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	<title>Arquivos Medicalização - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Medicalização - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A arte da cura, apesar da medicalização da vida e negação dos ritmos.</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-arte-da-cura-apesar-da-medicalizacao-da-vida-e-negacao-dos-ritmos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Jul 2022 18:58:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ansiedade]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Tempos de tragédia, conflito, incertezas e medo nos fazem ficar paralisados. Principalmente quando perdemos a ilusão de que tínhamos controle e poder e que para qualquer problema sempre encontraríamos um remédio para resolver. Essa arrogância nos fez provocar muita desarmonia psíquica, social e ambiental e perdermos a conexão com o sagrado que habita nosso íntimo. Agora precisamos de cura, que significa integridade e amor.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Somos gerados e gestados de forma natural, em sintonia com a mãe natureza e no ritmo da dimensão lunar, como toda expressão de vida do planeta. Porém, o processo de socialização acaba tornando-nos “normais” e, em função da nossa disfuncionalidade sociocultural e econômica, que está exageradamente patriarcal e solar, na realidade ficamos normóticos, muito propensos para negar, e até destruir, nossa natureza interna e, consequentemente, a externa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta sociedade competitiva, consumista e cumulativa, Gaia é desrespeitada, abusada e reprimida. Mas, como a natureza não pode ser controlada, começam a surgir os pruridos, as “coceiras” existenciais, por conta da desconexão com a finalidade existencial, que a homeopatia chama de Psora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gaia, a mãe terra, deseja e necessita trocar livremente. Dar, receber e retribuir, de forma harmoniosa e circumambular, em sintonia com o Sol e com a Lua, no ritmo eterno da espiral tridimensional e evolutiva do <em>Unus Mundus</em>. Infelizmente, o antropoceno está, como fez Urano no passado, interditando esta dança cósmica do planeta Terra, conspurcando a pericorese divina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece que estamos reproduzindo, arquetipicamente, relatos históricos da mitologia greco-romana, presente em nosso inconsciente coletivo, quando Urano, criado por Gaia com o propósito de estabelecer com ela uma união saudável, criativa e harmoniosa, assume o poder e aprisiona toda criação no ventre dela, nas suas entranhas, para continuar eternamente no controle e no poder.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois de algum tempo, Gaia surpreendeu Urano com o surgimento de seu filho Cronos já adulto, também conhecido por Saturno, que castrou seu pai com sua foice, libertando toda criação do ventre da sua mãe Gaia. Porém, como o poder patriarcal é inebriante, assumindo o lugar do pai, ele passa a devorar seus filhos para evitar futuros competidores. E assim a história segue, passando por Zeus até chegarmos nos tempos modernos, em que ainda sofremos com os reflexos de Saturno nas atitudes e ideologias presentes nas camadas dominantes e materialmente mais ricas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta realidade gera muita desigualdade, exclusão e desconforto existencial. Mantendo a maioria das pessoas alienadas de si mesmas, atuando preponderantemente na manutenção da vida, em busca de biosobrevivência, matando para não morrer, comendo para não ser comida, muitas vezes literalmente. Mesmo assim, neste estado reptiliano que transforma a maioria dos seres humanos em bem de produção, o Self tenta contribuir para que alguma possibilidade criativa venha à tona, para resgatar a humanidade e a restabelecer a conexão com alma, o universo inconsciente que aspira realização, como Carl Jung nos ensinou.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os meios mais usuais, naturais e espontâneos que o Self utiliza para essa religação são os sonhos, as ocorrências de sincronicidade, as produções criativas que nos atravessam, e quando nada disso funciona, começam surgir os sintomas, com mal-estar, desconfortos e outros transtornos de humor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Caso esses pequenos desconfortos não sejam suficientes para que o indivíduo, aquele é indivisível – apesar de ser múltiplo, complexo, único, criativo e plural – encontre sua integralidade e reconecte-se ao&nbsp;Self&nbsp;e a Grande Mãe, os desconfortos vão se agravando, individual e coletivamente, até surgirem as tragédias, os desastres, os sintomas de adoecimento, que chamamos de intercorrências psicossomáticas, e as neuroses como meios para tentar restaurar,&nbsp;enantiodromicamente, os ritmos negados, para que o processo de individuação possa ser acionado e vivenciado conscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A hipertrofia do patriarcado produz o monoteísmo da razão, a egolatria, o egoísmo, a rigidez hierárquica, o&nbsp;territorialismo&nbsp;exagerado, a competição desenfreada e desumanizada. Retornamos, arquetipicamente, na dimensão do Saturno devorador, e dos excessos das divindades greco-romanas&nbsp;Héstia, Ares e Hermes, respectivamente fazendo-nos defensores amedrontados e obcecados daquilo que imaginamos ser nossa propriedade territorial, lutadores parciais e violentos,&nbsp;crédulos consumidores de bugigangas e informações rasas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa realidade estimula a unilateralidade. Porém, na teoria da psicologia junguiana sabemos que a Psique é bipolar por excelência e quanto mais rejeitamos isso, tentando manter apenas um no inconsciente, abrindo mão do modo simbólico, em detrimento do diabólico, compensatoriamente, o Self irá se encarregar de fazer o contraponto opositivo, de forma tranquila, por meio de expressões criativas ou sonhos, ou de forma violenta, por meio de sintomas, como já foi dito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas as dinâmicas individuais, familiares e culturais, expressas na consciência, possuem seus contrapontos opositivos no inconsciente. Desta forma, quando um lado fica muito potencializado, o outro também fica provocando projeções ou identificações sombrias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta situação atípica que estamos vivenciando, os polos podem ficar mais exacerbados, os complexos mais ativados e até autônomos, e a sombra potencializada, projetada no entorno relacional ou assumida no próprio indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No âmbito familiar tudo isso fica mais exagerado ainda, porque o núcleo familiar, devido as questões trasngeracionais, somadas com as expectativas depositadas multilateralmente, irá sintonizar todos os membros em complexos e sombra, presentes no inconsciente familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudando a dinâmica do Self familiar, fica evidente que todos os membros, consciente ou inconscientemente, sabem onde fica o “botão” do pânico dos demais parentes. Desta forma, se o grupo familiar conseguir estabelecer, respeitosamente, a prática do diálogo, com transparência e socialização das emoções, conscientes da necessidade de criar meios de equidade entre todos, surgirão transformações surpreendentemente saudáveis, deixando todos mais predisponentes a seus processos de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na individuação, que é uma meta utópica, chegamos na consciência unitiva da não dualidade. Neste caso, acaba a dimensão opositiva entre Ego e Sombra, Persona e Anima/us, Instintos e Arquétipos. Mas, quem é ou foi individuado? Apenas na condição de ataraxia e aponia, que é a condição da morte dos deuses gregos, que saberemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Egoicamente deveríamos saber que não somos nada e, quando a experiência deste estado de não ser e de nada saber afloram, podemos vislumbrar reflexos do Tudo e do Todo. Apenas alguns fragmentos da pluralidade e diversidade do Self já possibilitam que aquilo que chamamos de Eu reconheça sua finitude diante da infinitude de Deus, ou Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como somos adestrados exageradamente para o dinamismo patriarcal, tendemos a ficar literais, materialistas, hierárquicos, competitivos, cumulativos, consumistas, rasos, superficiais, negando e fugindo desesperadamente do mundo interior, assumindo cada vez mais atribulações, compromissos e ocupações, ficando insones, compulsivos e obsessivos, até recebermos o diagnóstico de depressão, quando não surgem doenças auto imunes e outras psicossomatizações ainda mais graves.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depressão deveria ser compreendida como uma oportunidade para descermos no “poço” para resgatar a relação com a nossa Psique ou alma. É o momento em que a energia psíquica deixa de fluir na dinâmica de progressão e adaptação ao mundo externo, voltando-se para as demandas do mundo interno, o âmbito do inconsciente, deixando de ficar direcionada exclusivamente para frente, para fora e para cima, passando para a direção regressiva, que equivale a ir para trás, para dentro e para baixo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A regressão da energia psíquica serve para que o ego possa reconhecer, servir e contemplar o Self, que tem equivalência à <em>Imago Dei</em> em nós, podendo ressacralizar nossa existência. Infelizmente, a regressão da energia psíquica, que é natural, rítmica e muitas vezes necessária para compensar unilateralidades e monotemáticas do ego, que tendem para a inflação e o monoteísmo da consciência, foi transformada em patologia e é amplamente medicalizada, para ser negada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A depressão virou um grande guarda-chuva abarcando outros movimentos da energia psíquica, com suas respectivas emoções, num senso comum que acabou com a diferenciação dela entre angústia, tristeza, melancolia, ansiedade ou medo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa narrativa reducionista e patologizante dos movimentos rítmicos da energia psíquica nega e desrespeita os mais variados ritmos, que nos atravessam consciente ou inconscientemente. Ritmos que deveriam ser aceitos como as estações do ano, onde na primavera e verão tudo fica mais colorido, quente, alegre, florido e expansivo, enquanto no outono e inverno mais cinza, frio, triste, incubado e introspectivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mais provável razão para esse reducionismo patológico dos ritmos, movimentos e direções da energia psíquica, que são naturais e necessários, é a falta de sentido e significado existencial onde o ego sucumbe aos condicionamentos, códigos de conduta sociais ou adaptações a traumas ou micro traumas, mantendo-se aprisionado na sua miserabilidade egoísta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este estado de negação e distanciamento do si mesmo faz com que seja negada tanto a multiplicidade psíquica, quanto a diversidade e pluralidade humana, produzindo ressentimentos ou culpas pelo passado, medo e ansiedade pelo futuro, e dificuldade de reconhecer a infelicidade comum em nós mesmos e na maioria das pessoas, que fogem da experiencia de estar presentes no presente, por conta do estado neurótico da normose materialista, competitiva e cumulativa, deixando de vivenciar o aqui e o agora como uma eterna oportunidade de aprendizado e expansão da consciência. O eterno presente do presente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A indiferenciação e a psicopatologização das emoções humanas ou estados de espírito, geralmente reduzidas na vala comum da depressão, impediu que as variações de humor, que são naturais e podem servir para anunciar as demandas do Self e nossas reações frente aos diferentes afetos que nos acometem estimulou, ainda mais, a medicalização da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A angústia, é o aperto pela falta de sentido existencial. Pode ser mais uma excelente oportunidade para o a percepção e o questionamento do mal-estar e a busca de um propósito existencial, acabou associada a depressão. A tristeza, que serve para digerirmos perdas de algo ou o fracasso, um luto a ser vivenciado, o nojo necessário para lidarmos com a efemeridade da vida, que consome vida para não ser consumida por outra vida, também virou depressão e é medicalizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A melancolia, que também virou depressão, é a nigredo que serve para propiciar a percepção da sombra, apesar do medo do negrume da noite escura da alma, pode apresentar e anunciar a numinosidade do Eros, e nos ensinar amar estar amando de forma altruísta universal e incondicional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ansiedade expressa a falta de paciência, a falta e o vazio, o descontentamento pela inexistência de conteúdo, o descontentamento. Por fim, medo, que é um instrumento necessário para preservar a vida, quando fica ausente, transforma-se em loucura, e quando fica exagerado, impede a vida, mas quando suficiente e saudável pode nos proporcionar a coragem, que é a ação do coração para criarmos, transgredirmos a normose e seguirmos adiante a serviço do Self. Por isso, Jung sempre aponta para a arte, como instrumento de transcendência e ressignificação da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana – acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige; embriaga como a orgia e como o êxtase.&#8221; (Raul Pompeia – O Ateneu)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que as expressões criativas aflorem, a alma precisa de tempo, a anergia psíquica precisa fazer seu caminho regressivo, para que o Ego possa resgatar a criança divina, a representante da função transcendente, que pode propiciar a união mística da transmutação simbólico do chumbo em ouro, na metáfora alquímica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para isso, precisamos nos libertar das dívidas contraídas pela persona dominante, renunciar à ilusão do poder e reconhecer nossa vulnerabilidade e compreender que o mal é uma realidade presente, que precisa ser vigiado constantemente, e que a cura é a verdadeira arte. E aceitarmos que a felicidade depende de vivenciarmos e aceitarmos integralmente e conscientemente o sofrimento do nosso existir, com alegrias e tristezas, amarguras e doçuras, beldades e fealdades, ganhos e perdas, atrações e repulsões, prazeres e dores, nascimentos e mortes! Porque só encontramos a verdadeira luz depois do reconhecimento da sombra e de fazermos a união simbólica das partes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi Filho &#8211; Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Medicalização da vida: uma questão de saúde, educação ou política?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/medicalizacao-da-vida-uma-questao-de-saude-educacao-ou-politica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Jun 2019 12:15:44 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>​​​​​​​Medicalização poder ser vista como uma atitude, maneira de ver, viver e se conduzir em que o que não corresponde ao padrão esperado (normal, saudável etc.) é julgado como uma doença no indivíduo, que precisa ser evitado, prevenido, tratado e curado: problema médico. Disto decorre o termo "medicalização" que não ser reduz, exclusivamente, a prescrição de medicações literalmente falando, mas do olhar que transforma em doença médica tudo que é vivido como erado, ruim, moralmente reprovável etc. Por exemplo: se toda dor de cabeça for vista como uma cefaleia ela deverá ser investigada, cuidada, tratada dentro de protocolos médicos. Ela será submetida a linguagem e a todos os procedimentos médicos. </p>
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<p class="wp-block-paragraph">O que a perspectiva Junguiana pode contribuir no debate sobre a</p>



<p class="wp-block-paragraph">medicalização da vida?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Medicalização poder ser vista como uma atitude, maneira de ver, viver e se conduzir em que o que não corresponde ao padrão esperado (normal, saudável etc.) é julgado como uma doença no indivíduo, que precisa ser evitado, prevenido, tratado e curado:&nbsp;problema médico. Disto decorre o termo &#8220;medicalização&#8221; que não ser reduz, exclusivamente, a prescrição de medicações literalmente falando, mas do olhar que transforma em doença médica tudo que é vivido como erado, ruim, moralmente reprovável etc. Por exemplo: se toda dor de cabeça for vista como uma cefaleia ela deverá ser investigada, cuidada, tratada dentro de protocolos médicos. Ela será submetida a linguagem e a todos os procedimentos médicos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva Junguiana, para que algo seja visto e vivido como &#8220;errado&#8221;, &#8220;ruim&#8221;, &#8220;prejudicial&#8221; é necessário uma comparação entre o evento presente e uma referência avaliada como &#8220;certo&#8221;, &#8220;bom&#8221; ou &#8220;favorável&#8221;. Este julgamento aconteceria na dependência de um&nbsp;complexo&nbsp;associativo que daria a interpretação do evento atual, quer a consciência percebesse ou não. Não haveria acesso a nada imediatamente dado; sempre uma interpretação mediada por algum complexo associativo (imagem afetiva) que faria com que o que surge no presente fosse visto e vivido como tendo determinado sentido e significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Complexos organizam-se por padrões coletivos, universais, históricos, culturais seguindo grandes temas (padrões arquetípicos) e com isto levam as pessoas, famílias, instituições etc. a pensarem, julgarem, de acordo com os&nbsp;valores&nbsp;(JUNG, Energia Psíquica, 2013) que os configuraram; conduzindo as formas de viver, morar, produzir, relacionar-se na família, trabalho, cultura etc., muitas vezes sem que a consciência perceba &#8211; inconscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os valores coletivos se realizam afetando os sujeitos: o que tem mais valor afeta mais e produz mais força de associação; o que tem menos valor afeta menos ou passa sem ser percebido. Assim os valores universais ou coletivos realizam-se singularmente num processo de individuação que configura complexos que conduzem os sujeitos, dando a base de interpretação do que aparece na vida psíquica, a maioria das vezes inconscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Complexos como conjuntos associativos com autonomia e independência em relação à consciência podem ser personificados como pessoas em nós. Não se tem complexos, os complexos é que podem nos ter. E mesmo o que é denominado como &#8220;eu&#8221; seria um complexo associativo entre vários outros complexos. Sujeito seria muito mais do que o complexo do Eu e existiria antes mesmo que qualquer associação se formasse ligada ao hábito de dizer eu. Em poesias coligidas um poema de Fernando Pessoa (PESSOA, 1977, §711) pode ajudar na aproximação desta experiência de sujeito para além do eu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou um evadido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo que nasci</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fecharam-me em mim,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ah, mas eu fugi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a gente se cansa</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do mesmo lugar,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do mesmo ser</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que não se cansar?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha alma procura-me</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eu ando a monte,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Oxalá que ela</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca me encontre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser um é cadeia,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser eu, não é ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viverei fugindo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas vivo a valer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Complexos teriam uma posição relativamente autônoma diante do complexo do &#8220;Eu&#8221;: seriam &#8220;outro&#8221; para o Eu. A consciência não seria unificada &#8211; &#8220;Gostamos de pensar que somos unificados, mas isto não acontece nem nunca aconteceu&#8221; (JUNG, Fundamentos de Psicologia Analítica, 1983, p. 67). Às vezes o que se passa na consciência não só não está de acordo com o que se está fazendo como por vezes está em franca oposição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os complexos realizariam processos de invasão na consciência que em si não seriam doenças, mas momentos em que se é tomado, capturado por uma emoção dominadora e então se sente, pensa, reage, tem reações musculares, expressões faciais, liberações de hormônios etc. tudo diferente. Não haveria uma separação entre corpo e mente pois a constelação de um complexo ativaria todas as associações chamadas físicas ou psíquicas. Quando se é invadido e/ou conduzido &#8211; quando o complexo está constelado &#8211; acionam-se todas as associações e a consciência não tem como impedir este processo automático.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida seria maior do que todos os padrões ou normas que os valores organizados, pela infinidade de padrões coletivos inconscientes, possam produzir. A&nbsp;vida seria excessiva, abundante, prodiga, esbanjadora, por demais múltipla, variada com infinitos sentidos e significados e em constante mudança. A vida transbordaria para além do que a consciência individual ou coletivamente tentasse organizar como tendo sentido e significado. Por isso é importante o lugar para o desconhecido, misterioso, enigmático ou inconsciente. A manifestação e/ou invasão de complexos não precisa, necessariamente, ser vivida como problema ou doença médica; pode ser manifestação da vida pulsando para além da consciência e do complexo do ego. As vezes o sofrimento acontece não porque algo está errado ou faltando, mas porque a vida está transbordando, excedendo procurando caminhos por onde se realizar e os caminhos coletivos individualizados empiricamente estão estreitos demais. O sofrimento pode virar arte, poesia, música, mudança de vida e não apenas doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Doença na perspectiva Junguiana&nbsp;pode ser entendida como a&nbsp;dominação unilateralde um estilo, padrão, na consciência em&nbsp;cisão e embate&nbsp;contra outros padrões que se associaram seguindo valores de vida diferentes. A atitude na consciência é fundamental pois se for de embate e exclusão ter-se-ia um tipo de efeito gerando lutas defesas contra algo vivido como de natureza mórbida. Entretanto se atitude na consciência for de escuta a sério, o que não quer dizer apenas literalmente, mas nos sentidos poéticos, metafóricos, simbólicos etc., os efeitos seriam muito diversos. O texto junguiano faz pensar que a alternância e colaboração entre os complexos (entre formas de vida e valores diferentes), a multiplicidade em colaboração, protegeria no sentido de uma vida saudável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se aproximar estas ideias da concepção de saúde em Canguilhem: &#8220;O que caracteriza a saúde é a possibilidade de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo, a possibilidade de tolerar infrações à norma habitual e de instituir normas novas em situações novas.&#8221; (CANGUILHEM, 2000, p. 160).&nbsp; Saúde seria infidelidade a norma habitual e a possibilidade de produzir normas novas em situações novas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o complexo do Ego levado por alguns valores passou a se identificar com atributos que anteriormente eram exclusivos dos deuses como: autonomia, independência, autodeterminação, unidade, autenticidade, espontaneidade etc., pode viver acreditando que realizar estes atributos são a norma para uma vida saudável e bem-sucedida. Seria como se para ter uma vida saudável e realizada tivesse que virar Deus. E se ainda não se virou &#8220;Deus&#8221; algo há de errado no indivíduo. Jung falava de uma inflação do Ego &#8220;(&#8230;) em consequência da inflação, a&nbsp;hybris&nbsp;humana escolhe o eu, em sua miserabilidade visível, para senhor do universo.&#8221; &nbsp;(JUNG, Psicologia e Religião, 1978, p. 92).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta forma inflada do complexo do ego pode ser vivida como o &#8220;indivíduo saudável&#8221;. Nos códigos de saúde mental atuais &#8211; Manual Estatístico e Diagnóstico (DSM) (DSM V &#8211; APA, 2014) da Associação Psiquiátrica Americana (APA) e Código Internacional de Doenças &#8211; (CID X) (CID-10 OMS, 1993) da Organização Mundial da Saúde (OMS) o transtorno metal é algo que diz respeito a um sofrimento que acontece&nbsp;exclusivamente num indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se pensar que estes valores, vividos imperativamente como ideais de um indivíduo saudável, já colocaria para o complexo do ego exigências sobre-humanas; entretanto estas podem ter sido intensificadas com a passagem da sociedade da produção ou do trabalho para a sociedade do consumo. Se na&nbsp;sociedade da produçãovigorava valores como acumulação de capital e afastamento de todo gozo espontâneo da vida, segurança, estabilidade, respeito a hierarquia; na&nbsp;sociedade do consumo&nbsp;o valor desloca-se para o imperativo de não ceder em &#8220;seu desejo&#8221; (desejo do ego). Desaparecem os discursos de repressão aos prazeres e se afirmam os vínculos materiais com o prazer com cobranças de gratificação irrestrita. Limitar, refrear, tomar distância, alienar perdem o lugar de valor. Haveria um estilo de consciência onde &#8220;limite&#8221; é a marca de inadequação, incapacidade. Uma vida não realizada para a forma homem vivida como o &#8220;Eu&#8221; para o qual foram transferidos os atributos outrora relacionados às divindades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sociedade de consumo, os valores como propriedade privada, mercado competitivo, liberdade de expressão, livre mercado tomaram a forma de movimento que foi denominado de&nbsp;neoliberalismo. Valoriza-se neste a capacidade de enfrentar riscos, flexibilização, maleabilidade; deslocar-se sem se prender a fronteiras ou diferenças hierárquicas, de estatuto, papel, origem, grupo etc. A desregulação do trabalho apareceria como produção de formas de recusa à estrutura disciplinar das identidades, isto através de suas flexibilizações. As pessoas deveriam se transformar em&nbsp;empresas de si mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Complexo do Ego inflado, identificado com os atributos dos deuses tem que, imperativamente conseguir não ceder em seus desejos, ter gratificação irrestrita, iniciativa pessoal, obrigação de ser si-mesmo, autoafirmar, autorrealizar, autoexpressar sob o crivo individual do desempenho e da performance. A patologia vira a&nbsp;insuficiência&nbsp;e&nbsp;disfuncionalidade&nbsp;da ação deste Ego inflado. &nbsp;Inquietação, violência, mal-estar, tudo que limita, faz sofrer esta forma &#8220;indivíduo&#8221; poderia ser interpretado como fazendo parte de uma síndrome, um transtorno mental para ser tratado na perspectiva médica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estes valores funcionando como certo, bom, saudável (uma vida bem realizada) não parariam de produzir no seu contraponto, em sua negação determinada, o que será vivido como errado, ruim e doente. O poder disciplinar (exame, pesquisa observação etc.) tendo como parâmetro esta forma de indivíduo internalizada como normal toma tudo que ameace a este conjunto de valores como errado, ruim e pode então aglutinar os elementos &#8220;negativos&#8221; para estes valores em categorias, classificando como doenças para serem estudadas, pesquisadas, para que sejam prevenidas e tratadas medicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O funcionamento majoritário deste conjunto de valores torna o mundo de relações mais parecido com um jogo de tênis, onde se joga para que o outro erre, do que num jogo de frescobol, onde se joga para que o outro acerte&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os valores encarnados no&nbsp;movimento neoliberal&nbsp;ganham força como&nbsp;política de estado&nbsp;no mundo no final da década de 70 do sec. XX com as políticas econômicas de Augusto Pinochet no chile de 1973 a 1990; Margaret Thatcher no Reino Unido (1979-1990) e Ronald Reagan nos Estados Unidos (1981-1989). Neste mesmo período acontece uma mudança significativa na forma de fazer diagnóstico em saúde mental. Os códigos que até então apresentavam fortes influências psicodinâmicas foram vistos como problemáticos para se conseguir validade, confiabilidade e fidedignidade nas categorias diagnósticas. O Manual Estatístico e Diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana &#8211;&nbsp;DSM III&nbsp;é lançado em 1980 com uma forma de diagnosticar objetiva em que os transtornos mentais aparecem como padrões de síndrome, ou seja, conjunto de sinais e sintomas presentes durante certo tempo em&nbsp;um indivíduo. A nova proposta é eliminar diferenças subjetivas; as inovações metodológicas incluíam &#8220;(&#8230;) critérios explícitos de diagnóstico, um sistema multiaxial, e um enfoque descritivo que tentava ser neutro em relação às teorias etiológicas&#8221; (DSM IV TM &#8211; APA, 1995, p. xvii). Posteriormente a 10ª revisão do Código Internacional de Doenças &#8211; (CID-10 OMS, 1993) da Organização Mundial da Saúde (OMS) segue a mesma lógica propondo-se a fazer uma classificação ateórica. Transtorno mental é conceituado como sofrimento, incapacitação etc. apenas e&nbsp;exclusivamente quando acontece no Indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Observa-se uma expansão crescente do número de categorias diagnósticas, em especial nos últimos 50 anos. Se no Censo de 1840 nos EUA haviam&nbsp;2&nbsp;(duas) categorias; em 1880 eram&nbsp;7&nbsp;(sete)&nbsp;categorias. Pinel, no final sec. XVIII indicava&nbsp;8&nbsp;(oito) categorias (vesânias, melancolia, mania, demência, idiotismo, hipocondria, sonambulismo e a hidrofobia). Esquirol acrescenta imbecilidade. A 6ª revisão do CID da OMS (1952) incluiu o capítulo dos transtornos mentais com&nbsp;26&nbsp;(vinte e seis) categorias entre psicoses, psiconeuroses, transtornos de caráter, comportamento e inteligência; DSM II de 1968 com 182 (cento e oitenta e duas) categorias; DSM III com 265 (duzentos e sessenta e cinco) categorias; DSM III-R (1987)&nbsp;292&nbsp;(duzentas e noventa e duas) categorias;&nbsp;DSM IV (1994)&nbsp;297&nbsp;(duzentas e noventa e sete) categorias&nbsp;e&nbsp;DSM V ( 2013)&nbsp;450&nbsp;(quatrocentas e cinquenta) categorias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Autores como Vladimir Safatle (SAFATLE, 2015) citando Axel Honneth (HONNETH, 2015, p. 385) falam de uma privatização do descontentamento, pois as pessoas seriam levadas a acreditar que cada um é responsável, individualmente, pelo desemprego iminente etc. Um sentimento de ser o único responsável por seu destino, inclusive o destino profissional. Pode-se pensar que os modos de socialização poderiam ser, ao mesmo tempo, os modos de suporte do sofrimento vivido, pois haveria um tipo de sofrimento em todo processo de socialização, de construção de identidades socialmente reconhecida, de constituição do Eu, ao internalizar padrões de conduta que poderiam ser utilizados, normativamente, sobre os sujeitos, a psique e a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todos os sentimentos, pensamentos, emoções etc., que não se submeterem ao padrão do melhor, mais adequado serão vividos como erro, falta, fraqueza ou incapacidade etc. Isto seria valido tanto por quem vive como por quem trata, pela estrutura que reconhece, pela política de saúde e educação etc. E será visto como doença que precisa ser tratado, medicalizado!&nbsp; A norma ideal e saudável que será usada como referência no julgamento está implícita nos valores: autonomia, independência, autodeterminação, autoafirmação, autorrealização, autoexpressão, controle de si, senhor que julga e determina o que é naturalmente bom, gratificação irrestrita a si mesmo. etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">São valores internalizados no processo de socialização pela educação que, quando funcionando demasiadamente eficaz e eficiente, poderia produzir a destruição de outras formas vida. Quanto mais jovem menos &#8220;filtro&#8221; ou barreira haveria para que os valores afetassem com mais intensidade: &#8220;A educação tem por fim implantar complexos duradouros na criança. (&#8230;) A tonalidade afetiva se mantém devido a estímulos constantemente atualizados.&#8221; (JUNG, Psicogênese das Doenças Mentais, 1999, §90).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem apresentaria mais &#8220;sintomas&#8221; seriam os que mais aderiram unilateralmente a norma &#8220;saudável&#8221; (com mais ou menos esforço; conscientemente ou não) e esta passou a funcionar de maneira dominante em cisão e oposição a outras normas e outros padrões que passaram a funcionar como inimigos ameaçadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se trata de defender uma posição a favor ou contra diagnósticos, seria uma posição onipotente, pois a psique é criativa e performaticamente produz &#8220;doenças&#8221; aglutinando tudo que é vivido como errado, ruim etc., para todo e qualquer determinado conjunto de valores, quer a consciência queira ou não. Quando aparece algo como mentalmente doente, um complexo julgou quais ideias, comportamentos e fantasias estão &#8220;erradas&#8221; &#8211; comparando com padrões ideais, morais, estatísticos etc. Isto se constela independente da vontade do padrão dominante na consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não haveria nada a opor aos diagnósticos médicos, protocolos de investigação, tratamento, exames ou a prescrição de medicamentos se fossem vividos como uma possibilidade entre várias que pudessem se alternar e colaborar, de acordo com os momentos da vida. A questão da&nbsp;medicalização é a dominação unilateral destes valores,&nbsp;condutas e atitudes centradas exclusivamente no indivíduo com tendência a serem unicamente médicas: medicalizando a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se busca ser contra o uso de medicações por exemplo como o metilfenidato (nome farmacológico da Ritalina) porque os dados da ANVISA mostram um aumento consumo de em 74% entre 2006 e 2011 (DAROQUE, et. al, 2016). Nem de ser contra diagnósticos como Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) porque há indícios que até 75% dos jovens medicados com a substância acima referida não teriam sido corretamente diagnosticados (FERNANDES, C. T. &amp; MARCONDES, J. F., 2017). Qual seria o efeito de avaliar mais intensamente mais crianças? Isto não poderia produzir mais diagnósticos individualizados e mais medicalização?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A lógica dos valores ligado a propriedade privada trata toda manifestação como equivalente que pode ser comparado, quantificado e virar mercadoria. O mesmo conjunto de valores que afeta produzindo um aumento de prontidão para o ataque aos inimigos das propriedades privadas aumenta também, por exemplo, níveis de cortisol com várias consequências. O aumento excessivo do cortisol, em resposta a uma atitude constante de ameaça, pode causar sofrimento que será estudado, prevenido e tratado medicamente com alguma forma de correção; seja com medicamentos ou com outros procedimentos que produzam redução do cortisol. Ou seja, tanto a &#8220;doença&#8221; como o tratamento podem funcionar como mercadoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os tratamentos na lógica da medicalização da vida podem incluir dispositivos do campo da psicologia, atividade física e mesmo da arte. Quando funcionam apenas na direção de eliminar o que aparece como errado, ruim, ou problemático preservando os valores e esta configuração dominante, ajudando o complexo do ego a manter a inflação. Entretanto haveria algo de errado em buscar a redução do cortisol naquela pessoa com qualquer uma das abordagens? Incluindo com medicações? A questão não seria impedir estes dispositivos de agirem reduzindo o cortisol, mas centrar a ação apenas nesta perspectiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Procura-se questionar aqui qual o olhar e valores que orientaram o reconhecimento da demanda como problemas. Este problema que emergiu é problema para que estilo de consciência conduzido por quais valores? Quanto maior as expectativas de gratificação irrestrita, prazer, animo, disposição, iniciativa etc. mais ameaçadores podem se tornar os sentimentos de desanimo, tristeza ou desinteresse. Pode-se chega num ponto em que passam a ser vividos como doença. O cuidado seria eliminar estes sintomas que são vividos como sofrimento ou rever a forma de vida que valora excessivamente o oposto? Rever os valores exclusivamente em quem se identificou o &#8220;problema&#8221; ou nos contextos, relações sociais, familiares trabalho etc.?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quais os cuidados com as questões quando e onde estas demandas aparecem? Seriam os &#8220;problemas&#8221; que aparecem como demanda exclusivamente médicos e individuais? Qual a necessidade de cuidados, o que e quem precisa de cuidado? Seriam exclusivamente os indivíduos? As relações, os contextos, não poderiam ser campo de trabalho importante na transformação do cenário onde o problema se apresenta como do indivíduo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não seria difícil encontrar, mesmo nos protocolos médicos, a indicação de que a demanda deveria ser tratada com abordagem diversificadas e que as medicações só deveriam ser utilizadas em situações específicas e precisas. Entretanto ao se aplicar os protocolos nos contextos vivos e presentes muitas das vezes a perspectiva médica e o diagnóstico categorial é a primeira demandada e não apenas pelos profissionais médicos, mas por profissionais do campo educacional (professores, diretores de escola, orientadores pedagógicos etc); no campo da justiça (assistentes sociais, juízes, promotores); no campo da saúde (psicólogos, assistentes sociais, etc.). Quando outras abordagens surgem como possibilidade, muitas vezes, os recursos necessários não estão disponíveis. Não há condição de transporte, espaço, recurso material e humano para realizar a abordagem. Mais dificuldade ainda quando a aproximação tenta instabilizar a dominação dos valores dominantes. Pode até fazer psicoterapia etc. desde que seja para eliminar os sintomas (&#8220;os problemas&#8221;) que estão incomodando. Os valores maiores devem ser preservados. Diante da dificuldade com a execução efetiva de outras abordagens com sentido diferente da eliminação do &#8220;problema&#8221;, o mais fácil e eficiente pode ser medicalizar: dar um diagnóstico individual. Assim, mesmo que não se efetive nenhuma forma de tratamento, ainda pode se dizer que o &#8220;problema&#8221; foi medicalizado. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Finalizando, pode-se refletir que a medicalização da vida passa sem dúvida pela saúde e pela educação, mas entendendo a política como o campo de relações, trocas, debates públicos onde podem acontecer a elaboração de novas normas e novos padrões coletivos de vida, então talvez esteja seja o campo fundamental para a colaboração entre valores e a superação de dominações unilaterais fundamentalistas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Dr. Ajax Perez Salvador</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro didáta do IJEP</p>



<h1 class="wp-block-heading">Referências</h1>



<p class="wp-block-paragraph">CANGUILHEM, Georges.&nbsp;O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CID-10 OMS.&nbsp;Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento- Organização Mundial da Saúde. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DAROQUE, Lucas Pelisson, et al. &#8220;RITALINA E TRATAMENTO DE TDH: UMA REVISÃO SISTEMÁTICA SOBRE A FUNCIONALIDADE CEREBRAL.&#8221;&nbsp;VIII Mostra Interna de Trabalhos de Iniciação Científica E I Mostra Interna de Trabalhos de Iniciação Tecnológica e Inovação. Maringá &#8211; Paraná &#8211; Brasil, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DSM IV TM &#8211; APA.&nbsp;Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais da American Psychiatric Association. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DSM V &#8211; APA.&nbsp;Manual Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais da American Psychiatric Association. 5ª. Porto Alegre: Artes Médicas, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FERNANDES, Cleonice Terezinha e MARCONDES, Jeisa Fernandes. &#8220;TDAH: Transtorno, Causa, Efeito e Circunstância.&#8221;&nbsp;Rev. Ens. Educ. Cienc. Human.&nbsp;(2017): 48-52.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HONNETH, Axel.&nbsp;O Direito da Liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;Energia Psíquica. Vol. 8/1. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Fundamentos de Psicologia Analítica. Vol. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 1983.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Psicogênese das doenças mentais. Vol. III. Petrópolis: Vozes, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Psicologia e Religião. Petropolis: Vozes, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, Fernando.&nbsp;Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar S A, 1977.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SAFATLE, Vladimir. &#8220;O trabalho do impróprio e os afetos da flexibilização.&#8221;&nbsp;Revista de Filosofia da PUCRS&nbsp;Jan- Abr de 2015: 12-49.</p>



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