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	<title>Arquivos envelhecer - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 05 Mar 2026 16:05:47 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos envelhecer - Blog IJEP</title>
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		<title>Entre o Vivido e o Não Vivido: A Sabedoria da Velhice</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/entre-o-vivido-e-o-nao-vivido-a-sabedoria-da-velhice/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rosana T W Hanada]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Mar 2026 15:20:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<category><![CDATA[Velhice]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo apresenta reflexões sobre o envelhecimento à luz da Psicologia Analítica, destacando-o como um período simbólico de ampliação da consciência e integração dos conteúdos inconscientes. A partir de Jung e de autores contemporâneos, reflete-se sobre a vida não vivida, o movimento de interiorização e a busca por significado como aspectos fundamentais da jornada de individuação na segunda metade da vida. Envelhecer, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas um declínio biológico e se torna um convite à integração, à reconciliação e à plenitude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao"><strong>Introdução</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Envelhecer é, talvez, uma das experiências humanas mais universais e, paradoxalmente, menos compreendidas. Em uma sociedade que idolatra a produtividade, a juventude e o desempenho, o processo de envelhecimento costuma ser visto sob a ótica da perda: perda do corpo, do vigor, do espaço social, da autonomia. Entretanto, para a Psicologia Analítica, a velhice representa muito mais do que um declínio orgânico. Trata-se de um período decisivo para a alma, um momento em que os conteúdos esquecidos, negados ou não vividos ao longo da vida retornam, convidando a consciência para um diálogo profundo com o inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A metáfora solar utilizada por Jung ilustra esse processo ao afirmar que “<strong>a vida desce agora montanha abaixo, com a mesma intensidade e irresistibilidade com que a subia antes da meia-idade</strong>” (JUNG, 2013a, §798). A consciência, antes dirigida ao mundo e às suas exigências, passa a se voltar para o íntimo, em que um pedido de reorganização e de sentido começa a emergir. É nesse ponto que a velhice revela sua dimensão simbólica: um tempo em que a vida nos devolve a nós mesmos. É um convite à interiorização, ao recolhimento e à pergunta essencial: <em>“O que foi feito da minha vida e o que ainda falta integrar?”</em> O envelhecimento é uma espécie de retorno ao próprio eixo, quando o ego, já cansado de manter as personas, encontra-se diante da tarefa inevitável de olhar para si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta reflexão nasce de duas fontes: minha trajetória pessoal e o estudo desenvolvido em meu trabalho sobre envelhecimento na conclusão do curso de psicologia junguiana. A intenção desse artigo é oferecer um olhar cuidadoso e humano sobre uma etapa que, embora temida, pode ser rica e libertadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-envelhecimento-como-movimento-de-interiorizacao" style="font-size:22px"><strong>O Envelhecimento como Movimento de Interiorização</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung comparou a vida humana ao curso do sol: da aurora ao zênite, a energia progride para fora e para frente, expandindo-se em direção ao mundo (Cf. JUNG, 2014, §114). É o período da juventude e da maturidade inicial, dedicado à formação das personas, ao aprendizado social, ao trabalho, aos papéis familiares e à conquista de um lugar no mundo. Trata-se da fase em que a consciência se fortalece por meio da relação com o exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, ao atravessar o meio-dia simbólico da vida, algo começa a mudar internamente. A força que impulsionava o indivíduo para fora passa a demandar retorno, introspecção e simplificação. O olhar antes voltado para conquistas e estabilidade começa a buscar silêncio, significado e profundidade. Jung descreve esse fenômeno como uma mudança natural do eixo energético, um deslocamento do foco da adaptação externa para a integração interna, pois:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>O ser humano não chegaria aos setenta ou oitenta anos se esta longevidade não tivesse um significado para a sua espécie. Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida.</p><cite>JUNG, 2013a, § 787</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-segunda-metade-da-vida-a-alma-pede-um-outro-tipo-de-alimento-menos-material-mais-simbolico-menos-performatico-mais-essencial" style="font-size:18px">Na segunda metade da vida, a alma pede um outro tipo de alimento: menos material, mais simbólico; menos performático, mais essencial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É o período em que muitas pessoas começam a questionar seus valores, suas identidades e até mesmo a necessidade de manter certas máscaras sociais. A persona, tão necessária na adaptação ao mundo externo (Cf. JUNG, 2015, §246), começa a se mostrar estreita para conter o movimento da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse processo costuma ser acompanhado por sentimentos de estranhamento, inquietação ou certo vazio. O que antes parecia suficiente, como carreira, desempenho, reconhecimento, segurança, status, já não oferece o mesmo sentido. É o inconsciente que está chamando a atenção da consciência para a necessidade de reorganização interna (Cf. JUNG, 2013b, §331b).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A vida moderna reforça um padrão que prolonga artificialmente a lógica da juventude: produtividade contínua, culto ao corpo, aceleração, hiperconexão, negação da fragilidade e da vulnerabilidade. Essa força cultural empurra o indivíduo a permanecer na expansão, mesmo quando sua psique pede quietude. O conflito entre essas duas dinâmicas, a externa coletiva e a interna individual, gera sofrimento e angústia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, do ponto de vista junguiano, este é justamente o momento mais potente da existência. É quando a pessoa tem a oportunidade de questionar as narrativas que construiu sobre si mesma e de permitir que as partes esquecidas de sua alma, muitas vezes relegadas ao inconsciente por exigências da persona e do contexto social, venham à luz (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). É uma fase em que as perguntas se tornam mais importantes que as respostas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-meia-idade-a-pessoa-fica-mais-suscetivel-a-ocorrencia-da-metanoia-que-pode-significar-expansao-da-consciencia-ir-alem-da-razao-logica-transcender-converter-se-ter-mudanca-de-crencas-ou-visao-de-mundo-magaldi-2023" style="font-size:18px">Na meia-idade, a pessoa fica mais suscetível à ocorrência da metanoia, que pode significar “expansão da consciência, ir além da razão lógica, transcender, converter-se, ter mudança de crenças ou visão de mundo” (MAGALDI, 2023).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O envelhecimento, então, deixa de ser interpretado como perda e passa a ser compreendido como um convite para reorganizar a vida a partir da verdade interior, não mais das expectativas externas, mas um chamado para viver “melhor”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caminho da individuação, esse movimento de interiorização representa maturação (Cf. JUNG, 2014, §91). Assim como o sol que se põe tingindo o céu de cores que só o entardecer pode produzir, o envelhecimento oferece tonalidades de sabedoria que não estão disponíveis em outras fases da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-nao-vivida-e-o-retorno-dos-conteudos-esquecidos" style="font-size:22px"><strong>A Vida Não Vivida e o Retorno dos Conteúdos Esquecidos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao atravessar a metade da vida, muitas pessoas descobrem que o passado, antes acomodado em silêncios, retorna, muitas vezes, com surpreendente intensidade. Sensações de nostalgia, lembranças persistentes, perguntas sobre escolhas feitas ou evitadas, e um sentimento difuso de que “algo essencial ficou para trás” começam a ocupar a paisagem interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-nesse-momento-que-nossa-vida-nao-vivida-se-ergue-dentro-de-nos-exigindo-nossa-atencao-johnson-2010-p-9" style="font-size:18px"><em>“É nesse momento que nossa vida não vivida se ergue dentro de nós, exigindo nossa atenção” (JOHNSON, 2010, p. 9).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Jung (Cf. 2013, §789), a vida vivida de forma expandida, útil, eficiente, com boa imagem social, emprego adequado e bom casamento são conquistas importantes e necessárias na primeira metade da vida, mas:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="is-style-large wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Infelizmente não são objetivos suficientes nem têm sentido para muitos que não veem na aproximação da velhice senão uma diminuição da vida e consideram seus ideais anteriores simplesmente como coisas desbotadas e puídas! Quantas coisas na vida não foram vividas por muitas pessoas – muitas vezes até mesmo potencialidades que elas não puderam satisfazer, apesar de toda a sua boa vontade – e assim se aproximam do limiar da velhice com aspirações e desejos irrealizados que automaticamente desviam o seu olhar para o passado (ibidem, p. 357).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nada-do-que-deixamos-de-viver-desaparece-tudo-e-preservado-no-inconsciente-a-espera-de-um-momento-propicio-para-emergir" style="font-size:18px">Nada do que deixamos de viver desaparece; tudo é preservado no inconsciente, à espera de um momento propício para emergir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A meia-idade é o momento propício para que isso ocorra, conteúdos antes reprimidos encontram passagem para a consciência, trazendo à tona aspectos esquecidos, negados ou simplesmente negligenciados (Cf. HOLLIS, 1995, p. 58). A psique tenta reparar e integrar aquilo que ficou sem lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essas imagens que emergem, os sentimentos que insistem, as memórias que reaparecem têm o propósito de ampliar a consciência, mesmo quando provocam desconforto. A nostalgia que muitos sentem é um sinal simbólico de que fragmentos da personalidade desejam ser reconhecidos. Ela aponta para partes legítimas de nós mesmos que, por circunstâncias diversas, não puderam se desenvolver.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-a-vida-nao-vivida-nao-e-apenas-sombra-dolorosa-contem-tambem-brilho-vocacao-e-vitalidade-que-nao-encontrou-expressao-cf-johnson-2010-p-147" style="font-size:18px">Por isso, a vida não vivida não é apenas sombra dolorosa: contém também brilho, vocação e vitalidade que não encontrou expressão (Cf. JOHNSON, 2010, p. 147).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Muitas pessoas, ao envelhecer, se surpreendem ao reencontrar antigos desejos, gostos esquecidos, aspirações que adormeceram, sensibilidades que haviam sido abafadas pela necessidade de adaptação. Tudo isso ressurge, não para ser realizado literalmente, mas para ser integrado simbolicamente (<em>ibidem,</em> p. 239).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando esses aspectos retornam e não são reconhecidos, costumam produzir inquietação interna. A pessoa pode experimentar irritação frequente, rigidez, desânimo, ressentimentos difíceis de localizar, ou uma sensação persistente de inadequação. O sujeito percebe que viveu uma vida inteira respondendo às expectativas externas, familiares, sociais, culturais, e agora sente o peso de ter se afastado demais de si mesmo. Em alguns casos, esse processo pode manifestar-se em sintomas físicos, depressivos, sensação de fracasso ou medo de que o tempo restante não seja suficiente para viver de forma autêntica, conforme Stein (<em>apud </em>Pandini, 2014, p. 24).&nbsp;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-fundamental-compreender-que-integrar-a-vida-nao-vivida-nao-significa-recuperar-literalmente-o-que-nao-foi-feito-algo-impossivel-e-muitas-vezes-fantasioso" style="font-size:18px">É fundamental compreender que integrar a vida não vivida não significa recuperar literalmente o que não foi feito – algo impossível e, muitas vezes, fantasioso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A integração ocorre quando se permite que o significado daquilo que não foi vivido encontre expressão de alguma forma. Isso pode acontecer por meio da criatividade, da arteterapia, de novos interesses, de diálogos profundos, de maior liberdade emocional, de transformações internas, ou simplesmente pela capacidade de olhar para a própria história com autoperdão, compaixão e compreensão. Ao reconhecer esses conteúdos, o indivíduo resgata energia psíquica que estava aprisionada e sente-se mais inteiro, mais coerente consigo mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Envelhecer, assim, revela-se como um processo de reencontro. Não se trata apenas de revisitar o que passou, mas de compreender quem se tornou e quem ainda pode ser. A vida não vivida, quando acolhida, torna-se ponte entre o que fomos e o que podemos integrar. Ela permite que a última etapa da vida seja vivida em totalidade, com a serenidade de quem reconhece, nas palavras de Caetano Veloso, “a dor e a delícia de ser o que é” da canção “Dom de Iludir”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-envelhecer-a-luz-da-psicologia-analitica" style="font-size:22px"><strong>Envelhecer à luz da psicologia analítica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Portanto, envelhecer é muito mais do que atravessar a última etapa cronológica da vida. Se a primeira metade da vida se organiza em torno da formação das personas, da adaptação ao mundo e da consolidação do ego, a segunda metade inaugura um processo inverso: a alma pede profundidade, interiorização e plenitude.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A velhice nos convida a rever a biografia pela ótica da presença. Não mais perguntamos “o que conquistei?”, mas “quem me tornei?”. Nessa fase, a necessidade de manter imagens sociais se afrouxa, permitindo que a autenticidade ganhe espaço. A consciência volta-se para temas outrora evitados como a vida não vivida, sendo uma oportunidade tardia de reconciliação. A proximidade da finitude, longe de ser apenas fonte de insegurança, desperta a urgência de viver o que ainda pode ser vivido, de integrar o que ficou esquecido e de honrar aquilo que não se pôde realizar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hillman-lembra-que-esses-fragmentos-da-biografia-nao-sao-descartaveis-eles-precisam-ser-transformados-pela-reflexao-tardia-em-substancia-capaz-de-fortalecer-o-carater" style="font-size:18px"><strong>Hillman</strong> lembra que esses fragmentos da biografia não são descartáveis, eles precisam ser transformados pela reflexão tardia em substância capaz de fortalecer o caráter.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A revisão da vida, esse gesto de olhar para trás não apenas para recordar, mas para compreender, permite que erros e acontecimentos antes dispersos revelem padrões e significado. É como se a velhice nos oferecesse a oportunidade de organizar nossa narrativa interna, reconhecendo que cada experiência, mesmo as mais dolorosas, fazem parte de nossa alma (Cf. HILLMAN, 2001, p.24).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando vivido com consciência, o envelhecimento torna-se um processo alquímico. O supérfluo se dissolve, o essencial se intensifica, e aquilo que parecia fragmentado encontra coerência (Cf. MAGALDI, 2020). Revisar a vida não é apagar dores nem refazer escolhas, mas reconhecer seu propósito no desenvolvimento da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O ser humano não envelhece para morrer, mas para se tornar inteiro. O envelhecimento é a fase em que o Self, essa instância que transcende o ego, orienta com mais clareza seu chamado (Cf. JUNG, 2013a, §787). É como se, no crepúsculo da vida, a alma adquirisse uma outra luminosidade, menos solar, mais interior; menos expansiva, mais verdadeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, envelhecer torna-se um ato de coragem, a coragem de olhar para si, de acolher o que faltou, de reconciliar o vivido e o não vivido, de aceitar a própria história e de permitir que a vida siga seu curso natural. E é justamente nesse gesto de entrega, desapego e autenticidade que se revela a maior possibilidade dessa etapa: viver, finalmente, a vida como merece ser vivida – porque <strong>envelhecer é fazer da vida uma obra. E toda obra verdadeira, quando chega ao fim, não se encerra: se revela.</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/beatriz-whitaker/">Rosana T W Hanada – Analista em formação IJEP</a></strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James<em>. </em><em>A força do caráter</em> <em>e a poética de uma vida longa</em>. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A passagem do meio. </em>Da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JOHNSON, Robert. <em>A vida não vivida: </em>A arte de lidar com sonhos não realizados e cumprir o seu propósito na segunda metade da vida. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A Natureza da Psique. </em>10.ed.Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ O <em>Desenvolvimento da Personalidade</em>. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Psicologia do Inconsciente</em>. 24.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar (2020). <em>Alquimia e Psicologia Junguiana</em>. <em>&lt;https://www.youtube.com/watch?v=zxKBRbY2ENE&gt; </em>Acesso em 29 nov. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI FILHO, Waldemar (2023). Metanoia na Psicologia Analítica.&nbsp; &lt;<em>https://blog.ijep.com.br/metanoia-na-psicologia-analitica&gt;/</em> Acesso em 25 nov. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PANDINI, Ana. <em>Metanoia:</em> caminho para o desenvolvimento no meio da vida.&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tese Doutorado USP. São Paulo, 2014. 176 f. Disponível em: &lt;<em>https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-19122014-110846/pt-br.php</em>&gt;&nbsp;</p>



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			</item>
		<item>
		<title>Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/velho-e-voce-um-olhar-junguiano-sobre-o-envelhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 May 2025 12:47:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
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		<category><![CDATA[meio da vida]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A velhice é um tema demasiado evitado por boa parte das pessoas. O medo do envelhecimento é uma sombra que paira sobre a sociedade contemporânea, profundamente enraizado em valores culturais que exaltam a juventude, a produtividade e a beleza como padrões quase inquestionáveis. Mais do que uma simples resistência às mudanças corporais ou à perda [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A velhice é um tema demasiado evitado por boa parte das pessoas. <strong>O medo do envelhecimento é uma sombra que paira sobre a sociedade contemporânea</strong>, profundamente enraizado em valores culturais que exaltam a juventude, a produtividade e a beleza como padrões quase inquestionáveis. Mais do que uma simples resistência às mudanças corporais ou à perda de vitalidade, esse temor revela a inquietação diante da finitude, do isolamento e da possível invisibilidade social que o avançar da idade pode trazer. <strong>Em um mundo que associa o envelhecer ao declínio, alimentamos uma espécie de negação coletiva e mergulhamos em uma busca incessante por prolongar a juventude que, como um reflexo, escapa das mãos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Conforme o último censo do IBGE<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a> (2022), as pessoas com mais de 60 anos chegaram a 15,6% da população brasileira, um aumento de 56,0% em relação a 2010. Entre 2010 e 2022, a expectativa de vida aumentou, e passa a ser em média 75,5 anos<a id="_ftnref2" href="#_ftn2">[2]</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-afirma-jung-oc-8-2-802-que-nossa-longevidade-comprovada-pelas-estatisticas-atuais-e-um-produto-da-civilizacao" style="font-size:18px">Afirma Jung (OC 8/2, §802) que “<strong>nossa longevidade comprovada pelas estatísticas atuais é um produto da civilização</strong>”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Mais do que um fenômeno biológico, a extensão da vida humana é fruto de uma complexa teia de transformações culturais, científicas e sociais que moldaram nosso modo de existir. Desde a descoberta de vacinas até os avanços da medicina preventiva, passando pelas melhorias nas condições sanitárias e pelo acesso ampliado à informação, a civilização construiu os alicerces para que o ser humano pudesse viver mais. Contudo, esse ganho de anos não deve ser visto apenas como um triunfo técnico, mas também como um desafio existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Envelhecer é um processo natural da existência humana, mas, ao mesmo tempo, carrega desafios complexos, há um diálogo inconsciente com a proximidade da finitude, com as limitações físicas, com a perda do viço e ganho da opacidade do corpo. E muitos idosos ficam um tanto aprisionados num aspecto nostálgico, com saudades de um passado que pode ter sido bom, diferente das angústias e dores da atualidade dos dias.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diz-jung-oc-8-2-800-que-a-vida-natural-e-o-solo-em-que-se-nutre-a-alma-quem-nao-consegue-acompanhar-essa-vida-permanece-enrijecido-e-parado-em-pleno-ar" style="font-size:19px">Diz Jung (OC 8/2, §800) que “a vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Talvez seja por este motivo que “muitas pessoas se petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração” (JUNG, OC 8/2, §800). &nbsp;Há aqueles que, ao invés de se adaptarem ao curso natural da existência, estacionam psicologicamente no passado, como pilares nostálgicos de uma juventude que já não existe, mas cujas memórias permanecem vívidas. Essas pessoas, presas às lembranças de um tempo que não dialoga mais com o presente, perdem o vínculo com o fluxo vital. No entanto, a vida exige transformação. <strong>É como se nossa consciência tivesse deslizado um pouco de suas bases naturais e não soubesse mais como se orientar pelo tempo natural</strong> (JUNG, OC 8/2, §802).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aceitar-o-envelhecimento-nao-significa-negligenciar-o-cuidado-com-o-corpo-ou-abandonar-se-passivamente-ao-inevitavel" style="font-size:19px">Aceitar o envelhecimento não significa negligenciar o cuidado com o corpo ou abandonar-se passivamente ao inevitável.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Pelo contrário, trata-se de <strong>um convite à reconciliação com o tempo, uma oportunidade para cultivar a autoestima de maneira equilibrada e honesta</strong>. Cuidar de si é um gesto de amor-próprio, e isso pode incluir atividades físicas e procedimentos estéticos que tragam bem-estar, desde que não se tornem obsessão. O equilíbrio está em reconhecer que os sinais são marcas de uma vida vivida, carregadas de histórias, experiências e sabedoria. Cuidar do corpo é uma forma de honrar a própria jornada e a verdadeira beleza está em harmonizar-se com a vida, valorizando o que se é em cada fase. Afinal quando aceito com serenidade, o envelhecimento pode ser um ato de maturidade e um testemunho da riqueza que o tempo nos confere.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Além disso, é importante atentar para a <strong>sombra coletiva acerca do envelhecer</strong>, pois a cultura contemporânea, com sua obsessão por performances e aparências, projeta a velhice como um lugar de ausência de produtividade, relevância, vigor e sexualidade, eclipsando os idosos numa sociedade que idolatra o novo e despreza o que é velho. Mas a sombra não se contenta em ficar oculta; ela se infiltra nas atitudes, nas escolhas e nos exageros que vemos ao nosso redor. Exageros esses que apontam para a terrível capa de invisibilidade que recaem nos idosos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Há um apagamento silencioso e insidioso que permeia o convívio familiar com os mais velhos, muitas vezes operando de forma inconsciente, como uma teia que lentamente os retira do protagonismo de suas próprias vidas. Essa invisibilidade os coloca nos bastidores, onde deixam de ser atores principais de sua história para se tornarem espectadores da dinâmica familiar que, gradualmente, os desconsidera. Esse movimento, que talvez não seja intencional, resulta em uma intensificação de sua dependência, roubando-lhes a autonomia e reduzindo sua capacidade de decidir sobre sua própria existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-cotidiano-familiar-por-vezes-de-forma-inconsciente-os-idosos-sao-tratados-como-seres-altamente-frageis-que-devem-ser-protegidos-a-qualquer-custo" style="font-size:19px">No cotidiano familiar, por vezes de forma inconsciente, os idosos são tratados como seres altamente frágeis, que devem ser protegidos a qualquer custo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Esse zelo excessivo, talvez motivado pelo amor e preocupação, frequentemente resvala em práticas que acabam retirando a autonomia daqueles que envelhecem</strong>. O ato de assumir as decisões ou impor limites sem considerar suas capacidades pode ser entendido mais do que um gesto desatento; é uma forma sutil de apagamento e, nesse processo, perde-se de vista a rica e complexa história que cada idoso carrega consigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Esquecem-se do caminho longo e árduo que percorreram, da vida social e profissional que construíram, da base emocional e material que ofereceram àqueles que hoje os cercam, ignoram-se os papéis que desempenharam como pilares de referência e exemplo, como construtores de alicerces que sustentaram tantas vidas e histórias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao tratá-los apenas pelo prisma da fragilidade, os familiares negligenciam a importância de reconhecer e valorizar a trajetória de quem, um dia, foi o protagonista de tantas conquistas e desafios. É fundamental lembrar que o envelhecimento não apaga as realizações, não invalida a sabedoria acumulada nem diminui o valor intrínseco do ser humano.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-respeitar-a-autonomia-dos-idosos-e-tambem-respeitar-a-sua-historia-reconhecer-que-o-envelhecer-nao-a-diminui" style="font-size:19px"><strong>Respeitar a autonomia dos idosos é também respeitar a sua história, reconhecer que o envelhecer não a diminui</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Um outro aspecto importante a ser olhado é que a sociedade contemporânea é regida pela pressa e pelo ritmo acelerado que exalta a produtividade, a eficiência e o imediatismo, e por isso os idosos podem se tornar vítimas de uma silenciosa exclusão. A falta de paciência para lidar com seu tempo mais lento é um reflexo de uma sociedade do descarte, que se esqueceu daqueles que pavimentaram os caminhos por onde outros agora correm.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa impaciência é um sintoma da desvalorização do envelhecer pois, em um sistema capitalista que reduz o indivíduo à sua capacidade de produzir e consumir, o idoso, ao deixar de ocupar o lugar de engrenagem ativa, é muitas vezes relegado à margem e sua idade avançada tende a ser percebida como um fardo e não uma conquista de sobrevivência e sabedoria. Ou então, para aqueles que possuem melhor poder aquisitivo, viram “nicho de mercado”, num processo de objetificação do ser.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-voracidade-do-capitalismo-identifica-nesse-grupo-uma-nova-oportunidade-de-obtencao-de-lucro-onde-produtos-e-servicos-sao-oferecidos-talvez-com-o-intuito-de-atender-a-uma-demanda-artificialmente-criada" style="font-size:19px"><strong>A voracidade do capitalismo identifica nesse grupo uma nova oportunidade de obtenção de lucro, onde produtos e serviços são oferecidos talvez com o intuito de atender a uma demanda artificialmente criada</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Os idosos são, assim, transformados em consumidores compulsórios de uma infinidade de soluções que prometem juventude eterna, conforto e <em>status</em>, mas que, em sua essência, podem reforçar estereótipos e desumanizar o processo de envelhecer. Por trás da publicidade sedutora e dos <em>slogans </em>otimistas, existe a insidiosa mensagem de que a velhice é algo a ser combatido, escondido ou domesticado, e não uma etapa digna de celebração. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-processo-vai-alem-do-campo-material-infiltrando-se-nas-relacoes-sociais-e-culturais" style="font-size:19px"><strong>Esse processo vai além do campo material, infiltrando-se nas relações sociais e culturais</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A figura do idoso é constantemente remodelada para se encaixar em padrões de mercado que ditam como ele deve viver, parecer e até sentir. A liberdade de ser é substituída pela imposição de um modelo idealizado de envelhecimento, onde o consumo se torna a régua pela qual medimos a validade da vida. Essa abordagem, ao mesmo tempo que explora a capacidade de compra dos idosos, ignora suas necessidades mais fundamentais: respeito, inclusão e pertencimento. No lugar de acolher suas singularidades e reconhecer suas trajetórias, o mercado os transforma em alvos comerciais acima da dignidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para lidar com a ampliação da consciência e das reflexões acerca do envelhecimento, além de tantos outros processos do viver, Jung (OC 7/1, §113) reflete que a pessoa “precisa aprender a distinguir o eu do não-eu, isto é, da psique coletiva”. Ressalta que para diferenciar o eu do não-eu “é indispensável que o homem – na função de eu – se conserve em terra firme, isto é, cumpra seu dever em relação à vida e, em todos os sentidos, manifeste sua vitalidade como membro ativo da sociedade humana” (JUNG, OC 7/1, §113).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-o-avancar-da-idade-ha-um-convite-para-a-busca-de-significacao-de-sentido-da-propria-vida" style="font-size:19px">Com o avançar da idade, há um convite para a busca de significação de sentido da própria vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O envelhecimento, muitas vezes percebido como um declínio inevitável, pode ser, na verdade, um processo profundamente transformador, um convite silencioso à metanóia – essa mudança de perspectiva que nos impulsiona a olhar para dentro, rever nossas crenças, e reorientar o sentido da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-1-113-reflete-que-estamos-diante-do-problema-de-encontrar-o-sentido-que-possibilite-o-prosseguimento-da-vida-entendendo-se-por-vida-algo-mais-do-que-simples-resignacao-e-saudosismo" style="font-size:19px">Jung (OC 7/1, §113) reflete que “estamos diante do problema de encontrar o sentido que possibilite o prosseguimento da vida (entendendo-se por vida algo mais do que simples resignação e saudosismo)”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para ele, com o avançar da idade, o “<strong>papel junto ao jovem difere do que exercemos junto a uma pessoa mais amadurecida. No que se refere ao primeiro, basta afastar todos os obstáculos que dificultam sua expansão e ascensão. Quanto à última, porém, temos que incentivar tudo quanto sustente sua descida”</strong> (JUNG, OC 7/1, §114). É contundente ao afirmar o quão errônea é a ideia de que “os velhos podem ser abandonados, pois já não prestam para nada, uma vez que sua vida ficou para trás e só servem como escoras petrificadas do passado. É enorme o engano de supor que o sentido da vida esteja esgotado depois da fase juvenil de expansão”. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">E lindamente aponta que “<strong>o entardecer da vida humana é tão cheio de significação quanto o período da manhã. Só diferem quanto ao sentido e intenção</strong>” (JUNG, OC 7/1, §114).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao mergulharmos nas reflexões de Jung, somos confrontados com uma verdade inevitável: a existência humana é tecida por ciclos que demandam sentidos distintos em cada fase da vida. Na juventude, a energia vital pulsa em direção à expansão, à conquista de horizontes e ao desbravamento de possibilidades. Contudo, à medida que avançamos para o entardecer da existência, emerge a necessidade de encontrar um significado mais profundo, uma direção que transcenda a simples resignação ou nostalgia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-perspectiva-junguiana-nos-convida-a-reconhecer-que-o-envelhecimento-nao-e-um-declinio-mas-uma-transicao-um-convite-a-introspeccao-e-a-aceitacao-das-verdades-mais-essenciais" style="font-size:19px">A perspectiva junguiana nos convida a reconhecer que o envelhecimento não é um declínio, mas uma transição, um convite à introspecção e à aceitação das verdades mais essenciais. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Nesse período, o desafio é sustentar a jornada para dentro, o mergulho no próprio ser porque é na descida simbólica que encontramos a riqueza das nossas raízes, o legado de experiências e sabedorias acumuladas ao longo do caminho, pois “<strong>o que a juventude encontrou e precisa encontrar fora, o homem no entardecer da vida tem que encontrar dentro de si</strong>” (JUNG, 7/1, §114).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Infelizmente, vivemos em uma sociedade que tende a negar o valor desse entardecer, relegando os idosos à invisibilidade ou reduzindo sua importância à funcionalidade prática de outrora. Contudo, como aponta Jung, é um grave engano supor que a vida perde seu sentido ao fim da fase de expansão. Pelo contrário, <strong>o crepúsculo da existência traz consigo um convite para um novo tipo de significado, mais interiorizado e contemplativo, mas igualmente pleno e necessário, mais consonante com o Self</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Assim, a maturidade deve ser vivida como uma oportunidade para completar o ciclo da vida com profundidade e inteireza. Envelhecer é reconhecer que a descida também é parte do caminho, que a plenitude também está no recolher, é a possibilidade de ser inteiro, não apesar da idade, mas justamente por causa dela. Nas dobras do tempo, o corpo e a alma nos conduzem a uma nova travessia, um tempo em que a espiritualidade se renova, e a vida, em sua sabedoria silenciosa, floresce de formas mais profundas.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;Velho é você! Um olhar junguiano sobre o envelhecimento&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Z2utAC-dnqA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/daniela/"><strong>Daniela A. Euzebio – Membro Analista</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:16px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">IBGE. Disponível em: <em>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos</em>. Acesso em 13 jan. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">IBGE. Disponível em: <em>https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos</em>. Acesso em 13 jan. 2025</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBI, Jolande. Complexo, Arquétipo e Símbolo na Psicologia de C.G. Jung. Petrópolis: Vozes, 2017</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2014 (Obras completas v. 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2015 (Obras completas v. 7/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><em>Se interessa pelo tema do envelhecimento? Confira o <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">X Congresso Junguiano do IJEP</a>:</em></strong></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img decoding="async" width="1024" height="532" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png" alt="" class="wp-image-10410" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Inscrição e programação</strong>: <a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep ">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep </a></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> Fonte: IBGE. Disponível em: <a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos">https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/38186-censo-2022-numero-de-pessoas-com-65-anos-ou-mais-de-idade-cresceu-57-4-em-12-anos</a>. Acesso em 13 jan. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref2" id="_ftn2">[2]</a> Fonte: IBGE. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos. Acesso em 13 jan. 2025</p>



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			</item>
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		<title>Longevidade: Uma jornada transformadora ou assustadora?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/longevidade-uma-jornada-transformadora-ou-assustadora/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Cristiane dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 May 2025 11:49:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[segundametadedavida]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10442</guid>

					<description><![CDATA[<p>“A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que, contudo, são um.” C.G. Jung Resumo: Pessoas 50+: Esse público está crescendo de forma intensa no Brasil. Esse texto tem como objetivo analisar como essas pessoas estão se preparando para vivenciar essa etapa da vida. Como estão lidando com as mudanças que estão se [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“A vida é uma pausa luminosa entre dois grandes mistérios que, contudo, são um.”</em></p><cite>C.G. Jung</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em><strong>Resumo</strong>: Pessoas 50+: Esse público está crescendo de forma intensa no Brasil. Esse texto tem como objetivo analisar como essas pessoas estão se preparando para vivenciar essa etapa da vida. Como estão lidando com as mudanças que estão se processando em seu corpo físico, em suas emoções, em seu meio social e principalmente em seu mundo interno. Onde estão buscando referências ou apoios para atravessarem essa etapa da jornada? Enfim, esse texto é um convite à reflexão de: “Quem sou eu além da minha história de vida e dos papéis que interpretei?”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>60.212.062 pessoas 50+ no Brasil</strong>, esse é o número informado pelo <a href="https://contador.longevidade.com.br">Contador de Longevidade</a>, atualizado em 21/04/2025, às 15h44, momento em que começo a escrever essas linhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para o cálculo desse número, o Contador de Longevidade utiliza-se de dados do IBGE e uma interface que permite a contabilização em tempo real.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-se-a-tecnologia-e-capaz-de-mensurar-de-forma-tao-apurada-a-realidade-do-crescimento-da-populacao-que-se-encaminha-para-o-entardecer-da-vida-qual-e-o-cenario-legitimo-dessa-populacao" style="font-size:19px">Mas se a tecnologia é capaz de mensurar de forma tão apurada a realidade do crescimento da população que se encaminha para o entardecer da vida, qual é o cenário legítimo dessa população?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Como ela está enfrentando as mudanças que advém nessa fase? As alterações físicas, as transformações hormonais, a falência das crenças e valores?</strong> A constatação de que se tem mais tempo vivido do que para se viver, além de sentimentos que começam a visitá-la de forma perturbadora, como por exemplo a solidão e o medo da morte?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Jung</strong>, em seu livro <em><strong>Natureza da Psique</strong></em>, nos diz que os indivíduos entram totalmente despreparados na segunda metade de suas vidas, pois inexiste uma preparação para essa nova etapa, como por exemplo, as universidades que incluem e orientam os jovens para o início da fase adulta, ou pelo menos deveriam!</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>Entramos totalmente despreparados na segunda metade da vida, e, pior do que isto, damos este passo, sob a falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideais continuarão como dantes</strong>. Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer.  </p><cite>(JUNG, 2013, p. 355)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deparamos-aqui-com-mudancas-que-nao-sao-somente-fisicas-mas-de-principios-e-valores" style="font-size:19px">Deparamos aqui com mudanças que não são somente físicas, mas de princípios e valores. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Enquanto somos jovens e começamos a escalar a montanha de nossas vidas, nos orientamos por ideais e crenças que no entardecer da vida, muitas vezes, se tornam totalmente inadequados ou obsoletos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Aquilo que nos guiou durante o início de nossa jornada não fornece mais satisfação e plenitude, é como se estivéssemos com um mapa e descobríssemos, quase no final do trajeto, que o destino estava errado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>James Hollis</strong>, em seu livro <em><strong>Passagem do Meio</strong></em>, diz que esse momento ocorre quando a pessoa se vê obrigada a encarar a sua vida como algo além do que sucessão de anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Nessa fase o indivíduo tem a oportunidade de reexaminar a sua vida e se questionar: “<strong>Quem sou eu além da minha história de vida e dos papéis que interpretei?</strong>”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Como durante toda vida fomos condicionados a assumir e representar papéis, como o de filhos, companheiros, arrimos de família, mãe, pai, amigos, profissional etc., nós projetamos e cristalizamos nossa identidade exclusivamente neles e muitas vezes, ficamos identificados com essa persona e paralisamos nosso processo de experimentação e crescimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para <strong>Hollis</strong> (1995, p. 30), “podemos dizer que a pessoa se encontra na passagem do meio quando o pensamento mágico da infância e o pensamento heroico da adolescência não mais coincidem com a vida que ela vivenciou”. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-momento-da-vida-a-pessoa-necessita-enfrentar-questoes-ate-entao-evitadas-e-assumir-responsabilidades" style="font-size:19px">Nesse momento da vida a pessoa necessita enfrentar questões até então evitadas e assumir responsabilidades.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa fase é um verdadeiro chamado para a mudança e para a transformação, ela convoca o indivíduo a uma interiorização, o foco que durante a primeira metade da vida estava direcionado para fora de si, vai gradativamente invertendo-se.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É muito comum o indivíduo dizer que perdeu o interesse por atividades, lugares, ou pessoas, que antigamente lhe eram atraentes e que um vazio existencial ou uma angústia pela busca de um propósito em sua vida começa a ser uma questão constante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-primavera-da-vida-o-individuo-projeta-e-busca-fora-de-si-o-sentido-de-sua-vida-por-esta-razao-e-habitual-que-suas-escolhas-estejam-desconectadas-de-sua-vocacao" style="font-size:19px">Na primavera da vida, o indivíduo projeta e busca fora de si o sentido de sua vida, por esta razão, é habitual que suas escolhas estejam desconectadas de sua vocação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Sua graduação e sua carreira profissional, normalmente, são baseadas naquilo que é rentável, na sucessão familiar ou em <em>status</em>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O trabalho é aquilo a que nos dedicamos para ganhar dinheiro e satisfazer nossas necessidades econômicas. A vocação (do latim <em>vocatus</em>) é o que somos chamados a fazer com a energia da nossa vida. Sentir que somos produtivos é uma parte fundamental da nossa individuação, e deixar de responder à nossa vocação pode causar dano à alma. </p><cite>(HOLLIS, 1995, p. 101)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-individuo-nesta-fase-da-vida-direciona-sua-energia-na-conquista-de-dinheiro-poder-e-de-status-e-muitas-vezes-paga-um-preco-muito-alto-por-esse-objetivo" style="font-size:19px">O indivíduo nesta fase da vida direciona sua energia na conquista de dinheiro, poder e de <em>status</em> e muitas vezes paga um preço muito alto por esse objetivo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na sociedade atual, um exemplo clássico são os <em>workaholics, </em>que dedicam horas excessivas ao trabalho em busca de alto desempenho. Como forma de regular esse comportamento obsessivo, a psique leva o corpo à uma psicossomatização. Conduzindo o indivíduo a um quadro de exaustão física, emocional e mental &#8211; intitulado de Síndrome de <em>Burnout </em>ou Esgotamento Profissional<em>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa desconexão com a vocação individual, ou as escolhas feitas priorizando os interesses materiais em detrimento dos interesses da alma, levam o indivíduo, no entardecer da vida, a constatar que algo está errado em sua trajetória.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Alguns se sentem perdidos, outros percebem que seu casamento está falido, alguns que sua vida profissional está desalinhada à sua vocação, ou que aquilo que disseram ser a receita para o sucesso e a felicidade não funcionou para eles, mesmo que tenham conquistado tudo aquilo que projetaram. Essa desconexão e desalinho com a realidade subjetiva faz com que esses indivíduos comecem a se deparar com alguns sintomas que podem ser físicos, emocionais ou espirituais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Hollis</strong> diz que os sintomas são como presentes para o indivíduo reajustar a rota da vida. Seria como uma exigência do Si-Mesmo (Self), e que “<strong>O indivíduo é intimado, psicologicamente, a morrer para o velho eu para que o novo possa nascer</strong>.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-hollis-metaforiza-o-inicio-dessa-fase-como-sendo-uma-especie-de-pressao-tectonica-e-ondulacoes-sismicas-que-visam-abrir-espaco-para-que-o-si-mesmo-possa-realizar-se" style="font-size:19px">Hollis metaforiza o início dessa fase como sendo uma espécie de pressão tectônica e ondulações sísmicas, que visam abrir espaço para que o Si-mesmo possa realizar-se.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Invariavelmente, muito antes de a pessoa tornar-se consciente de uma crise os indícios e os sintomas já estão presentes: a depressão reprimida, o abuso do álcool, o uso de maconha para intensificar o ato sexual, casos amorosos, constantes mudanças de emprego, e assim por diante – esforços de anular, desprezar ou deixar para trás as pressões interiores. A partir do ponto de vista terapêutico, os sintomas devem ser bem recebidos, pois eles não apenas servem de flechas que apontam para a ferida, como também exibem uma psique saudável e autorreguladora em funcionamento.</p><cite>(HOLLIS, 1995, p.23)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>O Si-mesmo representa a unidade e a totalidade da personalidade</strong>. Devido a totalidade ser composta de conteúdos conscientes e inconscientes ela só pode ser descrita em parte, pois, outra parte continua irreconhecível e indimensionável (<em>cf. Jung,</em> <em>Tipos Psicológicos, §902</em>).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Enquanto permanecermos basicamente identificados com o mundo exterior, objetivo, estaremos separados da nossa realidade subjetiva. É claro que somos sempre seres sociais, mas somos também seres espirituais com um telos ou um misterioso propósito individual. </p><cite>(HOLLIS, 1995, p.135)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Desta maneira, constatamos que o indivíduo, ao chegar ao entardecer da vida, necessita fazer um mergulho em seu mundo interior. Confrontar sua realidade subjetiva e ouvir o chamado de sua alma, para ser capaz de realizar seu <strong>processo de individuação</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-2013a-dizia-que-era-um-dever-e-uma-necessidade-para-o-homem-que-envelhece-destinar-atencao-ao-seu-proprio-si-mesmo" style="font-size:19px">Jung (2013a) dizia que era um dever e uma necessidade para o homem que envelhece destinar atenção ao seu próprio si-mesmo.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe os seus raios para iluminar-se a si mesmo. Em vez de fazer o mesmo, muitos indivíduos idosos preferem ser hipocondríacos, avarentos, dogmatistas <em>elad iores temporis acti</em> (louvadores do passado) e até mesmo eternos adolescentes, lastimosos sucedâneos da iluminação do si-mesmo, consequência inevitável da ilusão de que a segunda metade da vida deve ser regida pelos princípios da primeira. </p><cite>(JUNG, 2013a, p. 356)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">É muito comum encontrarmos indivíduos presos ao passado, petrificados na vida, sobrevivendo de forma nostálgica, temendo e afastando os conteúdos sombrios sobre a velhice que se aproxima e querendo negar o fluxo da vida.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Os indivíduos de hoje estão à deriva e sem orientação, sem modelos e sem ajuda para atravessar os diversos estágios da vida. Desse modo, o entardecer da vida, que exige a morte antes do renascimento, é frequentemente vivenciada de forma assustadora e separadora, pois quase não existem mais ritos de passagem e quase nenhuma ajuda dos companheiros que estão igualmente à deriva. </p><cite>(HOLLIS, 1995, p.32)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-realizar-essa-travessia-o-que-nos-auxiliara-nessa-transicao-onde-buscar-orientacao-ou-um-modelo-a-seguir" style="font-size:19px">Como realizar essa travessia? O que nos auxiliará nessa transição? Onde buscar orientação ou um modelo a seguir?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">No entardecer da vida, entra em cena um quesito fundamental que nos auxiliará a minimizar o medo do desconhecido e realizar essa travessia de forma transformadora. Esse quesito é a <strong>Espiritualidade</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A espiritualidade na meia-idade é um novo despertar &#8211; na metade de nossas vidas &#8211; para o Espírito que há dentro de nós, e para o Espírito que nos cerca, no qual vivemos, nos movemos e temos nossa existência. No final da juventude, ou despertamos para &#8220;o mais querido e profundo frescor das coisas&#8221;, o mistério da vida e da morte, a consciência de uma nova vida, frequentemente surgida de nossas maiores dores e sofrimentos, ou nos tornamos velhos cansados, cínicos e, consequentemente, &#8220;apagados&#8221;. A espiritualidade se torna, na meia-idade, a razão e o modo como vivemos nossas vidas. (BRENNAM, 2004, p.10)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-diz-que" style="font-size:19px">Jung diz que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Nossas religiões têm sido sempre, ou já foram, estas escolas; mas para quanto de nós elas o são ainda hoje? Quantos dos nossos mais velhos se prepararam realmente nessas escolas para o mistério da segunda metade da vida, para a velhice, para a morte e a eternidade?” </p><cite>(Jung, 2013a)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-base-nesses-questionamentos-de-jung-eu-finalizo-esse-texto-convidando-os-as-seguintes-reflexoes" style="font-size:19px">Com base nesses questionamentos de Jung, eu finalizo esse texto convidando-os às seguintes reflexões:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quantas dessas 60.286.428 pessoas 50+ no Brasil &#8211; número atualizado em 08/05/2025, às 20h54, horário que finalizo meu artigo &#8211; estão se preparando para vivenciar essa etapa da vida de forma saudável, transformadora e de maneira a seguir o fluxo para o anoitecer da vida e rumo ao grande mistério que é a morte?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quantos estão se libertando das crenças limitadoras e projeções idealizadas na primeira fase da vida, que tanto petrificam ou acorrentam essa caminhada?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quantos estão buscando a espiritualidade para se lançarem nesse processo de autoconhecimento, autoiluminação e integração do eu com o Si-mesmo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Apesar da vida ser essa pausa luminosa entre esses dois grandes mistérios, nós não podemos nos dar ao luxo de pausar nosso processo de individuação, pois poderemos decretar nosso óbito em vida, com medo do que acontecerá após a cortina se fechar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><em>Apesar da vida, muitas vezes, parecer assustadora, desejo que você faça dela uma jornada transformadora.</em></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Longevidade: Uma jornada transformadora ou assustadora?" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/7y4a2i9bZuE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211; Membro Analista em formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone D. Magaldi &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2"><a href="https://contador.longevidade.com.br">https://contador.longevidade.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2">BRENNAN, Anne; BREWI, Janice. <em>Arquétipos Junguianos</em> A Espiritualidade na meia idade. São Paulo: Madras, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2">HOLLIS, James. A Passagem do Meio. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2">JUNG, C.G. &nbsp;A Natureza da Psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.2">_________&nbsp; &nbsp;Tipos Psicológicos. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Congressos Junguianos – Online e Gravados:&nbsp;</em></strong><em><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos</a></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>X Congresso Junguiano IJEP&nbsp;(9, 10, 11 Junho/2025)</strong>&nbsp;–&nbsp;<strong>Online e Gravado – 30h Certificação</strong></em></p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep"><img decoding="async" width="1024" height="532" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png" alt="" class="wp-image-10410" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-1024x532.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/04/image-2.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><em>30 palestras com os Professores e Analistas Junguianos do IJEP: Saiba mais e se inscreva:</em><strong>&nbsp;</strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Acompanhe nosso Canal no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung">https://www.youtube.com/@IJEPJung</a></em></strong></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br/"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10445" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/05/image.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em><a href="https://www.ijep.com.br/">Pós-graduações – Matrículas abertas</a>:</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Arteterapia e Expressões Criativas – Presencial São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília</em></strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Psicossomática – Online ou Presencial São Paulo</em></strong></p>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A crise da meia-idade como chamado da alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-crise-da-meia-idade-como-chamado-da-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Caroline Santos Costa]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 24 Feb 2025 13:35:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[crise da meia idade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[insconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: A crise da meia-idade, embora frequentemente associada a um período negativo, pode ser reinterpretada como um chamado profundo da alma, um convite à introspecção e à transformação. Este artigo examina esse momento delicado da segunda metade da vida, sob a perspectiva da psicologia junguiana, ampliando o nosso olhar para a necessidade de reintegrar aspectos [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Resumo: </strong>A crise da meia-idade, embora frequentemente associada a um período negativo, pode ser reinterpretada como um chamado profundo da alma, um convite à introspecção e à transformação. Este artigo examina esse momento delicado da segunda metade da vida, sob a perspectiva da psicologia junguiana, ampliando o nosso olhar para a necessidade de reintegrar aspectos não vividos da vida &#8211; que são essenciais para o desenvolvimento da personalidade e para a sensação de significado existencial mais profundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-de-desenvolvimento-da-humanidade-e-marcada-por-ciclos-de-crise-revolucao-e-transformacao-tanto-em-nivel-coletivo-quanto-individual" style="font-size:20px">A história de desenvolvimento da humanidade é marcada por ciclos de crise, revolução e transformação, tanto em nível coletivo, quanto individual.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A contemporaneidade, em particular, se caracteriza por uma intensificação dessas crises, manifestando-se em instabilidade política, econômica e social, e reverberando profundamente na experiência individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Momentos de <strong>crise</strong>, embora frequentemente associados a eventos puramente negativos, são, em sua essência, períodos que impulsionam mudança e transformação.&nbsp; </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>A própria etimologia da palavra &#8220;crise&#8221; remete a movimento, a um processo dinâmico que impulsiona a reflexão e a busca por novas possibilidades.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A profundidade das dúvidas e incertezas, inerentes aos momentos de <strong>crise</strong>, nos força a questionar padrões de comportamentos e paradigmas arraigados. Abrindo caminho para a (de)cisão – a ruptura com o conhecido e o surgimento de novas perspectivas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-visao-da-psicologia-analitica-longe-de-representar-um-desastre-a-crise-se-configura-como-uma-oportunidade-de-confrontar-a-psique-a-fim-de-reconhecer-e-integrar-aspectos-sombrios-da-personalidade" style="font-size:20px">Na visão da psicologia analítica, longe de representar um desastre, a crise se configura como uma oportunidade de confrontar a psique, a fim de reconhecer e integrar aspectos sombrios da personalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Em momentos de crise, somos levados a refletir sobre nossas polaridades. Essa atitude de confrontação gera uma tensão psíquica que se manifesta como sofrimento, angústia e ansiedade. &nbsp;Embora desagradáveis, essas emoções podem ser impulsionadoras de mudança, levando à criatividade e à busca de novas soluções. No entanto, se reprimidas, podem resultar no desenvolvimento de patologias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A necessidade de olhar para o mundo interno pode surgir de maneira natural, quando passamos por momentos difíceis e precisamos superar perdas, desafios e problemas diversos – ou através do estímulo para ampliação da consciência que ocorre durante o processo de análise.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-embora-possivel-em-qualquer-fase-da-vida-a-meia-idade-se-apresenta-como-um-periodo-particularmente-propicio-a-essa-busca-interna" style="font-size:20px">Embora possível em qualquer fase da vida, <strong>a meia-idade</strong> se apresenta como um período particularmente propício a essa busca interna.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A inversão natural da energia psíquica, do mundo externo para o interno, combinada com a crescente consciência da finitude, impulsiona o anseio de reconciliação com as partes não vividas da personalidade. Levando à necessidade de <strong>integrar aspectos inconscientes</strong>, com o propósito de reunir nossos pedaços faltantes e nos tornamos inteiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A dor da <strong>crise de meia-idade</strong> frequentemente resulta da dissonância entre o &#8220;eu&#8221; autêntico e a personalidade construída ao longo da vida.&nbsp;As escolhas inevitáveis que fazemos implicam na renúncia de outras possibilidades, gerando um conflito interno, especialmente quando essas renúncias, que não foram vivenciadas, representam aspectos essenciais da nossa identidade.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Assim, podemos observar que sempre teremos que lidar com nossas possibilidades não vividas. No entanto, a problemática surge quando essas partes não vividas são fundamentais para a nossa sensação de completude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jonhson-e-ruhl-esclarecem-que" style="font-size:20px">Jonhson e Ruhl esclarecem que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>&nbsp;A vida não vivida inclui todos os aspectos essenciais do sujeito que não foram integrados à sua experiência. São talentos e capacidades que foram abandonados ao longo da primeira metade da vida e permaneceram inconscientes. Estes aspectos não vividos encontram lugar no subterrâneo da nossa psique e, à medida que vamos envelhecendo, podem tornar-se problemáticos se não forem resgatados.</p><cite>(JOHNSON; RUHL, 2010)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-periodos-de-crise-temos-a-sensacao-de-estar-desconectados-de-nossa-propria-vida-p-erdendo-a-capacidade-de-sentir-prazer-e-se-envolver-nas-relacoes-e-situacoes-do-dia-a-dia" style="font-size:20px"><strong>Nos períodos de crise temos a sensação de estar desconectados de nossa própria vida</strong>. P<strong>erdendo a capacidade de sentir prazer e se envolver nas relações e situações do dia</strong> <strong>a</strong> <strong>dia.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Nestes momentos, somos atravessados por questionamentos como:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>Quem sou eu?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>O que estou fazendo da minha própria vida?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>Será que está é a profissão que realmente deveria estar seguindo?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><em>Será que está relação faz sentido para mim?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>A crise de meia-idade</strong>, portanto, se apresenta como uma oportunidade de confrontar a personalidade moldada pela aculturação, com o &#8220;si-mesmo&#8221; autêntico. Caracteriza-se, assim, por um período de conflito interno intenso que geralmente é acompanhado pela redução da energia disponível para a realização das atividades cotidianas. Essa experiência nos leva a questionar crenças e paradigmas que nortearam a nossa vida até então.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A resistência a essa confrontação, bem como a incapacidade de abandonar crenças ou relacionamentos que não fazem mais sentido, pode gerar sentimento de vazio existencial, angústia e falta de propósito, demonstrando que a vida está acontecendo desconectada das necessidades da alma. Já a conscientização e a integração dessas partes não vividas, por outro lado, abrem caminho para uma nova etapa de desenvolvimento pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-johnson-e-ruhl-salientam-que" style="font-size:20px">Johnson e Ruhl salientam que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>&nbsp;A tarefa mais importante da meia-idade é <strong>viver a vida não vivida</strong> em busca de ser mais realizado e trazer sentido à existência. Ao explorarmos a vida não vivida, ultrapassamos os limites de nossos medos, anseios e decepções, adquirimos nova vitalidade e energia e aprendemos a expandir nossa visão para além da consciência comum, assumindo nossa forma plena de ser.</p><cite>(JOHNSON; RUHL, 2010)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A vida nos oferece uma quantidade de energia suficiente para a nossa jornada, contudo, quando percebemos a redução progressiva dessa energia, é necessário nos questionar se as escolhas que estamos fazendo fazem sentido para a nossa alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Hollis</strong> salienta que “<em>somente observando a nossa perda de energia que podemos segui-la até o local da separação. A energia perdida é recuperável. Se escolhermos servir a alma a energia volta a nos servir.</em>”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Percebemos que o descontentamento e a falta de energia comum nos momentos de crise, podem servir como um portal que nos conduz à ressignificação das experiências vividas e a mudanças necessárias para nos expressar no mundo conectados com a alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-do-exposto-podemos-nos-questionar-qual-a-melhor-maneira-para-lidar-com-momentos-de-crise" style="font-size:20px"><strong>Diante do exposto, podemos nos questionar: qual a melhor maneira para lidar com momentos de crise?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong>Como já vimos, devemos lidar com a crise como uma oportunidade e não como um desastre</strong>. Buscando desenvolver um trabalho reflexivo para entender o propósito de estarmos passando por ela, qual o sentido desta situação em nossa vida e o que podemos aprender com essa experiência?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">As possíveis respostas encontradas durante a reflexão, embora dolorosas, por revelar nossas contradições, podem ser profundamente libertadoras, permitindo o resgate e a integração de potencialidades reprimidas.&nbsp; Essa nova compreensão pode proporcionar um redirecionamento de vida mais consciente e a descoberta de novos caminhos, mais plenos de realização existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">No entanto, para o Self ganhar espaço e energia na vida, e poder atuar como uma bússola interna que a direciona segundo os anseios da alma, torna-se necessário o “morrer” simbólico de velhas atitudes e pensamentos, considerados essenciais pelo ego.&nbsp; Vale salientar, que essa “morte” não é literal, mas uma transformação que permite um renascimento mais autêntico e alinhado com a verdadeira essência do ser.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-enfatiza-que-a-psique-e-um-sistema-dinamico-a-qual-possui-caracteristicas-autocorretivas-e-compensatorias-fato-que-a-permite-retornar-sempre-a-sua-trajetoria-ou-seja-torna-se-si-mesmo" style="font-size:20px">Jung enfatiza que a psique é um sistema dinâmico, a qual possui características autocorretivas e compensatórias. Fato que a permite retornar sempre a sua trajetória, ou seja, torna-se si-mesmo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Corroborando com este ponto de vista, Jung traz a visão de <strong>metanóia</strong> como mudança radical vinda de um inconsciente que entra em conflito com a consciência sintônica e com o <em>status quo</em> adquirido com tanto esforço. Ela produz angústia, depressão, pensamento de morte, assim como perspectiva de liberdade, de novos planos e de um novo renovador que muda o rumo de uma vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica-que-a-palavra-metanoien-significa-justamente-mudar-de-mente-ou-mudar-a-maneira-de-pensar" style="font-size:20px">Jung explica que a palavra<em> metanoien</em> significa justamente “mudar de mente” ou “mudar a maneira de pensar.”</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">A<strong> metanóia</strong> remete ao corte que rompe o contínuo da história, estabelecendo uma nova ordem, podendo acontecer tanto em nível coletivo como individual. Fala sobre a necessidade de mudanças ao longo da vida e remete tanto a noção de morte, quanto de renascimento compatível com a demanda inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Desta forma, percebemos que os aspectos da vida não vivida, repletos de potencial criativo, merecem atenção, pois representam uma rica fonte de motivação e propósito.&nbsp; As escolhas feitas ao longo da vida inevitavelmente levaram à repressão de outras facetas da personalidade, que agora podem emergir como novas oportunidades de desenvolvimento e direcionamento existencial.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-trazida-a-consciencia-a-vida-nao-vivida-pode-torna-se-o-combustivel-para-nos-levar-alem-de-nossas-limitacoes-atuais-e-em-direcao-a-uma-vida-mais-profunda" style="font-size:20px"><strong>Quando trazida a consciência, a vida não vivida pode torna-se o combustível para nos levar além de nossas limitações atuais e em direção a uma vida mais profunda.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4">Em última análise, a <strong>crise de meia-idade</strong>, apesar de seu caráter desafiador, apresenta-se como um catalisador fundamental para a introspecção e a subsequente reconexão com alma.&nbsp; Este processo permite a ressignificação de padrões comportamentais e ao direcionamento da energia vital para a realização do propósito da alma.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: A crise da meia-idade como chamado da alma" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/frPLThR08Jg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/caroline/">Caroline Costa &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">JOHNSON, R. A.; RUHL, J. M. Viver a vida não vivida: A arte de lidar com sonhos não realizados e cumprir o seu propósito na segunda metade da vida. Petrópolis: Vozes, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">HOLLIS, James. A passagem do meio: da miséria ao significado na meia idade. São Paulo: Paulus, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:24px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Saiba mais sobre nossos Cursos, Congressos e Pós-graduações</strong>&nbsp;com inscrições abertas: Psicologia Analítica, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas, matrículas abertas –&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Crise da meia idade: você ousa sair da cápsula?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/crise-da-meia-idade-voce-ousa-sair-da-capsula/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luciana Gimenes Branco]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 29 Nov 2024 21:47:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[meia idade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Uma pesquisa realizada com mais de 730 mil pessoas ao redor do mundo, de diferentes faixas etárias, apontou que a pior qualidade do sono do ser humano ocorre dos 33 aos 53 anos. Considerando que a expectativa média de vida das pessoas no mundo é de 72 anos, os 36 anos podem ser considerados [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Resumo</strong>: Uma pesquisa realizada com mais de 730 mil pessoas ao redor do mundo, de diferentes faixas etárias, apontou que a pior qualidade do sono do ser humano ocorre dos 33 aos 53 anos. Considerando que a expectativa média de vida das pessoas no mundo é de 72 anos, os 36 anos podem ser considerados o início da “meia idade” – evidentemente, isso varia de acordo com o país e a condição socioeconômica do indivíduo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Trechos do texto d’O Livro Vermelho indicam que Jung viveu sua crise da meia idade de forma profunda e criativa, nas madrugadas insone, o que resultou na grande obra deixada pelo pensador.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>As noites mal dormidas talvez possam encontrar sentido, na ampliação do sintoma. “Não há tempo para dormir, se você não encontra tempo durante o dia para permanecer na obra”, Jung relata ter ouvido da própria alma.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Estava tudo certo e combinado. Ele cresceria, seguiria sendo o bom aluno da classe, se formaria em uma boa faculdade, encontraria um bom emprego, um bom casamento. Faria uma boa pós-graduação. Teria filhos e uma boa família. Fariam juntos boas viagens nas férias, nas quais visitariam bons restaurantes, comprariam roupas e alguns <em>souvenirs</em> que ajudariam a recontar a história. O celular seria do último modelo, assim como o carro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-havia-algo-naquela-boa-vida-que-nao-soava-bem" style="font-size:18px">Mas havia algo naquela boa vida que não soava bem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aos 45 anos, ele era tomado por uma tristeza inexplicável. Sempre que tentava compartilhar de seu sentimento com amigos, precisava ouvir recitada a lista de tudo o que compunha a boa vida dele, como quem escuta uma lista de pecados. “Você não tem do que reclamar”, precedia, invariavelmente, a bronca fraternal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas a tristeza estava lá, assim como uma inexplicável impossibilidade de encontrar um novo emprego e uma insuperável falta de tesão pela mulher e até pelas amantes. Nem nas prostitutas encontrava seu desejo. As contas não paravam de aumentar, enquanto ele via as reservas financeiras serem consumidas, a fim de manter a vida do jeito que sempre foi. Havia o álcool para distrai-lo todas as noites. E também as maratonas do streaming, suspensas apenas para receber o delivery da sobremesa. Havia o telefone de um médico que poderia receitar algo que o tiraria de vez daquela tristeza inexplicável. Não sabia chamá-la de angústia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estava lá também uma insônia recorrente. Todas as noites, ela o acordava com a mesma pergunta, repetida como eco: “<strong>e agora?</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-insonia-como-simbolo"><strong>Insônia como símbolo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como afirma Jung no ensaio <em>Etapas da Vida Humana</em>, em <em>A natureza da psique </em>(OC 8/2): “<strong>Só o ser humano adulto é que pode ter dúvidas a seu próprio respeito e discordar de si-mesmo</strong>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estudo <em>Sleep duration reveals segmentation of the adult life-course into three phases</em> (livremente traduzido como <em>A duração do sono revela a segmentação do curso da vida adulto em três fases</em>) publicado, em 2022, na revista <em>Nature Communications</em>, envolvendo 730.187 participantes em 63 diferentes países, buscou revelar o padrão do sono ao longo da vida de pessoas de diferentes idades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pesquisa foi feita por cientistas da Universidade College London (UCL), da Universidade de East Anglia (UEA) e da Universidade de Lyon. Segundo o trabalho, a pior qualidade de sono dos adultos se dá na faixa de idade que vai dos 33 aos 53 anos. Considerando que a expectativa média de vida das pessoas no mundo é de 72 anos, os 36 anos podem ser considerados o início da “meia idade” – evidentemente, isso varia de acordo com o país e a condição socioeconômica do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora saibamos que um sintoma tende a ser multifatorial, a partir da cosmovisão de Carl Gustav Jung (1875 – 1961), a insônia na meia idade pode representar, simbolicamente, o <strong>chacoalhar da alma</strong>, buscando acordar o indivíduo para a Vida que precisa ser vivida. Para que ele possa despertar e se responder a pergunta: “e agora?”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-5-de-janeiro-de-1922-jung-entao-com-47-anos-teve-um-dialogo-contundente-com-sua-propria-alma-retratado-pelo-especialista-sonu-shamdasani-na-introducao-d-o-livro-vermelho" style="font-size:17px">Em 5 de janeiro de 1922, Jung, então com 47 anos, teve um diálogo contundente com sua própria alma, retratado pelo especialista Sonu Shamdasani, na Introdução d’<em>O Livro Vermelho.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Incomodado com noites mal dormidas, já em conversa com o sintoma, Jung escuta sua <strong>alma</strong> dizer: “&#8230;você devia ter percebido que eu estava perturbando seu sono há muito tempo&#8230;”, complementando a orientação dada por ela antes de que não era tempo de dormir, mas de ficar acordado e preparar coisas importantes no trabalho noturno. Ao ser questionada por Jung qual trabalho seria esse, a alma respondeu sem rodeios: “A obra precisa ser feita agora. É uma obra imensa e difícil. Não há tempo para dormir, se você não encontra tempo durante o dia para permanecer na obra”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-questionar-a-propria-alma-qual-era-a-sua-vocacao-jung-escuta-assustado-a-resposta-a-nova-religiao-e-sua-proclamacao-apud-shamdasani-2010-p-211" style="font-size:17px">Ao questionar à própria alma qual era a sua vocação, Jung escuta assustado a resposta: “A nova religião e sua proclamação”. (<em>apud </em>SHAMDASANI, 2010, p. 211)</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta conversa, fica evidente a função de um sintoma como a insônia na meia idade. Outros trechos do texto d’<em>O Livro Vermelho</em> indicam que este foi um período de bastante sofrimento para o pensador. Jung estava em crise. Na meia idade, Jung também estava em crise.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi a partir desta crise vivida profunda e criativamente nas madrugadas que resultou a grande obra deixada pelo pensador. Na introdução de <em>O Livro Vermelho</em>, a psicóloga e pensadora junguiana Marie-Louise von Franz afirma que a produção presente no livro foi feita &#8220;com o coração&#8221;, enquanto a <em>Obra Completa</em> de Jung foi escrita &#8220;com a cabeça&#8221;. Von Franz, colaboradora próxima do autor, destaca que <em>O Livro Vermelho</em> é um trabalho muito mais pessoal e expressivo, revelando o processo interno e emocional de Jung, enquanto sua <em>Obra Completa</em> reflete uma abordagem mais intelectual e sistematizada de seus conceitos psicológicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-duvida-como-caminho"><strong>Dúvida como caminho</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A partir da perspectiva da Psicologia Analítica, pode-se afirmar que a crise da meia idade convida o indivíduo para o que Jung chamou de caminho de individuação, cujo sentido é permitir que o arquétipo do si-mesmo se realize em prol de si e à serviço da Humanidade. Se até o meio da vida, costuma-se existir com foco no ter, a partir deste momento há de haver uma morte simbólica deste indivíduo, a fim de que o ego possa existir em função do ser (do <em>self</em>) e do servir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma sociedade que valoriza demasiadamente a razão e os prazeres, as ondas de dúvidas intrínsecas à meia idade e que quebram os castelos de areia da vida construída até a metade da experiência humana costumam ser bastante angustiantes.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Cada um de nós espontaneamente evita encarar seus problemas, enquanto possível; não se deve mencioná-los, ou melhor ainda, nega-se sua existência. Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabu. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem entretanto, nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento. Assim, a negação artificial dos problemas não gera a convicção; pelo contrário, para obtermos certeza e claridade, precisamos de uma consciência mais ampla e superior.</p><cite>OC 8/2 §751</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Como conquistar uma consciência mais ampla e superior sem encarar de frente as ondas de dúvida contidas na insistente pergunta: “E agora?”? Esta atormentadora questão insone pode conter, mesmo que inconscientemente, a certeza psíquica do fim de um corpo que envelhece e de que é necessário agir antes deste término, para se realizar “a grande obra”. Deixar emergir o arquétipo do si-mesmo, o motivo, a finalidade de cada existência em prol do Todo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-agora-que-ja-nao-ha-mais-tanto-tempo-e-agora-que-ja-nao-posso-mais-fingir-continuar-gostando-do-que-ou-de-quem-deixei-de-gostar-e-agora-que-ja-nao-me-reconheco-como-sempre-fui-e-agora-que-percebo-que-minhas-certezas-ja-nao-sao-tao-certas-assim" style="font-size:17px">“E agora que já não há mais tanto tempo?” “E agora que já não posso mais fingir continuar gostando do que (ou de quem) deixei de gostar?” “E agora que já não me reconheço como sempre fui?” “E agora que percebo que minhas certezas já não são tão certas assim?”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda em <em><strong>Etapas da Vida Humana</strong></em>, Jung faz uma analogia simbólica bastante didática sobre o que representa a metade da vida e sua crise, comparado a existência humana ao nascer a ao por do Sol. Se na primeira metade do dia, o Sol emerge e tende ao ápice, sem ao certo saber onde este local de superioridade se localiza, já no primeiro minuto após o cume inicia-se a decadência, a queda, rumo à escuridão. “Precisamente ao meio-dia, o Sol começa a declinar e esse declínio significa uma inversão de todos os valores e ideias cultivados durante a manhã. O Sol, então, torna-se contraditório consigo mesmo.” (OC 8/2 §778)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta contradição, porém, é, do ponto de vista psíquico, absolutamente coerente. A Vida vivida em cada um sabe que a existência do corpo tem fim, embora o indivíduo contemporâneo ocidental e subjulgado ao sistema capitalista de consumo desenfreado seja convidado a acreditar no contrário.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-evolucao-como-fim"><strong>Evolução como fim</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">O mercado “ageless” vende rostos sem marcas, músculos definidos, vende hormônios, implantes capilares e dentes embranquecidos. A alma sabe o que a razão e o consumo tentam negar. Mas ela, a alma, sempre encontra formas de se fazer notar pelos sintomas, pelos sonhos, pelas sincronicidades que tendem a ganhar intensidade na meia idade, já que é tempo de despertar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <em>homo sapiens</em> busca a evolução da consciência há mais de 200 mil anos, a despeito do capitalismo, este jovem sistema econômico de pouco mais de 200 anos, que busca o crescimento sem fim e sem significado de indústrias que enriquecem poucos, ao escravizar bilhões no consumo ou no trabalho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quanto-mais-desconectado-do-principio-arquetipico-da-evolucao-espiritual-mais-contundentes-serao-os-chamados-da-alma-na-metade-da-vida-quando-a-psique-tende-a-indicar-que-nem-tudo-esta-bem-por-meio-da-angustia-manifestada-de-diferentes-formas" style="font-size:17px">Quanto mais desconectado do princípio arquetípico da evolução espiritual, mais contundentes serão os chamados da alma na metade da vida, quando a psique tende a indicar que nem tudo está bem, por meio da angústia manifestada de diferentes formas.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Se a vida psíquica fosse constituída de evidências naturais &#8211; como acontece ainda no estágio primitivo &#8211; poderíamos nos contentar com um empirismo decidido. Mas a vida psíquica do homem civilizado é cheia de problemas, e não pode ser concebida senão em termos de problema. Grande parte de nossos processos psíquicos são constituídos de reflexões, dúvidas, experimentos &#8211; coisas que a psique instintiva e inconsciente do homem primitivo desconhece quase inteiramente. É ao crescimento da consciência que devemos a existência de problemas; eles são o presente de grego da civilização.</p><cite>OC 8/2 § 750</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Com consciência do sentido espiritual da vida, a meia idade pode se tornar um portal para a realização de tudo aquilo que sempre esteve, porém ainda não foi manifestado. Indivíduos alinhados aos seus talentos e missões, podem enxergar a meia idade e o envelhecimento de forma inspiradora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dos anos 2000, o multiartista britânico <strong>David Bowie</strong> (1947 &#8211; 2016) passou a tratar de assuntos como envelhecimento e autoconhecimento nas entrevistas que concedia ao redor do mundo. É atribuída a ele a frase “<strong>Envelhecer é extraordinário: você se torna a pessoa que sempre deveria ter sido</strong>”, embora não se encontre literalmente essas palavras em entrevistas pesquisadas. Porém, de inegável autoria de Bowie, a canção <em>Space Oddity</em> (1969), convoca: “<em>Now it’s time to leave the capsule if you dare</em>” (em livre tradução, “Agora é hora de deixar a capsula, se você ousar”). Parece que ele falava a partir e sobre o <em>self</em>, o si-mesmo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E você, ousa sair da cápsula?</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="ARTIGO NOVO: &quot;Crise da meia idade: você ousa sair da cápsula?&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/QWRPoIwx7gE?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Luciana Branco &#8211; Analista em Formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">COUTROT, A., Lazar, A.S., Richards, M.&nbsp;<em>et al.</em>&nbsp;Reported sleep duration reveals segmentation of the adult life-course into three phases.&nbsp;<em>Nat Commun</em>&nbsp;<strong>13</strong>, 7697 (2022). https://doi.org/10.1038/s41467-022-34624-8</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C.G.<em> A Natureza da psique.</em> 10ª edição. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">______ <em>O Livro Vermelho.</em> 1ª edição. Petrópolis: Editora Vozes, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">BOWIE, David. <em>Space Oddity</em>. Londres: Philips Records,1969.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



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<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicossomática</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça os <strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/congressosjunguianos">Congressos Junguianos do IJEP</a></strong>, Online e Gravados, com acesso imediato.</p>
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		<title>Precisamos imaginar Afrodite velha</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/precisamos-imaginar-afrodite-velha/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Nov 2024 12:11:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[afrodite]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É uma manhã de segunda-feira normal. Acorda-se com a ressaca do dia anterior. O trabalho aguarda. Mas, antes, o banheiro pede urgência, como esperado. Após as necessidades básicas e o banho, você se encontra frente a frente do espelho. Espantado. O espanto é tão grande que perde a noção se é você que olha o [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">É uma manhã de segunda-feira normal. Acorda-se com a ressaca do dia anterior. O trabalho aguarda. Mas, antes, o banheiro pede urgência, como esperado. Após as necessidades básicas e o banho, você se encontra frente a frente do espelho. Espantado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O espanto é tão grande que perde a noção se é você que olha o seu reflexo ou se é o seu reflexo que olha para você. Devido ao espanto, podemos admitir que algo te dominou, portanto, o reflexo ganhou dessa vez. Devido ao espanto, novamente, sabemos que essa palavra está ligada a <em>phantom: fantasma.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um fantasma chegou</strong>. Ele não é uma pessoa atrás de você ou qualquer coisa do tipo – é, na realidade, um fio prateado surgido em meio à cabeleira escura dos dias anteriores. Solitário, branco, inesperado, diferente em cor e textura de todos os outros. “É um intruso”, pensa-se. Diante do espanto, são necessárias medidas drásticas: “arranque-o e não se fala mais nisso”. Elimine e mantenha no <em>top secret.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra semana se passa e mais uma vez o espanto retorna ao cotidiano matinal de segunda-feira. Outro fio prateado. E já sabemos: se continuar arrancando, a imagem evocada é a “puxando os cabelos” – uma expressão de um estado de angústia, aflição ou desespero diante de uma situação problemática ou insolúvel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O fio voltará na semana seguinte. Não tem mais jeito. Porém, a teimosia em negar a evidência semanal prateada torna-se bélica. Visto que é uma guerra, necessita-se de instrumentos. Não somente as mãos ou a pinça, mas medidas químicas podem ser tomadas: tintura e <em>sprays</em> coloridos são úteis. Tudo que possa disfarçar os intrusos prateados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A cada novo ciclo: a lua prateada</strong>. Mais fios e fios refletem o satélite. Assim como a lua, o humor oscila entre a irritação e a melancolia. A falsa autoestima pautada na estética juvenil, trabalhada na academia e nos centros estéticos, antes inabalável, começa a ruir. Fantasia-se ao sair de casa: &#8220;será que estão falando de mim? Será que notaram os intrusos?&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa fantasia não pode ser destacada. Quem são estes outros? “A sociedade”, pode-se responder. Uma sociedade tão padrão quanto a cabeleira escura até então. Cada fio de cabelo colorido é um fio que prende aos outros, nessa fantasia. <strong>O único que possui uma voz diferente é o branco</strong>. Mas, em meio às vozes laudas dos fios escuros, uma voz sutil e nívea pode ser encontrada. Ela é um sussurro da alma: “<strong>aceite-me</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Aceite-me. Eu sou o convite. Aquilo que encontrares se me aceitar és tu mesmo, pois sou a diferenciação. Sou de prata, sou sim o sinal de declínio do ouro, porém, aquele que permanece no ouro perde-se de si. Chegou o momento de revisares a ti mesmo, abandonares a falsa importância que tu seguraste tão firme desde então. Duvida-te de ti. Quem és tu se não tiveres este ofício; quem és tu se não tiveres este dinheiro ou esta dívida; quem és tu se morasses em outro lugar, com ou sem religião, com outra família ou solitariamente, com outro ou até mesmo sem o amor? O que fizeste até então, valeu para que? Pois essa te respondo: para nada. Tudo é pó e ao pó retornarás.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhuma cabeleira grisalha é a mesma. Cada fio contribui para a composição grisalha singular, uma manifestação visível do pedido de diferenciação. As tonalidades variam. As texturas se alternam entre fios lisos e sedosos, fios ondulados e volumosos, fios crespos e rebeldes. É, sim, uma diferenciação que se estampa na cabeça, literalmente. Também, é um convite à metáfora e reflexão, mesmo que os prateados fios sejam escondidos. A cabeça é um símbolo da reflexão, do pensamento, em nosso paradigma ocidental: um chamado para olhar para dentro e reconhecer algo que até então estava oculto.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O oculto não pode ser dito nesse artigo, pois, seria uma traição aos fios grisalhos</strong>. Porém, podemos refletir sobre a aceitação do pedido de diferenciação que o primeiro fio grisalho clama. Neste estágio, deve-se questionar: é possível reconhecer uma beleza que não se sintetiza à juventude estética, mas à singularidade? Se estamos falando de beleza, estamos falando de Afrodite. Isto é, imaginar Afrodite grisalha, velha?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em artigo anterior, apontei como Afrodite não se encontra mais na estética atual (<a href="https://blog.sudamar.com.br/afrodite-nao-esta-no-espelho-uma-critica-aos-padroes-esteticos-da-contemporaneidade/">https://blog.sudamar.com.br/afrodite-nao-esta-no-espelho-uma-critica-aos-padroes-esteticos-da-contemporaneidade/</a>). Mas, talvez, ela possa ser encontrada no momento de espanto e maravilha diante do espelho que aqui estamos contextualizando. <strong>A beleza ou Afrodite só surge se o espanto e a maravilha da impermanência forem aceitos.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se pensar numa rosa colhida como uma representação da impermanência, que atinge seu esplendor máximo quando começa a murchar, defendendo que a beleza humana se manifesta em cada fase da vida. Bobeira. Hoje as rosas estão todas iguais, assim como seus arranjos e buquês. Todos buscam as rosas mais perfeitas e imperecíveis. Ninguém mais colhe uma rosa para a sua amada – compra na máquina capitalista e manda entregar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No fundo, há um desejo de continuar belo como no passado. Defender que agora é um novo ciclo, mais espiritual e tentar esquecer do desejo de ser belo como quando jovem é reprimir o desejo da beleza bem como aceitar que o padrão estético contemporâneo venceu. Precisamos, na realidade, imaginar Afrodite velha. Há beleza tanto literal quanto metafórica no envelhecer. Sofia, a sabedoria, não emerge se não reconhecermos que nela há beleza, Afrodite.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, é importante aprender com as árvores de Ipê. A seca, um dos sintomas do envelhecer humano, também atinge os Ipês. Porém, para eles, isso pode significar morte. Nada obstante, curiosamente, a seca é um dos fatores que desencadeiam o processo de hiperfloração. O Ipê entra em um estado de alerta, assim como o espanto diante do espelho. A árvore interpreta a falta de água como um sinal de que precisa se reproduzir para garantir a perpetuação da espécie. É nesse momento que ele concentra suas energias na produção de flores e sementes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Se Afrodite se apresenta diante da seca nessas árvores, por que não se apresentaria também para os humanos?</strong> Se refletirmos sobre a metáfora, não são as sementes juvenis, nem flores da juventude. São flores e sementes diante da imagem do envelhecer e, consequentemente, do espanto da impermanência neste mundo. Essas flores e sementes que desabrocham em meio à aridez representam a força que persiste diante do envelhecimento. Refletir sobre essa metáfora nos leva a questionar como queremos florescer junto aos novos fios brancos que tecem a individualidade, é essencial para escolher como envelhecer e, por fim, como morrer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que Afrodite possa nos acompanhar nessa jornada de espanto, de sentidos e memórias. E que possamos desejar, e nos regozijar, com os tons melancólicos e terroso do outono e, após, com o brilho sutil e prateado do inverno tanto quanto nos exaltamos com os reflexos furta-cor da primavera e com o dourado imponente do verão. Afinal, é no outono e no inverno que as mais belas auroras boreais podem ser avistadas.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Precisamos imaginar Afrodite velha&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/PTYreGbvk7I?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leostorres/">Leonardo Torres &#8211; Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicossomática</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Promoção especial para o próximo semestre&nbsp;</strong>(março/abril 2025):</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="1024" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image-2-1024x1024.png" alt="" class="wp-image-9749" style="width:439px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image-2-1024x1024.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image-2-300x300.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image-2-150x150.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image-2-768x768.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image-2-450x450.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/11/image-2.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
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		<title>Crise da meia idade feminina – rainha ou bruxa?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/crise-da-meia-idade-feminina-rainha-ou-bruxa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Jul 2022 19:10:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Geriatria]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A menopausa e o envelhecer pode ser uma grande oportunidade de transcender porque “Ser jovem e belo é um golpe de sorte genético, ser velho e belo é uma obra de arte, cujo artista é você mesmo.”</p>
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<p class="wp-block-paragraph"><br>“Ser jovem e belo é um golpe de sorte genético, ser velho e belo é uma obra de arte, cujo artista é você mesmo.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher, bem diferente dos homens, devido sua estrutura ginecológica e hormonal, é acometida por dois momentos significativos de iniciação, que deveriam remetê-la a vivencia dos antigos rituais de passagens. Aliás, creio que a sociedade contemporânea está, cada vez mais, dessacralizada e distante dos ritmos e ritos que serviam para marcar os momentos de início e, consequentemente, de término de determinadas e importantes fases da vida. O primeiro momento é a crise que estabelece a passagem da menina para a adolescente, que acontece na menarca ou primeira menstruação, que ocorre, em média, dois anos após os primeiros sinais da puberdade. O segundo momento, após a menacme, que é o período onde a mulher permanece fértil, é o da menopausa, caracterizado pela última menstruação, passando pelo período do climatério que pontua a transição do fim da sua fase reprodutiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por volta dos 45 anos de idade, acontecem muitas transformações, transições e crises na vida da maioria das pessoas, principalmente por conta da metanóia, época em que ocorrem transformações fundamentais no pensamento e no caráter dos indivíduos, devido às novas demandas e pela busca de novo sentido e significado existencial. No caso das mulheres, outros aspectos somam-se às mudanças hormonais e corporais, incluindo transformações da estrutura familiar, com a saída dos filhos, e desejos de se sentirem produtivas, pertencentes, entre outras demandas. A consequência desse momento, quando não existe uma atitude consciente e diligente diante desta crise, é o surgimento de uma infinidade de transtornos e queixas físicas, psíquicas e afetivas presentes nos consultórios dos profissionais de saúde, acompanhadas de excessos comportamentais envolvendo temáticas com vários tipos de dependências, abusos ou compulsões, depressões e muitos transtornos ginecológicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante deixamos claro que toda crise pode ser uma oportunidade. Ou seja, dependendo da maneira que a pessoa enfrentar a mudança surgirá resultados muito distintos, dos mais positivos até os mais negativos, construtivos ou destrutivos, prazerosos ou dolorosos. Enfim, os resultados dependerão do estado de consciência e de autoconhecimento de cada pessoa. É neste sentido que as mulheres, na crise da meia idade, podem escolher conscientemente se irão assumir, em suas novas personalidades, mais aspectos da imagem arquetípica da bruxa ou da rainha. A bruxa tem um perfil de personalidade histriônica, impaciente, ressecada e rígida, com desejos de vingança e poder, devido seus sentimentos de exclusão e de infertilidade. A rainha, por sua vez, exercerá sua autonomia com liberdade e criatividade, pois ela sabe que pode reinar e gerir livremente a sua vida, principalmente agora que se libertou das regras ou dos incômodos menstruais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, para que a mulher da meia idade assuma sua dimensão rainha, ela não pode ficar identificada exclusivamente com as imagens arquetípicas das deusas Hera, Demeter ou Perséfone, respectivamente representadas pela: esposa, mãe ou filha – atribuições unilaterais ainda impostas pela nossa atual sociedade patriarcal, patrimonialista e machista. Da mesma forma, não pode negar ou contrapor essas funções, indo para o extremo oposto, ficando desfeminilizada, assumindo características mais competitivas, testosteronicas e masculinas. Porém, infelizmente, o que mais notamos é que a maioria das mulheres acaba ficando aprisionada em um conjunto de papeis, empobrecendo suas vidas e sofrendo o ressecamento de toda sua potencialidade integrativa e criativa. Com isso, desenvolvem uma infinidade de sintomas de adoecimento que, para serem curados, necessitam de uma integração de cuidados que vão desde as intervenções, químicas ou cirúrgicas, até um profundo processo de autoconhecimento. Só assim elas poderão, conscientemente, assumirem seus papeis de rainhas, transcendendo evolutivamente a crise da meia idade, reconhecendo que a bruxa, geralmente, é a fada que foi ou se sentiu excluída de algum contexto existencial. Concluo deixando explícito que toda mulher, na sua essência imanente, deseja liberdade e autonomia para estabelecer seus vínculos e até sua maternagem, que pode ser exercida em qualquer situação, independente da filiação biológica ou adotiva, pois o potencial materno e criativo é preponderantemente feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDEMAR MAGALDI FILHO&nbsp;é psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia.&nbsp; Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”.&nbsp; Fundador e coordenador dos cursos do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa (<a href="http://www.waldemarmagaldi.com/">www.ijep.com.br</a>).</p>
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		<title>Um perfil psicológico do velho triste a partir de Jung</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-perfil-psicologico-do-velho-triste-a-partir-de-jung/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dimas Künsch]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jun 2022 21:48:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Morte]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4115</guid>

					<description><![CDATA[<p>A arte de viver – a mais sublime e a mais difícil, segundo Jung – interpela a todos, também os idosos. Envelhecer é da vida, faz parte do ritmo natural da existência. Já o sentido de uma vida plena – ainda que muitas vezes no conflito e na dor -, esse, não! Depende de escolhas. [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h4 class="wp-block-heading" id="h-a-arte-de-viver-a-mais-sublime-e-a-mais-dificil-segundo-jung-interpela-a-todos-tambem-os-idosos-envelhecer-e-da-vida-faz-parte-do-ritmo-natural-da-existencia-ja-o-sentido-de-uma-vida-plena-ainda-que-muitas-vezes-no-conflito-e-na-dor-esse-nao-depende-de-escolhas-dimas-a-kunsch"><em>A arte de viver – a mais sublime e a mais difícil, segundo Jung – interpela a todos, também os idosos. Envelhecer é da vida, faz parte do ritmo natural da existência. Já o sentido de uma vida plena – ainda que muitas vezes no conflito e na dor -, esse, não! Depende de escolhas.</em> &#8211; <strong>Dimas A. Künsch</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">“Perversão.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ausência de estilo.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Uma verdadeira monstruosidade psicológica.”</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Carl Gustav Jung</strong> não segura a língua nem mede palavras quando deseja chamar a atenção para o triste destino de um tipo de vida que poderíamos designar como besta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso específico, ele usa essas e outras expressões, igualmente fortes, para se referir ao envelhecimento, quando esse envelhecimento ocorre, tristemente, na contramão do sentido natural da vida humana.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vida sem propósito, desprovida de qualidade. É isso que a vida acaba virando. “Uma vida desgraçada”, lamenta <strong>Jung</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa é, pois, como avançado, sobre aquilo que <strong>Jung</strong> chama de <strong>“o outono da vida”</strong>, isto é, o envelhecimento e sua consequente proximidade com a morte. E, para essa conversa, dois ensaios do pai da Psicologia Analítica se revestem de particular importância. Ambos se encontram na parte final do volume 8/2 das Obras Completas de Jung, que traz como título&nbsp;<em>A natureza da psique</em>&nbsp;(JUNG, 2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro desses ensaios, “As etapas da vida humana”, foi publicado em 1930, o ano em que Jung completou 55 anos de idade. O segundo, “A alma e a morte”, viria à luz quatro anos depois, em 1934, aos 59 anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, só para lembrar, morreria em 1961, aos 85 anos, cerca de três décadas depois de ter se ocupado pela primeira vez com a produção desses textos. E é interessante observar o seguinte: no prólogo de&nbsp;<em>Memórias, sonhos, reflexões</em>&nbsp;(JUNG, 2006, p. 31), uma espécie de autobiografia publicada no ano de sua morte, Jung anotaria que sua vida foi “a história de um inconsciente que se realizou”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Tudo o que repousa no inconsciente”, expõe Jung, “aspira a tornar-se acontecimento”. A personalidade “quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um inconsciente que se realiza!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Um inconsciente cujos conteúdos e potencialidades mais recônditos aspiram a se tornar acontecimento, realidade vivida, experiência de vida!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sonho humano da totalidade, da plenitude – tão diferente da ideia, humanamente torta e até perversa, de os humanos alcançarem a perfeição!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembrando as palavras iniciais deste texto – retiradas da boca do próprio Jung –, podemos facilmente concluir que Jung não viveu nem de longe o outono de sua vida como “um pervertido”, um carente de “estilo”, uma “monstruosidade psicológica”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não fez de sua vida uma coisa besta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não morreu bestamente.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não teve uma velhice desgraçada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gente sabe que não. E não é apenas porque ele o disse, com todas as letras e com toda a sua autoridade intelectual e moral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, nem poderia ser diferente. Curador ferido, ao tratar da velhice, como de outras etapas da vida humana, Jung fala antes e acima de tudo de si mesmo – e de seu si-mesmo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque ninguém pode dar o que não tem, Jung deixa claro em mais de um trecho de sua obra. Ninguém pode ensinar o que não sabe.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Se alguém quer educar, que primeiro seja educado”, escreve, em outro ensaio, sobre “A formação da personalidade” (JUNG, 2013, p. 179).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, nessa última citação, está se referindo ao “ideal pedagógico” de educar as crianças para a personalidade. Fala do “entusiasmo pedagógico” de pais e educadores. Alfineta: diz que ele mesmo nutre sérias dúvidas se essa mania de querer educar nossas crianças não esconde o medo que temos de nos confrontar com as nossas próprias sombras e os nossos complexos todos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Todo o nosso problema educacional tem orientação falha: vê apenas a criança que deve ser educada, e deixa de considerar a carência de educação no educador adulto” (JUNG, 2013, p. 180).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em resumo, voltando ao tema do inconsciente, que teria se realizado na vida de Jung: em Jung, com efeito, vida e caminho da individuação não se distinguem. Uma coisa leva à outra. Uma coisa briga, sofre e se alegra com a outra. Sem muita chance para a vida besta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Convém, no entanto, não exagerar na compreensão da ideia de totalidade em Jung. Nele mesmo e em toda a sua obra, a totalidade está longe de ser totalitária, um samba de uma nota só, algo unívoco, unilateral, sem conflito, sem ferida e sem dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A personalidade, no sentido da realização total de nosso ser, é um ideal inatingível”, diz Jung. E complementa: “O fato de não ser atingível não é uma razão a se apor a um ideal, pois os ideais são apenas os indicadores do caminho e não as metas visadas” (JUNG, 2013, p. 183).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>‘Angelus novus’ invertido</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas investidas retóricas e práticas de Jung contra a velhice sem propósito nem qualidade, dois trechos dos ensaios citados chamam fortemente a atenção pela sua assertividade. No primeiro (par. 800), Jung adverte sobre o fato de que “muitas pessoas se petrificam na idade madura”. Elas não conseguem acompanhar o fluxo da “vida natural”, que é “o solo em que se nutre a alma”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas petrificadas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não-vidas!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas pessoas, ele continua, “olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração”. “Ficam paradas como colunas nostálgicas, com recordações muito vívidas do seu tempo de juventude, mas sem nenhuma relação vital com o presente.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Múmias paralíticas, na voz de Waldemar Magaldi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas na contramão da natureza e da história de si mesmas e, também, do mundo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Medo da morte” como “medo também das exigências normais da vida” (JUNG, 2012, p. 362).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Me lembrei, aqui, da figura do “Angelus Novus”, de Paul Klee, que é “o anjo da história”, na visão de Walter Benjamin. Olhos arregalados, boca aberta, asas estendidas e rosto voltado para trás, o anjo parece querer afastar-se de algo que fita atentamente, horrorizado. Foge de seu passado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas palavras de Benjamin, o passado de que o anjo assustado tenta fugir representa a mais pura imagem de uma enorme catástrofe. Há escombros por toda parte. São destroços e mais destroços que ninguém, nem mesmo um anjo, consegue juntar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma tempestade muito forte, com rajadas de um vento impetuoso, não permite ao anjo bater as asas para obter algum sucesso em seu movimento desesperado de fuga. De costas para o passado, nosso anjo, com cara de dar dó, é arremessado violentamente de encontro ao futuro, enquanto “um amontoado de escombros cresce diante dele até o céu”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa metáfora, como imagina Benjamin, a tempestade é o progresso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O progresso doido, incontrolável e amedrontador.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas voltemos para Jung e para a nossa conversa sobre o envelhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensando bem, o velho de vida triste e infeliz de que estamos falando mais se parece com um&nbsp;<em>angelus novus</em>&nbsp;invertido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É do futuro que ele foge.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do entardecer da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele foge da morte.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao contrário do anjo de Paul Klee, o velho triste, na visão de Jung, está de costas, não para o passado que o assusta, mas para o futuro. O passado o seduz.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele se agarra ao passado. Sente nostalgia. Foge para o passado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele tem medo da morte que se avizinha: o mistério da morte!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem medo de dizer sim ao chamado da vida, não importa nunca a idade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso pobre velho infeliz, que leva uma vida besta, busca um consolo impossível numa juventude e, mais atrás ainda, numa infância que, a bem da verdade, ele nunca viveu. Uma juventude e uma infância que nunca existiram de fato. Pelo menos, não nos moldes da nostalgia e da ilusão que o nosso velho triste acalenta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se bem que, na vida vivida, aquém e além das imagens e das analogias, passado e futuro se deixam embaralhar nos percursos da vida besta, seja ela de que idade for. “Quem se protege contra o que é novo e estranho e regride ao passado está na mesma situação neurótica daquele que se identifica com o novo e foge do passado”, assinala Jung. “A única diferença é que um se alheia do passado e o outro do futuro. Em princípio, os dois fazem a mesma coisa: mantêm a própria consciência dentro de seis estreitos limites, em vez de fazê-la explodir na tensão dos opostos e construir um estado de consciência mais ampla e mais elevada” (JUNG, 2012, p. 351).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O passado como ilusão e fuga</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">No parágrafo seguinte (801), Jung acena para o que era óbvio em seu tempo – e o é, tanto ou mais que tanto, também em nossos dias: “A velhice é sumamente impopular”. Não é daquelas coisas das quais se possa dizer: “Nossa! Que felicidade que é ser velho!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não, não é.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossa cultura e em nosso mais que assimétrico e injusto modo de organizar a sociedade e a vida, associar velhice com felicidade pode parecer uma verdadeira provocação.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O desprestígio de que padece a velhice, para além do medo da morte, pode em parte representar uma razão por que, sempre nas palavras de Jung, “nos apegamos ao nosso passado e ficamos presos à ilusão da nossa juventude”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas iludidas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] um septuagenário jovem não é delicioso?”, Jung pergunta, repercutindo o modo tosco e torto de pensar daqueles que propõem ilusoriamente que o velho deva ser eternamente jovem.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Não, não é nada delicioso”, responde Jung, antes de desferir mais um cruzado no corpo alquebrado de nossas frágeis ilusões. Tanto “o homem de trinta anos com espírito infantil, [que] é certamente digno de lástima”, quanto o idoso iludido de ser jovem “são pervertidos, desprovidos de estilo, verdadeiras monstruosidades psicológicas”.&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas monstruosas!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“[&#8230;] um velho que não sabe escutar os segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do passado. Está situado à margem da vida, repetindo-se mecanicamente até a última banalidade.”&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas mumificadas, à margem da vida!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Relíquias petrificadas do passado!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vida banal! Besta!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tipo de vida, segundo Jung, não merece de fato outro adjetivo que “desgraçada”. Para esse tipo de velhos tristes, parece mesmo não restar muita coisa além de sonhar que essa não-vida chegue o mais rápido possível ao seu fim, como sublinha Jung em outro trecho do mesmo ensaio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A insuportável vida regada a desgraça, sem propósito, sem sentido, a vida besta vê a morte “como o fim de um processo”, e não como “uma meta e uma consumação” (JUNG, 2012, p. 362).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A tempestade que ameaça o anjo benjaminiano projeta a vida humana para o futuro de uma história infeliz, o da afirmação do progresso. Sob o ponto de vista da Psicologia Analítica, no caso do velho triste, trata-se, antes, da negação do progresso da consciência, da não-consumação do desenvolvimento da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, e de novo, aquilo que nesse caso se nega não é o progresso que tanto assusta o anjo. Nega-se o fluxo natural da vida de que fala Jung. Nega-se o solo fértil do qual se alimenta a alma humana.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nega-se, como já citado, a possibilidade de fazer a consciência “explodir na tensão dos opostos e construir um estado de consciência mais ampla e mais elevada” (JUNG, 2012, p. 351).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Arte de viver e arte de morrer</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Embutida nesse dinamismo negacionista encontra-se, portanto, a mais completa traição àquilo que se pode chamar de propósito natural da velhice.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De novo o tema do propósito, nas palavras de Jung: “Se atribuímos uma finalidade e um sentido à ascensão da vida, por que não atribuirmos também ao seu declínio?”, ele pergunta. “Se o nascimento do homem é prenhe de significação, por que é que a sua morte também não o é?” (JUNG, 2012, p. 365).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Declínio/morte com significado!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um arquétipo ali, nesse lugar onde a vida há milhões e milhões de anos se faz e refaz, se molda, se apresenta, mostrando o ar de sua graça!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O ser humano não chegaria aos setenta ou oitenta anos se esta longevidade não tivesse um significado para a sua espécie”, prossegue Jung. “Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida” (JUNG, 2012, p. 356).&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">“Mas não devemos esquecer que só bem pouquíssimas pessoas são artistas da vida, e que a arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as artes” (JUNG, 2012, p. 357).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desse modo, há vidas que, por tantos e tão diversificados motivos, não se realizam. Não se desenvolvem. Não se consumam.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apenas chegam a um fim – e, quanto antes, parece que melhor.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O vinho da juventude nem sempre se clarifica com o avançar dos anos; muitas vezes até mesmo se turva”, comenta Jung, para dizer em seguida que “é nos indivíduos de mentalidade unilateral em que melhor se podem observar os fenômenos acima mencionados, muitos dos quais se manifestam ora mais cedo, ora mais tardiamente” (JUNG, 2012, p. 352).</p><p>Os “fenômenos acima mencionados”, de que fala Jung, são em primeiro lugar um endurecimento/enrijecimento de convicções e princípios que nortearam os idosos até então, “principalmente os de ordem moral”. E isso “pode levá-los, crescentemente, a uma posição de fanatismo e intolerância [&#8230;]. É como se a existência desses princípios estivesse ameaçada, e, por esta razão, se tornasse mais necessário ainda enfatizá-los” (JUNG, 2012, p. 352).</p><p>É nesse ponto, eu julgo, que Jung oferece a chave que nos permite fugir de uma velhice infeliz, petrificada, desgraçada: “Para o jovem constitui quase um pecado ou, pelo menos, um perigo ocupar-se demasiado consigo próprio, mas para o homem que envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo” (JUNG, 2012, p. 355-356).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O si-mesmo!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se ligarmos o que aqui está sendo dito com a ideia, antes apontada, do fluxo natural da vida rumo à consumação da vida – vamos dizer assim: a ideia de um arquétipo da velhice –, temos que, quanto mais se aproxima de seu fim, tanto mais a vida humana anseia por sentido, por plenitude, por totalidade. Por um diálogo denso e por certo também tenso com o si-mesmo, o centro maior da vida psíquica e da personalidade humana.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um diálogo difícil, agonístico, mas necessário. Fundamental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe os seus raios para iluminar a si mesmo”, resume Jung (2012, p. 356), numa imagem que me parece belíssima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas Jung volta aos “fenômenos acima mencionados” para insistir que não é muito isso o que se vê acontecer e o que se experimenta no cotidiano da vida de tantas pessoas idosas. “Em vez de fazer o mesmo” que a metáfora do Sol indica, “muitos indivíduos idosos preferem ser hipocondríacos, avarentos, dogmatistas e&nbsp;<em>laudatores temporis acti&nbsp;</em>(louvadores do passado) e até mesmo eternos adolescentes” (JUNG, 2012, p. 356).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Transformam-se, essas pessoas, em “lastimosos sucedâneos da iluminação do si-mesmo”, como “consequência inevitável da ilusão de que a segunda metade da vida deve ser regida pelos princípios da primeira” (JUNG, 2012, p. 356).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O pior de tudo é que pessoas inteligentes e cultas [&#8230;] entram inteiramente despreparadas na segunda metade de suas vidas.” Vive-se sob a “falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideias continuarão como dantes”, mas não é isso que acontece: “Não podemos viver a tarde de nossas vidas segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã será falso no entardecer” (JUNG, 2012, p. 355).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">E há um complicador na trajetória desse exército de pessoas infelizes: não estamos aptos interiormente para esse entardecer da vida. Não estamos capacitados, nutridos para isso.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O jovem é preparado durante vinte anos ou mais para a plena expansão de sua existência individual”, lembra Jung. “Por que não deve ser preparado também, durante vinte anos ou mais, para o seu fim?” (JUNG, 2012, p. 365).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Uma observação cabe aqui, sobre o termo “preparado”. Talvez preparar não seja o caso. O espanto e a criatividade rompem com o preparo. A ideia de preparar, a partir sobretudo da escola, mais lembra o ideal iluminista de praticar aquele tipo de educação que Jung tanto e tantas vezes duramente critica.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Sábio, diz Jung, traz consigo a energia da Criança Divina. Diferentemente acontece no caso do Senex, que vive o tempo todo à sombra do Puer egoísta, como bem lembra, de novo, Magaldi.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um grande ponto de interrogação</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Que imagem se pode esboçar desse velho triste, desse não-velho ou antivelho, a partir dessas breves anotações, com base nos dois ensaios de Jung?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta minha leitura dos dois ensaios junguianos não é falsa nem mentirosa, mas completa também não é. Trata-se de um recorte. São pinçados e frisados alguns aspectos apenas, ainda que muito salientes.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo que eu aqui faço, que é sério, muito sério, não passa às vezes (quase) de uma brincadeira. Porque a vida não se faz de explicações. Não cabe em conceitos e definições. A velhice também não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio Jung, ao iniciar o primeiro de seus ensaios, sobre “as etapas da vida humana”, lembra que está tratando de coisas “difíceis, questionáveis ou ambíguas”, questões que admitem mais de uma resposta, sem segurança, sem clareza de verdade. “Por este motivo, haverá não poucos aspectos que nossa mente terá de abordar com um ponto de interrogação” (JUNG, 2012, p. 343).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um trecho mais adiante, num verdadeiro tributo ao pensamento kantiano, Jung anota que, para ele, “a significação e a finalidade de um problema não estão na sua solução, mas no fato de trabalharmos incessantemente sobre ele”. E é essa atitude que “nos preservará da estupidificação e da petrificação” (JUNG, 2012, p. 350-351).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora, imaginar que tanta desgraça possa vir junta, num indivíduo só, por mais triste que possa ser o velho triste, não me parece razoável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou talvez se possa, sim, admitir essa possibilidade, uma vez que, no mundo da infelicidade humana, não costuma fazer muito sentido medir o tamanho ou pesar a quantia da angústia e da dor. Até se poderia lembrar Tolstói, quando ele aponta que todas as famílias felizes se parecem, mas que cada família infeliz é infeliz à sua maneira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida besta e desgraçada o é, também, à sua maneira.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Perfil (anti)ideal do velho triste</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O alemão Max Weber, um dos pais da ciência da Sociologia, criou uma categoria de análise a que ele deu o nome de “tipos-ideais”. São tipos mais ou menos concretos, objetivos, que ajudam no entendimento dos fatos sociais. Mas são ideais. Não se realizam de fato. São auxílios teóricos. São ferramentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir das colocações de Jung nesses dois ensaios – e sem acrescentar nada de novo, para além do quanto já dito –, enumero aqui, em forma de tópicos, algumas características principais do perfil do velho triste, basicamente sob o ponto de vista psíquico do desenvolvimento da personalidade. Um tipo-ideal de velho triste. Ou, melhor dizendo, um antitipo. Um não-tipo ideal. Ou um tipo não ideal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso velho triste, tristemente, pode ser entendido como alguém petrificado, incapaz de acompanhar o fluxo natural da vida; | que olha para trás e se agarra ao passado, como uma relíquia petrificada desse mesmo passado; | que tem medo da morte; | que não passa de uma coluna nostálgica do passado e que, ainda por cima, cultiva a ilusão de ser jovem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso velho triste, como o descreve o próprio Jung, pode ser visto como um pervertido, desprovido de estilo, verdadeira monstruosidade psicológica; | uma múmia espiritual; | alguém que está situado à margem da vida; | aliás, uma vida desgraçada a dele, para a qual a morte aparece como um fim – e tomara que chegue logo!; | desafortunadamente, a tarde da vida acaba se transformando em um lastimoso apêndice de sua manhã; | constata-se com frequência um endurecimento/enrijecimento de convicções e princípios; | o que beira muitas vezes o fanatismo e a intolerância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hipocondríaco, avarento e dogmático em suas posições, nosso velho triste não se sente apto, capacitado, nutrido para viver essa fase de sua vida. E, também por causa de tudo isso, falha no propósito fundamental da vida humana, que seria o de dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo nessa etapa da vida que a metáfora do Sol, cumprida a sua tarefa em cada nova manhã, tão bem ilustra. Ilumina.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é neste ponto que a (quase) brincadeira assume ares de uma seriedade incomparável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bem distribuído socialmente, o fenômeno do infortúnio da vida besta pode frequentar, às vezes com ampla desenvoltura, qualquer canto e qualquer vida, de qualquer classe social, o palácio ou a tapera, o masculino ou o feminino, a vida do senhor doutor como a do homem simples, ordinário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é assim que a pobreza de espírito acaba muitas vezes por se juntar a um rosário imenso de dificuldades, dores e feridas que acossam a vida de tantos velhos e velhas por aí. É a dor física que vem do desgaste do corpo, de suas energias e potencialidades. É a dor das malditas condições injustas que assolam a vida de tantos miseráveis, empobrecidos, esquecidos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O diálogo fértil e bem complexo com o arquétipo do Velho Sábio não dirime, por certo, tanta dor, nem nos afasta do abraço da morte. Mas triste, mesmo, verdadeiramente triste, é entrega de si mesmo ao arquétipo do Senex.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Senex é o velho velho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O velho como adjetivo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O velho triste.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>PS.:</strong>&nbsp;Este texto é resultado de minha participação numa videoconferência para o VII Congresso Junguiano do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, o Ijep (6-8/06/22), com o título de “Envelhecer cedo e mal, doença contemporânea que pode ser curada”. Participaram, junto comigo, Caroline Santos Costa e Patrícia Moura Vernalha, ambas analistas junguianas em formação. Mediou a conversa Waldemar Magaldi, da Direção do IJEP.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dimas A. Künsch &#8211; Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata &#8211; Waldemar Magaldi</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Imagem: “Velho na tristeza” (Van Gogh) &#8211; Reprodução</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong>. 8 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. 14 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Memórias, sonhos, reflexões</strong>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KÜNSCH, Dimas A. Viver a velhice, viver na velhice.&nbsp;<strong>IJEP</strong>. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/viver-a-velhice-viver-na-velhice">https://www.ijep.com.br/artigos/show/viver-a-velhice-viver-na-velhice</a>. Acesso em: 2 jun. 2022.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/um-perfil-psicologico-do-velho-triste-a-partir-de-jung/">Um perfil psicológico do velho triste a partir de Jung</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O envelhecer como processo de burilamento da alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-envelhecer-como-processo-de-burilamento-da-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Caroline Santos Costa]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 May 2022 11:36:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Envelhecer é um processo vital inerente ao viver. Vai do nascimento à morte, mas ganha maior visibilidade após os 40 anos. Basta darmos uma olhada rápida no espelho para percebermos as marcas deixadas pelo tempo em nosso corpo, este é um fato inexorável. Infelizmente, cada vez mais, esse processo que deveria ser rumo a sabedoria e o desfecho saudável da vida, vem se tornando uma etapa sem sentido e significado. Neste artigo ampliaremos essas questões.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Envelhecer é um processo vital inerente ao viver. Vai do nascimento à morte, mas ganha maior visibilidade após os 40 anos. Basta darmos uma olhada rápida no espelho para percebermos as marcas deixadas pelo tempo em nosso corpo, este é um fato inexorável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além das mudanças deixadas no nosso corpo, o tempo também deixa marcas em nossa alma. Envelhecer é uma grande experiência que põe à prova a nossa caminhada existencial, que pode ser uma aventura ou um desastre a depender das escolhas que fazemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada um de nós tem o dever de descobrir a verdade e a riqueza do envelhecer, pois, se é um processo inerente à vida, então tem um sentido. A pergunta que surge é: Qual o sentido do envelhecer?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung considera que o processo vital de desenvolvimento humano é constituído por dois ciclos: o natural e o cultural.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ciclo natural estende-se do nascimento até a meia-idade. É a fase heroica da expansão do ego, com lutas e enfrentamentos principalmente focados na adaptação ao mundo externo. A libido ou energia vital concentra-se principalmente no campo sexual e no profissional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O padrão heroico – imagem ideal de realização – é o padrão arquetípico esperado do jovem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse processo de expansão e conquistas, criam-se as máscaras sociais, ou personas, com a finalidade de ter uma melhor adaptação e aceitação na sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A persona é um personagem criado pelo indivíduo para desempenhar a forma como deseja mostrar-se ao mundo, selecionando e medindo seus gestos, palavras e atitudes. Todo esse esforço demonstra a necessidade humana de acolhimento, aceitação e inclusão. Contudo, o sujeito neste movimento corre o risco de ficar aprisionado por essas máscaras e escravizado pelos valores impostos pela sociedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ficamos identificados com o papel que desempenhamos, excluímos das nossas experiências partes essenciais da nossa totalidade. Jung ressalta que, “em benefício de uma imagem ideal, à qual o indivíduo aspira moldar-se, sacrifica-se muito da sua humanidade” (JUNG, 2015).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após a meia-idade, inicia-se a fase cultural. O desenvolvimento físico começa a apresentar o declínio das funções orgânicas, aparecem rugas, flacidez e dores como lembretes constantes da passagem do tempo e da finitude humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa fase ocorre uma inversão natural da energia psíquica, visando ao desenvolvimento interior e à conscientização das projeções externas, a fim de tornar-se fiel à expressão de sua totalidade. O indivíduo é convidado à introspecção, ao autoconhecimento, aos questionamentos dos antigos valores, à busca do sentido para a vida. Jung esclarece que “a causa fundamental de todas as dificuldades dessa fase de transição é uma mudança singular que se processa nas profundezas da alma” (JUNG, 2013a).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A meia-idade é o ponto de desequilíbrio, onde as certezas da juventude se foram e as incertezas da velhice se iniciam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A finitude bate na porta e o que sentimos é medo. Vivencia-se um momento mágico e trágico. Surgem vários questionamentos…</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como deixar para trás a proteção e a aceitação social e buscar a individualidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">E o que significa individualidade? Podemos entendê-la como a liberdade para ser quem realmente somos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas como lidar com a liberdade depois de tantos anos acolhidos e envolvidos por um padrão social?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung descreve o conflito entre o padrão social que sacrifica a individualidade e as centelhas aparentemente apagadas que fazem renascer a esperança:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Só se alcança o objetivo social com sacrifício da totalidade da personalidade. São muitos os aspectos da vida que poderiam ser igualmente vividos, mas jazem no depósito de velharias, em meio a lembranças cobertas de pó; muitas vezes, no entanto, são brasas que continuam acesas por baixo de cinzas amarelecidas” (JUNG, 2013b).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Principalmente próximo à meia-idade, ocorre a metanoia, momento em que surgem sentimentos ambíguos e conflitantes que representam um convite para mudança, a partir do abalo das certezas que até então nos amparavam. É um momento importante de reavaliação, um jogo de forças entre o papel social e a liberdade do indivíduo de ser quem realmente é, de captar o não vivido, o não realizado, e de tornar-se cada vez mais si-mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Romper barreiras e quebrar paradigmas não é fácil, pois implica abrir mão da segurança do que é conhecido para realizar um mergulho no desconhecido. Compreender as mudanças que ocorrem nesta fase é essencial para lidar com os conflitos e medos que nos atravessam neste novo ciclo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As escolhas precisam ser feitas e a dor pelas perdas é inerente à vida. Resta-nos a certeza de que, quando acolhemos os conflitos, ocorrem mudanças em nosso mundo interior, e, com esse novo arranjo, surgirão possibilidades que compensarão a travessia angustiante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Surge o desespero de ser e de não ser, que ocorre pelo paradoxo entre o papel vivido até então e a vontade de se assumir quem se é potencialmente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão de Jung, aquele que busca individuar-se não tem a mínima pretensão de se tornar perfeito. Ele visa a completar-se, o que é muito diferente. Para completar-se, terá de aceitar o fardo de conviver conscientemente com tendências opostas, ou seja, reconhecer que sombra e luz convivem juntas em nós. Essa atitude corajosa nos dá a possibilidade de acessar o reino da nossa interioridade profunda.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O filósofo Kierkegaard considera o envelhecer como a dimensão religiosa da existência e coloca, nesta fase da vida, como objetivo para a alma, desenvolver a experiência originária da fé.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Interpreta a fé como um salto no absurdo, onde nada mais faz sentido, a não ser a verdade de cada um. A fé proposta pela vivência está acima da moral imposta pela sociedade, onde o indivíduo se orienta pela norma geral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na fé, há o movimento de dobrar-se sob essa moral, mas também ir além dela. A fé não se baseia mais em regras estabelecidas, mas, sim, na voz do coração, na voz do íntimo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A proposta é passarmos do sujeito moral, ainda preso às normas sociais, para a descoberta mais plena possível do sentido existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As regras desse sentido são dadas pelo self e pelas relações que vamos estabelecendo com as pessoas, porém, não mais no modo teatral da performance, e sim no modo da descoberta de si mesmo e do outro ao longo da imensa teia de relações que a vida nos faz tecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Monteiro, “esse processo só é acessado à consciência pelo dia a dia, pelo viver e pelo conviver. Leva um longo tempo de maturação. No envelhecer, estamos diante das mais radicais experiências. Cada vez mais o exterior tornar-se relativo, e o interior remete à voz do íntimo” (MONTEIRO, 2008).</p>



<p class="wp-block-paragraph">As vicissitudes impostas pelo envelhecimento, como as limitações do corpo, as doenças, a morte de pessoas queridas, o afastamento das atividades sociais e laborais, podem nos levar à reflexão sobre a finitude do ser humano, fato que é essencial para o enfrentamento deste novo ciclo, ou seja, o tão necessário burilamento da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o indivíduo não consegue realizar essa ressignificação do sentido para a vida, acaba adoecendo, pois se coloca contra o seu estado natural de desenvolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, quando o indivíduo se abre para esta nova experiência, a sua condição de vida o coloca diante de uma renovada perspectiva. Tem o seu chamado interior ativado, visto que, nesta fase, a voz do íntimo está menos sujeita aos ruídos e exigências impostas pelas ocupações externas, antes tidas como “urgentes”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há pouco houve a divulgação nos meios de comunicação sobre um ator famoso que demonstrou desejo de recorrer ao suicídio assistido em um país onde há esta previsão legal. Em uma das suas entrevistas ele relata ser a favor da pessoa ter o direito de partir sem precisar sentir dor e passar por hospitais, ou seja, se submeter às vicissitudes que na maioria das vezes são inexoráveis ao envelhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Será que diante deste posicionamento ele compreendeu a importância desta fase para o burilamento da alma e a preparação para o novo ciclo da vida?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão de Jung, o indivíduo sofre influência do mundo onde vive e das situações que acontecem à sua vida, e tudo o que acontece pode ser usado a favor do seu desenvolvimento. Diante desta perspectiva, como seria promover o diálogo com a alma, a fim de compreender qual o sentido de ela passar por determinadas vicissitudes? O que o indivíduo teria para aprender com essas experiências? Para que é necessário passar por tudo isso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung enfatiza que a segunda metade da vida é o momento crucial da fé, ou seja, do&nbsp;<em>religare</em>: conexão do consciente ao inconsciente. Um apelo íntimo à viagem ao mundo interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse momento é necessária uma abertura para possibilidades ainda não exploradas, o que exige a aceitação das condições remetidas à fase noturna da vida, ou melhor, ao envelhecer. Isso não pode acontecer sem uma profunda transformação, uma conversão ao valor decisivo, à descoberta do significado mais amplo do si-mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Compreender este processo resulta numa nova consciência, a de que o envelhecimento não significa perda de capacidades, mas sim transformação, metamorfose de forças” (GARDIN, 2017).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os valores pessoais deveriam agora dar lugar a valores mais humanitários, e à preocupação de se concentrar na família universal e não apenas na individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É necessário disponibilizar sua sabedoria para o mundo e sentir a maravilha que é colocar seu patrimônio interior a serviço do desenvolvimento da humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Infelizmente, no contexto contemporâneo, esse envelhecer rico e pleno de significado é cada vez mais difícil, porém não podemos esquecer e perder de referência a certeza de que existe em nosso íntimo algo de sublime que pode ser expresso na medida em que o indivíduo se entrega ao mundo interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Caroline Santos Costa – Analista em Formação pelo IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Analista didata – Waldemar Magaldi</strong></p>



<h1 class="wp-block-heading"><strong><a>REFERÊNCIAS</a></strong></h1>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.<em>&nbsp;Aion</em>&#8211; estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>_____ A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____&nbsp;<em>O eu e o inconsciente.&nbsp;</em>27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MONTEIRO, D.M.R.(Org.).&nbsp;<em>Metanoia e meia-idade</em>: trevas e luz. São Paulo: Paulus,2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GARDINI, Nilo de (2017). Envelhecimento: combatê-lo ou compreendê-lo? O climatério como exemplo. In: Arte Medica Ampliada. Disponível em:&nbsp;<a href="http://abmanacional.com.br/wp-content/uploads/2017/07/37-1-Envelhecimento.pdf">http://abmanacional.com.br/wp-content/uploads/2017/07/37-1-Envelhecimento.pdf</a>.&nbsp;Acesso em: 02 de jun. 2021.</p>



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		<title>Aniversário do nascimento de Carl Gustav Jung (26/07/1875 &#8211; 06/06/1961) o chamado do envelhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/aniversario-do-nascimento-de-carl-gustav-jung-26-07-1875-06-06-1961-o-chamado-do-envelhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Simone Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 22:09:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecer]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Velhice]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Muito se aprende com os mestres, principalmente com os grandes mestres. Não se trata de idolatria, isto fazemos com os gurus, mas de uma riqueza de aprendizado que nos leva a uma condição de autoconhecimento inigualável, daí nosso profundo respeito. Jung mostrou-me uma pessoa que jamais pensei ser. Ao estudar sua obra e refletir sobre [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph"><br>Muito se aprende com os mestres, principalmente com os grandes mestres. Não se trata de idolatria, isto fazemos com os gurus, mas de uma riqueza de aprendizado que nos leva a uma condição de autoconhecimento inigualável, daí nosso profundo respeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung mostrou-me uma pessoa que jamais pensei ser. Ao estudar sua obra e refletir sobre ela na minha vida, principalmente agora no anoitecer que se avizinha, encontrei muita luz e muita sombra. Tão grandiosas como jamais sonhara. De santa a pecadora eu percorro todos os domínios do céu e do inferno. No envelhecimento o conhecimento do pensamento de Jung faz com que percebamos as profundas modificações em nosso psiquismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Percebo isso também em cada um que se senta em meu consultório, infelizmente a percepção de si-mesmos é sempre muito distorcida. Nosso trabalho não é levar o paciente a um estado de plenitude, mas, como dizia Jung:&nbsp;&#8220;Eis porque o objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim é, o sofrimento não é uma opção, mas o que fazemos desta vivência, sim, o é. &nbsp;Nosso trabalho é resgatar as grandes questões filosófico existenciais que trazem sentido à vida, que impulsionam ou paralisam o&nbsp;Processo de Individuação. Jung nos ensina que: &#8220;Nós, os psicoterapeutas, deveríamos ser filósofos, ou médico-filósofos &#8211; não consigo deixar de pensar assim&#8230;&#8230;..´religio in statu nascendi` porque tudo o que envolve a grande confusão que está nos primórdios da vida, não existe uma separação que evidencie uma diferença entre filosofia e religião.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Costumo dizer o seguinte ditado: &#8220;Com Deus tudo, sem Deus nada.&#8221; O Self, como&nbsp;Imago Dei, como o&nbsp;Atman,&nbsp;é a centelha divina em nós. Jung assim define nosso centro e totalidade psíquicas. Portanto, esse ensinamento que é de Jung, mas também muito anterior a ele, nos mostra como a religião é importante em nossa vida, principalmente na grande virada da meia idade quando o ter cede (ou deveria ceder) lugar ao ser.&nbsp; E o chamado do Self, para nosso processo de individuação, se apresenta com muito mais força, através de sonhos, sincronicidade, sintomas e etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento da vida Jung nos ensina a importância do&nbsp;religere:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A suprema dominante é sempre de natureza filosófico-religiosa &#8211; o que é próprio do dinamismo mais espontâneo da vida é o mesmo que jorra de uma atitude filosófico-religiosa&#8230;é muito natural que os distúrbios dos processos afetivos dos pacientes despertem no terapeuta os fatores filosófico-religiosos correspondentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Busca-se aí o recurso da filosofia e religião, de fora, que é fornecido à consciência.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A passagem da maturidade para a velhice é esse momento de reflexão existencial onde as banalidades e superficialidades do cotidiano nos causam enfado e desânimo, esse momento, de se voltar para dentro, muitas vezes é entendido como depressão, mas na verdade, essa tristeza acontece com quem não resgatou, ao longo das suas experiências, o seu Mito do Significado, no dizer de Jung, ou seu mais alto fim existencial, como fala a homeopatia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que estou aqui? De onde vim? Para onde vou? A que se propõe toda minha existência? Qual a imagem de Deus que encontro dentro de mim?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dia as grandes questões precisarão ser pensadas, se não vieram antes, no envelhecimento surgirão com certeza. No final da vida Jung dizia que esperava sim que a vida tivesse sentido. Era a fala do velho sábio, assim como responde ao repórter da BBC que lhe perguntara se acreditava em Deus e Jung, reflexivo, responde: Eu sei.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sêneca: &#8220;Deve-se aprender a viver por toda a vida e por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer&#8221;. &#8220;Vive mal quem não sabe morrer bem&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na velhice não há mais tempo para o que não seja essencial. Assim, a reflexão sobre a morte e o morrer precisa acontecer. Diz Nietzsche:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&#8220;Muitos morrem demasiado tarde e alguns, demasiado cedo. Ainda soa estranha a doutrina: ´Morre a tempo!´</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Morre a tempo: é o que ensina Zaratustra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sem dúvida, quem nunca vive a tempo, como iria morrer a tempo? Antes não tivesse nascido! &#8211; É assim que aconselho os supérfluos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas também os supérfluos levam sua morte muito a sério e também a mais vazia das nozes quer ser quebrada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todos dão importância à morte; no entanto, ainda a morte não é uma festa. Ainda os homens não aprenderam como se consagram as festas mais bonitas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Eu vos mostro a morte que aperfeiçoa, que se torna, para o vivo, um aguilhão e uma promessa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Da sua morte, morre o homem realizador de si mesmo; morre vitorioso, rodeado de gente esperançosa a fazer auspiciosas promessas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seria mister aprender a morrer assim; e não deveria haver festa na qual um moribundo não consagrasse os juramentos dos vivos.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem de nós morrerá a tempo? Quando o tempo passa tão rápido e o corpo da velha carrega a psique da menina, da jovem, da mulher?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sim é preciso conhecer O Mito do Significado de nossas vidas, buscar a todo momento a realização da plenitude, da inteireza, de realizar o si-mesmo. Só morre a tempo o ego que se rende ao Self, quem como Árjuna se rende a Krishna, quem se rende a si-mesmo independente da sociedade e dos &#8220;bons costumes&#8221;. Para que ajustar-se a uma sociedade esquizofrênica e consumista quando o Self almeja voos fraternos?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi sempre diz que quem não vive para servir, não serve para viver, pois é. A quem eu sirvo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung termina Memórias, Sonhos e Reflexões muito menos ligado ao ego do que as árvores, plantas e animais. Sim, ele estava conectado ao Todo, não mais o eu ou o nós, mas tudo, todos, Todo. Ampliar-se, expandir-se, não acumular, não ter mãos que seguram coisas e impedem-nos de voar. É preciso tornarmo-nos alados como Zaratustra, tornarmo-nos novamente crianças e nos encantarmos com as árvores, as plantas e os animais. Morrer na terra para germinar flor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, obrigado, onde seu espírito estiver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung: &#8220;Se atribuímos uma finalidade e um sentido à ascensão da vida, por que não atribuímos também ao seu declínio? Se o nascimento do homem é prenhe de significação, por que é que a sua morte também não o é?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra E. Simone Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analita Junguiana</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro didáta e fundadora do IJEP</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Simone Magaldi &#8211; 16/06/2019</em></strong></h4>
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