes-e-desafios/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pollyana de Padua]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Feb 2026 13:00:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depressão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: As redes sociais ocupam um papel central na vida atual, moldando comportamentos, relações e a percepção de si. Embora favoreçam conexões e acesso a informação, também podem intensificar conflitos internos e contribuir para quadros depressivos. A partir dos conceitos junguianos como persona, sombra, complexos e energia psíquica, o texto discute como o uso das [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: As redes sociais ocupam um papel central na vida atual, moldando comportamentos, relações e a percepção de si. Embora favoreçam conexões e acesso a informação, também podem intensificar conflitos internos e contribuir para quadros depressivos. A partir dos conceitos junguianos como persona, sombra, complexos e energia psíquica, o texto discute como o uso das redes potencializa comparações, favorecendo a unilateralização da atitude consciente e influenciando simbolicamente na construção de uma nova identidade contemporânea. O artigo destaca que as redes sociais distorcem profundamente a construção da personalidade, ampliando a distância entre ego e conteúdos inconscientes. Por fim, o artigo é um convite ao processo de autoconhecimento como via criativa para o resgate do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-redes-sociais-tornaram-se-parte-central-da-vida-contemporanea-influenciando-comportamentos-formas-de-interacoes-e-percepcoes-de-si-mesmo" style="font-size:19px">As redes sociais tornaram-se parte central da vida contemporânea, influenciando comportamentos, formas de interações e percepções de si mesmo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Embasado nessa perspectiva, apesar de benéfica para conexões, informações e aproximações humanas, o risco é significativo para o desenvolvimento ou o agravamento de quadros depressivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir de conceitos como <strong>persona, sombra, complexo, energia psíquica </strong>e<strong> processo de individuação</strong>, podemos discutir como o uso das redes pode intensificar conflitos psíquicos, favorecer comparações e ativar complexos negativos. O artigo também analisa a função simbólica das redes sociais e sua influência na formação de uma nova identidade contemporânea.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-redes-sociais-tem-o-poder-de-transformar-radicalmente-o-modo-como-o-sujeito-constroi-e-apresenta-sua-identidade" style="font-size:19px">As redes sociais têm o poder de transformar radicalmente o modo como o sujeito constrói e apresenta sua identidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse ambiente intensifica tensões entre persona, determinada aqui como máscara social, e sombra, enquanto aspectos não admitidos de si. Em muitos casos, tais tensões podem favorecer dinâmicas internas que alimentam quadros depressivos, especialmente quando a energia psíquica se fixa em comparações, expectativas idealizadas e buscas compulsivas por validação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <strong>depressão </strong>constitui uma categoria importante de transtorno psiquiátrico caracterizada como&nbsp; um transtorno do humor. Entretanto, ampliando na perspectiva junguiana, é compreendida como um fenômeno psíquico que pode emergir de influxos da energia psíquica e da dissociação entre consciência e inconsciente. Neste sentido, quando um indivíduo transita pelas redes sociais, encontra um espaço fértil para conflitos internos, intensificando o estado depressivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O conceito de <strong>persona</strong>, ou máscara social, bem elaborada por Jung, necessária para adaptação do ego, encontra-se nas redes sociais hiperestimulada: filtros, narrativas idealizadas e a autopromoção criam uma imagem que muitas vezes pouco corresponde à personalidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. (JUNG, 2015, p.47, §246)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando o indivíduo se identifica excessivamente com essa <strong>persona digital</strong>, inicia-se uma série de riscos à própria pessoa: perda das emoções autênticas, fortalecimento da comparação com personagens idealizados, imersão em um mundo fantasioso &#8211; criando um abismo entre o self e o ego -. Tais elementos, promovem a unilateralização do ego, gerando uma discrepância dolorosa entre quem se mostra e quem verdadeiramente se é, esbarrando num campo minado e fértil para os estados depressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-fenomeno-observavel-no-ambiente-das-redes-sociais-e-o-que-conhecemos-como-sombra" style="font-size:19px">Outro fenômeno observável no ambiente das redes sociais é o que conhecemos como sombra.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como conteúdos rejeitados pela consciência, a sombra nas redes sociais surge por meio de projeções, manifestando sentimentos como inveja, inferioridade, arrogância, ataques de fúria, ativando complexos ligados ao fracasso, abandono, culpa e perfeccionismo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>A parte inferior da personalidade. Soma de todos os elementos psíquicos pessoais e coletivos que, incompatíveis com a forma de vida conscientemente escolhida, não foram vividos e se unem ao inconsciente, formando uma personalidade parcial, relativamente autônoma, com tendências opostas às do consciente. A sombra se comporta de maneira compensatória em relação à consciência. Sua ação pode ser tanto positiva como negativa. (JUNG, 1986, p. 495)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim-a-sombra-enquanto-caracteristicas-excluidas-do-processo-adaptativo-habita-o-que-denominamos-na-psicologia-junguiana-de-inconsciente-pessoal" style="font-size:19px">Sendo assim, a <strong>sombra</strong>, enquanto características excluídas do processo adaptativo habita o que denominamos na psicologia junguiana de inconsciente pessoal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesta camada do inconsciente há outro fenômeno importante para nossa discussão, denominado complexo. Os complexos são formados por núcleos autônomos, inconscientes ou semi-inconscientes, nunca conscientes &#8211; o que perderiam a característica de complexos -, influenciando comportamentos e emoções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Como é que surge então um complexo autônomo? Por alguma razão uma região até agora inconsciente da psique é ativada; pela reanimação ela se desenvolve e se amplia mediante inclusão de associações afins. Naturalmente a energia necessária para este fim é retirada do consciente [&#8230;]. A intensidade de atividades e interesses conscientes diminui gradativamente, surgindo ou uma apatia [&#8230;] ou um desenvolvimento regressivo das funções conscientes, isto é, uma descida às suas condições infantis e arcaicas, algo como uma degenerescência. As parties inférieures des fonctions, como disse Janet, impõem-se: o instintivo sobre o ético, o ingênuo-infantil sobre o ponderado, o adulto e a inadaptação sobre a adaptação. [&#8230;] O complexo autônomo desenvolve-se usando a energia retirada do comando consciente da personalidade. (JUNG, 2013b, § 123)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A dependência da aprovação externa, reforçada pelo aumento das ‘’curtidas’’, pelas reações e devolutivas negativas e agressivas, intensifica a ação dos complexos e a perda de autonomia do ego. Aqui mora um monstro escondido no inconsciente, pronto para aparecer e fragilizar o ego, aumentar o sentimento de vazio, retrair a energia psíquica, alimentando os sintomas depressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sendo-assim-quando-esses-complexos-sao-ativados-exaustivamente-dentro-do-contexto-do-uso-excessivo-das-redes-sociais-a-energia-psiquica-disponivel-para-o-ego-pode-ser-drenada" style="font-size:19px">Sendo assim, quando esses complexos são ativados exaustivamente dentro do contexto do uso excessivo das redes sociais, a energia psíquica disponível para o ego pode ser drenada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em outras palavras, caracteriza-se como transtorno depressivo: perda do interesse ou prazer, humor deprimido na maioria dos dias &#8211; quase todos os dias, no período de duas semanas -, alteração do apetite e do peso, insônia ou hipersonia, alterações cognitivas, fadiga ou perda de energia, sentimentos de inutilidade, evoluindo para pensamentos recorrentes de morte, ideação suicida sem plano ou com plano especifico para então cometer o suicídio (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA, 2014, p. 161).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse sofrimento tem um significado importantíssimo para o indivíduo, um convite agridoce à interiorizar-se. Este chamado se apresenta na própria etimologia da palavra, que surge a partir do verbo <em>deprimere</em>, significando &#8220;pressionar para baixo&#8221; ou &#8220;afundar&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sendo assim, o indivíduo precisa se reorganizar, se reconhecer como um ser único e capaz, rico em possibilidades, reconhecer seus conteúdos sombrios projetados, rever os complexos que o constituem, e retomar o laço com o si-mesmo (Self).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Como a palavra sugere, numa depressão a pessoa é pressionada para baixo, comprimida, em geral porque uma parte da libido psicológica está embaixo e tem de ser resgatada; a verdadeira energia da vida caiu numa camada mais profunda da personalidade e só pode ser alcançada por meio de uma depressão. Assim, a menos que haja uma psicose latente, as depressões devem ser encorajadas e as pessoas, aconselhadas a entrar nelas e ser deprimidas [&#8230;], se as depressões dizem que a vida nada significa e que nada vale a pena, deve-se aceitar isso e perguntar o que fazer. O que há a fazer é ouvir, mergulhar cada vez mais fundo, até se atingir o nível da energia psicológica em que alguma ideia criativa pode surgir; de repente, no fundo, aparecerá um impulso de vida e de criatividade que havia sido ignorado. (FRANZ, 2022, p. 175)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclui-se-que-a-depressao-pode-ser-um-chamado-de-alerta-para-se-distanciar-do-virtual-reviver-o-real-o-toque-sentir-o-calor-do-sol" style="font-size:19px">Conclui-se que a depressão pode ser um chamado de alerta para se distanciar do virtual, reviver o real, o toque, sentir o calor do sol.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Uma resposta prática para iniciar o confronto com esta doença é praticar atividades físicas, promovendo a liberação de endorfinas, aumentando a dopamina &#8211; que participa dos circuitos de recompensa e motivação. Neste sentido, estimulando as atividades prazerosas e interações sociais, há o aumento de serotonina, associado a regulação do humor, sono, apetite e da sensação de bem estar. Longe de ser atitudes definitivas, elas são suporte para o ego que precisa ir de encontro com seus conteúdos inconscientes em prol do autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por fim, não podemos esquecer que na perspectiva junguiana, o confronto com estes sentimentos de angústia e com este vazio precisa ser encarado também de uma forma criativa. Associar a visão da psiquiatria e da psicologia analítica é uma estratégia que pode iluminar este embate. Também é importante não perder de vista o problema do uso abusivo das redes sociais. Como tratamos, seu excesso evidência e corrobora para a impotência do ego diante da identificação com a persona, a projeção da sombra e a invasão de complexos. A depressão não vai desaparecer enquanto não embarcarmos no processo de individuação. É preciso coragem.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Depressão e Redes Sociais: Impactos, relações e desafios" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/uaJ9_lRSC4E?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pollyana-guilhermino-de-padua/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/pollyana-guilhermino-de-padua/">Pollyana Guilhermino de Pádua &#8211; Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata e Fundadora do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><br>ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais : DSM-5. 5. ed. Porto Alegre : Artmed, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANZ, Marie-Louise von. <em>Alquimia </em>: uma introdução ao simbolismo e seu significado na psicologia de Carl G. Jung, 2. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O espírito na arte e na ciência.</em> 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O eu e o inconsciente. </em>27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O homem e seus símbolos. </em>3. ed. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Memórias, Sonhos, Reflexões</em>&nbsp; 35. ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SADOCK, Benjamin J. <em>Compêndio de psiquiatria</em> : ciência do comportamento e psiquiatria clínica.&nbsp; 11. ed. Porto Alegre : Artmed, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:22px"><strong>Canais IJEP</strong>:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.instagram.com/ijep_jung/" type="link" id="https://www.instagram.com/ijep_jung/">Instagram</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos" type="link" id="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">YouTube</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos" type="link" id="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos &#8211; Gravados &#8211; 30h/certificação</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Cursos e Pós-graduações &#8211; Psicologia Junguiana/ Arteterapia e expressões criativas / Psicossomática:</p>



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		<title>Intolerância com os Intolerantes</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/intolerancia-com-os-intolerantes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Renata Pastorello]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 18:46:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[função transcendente]]></category>
		<category><![CDATA[intolerância]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo propõe uma reflexão sobre o paradoxo da intolerância, de Karl Popper, à luz da Psicologia Analítica. A partir de uma vivência cotidiana, analisa-se a intolerância como expressão da cisão entre ego e sombra e a necessidade de integração desses opostos pela função transcendente. A única intolerância que deveríamos admitir na sociedade e [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo:</strong> Este artigo propõe uma reflexão sobre o paradoxo da intolerância, de Karl Popper, à luz da Psicologia Analítica. A partir de uma vivência cotidiana, analisa-se a intolerância como expressão da cisão entre ego e sombra e a necessidade de integração desses opostos pela função transcendente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-unica-intolerancia-que-deveriamos-admitir-na-sociedade-e-principalmente-dentro-de-nos-e-a-intolerancia-com-a-intolerancia" style="font-size:19px">A única intolerância que deveríamos admitir na sociedade e principalmente dentro de nós é a intolerância com a intolerância.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este é o Paradoxo da intolerância formulado por Karl Popper que consiste em que a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da própria tolerância. Uma sociedade tolerante deve, para se preservar, reservar o direito de não tolerar a intolerância (especialmente quando ela envolve violência física, discursos de ódio ou a tentativa de suprimir o debate racional ou a imposição de uma ideia única).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Durante uma aventura pessoal em ser a única administradora de um Grupo de Whatsapp de bairro, onde o intuito deste grupo era promover um lugar civilizado de anúncios de produtos e/ou serviços para os moradores, pude perceber o quanto estamos, como sociedade, cultivando a intolerância e querendo que sejamos muito tolerantes com a intolerância alheia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Neste contexto, os participantes ao invés de tolerarem as pequenas imperfeições do grupo, iam pela via contrária: vociferavam a exigência de regras tão perfeitas para que eles, os participantes, não tivessem que sustentar desconforto algum.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-experiencia-antropologica-evidenciou-se-este-espirito-do-tempo-em-que-o-que-e-fortalecido-e-o-desejo-de-satisfacao-do-ego-ao-inves-de-fortalecer-a-flexibilidade-deste-ego" style="font-size:19px">Nessa experiência antropológica evidenciou-se este espírito do tempo em que o que é fortalecido é o desejo de satisfação do ego, ao invés de fortalecer a flexibilidade deste ego.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Um ego forte é como o material de uma ponte: é forte o suficiente para sustentar o peso que o atravessa, porém é flexível o suficiente para não se romper com o movimento da travessia. A intolerância é um sintoma da não aceitação da própria sombra, da cisão e oposição do ego aos conteúdos inconscientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-negar-o-mal-dentro-de-si-o-inconsciente-o-projeta-no-outro-e-justifica-a-violencia-moral-em-nome-do-bem-jung-chama-essa-dinamica-de-posse-pela-sombra" style="font-size:19px">Ao negar o “mal dentro de si”, o inconsciente o projeta no outro e justifica a violência moral em nome do “bem”. Jung chama essa dinâmica de posse pela sombra:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>com a projeção do mal, nós deslocamos o medo e a irritação que sentimos em relação ao nosso próprio mal para o opositor, aumentando ainda mais o peso da sua ameaça.</p><cite>(JUNG, 2019c, p.572)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A projeção é um mecanismo do inconsciente de reorganizar a experiência psíquica buscando se relacionar com a consciência. Porém, na busca por um ego perfeito e imaculado, o indivíduo fragmenta o que é &#8220;indesejável&#8221; (a Sombra) e suprimi o diálogo com esses aspectos transformando-os em luta, esta podendo ocorrer do lado de dentro, como processos depressivos, e ou do lado de fora designando a resolução de forma externa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esta defesa egóica que luta pela manutenção de uma perfeição estática é o que o torna intolerante, sendo dominado muitas vezes por um complexo de inferioridade que, paradoxalmente, se manifesta como um complexo de superioridade ou tirania (como a exigência de regras &#8220;perfeitas&#8221; no grupo, que é uma forma de domínio moral).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ego-inflado-aparecendo-na-forma-de-unico-eu-em-nos-que-deseja-controlar-o-ambiente-as-regras-do-grupo-para-evitar-o-confronto-com-a-propria-multiplicidade-interna" style="font-size:19px">O ego inflado aparecendo na forma de único eu em nós que deseja controlar o ambiente (as regras do grupo) para evitar o confronto com a própria multiplicidade interna.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Como ponto de referência do campo da consciência, o eu é o sujeito de todos os esforços de adaptação na medida em que estes são produzidos pela vontade. [&#8230;] O eu conserva sua condição de centro do campo da consciência; mas, como ponto central da personalidade, tornou-se problemático. Constitui parte desta personalidade, não há dúvida, mas não representa a sua totalidade. </p><cite>(JUNG, 2019a, p.11)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O antídoto para a cisão e a intolerância é a aceitação da dualidade e a integração de todos os aspectos da vida. Especialmente os aspectos que não são agradáveis ao julgamento do ego. O que o Jung chamou de Função Transcendente, a proposta da sua psicologia não está em abraçar um dos lados, ou seja, não é agirmos como se o inconsciente tivesse passe livre para o mundo externo e nem a repressão total deste inconsciente visando atender única e exclusivamente a adaptação externa:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Por “função transcendente” não se deve entender algo de misterioso e por assim dizer suprassensível ou metafísico, mas uma função que, por sua natureza, pode-se comparar com uma função matemática de igual denominação, e é uma função de números reais e imaginários. A função psicológica e “transcendente” resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes. </p><cite>(JUNG, 2019b, p.131)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ou seja, a Função Transcendente é uma atividade natural da psique que une consciente e inconsciente, gerando uma nova atitude levando em consideração os dois mundos: interno e externo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-contexto-a-intolerancia-pode-simbolizar-uma-dificuldade-em-realizar-a-funcao-transcendente-a-intolerancia-demonstra-uma-recusa-interior-em-buscar-uma-nova-atitude-que-inclua-o-que-foi-projetado" style="font-size:19px">Neste contexto a intolerância pode simbolizar uma dificuldade em realizar a Função Transcendente; a intolerância demonstra uma recusa interior em buscar uma nova atitude que inclua o que foi projetado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A atitude tolerante, por outro lado, exige o trabalho psíquico de sustentar o desconforto, estabelecendo um diálogo com ele (o &#8220;erro&#8221; do outro, a imperfeição da regra). A flexibilidade do Ego (a ponte forte, porém flexível) só é possível quando ele está em relação com a totalidade. A intolerância é um sinal de que o ego se recusa a estabelecer um diálogo com o inconsciente e se tornou um centro rígido e tirânico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A verdadeira &#8220;regra perfeita&#8221; está na estrutura interna do ego em utilizar a flexibilidade, para adaptar-se na medida do possível na estrutura externa. A aceitação da Sombra é o que torna a convivência possível. A intolerância social é, em última análise, o grito da alma que se recusa a confrontar a imperfeição mais íntima: a totalidade da vida que contém não somente a luz como a sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Talvez o verdadeiro sentido do paradoxo de Popper não seja apenas político, mas também psicológico: precisamos aprender a ser intolerantes com a intolerância interior, com a parte de nós que deseja excluir, punir, aniquilar o diferente. Só assim o coletivo poderá se transformar — não pela repressão do mal, mas por sua integração consciente.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Intolerância com os Intolerantes" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/xZMfrKp0Qx0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/renata-pastorello/">Renata Pastorello – Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl. G.<em> Aion</em>, 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">___________<em> A Natureza da Psique</em>, 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">___________<em>Presente e futuro</em>, 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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