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	<title>Arquivos enantiodromia - Blog IJEP</title>
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	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/enantiodromia/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 26 Mar 2026 13:12:48 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos enantiodromia - Blog IJEP</title>
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		<title>“Minha filha, a cultura muda muito devagar!”</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/minha-filha-a-cultura-muda-muito-devagar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 12:40:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Enantiodromia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[avanço]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[enantiodromia]]></category>
		<category><![CDATA[fanatismo]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[retrocesso]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O objetivo deste artigo é apresentar algumas das categorias da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung que contribuem para o aprofundamento de questões que permeiam o par de opostos evolução-retrocesso no tocante à cultura e à sociedade.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/minha-filha-a-cultura-muda-muito-devagar/">“Minha filha, a cultura muda muito devagar!”</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-resumo-nbsp-o-objetivo-deste-artigo-e-apresentar-algumas-das-categorias-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung-que-contribuem-para-o-aprofundamento-de-questoes-que-permeiam-o-par-de-opostos-evolucao-retrocesso-no-tocante-a-cultura-e-a-sociedade" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>:&nbsp;<strong>O objetivo deste artigo é apresentar algumas das categorias da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung que contribuem para o aprofundamento de questões que permeiam o par de opostos evolução-retrocesso no tocante à cultura e à sociedade</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Eram três da tarde, em uma caminhada com minha mãe pela Av. Afonso Pena, uma das principais do centro de Belo Horizonte, daqui para ali — dentista, mercado, papelaria&#8230; Aos 13 anos, no idealismo adolescente, eu falava sem parar que os direitos dos homens e das mulheres eram iguais, que em sua luta as mulheres já haviam conquistado a divisão das tarefas domésticas e que assim seria quando eu me casasse etc. e tal. De repente, minha mãe parou, colocou a mão sobre os meus ombros, olhos nos olhos, e falou esta frase de forma tão solene que, mesmo que eu não tenha compreendido exatamente na época, jamais esqueci: “Minha filha, a cultura muda muito devagar!”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hoje, 35 anos depois, recordo-me constantemente desse ensinamento. A cada notícia de feminicídio; toda vez que escuto uma mulher com estudo e carreira contar o jeito de lidar com o acúmulo de funções — distante da transformação que a Tania adolescente afirmava ter chegado (e não que só deva chegar para essas, mas que se esperaria dessas um posicionamento mais progressista); nos retrocessos nas leis ambientais; a cada invasão de território das comunidades tradicionais; nas lágrimas derramadas por racismo e injúria racial; no retorno declarado da Doutrina Monroe&#8230; Que lista interminável me remete à lentidão da mudança cultural ou às suas idas e vindas!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O objetivo deste artigo é apresentar algumas das categorias da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung que contribuem para o aprofundamento de questões que permeiam o par de opostos evolução-retrocesso no tocante à cultura e à sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-pendulo-cultural-e-a-lei-da-enantiodromia" style="font-size:21px"><strong>O pêndulo cultural e a lei da enantiodromia</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A imagem do pêndulo para falar do vai-e-vem da História não é nova. Vários pensadores usaram-na para tratar dos ciclos das mudanças sociais, da alternância entre extremos, de pares de opostos como ordem e caos, conservador e progressista, entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung aprofundou a lei da enantiodromia, assim denominada por Heráclito (500 a.C.-450 a.C.), segundo o qual o que existe transforma-se em seu contrário. Segundo o pai da Psicologia Analítica, enantiodromia designa “a oposição inconsciente no decorrer do tempo” (JUNG, 2020b, §795). Para ele, quando a consciência fica unilateralizada em determinada direção, cresce, com o passar do tempo, “uma contraposição inconsciente igualmente forte e que se manifesta, em primeiro lugar, na inibição do rendimento consciente e, depois, na interrupção da direção consciente” (Ibid.).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este movimento, que acontece na psique individual, ganha força ao se encontrar com acontecimentos exteriores que apresentam os mesmos elementos de conflito (cf. Ibid., §118). Os indivíduos formam a cultura, e a cultura influencia os indivíduos. De fato, na visão da Psicologia Analítica, não há tanta separação entre interior e exterior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-mesmo-paragrafo-jung-afirma" style="font-size:18px">No mesmo parágrafo, Jung afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se for possível encontrar e reconhecer a conexão entre o problema pessoal e os grandes acontecimentos contemporâneos, haverá uma libertação da solidão puramente pessoal, adquirindo o problema subjetivo a amplitude de uma questão geral da nossa sociedade toda.</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desde o século XIX as mulheres vêm conquistando pouco a pouco e às custas de muita luta direitos, como de frequentar a escola e depois o acesso à faculdade, de organização política e ao voto, as leis do divórcio. No Brasil, o reconhecimento constitucional da igualdade entre homens e mulheres, a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio, a criminalização da importunação sexual, entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, se em alguns indivíduos e talvez um ou outro grupo pontual chegou-se perto de um reconhecimento real da igual dignidade — da visão do lar como compromisso compartilhado entre quem nele mora e não como dever da mulher e no máximo ajuda do homem; do cuidado (de filhos menores ou pais idosos) como dever de amor dos que por eles são responsáveis, independente do gênero —, na sociedade como um todo ainda há muito o que conquistar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O boletim do Dieese publicado em 8 de março de 2025, com dados do terceiro trimestre de 2024, mostra, entre outras estatísticas, que as mulheres ganharam em média 22% a menos que os homens; homens não negros ganharam 115% a mais que mulheres negras; as mulheres gastam por ano o equivalente a 21 dias a mais que os homens com os afazeres domésticos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-paradoxalmente-ganha-forca-o-movimento-conservador-das-tradwives-as-esposas-tradicionais-que-defende-o-retorno-aos-antigos-papeis-de-genero" style="font-size:18px">Paradoxalmente, ganha força o movimento conservador das <em>tradwives</em>, as esposas tradicionais, que defende o retorno aos antigos papéis de gênero.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nas redes sociais cresce o número de influenciadoras “belas, recatadas e do lar”, as “esposas perfeitas” que cuidam primorosamente da casa, dos filhos, cozinham belas receitas e estão lindas, arrumadas, com tudo no lugar e um sorriso no rosto na hora que seus maridos retornam do trabalho remunerado.&nbsp; Não se trata aqui de julgar opções individuais, cada uma com seu motivo, mas de lançar um olhar sobre o movimento coletivo tipicamente enantiodrômico. Às custas de tanto sangue, suor e lágrimas foram feitas pequenas conquistas para de repente vir esta força puxando na direção contrária!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas quem sabe bater no duro muro do patriarcado provocou esse retrocesso com igual força. Ele pode ser uma reação ao fracasso em grande escala da real transformação, pois, ao ter direito a uma carreira, o que se vê passa longe da igualdade, mas são mulheres exaustas que acumulam múltiplas jornadas de trabalho — profissão, casa, filhos, às vezes pais, planejamento financeiro da família etc. —, com a exigência extra de fazer tudo com bom humor e delicadeza. Isso sem falar das inúmeras que continuam sendo abusadas, violentadas e mortas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A todo bem corresponde um mal, e não pode entrar no mundo absolutamente nada de bem sem produzir diretamente o mal correspondente. Essa dolorosa realidade torna ilusório o sentimento intenso que acompanha a consciência do presente, ou seja, de sermos o ápice de toda a história humana passada, a conquista e o resultado de milhares e milhares de anos. Na melhor das hipóteses, isso é uma confissão de pobreza orgulhosa, pois somos também a destruição das esperanças e ilusões de milhares de anos. (JUNG, 2018, §154)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outros exemplos podem ser dados. Tanto questionamos a violência da colonização europeia no Brasil, o massacre dos povos originários, a tomada de suas terras, a imposição de outra religião, o não reconhecimento de sua riqueza, até de sua humanidade&#8230;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-hoje-mais-de-quinhentos-anos-depois-o-que-se-ve" style="font-size:18px">E hoje, mais de quinhentos anos depois, o que se vê?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se por um lado a presidente da Comissão de Anistia pede, de joelhos, um perdão inédito aos povos Krenak e Guarani Kaiowá por perseguições na ditadura militar, por outro os territórios deles retirados não são recuperados, e mesmo os demarcados são constantemente invadidos e saqueados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Com uma fiscalização ínfima e que varia de governo a governo, esses e outros povos continuam sendo exterminados e tendo suas terras apropriadas por fazendeiros, mineradores e até organizações criminosas, pelos donos do capital, lícito ou ilícito. Se por um lado já há o reconhecimento do saber tradicional, da sabedoria própria, da espiritualidade dos povos originários, por outro esse saber ainda é estereotipado como extravagante e folclórico, e continuamos mais voltados para a Europa e os Estados Unidos do que para nossas próprias raízes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-de-tantas-outras-pessoas-se-poderia-falar-do-preconceito-racismo-e-violencia-institucionalizada" style="font-size:18px">E de tantas outras pessoas se poderia falar do preconceito, racismo e violência institucionalizada. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Hoje se vê mais rostos negros ocupando cargos no Executivo, Legislativo e Judiciário, como personagens principais de telenovelas e apresentadores de telejornais. No entanto, apesar de somarem mais de 55% da população brasileira, as pessoas negras recebem uma renda equivalente a pouco mais da metade (58%) da que recebem não negros e concentram-se nas menores faixas salariais. Há desigualdades em todos os marcadores sociais. No tocante à violência, jovens negros têm quase três vezes mais chances de serem mortos do que não negros. 76% dos terreiros já sofreram ataques.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-quanta-coisa-continua-a-ser-feita-em-nome-de-deus" style="font-size:18px">E quanta coisa continua a ser feita em nome de Deus!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Após séculos de guerras religiosas e a entronização da Deusa da Razão na Catedral de Notredame, em Paris, durante a Revolução Francesa, vários Estados garantiram a laicidade em suas constituições. No Brasil, a separação Igreja e Estado vem oficialmente desde a proclamação da República e a Constituição de 1891. No entanto, os ideais da Razão não contiveram a barbárie, e hoje se vê uma nova e terrível mistura entre religião e política. Nela, ganha força um neoconservadorismo, que espalha <em>fakenews</em> negando a Ciência, o que se reflete na queda significativa na cobertura vacinal nos últimos anos e na negação das mudanças climáticas, apesar de todas as evidências. Quantos retrocessos acontecem nessa vertente, como a apelidada “PL da devastação”, que flexibiliza normas de licenciamento ambiental, logo após a COP30, em que tampouco se avançou como deveria nas questões ambientais!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Quando a consciência humana se pretende absoluta, destrona todos os deuses e des-anima o mundo, cresce igualmente e de forma perigosa a autonomia do inconsciente, fazendo frente a esta <em>hybris</em>.</strong> Quão atual então se torna esta frase de Jung (2020a, §142): “Aquele para quem ‘Deus morre’ se torna vítima da ‘inflação’”. E outros deuses se manifestarão com “poder benéfico ou destruidor.”!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-evolucao-possivel" style="font-size:21px"><strong>A evolução possível</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste vaivém do pêndulo da História, só existe um círculo vicioso? Ou é possível sonhar com uma real transformação? Para Jung (2018, §177), “as grandes inovações jamais vêm de cima, sempre de baixo, como as árvores que não nascem do céu mas germinam do solo, ainda que suas sementes tenham caído do alto”. E, com a expressão “de baixo”, ele não se refere apenas aos “mais simples e silenciosos da terra”, mas sobretudo a partir da interioridade. Não há mudança no mundo que não comece da transformação de cada pessoa; afinal, “o abalo do nosso mundo e o abalo de nossa consciência são uma e a mesma coisa” (Ibid.).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trilhar o caminho de dentro para fora, porém, requer coragem, porque passa exatamente por encontrar em si aquilo que mais se rejeita fora, por mergulhar em um mar de lama e podridão em busca dos gérmens de vida nova que estão exatamente aí. Costumamos criar uma linda imagem de nós mesmos e nela viver, chamando-a de “eu”. O que seriam apenas figuras de adaptação externa, chamadas na Psicologia Analítica de personas, tornam-se armaduras quando nos identificamos com elas a ponto de achar que somos apenas isso, tentando a todo custo conter e negar o resto de nós — bem maior, por sinal. Nestas máscaras, que lindos, éticos e bem-sucedidos somos! Aplausos para nós, críticas para todos os demais. “O homem ocidental vive numa espessa nuvem de autoincensação para dissimular seu verdadeiro rosto” (Ibid., §183).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dissimular-e-projetar-no-outro-o-que-nao-e-tao-digno-de-incenso-e-vangloria-e-o-outro-que-tem-defeitos-vicios-e-pensa-sente-e-comete-atrocidades-o-outro-e-incoerente-e-questionavel" style="font-size:18px">Dissimular e projetar no outro o que não é tão digno de incenso e vanglória. É o outro que tem defeitos, vícios e pensa, sente e comete atrocidades. O outro é incoerente e questionável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim vivem os indivíduos, bem como os grupos sociais e nações, projetando nas chamadas “minorias” ou nos estrangeiros todo o mal da civilização. A isso Jung denomina como “projetar despudoradamente nossa própria sombra” (Id., 2020a, §140), o que se trata de ilusão e perigo a tomar cuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O autoconhecimento começa exatamente pelo que não queremos ver em nós, por isso nos parece repugnante, a sombra, que contém os restos incompatíveis com a imagem que criamos de nós mesmos. Fazer alguma coisa pelo mundo, para Jung, começa por aprender a reconhecer e de alguma forma lidar com a própria sombra, a admitir que o que nos horroriza no mundo também acontece dentro. “Como poderá ver claramente quem não se vê a si mesmo, nem às obscuridades que inconscientemente impregnam todas as suas ações?” (Ibid.)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-pessoal-e-o-coletivo-acontecem-ao-mesmo-tempo" style="font-size:18px">O pessoal e o coletivo acontecem ao mesmo tempo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tantas características que fazem parte da nossa época nos atravessam e constituem, em um movimento duplo — nós fazemos o espírito do tempo, e ele nos faz. A pressa e a aceleração, o mundo cada vez mais interligado e conectado tecnologicamente, com pessoas viciadas em telas e desconectadas do profundo, desintegradas na falta de sentido, des-animadas e desvinculadas ou com vínculos frágeis entre si&#8230; A ansiedade generalizada. Quanta ânsia nos toma de assalto neste cenário!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ansiamos-por-significado-por-alma-pelo-humano-por-novos-valores-atitudes-e-relacoes-pelo-menos-que-e-mais-o-planeta-nao-aguenta-mais-o-excesso-e-cada-um-de-nos-tambem-nao" style="font-size:18px">Ansiamos por significado, por alma, pelo humano, por novos valores, atitudes e relações, pelo menos que é mais! O planeta não aguenta mais o excesso, e cada um de nós também não!</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Reconhecer o espírito do tempo é perceber para onde a História caminha, o que precisa ser melhorado, mas também o que precisa ser reconhecido, os valores a serem exaltados, os pequenos grandes movimentos que fazem a diferença no mundo. Jung falava do espírito do tempo e do espírito das profundezas, que nos traz uma identidade enquanto humanos, que está por trás e sustenta as mudanças de gerações. “Eu aprendi que, além do espírito dessa época, ainda está em ação outro espírito, isto é, aquele que governa a profundeza de todo o presente” (Id, 2013, p. 109).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É o caminho que ele mesmo trilhou, por volta dos seus 40 anos, como mostra no <em>Livro Vermelho</em>, passando de uma vida na exterioridade, na qual acontecem as projeções, para responder ao apelo que sentia dentro, indo mais fundo, seguindo a trilha do chamado do inconsciente nos sonhos e expressões criativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading is-style-large" id="h-estou-cansado-minha-alma-ja-dura-demais-o-meu-caminhar-minha-busca-por-mim-fora-de-mim-andei-durante-muitos-anos-tanto-que-esqueci-que-possuia-uma-alma-ibid-p-119" style="font-size:18px">“Estou cansado, minha alma, já dura demais o meu caminhar, minha busca por mim fora de mim. [&#8230;] Andei durante muitos anos, tanto que esqueci que possuía uma alma” (Ibid., p. 119).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando encontra o divino em si, o caminho de viver a própria vida, assim como Cristo o fez, aí vai acabando a separação interior-exterior; ao encontrar a alma dentro, aí poderá encontrá-la também nas coisas e nas pessoas (cf. ibid., p. 118). O fundo, como dito, é paradoxal, nele está o melhor e o pior, e exatamente no paradoxo se faz o sentido e a plenitude da vida. Aí está a vida criativa e criadora. “O espírito da profundeza possui, desde sempre e pelo futuro afora, maior poder do que o espírito dessa época que muda com as gerações” (Ibid., p. 109).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-caminho-da-vida-e-transformacao-nao-exclusao-nao-se-deve-jogar-fora-nada-mas-integrar" style="font-size:18px">O caminho da vida é transformação, não exclusão. Não se deve jogar fora nada, mas integrar. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Reconhecer tudo o que faz parte, à medida do possível, é que leva à ampliação da consciência. A alma é a porta-voz da totalidade psíquica, é através dela que consciência e inconsciente se comunicam. Por isso é a ponte entre o espírito do tempo e o espírito das profundezas. É aquilo que liga, pode trazer sentido e dar vida ao que conecta essas duas dimensões na nossa vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-um-saber-do-coracao-que-nao-se-encontra-em-livro-algum" style="font-size:18px">Existe um saber do coração, que não se encontra em livro algum.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Daí vem a sabedoria, que permite compreender a alma para viver plenamente a própria vida. É quando se deixa de apenas repetir o que vem de fora, emprestado — pelos pais, avós, ancestralidade&#8230; “Sem alma não há caminho para além deste tempo” (Ibid., p. 118, n.44).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung convida a olhar para o sentido da vida humana, o seu “para quê”, que se encontra no caminho da individuação, do tornar-se si mesmo, um arranjo singular de categorias universais, o que leva a uma abertura cada vez maior aos demais e ao todo. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este caminho só se realiza à medida em que se vive a própria vida, desenvolvendo o saber do coração ao se dar ouvido às suas pistas, compreendendo-as não de forma literal, mas simbolicamente, e assim seguindo a sua trilha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-so-nesta-bela-e-ardua-aventura-ha-possibilidade-de-real-transformacao-e-e-com-ela-que-a-psicoterapia-de-abordagem-junguiana-esta-comprometida" style="font-size:18px">Só nesta bela e árdua aventura há possibilidade de real transformação, e é com ela que a psicoterapia de abordagem junguiana está comprometida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na reflexão deste artigo foi possível perceber, portanto, a atualidade dos ensinamentos de Jung e sua contribuição para o aprofundamento das questões sociais e culturais que circundam o par de opostos evolução-retrocesso. Não se trata de um olhar apenas teórico, mas de um desejo profundo de mudança, na convicção de que o seu dinamismo é de dentro para fora e começa com cada pessoa.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/tania-pulier/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/tania-pulier/">Tania Pulier — Membro Analista/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lilian/">Dra. Lilian Wurzba — Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">DIEESE. Mulher chefia mais domicílios, mas segue com menos direitos e oportunidades sem trabalho. Boletim especial 8 mar. 2025. Disponível em: https://www.dieese.org.br/boletimespecial/2025/mulheres2025/index.html?page=1. Acesso em: 19 jan. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O livro vermelho</em>: edição sem ilustração. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Civilização em transição</em>. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Psicologia e religião</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2020a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. <em>Tipos psicológicos</em>. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2020b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">OBSERVATÓRIO BRASILEIRO DE DESIGUALDADES. Relatório 2025: Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades. Disponível em: https://combateasdesigualdades.org/wp-content/uploads/2025/08/RELATORIO_2025_AF.pdf. Acesso em: 19 jan. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VIEIRA, Isabela. Racismo religioso: 76% dos terreiros no Brasil sofreram violências. <em>Agência Brasil</em>, 7 dez. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2025-12/racismo-religioso-76-dos-terreiros-no-brasil-sofreram-violencias. Acesso em: 19 jan. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Harmonia e Desarmonia na Tensão: Antinomia, Enantiodromia e o Arco de Heráclito</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/harmonia-e-desarmonia-na-tensao-antinomia-enantiodromia-e-o-arco-de-heraclito/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Silvia Molina]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jun 2022 14:34:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[enantiodromia]]></category>
		<category><![CDATA[heráclito]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Heráclito (540 a.C.- 470 a.C.), grande filósofo do período chamado pré-socrático,&#160;é&#160;uma das fontes de onde bebeu Jung em suas elaborações sobre a psique e sua dinâmica. Aquele filósofo&#160;é&#160;reconhecido por formular o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Ele também propõe que a harmonia universal&#160;é constituída [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Heráclito</strong> (540 a.C.- 470 a.C.), grande filósofo do período chamado pré-socrático,&nbsp;é&nbsp;uma das fontes de onde bebeu Jung em suas elaborações sobre a psique e sua dinâmica. Aquele filósofo&nbsp;é&nbsp;reconhecido por formular o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias. Ele também propõe que a harmonia universal&nbsp;é constituída por tensões tal qual a do arco e da lira (CIVITA, 1973, p.79). Para <strong>Heráclito</strong> tudo flui, o mundo está&nbsp;em movimento perpétuo. Tudo&nbsp;é&nbsp;movimento e nada pode permanecer parado. Os opostos se alternam e estes são parte de uma mesma realidade, a qual acontece na mudança. Ou seja, só&nbsp;a mudança e o movimento são reais. Considera também que nos extremos os opostos coincidem, como em um círculo e que os opostos são aspectos da mesma coisa (SANTOS, 1990, p.5). O fluir contínuo de tudo resulta da tensão contínua dos opostos, opostos esses que não podem existir, se configurar, um sem o outro. Essa sua Doutrina da Unidade dos Contrários&nbsp;é&nbsp;considerada uma das mais originais contribuições de seu pensamento filosófico. Heráclito divisa na tensão constitutiva do Logos indiviso, uma forma de harmonia entre contrários, uma síntese contraditória e permanente na realidade, de modo que, por exemplo, podemos “ser e não ser” ao mesmo tempo. O aforisma “tudo flui como um rio” que sintetiza suas ideias, levou-o a ser identificado como o filósofo do devir. E deste modo também, “a verdade do ser&nbsp;é&nbsp;o devir” e “o ser apenas assegura a própria identidade através do devir” (ibidem, p.6). Ainda, para <strong>Heráclito</strong>,&nbsp;“do conflito de contrários existente no centro de todas as coisas e que preside a vida do universo resulta a mais bela harmonia” (ibidem, p.2). A respeito do pensamento de Heráclito, ressalta Santos (1990, p.7-8):</p>



<p class="wp-block-paragraph">A verdade que o comum dos homens parece não compreender, habituados como estão a ver os componentes do real separadamente,&nbsp;é&nbsp;como uma única coisa pode conter em si determinações opostas sem deixar de constituir uma unidade perfeita. A maioria deles, incrédulos acerca de tudo que ultrapassa a experiência sensível, tende a desprezar o UM e se atém&nbsp;à&nbsp;multiplicidade, que&nbsp;é&nbsp;aparente. Mas não Heráclito. (SANTOS, 1990, p.7-8).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Heráclito</strong> postula a&nbsp;“existência de algo primordial e unitário que persiste e explica a contínua transitoriedade manifestada pelas coisas da experiência” (ibidem, p.1). Propõe que para se perceber tal realidade&nbsp;é&nbsp;preciso se desvencilhar dos sentidos – isso pode ser entendido como a capacidade de metaforizar, de se desvencilhar da excessiva literalidade e unilateralidade? Sua imagem&nbsp;é&nbsp;de que o cosmos&nbsp;é&nbsp;um só&nbsp;e nasce do fogo e, de novo&nbsp;é&nbsp;consumido pelo fogo, em ciclos que se repetem pela eternidade. O fogo sendo o elemento primordial de todas as coisas, o&nbsp;<em>arché</em>&nbsp;(princípio) necessário a tudo e a todas as transformações (PORTO Ed, s/d). O fogo&#8230; Poderá o fogo ser entendido como energia psíquica? O&nbsp;<em>arché</em>&nbsp;se caracteriza como a ideia mais antiga na filosofia. Esta ideia&nbsp;é&nbsp;reconhecida como o ponto de passagem do pensamento mítico para o pensamento racional. O&nbsp;<em>arché</em>&nbsp;é o princípio e a realidade fundamental de que provém todas as coisas (idem).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das belas imagens resgatadas por Jung em suas reflexões sobre a tensão entre opostos&nbsp;é&nbsp;a do Arco de <strong>Heráclito</strong>. Santos (1990, p. 4) comenta que tanto Ártemis quanto Apolo, seu irmão gêmeo, amam a solidão e o maior prazer de ambos&nbsp;é&nbsp;o manejo do arco e da lira. E acrescenta: “O arco curvado sobre a lira, a tensão da madeira em um sentido e a corda em outro, contém um profundo significado no saber que o Oráculo faz ecoar: unidade entre divergentes” (idem). “A obra da vida&nbsp;é&nbsp;a morte e entre esses contrários persiste a irrecusável ligação, o inexorável vai-vem estabelecido pela convergência inerente&nbsp;à&nbsp;essência do arco” (idem). De <strong>Heráclito</strong> também&nbsp;é&nbsp;o aforisma&nbsp;“Todas as coisas vêm a ser segundo a discórdia e a necessidade” (fr. 80, idem). E também: “&#8230;dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia” (fr.8, ibidem, p.5).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Heráclito</strong> assume estarem os opostos reciprocamente excludentes na mesma via, mas em sentidos contrários e cunhou para designar tal aspecto da realidade o termo Enantiodromia. Este estende-se&nbsp;à&nbsp;noção de que uma força em um sentido gera outra em sentido oposto – como a tensão da corda do arco contra a qual se apoia uma flecha&nbsp;é&nbsp;necessária para lançar a flecha no sentido oposto. Jung adota este termo em relação&nbsp;à&nbsp;dinâmica psíquica, referindo-se aos conflitos entre conteúdos conscientes e inconscientes em que há cisão e inversão de polaridades. O movimento de oposição&nbsp;é&nbsp;entendido por Jung como fundamental no sistema de compensação energética da psique. Nesse contexto, Jung chega mesmo a propor que o mal possa ser necessário para produzir o bem e que, por outro lado, o bem, por Enantiodromia possa vir a produzir o mal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung a tensão entre divergentes reciprocamente excludentes&nbsp;é&nbsp;geradora da energia psíquica. O termo Enantiodromia de Heráclito, etimologicamente significa: correr em direção contrária. Jung considera ter Heráclito descoberto “a mais fantástica” das leis da psicologia, que considera ser a função reguladora dos contrários. Jung relembra ter Heráclito advertido que um dia tudo reverte em seu contrário (JUNG, 1987,&nbsp;§111, p.63-4). Acrescenta também, que em termos psíquicos, a Enantiodromia por si não resolve a questão dos pares de opostos, dado que em sua desorganização esta&nbsp;é&nbsp;tão unilateral quanto o oposto a que se contrapõe (ibidem, p.65). Por meio da Enantiodromia o polo antes inconsciente toma a consciência e pode destruir tudo o que anteriormente fora realizado pela consciência. Superada a crise pode haver uma ampliação da personalidade consciente, esta passando a atender mais amplamente&nbsp;às demandas do Self, mantendo com este um contato mais profundo. O processo se inicia quando um dos elementos do par de opostos&nbsp;é&nbsp;dissociado da consciência, havendo repressão da energia psíquica. Caracteriza-se então, uma cisão na qual um dos polos ou pontos de vista&nbsp;é&nbsp;aceito pela consciência. O outro&nbsp;é&nbsp;suprimido da consciência e permanece no inconsciente. Essa condição pode gerar sintomas físicos e psíquicos, quando o polo suprimido da consciência, pressiona ao ganhar energia psíquica. Isso ocorre porque em cisão, sem que os polos consciente e inconsciente mantenham contato, os opostos não mais regulam um ao outro. Um lado não mais controla o outro (cessa a antinomia). O polo inconsciente ganhará energia e a consciência estará continuamente com menos energia, estará mais defendida, mais sobressaltada. Nessa situação, se houver regressão de energia psíquica e a consciência não buscar o contato com o conteúdo que está no inconsciente, o conteúdo inconsciente poderá tomar a consciência e passar a destruir, a atacar e a desvalorizar tudo o que a atitude consciente anteriormente construiu e defendeu. Comenta Jung (1987, §111, p. 64) que quando um complexo concentra em si a maior parcela da energia psíquica, torna-se tão intensa a força de atração exercida por este foco que subjuga o eu, colocando-o a seu serviço. O eu identifica-se com esse foco de energia, passando a crer que fora e além dele não há outro desejo ou necessidade, podendo haver unilateralidade com grave comprometimento do equilíbrio psíquico. Quando há regressão da energia psíquica e a consciência entra em contato com o conteúdo ativado no inconsciente, ao qual a atitude consciente se opõe, a consciência se fortalece, se amplia, integra novas possibilidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Jung pode-se identificar o conceito de consciência&nbsp;à&nbsp;tendência psíquica&nbsp;à distinção dos opostos e o inconsciente como tendência psíquica&nbsp;à&nbsp;unificação desses (PIERI, p.357). A tensão de opostos, quando existe, busca o equilíbrio. Diz Jung que do ponto de vista energético, a oposição significa um potencial necessário a um fluxo, a um acontecimento, decorrente da busca de equilíbrio associada&nbsp;à&nbsp;tensão de opostos (JUNG, 2014, §426, p. 236). Também enfatiza que não será produzida energia se não houver tensão entre contrários. Disto decorre a importância de se encontrar o oposto da atitude consciente (JUNG, 1987, p.44, §78). Mas, na tensão entre opostos&nbsp;é&nbsp;produzido o sofrimento. Ainda assim, enfrentar essa condição&nbsp;é&nbsp;necessário para que se produza uma condição psíquica que traga novo conhecimento sobre si e o mundo, que leve a um novo equilíbrio, ou quietude psíquica (temporários). Nesse processo, inicialmente a psique aborda os opostos como contraditórios entre si, depois passa a considerá-los em contraposição e então, em relação de contrariedade, para finalmente poder entendê-los como em relação por meio de uma oposição correlativa (PIERI, p.357). A erupção do conflito desencadeia o processo de regressão da energia psíquica. A consciência em sua unilateralidade&nbsp;é&nbsp;constantemente compensada pela atividade inconsciente oposta. Quando se depara com um obstáculo que não consegue superar racionalmente, como uma tarefa insolúvel, há um represamento da energia psíquica, do fluxo constante da vida. Tal represamento da libido leva a que “os opostos, antes unidos no fluxo constante da vida, se dividam e se enfrentem como adversários sedentos de batalha” na qual se esgotam. “Da energia que perdem, constrói-se aquela terceira coisa que&nbsp;é&nbsp;o começo de um caminho novo” (JUNG, 1991, p.97, §133). Entretanto, uma condição possível que daí decorre&nbsp;é&nbsp;que o polo que domina na consciência passe a ser seu oposto. A unilateralidade da consciência dará origem&nbsp;à&nbsp;sua “contraposição inconsciente igualmente forte e que se manifesta, em primeiro lugar, na inibição do rendimento consciente e, depois, na interrupção da direção consciente”. Jung está assumindo por Enantiodromia “a oposição inconsciente no decorrer do tempo” (JUNG, 1991, p.404, §795). Isso levará à&nbsp;interrupção da vida anterior conforme descrito acima, constituindo nova unilateralidade. Para Jung, não há muitas alternativas ao enfrentamento das oposições dado considerar que “tudo o que&nbsp;é&nbsp;humano&nbsp;é&nbsp;relativo, porque repousa numa oposição interior de contrários, constituindo um fenômeno energético” (JUNG, 1987, p.67, §115), sendo a energia produzida necessariamente a partir de uma oposição. Para não ser dominado por esse processo seria preciso não reprimir o inconsciente, o que apenas o faria infiltrar-se sub-reptício. Mas, diferenciar-se do inconsciente, colocando-se diante dele, “como algo&nbsp;à&nbsp;parte e distinto de si” (ibidem, p.65, § 112), o que&nbsp;é&nbsp;muito difícil para a maioria das pessoas. Para Jung importa não reprimir a vida passada, mas conservar antigos valores e acrescer-lhes o reconhecimento de seu contrário (ibidem, p.67-8, §115-6). Esse processo se desenvolve de forma parcialmente sacrificial, envolvendo a renúncia de algo precioso&nbsp;– e disso emerge uma nova forma de libido uma nova forma de vida. O Eu se coloca como distinto da consciência e do inconsciente, fica suspenso entre as contradições. Isso remete a um processo de completude psíquica, não de perfeição. O indivíduo como que&nbsp;é&nbsp;obrigado a suportar o oposto que tensiona em benefício da completude, da inteireza, não da perfeição (JUNG, 1990, p.64, §123). Em termos práticos, a conciliação dos opostos requer compromisso e irracionalidade. Enfatiza Jung que os opostos não se conciliam pela razão. Em termos práticos, só&nbsp;se deixam conciliar, se surgir entre eles um novo elemento (<em>novum</em>), o&nbsp;<em>tertium non datur</em>&nbsp;“que seja diferente de ambos e, no entanto, capaz de absorver de forma igual a energia deles, sendo expressão de ambos e de nenhum”. Ainda acrescenta: “algo assim&nbsp;é&nbsp;impossível de imaginar, só&nbsp;a vida o pode criar” (JUNG, 1991, p.110-1, §161). Requer criação ou ação que&nbsp;“assume os opostos como elementos necessários de coordenação”, talvez levando a “um ato criador afastando os preconceitos” (ibidem, p.307, §606). O pressentimento da criação abre o caminho na consciência mesmo esta não sabendo superar os contrastes, não reconhecendo o que os resolve e unifica. A nova configuração que também a consciência deseja “é o vir a ser de uma totalidade”, pela união (não unidade) dos contrários. Para constituir essa totalidade ocorre a chamada&nbsp;<em>Coniunctio Oppositorum</em>&nbsp;na qual a emergência de um símbolo permite a reunião das polaridades opostas presentes na psique e a presença viva de cada um dos polos em oposição (PIERI, p.360). Essa condição pode ser novamente associada&nbsp;à&nbsp;imagem do Arco de Heráclito&nbsp;– às tensões, novamente Antinômicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O arco da imagem de Heráclito, refere-se&nbsp;à&nbsp;tensão necessária&nbsp;à&nbsp;existência que requer Antinomia – uma oposição em que cada elemento do par de opostos necessários regula um ao outro. O termo Antinomia refere-se etimologicamente ao conflito de leis, filosoficamente, refere-se a uma contradição insolúvel entre duas proposições, sendo as duas igualmente demonstráveis (PIERI,40-1). A respeito da antinomia, no contexto heraclitiano, sintetiza Santos (1990, p.5):&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os princípios antinômicos, que o&nbsp;<em>L</em><em>ó</em><em>gos</em>&nbsp;reúne em seu devir, estabelecem entre si um bem ordenado jogo de convergências, em virtude do qual cada um afirma sua natureza, assegurando assim a própria identidade e ainda a identidade do todo. O todo e o não-todo, o convergente e o divergente, o consoante e o dissonante, se isolados, seriam abstrações sem verdade, incompreensíveis: apenas existem, um em função do outro, pertencentes que são a uma mesma (e única) totalidade. Esta, da mesma maneira, sem a permanente presença dos contrários, jamais seria o que em sua essência&nbsp;é&nbsp;(SANTOS, 1990, p.5).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung considera que a psique somente pode ser descrita em função de antinomias. Para ele, duas antinomias são fundamentais: a psique depende do corpo/o corpo depende da psique e o individual nada significa na perspectiva do geral/o geral nada significa na perspectiva do individual. Jung considera que no estudo da psique o todo somente pode ser abordado por meio de paradoxos e procedimentos intelectuais antinômicos (PIERI, 2002, p.41). “A totalidade psíquica viria a dar-se apenas por percepções antinômicas, e o objeto psique emergiria apenas na forma de um ser paradoxal”, o Si-mesmo ou Self (idem). No contexto junguiano, entretanto, “nossas afirmações intelectuais se dispõem de forma antinômica apenas onde nos encontramos na necessidade de conceder a condição de existência a alguma coisa de que fazem experiência, mas da qual não existe um saber” (idem). Ou seja, quando a consciência entra em contato com o inconsciente e apreende um novo conteúdo, não o faz de modo lógico, apolíneo. Obtém a respeito do novo conteúdo, informações algo&nbsp;“nebulosas”, ou difusas e indistintas. É preciso que o intelecto se exponha a isso que não compreende e não pode compreender, deve se expor a uma contradição, buscando captar alguns de seus aspectos. Para Jung, a vida psíquica&nbsp;é&nbsp;no limite, incompreensível, como o evidencia o conflito entre os aspectos físicos e espirituais. Ainda assim, a psique&nbsp;é&nbsp;nossa única experiência imediata. Ressalta Jung estarmos “de tal modo envolvidos em imagens psíquicas, que (&#8230;) tudo que nos&nbsp;é&nbsp;possível conhecer&nbsp;é constituído de material psíquico. A psique é&nbsp;a entidade real em supremo grau, porque&nbsp;é&nbsp;a única realidade imediata” (JUNG, 1986, p.297, §680). E o próprio o saber sobre a psique se dá por meio de articulações antinômicas (PIERI, 2002, p.41). É necessária a fase psíquica em que os contrários psíquicos se mostram&nbsp;à consciência. Caso não ocorra, seria produzido um conflito psicológico e a dissociação (com possível cisão) da psique. A antinomia deve ser resolver por meio de um postulado antinômico, uma proposição que contemple ambos os aspectos em conflito. Este permite&nbsp;à consciência contemplar ambos os aspectos referentes a uma situação conflituosa. Por outro lado, para ocorrerem, as tensões antinômicas não precisam do controle da consciência. O ego somente&nbsp;é&nbsp;acionado quando as tensões ficam maiores e os caminhos habituais de se lidar com elas não estão levando&nbsp;à&nbsp;adaptação ao presente. Ainda que a consciência participe, enfatiza Jung somente ser possível resolver o problema dos contrários pelo caminho irracional. Ressalta ser esse caminho apontado pelo inconsciente, através dos sonhos (JUNG, 1987, §166, p. 93).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do exposto ressalta-se que a ideia de um equilíbrio estático como meta para a psique humana não se aplica em absoluto ao modelo psíquico junguiano. Com base em Heráclito, Jung assume a possibilidade de uma tensão criativa, em que pares de opostos regulam um ao outro, não caindo a atitude consciente em unilateralidade, nem tomando a consciência ou atuando um conteúdo inconsciente que se lhe opõe. Mas tal tensão criativa pode envolver enfrentar desconforto e mesmo conflito. Quando o desconforto, o conflito não&nbsp;é&nbsp;suportado pela consciência e há cisão da consciência em relação ao conteúdo a que se opõe, pode ocorrer Enantiodromia, a inversão de conteúdos tomando a consciência o que antes se lhe opunha – com potencial destrutivo ao vivido até&nbsp;então. Ainda assim se apresenta a possibilidade da completude, da integração dos opostos pela emergência de um símbolo (função simbólica ou transcendente) que renova e revitaliza a vida, ampliando as possiblidades da consciência. O modelo psíquico junguiano que busca explicar nossa vida psíquica não propõe sombra e água fresca, nem só&nbsp;o mal, nem só&nbsp;o bem&#8230; Propõe um dinamismo cuja força resultante&nbsp;é&nbsp;capaz de lançar a flecha de uma nova atitude, capaz do soar melódico de uma nova harmonia, dinâmica, inquieta e nada acomodada.&nbsp;&nbsp;Para Heráclito e Jung&nbsp;é&nbsp;possível harmonia exatamente pela tensão de opostos Antinômicos. Harmonia esta, em nada semelhante&nbsp;às promessas de prazer eterno das sociedades de consumo contemporâneas. Enfrentar conflitos e integrar os opostos em um novo símbolo&nbsp;é&nbsp;essencial, dado que “um conflito insolúvel significa antes de mais nada, estancamento da vida” (JUNG, 1987, §147, p.84). Cabe-nos buscar inspiração no arco de Heráclito, em Ártemis e Apolo para quem o que mais amavam era manejar o arco e a lira, em suas tensões criativas, geradoras da mais bela harmonia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista em formação: Silvia Maria Guerra Molina</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista didata responsável: Maria Cristina Mariante Guarnieri</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bibliografia</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">CIVITA, Victor (ed.)&nbsp;<strong>Os pr</strong><strong>é</strong><strong>-socráticos.&nbsp;</strong>São Paulo: Abril Cultural, 1973, 376p. (Coleção Os Pensadores, vol. I).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>A natureza da Psique.</strong>&nbsp;Petrópolis, RJ: Vozes, 1986, 402p. (Obras Completas vol. VII/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>Aion&nbsp;</strong>–<strong>&nbsp;</strong>estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo. Petrópolis, RJ: Vozes, 1990, 317p. (Obras Completas vol. IX/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>Tipos Psicoló</strong><strong>gicos.</strong>&nbsp;Petrópolis, RJ: Vozes, 1991, 558p. (Obras Completas vol. VI).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>Os arqu</strong><strong>é</strong><strong>tipos e o Inconsciente Coletivo.</strong>&nbsp;Petrópolis, RJ: Vozes, 2014, 454p. (Obras Completas vol. IX/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porto Editora –&nbsp;<strong>arch</strong><strong>é&nbsp;</strong><strong>na infop</strong><strong>é</strong><strong>dia</strong>&nbsp;[em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2022-05-21. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.infopedia.pt/$arche">https://www.infopedia.pt/$arche</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANTOS, Maria Carolina Alves dos&nbsp;&nbsp;A lição de Heráclito.&nbsp;<strong>Trans/Form/Ação</strong>, São Paulo, 13:1-9, 1990. Disponível em:&nbsp;https://doi.org/10.1590/S0101-31731990000100001.</p>
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