<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos etapas da vida humana - Blog IJEP</title>
	<atom:link href="https://blog.ijep.com.br/tag/etapas-da-vida-humana/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/etapas-da-vida-humana/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 25 Jun 2026 15:01:57 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0</generator>

<image>
	<url>https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-logo-ijep-32x32.png</url>
	<title>Arquivos etapas da vida humana - Blog IJEP</title>
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/etapas-da-vida-humana/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Desidealizar como rito de passagem na adolescência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/desidealizar-como-rito-de-passagem-na-adolescencia/</link>
					<comments>https://blog.ijep.com.br/desidealizar-como-rito-de-passagem-na-adolescencia/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2026 14:39:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[etapas da vida humana]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=13222</guid>

					<description><![CDATA[<p>O artigo propõe uma reflexão sobre a desidealização dos pais na adolescência como um processo psíquico necessário ao desenvolvimento da personalidade. A partir da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, discute-se a projeção como mecanismo inconsciente que sustenta a idealização das figuras parentais na infância e sua posterior retirada durante a adolescência. Argumenta-se que esse movimento não configura mera ruptura ou rebeldia, mas que é um processo de diferenciação da consciência, no qual o jovem passa a reconhecer os pais em sua condição humana e reintegra à própria psique conteúdos antes projetados.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/desidealizar-como-rito-de-passagem-na-adolescencia/">Desidealizar como rito de passagem na adolescência</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>RESUMO</strong>: O artigo propõe uma reflexão sobre a desidealização dos pais na adolescência como um processo psíquico necessário ao desenvolvimento da personalidade. A partir da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, discute-se a projeção como mecanismo inconsciente que sustenta a idealização das figuras parentais na infância e sua posterior retirada durante a adolescência. Argumenta-se que esse movimento não configura mera ruptura ou rebeldia, mas que é um processo de diferenciação da consciência, no qual o jovem passa a reconhecer os pais em sua condição humana e reintegra à própria psique conteúdos antes projetados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O trabalho reflete sobre o mito da ruptura com os adultos, propondo que o amadurecimento saudável não conduz ao isolamento, mas à construção de vínculos mais conscientes e interdependentes. Por fim, o artigo sugere uma ponte entre a retirada de projeções e o processo de individuação, compreendendo a adolescência como um rito simbólico de passagem em direção ao tornar-se si-mesmo.</p>



<h2 id="h-a-adolescencia-pode-ser-compreendida-como-um-momento-privilegiado-de-reorganizacao-psiquica-no-qual-se-intensifica-o-confronto-entre-as-imagens-inconscientes-e-a-realidade-objetiva" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A adolescência pode ser compreendida como um momento privilegiado de reorganização psíquica, no qual se intensifica o confronto entre as imagens inconscientes e a realidade objetiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo que na infância se apresentava como sólido, sobretudo as figuras parentais, passa a apresentar fissuras, questionamentos e ambivalências. Nesse contexto, a relação com essas pessoas, anteriormente sustentada por fortes investimentos idealizados, tende a ser atravessada por um processo de revisão simbólica, marcado pela retirada progressiva de projeções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Carl Gustav Jung, a projeção consiste na atribuição inconsciente de conteúdos internos a objetos externos, sendo mecanismo fundamental na constituição dos vínculos humanos. Assim, a idealização dos pais pode ser entendida como expressão dessas projeções, que conferem às figuras parentais um caráter ampliado, muitas vezes associadas às imagens arquetípicas de proteção, autoridade e totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O movimento de desidealização, nesse sentido, não implica uma simples perda ou ruptura, mas configura-se como um processo de diferenciação, no qual o indivíduo pode começar a reconhecer o outro em sua condição humana. Essa dinâmica, em famílias funcionais, favorece a ampliação da consciência e inaugura novas possibilidades de relação, menos marcadas pela dependência inconsciente e mais abertas à construção de vínculos baseados na reciprocidade. Trata-se de um movimento de diferenciação que, ao mesmo tempo em que tensiona os vínculos, também os transforma, possibilitando a emergência de relações mais abertas à construção de formas de interdependência, sendo, porém, importante salientar que em ambientes disfuncionais a quebra de vínculos pode apresentar-se como solução adaptativa.</p>



<h2 id="h-a-adolescencia-e-o-mito-da-ruptura" class="wp-block-heading"><strong>A adolescência e o mito da ruptura</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma narrativa muito difundida, no senso comum e em certos discursos pedagógicos, de que a adolescência é marcada por uma ruptura necessária com os adultos. Como se crescer implicasse, inevitavelmente, afastar-se, romper, rejeitar. Como se o movimento em direção à autonomia exigisse o apagamento daqueles que vieram antes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, essa leitura, embora contenha uma certa dose de verdade, revela-se insuficiente quando observada à luz da complexidade psíquica. A adolescência não é propriamente um tempo somente de ruptura, mas de transformação.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>É importante o período que vai do nascimento até o término da puberdade psíquica, que para o homem, em nosso clima e em nossa raça (Suíça), pode estender-se até os vinte e cinco anos, e na mulher termina antes, aos dezenove ou vinte anos; justamente nesse período ocorre o maior e mais intenso desenvolvimento da consciência. Este desenvolvimento estabelece vínculos fortes entre o “eu” e os processos psíquicos até então inconscientes, e também os separa nitidamente do inconsciente. Deste modo emerge a consciência a partir do inconsciente, como uma nova ilha aflora sobre a superfície do mar (JUNG, 2013a, parágrafo 103).</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-psicologia-analitica-oferece-uma-chave-importante-para-essa-reflexao-ao-compreender-a-adolescencia-como-uma-etapa-da-vida-em-processo-de-diferenciacao-progressiva-da-consciencia" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A psicologia analítica oferece uma chave importante para essa reflexão, ao compreender a adolescência como uma etapa da vida em processo de diferenciação progressiva da consciência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para o jovem, os pais deixam de ocupar o lugar de totalidade e passam a ser vistos em sua dimensão humana, limitada, ambígua.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>No estágio infantil da consciência, ainda não há problemas; nada depende do sujeito, porque a própria criança ainda depende inteiramente dos pais. É como se não tivesse nascido ainda inteiramente, mas se achasse mergulhada na atmosfera dos pais. O nascimento psíquico e, com ele, a diferenciação consciente em relação aos pais só ocorrem na puberdade, com a irrupção da sexualidade. A mudança fisiológica é acompanhada também de uma revolução espiritual. Isto é, as várias manifestações corporais acentuam de tal maneira o eu, que este frequentemente se impõe desmedidamente. Daí o nome que se dá a esta fase: “os anos difíceis” da adolescência (JUNG, 2013b, parágrafo 756).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa fase, vivida como conflito ou oposição, não constitui necessariamente um rompimento, mas um deslocamento psíquico fundamental, ou seja, a passagem da dependência inconsciente para uma relação mais diferenciada. Trata-se menos de romper com os pais e mais de romper com as imagens idealizadas e constituídas até então.</p>



<h2 id="h-com-isso-o-que-esta-em-jogo-nao-e-a-quebra-do-vinculo-mas-sua-transformacao-a-autonomia-que-emerge-desse-processo-nao-se-constroi-no-isolamento-mas-na-possibilidade-de-estabelecer-relacoes-menos-fusionais-e-mais-conscientes" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Com isso, o que está em jogo não é a quebra do vínculo, mas sua transformação. A autonomia que emerge desse processo não se constrói no isolamento, mas na possibilidade de estabelecer relações menos fusionais e mais conscientes.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-curso-natural-da-vida-exige-inicialmente-do-jovem-o-sacrificio-de-sua-infancia-e-de-sua-dependencia-infantil-dos-pais-fisicos-para-que-nao-permaneca-fixado-a-eles-pelo-laco-do-incesto-inconsciente-prejudicial-para-corpo-e-alma-com-a-separacao-do-torpor-da-infancia-se-almeja-uma-consciencia-autonoma-jung-2016-paragrafo-553"><em>O curso natural da vida exige inicialmente do jovem o sacrifício de sua infância e de sua dependência infantil dos pais físicos, para que não permaneça fixado a eles pelo laço do incesto inconsciente, prejudicial para corpo e alma [&#8230;]. Com a separação do torpor da infância se almeja uma consciência autônoma (JUNG, 2016, parágrafo 553).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva junguiana, o amadurecimento e o desenvolvimento da personalidade não ocorrem sem perdas. Crescer implica, inevitavelmente, atravessar um campo de renúncias, como exigência própria da transformação psíquica. É nesse contexto que o conceito de sacrifício adquire relevância, referindo-se ao movimento pelo qual algo precisa ser deixado para trás para que outra forma de existência possa emergir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na adolescência, esse processo se torna particularmente evidente. O jovem encontra-se diante da tarefa de se diferenciar das imagens que, até então, sustentavam sua experiência de mundo. Entretanto, para que a personalidade se desenvolva, segundo Jung, o jovem é convocado a renunciar à <strong>“saudade retrospectiva” </strong>(JUNG, 2016, parágrafo 643<strong>), e à fantasia de </strong>permanecer vinculado a um estado anterior de segurança, dependência e relativa indiferenciação.</p>



<h2 id="h-esse-sacrificio-nao-se-da-sem-tensao-ele-frequentemente-se-manifesta-como-conflito-oposicao-afastamento-emocional-ou-mesmo-desvalorizacao-dos-pais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Esse sacrifício não se dá sem tensão. Ele frequentemente se manifesta como conflito, oposição, afastamento emocional ou mesmo desvalorização dos pais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, tais movimentos não devem ser compreendidos apenas como rebeldia, mas como expressões de um processo psíquico mais profundo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Se é falta de sorte da criança não encontrar uma verdadeira família em casa, de outro lado também é perigoso para a criança estar presa demais à família. A ligação muito forte aos pais constitui impedimento direto para a acomodação futura no mundo. O adolescente está destinado para o mundo, e não para continuar a ser sempre apenas filho de seus pais. Lamentavelmente há muitíssimos pais que persistem em considerar os filhos sempre como crianças, porque eles próprios não querem nem envelhecer, nem renunciar à autoridade e ao poder de pais. Agindo deste modo, exercem sobre os filhos influência altamente desastrosa por tirar-lhes todas as ocasiões de assumirem responsabilidade individual. Este método prejudicial ou produz pessoas sem independência própria ou indivíduos que forçam a conquista da própria independência por caminhos escusos. Em contrapartida, há também outros pais que, por causa de sua própria fraqueza, são incapazes de opor à criança aquela autoridade da qual precisará mais tarde para adaptar-se corretamente ao mundo (JUNG, 2013a, parágrafo 107a).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O jovem que consegue renunciar à sua identificação com a saudade da infância e, também, afrouxar a forte ligação com os pais inicia um deslocamento decisivo. Aquilo que antes estava projetado no outro começa, gradualmente, a ser reintegrado à própria psique e, assim, o sacrifício não é apenas perda, é também recuperação. O que se perde em idealização, ganha-se em possibilidade de apropriação subjetiva.</p>



<h2 id="h-a-separacao-aqui-nao-se-refere-a-um-afastamento-concreto-ou-definitivo-mas-a-uma-mudanca-na-qualidade-da-relacao-com-a-retirada-de-projecoes-e-consequentemente-na-humanizacao-das-figuras-parentais" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A separação, aqui, não se refere a um afastamento concreto ou definitivo, mas a uma mudança na qualidade da relação com a retirada de projeções, e, consequentemente, na humanização das figuras parentais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o sacrifício da infância não conduz ao isolamento, mas abre caminho para formas mais complexas de vínculo. Ao renunciar à segurança de uma relação fusionada, o indivíduo torna-se capaz de construir relações menos idealizadas e mais conscientes, com os outros e consigo mesmo, dando início a um processo simbólico de transformação, um movimento em que algo precisa morrer para que outra forma de vida psíquica possa nascer.</p>



<h2 id="h-a-projecao-e-o-trabalho-de-tornar-se-si-mesmo" class="wp-block-heading"><strong>A projeção e o trabalho de tornar-se si mesmo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se a adolescência é compreendida como um tempo de transformação dos vínculos, é sobretudo porque ela mobiliza intensamente um mecanismo psíquico fundamental: a projeção. É por meio dela que o jovem, sem saber, organiza sua experiência do outro, ao mesmo tempo que se distancia de aspectos ainda não reconhecidos de si.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na psicologia analítica, a projeção pode ser compreendida como um processo inconsciente pelo qual conteúdos psíquicos que não são reconhecidos como pertencentes ao sujeito são percebidos como estando no outro.</p>



<h2 id="h-nao-se-trata-portanto-de-uma-escolha-consciente-ou-de-uma-distorcao-deliberada-mas-de-um-modo-espontaneo-pelo-qual-a-psique-lida-com-aquilo-que-ainda-nao-pode-ser-integrado-pela-consciencia-do-eu" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Não se trata, portanto, de uma escolha consciente ou de uma distorção deliberada, mas de um modo espontâneo pelo qual a psique lida com aquilo que ainda não pode ser integrado pela consciência do eu.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>A projeção é um mecanismo psicológico geral que carrega conteúdos subjetivos de toda espécie sobre o objeto. Por exemplo, quando se diz: “A cor desta sala é amarela”, trata-se de projeção, porque no próprio objeto não há amarelo; há apenas em nós. Como se sabe a cor é uma experiência subjetiva. O mesmo acontece quando se ouve um som, que é uma projeção, pois o som não existe por si próprio. É o som em minha cabeça, o problema psíquico que eu projetei. [&#8230;] Ninguém pode fazer projeções intencionais e conscientes, pois aí a pessoa saberia que estava projetando os seus conteúdos subjetivos, e por conseguinte não poderia localizá-los no objeto, pois saberia que eles são próprios da pessoa e não do objeto. Na projeção o fato aparente ao qual você está confrontado no objeto na realidade é uma ilusão; mas presumimos que aquilo que observamos no objeto não é subjetivo, mas inerente ao objeto. Eis por que essa ilusão é abolida quando se descobre que os fatos aparentemente objetivos são realmente conteúdos subjetivos. A partir de então tais elementos tornam-se associados com a própria psicologia do indivíduo, não se podendo mais atribuí-los ao objeto (JUNG, 2015, parágrafos 313-314).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, a projeção está intimamente ligada ao desconhecimento de si. Aquilo que não encontra lugar na consciência, seja por imaturidade, por conflito ou por incompatibilidade com a autoimagem, tende a ser deslocado para fora, ganhando forma na figura do outro. É assim que o mundo relacional se torna, muitas vezes, um espelho da própria interioridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante a infância, esse mecanismo exerce uma função organizadora essencial, pois as figuras parentais tornam-se alvos de conteúdos ampliados. Elas são investidas de saber, poder, segurança, perfeição e, em outros casos, de falha, insuficiência e ameaça. Em ambos os polos, o que está em jogo não é apenas a realidade concreta dos pais, mas o campo simbólico que se projeta sobre eles.</p>



<h2 id="h-e-na-adolescencia-que-esse-arranjo-comeca-a-se-esgarcar-a-medida-em-que-o-eu-se-estrutura-e-a-consciencia-se-amplia-as-projecoes-tendem-a-se-tornar-instaveis" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">É na adolescência que esse arranjo começa a se esgarçar. À medida em que o eu se estrutura e a consciência se amplia, as projeções tendem a se tornar instáveis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O jovem começa a perceber contradições e constata que os pais falham, hesitam, mostram limites. Esse momento pode ser vivido como decepção, revolta ou distanciamento, mas, do ponto de vista psíquico, ele marca algo decisivo, o início da retirada de projeções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>As primeiras impressões recebidas na vida são as mais fortes e as mais ricas em consequências, mesmo sendo inconscientes, e talvez justamente porque jamais se tornaram conscientes, ficando assim inalteradas. Apenas na consciência algo pode ser corrigido. O que é inconsciente permanece inalterado. Se quisermos provocar alguma alteração, precisamos passar para a consciência os fatos inconscientes, a fim de podermos submetê-los a uma correção (JUNG, 2013a, parágrafo 260).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Retirar uma projeção não significa simplesmente corrigir uma percepção equivocada sobre o outro. Trata-se de um processo mais exigente, no qual o sujeito é convocado a reconhecer em si aquilo que antes via apenas fora. Pelo fato da projeção se referir justamente a algo que ainda não foi compreendido pela consciência, aquela protege e limita ao mesmo tempo, ou seja, preserva o sujeito do confronto imediato com certos conteúdos, mas também impede sua ampliação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É por isso que a retirada de projeções é considerada, na psicologia junguiana, uma condição fundamental para o desenvolvimento psíquico. Sem esse movimento, o indivíduo permanece preso à relações marcadas por idealizações ou rejeições excessivas, nas quais o outro é menos reconhecido em sua alteridade e mais utilizado como suporte para conteúdos não elaborados.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Da mesma forma que nos inclinamos a supor que o mundo é tal como o vemos, com igual ingenuidade supomos que os homens são tais como os figuramos. Infelizmente ainda não existe, aqui, uma Física que nos mostre a discrepância entre a percepção e a realidade. Embora seja muito maior a possibilidade de erro grosseiro neste caso, do que nas percepções sensoriais, nem por isto deixamos de projetar nossa própria psicologia nos outros, com toda a tranquilidade. Cada um de nós cria, assim, um conjunto de relações mais ou menos imaginárias, baseadas essencialmente em projeções deste gênero. Nos neuróticos são até mesmo frequentes os casos em que projeções fantásticas constituem as únicas vias possíveis de relações humanas. Um indivíduo que eu percebo principalmente graças à minha projeção é imago (imagem) ou um suporte de imago ou de símbolo. Todos os conteúdos de nosso inconsciente são constantemente projetados em nosso meio ambiente, e só na medida em que reconhecemos certas peculiaridades de nossos objetos como projeções, como imagines (imagens), é que conseguimos diferenciá-los dos atributos reais desses objetos. Mas se não estamos conscientes do caráter projetivo da qualidade do objeto, não temos outra saída senão acreditar, piamente, que esta qualidade pertence realmente ao objeto. Todas as nossas relações humanas afundam em semelhantes projeções [&#8230;] (JUNG, 2013b, parágrafo 507).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ao retirar projeções, o sujeito não apenas passa a ver o outro com mais realidade, mas também amplia sua própria consciência. Ele se torna capaz de reconhecer em si tanto as qualidades quanto as limitações que antes estavam dissociadas. Esse processo, embora frequentemente desconfortável, é estruturante, pois permite a construção de uma relação mais diferenciada consigo mesmo e com o mundo.</p>



<h2 id="h-da-desidealizacao-a-interdependencia" class="wp-block-heading"><strong>Da desidealização à interdependência</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes, após a queda da idealização, o jovem oscila em direção a uma postura reativa, marcada pela negação da autoridade, pela contestação intensa e pela necessidade de diferenciação. Ainda assim, essa oposição frequentemente mantém uma forma de dependência psíquica, pois o sujeito continua a se configurar em função do outro, já não mais pela submissão, mas pela persistente reação a ele.</p>



<h2 id="h-em-outras-palavras-o-vinculo-permanece-atrelado-ao-eixo-da-dependencia-apenas-invertido" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Em outras palavras, o vínculo permanece atrelado ao eixo da dependência, apenas invertido.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>[&#8230;] ser adolescente pode ser confuso e apavorante, pois muitas coisas nessa fase são novas e frequentemente intensas. Para os adultos, o que os adolescentes fazem pode parecer estranho e até sem sentido. [&#8230;] A visão de que a adolescência é algo que todos devemos suportar é muito limitadora. Na verdade, os adolescentes não precisam apenas sobreviver a essa fase, pois podem florescer justamente devido a ela. O que isso quer dizer? A ideia central é que, de várias maneiras-chave, o &#8220;trabalho&#8221; na adolescência — testar limites e a ânsia de explorar o que é desconhecido e excitante &#8211; pode abrir caminho para o desenvolvimento de características fundamentais do caráter que farão os adolescentes seguirem em frente [&#8230;] (SIEGEL e HARTZELL, 2020, p. 302).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A interdependência emerge justamente quando a dinâmica dessas relações começa a se naturalizar. Diferente da dependência infantil, em que há necessidade de fusão e sustentação, e também diferente da oposição reativa, em que o sujeito precisa negar o outro para afirmar-se, a interdependência pressupõe diferenciação sem ruptura. Trata-se da capacidade de reconhecer a própria individualidade sem perder a possibilidade de vínculo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Embora haja um impulso natural e necessário para se tornar independentes dos adultos que os criaram, os adolescentes ainda se beneficiam dos relacionamentos com adultos. A transição saudável para a fase adulta leva à interdependência, não ao isolamento total. A natureza dos vínculos dos adolescentes com os pais como figuras de apego muda, e os amigos se tornam mais importantes durante essa fase. Em última instância, o ser humano começa a vida dependendo do cuidado dos outros durante a infância, afastando-se dos pais e de outros adultos e aprendendo mais com seus pares durante a adolescência, e depois cuidando e recebendo ajuda dos outros. Isso é interdependência (SIEGEL e HARTZELL, 2020, p. 302-303).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Uma relação interdependente é aquela em que há reciprocidade entre sujeitos diferenciados. O outro já não é vivido como extensão narcísica de si, nem como inimigo a ser combatido para garantir autonomia. Há reconhecimento mútuo de limites, fragilidades, necessidades e singularidades. Assim, o vínculo se torna mais real e consciente porque deixa de ser sustentado predominantemente pelas fantasias inconscientes e passa a apoiar-se na alteridade, na capacidade de reconhecer o outro como efetivamente outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob esse aspecto, a interdependência não significa regressão à dependência, mas uma forma mais amadurecida de relação. O sujeito torna-se capaz de sustentar a própria identidade, pode receber apoio sem submissão, oferecer cuidado sem anulação de si e manter proximidade sem perder a própria diferenciação psíquica, indicando, assim, o início da jornada da individuação.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Individuação significa tornar-se um ser único, na medida em que por “individualidade” entendermos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si-mesmo. Podemos pois traduzir “individuação” como “tornar-se si-mesmo” (Verselbstung) ou “o realizar-se do si mesmo” (Selbstverwirklichung) (JUNG, 2015a, parágrafo 266).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Desse modo, a desidealização dos pais pode abrir caminho para relações mais autênticas, sem conduzir ao afastamento emocional ou ao isolamento. Ao retirar projeções e reconhecer os pais em sua humanidade, o adolescente também se aproxima de sua própria condição humana, promovendo amadurecimento. É justamente nessa passagem que se torna possível a construção de vínculos interdependentes ao mesmo tempo em que emerge um fortalecimento de si, favorecendo, então, o processo de individuação como apontado por Jung, “mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é” (JUNG, 2015a, parágrafo 267).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-jageneski-dos-reis/"><strong>Cristiane Jageneski – Membro Analista em formação</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini Junior – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Desidealizar como rito de passagem na adolescência" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/_4wUD_p8zHk?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Imagem: foto de arquivo pessoal</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">FRANKEL, Richard. <em>A psique adolescente: perspectivas junguianas e winnicottianas.</em> Tradução de Claudia Oliveira Dornelles. Petrópolis: Vozes, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav.&nbsp; <em>A prática da psicoterapia</em>. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav. <em>A vida simbólica</em>. Edição digital. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. 27ª ed. Petrópolis: Vozes, 2015a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">____, Carl Gustav. S<em>ímbolos da transformação. </em>Edição digital.Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">OUTEIRAL, José Ottoni. <em>Adolescer: estudos sobre adolescência</em>. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SIEGEL, Daniel J.; HARZELL, Mary. <em>Parentalidade consciente: como o autoconhecimento nos ajuda a criar nossos filhos.</em> Tradução de Thais Costa. SP: nVersos, 2020.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="488" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-1024x488.png" alt="" class="wp-image-13231" style="aspect-ratio:2.098448862919837;width:767px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-1024x488.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-300x143.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-768x366.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-150x72.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2-450x215.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-2.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/desidealizar-como-rito-de-passagem-na-adolescencia/">Desidealizar como rito de passagem na adolescência</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://blog.ijep.com.br/desidealizar-como-rito-de-passagem-na-adolescencia/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
