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	<title>Arquivos james hollis - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos james hollis - Blog IJEP</title>
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		<title>O Amor que Devora: Morro dos Ventos Uivantes e a Psicologia das Relações Possessivas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Maria Helena Soares Marinho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Jul 2026 16:53:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo analisa, à luz da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, o fenômeno das relações amorosas tóxicas, tomando como referência simbólica o romance Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (1847), e suas adaptações cinematográficas. A partir dos conceitos junguianos de anima, animus, projeção, sombra e individuação, e em diálogo com as elaborações de Emma Jung, John A. Sanford e James Hollis, discute-se de que modo a paixão fusional, frequentemente confundida com o amor verdadeiro, constitui na realidade uma identificação inconsciente entre dois psiquismos cativos das próprias imagens internas.</p>
<p>A relação entre Catherine Earnshaw e Heathcliff é tomada como expressão arquetípica de um amor que, por não atravessar a tarefa do reconhecimento da alteridade, se converte em possessão e destruição. Ao final, propõe-se que somente a retirada das projeções e a integração dos opostos permitem a passagem do amor arquetípico ao amor real — passagem que a própria narrativa de Brontë sugere no desfecho, quando a segunda geração se reconcilia com aquilo que havia sido devorado pela primeira.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo: </strong>O presente artigo analisa, à luz da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, o fenômeno das relações amorosas tóxicas, tomando como referência simbólica o romance Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (1847), e suas adaptações cinematográficas. A partir dos conceitos junguianos de anima, animus, projeção, sombra e individuação, e em diálogo com as elaborações de Emma Jung, John A. Sanford e James Hollis, discute-se de que modo a paixão fusional, frequentemente confundida com o amor verdadeiro, constitui na realidade uma identificação inconsciente entre dois psiquismos cativos das próprias imagens internas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A relação entre Catherine Earnshaw e Heathcliff é tomada como expressão arquetípica de um amor que, por não atravessar a tarefa do reconhecimento da alteridade, se converte em possessão e destruição. Ao final, propõe-se que somente a retirada das projeções e a integração dos opostos permitem a passagem do amor arquetípico ao amor real — passagem que a própria narrativa de Brontë sugere no desfecho, quando a segunda geração se reconcilia com aquilo que havia sido devorado pela primeira.</p>



<h2 id="h-introducao" class="wp-block-heading"><strong>Introdução</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas obras da literatura ocidental traduziram com tanta densidade a experiência do amor patológico quanto Morro dos Ventos Uivantes. Publicado em 1847, sob o pseudônimo de Ellis Bell, o único romance de Emily Brontë continua a inspirar adaptações cinematográficas — desde a clássica versão de William Wyler (1939), com Laurence Olivier e Merle Oberon, passando pela leitura mais sombria e primitiva ou selvagem de Andrea Arnold (2011), até a recentíssima adaptação de Emerald Fennell (2026), estrelada por Jacob Elordi e Margot Robbie. Esta última, ainda que tenha dividido público e crítica, teve o mérito inegável de recolocar em circulação, no debate cultural contemporâneo, as inquietações em torno da relação entre Catherine e Heathcliff — o que, sob a ótica clínica, é também uma oportunidade para repensar o modo como a cultura segue idealizando vínculos fusionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Em todas essas versões, o que persiste e fascina é exatamente aquilo que escapa às convenções do romance romântico: a fronteira tênue entre paixão e possessão, entre amor e o aniquilamento.</strong></p>



<h2 id="h-heathcliff-e-catherine-nao-se-amam-como-duas-pessoas-eles-se-amam-como-se-fossem-partes-da-mesma-alma-separadas-por-engano" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Heathcliff e Catherine não se amam como duas pessoas; eles se amam como se fossem partes da mesma alma, separadas por engano.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">“Eu sou Heathcliff”, declara Catherine. Essa frase, frequentemente lida como ápice da entrega amorosa, é, do ponto de vista da Psicologia Analítica, a confissão de uma identificação fusional em que os limites do eu se dissolvem na imagem do outro. É justamente sobre essa zona de indistinção — onde o amor se confunde com a apropriação do outro — que este artigo se propõe a refletir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma cultura que ainda romantiza ciúme, exclusividade absoluta e sofrimento amoroso como provas de devoção, e em que muitos pacientes chegam ao consultório relatando relações marcadas por dependência, possessividade e violência psíquica, parece-me oportuno revisitar a obra de Brontë como um caso simbólico exemplar. Trata-se de uma narrativa que antecipa, em mais de um século, o que Jung viria a descrever como o efeito devastador das projeções não reconhecidas da anima e do animus.</p>



<h2 id="h-os-parceiros-invisiveis-anima-animus-e-o-outro-imaginado" class="wp-block-heading"><strong>Os Parceiros Invisíveis: Anima, Animus e o Outro Imaginado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung, todo homem carrega em si uma figura interior feminina (a anima) e toda mulher, uma figura interior masculina (o animus). Tais figuras não são simples “lados femininos” ou “masculinos” da personalidade; são configurações arquetípicas do inconsciente, dotadas de relativa autonomia, que mediam nossa relação com o mundo psíquico mais profundo (JUNG, 2014a). Sanford (1990) lembra que, enquanto não se tornam conscientes, anima e animus tendem a ser projetados em pessoas reais, alterando profundamente nossa percepção delas. É a isso que chamamos, em linguagem comum, “paixão” ou “estar apaixonado”:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>“Quando a anima e o animus são projetados em outras pessoas, a percepção que temos delas fica profundamente alterada. Na maioria dos casos, o homem projetou a anima na mulher, e a mulher projetou o animus no homem. A mulher carregou para o homem a imagem viva da alma ou da faceta feminina dele próprio, e o homem carregou para a mulher a imagem viva do próprio espírito dela.” (SANFORD, 1990, p. 18)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-eis-a-chave-para-compreender-heathcliff-e-catherine" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Eis a chave para compreender Heathcliff e Catherine.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O que une esses dois personagens não é, em sentido estrito, o conhecimento mútuo de duas subjetividades e fissuras, mas a coincidência de um campo arquetípico no qual cada um se torna depositário involuntário das imagens internas mais arcaicas do outro. Heathcliff, o estrangeiro de origem desconhecida, encontrado nas ruas de Liverpool, é, para Catherine, a personificação perfeita do animus selvagem — indomado, ligado à terra, ao instintivo. Catherine, por sua vez, é para Heathcliff uma anima que carrega, simultaneamente, a luminosidade da infância partilhada e a sombra do orgulho aristocrático que o rejeita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sanford (1990, p. 22) sublinha que tais imagens projetadas, justamente por serem arquetípicas, se acham carregadas de energia psíquica e produzem um “efeito magnético sobre nós, e a pessoa que carrega uma projeção tenderá a atrair-nos ou a causar-nos repulsa em alto grau, da mesma forma como um ímã atrai ou repele outro metal”. É essa intensidade magnética — não o conhecimento da pessoa real — que descreve com precisão a vinculação entre os dois protagonistas de Brontë.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Emma Jung (1990) observou, do lado feminino do mesmo fenômeno, que quando a projeção encontra ressonância no portador externo a relação parece, no início, ter alcançado uma satisfação e uma perfeição plenas. Mas essa aparente perfeição traz consigo um custo muito alto: “Este estado de fascinação e de condicionamento absoluto ao outro é conhecido como ‘transferência’, que não é outra coisa que a projeção” (JUNG, E., 1990, p. 24). A relação se torna, então, simbiótica; cada um precisa do outro para sustentar uma imagem que, na verdade, pertence ao próprio inconsciente.</p>



<h2 id="h-a-paixao-como-cilada-e-a-confusao-entre-amor-e-identificacao" class="wp-block-heading"><strong>A Paixão como Cilada e a Confusão entre Amor e Identificação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há, na cultura ocidental contemporânea, uma equivalência implícita entre intensidade afetiva e autenticidade do vínculo. Quanto mais alguém sofre, mais se acredita que ama. Quanto mais incapaz de viver sem o outro, mais se imagina ter encontrado o “amor verdadeiro”. Sanford (1990, p. 30) é categórico ao desfazer esse equívoco:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“O amor real começa somente quando uma pessoa chega a conhecer a outra, para quem ele ou ela é realmente um ser humano, e quando começa a amar esse ser humano e a preocupar-se com ele. (&#8230;) com raízes tão pouco profundas, não pode desenvolver-se nenhum amor real e permanente. Ser capaz de um amor real significa amadurecer, estimulando expectativas realistas em relação às outras pessoas.” (SANFORD, 1990, p. 30)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A paixão arquetípica, portanto, não é amor; é a antessala possível do amor, ou sua mais sedutora falsificação. Ela pode evoluir para um vínculo amadurecido na medida em que ambos os parceiros se disponham ao trabalho psíquico de retirar as projeções e reconhecer no outro um ser distinto — com seus limites, seus humores, suas zonas obscuras. Quando essa passagem não ocorre, o que era fascinação converte-se em possessividade, controle e, em casos extremos, violência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É exatamente esse o destino dos amantes da obra em questão. Quando Catherine escolhe casar-se com Edgar Linton — figura social adequada, mas afetivamente inerte —, ela trai não apenas Heathcliff, mas a si mesma, na medida em que sacrifica seu próprio animus em troca de uma persona socialmente aceitável. Heathcliff, por sua vez, não consegue elaborar o luto. Em vez de retirar a projeção e reconhecer Catherine como uma mulher real, falha e finita, ele mergulha em uma vingança que se estende por gerações. Sua paixão, agora amputada de qualquer reciprocidade possível, transforma-se em ódio; o amor que não pôde ser vivido converte-se em compulsão de destruição. Tudo aquilo que permanece não-elaborado no inconsciente, ensina-nos Jung (2013a), tende a retornar ao sujeito sob a forma daquilo que ele costuma chamar de destino.</p>



<h2 id="h-possessao-e-sombra-quando-o-amor-adoece" class="wp-block-heading"><strong>Possessão e Sombra: Quando o Amor Adoece</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A Psicologia Analítica utiliza o termo possessão para descrever situações em que o ego é dominado por um complexo autônomo do inconsciente. Quando a anima ou o animus tomam o lugar do ego, a pessoa age como se “estivesse fora de si” — expressão popular cuja precisão clínica é notável. Sanford (1990, p. 80) sugere que, na mulher, é preciso reconhecer que “as opiniões e as críticas destrutivas, que subitamente surgem em sua consciência” carregam, por trás delas, a figura arquetípica do animus em sua face negativa; analogamente, no homem, irritação, mau humor súbito e insatisfação sexual difusa costumam denunciar a presença da anima ferida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Heathcliff é, do ponto de vista psicológico, alguém possuído pela própria sombra e por uma imagem fusional da anima. Sua incapacidade de existir independentemente de Catherine não é poesia; é sintoma. Ele se converte naquilo que Esther Harding (apud SANFORD, 1990, p. 98) chamava de amante fantasma — figura que ronda a psique do outro, seduzindo-a com fantasias românticas que “não têm relação com a realidade de um homem real, nem com a realidade do mundo inteiro dela” (SANFORD, 1990, p. 99).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“Como amante fantasma, o animus ronda a mente de uma mulher, procura seduzi-la com fantasias românticas irreais e cada vez mais vai fazendo sua consciência ser absorvida pela irrealidade. Então não pode ocorrer desenvolvimento psicológico algum, porque a mulher se apaixona pelas fantasias que não têm relação com a realidade de um homem real, nem com a realidade do mundo inteiro dela.” (SANFORD, 1990, p. 99)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Há, neste ponto, um ensinamento clínico essencial: relações tóxicas não nascem, em primeiro lugar, da maldade individual de seus protagonistas. Elas nascem da recusa, em geral inconsciente, de assumir a responsabilidade pelo próprio mundo interno. Hollis (2008) lembra que a tarefa do amor amadurecido é justamente tornar consciente aquilo que antes se projetava, suportando a desilusão necessária para que algo verdadeiro possa nascer entre duas pessoas. Trata-se, em última instância, do luto da imagem — luto que Heathcliff e Catherine se recusam a fazer e que, por isso mesmo, devora suas vidas.</p>



<h2 id="h-a-segunda-geracao-e-o-duplo-casamento-a-possibilidade-de-individuacao" class="wp-block-heading"><strong>A Segunda Geração e o “Duplo Casamento”: A Possibilidade de Individuação</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Há, contudo, na narrativa de Brontë, uma sutileza que escapa às leituras mais ressentidas e que a analista junguiana Barbara Hannah (apud SANFORD, 1990, p. 100) foi das primeiras a observar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O romance não termina com a morte dos amantes; ele prossegue com a história da segunda geração — a jovem Cathy, filha de Catherine, e Hareton, sobrinho de Heathcliff. Esses dois personagens, inicialmente brutalizados pela atmosfera psíquica deixada pelos antecessores, encontram aos poucos uma forma de relação fundada no reconhecimento mútuo, no aprendizado e na ternura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao final da obra, como observa Sanford (1990, p. 100), “há um duplo casamento: o casal terreno, Cathy e Hareton, e o casal espiritual, Heathcliff e Catherine”. A leitura analítica de Hannah é a de que “Heathcliff é uma personificação do animus” e de que, no fim da história, “se realiza o duplo casamento que é um símbolo da plenitude” (apud SANFORD, 1990, p. 100).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse desdobramento narrativo carrega uma sabedoria psicológica notável. Aquilo que não pôde ser integrado em uma geração precisa, muitas vezes, ser reelaborado na seguinte. O amor fusional, arquetípico, sobrevive como mito; mas é o amor discreto, terreno e relacional que carrega a possibilidade da individuação. O trabalho psicológico do amor amadurecido, observa Jung (2013b), consiste precisamente em estender ao outro um reconhecimento que ultrapasse a imagem que dele formamos.</p>



<h2 id="h-consideracoes-finais" class="wp-block-heading"><strong>Considerações Finais</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A obra O Morro dos Ventos Uivantes pode ser lida, à luz da Psicologia Analítica, como uma fenomenologia rigorosa do amor possessivo. A obra de Brontë não condena seus amantes; ela os mostra cativos de forças psíquicas que excedem suas capacidades egóicas de compreensão. Heathcliff e Catherine não escolheram livremente sua paixão — foram tomados por ela. Esta é, talvez, a contribuição mais penetrante do romance: lembrar-nos de que aquilo que chamamos de amor é, com frequência, o nome bonito que damos a uma identificação inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A clínica contemporânea encontra, todos os dias, mulheres e homens que repetem, em escala íntima, a tragédia do “amor” tóxico. Pessoas que não conseguem deixar relacionamentos reconhecidamente nocivos, porque o que as prende ali não é o parceiro real, mas a imagem arquetípica nele projetada. Pessoas que confundem ciúme com amor, controle com cuidado, fusão com intimidade. Para essas pessoas — e talvez para todos nós, em algum momento da vida —, o convite da Psicologia Analítica é o mesmo que a própria Emily Brontë parece oferecer ao final do livro: permitir que a próxima geração viva o amor que a anterior não conseguiu viver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Permitir, em outras palavras, que o ímpeto do Daimon amoroso, em vez de devorar o sujeito, possa atravessá-lo como força de individuação. Reconhecer no outro um ser humano, e não um espelho. Suportar a desilusão de que ninguém nos completa, porque a tarefa de tornar-se inteiro é, no fim, intransferível.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maria-helena-soares-marinho/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/maria-helena-soares-marinho/">Maria Helena Soares Marinho &#8211; Membro Analista IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRONTË, E. Morro dos Ventos Uivantes. Trad. Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HARDING, M. E. The Way of All Women. New York: David McKay Co., 1961.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, J. Pantanos da Alma: Nova vida em lugares deprimentes. São Paulo: Paulus, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras Completas, vol. IX/1. Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Obras Completas, vol. VII. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A prática da psicoterapia. Obras Completas, vol. XVI. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, E. Animus e Anima. São Paulo: Cultrix, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANFORD, J. A. Os Parceiros Invisíveis: O masculino e o feminino dentro de cada um de nós. São Paulo: Paulus, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WUTHERING Heights. Direção: William Wyler. Estados Unidos: Samuel Goldwyn Productions, 1939.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WUTHERING Heights. Direção: Andrea Arnold. Reino Unido: Film4, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WUTHERING Heights. Direção: Emerald Fennell. Reino Unido / Estados Unidos: LuckyChap Entertainment / MRC / Warner Bros. Pictures, 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>O QUE DIZ SEU DAIMON?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Jul 2026 13:37:56 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p> Fazendo alusão ao Mito de Er, contado por Platão no livro A República, em que cada pessoa entra no mundo ao ser chamada e recebe um daimon particular que acompanhará essa alma, guiando-a e intuindo-a, pois quando aqui chegamos esquecemos do que combinamos, o que tem norteado a sua vida? Qual o seu propósito? O que o inspira e o motiva?</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Até você tornar o inconsciente consciente, ele irá dirigir sua vida e você vai chamar isso de destino.</p><cite>C.G. JUNG </cite></blockquote></figure>



<h2 id="h-resumo-fazendo-alusao-ao-mito-de-er-contado-por-platao-no-livro-a-republica-em-que-cada-pessoa-entra-no-mundo-ao-ser-chamada-e-recebe-um-daimon-particular-que-acompanhara-essa-alma-guiando-a-e-intuindo-a-pois-quando-aqui-chegamos-esquecemos-do-que-combinamos-o-que-tem-norteado-a-sua-vida-qual-o-seu-proposito-o-que-o-inspira-e-o-motiva" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Resumo: Fazendo alusão ao Mito de Er, contado por Platão no livro <em>A República</em>, em que cada pessoa entra no mundo ao ser chamada e recebe um daimon particular que acompanhará essa alma, guiando-a e intuindo-a, pois quando aqui chegamos esquecemos do que combinamos, o que tem norteado a sua vida? Qual o seu propósito? O que o inspira e o motiva?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Você pode dizer que se esqueceu desse chamado, ou que ele se perdeu diante das demandas da vida, ou pode tentar evitá-lo com força hercúlea, mas a verdade é que ele sempre vai manifestar-se, o daimon não desaparece.  </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Daimon</strong> era o termo usado pelos antigos gregos quando se referiam à força espiritual ou entidade guardiã, um anjo da guarda, que guiava o indivíduo por toda sua vida, e <strong>Hillman </strong>(2025, p. 13) descreve o daimon como “um guia espiritual que nos conecta à nossa vocação mais profunda, ajudando-nos a perceber aquilo que é essencial para a realização do nosso potencial”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Hillman, a vida é uma jornada com foco na busca do sentido e do significado e o daimon é a nossa bússola nesse caminho, que nos orienta e nos faz lembrar da nossa verdadeira natureza e que, muitas vezes, nos tira da zona de conforto, para que atendamos ao chamado da nossa alma, fazendo com que nossa vida se torne mais autêntica, com mais propósito e nos transformemos em quem, realmente, fomos destinados a ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa visão corrobora com a teoria do fruto do carvalho, “segundo a qual cada pessoa tem uma singularidade que demanda ser vivida e que já existe mesmo antes de poder ser vivida” (HILLMAN, 2025, p. 28).</p>



<h2 id="h-hillman-diz-que-as-implicacoes-praticas-ocorrem-assim" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Hillman diz que as implicações práticas ocorrem assim:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">(a) Reconhecer o chamado como o fato primordial da existência humana; (b) alinhar a vida com esse chamado; (c) ter o bom senso de perceber que os acidentes, inclusive o coração partido e os choques naturais herdados pelo corpo, pertencem ao padrão da imagem, são necessários a ela e ajudam a consumá-la). (HILLMAN, 2025, p. 30)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">E aqui começa o desafio: “reconhecer o chamado”, que é algo individual, genuíno, que nos diferencia ou nos destaca das demais pessoas, e isso, muitas vezes, é assustador, pois vivemos em uma sociedade que normatiza, que rotula, que classifica, exclui e banaliza quem está fora do padrão social tido como normal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas pessoas deixam de atender, ou alinhar sua vida a esse chamado por diversas razões: desde a influência castradora dos pais, a pobreza que aniquila as forças, a falta de fé, os diagnósticos médicos que rotulam essa característica como doença e até o simples comodismo na zona de conforto. (Cf. HILLMAN, 2025, p. 259)</p>



<h2 id="h-aceitar-o-chamado-implica-tambem-em-resignar-se-as-adversidades-e-assumir-as-consequencias-que-esse-direcionamento-do-daimon-nos-conduz" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Aceitar o chamado implica também em resignar-se às adversidades e assumir as consequências que esse direcionamento do daimon nos conduz.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O daimon começa a dar seus indícios na infância, é nessa época que ele indica o caminho, o que muitas vezes é classificado de pirraça ou teimosia é o próprio daimon em ação em resposta a esse chamado.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Toda criança é dotada e já nasce com uma série de dados, de dons que lhes são peculiares e que se mostram de formas peculiares, muitas vezes inapropriadas e causando sofrimento.</p><cite>HILLMAN, 2025, p. 35</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Essa teoria explica a infinidade de casos de crianças, que na mais tenra idade apresentam determinadas habilidades inatas ou características de personalidade extremamente desenvolvidas, o que nos leva a certeza de que as pessoas não chegam aqui nesse mundo como “tábulas rasas”, elas trazem&nbsp; consigo, “dentro de uma bolota” (alma), o fruto do carvalho, que podemos nomear como o Mito do Significado, o propósito de suas vidas, e que têm como protetor dessa missão, o daimon, que irá lembrá-las desse compromisso &nbsp;e redirecioná-las,&nbsp; quando elas desviarem do percurso.</p>



<h2 id="h-hillman-relata-diversas-historias-de-celebridades-que-desde-a-infancia-apresentam-caracteristicas-que-independentemente-das-condicoes-culturais-sociais-economicas-e-afetivas-se-mostravam-predeterminadas-a-algo-muito-maior" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Hillman relata diversas histórias de celebridades que, desde a infância, apresentam características que, independentemente das condições culturais, sociais, econômicas e afetivas, se mostravam predeterminadas a algo muito maior.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse é o caso de Josephine Baker. Nascida em 3 de junho de 1906, no Hospital St. Louis Social Evil, nos Estados Unidos, pelo nome do hospital, poder-se-ia dizer que nada de bom poderia vir de lá, mas Freda J. McDonald, registraria sua passagem por esse mundo como exemplo do fruto que cumpriu o desejo do Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui já encontramos uma força interior muito intensa, pois muitas pessoas se deixam sucumbir por um sistema de crenças depreciativo e limitante decorrente de sua origem ou situação financeira, acreditando estarem fadadas a um destino previsível e pré-determinado.</p>



<h2 id="h-josephine-teve-uma-infancia-de-extrema-pobreza-trabalhava-em-casa-de-familia-desde-crianca-para-sobreviver-a-comida-era-escassa-ao-contrario-das-pulgas-que-eram-muitas-e-compartilhadas-com-seu-cachorro-ja-que-ambos-dividiam-o-chao-para-dormir" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Josephine teve uma infância de extrema pobreza, trabalhava em casa de família desde criança para sobreviver. A comida era escassa, ao contrário das pulgas, que eram muitas e compartilhadas com seu cachorro, já que ambos dividiam o chão para dormir.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ela vivia apanhando de uma de suas patroas, que a deixava constantemente nua, porque as roupas eram caras demais. (Cf. HILLMAN, 2025, 77). Talvez seja por esse motivo, que Josephine quando iniciou sua carreira artística, se sentia tão à vontade em se apresentar quase nua e despertar tanto fascínio na plateia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conta-se que quando criança, Josephine montava um palco no porão com caixotes e que batia nas crianças quando elas não prestavam atenção em sua apresentação. Aqui podemos perceber o daimon dando seus primeiros indícios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aos 19 anos ela se torna conhecida pelo mundo no Teatro Champs-Élysées, em Paris, e deste momento em diante, o sucesso, a fortuna e a luxúria, passam a ser suas companheiras de jornada, mas como foi dito inicialmente, o daimon não desaparece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1939 estoura a Segunda Guerra Mundial e Josephine aos 32 anos, tem a rota de sua vida redirecionada pelo daimon novamente: ela quer servir à França, país que adotou e se torna espiã, arriscando sua vida levando informações escondidas nas partituras musicais, até Portugal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Josephine por ser negra, muitas vezes foi expulsa de teatros e quase sofreu o risco de deportação e execução, mas isso não a intimidou e nem a fez desistir de seu ideal.</p>



<h2 id="h-podemos-perceber-que-josephine-realmente-estava-empenhada-em-seguir-sua-vocacao-sem-se-importar-com-as-consequencias-que-pudessem-advir-de-suas-acoes-ela-estava-sendo-guiada-pelo-seu-proposito" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Podemos perceber que Josephine realmente estava empenhada em seguir sua vocação, sem se importar com as consequências que pudessem advir de suas ações. Ela estava sendo guiada pelo seu propósito.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">A vocação (do latim vocatus) é o que somos chamados a fazer com a energia da nossa vida. Sentir que somos produtivos é uma parte fundamental da nossa individuação, e deixar de responder à nossa vocação pode causar dano à alma. Não escolhemos realmente uma vocação; na verdade é ela que nos escolhe. Nossa única escolha é o modo como respondemos. (HOLLIS, 1995, p. 101)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">No Marrocos onde tinha bom relacionamento com a família dos Governantes, resgatou judeus da repressão e após a libertação de Paris, arrecadou centenas de quilos de alimentos para auxiliar os necessitados, devido a essas ações, foi condecorada com a Cruz de Guerra das Forças Armadas Francesas e a Medalha da Resistência, além de receber do presidente Charles de Gaulle, o grau de Cavaleiro da Legião de Honra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-daimon-tambem-direcionou-josephine-a-auxiliar-na-luta-contra-o-racismo-e-pela-emancipacao-dos-negros-nos-estados-unidos-onde-apoiou-o-movimento-dos-direitos-civis-de-martin-luther-king" style="font-size:16px">O daimon também direcionou Josephine a auxiliar na luta contra o racismo e pela emancipação dos negros nos Estados Unidos, onde apoiou o Movimento dos Direitos Civis de Martin Luther King.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu último feito foi empregar todo seu dinheiro para manter um imóvel abrigando onze crianças de diversos países e etnias, que ela adotou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1975, dias antes de morrer, falida, sem teto e envelhecida, Josephine fez seu último show em Paris, onde foi ovacionada pelo público. (Cf. HILLMAN, 2025, p. 79)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Josephine Baker cumpriu com o Mito do seu Significado e deixou registrado ao mundo seu propósito de servir ao daimon, buscando aliviar o sofrimento e permitir que outras pessoas tivessem possibilidade de viver e não apenas sobreviver.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Josephine poderia continuar em sua vida de estrelado, com a fama, riqueza e a luxúria características, mas seu caráter a impulsionou a fazer algo mais relevante, que pudesse servir à coletividade e a uma finalidade maior e o daimon a conduziu nesse sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa visão do coletivo corrobora com uma característica do conceito de Processo de Individuação desenvolvido por Jung (2015), em que o indivíduo não é direcionado ao isolamento, mas a um relacionamento coletivo mais intenso. “A meta da individuação não é outra senão a de despojar o si mesmo dos invólucros falsos da persona, assim como do poder sugestivo das imagens primordiais” (JUNG, 2015, p. 64).</p>



<h2 id="h-algumas-pessoas-poderao-argumentar-que-nao-possuem-talento-ou-um-dom-especial-para-atender-ao-chamado-mas-em-relacao-a-essa-questao-hillman-nos-diz-que-nao-devemos-confundir-um-dom-especial-com-o-chamado" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Algumas pessoas poderão argumentar que não possuem talento ou um dom especial para atender ao chamado, mas em relação à essa questão, Hillman nos diz que não devemos confundir um dom especial com o chamado.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4">O talento é apenas uma parte da imagem; muitos nascem com talento para música, matemática e mecânica, mas apenas quando esse talento contribui para a imagem como um todo e é levado à frente pelo caráter é que reconhecemos a excepcionalidade. Muitos são chamados, poucos são escolhidos, muitos tem talento, poucos têm o caráter que consegue realizar o talento. O caráter é o mistério individual. (HILLMAN, 2025, p. 256)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O caráter é essa força interna, que faz com que o indivíduo seja incapaz de realizar algo diferente daquilo que ele foi destinado a fazer (fruto do carvalho), e quando o indivíduo está alinhado a esse propósito, independentemente da atividade que exerça, ele executará de forma peculiar e integral, pois estará sendo guiado pelo seu daimon.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme Hillman, “A teoria do carvalho defende que todos somos escolhidos. A própria questão da individualidade presume que há um fruto do carvalho único que caracteriza cada pessoa.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grande problema é que a sociedade atual patologiza o chamado, medicalizando o sintoma, fazendo com que o indivíduo se mantenha anestesiado e preso ao <em>status quo</em>, afastando-se desta maneira do destino orientado pelo daimon.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme Hillman (2025, p. 54), a nossa cultura classifica o sintoma como algo “ruim”, mas, para onde ele vai quando é eliminado? Ele realmente desaparece? O que estava tentando expressar? “Há ‘algo mais’ no sintoma além de sua negatividade antissocial, disfuncional e obstaculizante.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais paradoxal que isso possa soar, os sintomas devem ser encarados como presentes, pois são convites para o indivíduo reajustar a rota da sua vida, como uma exigência do Si-Mesmo. “O indivíduo é intimado, psicologicamente, a morrer para o velho eu para que o novo possa nascer” (HOLLIS, 1995, p. 20).</p>



<h2 id="h-essa-e-uma-caracteristica-marcante-da-crise-da-meia-idade-onde-o-individuo-se-ve-impelido-a-encontrar-respostas-a-dilemas-existenciais-e-enfrentar-situacoes-muitas-vezes-evitadas" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Essa é uma característica marcante da “Crise da Meia Idade”, onde o indivíduo se vê impelido a encontrar respostas a dilemas existenciais e enfrentar situações muitas vezes evitadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As crenças que nos sustentaram na primeira fase da vida se tornam ineficazes. Ideais e ídolos antes venerados se transformam como “poeira ao vento”. Jung (2013, p. 784) diz que: “Não podemos viver a tarde de nossa vida segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã, será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã, será falso no entardecer”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Iniciamos essa reflexão com o Mito de Er, que afirma que a cada um de nós recebe um daimon para nos auxiliar nessa jornada, você já conseguiu identificar esse seu guia pessoal?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Você tem seguido as orientações dadas por ele?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu propósito de vida está alinhado ao objetivo que seu daimon está lhe propondo, ou você ainda coloca seu “destino” nas mãos de um guia externo baseado nos interesses e opiniões da nossa sociedade capitalista, midiática e consumista?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Boa reflexão!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristiane-santos/">Cristiane dos Santos &#8211; Analista Junguiana em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação: </p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. <em>O código da alma: </em>em busca da essência e do chamado. São Paulo: ed. Goya, 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A Passagem do Meio:</em> da miséria ao significado na meia-idade. São Paulo: ed. Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.<em> </em><em>A Natureza da Psique.</em> 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>O Eu e o Inconsciente</em>.27.ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="369" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/07/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png" alt="" class="wp-image-13336" style="aspect-ratio:2.7767271109133387;width:752px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/07/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1024x369.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/07/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-300x108.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/07/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-768x277.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/07/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-150x54.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/07/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-450x162.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/07/banner-pos-graduacao-29.6.26-1-1200x432.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/07/banner-pos-graduacao-29.6.26-1.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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		<title>Caso ela diga não: as bases psicológicas da agressividade masculina</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/caso-ela-diga-nao-as-bases-psicologicas-da-agressividade-masculina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 20:28:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[caso ela diga não]]></category>
		<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[james hollis]]></category>
		<category><![CDATA[masculino]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sob a sombra de saturno]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
		<category><![CDATA[violência nos relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma análise sobre a agressividade masculina a partir de uma tendência digital violenta, interpretando-a como o sintoma de uma sombra coletiva enraizada na repressão emocional. Argumenta-se que a sociedade restringe o repertório sentimental dos homens, legitimando apenas a raiva como expressão aceitável, o que mascara um profundo medo da vulnerabilidade e uma dependência de símbolos de controle.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Uma análise sobre a agressividade masculina a partir de uma tendência digital violenta, interpretando-a como o sintoma de uma sombra coletiva enraizada na repressão emocional. Argumenta-se que a sociedade restringe o repertório sentimental dos homens, legitimando apenas a raiva como expressão aceitável, o que mascara um profundo medo da vulnerabilidade e uma dependência de símbolos de controle.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<strong>Caso ela diga não</strong>” foi um conjunto de vídeos de grande alcance, que se popularizou recentemente as redes sociais. Neles um homem simula um pedido de casamento que tem como resposta uma negativa. Em seguida, o suposto noivo esmurra e chuta violentamente um objeto que, na encenação, representa a mulher. Longe de uma simples ‘brincadeira’ de internet, essa trend ilustra uma realidade de violência dirigida a imagem do feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Nos 4 ou 5 minutos em que você lerá esse artigo, uma média de 170 mulheres passarão por algum tipo de agressão física</strong>.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking mundial de feminicídios, registrando a marca de 4 mulheres mortas por dia simplesmente por serem mulheres. Dados estes que não representam apenas números isolados, mas o sintoma de uma patologia social profunda.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mês de março, tradicionalmente dedicado à celebração das lutas e conquistas femininas, encerrou-se sob o peso de duras notícias. Eventos como a viralização dessas <em>trends</em> e os casos de violência real, como estupros coletivos, evidenciam a profundidade de nossa sombra coletiva, revelando o quanto ainda precisamos avançar para que o simbolismo do 8 de março não seja ofuscado pela persistente agressividade direcionada a mulher.</p>



<h2 id="h-quando-se-trata-de-violencia-contra-a-mulher-as-acoes-perpetradas-nao-vem-de-longe-vem-em-grande-parte-das-vezes-de-parceiros-e-companheiros-proximos-nbsp" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Quando se trata de violência contra a mulher, as ações perpetradas não vêm de longe. Vêm, em grande parte das vezes, de parceiros e companheiros próximos.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Então surgem questionamentos comuns do porquê da continuidade do vínculo abusivo por parte da mulher ou como esta mulher pode escolher tal parceiro, recaindo o julgamento sobre aquela que vivencia a agressão. Ou ocorre um reducionismo em rotular o agressor como um &#8216;monstro&#8217; e um &#8216;louco&#8217;. Entretanto quais seriam os movimentos psíquicos inconscientes por detrás desses atos?</p>



<h2 id="h-reconhecemos-a-violencia-atestamos-os-numeros-mas-o-que-esta-no-interior-de-quem-comete-tais-atitudes-o-que-acontece-no-interior-da-psique-masculina" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Reconhecemos a violência, atestamos os números, mas o que está no interior de quem comete tais atitudes? O que acontece no interior da psique masculina?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, no lugar de nos restringirmos a uma visão simplista, este breve estudo caminhará para a análise das dinâmicas do mundo interno, assim como observará os movimentos psíquicos inconscientes, que sustentam essa realidade, deslocando a atenção para o âmago da psique masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">James Hollis escreve em <em><strong>Sob a sombra de Saturno</strong></em> que os homens vivem sob uma pesada sombra saturnina, fazendo referência ao titã grego conhecido como Crono ou o Saturno, na versão romana. Este era o deus da agricultura, que participa da criação, por uma face, e por outra, liga-se a histórias sangrentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Filho de Urano e Géia, Crono assume o poder castrando o próprio pai. Este dominado pelo temor diante do potencial de sua própria descendência, rejeitava seus filhos e aprisioná-los no ventre da Terra. Diante dessa opressão, Géia forjou uma foice e instigou Crono a confrontar a autoridade paterna. O golpe desferido por Crono, que resultou na castração de Urano, deu origem a dois fenômenos: do sangue fecundado na terra nasceram os gigantes, enquanto da espuma do esperma lançado ao mar emergiu Afrodite. Entretanto, ao substituir o pai, Crono-Saturno replicou a mesma trajetória tirânica. Ele passa a devorar seus filhos com Réia, dos quais apenas um, Zeus, consegue escapar com ajuda da astúcia materna. A inevitável revolta de Zeus culminou em uma guerra de dez anos que, embora tenha instaurado forças civilizadoras, não rompeu o ciclo: o novo soberano também sucumbiu ao complexo de poder, tornando-se, por sua vez, um dominador.</p>



<h2 id="h-aqui-a-mitologia-e-tomada-como-simbolo-de-movimentos-psiquicos-nbsp-olhando-para-a-parte-inconsciente-e-arquetipica-muitos-homens-ate-hoje-sao-nbsp-governados-por-esse-exato-padrao-de-medo-e-um-legado-psicologico-saturnino" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Aqui a mitologia é tomada como símbolo de movimentos psíquicos.&nbsp;Olhando para a parte inconsciente e arquetípica, muitos homens até hoje são&nbsp;governados por esse exato padrão de medo. É um legado psicológico saturnino.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A ponte entre mitologia e atualidade está na percepção de ameaça ao controle. O legado de Crono-Saturno impõe culturalmente ao homem provar o seu valor constantemente por meio da dominação.&nbsp;Entretanto essa necessidade de controle funciona muito mais como uma armadura diante de uma vida governada pelo medo. Por baixo dessa defesa, escondido no inconsciente, existe um terror paralisante do fracasso, de parecer fraco ou impotente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então a agressividade física ou verbal não é uma demonstração de força real, e sim mecanismo de defesa desesperado guiado pelo medo de perder o ‘trono’, dentro de uma ilusão de poder sobre as outras pessoas. E no caso observado no presente artigo, sobre as mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um medo profundo, e, grande parte das vezes, ignorado pela consciência. Além das expectativas sociais restritivas, em que é exigido aos homens a competição, a não demonstração de fraqueza, e, destacadamente, a necessidade de nunca perder o poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O senso de valor do homem contemporâneo raramente deriva de sua essência ou do simples fato de existir. Pelo contrário, seu valor é condicionado à produção, ao <em>status</em> e ao controle exercido sobre o ambiente e sobre o outro. Então quando uma falha profissional ocorre ou há a perda de domínio em um relacionamento, isso não é sentido apenas como contratempos cotidianos, mas como ameaças existenciais. O medo atinge, por assim dizer, uma esfera de temor da aniquilação do ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os homens não são chamados a cultivar o princípio <em>Eros</em>, que está relacionado ao amor, aos vínculos, à conexão íntima. São empurrados para esse campo do trabalho, da prontidão, para uma postura combativa e de preocupação constante. Resta-se, assim, a retirada do afeto. Na ausência de <em>Eros</em>, o que sobra é a busca desmedida pelo poder. O temor existencial consome o masculino destituído de ritos e símbolos.</p>



<h2 id="h-neste-ponto-emerge-algo-paradoxal-se-a-figura-masculina-detem-historicamente-hegemonia-e-destaque-nos-campos-social-politico-e-financeiro-por-que-a-psique-do-homem-evidencia-tal-fragilidade-na-pratica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Neste ponto, emerge algo paradoxal: se a figura masculina detém historicamente hegemonia e destaque nos campos social, político e financeiro, por que a psique do homem evidencia tal fragilidade na prática?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa contradição sugere uma profunda discrepância entre a persona de autoridade e a frágil condição do mundo interno. É como se, metaforicamente, observássemos uma árvore de copa frondosa sustentada por raízes superficiais. Existe a projeção na esfera externa de uma imagem de expansão e domínio. Muito embora, na parte interna, não exista um aprofundamento no solo da própria subjetividade. Quando sopra o vento de uma crise pessoal ou uma rejeição é experimentada, a árvore é arrancada por inteiro ou seu tronco é partido pela rigidez egóica. Não há o enraizamento necessário para sustentar a estrutura e o peso de sua própria existência diante da adversidade.</p>



<h2 id="h-hollis-descreve-que-os-homens-carregam-oito-segredos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Hollis descreve que os homens carregam oito segredos:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li><em>A vida dos homens é tão governada por expectativas restritivas com relação ao papel que devem desempenhar quanto a vida das mulheres.</em></li>



<li><em>A vida dos homens é basicamente governada pelo medo.</em></li>



<li><em>O poder do feminino é imenso na organização psíquica dos homens.</em></li>



<li><em>Os homens conluiam-se numa conspiração de silêncio cujo objetivo é reprimir sua verdade emocional.</em></li>



<li><em>O ferimento é necessário porque os homens precisam abandonar a Mãe e transcender o complexo materno.</em></li>



<li><em>A vida dos homens é violenta porque suas Almas foram violadas.</em></li>



<li><em>Todo homem carrega consigo profundo anseio pelo seu pai e pelos seus Pais tribais.</em></li>



<li><em>Para que os homens fiquem curados, precisam ativar dentro de si o que não receberam do exterior.</em></li>
</ol>



<h2 id="h-no-sexto-deles-e-apontado-a-violacao-da-alma-masculina-mas-violada-como-no-sentido-de-que-a-cultura-exige-aos-homens-cortarem-partes-deles-mesmos-os-ferimentos-do-masculino-manifestam-se-no-que-hollis-denomina-assassinios-da-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No sexto deles, é apontado a violação da alma masculina. Mas violada como? No sentido de que a cultura exige aos homens cortarem partes deles mesmos. Os ferimentos do masculino manifestam-se no que Hollis denomina &#8216;assassínios da alma&#8217;.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como sociedade, perdemos os rituais de passagem. Em outros tempos, existiam espaços para ensinar o homem a lidar com o luto, com a dor e com fracasso, por exemplo. Mas, historicamente, dentro de uma construção patriarcal, o desenvolvimento do masculino é pautado pela repressão sistemática da vulnerabilidade. Ao menino, é negado o direito ao choro e à expressão de dor e de sensibilidade, por exemplo. É muito comum rotular-se uma simples manifestação de afeto como um sinal de debilidade. Essa educação, que reprime a esfera emocional, gera uma desconexão paulatina do indivíduo com sua própria subjetividade.</p>



<h2 id="h-sem-recursos-simbolicos-para-transformar-o-sofrimento-em-sentido-os-ferimentos-tornam-se-destrutivos-ao-inves-de-iniciaticos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Sem recursos simbólicos para transformar o sofrimento em sentido, os ferimentos tornam-se destrutivos, ao invés de iniciáticos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Neste ponto, um dos poucos sentimentos socialmente aceitos para o masculino é a raiva, que aparece como via de escoamento do desconforto experimentado. A alma violada, ao ser silenciada e obrigada a suportar a dor em isolamento, acumula uma raiva, que atinge patamar da ira, transbordando em depressão, somatizações ou, frequentemente, na projeção paranoica de sua sombra sobre alvos convenientes: mulheres, crianças e outros homens (HOLLIS, p. 143).</p>



<h2 id="h-quando-se-deixa-de-nutrir-a-alma-nesta-negligencia-em-relacao-ao-cultivo-da-vida-animica-ocorre-uma-deterioracao-do-contato-com-o-mundo-interno" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Quando se deixa de nutrir a alma, nesta negligência em relação ao cultivo da vida anímica, ocorre uma deterioração do contato com o mundo interno.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-quando-se-deixa-de-nutrir-a-alma-nesta-negligencia-em-relacao-ao-cultivo-da-vida-animica-ocorre-uma-deterioracao-do-contato-com-o-mundo-interno-no-caso-dos-homens">No caso dos homens, esse distanciamento frequentemente culmina na projeção de conteúdos internos não elaborados sobre a figura feminina, que passa a carregar o peso das demandas e carências da alma masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica de projeção acaba por despertar um medo arcaico do feminino. Trata-se de uma força ameaçadora da autonomia do ego, que tem suas raízes na primeira infância. Nesse estágio, a figura materna transcende a função de cuidadora. Ela passa a encarnar o próprio arquétipo da vida. É um poder literal sobre a vida e a morte daquela criança. A dependência é vital, pois dela emanam tanto a saciedade quanto a fome, o acolhimento ou o abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, pela perda de ligação com o mundo simbólico e a fragmentação dos rituais de passagens significativos, esse cordão umbilical não é rompido. O indivíduo assim carece de um marco de transição. O menino, por vezes, não atinge o desmame emocional necessário, permanecendo vinculado à imagem de potência geradora e, simultaneamente, temendo ser devorado ou subjugado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando ainda persiste esse gênero de ligação com a figura materna, o adulto, mesmo com uma persona muito bem adaptada e de reconhecimento social, permanece, no lado inconsciente, como uma criança buscando a aprovação divina da mãe, que é projetada facilmente na figura da companheira amorosa, por exemplo.</p>



<h2 id="h-ocorre-uma-projecao-da-mae-primordial-gigantesca-da-infancia" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>Ocorre uma projeção da mãe primordial gigantesca da infância.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Desde modo, ele não consegue olhar para a mulher real, que é um ser humano falho, vulnerável, com vontades próprias. Inconscientemente, é sentida uma força capaz de validar a existência dele ou de o destruir e o abandonar. Mas isso tem a capacidade de criar uma ambivalência. Por um lado, tem-se uma necessidade infantil de cuidado materno, de ser mimado, de não ser questionado. Por outro lado, há um terror absoluto de ser controlado, de ser engolido ou rejeitado por essa imagem feminina enorme, que o próprio homem projetou inconscientemente na mulher.</p>



<h2 id="h-quando-o-homem-ferido-olha-para-a-mulher-atraves-desta-lente-psiquica-distorcida-e-adoentada-e-dificil-processar-um-nao-como-no-exemplo-da-trend-de-uma-recusa-ficticia-do-pedido-de-casamento" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Quando o homem ferido olha para a mulher através desta lente psíquica distorcida e adoentada, é difícil processar um ‘não’, como no exemplo da <em>trend</em> de uma recusa fictícia do pedido de casamento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O ‘não’ toma outras proporções e conversa com este medo inconsciente. Não se vê o outro que está na frente como ser independente, mas surge o ímpeto de controlar aquilo que ele, inconscientemente, ainda percebe como uma força soberana sobre sua própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ponto, a violência se manifesta como um sintoma central, em que as questões levantadas ao longo do texto se articulam. Tudo converge para este núcleo paralisante da falha. Juntamente com isso, ocorre a ausência de conexão com o mundo interno para saber lidar com a dor da perda e, fundamentalmente, o terror diante do poder feminino, que detém a capacidade de rejeitá-lo. Quando esses conteúdos não encontram espaço para elaboração interna, eles transbordam de forma destrutiva, transformando o quadro psíquico em agressão física.</p>



<h2 id="h-a-violencia-contra-a-mulher-e-o-desfecho-de-uma-serie-de-conflitos-internos-nao-resolvidos" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A violência contra a mulher é o desfecho de uma série de conflitos internos não resolvidos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando esses sentimentos não são trabalhados, eles transbordam de forma destrutiva, transformando angústia em agressão física. Embora essa breve análise se disponha a olhar possíveis raízes psíquicas do problema, jamais justifica o ato, que permanece sendo criminoso. Para interromper esse sintoma coletivo, não basta apenas punir o comportamento. É necessário um trabalho interno, em que os homens enfrentem suas próprias dores em busca de uma base emocional sólida e de uma relação madura com o próprio mundo interno.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;Caso ela diga não: as bases psicológicas da agressividade masculina&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/etRBdmwPMRY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/lorenaoliveira/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/lorenaoliveira/">Lorena de Sousa Oliveira &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências bibliográficas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. Sob a sombra de Saturno: a ferida e a cura dos homens. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil. 5. ed. São Paulo: FBSP, 2025. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/items/7c9f57aa-e7d6-4d96-8f11-768fe85a2084. Acesso em: 15 abr. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. O medo do feminino: e outros ensaios sobre a psicologia feminina. São Paulo: Paulus, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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