<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos gordura - Blog IJEP</title>
	<atom:link href="https://blog.ijep.com.br/tag/gordura/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/gordura/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Fri, 13 Feb 2026 12:49:49 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0</generator>

<image>
	<url>https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-logo-ijep-32x32.png</url>
	<title>Arquivos gordura - Blog IJEP</title>
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/gordura/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como o grito do feminino ferido</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-silencio-pesado-da-alma-a-obesidade-como-o-grito-do-feminino-ferido/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fernanda Biscalquim de Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 21:37:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[animus]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Corpo]]></category>
		<category><![CDATA[emagrecimento]]></category>
		<category><![CDATA[feminino ferido]]></category>
		<category><![CDATA[gordura]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[obesidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12000</guid>

					<description><![CDATA[<p>O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como grito do feminino ferido. O corpo não mente o que a psique tenta esconder: segundo a Psicologia Analítica, a obesidade pode ser interpretada como um mecanismo de defesa da psique feminina contra a rigidez da consciência. Analisamos como, simbolicamente, a gordura atua como proteção contra um Complexo, sugerindo que o excesso físico é o reflexo do peso não suportado na alma. O convite é cessar a guerra contra o corpo, para então acolher o tirano interno e permitir-se sentir o feminino.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-silencio-pesado-da-alma-a-obesidade-como-o-grito-do-feminino-ferido/">O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como o grito do feminino ferido</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como grito do feminino ferido. O corpo não mente o que a psique tenta esconder: segundo a Psicologia Analítica, a obesidade pode ser interpretada como um mecanismo de defesa da psique feminina contra a rigidez da consciência. Analisamos como, simbolicamente, a gordura atua como proteção contra um Complexo, sugerindo que o excesso físico é o reflexo do peso não suportado na alma. O convite é cessar a guerra contra o corpo, para então acolher o tirano interno e permitir-se sentir o feminino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-nao-mente-o-que-a-psique-tenta-esconder" style="font-size:19px"><strong>O Corpo não mente o que a Psique tenta esconder</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Há um tipo de silêncio que pesa. Não é a quietude da paz, mas o silêncio das coisas não ditas, das dores engolidas junto com o jantar, dos desejos que sufocamos para caber no mundo. Na nossa era contemporânea, acostumamo-nos a olhar para a obesidade e ver apenas números. Reduzimos a complexidade da vida humana a uma simples equação fria: calorias que entram menos calorias que saem. Ou, num julgamento ainda mais cruel, patologizamos o corpo gordo como uma falha moral, um atestado de preguiça ou falta de vergonha.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Mas o corpo não mente. Ele é o terreno mais honesto que habitamos. A nossa boca pode sorrir enquanto o coração chora; a nossa mente pode racionalizar que &#8220;está tudo bem&#8221; enquanto o mundo desaba. Mas o corpo? Ele não tem essa diplomacia. Ele materializa a verdade. Ele desenha, em volume, o mapa exato do que a psique não consegue verbalizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao mergulharmos na Psicologia Analítica, especialmente sob a luz de Carl Gustav Jung e da análise profunda de Marion Woodman, somos convidados a tirar os óculos do preconceito e colocar os óculos da alma. Sob essa perspectiva, percebemos que o excesso de peso em mulheres transcende a biologia: ele é um símbolo vivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-reflexao-que-trago-aqui-nasce-de-uma-inquietacao-urgente" style="font-size:19px">Esta reflexão que trago aqui nasce de uma inquietação urgente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vejo uma cegueira coletiva que trata o sintoma — a gordura — com bisturis, injeções e dietas de fome, enquanto ignora solenemente o sofrimento da alma que habita aquele corpo. Existe uma &#8220;desnutrição do feminino&#8221; acontecendo e, paradoxalmente, ela se manifesta pelo excesso de peso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Penso que a obesidade feminina, em muitos casos, funciona como um mecanismo de defesa antiquado e desesperado. É uma resposta a um ataque interno. Existe um tirano na mente — um complexo usurpador e castrador — que exige perfeição, produtividade e uma frieza desumana. O corpo, na tentativa heroica de sobreviver a esse ataque e proteger a essência feminina vulnerável, cria uma armadura: uma capa de gordura protetora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Acredito, portanto, que a cura não reside na simples eliminação do peso corporal — o que poderia ser apenas mais uma imposição desse complexo tirânico —, mas na retomada da consciência do Feminino e no acolhimento desse complexo, transformando-o de algoz em aliado. É fundamental reconhecer o sofrimento emocional guardado no corpo, buscando a cura através do acolhimento, e não da luta contra si mesma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-unilateralidade-da-consciencia-a-mente-que-esqueceu-de-sentir" style="font-size:19px"><strong>A Unilateralidade da Consciência: A mente que esqueceu de sentir</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para compreender a dinâmica da obesidade emocional, essa &#8220;fome que não passa&#8221;, é indispensável revisitar a estrutura da psique descrita por Jung. O problema central da mulher moderna provavelmente reside na unilateralidade da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estamos imersos em uma cultura que exige luz e heroísmo o tempo todo. É um cenário onde a razão, a pressa e a aparência perfeita valem mais que tudo. E, nesse processo, desprezamos a natureza, o ritmo lento, o instinto e a sabedoria. Criou-se uma quebra profunda entre a nossa base instintiva (os desejos do corpo, as emoções) e as demandas rígidas da coletividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando a mente racional tenta silenciar a sabedoria biológica para se adequar a padrões externos, gera-se uma fragmentação interna insustentável. A mulher começa a viver &#8220;do pescoço para cima&#8221;. O corpo vira uma máquina que deve funcionar e não incomodar. Mas a psique, como a natureza, busca equilíbrio. A mulher obesa vive essa cisão de forma dramática: sua consciência rejeita o corpo, sente vergonha dele, tenta escondê-lo. E o que o inconsciente faz? Ele hipertrofia o corpo como compensação. É como se a alma gritasse: &#8220;Você tenta me fazer invisível, então eu serei enorme até que você seja obrigada a olhar para mim.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A premissa junguiana de que a psique possui uma realidade autônoma nos convida a ler o sintoma como um mensageiro. A obesidade, em meu ver, pode ser a linguagem dramática que o inconsciente encontra para dialogar com a rigidez mental. O corpo obeso não é um erro biológico, mas a concretização da Sombra; ele dá visibilidade e volume aos aspectos vitais da personalidade que foram exilados da consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-alerta-sobre-o-peso-moral-dessa-tarefa" style="font-size:19px"><strong>Jung nos alerta sobre o peso moral dessa tarefa:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">&#8220;A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade.” (Jung, O.C. 9/2, §14).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A gordura carrega a densidade dessa Sombra. Ela dá forma concreta àquilo que a mulher não se permite viver. A mulher &#8220;boazinha&#8221;, que nunca diz não, engole a raiva. A mulher &#8220;produtiva&#8221;, que nunca descansa, engole o desejo de prazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesses episódios de compulsão, ocorre uma dissociação momentânea. A &#8220;boa menina&#8221; sai de cena e o instinto faminto assume o comando para compensar a rigidez da consciência. A comida torna-se um símbolo de união distorcida com a vida. O verdadeiro &#8220;esforço moral&#8221;, como sugere Jung, reside em retirar a projeção da comida e encarar a fome simbólica da alma. É a coragem de perguntar: &#8220;Do que eu tenho fome?&#8221;. É a coragem de nutrir-se de sentido, para que o corpo não precise mais carregar o peso físico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-gordura-como-muralha-protetora-do-feminino" style="font-size:19px"><strong>A gordura como muralha protetora do Feminino</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A base da minha argumentação apoia-se na genialidade de Marion Woodman. Em sua obra A Coruja era Filha do Padeiro, ela estuda a obesidade não como gula, mas como medo. Um medo profundo de ser ferida. Ela define o fenômeno e sua função protetora com precisão:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>&#8220;Num nível, sua gordura a protege dos homens. Seu animus negativo a afasta do mundo, pondo-a num casulo. [&#8230;] A criança feminina interior precisa do corpo gordo para proteger-se de todo homem feito, bem como da responsabilidade do sentimento feminino maduro.&#8221; — (Woodman, Marion. A Coruja era Filha do Padeiro. p. 131-132).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vamos nos deter nessa imagem do &#8220;casulo&#8221;. A partir desse ponto, penso que seria possível afirmar que a gordura atua, metaforicamente, como o muro de um castelo medieval.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Muitas mulheres que lutam com o peso carregam dentro de si uma &#8220;fome de Mãe&#8221; — do arquétipo que nutre, acolhe e aceita incondicionalmente. Quando esse princípio é ferido, instala-se um vazio voraz no peito. E quem vive dentro desse vazio? Frequentemente, a <em>Puella Aeterna</em> (a eterna menina). Imagine uma princesa interior, extremamente sensível, criativa, espiritualizada, mas frágil como vidro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sem essa armadura adiposa, essa essência feminina sentir-se-ia aniquilada pelas exigências cruéis de um mundo patriarcal ou de uma psique interna dominada pelo patriarcado. O corpo grande é o escudo que permite a essa <em>Puella</em> sobreviver, refugiando-se na densidade da matéria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Num nível prático, a gordura &#8220;dessexualiza&#8221; a mulher aos olhos da cultura padrão, protegendo-a de olhares que ela talvez não saiba como lidar. A gordura cria uma distância física, um abismo entre ela e o outro. Esse excesso de corpo atua como uma âncora pesada que impede que a personalidade frágil &#8220;voe&#8221; e se desintegre diante das pressões externas. A gordura diz: &#8220;Eu sou sólida, eu existo, ninguém me derruba&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-o-animus-o-tirano-interior" style="font-size:19px"><strong>Será o <em>Animus</em> o Tirano interior?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Aqui adentramos o ponto crucial e mais doloroso do estudo: o papel do <em>Animus</em> negativo. Jung define o Animus como o componente masculino na psique feminina, responsável pelo Logos (discernimento, espírito, foco). No entanto, quando não integrado, ele deixa de ser um parceiro interno e se torna um &#8220;<em>Animus</em> Usurpador&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ele ocupa o lugar do Ego e governa a psique com opiniões coletivas rígidas e impessoais. Em <em>O Eu e o Inconsciente</em>, Jung adverte sobre essa possessão:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>&#8220;O animus parece uma assembleia de pais e outras autoridades, que formula opiniões incontestáveis e “racionais”, ex cathedra.&#8221;</em> — (Jung, C.G., §332).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Talvez possamos dizer que a mulher obesa está frequentemente &#8220;possuída&#8221; por esse tribunal interno. É uma voz que não descansa. Ela acorda com o <em>Animus</em> e vai dormir com ele. A voz diz: <em>&#8220;Você deveria ser magra&#8221;, &#8220;Olha o tamanho dessa barriga&#8221;, &#8220;Você não tem força de vontade&#8221;, &#8220;Você é uma fracassada&#8221;, &#8220;Ninguém vai te amar assim&#8221;.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse tirano ataca o corpo feminino, tratando-o como um objeto a ser esculpido à força, como se a carne fosse inimiga do espírito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E qual a resposta do corpo a essa ditadura? A Enantiodromia — a lei reguladora da psique que dita a reversão dos opostos. A natureza odeia extremos. Quanto mais o <em>Animus</em> impõe a dieta rígida na segunda-feira, a restrição calórica e a frieza, mais o instinto oscila violentamente para o extremo oposto na sexta-feira à noite: a compulsão, o caos, o excesso e o abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É uma guerra civil psíquica. De um lado, o general tirano (<em>Animus</em>); do outro, a rebelde faminta (Sombra). E a gordura? A gordura é a trincheira de resistência do feminino. O corpo cresce para resistir à tentativa de aniquilação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-dai" style="font-size:19px"><strong>&#8220;E Daí?&#8221;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante desses fatos, questiono: Qual a relevância prática de identificar o <em>Animus</em> negativo no estudo das causas da obesidade? A implicação é avassaladora, pois aponta a falência completa dos modelos atuais de emagrecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Minha crítica é que dietas restritivas e abordagens comportamentalistas focadas apenas no controle – no estilo “feche a boca e malhe&#8221;, ou “você precisa aplicar a caneta emagrecedora” – são, na verdade, ferramentas do próprio <em>Animus</em> controlador.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando um profissional de saúde, ou a própria mulher, prescreve rigidez a uma alma que já é tiranizada internamente pela própria rigidez, estamos colocando “lenha na fogueira”. Estamos alimentando a dissociação entre corpo e alma, não a curando. Estamos dando mais armas para o tirano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Percebo uma disparidade na abordagem multidisciplinar. Trata-se a gordura como inimiga, quando ela é mensageira. Tentar emagrecer uma mulher sem antes despotencializar seu <em>Animus</em> negativo é uma violência psíquica. O &#8220;efeito sanfona&#8221; não é falta de “vergonha na cara”; é o triunfo da natureza instintiva que derruba o regime do tirano para poder respirar. O corpo engorda de novo para se proteger da frieza da dieta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Precisamos mudar o modelo: de uma &#8220;estética do controle&#8221; para uma &#8220;ética do cuidado&#8221;. Transformar o corpo de um campo de batalha em um <em>Temenos</em>: um espaço sagrado e inviolável onde a alma pode habitar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-acolhimento-e-despotencializacao-o-caminho-da-cura" style="font-size:19px"><strong>Acolhimento e Despotencialização: O Caminho da Cura</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como, então, se dá a cura? Se a guerra não funciona, o que funciona? A proposta não é o aniquilamento do <em>Animus</em>, mas a sua transformação de Usurpador em Mediador. O Logos deve servir ao Eros. A mente deve servir ao amor, não o contrário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Woodman</strong> enfatiza que a cura passa pela concretização e pelo ritual. O corpo entende rituais, não conceitos abstratos. Em vez de lutar abstratamente contra o peso, a mulher é convidada a criar rituais de autocuidado que honrem o feminino rejeitado. Em <em>O Vício da Perfeição</em>, a autora explora como o ritual pode transformar o &#8220;demoníaco&#8221; (a compulsão cega) em &#8220;sagrado&#8221; (a celebração da vida).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-envolve-retirar-a-projecao-de-autoridade-da-comida-e-devolve-la-ao-proprio-self" style="font-size:19px">O processo envolve retirar a projeção de autoridade da comida e devolvê-la ao próprio Self. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isso exige diálogo interno, muitas vezes através da imaginação dirigida. É preciso sentar-se com esse <em>Animus</em> tirano e dizer: <em>&#8220;Eu te ouço, mas você não manda mais aqui&#8221;</em>. É preciso dar voz à <em>Puella</em>, à menina interior, e perguntar o que ela realmente quer. Talvez ela não queira um bolo; talvez ela queira pintar, dançar, dormir ou apenas chorar num colo seguro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao invés de obedecer cegamente às ordens do <em>Animus</em> negativo, a mulher aprende a questionar suas exigências de perfeição e a proteger sua criança interior de forma consciente. Quando ela aprende a defender sua própria sensibilidade, ela não precisa mais recorrer à gordura como escudo literal. O muro de gordura pode ser desmontado, tijolo por tijolo, porque agora existe uma fronteira psíquica segura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung fala sobre a Função Transcendente que dá uma terceira saída no conflito dos opostos. Na mulher obesa, essa saída acontece quando ela para de comer suas emoções e passa a usar sua voz e sua criatividade para expressar sua fome de vida. O caminho da cura é parar de projetar o sagrado na comida — como quem busca a redenção num pedaço de chocolate — e passar a ter um encontro real, consciente e prazeroso com a própria vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-resgate-do-sagrado" style="font-size:19px"><strong>O Resgate do Sagrado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao final desta reflexão, enxergo na obesidade não um fracasso, mas uma tentativa heroica e ao mesmo tempo trágica de sobrevivência. Talvez a nossa visão de mundo precise mudar para compreender que a gordura, tão demonizada, muitas vezes &#8220;salvou&#8221; a vida psíquica de muitas mulheres, impedindo uma fragmentação psicótica ou um colapso total. Há uma sabedoria no sintoma. O corpo fez o melhor que podia nas circunstâncias que tinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Anseio aprendermos a acolher o peso como parte essencial da transformação — um tempo de casulo — e não apenas como algo errado que precisa ser arrancado à força.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em síntese, a obesidade é o grito do feminino ferido que exige ser ouvido. A gordura que serve como um casulo protetor para a <em>Puella</em> contra um complexo que usurpou o trono da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A principal contribuição deste estudo é a inversão da lógica de tratamento: paramos de lutar contra a gordura e começamos a lutar pela alma. A despotencialização do <em>Animus</em> negativo ocorre pelo acolhimento e pela educação desse aspecto interno. O caminho da cura exige voltar a sentir o feminino e respeitar a inteligência do corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Deixo uma pergunta, não para ser respondida, mas para reverberar na alma: <strong>Se o peso que carregamos no corpo for apenas o reflexo do peso que não suportamos carregar na alma, o que aconteceria se, pela primeira vez, tivéssemos a coragem de largar o fardo da perfeição e simplesmente SER?</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como o grito do feminino ferido" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/GQ0O1zC3Di4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/">Fernanda Biscalquim de Andrade – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata pelo IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion. Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petropólis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________A natureza da psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________O eu e o inconsciente. 27. ed. Petropólis: Vozes, 2015. _____________Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petropólis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WOODMAN, Marion. A Coruja era Filha do Padeiro: um Estudo Revelador Sobre a Anorexia Nervosa, Obesidade e o Feminino Reprimido. São Paulo. Cultrix, 5.ed. 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________O Vício da Perfeição: Compreendendo a Relação entre Distúrbios Alimentares e Desenvolvimento Psíquico. São Paulo. Summus Editorial, 1.ed. 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-silencio-pesado-da-alma-a-obesidade-como-o-grito-do-feminino-ferido/">O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como o grito do feminino ferido</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Feminino reprimido: uma variável sombria na equação das calorias ingeridas e consumidas</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/feminino-reprimido-uma-variavel-sombria-na-equacao-das-calorias-ingeridas-e-consumidas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Jul 2022 12:52:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[calorias]]></category>
		<category><![CDATA[emagrecimento]]></category>
		<category><![CDATA[gordofobia]]></category>
		<category><![CDATA[gordura]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[obesidade]]></category>
		<category><![CDATA[peso]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5000</guid>

					<description><![CDATA[<p>É fato que questões relacionadas com o peso são, em maior ou menor grau, uma preocupação presente na vida da maioria das pessoas, e, muito provavelmente, em uma consulta informal em qualquer grupo de pessoas, uma boa parte terá ressalvas quanto ao próprio peso. Considerando a situação do Brasil, uma pesquisa online de 2012 feita [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/feminino-reprimido-uma-variavel-sombria-na-equacao-das-calorias-ingeridas-e-consumidas/">Feminino reprimido: uma variável sombria na equação das calorias ingeridas e consumidas</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">É fato que questões relacionadas com o peso são, em maior ou menor grau, uma preocupação presente na vida da maioria das pessoas, e, muito provavelmente, em uma consulta informal em qualquer grupo de pessoas, uma boa parte terá ressalvas quanto ao próprio peso. Considerando a situação do Brasil, uma pesquisa online de 2012 feita com 25 mil pessoas da América Latina, aponta que os brasileiros são o povo mais insatisfeito com o próprio peso, além de se destacarem também por um uso maior de remédios de <strong>emagrecimento</strong>:”&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-table"><table><tbody><tr><td>&nbsp;</td><td>Brasil&nbsp;</td><td>América Latina&nbsp;</td></tr><tr><td>Um pouco acima do peso&nbsp;</td><td>43%&nbsp;</td><td>35%&nbsp;</td></tr><tr><td>Acima do peso&nbsp;</td><td>16%&nbsp;</td><td>28%&nbsp;</td></tr><tr><td>Satisfeito com o próprio peso&nbsp;</td><td>30%&nbsp;</td><td>37%&nbsp;</td></tr><tr><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td></tr><tr><td>Uso de emagrecedores&nbsp;</td><td>12%&nbsp;</td><td>8%&nbsp;</td></tr></tbody></table><figcaption class="wp-element-caption">Fonte: Brasileiro é o que mais usa remédio de emagrecer na América Latina &#8211; notícias em Ciência e Saúde (globo.com)&nbsp;</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O peso corporal é um indicador importante de saúde, seu excesso é um fator de risco para várias doenças graves, além de ter impactos físicos mais diretos, principalmente relacionados a uma sobrecarga para os ossos. De forma mais subjetiva ele está relacionado também a autoimagem desejada, imposta pelos padrões vigentes de “beleza perfeita”, pois não podemos nos esquecer que o padrão de beleza mudou muito ao longo da história e já houve época em que corpos mais robustos eram os belos e os corpos esquálidos buscados hoje seriam o oposto.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando a relevância, que o tema tem na vida das pessoas, não é de se estranhar a frequência com que ele aparece nos atendimentos terapêuticos, abrangendo tanto questões relacionadas à saúde, quanto à insatisfação com a autoimagem e a busca, muitas vezes obsessiva, por um corpo ideal.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse artigo vou apresentar uma perspectiva sobre o excesso de peso no universo feminino, que vai além de um saldo positivo entre as <strong>calorias</strong> ingeridas e consumidas que se transforma em gordura. Essa perspectiva está baseada <strong>no livro <em>“A coruja era filha do padeiro</em>” de Marion Woodman</strong>, onde a autora amplia nosso entendimento sobre a dinâmica do ganho de peso falando sobre seus aspectos fisiológicos e psicológicos, partindo de um estudo feito com mulheres que estavam acima do peso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estar acima do peso desejado é um fator de grande angústia e sofrimento para as mulheres, mesmo estando conscientes de que existe um padrão vigente que impõe modelos de magreza que desconsideram características individuais porém dada a enxurrada de imagens de “corpos magros e belos” que inundam as redes sociais, é uma tarefa hercúlea se colocar na frente de um espelho e se sentir bem quando a imagem ali refletida não se parece com as imagens estampadas nas capas de revista há algum tempo atrás e, nos dias de hoje, postadas nas redes sociais.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo em casos em que as mulheres percebem que a comida não é utilizada apenas para se nutrir, que muitas vezes ela acaba assumindo um papel emocional, o mais comum é elas se agarrarem à ideia de que conseguir atingir o peso desejado é somente uma questão objetiva matemática de <strong>calorias</strong> ingeridas e gastas, porém existem vários fatos que contrariam essa linha de raciocínio. Pessoas que se alimentam de forma bem parecida, mas uma delas ganha mais peso que a outra, pessoas que conseguem eliminar peso às custas de muita disciplina tanto na dieta quanto nos exercícios que eliminam peso, mas que acabam voltando à situação anterior mesmo mantendo a duras penas boa parte do rigor na dieta e nos exercícios.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E por que isso acontece? Existiria uma variável oculta na equação que resulta no peso final de uma pessoa?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seu livro, <strong>Mary Woodman</strong> traz uma perspectiva enriquecedora sobre o tema, por um lado uma visão fisiológica sobre como as células de gordura podem se constituir de duas formas diferentes e como elas influenciam de formas distintas a dinâmica de ganho/perda de peso, e por outro, uma perspectiva da psicologia junguiana que tira da sombra uma variável oculta, o feminino reprimido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com relação aos tipos de obesidade, Woodman apresenta duas possibilidades, a obesidade primária e a secundária. A obesidade primária é aquela em que a <strong>gordura</strong> é constituída por um maior número de células do que a média das pessoas não obesas, e a secundária tem uma quantidade de células de gordura dentro do padrão, porém de maior tamanho.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudos já mostraram que uma perda sustentável do peso, ou seja, em que não se recupere os quilos eliminados, é mais provável no segundo tipo de obesidade, quando um peso menor é atingindo pela diminuição do tamanho das células de gordura. No primeiro caso, há uma diminuição da quantidade de células de <strong>gordura</strong>, porém o corpo vai tentar recuperar as células perdidas assim que a força de vontade da pessoa não for mais tão firme quanto antes.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme citado pela autora, quando a <strong>obesidade</strong> surge na infância, ela é caracterizada pelo maior número de células de gordura, explicando porque é tão difícil para pessoas que estão acima do peso desde a infância perderem peso e manter o resultado obtido. Se o aumento de peso acontece só na vida adulta, temos a obesidade secundária, o que aumenta consideravelmente as chances de não se recuperar os quilos perdidos. Assim podemos entender porque pessoas que foram crianças obesas tendem a ter muito mais dificuldade em ter e manter um peso considerado normal, o que já agrega uma nova variável à contabilidade do peso. Para trazer alguma luz para a razão pela qual as células se constituem de forma diferente nas duas fases da vida, coloco a seguir uma citação de Jung feita por de Marie-Louise von Franz que encontrei no livro sobre tipos psicológicos, ou seja, dentro de um contexto totalmente diferente do tema abordado aqui, que pode ser um paralelo biológico interessante:&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Ele assinala, por exemplo, as duas maneiras pelas quais as espécies animais se adaptam à realidade: ou reproduzindo-se tremendamente e tendo um mecanismo inferior de defesa, como as pulgas, os piolhos, e os coelhos, ou procriando muito pouco e construindo fortíssimos mecanismos de defesa, como o porco espinho e o elefante. (von Franz &amp; Hillman, 2020)</em>&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Por esse paralelo, podemos considerar que o ego da criança ainda tem muito a aprender, seu sistema de defesa com relação ao mundo ainda está sendo construído, então quando as células de gordura são produzidas vão se comportar como as pulgas, procriando muito e quando isso vem a acontecer na vida adulta elas se reproduzem pouco mas ficam robustas, mais fortes como o elefante, sendo que no primeiro caso como o padrão não muda na vida adulta, parece que ele fica estacionado no estágio anterior de desenvolvimento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando o aspecto psíquico do tema a partir da visão junguiana, em que o corpo é um canal de expressão dos complexos, Goodman fez um experimento de associação de palavra e obesidade com vinte mulheres obesas e vinte no grupo controle e, uma análise mais profunda em três casos de estudo, identificou o feminino reprimido como um complexo manifestado em seus corpos como o excesso de peso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi a partir de seu experimento de associação de palavras que Jung percebeu que as pessoas tinham reações físicas involuntárias muito sutis quando determinadas palavras eram ouvidas. Ao buscar a origem dessas reações “Jung terminaria por concluir que os vários sintomas corporais eram mensagens da própria psique. Em consequência, era possível atribuir-lhes significado simbólico” (Woodman, 2020, p. 104).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir do seu experimento de associação de palavras e do estudo de casos, a autora percebeu a relação de cinco complexos com a obesidade, complexo paterno, materno, alimentar, sexual e religioso, e analisando seus aspectos simbólicos percebeu um ponto em comum entre todos eles, a perda do feminino.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo vou trazer alguns aspectos que mostram a relação destes complexos com a perda do feminino e com a obesidade&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo paterno pode se manifestar quando se tem a imagem de um pai perfeito, idealizado que provoca na filha o desejo de estar à altura dessa perfeição, levando-a a renegar seu lado sombrio, seus demônios. Ela faz de tudo para criar uma boa imagem para seu pai e ao fazer isso não pode se tornar uma mulher completa com limitações e imperfeições. Essa rigidez com que se cobra perfeição faz com que ela perca um aspecto essencial do feminino,&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>a sua devoção à ordem apolínea de vida, conjugada com o medo do demônio, leva-a buscar o controle do ego por meio da atividade do animus. Todavia, ao ignorar o seu lado puella, ela está perdendo o seu vínculo com Dionísio, o que leva à perda do componente essencial da natureza feminina. (Woodman, 2020, p. 165)</em>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo materno tem um papel mais importante no que diz respeito a desordens alimentares do que o complexo paterno e, tudo pode começar desde muito cedo com uma mãe que não sabe diferenciar os tipos de choros da criança e que assume que todos eles são de fome e atende a todos os chamados do bebê com comida, o que faz com que ele tenha dificuldade em diferenciar suas percepções corporais, pois tudo foi tratado da mesma forma, sendo alimentado, o que está fortemente associado à desordens alimentares.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao focar em seu peso, a mulher obesa desvia a atenção do enfrentamento que precisa acontecer para que haja o resgate do seu lado feminino mais instintivo, que foi renegado a favor de uma falsa sensação do controle do ego, pois se deixar levar por um ritmo mais espontâneo da vida é extremamente assustador e, como sua mãe também vive apartada desse ritmo, não consegue passar para a filha a segurança de que ela estará presente para acolhê-la nesse momento difícil.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Curvar-se à Grande Deusa é aceitar a vida tal como é: hoje inverno, amanhã primavera; a crueldade combinada com a beleza; a solidão seguindo o amor. Só é possível submeter-se quando sabe que os braços da mãe amorosa &#8211; ou, talvez, as asas estendidas do Espírito Santo &#8211; estarão abertas para acolher a criança que cai. (Woodman, 2020)</em>&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A manifestação dos outros três complexos podem ser observados na mulher obesa quando ela, por temer o contato com sua natureza feminina mais instintiva, passa o dia submetida a uma vigilância rígida para não ser levada pelos seus anseios de todos os tipos de fome, espiritual, sexual e de uma vida plena, mas à noite sucumbe às investidas desse lado sombrio inconsciente e vai tentar saciar todas as fomes de forma literal com o alimento proibido.&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>“A ligação intima entre o alimento físico e o alimento religioso é evidente. Elas anseiam pelo seu &#8220;pão de cada dia&#8221;, mas encaram o símbolo em termos concretos. (&#8230;) comer até que o ego caia no inconsciente torna- se uma paródia do orgasmo “ (Woodman, 2020, pp. 175, 176)</em>&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui novamente o caminho é tornar o ego forte para que ele suporte a integração do feminino que está apartado, o que é uma tarefa árdua em uma cultura que se afastou da vida simbólica e por isso sacia a fome espiritual e sexual com o alimento na sua forma literal. Resgatar a capacidade de simbolizar os sintomas é o caminho para realizar a difícil tarefa, que pode contar com a ajuda dos sonhos e da imaginação ativa com o próprio corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com todas as considerações feitas é difícil se manter preso à ideia de que o peso corporal é apenas o resultado de uma operação aritmética, existem outras variáveis tanto fisiológicas quanto psíquicas que entram nessa conta, mas que não podem ser controladas como a quantidade de calorias ingeridas, até mesmo a obesidade primária pode significar uma eterna luta contra <strong>o excesso peso</strong>, em que as <strong>calorias</strong> consumidas não são a principal componente do resultado. E o mais importante de tudo é algo que deve ser considerado muito além da obesidade, a relação da psique com o corpo, a partir da perspectiva de que um sintoma é uma mensagem da psique, um complexo, que está manifestado de forma simbólica no corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako Kurauti&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro analista em formação pelo IJEP&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra E. Simone Magaldi Membro didata do IJEP&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Feminino reprimido, uma variável sombria | Dulce Kurauti" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/dyVlhuyOZXI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bibliografia</strong><strong></strong>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">von Franz, M.-L., &amp; Hillman, J. (2020). <em>A tipologia de Jung &#8211; Ensaios sobre psicologia analística.</em> &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Woodman, M. (2020). <em>A coruja era filha do padeiro.</em> Cultrix.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/01/brasileiro-e-o-que-mais-usa-remedio-de-emagrecer-na-america-latina.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">G1 &#8211; Brasileiro é o que mais usa remédio de emagrecer na América Latina &#8211; notícias em Ciência e Saúde (globo.com)</a>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/feminino-reprimido-uma-variavel-sombria-na-equacao-das-calorias-ingeridas-e-consumidas/">Feminino reprimido: uma variável sombria na equação das calorias ingeridas e consumidas</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
