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	<title>Arquivos ego - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos ego - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A mediunidade à luz da psicologia analítica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Nov 2026 18:54:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciências da Religião]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ensaio "A mediunidade à luz da Psicologia Analítica" propõe uma reflexão sobre a mediunidade a partir da obra de Carl Gustav Jung, buscando superar tanto as interpretações estritamente religiosas quanto as explicações que reduzem o fenômeno à psicopatologia. Articulando contribuições da tradição espírita, da psicologia da religião e dos estudos sobre consciência, o texto compreende as experiências mediúnicas como possíveis expressões da relação entre o ego e o inconsciente. Seu principal mérito está na aproximação entre conceitos junguianos, como Self, inconsciente coletivo e complexos autônomos, e a experiência mediúnica, oferecendo uma leitura simbólica e integradora do fenômeno. Sem confirmar ou negar a existência objetiva dos espíritos, o ensaio propõe compreender a mediunidade como uma linguagem da alma, capaz de expressar conteúdos profundos da psique e favorecer a ampliação da consciência. Assim, contribui para o diálogo entre psicologia, espiritualidade e cultura, destacando a dimensão simbólica e transformadora dessas experiências.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-mediunidade-a-luz-da-psicologia-analitica/">A mediunidade à luz da psicologia analítica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 id="h-como-a-psicologia-analitica-pode-compreender-as-experiencias-mediunicas-sem-reduzi-las-exclusivamente-a-fenomenos-patologicos-ou-a-crencas-religiosas" class="wp-block-heading">Como a Psicologia Analítica pode compreender as experiências mediúnicas sem reduzi-las exclusivamente a fenômenos patológicos ou a crenças religiosas?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: O ensaio <em>&#8220;A mediunidade à luz da Psicologia Analítica&#8221;</em> propõe uma reflexão sobre a mediunidade a partir da obra de Carl Gustav Jung, buscando superar tanto as interpretações estritamente religiosas quanto as explicações que reduzem o fenômeno à psicopatologia. Articulando contribuições da tradição espírita, da psicologia da religião e dos estudos sobre consciência, o texto compreende as experiências mediúnicas como possíveis expressões da relação entre o ego e o inconsciente. Seu principal mérito está na aproximação entre conceitos junguianos, como Self, inconsciente coletivo e complexos autônomos, e a experiência mediúnica, oferecendo uma leitura simbólica e integradora do fenômeno. Sem confirmar ou negar a existência objetiva dos espíritos, o ensaio propõe compreender a mediunidade como uma linguagem da alma, capaz de expressar conteúdos profundos da psique e favorecer a ampliação da consciência. Assim, contribui para o diálogo entre psicologia, espiritualidade e cultura, destacando a dimensão simbólica e transformadora dessas experiências.</p>



<h2 id="h-a-mediunidade-assume-diferentes-significados-e-modalidades-conforme-o-contexto-social-cultural-ou-religioso-em-que-se-manifesta" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A mediunidade assume diferentes significados e modalidades conforme o contexto social, cultural ou religioso em que se manifesta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Em geral, ela está associada à suposta capacidade de uma pessoa estabelecer comunicação com seres ou forças que ultrapassam a experiência comum.</strong> Essas entidades podem ser compreendidas como espíritos de pessoas falecidas, outras formas de existência sobrenatural ou, ainda, como aspectos inconscientes da própria personalidade, conforme sugeriram alguns dos primeiros estudiosos da mediunidade. Além disso, a mediunidade envolve a possibilidade de que essas forças ou entidades se expressem por meio do médium, transmitindo informações que não estariam acessíveis por meios ordinários, como ocorre, por exemplo, nas alegadas mensagens psicografadas atribuídas a pessoas falecidas. Em geral, essa capacidade estaria relacionada <strong>à ocorrência</strong> de estados alterados de consciência, frequentemente descritos como transe ou como outras condições mentais caracterizadas por algum grau de dissociação ou redução da consciência por parte do médium (ZANGARI; MARALDI, 2009).</p>



<h2 id="h-no-contexto-do-espiritismo-por-outro-lado-essa-concepcao-foi-significativamente-ampliada-nao-se-restringindo-aos-estados-de-inconsciencia-ou-transe" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No contexto do espiritismo, por outro lado, essa concepção foi significativamente ampliada, não se restringindo aos estados de inconsciência ou transe.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo a perspectiva espírita, a mediunidade se manifesta em praticamente todas as atividades humanas, desde a produção de textos científicos e literários até a criação artística. Incluem-se nessa compreensão acontecimentos cotidianos, como sensações físicas indefinidas, alterações emocionais passageiras, episódios de irritação, tristeza ou alegria súbita, pensamentos persistentes, momentos de inspiração ou mesmo manifestações de genialidade. Em todos esses casos, admite-se a possível influência de espíritos, o que frequentemente torna pouco nítida a distinção entre aquilo que se origina do próprio indivíduo e aquilo que decorreria de uma intervenção externa. Assim, para os espíritas, até mesmo a elaboração deste texto poderia ser entendida como resultado da interação entre o esforço intelectual de seus autores e a influência do plano espiritual, expressa por meio da inspiração ou da chamada mediunidade intuitiva (KARDEC, 1861 apud ZANGARI; MARALDI, 2009).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa compreensão ampliada da experiência espiritual pode ser observada em figuras religiosas como Dom Bosco, que apresenta sua obra como fruto de uma inspiração que ultrapassa o esforço individual, afirmando repetidamente que a ação humana se fortalece quando se coloca a serviço de um propósito maior. A ideia de que leigos e religiosos atuam como instrumentos de uma missão inspirada por Deus sugere uma abertura à influência do plano espiritual na vida cotidiana, não por meio de fenômenos extraordinários, mas por intermédio da intuição, da caridade, da vocação e do serviço ao próximo.</p>



<h2 id="h-sob-essa-otica-a-mediunidade-poderia-ser-compreendida-como-uma-forma-de-sensibilidade-espiritual-capaz-de-captar-orientacoes-percepcoes-e-chamados-vindos-de-uma-dimensao-transcendente-bucellato-santoni-wirth-2015" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Sob essa ótica, a mediunidade poderia ser compreendida como uma forma de sensibilidade espiritual capaz de captar orientações, percepções e chamados vindos de uma dimensão transcendente (BUCELLATO; SANTONI; WIRTH, 2015).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A &#8220;profecia&#8221; de Dom Bosco pode ser relacionada às imagens simbólicas e às intuições profundas que emergem do inconsciente e são vividas como experiências de sentido, orientação e serviço à coletividade. Nesse caso, o foco estaria menos na mediunidade como comunicação com espíritos e mais na capacidade humana de perceber conteúdos espirituais que transcendem o ego e impulsionam uma missão transformadora (BUCELLATO; SANTONI; WIRTH, 2015).</p>



<h2 id="h-sob-a-perspectiva-da-psicologia-analitica-a-mediunidade-pode-ser-compreendida-como-uma-expressao-da-relacao-dinamica-entre-o-ego-e-o-self" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Sob a perspectiva da Psicologia Analítica, a mediunidade pode ser compreendida como uma expressão da relação dinâmica entre o ego e o Self.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">À medida que o ego se aproxima do Self, centro da totalidade psíquica e imagem do divino interior, o indivíduo desenvolve maior capacidade de discernir intuições, símbolos e orientações que conferem sentido à existência. Nessa condição, a experiência espiritual deixa de ser apenas um fenômeno extraordinário e passa a constituir um modo de viver alinhado aos próprios valores essenciais, favorecendo a realização da vocação pessoal e o compromisso ético com a coletividade. A verdadeira espiritualidade manifesta-se, portanto, na integração da personalidade e na concretização de uma vida boa, bela e verdadeira.</p>



<h2 id="h-em-tempos-arcaicos" class="wp-block-heading"><strong>Em tempos arcaicos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A associação entre inspiração, imaginação e contato com realidades invisíveis não surgiu com o espiritismo moderno. Desde a Antiguidade encontramos relatos. A exemplo, Hesíodo ao escrever a Teogonia dos Deuses e Deusas relata em seus versos que as Musas, filhas de Memória e Zeus, o convocam e concedem o dom do canto, inspirando o pastor Hesíodo o canto que elas próprias cantam e o poder de torná-las presentes através do próprio canto. Depois disso, Hesíodo encarna de certa forma e parcialmente, o Poder numinoso das Musas, desvelando os seres e fatos do reino noturno do esquecimento e fundá-los como manifestação e presença (HESÍODO, 2007, p. 25).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na época de Hesíodo, a história era contada em versos hexagônicos, de forma oral, anterior à adoção do alfabeto e da estruturação da linguagem formal. Segundo sua obra, ele foi tomado pelo dom das Musas e inspirado por elas, cantou a cosmogonia e o espírito de sua época.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos associar a arte e a espiritualidade como um reencontro com uma “energia universal que atravessa todas as coisas”, na qual corpo, natureza, cosmos e sagrado não estão separados. Para Ana Mendieta, o processo de criação constitui uma reconexão com forças ancestrais e com dimensões profundas da existência, o que se aproxima da ideia junguiana de que o Self orienta o indiví­duo rumo à totalidade. Assim, a mediunidade poderia ser entendida como uma forma de escuta simbólica dessa realidade ampliada, permitindo que o sujeito ultrapasse os limites do ego e participe conscientemente de uma rede maior de significados e relações. A experiência espiritual autêntica se manifestaria, então, menos pelos fenômenos extraordinários e mais pela capacidade de integrar o sagrado à vida cotidiana, transformando a própria existência em expressão da alma (CARVALHO, 2018).</p>



<h2 id="h-estudos-sobre-a-mediunidade" class="wp-block-heading"><strong>Estudos sobre a mediunidade</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Estudos controlados antigos e recentes indicam que alguns médiuns são capazes de fornecer informações especí­ficas, conhecimentos e habilidades atribuí­dos a personalidades falecidas, cuja obtenção por meios convencionais seria considerada improvável. As experiências mediúnicas não estão necessariamente associadas a transtornos mentais e que muitos médiuns apresentam bom ajustamento psicológico e social (MOREIRA-ALMEIDA, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A revisão realizada por Moreira-Almeida (2013) apresenta diferentes hipóteses para explicar as comunicações mediúnicas, incluindo fraude, processos psicológicos inconscientes, percepção extrassensorial e a possibilidade de sobrevivência da mente após a morte. Com base em estudos experimentais, relatos históricos e análises de casos amplamente documentados, como os de Leonora Piper e Chico Xavier, o autor conclui que a evidência disponí­vel sugere a ocorrência de processos incomuns de obtenção de informações, consideradas difí­ceis de explicar apenas por um modelo reducionista que atribui a consciência exclusivamente à atividade cerebral. O artigo defende que a investigação cientí­fica rigorosa da mediunidade pode contribuir para ampliar a compreensão da consciência e das relações entre mente e cérebro.</p>



<h2 id="h-a-investigacao-cientifica-da-mediunidade-nao-se-limita-ao-espiritismo-pois-experiencias-de-comunicacao-com-entidades-visoes-e-estados-alterados-aparecem-em-diferentes-religioes-povos-e-situacoes-da-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A investigação científica da mediunidade não se limita ao espiritismo, pois experiências de comunicação com entidades, visões e estados alterados aparecem em diferentes religiões, povos e situações da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Narrativas de visões, audições e revelações espirituais aparecem em diversos textos bíblicos. Exemplos incluem as visões de Eliseu, Daniel, Estêvão e João no Apocalipse, nas quais personagens relatam percepções de realidades invisíveis ou experiências de contato com o sagrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de observar que as experiências espirituais aparecem em diferentes contextos culturais, podemos perguntar também como elas se relacionam com o funcionamento cerebral. Na década de 1990, estudos conduzidos por pesquisadores como Michael Persinger e Vilayanur Ramachandran investigaram correlações entre experiências religiosas e determinadas áreas cerebrais. Essas pesquisas contribuí­ram para o desenvolvimento da chamada <em>neuroteologia</em>, embora a hipótese de um único &#8216;ponto divino&#8217; no cérebro permaneça controversa (FRANCO, et al, p. 29).</p>



<h2 id="h-embora-esses-achados-contribuam-para-compreender-os-correlatos-neurofisiologicos-das-experiencias-mediunicas-eles-nao-esgotam-a-questao-de-seus-significados-subjetivos-simbolicos-e-existenciais-aspectos-que-permanecem-centrais-para-a-psicologia-analitica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Embora esses achados contribuam para compreender os correlatos neurofisiológicos das experiências mediúnicas, eles não esgotam a questão de seus significados subjetivos, simbólicos e existenciais, aspectos que permanecem centrais para a Psicologia Analítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De forma complementar, Zangari e Maraldi (2009) escrevem que a compreensão da mediunidade passou gradualmente de uma perspectiva centrada no indiví­duo para uma abordagem psicossocial, que considera o papel da cultura, do grupo social e dos contextos religiosos na construção e expressão das experiências mediúnicas. Os autores ressaltam que estudos recentes indicam que a mediunidade não está necessariamente associada a transtornos mentais e que fenômenos dissociativos podem ocorrer de forma não patológica quando inseridos em contextos socioculturais especí­ficos. Concluem que uma compreensão mais adequada da mediunidade exige a integração entre fatores biológicos, psicológicos e sociais, superando explicações exclusivamente psicopatológicas ou individualistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Almeida e Lotufo Neto (2004) analisam como alguns dos principais pioneiros da psiquiatria e da psicologia abordaram a mediunidade, destacando que autores como Pierre Janet, William James, Frederic Myers, Sigmund Freud e Carl Gustav Jung buscaram compreender essas experiências a partir de diferentes perspectivas teóricas. Embora muitos tenham relacionado a mediunidade a fenômenos como dissociação, processos inconscientes e estados alterados de consciência, os autores mostram que não houve consenso entre esses pesquisadores. Enquanto Janet e Freud tenderam a interpretá-la sobretudo em termos psicológicos; James, Myers e Jung admitiram que certos aspectos das experiências mediúnicas permaneciam insuficientemente explicados pelos modelos psicológicos disponí­veis em suas épocas. Os autores argumentam que a complexidade da mediunidade impede explicações simplistas ou exclusivamente patologizantes, indicando a necessidade de abordagens mais amplas e integradoras para compreender essas experiências humanas.</p>



<h2 id="h-jung-e-sua-visao-integral-do-ser-humano" class="wp-block-heading"><strong>Jung e sua visão integral do ser humano</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, formado em um contexto familiar marcado pelo protestantismo do lado paterno e por uma sensibilidade mí­stica do lado materno, não encontrava respostas satisfatórias para suas dúvidas ao recorrer ao pai. Essa tensão gerava conflitos entre ambos, mas também alimentava em Jung um profundo eros pelo conhecimento espiritual. O anseio de compreender aquilo que transcendia as explicações religiosas convencionais tornou-se uma força motriz em sua trajetória, conduzindo-o à investigação dos sí­mbolos, dos sonhos, dos mitos e da dimensão sagrada da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung era uma criança diferenciada, introvertida e profundamente criativa. Uma de suas maiores contribuições foi a formulação do inconsciente coletivo e sua relação com as estruturas arquetípicas, arcaicas e fundantes da psique humana. A mediunidade pode ser compreendida como uma das formas pelas quais conteúdos psíquicos profundos encontram expressão na consciência, manifestando-se por meio de imagens, intuições, símbolos e experiências de alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre as mulheres consideradas médiuns que exerceram influência significativa na vida emocional e intelectual de Jung destacam-se Emilie Preiswerk Jung, Hélène Preiswerk, Sabina Spielrein e Toni Wolff. Em <em>Memórias, Sonhos e Reflexões</em>, Jung faz referência sobretudo ao papel de sua mãe na formação de suas ideias. Segundo Rowland (2024), essas mulheres contribuíram para a elaboração de conceitos fundamentais relacionados à autonomia e à criatividade do inconsciente (ROWLAND, 2024, p. 49-55).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung, o sagrado e o Numinoso não podem ser alcançados apenas pelo logos. É necessário também o <em>eros</em>, entendido como a capacidade de vínculo, sensibilidade e conexão profunda com a vida. Somente com essa disponibilidade interior podemos abrir as janelas da alma e permitir que imagens, símbolos e significados provenientes das camadas mais profundas da psique alcancem a consciência.</p>



<h3 id="h-jung-e-seus-estudos-sobre-os-fenomenos-mediunicos" class="wp-block-heading">Jung e seus estudos sobre os fenômenos mediúnicos</h3>



<p class="wp-block-paragraph">Jung escreveu um capítulo relacionado à Conferência pronunciada no Bernoullianum em 1905, especificamente sobre o ocultismo e os fenômenos espíritas. O espiritismo como seita teve início nos Estados Unidos com as experiências mediúnicas vividas pelas irmãs Fox, em Hydesville, de uma família metodista (JUNG, 2020, §698). O início do espiritismo americano e sua migração para a Europa coincidem com o desabrochar do materialismo científico, evidenciando um sentido compensador. As coisas invisíveis preconizam uma concepção energética da psique, o que se aproxima dos pontos de vista da psicologia moderna. As coisas invisíveis esclarecem que o mundo consciente constituiu um só cosmo com o ‘além’, existindo uma diferença de frequência nas duas formas de vida, a material e a espiritual. Isso pode ser traduzido para a psicologia que a psique consciente e inconsciente são uma e mesma coisa, separadas apenas por uma quantidade de energia (JUNG, 2020, §750-752).</p>



<h2 id="h-o-espiritismo-de-spiritus-espirito-e-uma-teoria-tambem-chamada-de-cientifica-por-seus-seguidores-e-uma-crenca-religiosa-que-postula-a-intervencao-real-e-palpavel-de-um-mundo-espiritual-em-nosso-mundo-e-consequentemente-faz-da-comunicacao-com-os-espiritos-uma-pratica-religiosa" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O espiritismo (de <em>spiritus</em> = espírito) é uma teoria, também chamada de científica por seus seguidores, e uma crença religiosa que postula a intervenção real e palpável de um mundo espiritual em nosso mundo e, consequentemente, faz da comunicação com os espíritos uma prática religiosa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A dupla natureza do espiritismo dá uma vantagem sobre os outros movimentos religiosos, pois baseia sua fé em um complexo de fenômenos que são em última análise físicos e dizem respeito à ciência, mas que não podem ser explicados sem a atuação dos espíritos. Por um lado, é uma seita religiosa e por outra hipótese científica (JUNG, 2020, §667).</p>



<h2 id="h-todos-os-fenomenos-que-o-espiritismo-diz-serem-prova-da-acao-dos-espiritos-estao-ligados-a-presenca-de-certas-pessoas-chamadas-mediuns-jung-2020-725" class="wp-block-heading is-style-plain" style="font-size:17px">&#8220;<em>Todos os fenômenos que o espiritismo diz serem prova da ação dos espíritos estão ligados à presença de certas pessoas, chamadas médiuns &#8221; (JUNG, 2020, §725).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">No texto <em>psicologia e espiritismo</em>, Jung faz o paralelo entre os fenômenos espiritas e as manifestações inconscientes, que assumem o caráter de uma personalidade. “Os fenômenos existem, independentemente de qualquer interpretação, e não há dúvida de que são manifestações autênticas do inconsciente. As comunicações dos ‘espíritos’ são <em>afirmações sobre a psique inconsciente</em>, pressuposto que sejam realmente espontâneas e não um produto enganoso da consciência” (JUNG, 2020, §748). Ele complementa a ideia dizendo que os espíritos ou fatores inconscientes personificados, procuram um desenvolvimento da consciência humana e sua integração com o inconsciente (JUNG, 2020, §746-750).</p>



<p class="wp-block-paragraph">É comum que médiuns se perguntem, durante suas práticas, se aquilo que percebem provém de si mesmos ou de uma alteridade, interpretada como espírito ou como outra consciência. Nesse contexto, o conceito de animismo refere-se à manifestação de conteúdos do inconsciente individual, como memórias, afetos e experiências pessoais, que podem adquirir forma autônoma e apresentar-se como uma entidade ou personalidade distinta.</p>



<h2 id="h-sob-essa-perspectiva-a-mediunidade-pode-ser-compreendida-como-uma-forma-de-sensibilidade-e-escuta-dos-conteudos-inconscientes" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Sob essa perspectiva, a mediunidade pode ser compreendida como uma forma de sensibilidade e escuta dos conteúdos inconscientes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para a Psicologia Analítica, tais experiências podem ser interpretadas como expressões simbólicas de conteúdos psíquicos que adquirem relativa autonomia em relação ao ego e se apresentam como uma presença diferenciada, solicitando reconhecimento, elaboração e integração à consciência. Essa compreensão não pretende negar nem afirmar a existência objetiva dos espíritos, mas oferecer uma leitura psicológica capaz de acolher a experiência vivida sem reduzi-la exclusivamente à patologia ou à crença religiosa.</p>



<h2 id="h-jung-observou-que-determinados-conteudos-inconscientes-podem-adquirir-relativa-autonomia-em-relacao-ao-ego-manifestando-se-como-vozes-imagens-personagens-ou-presencas-interiores" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Jung observou que determinados conteúdos inconscientes podem adquirir relativa autonomia em relação ao ego, manifestando-se como vozes, imagens, personagens ou presenças interiores.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esses fenômenos foram compreendidos pelo autor como expressões dos complexos, cuja energia própria lhes confere aparente independência psíquica. O inconsciente é, desde as mais antigas concepções, a terra dos sonhos, dos antepassados e dos mortos. Jung reforça a fé no valor da consciência e na liberdade de nossa vontade. A consciência deveria ser de suma importância para a humanidade (JUNG, 2020, §754).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de compensação da unilateralidade, estreiteza e limitação da consciência mediante um melhor relacionamento com o inconsciente são o objetivo da psicologia moderna e do espiritismo, criando uma sensação de convergência. Essa projeção de fatores psicológicos é comum ao espiritismo e a teosofia de nosso tempo (JUNG, 2020, §755-756).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora algumas pesquisas discutam a hipótese da sobrevivência da consciência, a Psicologia Analítica concentra-se principalmente no significado psicológico dessas experiências. Assim, a questão da existência objetiva dos espíritos permanece em aberto, enquanto o foco clínico recai sobre os efeitos simbólicos e transformadores produzidos pela experiência, frequentemente vivida como um encontro com o numinoso. Nessa perspectiva, a mediunidade pode ser compreendida como uma possível via de expressão da alma, favorecendo a ampliação da consciência, o diálogo com o inconsciente e a busca de sentido diante dos grandes mistérios da existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Me. Michella Cechinel Reis &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Fundadora e Analista Didata do IJEP </a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação do artigo:</p>



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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ALMEIDA, Alexander Moreira de; LOTUFO NETO, Francisco.</strong> A mediunidade vista por alguns pioneiros da área mental. <em>Revista de Psiquiatria Clínica</em>, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 132-141, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>BUCCELLATO, P.; SANTONI, M.; WIRTH, M.</strong> <em>O caminho de uma profecia de Dom Bosco: os salesianos cooperadores</em>. Brasília: EDB, 2015. Disponível em: <a href="https://edbbrasil.org.br/gratuitos/Caminhos-de-uma-Profecia.pdf" target="_blank" rel="noopener">Livro Dom Bosco</a>. Acesso em: 17 ago. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CARVALHO, V</strong>. O XAMANISMO TRANSCULTURAL DE ANA MENDIETA: AS RUINAS HIEROFÂNICAS DO EARTH BODY WORK. <strong>S/título,(c. 1950/51) Ocultação Tinta da china sobre imagem impressa, 13, 5 x 12 cm Col. Cristina Azevedo Tavares e filhos</strong>, p. 249, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>FRANCO, Divaldo Pereira et al.</strong> <em>Refletindo a alma: a psicologia espírita de Joanna de Ângelis</em>. 4. ed. Salvador: LEAL, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>HESÍODO.</strong> <em>Teogonia: a origem dos deuses</em>. Tradução de Jaa Torrano. 7. ed. São Paulo: Iluminuras, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>INSTITUTO DE PESQUISAS PROJECIOLÓGICAS E BIOENERGÉTICAS (IPPB).</strong> Neurofisiologia da mediunidade. Disponível em: <a href="https://www.ippb.org.br/textos/especiais/editora-vivencia/neurofisiologia-da-mediunidade" target="_blank" rel="noopener">Neurofisiologia da mediunidade</a>. Acesso em: 17 ago. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>JUNG, C. G.</strong> <em>A vida simbólica: escritos diversos</em>. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2020. v. 1. (Obras Completas, 18/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>MOREIRA-ALMEIDA, Alexander.</strong> Pesquisa em mediunidade e relação mente-cérebro: revisão das evidências. <em>Revista de Psiquiatria Clínica</em>, São Paulo, v. 40, n. 6, p. 233-240, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ROWLAND, S.</strong> <em>Jung: uma revisão feminista</em>. Petrópolis: Vozes, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>TELLES, L.</strong> As sacerdotisas de Dionísio na arte e na literatura: um estudo de religião material na Grécia Antiga. <em>REVER: Revista de Estudos da Religião</em>, São Paulo, v. 24, n. 3, p. 51-65, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZANGARI, Wellington; MARALDI, Everton de Oliveira.</strong> Psicologia da mediunidade: do intrapsíquico ao psicossocial. <em>Boletim Academia Paulista de Psicologia</em>, São Paulo, v. 29, n. 2, p. 233-252, 2009.</p>



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		<title>Essência em Exílio: O Ritual das Personas e o Encontro com as Sombras</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/essencia-em-exilio-o-ritual-das-personas-e-o-encontro-com-as-sombras/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 03 Oct 2026 19:26:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Há um círculo de máscaras de gesso em volta do fogo. Todas brancas, todas vazias e voltadas para o centro, congeladas no instante que antecede a escolha. Nenhuma queima ainda, mas cada uma delas representa uma hora do dia vivida no mais profundo exílio de si: a dedicação incansável, o profissionalismo impecável, a postura [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo:</strong> Há um círculo de máscaras de gesso em volta do fogo. Todas brancas, todas vazias e voltadas para o centro, congeladas no instante que antecede a escolha. Nenhuma queima ainda, mas cada uma delas representa uma hora do dia vivida no mais profundo exílio de si: a dedicação incansável, o profissionalismo impecável, a postura que não dá trabalho, a parceria que tudo aguenta e a disponibilidade constante. São rostos moldados para caber nas expectativas do mundo, dispostos em um espaço sagrado e improvisado, onde a imagem fotográfica atua como um espelho e um chamado. Esta fogueira central é o Self convocando à transformação alquímica e lançando um ultimato silencioso: o sacrifício do que se deixará de ser ou a continuidade de uma existência morna e artificial.</p>



<h2 id="h-o-saber-cotidiano-capta-essa-dinamica-em-proverbios-ao-tratar-da-persona-o-ditado-por-fora-sorrisao-por-dentro-erosao-reflete-o-interior-caindo-aos-pedacos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O saber cotidiano capta essa dinâmica em provérbios. Ao tratar da persona, o ditado <em>por fora sorrisão, por dentro erosão</em> reflete o interior caindo aos pedaços.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a crise se instaura, <em>a conta chega</em>: o inconsciente cobra seu preço em forma de depressão, ansiedade e outros transtornos. É o boleto do Self, exigindo a integração do lado negado, que é a sombra. O que se reprime no pensar, no sentir e no agir, uma hora exprime no corpo em forma de adoecimento. Com o tempo, as máscaras caem. <em>Tirar a maquiagem da alma</em> é o processo de integração necessário para reencontrar a essência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A palavra persona carrega em sua raiz etimológica o termo personare (soar através), que é uma referência direta às máscaras do teatro romano equipadas com um bocal para amplificar a voz dos atores até a plateia. Jung utilizou o conceito para descrever o aspecto da psique que desenvolvemos para negociar, proteger e transitar pela vida coletiva. Ele a define como um sistema de adaptação ou um compromisso entre o indivíduo e a sociedade (Cf. JUNG, 2015, §245).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A persona não desempenha o papel de vilã; ela funciona como uma armadura necessária para o pertencimento e a sobrevivência social. Em sua gênese, atua como um escudo duro por fora que mantém o núcleo sensível e maleável preservado por dentro. É a estrutura que garante a permanência quando engolimos o choro para manter o emprego, que viabiliza o acolhimento ao estampar um sorriso treinado sob profunda dor e que assegurou o pertencimento ao manifestar uma concordância polida quando a vontade íntima era gritar um não. Sem esse recurso, a vulnerabilidade seria total. O gesso nasce como um mecanismo legítimo de autopreservação.</p>



<h2 id="h-o-perigo-reside-na-solidificacao-desse-gesso-transformando-a-armadura-protetora-em-um-caixao-psiquico" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">O perigo reside na solidificação desse gesso, transformando a armadura protetora em um caixão psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O adoecimento e o exílio existencial começam quando o teatro engole a realidade, fazendo com que a máscara se funde à pele pelo uso constante. O indivíduo passa a utilizá-la no trabalho, na intimidade e até na mais profunda solitude. O distanciamento crônico da própria essência faz com que, ao se olhar no espelho, já não consiga discernir onde terminam as fronteiras do personagem e onde começa o próprio ser. As máscaras dispostas em círculo ilustram esse impasse: permanecem brancas porque apenas refletem as cores projetadas pela plateia, e vazias porque a persona não possui a capacidade de sentir. O sofrimento autêntico fica exilado no porão do inconsciente, aguardando o momento em que o peso da rigidez se tornará insuportável e forçará o rompimento da estrutura. O gesso vira pele e o exílio vira casa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O exílio acontece aos poucos e geralmente inicia na infância, onde se aprende que é necessário agradar para ganhar colo e aprovação. Mais tarde, a máscara se volta ao currículo; assumem-se personagens para adequar-se ao mundo em troca de amor e reconhecimento, que aos poucos se tornam uma prisão. A fachada da casa fica impecável, porém as personas terceirizam a chave, entregando-a aos outros em todos os campos relacionais. A vida passa a nortear-se pelo trabalhar, pagar contas, comprar, viajar e performar. Com o passar do tempo, a sensação é de uma casa cheia de visitas, mas com o dono ausente. Muito por fora, pouco por dentro!</p>



<h2 id="h-o-mundo-pede-para-ser-bom-e-o-self-bate-a-porta-para-ser-real" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">O mundo pede para ser bom e o Self bate à porta para ser real.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entram em cena os sinais de insatisfação: o corpo fala pelo adoecimento, o sonho se repete, o vício se torna um analgésico e a crise finalmente se instaura de uma forma que a medicação por si só não cura. É a alma clamando por individuação. A máscara trinca, a sombra comparece!</p>



<h2 id="h-a-sombra-por-sua-vez-e-a-parte-oculta-e-inconsciente-da-nossa-personalidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A sombra, por sua vez, é a parte oculta e inconsciente da nossa personalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela guarda todos os traços, desejos, medos, potencialidades e instintos que o ego rejeita ou esconde por pressão social (Cf. JUNG, 2013a, §13-19). Ao contrário da visão de Platão ou de leituras moralistas, a sombra não representa o mal em si, mas o lado não vivido, um depósito psíquico de tudo o que foi escondido para evitar que a máscara rachasse em público.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De um modo geral, as artes traduzem em voz o que é difícil de ser falado e captam esse inconsciente coletivo. Caetano Veloso cantou <em>London, London</em> para falar da solidão e, em <em>Sampa</em>, evidenciou o vazio por trás do concreto: &#8220;Quando eu te encarei frente a frente não vi meu rosto&#8221;. É o cenário do exílio, onde a cidade vira a máscara. Raul Seixas deu voz a esse exílio em primeira pessoa com <em>Ouro de Tolo</em>: <em>“</em>Eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou um cidadão respeitável (&#8230;) Eu devia estar feliz, mas não estou<em>”</em>. É a voz do exilado e seu Self cobrando o aluguel.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As sombras também comparecem em <em>Construção</em>, de Chico Buarque, cuja voz retrata a persona que funciona de forma mecânica até morrer como um homem-máquina: &#8220;Morreu na contramão atrapalhando o tráfego&#8221;. Em contrapartida, Lenine enaltece em <em>Paciência</em> o retorno à alma: &#8220;Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma&#8221;. E os Titãs, com a música <em>Comida</em>, retratam a alma batendo na porta: &#8220;A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte&#8221;.</p>



<h2 id="h-essa-desconexao-com-a-propria-essencia-denominada-por-jung-como-inflacao-da-persona-gera-o-medo-constante-de-ser-visto-sem-o-disfarce" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">Essa desconexão com a própria essência, denominada por Jung como inflação da persona, gera o medo constante de ser visto sem o disfarce.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando esses conteúdos reprimidos no porão da mente finalmente são trazidos à luz da consciência, revelam seu valor arquetípico e humanizam o indivíduo. Acolher essas facetas ocultas evoca o chamado de Nietzsche para que o ser humano se torne quem realmente é, integrando a sua totalidade (Cf. NIETZSCHE, 2005). Integrada, a sombra deixa de ser um monstro. Vindo ao encontro, Marie-Louise Von Franz, no primeiro capítulo do seu livro <em>A sombra e o mal nos contos de fada,</em> ampliou o conceito de sombra e afirmou que no indivíduo podem existir talentos, sentimentos e potências ocultas para serem ressignificadas simbolicamente em combustível para a vida real e sem filtros (Cf. VON FRANZ, 1985).</p>



<h2 id="h-para-superar-esse-exilio-e-manifestar-a-propria-vocacao-e-necessario-compreender-que-a-essencia-nao-segue-o-ritmo-acelerado-do-ego" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">Para superar esse exílio e manifestar a própria vocação, é necessário compreender que a essência não segue o ritmo acelerado do ego.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diferente de Sartre, que postulava que a existência precede a essência e que o ser humano é construído do nada, Aristóteles defendia em <em>Metafísica</em> que a essência já habita em nós como uma função ou vocação intrínseca, assim como a metáfora da semente que carrega em si a potência de se transformar em árvore (Cf. ARISTÓTELES, 2012). Realizar a essência exige a coragem de converter a potência em ato. A angústia existencial que nos desperta na madrugada representa uma semente paralisada pelo medo, aprisionando uma natureza de carvalho nos limites de um bonsai. Uma semente não vira árvore pedindo licença; ela racha a terra ou o concreto no tempo dela. É a sabedoria lenta evocada na canção <em>Tocando em Frente,</em> de Almir Sater. O tempo de Cronos devora, mas o tempo Kairós concretiza a obra. Essência não tem pressa!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung expande a perspectiva aristotélica ao substituir o termo essência pelo conceito de Self (si-mesmo) e demonstrar que, para manifestar nossa verdadeira vocação, é indispensável integrar a própria sombra. Afinal, uma árvore que renega suas raízes ocultas não se sustenta e tomba ao primeiro sinal de tempestade. O Self é a totalidade da psique e o arquétipo central que organiza todos os outros.</p>



<h2 id="h-enquanto-o-ego-e-o-centro-da-consciencia-o-self-abarca-tanto-o-consciente-quanto-o-inconsciente-como-definiu-c-g-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Enquanto o ego é o centro da consciência, o Self abarca tanto o consciente quanto o inconsciente. Como definiu C.G. Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O si-mesmo não é apenas o ponto central, mas também a circunferência que engloba tanto a consciência como o inconsciente. Ele é o centro dessa totalidade, do mesmo modo que o eu é o centro da consciência. (JUNG, 2012b, §44)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-verdadeira-essencia-nao-e-a-fachada-e-a-casa-inteira" class="wp-block-heading" style="font-size:20px">A verdadeira essência não é a fachada; é a casa inteira. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A cura para o exílio interno não é tentar ser uma versão melhorada de si mesmo nas redes sociais, mas sim tornar-se uma versão inteira. Negar a existência da margem escura do rio inevitavelmente causará uma enchente psíquica. <strong>O processo de individuação, portanto, tem os seus ciclos e é para a vida toda</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Raul Seixas</strong> traduziu esse despertar em <em>Metamorfose Ambulante</em>: “<em>Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo</em>”. É tirar a rigidez da máscara e se entregar para a fluidez do rio, que pode mudar de curso, mas continua rio. Na mesma linha, <strong>Belchior </strong>canta a essência regenerativa em <em>Sujeito de Sorte: </em>“<em>Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro, ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”. É deixar o velho morrer para o novo entrar.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O momento crucial da transformação ocorre diante do fogo simbólico da fogueira, através do processo que a alquimia descreve como calcinatio: o fogo psíquico que reduz o falso a cinzas e mantém apenas o real em brasa. Esse amadurecimento é doloroso, assemelhando-se a um parto com contrações intensas. Exige recolhimento e o confronto com a realidade interior. Como escreveu Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Que fazer com todas essas coisas tão opostas entre si? É possível rejeitá-las e livrar-se delas? Ou é preciso reconhecer a presença delas, e é nossa tarefa colocá-las em harmonia, e do seu aspecto múltiplo e cheio de contradições estabelecer uma unidade, que naturalmente não resulta por si mesma, mas por meio do esforço humano. (JUNG, 2012a, §446)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-suportar-a-solidao-o-silencio-e-o-tedio-onde-o-self-finalmente-consegue-falar-e-o-ato-de-acender-a-luz-da-casa-vazia" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">Suportar a solidão, o silêncio e o tédio onde o Self finalmente consegue falar é o ato de acender a luz da casa vazia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psicologia junguiana encontra nas mitologias antigas as metáforas exatas para essa jornada. Enquanto o deus egípcio Osíris encarna a morte e o renascimento, provando que a essência insiste na vida mesmo na mais profunda aridez, o deus romano Janus representa as transições e os começos. Com suas duas faces, Janus mostra que nossa natureza não é estática, mas sim uma porta entreaberta capaz de olhar simultaneamente para o passado e para o futuro, permitindo que habitemos o presente com a sabedoria que ganha forma em Sophia, que é a personificação da luz interna que enxerga além das aparências (Cf. BRANDÃO, 1986).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa conexão se expande na relação hindu entre <em>Atman</em> e <em>Brahman</em>, revelando que a alma individual e a essência do universo caminham juntas, como as duas margens de um rio que se encontram no horizonte em direção ao mar.</p>



<h2 id="h-para-jung-o-self-reside-justamente-nesses-simbolos-de-transicao-na-ponte-e-no-cruzamento-provando-que-a-essencia-humana-habita-o-espaco-entre-os-opostos" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">Para Jung, o Self reside justamente nesses símbolos de transição (na ponte e no cruzamento), provando que a essência humana habita o espaço entre os opostos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A jornada de individuação rumo ao si-mesmo exige, obrigatoriamente, uma descida voluntária ao porão e o confronto com o que foi rejeitado, assim como no mito de Eros e Psique, em que a alma precisa descer ao Hades para resgatar a beleza oculta de Perséfone. Essa busca profunda é perfeitamente traduzida nos versos de <em>Caçador de Mim</em>, imortalizados por Milton Nascimento: &#8220;Por tanto amor, por tanta emoção, a vida me fez assim, doce ou atroz, manso ou feroz, eu caçador de mim&#8221;.</p>



<h2 id="h-encarar-a-propria-dualidade-e-se-tornar-o-cacador-de-si-e-a-unica-forma-de-deixar-o-gesso-das-personas-para-tras-e-assumir-nossa-totalidade-indomavel" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Encarar a própria dualidade e se tornar o caçador de si é a única forma de deixar o gesso das personas para trás e assumir nossa totalidade indomável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-enquanto-isso-os-contos-de-fadas-representam-o-sonho-coletivo-da-humanidade-funcionando-como-portais-que-nos-conectam-a-essa-natureza-por-meio-de-imagens-arquetipicas-cf-von-franz-1990" style="font-size:18px">Enquanto isso, os contos de fadas representam o sonho coletivo da humanidade, funcionando como portais que nos conectam a essa natureza por meio de imagens arquetípicas (Cf. VON FRANZ, 1990).</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-enquanto-isso-os-contos-de-fadas-representam-o-sonho-coletivo-da-humanidade-funcionando-como-portais-que-nos-conectam-a-essa-natureza-por-meio-de-imagens-arquetipicas-cf-von-franz-1990" style="font-size:18px">Na história do <em>Patinho Feio</em> por exemplo, a dor central não reside no bullying, mas no fato de o cisne estar aprisionado em potência dentro do galinheiro errado; uma metáfora precisa para a crise de essência que surge quando habitamos um ambiente que não nos reconhece (Cf. ANDERSEN, 2004).</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-enquanto-isso-os-contos-de-fadas-representam-o-sonho-coletivo-da-humanidade-funcionando-como-portais-que-nos-conectam-a-essa-natureza-por-meio-de-imagens-arquetipicas-cf-von-franz-1990" style="font-size:18px">Já na versão original de <em>Cinderela</em> o Self e a ancestralidade ganham vida na árvore que brota sobre o túmulo de sua mãe e que lhe concede as vestes reais. Enquanto as irmãs mutilam o próprio pé para caber no sapato da expectativa alheia, Cinderela nos ensina que a essência não surge por uma fada madrinha externa, mas brota da raiz profunda do luto integrado e das perdas que fomos capazes de enterrar (Cf. GRIMM, 2013).</p>



<h2 id="h-o-legado-da-psiquiatra-nise-da-silveira-revolucionou-o-tratamento-mental-ao-substituir-a-violencia-do-eletrochoque-pela-arte-e-pelo-afeto-e-defendia-que-o-individuo-so-atinge-a-inteireza-quando-consegue-integrar-o-mundo-exterior-as-forcas-do-inconsciente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O legado da psiquiatra <strong>Nise da Silveira </strong>revolucionou o tratamento mental ao substituir a violência do eletrochoque pela arte e pelo afeto e defendia que o indivíduo só atinge a inteireza quando consegue integrar o mundo exterior às forças do inconsciente. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diante desse abismo, ela identificou na expressão artística uma via de cura e salvação e apontava a criatividade como o catalisador por excelência para a união dos opostos, transformando o sofrimento psíquico em imagens simbólicas de grande valor. A modelagem e a pintura funcionavam como a fresta onde a luz e a escuridão da alma se casavam de forma segura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em vez de calar o porão da mente com punições, Nise provou que <strong>as rachaduras do ego são o próprio lugar onde a arte e a cura nascem</strong>. Sua abordagem pioneira demonstrou que as imagens do inconsciente guardam as chaves para libertar o Self exilado, permitindo ao sujeito retomar a posse da própria casa (Cf. SILVEIRA, 1997, p. 63-67).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Rubem Alves</strong> descreveu poeticamente a individuação como um processo de desaprender as maquiagens sociais, retornando à própria essência para recuperar sentidos e emoções. O autor enfatizou que a vida e a educação exigem a presença do jardineiro – a alma acordada – transformando a arte de viver na capacidade de enxergar o mundo através da beleza interna. Ele definia o exílio existencial como uma vida sem alma, uma existência onde o sujeito se perde de sua própria verdade para atender ao mundo. Para ele, o verdadeiro amadurecimento exige um desapego corajoso: a urgência de desaprender para aprender de novo, raspando as tintas com que nos pintaram para resgatar os sentidos e desencaixotar as emoções reprimidas (Cf. ALVES, 2011, p. 53).</p>



<h2 id="h-esse-movimento-poetico-funciona-como-o-ato-de-arrancar-a-maquiagem-social-e-as-mascaras-estereis-para-encarar-o-rosto-cru-e-real" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">Esse movimento poético funciona como o ato de arrancar a maquiagem social e as máscaras estéreis para encarar o rosto cru e real.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O educador nos lembrava de que nenhum jardim floresce sem a presença ativa do jardineiro; da mesma forma, uma carreira, um casamento ou o sucesso externo tornam-se ruínas secas se o Self estiver ausente. Não nos falta técnica, falta-nos uma alma acordada. Alves também afirmava que nós não vemos o que vemos, mas sim o que somos, e que só enxerga as belezas do mundo quem carrega a beleza dentro de si (Cf. ALVES, 1999, p. 24). </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sob o peso da persona, nossa visão é distorcida e o exílio nos cega para a realidade. Contudo, quando o dono da casa retorna e as luzes do porão se acendem, o mundo ao redor recupera o seu brilho e o seu sentido. A rachadura da máscara deixa de ser o fim para se tornar o altar sagrado onde a luz e a escuridão se integraram, fazendo renascer a arte, a poesia e a vida em ato.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É notório que os diferentes campos relacionais são afetados quando a essência não é vivida, especialmente os relacionamentos amorosos. Esses deveriam ser espaços de encontros verdadeiros entre essências e não entre personas. Na prática, projeta-se no cônjuge o mito da metade da laranja, afirmando que o outro é a parte que falta para a realização dos sonhos. Uma relação com essência consiste na percepção de que cada indivíduo é inteiro, como uma semente que se transforma em árvore.</p>



<h2 id="h-assim-a-relacao-ideal-nao-deve-servir-para-suprir-carencias-mas-para-que-duas-arvores-inteiras-compartilhem-o-mesmo-solo" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">Assim, a relação ideal não deve servir para suprir carências, mas para que duas árvores inteiras compartilhem o mesmo solo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No início, a paixão gera projeções do animus ou da anima, criando uma ilusão. O amor maduro surge apenas quando esse véu cai e as sombras de cada um são reveladas e aceitas. Casais de essência compartilham seus porões internos, criando um temenos, um espaço sagrado e seguro de intimidade real. Assim como o indivíduo atravessa diferentes fases de desenvolvimento, o amor também passa por estágios que envolvem a projeção, a luta de poder, a desilusão e o encontro real. A maioria das relações falha no terceiro estágio por não suportar o fim da ilusão. Contudo, vencer essa fase permite testemunhar o processo de individuação do parceiro. Amar pela essência exige acolher a luz e a sombra, permitindo que o outro se torne quem realmente é.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O retorno para a casa interior envolve o fogo e a negociação com a sombra, sob a proteção de uma lei implacável da psique: o que não se integra, domina. O erro clássico no trabalho interior é queimar a máscara da persona sem acolher o conteúdo que ela ocultava. Se a persona da benevolência é destruída, mas a raiva é rejeitada, apenas se transmuta o gesso social em amargura; se a face da santidade é queimada, mas o desejo é negado, o resultado é um puritanismo rancoroso; se a máscara da fortaleza é eliminada, mas a própria fraqueza não é honrada, assume-se o papel de vítima profissional.</p>



<h2 id="h-a-sombra-nao-surge-para-aniquilar-o-individuo-mas-para-completa-lo" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">A sombra não surge para aniquilar o indivíduo, mas para completá-lo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela representa os cinquenta por cento da totalidade que foram exilados para que a fachada pudesse brilhar e receber o afeto do mundo. Agora, esse conteúdo cobra o retorno para casa. Esse encontro com o inconsciente não se dá por meio de um combate heroico, mas sim como uma negociação de sequestro com a própria mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É um processo seco, desprovido de velas ou mantras, que exige olhar diretamente no olho do que foi reprimido e perguntar: O que você estava tentando proteger quando o encarceramento no porão aconteceu?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A resposta revela a função arquetípica de cada sintoma. A raiva legítima confessa que protegia a dignidade e estabelecia limites; o desejo silenciado resgatava a alegria e a vitalidade; a inveja apontava para a potência adormecida; e a fraqueza guardava a preciosa humanidade. Aquilo que o ego julgava ser um defeito consistia, na verdade, em guardiões que batiam na porta porque a casa estava sendo invadida pelas expectativas alheias.</p>



<h2 id="h-essa-jornada-arquetipica-entre-a-persona-e-a-sombra-nao-se-restringe-as-paginas-teoricas" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Essa jornada arquetípica entre a persona e a sombra não se restringe às páginas teóricas. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No <strong>fazer artístico</strong>, moldando o gesso rígido e sem vida das personas — aquelas faces brancas e idênticas criadas para a sobrevivência em papéis profissionais, paternais, maternais ou filiais perfeitas — que o conceito de temenos se materializa. Dispostas em círculo ao redor da lareira interna de Héstia (Cf. Bolen,1990, p. 158-189), que simboliza o Self e o fogo do opus alquímico, essas máscaras inicialmente observam a chama a partir de uma distância segura.</p>



<h2 id="h-no-entanto-a-ressignificacao-proposta-por-jung-e-essencialmente-alquimica-e-exige-o-sacrificio-a-mortificacao-da-persona-para-que-a-essencia-possa-finalmente-respirar-fora-do-gesso-que-aprisiona-e-faz-a-vida-acontecer-no-piloto-automatico" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">No entanto, a ressignificação proposta por Jung é essencialmente alquímica e exige o sacrifício: a mortificação da persona para que a essência possa finalmente respirar fora do gesso que aprisiona e faz a vida acontecer no piloto automático.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ritual de transformação se inicia quando a escolha voluntária é feita para queimar o que não serve mais, nomeando dinâmicas do exílio interno como a postura que sorria demais, a conduta que aguentava tudo ou a tendência de pedir desculpas por existir. Ao atear o fogo, a história não é destruída, mas a sombra exilada no porão — a raiva, o desejo e a fraqueza — é libertada, integrando essas polaridades para integrar o sagrado com o instintivo e a força com o acolhimento.</p>



<h2 id="h-o-retorno-para-a-casa-de-si-deixa-cicatrizes-na-pele-onde-o-gesso-colou-profundamente-alem-de-provocar-o-luto-pelas-pessoas-que-preferiam-o-personagem-a-verdade-essencial" class="wp-block-heading" style="font-size:19px">O retorno para a casa de si deixa cicatrizes na pele onde o gesso colou profundamente, além de provocar o luto pelas pessoas que preferiam o personagem à verdade essencial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ritual das personas e o encontro com as sombras possibilita a integração de conteúdos que resultam, finalmente, no fim do exílio e no retorno definitivo à essência. Para tanto, o inconsciente não utiliza os canais de comunicação cotidianos do ego. Como apontou Jung: “O si-mesmo aparece empiricamente nos sonhos, mitos e contos de fadas na figura de &#8216;personalidades superiores’, como reis, heróis, profetas, salvadores, etc”. (JUNG, 2013b, § 902).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No fim, a individuação ensina que a essência não é possuir um rosto estático ou virar pura luz, mas ter a estrutura firme para suportar todas as facetas da própria identidade sem morrer em nenhuma delas; sabedoria amadurecida que nos lembra de que o fogo do Self permanece aceso e que, se a máscara colar de novo, o fósforo já está à mão.&nbsp; E sabiamente Jung afirmou:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por individualidade entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos <em>tornamos o nosso próprio si-mesmo.</em> (JUNG, 2015, §266)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A essência também se manifesta por meio de símbolos arquetípicos: uma casa desabando, uma criança perdida, mandalas, velhos sábios ou casamentos alquímicos. Estes elementos funcionam como a fresta de uma porta entreaberta. As sincronicidades cotidianas são os sinais descritos na canção <em>Anunciação</em>, de Alceu Valença: &#8220;Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais&#8221;. Captar esses chamados exige tempo e conexão profunda com a alma. No fim, a essência é o que sobra quando as máscaras caem. É o resgate de uma personalidade maior que acolhe a luz e a escuridão, unindo os opostos para transitar da potência do ser ao ato de viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/clacistrieder/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/clacistrieder/">Claci Maria Strieder – Membro Analista IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação do artigo:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Essência em Exílio: O Ritual das Personas e o Encontro com as Sombras&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/d9c8tsyCeOI?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-fontes-de-consulta" class="wp-block-heading" style="font-size:19px"><strong>Fontes de Consulta:</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Fotografia</em> – Personas e Sombras. Fonte: a autora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ALVES, R. <em>Entre a ciência e a sapiência</em>: o dilema da educação. São Paulo: Edições Loyola, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________<em>Palavras para desatar nós.</em> Campinas: Papirus, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ANDERSEN, H. C. <em>O patinho feio</em>. In: TATAR, Maria (ed.). <strong>Contos de fadas</strong><strong>:</strong> edição comentada e ilustrada. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ARISTÓTELES. <em>Metafísica</em>. Livro VII. Trad. Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BOLEN, J. S. <em>As deusas e a mulher:</em> nova psicologia das mulheres. Tradução de Maria Lydia Remédio. São Paulo: Paulus, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, J. <em>Mitologia grega</em>. Vol. 1. Petrópolis: Vozes, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRIMM, J.; GRIMM, W. <em>Contos da infância e do lar</em>. Lisboa: Temas e Debates, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Aion: estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</em>. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___________ <em>Mysterium coniunctionis.</em> Petrópolis: Vozes, 2012a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___________ <em>O eu e o inconsciente</em>. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___________ <em>Psicologia e alquimia</em>. Petrópolis: Vozes, 2012b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___________ <em>Tipos psicológicos.</em> Petrópolis, RJ: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NIETZSCHE, F. <em>Além do bem e do mal</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, N. da. <em>Jung: vida e obra</em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, M. L. <em>A sombra e o mal nos contos de fada</em>. São Paulo: Paulus, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Precisamos conversar com as árvores: imaginação, afeto e cura</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/precisamos-conversar-com-as-arvores-imaginacao-afeto-e-cura/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniella Schmidt]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Sep 2026 14:14:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[imaginação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio propõe uma reflexão sobre a atitude simbólica na psicologia analítica, compreendendo a imagem como linguagem própria da psique e, o símbolo, como principal mediador da relação entre consciência e inconsciente. A partir das contribuições de Carl Gustav Jung, Nise da Silveira e outros autores da tradição junguiana, discute-se o potencial transformador da imaginação, dos símbolos e dos recursos expressivos no processo terapêutico.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio propõe uma reflexão sobre a atitude simbólica na psicologia analítica, compreendendo a imagem como linguagem própria da psique e, o símbolo, como principal mediador da relação entre consciência e inconsciente. A partir das contribuições de <strong>Carl Gustav Jung</strong>, <strong>Nise da Silveira</strong> e outros autores da tradição junguiana, discute-se o potencial transformador da imaginação, dos símbolos e dos recursos expressivos no processo terapêutico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como fio condutor da reflexão, utiliza-se o filme <strong>Sete Minutos Depois da Meia-Noite</strong>, no qual a relação entre Conor O&#8217;Malley e o Teixo-Monstro oferece uma rica metáfora para compreender o diálogo com as imagens interiores, a lida com o sofrimento e a função transcendente da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O texto percorre o encontro entre o menino e a árvore como uma narrativa da transformação psíquica, mostrando como a imaginação, os sonhos, a arte e as histórias podem se tornar caminhos de elaboração, integração e cuidado com a alma. Defende-se que o desenvolvimento de uma atitude simbólica constitui uma via fundamental para a ampliação da consciência, a autorregulação psíquica e a construção de novos sentidos diante das experiências da vida.</p>



<h2 id="h-nao-encontrei-outra-forma-de-comecar-este-artigo-que-nao-fosse-por-esta-citacao-de-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Não encontrei outra forma de começar este artigo que não fosse por esta citação de Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“A psique cria a realidade todos os dias. A única expressão que me ocorre para designar esta atividade é fantasia. A fantasia é tanto sentimento quanto pensamento, é tanto intuição quanto sensação. Não há função psíquica que não esteja inseparavelmente ligada pela fantasia com as outras funções psíquicas.(&#8230;) Por isso, a fantasia me parece a expressão mais clara da atividade específica da psique. É sobretudo a atividade criativa donde provêm as respostas a todas as questões passíveis de resposta; é a mãe de todas as possibilidades onde o mundo interior e exterior formam uma unidade viva, como todos os opostos psicológicos. A fantasia foi e sempre será aquela que lança a ponte entre as exigências inconciliáveis do sujeito e objeto, da introversão e extroversão.” (Jung, 2013a, p.73)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A psique produz imagens, atua através delas, e a lida com o universo imagético da psique demanda a entrega da lógica do controle, previsibilidade e de qualquer possibilidade de conhecimento de antemão ou metodologização. Simplesmente não é possível nenhum esquema predefinido ou domínio racional sobre o que nos é apresentado se quisermos um contato honesto, profundo, criativo e germinativo com as forças da psique. Precisamos iniciar o contato com as imagens através da máxima socrática “só sei que nada sei”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A energia psíquica se move através das ações tomadas conscientemente e, também, pelas fantasias e produtos inconscientes. A postura do ego diante das imagens dará os contornos de como o consciente se relaciona com a totalidade psíquica, podendo se enrijecer na explicação excessivamente racional e na literalização dos fenômenos, ou se abrir para a troca e o diálogo com as antinomias e a aceitação que algo nos escapará e nunca será assimilado conscientemente, ou seja, a adoção do olhar simbólico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O pensamento simbólico abre mão da racionalidade que explica e se volta ao irracional criativo, fértil, que movimenta a energia psíquica e fomenta a relação e o encontro com novos sentidos e com a diversidade, auxiliando nas contínuas necessidades adaptativas frente aos mundos externo e interno. Sobre isso, José Luiz Balestrini Jr, membro didata do Ijep, destaca que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“(&#8230;) caso o indivíduo não dê atenção aos conteúdos do inconsciente através de experiências simbólicas criativas, este irá encontrar maneiras de se manifestar que, certamente, serão disfuncionais e carregadas de sofrimento. É nesse sentido que a imagem simbólica desponta como fundamental, já que, para Jung, a linguagem do inconsciente se constrói por meio dessas imagens”. (Balestrini Junior, 2023, pag. 32).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-fazer-criativo-a-autonomia-e-a-forca-transformadora-da-imagem" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>O FAZER CRIATIVO, A AUTONOMIA E A FORÇA TRANSFORMADORA DA IMAGEM</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhar com as imagens internas está longe de ser uma atividade passiva, é uma <em>opus</em> que convoca o indivíduo para uma atitude tanto espontânea quanto ativa diante de seu processo terapêutico. As imagens e seu potencial simbólico demandam do ego, ao mesmo tempo, asas e raízes. Através de voos alçados pela imaginação e pelo fazer livre criativo é possível dar expressão concreta e forma visível aos conteúdos afetivos conscientes e inconscientes, proporcionando ao sujeito o confronto, a reflexão, o discernimento e as ações necessárias para ampliar e lidar com o que lhe ocorre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A imaginação tem o poder de nos transformar, e a análise junguiana e as expressões criativas oferecem um vaso possível para acolher e explorar a força desse universo imaginal, como já nos contava a Dra. Nise da Silveira, psiquiatra brasileira e precursora da utilização da arteterapia para o tratamento de pessoas com esquizofrenia e em grave sofrimento psíquico:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“O processo psíquico desenvolve seu dinamismo por intermédio da criação de imagens simbólicas. “O símbolo é o mecanismo psicológico que transforma energia”. Assim, a objetivação de imagens simbólicas no desenho ou na pintura poderá promover transferências de energia de um nível para outro nível psíquico. A imagem não é algo estático. Ela é viva, atuante e possui mesmo eficácia curativa.” &nbsp;(Silveira, 2015, pag. 135)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo o que nos afeta é real, quer exista ou não na dimensão concreta e objetiva da experiência humana, e quando uma imagem nos alcança, vinda de uma vivência consciente ou pelas vias do inconsciente, somos atravessados por emoções, ideias, sensações, memórias, intuições. Os complexos afetivos, sombra, persona, arquétipos, instintos e tudo o mais que nos habita chegam como imagens carregadas de energia psíquica, sejam elas visuais, sensoriais, olfativas, auditivas, narrativas etc. O trabalho simbólico cria expressão e representação para os conteúdos afetivos, que ao serem ampliados e aprofundados, estimulam o intercâmbio da energia psíquica entre os diferentes aspectos autônomos para produzir a autorregulação do sistema.</p>



<h2 id="h-no-inicio-de-suas-pesquisas-atraves-do-teste-de-associacao-de-palavras-carl-gustav-jung-constatou-a-autonomia-do-inconsciente-e-a-existencia-de-aspectos-ocultos-que-constituem-a-totalidade-psiquica-e-interferem-na-vida-concreta-do-individuo-independente-da-vontade-do-eu" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No início de suas pesquisas, através do teste de associação de palavras, Carl Gustav Jung constatou a autonomia do inconsciente e a existência de aspectos ocultos que constituem a totalidade psíquica e interferem na vida concreta do indivíduo, independente da vontade do eu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo do desenvolvimento de sua teoria, que também foi construída a partir da relação criativa com suas imagens interiores, o psiquiatra suíço foi observando uma série de fatores que expressam essa autonomia, como, por exemplo, a precedência da dimensão coletiva instintiva e arquetípica, de onde a consciência nasce e se desenvolve, a dinâmica dos complexos afetivos e dos conteúdos sombrios, o mecanismo de projeção, a função transcendente e a manifestação dos sonhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os processos da vida são, apenas em parte, compreendidos conscientemente. Sempre existirá o mistério e o incognoscível, aquele lado que nenhuma teoria que seja baseada na conhecida lógica e racionalidade conseguirá descrever, como aponta Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“A ciência até hoje não foi capaz de apreender o enigma da vida, nem através da matéria orgânica, nem através das misteriosas séries de imagens que brotam da psique. Consequentemente ainda estamos à procura daquele princípio vital cuja existência devemos postular para além dos limites da experiência. Quem conhece os abismos da fisiologia fica aturdido, diante das suas manifestações, da mesma maneira como aquele que tem noções sobre a psique humana, terá uma sensação de desespero, só de pensar que este estranho ser especular jamais atingirá qualquer “conhecimento” por mais aproximado que seja”. (Jung, 2013b, p. 620)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-totalidade-psiquica-e-transcendente-e-o-simbolo-e-a-melhor-expressao-possivel-de-algo-que-nao-se-pode-conhecer-completamente-unindo-aspectos-conscientes-e-inconscientes" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A totalidade psíquica é transcendente e o símbolo é a melhor expressão possível de algo que não se pode conhecer completamente, unindo aspectos conscientes e inconscientes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O símbolo designa “<em>algo que, por trás do sentido objetivo e visível, oculta um sentido invisível e mais profundo</em>” (Jacobi, 1990, pag. 75), comunica tanto uma presença quanto um vir a ser, aquele eterno mistério que faz com que a vida siga buscando. Segundo Goethe, &#8220;<em>o simbolismo transforma o fenômeno em ideia, a ideia em imagem, de tal modo que a ideia permanece sempre infinitamente ativa e inatingível na imagem e, mesmo expressa em todas as línguas, permaneceria indizível</em>” (apud Jacobi, 1990, pag. 75).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A fim de que a totalidade psíquica se expresse e encontre harmonia é, então, vital simbolizar e, para tal, é preciso uma escolha consciente de estabelecer relação com o mundo imaginal, a linguagem da alma. O diálogo com o que fala a partir do inconsciente requer que o ego, centro gestor da consciência, adote uma atitude simbólica diante do que lhe chega. A escuta e interação com as imagens e afetos precisa estar ancorada em um espaço que vai além da racionalidade e que abraça o olhar metafórico, o mistério. Para explorar o potencial imagético é necessário a rendição da razão em favor da intuição e do irracional criativo, diverso e fértil de sentidos e significados.</p>



<h2 id="h-o-teixo-monstro-e-a-emergencia-do-simbolo" class="wp-block-heading"><strong>O Teixo-Monstro e a emergência do símbolo</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para nos ajudar a ver melhor, recorro, nesse momento, à colaboração de um personagem especial que atuará como uma espécie de coautor nesse texto, o Teixo-Monstro, a árvore fantástica que aparece no imaginário de Conor O’Malley para conduzi-lo em sua jornada ao longo do filme “7 minutos depois da meia-noite”, lançado em 2016 e baseado em um livro homônimo. O companheiro que habita a totalidade psíquica junto com o jovem Conor, logo de início, lhe aponta o portal de entrada para o caminho que trilharão juntos:</p>



<h2 id="h-conor-o-malley-nbsp-como-esta-historia-comeca" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>Conor O’Malley:&nbsp; Como esta história começa?</em></h2>



<h2 id="h-teixo-monstro-nbsp-ela-comeca-como-muitas-outras-historias-com-um-garoto-muito-velho-para-ser-uma-crianca-e-muito-jovem-para-ser-um-homem-e-um-pesadelo" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><em>Teixo-Monstro:&nbsp; Ela começa como muitas outras histórias. Com um garoto muito velho para ser uma criança e muito jovem para ser um homem. E um pesadelo.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O conto surge como uma porta de acesso, através da qual o Teixo-Monstro conduz ao reconhecimento e ampliações acerca da tensão dos opostos constelados, frutos do estiramento entre as polaridades encarnadas na situação consciente do menino: ele é só um garoto, precisando lidar com situações, emoções e afetos difíceis até para gente grande. A árvore convida a ver o que assusta e a reexaminar, por outros ângulos, as imagens narrativas experienciadas até ali. O filme “<strong>7 minutos depois da meia-noite</strong>” narra o drama vivido pelo garoto, que precisa lidar com a doença terminal de sua mãe, o <em>bullying</em> na escola, ausência paterna, mudanças estruturais inevitáveis que evidenciam a difícil relação com a avó materna e toda uma dinâmica que se impõe sobre uma psique infantil, obrigada a dar conta de um mundo de caos, medos e incertezas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filme vai revelando um mosaico de angústias que expressa os conflitos, os sismos e a desordem que se precipitam sobre o caminho do menino, como se uma grande sombra se impusesse como escuridão e opressão sobre o destino que Conor tenta negar. Entre rabiscos, silêncios e desenhos secretos, a totalidade do pré-adolescente vai buscando suas válvulas e refúgios, até que emerge à consciência o Teixo-Monstro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse personagem imaginário é um daqueles seres que habitam as profundezas da psique, uma imagem arquetípica que, como tal, possui autonomia, com sua coerência e vontade própria. Conor começa a aprender sobre a inescapabilidade de certas situações da vida, quando fatores do mundo externo e interno, simplesmente, se forçam a acontecer, escapando do controle e do querer do ego. Mas o drama que surge através da tensão de opostos também é o que torna possível o intercâmbio e o movimento da energia psíquica, capaz de levar a consciência a uma nova experiência.</p>



<h2 id="h-jung-afirma-que-o-inconsciente-se-comporta-de-maneira-compensatoria-ou-complementar-em-relacao-a-consciencia-jung-2013b-p-132-visando-o-equilibrio-dinamico-e-a-autorregulacao-natural-do-aparelho-psiquico" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung afirma que “o inconsciente se comporta de maneira compensatória ou complementar em relação à consciência” (Jung, 2013b, p. 132), visando o equilíbrio dinâmico e a autorregulação natural do aparelho psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A presença do Teixo-Monstro nos lembra e alenta, assim como Jung, que as forças que atuam na natureza se compensam e se complementam todo o tempo, na tentativa de promover a harmonia possível. Do lado de fora, uma fenda inevitável estava à espreita de Conor. Do lado de dentro, uma força psíquica, tão instintiva quanto espiritual, capaz de ensinar sobre a vida e suas medicinas, começava a despertar o menino através de seu sonho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Teixo-Monstro se torna, então, a representação do confronto com a sombra, ao mesmo tempo que parece ser um velho sábio, o condutor curandeiro. Exemplo da vivacidade de uma imagem capaz de comunicar os símbolos necessários para a transformação energética dos conflitos vividos pelo pequeno herói, auxiliando-o a encontrar, ao longo do trajeto, novos sentidos para o que lhe ocorre e uma nova adaptação. O Teixo avisa ao garoto “eu vim para te convocar”, anunciando a seriedade da ação consciente necessária para a condução da relação com o imaginário e seus mistérios: é uma convocação.</p>



<h2 id="h-a-imaginacao-como-opus" class="wp-block-heading"><strong>A imaginação como <em>opus</em></strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto Jung nos ensina que é a colaboração entre fatores conscientes e inconscientes que torna possível o surgimento de uma nova atitude diante de si e da vida, o Teixo-Monstro emerge e atesta: “<em>eu vim para te curar, Conor. Para que você possa enfrentar a pior coisa de todas e sobreviver</em>”. Conor consente a escuta e se abre para o diálogo com a Árvore, estabelecendo a atitude simbólica necessária para que aquela colaboração aconteça. Em termos analíticos, o garoto cria condições para que a função transcendente da psique se ponha em ação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito da elaboração simbólica de Conor é representada, no filme, através do trabalho com os sonhos e do que poderia ser compreendido como imaginação ativa, que são vias possíveis, na psicologia analítica, para dialogar e circumambular conteúdos inconscientes. Mas, no desenrolar do longa-metragem, é possível reconhecer uma série de outros recursos utilizados na clínica junguiana que auxiliam na amplificação e relacionamento com a imagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aparecem no filme ferramentas arteterapêuticas e técnicas expressivas como o desenho, pintura, fotografia, os próprios contos e narrativas. Permitindo que emoção, intuição e sensações espontaneamente se manifestem, desviando do controle e limitação impostos pelo excesso de lógica e racionalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, é possível exprimir afetos e criar consciência a partir dos símbolos que se apresentam, e, ao mesmo tempo refletir com a razão, buscando nomear e dar contornos às dinâmicas psíquicas em curso. O protagonista cria um espaço para representar suas imagens internas, acessar memórias e falar sobre elas, estar ativamente diante de insights e das forças criativas e vivas de sua imaginação.</p>



<h2 id="h-a-opus-ou-seja-o-trabalho-de-criacao-de-consciencia-requer-o-dialogo-da-expressao-das-emocoes-e-do-mundo-imaginal-com-a-compreensao-intelectual-como-destaca-nise-da-silveira" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A <em>opus</em>, ou seja, o trabalho de criação de consciência, requer o diálogo da expressão das emoções e do mundo imaginal com a compreensão intelectual. Como destaca Nise da Silveira:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“Certamente será muito válido interpretar e compreender as produções da imaginação – sonhos, fantasias – nos distúrbios emocionais. Mas o caminho da interpretação intelectual não é o único caminho. Há também, segundo Jung, o método que sugere ao indivíduo a tentativa de dar forma visível às imagens internas que surgem em meio dos tumultos das emoções. Exprimir as emoções pela pintura será excelente método para confrontá-las. Não importa que essas pinturas sejam de todo desprovidas de qualidades estéticas. O que importa é proporcionar à imaginação oportunidade para desenvolver livre jogo e que o indivíduo participe ativamente dos acontecimentos imaginados. Mas, frisa Jung, a atividade plástica em si é insuficiente. O processo evolutivo da personalidade, num trabalho analítico, exige compreensão intelectual e emocional das representações perturbadoras, a fim de que possam ser integradas à consciência”. (Silveira, 2015, pag. 144)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-sao-varios-os-recursos-expressivos-disponiveis-e-quando-o-ego-se-rende-a-postura-simbolica-e-metaforica-torna-se-possivel-vivenciar-o-potencial-gerador-de-significados-das-imagens" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">São vários os recursos expressivos disponíveis e, quando o ego se rende à postura simbólica e metafórica, torna-se possível vivenciar o potencial gerador de significados das imagens.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Teixo reaparece para nos lembrar que estamos diante da figura de um infante protagonista e que a imaginação infantil costuma ser mais fértil, menos condicionada por fatores culturais e mais estimulada, autorizada. Crianças imaginam coisas, certo? Ter amigos imaginários e conversar com coisas invisíveis é possível para a criança. Estão próximas dessa linguagem e são ricamente atravessadas por ela. Mas Jung nos diz que “não é o intelecto que realiza a criação de algo novo, mas o instinto lúdico agindo por necessidade interna. O espírito criador brinca com o objeto que ele ama” (Jung, 2013a, p. 185). Resgatar a ludicidade, a pureza e liberdade diante do imaginar é um caminho possível para aproximar o adulto da tão necessária atitude simbólica. “E por que não”? – nos pergunta o Teixo. Por que não podemos mais conversar com as árvores?</p>



<h2 id="h-a-coragem-de-simbolizar" class="wp-block-heading"><strong>A coragem de simbolizar</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando olhamos para a psique infantil com sua facilidade de acesso ao imaginário, sua flexibilidade para novos aprendizados e abertura ao desconhecido, podemos imaginar que o mundo interno, talvez, não seja tão raso e estreito como muitos racionalizam que é. O território da consciência tem seus limites, mas a dimensão inconsciente não. Ela é origem da consciência e suas imagens pulsam inquietas para criar mais vida. Talvez precisemos desconstruir crenças e condutas tacanhas a respeito da natureza da psique a qual pertencemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ensinamento que a nossa grande amiga Árvore nos fala é que “<em>há momentos em que a destruição é necessária, para abrir espaço para o que precisa ser construído</em>”. Ela ensina a Conor sobre ciclos e o lugar construtivo da destruição. Podemos pegar uma carona e refletir quais ideias, crenças ou fantasias de limitação temos alimentado e que nos afastam do bendito e redentor olhar simbólico, que tanto pode compensar e complementar o racionalismo exacerbado dos nossos tempos.</p>



<h2 id="h-os-processos-nao-sao-apenas-do-ego-sao-da-psique-enquanto-totalidade" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Os processos não são apenas do ego, são da psique enquanto totalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O eu é o gestor do campo daquilo que é consciente e enxerga apenas o que já conhece. Para que se amplie consciência é preciso o encontro com o diferente, com a diversidade, e o confronto com a sombra e as próprias convicções. O exercício da imaginação dá chances ao ego de resgatar e reintegrar uma linguagem capaz de ampliar a relação consciente &#8211; mundo interno e criar espaço para o inconsciente nutrir com originalidade as nossas vidas. Quando o Teixo-Arquetípico inicia seu contato com Conor o avisa: “<em>eu vim buscar a verdade, a sua verdade</em>”. Ele não falava das certezas egoicas, mas daquela verdade que se escondia nas dimensões profundas e negadas do menino, e de onde o assombrou até ser vista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já no final do filme, diante de sua mais temível perda, o garoto reencontra o amigo de sonhos e imaginação nos cadernos de desenho de sua mãe, onde o querido Teixo se apresenta, então, como elo psíquico, que guiou a mãe e conduziu o filho. Conor apreende algo sobre a imortalidade do vínculo, do que sempre continuará a ser compartilhado, trazendo novos significados para seu luto através da experiência verdadeiramente simbólica, ou seja, unificadora de opostos. Nada que pudesse ser aprendido através dos livros, apenas vivido com a alma. A relação Conor-Teixo também nos mostra que precisamos da interlocução que ajuda a questionar, elaborar o pensamento, a emoção e encontrar outras perspectivas.</p>



<h2 id="h-a-imagem-e-o-interlocutor-do-mundo-psiquico-e-ela-nao-esta-apenas-no-desenho-nos-contos-nas-fotografias-esta-na-angustia" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">A imagem é o interlocutor do mundo psíquico e ela não está apenas no desenho, nos contos, nas fotografias; está na angústia.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A angústia também é imagem, e a escuta também é olhar simbólico. O inconsciente, infindável, autônomo e dinâmico, buscará se expressar, de um jeito ou de outro. O ego estruturante será capaz de deixar o desconhecido se aproximar, criar relação e ser dialético.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chegando ao fim desse artigo me dou conta de quanta história esse riquíssimo filme tem para contar, e o recorte que apresento, nesse momento, é apenas uma pequena centelha do tanto que ele ainda pode iluminar. Recomendo este filme fantástico para quem ainda não conhece, e, para aqueles que já assistiram, deixo o convite para revê-lo e, mais uma vez, imaginar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela-schmidt/">Daniella Schmidt &#8211; Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata Responsável</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃 Artigo novo: &quot;Precisamos conversar com as árvores: imaginação, afeto e cura&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/FeGIW8rB3OU?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias-bibliograficas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Referências Bibliográficas:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Balestrini Junior, José Luiz. Sonho, imagem, imaginação e o coração onírico. São Paulo: Eleva Cultural, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBI, Jolande. Complexo, arquétipo, símbolo na psicologia de C.G.Jung. São Paulo: Cultrix, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: Conor e o Teixo. Foto por Travis Topa &#8211; © 2016 &#8211; Focus Features.<br>Cena do filme Sete Minutos Depois da Meia-Noite (2016), com <a href="https://www.imdb.com/name/nm0000553/?ref_=mv_desc">Liam Neeson</a> and <a href="https://www.imdb.com/name/nm6484968/?ref_=mv_desc">Lewis MacDougall</a>.<br>Disponível em: <a href="https://www.imdb.com/pt/title/tt3416532/">https://www.imdb.com/pt/title/tt3416532/</a></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-psicossomatica-e-a-clinica-junguiana-a-doenca-como-simbolo-de-autorregulacao-psiquica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jun 2026 20:42:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[adoecimento]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Corpo]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
		<category><![CDATA[significado dos sintomas]]></category>
		<category><![CDATA[sintomas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como objetivo provocar uma reflexão sobre os efeitos da atuação da sombra, como complexo, na vida do indivíduo e sua consequente influência em processos de adoecimento. O adoecimento surge como uma forma simbólica da psique manifestar aspectos inconscientes que pedem reconhecimento e integração. O quanto menos reconhecemos as mensagens do inconsciente, mais força e energia o complexo acumula e os sintomas e doenças surgem, como tentativa de uma autorregularão psíquica. O autoconhecimento para compreensão do indivíduo, de suas motivações inconscientes e de suas decisões de vida são um caminho para uma adaptação saudável a um mundo cada vez mais adoecido.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:0.3">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Brucelose, febre tifoide, arteriosclerose, miopia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Catapora, culpa, cárie, cãibra, lepra, afasia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O pulso ainda pulsa</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>E o corpo ainda é pouco</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Titãs)<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><strong>[1]</strong></a></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo tem como objetivo provocar uma reflexão sobre os efeitos da atuação da sombra, como complexo, na vida do indivíduo e sua consequente influência em processos de adoecimento. O adoecimento surge como uma forma simbólica da psique manifestar aspectos inconscientes que pedem reconhecimento e integração. O quanto menos reconhecemos as mensagens do inconsciente, mais força e energia o complexo acumula e os sintomas e doenças surgem, como tentativa de uma autorregularão psíquica. O autoconhecimento para compreensão do indivíduo, de suas motivações inconscientes e de suas decisões de vida são um caminho para uma adaptação saudável a um mundo cada vez mais adoecido.</p>



<h2 id="h-palavras-chave-psicossomatica-doenca-complexo-sombra-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave: psicossomática, doença, complexo, sombra, Jung</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há uma lista infinita de sintomas de diversas origens e natureza. Pode-se destacar entre tantos: as questões com o peso (perda, aumento), fadiga, dores (cabeça, articulação, muscular), tontura / vertigem, sonolência ou insônia, náusea, taquicardia, impotência, tosse, prurido e muitos, muitos outros; às vezes isolados às vezes associados, por curto período ou recorrente. Os estudos da Psicossomática, a partir de uma abordagem analítica, contribuem para uma compreensão mais ampla e profunda sobre o sentido simbólico dos processos de adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir de um olhar retrospectivo para os estudos da Psicossomática, Ramos (2005, p. 22) comenta sobre as tribos primitivas. Elas lidavam com o processo do adoecer como “a consequência da violação de um tabu ou uma ofensa aos deuses”, os processos de cura dos xamãs e pajés incluíam chás de ervas, evocação de espíritos e palavras com poder de cura. Assim, a autoridade implícita na figura do xamã, com toda sabedoria que ele representava, tinha o poder de interferir no tratamento e no processo de cura dos indivíduos.</p>



<h2 id="h-no-pensamento-grego-cometer-a-hybris-que-era-uma-ofensa-a-um-deus-fazia-com-que-voce-ficasse-escravizado-por-ele-e-fosse-castigado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">No pensamento grego, cometer a <em>hybris</em>, que era uma ofensa a um deus fazia com que você ficasse escravizado por ele e fosse castigado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Daí a geração de um “sintoma”, refletindo o processo de sofrimento. Aqui também o valor da palavra era bastante forte. Havia a visão do homem integral, onde corpo e alma eram entendidos como um todo inseparável, trazendo assim uma atitude holística para os tratamentos. Com o desenvolvimento da civilização ocidental, chegamos ao pensamento científico e temos como representante Descartes. Conforme Ramos (2005) as ideias dele, devido à sua complexidade, foram interpretadas de forma equivocada provocando a percepção de que havia uma separação entre as instancias corpo e mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No início do século XIX, a chamada medicina romântica trouxe uma visão do homem global, com uma medicina que atuava de forma muito pessoal, tratando cada doente de forma única e integrada entre sociedade, arte, religião e a relação com outros. Uma visão que veio a contribuir depois com o conceito de<strong> Self</strong> da psicologia analítica. Surge então no final do século XIX o pensamento biomédico, onde, o olhar para a doença passa a ser reducionista, pois a base para a compreensão da mesma era a realização de análises biológicas: as pequenas partes de um todo entendidas separadamente. Tudo era mensurável, possível de ser classificado, e a simbologia das manifestações sintomáticas perde aqui seu lugar, fazendo com que a visão do homem, bem como do seu processo de adoecimento, fosse fragmentada.</p>



<h2 id="h-o-termo-psicossomatica-conforme-ramos-2005-surge-historicamente-pela-primeira-vez-em-1808-sendo-aceito-e-difundido-a-partir-do-seculo-passado-conforme-afirma-mello-fº" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O termo “Psicossomática” conforme Ramos (2005), surge historicamente pela primeira vez em 1808, sendo aceito e difundido a partir do século passado, conforme afirma Mello Fº:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O termo psicossomática surgiu a partir do século passado, depois de séculos de estruturação, quando Heinroth criou as expressões psicossomática (1918) e somatopsíquica (1928) distinguindo os dois tipos de influências e as duas diferentes direções. Contudo, o movimento só se consolidou em meados deste século com Alexander e a Escola de Chicago. Porém as incertezas sobre a relação mente-corpo se expressam na própria denominação psico-somático (com hífen) ainda utilizada entre estudiosos destes fenômenos e por médicos em geral. (Mello Fº, 2010, p. 29)                                                                                                                               </p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Ramos</strong> (2005) cita a importância de Helen Dunbar, médica americana e precursora dos estudos de psicossomática e psicobiologia, para o aprofundamento de estudos sistemáticos sobre o tema e para tornar o termo público. Dunbar foi influenciada em suas pesquisas pelos trabalhos de Jung. Isto ocorreu na época em que ele estuda os complexos por meio da análise das respostas do experimento de associação de palavras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desta época muitos estudos sobre a questão mente-corpo, como atores na formação das doenças evoluíram. Em 1936, <strong>Hans Selye</strong>, endocrinologista canadense, tem uma contribuição de grande valor para o entendimento do estresse, sendo este definido incialmente pelo autor, como doença de adaptação, o que contribuiu com a visão das transformações físicas a partir de processos de estresse.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No estudo da evolução do conceito de Psicossomática, Ramos (2005), destaca também a contribuição da teoria psicanalítica de Sigmund Freud, que buscava compreender como as emoções influenciavam na etiologia da formação das doenças. A visão aqui é de que, os conteúdos reprimidos no inconsciente eram os responsáveis pelos sintomas associados à histeria, porém com uma visão ainda limitada da extensão desta atuação, bem como das dimensões do inconsciente. Várias escolas então surgiram, com o objetivo de se ampliar as contribuições da psicanálise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Franz Alexander </strong>e <strong>Thomaz French</strong> (1940) fundaram a Escola de Chicago baseados na crença de que mente e corpo funcionavam de modo complementar, mas ainda separadamente. Outra importante escola foi a Escola de Paris, representada por Marty, M’Uzmam e David (1963). Em 1970, foi desenvolvido o conceito de alexitimia por John C. Nemiah e Peter E. Sifneos, referindo-se as pessoas que não reconhecem sentimentos e são incapazes de expressar e nomear os mesmos. </p>



<h2 id="h-atualmente-a-definicao-de-psicossomatica-passa-pela-compreensao-de-uma-area-que" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Atualmente a definição de Psicossomática passa pela compreensão de uma área que</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230; integre as três perspectivas: a doença com sua dimensão psicológica; a relação médico-paciente com seus múltiplos desdobramentos; a ação terapêutica voltada para a pessoa do doente, este entendido como um todo biopsicossocial. (Eksterman, A. in Mello Fº, 2010, p. 39.)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porém, na visão de Ramos (2005), com toda evolução não houve uma teoria que pudesse apresentar o conceito de Psicossomática com uma coerência entre teoria e prática terapêutica “não há uma teoria e abrangente unificadora” (Ramos, 2005, p. 43). Baseada em sua atuação terapêutica e em seus estudos, a autora constrói uma visão da psicossomática pautada no pensamento analítico de Jung, tratando o processo de adoecimento físico como uma expressão simbólica da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Compreender os complexos é fundamental na teoria junguiana, para que se possa pensar a doença de sua perspectiva simbólica. Os complexos são núcleos carregados de grande carga afetiva presentes no inconsciente pessoal. &nbsp;Formam-se a partir das vivências doloridas e traumáticas. São carregados de energia e podem dominar a vontade consciente e manifestar-se de modo a dominar o próprio complexo do ego. Segundo Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de <em><strong>autonomia</strong>, </em>vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um <em><strong>corpus</strong> <strong>alienum</strong> </em>corpo estranho, animado de vida própria. (Jung, OC 8/2 § 201, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-inconsciente-se-comunica-com-o-a-consciencia-por-meio-do-corpo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O inconsciente se comunica com o a consciência por meio do corpo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É neste que as manifestações são percebidas e sentidas. Para Jung, o corpo e alma, são duas dimensões que coexistem numa mesma estrutura e afetam-se simultaneamente, dependendo uma da outra para que a vida aconteça. <strong>As funções vitais atuam independente da vontade consciente do ego</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“O eu sequer tem uma pálida ideia da função reguladora e incrivelmente importante dos processos orgânicos internos a serviço do qual está o sistema nervoso simpático”. (Jung, OC 8/2, § 613).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando as emoções guardadas são acionadas elas podem fazer com que o funcionamento orgânico, inconsciente e silencioso, traga para o universo consciente a percepção então de seu funcionamento, por meio de reações e sintomas desagradáveis e que afetam nosso bem-estar (suores, taquicardias, angústias, sufocamentos, irritações, dores, tremedeiras, etc.).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesta dialética – corpo e psique &#8211; que os conteúdos inconscientes e as suas imagens ganham vida e os complexos, até então afastados da consciência, se “materializam”.</p>



<h2 id="h-quando-um-complexo-se-constela-ou-se-manifesta-e-possivel-compreender-que-ficou-mais-energizado-do-que-o-proprio-complexo-do-ego-que-nao-consegue-segurar-o-seu-impulso-para-a-manifestacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando um complexo se constela, ou se manifesta, é possível compreender que ficou mais energizado do que o próprio complexo do ego, que não consegue segurar o seu impulso para a manifestação. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-sintoma-entao-surge-porque-a-energia-do-complexo-e-capaz-de-afetar-o-organismo-e-gerar-respostas-fisiologicas-provocadas-pelas-emocoes" style="font-size:18px">O sintoma então surge porque a energia do complexo é capaz de afetar o organismo e gerar respostas fisiológicas provocadas pelas emoções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230; nossa consciência não está em condição de produzir um complexo autônomo a seu bel-prazer. [&#8230;] Quando eu disse, anteriormente, que a ideia deve necessariamente suscitar uma resposta das emoções, eu me referi a uma prontidão inconsciente que, por causa de sua natureza afetiva, atinge uma profundidade inteiramente inacessível à nossa consciência. Assim, nossa razão consciente não é capaz de destruir as raízes dos sintomas nervosos. Para isto seriam necessários processos emocionais que têm o poder de influenciar o sistema nervoso simpático. (Jung, OC 8/2, § 642)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-na-manifestacao-de-um-complexo-alem-do-sintoma-e-de-um-consequente-sofrimento-fisico-a-consciencia-tambem-e-afetada" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na manifestação de um complexo além do sintoma e de um consequente sofrimento físico, a consciência também é afetada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela passa a receber as mensagens indecifráveis, criadas pela distância entre consciência e inconsciente. Se o indivíduo não for capaz de compreendê-las como um canal de comunicação do inconsciente, está criado o campo para manifestação de processos de adoecimento ainda mais graves e profundos, com a fragmentação da unidade mente-corpo. O complexo cria neste momento uma polaridade, forte opositora da consciência e do ego, e atua como se fosse a totalidade do indivíduo. Neste processo a importância do símbolo é fundamental. Ramos (2005) afirma que a expressão simbólica do complexo em nosso corpo nos dá um caminho e oportunidade para resgatar a relação ego self. Dawson (2002) confirma esta percepção conforme citado abaixo:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na prática junguiana, as fantasias, os sonhos, a sintomatologia, as defesas e a resistência são todos vistos em termos de sua função criativa e sua teleologia. Pressupõe-se que eles refletem as tentativas da psique de superar obstáculos, construir significado e oferecer opções potenciais para o futuro, em vez de existirem apenas como respostas de inadaptação à história passada. (Dawson, 2002, p. 68).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A doença surge então como uma consequência de algo que precisa ser atendido e integrado em nossa personalidade total. Caso esta condição seja ignorada, os sintomas podem voltar ou mesmo pode aparecer como novas formas de doenças. O universo inconsciente é extremamente vasto de imagens e de representações e procura a todo instante fazer-se presente, nem sempre de forma inteligível ou agradável. Há a necessidade de se fazer um esforço no sentido de compreender e transformar estas mensagens em elementos vitais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psique é feita de uma série de imagens, no sentido mais amplo do termo, não é, porém, uma justaposição ou uma sucessão, mas uma estrutura riquíssima de sentido e uma objetivação das atividades vitais, expressa através de imagens. E da mesma forma que a matéria corporal, que está pronta para a vida, precisa da psique para se tornar capaz de viver, assim também a psique pressupõe o corpo para que suas imagens possam viver. (Jung, OC 8/2, § 618)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-sombra-e-como-um-repositorio-da-psique-que-mantem-aspectos-reprimidos-no-inconsciente-pessoal" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A sombra, é como um repositório da psique, que mantém aspectos reprimidos no inconsciente pessoal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">São aquelas qualidades não aceitas pelo indivíduo e por isso possuem um teor negativo ou inferior, que se virem à consciência podem adquirir um aspecto destrutivo.  Forma-se a partir de vivências pessoais e imagens primordiais deixadas de lado pela função do ego consciente, por representar algum tipo de ameaça à sua integridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na condição de conteúdos que querem ser esquecidos e não podem acessar a consciência, a sombra assume características equivalentes às do complexo, conforme afirma Stein (2015), “<em>A sombra, um complexo funcional complementar, é uma espécie de contra-pessoa. A sombra pode ser pensada como uma subpersonalidade que quer o que a persona não permitirá.</em>” (Stein, 2015, p. 101)</p>



<h2 id="h-nao-seria-errado-portanto-afirmar-que-quando-o-sintoma-organico-vinculado-a-um-complexo-se-associa-a-uma-imagem-arquetipica-que-este-passa-a-ter-um-carater-simbolico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Não seria errado, portanto, afirmar que quando o sintoma orgânico, vinculado a um complexo se associa a uma imagem arquetípica, que este passa a ter um caráter simbólico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A natureza arquetípica deste conteúdo dará forma, energia e sustentação ao complexo e se constelará quanto mais distante da consciência e menos possibilidade de simbolizar esta tiver. É nesta dimensão que o processo compensatório da psique atua, apontando par a necessidade de um reconhecimento e de uma posterior integração e psíquica. É o restabelecimento de uma ordem que foi desintegrada ou perdida. </p>



<h2 id="h-como-um-arquetipo-a-sombra-possui-forma-e-imagem-significativas-podendo-ser-nociva-a-vida-do-individuo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Como um <strong>arquétipo</strong>, a sombra possui forma e imagem significativas podendo ser nociva à vida do indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estes conteúdos são expulsos, como afirma Jung (OC 7/2) por meio da <strong>projeção</strong>, sendo transferido para o objeto e fazendo com que o indivíduo se libere deles. Porém a projeção é um mecanismo neurótico de defesa que não contribui para a integração dos aspectos sombrios que pertencem na verdade ao próprio indivíduo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mesmo quando acontece de as qualidades projetadas serem qualidades reais da outra pessoa [&#8230;], a reação afetiva que marca a projeção sugere que o complexo afetivo em nós embaça a nossa visão e interfere com a nossa capacidade de ver com objetividade e estabelecer relações de um modo humano. (Whitmont in Zweig, 1998 p. 37)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesta dinâmica psíquica temo a persona como o arquétipo mais próximo da consciência. Conforme o indivíduo se desenvolve ele recebe do meio mensagens e informações de como dever ser e agir para adaptar-se e ser bem aceito. Estas informações são absorvidas pelo ego que vai dando forma à persona, que tem como função adaptar o indivíduo ao meio em que ele vive. Ao passo que a persona se forma e se solidifica os conteúdos que não foram aceitos por ela e consequentemente pelo complexo do ego, se mantém no inconsciente, na sombra. “<em>O desenvolvimento do ego baseia-se na repressão do &#8220;errado&#8221; ou do &#8220;mau&#8221; e na promoção do &#8220;bom&#8221;.</em> “ (Whitmont in Zweig, 1998 p. 38). Segundo Whitmont, esta é uma condição arquetípica da formação do ego e da estruturação da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como a persona tem uma função social, ela nos dá a impressão de uma individualidade, porém é coletiva, uma vez que expressa qualidades arquetípicas do indivíduo no todo: profissão, títulos, posses, coisas que todas as pessoas além do indivíduo, também podem possuir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>identificação com a persona</strong>, assumindo-a como a própria individualidade, faz com que o ego deixe de lado outros aspectos importantes da personalidade total. Ocasionando, assim, uma inflação do ego,sendo dado a este um valor superdimensionado.</p>



<h2 id="h-sobre-a-persona-jung-afirma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sobre a persona, Jung afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que <em>aparenta uma individualidade, </em>procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva. Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de <em>real; </em>ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário. (Jung, OC 7/2, § 245 e 246, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta forte valorização dos aspectos da persona pode estar relacionada ao fato de necessitarmos, até um determinado ponto de correspondermos àquilo que a sociedade espera, mostrando muitas vezes algo que não corresponde ao que realmente somos. Quando a sombra necessita vir à superfície, esta necessidade de se fazer presente e conhecida pode gerar inúmeros conflitos, pois a atuação da persona impede a realização da sombra e essa fica ainda mais densa, aumentado o jogo de projeções para se manter. Esta não é uma condição sustentável por muito tempo.</p>



<h2 id="h-afirma-sanford-a-sombra-sera-mais-perigosa-quao-mais-distante-estiver-do-ego-e-da-personalidade-consciente-sanford-1988-p-72" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Afirma Sanford “a sombra será mais perigosa, quão mais distante estiver do ego e da personalidade consciente.” (Sanford, 1988, p. 72)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Forma-se então o seguinte paradoxo: por meio da inflação do ego a unilateralidade fragiliza a possibilidade do acesso aos conteúdos arquetípicos e sombrios, que estão no centro do complexo afetivo. Este, por sua vez, detém uma forte carga energética e se faz presente por meio de sintomas que se não forem adequadamente simbolizados se configuram como doença, que podem caminhar na direção da destruição do organismo e de sua estrutura física, sede do complexo do ego e da consciência. Em resumo, o ego quando se coloca em uma condição de unidade e superioridade (inflação) se fragiliza, deixando espaço para ser “derrotado” pela sombra que esta mesma condição de inflação formou no inconsciente. O que parecia força vira fraqueza. Corpo e alma se separam e nesta tensão buscam se reencontrar, por meio da doença.</p>



<h2 id="h-na-tentativa-de-uma-autorregulacao-a-dinamica-psiquica-estabelece-uma-possibilidade-da-dinamica-entre-a-consciencia-e-o-inconsciente-elaborem-as-tensoes-existentes-por-meio-da-expressao-simbolica-do-sintoma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na tentativa de uma autorregulação, a dinâmica psíquica estabelece uma possibilidade da dinâmica entre a consciência e o inconsciente elaborem as tensões existentes, por meio da expressão simbólica do sintoma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Devemos lembrar que para psicologia junguiana, a visão da psicossomática tem como premissa, o fato de que psique e soma são uma unidade. Logo, um desequilíbrio no processo de um aspecto ou de outro, gera consequentemente uma necessidade de equilíbrio para compensar a polarização criada. Sonhos, fantasias, sintomas e doenças podem ser compreendidos como uma busca do ser total ou do Self, de reorganizar uma harmonia perdida.</p>



<h2 id="h-e-por-meio-do-mecanismo-compensatorio-e-autorregulador-do-inconsciente-que-possiveis-caminhos-surgem" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É por meio do mecanismo compensatório e autorregulador do inconsciente que possíveis caminhos surgem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Atitudes muito rígidas, sob o ponto de vista de uma consciência que não está disposta a reconhecer e integrar conteúdos sombrios e ameaçadores dificulta a percepção destes sinais, que não começam grandes, mas que vão tomando vultos mais significativos, ao passo que a polarização vai tornando-se mais voluptuosa. Assim, devemos considerar que do inconsciente emana uma energia que lança luz sobre os aspectos do adoecimento, tendo este um caráter teleológico e se apresentando como mensageiro de sentido e do potencial de transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A autorregulação, não tem como caráter primordial a eliminação do sintoma simplesmente, mas indicação de possíveis saídas. É um convite para a interiorização. Por isso, o sintoma deve ser escutado. Esta é uma linguagem por meio da qual a psique nos conta o que devemos fazer, ou para onde devemos seguir no caminho infindável do processo de individuação.&nbsp;</p>



<h2 id="h-por-fim" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>Por fim,</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O foco deste artigo é provocar uma reflexão sobre como a dinâmica psíquica, quando não compreendida, pode exprimir-se por meio de sintomas e doenças. Neste caso, o complexo e a sombra, funcionam como “aliados”, manifestando-se nas mais diversas situações da vida. Ambos representam traços inferiores, reprimidos e obscuros da personalidade, tem natureza emocional e autonomia. O que o complexo do ego rejeitou e reprimiu forma no inconsciente os complexos, estes se separam da personalidade total e vão compor a sombra individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Estes conteúdos são de relevante valor, pois é aí que está escrita a história de vida do indivíduo. </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Temos a tendência de considerar que esta biografia se faz por meio das realizações concretas no mundo, que são obras do universo consciente e pouco se dá conta do quanto esses feitos só foram possíveis e viáveis pela ativa participação do mundo inconsciente.</p>



<h2 id="h-o-inconsciente-e-vivo-e-ativo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O inconsciente é vivo e ativo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ele nos acompanhada por toda a vida, em seus aspectos positivos e negativos. Temos uma necessidade real de adaptação ao mundo e às questões cotidianas, mas essa adaptação não pode acontecer sem um pensamento crítico, sem um olhar sincero para nossos desejos, mas também para nossos medos e nossas vulnerabilidades. Por vezes, é esta pequena fresta que não deixamos entrar luz, que precisa ser iluminada para termos uma resposta mais lúcida às questões da vida.   </p>



<h2 id="h-e-honesto-conosco-buscar-reconhecer-quem-em-nos-decide-pelos-caminhos-que-tomamos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É honesto conosco buscar reconhecer <strong>quem</strong>, em nós, decide pelos caminhos que tomamos. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Provavelmente, numa resposta objetiva dirá que o sujeito da escolha foi nossa consciência, poque ela sabe&#8230; sabe o que melhor, sabe o que agrada, sabe o que será sucesso!!  E tudo bem, se e apenas se, as nossas questões internas e mais prementes não estiverem subjugadas a uma sombra, reprimidas e desmerecidas. Muitas vezes neste lugar mais sombrio está o lampejo de criatividade e o potencial que tanto insistimos em buscar fora – no outro, no trabalho, na viagem&#8230;</p>



<h2 id="h-nao-podemos-esquecer-que-todo-sintoma-esta-a-servico-de-equilibrar-um-sistema-integrado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Não podemos esquecer que todo sintoma está a serviço de equilibrar um sistema integrado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os sintomas servem para compensar desequilíbrios internos. Logo, escutar o ambiente externo e sufocar a voz interior na sombra pode ter consequências desastrosas para a real saúde do indivíduo nas esferas bio-psico-social-espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viver em meio à dualidade e à paradoxos, é uma condição humana e arquetípica. É somente em meio a polaridades e a busca de integração de forças contrarias, que temos a oportunidade de evoluir e aprender. Passar por desconforto, fatores estressores, manifestações incomodas do complexo e da sombra, são uma realidade e sempre existirão. Temos que aprender a dar para estes elementos o espaço que eles nos pedem para transformá-los em aliados e não em nossos detratores. Eles são parte de nós, querem ser reconhecidos, aceitos e integrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/">Gilmara Marques Fadim Alves – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina M. Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/9di30oUrn_o?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li>DAWSON, Terence, YOUNG-EISENDRATH, Polly. <em>Manual de Cambridge para Estudos Junguianos</em>. São Paulo. 2002. Artmed</li>



<li>JUNG, Carl Gustav.<em> O eu e o inconsciente</em>. 27ª ed. OC 7/2. Petrópolis: Vozes, 2016.</li>



<li>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 3ª ed. OC 8/2. Petrópolis: Vozes, 1991.</li>



<li>MELLO Fº, Julio de&#8230; [et al]. <em>Psicossomática hoje</em>. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.</li>



<li>RAMOS, Denise G. <em>A Psique do corpo: uma compreensão simbólica da doença</em>. São Paulo: Summus, 2005</li>



<li>SANFORD, J. A. <em>Mal: O lado sombrio da realidade</em>. &#8211; Coleção Amor e Psique. São Paulo: Paulus, 1998</li>



<li>ZWEIG,C &amp; ABRAMS, J. (orgs.). <em>Ao encontro da sombra</em>. São Paulo: Cultrix, 1999</li>
</ol>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> <em>https://www.letras.mus.br/titas/48989/</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-psicossomatica-e-a-clinica-junguiana-a-doenca-como-simbolo-de-autorregulacao-psiquica/">A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A sede pela realização em tempos áridos de alienação</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-sede-pela-realizacao-em-tempos-aridos-de-alienacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Pimentel Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 14:06:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[Persona]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analitica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[sucesso]]></category>
		<category><![CDATA[tornar-se quem se é]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Esse artigo levanta a questão da tão buscada realização, ser realizado. Como podemos entender o que é real, o que é concreto? Coloca-se a figura arquetípica do diabo, passando pelos conceitos de sombra, persona e individuação, bem como as falas e expressões socias na prática clínica sobre o alienar-se em prol de uma chancela social de ser realizado.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-sede-pela-realizacao-em-tempos-aridos-de-alienacao/">A sede pela realização em tempos áridos de alienação</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Esse artigo levanta a questão da tão buscada realização, ser realizado. Como podemos entender o que é real, o que é concreto? Coloca-se a figura arquetípica do diabo, passando pelos conceitos de sombra, persona e individuação, bem como as falas e expressões socias na prática clínica sobre o alienar-se em prol de uma chancela social de ser realizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Atualmente, há uma pressão constante e visceral para que todos sejam completamente realizados em todos os campos possíveis da vida. Entretanto, esse ópio coletivo acaba drenando a vitalidade úmida da alma, bem como as oportunidades de auto revelação e expressão, sustentado na ignorância e superficialidade do terreno pessoal de conhecimento. Afinal, o que é realização, o que é ser realizado na vida?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao se pensar em algo realizado, a concepção do que é real aparece e se mostra. Ser real ou possuir qualidades que remetam a uma vivência real atravessa o reconhecimento da singularidade presente em cada um, como também a retirada da identificação com a persona e com os ditames coletivos e seus dogmas inquestionáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viver em um coletivo preservando o subjetivo é uma combinação alquímica complexa e desafiadora, pois há o risco de ora sucumbir em uma mistura indiscriminada da expectativa gerada em nós, ora se excluir completamente da sociedade, levando a vida de um ermitão alicerçada no argumento de ser contra o sistema- gerando uma não adaptação necessária no mundo externo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“As possibilidades de desenvolvimento comentadas nos capítulos anteriores são, no fundo, alienações de si-mesmo, modos de despojar o si-mesmo de sua realidade, em benefício de um papel exterior ou de um significado imaginário. Em ambos os casos, verifica-se uma preponderância do coletivo.” (JUNG, OC.7/2, §267)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na psicologia Junguiana, o conceito de <strong>persona</strong> revela o modo como nos relacionamos com o mundo externos e seus objetos, a construção que elaboramos sustentada em imagem, qualidades e bases morais.</p>



<h2 id="h-muitas-vezes-o-peso-dessa-mascara-dessa-persona-solapa-quem-realmente-somos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Muitas vezes, o peso dessa máscara, dessa persona, solapa quem realmente somos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Aquilo que tem o poder de realização, demonstrado ao longo dos mitos, contos e narrativas arquetípicas, muitas vezes não se encontra em um coletivo massificado que funciona como uma engrenagem perfeita e automática, mas sim em campos, em territórios, desconhecidos, distantes e contrastantes.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.” (JUNG, OC.7/2, §246)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como ousarei ser um biólogo em uma família tradicional de médicos? A tradição dos meus ancestrais tem a força de trabalhar no campo da engenharia. Posso ingressar no campo da psicologia? Aprendi que a vida que realmente importa é aquela com um casamento firme e estável. Porém, a ideia de viver sendo solteiro/a me atrai, ou vice versa. Como lido com isso? A crença religiosa dos meus grupos de amigos é mais tradicional, mais ortodoxa. Entretanto me identifico com religiões ou cultos de origem africana ou oriental. Posso me permitir experienciar caminhos diferentes?</p>



<h2 id="h-se-permitir-questionar-o-proprio-caminho-e-um-ato-de-bravura" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Se permitir questionar o próprio caminho é um ato de bravura.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quem questiona ou reflete sobre seus passos e suas pegadas consegue ampliar suas marcas. A vida não é uma linha reta já definida impossível de ter curvas e reviravoltas. Todavia, se aventurar em outros caminhos contrários ou desconhecidos convoca os fantasmas da insegurança e das dúvidas sobre a própria competência e autorização interna de se reinventar. Essa postura é coibida pelo espirito da época vigente, pois o lema é: trabalhe, não pense; pague seus tributos e confie nos caminhos que todos já fizeram e foram “aprovados” pelo grupo. Ter uma atitude aquariana de ir ao oposto do já determinado e realizar um encontro com sua própria essência e individualidade leonina é rechaçado a todo instante, mas é o caminho que promove uma realização.</p>



<h2 id="h-o-conceito-do-se-individuar-do-tao-conhecido-processo-de-individuacao-passa-na-trilha-do-se-realizar-do-encontrar-aquilo-que-e-mais-genuino-e-autentico-em-si-devolvendo-e-compartilhando-com-o-coletivo-posteriormente-tudo-aquilo-que-conheceu-na-sua-propria-jornada" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O conceito do se individuar, do tão conhecido processo de individuação, passa na trilha do se realizar, do encontrar aquilo que é mais genuíno e autentico em si, devolvendo e compartilhando com o coletivo posteriormente tudo aquilo que conheceu na sua própria jornada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Logo, é um processo de desenvolvimento psíquico, uma elaboração da personalidade para um encontro com a totalidade, no qual há uma <strong>diferenciação da massa</strong> e uma <strong>integração em sua própria natureza</strong>, se tornando real.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“No processo de individuação antecipa uma figura proveniente da síntese dos elementos conscientes e inconscientes da personalidade. É, portanto, um símbolo de unificação dos opostos, um mediador, ou um portador da salvação, um propiciador de completude.”</em> <em>(JUNG, OC.9/1, § 278)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na lâmina 10 do tarô, a roda, há uma roda navegando em um mar; ou flutuando no ar. Esse tema arquétipo convida a não se apegar ao que foi construído e se lançar em uma reviravolta, em ficar balançando ou suspenso em um novo eixo. É uma porta, um portal, uma rachadura que se abre naquilo que é definitivo. Ser realizado abre inúmeras possibilidades de vivências. Afinal, qual a base da construção daquilo que nomeamos como válido? Quais pensamentos e orientações nos inspiram e para quais caminhos levam? O que fazemos com o que nos foi dado e estruturado?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Carregamos uma imagem tão bem formanda sobre nós, certezas tão arraigadas e consolidadas em um suposto saber. Assim como a terra rígida, seca, compactada, naturalmente raxa e abre vincos, a autodeterminação cega e alienada sobre o que há no profundo, formando uma carapaça de “intelectualidade” e bons costumes apoiadas em uma moral virtuosa, possui um prazo de validade. No primeiro impacto, se quebra. Nos primeiros ventos ou ondas do mar psíquico, não se sustenta. O fim de um casamento, a perda de um emprego, uma traição inesperada, uma quebra financeira, uma morte dolorida ou uma experiência anímica traumática. A roda gira, balança, revelando e forçando a realização da natureza interior.</p>



<h2 id="h-uma-figura-arquetipica-presente-nos-campos-ferteis-do-inconsciente-coletivo-e-o-diabo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Uma figura arquetípica presente nos campos férteis do inconsciente coletivo é o diabo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Anjo caído que governa a matéria e suas riquezas. Senhor do oculto e daquilo que não se vê. A asa dupla que estabelece encruzilhadas e dúvidas; que questiona até que ponto conhecemos a totalidade da nossa natureza, inclusive a parte sombria. Um detalhe vale a pena ser colocado: a sombra tem riquezas. Queremos ser realizados? Então teremos que conversar com essa grande figura alada! Não é se identificar com o mal puro, com o mal coletivo e destruidor &#8211; como já dizia Jung, esse mal é real, tem efeitos psicológicos e concretos; mas sim conciliar as potências internas que ficaram misturadas e alocadas no território sombrio da realidade psíquica.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A autonomia da psique cheira ao primitivo como algo demoníaco e mágico. Consideramos esta atitude perfeitamente normal do primitivo. (&#8230;) havia uma crença generalizada e natural em seres sobre-humanos que, segundo nosso conhecimento atual, eram personificações de conteúdos inconscientes projetados” (JUNG, OC.10/3, §843)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sombra não é somente um território de podridão e perversidade. Lá contém energia psíquica bruta, não elaborada, rica em força, que não teve a oportunidade de sequer ser reconhecida. O ouro se encontra no fundo e é resultado de um processo constante e longo de temperatura e pressão. Negociamos, conversamos, mediamos, resgatamos, através dessa figura de duas asas, aquilo que nos pertence por direito da vida.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“A sombra, embora seja uma figura negativa per definitionesm, deixa entrever muitas vezes traços ou associações positivas, os quais apontam para um cenário de outro tipo. É como se ela escondesse conteúdos significativos sob um invólucro inferior” (JUNG, OC 9/1, §485)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-realizacao-surge-quando-a-prima-materia-se-transmuta-em-lapis-em-ouro-alquimico-apos-um-processo-de-idas-e-vidas-de-subidas-e-descidas-de-altos-e-baixos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A realização surge quando a prima matéria se transmuta em lápis, em ouro alquímico após um processo de idas e vidas, de subidas e descidas, de altos e baixos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É quase um senso comum que a realização vem no final da vida, depois de uma caminhada árdua de encontros e desencontros. Estamos com paciência, tolerância, para vivenciar esse tempo? Conseguimos sustentar a angústia que esse processo estimula? Em uma época na qual o imediatismo é soberano, não há espaço para a inteligência e para os processos lunares, de autoconhecimento profundo. Uma postagem e uma curtida valem muito mais do que o silêncio de encontrar a si mesmo, mesmo que seus efeitos colaterais sejam um aumento da sensação de solidão, de viver uma vida falsa ou aquela insônia que perturba a nossa paz fraudulenta.</p>



<h2 id="h-lancemos-agora-a-pergunta-de-um-milhao-voce-venderia-sua-alma-em-troca-de-um-reconhecimento-coletivo-e-a-seguranca-de-um-pertencer-em-grupos-sinalizando-um-sucesso-uma-chancela-do-eu-me-realizei" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Lancemos agora a pergunta de um milhão. Você venderia sua alma em troca de um reconhecimento coletivo e a segurança de um pertencer em grupos, sinalizando um sucesso, uma chancela do “Eu me realizei”?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somos inundados a todo momento por marcadores socias de uma realização: uma eficiência, uma produtividade no trabalho reconhecido por todos; promoções sucessivas e repletas de glória; carros importados e viagens anuais para Europa; graduação em Medicina; um casamento alegre, vivo, instagramável, com filhos, cachorros. A grande questão não é conseguir todos esses marcadores, mas sim ser definidos por eles. Negociar a alma, ou seja, aquilo que há de mais profundo, a água que umidifica a vida, o humus que conecta e aduba a consciência e o viver o aqui e agora, pode levar a derrocada de uma realização real e profunda.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Individuação significa tornar-se único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais intima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se a si -mesmo” ou “realizar-se do si-mesmo””. ( JUNG, OC</em> <em>7/2, §266)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-na-pratica-clinica-nao-e-raro-ouvir-de-pessoas-a-queixa-de-se-sentir-falsificado-vivendo-de-uma-maneira-artificial-mesmo-obtendo-tudo-que-o-coletivo-exige-e-chancela" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na prática clínica, não é raro ouvir de pessoas a queixa de se sentir falsificado, vivendo de uma maneira artificial, mesmo obtendo tudo que o coletivo exige e chancela.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Eu me sinto como uma fraude para minha esposa”; “o meu trabalho é somente para pagar boleto”; “não consigo mais ter libido, nem ereção na hora do sexo”; “me sinto um grande impostor para mim mesmo”. </em>As águas internas, a ânima, o eros, precisam de um corpo, de uma terra adequada para poder se concretizar, se realizar, se manifestar. Compramos gato por lebre quando o assunto é autocuidado e expressão do nosso pleno potencial. A cegueira com sua enganação de si se tornou a nova referência do bom sucesso e do que é real.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A culpa é do masculino destruidor ou a culpa é das mulheres que querem ser bancadas. Até mesmo o encontro mais profundo dessas duas potências da realidade psíquica foi deturpado. A diferenciação e a união/agregação se tornaram brigas e rixas, aprofundando o abismo do encontro com o outro, ou seja, o encontro com nós mesmos, que leva ao caminho de se tonar real.</p>



<h2 id="h-por-fim-a-busca-insaciavel-para-sermos-realizados-com-sua-furia-enlouquecida-baseada-em-uma-corrida-de-vantagens-intoxica-quem-entra-nessa-ilusao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Por fim, a busca insaciável para sermos realizados com sua fúria enlouquecida baseada em uma corrida de vantagens intoxica quem entra nessa ilusão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ser real, não é andar pela vida de maneira inconsequente e irreflexiva achando que o meio ambiente e o meio que nos cerca é obrigado a aceitar aquilo que eu sou, meus comportamentos e minhas ideias e falas. É olhar para dentro e conseguir enxergar a multiplicidade com sua complexidade; é ir além de um sucesso profissional, de ter um relacionamento pleno; é encontrar aquilo que há de mais caro em nós mesmos, é nos encontrar e nos enfrentar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É não ser perfeito, é ser inteiro. É expressar a verdade que nos toca, é ampliar imagens e os afetos que nos atravessa; é olhar para as fraquezas e as potencialidades. É ter a abertura para o mundo, reconhecer que a realidade do outro e a minha realidade constroem verdades distintas, que precisam ser integradas e acolhidas para que um dia consigamos transformar a realidade coletiva com suas verdades preconceituosas ou discriminatórias. É ser concreto e íntegro conectado com a totalidade, criando e sendo criativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pedro-rocha/">Pedro Pimentel Rocha &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo convite:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A sede pela realização em tempos áridos de alienação&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/3FDKWOUotOg?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. OC.7/2. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. OC.9/1. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>Civilização em transição</strong>. OC.10/3. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="414" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-1024x414.png" alt="" class="wp-image-13090" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-1024x414.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-300x121.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-768x311.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-150x61.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-450x182.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao-1200x486.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/card-curso-de-introducao.png 1500w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Inscrições abertas no <strong>Curso de Introdução à Teoria de C.G. Jung</strong> &#8211; Para Graduados em Geral &#8211; Vagas limitadas: <a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas" type="link" id="https://www.ijep.com.br/cursos/show/introducao-a-teoria-de-carl-gustav-jung-curso-on-line-ao-vivo-32-horas">www.ijep.com.br</a></p>



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		<title>O que fazer com um sonho frustrado?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-que-fazer-com-um-sonho-frustrado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 May 2026 21:58:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Sonho]]></category>
		<category><![CDATA[caetano veloso]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[devaneios]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[frustrações]]></category>
		<category><![CDATA[o quereres]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[sonhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Neste artigo, busco refletir sobre a frustração dos sonhos não realizados e convido você a fantasiar uma sociedade que sustentasse o fracasso, em vez do samba-exaltação ao ego contemporâneo, que acredita poder tudo o que quer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhadas com alguma doçura, as Neurociências nos contam que biologia é poesia. Os mesmos circuitos neuronais ativados quando sonhamos dormindo estão também ativos, idênticos, quando sonhamos acordados, no mais puro devaneio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No descanso da consciência, sono, tudo pode nos ocorrer. Símbolos surreais contam histórias aparentemente desconexas, frequentemente imorais e magicamente reveladoras, quando observadas com algum interesse, curiosidade e insistência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixarei-hoje-os-sonhos-sonhados-na-escuridao-da-noite-livres-de-ampliacoes-para-me-render-aqueles-que-alimentamos-a-luz-de-uma-pretensa-consciencia-que-insiste-em-se-acreditar-capaz-de-realiza-los" style="font-size:16px">Deixarei hoje os sonhos sonhados na escuridão da noite livres de ampliações, para me render àqueles que alimentamos à luz de uma pretensa consciência que insiste em se acreditar capaz de realizá-los.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sonhamos. Desde pequenos podemos fantasiar vidas para nós mesmos. A profissão, a casa, os amigos, as viagens, o amor. Sonhamos uma família, o almoço de domingo, a noite de Natal. Inventamos nomes para os filhos, vestidos para o casamento, casas para a praia, malas para as viagens, escritório para a empresa, uniformes para o servir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo passa e nem sempre as invenções despudoradas se manifestam na vida entendida como real. Podem seguir nos ocorrendo todas as noites, entre a fronha do travesseiro e a cabeça pesada pelas tentativas incessantes de compreender os motivos das frustrações e, ainda, pelos esforços de esquecer o sonho, a fim de não fazê-lo doer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por muitas vezes ao longo da vida de muitas vidas não adiantou sonhar, imaginar, sentir no corpo a sensação de que aquelas ideias se realizariam. Para cada sonho também há, na vida, a contraparte perfeita de sua frustração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-fazer-com-essa-parte-sombria-da-qual-tentamos-fugir-pesados-pela-vergonha-da-nao-realizacao-em-uma-epoca-em-que-se-acredita-tudo-poder" style="font-size:17px">E o que fazer com essa parte sombria, da qual tentamos fugir, pesados pela vergonha da não-realização, em uma época em que se acredita tudo poder?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez valha antes de mais nada aceitar que, diferente do que podemos acreditar, o sonho sonhado na vigília também é fruto do inconsciente. No texto <em>Criptomnésia, de Estudos Psiquiátricos, </em>Jung nos lembra que “O inconsciente premedita todos os novos pensamentos e combinações. E quando a consciência se aproxima do inconsciente com um desejo, foi o inconsciente que previamente lhe inspirou este desejo”. (<em>OC 1 </em><strong>§ </strong>172)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O verso do fracasso não entra no samba-exaltação do ego contemporâneo, que acredita que pode tudo o que quer, ritmado pela tríade “força, foco e fé”. A exclusão do verso triste da canção, talvez, faça a falta da realização doer ainda mais pois a torna pretensamente invisível.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é raro ver que o sambista sente no corpo a dor do que não realizou, mesmo tentando calar sua batida ou buscando reinventá-la criativamente. Os sonhos, agora sim, os sonhados no mais profundo da noite, tendem a revelar compensatoriamente aquilo que a consciência não dá conta de sentir, pois frustrada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-onde-nao-queres-nada-nada-falta-diz-caetano-veloso-em-o-quereres-sera" style="font-size:17px">“E onde não queres nada, nada falta”, diz Caetano Veloso em <em>O Quereres</em>. Será?</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="line-height:1.6"><em>“Talvez a maioria dos histéricos que frui plenamente de seus sentidos seja doente porque possui grande massa de recordações, dotada de muita emoção e, por isso, profundamente arraigada no inconsciente; já não pode ser controlada e tiraniza a consciência e a vontade do doente. Em mulheres trata-se às vezes de esperança frustrada de amor ou de um casamento infeliz; em certos homens pode ser uma posição insatisfatória ou méritos não reconhecidos. Os doentes procuram excluir suas emoções da vida diária; por isso, de noite elas os atormentam com sonhos ruins, e de dia os importunam com repentinos ataques de ansiedade precordial, inibem as forças de ação, levam as pessoas a procurar as seitas, produzem dor de cabeça que desafia todos os curandeiros, todos os meios mágicos da eletricidade, banhos de sol e dietas alimentares. Também o gênio tem que carregar o peso da superioridade de um complexo psíquico; se o conseguir, ele o fará com prazer; se não o conseguir, ele o fará com sofrimento. Terá que executar as ‘ações sintomáticas’ que seu talento lhe inspira; colocará na poesia, na pintura, na composição musical o seu sofrimento”.&nbsp; (C.G. Jung, OC 1 §176)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez um gesto de rebeldia contemporânea seja assumir a si mesmo e depois ao mundo seus fracassos. Como complexos cheios de afeto, ao serem vividos com o sabor da frustração percam a potência, mas se manteriam vivos no potencial de realização. A não realização de um sonho não deveria matá-lo na tentativa de esquecê-lo. Se foi do inconsciente que surgiu, não caberia a consciência domesticá-lo, calá-lo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma sociedade que sustentasse a frustração poderia ler epitáfios assim: “Tentou, bravamente, mas não conseguiu dançar”. Num outro, poderia estar escrito: “Chamaria Luiza, a filha que não teve”. E ainda: “Morreu acreditando que amaria e seria amada”. Ou “Preparou todos os domingos o almoço para a família que não vinha”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lapides-talhadas-a-partir-do-compromisso-com-a-honestidade-de-pessoas-que-ousaram-uma-vida-vivida-na-plenitude-sem-disfarces-sustentados-por-personas-bem-sucedidas-e-sombras-amarguradas" style="font-size:17px">Lápides talhadas a partir do compromisso com a honestidade de pessoas que ousaram uma vida vivida na plenitude, sem disfarces sustentados por Personas bem-sucedidas e Sombras amarguradas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não seriam lápides criadas na unilateralização do sucesso, da conquista, do amor e da alegria. Tais frases revelariam, com frustração, a insistência no sonho: o homem que queria dançar, a mulher que desejou ser mãe, a que queria um amor recíproco, a que perdoou a família todas as vezes que foram necessárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Eu queria querer-te e amar o amor<br>Construirmos dulcíssima prisão<br>E encontrar a mais justa adequação<br>Tudo métrica e rima, e nunca dor</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Mas a vida é real e de viés<br>E vê só que cilada o amor me armou<br>Eu te quero e não queres como sou<br>Não te quero e não queres como és”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung </strong>nos explica que a palavra <em>criptomnésia </em>provém da literatura científica francesa. “Criptomnésia significa <em>‘<strong>recordações não reconhecidas como tais</strong></em>’”. Assim como os sonhos que, frustrados, deixam de ser sonhados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uma parte da cura para uma sociedade tão adoecida poderia ser a sustentação do fracasso. “<em>Do querer que há e do que não há em mim</em>”, conclui o poeta.</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;O que fazer com um sonho frustrado?&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/4S114HfmbtU?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/luciana-branco/">Luciana Branco &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-jung-c-g-estudos-psiquiatricos-o-c-1-9ª-edicao-petropolis-editora-vozes-2012" style="font-size:16px">JUNG, C.G.<em> Estudos Psiquiátricos O/C 1.</em> 9ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VELOSO, Caetano. <em>O Quereres. </em>Salvador, Philips/PolyGram (atual Universal Music), 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/xi-congresso-junguiano-alquimia-e-ecologia"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-12921" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1024x576.jpg 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-300x169.jpg 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-768x432.jpg 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1536x864.jpg 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-150x84.jpg 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-450x253.jpg 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2-1200x675.jpg 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/05/xi-congresso-junguiano-ijep-2.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



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		<title>As aventuras do Seu Albo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/as-aventuras-do-seu-albo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 14:44:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[albedo]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[nigredo]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[rubedo]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>"O ‘homem sem sombra’, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo."</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-prologo" style="font-size:20px">Prólogo</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>O ‘<strong>homem sem sombra</strong>’, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo</em>.</p><cite>C.G. JUNG, OC 8/2, §409</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Seu Albo era uma figura conhecida na região. Se autodefinia como uma pessoa muito correta, com retidão de caráter e convicto de que era contra qualquer tipo de maldade. Uns diziam que ele tinha 30 anos, outros uns 60, mas todos sabiam que seu nome era Albo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em um dia de folga, sempre acompanhado de suas convicções, andava displicentemente pelas ruas de sua cidade quando viu jovens vestidos com roupas estravagantes:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Essa juventude está perdida! – disse a si mesmo, vestindo sua sandália com meias sociais, short bege e camisa florida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mais alguns metros de caminhada e, surpresa, encontrou um amigo da juventude.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Grande amigo! Você viu a pouca vergonha que está neste país? Estão destruindo nosso bem maior: a família! – disse Albo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O pai de Albo tinha sido alcoólatra e, antes de morrer precocemente, teve diversos episódios de violência contra sua mãe. Já Seu Albo já tinha se separado três vezes, contudo, segundo ele, isso se deu porque elas não eram boas mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Verdade Albo, esse mundo está perdido – respondeu o amigo, dando aquelas respostas tão óbvias e esperadas que só perdem em automatismo e irreflexão para quando levamos um tombo e tentamos nos proteger com as mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Bom te ver amigo! Precisamos marcar alguma coisa – naturalmente que na cabeça do Seu Albo essa “alguma coisa” era algum encontro fortuito numa casa de prostituição qualquer; normal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-continuou-sua-caminhada-e-nela-ficava-a-refletir-sobre-muitas-situacoes-da-vida-por-exemplo-como-as-pessoas-eram-egoistas-como-ninguem-respeitava-mais-nada-como-este-pais-estava-jogado-as-tracas-como-os-valores-sabe-se-la-do-que-tinham-sido-perdidos-e-como-ninguem-percebia-isso" style="font-size:18px">Continuou sua caminhada, e nela ficava a refletir sobre muitas situações da vida, por exemplo: como as pessoas eram egoístas, como ninguém respeitava mais nada, como este país estava jogado às traças, como os valores (sabe-se lá do que) tinham sido perdidos e como “ninguém” percebia isso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Acidentalmente e distraidamente, Seu Albo entrou numa ciclovia, e por pouco não foi atropelado por uma bicicleta. Ficou muito irritado!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Quem você pensa que é? – Vociferou contra o ciclista!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sou um ciclista, pedalando uma bicicleta, na ciclovia, que é uma via feita para ciclistas pedalarem suas respectivas bicicletas&#8230; – respondeu.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E você sabe com quem está falando? – Carteirou (?).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sei&#8230; com um “albo” – disse o ciclista em voz baixa e voltou à sua pedalada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas não passou de um susto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-seu-albo-voltou-para-sua-casa-e-resolveu-dar-uma-volta-de-carro-poucos-metros-dirigindo-e-ele-quase-atropelou-uma-pessoa-que-atravessava-na-faixa-de-pedestres" style="font-size:18px">Seu Albo voltou para sua casa e resolveu dar uma volta de carro. Poucos metros dirigindo e ele quase atropelou uma pessoa que atravessava na faixa de pedestres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Você endoideceu de atravessar desse jeito? – buzinou e berrou em seguida!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-mix-de-susto-e-alivio-a-pessoa-continuou-sua-caminhada-em-silencio-apenas-murmurou-albo" style="font-size:18px">Num mix de susto e alívio, a pessoa continuou sua caminhada em silêncio. Apenas murmurou “albo”&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Essas pessoas que não prestam atenção por onde andam me tiram do sério – disse Albo a si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dirigiu seu carro até o local onde praticava sua religião. Seu Albo a praticava com muito fervor e devoção. Sempre dizia que ter fé era essencial e que Deus só sabia fazer o bem. Por outro lado, ele não entendia como outras pessoas poderiam praticar religiões diferentes da sua, ou como podiam praticar uma religião menos evoluída que a sua: “Só pode ser coisa do diabo”, falava regularmente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-jovem-colega-desse-espaco-religioso-aparentemente-demonstrando-sensatez-se-incomodou-com-as-falas-de-albo" style="font-size:18px">Um jovem colega desse espaço religioso, aparentemente demonstrando sensatez, se incomodou com as falas de Albo:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo, de onde raios você tirou que uma religião que é diferente da sua só pode ser coisa do diabo ou algo que o valha?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Meu filho, – usando o termo “filho” num tom que misturava acolhimento e soberba – você ainda vai aprender. Deus é bom, logo, essas coisas ruins que vemos das outras religiões só podem ser coisas do diabo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Na perspectiva religiosa, quem criou o mundo, Seu Albo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Deus, é claro!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Bem, e isso inclui seres vivos, entidades e figuras históricas, certo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Evidente!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Então Deus criou o diabo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Não seja ingênuo, filho. Deus não é culpado pela criação do diabo. A maldade vem do livre-arbítrio que Deus outorgou – quis usar uma palavra difícil para parecer culto – aos seres humanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Se Deus criou tudo, o livre-arbítrio e o mal não seriam uma criação de Deus?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Filho, é muito difícil conversar com você. Para seu governo, saiba que algumas das minhas crenças foram até comprovadas cientificamente!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo, mas se foi comprovado cientificamente, será que isso não deixou de ser uma experiência de fé? A fé que eu aprendi na mesma religião que praticamos, é aquela que contempla a dúvida, que caminha na incerteza e que é guiada por princípios éticos, que independem de uma comprovação concreta, senão da própria experiência sagrada e individual que qualquer pessoa pode ter. Isso é muito diferente daquilo que hoje chamamos de “cientificamente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Quanta bobagem! Deixemos essa conversa para quando você conseguir argumentar, entender o que é Deus e o que fé, vai ler – e saiu, cheio de dúvidas, mas sem dar chance ao inquisidor, assim Seu Albo o considerava, continuar seus argumentos “vazios” (?).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-o-jovem-achou-interessante-que-seu-albo-ja-tivesse-entendido-o-que-era-deus" style="font-size:18px">Já o jovem achou interessante que Seu Albo já tivesse entendido o que era Deus&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Algum tempo passou e Seu Albo foi tomado por uma angústia. Não sabia descrevê-la muito bem, mas estava muito introspectivo, de poucas palavras, às vezes até chorava “escondido” em sua casa. Percebeu que ele tinha que mudar algumas atitudes em sua vida. Começou a se dar conta que por vezes tinha uma postura radical ou inflexível, até mesmo arrogante. Constatou pela sua própria reflexão que precisava mudar e colocar essas mudanças em prática. Soube que usar pronomes neutros era uma nova forma de se comunicar, muito mais inclusiva e que provavelmente o deixaria menos radical ou intransigente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Agora uso pronomes neutros! Assim consigo englobar todas as pessoas quando me referir a elas – comentou com um conhecido do bairro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo&#8230; a expressão “todas as pessoas” já não é neutra e inclusiva?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; A neutralidade está em você usar pronomes que incluam pessoas de qualquer orientação sexual ou gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E se falo “todos”, não faço isso?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Coisas do patriarcado – bufou. – Você não sabe nada de inclusão! Sou inclusivo!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Mas posso falar “todos”?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Fale o que quiser, mas isso não é inclusivo!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Então estou excluído da sua lista de que é ser inclusivo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; De certa forma, sim!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Você acabou de dizer que era inclusivo, mas me excluiu&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Claro que sou inclusivo! Inclusivo e diverso! Veja só: na empresa que eu trabalho fizemos programas de diversidade. Agora usamos pronomes neutros, temos programas de liderança feminina, temos projetos para PcDs, coitados (?)! Chamamos até uma monja budista para dar uma palestra aos funcionários.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Muito bacana essa iniciativa! Penso que a ideia de diversidade também passa pela ideia de diversidade religiosa, algo que é muito bonito e potente aqui no Brasil. Que tal chamarem um Pastor ou uma Mãe de Santo para uma palestra na próxima vez?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Não&#8230; Daria muita polêmica – disse Seu Abo tentando sair do assunto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Você não é inclusivo e diverso? – retrucou o homem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixa-eu-te-explicar-usou-essa-expressao-para-ganhar-tempo-pois-na-pratica-nao-sabia-o-que-falar-continuou" style="font-size:18px">&#8211; Deixa eu te explicar&#8230; – usou essa expressão para ganhar tempo pois, na prática, não sabia o que falar. Continuou:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211;&nbsp; Eu era uma pessoa muito extrema, mas agora sou mais flexível. Por isso resolvi virar inclusivo – Seu Albo era conhecido na empresa em que trabalhava por ser um líder incoerente e sempre com ideias que emergiam de última hora. Não raro a equipe tinha que trabalhar muitas horas além do expediente normal para operacionalizar suas ideias “diversas” e “inclusivas”, que não consideravam nem excesso de horas trabalhas, nem uma vida saudável na relação com o trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sei, e o que mais faz? – indagou seu conhecido do bairro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sou uma pessoa boa, faço as coisas certas, sou ético! Ajudo as pessoas, especialmente as da minha equipe – ao falar isso se lembrou de quando um de seus funcionários lhe confidenciou algo muito particular e, no dia seguinte, boa parte da equipe abordou esse funcionário para tratar do tema. O funcionário, consternado, indagou Seu Albo em seguida, ao passo que ele disse que não tinha falado “com ninguém”, só com outra pessoa da equipe, mas que o fez apenas querendo ajudar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Teve até uma vez que depois de eu tentar ajudar uma pessoa com a maior das boas vontades, ela pediu demissão e teve a pachorra de falar que eu a expus – contou ao conhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sei quem é essa pessoa Seu Albo, e até onde eu soube, ela foi exposta mesmo – afirmou o conhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Ela é uma mal-agradecida, isso sim! – grasnou.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-caminhar-da-jornada-da-vida-seu-albo-se-tornou-ativista-critico-do-consumismo-vazio-e-resolveu-se-envolver-com-pautas-ambientais-embora-fizesse-questao-de-usar-seu-carro-movido-a-combustivel-fossil-pois-segundo-ele-nao-queria-dirigir-um-carrinho-de-golfe-anabolizado" style="font-size:18px">No caminhar da jornada da vida, Seu Albo se tornou ativista, crítico do consumismo vazio e resolveu se envolver com pautas ambientais, embora fizesse questão de usar seu carro movido a combustível fóssil, pois, segundo ele “não queria dirigir um carrinho de golfe anabolizado”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Agora também não consumo carne por uma motivação muito clara: sou a favor do bem-estar animal – disse com alegria!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E consumir carne é sinônimo de sofrimento animal, Seu Albo? – indagou um colega de trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Claro! Animais também merecem ser bem tratados. Amo cachorros – Seu Albo se esquecera que a poucos anos atrás tinha feito uma cirurgia que o livrou de um problema de saúde mais grave, e que praticamente todas as cirurgias que hoje são feitas em seres humanos, eram, e continuam sendo, desenvolvidas com pesquisas que utilizam animais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-dessas-falas-e-ou-comportamentos-a-angustia-parecia-acompanha-lo" style="font-size:18px">Apesar dessas falas e/ou comportamentos, a angústia parecia acompanhá-lo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Certo dia teve um sonho. Nele via pessoas nadando e se chafurdando numa piscina ou poço de lama, não sabia muito bem quem eram, mas lhe pareciam muito familiares, embora não conseguisse descrever seus rostos. Claramente se divertiam com aquilo, como se fosse uma brincadeira. Mas o que aquela lama parecia mesmo era cocô. Ele não sabia explicar como aquilo parecia legal e empolgante. Era uma verdadeira esbórnia de merda. Quis participar também. Caminhou em direção à piscina/poço. Quando foi pular, acordou.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Finalmente, resolveu procurar por análise. Disseram-lhe que a análise junguiana era muito boa, pois trabalharia questões mais profundas e lá seus sonhos seriam investigados em detalhes. Levou a sério e logo teve seu primeiro encontro com o terapeuta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sabe Analista, sou uma pessoa muito resiliente! O problema é que as pessoas têm inveja de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E o que você tem de invejável?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Eu sou uma pessoa boa, faço as coisas certas, sou ético, respeito as pessoas, protejo o meio-ambiente e os animais, sou inclusivo e diverso, defendo a religião e a fé. Não tenho político de estimação, família para mim é sagrada e meus valores são inegociáveis. Minha vida vai muito bem. O problema são as pessoas que questionam minhas falas e meus comportamentos&#8230; Elas não me entendem!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; O problema são as pessoas&#8230; entendi. De quais pessoas estamos falando?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; De quase todas as quais eu me relaciono ou me relacionei de alguma forma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Todas é muita coisa, não?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Na verdade, acho que só tem uma &#8211; os olhos da Albo lacrimejaram, e continuou:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Eu! Eu não me entendo. E às vezes acho que sou um merda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por qualquer acaso da vida, este texto caiu nas mãos de Seu Albo, que o leu atentamente. Ao terminar, apenas disse a si mesmo:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossa-tenho-um-amigo-que-e-exatamente-assim" style="font-size:18px">&#8211; Nossa, tenho um amigo que é exatamente assim.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8212;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-epilogo" style="font-size:22px">Epílogo</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Muitas vezes é trágico ver como uma pessoa estraga de modo evidente &nbsp;a própria vida e a dos outros, e como é incapaz de perceber até que ponto essa tragédia parte dela e é&nbsp; alimentada progressivamente por ela mesma. Não é a sua consciência que o faz, pois esta lamenta e amaldiçoa o mundo desleal que dela se afasta cada vez mais. Pelo contrário, é um fator inconsciente que trama as <strong>ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito</strong>” </em>(OC 9/2, §18).</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O <strong>retorno ao caos</strong> era considerado pelos alquimistas como uma parte da obra. E o estado da nigredo (negrura) e mortificatio (mortificação, morte), seguido do ignis purgatorii (fogo do purgatório ) e da albedo (alvura). O espírito do caos é indispensável para a obra [&#8230;]. O inconsciente é bom e mau, ou nem bom nem mau. Ele é a mãe de todas as possibilidades”</em> (OC 14/1, §247).</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Entre os alquimistas, o Paraíso é um símbolo popular do albedo (alvura), isto é, do estado de <strong>inocência readquirido</strong>&#8230;”</em> (OC 9/2, §373).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-termos-psiquicos-a-albedo-so-cumpre-com-seu-objetivo-alquimico-quando-compoe-um-par-de-opostos-com-a-nigredo-levando-de-maneira-consequente-a-citrinitas-amarelecimento-e-em-seguida-a-rubedo-vermelhidao-que-e-um-simbolismo-da-sintese-dos-opostos" style="font-size:18px">Em termos psíquicos, a <em>albedo</em> só cumpre com seu objetivo alquímico quando compõe um par de opostos com a nigredo, levando de maneira consequente à <em>citrinitas</em> (amarelecimento) e em seguida à <em>rubedo</em> (vermelhidão), que é um simbolismo da síntese dos opostos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Do contrário, uma pessoa “alba” será aquela que vive sua fantasia paradisíaca de si mesma, composta pelas próprias verdades, circunscrita ao conhecimento dos padrões típicos e mais aprazíveis do ego, como se esse fosse toda a psique. Ela chamará a isso de “autoconhecimento”. Em suma, uma pessoa “alba” será aquela que viverá uma suposta “clareza” dos limites da consciência, como se esta fosse sua totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Albo</em>: (do latim), claro, branco. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/rafaelrodrigues/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/rafaelrodrigues/">Rafael Rodrigues de Souza &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Crescer dói?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/crescer-doi/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Paula Borba dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Mar 2026 21:51:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[crescer]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[red: crescer é uma fera]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A partir de uma leitura simbólica do filme Red: Crescer é uma Fera, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO: </strong>A partir de uma leitura simbólica do filme <em>Red: Crescer é uma Fera</em>, este texto busca explorar a pergunta “crescer dói?”. A animação narra a jornada de Mei, uma adolescente que se transforma em um panda vermelho sempre que suas emoções transbordam. Partindo da ideia de que o amadurecimento só se torna possível por meio das relações que estabelecemos com o outro e, sobretudo, por meio do diálogo honesto com as emoções que nos atravessam, a análise utiliza a narrativa da Pixar como pano de fundo para refletir a respeito de quanto o crescimento psíquico exige confronto, coragem e vínculos verdadeiros. Entre rituais de contenção, expectativas parentais e a busca por autenticidade, o filme se revela como uma metáfora potente sobre a força transformadora dos relacionamentos e sobre a importância de libertarmos aquilo que, por medo ou lealdade, mantemos aprisionado dentro de nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-filme-red-crescer-e-uma-fera-2022-e-uma-animacao-da-pixar-sensivel-e-envolvente-que-conta-a-historia-de-mei-lee-uma-adolescente-de-13-anos-que-vivencia-descobertas-e-tensoes-tipicas-desta-etapa-da-vida" style="font-size:18px">O filme <em><strong>Red: Crescer é uma Fera</strong> (2022)</em> é uma animação da Pixar sensível e envolvente que conta a história de Mei Lee, uma adolescente de 13 anos que vivencia descobertas e tensões típicas desta etapa da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto é surpreendida por mudanças latentes no corpo e no humor, ela também precisa lidar com sua família e com as heranças transgeracionais que compõem sua história. Mais do que uma trama sobre adolescência e seus ritos de passagem, é um convite para observarmos o poder transformador de nos relacionarmos com o outro e com as emoções que nos atravessam a partir desses encontros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-a-partir-desse-pano-de-fundo-que-este-texto-se-propoe-a-investigar-a-pergunta-titulo-crescer-doi" style="font-size:20px">É a partir desse pano de fundo que este texto se propõe a investigar a pergunta título: crescer dói?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa apresenta Mei como a filha “perfeita”, profundamente dedicada a corresponder às expectativas dos pais, sobretudo de sua mãe, Ming, cuja postura zelosa, amorosa e controladora organiza toda a dinâmica familiar, enquanto o pai, Jin, cuida e oferece suporte de forma mais discreta. Esse vínculo, marcado por amor, orgulho e pressão, é o terreno onde nasce a tensão central: ao entrar na adolescência, Mei começa a vivenciar desejos e transformações corporais que a afastam da criança obediente que sempre foi. Entre o conforto da infância e o chamado do novo, ela experimenta o primeiro ciclo menstrual e, simultaneamente, descobre que suas emoções mais fortes a fazem transformar-se em um panda vermelho gigante.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Através do Panda Vermelho, a personagem vai nos ensinando que só podemos nos desenvolver psiquicamente dialogando com as emoções que nos compõem e que nossas relações são terrenos férteis para nossa dialética emocional. É no encontro com nossos entes queridos que podemos fazer reencontros e confrontos com as múltiplas e contraditórias partes que nos habitam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-ensina-gugguenbul-craig-somente-mediante-ao-intercambio-emocional-com-aqueles-com-quem-vive-uma-relacao-de-amor-e-que-uma-nova-dimensao-pode-penetrar-em-seu-mundo-amortecido-guggenbuhl-craig-2004-p-138-139" style="font-size:18px">Como ensina Gugguenbül-Craig: “somente mediante ao intercâmbio emocional com aqueles com quem vive uma relação de amor é que uma nova dimensão pode penetrar em seu mundo amortecido” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 138-139).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na teoria, parece simples, e até poético, imaginar essa troca emocional, mas Mei revela o quanto esse processo pode ser assustador quando temos de encarar os aspectos destrutivos e agressivos da nossa própria “fera”. Isso acontece porque relacionar-se exige intimidade com o outro e, antes de tudo, conosco mesmos. Ela evidencia o quanto é difícil aceitarmos nossas partes sombrias e indesejáveis, e como, muitas vezes, fugimos da tarefa de cuidar de nossos vínculos, evitando conversas difíceis. Assim como Mei, quantas vezes não evitamos o confronto em nome de uma suposta harmonia? Talvez por medo de ficarmos vulneráveis, de decepcionarmos quem amamos ou de sermos feridos. E, pouco a pouco, vamos nos tornando menos permeáveis e sensíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É justamente nesse ponto de tensão, quando a tentativa de esconder ou conter o que é doloroso já não se sustenta, que a narrativa avança. Após um episódio marcante na escola, Mei recolhe-se ao quarto, um espaço que, simbolicamente, já não comporta seu novo tamanho nem o peso do que ela tenta esconder. É, então, que seus pais revelam a verdade: o panda é uma herança familiar transmitida de mãe para filha desde a ancestral Sun Yee, que recebeu esse poder como dádiva para proteger sua família durante a guerra. O segredo, enfim, vem à tona, junto da promessa de um ritual que poderá conter a fera na próxima lua vermelha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-trama-o-panda-vermelho-simboliza-o-que-na-psicologia-junguiana-chamamos-de-complexos" style="font-size:18px">Na trama, o Panda Vermelho simboliza o que, na psicologia junguiana, chamamos de complexos:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"> núcleos emocionais autônomos, carregados de significados, afetos intensos e impulsos que emergem tanto da história pessoal quanto da herança coletiva. Na família Lee, esse legado aparece em explosões emocionais e comportamentos repetitivos, nos quais as mulheres são tomadas pelo panda como se perdessem momentaneamente a própria consciência, um retrato preciso de um complexo constelado. O filme, assim, evidencia a força dos complexos familiares que atravessam gerações e mostra como a família passou a realizar rituais para aprisionar esse espírito em amuletos, numa tentativa de livrar-se desse estado avassalador e impedir que as emoções comandassem suas ações.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica soa muito próxima da nossa própria contemporaneidade, em que nos tornamos cada vez mais defendidos e impermeáveis, acreditando que negar ou conter nossas emoções impede o “estrago feito pelo panda”. E é possível compreender o tamanho desse temor, pois, segundo Jung, ao lidar com tais forças, estamos, de certo modo, lidando com a ira de Deus, que ele assim definiu:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>É um nome apropriado para todas as grandes emoções que ocorrem em meu próprio sistema psíquico e que dominam minha vontade consciente, apoderando-se do controle sobre mim mesmo. É por este nome que designo tudo o que se atravessa de forma violenta e desapiedosa, o itinerário por mim traçado; tudo o que subverte minhas concepções subjetivas, meus planos objetivos, e interfere no curso da minha vida, seja para o bem seja para o mal (JUNG,&nbsp; p. 146, 2012).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo da narrativa, Mei experimenta na própria pele o quanto é arriscado e trabalhoso “desafiar os deuses”, sobretudo quando isso envolve decepcionar os pais; trata-se do processo de diferenciação descrito pela psicologia analítica, em que o jovem começa a se reconhecer como alguém distinto da família e passa a buscar a própria identidade. À medida que aguarda o dia do eclipse lunar, ela aprende a se relacionar com seu Panda Vermelho, permitindo-se viver suas experiências, conquistando autenticidade e reconhecendo-se no mundo para além do olhar materno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-movimento-descobre-que-incorporar-o-urso-tambem-traz-ganhos-torna-se-popular-na-escola-e-recebe-o-afeto-incondicional-das-amigas" style="font-size:18px">Nesse movimento, descobre que incorporar o urso também traz ganhos: torna-se popular na escola e recebe o afeto incondicional das amigas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ponto de virada surge quando decide ir ao show de sua banda preferida, mesmo sem a aprovação dos pais, trabalhando para juntar o dinheiro necessário para os ingressos, uma metáfora clara de que toda transformação exige esforço e tem um preço. E, ao afirmar que “não é um simples show, é um portal para a vida adulta”, Mei ecoa uma imagem que Jung também propõe, ao comparar a passagem da infância para a adolescência a um verdadeiro nascimento:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>No estágio infantil da consciência, ainda não há problemas; nada depende do sujeito, porque a própria criança depende inteiramente dos pais. É como se não tivesse nascido ainda inteiramente, mas se achasse mergulhada na atmosfera dos pais. O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, que este frequentemente se impõe desmedidamente (JUNG, 2013a, p. 346-347).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A imagem do parto como metáfora para o nascimento psíquico da adolescência é profundamente rica. Do ponto de vista do bebê, podemos imaginar o desconforto de não caber mais naquele espaço antes seguro e acolhedor, que, de repente, se torna estreito e insuficiente. Para nascer, ele precisa se lançar por um canal apertado rumo a um mundo vasto, com muita claridade e completamente desconhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As contrações que impulsionam essa passagem são dolorosas, inevitáveis e requerem esforço mútuo; tanto mãe quanto bebê dependem de se renderem ao fluxo natural da vida. E, do ponto de vista materno, o parto natural é uma experiência de dor visceral, que exige entrega absoluta e deixa marcas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-nascimento-do-adolescente-tambem-nao-sera-indolor-pais-e-filhos-atravessam-tensoes-intensas-e-o-processo-nao-termina-no-parto" style="font-size:18px">Assim, o nascimento do adolescente também não será indolor: pais e filhos atravessam tensões intensas, e o processo não termina no parto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Depois dele, existe o desafio de adaptação: o bebê precisa aprender novas formas de respirar e alimentar-se, enquanto a mãe enfrenta o puerpério, um período emocionalmente denso e exigente. Da mesma maneira, a entrada na adolescência inaugura um novo modo de existir, que demanda força, coragem e um reajuste honesto do vínculo entre pais e filhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse contexto simbólico que surge o segundo grande conflito da trama: Mei descobre que o show de sua boyband favorita acontecerá exatamente no dia do ritual destinado a aprisionar seu panda. Essa “coincidência” a obriga a encarar uma escolha inevitável entre lealdade à família e seu próprio rito de passagem. É impossível ter as duas coisas ao mesmo tempo. Inicialmente inclinada a seguir o ritual, ela se sensibiliza com a atitude do pai, que lhe mostra gravações em que aparece feliz com as amigas e revela que o panda de Ming, sua mãe, era muito mais destrutivo, carregando uma ferida antiga.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-reconhecer-essa-historia-e-validar-a-singularidade-da-filha-o-pai-atua-como-uma-especie-de-guia-interno-ajudando-a-a-perceber-que-pode-e-precisa-decidir-a-partir-de-si-mesma" style="font-size:18px">Ao reconhecer essa história e validar a singularidade da filha, o pai atua como uma espécie de guia interno, ajudando-a a perceber que pode, e precisa, decidir a partir de si mesma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao crescer, os filhos inevitavelmente rompem expectativas, e isso dói nos pais. Ming expressa essa dor de forma explosiva quando Mei abandona o ritual e escolhe manter seu panda para ir ao show, surgindo como um panda colossal que simboliza sua fúria e medo. No confronto final, mãe, filha, avó e tias entram juntas em uma espécie de floresta mágica (o inconsciente familiar), onde encaram feridas herdadas e aceitam que Mei seguirá com seu panda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse processo, Ming reconhece o peso de ter vivido para agradar a própria mãe e, ao soltar essa exigência, permite que Mei faça escolhas mais autênticas. A separação é dolorosa, mas necessária: Mei sustenta sua decisão apesar do medo, e Ming&nbsp; suporta o corte simbólico do cordão umbilical. Por fim, ao encontrar a ancestral que originou o panda, Mei pergunta se pode se arrepender, mas recebe apenas um abraço afetuoso e silencioso, um chamado para confiar em si mesma, mesmo diante do desconhecido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-crescer-afinal-e-um-caminho-sem-retorno-uma-vez-ampliada-a-consciencia-nao-e-possivel-voltar-ao-estado-anterior" style="font-size:18px">Crescer, afinal, é um caminho sem retorno; uma vez ampliada a consciência, não é possível voltar ao estado anterior.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é exatamente isso que vemos ao final do filme: Mei emerge mais autêntica e serena, capaz de ressignificar o panda e, com isso, romper o padrão familiar que a aprisionava. Agora, ela dialoga com suas emoções, nem se submete cegamente a elas, nem tenta eliminá-las. Sua mãe também cresce: guarda o espírito do Panda em um novo amuleto, um bichinho virtual que precisa ser cuidado e alimentado. O Panda, antes preso num pingente rígido e silencioso, passa a ter espaço para se relacionar com ela, que, por sua vez, deve sustentar esse vínculo vivo. Afinal, “<em>quando duas pessoas se encontram, suas psiques se defrontam em sua totalidade; o consciente e o inconsciente, o dito e o não dito, tudo afeta o outro</em>” (GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 50).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-fim-com-o-longa-metragem-testemunhamos-a-forca-do-crescimento-individual-e-familiar-que-emerge-de-um-processo-amoroso-e-doloroso-de-mudanca-crescer-so-e-possivel-a-partir-das-relacoes-e-da-coragem-de-transgredir-e-doi-mas-vale-a-pena" style="font-size:18px">Por fim, com o longa-metragem, testemunhamos a força do crescimento individual e familiar que emerge de um processo amoroso e doloroso de mudança. <strong>Crescer só é possível a partir das relações e da coragem de transgredir e dói, mas vale a pena</strong>!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É um trabalho para toda a vida, aqui ilustrado na turbulência sagrada da adolescência e no impacto que ela provoca no universo parental. Encerro refletindo se o nosso maior desafio é lançar dos amuletos que nos aprisionam ou anestesiam, das antigas formas de proteção que já não nos servem para libertar o espírito do nosso próprio Panda, portanto, o convite permanece no ar: o que ainda mantemos aprisionado em nós, acreditando ser segurança, mas que, na verdade, impede o nosso crescimento?</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Crescer Dói?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/2bi7x24762E?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/paula-borba-dos-santos/"><strong>Paula Borba dos Santos</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/">Glória G. de Miranda &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:19px"><strong>Referências bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BENEDITO, Vanda. <strong>Desafios à Terapia de Casal e de Família</strong>: Olhares junguianos da clínica contemporânea. 1. ed. São Paulo, Summus Editorial, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBÜHL-CRAIG, Adolf.<strong> O Abuso do Poder na Psicoterapia.</strong> 1. ed. São Paulo, Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Escritos diversos</strong>: Psicologia e Religião Ocidental e Oriental. 3. ed. Petrópolis, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; <strong>A natureza da Psique.&nbsp; </strong>10. ed. Petrópolis, Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.<strong>Civilização em Transição.&nbsp; </strong>6. ed. Petrópolis, Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>O Desenvolvimento da Personalidade. </strong>14. ed. Petrópolis, Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RED: crescer é uma fera. Direção: Domee Shi. Produção: Lindsey Collins. [<em>S. l.</em>]: Pixar Animation Studios; Walt Disney Pictures, 2022. 1 filme (aprox. 100 min), son., color.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
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		<title>A dinâmica narcisista como um caminho de criação de consciência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-dinamica-narcisista-como-um-caminho-de-criacao-de-consciencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniella Schmidt]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 11:01:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexos]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
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		<category><![CDATA[Narciso]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O objetivo deste artigo é oferecer uma ampliação sobre o mito de Narciso, destacando e refletindo dinâmicas psíquicas importantes, que estão presentes desde o início na história. O que nos condena e às nossas relações? E, principalmente, como é possível, mesmo encurralados em extremos e polaridades, encontrarmos aquilo que ajuda a mirar o caminho?</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O objetivo deste artigo é oferecer uma ampliação sobre o mito de Narciso, destacando e refletindo dinâmicas psíquicas importantes, que estão presentes desde o início na história. O que nos condena e às nossas relações? E, principalmente, como é possível, mesmo encurralados em extremos e polaridades, encontrarmos aquilo que ajuda a mirar o caminho?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Afinal, Narciso já nasceu condenado. Era belo demais. Isto, por si só, constituía um grande pecado contra os deuses: um mortal mais bonito que um deus não era permitido. Para os gregos, tratava-se de uma <em>hybris</em>, um descomedimento, quando algo ultrapassa sua medida. Conforme vai crescendo, provoca paixões em todos, mulheres, homens, ninfas (Brandão, 1987).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O excesso está presente desde o berço. Pelo olhar da Psicologia Analítica, esse descomedimento pode se dar quando uma energia arrebatadora, coletiva, se impõe sobre uma situação, capaz de tomar para si não apenas um, mas muitos indivíduos. Testemunha-se, no mito, a irresistibilidade exercida pela poderosa constelação de uma imagem de natureza arquetípica, relacionada ao fascínio e desejo pelo Belo, pelo Perfeito. Um complexo autônomo foi ativado e toma conta da consciência. &nbsp;O relativo deixa de existir em nome do absoluto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-vezes-ficamos-encurralados" style="font-size:20px"><strong>Às vezes ficamos encurralados</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse excesso que nasce com Narciso pode ser visto como a representação de uma espécie de possessão arquetípica. Ele nem precisa se ver para já se encontrar identificado. Os arquétipos estruturam a base coletiva fundamental da psique humana, são conteúdos autônomos que possuem um caráter numinoso, ou seja, “mágico”, espiritual. Podem ter um efeito integrador ou dissociador. Enquanto o indivíduo permanece inconsciente da influência de uma imagem arquetípica, a possessão se mantém. Como sob um feitiço, a inflação se instala e afasta a individualidade, a vida interior subjetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-seguinte-trecho-de-jung-poderia-auxiliar-narciso-a-compreender-sua-tarefa" style="font-size:18px">O seguinte trecho de Jung poderia auxiliar Narciso a compreender sua tarefa:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“A característica da reação patológica é em primeiro lugar a identificação com o arquétipo que determina um tipo de inflação ou possessão pelos conteúdos emergentes, cuja irresistibilidade é um desafio a qualquer terapia. A identificação pode transcorrer no melhor dos casos como uma inflação mais ou menos inócua. Em todo caso, a identificação com o inconsciente significa uma certa fragilidade da consciência e nisso reside o perigo. A identificação não é “feita” por nós, não “nos identificamos”, mas sofremos inconscientemente o tornar-nos idênticos a um arquétipo, isto é, somos por ele possuídos. Em casos graves é mais importante fortificar previamente o eu do que compreender e assimilar os produtos do inconsciente.” (Jung, 2021a, p. 356)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse seria um dos trabalhos de Narciso. É preciso ver, olhar e, então reconhecer para se ter a chance de desprender-se de um enredamento desse tipo. Jung (2021a, p.48) reforça essa proposição quando diz que “<strong>o perigo principal é sucumbir à influência fascinante dos arquétipos, o que pode acontecer mais facilmente quando as imagens arquetípicas não são conscientizadas</strong>”. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com isso, ressalta a importância da tomada de consciência. Sobre investir na construção de um ego estruturante, ou seja, capaz de se adaptar e de lidar com os conteúdos objetivos e subjetivos que o cercam. Esse “ver”, a tomada de consciência, pressupõe ser capaz de discernir, separar, refletir, encarar. Trata-se da difícil tarefa da formação do ego para a conquista da individualidade no processo de individuação. O eu precisa nascer, crescer e amadurecer. O desenvolvimento da consciência é instigado por um impulso interno, inconsciente, que conduz ao encontro com o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desenvolver-uma-perspectiva-para-alem-do-que-se-conhece" style="font-size:20px"><strong>Desenvolver uma perspectiva para além do que se conhece</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É preciso se relacionar com o diferente, o outro, tanto dentro quanto fora de si. No caminho da criação de consciência, vamos construindo e desconstruindo pontos de vista, opiniões, entendimentos, convicções. Experimentando polaridades distintas em nós e na vida que nos cerca, dando espaço para a totalidade psíquica se expressar e se realizar. Desenvolver consciência é um trabalho árduo e contínuo, que resulta na compreensão de que somos muito mais do que sabemos ser. Jung explica que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“A consciência é a função ou atividade que mantém a relação dos conteúdos psíquicos com o eu. Consciência não é a mesma coisa que psique, pois a psique representa o conjunto de todos os conteúdos psíquicos; estes não estão todos necessariamente vinculados ao eu, isto é, relacionados de tal forma com o eu que lhes caiba a qualidade de conscientes”. (Jung, 2021b, p.440)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se a consciência surge à partir do mar do inconsciente de onde viemos, a separação e a diferenciação da dimensão arquetípica são tarefas inegociáveis para criação do sujeito. Fazemo-nos inteiros pelo discernimento, no contato com esse outro em nós, representado por aspectos de Sombra, complexos, ambiguidades e contradições, o belo e o feio em si mesmo. É importante refletir. Narciso ainda se encontrará com o espelho, que o levará à possibilidade de criar reflexão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-enquanto-o-espelho-nao-vem" style="font-size:18px">Enquanto o espelho não vem&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pode ser prudente mantermos por perto tanto nossa pequenez quanto o diálogo criativo com o inconsciente.&nbsp; Lembrar que ego e consciência são uma pequena fração da psique humana, ou seja, conhecemos, diretamente, apenas uma parte do que somos. Para além do que se vê, existe o Inconsciente: autônomo, indomável, criativo, pulsante; o “psíquico desconhecido” (Jung, 2021c, p.131-132). As chances do ego residem em saber se ele é capaz de estabelecer um relacionamento com o inconsciente e a Alma, de forma humilde e atenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A totalidade psíquica convida o “eu” a se desenvolver e, pelo amadurecimento, se desprender das identificações coletivas, rumo a uma individualidade que possa estar à serviço da coletividade, mas não guiada por ela. Para seguir este caminho, precisa-se mais que apenas ver, precisa-se ver além. Ver a si e além de si. A alteridade é necessária, e, à partir, dela o exercício da nossa capacidade de ampliar e incluir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alteridade-comeca-dentro-de-cada-individuo-tem-a-ver-com-reconhecer-a-diferenca" style="font-size:18px">A alteridade começa dentro de cada indivíduo, tem a ver com reconhecer a diferença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psique é, por natureza, antinômica: consciente e inconsciente, feminina e masculina, luz e sombra. Suas relações se dão através de mecanismos compensatórios e complementares, que exercem uma ação autorreguladora do aparelho psíquico. Existimos entre polaridades e o intercâmbio energético entre elas configura-se saúde psíquica. Então, se existe um “eu” na totalidade da esfera psíquica, há também o “não-eu”. Não é possível conhecer a si mesmo sem estar diante do outro e, enquanto isso não acontece, não alcançamos a alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez Narciso tenha ficado tempo demais “encarcerado” na evitação sugerida pelo Oráculo, o qual disse que ele viveria muitos anos com a condição de não se ver.&nbsp; A imagem do mito traz um jovem frio, alheio às relações de afeto, ao interesse pelo outro, desconectado de Eros. Experimentando o mundo apenas na incipiência de sua esfera individual, regredido e fixado em um aspecto infantil, distante de sua profundidade. Pode-se pensar que ele está inteiro consigo, mas, na verdade, lhe falta contraste, o contraponto relacional capaz de lhe revelar a inteireza. Como uma criança não tem consciência da complexidade e diversidade em si e na vida, Narciso percebe apenas uma pequena parte do que ele e o mundo podem ser.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-perigo-do-excesso" style="font-size:20px"><strong>O perigo do excesso</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Enquanto não se afasta, minimamente, do jugo do arquétipo, o indivíduo preso numa dinâmica narcisista mantém-se no excesso e identificado. Em outras palavras, exageradamente unilateralizado, o que também pode ser uma posição considerada como “pecado”, uma <em>hybris</em> para a totalidade psíquica: ser, demasiadamente, uma coisa só. Uma consciência fixada unilateralmente está tomada por um complexo dominante, desprovida de suas habilidades de discernimento e diferenciação, enfeitiçada. No caso de Narciso, isso aparece como uma maldição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mito começa a revelar as consequências desse descomedimento:&nbsp; comportamentos obsessivos, fixados e que, enantiodromicamente, se compensam nas extremidades. Muitos desejam ardentemente o jovem, enquanto ele rejeita quem se aproxima. Essa é uma dinâmica que já se delineava na história e que se amplifica com o aparecimento da relação de Eco e Narciso, como se uma lupa fosse colocada para que não se perdesse de vista. De um lado, o desejo ardente e compulsivo pelo amor-objeto. Do outro, a fuga e total falta de interesse, desconexão. À fixação unilateral de Narciso faltava a oposição, por isso ele não se interessava.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tensao-leva-a-criacao" style="font-size:20px"><strong>A tensão leva à criação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez a vivência dessa dinâmica opositiva e compensatória, “desejo x desinteresse”, possa ser a projeção de algo novo, de uma necessidade interna que começa a se inquietar no âmago de Narciso. Uma necessidade ainda não conhecida por ele, mas que pulsa nas profundezas da sua psique. A unilateralidade sofre a pressão da tensão dos opostos e a angústia fundamental para que algo novo possa se realizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando se fica preso no extremo de uma polaridade, sem diálogo e sem relativização, o resultado são relações e indivíduos fechados e alheios ao interesse pelo o que é do outro, pelo o que a troca pode oferecer, isolados para novos afetos e possibilidade. Perde-se amplitude e profundidade. Também não se vive situações de conflito, crise e angústia, tão necessárias para o amadurecimento pessoal e conquistas de aptidões e recursos internos para lidar com a vida com inteligência emocional. Deixa-se de fazer contato com dimensões humanas importantes que levam à experiência integral da psique, como a vivência da raiva, frustração, decepção; situações onde é preciso se reinventar, buscar novas referências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-unilateralidade-e-um-aspecto-inerente-ao-ego-tem-a-ver-com-a-formacao-da-identidade-consciente-do-individuo" style="font-size:18px">A unilateralidade é um aspecto inerente ao ego, tem a ver com a formação da identidade consciente do indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A consciência escolhe, decide e, naturalmente, elege um aspecto ou caminho, negligenciando outro. Algo sempre fica para trás, escondido ou não desenvolvido. Pela dinâmica energética compensatória da psique, aquilo que não foi vivido na consciência perde valor e passa para a esfera do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por um lado, isso é um mecanismo inato e necessário para a construção da individualidade, da singularidade humana, para o dar-se conta de si. Por outro, pode vir a ser aquele pecado ou feitiço que condena. Quando a tensão entre os opostos aumenta, quanto maior a identificação unilateral, mais intensamente os conteúdos inconscientes e suas projeções atuarão para compensar e autorregular os excessos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espelho-tambem-pode-salvar" style="font-size:20px"><strong>O espelho também pode salvar</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Então, Narciso é o rapaz que nasce mais belo que os deuses, cuja mãe tenta afastá-lo de um contato consigo mesmo. Afinal ele não pode se ver se quiser continuar vivo. Cresce rodeado de pessoas apaixonadas e interessadas por ele; tanto desejo que leva Narciso a experimentar um comportamento oposto compensatório, afastando-se e negando o relacionamento. Vivencia em si os dois extremos: é, ao mesmo tempo, a fonte de grande desejo e a sua negação. Se nada mais acontecesse no mito, como seria suportar uma vida inteira de tanto desencontro?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A qualidade da relação que o indivíduo estabelece consigo se projeta em seus relacionamentos interpessoais. Assim, quanto mais se conhece e se acolhe, quanto mais se vê, mais prontidão apresentará para estabelecer vínculos profundos e verdadeiros. Por outro lado, é na experiência da alteridade, através do relação com o outro, que é possível, a cada um, vislumbrar a própria alma, a imensidão inconsciente que quer se realizar. É esse outro o único capaz de se opor às convicções do eu, instaurando uma dialética em direção ao novo. O diálogo flexível com opostos nos amplia e através das relações nos vemos melhor e crescemos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica" style="font-size:18px">Jung explica:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“O si-mesmo, enquanto polo oposto, ou o absolutamente “Outro” do mundo, é a conditio sine qua non do conhecimento do mundo e da consciência de sujeito e objeto. É a alteridade psíquica que possibilita verdadeiramente a consciência. A identidade não possibilita a consciência. Somente a separação, o desligamento e o confronto doloroso através da oposição, pode gerar consciência e conhecimento.”&nbsp; (Jung, 2021a, p. 173)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Então, de novo, é preciso ver, a si e além, além daquilo que se mostra à primeira vista. Coisa que Narciso vai adiando pelo caminho. Demora, mas, quando a sede é grande e não dá mais para seguir em tanta secura emocional, chega a necessária hora de começar um movimento novo. Finalmente, chega a hora de Narciso se ver, mas, na verdade, ainda não vê realmente a si mesmo. No reflexo do lago, de depara com uma imagem, aquele excesso que o condena. Reencontra-se com a imagem constelada no início e segue tomado por ela, mas, agora, condenando-se ao apaixonamento cego e à superficialidade. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas, abaixo do que se vê, algo novo acontece. Pela primeira vez, o desejo e o encanto passam a fazer parte da consciência de Narciso. Ele não apenas rejeita e se isola. Ele agora precisa, se interessa, busca. Ainda distante do verdadeiro outro, mas, quem sabe, esse pode ser seu próximo passo: através do ato da reflexão, retirar a projeção do espelho para, enfim, encontrar-se com aquele algo mais, a Sombra e tudo que ela tem a oferecer. Afinal, esse é o caminho para o encontro afetivo genuíno. Como resume Jung, “O encontro consigo mesmo significa, antes de mais nada, o encontro com a própria sombra” (Jung, 2021a, p. 30)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com o trecho abaixo, Jung faz pensar se o feitiço do mito de Narciso pode estar mais perto do fim quando o jovem se debruça sobre seu reflexo, ensinando-nos que a predisposição para o diálogo e para a reflexão atenta pode nos salvar da superficialidade e do entorpecimento que nos mantém cegos e desconectados de nós e das nossas relações:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Verdadeiramente, aquele que olha o espelho da água vê em primeiro lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia, mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira.” (Jung, 2021a, p. 29)</p>
</blockquote>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;A dinâmica narcisista como um caminho de criação de consciência&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/huHkhBcuEh0?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela-schmidt/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela-schmidt/">Daniella Schmidt &#8211; Membro Analista em Formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito. Mitologia Grega, volume II. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2021c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2021a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2021b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: Narcissus, Jacopo Tintoretto (1519–1594)</em> &#8211; <em>Domínio Publico</em>. <em>Disponível em: <a href="https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tintoretto_-_Narcyz.jpg">https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Tintoretto_-_Narcyz.jpg</a></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>O Exílio Simbólico da alma na Era do Biohacking: uma crítica Junguiana ao Mito da Performance no Neoliberalismo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-exilio-simbolico-da-alma-na-era-do-biohacking/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Vania Lucia Otoboni]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 21:30:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo analisa, a partir da Psicologia Analítica, como a cultura da performance e as práticas de biohacking intensificam a unilateralidade da consciência e fragilizam o eixo ego–Self.  Os principais sintomas contemporâneos — burnout, ansiedade, depressão e fadiga moral — são compreendidos como manifestações compensatórias do inconsciente diante da hipertrofia racional e do empobrecimento da vida simbólica.  O texto propõe uma leitura clínica na qual tais sintomas funcionam como sinais reguladores, convocando a uma reorganização psíquica e à retomada da designação humana como fator irracional que motiva à emancipação da massa gregária em busca do desenvolvimento da personalidade e à inteireza.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo analisa, a partir da Psicologia Analítica, como a cultura da performance e as práticas de <em>biohacking </em>intensificam a unilateralidade da consciência e fragilizam o eixo ego–Self.&nbsp; Os principais sintomas contemporâneos — burnout, ansiedade, depressão e fadiga moral — são compreendidos como manifestações compensatórias do inconsciente diante da hipertrofia racional e do empobrecimento da vida simbólica. &nbsp;O texto propõe uma leitura clínica na qual tais sintomas funcionam como sinais reguladores, convocando a uma reorganização psíquica e à retomada da designação humana como fator irracional que motiva à emancipação da massa gregária em busca do desenvolvimento da personalidade e à inteireza.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao"><strong>Introdução</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A contemporaneidade neoliberal com um capitalismo selvagem e competitivo – que disputa aceleração de performance humana e de mercado, produziu um sujeito que vive sob o domínio do rendimento. Em meio à aceleração e competitividade permanente, o corpo torna-se projeto de otimização, e a mente, território de operações técnicas na busca de cognição de excelência. &nbsp;A lógica da performance transforma a vida psíquica em extensão do produtivismo neoliberal: mais foco, mais eficiência, mais resiliência, mais juventude — sempre mais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-cenario-a-pergunta-essencial-da-existencia-quem-sou-cede-lugar-a-exigencia-pragmatica-como-posso-funcionar-melhor" style="font-size:19px">Nesse cenário, a pergunta essencial da existência (“quem sou?”) cede lugar à exigência pragmática (“como posso funcionar melhor?”).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É nesse ambiente que o fenômeno do <em>biohacking</em> se expande: protocolos de aprimoramento cognitivo, modulação genética, estimulação cerebral, monitoramento contínuo e hiper disciplinamento corporal tornam-se práticas cotidianas. Contudo, esse movimento técnico de expansão contrasta com uma retração simbólica. À medida que o corpo é aperfeiçoado, a experiência interior empobrece. Quanto mais o ego tenta comandar a psique como se fosse máquina, mais se distancia de seus fundamentos simbólicos.<strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Neste ensaio, o termo <em>Self</em> é utilizado, em duplo sentido junguiano como centro organizador e regulador da totalidade da psique, princípio que orienta o equilíbrio entre consciente e inconsciente &#8211; e como a totalidade dos processos psíquicos incluindo tanto conteúdos conscientes como inconscientes. Já <em>alma</em> designa sua expressão vivencial — a dimensão sensível, reflexiva e simbólica pela qual o humano se reconhece em profundidade. (Cf. JUNG, 2015, OC 6, § 752)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O exílio contemporâneo da alma não significa sua eliminação, mas o enfraquecimento da ponte entre consciência e inconsciente pela ausência do cultivo de uma vida interna através de simbolizações, ritos e momentos reflexivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-interioridade-perde-densidade-e-a-vida-psicologica-passa-a-ser-regida-quase-exclusivamente-pelos-criterios-da-utilidade-para-o-mundo-exterior-a-alma-e-o-ponto-de-partida-de-todas-as-experiencias-humanas-e-todos-os-conhecimentos-que-adquirimos-acabam-por-levar-a-ela-jung-2013a-oc-8-2-261" style="font-size:19px">A interioridade perde densidade, e a vida psicológica passa a ser regida quase exclusivamente pelos critérios da utilidade para o mundo exterior. “<em>A Alma é o ponto de partida de todas as experiências humanas, e todos os conhecimentos que adquirimos acabam por levar a ela</em>” (JUNG, 2013a, OC 8/2, §261)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Com isso, instala-se uma unilateralidade típica das épocas de transição histórica: a hipertrofia da racionalidade instrumental e a negligência do sentir, perceber e intuir. A unilateralidade psíquica, quando dominante, gera compensações inevitáveis — sintomas que emergem como mensageiros do desequilíbrio. Burnout, depressão, ansiedade, insônia e sensação de vazio não são apenas patologias clínicas: tornaram-se símbolos de uma cultura que substituiu profundidade por desempenho e contemplação por autogerenciamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este artigo analisa, à luz da psicologia analítica, como a lógica da performance neoliberal e o imaginário tecnocientífico do <em>biohacking </em>produzem um sujeito desconectado de sua própria totalidade. Propõe-se compreender tais fenômenos não apenas como tendências sociais, mas como expressões arquetípicas de uma época que tenta suprimir sua sombra enquanto sacrifica a interioridade. Ao final, defende-se que uma ética simbólica do limite — capaz de restaurar o diálogo entre consciência e inconsciente — é condição para que a vida psíquica recupere sentido, profundidade e movimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-1-o-culto-neoliberal-a-performance-e-a-colonizacao-da-vida-psiquica" style="font-size:20px">1. <strong>O Culto Neoliberal à Performance e a Colonização da Vida Psíquica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sociedade contemporânea consagrou a performance como novo ideal civilizatório. Já não vivemos sob o modelo disciplinar descrito por Foucault (Cf.1975, pp.125-154) onde o poder moldava corpos por meio de coerção externa, mas estamos como aponta Byung-Chul Han, sob uma forma de <em>psicopolítica </em>na qual a dominação opera por meio da autovigilância voluntária e da exploração psíquica de si (Cf. HAN, 2015, pp. 38-45), a auto coerção do conceito <em>DIY – Do It by Yourself</em>. O sujeito torna-se empresário de sua própria existência, calculando cada gesto, cada esforço, cada instante de sua energia vital como investimento, sempre com vistas à máxima produtividade e buscando perpetuar-se e defender-se em um ambiente inóspito e competitivo na busca de consolidação de capital.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-cenario-o-rendimento-deixa-de-ser-mera-exigencia-profissional-para-transformar-se-em-imperativo-ontologico" style="font-size:18px">Nesse cenário, o rendimento deixa de ser mera exigência profissional para transformar-se em imperativo ontológico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A subjetividade é convertida em capital psicológico e o indivíduo passa a ser avaliado por métricas utilitaristas: <strong>memória, foco, disciplina, eficiência, velocidade de resposta, capacidade multitarefa</strong>. Trata-se de uma mutação antropológica na qual a dimensão simbólica e interior do humano cede espaço a uma lógica operacional.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na obra de Carl Gustav Jung encontramos diversas referências aos períodos históricos marcados por “doenças psíquicas coletivas”, associadas ao contágio emocional entre indivíduos e à unilateralidade da consciência — um “monoteísmo da consciência” que rompe o equilíbrio psíquico e favorece o adoecimento individual e cultural (Cf. 2014, OC 9/1, §276).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-atualidade-essa-unilateralidade-manifesta-se-na-absolutizacao-da-razao-instrumental-e-na-reducao-do-ser-humano-a-um-organismo-otimizado" style="font-size:18px">Na atualidade, essa unilateralidade manifesta-se na absolutização da razão instrumental e na redução do ser humano a um organismo otimizado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desaparece o mistério do existir e com ele a experiência profunda da interioridade. A vida perde densidade simbólica e torna-se transparente, tecnificada, calculada — uma vida “sem alma”. A completude humana é manter-se na tensão dos opostos e vem da compensação entre a consciência e o inconsciente, tanto pessoal como coletivo ou herdado, e se afastar dos conteúdos do inconsciente, pode causar consequências desagradáveis aos indivíduos. (Cf. JUNG, 2013a, OC 8/2, §138-139)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-cultura-da-performance-cria-um-modelo-psicologico-de-sujeito-que-deve-ser-permanentemente-mais-mais-saudavel-mais-bonito-mais-jovem-mais-produtivo-mais-inteligente-e-constantemente-sufocado-pela-exposicao-em-midias-sociais" style="font-size:18px">A cultura da performance cria um modelo psicológico de sujeito que deve ser permanentemente mais: mais saudável, mais bonito, mais jovem, mais produtivo, mais inteligente e constantemente sufocado pela exposição em mídias sociais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse “<em>mais</em>” infinito é a marca da inflação do ego moderno — um eu desconectado de qualquer referência ontológica profunda, que ignora a alma e rompe com sua função autorreguladora, porém profundamente adaptado em uma cultura e um meio social que impõem um ritmo competitivo na busca do prestígio, reconhecimento e dinheiro onde a alma não tem tempo para reflexões, e empreender tempo para si significa ficar desatualizado e ultrapassado pelo outro concorrente na vida material e acelerada.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como consequência, o indivíduo contemporâneo vive um esgotamento crônico não apenas físico, mas ontológico: sofre de fadiga de sentido focado somente no mundo externo esquecendo-se da sua vida interna, com medo do silêncio, da morte e de uma falta de completude. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pela tirania do ideal de produtividade, a consciência patologiza e manifesta sintomas por vias sombrias: epidemia de transtornos de ansiedade, depressão, burnout, pânico, insônia e uma desesperada sensação de inadequação acompanhada de culpa pela própria fragilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta busca do desempenho desloca a angústia existencial da pergunta <strong>“quem sou?”</strong> para a fuga hiperativa do <strong>“o que devo fazer?”</strong>. Esse desvio trágico inaugura a grande patologia espiritual do nosso tempo: a substituição do ser pelo fazer, doença silenciosa que lança as bases para a idolatria tecnocientífica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-2-biohacking-e-aperfeicoamento-cognitivo-o-corpo-como-laboratorio-do-ego" style="font-size:20px">2. <strong>Biohacking e Aperfeiçoamento Cognitivo: o corpo como laboratório do ego</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se a sociedade do desempenho criou a urgência de ultrapassar limites humanos, o biohacking surgiu como promessa de superação biológica. Originalmente associado a práticas experimentais de saúde e autocontrole corporal, rapidamente evoluiu para um movimento tecnocientífico global que visa aumentar artificialmente as capacidades físicas e cognitivas. O corpo deixa de ser experiência subjetiva e torna-se um projeto de engenharia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entre-suas-principais-tecnicas-encontram-se" style="font-size:18px"><strong>Entre suas principais técnicas encontram-se:</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:17px">Drogas de performance cognitiva (nootrópicos, microdosagem de psicodélicos, modafinil, metilfenidato);</li>



<li style="font-size:17px">Doping cognitivo de luxo, associado a elites corporativas e acadêmicas;</li>



<li style="font-size:17px">Terapia genética &#8211; modulação de genes ligados ao envelhecimento e desempenho neurológico;</li>



<li style="font-size:17px">Implantes neurais e interfaces cérebro-máquina para expansão de memória e cálculo;</li>



<li style="font-size:17px">Estimulação magnética transcraniana (TMS) para otimização de humor, atenção e aprendizagem;</li>



<li style="font-size:17px">Próteses de memória e suporte neural baseado em computação distribuída;</li>



<li style="font-size:17px">Monitoramento biológico contínuo com sensores corporais;</li>



<li style="font-size:17px">Hiper disciplinamentos corporais visando longevidade extrema e culto ao corpo.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O corpo humano passa a ser percebido não como organismo vivo, simbólico, integrado e portador de história, mas como <em>hardware</em> a ser atualizado. A subjetividade torna-se <em>software</em> mental que pode ser otimizado, reprogramado ou aumentado. Esse imaginário é claramente devedor do mito do homem-máquina de La Mettrie, para o qual ser humano é apenas uma condição transitória superável pela técnica, numa base&nbsp;<strong>materialista e mecanicista</strong>&nbsp;, reforçando o dualismo corpo-alma e defendendo a possibilidade de aprimoramento e transformação da condição humana através do conhecimento e da tecnologia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, do ponto de vista da psicologia junguiana, esta operação viola um princípio psíquico fundamental: <strong><em>a vida não tolera o monoteísmo da consciência</em></strong>. Tudo aquilo que é negado pela consciência retorna como sombra. Ao converter o corpo em máquina e a psique em algoritmo, o <em>biohacking</em> promove uma cisão radical entre interioridade e exterioridade, alma e biologia, Self e ego.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-afirmou-que-a-psique-e-um-sistema-auto-organizado-em-busca-de-totalidade-simbolica" style="font-size:18px">Jung afirmou que a psique é um sistema auto-organizado em busca de totalidade simbólica. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando o ego tenta controlar e ampliar artificialmente suas funções, rompe-se a relação de equilíbrio entre consciente e inconsciente e “o progresso conquistado pela vontade é sempre <em>convulsivo</em>.&nbsp;(2014, OC 9/1, § 276–277).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A consequência não é expansão humana, mas empobrecimento do ser. O crescimento tecnológico não é acompanhado por maturação psicológica, gerando uma forma inédita de patologia: a <em>megalotimia tecnológica, </em>desejo de poder ilimitadosem consciência de destino ou limite e este individuo é um subproduto cultural e do meio social e depende dos outros para validar sua autoestima. Simplesmente este individuo não consegue viver sem plateia de admiradores. O maior medo, reside em ser identificado com o fracasso ou na ala dos perdedores (Cf. LASCH, 1979, p.62)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O <em>biohacker</em> contemporâneo acredita que pode dominar a biologia, mas torna-se ele próprio dominado por uma compulsão de aperfeiçoamento permanente — um Fausto digital em permanente pacto com a técnica. Assim como no mito, o preço é sempre a alma: quanto mais poder adquirido, mais se distancia de si mesmo. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-3-narciso-digital-e-o-culto-a-performance-corporal-o-corpo-como-espetaculo-do-ego" style="font-size:18px">3. <strong>Narciso Digital e o Culto à Performance Corporal: o corpo como espetáculo do ego</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Fazendo-se uma analogia com a mitologia grega, pode-se dizer que Prometeu é o arquétipo da <em>hybris</em> ou orgulho imprudente tecnológico. Narciso é o arquétipo dominante da cultura contemporânea, pois ao invés de se voltar para a profundidade, o sujeito pós-moderno fixa-se na superfície. Sua essência é de um caçador que busca alcançar metas e despendem grande quantidade de energia na manutenção de sua imagem perfeita. Ele não busca mais a individuação — busca aprovação constante social e seguidores. &nbsp;Sua identidade não nasce de um movimento interior, mas de um reflexo exterior. O homem contemporâneo apaixona-se por sua própria imagem refletida, mas, por não reconhecer que é apenas reflexo, perde-se no vazio ontológico que o aprisiona.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hoje, essa dinâmica manifesta-se na tirania do corpo perfeito. A era do <em>biohacking</em> sustenta um culto sofisticado à performance física e estética, mascarado sob discursos de “saúde”, “longevidade” e “bem-estar”, e todas devem ser instagramáveis ou passiveis de exposição em redes sociais. Na prática, porém, a busca pela longevidade tornou-se a nova forma de evitar a angústia da morte. O culto ao corpo é, de fato, uma guerra psicológica contra a condição humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-e-esculpido-obsessivamente" style="font-size:18px"><strong>O corpo é esculpido obsessivamente:</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Dietas extremas,Jejuns intermitentes e regimes bioquímicos de modulação hormonal,</li>



<li style="font-size:18px">Terapias antienvelhecimento, infusões de peptídeos e modulações epigenéticas;</li>



<li style="font-size:18px">Esteroides anabolizantes e micro dose de testosterona;</li>



<li style="font-size:18px">Cirurgias e harmonizações faciais como linguagem identitária;</li>



<li style="font-size:18px">Treinos exaustivos e monitoramento metabólico 24h;</li>



<li style="font-size:18px">Rituais dopamínicos de alto prazer e baixa interioridade.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em termos junguianos, o culto à imagem é um claro sintoma de dissociação psíquica: quando o ego não suporta sua própria sombra, projeta seu valor no exterior e passa a viver de forma compensatória. O corpo perfeito é defesa inconsciente contra o sentimento de insuficiência interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quanto mais músculos, menos contato com a vulnerabilidade. Quanto mais filtros, menos contato com a verdade interior. Quanto mais performance, menos sentido de si. Esse corpo exibido é solitário. Ele é funcional, mas não simbólico. É visto, mas não habitado. Fascina, mas não realiza. Ele existe para evitar uma pergunta fundamental: quem sou sem minha performance?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E assim, Narciso digital caminha para seu destino trágico: morrer afogado na superfície. Sem perceber, seu reflexo devora sua presença real. Sua alma não desaparece — ela apenas é esquecida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-4-o-exilio-simbolico-da-alma-e-a-psicose-da-era-tecnologica" style="font-size:18px">4. <strong>O Exílio simbólico da Alma e a Psicose da Era Tecnológica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nenhuma civilização sobrevive quando perde a própria alma. O esvaziamento simbólico que atravessamos hoje não é apenas psicológico — é espiritual. Quando uma cultura rompe o eixo entre Self e consciência, a vida interior enfraquece, e o resultado é uma sociedade que funciona externamente, mas adoece por dentro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psique moderna sofre uma inflação do ego que tenta expulsar o mistério e a profundidade. Com isso, tudo o que sustenta a interioridade — sonhos, silêncio, imaginação, rituais — torna-se supérfluo diante da lógica da utilidade. O que parece inútil à performance é, justamente, essencial à alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Expulsa do centro da vida psíquica, a alma recolhe-se ao inconsciente e retorna sob a forma de sintomas: depressão, burnout, ansiedade, fadiga moral. São sinais de uma cultura que perdeu o sentido e já não sabe nomear seu próprio sofrimento. Por isso, vivemos o que pode ser chamado de <em>psicose cultural funcional</em>: seguimos produzindo, mas estamos desconectados de nós mesmos. A morte simbólica da alma manifesta-se quando:</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img decoding="async" width="801" height="227" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro.png" alt="" class="wp-image-12035" style="aspect-ratio:3.52891276685989;width:639px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro.png 801w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro-300x85.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro-768x218.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro-150x43.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/quadro-450x128.png 450w" sizes="(max-width: 801px) 100vw, 801px" /></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psicologia analítica nomearia esse fenômeno como <strong>psicose cultural funcional</strong>: uma sociedade inteira perdeu contato com os fundamentos simbólicos da realidade, mas continua a operar, a produzir e a consumir — como um paciente psiquicamente desconectado que, ainda assim, segue funcional no mundo externo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-individuo-vira-escravo-de-si-mesmo-e-alienado" style="font-size:18px"><strong>O indivíduo vira escravo de si mesmo e alienado:</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:17px">O corpo vira máquina</li>



<li style="font-size:17px">A consciência vira algoritmo – dados pragmáticos e definidos para realizar uma tarefa</li>



<li style="font-size:17px">A subjetividade vira dados (<strong>coletados, analisados e transformados em dados quantificáveis</strong>)</li>



<li style="font-size:17px">O desejo vira estímulo cerebral modulável de pouca duração</li>



<li style="font-size:17px">A identidade vira narrativa artificial instagramável</li>



<li style="font-size:17px">A transcendência vira irrelevância estatística</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas o Self não se deixa matar. Como princípio regulador da psique, ele busca compensação. Quando não é ouvido, ele pressiona a consciência com sintomas, crises e rupturas. Por isso as doenças contemporâneas não são falhas de serotonina nem erros de dopamina — são gritos da alma. O sofrimento hoje é o novo mito: <em>ele revela que ainda existe algo em nós que resiste ao exílio interior</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao" style="font-size:19px"><strong>Conclusão</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A técnica tenta substituir a alma, mas não pode. Pode modular humor, mas não criar sentido; pode ampliar memória, mas não gerar sabedoria; pode prolongar a vida biológica, mas não tocar o mistério de existir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O avanço técnico não constitui, em si, salvação psicológica: quando não acompanhado por uma maturação simbólica, transforma-se em agente de exílio da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Propomos a revalorização de uma <strong>ética simbólica do limite</strong> — práticas clínicas e culturais que reinvistam o mundo interno com significado: imaginação ativa e trabalho com sonhos, revisitar rituais culturais dentro de comunidades profissionais e formação crítica sobre tecnologia e corpo. Só assim a técnica poderá servir ao humano, e não o aprisionar num ciclo de aperfeiçoamento que suprime a capacidade de interiorização e, por fim, o sentido de existir estancando os indivíduos em certezas somente sociais e da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Carl Gustav Jung menciona: “<em>A vida é um fluxo, um fluir para o futuro e não um dique que estanca e faz refluir</em>”. (2014, OC 9/1, §278).</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A unilateralidade de uma vida centrada na aparência e no desempenho é um estanque por si gerando vazios e falta de sentido na busca da completude da vida.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="O Exílio Simbólico da alma na Era do Biohacking" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/-4UPP4TVPfM?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/vania-lucia-otoboni/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/vania-lucia-otoboni/">Vânia L. Otoboni &#8211; Analista em Formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista Didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul<em>. Sociedade do cansaço. </em>Petrópolis: Vozes, 2017<em>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>______Psicopolítica: </em>o neoliberalismo e as novas técnicas de poder<em>. </em>Petropólis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A Natureza da psique</em>. 10&nbsp; ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>______&nbsp;Aion: </em>estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petropólis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>______A vida simbólica.</em> 7.ed.Petropólis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>&nbsp;______Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo. </em>11 ed.Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>______Tipos Psicológicos.&nbsp; </em>Digital ed. Petropólis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LASCH, Christopher<em>.</em> <em>A cultura do Narcisismo</em>. São Paulo: Fosforo, 1979</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-exilio-simbolico-da-alma-na-era-do-biohacking/">O Exílio Simbólico da alma na Era do Biohacking: uma crítica Junguiana ao Mito da Performance no Neoliberalismo</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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