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	<title>Arquivos maria - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos maria - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Sarah, a sombra e o mar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sarah-a-sombra-e-o-mar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Jul 2025 21:43:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Cada ano, no último final de semana, Sarah é salva das águas pelos guardiões da Camarga….. Isso é parte da procissão que acontece em “Les saintes Maries de la mer” na França, em homenagem à santa padroeira dos ciganos. Este ritual de fé mistura referências tanto judeu-cristãs quanto do povo cigano, que é tido [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Resumo</strong>: Cada ano, no último final de semana, <strong>Sarah</strong> é salva das águas pelos guardiões da Camarga….. Isso é parte da procissão que acontece em “<em>Les saintes Maries de la mer</em>” na França, em homenagem à santa padroeira dos ciganos. Este ritual de fé mistura referências tanto judeu-cristãs quanto do povo cigano, que é tido como oriundo da Índia. Isso nos leva a questionar como símbolos de culturas tão distantes podem vir a se mesclar, buscando compreender, a partir da psicologia analítica, embasada em conceitos do inconsciente coletivo, o significado dessa travessia arquetípica que é simbolizada pelo mito de Sarah La Noire.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-ultimo-dia-24-de-maio-alias-como-todos-os-anos-festejamos-santa-sarah-kali" style="font-size:20px">Nesse último dia 24 de maio, aliás como todos os anos, festejamos “santa” <strong>Sarah Kali</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E isso me trouxe de volta algumas lembranças de infância, especialmente das viagens para “<em>Les Saintes Maries de la Mer</em>”. Eu era ainda muito jovem para saber que o que era para mim férias à beira do mar dessa pequena cidade do sul da França, para muitos, era uma peregrinação para um destino sagrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu propositalmente grafei santa com aspas porque se Sarah tem inspiração cristã, e mesmo tendo seu lugar de culto reconhecido no porão de uma igreja católica, ela nunca foi oficialmente canonizada. Ela é o que chamam uma santa local, ou seja, ela é reverenciada e sagrada somente naquele lugar. E isso lhe confere uma característica muito especialmente simbólica quando lembramos que Sarah é a santa padroeira dos Ciganos, esse povo que não pertence a lugar nenhum, mas caminha levando-a junto, por todos os cantos da terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Falar sobre o povo cigano e sua cultura é muito complexo e controverso, mas sem entrar em demais detalhes, para podermos desenvolver o assunto que nos interessa aqui, o simbolismo de Santa Sarah, e para não cair em estereótipos, é preciso introduzir algumas referências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-primeira-e-que-se-estou-usando-a-palavra-cigano-e-por-comodidade-e-facilitar-a-identificacao-no-entanto-a-palavra-correta-e-roms-e-na-verdade-para-ser-bem-preciso-seria-rroms-com-duas-letras-r" style="font-size:20px">A primeira é que se estou usando a palavra “Cigano” é por comodidade e facilitar a identificação, no entanto, a palavra correta é “Roms” e na verdade para ser bem preciso seria “Rroms”, com duas letras r.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Quem frequenta centros de <strong>Umbanda</strong> e outras casas espiritualistas pode se achar familiarizado com parte dessa cultura, no entanto, por mais que “giras ciganas” sempre demonstrem admiração e carinho, o uso da palavra “cigano” é redutora pois somente faz referência de forma caricatural a somente uma das etnias que formam esse povo multicultural, também chamado Romani.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Ainda nos dias de hoje essa denominação possui uma definição pejorativa, associada até no dicionário a conceitos de quem &#8220;é velhaco, burlador e que trapaceia, que barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota ou sovina&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em segundo lugar, o povo romani é constituído por várias etnias, diferenciadas essencialmente pelos caminhos por onde se espalharam pela Europa e pelos idiomas, sendo as principais os Roms e os Sinti que se encontram essencialmente em países como Romênia, Bulgária e os Kalons mais presentes na península ibérica e América Latina e cujos idiomas e culturas se impregnaram da língua espanhola e ficaram famosos através da arte, especialmente dos estilos musicais como o flamenco e mundialmente representados pela Banda francesa “Gipsy Kings”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Um ponto interessante, e que lembraremos mais adiante, é que, apesar do esforço para unificar esse povo por parte da “união internacional romani”, organização não governamental que representa os interesses e direitos dos Rroms, alguns grupos étnicos ainda se recusam a ser assimilados a outros e não se reconhecem como parte de uma única cultura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Isto parece ser confirmado pela semiótica, na França, desde sempre terra de asilo e ponto de contato de todos os caminhos para todos eles, mesmo querendo impor o politicamente correto “Rrom”, a língua popular ainda mantém vivas várias palavras como Tzigane, Bohemien, Romanichel ou Gitan, para designar os “ciganos” em função de por onde chegaram, Norte, leste ou sul.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-todos-esses-pontos-tornam-muito-complexo-e-quase-impossivel-chegar-a-um-consenso-socioantropologico-sobre-esse-grande-misterio-que-e-a-origem-dos-ciganos" style="font-size:20px">Todos esses pontos tornam muito complexo e quase impossível chegar a um consenso socioantropológico sobre esse grande mistério que é a origem dos ciganos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Por onde passaram e continuam a passar, é bastante claro, em contrapartida, de onde vieram, muito menos. A teoria mais aceita, baseada em estudos das raízes linguísticas, é que teriam se originado da Índia, de onde teriam saído por volta do século 10 depois de Cristo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-entao-se-a-raiz-cultural-e-indiana-por-que-sua-principal-referencia-espiritual-seria-crista" style="font-size:20px">Mas então, se a raiz cultural é indiana, por que sua principal referência espiritual seria cristã?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O fato de que as próprias etnias não se reconhecerem como um único grupo e algumas diferenças culturais obrigam a questionar se esta conclusão se sustenta. E nós que gostamos de observar o mundo por lentes emprestadas por <strong>Jung</strong>, sabemos que o primeiro papel do analista é questionar o óbvio e isso também é verdadeiro quando se quer entender uma tendência coletiva. Lembrando que <strong>Jung sempre frisou que qualquer forma de unilateralidade é uma forma de doença e portanto precisa ser estudada</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O caminho dos ciganos pelo sul da Europa, especialmente pela Espanha até a França, parece seguir o mesmo de outro grupo de nômades que também saíram ou passaram pelo Oriente Médio e com o qual compartilha algumas características, os judeus. <strong>Pode parecer coincidência, mas alguns alegam que não</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<strong>As chaves de Salomão, o Falcão de Sabá</strong>”, Ralph Ellis alega, baseando-se em narrativas bíblicas e revisitadas com fontes arqueológicas, que a palavra Gipsy, que designa os ciganos em inglês, é derivativa da palavra Egyptian, mas em verdade expressa uma verdade histórica esquecida que os ciganos seriam bem originários do Egito e seriam de ascendência semita. Lisardo Cano Monte também apoia essa ideia em “Gitanos, las tribos perdidas de Israel”, no entanto, focando mais especialmente nos kalons. Ambos colocam o início da jornada nômade dos Rroms como um eterno exílio do Egito, no início da era cristã, em direção em parte para a Índia, onde haveria acontecido uma mescla cultural e uma assimilação linguística, o que explicaria por que o idioma romanês parece derivar do Sânscrito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-estudar-a-mitologia-pudesse-nos-ajudar-a-entender-de-fato-a-origem-misteriosa-desse-povo" style="font-size:20px">Talvez estudar a mitologia pudesse nos ajudar a entender de fato a origem misteriosa desse povo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Há várias histórias e lendas que contam a vida de Sarah. A principal tradição conta que ela teria nascido no Egito, na época de Jesus. Alguns dizem que era escrava de Maria, outros, uma parteira, em quem um anjo teria incarnado para assistir Maria, pois nenhuma humana aguentaria a intensidade da luz do filho de Deus quando vier ao mundo. Diz a lenda que após a ressurreição do Cristo, os Romanos, para acabar com o Cristianismo levado em frente por Maria, teriam jogado um barco ao mar, com a bordo, Maria Jacobé, irmã de Maria mãe de Jesus e mãe dos apóstolos Tiago Maior e João evangelista, Maria Salomé, mãe de Tiago Menor e João e Maria Madalena, sem água nem comida para que morressem de sede e de fome junto com Sarah, a escrava.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Após algum tempo o barco à deriva ficou perdido no meio do Mediterrâneo, e Sarah percebendo a iminência de uma tragédia, orou a Deus para que salvasse essas 3 santas mulheres. O barco finalmente chegou com todas sã e salvas na cidade de “Petit Rhone” no sul da França onde foram resgatadas pelos habitantes locais. E então, como forma de agradecimento do milagre que havia acontecido e da sua fé inabalável, Sarah passou a usar, para sempre, um lenço amarrado na cabeça.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-impacto-dessa-chegada-na-vida-local-foi-tao-grande-que-a-cidade-foi-rebatizada-les-saintes-maries-de-la-mer-em-portugues-as-santas-marias-do-mar-e-todos-os-anos-e-o-palco-de-um-ritual-muito-bonito" style="font-size:20px">O impacto dessa chegada na vida local foi tão grande que a cidade foi rebatizada “<em>Les Saintes Maries de la Mer</em>”, em português “<em>As Santas Marias do Mar</em>”, e todos os anos é o palco de um ritual muito bonito.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">No terceiro final de semana do mês de maio, caravanas de carroças e carros levam ciganos de todas as etnias até a cidade para que possam participar da procissão à Santa Sarah que acontece no domingo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Nesse dia, a imagem de Sarah, que fica na cripta da igreja, é levada, escoltada pelos “guardiões”, até o mar, acompanhada por uma multidão de pessoas vindas de todos os cantos do mundo</strong>. Os guardiões são figuras emblemáticas da Camargue, nome da região situada entre os dois braços do rio Reno, onde fica “<em>Les saintes maries de la mer</em>”, e são chamados assim porque pastoreiam e protegem a cavalo seus rebanhos. O ponto culminante deste impressionante ritual de fé acontece quando os guardiões adentram o mar, imergindo até seus cavalos, para alcançar a imagem de Sarah e resgatá-la, levando-a, segura, até o porão da igreja Notre-Dame-de-la-mer (nossa senhora do mar) para protegê-la, repetindo simbolicamente o que haveria acontecido um pouco mais de dois mil anos atrás.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-a-procissao-os-fieis-especialmente-as-mulheres-a-procura-de-engravidar-ou-de-um-casamento-pedem-bencao-ou-agradecem-algum-acontecimento-feliz-amarrando-um-diklo-um-lenco-colorido-nos-ombros-da-santa" style="font-size:20px">Após a procissão, os fiéis, especialmente as mulheres à procura de engravidar ou de um casamento, pedem benção ou agradecem algum acontecimento feliz amarrando um “Diklô”, um lenço colorido, nos ombros da Santa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Este ritual, junto com o acolhimento pelos países de tradição latina (França, Itália, Portugal e Espanha) e o impacto que a cultura cigana teve nesses países de identidade cristã, como o flamenco ou o Gipsy Jazz, historicamente ancorado em Paris, parece sustentar a ideia de uma origem judaico-egípcia do povo Romani.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-introduz-a-questao-dos-arquetipos-e-do-inconsciente-coletivo-como-um-dos-fundamentos-essenciais-da-psicologia-analitica-e-como-ideias-fundamentais-para-compreender-como-simbolos-e-mitos-surgem-em-diferentes-culturas-eles-sempre-expressam-estruturas-psiquicas-comuns-a-humanidade" style="font-size:20px"><strong>Jung</strong> introduz a questão dos arquétipos e do inconsciente coletivo como um dos fundamentos essenciais da psicologia analítica e como ideias fundamentais para compreender como símbolos e mitos surgem em diferentes culturas. Eles sempre expressam estruturas psíquicas comuns à humanidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos <strong>inconsciente pessoal</strong>. Este, porém, repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos <strong>inconsciente coletivo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu optei pelo termo “coletivo” pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal. Isto é, contrariamente à psique pessoal, ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são cum grano salis os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos. Constituindo, portanto, um substrato psíquico comum de natureza psíquica supra pessoal que existe em cada indivíduo (JUNG, C.G. 2016b, 3)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu gosto de me referir aos arquétipos como “DNA espiritual” da espécie humana, como uma forma de lembrarmos que não são personagens, heróis ou deuses em si, mas as ideias primordiais, emoções, bases e aptidões que são as raízes do comportamento humano, pedras e tijolos com os quais ao longo do tempo, construímos hábitos, comportamentos, culturas e civilizações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-simbolo-no-entanto-pressupoe-sempre-que-a-expressao-escolhida-seja-a-melhor-designacao-ou-formula-possivel-de-um-fato-relativamente-desconhecido-mas-cuja-existencia-e-conhecida-ou-postulada-jung-c-g-2015-903" style="font-size:20px">“O símbolo, no entanto, pressupõe sempre que a expressão escolhida seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada.” (JUNG, C.G., 2015, 903)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<em>Símbolos da transformação</em>” (2016, 344), Jung nos explica que os símbolos do inconsciente tendem a se repetir continuamente em inúmeras variações até que o sentido seja compreendido. Ou, em outras palavras, até que o conteúdo inconsciente tenha sido assimilado. Isto é um aspecto essencial para entender a dinâmica do inconsciente coletivo, especialmente quando lembramos que ele também disse que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Os ritos religiosos são representações simbólicas de conteúdos do inconsciente coletivo; são tentativas de assimilação desses conteúdos, que de outra forma permaneceriam fora da consciência.” </p><cite>(JUNG, C.G., 211, 91)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Ou seja, os ritos religiosos, como os contos de fada trazem para nós recados escondidos na sombra coletiva, necessidades de evolução, lições que irão se repetir até que entendamos claramente esses recados, que apesar de já presentes em todos nós, ainda não foram totalmente assimilados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Munidos dessas bases preciosas, nos resta mergulhar no ofício de todo bom analista junguiano, que é observar quais imagens nessa história se destacam para tentar perceber os símbolos e investigar em qual direção eles nos levam. Afinal de contas, a participação em um ritual religioso em muito se assemelha a estar em um sonho coletivo onde todos estão levados por uma sombra individual, em uma direção comum, na esperança da transformação de uma dor particular.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-observar-o-mito-de-sarah-kali-do-meu-ponto-de-vista-tres-aspectos-simbolicos-merecem-um-destaque-especial" style="font-size:20px">Ao observar o mito de Sarah Kali, do meu ponto de vista, três aspectos simbólicos merecem um destaque especial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Primeiramente, Sarah é salva das águas em meio a uma travessia. É muito interessante lembrar que Jung assimila o mar ao inconsciente, e Neumann em “<strong>A Grande Mãe</strong>” a um grande útero-matriz aquático como arquétipo universal de morte e renascimento, associado a ritos de iniciação. No seu ritual de fé, Sarah é salva e devolvida ao mar, numa parada inexorável, repetindo a caminhada e a limpeza, como ensaiando um batismo infinito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ela-e-uma-figura-feminina-quase-mariana-e-o-paralelo-com-a-ideia-da-grande-mae-e-todas-as-heroinas-da-mitologia-grega-e-obvio-mas-o-mais-relevante-e-que-a-imagem-de-sarah-e-preta" style="font-size:20px">Ela é uma figura feminina, quase mariana, e o paralelo com a ideia da grande mãe e todas as heroínas da mitologia grega é óbvio, mas o mais relevante é que a imagem de Sarah é preta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Com certeza não é por acaso que ela é conhecida como <strong>Sarah la Noire</strong> (Sarah a Negra, em português). <strong>A negritude é sua principal característica</strong>. Embora poderíamos abrir uma reflexão étnica e racial que poderia ser até oportuna, o que nos interessa aqui é a mensagem simbólica passada pela adoração de uma figura escura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>La noire</strong> é o negro, a cor da pele, mas também a escuridão da noite na qual nada se vê, o que nos leva ao conceito de <strong>sombra</strong> de <strong>Jung</strong>, este repositório no inconsciente onde escondemos os desejos, as vontades que nos deixam desconfortáveis, mas também tudo aquilo em nós que não queremos enxergar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E se aceitamos a ideia de um inconsciente coletivo, com todas as variações de coletivo, da família, do bairro, da cidade, da religião, de todas as formas possíveis de aglomeração humana, naturalmente temos que aceitar a ideia de uma sombra coletiva e, portanto, repleta de dores comuns com as quais ninguém quer entrar em contato.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<em>The cult of the black virgin</em>”, o analista junguiano <strong>Ean Begg</strong>, diplomado de Oxford e do instituto C.G. Jung de Zurique, faz um amplo estudo das representações de imagens e aparições de Maria de Nazaré negras e constatou que se trata de um fenômeno recorrente, desde a Idade Média. Até imagens de Maria, escurecidas pelo tempo, foram mantidas propositalmente pretas após a limpeza quando poderiam ter apresentado a tradicional feição europeia da mãe do Cristo. E lembramos com certeza da imagem de nossa senhora aparecida, escurecida pelo lodo do rio, mas que a tradição não fez questão de esbranquiçar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-nos-lembra-que-nos-ultimos-150-anos-algumas-das-virgens-maria-reportadas-em-aparicoes-coletivas-eram-negras" style="font-size:20px">Ele nos lembra que nos últimos 150 anos, algumas das virgens Maria reportadas em aparições coletivas eram negras.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Fenômeno que parece querer manter viva a ideia de um feminino oculto, sombrio, mas que não precisa se esconder mais. Ele enfatiza que, tal como o encontro do também negro feminino poderoso da <strong>rainha de Sabá </strong>com o masculino sábio do <strong>rei Salomão</strong> trouxe fertilidade e transformação ao reino, as santas Marias do Mar trouxeram, em Sarah, a luz redentora de Jesus, o rei dos reis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E não importa o ponto de início da jornada, se foi Egito ou Índia, ou se meramente passou por ela em algum momento, mas fato é que, sem que consigamos entender os motivos, os ciganos se encontraram com Sarah na beira do Mediterrâneo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-para-nos-nao-importa-comprovar-ou-analisar-questoes-historicas-ou-antropologicas-mas-sim-ver-como-esse-tipo-de-reflexao-nos-permite-aprofundar-nosso-conhecimento-da-psicologia-analitica" style="font-size:20px">E, para nós, não importa comprovar ou analisar questões históricas ou antropológicas, mas sim, ver como esse tipo de reflexão nos permite aprofundar nosso conhecimento da psicologia analítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A devoção à Santa Sarah pode ser compreendida como integração do arquétipo da Mãe Negra e da Sombra acolhedora. O banho de sua imagem no mar simboliza a travessia, o rompimento das barreiras, a purificação e a reconexão com o inconsciente profundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Se Jung tivesse presenciado esse rito, ele certamente nos reafirmaria que a identificação com a imagem, especialmente religiosa, não acontece pelo estudo, pelo entendimento e pela razão, mas pelo chamado inconsciente da sombra, pela sintonia do arquétipo invisível para os olhos, mas que entra em ressonância com o nosso lado oculto. E talvez o veria como um mito vivo de integração da sombra coletiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mar-seria-o-inconsciente-primordial-os-guardioes-a-cavalo-os-herois-e-sarah-o-arquetipo-da-grande-mae-negra-explicaria-que-o-ritual-reafirma-a-vontade-de-pertencimento-e-a-cura-psiquica-individual-e-coletiva" style="font-size:20px">O mar seria o inconsciente primordial, os guardiões a cavalo os heróis, e Sarah, o arquétipo da<strong> Grande Mãe Negra</strong>, explicaria que o ritual reafirma a vontade de pertencimento e a cura psíquica, individual e coletiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Por mais que a imagem e o ritual em sua superfície se apresentem como cristãos, eles somente permitem dar um rosto a uma temática universal com a qual todos podem se identificar, pois reaviva em cada um questões humanas universais. Portanto, a identificação com o símbolo ou a sensação da necessidade de participar de ritos ou de pertencer a alguma forma peculiar de cultura ou religião pode acontecer sim pela vivência, pela herança espiritual e ancestralidade, mas também porque símbolos e ritos, mesmo de culturas completamente desconhecidas, sempre vão trazer à tona situações que podem tocar no âmago arquetípico que está fundo em cada um de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Para os ciganos, sejam eles do Egito ou da Índia, venerar <strong>Sarah Kali</strong> é honrar essa força de sobrevivência e regeneração necessária à resiliência de todas as minorias. O rito de levá-la ao mar que une o simbolismo do útero aquático à cor negra revela a necessidade de uma imersão no inconsciente, uma travessia, um retorno à origem. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Sarah, salva das águas sombrias, escancara para os <em>gadjês</em>, os não ciganos, tocados pela beleza do resgate daquilo que estava prestes a se perder, o recado que ainda não foi entendido: <strong>O que foi um dia marginalizado, em algum momento, retornará como sagrado</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Sarah, a sombra e o mar" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/C7qqvfSEfNI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Sebastien Baudry &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Begg, E. The Cult of the Black Virgin. Chiron Publications, Acheville-NC, Estados Unidos, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hancock, Ian, We Are the Romani People, Vol. 8, University of Hertfordshire Press. Hatfield, Reino Unido, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav, Psicologia e Religião. Obra Completa, 11/1. 11ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________, Tipos psicológicos. 6 Obra Completa. 9ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ Símbolos da transformação. Obra Completa, 5ª ed. original Petrópolis, RJ: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Obra Completa, 9/1 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann, E. A Grande Mãe. São Paulo, SP, Cultrix, 1994</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>O nascimento do Si-mesmo no simbolismo de Maria</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-nascimento-do-si-mesmo-no-simbolismo-de-maria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Silvana Gomes Venâncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Dec 2024 18:02:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Ciências da Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[mãe de deus]]></category>
		<category><![CDATA[maria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo aborda as perspectivas junguianas do dogma da Assunção de Maria, proclamado em 1950, tendo em vista as considerações psicológicas da recepção de Maria na câmara nupcial celeste. A ideia de Maria como esposa de Deus, segundo Carl Jung, já estava presente desde o Antigo Testamento, na personificação de Sofia. O casamento sagrado, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Resumo</strong>: Este artigo aborda as perspectivas junguianas do dogma da Assunção de Maria, proclamado em 1950, tendo em vista as considerações psicológicas da recepção de Maria na câmara nupcial celeste. A ideia de Maria como esposa de Deus, segundo Carl Jung, já estava presente desde o Antigo Testamento, na personificação de Sofia. O casamento sagrado, simboliza a união dos opostos, no processo de individuação. Maria como a esposa divina, dá à luz ao Deus encarnado, símbolo do Si-mesmo, se tornando portanto a mãe do Si-mesmo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria é o tabernáculo de Deus, é aquela que a tradição cristã chamou de Mãe de Deus (<em>Theotókos</em>). Para Carl Gustav Jung, os dogmas marianos correspondem a um clamor do inconsciente coletivo, uma necessidade psicológica para expressar o feminino de Deus. O Deus dos cristãos que é sempre projetado, percebido, retratado nas artes e nos relatos bíblicos como uma figura patriarcal, recebe uma esposa, uma consorte, a personificação da sabedoria, como Jung expressa em<strong> <em>Resposta a Jó</em></strong>. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-teologia-o-dogma-da-maternidade-divina-de-maria-e-um-dos-mais-antigos" style="font-size:17px">Na teologia, o dogma da maternidade divina de Maria, é um dos mais antigos:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>O primeiro dogma … é o da maternidade Divina de Maria, por ser o mais antigo dos que encontraram lugar na proclamação oficial da igreja. O termo grego que se sintetiza o mistério da fé contido no dogma &#8211; <em>THEOTÓKOS</em> &#8211; Mãe de Deus &#8211;  data do Concílio de Éfeso (431 DS 251),  porém, podemos encontrar o desenvolvimento da Teologia Marial da maternidade Divina ao longo de três grandes Concílios da antiguidade: Constantinopla I (381); Éfeso (431), Calcedônia (451). Em nossos dias, o Vaticano II (1962-65) retomou a doutrina desses Concílios e lhes deu Nova luz.</p><cite>GEBARA: BINGEMER, 1978, p.110</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Maria ocupa um lugar especial no imaginário do cristão católico, ela é a Mãe, e representa para muitos teólogos, o rosto feminino de Deus</strong>.  Maria reflete o feminino de Deus e preenche essa lacuna no cristianismo. No entanto, para nós protestantes o vácuo é ainda maior. O Deus protestante, masculino, herdeiro da modernidade, carece de uma imagem feminina. Como protestante, foi na formação teológica, numa Universidade Católica, que Maria se apresentou para mim. E como junguiana, ela ocupa esse lugar simbólico de mãe de Deus e geradora do Si-mesmo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>A tradição da fé concentrou o feminino em Maria, mãe de Jesus. Ali viu realizadas todas as possibilidades numinosas e luminosas do feminino a ponto de ela ser simplesmente a <em>Nossa Senhora</em>: ela é virgem, é mãe, é esposa, é viúva, é rainha, é a sabedoria, o tabernáculo de Deus etc.  </p><cite>BOFF,  1979, p. 15</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-consorte-de-jave-segundo-carl-jung-ja-estava-presente-no-inconsciente-religioso-desde-o-antigo-testamento-na-ideia-de-sofia-que-estava-junto-de-deus-na-criacao-do-mundo-nbsp" style="font-size:17px">A consorte de Javé, segundo Carl Jung, já estava presente no inconsciente religioso, desde o Antigo Testamento, na ideia de Sofia, que estava junto de Deus na criação do mundo.&nbsp;</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>No livro da Sabedoria de Salomão, apócrifo de época bastante posterior (100 -50a.C.), a natureza pneumática da Sofia e seu caráter de plasmadora do universo se projetam de modo ainda mais claro como ‘maia’. “E, de fato, a Sabedoria é um espírito amigo dos homens”, a “artífice de todas as coisas”. “Existe nela um espírito santo intelectivo” (πνεῦμα νοετὸν ἄγιον), uma “exalação (ἀτμίς) do poder divino”, um “eflúvio (ἀπόρροια) da glória do Todopoderoso”, um “resplendor da luz eterna , um reflexo da divina obra”, um ser constituído de matéria sutil, que tudo penetra com sua presença. Está em íntima união com o Deus (συμβίωσιν ἔχουσα), e o Senhor de todas as coisas (πάντων δεσπότης) a ama. </p><cite>JUNG, 1952/2013, § 613</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-dogmas-marianos-sofia-e-atualizada-na-personificacao-da-mae-divina-maria-a-consorte-de-deus" style="font-size:17px">Nos dogmas marianos, Sofia é atualizada na personificação da mãe divina, Maria, a consorte de Deus.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Maria é um nome composto de duas raízes, uma egípcia e outra hebraica. Myr em egípcio significa amada e <em>yam</em> em hebraico constitui uma das abreviações da Javé (<em>ya</em> ou <em>yam</em>). Maria o Miryám quer dizer, então, a amada da Javé, a bem-amada de Deus. </p><cite>BOFF, 1980, p. 35</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Maria ganha definitivamente esse lugar de consorte de Deus, para Carl Jung, no <strong>dogma da Assunção</strong>. Que além de representar um clamor do povo, é a introdução do feminino de corpo e alma na divindade cristã.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Há muito tempo se sabia que um profundo desejo despertar no coração das massas no sentido de que a intercessora e mediatriz dos homens ocupasse seu devido lugar junto à Santíssima Trindade e fosse recebida “como rainha do céu e esposa na corte celeste.</p><cite>JUNG, 1952/2013, §748</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Carl Jung, o dogma proclamado pelo Papa Pio XII, no dia 1º de novembro de 1950, demonstra a coragem do Pontífice de ir contra a razão moderna. “Sob o ponto de vista psicológico é de importância para os nossos dias que a esposa Celeste tenha sido associada a seu esposo no ano de 1950.” (JUNG, 1952/2013, §748).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a entrada de Maria na corte celeste, acontece na concepção junguiana, a união dos opostos. Do masculino com o feminino, do divino com o humano, tornando-se o símbolo dos demais pares de opostos. No casamento sagrado, o <strong><em>numinoso </em></strong>se manifesta, como um problema religioso.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-carl-jung-entende-a-religiao-como-a-atitude-particular-de-uma-consciencia-transformada-pela-experiencia-do-numinoso-jung-1938-1978-9" style="font-size:17px">Carl Jung entende a religião como, “a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do <em>numinoso</em>” (JUNG, 1938/1978, §9).</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>A transformação da Assunção de Maria em dogma aponta para a realização do hierógamos no pleroma, por sua vez, se refere como já foi dito, ao futuro nascimento do menino divino que, em virtude da tendência divina a encarnar-se, escolherá o homem empírico para nele se realizar. Este acontecimento metafísico é conhecido pela psicologia do inconsciente como processo de individuação.</p><cite>JUNG, 1952/2013, § 755</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Os dogmas marianos, de Theotókos e da Assunção formam o palco celeste para o nascimento do menino divino, a partir de uma realidade transcendente. Para o junguiano Edward Edinger, a encarnação representa simbolicamente, o movimento do do Si-mesmo para encarnar num ego individual.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>A vida de Cristo, entendida em termos psicológicos, representa as vicissitudes em sua encarnação num ego individual, bem como as vicissitudes do ego no processo de participação nesse drama Divino. Em outras palavras, a vida de Cristo representa o processo de individuação.</p><cite>EDINGER, 1987, p. 15</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O casamento sagrado, a união dos opostos é representada pela entrada de Maria na corte celeste, como esposa de Deus, como&nbsp; personificação da mãe divina. Esse drama cósmico, representa no processo de individuação, a necessidade que a consciência tem de se confrontar com o inconsciente, no sentido de promover um equilíbrio entre os opostos. Assim sendo, com o desenvolvimento da função transcendente, o inconsciente produz símbolos, que ampliados pela consciência, segundo Jung, tornam visíveis a união irracional dos contrários.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Mas, para que se tome consciência do processo de individuação, é preciso que a consciência seja confrontada com o inconsciente e se chegue a um equilíbrio entre os opostos. Como isto é logicamente impossível, necessitam-se de símbolos que sirvam para tornar visível a união irracional dos contrários. Estes símbolos são produzidos espontaneamente pelo inconsciente e ampliados pela consciência. Os símbolos centrais deste processo descrevem o si-mesmo, isto é, a totalidade do homem, de um lado, por meio daquilo que lhe é consciente e, de outro, por meio do conteúdo inconsciente. O simesmo é τέλειος ἄνθρωπος, o homem completo, cujos símbolos são o menino divino ou seus sinônimos.</p><cite>JUNG, 1952/2013, § 755</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A totalidade religiosa de Deus clama pela presença do feminino na divindade. Com o dogma da Assunção, Maria é oficialmente admitida&nbsp; na divindade ao lado da Trindade, formando umaquaternidad<em>e</em>. Ela ocupa o lugar de Mãe de Deus, como uma pessoa divina, ela se torna a mãe do Si-mesmo. No entanto, é importante ressaltar que com o dogma da Assunção, Maria não alcançou o status de Deusa no sentido dogmático.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Como totalidade, o si-mesmo é sempre, <em>per definitionem</em>, um <em>complexio oppositorum</em> e seu modo de aparecer é tanto mais obscuro e ameaçador, quanto mais a consciência reivindica para si uma natureza luminosa, alimentando consequentemente pretensão de uma autoridade moral.</p><cite>JUNG, 1952/2013, § 716</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Carl Jung acreditava que o arquétipo da totalidade se aproximava&nbsp; da imagem de Deus. “A competência da psicologia enquanto ciência empírica não vai além da possibilidade de constatar, à base de uma pesquisa comparativa, se o tipo encontrado na alma pode ou não ser designado como uma “imagem de Deus” (JUNG, 1944/2011, § 15). No entanto, em <em>Resposta a Jó</em>, ele alerta&nbsp; que embora o arquétipo da totalidade possa ser aproximado da&nbsp; imagem de Deus, ele não pode ser confundido com o inconsciente em si:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>“feito acima, sobre o caráter indiferenciável da imagem de Deus no inconsciente: a imagem de Deus não coincide propriamente com o inconsciente em si, mas com o conteúdo particular deste último, isto é, com o arquétipo de si-mesmo. Este último já não podemos separar, empiricamente, da imagem de Deus;</p><cite> JUNG, 1952/2013, § 757</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A entrada da Mãe de Deus na Câmara nupcial do céu, nos convida a pensar no fruto desse encontro, entre o humano e o divino, entre o femnino e o masculino. Embora Maria seja humana, logo no início da tradição cristã, ela ganha um caráter especial de mulher divina.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-livro-apocrifo-proto-evangelho-de-tiago-tambem-chamado-de-natividade-de-maria-ela-tambem-tem-um-nascimento-milagroso" style="font-size:17px">No livro apócrifo<em> Proto Evangelho de Tiago</em>, também chamado de “Natividade de Maria” , ela também tem um nascimento milagroso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Eis que se lhe apresentou o anjo de Deus, dizendo-lhe:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Ana, Ana, o Senhor escutou teus rogos! Conceberás e darás à luz e de tua prole se falará em todo o mundo. Ana respondeu:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Viva o Senhor meu Deus, que, se chegar a ter algum fruto de bênção, seja menino ou menina, levá-lo-ei como oferenda ao Senhor e estará a seu serviço todos os dias de sua vida. Então vieram a ela dois mensageiros com este recado:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Joaquim, teu marido, está de volta com seus rebanhos, pois que um anjo de Deus desceu até ele e lhe disse que o Senhor escutou seus rogos e que Ana, sua mulher, vai conceber em seu ventre. Tendo saído Joaquim, mandou que seus pastores lhe trouxessem dez ovelhas sem mancha. Disse ele:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Estas serão para o Senhor. Mandou, então separar doze novilhas de leite, dizendo:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Estas serão para os sacerdotes e para o sinédrio. Finalmente, mandou apartar cem cabritos para todo o povoado. Ao chegar Joaquim com seus rebanhos, estava Ana à porta e, ao vê-lo chegar, pôs-se a correr e atirou-se ao seu pescoço dizendo:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Agora vejo que Deus me bendisse copiosamente, pois, sendo viúva, deixo de sê-lo e, sendo estéril, vou conceber em meu ventre. Então Joaquim repousou naquele dia em sua casa. No dia seguinte, ao ir oferecer sua dádivas ao Senhor, dizia para consigo mesmo:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Saberei se Deus me vai ser favorável se eu chegar a ver o éfode do sacerdote. Ao oferecer o sacrifício, observou o éfode do sacerdote, quando este se acercava do altar de Deus, e, não encontrando pecado algum em sua consciência, disse:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Agora vejo que o Senhor houve por bem perdoar todos os meus pecados. Desceu Joaquim justificado do templo e foi para casa. O tempo de Ana cumpriu-se e no nono mês deu à luz. Perguntou à parteira:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— A quem dei à luz? A parteira respondeu:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>— Uma menina.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Então Ana exclamou:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em> — Minha alma foi enaltecida — e reclinou a menina no berço.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-fim-do-tempo-marcado-pela-lei-ana-purificou-se-deu-o-peito-a-menina-e-pos-lhe-o-nome-de-maria-pro-evangelho-de-tiago" style="font-size:17px">Ao fim do tempo marcado pela lei, Ana purificou-se, deu o peito à menina e pôs-lhe o nome de Maria” (Pro Evangelho de Tiago).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como como protestante, Maria não faz parte oficialmente do meu imaginário religioso, no entanto como diz Jung:  “<strong>A necessidade religiosa reclama a totalidade, e é por isso que se apodera das imagens da totalidade oferecidas pelo inconsciente, que emergem das profundezas da natureza psíquica independentemente da ação da consciência</strong>” (JUNG, 1952/2013, § 757).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim sendo, Maria como mãe do Si-mesmo, como mãe de Deus ocupa um lugar especial na minha vida religiosa. Como aquela que representa o acolhimento, a face doce de Deus. Mas existe um lado sombrio que necessita ser abarcado. O <em>numinoso</em> provoca transformação, e não está na ordem do controle, por isso a sombra, o inconsciente, o medo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade.</p><cite>JUNG, 1938/1978, §6</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-maria-na-anunciacao-e-envolvida-pela-sombra-de-deus" style="font-size:17px">Maria, na Anunciação, é envolvida pela sombra de Deus.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:16px"><blockquote><p>Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra;” (Lucas 1:35).  Segundo Edinger, “a expressão ‘te cobrirá com a sua sombra’ (<em>episkiazo</em>) refere-se ao ser envolvido numa nuvem pela presença divina.</p><cite>EDINGER, 1987, p. 22)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Maria é o tabernáculo de Deus envolvido pela nuvem de Javé. A nuvem aparece no deserto, Moisés foi envolvido pela nuvem, no templo de Salomão a nuvem também aparece. Ela simboliza&nbsp; o aspecto sombrio (Cf.: EDINGER,1987, pp. 22-23), do nascimento suspeito da criança divina, representando os aspectos sombrios da alma que necessitam ser integrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">Maria mãe de Deus, mãe dos pobres, símbolo da Terra e do feminino de Deus. A trajetória mariana possui um lugar especial como símbolo do processo de individuação. O drama do  nascimento de Jesus, e a maneira como Maria obedece às ordens do anjo, simboliza o ego servindo ao Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria é toda de Deus, transcendendo o ser humano, e entra na esfera do Sagrado definitivamente com o Dogma da Assunção. Admitir isso, não está na ordem da razão, mas do Sagrado, do <em>numinoso</em>, da alma. Assim como o nascimento do Deus encarnado simboliza o nascimento do Si-mesmo, Maria com a mãe de Deus é a mãe do Si-mesmo.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em><strong>Silvana Venancio &#8211; Analista em formação IJEP</strong> e Doutora em Teologia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><strong><em><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></em></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">BOFF,  Leonardo.<em> O rosto materno de Deus: ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas. </em>Petrópolis: Vozes 1979.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">BOFF,  Leonardo. <em>A Ave Maria o Feminino e o Espírito Santo. </em>Petrópolis: vozes, 1980.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">EDINGER, Edward. <em>O Arquétipo Crsutão: um comentário junguiano sobre a vida de Cristo</em>. São Paulo: Cultrix, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">GEBARA, Ivone, BINGEMER, Maria Clara. <em>Maria, Mãe de Deus e Mãe dos Pobres &#8211; Um ensaio a  partir da mulher e da América Latina. </em>Petrópolis: Vozes, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl.&nbsp; (1978). <em>Psicologia e Religião</em>. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol. 11/1). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em inglês em 1938.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">________.  (2013). <em>Resposta a Jó</em>. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol. 11/4). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em alemão em 1952.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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