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	<title>Arquivos #mulher - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos #mulher - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Mula sem cabeça: uma interdição ao feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mula-sem-cabeca-uma-interdicao-ao-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Jun 2024 18:19:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[#feminino]]></category>
		<category><![CDATA[#genero]]></category>
		<category><![CDATA[#mulher]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo faz uso do conto da Mula-sem-cabeça, que trata sobre a maldição ou interdição da sexualidade feminina. O contexto da Mula é religioso, a concubina do padre católico, contudo, os aspectos simbólicos podem ser ampliados para todas as mulheres, que há milhares de anos tem sua vida controlada pela força do patriarcado, independente do credo religioso, idade, origem etc. A moralidade judaico-cristã carimba a vivência do prazer como algo vergonhoso e sombrio. A culpa, o medo, a repressão, os desejos não ditos vão se acumulando a muitas gerações. A transformação da mulher em mula é singular entre os contos femininos que versam essa temática ao redor do mundo e seu descontrole e agressividade, podem ser entendidos como respostas a opressão. Ressignificar a sexualidade e o prazer são chaves importantes para o desenvolvimento integral das mulheres. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O folclore brasileiro é rico de histórias sombrias. Segundo <strong>Cascudo </strong>(2023), os Tupis amavam gastar as primeiras horas da noite evocando e contando histórias para as crianças indígenas. O autor menciona que ao longo de seu levantamento dos mitos brasileiros, especialmente das Regiões Norte e Nordeste, observa-se o entroncamento cultural entre os indígenas, os brancos europeus e os negros africanos, e seus descendentes mestiços, tão comuns no Brasil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-delas-me-chama-a-atencao-desde-crianca-e-a-mula-sem-cabeca" style="font-size:21px">Uma delas me chama a atenção desde criança é a <strong>mula sem cabeça</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Assistindo recentemente um seriado brasileiro chamado “Cidade Invisível”, que mostra as entidades folclóricas numa trama de suspense, a mula aparece pegando fogo. Era uma mulher maravilhosa que traiu o marido com um padre. Eles se apaixonaram e queriam ficar juntos, mas por ter se relacionado com um homem religioso e representante de Deus na Terra, foi amaldiçoada. O interessante é que o padre não sofre absolutamente nada, afinal, esse conto não é sobre a sexualidade masculina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Falando-se em sexualidade, é importante defini-la de forma mais ampla, em seus aspectos biopsicossociais e espirituais, onde temos no biológico, apenas um desses aspectos e não o mais importante para a completude e satisfação do indivíduo. Sempre cercada de muita dor e sofrimento em razão do seu ocultamento e negação pela sociedade, principalmente pela formação judaico-cristã, onde sempre pairou essa atmosfera de pecado e de preconceito em torno do assunto. Arrisco a afirmar que grande parte das lendas relacionados ao sexo e à sexualidade, estão relacionadas a todos os mitos, crendices e tabus sexuais relacionados à época, visto que até hoje, esse assunto é sempre dotado de muito preconceito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-camara-cascudo-a-mula-sem-cabeca-e-o-castigo-da-concubina-do-padre-catolico" style="font-size:17px">Segundo Câmara Cascudo, a Mula-sem-cabeça é o castigo da concubina do padre católico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na noite de quinta para sexta-feira, ela muda seu corpo para mula, correndo com espantosa rapidez até o terceiro cantar do galo. Seus cascos afiados dão coices que ferem como navalhas, despedaça homens e animais em seu caminho. Para desencantá-la é preciso enfrentá-la e tirar o freio de ferro. Quando morre, a alma amaldiçoada fica a<ins> </ins>penar sobre a terra, apresentando-se como uma assombração horrível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mula-sem-cabeca-e-uma-lenda-que-surgiu-na-peninsula-iberica-trazida-para-a-america-latina-durante-o-periodo-colonial-pelos-portugueses-e-espanhois" style="font-size:17px">A <strong>mula sem cabeça </strong>é uma lenda que surgiu na Península Ibérica, trazida para a América Latina durante o período colonial, pelos portugueses e espanhóis.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Corre toda a América, desde o México (malora) até a Argentina (mula anima). Na África, os mitos sobre transformação de mulheres em animais ocorre por fundamentos religiosos (culpa). Na Ásia e na Austrália há mitos de mulheres mais velhas que se transformam em lobas, tigres e panteras. Contudo, apenas a transformação da mulher em Mula está relacionada a sexualidade. Acredita-se atualmente que ela fazia parte de um esforço para reforçar os valores morais da época, com o objetivo de impedir que mulheres mantivessem relações sexuais antes do casamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As atitudes de silêncio sobre o sexo, apesar da febre de pesquisa científica que surgiu após os anos 50, segundo <strong>Costa Moacir</strong> (1986, p.44), resultam dos tabus e preconceitos herdados dos séculos passados, em que as religiões determinavam toda a linha de conduta humana e a moral sexual alienante, pautada pelo rigor de suas normas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os homens possuíam a “obrigação” de iniciar sexualmente as mulheres; por sua vez, essas mulheres deviam a &#8220;obrigação&#8221; de se casarem virgens para esses homens. Essa “norma” arcaica e milenar, paira até os dias atuais em determinadas religiões.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim se passaram dois longos séculos, onde reprimia-se tudo relacionado ao sexo e à sexualidade. E, como nas sábias palavras de Foucault (2022), eram “<em>injunção ao silêncio, afirmação de inexistência</em>”. Essa sombra de preconceito e “falsa” moral cristã sobre o sexo, vivenciamos até hoje, inclusive sobre as pesquisas que ainda são incipientes sobre o tema.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-voltando-a-mula-resultante-de-um-cruzamento-entre-dois-animais-de-diferentes-especies-jumento-e-egua-em-geral-e-um-animal-esteril" style="font-size:19px">Voltando à mula, resultante de um cruzamento entre dois animais de diferentes espécies (jumento e égua), em geral, é um animal estéril.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Chevalier &amp; Gheerbrant (2020, p. 254), cavalos podem ser associados às trevas do mundo ctoniano, são filhos da noite e do mistério, sendo nesses casos ligados ao fogo e a água. O cavalo é montaria, veículo, nave e seu destino é, portanto, inseparável do destino do homem. O asno ou jumento é um símbolo da ignorância, obscuridade e até tendências satânicas. Em diferentes culturas, o cavalo pode ser usado como montaria de Deuses maléficos (Índia), de imortais (China), besta ou entidade maléfica (Egito), relacionados a Jesus em sua entrada em Jerusalém. Também pode simbolizar satã, sexo, libido, elemento instintivo no homem, sensualidade e materialidade (CHEVALIER &amp; GHEERBRANT, 2020, p. 140-141). Por sua vez, as <strong>mulas</strong> eram frequentemente utilizadas pelos padres para sua locomoção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mula era um animal muito utilizado para transporte de carga, devido sua força e resistência física, um animal usado para o trabalho. Em diversas regiões e períodos do Brasil, o transporte da produção interna ocorria no lombo de mulas, bois e vacas. Interessante que a mula, importante animal no período colonial, era considerada profana, por sua origem mestiça, um animal inferior. O preconceito em relação a miscigenação entre raças não se relaciona apenas aos animais, mas também em relação às pessoas. Ainda hoje existem barreiras étnicas importantes em todo mundo, mas vamos deixar esse assunto para outro momento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-interessante-e-que-a-mula-perde-sua-razao-torna-se-agressiva-e-desenfreada" style="font-size:20px">Interessante é que a mula perde sua razão, torna-se agressiva e desenfreada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quantas interdições aos seus instintos e percepções podem ser experimentadas? E as disfuncionalidades ligadas à vergonha, culpa, sentimento de inadequação, raiva, ressentimento e inferiorização? Ao falar do papel sexual da mulher na história, é  importante lembrar &#8211; trazendo as sábias palavras de Simone de Beavouir &#8211; que “as mulheres não nascem mulheres, elas são feitas mulheres”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E os homens não nascem homens, eles são feitos homens e são educados para se impor e conquistar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Gabeira (1986, P.11), é preciso fixar que existe uma política sexual e que as relações entre duas pessoas, ainda que envolvidas pelo manto das relações afetivas e do amor, ainda que chamadas de relações amorosas, são, na realidade, relações de poder, onde predomina o exercício do domínio de um sobre o outro, o que corrobora o pensamento de JUNG (2019, p. 65). Onde impera o amor, não existe vontade de poder, e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade do poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-qualls-corbett-1990-p-38-relata-que-em-matriarcados-antigos-natureza-e-fertilidade-consistiam-no-amago-da-existencia" style="font-size:19px"><strong>Qualls-Corbett</strong> (1990, p. 38) relata que em matriarcados antigos, natureza e fertilidade consistiam no âmago da existência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As pessoas viviam próximas à natureza e suas divindades comandavam o destino, proporcionando ou negando a abundância à terra. Em seus louvores de agradecimento, eles ofereciam o ato sexual à deusa, reverenciada pelo amor e pela paixão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em registros históricos de mais de 7 mil anos, existiam as prostitutas sagradas, sacerdotisas dedicadas a deusa Vênus ou Afrodite. As mulheres eram iniciadas sexualmente antes de se casarem nesses templos. Assim, no ritual do casamento sagrado, elas tinham a oportunidade de explorar o desconhecido, sua feminilidade e sexualidade. As prostitutas sagradas, também chamadas de Virgens Vestais, tornavam-se noivas em rituais de matrimônio com o rei, representando um deus. Elas tinham privilégios econômicos, mais independência do masculino e seus filhos eram respeitados. O contrário das prostitutas chamadas de profanas, que eram consideradas e ainda o são até hoje, párias da sociedade (Cf QUALLS-CORBETT, 1990).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-matriarcal-ou-matrilinear-evoluiu-para-o-sistema-patriarcal-ou-patrilinear" style="font-size:19px">Essa estrutura matriarcal ou matrilinear evoluiu para o sistema patriarcal ou patrilinear.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O comércio, as guerras e a expansão decorrente se tornaram o foco, os padrões predominantes fragmentaram-se e novas estruturas surgiram. Muitas linhas explicativas para esse fenômeno são discutidas, uma delas foi a percepção errônea dos homens em relação a reprodução. Acreditavam que eles eram os geradores e que o corpo feminino apenas nutria a criança em seu ventre, portanto, a autoridade e direito dos pais eram absolutos, substituindo a descendência matrilinear pela patrilinear. Essa mudança da perspectiva leva a desvalorização da mulher na sociedade e repactuação social, gerando novos costumes (Cf QUALLS-CORBETT, 1990).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, a preocupação com a virgindade da mulher antes do casamento era crucial para o homem garantir sua linhagem e transferência de seus bens ou patrimônio a seus descendentes. Os homens dominaram as mulheres para garantir a suposta ordem das coisas. A mulher tornou-se Eva, aquela que cai em tentação e impõe à humanidade o pecado original. A religião e os valores morais impactaram sobremaneira as relações. O prazer era visto com maus olhos, afinal, sexo era destinado à procriação. E essa era a função social das mulheres, procriar os filhos dos homens (dentro do casamento, é claro!).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-harding-1985-p-27-e-31-as-ideias-como-o-mito-dos-primitivos-formam-a-base-dos-sentimentos-e-estado-de-espirito-do-homem-contemporaneo" style="font-size:19px">Segundo <strong>Harding</strong> (1985, p. 27 e 31), as ideias, como o mito dos primitivos, formam a base dos sentimentos e estado de espírito do homem contemporâneo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A vida de hoje é vazia e estéril, procuramos a renovação, queiramos ou não, na fonte do despertar espiritual que existe em nosso interior. E em especial, estamos insatisfeitos com o caráter e qualidade de nossos relacionamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje em dia, o sucesso ou fracasso da vida de uma mulher não está mais atrelado ao casamento, outras nuances são levadas em consideração, como o trabalho e estudo, demandas do mundo objetivo exterior. Os impactos dessa nova realidade geram muitos conflitos e ansiedades. Agora não basta ser esposa e mãe, precisamos ser bem-sucedidas em todos os aspectos, recaindo muitas vezes em polarizações e uma carga de trabalho muito superior à dos homens. Para dar conta de tudo isso, as mulheres desenvolvem seu lado masculino (<em>animus</em>).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Essa mudança de caráter, que acompanha essa evolução, não existe só na parte profissional da vida de uma mulher, mas afeta a sua personalidade inteira, e tem causado mudanças profundas na sua relação consigo mesma e com os outros” (HARDING, 1985, p. 34-35).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher da atualidade quando encontra a mula sem cabeça dentro de si mesma, estará em conflito com sua sexualidade e sua capacidade criativa, correndo e incendiando tudo em seu caminho. Sabemos que os complexos são afetos que ganham tanta energia, que nos tomam de assalto e nos deixam amarrados ao seu enredo. Quando uma mulher se sente inferiorizada pelo masculino, julgada pela família ou comunidade, sem poder sobre seu corpo, abre caminho para que essa energia ctônica e avassaladora surja e ganhe espaço em seus sentimentos e pensamentos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mudancas-importantes-ocorreram-no-seculo-xx-em-relacao-a-sexualidade-feminina-principalmente-apos-o-advento-da-pilula-anticoncepcional" style="font-size:18px">Mudanças importantes ocorreram no século XX em relação a sexualidade feminina, principalmente após o advento da pílula anticoncepcional.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Criada nos Estados Unidos na década de 1960, houve muitas controvérsias na época em relação ao uso indiscriminado pelas mulheres, seus efeitos colaterais e os impactos socioeconômicos, como o controle de natalidade. Desde então, o sexo não fica atrelado apenas a ideia de procriação, mas também ao prazer, abrindo caminhos novos para o feminino em sua luta por seus direitos, dentre eles, o direito de exercer sua feminilidade e sexualidade de forma livre e segura.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-e-os-instintos-fazem-parte-da-vida-cotidiana-assim-como-a-vida-psiquica" style="font-size:19px">O corpo e os instintos fazem parte da vida cotidiana, assim como a vida psíquica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando algo incomoda a psique haverá reflexos na vida diária do indivíduo, por sintomas ou situações repetidas, alertando que algo precisa ser ressignificado. Segundo Jung (2012, p. 26), certos complexos só estão destacados da consciência porque preferiram se destacar dela, mediante repressão. Outros complexos nunca estiveram na consciência, mas são capazes de brotar do inconsciente com suas convicções e impulsos estranhos e imutáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em relação ao processo de individuação, cerne da psicologia junguiana, podemos afirmar que a sexualidade constitui um dos palcos possíveis para essa experiência, devido à sua grande sombra na humanidade, onde ainda quaisquer aspectos do indivíduo relacionados ao tema, causa estranheza e críticas na esfera social, onde está contida toda essa “sombra’. De acordo com Craig (1998, p.129), claro que não estamos dizendo que a pessoa precisa deixar-se inundar por fantasias de um Marquês de Sade, nem que ela deva viver essas fantasias. Significa, antes, que as fantasias desse tipo podem ser entendidas como a expressão simbólica de um processo de individuação que está se desdobrando no território dos deuses sexuais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ficar-em-paz-com-essa-sombra-seria-a-oportunidade-de-vivenciar-situacoes-fantasiosas-que-so-existem-em-suas-memorias" style="font-size:18px">Ficar em paz com essa sombra seria a oportunidade de vivenciar situações fantasiosas que só existem em suas memórias.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia seria vivenciá-las com seus parceiros(as) e tirá-las do terreno mental das culpas e dos sofrimentos. Ora, fantasias sexuais não combinam com casamentos religiosos e pudicos, onde apenas predominam manifestações do sexo-reprodução. O sexo-prazer nesse contexto é vivenciado fora de casa, com profissionais do sexo. Onde uma parte dessa fantasia sexual seria a sensação de dominação no pagamento de uma mulher/homem, objeto de seus desejos para a satisfação de suas fantasias e vivenciar essa sombra sem culpa e sem dor, distante do “leito nupcial”, como bem cita Foucault (2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sexualidade infelizmente, ainda é &#8220;demonizada&#8221; nos nossos dias. Fracassaram todas as tentativas de torná-la totalmente inofensiva e de apresentá-la como algo &#8220;completamente natural&#8221;. Para o homem moderno, algumas formas de sexualidade continuam a ter aspecto mau, pecador e sinistro, todavia, continuamos a lutar por melhores dias quando paramos para escrever um artigo como esse ou mesmo quando ampliamos nossas visões e discussões sobre o assunto, apesar de todas as críticas e movimentos sombrios contrários que possam advir. Duelar com sombras ancestrais nunca foi fácil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alguns-movimentos-de-liberacao-feminina-tentam-entender-a-sexualidade-como-uma-arma-politica-usada-pelos-homens-para-oprimir-as-mulheres" style="font-size:20px">Alguns movimentos de liberação feminina tentam entender a sexualidade como uma arma política usada pelos homens para oprimir as mulheres.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, essas mulheres &#8220;demonizam&#8221; a sexualidade e, ao mesmo tempo, deixam implícito que essa sexualidade poderia tornar-se inofensiva através da reversão dos papéis masculino e feminino, mas para isso ainda teríamos que galgar inúmeras outras esferas de revolução sexual e de preconceito social e nesse sentido, onde ficaria o processo de individuação?</p>



<p class="wp-block-paragraph">O elemento demoníaco da sexualidade (CRAIG, 1998, p.121) talvez se mostre no fato de que é muito difícil experimentar e aceitar a atividade sexual apenas como “prazer” ou como uma experiência agradável. Poucas pessoas conseguem “simplesmente desfrutar” a sexualidade, como desfrutariam uma boa refeição. Essa negação da sombra e da energia sexual traz como elementos para aceitação pelo self, os sintomas e em consequência disso, temos na clínica, variados distúrbios de natureza sexual, frutos dessa não aceitação à vivência da sexualidade saudável (integração de aspectos de luz e sombra).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Craig (1998, p.122), a sexualidade oferece-nos símbolos para todos os aspectos da individuação. O confronto com a sombra leva aos destrutivos componentes sadomasoquistas do erotismo. O confronto com a nossa própria alma, com a <em>anima</em>/<em>animus</em>, com o feminino/masculino, pode ter uma forma sexual. O amor por si mesmo e o amor pelos outros são experimentados corporalmente na sexualidade, seja através de fantasias ou de atividades.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-nenhum-outro-lugar-a-uniao-de-todos-os-opostos-a-unio-mystica-o-mysterium-coniunctionis-expressa-se-de-modo-mais-impressionante-que-na-linguagem-do-erotismo" style="font-size:17px">Em nenhum outro lugar a união de todos os opostos, a <em>unio mystica</em>, o <em>mysterium coniunctionis</em>, expressa-se de modo mais impressionante que na linguagem do erotismo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, apesar de todas as mudanças em relação a vivência da sexualidade pelas mulheres da atualidade, as imagens arquetípicas podem ser acessadas pelas mulheres durante suas vidas, como a santa, a mãe, a prostituta, a mulher, a bruxa, a mula sem cabeça, entre outros. Os contos e mitos representam imagens arquetípicas importantes, presentes no inconsciente coletivo e em geral, provocam algum tipo de desconforto. Ressignificação da jornada do feminino, seu encontro com sua essência que foi afastada por maldições, preconceitos, costumes e regras morais, fazem parte do reencontro com essa energia fabulosa, divina, criativa e cheia de sabedoria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mula sem cabeça nos remete as interdições feitas ao feminino e às mulheres, ainda hoje presentes na sociedade. Não é um lugar distante! Conversar sobre o assunto nos abre caminhos, reflexões e saberes a serem construídos conjuntamente. Amar e respeitar a nós mesmas e validar nossa jornada, pode ajudar a mula sem cabeça aplacar seu descontentamento, rompendo a maldição. Com amorosidade somos capazes de tirar o freio que a aprisiona essa força, acolhendo-a em nós e encontrar nosso caminho rumo a nossa singularidade e individuação.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;Mula sem cabeça: uma interdição ao feminino&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/-qdi1Vxz_Oo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Me. Michella Paula Cechinel Reis &#8211; Membro analista em formação IJEP, Brasília</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Ferreira Alves &#8211; Membro analista em formação IJEP, Brasília</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href=".https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E</strong>.<strong> Simone Magaldi &#8211; Analista didata IJEP, São Paulo</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">CASCUDO, Luís Câmara da. <em>Geografia dos mitos brasileiros</em>. São Paulo: Global Editora, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">CHEVALIER &amp; GHEERBRANT. <em>Dicionário dos símbolos</em>: mitos, sonhos, costumes, gestos, forma, figuras, cores e números. 34 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">COSTA, R.P., GAIARSA, J.A., COSTA, M., GABEIRA, F., et. al. <em>Macho, masculino, homem</em>. 3 ed. São Paulo, 1986.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">FOUCAULT, M. <em>História da sexualidade</em>: a vontade de saber. 13 ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">GUGGENBÜHL-CRAIG, ADOLF. <em>O lado demoníaco da sexualidade</em>. [A. do livro] C. Zweig e J. (orgs) Abrahms. Ao Encontro da Sombra. São Paulo: Cultrix 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">HARDING, M.E. <em>Os mistérios da mulher antiga e contemporânea</em>: uma interpretação psicológica do princípio feminino, tal como é retratado nos mitos, na história e nos sonhos. São Paulo: Ed. Paulinas, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C.G. <em>Psicologia e religião</em>: psicologia e religião ocidental e oriental. 11 ed. Petropolis, RJ: Ed. Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C.G. <em>Psicologia do inconsciente</em>. 24 ed. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">QUALLS-CORBETT, N. <em>A prostituta sagrada</em>: a face eterna do feminino. São Paulo: Ed. Paulus, 1990.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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		<title>Reflexões sobre o Amadurecimento Feminino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/amadurecimento-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Sep 2023 12:17:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Epigenética]]></category>
		<category><![CDATA[Metanoia]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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		<category><![CDATA[#saúde]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo trás reflexões sobre algumas dificuldades encontradas pelas mulheres no seu processo de amadurecimento.<br />
As mudanças corporais são visíveis diante do espelho, como rugas, melasma, flacidez, perda de colágeno e massa muscular, além de desgaste nas articulações e coluna, osteoporose, menopausa, queda da vitalidade, entre outros.<br />
As mudanças também ocorrem no mundo interno e somos<br />
convidadas a olhar aspectos mais inconscientes, guardados nas sombras. O que antes cabia como personas e atitudes, talvez já não caiba mais nessa etapa o que traz reflexões sobre o futuro.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Como amadurecer de modo saudável?</em> </strong>A imagem pessoal e corporal é construída desde antes de nascermos, quando estamos imersos no inconsciente materno. Jung nos fala que <strong>não nascemos como uma página em branco</strong>, como muitos pensam, e faz sentido sua fala quando olhamos para os reflexos e instintos já existentes no bebê desde seu nascimento. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Soma-se a isso estudos em epigenética que vão ao encontro da teoria junguiana e falam sobre a influência do meio sobre a genética humana. Os genes que nos constituem podem ser ligados ou desligados conforme as circunstâncias e a nossa necessidade de adaptação, o que nos leva a pensar que o envelhecimento também pode ser modificado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung em suas obras fala sobre a <strong>metanoia</strong>, que seria o entardecer da vida, quando cruzamos o pico de nossas vidas e começamos uma curva descendente, em rumo ao envelhecimento e a morte. Complexos estão atuando nessa fase da vida, que chamamos de segunda metade, e que tem se tornado cada vez mais tardia com o prolongamento da expectativa de vida. <strong>A meia vida que ocorria aos 35 anos, hoje ocorre entre 40 e 45 anos.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-amadurecimento-da-mulher">Amadurecimento da mulher</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O amadurecer para mulher representa o cessar do período reprodutivo chamado<strong> menopausa</strong>, promovendo muitas alterações físicas e psíquicas, com diversos sintomas, como calores ou fogachos, alterações bruscas de humor, melancolia, alterações hormonais que levam a ressecamentos do corpo e mucosas, perda acentuada de massa muscular, aumento do risco cardiovascular e assim por diante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na realidade, o amadurecimento, processo natural da vida biológica, pode ser encarado de maneiras muito distintas. Desde a aceitação e aprendizado até uma paralisação em comportamentos infantilizados (complexo de <em>puella</em>)*.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhando simbolicamente os hormônios produzidos pelas mulheres, podemos depreender que o comportamento mais maternal pode ser relacionado à progesterona, o comportamento mais sensual com o estrogênio e o comportamento testosterônico mais sexual. Muitas mulheres que na juventude tinham um padrão de comportamento mais sensual, podem buscar na metanoia um padrão mais maternal; e vice-versa. É um período de mudança de paradigmas, revisão de comportamentos e vivências; com grande possibilidade de guinadas de vida, em diferentes aspectos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-envelhecimento-x-sonho-de-imortalidade">Envelhecimento x Sonho de imortalidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Um grande volume de produtos com objetivo de retardar o envelhecimento aquecem o mercado: cosméticos anti-idade, massagens, procedimentos, polivitamínicos, tratamentos hormonais, intervenções cirúrgicas e estéticas, entre outros. E ao final, quem lucra mais? As companhias e profissionais de saúde, ou aqueles que se endividam para consumir um <strong>sonho de se tornar imortal</strong>. Observamos um enfoque no combate ao envelhecimento como algo que precisa ser derrotado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Chopra (1994, p. 10) questiona o paradigma do envelhecimento criado pela humanidade. O amadurecer é vivenciado de acordo com a crença coletiva que nos condiciona. Se acreditamos que envelhecer é sinônimo de adoecimento e decrepitude, essa será a vivência que teremos. Entretanto, corpo e alma são parte do mesmo ser, um proporciona as relações objetivas com o mundo, e o outro proporciona vivências subjetivas, como os pensamentos, sentimentos e desejos. Se mudarmos nossa percepção, mudaremos nossa experiência com o corpo e com o mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A maturidade pode vir associada ao adoecimento físico e psíquico, embora não haja idade para isso. O que ocorre é o aumento ou predisposição ao adoecimento em decorrência das relações estabelecidas com o mundo externo (trabalho, comportamento social, familiar, autocuidado, influências do meio ambiente etc.), e com o mundo interno (desenvolvimento intelectual, cultural, psíquico e emocional).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-corpo-fisico-e-envelhecimento">Corpo físico e envelhecimento</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A nível celular, as coisas que nos trouxeram sofrimentos ou alegrias estão presentes. E mesmo situações estressantes, que já foram esquecidas, deixam marcas e reações, que constituem o que somos (CHOPRA, 1994, p. 24).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Ramos</strong>: “a doença orgânica é uma reação do organismo, uma compensação, com a finalidade de levar o indivíduo a integrar o reprimido, religar o ego ao seu eixo com o Self”  (2018, p. 73). Por seu turno, conforme  <strong>Dahlke</strong> : “os sintomas são manifestações da sombra muito acessíveis devido ao fato de terem emergido das profundezas da alma para a superfície do mundo corpóreo, tornando-se assim excepcionais indicadores do caminho da perfeição.” (2007, p. 19)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo, a sombra constitui-se de conteúdos inconscientes que muitas vezes não queremos olhar, e quando somatizamos esses conteúdos em nossos corpos, ocorre uma espécie de desvio de energia, pois ficamos presos às dificuldades físicas e poupamos a energia necessária para aproximarmo-nos da sombra em questão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em resumo, o adoecimento entra em nossa jornada para nos ajustar, trazer oportunidades de aprendizado, mas não descartamos os resultados das práticas de saúde incorporadas durante a vida, como exercícios físicos, alimentação equilibrada e regularidade de sono.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-autocuidado-e-essencial-para-termos-uma-boa-saude-o-processo-de-amadurecer">O autocuidado é essencial para termos uma boa saúde: o processo de amadurecer</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se acreditamos que a vida não vale muito, é pesada, um sacrifício, o corpo entenderá o recado e pode trazer retorno às crenças que possuímos. Se acreditamos que a vida deve ser vivida, com alegria e leveza, a energia psíquica se apresenta de outra forma. Crenças e valores auxiliam na construção ou desconstrução que eu possa vir a experienciar, se considerar que somos energia e informação, como as pesquisas em física quântica vem evidenciando. A epigenética é uma área em franco crescimento, que estuda as influências externas ao ambiente celular e genético. A modulação gênica é complexa e influenciada pelo meio e a forma que vivemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Georg Grodeck </strong>apud<strong> Dahlke</strong> (2007, p. 292): “<em>a torrente de comprimidos coloridos que serve de prevenção à cinzenta velhice hoje em dia mostra que a medicina moderna concebe os sinais de velhice como sintomas de uma doença digna de ser combatida</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É interessante essa unilateralidade da nossa época, com fixação na juventude e, ao mesmo tempo, com envelhecimento de boa parte dos países. Os impactos desse envelhecimento populacional em termos socioeconômicos podem ser metrificados. Contudo, <strong>os impactos no inconsciente não podem ser medidos de forma direta, mas sentidos pelo consciente como afetos ou incômodos, intuições, sonhos ou sentimentos</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Coletivamente, nas sociedades ocidentais, o que se propaga sobre a mulher mais madura? Podemos resumir em uma palavra: perfeição. <strong>A mulher madura precisa se manter jovem e atraente, ser bem-sucedida, independente, ter filhos bem-educados, um marido e u</strong>ma <strong>casa, um corpo atlético, andar muito bem</strong> <strong>vestida e ser reconhecida pela comunidade</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Será que essa é a busca para todas as mulheres? Ou podemos ter chamados diferentes? Poderíamos dizer que é exigido que a mulher madura atinja o ápice de uma heroína, a <strong>mulher maravilha</strong>, que luta incansavelmente sem quebrar nenhuma unha.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sintomas-que-surgem-no-amadurecimento-feminino">Sintomas que surgem no Amadurecimento Feminino</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, desejar é uma coisa, obter é outra. Alguns sintomas podem surgir com o avanço da idade, como a osteoporose ou descalcificação dos ossos. É como se o próprio corpo pedisse um outro ritmo de vida, com mudança de enfoque. O aparecimento de barba (pelos no rosto das mulheres) após a menopausa pode ser um sinal de que precisamos dar atenção ao polo masculino. Com a queda dos hormônios femininos, aspectos masculinos podem vir à tona, indicando que o animus deve se realizar em planos mais sutis, como o espiritual, por exemplo (DAHLKE, 2007).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outros sintomas físicos podem ser vivenciados com o amadurecimento. Simbolizando essa necessidade premente de conexão com o mundo interno, como a presbiopia, o desgaste das articulações do corpo, a surdez e a mudança da pele (Melasma, rugas e flacidez). O mal de Alzheimer, com incidência entre 50 e 60 anos, acomete principalmente as mulheres. E por fim, a crise da meia-idade, muito comum, reflete um desacerto ou descompasso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No momento em que a pessoa deveria harmonizar sua criança interna com a sabedoria alcançada ao longo da vida, o que vemos com certa frequência é uma regressão ou infantilidade. Uma recusa por visualizar outras camadas, mais sutis, interiores – as sombras e luzes ignoradas até o momento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-autocuidado-e-busca-de-sentido-no-envelhecimento-sadio">Autocuidado e busca de Sentido no envelhecimento sadio</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Reitero que o objetivo desse artigo não é estimular o desleixo e falta de cuidado com o corpo e com a saúde. Ao contrário disso, nós mulheres podemos envelhecer sim, com dignidade, respeito aos nossos limites e desejos, com autocuidado, amorosidade e aceitação. É importante vivermos com saúde e bem-estar físico, financeiro, psíquico e espiritual. Entretanto, podemos encontrar espaços para reflexões sobre as exigências feitas pela sociedade de consumo vigente ou feitas por nós mesmas. O que estamos nos impondo? É algo realmente nosso ou vem de fora, de um lugar mais coletivo? E para quê ou para quem? Estamos felizes assim?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>James Hollis</strong> (1995) trata da busca de sentido para a vida e das transformações pelas quais somos levados nessa fase (a famosa crise dos quarenta). As projeções em relacionamentos com o outro perdem força e podemos entrar em contato com conteúdos inconscientes, num convite para a conexão com o Si Mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A meia idade é um período de muitas mudanças – físicas, psíquicas, na vida profissional ou nos relacionamentos. Mas, acima de tudo, é uma fase de amadurecimento e que podemos nos questionar sobre o que foi vivido até ali, e a quem pertence, pois muitas de nós vive a vida não vivida dos pais, compensando questões familiares.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-e-o-meio-da-vida">Jung e o meio da vida</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung (2013, p. 351), fala que ao nos aproximarmos do meio da existência, com atitudes pessoais e posição social mais estabelecidas, cresce em nós o sentimento de haver descoberto o verdadeiro curso da vida, princípios e ideais de comportamento, o que nos leva a ficar presos a eles.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sao-muitos-os-aspectos-da-vida-que-poderiam-ser-vividos-e-jazem-depositados-nas-sombras-do-inconsciente">São muitos os aspectos da vida que poderiam ser vividos e jazem depositados nas sombras do inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mas ao atingirmos o ponto mais alto de nossa vida, entramos em outro movimento, de descida, e os princípios que antes faziam sentido, podem começar a endurecer, levando ao fanatismo, intolerância, ou a sensação de insegurança. É muito comum a projeção em ameaças externas nessa fase, afastando o indivíduo de olhar os conteúdos que estão pedindo licença para emergir.</p>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-large is-style-modern has-small-font-size"><blockquote><p>“Todos os distúrbios neuróticos da idade adulta têm em comum o fato de quererem prolongar a psicologia da fase juvenil para além do limiar da idade do siso.”</p><cite><em>JUNG, 2013, p. 352</em></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Ele menciona que entramos totalmente despreparados na segunda metade da vida, com a falsa suposição que nossas verdades e ideais continuarão como antes. Não podemos viver a tarde de nossa vida com a programação da manhã” (JUNG, 2013, p. 355).</p>



<p class="wp-block-paragraph">E nesse momento, o que chamamos de<strong> crise da meia idade</strong> vem à tona. É, em suma, um chamado para o contato com o mundo interno, para olhar outras questões, como a espiritualidade, os potenciais criativos deixados de lado. Esse período de transformação do meio da vida, Jung chamou de metanoia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-pela-eterna-juventude">A busca pela eterna juventude</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O conto da <strong>Branca de Neve</strong> representa bem essa ideia de resistência ao amadurecimento. A madrasta, que chega na meia idade, fica rivalizando com a enteada jovem e bonita (Branca de Neve), competindo com sua juventude. Sua dificuldade em aceitar as mudanças vindas com o tempo fica evidente nos diálogos que ela tem com o espelho, ou sua imagem. E a trama mostra que a projeção na enteada, fruto de sua insatisfação consigo mesma, leva a um caminho desastroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A desconexão do eixo ego-self e o medo do envelhecimento a paralisa em um comportamento, o complexo de <em>puella </em>ganha força, uma obsessividade em matar a jovem donzela externa ao invés de deixar morrer as demandas da primeira fase da vida, impedindo-a de viver com leveza e plenitude seu processo de amadurecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto que clama por atenção é a identificação com o masculino. Ao longo da vida, muitas mulheres se afastaram do feminino mais profundo, lidando com as questões da rotina, se identificando com a energia do pai ou masculina. Essa energia mais masculina normalmente é exigida pelo mundo do trabalho e fazem sentido quando estamos construindo nossas vidas. Contudo, depois dos 40 anos estamos mais estabelecidas e uma sensação de ausência ou vazio começa a despontar. Essa fase convida para reconexão com as forças da grande Mãe, como fonte de energia, possibilidades, criatividade, viabilizando novos projetos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-arquetipo-da-meia-idade">O arquétipo da meia-idade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Brewi &amp; Brennan (2004, p. 10-11), a meia-idade é tão arquetípica como a gestação, a crise da adolescência, a transição e a morte. As três perspectivas arquetípicas da espiritualidade na meia-idade compõem-se de: a <strong>Sombra</strong>, a <strong>Criança</strong> e a <strong>Sabedoria</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Sombra representa as experiências não vividas ou desconhecidas, ora assustadoras, ora estimulantes. É um momento de confronto entre a vida não vivida por nós e aquela que de fato aconteceu. A Criança nos lembra de nossa capacidade de admiração e contemplação: é a Sábia Mulher Velha em potencial. A conexão com a criança divina proporciona leveza, humor e flexibilidade. Por final,a Sabedoria nos permite lidar com as ambiguidades e paradoxos em busca de unidade e integração das dualidades. A Sabedoria é nossa capacidade de discernimento e compreensão.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-etapas-de-transicao">Etapas de transição</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso ciclo humano é constituído de nascimentos e mortes. A transição da meia-idade não é somente uma movimentação da juventude para a meia-idade. Ela é a retirada da energia psíquica de tarefas, objetivos e valores que eram importantes na primeira metade da vida. Essa etapa nos chama para uma jornada interna, para a aventura de integração de conteúdos inconscientes da psique com a consciência. O processo de integração e completude deve fluir na segunda metade da vida, nos preparando para o processo de morte e nosso quarto e último nascimento. O nascimento em direção à vida eterna (Brewi &amp; Brenan, 2004, p. 41-42).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher que consegue superar as etapas da jornada, se reconectando com o feminino, olhando para suas sombras e acolhendo-as, se aproxima de Sofia ou a sabedoria. E Sofia nos mostra que temos o sagrado e profano em nós, somos paradoxais, e com essa consciência, seremos capazes de escolher o que faz sentido dali para frente, e aquilo que já pode ser deixado de lado. O processo de autoconhecimento é contínuo, havendo a possibilidade de alcançarmos outros patamares do estado de consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>E a cada mergulho e retomada que somos capazes de fazer, um novo conteúdo pode ser adicionado ou revisitado. Essa é a beleza da vida, a eterna capacidade de crescimento humano, seja individualmente, seja de forma coletiva.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/michellacechinel/">Michella Paula Cechinel Reis</a> &#8211; Mestre e analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Ercília Simone Magaldi</a> – Doutora e membro didata do IJEP</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><a>Referências</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BREWI, J.; BRENNAN, A. <em>Arquétipos junguianos</em>: a espiritualidade na meia-idade. São Paulo: Ed. Madras, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHOPRA, D. Corpo sem idade, mente sem fronteiras: a alternativa quântica para o envelhecimento. Tradução Haroldo Netto. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DAHLKE, R. <em>A doença como linguagem da alma</em>: os sintomas como oportunidades de desenvolvimento. São Paulo, Cultrix, 2007, pág. 292-317.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <em>A passagem do meio</em>: da miséria ao significado da meia idade. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. <em>A natureza da psique</em>: a dinâmica do inconsciente. 10 ed. Petrópolis, Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAMOS, D.G. <em>A psique do corpo</em>: a dimensão simbólica da doença. 6 ed. São Paulo: Sumus, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



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