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	<title>Arquivos eros - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 30 Jun 2025 22:18:00 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos eros - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Quando o amor “cabe” na palma da mão</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-o-amor-cabe-na-palma-da-mao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wagner Borges]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 30 Jun 2025 22:00:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[eros]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo também pode ser lido como um breve ensaio pessoal sobre a experiência do amor, sobre os inevitáveis desafios que ele nos impõe e as descobertas que inspira. Nele, faço um paralelo entre a imagem poética da mão espalmada para o céu, em ato de entrega, e o amor. Reflito, à luz da [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: <strong>Este artigo também pode ser lido como um breve ensaio pessoal sobre a experiência do amor, sobre os inevitáveis desafios que ele nos impõe e as descobertas que inspira. Nele, faço um paralelo entre a imagem poética da mão espalmada para o céu, em ato de entrega, e o amor. Reflito, à luz da psicologia analítica, sobre como o amor, mesmo sendo, nas palavras de Carl Gustav Jung, “uma grande força do destino que vai do céu até o inferno”, pode “caber” na palma da mão daquele que se encoraja a vivê-lo com devoção.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-foi-por-volta-dos-14-anos-que-tive-a-minha-primeira-experiencia-terapeutica-como-paciente" style="font-size:19px">Foi por volta dos 14 anos que tive a minha primeira experiência terapêutica como paciente. </h2>



<p style="font-size:19px">Diante do desafio de crescer e de me abrir a relações que iam além do convívio familiar, abrir-me a relações amorosas, sobretudo, senti-me inseguro. Não era o único a sentir-me assim — hoje eu sei —, mas acho que a maioria dos meus colegas era boa em seu disfarce de segurança. Aos meus olhos, meus colegas pareciam confiantes em suas <em>personas</em> de homenzinhos invulneráveis à paixão.</p>



<p style="font-size:19px">Por uma série de fatores, as meninas ganhavam, aos meus olhos, dimensões platônicas e, naturalmente, como ocorre nas idealizações, eu não seria capaz de alcançá-las, de estar à altura delas. O medo de não corresponder às suas expectativas era o combustível da minha inércia. Cogitava, sem nenhuma glória erótica, seguir jogando bola e correndo atrás de pipa. Mas não há caminho de volta quando se trata de amadurecer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-da-angustia-que-me-cercava-por-todos-os-lados-pedi-socorro-a-minha-mae-que-me-levou-a-uma-terapeuta" style="font-size:19px">Diante da angústia que me cercava por todos os lados, pedi socorro à minha mãe que me levou a uma terapeuta.</h2>



<p style="font-size:19px">Uma senhora inesquecível, cuja partida desta vida, há poucos anos, relembrou-me a minha chegada à puberdade, recebeu-me muito bem. Com a ajuda dela, encorajei-me ao primeiro beijo, suportei o fim do primeiro e fugaz romance, colei os cacos espatifados do coração, surpreendi-me com sua capacidade de seguir pulsando ainda mais forte e tirei das costas o peso morto de aspirar à perfeição no amor.</p>



<p style="font-size:19px">Descobri também, numa confissão autobiográfica da minha própria terapeuta, que o amor não cabia em nenhuma cela, que, por ser doação, exige da gente que sejamos capazes de abrirmos a mão, afinal, ele só tem valor se for escolha e não obrigação. Disse-me isso porque a minha busca em ser perfeito era uma forma ilusória — é sempre ilusória nessa caso — de controle, de garantir que não vou ferir nem dar motivo nem oportunidade de ser ferido. Nada mais estéril e impossível.</p>



<p style="font-size:19px">Ela me explicou isso com jeito e poesia. Me perguntou se eu já tinha tentado segurar na mão uma boa quantidade de areia. Eu disse que sim, claro. Ela perguntou se eu havia tentado fechar a mão com a areia dentro. Disse que sim. “O que aconteceu?”, perguntou-me. Vazou entre os dedos, pelos lados, pelos vãos — eu respondi. “Segurou mais areia quando estava com a mão espalmada para cima, com a mão aberta, não? Como se estivesse entregando a areia a alguém, não foi?”. Foi. “O amor é como a areia”, disse ela.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-do-amor" style="font-size:20px"><strong>A sombra do amor</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Claro que esse ensinamento não me tornou imune ao desejo de controle e poder nas relações, mas me marcou profundamente a ponto de funcionar como uma válvula de segurança para os paradoxos do amor. Quando defende que, psicologicamente, a contraparte do amor não é o ódio, mas a vontade de poder, <strong>Jung </strong>(Cf. 1999, §78) diz muito sobre como acredito que a maioria de nós funciona. Afinal, se amor é doação, como simboliza o braço estendido à frente, com a mão espalmada para o céu, seu avesso é a posse, o desejo de poder, é o trazer para si e não o doar-se. Para <strong>Jung</strong> (1999, §78), então, “<strong><em>Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros</em></strong>”.</p>



<p style="font-size:19px">Aqui vale observar que Jung se refere a <strong>Eros primordial</strong>, e não ao filho de Ares com Afrodite, que recebe o mesmo nome e cujo amor que representa é parte dessa energia primordial e pode ser entendida, grosso modo, pelo que conhecemos como paixão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-eros-a-que-me-refiro-e-um-dos-deuses-fundantes-da-cosmogenese-do-mundo-grego-antigo" style="font-size:19px">Eros, a que me refiro, é um dos deuses fundantes da cosmogênese do mundo grego antigo.</h2>



<p style="font-size:19px">Concebido do <strong>Caos, a origem de tudo</strong>, <strong>Eros</strong> simboliza o desejo “incoercível dos sentidos”, a busca incontrolável pela união em suas mais diversas expressões — não apenas, mas também, a união romântica e sexual. Nas palavras de Junito Brandão (1986, p. 187), “<strong><em>Eros [&#8230;] permanecerá sempre a força fundamental do mundo. Garante não apenas a continuidade das espécies, mas a coesão interna do cosmo</em></strong>”.</p>



<p style="font-size:19px">Feita a digressão, voltemos ao fato de, na lógica junguiana, amor (Eros) e poder serem pares antinômicos, luz e sombra, sendo, portanto, impossível amar sem que, em alguma medida, se queira encerrar o amor nas mãos. Tal constatação não significa que devamos fechá-la. Afinal, há poder maior do que amar e ser amado? Tê-lo nas mãos, mesmo que espalmadas para o céu, não deveria bastar? Penso que sim, mas é mais fácil falar e escrever do que viver o amor, embora seja preciso vivê-lo para falar e escrever a respeito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-o-empate-e-a-vitoria" style="font-size:20px"><strong>Quando o empate é a vitória</strong></h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Como se vê, a força unificadora de Eros traz consigo um inevitável conflito íntimo</strong>. Aquele que ama precisa aprender, como o surfista no mar, que não é o dono das ondas, que não as controla, que deve se adaptar a elas, entrar no <em>flow</em>. Em outras palavras, amar não é possuir, é se adaptar. A vitória, aqui, não é subjugar, tampouco ser subjugado. Em ambos os casos, estarão todos os envolvidos derrotados, pelo simples fato de amor e poder serem inexoravelmente interdependentes. Assim, o não reconhecimento da vontade de poder nas relações vai nos levar a confundi-la com o amor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-ironico-mas-no-jogo-do-amor-o-empate-e-a-vitoria" style="font-size:19px">É irônico, mas, no “jogo do amor”, o empate é a vitória.</h2>



<p style="font-size:19px">E, nesse caso, jogar pelo empate, exige que sejamos verdadeiramente responsáveis pelas nossas escolhas e ações; exige coragem para se posicionar e colocar limite aos que confundem amor com violação e abuso; exige sensibilidade para entender o momento de fragilidade do outro e, em vez de tirar proveitos mesquinhos, dar suporte, sustentar com consideração, na palma da mão, o coração de quem se ama. Exige ainda deixar ir ou poder partir — se for a escolha. Exige uma enorme dose de perdão, porque só não erra quem é perfeito e a perfeição é um deserto sem mãos para segurar a areia, sem almas capazes de suportar o amor.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Embora este artigo trate mais especificamente do amor romântico, Eros é como oxigênio e se respira em diversas áreas e fases da vida. Não sem motivo, Jung (2013, §198) escreve:</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px">“<strong><em>O amor é sempre um problema em qualquer idade. Na infância, o problema é o amor dos pais; para o ancião, o problema é saber o que fez de seu amor. O amor é uma das grandes forças do destino que vai do céu até o inferno</em></strong>.”</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-amor-proprio" style="font-size:20px"><strong>Amor próprio</strong></h2>



<p style="font-size:19px">É sempre em grande medida, nunca em pequena, que a clínica junguiana se ocupa de outra categoria de amor, sem a qual todas as formas de Eros se perdem no abismo da falta de sentido e significado: o amor próprio. Sem ele, não somos capazes de jogar pelo empate, de manter a mão espalmada, o coração aberto. Amar-se a si mesmo não é pouca coisa, nunca é consequência, é sempre fonte, origem; não demanda razão, causa, é a única opção. É a partir do autoamor que os demais amores florescem, mas — mais uma ironia — é o cuidar das flores desse jardim que prova o nosso amor próprio. Sem amor próprio não se pode amar o próximo e sem o próximo não se pode amar o próprio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-questao-e-que-sob-o-prisma-da-psicologia-analitica-somos-cada-um-de-nos-muitos" style="font-size:19px">A questão é que, sob o prisma da psicologia analítica, somos, cada um de nós, muitos.</h2>



<p style="font-size:19px">Por isso, quando falamos em autoamor, falamos de amar não só as próprias qualidades, a nossa versão digna de aplausos, mas também a que, muitas vezes, julgamos merecer vaias. </p>



<p style="font-size:19px">Se o amor se prova na máxima doação — no latim, <em>per</em>(máximo)-<em>donare</em>(doar) —, como doar-me ao máximo ao que julgo indigno em mim? Talvez realmente não seja possível. Mas, então, temos de viver divididos, crucificados, aceitando que somos também o que não amamos ser. Aceitando que não podemos ter, nem de si mesmos, que dirá do outro, tudo o que desejamos.</p>



<p style="font-size:19px">É por isso que acredito que a vida seja, acima de tudo, um exercício de autoaceitação em todas as nossas dimensões, inclusive nas mais sombrias, e que me convencer de que sou feito de pura bondade e moralmente indefectível vai me levar à alienação de mim mesmo e a inviabilizar-me para o amor. Em outras palavras — lá vem outra ironia —, tenho de aceitar que nem tudo em mim é amor, que nem tudo em mim é capaz de perdoar. Amar, então, é aceitar em si e também no outro aquilo que não se pode amar; é abrir mão de querer confinar o amor em qualquer lugar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-um-ato-de-fe" style="font-size:20px"><strong>Como um ato de fé</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Embora <strong>Eros</strong> seja a energia que une, suportar seu poder incoercível, no fim das contas, é uma tarefa solitária. Por isso, me encantou a frase que li, certa vez, no bilhete que veio dentro de um “biscoito da sorte chinês” acompanhando o <em>yakisoba</em> que havia pedido: “<strong><em>O amor são duas solidões protegendo-se uma à outra</em></strong>”.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>O amor é universal em seu princípio, mas individual em sua expressão</strong>, eis porque também, em medida nada desprezível, é uma experiência solitária, mesmo que estejamos acompanhados. Nesse sentido, se assemelha à fé. Não sem motivo, Jung aproxima essas duas experiências:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O amor tem mais do que um ponto em comum com a convicção religiosa: exige uma aceitação incondicional e uma entrega total. Assim como o fiel que se entrega todo a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento. (JUNG, 2013, §232)</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">O trecho acima me parece bem ilustrado pela metafórica imagem da mão com areia. E a entrega que aí se revela tem ainda mais valor quando consideramos que, tanto no amor, quanto na “convicção” religiosa, há sempre grãos de dúvidas, e a dúvida torna a entrega no amor ainda mais valiosa, ainda mais corajosa. Impossível não lembrar, aqui, do discurso do cardeal Lawrence, brilhantemente interpretado por Ralph Fiennes, no belíssimo filme, indicado ao Oscar, “Conclave”: “<strong><em>Nossa fé é uma coisa viva precisamente porque anda de mãos dadas com a dúvida. Se houvesse apenas certeza e nenhuma dúvida, não haveria mistério. E, portanto, nenhuma necessidade de fé</em></strong>”.</p>



<p style="font-size:19px">Amar é se entregar ao mistério com a fé de que, nessa jornada, descobriremos algo não apenas do outro e do mundo, mas de nós mesmos. Amar é abrir mão do controle, sem negar o desejo de controlar, é se abrir para a dúvida e ter a bravura de suportá-la. “<strong>O amor</strong>”, escreve Jung (2013, §232), “<strong>é como Deus”, pois só se revela aos mais corajosos</strong>.</p>



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</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/wagnerhilario/">Wagner H. P. Borges — Membro Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi — Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia</strong>:</h2>



<p style="font-size:19px">JUNG, C. G. <em>Psicologia do inconsciente</em>. 11ª ed. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p style="font-size:19px">_________. <em>Civilização em transição</em>. Petrópolis: Vozes, 2013. Edição digital.</p>



<p style="font-size:19px">BRANDÃO, Junito. <em>Mitologia Grega</em> — Volume I. Petrópolis: Vozes, 1986.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10756" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-9.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p style="font-size:19px"><strong>Matrículas abertas</strong>:&nbsp;<a href="http://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



<p><strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/arteterapia">Arteterapia e Expressões Criativas</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicologia-junguiana">Psicossomática</a></strong></p>



<p><strong><a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicologia-junguiana">Psicologia Junguiana</a></strong></p>



<p style="font-size:19px">Acesse nosso Canal no&nbsp;<strong><a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">YouTube</a></strong>:&nbsp;<strong>+700 vídeos de conteúdo Junguiano</strong>!</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Desejo &#8211; O que falta é o excesso &#8211; Afrodite e Eros – Identificação e gêneros</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/desejo-o-que-falta-e-o-excesso-afrodite-e-eros-identificacao-e-generos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 21 Nov 2024 16:51:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[afrodite]]></category>
		<category><![CDATA[desejo]]></category>
		<category><![CDATA[eros]]></category>
		<category><![CDATA[falta]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;A narrativa junguiana pode ser lida como fundada no excesso. Haveria sempre um excedente da energia psíquica que não conseguiria ser organizado pelos padrões arquetípicos.” Cf. JUNG, OC, 8/1, §91 Por mais que houvesse infinitos leitos secos de rios, metáforas dos padrões arquetípicos, que buscariam organizar as experiências dando a estas sentidos e significados específicos, [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-modern"><blockquote><p>&#8220;A narrativa junguiana pode ser lida como fundada no excesso. Haveria sempre um excedente da energia psíquica que não conseguiria ser organizado pelos padrões arquetípicos.”</p><cite>Cf. JUNG, OC, 8/1, §91</cite></blockquote></figure>



<p>Por mais que houvesse infinitos leitos secos de rios, metáforas dos padrões arquetípicos, que buscariam organizar as experiências dando a estas sentidos e significados específicos, determinados; o inconsciente, a vida sempre excederia. A vida não teria como base os aspectos determinados apenas, mas na tensão entre o excedente que apareceria como indeterminado e toda determinação – paradoxo ou antinomia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-nao-teria-seu-fundamento-na-falta-mas-no-excesso" style="font-size:17px"><strong>A vida não teria seu fundamento na falta, mas no excesso.</strong></h2>



<p>Ela seria prodiga, abundante, esbanjadora, criaria e destruiria sistematicamente, num eterno devir. Muitas vezes sofresse não porque algo está faltando, mas porque a vida excede, transborda e a consciência busca encaixar, determinar, colocar a vida no trilho ou no leito. A vida pode sentir-se apertada, pois se ela excede ela nunca caberá, nunca se encaixará, embora as caixas façam parte de vida é preciso lugar para o mistério, o enigma, o paradoxo, a contradição para que o excesso possa fluir.</p>



<p>Seguindo esta narrativa pode-se entender que os viventes teriam como uma de suas características fundamentais a capacidade de experimentar eventos (internos ou externos) refletidos, ressoados, ecoados. Esta habilidade não seria uma escolha da consciência, nem resultado da experiência empírica singular, mas efeito de um padrão arquetípico, histórico, transpessoal e universal em todos os viventes que pode ser entendido como o que foi descrito por Jung como o arquétipo da <strong>Anima Mundi </strong>(Alma do Mundo) se realizando. </p>



<p>A Alma (do mundo) seria a própria “vida” em si, o fator capaz de converter as leis naturais como da entropia em estados “não naturais” (Cf. JUNG, OC 8/2 §375); ou seja, em experiências psíquicas, denominada de psiquificadas. Uma vez que as tendencias organizativas dos padrões arquetípicos precisariam das experiências empíricas para configurar as sequências associativas que constituiriam os complexos. Por isso todo complexo seria composto de um padrão arquetípico transpessoal, núcleo temático e uma sequência associativa singular.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-alma-do-mundo-seria-como-a-forca-a-partir-da-qual-tudo-que-e-vivo-incluindo-a-consciencia-emergiria" style="font-size:17px">A Alma do mundo seria como a força a partir da qual tudo que é vivo, incluindo a consciência, emergiria.</h2>



<p><strong>A alma não é de hoje! Sua idade conta muitos milhões de anos</strong>. A consciência individual é apenas a florada e a frutificação própria da estação, que se desenvolveu a partir do perene rizoma subterrâneo, &#8230; pois a trama das raízes é mãe universal. (JUNG, OC-5, Prefácio da 4ª edição) negritos meus</p>



<p>Pode-se entender o arquétipo da Anima Mundi como o padrão organizativo transpessoal que se aproxima do instinto de reflexão que levaria a um processo de excitação e transformaria um evento em um acontecimento ou um conteúdo psíquico. Não haveria para os viventes acesso a nada em si como naturalmente dado, seja o evento vivido como manifestação exterior ou interior, quer fosse chamado de instinto, corpo, arquétipo, natureza, Deus etc.</p>



<p>Aquilo que é vivido seria configurado a partir da tonalidade afetiva, organizado por infinitos padrões arquetípicos que produziriam um conjunto de associações que dariam sentido e significado para a experiência e transformaria os eventos em acontecimentos psiquificados envolvendo mecanismos de apercepção.</p>



<p><em>As percepções sensoriais nos dizem que algo existe fora de nós. Mas elas não nos dizem o que isto seja em si. Isto é tarefa não do processo de percepção, mas do processo de <strong>apercepção</strong>.</em> (JUNG, OC8/2, §288) negritos meus</p>



<p>Sendo assim o fundamento do que é vivo estaria numa sensibilidade, numa fragilidade em ser tocado pelos eventos (internos ou externos) – outros. A relação com “outros” configuraria e desconfiguraria tudo o que é vivido na psique como tendo sentido e significado.</p>



<p>Todos os conhecimentos seriam incompletos pois seriam o resultado de uma espécie de ordem imposta as reações do sistema psíquico que fluem para a consciência. A consciência não seria um ser ou uma coisa, mas&nbsp; atividade reflexiva que carregaria em si uma <strong>contradição</strong> &#8211; por um lado a <strong>consciência</strong> emerge da experiência vivida na atividade reflexiva que cria ilhas de consciência que configuram complexos (como o <strong>complexo do ego e outros</strong>) e por outro lado, a <strong>experiência singular</strong> ressoa em cada um de forma única, inefável, inominável, incomparável, não recorrente e nem mesmo passível de ser conhecida, pois não caberia na consciência em sua unilateralidade (Cf. JUNG, OC X/1, §493).</p>



<p>Além do arquétipo da Anima, Jung faz referência ao termo <strong>imagem da alma</strong> (imagem &#8211; termo oriundo a linguagem poética, que não seria um retrato psíquico do objeto exterior -representação) (Cf. JUNG, OC-6, §827). A Imagem da alma, diferente da Persona que é descrita como complexo que teria a função de adaptação externa (Cf. JUNG, OC-6 §755) seria uma atitude interna que projetada em um objeto faria com que este fosse vivido com amor, ódio ou medo intenso. Imagem da alma é apresentada como complexo funcional que coloca a consciência em contato com objetos internos ligados a intensos afetos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-afeto-provem-do-fato-de-ser-impossivel-uma-verdadeira-adaptacao-consciente-ao-objeto-que-representa-a-imagem-da-alma-jung-oc-6-842" style="font-size:17px">“O afeto provém do fato de ser impossível uma verdadeira adaptação consciente ao objeto que representa a imagem da alma.” (JUNG, OC-6, §842)</h2>



<p>A imagem da alma seria representada por pessoas que apresentam qualidades correspondentes, embora, em geral, apareceria representada nos homens por figuras femininas e nas mulheres por figuras masculinas, mas “as vezes são personagens totalmente desconhecidos ou mitológicos” (JUNG, OC-6, §842). Ou seja, as imagens de alma não precisariam corresponder ao binarismo sexual.</p>



<p>Pode-se considerar então, que a <strong>tensão na fratura entre</strong> o que é <strong>determinado na consciência</strong> (estilos ou padrões dominantes na consciência), os <strong>aspectos suprimidos</strong> de toda a determinação (aspectos sombrios inconscientes) e <strong>a singularidade última</strong>, que poderia ser vivida através da imagem da alma, excitaria e apareceria como desejo.</p>



<p>&nbsp;<strong>Desejo como a descoberta de uma fratura</strong> que faz do ser um espaço de questionamento continuo a respeito do que o define, da identidade, do lugar que ocupa etc. Desejo como movimento que pressupõe um campo relacional com mais de um elemento. Esta relação teria, propósito, sentido, finalidade quer se dirija a aproximar-se ou afastar-se de determinados aspectos vividos como “outro”. Na integralidade o vivente não seria apenas a consciência ou apenas o inconsciente, mas uma entidade relacional; uma relação radical e constitutiva com a alteridade.</p>



<p>A imagem da alma (complexo funcional que coloca a consciência em contato com a experiência interna) projetada num objeto faria com que este brilhasse, atraísse, excitasse, fascinasse, misteriosamente, como o brilho da espuma do mar de onde surge Afrodite. Afrodite que em Ovidio ouve as rezas de <strong>Eco</strong> desprezada por Narciso pedindo que lhe tirasse a vida. A deusa tanto gostou de sua voz que deixou-a viver. Afrodite faria viver Eco em cada evento vivido.</p>



<p>O que se apresenta para a consciência como imagem de alma apareceria iluminada pelo brilho de Afrodite produzindo através de Eco uma excitação que faria nascer <strong>Eros (desejo)</strong> que buscaria unir a consciência a este objeto que é vivido como “outro”, mas onde haveria algo de sua própria essência, algo que lhe é essencial para a integralidade. Mas o desejo que atrai e fascina assustaria a consciência pelo medo de se perder, pois se o que a completa na integralidade é o que foi suprimido de toda determinação, ou seja, a negatividade de todo determinado, integrar estes aspectos seria perder toda determinação. Mas também poderia ser a oportunidade para perder-se num infinito verdadeiro (uma determinação indeterminada ou uma indeterminada determinação &#8211; figura da infinitude como uma determinação sem bordas, sem limites).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-imagem-de-alma-como-psicopompo-poe-a-consciencia-em-contato-com-o-inconsciente-infinito-por-nao-ter-comeco-nem-fim-e-nao-por-se-repetir-infinitamente-como-o-mesmo" style="font-size:17px">A imagem de alma como psicopompo põe a consciência em contato com o inconsciente, infinito por não ter começo nem fim e não por se repetir infinitamente como “o mesmo”.</h2>



<p>A excitação sentida (através da fratura tensa) é que levaria a necessidade do movimento e o <strong>sujeito seria levado a suportar a contradição em si mesmo sem perder a determinidade</strong>. Este desejo não buscaria a satisfação ou a consumação do objeto pois isto seria sua aniquilação. Mas tomaria a si mesmo como objeto paradoxal ou como antinomia (indeterminado/ determinado). Seria “(&#8230;) impossível uma verdadeira adaptação consciente ao objeto que representa a imagem da alma.” (JUNG, OC-6 § 842) uma vez que a alma é personificação do inconsciente do qual a consciência emerge e que dissolve também todas as certezas e determinações na consciência. Mas, seria <strong>através do desejo que a consciência procuraria a si mesma, sempre marcada por uma negatividade</strong> – resistência &#8211; que insiste que toda determinação estaria sempre em continua transformação, num eterno vir a ser e <strong>o que falta em relação ao ser é o que excedeu a toda determinação</strong>. <strong>O que falta é o excesso</strong>.</p>



<p>Assim, <strong>Afrodite e Eros</strong> personificariam padrões arquetípicos que organizam movimentos da energia psíquica que <strong>não ficam presos a qualquer identidade ou gênero</strong>, embora possam passar pelas formas de identificação consciente de gênero. Jung refere-se à Identidade apontando que “falo de identidade no caso de uma igualdade psicológica. É sempre um fenômeno inconsciente, pois a igualdade consciente sempre pressuporia a consciência de duas coisas equivalentes.” (JUNG, OC-6, §823), reforçando a ideia da consciência como um campo reflexivo. Para Jung, “(&#8230;) a identidade é uma igualdade inconsciente com os objetos.” (JUNG, OC -6 §824). Aponta-se para a compreensão que as experiências de identidades podem levar a uma objetificação de si mesmo, chega-se a afirmar que “<strong>Identificação é um alheamento do sujeito de si mesmo</strong> em favor de um objeto que ele, por assim dizer, assume. (JUNG, OC -6 §825).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-todo-este-processo-pode-levar-ao-reconhecimento-da-indeterminacao-e-fragilidade-sensivel-como-o-elemento-fundamental-de-todos-os-viventes" style="font-size:18px">Todo este processo pode levar ao <strong>reconhecimento da indeterminação e fragilidade sensível como o elemento fundamental de todos os viventes</strong>.</h2>



<p>O corpo vivo se constituiria na relação com “outros” -sejam estes vividos como estímulos externos e/ou internos refletidos e psiquificados. Alteridade relacional essencial com muitos “outros” descritos de diversas maneiras; quer seja como instintos que poderiam serem entendidos como as marcas de valores que historicamente se repetiram, ganharam estabilidade e foram transmitidos; quer seja como os padrões arquetípicos, núcleos míticos, temáticas universais, transpessoais, leitos secos de rios que tendem a organizar os eventos ao redor destes.  Seja como for haveria uma indeterminação e vulnerabilidade essencial que fundamenta no corpo descrito como físico ou psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-lacos-seriam-fundamentais-para-qualquer-forma-da-vida-e-ao-mesmo-tempo-o-que-restringem-o-senso-de-identidade-e-de-identidade-de-genero-poderia-ser-uma-forma-de-reconhecimento-e-de-alheamento-de-si-mesmo" style="font-size:17px">Os laços seriam fundamentais para qualquer forma da vida e ao mesmo tempo o que restringem. O senso de identidade e de identidade de gênero poderia ser uma forma de reconhecimento e de alheamento de si mesmo.</h2>



<p>No texto junguiano a <strong>imagem de alma</strong> que apresentar características historicamente associadas ao masculino será denominada de Animus e aquela como as características ligadas ao feminino de Anima. O uso do mesmo termo “Anima” referindo-se tanto ao arquétipo (padrão organizativo, transpessoal e inatingível) que se aproxima da Anima Mundi e “Anima” como imagem da alma (complexo funcional através do qual a consciência tem acesso as experiências internas, personificação do inconsciente) pode levar a interpretações muito diversas. Como o termo é o mesmo, por vezes, podem surgir dificuldades em discernir do que está se tratando no próprio texto junguiano.</p>



<p>Ajuda perceber que quando se trata de um padrão arquetípico seria algo transpessoal, uma tendência organizativa, necessariamente, sem nenhum conteúdo prévio ou determinado. Seria como uma tendência que fosse recebida ou herdada, a sensibilidade para que os eventos tocassem, ressoassem, refletissem no vivente; isto não teria nenhum conteúdo, mas desta sensibilidade emergiriam todos os conteúdos configurados em associação, em complexos, como no complexo funcional da alma que apareceria como imagem da alma. Não haveria acesso direto a nenhum arquétipo apenas através das imagens arquetípicas como a imagem da alma.</p>



<p>A diferenciação da totalidade ou integralidade seria fundamental na narrativa junguiana. Uma das formas como é descrita a diferenciação seria que a vida se realizaria num processo de diferenciação em relação à entropia que seria tendência mais geral ou “natural”. Na entropia todas as tensões tenderiam a se reduzir ao máximo ou no limite se extinguirem. A vida resistiria aos processos entrópicos (Cf. JUNG, OC 8/2, §375). Pode-se imaginar que isto se faria produzindo sequências que buscam através da reprodução se diferenciar e se defender da eliminação de tensão viva, que seria vivida como energia psíquica.</p>



<p>A <strong>energia psíquica </strong>não teria nenhum conteúdo determinado, mas seria a manifestação da tensão de polos antinômicos -estes regulariam os movimentos de progressão e regressão da energia psíquica (Cf. JUNG, OC 8/1 §60-61). Energia psíquica seria uma tensão entre valores (sempre coletivos e singularizados) e vivido na consciência como polos antinômicos, mas que seriam apenas duas faces da mesma moeda. Os eventos fariam marcas de acordo com a intensidade do valor vivido; estes traços se agregariam e configurariam complexos associativos que tenderiam a se repetir e se expandir com novas associações agregadas aumentando sua força, tanto pela repetição criando hábitos, como pela agregação de traços por analogia e semelhança. De um lado isto poderia ajudar a se defender da força entrópica, mas de outro tenderiam para a unilateralidade.</p>



<p>A <strong>tendência à divisão inerente à psique</strong> significa, de um lado, a <strong>dissociação em um sem-número de unidades estruturais</strong>, mas, do outro, também a possibilidade – propícia à diferenciação – de separar certas partes estruturais, de modo a fomentá-las por meio da concentração da vontade e conduzi-las ao máximo de desenvolvimento. Deste modo, <strong>favorecem-se unilateralmente</strong>, e de modo consciente, certas capacidades, especialmente aquelas das quais se esperam que sejam socialmente úteis, e <strong>se negligenciam outras</strong>. Isto ocasiona um estado não equilibrado, semelhante ao produzido por um complexo predominante (JUNG, OC -8/2, §255) negritos meus.</p>



<p>Entre as tendências organizativas inconscientes, o padrão arquetípico anímico não teria conteúdo pré-determinado algum pois, “Se o inconsciente pudesse ser personificado, assumiria os traços de um ser humano coletivo, <strong>à margem das características de sexo</strong>, à margem da juventude e da velhice, do nascimento e da morte” (JUNG, 8/2 §673) negritos meus.</p>



<p>Há diversos exemplos que podem ilustrar que a vida não precisaria da divisão binaria de gêneros e nem mesmo da sexualidade para se reproduzir (fragmentação, divisão múltipla, partenogênese, cissiparidade, esporulação, brotamento etc.). Ao contrário, as características descritas pelos gêneros e as manifestações da sexualidade já seriam apresentações de diferenciação entre infinitas formas de vida possíveis. A “vida” seria abundante, pródiga e esbanjadora, excederia toda e qualquer forma de apresentação determinada. <strong>As apresentações dos gêneros masculino e feminino caberiam na vida, mas a vida não caberia na binariedade de gênero</strong>.</p>



<p>A vida no seu processo de realização poderia produzir através da experiência psíquica diversas formas como: hermafrodita, heterossexual, homossexual, gay, lésbico, transgénero, queer, intersexo, assexuado etc. A psique (experiência psíquica) é criativa, mas ela criaria não apenas o que está de acordo com a consciência individual ou coletiva; cria heróis, indivíduos, self-made-man, dragões, bruxas, psicopatologia, divisões sexuais, gêneros etc.</p>



<p>Todas estas manifestações podem ser vistas como <strong>complexos associativos</strong> que buscam adaptação e reconhecimento a contextos externos, ou seja, Personas &#8211; papeis sociais de adaptação. Entretanto estas criações precisam ganhar reconhecimento psíquico, serem realizadas e reconhecidas, além de serem protegidas socialmente pois sem este reconhecimento e zelo a vida pode estar ameaçada ou mesmo ser destruída por ser considerada errada, doente, aberração, desprezível, inumana. Formas de vida sem valor que poderiam ser eliminadas sem deixar marcas como se não fizessem diferença. Formas de vida que podem ser mais do que apenas eliminadas em sua existência, mas em sua memória; apagar todos os traços e marcas produzidas. Não deveriam ter rituais de luto, seriam apagadas das narrativas, da história etc. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-importante-realcar-que-o-que-aparece-sistematicamente-como-problematico-na-narrativa-junguiana-e-a-dominacao-tiranica-fundamentalista-de-qualquer-unilateralidade" style="font-size:17px">Importante realçar que o que aparece sistematicamente como problemático na narrativa Junguiana é a dominação tirânica, fundamentalista de qualquer unilateralidade.</h2>



<p>A alternância de domínios unilaterais circunstanciais de acordo com contextos internos/externos protegeria a psique dominação insuperável de imperativos unilaterais. Não existiriam padrões arquetípicos ou mesmo complexos, bons ou maus, saudáveis ou doentes, mas qualquer padrão ou qualquer estilo de consciência que crescer unilateralmente demais e colocar-se em cisão, oposição e embate visando destruir ou suprimir os demais ou a diversidade, teria como efeito o crescimento dos aspectos suprimidos fora da consciência – na sombra (aspectos vividos como errados, ruins ou mesmo não desenvolvidos na consciência). Estes sem a resistência da vida consciente e o trabalho de discriminação desta cresceriam em associação com padrões genéricos, coletivos, arcaicos e ameaçaria permanentemente a consciência.</p>



<p>Quanto mais ameaçados estiverem os complexos dominantes na consciência, mais se ativariam sistemas de defesa para detectar, por analogia, sinais de ameaça. Quando mais vezes e mais intensamente ativados os sistemas de detecção de ameaça, mais eficientes e automáticos eles podem se tornar e podem mesmo se automatizar. Pode-se chegar a um grau de unilateralidade em que a defesa funcionado automaticamente como um radar busca inimigo com tamanha intensidade e força que, na ausência de traços de ameaça externa, a defesa poderia buscar inimigos no passado ou no futuro e como isto concentrar boa parte da energia psíquica neste processo, ficando a consciência com pouca energia, animo, disposição, vontade etc.</p>



<p>A narrativa junguiana colocaria como horizonte de atuação facilitar a função transcendentes, ou seja, aproximar a consciência do inconsciente. Não seria o inconsciente, através de algum complexo, possuir ou dominar a consciência unilateralmente, o que caracterizaria uma crise; mas o ego (como zelador da vida), com consciência, aprofundar nas manifestações do diverso, respeitando, ouvindo &#8211; não apenas literalmente, mas metaforicamente, poética e simbolicamente. Buscar-se-ia com isto o sentido, o propósito, a finalidade daquela manifestação além das narrativas causais que poderiam estar associadas. Jung apresenta no prefácio da 4ª edição de Símbolos da Transformação (JUNG, OC-5) a proposta de levar em conta mais do que o causalismo redutivo, a finalidade, o propósito de uma manifestação.</p>



<p>As manifestações não estariam submetidas apenas a narrativas causais, mas de finalidade, sentido ou propósito. Lembrando que a ideia de meta impulsionaria a psique num certo sentido, num certo horizonte, mas que a meta seria a própria obra que está acontecendo no presente. Busca-se também “libertar a psicologia médica do caráter subjetivo e personalista” (JUNG, OC-5, Prefácio da 4ª edição), ou seja, ir além das narrativas personalistas centradas no complexo do ego que descreve a vida como se as manifestações da psique fossem propriedades privadas do Ego (meus pensamento, minhas ideias, meus sentimentos, minhas emoções, meu gênero, minha sexualidade, minha espiritualidade). Cada vivente teria experiências singulares nas manifestações da psique, mas o fato de serem vividas singularmente não as tornaria propriedade do Ego- personalizadas.</p>



<p>Assim validar forças e determinantes maiores transpessoais como Afrodite, Eros, Eco etc. e reconhecer desejo como a fratura que coloca a consciência em relação ao excedente da vida e a presença do desejo como oportunidade para o vivente suportar a contradição em si mesmo sem perder a determinidade – a vida em continua transformação – pode ser fundamental para atitudes e posições que defendam a multiplicidade de formas de vida. Isto levaria a uma via dupla no posicionamento no mundo: de um lado reconhecer e zelar pelas infinitas formas de manifestações de vida (o que incluiria a diversidade de gêneros) em sua fragilidade; em especial as formas mais sujeitas a ataques, violências e apagamento das marcas deixadas. Mas, também ficar atento pois toda forma de vida reconhecida seria uma persona e restringiria a vida. Mais ainda tomar ações para que nenhuma forma de vida possa assumir posições tiranicamente unilaterais, fundamentalistas, buscando eliminar, suprimir outras formas, quer seja usando mecanismos, violentos, racistas, sexistas etc. na forma de repressão barragem, quer seja na forma de apresentações de saber como a verdade do humano ou do ser. A vida excedendo em sua fragilidade e indeterminação precisaria sistematicamente da zeladoria da consciência, do campo reflexivo, seja em sua forma individual, seja nas diversas instâncias coletivas como família, escolas, trabalho, política etc.</p>



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<p><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador &#8211; Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>OC, 8/2 &#8211; A Natureza da Psique.</em> Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>—. <em>OC-10/1 Presente e Futuro .</em> Petrópolis: Vozes, 1989.</p>



<p>—. <em>OC-5 &#8211; Símbolos da transformação: análise dos preludios de uma esquizofrenia</em>. Petrópolis: Vozes, 2008.</p>



<p>—. <em>OC-8/1 &#8211; A Energia Psíquica.</em> Vol. 8/1 OC. Petrópolis: Vozes, 2000.</p>



<p>—. <em>OC-8/6 &#8211; Tipos Psicológicos.</em> Vol. OC-6. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p>Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



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<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Quando o amor acaba</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-o-amor-acaba/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 17:43:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[eros]]></category>
		<category><![CDATA[namoro]]></category>
		<category><![CDATA[paixão]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>No começo dos <strong>relacionamentos amorosos</strong> há o encantamento.&nbsp;</p>



<p>Descobrimos as afinidades, sentimos o <strong>desejo</strong>, a química do corpo e da alma, temos aquela vontade crescente de estar cada vez mais perto. A pupila dos olhos dilata para reter a imagem da presença de quem amamos. O romance inicia e o fluxo da vida se faz presente, com ele a intimidade, o casamento, os filhos.&nbsp;</p>



<p>Quando o <strong>amor</strong> se faz vigente, fantasiamos ter o outro para sempre, traçamos planos de viver e de envelhecer ao lado de quem amamos.&nbsp;</p>



<p>Mas com a dinâmica da vida há um estabelecimento da rotina e com ela surgem os mais diversos problemas.&nbsp;</p>



<p>Os descuidos diários fazem com que o <strong>amor</strong> se desgaste, acarretando num possível afrouxamento das expectativas e consequente perda de admiração pelo parceiro. Com isso, não se esperam mais grandes feitos do outro, o futuro vira um acumulado de dias bolorentos e o desejo sexual escorre pelo ralo.</p>



<p>&nbsp;Aquele defeito que achávamos graça torna-se irritante. Com o acumulado de silêncios, discussões, desconexões e intolerâncias geram inúmeros conflitos e, quando nos damos conta, o <strong>amor</strong> acaba. Um sentimento que julgávamos indestrutível, se foi.&nbsp;</p>



<p>Às vezes nós deixamos de amar, às vezes o <strong>amor</strong> do outro é que nos deixa.</p>



<p>O término do <strong>amor</strong> nem sempre tem a ver com separação de corpos e sim com o afastamento das almas. Perde-se a intimidade, o companheirismo, a paciência, o tesão, as afinidades. Paira sobre o casal um silêncio gelado, onde existe mais interesse nas entranhas do celular e nas teias das redes sociais do que na vida do outro.</p>



<p>Para alguns casais o <strong>amor romântico</strong> se transmuta em amizade, onde uma espécie de irmandade ou até coleguismo prevalece na relação. Com a relação mais fraterna é comum que haja queda no desejo sexual pelo outro.&nbsp;</p>



<p>Mesmo quando o amor esvai, alguns casais optam por ficarem juntos e os motivos podem ser diversos: co-dependência emocional, medo da solidão, dogmas religiosos, filhos, dinheiro, status social, etc. Seja por consenso, anestesiamento ou medo, optam por compartilhar a solidão a dois.</p>



<p>O final de uma relação é dolorido, e os sentimentos são diferentes e penosos para quem abandona ou é abandonado.&nbsp;</p>



<p>O término é difícil&#8230;&nbsp;</p>



<p>Sentimos que o desenvolvimento muitas vezes contraditório da vida, ora permeado por amizade, parceria, cumplicidade e tesão, ora por brigas, ciúmes, falta de troca e intimidade, esvaece.</p>



<p>Assim como as coisas, os amigos que antes eram do casal entram no inventário existencial. E lidar com a dor dos filhos deixa a dinâmica ainda mais dura e difícil.&nbsp;</p>



<p>Algumas separações são mais simples, outras bastante dramáticas e complexas. Cada um com sua história sabe a dor e desespero quando o amor finda.</p>



<p>É natural que o término traga sensação de desorientação, pois a rotina foi dramaticamente alterada. Por vezes há a mudança de casa, de horários, não sabemos ao certo como lidar com o impacto da separação na vida das crianças, o orçamento aperta, a vida desorganiza. Uma espécie de vertigem emocional nos abarca&#8230;</p>



<p>Lidar com a dor é difícil. O processo de separação nos faz experimentar uma espécie de morte da vida conhecida, da perda de parte da nossa identidade e do modo que nos apresentamos socialmente, um sentimento de esfacelamento familiar, e às vezes uma sensação de fracasso. As perdas não são poucas e o sofrimento é intenso.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Por isso é preciso ter paciência. A dor da morte do amor gera em nós um processo de luto.&nbsp;</p>



<p>Apesar de penoso, viver o luto é importante pois permite uma reorganização da nova fase de vida. No luto, entramos em contato com sentimentos desconfortáveis, angústias, inquietações, numa incômoda retórica do que não deu certo.&nbsp;</p>



<p>Como somos plurais, cada pessoa tem uma forma e intensidade para atravessar este campo minado. Jung diz que “não podemos afirmar se alguma coisa é errada ou certa. A vida humana e o destino humano são tão paradoxais que mal podemos estabelecer uma regra que correspondam a eles”. (Jung, 2005, p. 53). Contraditoriamente, passar por essa fase complicada do luto nos ajuda na reorganização psíquica.</p>



<p>Por isso, é preciso ter paciência durante o processo. Nesta fase, é comum nos fechar para balanço e fazer uma espécie de inventário existencial. Neste momento, estamos tomados pelos complexos e ficamos muito sensibilizados.</p>



<p>Durante o processo do luto do amor, percebemos que por vezes nos desconectamos de nós mesmos.&nbsp;</p>



<p>Descobrimos uma espécie de autoabandono e vemos o quanto deixamos de nos cuidar, quanto não vivemos o que gostaríamos em prol de uma doação desmedia ao outro. Deixamos de fazer o que gostamos, descuidamos da nossa alimentação, da saúde, dos prazeres, e percebemos o quão desconexos estamos de nós mesmos.</p>



<p>Quando a dor excessiva ameniza, num movimento nem sempre consciente tendemos a buscar mudanças. Tentamos resgatar a autoestima ao melhorar o cuidado pessoal, mudar o cabelo, as roupas, o corpo.&nbsp;</p>



<p>O importante nesta fase é redescobrir-se e fazer com que este processo tenha sentido e aderência de quem somos, e não uma tentativa inócua de “voltar ao mercado do amor”.</p>



<p>Nesta nova fase surge o desejo (às vezes inconsciente) de uma nova persona.</p>



<p>Porém melhorar a autoestima não é apenas cuidar da aparência e do corpo, mas buscar uma reconexão de si. É descobrir, entender e respeitar seus limites; priorizar o sentimento de bem-estar; criar bons hábitos; realizar sonhos; adquirir leveza; olhar-se sem crítica destrutiva.&nbsp;</p>



<p>Como persona e sombra são pares de opostos na psique, também se faz importante o confronto com a sombra, pois nela constituem problemas de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo.&nbsp;</p>



<p>Na tomada de consciência da sombra, reconhecemos os aspectos obscuros da nossa personalidade, tais como são na realidade (Jung, O.C. 9/2, 2013, p.19 §14). E isso é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento, pois conseguimos criar consciência daquilo que possivelmente deu errado.&nbsp;</p>



<p>Entrar em contato com a sombra é uma forma de acessar e entender nossos complexos, traumas, baixa autoestima, autossabotagem, medos, ansiedades, inseguranças.</p>



<p>Caminhar pelo vale pantanoso da sombra não é tarefa fácil, mas pode ser libertador. Jogar luz àquilo que nos aflige traz consciência para tomadas de decisões um pouco mais cuidadosas e responsáveis.</p>



<p>Na fase de reconstrução de si, repensar a forma de viver é salutar. Nos ajuda a recuperar o sentido, a entender nossos valores, a fazer as pazes com quem somos, a preencher alguns vazios existenciais com um sopro de acalanto da alma.</p>



<p>Relembrar o que passamos na jornada amorosa também nos auxilia a perceber os ensinamentos vividos, pois toda troca traz uma importante experiência.&nbsp;</p>



<p>Por mais doloroso que seja um final de relação, houve momentos importantes que marcaram a vida. Sejam memórias boas ou não, refletir sobre o processo nos ajuda a assimilar seus aprendizados.</p>



<p>Cada um tem um ritmo, um tempo de recolhimento. Cada pessoa é um universo e, como tal, tem uma pulsação diferente de retomada da vida.</p>



<p>A vida floresce no momento certo e com ela uma nova versão de nós desabrocha. Nem sempre melhor ou pior, mas diferente.</p>



<p>Ao estarmos mais conectados aos nossos processos internos, nos sentiremos menos ameaçados e fragilizados na presença do outro, e baixamos a guarda para estabelecer relações mais íntimas.</p>



<p>As reflexões e aprofundamentos nos processos de ampliação da consciência nos ajudam a perceber que não temos que ser perfeitos, mas pessoas completas com nossa luz e escuridão.</p>



<p>Viver um dia de cada vez, apreciar os bons momentos e entender que as dificuldades são as pedras que sedimentam os caminhos da nossa jornada nos ajudam a aceitar aquilo que não podemos mudar, a ter coragem para mudar o que for preciso e sabedoria para discernir entre as duas coisas.</p>



<p>Daniela Aimar Euzebio – Membro Analista em formação do IJEP (SP)</p>



<p>E. Simone Magaldi – Membro didata do IJEP</p>



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<iframe title="Quando o amor acaba | Daniela Euzebio" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/ay1M5jSFHEg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p>Referências</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas de C.G.Jung, v. 9/2).</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Sobre o amor. São Paulo: Ideias &amp; Letras, 2005.</p>
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		<title>Paixão e Poder</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/paixao-e-poder/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jun 2022 22:07:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[paixão]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>É clássica a frase de Jung, mencionada no volume 7/1 da obra, na qual ele antagoniza&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>poder</strong>:&nbsp;<em>“Pela lógica, o contrário do&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de&nbsp;<strong>poder</strong>. Onde impera o&nbsp;<strong>amor</strong>, não existe vontade de&nbsp;<strong>poder</strong>; e onde o&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;tem precedência, aí falta o&nbsp;<strong>amor</strong>. Um é a sombra do outro”&nbsp;</em>(JUNG, OC 7/1, §78). Desde então, esta frase ainda ressoa um tanto quanto estranha, já que o antagonismo&nbsp;<strong>amor</strong>-ódio ainda é tido como o naturalmente “correto”, segundo o senso-comum.</p>



<p>A verdade é que esta afirmação de Jung é extremamente complexa, e para compreendê-la precisamos fazer um passeio por alguns&nbsp;<strong>fundamentos da psicologia analítica</strong>. Primeiramente, o que em geral categorizamos unicamente como “<strong>amor</strong>”, pode ser divido em quatro tipos de amores:&nbsp;&nbsp;porneia (emocional e egoísta), eros (relacional), philia (fraternal) e ágape (caridoso, altruísta) – vide palestra do VII Congresso Junguiano do IJEP, sobre Eros e Porneia, entre Waldemar Magaldi, Leonardo Torres e eu. Logo, quando Jung antagoniza&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>poder</strong>, é quase que um antagonismo entre porneia e ágape, isto é, entre egoísmo e altruísmo. O egoísmo é autoerótico, desejoso de si, e encontra a sua realização na fantasia de&nbsp;<strong>poder</strong>, enquanto altruísmo é fazer pelo outro.</p>



<p>Para aumentar a confusão, apesar dessas distintas classificações de&nbsp;<strong>amor</strong>, até antagônicas entre si, popularmente há uma grande confusão também entre o&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;e a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;romântica. Não raro, uma pessoa em estado de apaixonamento imagina-se assim porque “sente muito&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;pela outra pessoa”. Psicologicamente isto não é verdade, pois a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;é um sentimento autoerótico, muito mais próximo ao&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;porneia, egoísta, do que ao&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;ágape, altruísta, voltado ao outro. Em outras palavras, o apaixonamento é um desejo por si mesmo, porém, projetado em alguém – veremos adiante.</p>



<p>Nunca é demais lembrar que&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;vem do grego&nbsp;<em>páthos [πάθοσ],</em>&nbsp;afecção / doença, e do latim&nbsp;<em>passio&nbsp;</em>(sofrimento passivo). A “<strong>paixão</strong>&nbsp;de Cristo” é essencialmente o sofrimento de Cristo (em inglês, a palavra grega&nbsp;<em>páthos&nbsp;</em>também<em>&nbsp;</em>é tida como a fonte da palavra inglesa&nbsp;<em>path</em>, que significa caminho). A&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;também é uma força arquetípica, sendo narrada em diversos mitos e contos, por exemplo, as análises psicológicas feitas em&nbsp;<em>We&nbsp;</em>de Johnson (1987) e em&nbsp;<em>Eros e Psiquê&nbsp;</em>de Neumann (2017) – além de clássicos da literatura, tais como&nbsp;<em>Romeu e Julieta</em>&nbsp;de Shakespeare,&nbsp;<strong><em>Amor</em></strong><em>&nbsp;de Perdição</em>&nbsp;de Camilo Castelo Branco, e muitos outros.</p>



<p>Por alguma razão, não muito clara, ao longo da história a ideia de&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;foi “glamourizada” como uma coisa boa, como se fosse um “excesso de&nbsp;<strong>amor</strong>”, ou um “excesso de um sentimento bom”, chegando até a ocupar a lista de valores corporativos: “precisamos ter&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;pela nossa empresa”. Do ponto de vista daquilo que a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;desperta, é inegável que ela traga emoções muito boas de sentir, especialmente quando é correspondida, entretanto, ela é um aspecto mais iniciático da experiência do&nbsp;<strong>amor</strong>, que evoca a evolução para os outros amores – algo nem sempre alcançado. Para entender melhor a dinâmica psíquica da&nbsp;<strong>paixão</strong>, saindo da leitura senso-comum do fenômeno, precisamos buscar alguns conceitos de&nbsp;<strong>Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica</strong>.</p>



<p>Uma das descobertas mais relevantes de Jung foram os complexos tonais afetivos, chamados simplesmente complexos. Estes são as estruturas básicas do inconsciente pessoal e são essencialmente agrupamentos de afetos que possuem correspondência entre si, com núcleo arquetípico, portanto, universais e presentes em todos nós. Por serem, a priori, inconscientes, os complexos não necessariamente correspondem às fantasias e vontades do ego, que também é um complexo, mas é dominante, e ocupa o centro da consciência (JUNG, OC 3; OC 8/2; OC 9/2). Muitas vezes um dos complexos do inconsciente pessoal atrai energia psíquica suficiente para romper o limite da consciência e incomodar os desígnios do ego (JUNG, OC 3; OC 8/1). Quando isto acontece, dizemos que há um complexo constelado:&nbsp;<em>“Este termo exprime o fato de que a situação exterior desencadeia um processo psíquico que consiste na aglutinação e na atualização de determinados conteúdos. A expressão “está constelado” indica que o indivíduo adotou uma atitude preparatória e de expectativa, com base na qual reagirá de forma inteiramente definida. A constelação é um processo automático que ninguém pode deter por vontade própria. Esses conteúdos constelados são determinados complexos que possuem energia específica própria”&nbsp;</em>(JUNG, OC 8/2, §198).</p>



<p>Com o complexo constelado o ego entra em embate com dinâmicas diferentes das suas dominantes, e esta luta será sentida na consciência por meio dos sintomas, afetos, sentimentos e até comportamentos “anormais” – diferentes dos padrões dominantes. O complexo tem vontades e sentidos próprios, e não possui compromisso com moralidade, com os códigos de conduta, ou com a persona que ocupam a consciência. Dito isto, em termos psíquicos, a&nbsp;<strong>paixão</strong>, sentimento tão glamourizado, nada mais é do que um complexo constelado. Em outras palavras, o estado de apaixonamento, que é repleto de afetos, intensidades, estranhamentos, euforias, é basicamente a emersão de um complexo do inconsciente para a consciência. Contudo, sem reconhecer conscientemente que a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;é um sintoma do complexo constelado, justamente pelo fato de no seu&nbsp;<em>mix&nbsp;</em>de emoções existirem algumas que transmitem sentimentos muito positivos, o apaixonado fica num estado de encantamento, entorpecido pela sua própria imagem projetada no outro. Diz Jung:&nbsp;<em>“o apaixonado é possuído pelo seu complexo: todo o seu interesse volta-se para o complexo e as coisas que lhe dizem respeito [&#8230;]. O que não diz respeito ao complexo é excluído e os demais interesses desaparecem no nada; surge uma atrofia temporária e um esvaziamento da personalidade</em>&nbsp;(JUNG, OC 3, §102).</p>



<p>No processo de apaixonamento, como o indivíduo está possuído por um profundo &#8220;compromisso” com o complexo, ele é incapaz de relativizar, de ponderar, de refletir, pois apenas a lógica do complexo é o que vale. Diversas vezes, quando observamos um familiar ou amigo apaixonado, dizemos que “esta pessoa está diferente”. E está mesmo, pois o dominante vigente na consciência é algo alternante entre complexo e ego, e não apenas o ego conhecido de outrora. Apesar dessa chuva de emoções, Robert Johnson (1987), no seu clássico livro&nbsp;<em>We</em>, desconstrói a ilusão ao dizer que o ruim da&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;é que ela acaba. Isso significa que tudo que foi projetado pelo complexo e que levou o sujeito ao estado de apaixonamento, tende a cair, e é nesse momento que é preciso lidar com o outro de maneira autêntica, olhando para ele tal como é, destituído da “embalagem” projetada pelo complexo. É também neste momento que muitos relacionamentos acabam, pois dirá o senso-comum que “o&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;acabou”.</p>



<p>No belo artigo&nbsp;<em>Medo de amar&nbsp;</em>do Prof. Dr. Waldemar Magaldi Filho, ele menciona um conto de autoria desconhecida, no qual um sábio diz à um jovem que:&nbsp;<em>“amar é uma decisão, não um sentimento ou um desejo.&nbsp;Amar é dedicação, é atitude.&nbsp; Amar é um verbo e o fruto dessa ação é o próprio&nbsp;<strong>amor</strong></em>” (MAGALDI FILHO, 2019).&nbsp;Isso significa que&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;não são as mesmas coisas. Enquanto o primeiro é uma opção, uma escolha, o segundo é um fenômeno autônomo da psique, impetuoso. Contudo, raramente optamos por amar genuinamente, pois preferimos o entorpecimento da&nbsp;<strong>paixão</strong>, assim como Tristão que se apaixonada por Isolda quando toma uma poção envenenada (JONHSON, 1987), ou como Eros que se apaixona por Psiquê ao se ferir com a própria flecha, provando do próprio veneno (NEUMANN, 2017). Também não nos esqueçamos que a origem das palavras&nbsp;<em>veneno</em>&nbsp;ou&nbsp;<em>envenenamento</em>&nbsp;provém de Vênus, a deusa romana do&nbsp;<strong>amor</strong>, e a Afrodite da mitologia grega (tida como mãe de Eros em algumas narrativas). Daí a proximidade entre estar apaixonado e estar, metaforicamente,&nbsp;<em>envenenado</em>.</p>



<p>É curioso notar o valor da recompensa emocional na&nbsp;<strong>paixão</strong>: mesmo que boa parte da experiência do apaixonamento seja ruim, às vezes muito violenta, literalmente, um simples gesto positivo da pessoa que é objeto da projeção é suficientemente forte para despertar a frase, na maioria das vezes ingênua, que diz “agora é diferente, ele/ela mudou”. Diferentemente disso, o que ocorre é que o outro não possui compromisso irrestrito com o conteúdo do complexo projetado que recebe, e naturalmente demonstrará, ao longo do tempo do relacionamento, que de fato é uma pessoa diferente daquela idealizada pelo universo da&nbsp;<strong>paixão</strong>.</p>



<p>Quando algum gesto de um dos apaixonados corresponde à expectativa do conteúdo projetivo que recebe, o outro vê como positivo, como uma recompensa; já quando ele demonstra as diferenças de sua personalidade versus a projeção que recebe, poderá ouvir que “surpreendente mudou, pois não era assim antes”. Não é que ele “não era assim antes”. Na verdade, durante o apaixonamento, a cegueira da&nbsp;<strong>paixão</strong>nos impede de olharmos para as pessoas tais como elas são, positiva e negativamente, portanto, à medida que a projeção cai, a percepção da consciência é de que a pessoa mudou, mas isso não é exatamente uma verdade absoluta, pois o que mudou foi o conteúdo projetado, muitas vezes invertido com&nbsp;<strong>paixão</strong>, tornando-se ódio.</p>



<p>Por ser essencialmente uma relação autoerótica (porneia), a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;é também um exercício inconsciente de&nbsp;<strong>poder</strong>. Queremos que o objeto de devoção aja tal e qual os desejos do complexo. Queremos fazer do outro uma cópia de nós mesmos. Queremos possuir o outro, como um produto que pode ser comprado:&nbsp;<em>“Nas relações interpessoais, a maioria dos problemas enfrentados são problemas de porneia, vale dizer, de não aceitação da alteridade: o outro é minha propriedade, minha vida, minha metade, minha posse&#8230;”</em>&nbsp;(VIVERET, 2013, p. 39).</p>



<p>O problema é que esse padrão não se apresenta exclusivamente nos relacionamentos românticos; ele se repetirá em muitas outras áreas da vida, em que, tomados por uma&nbsp;<strong>paixão</strong>, almejaremos buscar “tudo para nós”, “do nosso jeito”. Vamos querer que nossos chefes no trabalho “ajam de tal e tal forma”, que nossos pais “sejam desta e daquela maneira” e que nossos amigos “se comportem segundo este modelo”. Exercemos nossa porneia, egoísmo, desejo autoerótico de&nbsp;<strong>poder</strong>, deliberadamente, seja nos relacionamentos humanos, seja na obsessão pelo dinheiro (que na atualidade se reflete em maior&nbsp;<strong>poder</strong>), seja na obsessão pela “persona perfeita” (haja visto a enxurrada de procedimentos estéticos buscados pelas pessoas, e que poucas vezes se refletem em mudanças interiores), seja no exercício do&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;em si (líderes empresariais, religiosos e políticos, que agem apenas a favor de si ou para manter seu séquito). Todos que estão em porneia, em relacionamentos autoeróticos, “envenenados” pelo&nbsp;<strong>poder</strong>, desconsideram o outro e, consequentemente, o arquétipo da totalidade, que é o Self [si-mesmo], a&nbsp;<em>imago Dei</em>&nbsp;em nós.</p>



<p>Voltando ao início de nosso texto, quando Jung afirma que o&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;faz oposição ao&nbsp;<strong>poder</strong>, é dizer o mesmo que o excesso de si mesmo [ego] sem hífen, é a negação do si-mesmo [Self], com hífen. Neste sentido, o ódio, faz oposição ao desejo, ainda que no ódio haja o desejo de destruição do odiado; é uma projeção sombria da vontade de “possuir” um alguém que por qualquer razão não corresponde às fantasias projetivas da&nbsp;<strong>paixão</strong>, de ser dominado, de ser subjugado ao&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;autoerótico do outro, passando, portanto, a “merecer” o ódio, ou a destruição.</p>



<p>O estado de apaixonamento é natural do processo de amadurecimento do ego e, naturalmente, a maioria de nós estará exposto a ele em algum(uns) momento(s) na vida – especialmente na juventude, mas não apenas –, pois como toda constelação de complexos, a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;não é uma escolha, é um acontecimento: são os complexos que nos tem e não nós que os temos. Também lembremos que se apaixonar é gostoso (e às vezes sofrível), e precisamos viver de alguma forma esta experiência. Por outro lado, precisamos ampliar a consciência e saber que a&nbsp;<strong>paixão</strong>&nbsp;anda lado a lado com o&nbsp;<strong>poder</strong>, e que o fato dela aparecer em nossa vida é justamente para nos dar a chance de reconhecer conscientemente o desejo de&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;que nos habita, para criarmos novos sentidos e significados para as nossas relações, construindo e optando por outras formas de&nbsp;<strong>amor</strong>, mais horizontais e altruístas, mas sem o abandono de si, e sem desconsiderar o Self. No fim, o caminhar deveria ser no sentido da Harmonia, que na mitologia grega era a filha de Afrodite (deusa do&nbsp;<strong>amor</strong>) com Ares (deus da guerra, que também evoca a ideia de&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;ou soberania).</p>



<p>Se&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;e&nbsp;<strong>amor</strong>&nbsp;são opostos, significa que um não existe sem o outro, e por isso relembremos da frase de Jesus quando tentado pelo diabo no deserto:&nbsp;<em>“Tornou o diabo a levá-lo para um monte muito alto. E mostrou-lhe todos os reinos do mundo com o seu esplendor e disse-lhe ‘Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares’. Aí Jesus lhe disse: ‘Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e a Ele só prestarás culto’</em>&nbsp;(Mt, 4, 8-10). Dito de outra forma, e lendo esta passagem simbolicamente, Jesus não nega o convite do diabo de possuir todos os reinos, de exercer seu “<strong>poder</strong>”, mas também não aceita, pois é como se ele dissesse “que eu use este desejo por&nbsp;<strong>poder</strong>&nbsp;que você insufla em mim, como caminho para eu doar&nbsp;<strong>amor</strong>”.</p>



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<iframe title="Paixão e Poder | Rafael Rodrigues" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/OlnuUik5UrI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p>Rafael Rodrigues de Souza – Analista Didata em formação</p>



<p>Analista Didata – Waldemar Magaldi Filho</p>



<p><strong>Referência</strong>s:</p>



<p>JOHNSON, Robert.&nbsp;<em>We: a chave da psicologia do amor romântico</em>. São Paulo: Mercuryo, 1987.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Psicogênese das doenças mentais [OC 3]</em>. 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Psicologia do inconsciente [OC 7/1]</em>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A energia psíquica [OC 8/1]</em>. 8ª ed. Corrigida. Petrópolis: Vozes, 2002.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A natureza da psique [OC 8/2]</em>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Aion – estudo sobre o simbolismo do si-mesmo [OC 9/2]</em>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>NEUMANN, Erich.&nbsp;<em>Eros e Psiquê: amor, alma e individuação no desenvolvimento do feminino</em>. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 2017.</p>



<p>MAGALDI FILHO, Waldemar.&nbsp;<em>Medo de amar</em>. IJEP, set. 2019. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/medo-de-amar">https://www.ijep.com.br/artigos/show/medo-de-amar</a>. Acesso em: 03/06/2022.</p>



<p>VIVERET, Patrick.&nbsp;<em>O que faremos com a nossa vida?</em>&nbsp;<em>In</em>: MORIN, Edgar; VIVERET, Patrick (Orgs.)&nbsp;Como viver em tempo de crise? [recurso eletrônico]. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. p. 18-41</p>
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