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	<title>Arquivos obesidade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos obesidade - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como o grito do feminino ferido</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-silencio-pesado-da-alma-a-obesidade-como-o-grito-do-feminino-ferido/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fernanda Biscalquim de Andrade]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 21:37:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como grito do feminino ferido. O corpo não mente o que a psique tenta esconder: segundo a Psicologia Analítica, a obesidade pode ser interpretada como um mecanismo de defesa da psique feminina contra a rigidez da consciência. Analisamos como, simbolicamente, a gordura atua como proteção contra um Complexo, sugerindo que o excesso físico é o reflexo do peso não suportado na alma. O convite é cessar a guerra contra o corpo, para então acolher o tirano interno e permitir-se sentir o feminino.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>O Silêncio Pesado da Alma: A obesidade como grito do feminino ferido. O corpo não mente o que a psique tenta esconder: segundo a Psicologia Analítica, a obesidade pode ser interpretada como um mecanismo de defesa da psique feminina contra a rigidez da consciência. Analisamos como, simbolicamente, a gordura atua como proteção contra um Complexo, sugerindo que o excesso físico é o reflexo do peso não suportado na alma. O convite é cessar a guerra contra o corpo, para então acolher o tirano interno e permitir-se sentir o feminino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-corpo-nao-mente-o-que-a-psique-tenta-esconder" style="font-size:19px"><strong>O Corpo não mente o que a Psique tenta esconder</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Há um tipo de silêncio que pesa. Não é a quietude da paz, mas o silêncio das coisas não ditas, das dores engolidas junto com o jantar, dos desejos que sufocamos para caber no mundo. Na nossa era contemporânea, acostumamo-nos a olhar para a obesidade e ver apenas números. Reduzimos a complexidade da vida humana a uma simples equação fria: calorias que entram menos calorias que saem. Ou, num julgamento ainda mais cruel, patologizamos o corpo gordo como uma falha moral, um atestado de preguiça ou falta de vergonha.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Mas o corpo não mente. Ele é o terreno mais honesto que habitamos. A nossa boca pode sorrir enquanto o coração chora; a nossa mente pode racionalizar que &#8220;está tudo bem&#8221; enquanto o mundo desaba. Mas o corpo? Ele não tem essa diplomacia. Ele materializa a verdade. Ele desenha, em volume, o mapa exato do que a psique não consegue verbalizar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao mergulharmos na Psicologia Analítica, especialmente sob a luz de Carl Gustav Jung e da análise profunda de Marion Woodman, somos convidados a tirar os óculos do preconceito e colocar os óculos da alma. Sob essa perspectiva, percebemos que o excesso de peso em mulheres transcende a biologia: ele é um símbolo vivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-reflexao-que-trago-aqui-nasce-de-uma-inquietacao-urgente" style="font-size:19px">Esta reflexão que trago aqui nasce de uma inquietação urgente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vejo uma cegueira coletiva que trata o sintoma — a gordura — com bisturis, injeções e dietas de fome, enquanto ignora solenemente o sofrimento da alma que habita aquele corpo. Existe uma &#8220;desnutrição do feminino&#8221; acontecendo e, paradoxalmente, ela se manifesta pelo excesso de peso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Penso que a obesidade feminina, em muitos casos, funciona como um mecanismo de defesa antiquado e desesperado. É uma resposta a um ataque interno. Existe um tirano na mente — um complexo usurpador e castrador — que exige perfeição, produtividade e uma frieza desumana. O corpo, na tentativa heroica de sobreviver a esse ataque e proteger a essência feminina vulnerável, cria uma armadura: uma capa de gordura protetora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Acredito, portanto, que a cura não reside na simples eliminação do peso corporal — o que poderia ser apenas mais uma imposição desse complexo tirânico —, mas na retomada da consciência do Feminino e no acolhimento desse complexo, transformando-o de algoz em aliado. É fundamental reconhecer o sofrimento emocional guardado no corpo, buscando a cura através do acolhimento, e não da luta contra si mesma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-unilateralidade-da-consciencia-a-mente-que-esqueceu-de-sentir" style="font-size:19px"><strong>A Unilateralidade da Consciência: A mente que esqueceu de sentir</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para compreender a dinâmica da obesidade emocional, essa &#8220;fome que não passa&#8221;, é indispensável revisitar a estrutura da psique descrita por Jung. O problema central da mulher moderna provavelmente reside na unilateralidade da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Estamos imersos em uma cultura que exige luz e heroísmo o tempo todo. É um cenário onde a razão, a pressa e a aparência perfeita valem mais que tudo. E, nesse processo, desprezamos a natureza, o ritmo lento, o instinto e a sabedoria. Criou-se uma quebra profunda entre a nossa base instintiva (os desejos do corpo, as emoções) e as demandas rígidas da coletividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando a mente racional tenta silenciar a sabedoria biológica para se adequar a padrões externos, gera-se uma fragmentação interna insustentável. A mulher começa a viver &#8220;do pescoço para cima&#8221;. O corpo vira uma máquina que deve funcionar e não incomodar. Mas a psique, como a natureza, busca equilíbrio. A mulher obesa vive essa cisão de forma dramática: sua consciência rejeita o corpo, sente vergonha dele, tenta escondê-lo. E o que o inconsciente faz? Ele hipertrofia o corpo como compensação. É como se a alma gritasse: &#8220;Você tenta me fazer invisível, então eu serei enorme até que você seja obrigada a olhar para mim.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A premissa junguiana de que a psique possui uma realidade autônoma nos convida a ler o sintoma como um mensageiro. A obesidade, em meu ver, pode ser a linguagem dramática que o inconsciente encontra para dialogar com a rigidez mental. O corpo obeso não é um erro biológico, mas a concretização da Sombra; ele dá visibilidade e volume aos aspectos vitais da personalidade que foram exilados da consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-alerta-sobre-o-peso-moral-dessa-tarefa" style="font-size:19px"><strong>Jung nos alerta sobre o peso moral dessa tarefa:</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">&#8220;A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade.” (Jung, O.C. 9/2, §14).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A gordura carrega a densidade dessa Sombra. Ela dá forma concreta àquilo que a mulher não se permite viver. A mulher &#8220;boazinha&#8221;, que nunca diz não, engole a raiva. A mulher &#8220;produtiva&#8221;, que nunca descansa, engole o desejo de prazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesses episódios de compulsão, ocorre uma dissociação momentânea. A &#8220;boa menina&#8221; sai de cena e o instinto faminto assume o comando para compensar a rigidez da consciência. A comida torna-se um símbolo de união distorcida com a vida. O verdadeiro &#8220;esforço moral&#8221;, como sugere Jung, reside em retirar a projeção da comida e encarar a fome simbólica da alma. É a coragem de perguntar: &#8220;Do que eu tenho fome?&#8221;. É a coragem de nutrir-se de sentido, para que o corpo não precise mais carregar o peso físico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-gordura-como-muralha-protetora-do-feminino" style="font-size:19px"><strong>A gordura como muralha protetora do Feminino</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A base da minha argumentação apoia-se na genialidade de Marion Woodman. Em sua obra A Coruja era Filha do Padeiro, ela estuda a obesidade não como gula, mas como medo. Um medo profundo de ser ferida. Ela define o fenômeno e sua função protetora com precisão:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>&#8220;Num nível, sua gordura a protege dos homens. Seu animus negativo a afasta do mundo, pondo-a num casulo. [&#8230;] A criança feminina interior precisa do corpo gordo para proteger-se de todo homem feito, bem como da responsabilidade do sentimento feminino maduro.&#8221; — (Woodman, Marion. A Coruja era Filha do Padeiro. p. 131-132).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Vamos nos deter nessa imagem do &#8220;casulo&#8221;. A partir desse ponto, penso que seria possível afirmar que a gordura atua, metaforicamente, como o muro de um castelo medieval.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Muitas mulheres que lutam com o peso carregam dentro de si uma &#8220;fome de Mãe&#8221; — do arquétipo que nutre, acolhe e aceita incondicionalmente. Quando esse princípio é ferido, instala-se um vazio voraz no peito. E quem vive dentro desse vazio? Frequentemente, a <em>Puella Aeterna</em> (a eterna menina). Imagine uma princesa interior, extremamente sensível, criativa, espiritualizada, mas frágil como vidro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sem essa armadura adiposa, essa essência feminina sentir-se-ia aniquilada pelas exigências cruéis de um mundo patriarcal ou de uma psique interna dominada pelo patriarcado. O corpo grande é o escudo que permite a essa <em>Puella</em> sobreviver, refugiando-se na densidade da matéria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Num nível prático, a gordura &#8220;dessexualiza&#8221; a mulher aos olhos da cultura padrão, protegendo-a de olhares que ela talvez não saiba como lidar. A gordura cria uma distância física, um abismo entre ela e o outro. Esse excesso de corpo atua como uma âncora pesada que impede que a personalidade frágil &#8220;voe&#8221; e se desintegre diante das pressões externas. A gordura diz: &#8220;Eu sou sólida, eu existo, ninguém me derruba&#8221;.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-o-animus-o-tirano-interior" style="font-size:19px"><strong>Será o <em>Animus</em> o Tirano interior?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Aqui adentramos o ponto crucial e mais doloroso do estudo: o papel do <em>Animus</em> negativo. Jung define o Animus como o componente masculino na psique feminina, responsável pelo Logos (discernimento, espírito, foco). No entanto, quando não integrado, ele deixa de ser um parceiro interno e se torna um &#8220;<em>Animus</em> Usurpador&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ele ocupa o lugar do Ego e governa a psique com opiniões coletivas rígidas e impessoais. Em <em>O Eu e o Inconsciente</em>, Jung adverte sobre essa possessão:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>&#8220;O animus parece uma assembleia de pais e outras autoridades, que formula opiniões incontestáveis e “racionais”, ex cathedra.&#8221;</em> — (Jung, C.G., §332).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Talvez possamos dizer que a mulher obesa está frequentemente &#8220;possuída&#8221; por esse tribunal interno. É uma voz que não descansa. Ela acorda com o <em>Animus</em> e vai dormir com ele. A voz diz: <em>&#8220;Você deveria ser magra&#8221;, &#8220;Olha o tamanho dessa barriga&#8221;, &#8220;Você não tem força de vontade&#8221;, &#8220;Você é uma fracassada&#8221;, &#8220;Ninguém vai te amar assim&#8221;.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse tirano ataca o corpo feminino, tratando-o como um objeto a ser esculpido à força, como se a carne fosse inimiga do espírito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E qual a resposta do corpo a essa ditadura? A Enantiodromia — a lei reguladora da psique que dita a reversão dos opostos. A natureza odeia extremos. Quanto mais o <em>Animus</em> impõe a dieta rígida na segunda-feira, a restrição calórica e a frieza, mais o instinto oscila violentamente para o extremo oposto na sexta-feira à noite: a compulsão, o caos, o excesso e o abandono.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É uma guerra civil psíquica. De um lado, o general tirano (<em>Animus</em>); do outro, a rebelde faminta (Sombra). E a gordura? A gordura é a trincheira de resistência do feminino. O corpo cresce para resistir à tentativa de aniquilação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-dai" style="font-size:19px"><strong>&#8220;E Daí?&#8221;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Diante desses fatos, questiono: Qual a relevância prática de identificar o <em>Animus</em> negativo no estudo das causas da obesidade? A implicação é avassaladora, pois aponta a falência completa dos modelos atuais de emagrecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Minha crítica é que dietas restritivas e abordagens comportamentalistas focadas apenas no controle – no estilo “feche a boca e malhe&#8221;, ou “você precisa aplicar a caneta emagrecedora” – são, na verdade, ferramentas do próprio <em>Animus</em> controlador.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando um profissional de saúde, ou a própria mulher, prescreve rigidez a uma alma que já é tiranizada internamente pela própria rigidez, estamos colocando “lenha na fogueira”. Estamos alimentando a dissociação entre corpo e alma, não a curando. Estamos dando mais armas para o tirano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Percebo uma disparidade na abordagem multidisciplinar. Trata-se a gordura como inimiga, quando ela é mensageira. Tentar emagrecer uma mulher sem antes despotencializar seu <em>Animus</em> negativo é uma violência psíquica. O &#8220;efeito sanfona&#8221; não é falta de “vergonha na cara”; é o triunfo da natureza instintiva que derruba o regime do tirano para poder respirar. O corpo engorda de novo para se proteger da frieza da dieta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Precisamos mudar o modelo: de uma &#8220;estética do controle&#8221; para uma &#8220;ética do cuidado&#8221;. Transformar o corpo de um campo de batalha em um <em>Temenos</em>: um espaço sagrado e inviolável onde a alma pode habitar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-acolhimento-e-despotencializacao-o-caminho-da-cura" style="font-size:19px"><strong>Acolhimento e Despotencialização: O Caminho da Cura</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como, então, se dá a cura? Se a guerra não funciona, o que funciona? A proposta não é o aniquilamento do <em>Animus</em>, mas a sua transformação de Usurpador em Mediador. O Logos deve servir ao Eros. A mente deve servir ao amor, não o contrário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Woodman</strong> enfatiza que a cura passa pela concretização e pelo ritual. O corpo entende rituais, não conceitos abstratos. Em vez de lutar abstratamente contra o peso, a mulher é convidada a criar rituais de autocuidado que honrem o feminino rejeitado. Em <em>O Vício da Perfeição</em>, a autora explora como o ritual pode transformar o &#8220;demoníaco&#8221; (a compulsão cega) em &#8220;sagrado&#8221; (a celebração da vida).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-processo-envolve-retirar-a-projecao-de-autoridade-da-comida-e-devolve-la-ao-proprio-self" style="font-size:19px">O processo envolve retirar a projeção de autoridade da comida e devolvê-la ao próprio Self. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isso exige diálogo interno, muitas vezes através da imaginação dirigida. É preciso sentar-se com esse <em>Animus</em> tirano e dizer: <em>&#8220;Eu te ouço, mas você não manda mais aqui&#8221;</em>. É preciso dar voz à <em>Puella</em>, à menina interior, e perguntar o que ela realmente quer. Talvez ela não queira um bolo; talvez ela queira pintar, dançar, dormir ou apenas chorar num colo seguro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao invés de obedecer cegamente às ordens do <em>Animus</em> negativo, a mulher aprende a questionar suas exigências de perfeição e a proteger sua criança interior de forma consciente. Quando ela aprende a defender sua própria sensibilidade, ela não precisa mais recorrer à gordura como escudo literal. O muro de gordura pode ser desmontado, tijolo por tijolo, porque agora existe uma fronteira psíquica segura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung fala sobre a Função Transcendente que dá uma terceira saída no conflito dos opostos. Na mulher obesa, essa saída acontece quando ela para de comer suas emoções e passa a usar sua voz e sua criatividade para expressar sua fome de vida. O caminho da cura é parar de projetar o sagrado na comida — como quem busca a redenção num pedaço de chocolate — e passar a ter um encontro real, consciente e prazeroso com a própria vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-resgate-do-sagrado" style="font-size:19px"><strong>O Resgate do Sagrado</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ao final desta reflexão, enxergo na obesidade não um fracasso, mas uma tentativa heroica e ao mesmo tempo trágica de sobrevivência. Talvez a nossa visão de mundo precise mudar para compreender que a gordura, tão demonizada, muitas vezes &#8220;salvou&#8221; a vida psíquica de muitas mulheres, impedindo uma fragmentação psicótica ou um colapso total. Há uma sabedoria no sintoma. O corpo fez o melhor que podia nas circunstâncias que tinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Anseio aprendermos a acolher o peso como parte essencial da transformação — um tempo de casulo — e não apenas como algo errado que precisa ser arrancado à força.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em síntese, a obesidade é o grito do feminino ferido que exige ser ouvido. A gordura que serve como um casulo protetor para a <em>Puella</em> contra um complexo que usurpou o trono da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A principal contribuição deste estudo é a inversão da lógica de tratamento: paramos de lutar contra a gordura e começamos a lutar pela alma. A despotencialização do <em>Animus</em> negativo ocorre pelo acolhimento e pela educação desse aspecto interno. O caminho da cura exige voltar a sentir o feminino e respeitar a inteligência do corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Deixo uma pergunta, não para ser respondida, mas para reverberar na alma: <strong>Se o peso que carregamos no corpo for apenas o reflexo do peso que não suportamos carregar na alma, o que aconteceria se, pela primeira vez, tivéssemos a coragem de largar o fardo da perfeição e simplesmente SER?</strong></p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/fernanda-biscalquim-de-andrade/">Fernanda Biscalquim de Andrade – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata pelo IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion. Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 10. ed. Petropólis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________A natureza da psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________O eu e o inconsciente. 27. ed. Petropólis: Vozes, 2015. _____________Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11. ed. Petropólis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WOODMAN, Marion. A Coruja era Filha do Padeiro: um Estudo Revelador Sobre a Anorexia Nervosa, Obesidade e o Feminino Reprimido. São Paulo. Cultrix, 5.ed. 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">_____________O Vício da Perfeição: Compreendendo a Relação entre Distúrbios Alimentares e Desenvolvimento Psíquico. São Paulo. Summus Editorial, 1.ed. 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Emagrecimento: uma visão psicológica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/emagrecimento-uma-visao-psicologica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Jul 2022 11:53:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[emagrecimento]]></category>
		<category><![CDATA[obesidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5284</guid>

					<description><![CDATA[<p>Muitas vezes sou procurado para ajudar pessoas que sofrem de transtornos alimentares, com queixas que vão desde o comer em excesso, o famoso &#8220;apetite de boi&#8221; presente na bulimia, até o &#8220;comer de menos&#8221; da anorexia. Ressalto que estas questões alimentares e suas conseqüentes manifestações, tanto na aparência corporal quanto na saúde, já tem status [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes sou procurado para ajudar pessoas que sofrem de transtornos alimentares, com queixas que vão desde o comer em excesso, o famoso &#8220;apetite de boi&#8221; presente na bulimia, até o &#8220;comer de menos&#8221; da anorexia. Ressalto que estas questões alimentares e suas conseqüentes manifestações, tanto na aparência corporal quanto na saúde, já tem status de epidemia mundial. Uma outra questão importante que merece análise e reflexão, é o fato de que enquanto quase 40% da população mundial está com excesso de peso, apresentando níveis elevados do índice de massa corporal (IMC), outros 35% sofrem de desnutrição, evidenciando nossa realidade que está desequilibrada, desigual e excludente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste espaço, dirijo-me a você que pretende emagrecer, mas por motivos alheios e contraditórios à sua vontade não consegue. Por que será que uma grande parcela de indivíduos obesos ou com sobrepeso enfrentam tantas dificuldades em perder pesos e medidas? Quase todas as pessoas, muitas vezes sem saberem, repetem um conjunto de práticas comportamentais e emocionais, que por sua vez, provocam dependências, tanto bioquímicas quanto relacionais. Essas são as verdadeiras causas das dificuldades de mudanças, incluindo o sucesso de um desejo ou necessidade de emagrecimento. Isso nos faz concluir que, mesmo sem sabermos, somos viciados em uma infinidade de emoções e comportamentos e das suas conseqüentes bioquímicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre digo a quem quer emagrecer e não consegue que devem existir muitas causas ou ganhos secundários, inconscientes ou não, que contribuem para impedir que o peso seja perdido. Dentre eles, temos o medo de enfrentar uma imagem corporal mais atraente, que pode despertar ciúmes e desequilíbrio nas relações afetivas, possibilidades de mudanças indesejadas ou temidas e a perda da compensação prazerosa que o excesso alimentar produz, porque a comida, além de gratificar, nos dá sentimentos de acolhimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, também existe uma enorme sabotagem, igualmente inconscientes ou não, de todas as pessoas envolvidas nos nossos vínculos relacionais, porque toda mudança produz insegurança, medo e tentativa de manutenção das dinâmicas de vida já conhecidas, mesmo quando dolorosas e indesejáveis. Paralelamente, é importante deixar claro que a relação que cada indivíduo tem com o seu corpo é proporcional nas relações com as demais pessoas. Por isso, um corpo pode estar pesado pelas palavras de amor ou de raiva que não puderam ser ditas nas diversas relações, sobrando apenas o acúmulo energético e compensatório dos sentimentos não expressos na forma de gordura, que pode ser uma excelente reserva energética para ser usada na forma de trabalho físico das ações construtivas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perder peso implica em reestruturar a nova imagem corporal, reconstruir os vínculos sociais e interpessoais, buscar novos significados para as relações amorosas, reeducar o organismo em uma outra configuração bioquímica e buscar um sentido de prazer e satisfação de vida mais abrangente do que os obtidos pela ingestão de alimentos. Ou seja, em qualquer mudança de vida pretendida várias crises e síndromes de abstinência poderão surgir, provocando dor e sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sucesso vai depender da sua disponibilidade em encarar a mudança de um conjunto de fatores que incluem o corpo, a mente, as relações afetivas, familiares, sociais, profissionais e até espirituais. Só assim uma mudança de vida como uma dieta alimentar ou um programa de exercícios físicos terá sucesso, pois você perceberá que o excesso de peso terá outra razão além de restos de um passado que não mais te influencia. Emagrecer não é tão fácil como se imagina e na maioria das vezes é necessário muita ajuda, principalmente a psicológica, e é um grande desacerto acusar quem não está obtendo sucesso de preguiçoso ou incapaz, porque existem uma infinidade de mecanismos físicos, bioquímicos e psíquicos que entram em estado de alarme e reagem prontamente a qualquer experiência de fome ou sentimento de perda, inevitáveis em qualquer dieta de emagrecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PÍLULAS:</p>



<ol class="wp-block-list">
<li>Autoconhecimento é a base para qualquer mudança de vida;</li>



<li>Amor próprio ou auto-estima é o único meio que te deixará em paz com o espelho;</li>



<li>Viver com sentido e significado é o que confere beleza, saúde e relações prazerosas na vida;</li>



<li>Lembre-se: comer para viver e não viver para comer;</li>



<li>Procure ajuda psicológica para superar as dificuldades e evitar as recaídas</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">Texto publicado na revista IstoÉ Gente em Abril/2007</p>



<p class="wp-block-paragraph">*&nbsp;WALDEMAR&nbsp;MAGALDI FILHO</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psicólogo, Analista Junguiano, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/emagrecimento-uma-visao-psicologica/">Emagrecimento: uma visão psicológica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Feminino reprimido: uma variável sombria na equação das calorias ingeridas e consumidas</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/feminino-reprimido-uma-variavel-sombria-na-equacao-das-calorias-ingeridas-e-consumidas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Jul 2022 12:52:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[calorias]]></category>
		<category><![CDATA[emagrecimento]]></category>
		<category><![CDATA[gordofobia]]></category>
		<category><![CDATA[gordura]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[obesidade]]></category>
		<category><![CDATA[peso]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É fato que questões relacionadas com o peso são, em maior ou menor grau, uma preocupação presente na vida da maioria das pessoas, e, muito provavelmente, em uma consulta informal em qualquer grupo de pessoas, uma boa parte terá ressalvas quanto ao próprio peso. Considerando a situação do Brasil, uma pesquisa online de 2012 feita [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">É fato que questões relacionadas com o peso são, em maior ou menor grau, uma preocupação presente na vida da maioria das pessoas, e, muito provavelmente, em uma consulta informal em qualquer grupo de pessoas, uma boa parte terá ressalvas quanto ao próprio peso. Considerando a situação do Brasil, uma pesquisa online de 2012 feita com 25 mil pessoas da América Latina, aponta que os brasileiros são o povo mais insatisfeito com o próprio peso, além de se destacarem também por um uso maior de remédios de <strong>emagrecimento</strong>:”&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-table"><table><tbody><tr><td>&nbsp;</td><td>Brasil&nbsp;</td><td>América Latina&nbsp;</td></tr><tr><td>Um pouco acima do peso&nbsp;</td><td>43%&nbsp;</td><td>35%&nbsp;</td></tr><tr><td>Acima do peso&nbsp;</td><td>16%&nbsp;</td><td>28%&nbsp;</td></tr><tr><td>Satisfeito com o próprio peso&nbsp;</td><td>30%&nbsp;</td><td>37%&nbsp;</td></tr><tr><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td></tr><tr><td>Uso de emagrecedores&nbsp;</td><td>12%&nbsp;</td><td>8%&nbsp;</td></tr></tbody></table><figcaption class="wp-element-caption">Fonte: Brasileiro é o que mais usa remédio de emagrecer na América Latina &#8211; notícias em Ciência e Saúde (globo.com)&nbsp;</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O peso corporal é um indicador importante de saúde, seu excesso é um fator de risco para várias doenças graves, além de ter impactos físicos mais diretos, principalmente relacionados a uma sobrecarga para os ossos. De forma mais subjetiva ele está relacionado também a autoimagem desejada, imposta pelos padrões vigentes de “beleza perfeita”, pois não podemos nos esquecer que o padrão de beleza mudou muito ao longo da história e já houve época em que corpos mais robustos eram os belos e os corpos esquálidos buscados hoje seriam o oposto.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando a relevância, que o tema tem na vida das pessoas, não é de se estranhar a frequência com que ele aparece nos atendimentos terapêuticos, abrangendo tanto questões relacionadas à saúde, quanto à insatisfação com a autoimagem e a busca, muitas vezes obsessiva, por um corpo ideal.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse artigo vou apresentar uma perspectiva sobre o excesso de peso no universo feminino, que vai além de um saldo positivo entre as <strong>calorias</strong> ingeridas e consumidas que se transforma em gordura. Essa perspectiva está baseada <strong>no livro <em>“A coruja era filha do padeiro</em>” de Marion Woodman</strong>, onde a autora amplia nosso entendimento sobre a dinâmica do ganho de peso falando sobre seus aspectos fisiológicos e psicológicos, partindo de um estudo feito com mulheres que estavam acima do peso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estar acima do peso desejado é um fator de grande angústia e sofrimento para as mulheres, mesmo estando conscientes de que existe um padrão vigente que impõe modelos de magreza que desconsideram características individuais porém dada a enxurrada de imagens de “corpos magros e belos” que inundam as redes sociais, é uma tarefa hercúlea se colocar na frente de um espelho e se sentir bem quando a imagem ali refletida não se parece com as imagens estampadas nas capas de revista há algum tempo atrás e, nos dias de hoje, postadas nas redes sociais.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo em casos em que as mulheres percebem que a comida não é utilizada apenas para se nutrir, que muitas vezes ela acaba assumindo um papel emocional, o mais comum é elas se agarrarem à ideia de que conseguir atingir o peso desejado é somente uma questão objetiva matemática de <strong>calorias</strong> ingeridas e gastas, porém existem vários fatos que contrariam essa linha de raciocínio. Pessoas que se alimentam de forma bem parecida, mas uma delas ganha mais peso que a outra, pessoas que conseguem eliminar peso às custas de muita disciplina tanto na dieta quanto nos exercícios que eliminam peso, mas que acabam voltando à situação anterior mesmo mantendo a duras penas boa parte do rigor na dieta e nos exercícios.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E por que isso acontece? Existiria uma variável oculta na equação que resulta no peso final de uma pessoa?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seu livro, <strong>Mary Woodman</strong> traz uma perspectiva enriquecedora sobre o tema, por um lado uma visão fisiológica sobre como as células de gordura podem se constituir de duas formas diferentes e como elas influenciam de formas distintas a dinâmica de ganho/perda de peso, e por outro, uma perspectiva da psicologia junguiana que tira da sombra uma variável oculta, o feminino reprimido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com relação aos tipos de obesidade, Woodman apresenta duas possibilidades, a obesidade primária e a secundária. A obesidade primária é aquela em que a <strong>gordura</strong> é constituída por um maior número de células do que a média das pessoas não obesas, e a secundária tem uma quantidade de células de gordura dentro do padrão, porém de maior tamanho.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudos já mostraram que uma perda sustentável do peso, ou seja, em que não se recupere os quilos eliminados, é mais provável no segundo tipo de obesidade, quando um peso menor é atingindo pela diminuição do tamanho das células de gordura. No primeiro caso, há uma diminuição da quantidade de células de <strong>gordura</strong>, porém o corpo vai tentar recuperar as células perdidas assim que a força de vontade da pessoa não for mais tão firme quanto antes.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme citado pela autora, quando a <strong>obesidade</strong> surge na infância, ela é caracterizada pelo maior número de células de gordura, explicando porque é tão difícil para pessoas que estão acima do peso desde a infância perderem peso e manter o resultado obtido. Se o aumento de peso acontece só na vida adulta, temos a obesidade secundária, o que aumenta consideravelmente as chances de não se recuperar os quilos perdidos. Assim podemos entender porque pessoas que foram crianças obesas tendem a ter muito mais dificuldade em ter e manter um peso considerado normal, o que já agrega uma nova variável à contabilidade do peso. Para trazer alguma luz para a razão pela qual as células se constituem de forma diferente nas duas fases da vida, coloco a seguir uma citação de Jung feita por de Marie-Louise von Franz que encontrei no livro sobre tipos psicológicos, ou seja, dentro de um contexto totalmente diferente do tema abordado aqui, que pode ser um paralelo biológico interessante:&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Ele assinala, por exemplo, as duas maneiras pelas quais as espécies animais se adaptam à realidade: ou reproduzindo-se tremendamente e tendo um mecanismo inferior de defesa, como as pulgas, os piolhos, e os coelhos, ou procriando muito pouco e construindo fortíssimos mecanismos de defesa, como o porco espinho e o elefante. (von Franz &amp; Hillman, 2020)</em>&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Por esse paralelo, podemos considerar que o ego da criança ainda tem muito a aprender, seu sistema de defesa com relação ao mundo ainda está sendo construído, então quando as células de gordura são produzidas vão se comportar como as pulgas, procriando muito e quando isso vem a acontecer na vida adulta elas se reproduzem pouco mas ficam robustas, mais fortes como o elefante, sendo que no primeiro caso como o padrão não muda na vida adulta, parece que ele fica estacionado no estágio anterior de desenvolvimento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando o aspecto psíquico do tema a partir da visão junguiana, em que o corpo é um canal de expressão dos complexos, Goodman fez um experimento de associação de palavra e obesidade com vinte mulheres obesas e vinte no grupo controle e, uma análise mais profunda em três casos de estudo, identificou o feminino reprimido como um complexo manifestado em seus corpos como o excesso de peso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi a partir de seu experimento de associação de palavras que Jung percebeu que as pessoas tinham reações físicas involuntárias muito sutis quando determinadas palavras eram ouvidas. Ao buscar a origem dessas reações “Jung terminaria por concluir que os vários sintomas corporais eram mensagens da própria psique. Em consequência, era possível atribuir-lhes significado simbólico” (Woodman, 2020, p. 104).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir do seu experimento de associação de palavras e do estudo de casos, a autora percebeu a relação de cinco complexos com a obesidade, complexo paterno, materno, alimentar, sexual e religioso, e analisando seus aspectos simbólicos percebeu um ponto em comum entre todos eles, a perda do feminino.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo vou trazer alguns aspectos que mostram a relação destes complexos com a perda do feminino e com a obesidade&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo paterno pode se manifestar quando se tem a imagem de um pai perfeito, idealizado que provoca na filha o desejo de estar à altura dessa perfeição, levando-a a renegar seu lado sombrio, seus demônios. Ela faz de tudo para criar uma boa imagem para seu pai e ao fazer isso não pode se tornar uma mulher completa com limitações e imperfeições. Essa rigidez com que se cobra perfeição faz com que ela perca um aspecto essencial do feminino,&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>a sua devoção à ordem apolínea de vida, conjugada com o medo do demônio, leva-a buscar o controle do ego por meio da atividade do animus. Todavia, ao ignorar o seu lado puella, ela está perdendo o seu vínculo com Dionísio, o que leva à perda do componente essencial da natureza feminina. (Woodman, 2020, p. 165)</em>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo materno tem um papel mais importante no que diz respeito a desordens alimentares do que o complexo paterno e, tudo pode começar desde muito cedo com uma mãe que não sabe diferenciar os tipos de choros da criança e que assume que todos eles são de fome e atende a todos os chamados do bebê com comida, o que faz com que ele tenha dificuldade em diferenciar suas percepções corporais, pois tudo foi tratado da mesma forma, sendo alimentado, o que está fortemente associado à desordens alimentares.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao focar em seu peso, a mulher obesa desvia a atenção do enfrentamento que precisa acontecer para que haja o resgate do seu lado feminino mais instintivo, que foi renegado a favor de uma falsa sensação do controle do ego, pois se deixar levar por um ritmo mais espontâneo da vida é extremamente assustador e, como sua mãe também vive apartada desse ritmo, não consegue passar para a filha a segurança de que ela estará presente para acolhê-la nesse momento difícil.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Curvar-se à Grande Deusa é aceitar a vida tal como é: hoje inverno, amanhã primavera; a crueldade combinada com a beleza; a solidão seguindo o amor. Só é possível submeter-se quando sabe que os braços da mãe amorosa &#8211; ou, talvez, as asas estendidas do Espírito Santo &#8211; estarão abertas para acolher a criança que cai. (Woodman, 2020)</em>&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A manifestação dos outros três complexos podem ser observados na mulher obesa quando ela, por temer o contato com sua natureza feminina mais instintiva, passa o dia submetida a uma vigilância rígida para não ser levada pelos seus anseios de todos os tipos de fome, espiritual, sexual e de uma vida plena, mas à noite sucumbe às investidas desse lado sombrio inconsciente e vai tentar saciar todas as fomes de forma literal com o alimento proibido.&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>“A ligação intima entre o alimento físico e o alimento religioso é evidente. Elas anseiam pelo seu &#8220;pão de cada dia&#8221;, mas encaram o símbolo em termos concretos. (&#8230;) comer até que o ego caia no inconsciente torna- se uma paródia do orgasmo “ (Woodman, 2020, pp. 175, 176)</em>&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui novamente o caminho é tornar o ego forte para que ele suporte a integração do feminino que está apartado, o que é uma tarefa árdua em uma cultura que se afastou da vida simbólica e por isso sacia a fome espiritual e sexual com o alimento na sua forma literal. Resgatar a capacidade de simbolizar os sintomas é o caminho para realizar a difícil tarefa, que pode contar com a ajuda dos sonhos e da imaginação ativa com o próprio corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com todas as considerações feitas é difícil se manter preso à ideia de que o peso corporal é apenas o resultado de uma operação aritmética, existem outras variáveis tanto fisiológicas quanto psíquicas que entram nessa conta, mas que não podem ser controladas como a quantidade de calorias ingeridas, até mesmo a obesidade primária pode significar uma eterna luta contra <strong>o excesso peso</strong>, em que as <strong>calorias</strong> consumidas não são a principal componente do resultado. E o mais importante de tudo é algo que deve ser considerado muito além da obesidade, a relação da psique com o corpo, a partir da perspectiva de que um sintoma é uma mensagem da psique, um complexo, que está manifestado de forma simbólica no corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako Kurauti&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro analista em formação pelo IJEP&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra E. Simone Magaldi Membro didata do IJEP&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Feminino reprimido, uma variável sombria | Dulce Kurauti" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/dyVlhuyOZXI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bibliografia</strong><strong></strong>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">von Franz, M.-L., &amp; Hillman, J. (2020). <em>A tipologia de Jung &#8211; Ensaios sobre psicologia analística.</em> &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Woodman, M. (2020). <em>A coruja era filha do padeiro.</em> Cultrix.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/01/brasileiro-e-o-que-mais-usa-remedio-de-emagrecer-na-america-latina.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">G1 &#8211; Brasileiro é o que mais usa remédio de emagrecer na América Latina &#8211; notícias em Ciência e Saúde (globo.com)</a>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Você tem fome de quê?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/voce-tem-fome-de-que/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Keller Alves Villela Ocaña Bruno]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 12:53:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[fome]]></category>
		<category><![CDATA[gordofobia]]></category>
		<category><![CDATA[obesidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5372</guid>

					<description><![CDATA[<p>Nunca se falou tanto no problema da obesidade, a cada dia que passa mais pessoas têm que lidar com essa questão. Principalmente para as mulheres a cobrança de um corpo perfeito e adequado aos padrões acaba acarretando inúmeros descontentamentos e desencadeando problemas alimentares. A obesidade em mulheres passou de 14% em 2003 para 25,2% em [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Nunca se falou tanto no problema da obesidade, a cada dia que passa mais pessoas têm que lidar com essa questão. Principalmente para as mulheres a cobrança de um corpo perfeito e adequado aos padrões acaba acarretando inúmeros descontentamentos e desencadeando problemas alimentares.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A obesidade em mulheres passou de 14% em 2003 para 25,2% em 2013. Cerca de 82 milhões de pessoas apresentam IMC igual ou maior que 25 (sobrepeso ou obesidade) sendo que a prevalência de excesso de peso é no sexo feminino, 58,2% contra 55,6% no sexo masculino. Nos últimos anos uma parcela dos obesos em tratamento, cerca de 30% apresenta um comportamento de descontrole alimentar com uma ingestão compulsiva de grandes quantidades de alimento durante o dia, com a sensação de perda de controle. Esse quadro está relacionado com outras graves doenças psiquiátricas como depressão e ansiedade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A obesidade é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal no indivíduo. Para o diagnóstico em adultos, o parâmetro utilizado mais comumente é o do índice de massa corporal (IMC).&nbsp; Para ser considerado obeso, o&nbsp;IMC&nbsp;deve estar acima de 30. A obesidade pode ser desencadeada por diversos fatores, entre eles a compulsão alimentar que é caracterizada, de acordo com o DSM-V, pela ingestão de grande quantidade de alimentos em um período de tempo delimitado (até duas horas), acompanhado da sensação de perda de controle sobre o quê ou o quanto se come. Para caracterizar o diagnóstico, esses episódios devem ocorrer pelo menos dois dias por semana nos últimos seis meses, associados a algumas características de perda de controle e não acompanhados de comportamentos compensatórios dirigidos para a perda de peso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que fome é essa que quanto mais se come mais vazio se sente? É carência materna?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos pensar que a carência materna pode levar a compulsão alimentar uma vez que a boa mãe deve ser nutridora e quando se instala um complexo materno de uma mãe não suficientemente boa, fica-se com uma fome insaciável. Para o pediatra e psicanalista Winnicott a mãe suficientemente boa, é aquela que possibilita ao bebê a ilusão de que o mundo é criado por ele, concedendo-lhe, assim, a experiência da onipotência primária, base do fazer-criativo. E a percepção criativa da realidade é uma experiência do&nbsp;Self, núcleo singular de cada indivíduo. A mãe suficientemente boa (não necessariamente a própria mãe do bebê) é aquela que efetua uma adaptação ativa às necessidades do bebê, uma adaptação que diminui gradativamente, segundo a capacidade deste em mensurar o fracasso da adaptação e em tolerar os resultados da frustração. Assim, podemos pensar que, se amadurecer significa alcançar o desenvolvimento do que é potencialmente intrínseco, possíveis dificuldades da&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A3e">mãe</a>&nbsp;em olhar para o&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Filho">filho</a>&nbsp;como diferente dela, com capacidade de alcançar certa autonomia, podem tornar o ambiente não suficientemente bom para aquela&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Crian%C3%A7a">criança</a>&nbsp;amadurecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung os sintomas corporais são mensagens da própria psique, portanto é possível atribuir-lhe um significado simbólico que é muito mais acessível através dos sonhos. Os sonhos servem de intermediário entre o psíquico e o fisiológico, ligando-os entre si. Para Jung o poder de cura está na percepção consciente da natureza simbólica do sonho, que fornecerá o significado psíquico dos sintomas corporais por meio dos quais o espírito lutará por comunicar sua condição e suas necessidades. Tomar consciência do corpo e de suas operações equivale a tornar-se consciente do espírito. Sendo assim o processo de individuação pode ser percebido também no corpo, com isso em mente devemos compreender a obesidade em termos simbólicos, a partir dessa compreensão temos possibilidade de tratamento e de cura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Woodman ser viciado é ser empurrado na direção de um dado objeto por uma energia interior incontrolável e quanto mais o indivíduo o tem mais ele quer. Podemos observar que em quadros de obesidade e compulsão alimentar essa relação viciada está presente. O sujeito é tomado por uma força maior (o complexo), que o faz ingerir uma enorme quantidade de comida num curto espaço de tempo e sem controle nenhum. Entendendo que o vício é um desejo que não encontra seu verdadeiro objeto, podemos compreender a compulsão como um sintoma de um instinto não satisfeito e, portanto, atuado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No transtorno de compulsão alimentar a fome que necessita ser satisfeita é a fome psíquica, cuja base é instintiva e que foge ao controle do Eu por estar fora do domínio da consciência. Para Jung a fome psíquica seria o instinto modificado, o instinto como fenômeno psíquico. A fome como expressão característica do instinto de autoconservação é sem dúvida um dos fatores mais primitivos e mais poderosos que influenciam o comportamento humano. Ele observou que, no homem primitivo, o medo dos inimigos e da fome era um problema maior que a sexualidade. Analisando-se a compulsividade do homem contemporâneo podemos encontrar o mesmo medo, uma luta pela autoconservação e adaptação social. Para Jung o medo impede a progressão da libido, que quando represada por um obstáculo não regride necessariamente para objetos sexuais, mas para atividades rítmicas infantis que são o modelo primário do modelo de alimentação. A compulsão alimentar pode ser compreendida como a regressão da libido até as camadas mais profundas da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para a psicologia analítica o indivíduo doente é ¨tomado¨ pela doença, que é um complexo que se constela e traz simbolicamente alguma necessidade da alma não escutada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O relacionamento mais importante entre mulheres é a relação mãe e filha. Esse é um elo primordial, é o ponto de origem da identidade do ego da mulher, da sensação de segurança diante do mundo, dos sentimentos que essa mulher terá sobre outras mulheres, sobre si mesma e sobre seu corpo. Para Woodman na mulher obesa o complexo materno é crucial. O bebê tem choros diferentes para cada necessidade, mas se sua mãe não souber interpretar os diferentes choros, não dispor de recursos internos para dar respostas diferentes ou não tiver amor para atender as necessidades, responderá a todo tipo de choro com comida. Uma mãe que não tem contato com o próprio corpo não conseguirá fornecer ao bebê um sentido de harmonia com o universo e com o&nbsp;Self, o que será fundamental para o sentido ulterior de totalidade do filho. Neumann diz que quando a relação primária é perturbada a criança se culpa e sente que não é amada. Mais tarde o&nbsp;Self&nbsp;da menina se transformará na mãe terrível que rejeitará ao filho o direito de viver. Ela experimenta o animus da mãe como algo hostil e desenvolve um paradoxo, passa a experimentar todo princípio ordenador como um ataque a sua psique reagindo com medo. Se a relação primária for positiva, a criança aceitará o ataque do princípio ordenador, pois o predomínio do princípio de Eros lhe dá coragem para aceitar o poder negativo. Se por outro lado, essa relação for negativa um ego assustado nascido do instinto de autopreservação substituirá por agressão e por mecanismos de defesa a segurança que a mãe negativa foi incapaz de dar. Para Woodman a criança que não conseguiu viver seus próprios ritmos espontâneos desenvolve um medo petrificador do poder de seus próprios instintos. Essa criança se transformará na mulher adulta que não compreende o princípio feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É necessário que haja uma constância na relação mãe e filha para que esta se sinta acolhida. A repetição das atividades cotidianas como cuidar, alimentar, segurar, oferece conforto ao bebê e vai transformando os afetos aversivos em um senso de confiança, configurando assim um desenvolvimento normal. Dessa forma o bebê se sente amado e aceito dando base para um ego forte capaz de integrar elementos positivos e negativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mãe é quem nutre, cuida, recebe, ama, apóia, dá segurança. A mãe deve aceitar o filho em sua totalidade, porém este também apresenta aspectos que poderão ser rejeitados por essa mãe. O filho não aceito em sua totalidade poderá rejeitar o próprio corpo. A mãe real sempre apresentará caráter positivo e negativo. O indivíduo juntará a essas impressões da mãe real projeções fantasiosas que lhe chegam através do inconsciente coletivo e das características da Grande Mãe, que é sentida por todos. É da mãe real que recebemos nossas primeiras impressões de como ser mulher e do que significa ser mulher, é dela também que recebemos alguns aspectos da mãe arquetípica, a Grande Mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossa cultura o alimento é um catalisador para praticamente qualquer emoção, uma maneira positiva de expressar alegria, amor, aceitação. O alimento e suas qualidades estão no centro de todas as comemorações, partilhar alimento é fazer parte da festa, é festejar a vida. A compulsão alimentar é uma neurose e podemos entender que, vista pelo lado positivo, está forçando as mulheres a tornarem-se conscientes, mas tal conscientização pode não ser suportável. Quando o conflito ainda não se encontra na consciência assume uma forma psicossomática, a neurose atacará onde mais dói diretamente no cerne do ego feminino. A menina gorda se isola e mergulha em seu próprio mundo interior onde as fantasias compensam a vida não vivida. O proibido, neste caso o alimento, se torna ao mesmo tempo objeto de desejo e de perigo. Enquanto o impulso inconsciente por trás do alimento, que envolve o relacionamento mãe e filha, não for compreendido, será posto em prática em atuações destrutivas. Se for entendido, poderá ser elaborado criativamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É possível perceber a importância da figura materna na vida da mulher e como o relacionamento com a mãe pode afetar a imagem que a filha terá dela mesma. O relacionamento entre mãe e filha formará o complexo materno que poderá ter caráter positivo ou negativo, dependendo da qualidade desta relação. No caso da compulsão alimentar o que está constelado é o complexo materno negativo. Durante seu desenvolvimento o bebê sentirá a presença da mãe boa e da mãe terrível e conforme o relacionamento vai se dando no cotidiano ele internalizará estas figuras e dependendo da força de seu ego, que será formado a partir da relação entre ele e a mãe ele conseguirá lidar com os dois aspectos de forma saudável. Na ausência de uma mãe nutridora tanto pessoal quanto arquetipicamente a mulher tentará concretizá-la nas coisas, incluindo a comida. A comida se torna a mãe, o amor materno virá através da comida. Desenvolve-se uma relação de amor e ódio. A mulher comerá em demasia para preencher esse vazio, mas embora se preencha literalmente de comida até não poder mais, o vazio continua porque o que ela procura é desesperadamente pelo amor e o acolhimento que não foi sentido nos primeiros anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos uma geração de mulheres que se afastou do princípio feminino e da Grande Mãe, nossas mães foram impelidas para o mundo do patriarcado, onde é preciso manter a ordem, a força, o poder e ficaram distantes do princípio feminino, isso resultou nesse afastamento da mulher das coisas da natureza, dessa ligação com o mistério feminino. A imagem da Grande Mãe precisa ser resgatada para que assim a mulher possa superar a distância entre si mesma e sua feminilidade. É preciso se reconciliar com o feminino sagrado. O equilíbrio devolveria a vida. O princípio masculino que é perfeccionista, racional, orientado para a consecução de metas deveria ser equilibrado pelo princípio feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir desta compreensão podemos resgatar a relação entre mãe e filha. É necessário que esta mulher resgate a criança interior e a acolha para restaurar a relação com sua mãe interna, mesmo que a relação com a mãe externa esteja satisfatória ou que nem exista, porque o que causa toda a dor é a relação com a mãe interna, que foi composta pela imagem da mãe real e das impressões da mãe arquetípica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A obesidade precisa ser compreendida de forma simbólica, a partir dessa compreensão há a possibilidade de tratamento e de cura. Os sonhos são uma ferramenta importante neste processo pois através de suas mensagens podemos acessar os símbolos que nos levarão a compreensão do transtorno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Keller Villela</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psicóloga, Membro Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fone: 98225-4490 Vila Mariana e Guarulhos</p>



<p class="wp-block-paragraph">e-mail:&nbsp;<a href="mailto:kellervillela@terra.com.br">kellervillela@terra.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOB, Mario.&nbsp;Psicoterapia Junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças.&nbsp;São Paulo. Paulus, 2ª edição, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;A vida simbólica.&nbsp;Rio de Janeiro. Vozes, 5ª edição, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________________&nbsp;Os arquétipos e o inconsciente coletivo.&nbsp;Rio de Janeiro. Vozes, 8ª edição, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________________ A natureza da Psique. Rio de Janeiro. Vozes, 8ª edição, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich.&nbsp;A criança.&nbsp;São Paulo. Cultrix, 10ª edição, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WINNICOTT, Donald Woods.&nbsp;O brincar e a realidade. Rio de Janeiro, Imago, 1971.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WOODMAN, Marion.&nbsp;O Vício da Perfeição.&nbsp;São Paulo. Summus Editorial, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________________&nbsp;A coruja era filha do padeiro.&nbsp;São Paulo. Cultrix, 1980.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________________&nbsp;A feminilidade consciente.&nbsp;&nbsp;São Paulo. Paulus, 2003.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.abeso.org.br/">www.abeso.org.br</a>&nbsp; consultado em 28/07/2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ambulin.org.br/">www.ambulin.org.br</a>&nbsp; consultado em 28/07/2018.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Keller Villela &#8211;</em></strong></h4>
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