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	<title>Arquivos japão - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos japão - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Hikikomori – jovens isolados em suas casas e aprisionados pelo complexo materno</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/hikikomori-jovens-isolados-em-suas-casas-e-aprisionados-pelo-complexo-materno/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Aug 2021 12:36:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[hikikomori]]></category>
		<category><![CDATA[japão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O povo japonês é admirado por um lado pela sua disciplina, determinação e por muitos comportamentos que refletem um conceito de cidadania e uma preocupação com o outro que nos espantam. Quem não se lembra de como chamou a nossa atenção os torcedores japoneses recolhendo o lixo nos estádios nos jogos da copa do mundo [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">O povo japonês é admirado por um lado pela sua disciplina, determinação e por muitos comportamentos que refletem um conceito de cidadania e uma preocupação com o outro que nos espantam. Quem não se lembra de como chamou a nossa atenção os torcedores japoneses recolhendo o lixo nos estádios nos jogos da copa do mundo realizado aqui no Brasil? E quem tiver a oportunidade de visitar esse país vai verificar que lá não se encontra nenhum lixo jogado no chão. Agora, na pandemia, também se falou muito como já estava incorporada na cultura desse povo o uso da máscara por alguém que está doente para evitar que outros de se infectassem. No transporte público há um silêncio predominante tanto porque as pessoas não conversam, mas também porque há avisos espalhados por todo o espaço para deixar o celular no modo silencioso durante a viagem, tudo isso para não incomodar os passageiros.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, existem outras situações que nos causam muita estranheza. Em um país com um povo e uma cultura tão virtuosos, a taxa de crescimento da população tem sido negativa, e isso ocorre pela dificuldade que as pessoas têm em se relacionar e, por consequência, namorar, casar e ter filhos. Considerando que lá há rapazes que pagam para serem abraçados e poderem deitar a cabeça no colo de jovens fantasiadas e, moças que trabalham em escritórios e contratam belos rapazes para irem até suas &nbsp;empresas para assistirem a um filme triste juntos, e eles secarem suas lágrimas com um lenço ou afagar seu rosto, tema de outro artigo que escrevi para o IJEP, “Amor e Sexo no Japão, uma sombra que ameaça o país do sol nascente”, podemos entender melhor a origem dos problemas de relacionamento dos japoneses..</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que vemos aqui é um povo muito adaptado aos padrões coletivos de comportamento cuja principal preocupação é o bem-estar do grupo, sendo que o indivíduo tem pouco ou nenhum espaço para se expressar, o que pela psicologia junguiana é fonte de muitas neuroses, que seriam as várias situações singulares que os japoneses vivenciam no que diz respeito a se expressarem individualmente e consequentemente com as relações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas identificações com o papel social são fontes abundantes de neuroses. O homem jamais conseguirá desembaraçar-se de si mesmo, em benefício de uma personalidade artificial. A simples tentativa de fazê-lo desencadeia, em todos os casos habituais, reações inconscientes: caprichos, afetos, angústias, ideias obsessivas, fraquezas, vícios, etc. (JUNG, 2015, §307)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A esse papel social ao qual nos queremos adaptar individualmente, mas que nos leva a um padrão coletivo, Jung denominou de persona, e ainda segundo ele, quanto mais se está identificado com essa persona, mais se perde da individualidade (JUNG, 2015, pág. 172). No caso do povo japonês, conseguimos ver claramente o quanto eles se adequaram a essa persona em detrimento de suas expressões individuais e as neuroses decorrentes desse quadro.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dentre esses fenômenos que nos chamam a atenção, há o <em>&#8220;hikikomori</em>&#8220;, termo que foi primeiramente definido por Tamaki Saito em 1998 em seu livro “<em>Hikikomori, uma adolescência sem fim</em>”, para se referir tanto ao fenômeno quanto às pessoas que vivem em total isolamento social por um longo período.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No prefácio da tradução de seu livro para o inglês, quatorze anos após a primeira publicação do seu livro, Saito (2013) traz algumas informações atualizadas sobre o assunto após ter se tornado um entendido em problemas psicológicos da juventude. O autor traz que, segundo números levantados pelo Gabinete de Governo Japonês, através de uma pesquisa feita em 2010 com 5000 pessoas entre 15 e 39 anos, estimou-se que o número de hikikomoris no Japão seria em torno de 700 mil, porém o autor acredita que a quantidade esteja subestimada devido ao grande sentimento de vergonha associado a esta condição. Para ele um número mais real seria em torno de um milhão de pessoas que estariam em isolamento em suas casas por 6 meses ou mais, sendo que ele cita casos extremos de pessoas que viveram mais de 20 anos nessa condição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ponto que o autor trouxe é que esse fenômeno passou a ser observado em outros países do mundo, citando a Coréia do Sul com 300 mil casos. Além da Coréia do Sul, foi constatada a ocorrência deste fenômeno em outros países como Austrália, Índia, Espanha, Canadá, EUA, França, Reino Unido, Itália e Portugal (Domingues-Castro, Torres, 2018, apud Torres, 2021, p. 197), o que reforça a fala de Saito (2013, p.6) de que a ideia de que “hikikomori deriva de uma patologia da sociedade japonesa é simplesmente um engano (&#8230;) parece ser muito mais plausível que a condição esteja associada a natureza da família e como os jovens lidam com a sociedade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com relação ao entendimento do quadro de hikikomori, Saito participou de um grupo que pesquisou essa condição e, como resultado da pesquisa, foi apresentado que “hikikomoris poderiam ser diagnosticados com algum tipo de distúrbio psicológico”, mas ele não concordou com essa conclusão, em sua opinião os distúrbios psicológicos são um efeito secundário que vêm junto com o quadro, ou seja, é uma consequência do isolamento vivido por essas pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo através do entendimento da psique pela perspectiva da psicologia junguiana, podemos entender a relação de uma característica própria da cultura japonesa não só com o hikikomori, mas, também, com os outros comportamentos dessa cultura que no chocam, e até mesmo com as qualidades que tanto admiramos aqui do outro lado do mundo. Apesar de à primeira vista parecer que isso vai contra a percepção de Saito, de que é um engano achar que o hikikomori é algo se origina da sociedade japonesa, o que iremos ver, a partir da perspectiva da psicologia analítica, é que a condição psíquica que gera esse sintoma é universal e pode ser vivida por qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo, e ao mesmo tempo características da cultura japonesa fornecem condições favoráveis ao surgimento do hkikomori.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No artigo “Quem são os hikikomori, os jovens japoneses que vivem sem sair de seus quartos” de Edd Gent para BBC, publicado em março de 2019, o professor de psiquiatria Takahiro Kato da Universidade de Kyushu e estudioso do tema diz que &#8220;No Japão há um ditado muito famoso que diz: que &#8216;O prego que se destaca leva martelada’ e que as rígidas normas sociais, as altas expectativas manifestadas pelos pais e a &#8216;cultura da vergonha&#8217; fazem com que a sociedade japonesa seja terreno fértil para sentimentos de inadequação e o desejo de querer se esconder do mundo.&#8221; Para ele, esse aspecto da cultura japonesa pode tornar seus jovens mais pré-dispostos a viver isolados em casa quando não se veem em condições de atender às expectativas da sociedade, da família, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O significado do ditado para os japoneses fica mais claro na declaração de um visitante do centro Yokayoka, da região de Fukuoka, mesma região da universidade de Kato, que oferece apoio aos hikikomoris: “A escola é uma monocultura, todo mundo tem que ter a mesma opinião. Se alguém diz algo (diferente/se destaca) está fora do grupo (leva martelada/é castigado)&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe também a dificuldade de se encaixar no modelo de sucesso da sociedade japonesa, devido à estagnação econômica combinada com a globalização que traz o modelo ocidental mais individualista e competitivo do ocidente para um país que é tradicionalmente coletivista e hierárquico, diz o professor Kato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O artigo da BBC também traz a ocorrência deste quadro em outros países, colocando em dúvida a relação do aspecto cultural japonês com o hikikomori.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob a perspectiva da psicologia junguiana, o prego que se destaca é aquele que não se adapta ao padrão coletivo da cultura japonesa, ou seja, não consegue agir de acordo com a persona que a cultura japonesa espera que ele assuma. No caso dos hikikomori, dada dificuldade de atingir as expectativas de sucesso da sociedade e da família japonesa, eles parecem estar vivendo literalmente a condição de exclusão, se isolando e assim ao invés de viverem de acordo com a persona da pessoa bem sucedida, que a sociedade espera e que dá orgulho a família, eles vivem o lado sombrio dessa figura, se recusam a enfrentar o mundo, a crescer, e viram uma vergonha e um fardo para família, vivendo uma adolescência sem fim, como definiu o autor Tamaki Saito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os hikikomori são tomados pelo lado infantil e melancólico que surge na psique para compensar o alto grau de exigência para se tornar o “homem forte” que existe na sociedade japonesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O &#8220;homem forte&#8221; no contexto social é, frequentemente, uma<strong>&nbsp;criança</strong>&nbsp;na &#8220;vida particular&#8221;, no tocante a seus estados de espírito. Sua disciplina pública (particularmente exigida dos outros) fraqueja lamentavelmente no lar e a &#8220;alegria profissional&#8221; que ostenta mostra em casa um rosto melancólico.&nbsp;(JUNG, 2015,&nbsp;§307)</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Jung, “A construção de uma persona coletivamente adequada significa uma considerável concessão ao mundo exterior, um verdadeiro auto sacrifício, que força o eu a identificar-se com a persona “. No caso do povo japonês, temos vários exemplos do quão longe esse auto sacrifício pode chegar. Como o caso dos kamikazes, que eram os pilotos de avião da bomba da 2ª Guerra Mundial, que se lançavam junto com seus aviões em ataques suicidas, para destruir o maior número possível de unidades inimigas e, também, para garantir que não seriam capturados o que seria uma desonra muito pior do que a própria morte. Outro fenômeno que podemos citar é o que acontece com os karoshis que são os trabalhadores que literalmente morrem de tanto trabalhar e o próprio suicídio em si, que no Japão era visto com uma forma honrosa de aliviar o peso da vergonha, que recai tanto sobre a pessoa e, mais ainda, sobre a família, quando alguém fracassa e não se atinge as expectativas da persona do japonês bem-sucedido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse lado sombrio da persona do adulto japonês bem-sucedido é vivido como uma eterna adolescência, em que os jovens não lidam com o medo do abandono da Mãe e ficam presos a um complexo materno, segundo Hollis (2017, p. 15, apud Torres, 2021, p. 201). Encarar medo de abandonar a proteção materna faz parte da passagem para o mundo adulto, e segundo Jung:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;“Não é bastante passar para a idade adulta e nem mesmo separar-se exteriormente da mãe; são celebradas consagrações como homem, particularmente impressionantes, e cerimônias de renascimento que efetivam plenamente o ato de separação da mãe (e, portanto, da infância) (JUNG, 2015, §314)&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, considerando o grau de exigência e pressão que existe para que os jovens japoneses se adéquem ao modelo do adulto bem sucedido, a cultura da vergonha e o sentimento exclusão&nbsp; que recai sobre os “pregos que se destacam”, sob a perspectiva da psicologia junguiana é possível relacionar esses aspectos específicos do modo de vida japonês com o fenômeno hikikomori, jovens presos ao complexo materno, tomados pelo lado infantil e sombrio da persona do adulto ideal para compensar a rigidez desse modelo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao mesmo tempo, esse medo de abandonar a Mãe e partir para a vida adulta faz parte da vida de todos os jovens, e a falta dos ritos de passagem dos dias atuais pode tornar o processo bem mais difícil ou ele pode até não acontecer o que explicaria casos de hikikomori observados em outros países do mundo, dependendo de como se lida coma pressão existente para se atender a essas expectativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como ajuda para tirar os hikikomori do seu isolamento, os japoneses criaram um serviço conhecido como irmãs de aluguel, que seriam moças que fazem o papel de irmãs mais velhas, que vão visitar os hikikomori em suas casas e tentam tirá-los do isolamento. Vale lembrar que na cultura japonesa os irmãos mais velhos têm status e autoridade muito próximos ao dos pais, ou seja, essa ajuda pode ser vista como se contratasse os serviços de uma figura próxima à da mãe em status, mas que fala com eles sem cobrança, sem pressão, respeitando os desejos deles. É como se fosse uma figura materna que vem do mundo externo e chama para esse outro lado, para se contrapor ao medo de se abandonar a mãe, o complexo materno, que os mantêm isolados em suas casas. No documentário “Rent-a-sister: Coaxing Japan’s hikikomori out of their rooms” (Alugue uma irmã: persuadindo hikikomori do Japão para fora de seus quartos) de Amelia Martyn-Hemphil feito para BBC World em janeiro de 2019, pode ser visto como esse serviço funciona e casos de sucesso das irmãs de aluguel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako Kurauti</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro analista em formação pelo IJEP/SP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Didata E. Simone D. Magaldi</p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia">Bibliografia</h1>



<p class="wp-block-paragraph">GENT, E. Quem são os hikikomori, os jovens japoneses que vivem sem sair de seus quartos.&nbsp;<strong>BBC Future</strong>, Março 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>O eu e o Inconsicente</strong>. 27a. ed. Petrópolis: Vozes, v. 7/2, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARTYN-HEMPHIL, A. Rent-a-sister: Coaxing Japan’s hikikomori out of their rooms.&nbsp;<strong>BBC World</strong>, janeiro 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SAITO, T.&nbsp;<strong>HIKIKOMORI &#8211; Adolescence without End</strong>. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TORRES, L.&nbsp;<strong>Comtágio Psíquico:</strong>&nbsp;A Loucura das Massas e suas Reverberações na Mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2021.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-dulce-kurauti"><strong><em>Dulce Kurauti&nbsp;</em></strong></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>Idosos japoneses criminosos: prisioneiros conscientes da justiça e inconscientes da sombra</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/idosos-japoneses-criminosos-prisioneiros-conscientes-da-justica-e-inconscientes-da-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Dec 2019 12:27:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[japão]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No artigo “Aposentados na cadeia: idosos japoneses que se esforçam para serem presos”, escrito pelo correspondente Ed Butler para a rede BBC, ele fala sobre o aumento da criminalidade entre os idosos japoneses e as possíveis causas para essa situação. Segundo o artigo a proporção de pessoas com mais de 65 anos condenadas em 1995 [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">No artigo “Aposentados na cadeia: idosos japoneses que se esforçam para serem presos”, escrito pelo correspondente Ed Butler para a rede BBC, ele fala sobre o aumento da criminalidade entre os idosos japoneses e as possíveis causas para essa situação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o artigo a proporção de pessoas com mais de 65 anos condenadas em 1995 era de 01 em cada 20 condenações e passou agora para 01 em cada 05, ou seja, foi de 5% para 20%, um aumento de4 vezes na taxa. Entre as idosas esse aumento está acontecendo em uma velocidade maior, levando a necessidade de se contratar mais guardas do sexo feminino. A reincidência também é um dado que chama a atenção, dos 2,5 mil condenados com mais de 65 anos em 2016, mais de um terço estava voltando para a cadeia pela sexta vez.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das causas apontadas por um demógrafo australiano que trabalha em Tóquio e fez uma pesquisa sobre os aposentados japoneses é a pobreza. A aposentadoria que eles recebem do governo é insuficiente para pagar todos os custos que eles têm para viver. Diante dessa dificuldade, muitos deles vêm na prisão uma forma de ter moradia, alimentação e cuidados médicos de forma gratuita e com a “vantagem” adicional de poderem poupar a aposentadoria, que continua a ser paga durante o período na cadeia, o que lhes permite ter uma economia quando eles saem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa situação vai contra a imagem que temos dos japoneses, que são tidos como um povo muito respeitador do bom comportamento, da correção e das leis. Sendo assim, causa espanto saber que idosos deliberadamente cometem delitos com a intenção não de se beneficiar do produto “crime”, mas sim, de serem pegos e poderem usufruir dos “benefícios” do sistema prisional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um idoso de 69 anos, entrevistado no artigo, ilustra bem essa situação, ele cometeu a primeira infração com 62 anos. Ele roubou uma bicicleta e se apresentou na delegacia dizendo “Olha, eu roubei isso!” e conseguiu ser condenado a um ano de prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com aparência amistosa, nada ameaçadora, o entrevistado mostrou uma faca para um grupo de mulheres em uma praça na expectativa de que alguma delas ligasse para a polícia. Novamente a estratégia funcionou e com uma sucessão de planos bem sucedidos ele passou metade dos últimos oito anos preso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de existir realmente uma questão financeira, o diretor do centro de reabilitação, onde estava detido o entrevistado, aponta uma causa psicológica como mais forte para explicar esse comportamento: a solidão. As relações familiares mudaram e eles não têm ninguém com quem possam contar. O entrevistado, que não tem mais contato com os irmãos mais velhos, nem com suas ex-mulheres e filhos, reconhece que se pudesse contar com o apoio de familiares certamente não escolheria fazer o que fez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O distanciamento dos familiares também explica o aumento do suicídio entre os idosos, que não querem se tornar um fardo para os filhos, que por conta da crise financeira pela qual passou o Japão, saíram das províncias menores em busca de oportunidades em províncias maiores e deixaram os pais por conta própria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A falta de suporte familiar na vida fora da prisão leva os idosos infratores a acharem que a prisão é uma boa solução para resolver seus problemas de ordem financeira, e uma vez lá, percebem que podem ter também a companhia de pessoas, o que deve influenciar fortemente o desejo de voltar, segundo o diretor do centro de reabilitação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Refletindo sobre a questão sobre o ponto de vista da psicologia junguiana, podemos ver que as virtudes como obediência cega às regras e às leis, a disciplina, a eficiência, a produtividade, que são extremamente valorizadas tanto pelo povo japonês como pelo resto do mundo, foram adquiridas à custa da negação de outras características da natureza humana que foram relegadas a condição de fraqueza. A demonstração de afeto, falhas e erros &nbsp;não são toleradas pois atrapalham e contrariam o modelo a ser seguido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas características da natureza humana que foram negadas ficam relegadas a uma parte inconsciente da personalidade e quanto mais se faz um esforço que permaneçam nessa condição, mais o inconsciente vai fazer um movimento no sentido de fazer com que sejam integrados à consciência, fazendo com que eles se manifestem de forma indesejada, involuntária, compulsiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando nos recusamos a enfrentar a sombra, ou quando tentamos combatê-la com a força da nossa vontade, exclamando: &#8220;Para trás, Satanás!&#8221;, estamos tão-somente relegando essa energia para o inconsciente e dali ela exercerá seu poder de uma forma negativa, compulsiva, projetada. Então, nossas projeções transformam o mundo à nossa volta num ambiente que nos mostra a nossa própria face, mesmo que não a reconheçamos como nossa. Tornamo-nos cada vez mais isolados; em vez de uma relação real com o mundo à nossa volta, existe apenas uma relação ilusória, pois nos relacionamos, não com o mundo como ele é, mas sim com o &#8220;mundo mau e perverso&#8221; que a projeção da nossa sombra nos mostra.” (EDWARD C. WHITMONT &nbsp;in ZWEIG e ABRAMS, 2006, p. 40)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ver a demonstração de afeto como uma fraqueza dificulta enormemente a criação de vínculos verdadeiros e duradouros entre as pessoas, levando as pessoas ao sentimento de solidão e isolamento. Porém ao invés de lidar com a questão das emoções de forma natural, os japoneses encontram as formas mais bizarras de resolverem as angústias que surgem pela dificuldade de terem relacionamentos baseados nos sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso dos idosos criminosos eles trocam sua liberdade pela companhia que encontram nas prisões, com outras pessoas que também se sentem solitárias e que foram forçadas pela lei a viver juntas. Entre as pessoas mais jovens também não é diferente, no o artigo AMOR E SEXO NO JAPÃO – UMA SOMBRA QUE AMEAÇA O PAÍS DO SOL NASCENTE que escrevi baseado em um documentário que mostra as formas fantasiosas que os jovens e os adultos encontram para resolver a dificuldade de se envolver sentimentalmente, que vai desde pagar por um abraço até comprar bonecas que além de servirem de brinquedos sexuais são melhores companhias que seres humanos, pois, foram feitas com expressões em seus rostos que despertam sentimentos em seus donos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outras performances pelas quais o Japão se destaca, como a produção de filmes pornográficos, mangás, a avançada tecnologia na construção de robôs que eles querem que cada vez mais se pareçam com seres humanos mostram como eles projetam nesses recursos a necessidade que eles têm de terem relacionamentos verdadeiros, baseado em sentimentos e emoções com as pessoas, mas como não conseguem, buscam vivê-los em mundo artificial e da fantasia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A intolerância ao erro e às falhas é outro ponto que leva a capacidade de se aprender com os erros e a crescer a partir desse lado sombrio da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa questão é tão rígida na formação da personalidade deles que em muitos casos, ao se cometer algum erro, o suicídio é visto como única saída honrosa para a pessoa que com esse ato de coragem livra a família do peso da vergonha de ter um fracassado dentre seus entes. Apesar de se estar tentando mudar essa mentalidade, o Japão ainda ocupa o topo do ranking de suicídios, o que mostra que eles ainda não conseguiram incorporar a mentalidade de aprender com os próprios erros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso das infrações cometidas pelos idosos que querem ser presos, considerando o tamanho do delito as penas infringidas parecem desproporcionais, pode-se pegar dois anos de prisão pelo roubo de um sanduíche, e ao invés de entenderem a situação pelo lado humano e buscar uma solução que ensine os idosos a serem felizes fora da prisão, o sistema judiciário quer tornar as penas mais severas. Ou seja, rigidez e intolerância&nbsp; a não obediência às regras e às leis.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a>O Japão conseguiu um grau de desenvolvimento financeiro e tecnológico que lhe dá um lugar de destaque no ranking mundial. Essa posição foi conquistada graças a determinação, dedicação e disciplina do seu povo que tem em sua cultura essas características enraizadas e fortalecidas ao longo de uma história milenar. Porém, apesar de agora eles estarem sendo chamados a olhar para questões que dizem respeito a emoções e relações entre as pessoas que também foram desprezadas ao longo de milhares de anos, parecem que eles ainda não estão prontos para desconstruir a imagem de eficiência e perfeição que eles têm diante do mundo e principalmente diante de si mesmos.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako Kurauti</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tel.: (11)99961-7090 email:&nbsp;dulce_kurauti@hotmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph">Consultório na Vila Mariana &#8211; SP</p>



<h1 class="wp-block-heading">Referências</h1>



<p class="wp-block-paragraph">BUTLER, E. Aposentados na cadeia: os idosos japoneses que se esforçam para serem presos.&nbsp;<strong>BBC News</strong>, fev. 2019.&nbsp;<strong>(</strong><a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2019/02/01/idosos-na-prisao-por-que-alguns-aposentados-estao-se-esforcando-para-ir-para-a-cadeia-no-japao.htm">https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2019/02/01/idosos-na-prisao-por-que-alguns-aposentados-estao-se-esforcando-para-ir-para-a-cadeia-no-japao.htm</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">KURAUTI, D. A. AMOR E SEXO NO JAPÃO UMA SOMBRA QUE PAIRA SOBRE O PAÍS DO SOL NASCENTE.&nbsp;<strong>IJEP</strong>, nov. 2018.&nbsp;<a href="https://ijep.sampa.br/index.php/artigos/show/amor-e-sexo-no-japao-uma-sombra-que-paira-sobre-o-pais-do-sol-nascente">https://ijep.sampa.br/index.php/artigos/show/amor-e-sexo-no-japao-uma-sombra-que-paira-sobre-o-pais-do-sol-nascente</a>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, C.; ABRAMS, J.&nbsp;<strong>Ao encontro da sombra</strong>. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Dulce Ayako Kurauti</em></strong></h4>
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		<title>Amor e sexo no japão: uma sombra que paira sobre o país do sol nascente?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 12:17:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">A queda da taxa de natalidade no Japão, levando a inversão da pirâmide demográfica e a índices negativos de crescimento da população, tem sido motivo de preocupação para o governo japonês há algum tempo. Dada a longevidade do seu povo, o topo da pirâmide tem se alargado enquanto sua base tem se estreitado, o que implica em ter menos pessoas em idade produtiva gerando um déficit que ameaça a sustentabilidade da previdência do país. Outro efeito, mais direto, é o saldo negativo entre o número de mortes e nascimentos, atualmente o país decresce 200 mil habitantes por ano e segundo projeções de especialistas até 2060 essa perda chegará a 30% do tamanho atual, levando o total de 127 milhões a cair para 87 milhões de habitantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa situação pode ser explicada em parte porque os homens japoneses se sentem inseguros e desencorajados para casar e constituir família, pois perderam a certeza de estabilidade no emprego após uma crise financeira nos anos noventa e também porque as mulheres japonesas estão cada vez menos dispostas a trocar suas carreiras pela maternidade, pois é costume no país que elas deixem de trabalhar ao se tornarem mães, 70% das mulheres deixam de trabalhar após a primeira gravidez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outras estatísticas também indicam motivos que contribuem significativamente para o número baixo de nascimentos no país: a queda de 30% no número de casamentos nos últimos 30 anos e o baixo índice de filhos fora do casamento, apenas 2% comparado aos 58% da França, por exemplo. Apesar de não ser um fator diretamente ligado à taxa de natalidade, como o casamento é uma condição praticamente necessária para os japoneses se tornarem pais, entender porque eles têm se casado cada vez menos passa a ser essencial para reverter o encolhimento populacional do Japão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antigamente os casamentos eram arranjados, ou seja, os casais eram formados independentemente dos sentimentos dos envolvidos, levando-se em consideração principalmente a opinião e a conveniência das famílias, dificilmente os diretamente envolvidos podiam opinar. Esse costume se tornou antiquado e agora as pessoas têm que encontrar sua cara metade por conta própria, porém apenas abandonar um velho costume não foi suficiente para que eles conseguissem exercer a arte natural, instintiva, da conquista, eles têm dificuldade e se sentem muito inseguros em deixar de ser meros expectadores e passar para o papel de protagonistas dessa busca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para os japoneses demonstrar carinho ou interesse por alguém é considerado um comportamento bastante inapropriado, ou seja, eles se sentem muito envergonhados com situações banais aos nossos olhos como cumprimentar alguém trocando beijos, andar d e mãos dadas com o namorado ou a namorada, dirigir a palavra ou trocar telefones com uma pessoa desconhecida do sexo oposto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As carências decorrentes dessas inibições se tornaram uma boa oportunidade para criação de negócios que chamam a atenção pela forma impessoal com que tratam de questões tão pessoais. No &#8220;Café do abraço&#8221;, onde um rapaz paga por alguns momentos de aconchego, como ser abraçado por uma moça vestida com uniforme de empregada, deitar a cabeça em seu colo ou receber massagem nos ombros por cima da roupa, sendo que nenhum contato mais íntimo é permitido. Moças que nunca dirigiram a palavra a um rapaz desconhecido e que querem ter aulas de sedução recorrem ao &#8220;Namorado de aluguel&#8221; para contratar um rapaz que faz as vezes de um namorado, levando-a para passear de mãos dadas, ato quase que ousado para ela, dividindo um sorvete no parque e outras situações de casal para que ela se sinta a vontade na presença de um homem e que também dá dicas de como agir quando quiser se aproximar de alguém por quem esteja interessada. Mulheres estressadas pela pressão do trabalho podem contratar um &#8220;Ikemeso danshii&#8221;, serviço que consiste em enviar homens considerados atraentes para o escritório das clientes, assistirem juntos vídeos tristes para que elas possam chorar e descarregar suas tensões através do choro com um ombro amigo e ter suas lágrimas enxugadas por esses rapazes, ponto alto do serviço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A fantasia também é uma forma que os japoneses encontraram de lidar com sua inabilidade em se relacionar. Mulheres que querem viver o sonho de uma cerimônia de casamento, mas que ainda não tem um noivo, contratam os serviços de uma realizadora de eventos para que elas possam ter a experiência com tudo a que têm direito, um lindo vestido, maquiagem, buquê, limusine e um álbum de fotos torne eterno esse momento, apesar de se oferecer um ator para posar como noivo, essa opção não é bem aceita entre as noivas solitárias. As heroínas dos videogames e mangás são as mulheres dos sonhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&#8220;A projeção é um mecanismo inconsciente que usamos sempre que é ativado um traço ou característica da nossa personalidade que não está relacionado com a consciência. Como resultado da projeção inconsciente, observamos esse traço pessoal nas outras pessoas e reagimos a ele. Vemos nos outros algo que é parte de nós, mas que deixamos de ver em nós.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako kurauti, Membro Analista do IJEP,</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="mailto:dulce_kurauti@hotmail.com">dulce_kurauti@hotmail.com</a></p>



<h1 class="wp-block-heading">Bibliografia</h1>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, C.; ABRAMS, J.&nbsp;Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Empresa/noticia/2015/09/servico-oferece-homens-atraentes-para-secar-lagrimas-de-clientes.html">http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Empresa/noticia/2015/09/servico-oferece-homens-atraentes-para-secar-lagrimas-de-clientes.html</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.dailymotion.com/video/x5p0s2f">http://www.dailymotion.com/video/x5p0s2f</a></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Dulce Ayako kurauti&nbsp;</em></strong></h4>
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