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	<title>Arquivos epidemia psíquica - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos epidemia psíquica - Blog IJEP</title>
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		<title>Epidemia psíquica e sombra coletiva: uma leitura junguiana da violência policial no RJ</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/epidemia-psiquica-e-sombra-coletiva-violencia-policial-no-rio-de-janeiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Pessanha Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 14:33:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[epidemia psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por que cenas de morte e violência são recebidas com alívio e não com horror pela população? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça? Neste artigo, eu analiso o recente episódio da violência policial no Rio de Janeiro, que tirou a vida de mais de 120 pessoas, pela lente da psicologia analítica. O objetivo é entender o que está por trás da naturalização da violência no Brasil — e o que podemos fazer para romper esse ciclo.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Por que cenas de morte e violência são recebidas com alívio e não com horror pela população? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça? Neste artigo, eu analiso o recente episódio da violência policial no Rio de Janeiro, que tirou a vida de mais de 120 pessoas, pela lente da psicologia analítica. O objetivo é entender o que está por trás da naturalização da violência no Brasil — e o que podemos fazer para romper esse ciclo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dia-25-de-outubro-de-2025-rio-de-janeiro-complexo-da-penha-e-do-alemao-duas-comunidades-altamente-populosas-na-cidade-e-dominadas-por-uma-violenta-faccao-criminosa" style="font-size:19px">Dia 25 de outubro de 2025, Rio de Janeiro, Complexo da Penha e do Alemão &#8211; duas comunidades altamente populosas na cidade e dominadas por uma violenta facção criminosa.</h2>



<p style="font-size:19px">Neste dia, uma megaoperação policial deixou mais de uma centena de mortos. Na manhã seguinte, os moradores da comunidade, entre homens, mulheres e até mesmo crianças entraram na mata e resgataram mais de 60 pessoas mortas. A cena dos corpos enfileirados no chão, cobertos de sangue e com mães e mulheres chorando abraçadas a eles não sai da minha cabeça. Sem dúvida nenhuma, foi uma das cenas mais aterrorizantes que vi em toda minha vida.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">A violenta operação policial, que resultou nessas mortes com características de execução policial, expôs novamente uma ferida simbólica da sociedade brasileira: a <strong>naturalização da violência e a aprovação popular de ações letais </strong>conduzidas pelo Estado. Segundo pesquisa AtlasIntel, divulgada pelo jornal <em>Valor Econômico</em>,<strong> 55% dos brasileiros — e 62,2% dos cariocas — afirmaram apoiar a operação</strong>.&nbsp; O dado, mais do que estatístico, é sintoma de um <strong>padrão psíquico coletivo</strong>.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Por que cenas de morte e brutalidade são recebidas com alívio</strong> <strong>e não com horror? Por que as pessoas não se sensibilizam com as imagens dos corpos resgatados por moradores e expostos em local público? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça?</strong></p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-o-poder-do-inconsciente-coletivo"><a></a><strong>O poder do inconsciente coletivo</strong></h3>



<p style="font-size:19px">Para a psicologia analítica de Carl Gustav Jung os fenômenos sociais não se explicam apenas por fatores racionais ou políticos, mas também por forças simbólicas, arquetípicas e inconscientes.</p>



<p style="font-size:19px">Além de todo o repertório apreendido a partir de experiências pessoais e toda a gama de conteúdos do inconsciente que nunca tiveram energia psíquica para alcançar a consciência, há uma camada do inconsciente, mais profunda, a qual Jung chamou de <strong>inconsciente coletivo</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-inconsciente-coletivo-e-o-que-nos-faz-igual-a-toda-humanidade" style="font-size:19px">Segundo Jung, o inconsciente coletivo é o que nos faz igual a toda humanidade.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Eu optei pelo termo ‘coletivo’ pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal; isto é, contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são<em>cum grano salis</em> os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo, portanto, um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo.</p><cite>JUNG, 2012, OC 9/1, §3</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">A existência do inconsciente coletivo nos mostra que a consciência individual não é totalmente livre, neutra ou autônoma. Pelo contrário: ela é fortemente influenciada por fatores herdados e também pelas condições do ambiente em que vivemos, ou seja, do inconsciente coletivo.</p>



<p style="font-size:19px">As estruturas que compõem o inconsciente coletivo, Jung denominou-as inicialmente de “imagens primordiais” para em seguida chamá-las de arquétipos e instintos. Para a análise do fenômeno em questão, vamos nos ater aqui apenas ao conceito de arquétipo.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Arquétipos</strong> são imagens universais que moldam a experiência humana. Existe um arquétipo para cada situação típica da vida. As repetições destas situações ficam gravadas no inconsciente e quando vivemos novamente essas situações, agimos de acordo com a memória que está gravada pelos arquétipos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica-esse-fenomeno" style="font-size:19px">Jung explica esse fenômeno:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Como fatores que influenciam o comportamento humano, os arquétipos desempenham um papel em nada desprezível. É principalmente mediante o processo de identificação que os arquétipos atuam alternadamente na personalidade total. Esta atuação se explica pelo fato de que os arquétipos provavelmente representam situações tipificadas da vida.</p><cite>JUNG, 2013,OC 8/2, §254</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Quando constelados por crises, medos ou tensões sociais, esses arquétipos assumem formas culturais específicas e podem dominar o comportamento coletivo — um processo que Jung descreveu como <strong>possessão arquetípica</strong>. Este termo é usado para descrever quando a consciência é tomada por um conteúdo inconsciente, através da sombra expressa pela voz dos complexos.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-o-complexo-cultural-da-violencia-redentora"><a></a><strong>O complexo cultural da violência redentora</strong></h3>



<p style="font-size:19px">A violência policial no Rio de Janeiro, que já é considerada um dos maiores episódios de violações de direitos humanos da história do país, e a aprovação da ação do Estado pela população pode ser compreendida como a constelação de um <strong>complexo cultural da violência redentora</strong> — um padrão emocional e simbólico que associa o uso da força à eliminação do mal. Trata-se de um complexo, alimentado por séculos de desigualdade, escravidão, autoritarismo e exclusão social. Sua narrativa central é simples: “o mal precisa ser eliminado pela força”. Nesse imaginário, o Estado armado é o herói que vence o inimigo (o bandido, o favelado, o marginal). Este tipo de complexo cultural é constelado sempre que a sociedade sente medo e impotência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-o-e-um-complexo-cultural" style="font-size:19px">Mas o que o é um <strong>complexo cultural</strong>?</h2>



<p style="font-size:19px">Os autores&nbsp; Samuel Kimbles e Thomas Singer criaram a teoria dos Complexos Culturais a partir de uma leitura contemporânea da teoria dos complexos de Jung. Segundo os autores, o complexo cultural é a forma pela qual crenças e emoções profundamente arraigadas atuam tanto na vida de um grupo quanto na psique individual, servindo como mediação entre o sujeito e sua coletividade — seja ela uma comunidade, uma nação ou uma cultura específica (apud Cambray e Carter, 2020, p. 271). Portanto, podemos dizer que os complexos culturais também atuam de forma autônoma, influenciando o inconsciente coletivo do grupo, ao mesmo tempo que é influenciado pelo indivíduo. Esses complexos são constelados pelo <strong>contágio psíquico</strong>.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Quando o afeto coletivo domina o indivíduo</strong></p>



<p style="font-size:19px">A partir deste triste e violento episódio podemos ver que foi constelado na sociedade, ou seja, emergiram do inconsciente coletivo, algumas emoções arquetípicas, tais como medo, raiva, desejo de vingança e de justiça. Estas emoções, como são coletivas, podem ser contagiosas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-explica-jung" style="font-size:19px">Como explica Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo é ativado, ninguém mais é a mesma pessoa.</p><cite>JUNG, 2013, OC 18/1, §93</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">O processo pelo qual emoções, ideias e impulsos inconscientes se espalham entre indivíduos, criando uma identificação coletiva inconsciente é chamado de <strong>contágio psíquico.</strong> Nas redes sociais, esse contágio se intensifica. O indivíduo, tomado por esse afeto coletivo, acredita estar pensando com a razão, quando na verdade está identificado com um conteúdo inconsciente. Ele passa de sujeito autônomo para mera massa de manobra política e social.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-do-pessoal-para-o-coletivo"><a></a><strong>Do pessoal para o coletivo</strong></h3>



<p style="font-size:19px">Mas qual mecanismo psíquico que conecta as pessoas ao complexo cultural? Essa identificação pode ser explicada e entendida a partir do complexo pessoal. Cada pessoa possui seus <strong>complexos</strong>, que são conteúdos inconscientes, carregados de afetos, cujos núcleos emocionais são formados por experiências de vida. De acordo com Jung, os complexos são autônomos, podendo atuar sobre a consciência e exercer influência (inconsciente) nas decisões e comportamentos dos indivíduos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um <em>corpus alienum</em> (corpo estranho), animado de vida própria.</p><cite>JUNG, 2013, OC 8/2, § 201</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-sua-obra-jung-chega-a-dizer-que-os-complexos-se-comportam-como-personalidades-secundarias-ou-parciais-dotadas-de-vida-espiritual-autonoma-oc-11-21" style="font-size:19px">Em sua obra, Jung chega a dizer que os complexos “se comportam como personalidades secundárias ou parciais, dotadas de vida espiritual autônoma&#8221; (OC/11, §21).</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>O complexo não é bom, nem ruim, mas sua função é nos mostrar um incômodo inconsciente</strong>. Sendo assim, podemos dizer que os complexos pessoais dos indivíduos que não se sensibilizaram com as imagens das vítimas da megaoperação policial no Rio de Janeiro ressoam com o complexo cultural da violência redentora quando há afinidade afetiva no campo pessoal. Quem cresceu sob um pai autoritário ou ausente tende a admirar o Estado punitivo; quem sentiu impotência ou humilhação por sua condição social encontra na violência uma forma de compensação; e quem teme perder o controle da própria vida projeta o mal no outro, sentindo alívio quando esse outro é eliminado. Estes são apenas alguns exemplos de complexo pessoal, conectados ao complexo cultural constelado. Dessa maneira, o cultural e o pessoal se alimentam mutuamente: a sociedade oferece a narrativa e o indivíduo fornece a emoção reprimida.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-coletiva"><a></a><strong>A sombra coletiva</strong></h3>



<p style="font-size:19px">Sob a luz da psicologia analítica junguiana, a violência aprovada pela maioria pode ser entendida com <strong>a projeção de uma sombra coletiva</strong>. Para Jung, a sombra é composta por partes reprimidas da nossa personalidade. Ele define como “a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal” (OC 7/1, §103) e completa:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará (&#8230;). Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente más, não haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o homem se choca contra as regras consagradas pela tradição. </p><cite>JUNG, 1978 OC 11 /1 §131 e 134</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Quando não reconhecemos esses aspectos em nós mesmos — ou seja, quando não nos tornamos conscientes de sua existência —, tendemos a negá-los. Integrar a sombra exige justamente o contrário: reconhecer e aceitar essas partes reprimidas, o que implica assumir nossas imperfeições e enfrentar nossos dilemas éticos e morais. Como esse processo é difícil e muitas vezes doloroso, preferimos projetar nos outros essas qualidades incômodas, numa tentativa inconsciente de eliminá-las de nós.</p>



<p style="font-size:19px">Assim, transferimos aos outros nossas falhas e responsabilidades, sempre prontos a justificar nossos erros com desculpas externas. Como, por exemplo, esse tipo de justificativa que é tão comum: “Por que você se atrasou? Porque o trânsito estava ruim.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-aquilo-que-e-negado-com-muita-veemencia-se-manifesta-na-mesma-intensidade-e-vai-ganhando-corpo" style="font-size:19px">Tudo aquilo que é negado com muita veemência se manifesta na mesma intensidade e vai ganhando corpo.</h2>



<p style="font-size:19px">Jung (OC 7/1, §350) diz “que a sombra personifica o que o indivíduo recusa a reconhecer ou admitir e que, no entanto, sempre se impõe a ele direta ou indiretamente, tais como traços inferiores de caráter ou outras tendências incompatíveis”.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Ampliando esse conceito para o coletivo, podemos dizer que tudo aquilo que a sociedade nega em si mesma — o ódio, a revolta diante da falta de assistência digna do Estado, a submissão às regras impostas por facções criminosas e a culpa por, de algum modo, participar desse sistema injusto, seja como consumidor de drogas ou como conivente com as desigualdades sociais — é projetado sobre o outro, geralmente o mais vulnerável. O morador da favela, o jovem negro, o “bandido” passam então a encarnar o mal. O extermínio transforma-se em um ritual inconsciente de purificação simbólica — o sacrifício do bode expiatório, tema recorrente nos mitos e na história humana.<strong></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anestesiamento-social"><strong>Anestesiamento social</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O efeito desse cruel mecanismo social é a <strong>dessensibilização</strong> — a perda da empatia. A capacidade de reconhecer e se conectar à ferida do outro é o que nos torna humanos. A exposição contínua a cenas de brutalidade cotidiana produz um anestesiamento social, um embotamento afetivo que transforma o horror em rotina e a violência em espetáculo. Jung descreve esse processo como uma <strong>regressão do ego</strong>, isto é, um retorno a formas mais primitivas de funcionamento psíquico, em que os instintos dominam a consciência. Nesse estado regressivo, o pensamento crítico e a reflexão ética cedem lugar ao desejo de punição, o prazer inconsciente na destruição do outro e a adesão emocional a narrativas violentas.</p>



<p style="font-size:19px">Jung adverte que, quando a consciência perde contato com o inconsciente simbólico, com os mitos, por exemplo, “<strong>cria-se uma consciência desenraizada, que não se orienta pelo passado, uma consciência que&nbsp; sucumbe desamparada a todas as sugestões, tornando-se suscetível praticamente a toda epidemia psíquica</strong>” (OC 9/1, §267).</p>



<p style="font-size:19px">Essa “<strong>epidemia psíquica</strong>” é o que vemos na naturalização da violência. Como já vimos anteriormente, uma espécie de contágio emocional coletivo em que o medo, a raiva e o desejo de vingança passam a dominar o campo social. Assim, a repetição das imagens de morte e de exclusão não apenas banaliza o sofrimento, mas <strong>rebaixa o nível de consciência coletiva</strong>, alimentando a sombra social. A violência que se torna hábito é, no fundo, o sinal de uma psique coletiva adoecida, incapaz de conter ou simbolizar seus impulsos destrutivos. </p>



<p style="font-size:19px">Jung via nesses fenômenos não apenas sintomas sociais, mas <strong>avisos do inconsciente coletivo</strong>: quando o humano se desumaniza, é porque a cultura perdeu o vínculo com o eixo do Self. Também chamado de si-mesmo, não é só o centro da consciência, mas também, inclui todo o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-objetivo-do-nosso-desenvolvimento-psicologico-processo-de-individuacao-e-a-realizacao-do-self" style="font-size:19px">Segundo Jung, o objetivo do nosso desenvolvimento psicológico (processo de individuação) é a realização do Self.</h2>



<p style="font-size:19px">Para Jung, à medida que nossa psique vai se desenvolvendo e o si-mesmo vai emergindo do inconsciente, o indivíduo passa a se preocupar menos com sua individualidade e mais com o coletivo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contratendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo. As complicações que ocorrem neste estágio já não são conflitos de desejos egoístas, mas dificuldades que concernem à própria pessoa e aos outros. Neste estágio aparecem problemas gerais que ativaram o inconsciente coletivo; eles exigem uma compensação coletiva e não pessoal. É então que podemos constatar que o inconsciente produz conteúdos válidos, não só para o indivíduo, mas para outros: para muitos e talvez para todos.</p><cite>JUNG, OC 7/2, § 275</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-caminho-da-redencao"><strong>O caminho da redenção</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Enquanto continuarmos negando a sombra coletiva, o país seguirá repetindo seus rituais de extermínio — como se a destruição do outro pudesse curar nossas próprias feridas. Mas a violência não redime, apenas se renova. O desafio é imenso e se dá em dois aspectos inseparáveis: o <strong>coletivo</strong>, que exige coragem política e compromisso social, e o <strong>individual</strong>, que demanda autoconhecimento e transformação interior.</p>



<p style="font-size:19px">No aspecto coletivo, precisamos enfrentar o que é concreto e visível: a desigualdade que empurra vidas para a margem, o racismo cultural que naturaliza quem deve morrer, a necropolítica que discrimina e criminaliza e o medo que autoriza o Estado a matar em nosso nome. É preciso construir políticas que humanizem — que tratem segurança como direito, não como guerra; que substituam o abandono por cuidado e a vingança por justiça. Exige, acima de tudo, dar educação e oportunidades de trabalho para a população carente.</p>



<p style="font-size:19px">No aspecto individual, o trabalho é mais silencioso e talvez mais difícil: olhar para dentro, reconhecer a própria sombra, admitir o ódio, o medo e a indiferença que habitam em nós. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-lembra-que" style="font-size:19px">Jung nos lembra que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do autoconhecimento, atuando consequentemente, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, vai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos.</p><cite>JUNG, OC 7/2, §275</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Só quando deixamos de projetar o mal no outro é que o ciclo da violência começa a se romper. Transformar o país começa por transformar o nosso olhar interno. A verdadeira redenção não está no extermínio, mas na <strong>consciência</strong>. Somente uma sociedade que encara a própria escuridão — e aprende a nomeá-la — pode, enfim, escolher a luz.</p>



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</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/">Ana Paula Pessanha Lima &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p>AtlasIntel: 55% aprovam megaoperação que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro &#8211; Valor Econômico, 31 de outubro de 2025. Disponível em: <a href="https://valor.globo.com/politica/noticia/2025/10/31/atlasintel-55percent-aprovam-megaoperacao-que-resultou-em-121-mortes-no-rio-de-janeiro.ghtml">https://valor.globo.com/politica/noticia/2025/10/31/atlasintel-55percent-aprovam-megaoperacao-que-resultou-em-121-mortes-no-rio-de-janeiro.ghtml</a>. Acesso em 02 de novembro de 2025.</p>



<p>CAMBRAY, Joseph, CARTER, Linda (org.) Psicologia analítica – Perspectivas contemporâneas em análise junguiana. Rio de Janeiro, Editora Vozes, 2020.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A psicologia do inconsciente. Obras Completas. v 7/1. 2014.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Obras Completas. v 7/2. 2014.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Obras Completas. v 8/2. 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras Completas. v 9/1. 2014.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Obras Completas. v 11/1. 1978.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A vida Simbólica. Obras Completas. v 18/1. 2013.</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p></p>
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