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	<title>Arquivos expressão simbólica - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Sun, 15 Feb 2026 12:04:59 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos expressão simbólica - Blog IJEP</title>
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		<title>Nise da Silveira – Uma mulher a frente de seu tempo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/nise-da-silveira-uma-mulher-a-frente-de-seu-tempo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Keller Alves Villela Ocaña Bruno]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Feb 2026 11:21:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[ser humano]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Presente artigo comemora o aniversário de Nise da Silveira, importante psiquiatra que revolucionou a psiquiatria no Brasil, recusando-se a aplicar os tratamentos da época, que eram bastante violentos. O artigo fala da trajetória desta mulher extraordinária, do seu encontro com Jung, da participação no II Congresso de psiquiatria de Zurique, dos primeiros anos no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro e de seu trabalho com a terapêutica ocupacional. Fala ainda da fundação do Museu do Inconsciente e da Casa das Palmeiras, importante centro de acolhimento aos doentes mentais proporcionando contato com diversas expressões criativas visando a melhora dos doentes, principalmente os esquizofrênicos.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/nise-da-silveira-uma-mulher-a-frente-de-seu-tempo/">Nise da Silveira – Uma mulher a frente de seu tempo</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center" id="h-estou-cada-vez-menos-doutora-cada-vez-mais-nise" style="font-size:20px"><em><strong>Estou cada vez menos doutora, cada vez mais Nise</strong></em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>O Presente artigo comemora o <strong>aniversário de Nise da Silveira</strong>, importante psiquiatra que revolucionou a psiquiatria no Brasil, recusando-se a aplicar os tratamentos da época, que eram bastante violentos. O artigo fala da trajetória desta mulher extraordinária, do seu encontro com Jung, da participação no II Congresso de psiquiatria de Zurique, dos primeiros anos no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro e de seu trabalho com a terapêutica ocupacional. Fala ainda da fundação do <strong>Museu do Inconsciente</strong> e da <strong>Casa das Palmeiras</strong>, importante centro de acolhimento aos doentes mentais proporcionando contato com diversas expressões criativas visando a melhora dos doentes, principalmente os esquizofrênicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dia-15-de-fevereiro-de-2026-comemora-se-a-vida-de-uma-das-mulheres-mais-extraordinaria-de-nosso-tempo-nise-da-silveira-pequena-em-estatura-e-gigante-em-amor-afetividade-e-capacidade-de-enxergar-o-outro" style="font-size:19px"><strong>Dia 15 de fevereiro de 2026 comemora-se a vida de uma das mulheres mais extraordinária de nosso tempo – Nise da Silveira – pequena em estatura e gigante em amor, afetividade e capacidade de enxergar o outro.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nise nasceu em 1905 em Maceió, Alagoas. Filha de um professor de matemática e jornalista – Faustino Magalhães da Silveira – e da pianista Maria Lídia da Silveira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em uma entrevista realizada em 1996 e publicada no livro <em>Nise da Silveira</em>, de <strong>Ferreira Gullar</strong>, ela conta que seus pais queriam que ela fosse pianista como a mãe, que ela descreve como “<em>uma pessoa extraordinária na virtuose e interpretação</em>”, porém, em suas próprias palavras ela era “<em>desafinadíssima. Meu ouvido não percebia as dissonâncias. Eu me desesperava</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O que ela gostava mesmo era de acompanhar seu pai no jornal. Estudava num colégio de freiras francesas, só para moças, o Colégio do Santíssimo Sacramento. Aprendeu muito bem o francês. O pai frequentemente a levava também ao colégio particular onde dava aulas de matemática, para que Nise pudesse conviver com rapazes. Alguns desses rapazes também frequentavam sua casa para estudar. Seu interesse por medicina nasce do convívio com esses rapazes.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Na verdade, eu não tinha nenhuma vocação para a Medicina. Quando vejo sangue, fico tonta. Não podia nunca ser médica. Na verdade, a escolha se deu por influência desse grupo de rapazes, que estudavam com meu pai, e que iam todos cursar medicina, na Bahia. Assim fomos em bando para Salvador. </em>(SILVEIRA, Nise, 2009)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nise-cursa-a-faculdade-entre-os-anos-de-1921-e-1926-onde-era-a-unica-mulher-entre-157-homens-na-turma" style="font-size:19px">Nise cursa a faculdade entre os anos de 1921 e 1926, onde era a única mulher entre 157 homens na turma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ela está entre as primeiras mulheres no Brasil a se formar em medicina. Ela se forma e um mês depois, em fevereiro de 1927 seu pai morre. Sua mãe vai morar com o pai e uma irmã mais nova e Nise se recusa a ir. Vendem tudo e ela se muda sozinha para o Rio de Janeiro. Mora a princípio numa pensão no Catete, começa a procurar trabalho e, como o dinheiro começava a ficar escasso muda-se para Santa Teresa, no Curvelo. Lá conheceu Manuel Bandeira, Ribeiro Couto, Otávio Brandão e sua esposa Laura. Discutiam sobre diversos assuntos, incluindo política.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Começou a estagiar na clínica de neurologia do professor Antônio Austregésilo. Nessa época ficou sabendo de um concurso que haveria para psiquiatria, mas achou que não deveria se inscrever porque não haveria tempo para se preparar. O professor Austregésilo a inscreve no concurso por conta própria e lhe diz: “<em>Você está inscrita e agora tem que fazer o concurso</em>”. Para se preparar para o concurso ela vai morar no hospício da Praia Vermelha.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em 1933 ela presta o concurso e é aprovada. Vai trabalhar no hospital da Praia Vermelha. <strong>Nise lia de tudo</strong>. E em um dos dias uma enfermeira foi limpar seu quarto e viu sobre a escrivaninha livros socialistas e a denunciou na administração. Era 1936, Nise é presa, e segundo ela, tem a primeira revelação que o que a psiquiatria falava dos doentes mentais, sobretudo dos esquizofrênicos estava errado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>E assim aprendi outra lição, que desmentia o que afirmavam os livros de psiquiatria sobre os doentes mentais. Esses livros diziam que os esquizofrênicos eram indiferentes, sem afeto. Mas a doente que me levava o café toda manhã em meu quarto, quando soube de minha prisão, não ficou indiferente. Eu não entendia nada do que ela falava, mas ela estava entendendo o que se passava. Pegou de murros a enfermeira que me havia denunciado. (SILVEIRA, Nise, 2009)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-epoca-conhece-graciliano-ramos-que-escreve-sobre-nise-em-seu-livro-memorias-do-carcere-olga-benario-e-elisa-berger" style="font-size:19px">Nessa época conhece Graciliano Ramos – que escreve sobre Nise em seu livro <em>Memórias do Cárcere</em>, Olga Benário e Elisa Berger.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando finalmente é solta, Nise é readmitida no serviço público, mas não volta a trabalhar imediatamente porque havia uma ordem que a proibia de voltar. Existiam também boatos de que poderia ser presa novamente. Vai para a Bahia, onde passa um tempo. Depois disso, em 1944, com a ajuda do diretor da Saúde Pública Barros Barreto, Nise retoma seu lugar de psiquiatra no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no <strong>Engenho de Dentro</strong>. E é aí que se inicia toda a sua briga com a psiquiatria da época, que, segundo ela “<em>a briga mais importante</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No período em que esteve afastada novos tratamentos e medicamentos passaram a ser utilizados. Alguns deles extremamente violentos como a eletroconvulsoterapia, também conhecida como eletrochoque; a lobotomia e o coma insulínico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Viu um médico psiquiatra aplicar eletrochoque num doente e este entrou em convulsão. Ele pediu que trouxessem outro e disse a Nise: “aperte o botão”, e ela respondeu: “<strong>não aperto</strong>”. <strong>Aí nasceu a rebelde</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Outra experiência horrível foi aplicar choque de insulina numa mulher que depois não acordava por nada. Com muito custo Nise conseguiu trazê-la de volta. A partir daí deu um basta. Foi falar com o diretor do Centro Psiquiátrico e ele disse que não sabia onde colocá-la, pois todas as enfermarias seguiam a mesma linha de tratamento, menos a <strong>Terapêutica Ocupacional</strong> que segundo ele era para serventes. Sim – para serventes – isso porque ali não existiam médicos trabalhando. Ela concordou desde que pudesse trabalhar do seu jeito. <strong>Abriu a primeira sala, que era de costura. Logo vieram outras salas como a de encadernação, modelagem, pintura, jardinagem</strong>. Até quadra de vôlei ela construiu. E cada vez mais pessoas queriam vir trabalhar ao lado de Dra. Nise da Silveira. <strong>E assim ela começou a revolucionar a psiquiatria no Brasil</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Era 1946 e nasce assim a <strong>Seção de Terapêutica Ocupacional </strong>no antigo Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro no Rio de Janeiro, atualmente Instituto Municipal Nise da Silveira. Seu interesse era estimular a capacidade criativa com <strong>atividades expressivas</strong> para tentar compreender o que acontecia no mundo interno dessas pessoas que não conseguiam se comunicar verbalmente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>A comunicação com o esquizofrênico, nos casos graves, terá um mínimo de probabilidade de êxito se for iniciada no nível verbal de nossas relações interpessoais. Isso só ocorrerá quando o processo de cura já se achar bastante adiantado. Será preciso partir do nível não-verbal. É aí que particularmente se insere a terapia ocupacional, oferecendo atividades que permitam a expressão de vivências não verbalizáveis por aquele que se acha mergulhado na profundeza do inconsciente, isto é, no mundo arcaico de pensamentos, emoções e impulsos fora do alcance das elaborações da razão e da palavra. O exercício de atividades poderá adquirir importante significação. Em vez dos impulsos arcaicos exteriorizarem-se desabridamente, lhes oferecemos o declive que a espécie humana sulcou durante milênios para exprimi-los: dança, representações mímicas, pintura, modelagem, música. Será o mais simples e o mais eficaz. (SILVEIRA, Nise, 2015)</em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Dentre todas as atividades se destacaram sobremaneira os ateliês de modelagem e pintura. Em 20 de maio de 1952 foi inaugurado o <strong>Museu de Imagens do Inconsciente, </strong>um centro de estudos e pesquisa onde estão as obras produzidas nos ateliês que tem um acervo com mais de <strong>350 mil obras</strong> e documentos históricos disponíveis para pesquisadores de várias áreas do conhecimento. O acervo, hoje é tombado pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Em abril de 1955 forma o grupo de estudos C. G. Jung.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em 23 de dezembro de 1956 é inaugurada a <strong>Casa das Palmeiras</strong> que a princípio era destinada ao tratamento dos egressos de instituições psiquiátricas, no regime de externato, entrava-se as treze horas e saía as dezoito. Mais tarde passou a receber também pessoas que se encontravam na fronteira, que não tinham chegado ainda ao ponto de serem internadas, o que era visto por Nise da Silveira como uma coisa muito positiva, porque conseguiam dar assistência antes que a pessoa tivesse que passar pela experiência da internação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-afeto-catalisador" style="font-size:19px"><strong>O afeto catalisador</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Numa oficina ou num ateliê terapêutico é necessário que haja um ponto de apoio onde o doente possa investir afeto, este ponto de referência é um monitor ou monitora que funcionará como um catalisador. Ao confiar em alguém aos poucos essa confiança vai se expandindo para outras pessoas e lugares.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Um dos internos, Fernando Diniz, revendo sua série de pinturas que tratava do interior de uma casa, aponta para a última pintura da série dizendo que havia sido derramado ácido sobre ela. Nise da Silveira lhe pergunta o que tinha acontecido, ao que ele responde: “Porque depois desse dia, durante muito tempo, Dona Elza não foi me buscar para a pintura”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O muito tempo a que Fernando se referia era o tempo de férias da monitora. Nise da Silveira ficou bastante impressionada e passou a ficar mais atenta ao relacionamento dos monitores com os doentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Um exemplo dessa função catalisadora dos monitores é o caso do próprio Fernando. Depois de ter se reaproximado do mundo real regrediu novamente em função do falecimento de sua mãe. Suas pinturas voltaram a ser garatujas caóticas. Impressionada por sua face de angústia Nise da Silveira decidiu colocar uma monitora para ficar ao lado dele no ateliê, sem nenhuma interferência, sem emitir nenhuma opinião sobre o que ele fazia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Sua função era a de ficar ao lado dele em silêncio, mostrando interesse e simpatia pelas suas criações</strong>. Um mês depois Fernando mostra uma melhora significativa e seus desenhos começam a mostrar certa ordenação, a partir daí ele começa uma série de desenhos sobre “a japonesa”. A princípio a temática parece estranha, mas logo fica clara quando Fernando diz que a monitora parecia uma japonesa. <em>“<strong>O relacionamento com a monitora levou Fernando a um contato muito melhor com o ambiente</strong>”</em> (SILVEIRA, Nise, 2015).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Martha Pires, artista visual e ex-terapeuta do ateliê do Museu de Imagens do Inconsciente em entrevista para o Itaú Cultural fala sobre como era o trabalho com os doentes e de sua relação com Raphael Domingues. Ela funcionava como um catalisador. Raphael não se comunicava com ninguém e a partir da presença de Martha ele começa a falar e demonstrar afeto, sentimento, o que a psiquiatria achava impossível acontecer com esquizofrênicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A dra. Nise da Silveira conhece Martha através de um amigo artista plástico. As duas tinham um interesse em comum – <strong>Jung</strong>. Martha é então convidada para fazer parte do grupo de estudos C. G. Jung e para visitar o Engenho de Dentro. A princípio ela resiste, não queria ir de jeito nenhum, mas alguns colegas a convencem e ela então conhece Raphael Domingues. Nise pede que Martha vá trabalhar especificamente com Raphael, porque ele não falava, não se comunicava a 20 anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Raphael está desenhando, fazendo apenas uns “tracinhos” como relatou Martha, e ela diz: “Raphael você está desenhando o canto dos pássaros?” ele olha em direção a Martha e diz: “Canto dos pássaros”. Nesse momento uma monitora comenta com Martha que ela está lá a dez anos e que nunca viu Raphael falar com ninguém. Um dia Martha pede que ele assine um desenho que fez e ele escreve no meio da folha “AMIGO”. Fica claro que havia afeto ali. Raphael deu um apelido a Martha, ele a chamava de Martinica. Numa ocasião Martha viaja e fica um ano fora do Brasil, ao retornar Raphael imediatamente reconhece Martha, a chama de Martinica, faz um desenho de uma mulher com um sol na testa e escreve abaixo Martinica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dra-nise-da-silveira-diz-que-outros-excelentes-catalisadores-sao-os-animais-a-quem-ela-chama-de-coterapeutas-em-seu-livro-imagens-do-inconsciente-em-varias-entrevistas-e-varias-ocasioes-ela-narra-historias-de-animais-que-ajudaram-os-doentes-a-criar-vinculos-e-mesmo-apresentarem-melhoras-significativas" style="font-size:19px">Dra. Nise da Silveira diz que outros excelentes catalisadores são os <strong>animais</strong> a quem ela chama de <strong>coterapeutas</strong>. Em seu livro <em>Imagens do Inconsciente</em>, em várias entrevistas e várias ocasiões ela narra histórias de <strong>animais que ajudaram os doentes a criar vínculos e mesmo apresentarem melhoras significativas</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A Primeira delas foi uma cachorrinha encontrada quando estavam cavando o terreno para a construção da quadra de vôlei – a cadelinha Caralâmpia que foi adotada por um dos doentes que frequentava uma das oficinas. A partir daí a Dra Nise passou a perceber as vantagens que a presença dos animais proporcionavam aos doentes no hospital psiquiátrico.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Sobretudo o cão reúne qualidades que o fazem muito apto a tornar-se um ponto de referência estável no mundo externo. Nunca provoca frustrações, dá incondicional afeto sem nada pedir em troca, traz calor e alegria ao frio ambiente hospitalar. Os gatos têm um modo de amar diferente. Discretos, esquivos, talvez sejam muito afins com os esquizofrênicos na sua maneira peculiar de querer bem. (SILVEIRA, Nise, 2015)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-encontro-com-jung-nbsp-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Encontro com Jung &nbsp;&nbsp;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em 12 de novembro de 1954 Nise da Silveira resolve <strong>enviar uma carta diretamente a Jung</strong> mostrando algumas fotos dos desenhos dos doentes do Engenho de Dentro a fim de averiguar se se tratavam mesmo de mandalas, a essa altura ela já tinha centenas de desenhos assim, mas a dúvida permanecia. <strong>Seriam mesmo mandalas</strong>? A resposta veio rápida, em 15 de dezembro de 1954 Nise recebe uma carta de Aniela Jaffé com a confirmação de que se tratavam mesmo de mandalas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>O mais importante acontecimento ocorrido nas minhas buscas de curiosa dos dinamismos da psique foi o encontro com a psicologia junguiana. Jung oferecia novos instrumentos de trabalho, chaves, rotas para distantes circunavegações. Delírios, alucinações, gestos, estranhíssimas imagens pintadas ou modeladas por esquizofrênicos, tornavam-se menos herméticas se estudadas segundo o seu método de investigação. E também não lhe faltava o calor humano de ordinário ausente nos tratados de psiquiatria. (SILVEIRA, Nise)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em abril de 1957 <strong>Nise viaja para Zurique</strong>, com o auxílio de uma bolsa do CNPq para fazer estudos no Instituto C.G. Jung e participar do II Congresso Internacional de Psiquiatria, que aconteceria entre os dias 1 a 7 de setembro do mesmo ano.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>A contribuição do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro teve por título geral A esquizofrenia em imagens. Distribuiu-se em cinco amplas salas do pavimento térreo da Eidgenössische Technische Hochschule, cedido para a sede do Congresso, e foi montada pelo artista brasileiro Almir Mavignier, meu antigo colaborador.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>A exposição enviada pelo Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro foi aberta por C. G. Jung, na manhã de 2 de setembro. Ele visitou toda a exposição, detendo-se particularmente na sala onde se encontravam as mandalas pintadas por doentes brasileiros, fazendo sobre o assunto comentários e interpretações. </em>(SILVEIRA, Nise, 2015)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No dia 14 de junho de 1957 <strong>Nise encontra-se pessoalmente com Jung</strong> em sua residência de Kusnacht. Conversam sobre as dificuldades que ela sente como autodidata, do desejo de aprofundar seu trabalho no hospital psiquiátrico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-a-ouve-atento-e-entao-pergunta" style="font-size:19px">Ele a ouve atento e então pergunta:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>&#8211; <strong>Você estuda mitologia</strong>?</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>&#8211; Não, respondeu Nise.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>&#8211; Pois se você não conhecer mitologia nunca entenderá os delírios de seus doentes, nem penetrará na significação das imagens que eles desenhem ou pintem.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>De volta ao Brasil a Dra. Nise pode observar nos doentes a influência de vários mitos</strong>. A primeira experiência foi com Adelina Gomes que revive em várias de suas obras o mito de Dafne. Carlos Pertuis em seu último período de vida retrata o mito de Mithra, em algumas pinturas de Carlos é possível também observarmos o tema mítico de Dionísos. O tema do dragão-baleia, que é uma das mais antigas variações do mito do herói, aparece em algumas criações de Olívio Fidélis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Dra. Nise da Silveira sem sombra de dúvidas foi uma mulher admirável, muito a frente de seu tempo. Uma lutadora</strong>. Não se calava diante das dificuldades, ia à luta, sempre acreditando que antes de existir um doente existia ali um ser humano, muitas vezes encarcerado em seu próprio sofrimento, mas que com carinho, paciência, cuidado e afeto poderia com ajuda sair de seu cárcere e ter uma vida digna.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sem dúvida alguma ainda há muito a se falar sobre ela, sobre seu trabalho e sobre os “camafeus de dra. Nise” como dizia Martha. Talvez num outro momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><em>O que melhora o atendimento é o contato afetivo de uma pessoa com outra. O que cura é a alegria, o que cura é a falta de preconceito. </em></strong><strong>(SILVEIRA, Nise)</strong></p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/keller/">Me. Keller Villela – Membro Analista do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra E. Simone Magaldi – Didata responsável</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">MELLO, Luiz Carlos (org.). Encontros – Nise da Silveira. Rio de Janeiro, RJ: Azouque, 2009)</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________Gatos, a emoção de lidar. Rio de Janeiro, RJ: Léo Christiano Editorial, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________O mundo das imagens. São Paulo, SP: Ática, 1992.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CCMS – Centro Cultural do Ministério da Saúde. <a href="http://www.ccms.saude.gov.br">www.ccms.saude.gov.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Itaú Cultural. www.itaucultural.org.br/ocupacao/nise-da-silveira</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Música na Psicologia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-musica-na-psicologia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Nino Karvan]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 28 Oct 2025 13:19:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Poderia a música, na prática da psicoterapia, favorecer o surgimento de conteúdos inconscientes passiveis de serem analisados simbolicamente? O impulso para a construção desse artigo vem do depoimento de Jung no encontro dele com Margaret Tilly, em 1956, descrito no livro Entrevistas e Encontros, onde ele é taxativo ao afirmar que “&#8230;doravante a música [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: <strong>Poderia a música, na prática da psicoterapia, favorecer o surgimento de conteúdos inconscientes passiveis de serem analisados simbolicamente</strong>? O impulso para a construção desse artigo vem do depoimento de Jung no encontro dele com Margaret Tilly, em 1956, descrito no livro Entrevistas e Encontros, onde ele é taxativo ao afirmar que “&#8230;doravante a música deve ser uma parte essencial de toda a análise.” Tenham uma excelente leitura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-este-artigo-busca-entender-a-possivel-utilizacao-da-musica-na-pratica-da-psicologia-analitica" style="font-size:19px">Este artigo busca entender a possível utilização da música na prática da Psicologia Analítica. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6"><strong>Para tanto, lança uma pergunta basilar: a utilização da música no ambiente da prática da análise junguiana seria um fator capaz de reduzir as defesas egóicas, possibilitando o afloramento de conteúdos capazes de serem analisados simbolicamente</strong>? Com base em uma bibliografia que se debruça sobre o papel da música na evolução humana, a partir da neurociência, sob o olhar de Daniel Levitin, &nbsp;na obra do próprio Jung e de Joel Kroiker, traça-se um panorama para tentar entender tal questionamento. O presente artigo é um pequeno resumo da monografia apresentada como parte da conclusão da Especialização em Psicologia Analítica, concluída em 2023, disponível na biblioteca do IJEP.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-onde-teria-vindo-a-musica" style="font-size:19px"><strong>De onde teria vindo a música</strong>?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Os estudos de suas origens evolutivas têm um acervo diverso e bem rico. Segundo o neuro-cientista <strong>Daniel Levitin</strong>, para Darwin, a música surge e se desenvolve no processo de seleção natural, integrada aos rituais humanos ou páleo-humanos, de acasalamento (LEVITIN, 2010). Seria, portanto, uma seleção sexual, onde as habilidades musicais de produção sonora serviriam para atrair o sexo oposto.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>Darwin</strong> considerava que a música antecedia a fala como ferramenta para fazer a corte, equiparando-a à cauda do pavão. Em sua teoria da seleção sexual, ele postulava a emergência de características que não serviam a qualquer finalidade diretamente ligada à sobrevivência, senão para tornar a pessoa (e, portanto, os seus genes) atraente. </p><cite>(LEVITIN, 2010, p. 284)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">A famosa flauta de osso com cerca de 50 mil anos, encontrada em uma caverna na Eslovênia nos anos 90, tão propagada na imprensa mundial, não seria a primeira forma de expressão musical, antes disso, a voz, como “primeiro instrumento”, e depois os tambores seriam veículos de expressão musical.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-existiriam-provas-tangiveis-de-que-a-musica-antecede-a-linguagem-e-faz-parte-intrinseca-do-desenvolvimento-humano" style="font-size:19px">Nesse sentido, existiriam provas tangíveis de que a música antecede a linguagem e faz parte intrínseca do desenvolvimento humano.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Os registros arqueológicos mostram um histórico ininterrupto de criação musical onde quer que houvesse seres humanos, em todas as eras. E além disso, é claro, o canto muito provavelmente é anterior às flautas. </p><cite>(LEVITIN, 2010, p. 289)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Segundo o autor, todos os estudos arqueológicos e os estudos antropológicos nas comunidades de caçadores que se mantiveram afastadas da civilização apontam que a música é fator preponderante desses povos e que ela é inseparável da dança. Portanto, música e movimento sempre estiveram presentes como uma realidade de todos, e não somente de alguns portadores de talentos especiais. Somente nos últimos quinhentos anos é que teria surgido essa categoria de expectadores, diante dos quais os especialistas fazem um concerto onde a escuta é o objetivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ritmo-seria-portanto-um-fator-crucial-no-desenvolvimento-da-musica-na-evolucao-humana" style="font-size:19px">O ritmo seria, portanto, um fator crucial no desenvolvimento da música na evolução humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">E isso está presente até hoje nas comunidades ancestrais, onde tambores e demais instrumentos rítmicos, principalmente percussivos, e mesmo que sejam melódico-percussivo, como marimbas, por exemplo, têm um papel preponderante do fazer musical, a exemplo das comunidades tradicionais africanas, e mesmo em suas manifestações afro-americanas, seja de caráter profano e religioso. Nas comunidades ancestrais ameríndias, o fenômeno não é diferente, e a base das manifestações musicais é feita com instrumentos percussivos, aos quais são juntadas flautas e o próprio canto.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>&#8230; segundo quase todos os relatos, a música de nossos antepassados distantes tinha um caráter acentuadamente rítmico. O ritmo incita nosso corpo. A tonalidade e a melodia incitam o cérebro. A convergência do ritmo com a melodia lança uma ponte entre o cerebelo (o pequeno cérebro primitivo, responsável pelo controle motor) e o córtex cerebral (a parte mais desenvolvida e humana do nosso cérebro). É assim que o “Bolero” de Ravel, “Koko”, de Chalie Parker, e “Honky Tonk Womem”, dos Rolling Stones, nos inspiram e comovem, tanto metaforicamente quanto fisicamente, formando requintadas uniões de tempo e espaço melódicos. </p><cite>(LEVITIN, 2010, p. 296)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Em seus escritos sobre a questão da transformação da <strong>energia psíquica </strong>&#8211; que é mais abrangente do que a libido sexual de Freud -, Jung afirma que quando esta encontra barreiras e busca outras formas de “atividades substitutivas”, &nbsp;através de atividades ritualísticas, teria no ritmo essa forma repetitiva que exerceria o papel de registrar para a posteridade a transferência da energia psíquica para novas formas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-musica-e-danca-teriam-um-papel-fundamental-o-que-pode-ser-comprovado-nas-atividades-ritualisticas-de-comunidades-tradicionais" style="font-size:19px">Música e dança teriam um papel fundamental, o que pode ser comprovado nas atividades ritualísticas de comunidades tradicionais.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Se certas tribos dançam durante toda uma noite ao som monótono de três notas, isso não nos dá a sensação de divertimento; mais parece intenção e exercício. E de fato assim é, pois o ritmo é a maneira clássica de gravar certas ideias e outras atividades, e aquilo que deve ser gravado, isto é, firmemente organizado, é a transferência da libido para uma nova forma de atuação. Como depois da fase nutritiva do desenvolvimento a atividade rítmica não tem mais função no ato da alimentação, ela passa não só para a área da sexualidade sensu strictiori, mas também para o campo dos “mecanismos de atração”, música e dança, e finalmente para a área de trabalho propriamente dito. </p><cite>(JUNG, 2013i, p. 186)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-parece-claro-portanto-o-papel-que-a-musica-e-os-seus-elementos-tem-no-desenvolvimento-do-ser-humano-fazendo-parte-de-uma-especie-de-matriz-universal-comum-a-especie-e-parte-importante-de-um-manancial-arquetipico" style="font-size:19px">Parece claro, portanto, o papel que a música e os seus elementos têm no desenvolvimento do ser humano, fazendo parte de uma espécie de matriz universal, comum à espécie e parte importante de um manancial arquetípico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Estudando Jung, aprende-se que as imagens arquetípicas não são conceitos filosóficos, mas facetas da própria vida e que elas são conectadas ao indivíduo por meio dos complexos, os quais, por sua vez, são constelados por afetos e emoções. É preciso, portanto, no processo da psicoterapia, estimular o acesso a essas imagens, e os principais veículos são os sonhos, os sintomas e os estímulo às atividades criativas e artísticas, principalmente a imaginação ativa. As artes plásticas, a poesia, a modelagem e demais expressões das artes plástica vêm sendo utilizadas desde Jung. A música, porém, não vem tendo a mesma atenção, seja na produção científica do campo junguiano, seja na prática clínica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Um encontro entre Jung e a pianista e depois terapeuta-chefe da Clínica Langley-Porter, de São Francisco, <strong>Margaret Tilly</strong>, em 1956, narrado no livro <em>Entrevistas e Encontros</em>, no capítulo intitulado “A terapia da música”, deixa essa questão mais clara, com as palavras do próprio Jung. Depois de uma boa conversa, ele solicitou que Margaret lhe mostrasse como seria, na prática, uma sessão de “terapia musical”. Depois de duas horas, entremeadas de demonstrações de Margaret e de inúmeros questionamentos de Jung, ele exclamou:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Mas isto abre todo um novo campo de pesquisa com que eu nem mesmo sonhara! Por causa do que você me mostrou esta tarde&#8230; não só o que me disse, mas o que eu realmente senti ouvindo-a&#8230; acho que doravante a música deve ser uma parte essencial de toda a análise. Isso alcança o material arquetípico profundo que nós podemos atingir, por vezes, em nosso trabalho analítico. É extraordinário. </p><cite>(McGUIRE &amp; HULL, 1981, p. 248)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-joel-kroeker-analista-junguiano-e-pesquisador-canadense-que-utiliza-a-musica-em-seu-setting" style="font-size:19px">Para Joel Kroeker, analista junguiano e pesquisador canadense que utiliza a música em seu <em>setting</em>:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Matrizes musicais arquetípicas inerentes nos conectam como seres humanos a essa ponte de afetos e nos permite acessar sentimentos que não acessaríamos de outra maneira. Imagens musicais primordiais que existem na natureza como o tom musical ascendente ou descendente, como, o canto dos pássaros, a oposição de som versus silêncio, sons musicais crescendo, accelereando, tempo crescente, ou ritardando, tempo decrescente, causam um impacto psíquico em nós. A relação entre estes vários elementos sônicos primordiais e seu impacto no reino da música nos fornece uma matriz poderosa para viabilizar a comunicação, a inter-relação e a autocompreensão. </p><cite>(KROEKER, 2022, p. 46)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>A música toca instâncias profundas e pode ser a trilha sonora de um sonhar acordado (KROEKER, 2022), cujas emoções são tocadas de forma, às vezes, arrebatadora</strong>. Esse arrebatamento (JUNG, 2006) seria um tipo de espírito que age nas aparições imagéticas estimuladas pela música.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A música, portanto, pode ser entendida como uma objetivação do espírito, que nem expressa conhecimento no sentido usual, lógico-intelectual, nem se realiza materialmente, mas significa uma representação manifesta dos contextos mais profundos e da mais inabalável regularidade. Neste sentido, a música é espírito, e espírito que leva a lugares escuros e remotos, não mais acessíveis à consciência, e cujos conteúdos praticamente não podem mais ser concebidos com palavras – mas sim através de números, por estranho que pareça – e também ao mesmo tempo e sobretudo através de sentimento e sensibilidade. Este fato aparentemente paradoxal mostra que a música tem condições de permitir o acesso a profundezas onde o espírito e a natureza são <em>ainda </em>ou <em>novamente </em>um [&#8230;]. </p><cite>( JUNG, 2006, p. 58)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">A música teria esse poder de trazer conteúdos desse lugar arquetípico, onde tudo é o um. O lugar onde a individualidade se dissolve nas águas profundas do inconsciente coletivo. É desse ambiente abissal que surgem as imagens carregadas de afetos e emoções. A música poderia ser, então, uma chave que ajudaria a abrir o portal de onde viriam as imagens do inconsciente coletivo. Isso descortinaria toda uma nova possibilidade de atuação no <em>setting</em> analítico, ampliando as possibilidades e as ferramentas de auxílio ao acesso a esses conteúdos. É justamente a capacidade de mobilização das emoções, tão presente na música, essa possível força motriz e geradora de imagens.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>É certo que a música, bem como o drama tem a ver com o inconsciente coletivo; [&#8230;] De certa forma, a música expressa o movimento dos sentimentos (ou valores emocionais) que acompanham os processos inconscientes. O que acontece no inconsciente coletivo é por sua natureza arquetípico e os arquétipos têm sempre uma qualidade numinosa que se manifesta na acentuação do emocional. A música expressa em sons o que as fantasias e visões exprimem em imagens visuais. </p><cite>(JUNG, 2002, p. 150)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-fora-demonstrado-anteriormente-haveria-um-potencial-da-musica-e-de-sua-utilizacao-no-setting-junguiano-no-sentido-de-sua-capacidade-de-induzir-o-surgimento-de-imagens-mentais" style="font-size:19px">Como fora demonstrado anteriormente, haveria um potencial da música e de sua utilização no <em>setting</em> junguiano, no sentido de sua capacidade de induzir o surgimento de imagens mentais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Jung, em Estudos alquímicos (JUNG, 2013f), afirma que os conteúdos que “tudo que se torna inconsciente é imagem e que imagem é alma”. Tais imagens seriam uma versão concentrada de toda situação da psique, não somente dos conteúdos inconscientes e diz respeito, também, ao recorte do momento dessa situação psíquica, e não necessariamente de sua totalidade atemporal, mas da interrelação entre conteúdos conscientes e inconscientes e, principalmente, do material constelado (JUNG, 2013l).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.6">Pode-se concluir que a pergunta lançada no início desse artigo é respondida ao longo dele pelas citações do próprio Jung, em especial da declaração feita no encontro com Margaret Tilly, e que é deveras importante a utilização da música no <em>setting</em> terapêutico. Há, no entanto, um vasto campo ainda aberto ao aprofundamento dos estudos de cunho científico da utilização da música na Psicologia Analítica. <strong>Que a música é trilha sonora das histórias de vida pessoais, isso é fato. Torná-la a trilha sonora dos sonhos acordados vem sendo feito com êxito em diversas práticas terapêuticas, mas é tarefa ainda a ser aprofundada e desenvolvida</strong>.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/nino-karvan/">Nino Karvan &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A energia psíquica</em>. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo</em><strong>.</strong> 10. Ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A natureza da psique</em>. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________. <em>A prática da psicoterapia</em>. Petrópolis: Vozes, 2013d.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________. <em>Estudos alquímicos</em>. Petrópolis: Vozes, 2013f.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________. <em>Estudos experimentais</em>. Petrópolis: Vozes, 2013g.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________. <em>O espírito da arte e na ciência</em>. Petrópolis: Vozes, 2013h.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________. <em>Símbolos da Transformação</em>. Petrópolis: Vozes, 2013i.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KROEKER, Joel. <em>Quando a Psique canta</em>: A música na psicoterapia junguiana. São Paulo: Paulus, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEVITIN, Daniel J. <em>A Música no seu cérebro</em>. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">McGUIRE, William e HULL, R.F.C. C. G. <em>Jung</em>: Entrevistas e Encontros. São Paulo: Cultrix, 1981.</p>
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