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	<title>Arquivos Personalidade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Personalidade - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Um perfil psicológico do velho triste a partir de Jung</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dimas Künsch]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Jun 2022 21:48:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Morte]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A arte de viver – a mais sublime e a mais difícil, segundo Jung – interpela a todos, também os idosos. Envelhecer é da vida, faz parte do ritmo natural da existência. Já o sentido de uma vida plena – ainda que muitas vezes no conflito e na dor -, esse, não! Depende de escolhas. [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h4 class="wp-block-heading" id="h-a-arte-de-viver-a-mais-sublime-e-a-mais-dificil-segundo-jung-interpela-a-todos-tambem-os-idosos-envelhecer-e-da-vida-faz-parte-do-ritmo-natural-da-existencia-ja-o-sentido-de-uma-vida-plena-ainda-que-muitas-vezes-no-conflito-e-na-dor-esse-nao-depende-de-escolhas-dimas-a-kunsch"><em>A arte de viver – a mais sublime e a mais difícil, segundo Jung – interpela a todos, também os idosos. Envelhecer é da vida, faz parte do ritmo natural da existência. Já o sentido de uma vida plena – ainda que muitas vezes no conflito e na dor -, esse, não! Depende de escolhas.</em> &#8211; <strong>Dimas A. Künsch</strong></h4>



<p class="wp-block-paragraph">“Perversão.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Ausência de estilo.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Uma verdadeira monstruosidade psicológica.”</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Carl Gustav Jung</strong> não segura a língua nem mede palavras quando deseja chamar a atenção para o triste destino de um tipo de vida que poderíamos designar como besta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso específico, ele usa essas e outras expressões, igualmente fortes, para se referir ao envelhecimento, quando esse envelhecimento ocorre, tristemente, na contramão do sentido natural da vida humana.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vida sem propósito, desprovida de qualidade. É isso que a vida acaba virando. “Uma vida desgraçada”, lamenta <strong>Jung</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A conversa é, pois, como avançado, sobre aquilo que <strong>Jung</strong> chama de <strong>“o outono da vida”</strong>, isto é, o envelhecimento e sua consequente proximidade com a morte. E, para essa conversa, dois ensaios do pai da Psicologia Analítica se revestem de particular importância. Ambos se encontram na parte final do volume 8/2 das Obras Completas de Jung, que traz como título&nbsp;<em>A natureza da psique</em>&nbsp;(JUNG, 2012).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro desses ensaios, “As etapas da vida humana”, foi publicado em 1930, o ano em que Jung completou 55 anos de idade. O segundo, “A alma e a morte”, viria à luz quatro anos depois, em 1934, aos 59 anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, só para lembrar, morreria em 1961, aos 85 anos, cerca de três décadas depois de ter se ocupado pela primeira vez com a produção desses textos. E é interessante observar o seguinte: no prólogo de&nbsp;<em>Memórias, sonhos, reflexões</em>&nbsp;(JUNG, 2006, p. 31), uma espécie de autobiografia publicada no ano de sua morte, Jung anotaria que sua vida foi “a história de um inconsciente que se realizou”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Tudo o que repousa no inconsciente”, expõe Jung, “aspira a tornar-se acontecimento”. A personalidade “quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um inconsciente que se realiza!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Um inconsciente cujos conteúdos e potencialidades mais recônditos aspiram a se tornar acontecimento, realidade vivida, experiência de vida!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O sonho humano da totalidade, da plenitude – tão diferente da ideia, humanamente torta e até perversa, de os humanos alcançarem a perfeição!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembrando as palavras iniciais deste texto – retiradas da boca do próprio Jung –, podemos facilmente concluir que Jung não viveu nem de longe o outono de sua vida como “um pervertido”, um carente de “estilo”, uma “monstruosidade psicológica”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não fez de sua vida uma coisa besta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não morreu bestamente.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não teve uma velhice desgraçada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A gente sabe que não. E não é apenas porque ele o disse, com todas as letras e com toda a sua autoridade intelectual e moral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aliás, nem poderia ser diferente. Curador ferido, ao tratar da velhice, como de outras etapas da vida humana, Jung fala antes e acima de tudo de si mesmo – e de seu si-mesmo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque ninguém pode dar o que não tem, Jung deixa claro em mais de um trecho de sua obra. Ninguém pode ensinar o que não sabe.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Se alguém quer educar, que primeiro seja educado”, escreve, em outro ensaio, sobre “A formação da personalidade” (JUNG, 2013, p. 179).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, nessa última citação, está se referindo ao “ideal pedagógico” de educar as crianças para a personalidade. Fala do “entusiasmo pedagógico” de pais e educadores. Alfineta: diz que ele mesmo nutre sérias dúvidas se essa mania de querer educar nossas crianças não esconde o medo que temos de nos confrontar com as nossas próprias sombras e os nossos complexos todos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Todo o nosso problema educacional tem orientação falha: vê apenas a criança que deve ser educada, e deixa de considerar a carência de educação no educador adulto” (JUNG, 2013, p. 180).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em resumo, voltando ao tema do inconsciente, que teria se realizado na vida de Jung: em Jung, com efeito, vida e caminho da individuação não se distinguem. Uma coisa leva à outra. Uma coisa briga, sofre e se alegra com a outra. Sem muita chance para a vida besta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Convém, no entanto, não exagerar na compreensão da ideia de totalidade em Jung. Nele mesmo e em toda a sua obra, a totalidade está longe de ser totalitária, um samba de uma nota só, algo unívoco, unilateral, sem conflito, sem ferida e sem dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A personalidade, no sentido da realização total de nosso ser, é um ideal inatingível”, diz Jung. E complementa: “O fato de não ser atingível não é uma razão a se apor a um ideal, pois os ideais são apenas os indicadores do caminho e não as metas visadas” (JUNG, 2013, p. 183).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>‘Angelus novus’ invertido</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas investidas retóricas e práticas de Jung contra a velhice sem propósito nem qualidade, dois trechos dos ensaios citados chamam fortemente a atenção pela sua assertividade. No primeiro (par. 800), Jung adverte sobre o fato de que “muitas pessoas se petrificam na idade madura”. Elas não conseguem acompanhar o fluxo da “vida natural”, que é “o solo em que se nutre a alma”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas petrificadas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não-vidas!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas pessoas, ele continua, “olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração”. “Ficam paradas como colunas nostálgicas, com recordações muito vívidas do seu tempo de juventude, mas sem nenhuma relação vital com o presente.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Múmias paralíticas, na voz de Waldemar Magaldi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas na contramão da natureza e da história de si mesmas e, também, do mundo!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Medo da morte” como “medo também das exigências normais da vida” (JUNG, 2012, p. 362).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Me lembrei, aqui, da figura do “Angelus Novus”, de Paul Klee, que é “o anjo da história”, na visão de Walter Benjamin. Olhos arregalados, boca aberta, asas estendidas e rosto voltado para trás, o anjo parece querer afastar-se de algo que fita atentamente, horrorizado. Foge de seu passado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas palavras de Benjamin, o passado de que o anjo assustado tenta fugir representa a mais pura imagem de uma enorme catástrofe. Há escombros por toda parte. São destroços e mais destroços que ninguém, nem mesmo um anjo, consegue juntar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma tempestade muito forte, com rajadas de um vento impetuoso, não permite ao anjo bater as asas para obter algum sucesso em seu movimento desesperado de fuga. De costas para o passado, nosso anjo, com cara de dar dó, é arremessado violentamente de encontro ao futuro, enquanto “um amontoado de escombros cresce diante dele até o céu”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa metáfora, como imagina Benjamin, a tempestade é o progresso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O progresso doido, incontrolável e amedrontador.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas voltemos para Jung e para a nossa conversa sobre o envelhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pensando bem, o velho de vida triste e infeliz de que estamos falando mais se parece com um&nbsp;<em>angelus novus</em>&nbsp;invertido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É do futuro que ele foge.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do entardecer da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele foge da morte.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao contrário do anjo de Paul Klee, o velho triste, na visão de Jung, está de costas, não para o passado que o assusta, mas para o futuro. O passado o seduz.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele se agarra ao passado. Sente nostalgia. Foge para o passado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele tem medo da morte que se avizinha: o mistério da morte!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tem medo de dizer sim ao chamado da vida, não importa nunca a idade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso pobre velho infeliz, que leva uma vida besta, busca um consolo impossível numa juventude e, mais atrás ainda, numa infância que, a bem da verdade, ele nunca viveu. Uma juventude e uma infância que nunca existiram de fato. Pelo menos, não nos moldes da nostalgia e da ilusão que o nosso velho triste acalenta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se bem que, na vida vivida, aquém e além das imagens e das analogias, passado e futuro se deixam embaralhar nos percursos da vida besta, seja ela de que idade for. “Quem se protege contra o que é novo e estranho e regride ao passado está na mesma situação neurótica daquele que se identifica com o novo e foge do passado”, assinala Jung. “A única diferença é que um se alheia do passado e o outro do futuro. Em princípio, os dois fazem a mesma coisa: mantêm a própria consciência dentro de seis estreitos limites, em vez de fazê-la explodir na tensão dos opostos e construir um estado de consciência mais ampla e mais elevada” (JUNG, 2012, p. 351).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O passado como ilusão e fuga</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">No parágrafo seguinte (801), Jung acena para o que era óbvio em seu tempo – e o é, tanto ou mais que tanto, também em nossos dias: “A velhice é sumamente impopular”. Não é daquelas coisas das quais se possa dizer: “Nossa! Que felicidade que é ser velho!”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não, não é.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossa cultura e em nosso mais que assimétrico e injusto modo de organizar a sociedade e a vida, associar velhice com felicidade pode parecer uma verdadeira provocação.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O desprestígio de que padece a velhice, para além do medo da morte, pode em parte representar uma razão por que, sempre nas palavras de Jung, “nos apegamos ao nosso passado e ficamos presos à ilusão da nossa juventude”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas iludidas!</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] um septuagenário jovem não é delicioso?”, Jung pergunta, repercutindo o modo tosco e torto de pensar daqueles que propõem ilusoriamente que o velho deva ser eternamente jovem.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Não, não é nada delicioso”, responde Jung, antes de desferir mais um cruzado no corpo alquebrado de nossas frágeis ilusões. Tanto “o homem de trinta anos com espírito infantil, [que] é certamente digno de lástima”, quanto o idoso iludido de ser jovem “são pervertidos, desprovidos de estilo, verdadeiras monstruosidades psicológicas”.&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas monstruosas!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“[&#8230;] um velho que não sabe escutar os segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do passado. Está situado à margem da vida, repetindo-se mecanicamente até a última banalidade.”&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Vidas mumificadas, à margem da vida!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Relíquias petrificadas do passado!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vida banal! Besta!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tipo de vida, segundo Jung, não merece de fato outro adjetivo que “desgraçada”. Para esse tipo de velhos tristes, parece mesmo não restar muita coisa além de sonhar que essa não-vida chegue o mais rápido possível ao seu fim, como sublinha Jung em outro trecho do mesmo ensaio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A insuportável vida regada a desgraça, sem propósito, sem sentido, a vida besta vê a morte “como o fim de um processo”, e não como “uma meta e uma consumação” (JUNG, 2012, p. 362).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A tempestade que ameaça o anjo benjaminiano projeta a vida humana para o futuro de uma história infeliz, o da afirmação do progresso. Sob o ponto de vista da Psicologia Analítica, no caso do velho triste, trata-se, antes, da negação do progresso da consciência, da não-consumação do desenvolvimento da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, e de novo, aquilo que nesse caso se nega não é o progresso que tanto assusta o anjo. Nega-se o fluxo natural da vida de que fala Jung. Nega-se o solo fértil do qual se alimenta a alma humana.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nega-se, como já citado, a possibilidade de fazer a consciência “explodir na tensão dos opostos e construir um estado de consciência mais ampla e mais elevada” (JUNG, 2012, p. 351).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Arte de viver e arte de morrer</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Embutida nesse dinamismo negacionista encontra-se, portanto, a mais completa traição àquilo que se pode chamar de propósito natural da velhice.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De novo o tema do propósito, nas palavras de Jung: “Se atribuímos uma finalidade e um sentido à ascensão da vida, por que não atribuirmos também ao seu declínio?”, ele pergunta. “Se o nascimento do homem é prenhe de significação, por que é que a sua morte também não o é?” (JUNG, 2012, p. 365).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Declínio/morte com significado!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um arquétipo ali, nesse lugar onde a vida há milhões e milhões de anos se faz e refaz, se molda, se apresenta, mostrando o ar de sua graça!</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O ser humano não chegaria aos setenta ou oitenta anos se esta longevidade não tivesse um significado para a sua espécie”, prossegue Jung. “Por isto, a tarde da vida humana deve ter também um significado e uma finalidade próprios, e não pode ser apenas um lastimoso apêndice da manhã da vida” (JUNG, 2012, p. 356).&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">“Mas não devemos esquecer que só bem pouquíssimas pessoas são artistas da vida, e que a arte de viver é a mais sublime e a mais rara de todas as artes” (JUNG, 2012, p. 357).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desse modo, há vidas que, por tantos e tão diversificados motivos, não se realizam. Não se desenvolvem. Não se consumam.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apenas chegam a um fim – e, quanto antes, parece que melhor.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O vinho da juventude nem sempre se clarifica com o avançar dos anos; muitas vezes até mesmo se turva”, comenta Jung, para dizer em seguida que “é nos indivíduos de mentalidade unilateral em que melhor se podem observar os fenômenos acima mencionados, muitos dos quais se manifestam ora mais cedo, ora mais tardiamente” (JUNG, 2012, p. 352).</p><p>Os “fenômenos acima mencionados”, de que fala Jung, são em primeiro lugar um endurecimento/enrijecimento de convicções e princípios que nortearam os idosos até então, “principalmente os de ordem moral”. E isso “pode levá-los, crescentemente, a uma posição de fanatismo e intolerância [&#8230;]. É como se a existência desses princípios estivesse ameaçada, e, por esta razão, se tornasse mais necessário ainda enfatizá-los” (JUNG, 2012, p. 352).</p><p>É nesse ponto, eu julgo, que Jung oferece a chave que nos permite fugir de uma velhice infeliz, petrificada, desgraçada: “Para o jovem constitui quase um pecado ou, pelo menos, um perigo ocupar-se demasiado consigo próprio, mas para o homem que envelhece é um dever e uma necessidade dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo” (JUNG, 2012, p. 355-356).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O si-mesmo!</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se ligarmos o que aqui está sendo dito com a ideia, antes apontada, do fluxo natural da vida rumo à consumação da vida – vamos dizer assim: a ideia de um arquétipo da velhice –, temos que, quanto mais se aproxima de seu fim, tanto mais a vida humana anseia por sentido, por plenitude, por totalidade. Por um diálogo denso e por certo também tenso com o si-mesmo, o centro maior da vida psíquica e da personalidade humana.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um diálogo difícil, agonístico, mas necessário. Fundamental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Depois de haver esbanjado luz e calor sobre o mundo, o Sol recolhe os seus raios para iluminar a si mesmo”, resume Jung (2012, p. 356), numa imagem que me parece belíssima.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas Jung volta aos “fenômenos acima mencionados” para insistir que não é muito isso o que se vê acontecer e o que se experimenta no cotidiano da vida de tantas pessoas idosas. “Em vez de fazer o mesmo” que a metáfora do Sol indica, “muitos indivíduos idosos preferem ser hipocondríacos, avarentos, dogmatistas e&nbsp;<em>laudatores temporis acti&nbsp;</em>(louvadores do passado) e até mesmo eternos adolescentes” (JUNG, 2012, p. 356).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Transformam-se, essas pessoas, em “lastimosos sucedâneos da iluminação do si-mesmo”, como “consequência inevitável da ilusão de que a segunda metade da vida deve ser regida pelos princípios da primeira” (JUNG, 2012, p. 356).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O pior de tudo é que pessoas inteligentes e cultas [&#8230;] entram inteiramente despreparadas na segunda metade de suas vidas.” Vive-se sob a “falsa suposição de que nossas verdades e nossos ideias continuarão como dantes”, mas não é isso que acontece: “Não podemos viver a tarde de nossas vidas segundo o programa da manhã, porque aquilo que era muito na manhã será pouco na tarde, e o que era verdadeiro na manhã será falso no entardecer” (JUNG, 2012, p. 355).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">E há um complicador na trajetória desse exército de pessoas infelizes: não estamos aptos interiormente para esse entardecer da vida. Não estamos capacitados, nutridos para isso.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“O jovem é preparado durante vinte anos ou mais para a plena expansão de sua existência individual”, lembra Jung. “Por que não deve ser preparado também, durante vinte anos ou mais, para o seu fim?” (JUNG, 2012, p. 365).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Uma observação cabe aqui, sobre o termo “preparado”. Talvez preparar não seja o caso. O espanto e a criatividade rompem com o preparo. A ideia de preparar, a partir sobretudo da escola, mais lembra o ideal iluminista de praticar aquele tipo de educação que Jung tanto e tantas vezes duramente critica.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Sábio, diz Jung, traz consigo a energia da Criança Divina. Diferentemente acontece no caso do Senex, que vive o tempo todo à sombra do Puer egoísta, como bem lembra, de novo, Magaldi.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Um grande ponto de interrogação</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Que imagem se pode esboçar desse velho triste, desse não-velho ou antivelho, a partir dessas breves anotações, com base nos dois ensaios de Jung?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta minha leitura dos dois ensaios junguianos não é falsa nem mentirosa, mas completa também não é. Trata-se de um recorte. São pinçados e frisados alguns aspectos apenas, ainda que muito salientes.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquilo que eu aqui faço, que é sério, muito sério, não passa às vezes (quase) de uma brincadeira. Porque a vida não se faz de explicações. Não cabe em conceitos e definições. A velhice também não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio Jung, ao iniciar o primeiro de seus ensaios, sobre “as etapas da vida humana”, lembra que está tratando de coisas “difíceis, questionáveis ou ambíguas”, questões que admitem mais de uma resposta, sem segurança, sem clareza de verdade. “Por este motivo, haverá não poucos aspectos que nossa mente terá de abordar com um ponto de interrogação” (JUNG, 2012, p. 343).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em um trecho mais adiante, num verdadeiro tributo ao pensamento kantiano, Jung anota que, para ele, “a significação e a finalidade de um problema não estão na sua solução, mas no fato de trabalharmos incessantemente sobre ele”. E é essa atitude que “nos preservará da estupidificação e da petrificação” (JUNG, 2012, p. 350-351).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ora, imaginar que tanta desgraça possa vir junta, num indivíduo só, por mais triste que possa ser o velho triste, não me parece razoável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou talvez se possa, sim, admitir essa possibilidade, uma vez que, no mundo da infelicidade humana, não costuma fazer muito sentido medir o tamanho ou pesar a quantia da angústia e da dor. Até se poderia lembrar Tolstói, quando ele aponta que todas as famílias felizes se parecem, mas que cada família infeliz é infeliz à sua maneira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A vida besta e desgraçada o é, também, à sua maneira.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Perfil (anti)ideal do velho triste</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O alemão Max Weber, um dos pais da ciência da Sociologia, criou uma categoria de análise a que ele deu o nome de “tipos-ideais”. São tipos mais ou menos concretos, objetivos, que ajudam no entendimento dos fatos sociais. Mas são ideais. Não se realizam de fato. São auxílios teóricos. São ferramentas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir das colocações de Jung nesses dois ensaios – e sem acrescentar nada de novo, para além do quanto já dito –, enumero aqui, em forma de tópicos, algumas características principais do perfil do velho triste, basicamente sob o ponto de vista psíquico do desenvolvimento da personalidade. Um tipo-ideal de velho triste. Ou, melhor dizendo, um antitipo. Um não-tipo ideal. Ou um tipo não ideal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso velho triste, tristemente, pode ser entendido como alguém petrificado, incapaz de acompanhar o fluxo natural da vida; | que olha para trás e se agarra ao passado, como uma relíquia petrificada desse mesmo passado; | que tem medo da morte; | que não passa de uma coluna nostálgica do passado e que, ainda por cima, cultiva a ilusão de ser jovem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso velho triste, como o descreve o próprio Jung, pode ser visto como um pervertido, desprovido de estilo, verdadeira monstruosidade psicológica; | uma múmia espiritual; | alguém que está situado à margem da vida; | aliás, uma vida desgraçada a dele, para a qual a morte aparece como um fim – e tomara que chegue logo!; | desafortunadamente, a tarde da vida acaba se transformando em um lastimoso apêndice de sua manhã; | constata-se com frequência um endurecimento/enrijecimento de convicções e princípios; | o que beira muitas vezes o fanatismo e a intolerância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hipocondríaco, avarento e dogmático em suas posições, nosso velho triste não se sente apto, capacitado, nutrido para viver essa fase de sua vida. E, também por causa de tudo isso, falha no propósito fundamental da vida humana, que seria o de dedicar atenção séria ao seu próprio si-mesmo nessa etapa da vida que a metáfora do Sol, cumprida a sua tarefa em cada nova manhã, tão bem ilustra. Ilumina.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é neste ponto que a (quase) brincadeira assume ares de uma seriedade incomparável.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bem distribuído socialmente, o fenômeno do infortúnio da vida besta pode frequentar, às vezes com ampla desenvoltura, qualquer canto e qualquer vida, de qualquer classe social, o palácio ou a tapera, o masculino ou o feminino, a vida do senhor doutor como a do homem simples, ordinário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é assim que a pobreza de espírito acaba muitas vezes por se juntar a um rosário imenso de dificuldades, dores e feridas que acossam a vida de tantos velhos e velhas por aí. É a dor física que vem do desgaste do corpo, de suas energias e potencialidades. É a dor das malditas condições injustas que assolam a vida de tantos miseráveis, empobrecidos, esquecidos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O diálogo fértil e bem complexo com o arquétipo do Velho Sábio não dirime, por certo, tanta dor, nem nos afasta do abraço da morte. Mas triste, mesmo, verdadeiramente triste, é entrega de si mesmo ao arquétipo do Senex.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Senex é o velho velho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O velho como adjetivo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O velho triste.&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>PS.:</strong>&nbsp;Este texto é resultado de minha participação numa videoconferência para o VII Congresso Junguiano do Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, o Ijep (6-8/06/22), com o título de “Envelhecer cedo e mal, doença contemporânea que pode ser curada”. Participaram, junto comigo, Caroline Santos Costa e Patrícia Moura Vernalha, ambas analistas junguianas em formação. Mediou a conversa Waldemar Magaldi, da Direção do IJEP.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dimas A. Künsch &#8211; Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata &#8211; Waldemar Magaldi</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Um perfil psicológico do velho triste a partir de Jung | Dimas Künsch" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/dK4Sr6AnzM0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph">Imagem: “Velho na tristeza” (Van Gogh) &#8211; Reprodução</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong>. 8 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. 14 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Memórias, sonhos, reflexões</strong>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KÜNSCH, Dimas A. Viver a velhice, viver na velhice.&nbsp;<strong>IJEP</strong>. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/viver-a-velhice-viver-na-velhice">https://www.ijep.com.br/artigos/show/viver-a-velhice-viver-na-velhice</a>. Acesso em: 2 jun. 2022.</p>
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		<title>Tipos Psicológicos de Carl Gustav Jung</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tipos-psicologicos-de-carl-gustav-jung/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Mar 2022 14:03:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[extrovertido]]></category>
		<category><![CDATA[função inferior]]></category>
		<category><![CDATA[função principal]]></category>
		<category><![CDATA[introvertido]]></category>
		<category><![CDATA[intuição]]></category>
		<category><![CDATA[pensamento]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[sensação]]></category>
		<category><![CDATA[sentimento]]></category>
		<category><![CDATA[teste de personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[tipos psicológicos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O trabalho de pesquisa e de exploração do comportamento humano que Jung fazia, tanto da consciência quanto do inconsciente, nas relações com o meio exterior, permitiu-lhe perceber tipos diferentes de comportamento. Muitas vezes gerando desavenças e desentendimentos, não pelo princípio básico de um determinado assunto, mas pela forma de cada um agir e reagir frente [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O trabalho de pesquisa e de exploração do comportamento humano que <strong>Jung</strong> fazia, tanto da consciência quanto do inconsciente, nas relações com o meio exterior, permitiu-lhe perceber tipos diferentes de comportamento. Muitas vezes gerando desavenças e desentendimentos, não pelo princípio básico de um determinado assunto, mas pela forma de cada um agir e reagir frente ao tema ou, ao mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com isso, <strong>Jung</strong> desenvolveu o estudo dos <strong>tipos psicológicos</strong>. Não como um quadro de referência classificatória e esteriotipante, mas como uma orientação para percebermos <strong>como as funções autorreguladoras da energia psíquica atuam compensatoriamente entre a consciência e o inconsciente.</strong> Sendo a função compensatória análoga à homeostase do organismo físico, mantendo e objetivando sempre o equilíbrio dinâmico da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Inicialmente, <strong>Jung</strong> percebeu <strong>dois grandes grupos de indivíduos</strong>, uns partiam de forma rápida e confiante aos <strong>estímulos externos</strong> e, outros hesitam, recuam, parecendo sentir <strong>receio em se relacionar com o externo</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-extrovertidos">Extrovertidos</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro grupo era de pessoas muito adaptadas ao meio coletivo, mas com um grande subdesenvolvimento do plano individual, o qual ele denominou de <strong>extrovertidos</strong>, <strong>onde a energia fluí, sem maior dificuldade, na direção dos objetos.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introvertidos">Introvertidos</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O segundo grupo era formado por indivíduos desadaptados ao meio, por serem mais individualistas apesar de terem desejos íntimos de viverem mais voltados para a coletividade, denominando-os <strong>introvertidos</strong>, <strong>onde o fluxo de energia recua diante dos objetos, pois estes parecem ameaçadores.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, visto no conjunto, todos os <strong>introvertidos</strong> tem um fluxo de energia <strong>extrovertida</strong> em seu inconsciente, da mesma forma que os <strong>extrovertidos</strong> possuem um fluxo de energia <strong>introvertida</strong>. Desta maneira, percebemos a circulação constante da energia, num caráter contínuo, inesgotável e compensatório. Sendo que o ego deve contemplar ambas as direções para que a totalidade do ser esteja plena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Posteriormente, <strong>Jung</strong> percebeu que existiam muitas outras variações dentro de cada um destes grandes grupos de atitudes típicas, pois dois indivíduos introvertidos poderiam divergir muito na forma de pensar. Assim <strong>Jung</strong> concluiu que a função psíquica, que cada indivíduo usava de maneira predominante e preferencial para lidar adaptativamente com o mundo externo, era o que os diferencia ainda mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">São dois <strong>subgrupos</strong> que originam duas funções antagônicas cada, perfazendo-se um total de quatro funções de adaptação, onde reconhecemos o mundo exterior e, nos adaptamos a ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O primeiro subgrupo Jung denominou de racionais, que atuam ou na função pensamento ou na função sentimento. O segundo subgrupo são os empíricos, que atuam ou na função sensação / percepção ou na função intuição. </strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-funcao-principal">Função principal</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Todos nós possuímos as quatro funções,</strong> porém uma delas vai se apresentar mais atuante e desenvolvida, por ser mais próxima da consciência. A esta função chamamos de <strong>função principal.</strong> </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-funcao-inferior">Função inferior</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em oposição à função principal, temos a função inferior. <strong>A função inferior está muito mais próxima do inconsciente, vindo muitas vezes junto com as projeções da sombra e sendo grande auxiliar no processo analítico &#8211; pois irá fazer a ponte entre o consciente e o inconsciente. </strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-funcoes-auxiliares">Funções auxiliares</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As outras duas funções são chamadas de auxiliares, com menor grau de diferenciação que a função principal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-desta-forma-a-possibilidade-de-8-tipos-de-funcoes-principais" style="font-size:18px">Existe, desta forma, a possibilidade de 8<strong> tipos de funções principais</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao conhecermos a função principal de um indivíduo imediatamente saberemos qual é a sua função inferior, por estar em oposição a ela. Assim, se um indivíduo for sensação extrovertida sua função inferior será intuição introvertida. Isto nos dá uma cruz, onde as funções auxiliares serão o sentimento e o pensamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Combinado com as fuções auxiliares, chegamos a 64 possíveis combinações.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tipos-psicologicos">Tipos psicológicos</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Com o conhecimento de cada<strong> tipo psicológico</strong> poderemos perceber como o indivíduo estabelece as relações com o meio e, ajudá-lo a diminuir a carga de energia investida na <strong>função principal</strong>, para permitir que as funções auxiliares e até a função inferior contribuam com a totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim não acontecerá a extrema diferenciação de um determinado tipo e função no ego, mas o rebaixamento desta, permitindo a percepção dos seus pares complementares mais <strong>inconscientes</strong>. Sendo a adaptação um mecanismo psíquico extremamente importante para equilibrar fatores internos e externos. Porém, devemos distinguir a adaptação do conformismo, da normose ou da normopatia. Pois a adaptação é um mecanismo psíquico muito importante para o processo de <strong>individuação</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-adaptacao-ao-meio">Adaptação ao meio</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para <strong>Jung</strong>, a falha na adaptação é um sintoma da <strong>neurose</strong>. Pois ela é responsável em conciliar as demandas tanto do mundo interno quanto do mundo externo, que podem fazer solicitações completamente antagônicas, gerando muita tensão e angústia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, para o <strong>ego heróico</strong>, muitas vezes a adaptação vira normopatia, deixando o indivíduo fixado. Desta forma, no início da análise, muitas vezes acontece uma espécie de destruição desta adaptação estagnaste que a pessoa construiu, na maioria das vezes, por meio dos mecanismos de gratificação e recompensa social e cerebral, deixando de lado o <strong>Self</strong>.</p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"><strong><a href="Autor: Waldemar Magaldi">Autor: Waldemar Magaldi</a></strong></p>
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		<title>O Sentido da Análise na Psicoterapia Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-sentido-da-analise-na-psicoterapia-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 26 Mar 2022 20:23:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Qual sendo da Análise Junguiana? Por que e quando fazer uma Psicoterapia? Qual benefício do autoconhecimento? A Psicologia Analítica Cura?</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Entregar-se para um <strong>processo analítico </strong>não é para qualquer pessoa, porque essa experiência irá produzir desconforto e incomodo. No início, após a criação do vínculo com o analista, num ambiente seguro e sigiloso, é inevitável o confronto com as referências parentais, familiares e com seus aspectos trasngeracionais, mesmo quando os pais são adotivos, e a história biográfica para que aconteça a conscientização de padrões recorrentes.  Também irá acontecer o reconhecimento do universo sombrio, que representa o lado obscuro da personalidade, responsável pelas reações espontâneas de atração ou repulsão do analisando com seu entorno relacional, somado a tudo que o incomoda muito no outro e o que ele nega, foge ou não aceita nele mesmo. </p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>caminho do autoconhecimento</strong> vai sendo construído, possibilitando a percepção da condição neurótica, geralmente pautada por sentimentos egoístas, apesar da existência da persona, que é a máscara relacional e profissional, poder estar bem estruturada e funcional, como acontece na maioria das pessoas consideradas socialmente bem-sucedidas. Porque, infelizmente, a adaptação nesta atual condição sociocultural mantém as pessoas aprisionadas no consumo, na competição e no desejo de acúmulo patrimonialista, para dar a elas a fantasia do controle, na forma de instrumentos que possibilitam a ilusão da segurança diante do medo do fracasso e da morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa condição neurótica é a causa de tanto consumo de substâncias psicoativas como antidepressivos, estabilizantes de humor, ansiolíticos, indutores do sono, álcool e todas as demais drogas ilícitas, acrescidas do estímulo aos comportamentos abusivos e compulsivos presentes na maioria das práticas laborais e sociais. Por isso, entregar-se para um <strong>processo analítico</strong> não é tão agradável. Porém, se o processo vai além da “papoterapia”, “reclamoterapia”, “relatoterapia” ou “queixoterapia”, esse enfrentamento irá possibilitar a diferenciação e o reconhecimento de que o analisando está contaminado pelo estado de miserabilidade neurótica, mesmo quando tem práticas alimentares saudáveis, faz uso da meditação corretamente e frequenta alguma religião, porque, na maioria das vezes, tudo isso é apenas aprendizado e condicionamento da persona, de fora para dentro – sem alma, funcionando apenas como códigos de conduta moralistas, mas sem ética.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O resultado da superação desta primeira fase da análise permitirá a percepção da infelicidade comum, que assola a massa neurótica dos cidadãos, consumindo, endividando-se e trabalhando, como escravos financeiros, retroalimentando essa circularidade. A partir daí, pode emergir o despertar de uma ação mais consciente e crítica, que possibilita transformação do analisando, tirando-o da sua atitude egoísta para agir como agente transformador desta condição alienada e neurótica, presente na maioria solitária, que vive atolada de insatisfações, desejos, medos e ambições numa contínua fuga de si mesmo, muitas vezes camuflada na conquista incansável de experiências prazerosas, apesar do vazio interior. Isso é o que <strong>Carl Jung </strong>nomeou como processo de individuação, onde a pessoa passou a encontrar sentido e significado para sua vida, servindo a humanidade de forma amorosa e altruísta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A análise passa por várias fases, começando pelo período confessional onde o analisando, de forma catártica, relata sua história de vida, ab-reagindo emocionalmente, possibilitando a expressão dos complexos. Depois disso, por meio da relação com o analista, que deve tentar atuar como um espelho, o menos deformado possível para que o analisando consiga ver suas qualidades e deformações, vai acontecendo a elucidação dos relatos, possibilitando melhor compreensão, dessensibilização da carga emocional produzida pelos afetos e até a ressignificação de algumas crenças. Neste momento, já é possível a compreensão de que todas as experiências, mesmo as mais dolorosas, são dotadas de propósitos sincronísticos e teleológicos apontando para o caminho evolutivo. Assim começam acontecer as transformações. Porém, não podemos esquecer de que toda mudança, mesmo que seja para melhor, gera medo, desperta mecanismos de defesa no âmbito celular, neurológico, bioquímico, psicológico e relacional. Ou seja, a empreitada não é fácil e exige muito foco, dedicação, coragem e persistência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">São analisadas, além da <strong>história de vida</strong>, todas as emoções vivenciadas entre uma e outra sessão psicoterapêutica, com o intuito de reconhecimento dos afetos desencadeadores. Neste momento torna-se possível o reconhecimento da presença dos complexos, que interferem, autônoma e compulsoriamente, na vida das pessoas, ocupando o espaço da consciência do ego. Os complexos, quando constelados, adulteram todo o esquema corporal, a expressão verbal e a estrutura da consciência, alterando as funções de pensar, sentir, perceber e intuir, transformando as caraterísticas da personalidade. A isso associamos as <strong>produções oníricas</strong>, com toda sua complexidade arquetípica, simbólica e, na maioria das vezes, surreal, porque os sonhos possibilitam a abordagem mais direta ao inconsciente, assim como as coincidências significativas, sem justificativas e correlações com o tempo e o espaço, que chamamos de <strong>sincronicidade</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Também são trabalhados todos os <strong>sintomas de adoecimento</strong> que podem estar manifestados no corpo físico, nos comportamentos e atitudes, nos âmbitos familiar, social, laboral, espiritual, amoroso e físico, interferindo em todas as relações interpessoais do analisando. Alías, continuamente estimulamos a dimensão símbólica, imaginativa, reflexiva e opositiva para que a adaptação e progressão da energia psíquica siga seu fluxo natural, superando as adversidades, sempre integrando o espirito das profundezas com o da época, integrando nossas fantasias, <strong>manifestações oníricas</strong>, <strong>sincronicidades</strong>, <strong>sintomas de adoecimento</strong> e <strong>expressões criativas</strong>, objetivando continuamente o autoconhecimento para que o processo de individuação seja vivenciado pelo ego. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando sou questionado a respeito da minha profissão de psicoterapeuta sempre sou tomado por muitas emoções, dificultando a elaboração de uma resposta lógica e didática. Essa reação deixa evidente que a pergunta constela, em mim, complexos, despertando muitas temáticas arquetípicas que vão desde o filantrópico curador ferido até o misantrópico embusteiro e egoísta, ou ególatra, que só quer tirar vantagem das queixas alheias. Ou seja, ativa a presença de Hermes, deus grego apaixonado pela beleza sedutora de Afrodite, que para os romanos assumiram os nomes de Mercúrio e Vênus respectivamente. &nbsp;Acredito que esta dinâmica está presente, consciente ou inconscientemente, em todos meus colegas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sei que posso estar escrevendo genericamente, e talvez defensivamente, sobre a profissão de um modo geral, assim como não podemos esquecer de que Hermes é o mensageiro e o transportador das almas, trabalho bem parecido com o dos <strong>psicoterapeutas de orientação junguiana</strong>, apesar de que ele também tinha outras atuações um tanto questionáveis, o que lhe conferiu a condição de deus protetor dos comerciantes, ladrões e prostitutas. Por isso, devemos sempre estar conscientes de nossa sombra, para não sermos tomados de assalto por ela. Daí que surge a necessidade constante da análise do analista, que é muito mais importante do que o seu conhecimento teórico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta perspectiva, nosso ofício é o de possibilitar, pelo método dialógico da hermenêutica, com que o cliente ferido entre em contato com seus materiais inconscientes, em busca da mensagem do seu curador interior. Ou seja, em busca do significado simbólico e incomum à consciência, conscientizando-o de seu daimon, que é sua vocação ou chamado e fonte inesgotável de felicidade, gerador de movimentos criativos e transformadores para a realização existencial do ser, apesar das dificuldades e sofrimentos inerentes à vida. Pois sabemos que sonhar ou desejar uma vida paradisíaca é uma fantasia regressiva, mágica e infantil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O processo acontece em um lugar sagrado, metaforicamente chamado de vaso hermético, ou temenos, através do qual as transformações ocorrem, por caminhos simbólicos, onde ego e Self começam a se relacionar inconsciente e conscientemente. O analista apenas acolhe, oferece local seguro e estímulo para que o próprio Self do ferido contribua para sua evolução e superação das queixas. A meta de um processo de análise saudável objetiva que o analisando se esqueça da existência do analista, porque ele conquistou autonomia e liberdade para ir adiante nas suas escolhas e compromissos de dependência e servidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma, se o analista busca reconhecimento, gratidão ou fama está na profissão errada. Porque, o objetivo deste trabalho é fazer com que a presença do curador seja desapercebida, pois o verdadeiro terapeuta é o curador ferido do próprio cliente. A função do analista é apenas a de um mediador e estimulador desta relação. O analista não precisa ser forte, poderoso nem altamente técnico, mas sensível, empático e conhecedor da capacidade auto reguladora e curativa do Self. Mesmo assim, muitos analistas são raptados pela sombra, correndo o risco de ficarem deprimidos ou, reativamente, praticarem abuso de poder, em todas as suas variações.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O analista jamais pode revelar qualquer conteúdo da análise fora de um contexto de supervisão, assim como literalizar ou tomar as dores de seus clientes. A consequência disso é substituir a empatia pela simpatia, o que acarreta, inevitável e catastroficamente, na projeção sombria da antipatia para um outro qualquer, formando aliança complementar e neurótica com seu cliente, ao estabelecer parceria com ele contra os seus desafetos, aqueles que estão afetando-o desagradavelmente e frustrando-o, muito provavelmente indo na direção oposta da sua fantasia nostálgica e regredida de ser compreendido, nutrido, amado, cuidado e atendido imediatamente e incondicionalmente !&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo que os clientes comentam dos outros, devemos saber que é sobre eles mesmos, e são eles que tem que compreender por que tudo que os outros fazem ou deixam de fazer, atendendo ou não suas expectativas, agradando ou decepcionando, iludindo ou desiludindo, agredindo ou acolhendo, criticando ou ignorando, são suas representações intrapsíquicas, seus complexos. Neste sentido, qualquer queixa é um mérito, resultante da configuração de sua energia psíquica, como consequência e possibilidade evolutiva ou destrutiva que coube e ainda cabe a ele! Ao invés de literalizarmos precisamos perguntar quais suas fantasias diante das queixas, levando-o a refletir e compreender o porquê, o para que, de onde e para onde as representações simbólicas e metafóricas da Psique estão apontando, para que ele tome ou não tome atitudes, mas sempre na perspectiva de responsável, autor e ator, da sua vida!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A meta da psicologia analítica está voltada para o processo de individuação, levando à&nbsp;<em>imago Dei</em>, que é a representação divina que habita o íntimo de todos nós, que despertará a dimensão sagrada, dando beleza, espanto e poesia para a vida. Mas, como ninguém tem a capacidade de modificar ninguém, assim como ninguém consegue se modificar sozinho, raramente, na solidão e no isolamento, é possível estabelecer a relação do Ego com o Self. Ou seja, é na relação que acontecem as modificações e isso remete a essa bela frase de Herman Hesse: “Nada posso lhe oferecer que não exista em você mesmo. Não posso abrir-lhe outro mundo além daquele que há em sua própria alma. Nada posso lhe dar, a não ser a oportunidade, o impulso, a chave. Eu o ajudarei a tornar visível o seu próprio mundo e isso é tudo.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Devido à profundidade desse trabalho, muitas vezes C. G. Jung foi criticado por ter criado um método psicoterapêutico voltado para pessoas mais maduras e com boas condições sociocultural. De fato, quando falamos em autoconhecimento e processo de individuação é natural que essas demandas estejam mais afloradas nas pessoas que estão na temática da metanóia, época por volta dos 45 anos de idade, em que naturalmente buscamos um novo sentido e significado para a segunda metade da vida. Obviamente, essas demandas ficam mais evidentes para aqueles que já superaram as necessidades mais grosseiras e instintivas do sobreviver, crescer e perpetuar, por isso parece que o método é destinado para as elites que ultrapassaram a meia idade. No entanto, a prática da análise também é muito eficiente e útil tanto para as crianças quanto para jovens, casais e famílias, obviamente dando mais ênfase as demandas adaptativas do ego, e suas respectivas personas, para que a realização do si mesmo aconteça na direção do processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A metanóia, conhecida como crise de transição da meia idade, infelizmente, deixou de ser vivenciada coletivamente na forma de ritos de passagens, demarcando esse momento de grande importância na vida de todas as pessoas. Meus clientes que estão vivenciando a crise da meia idade, na maioria das vezes, acabam trazendo questões que vão muito além das queixas de relacionamentos ou das dificuldades profissionais, econômicas ou de saúde física. É interessante percebermos que, mesmo quando essas queixas estão presentes, os questionamentos a respeito do sentido e significado existencial acabam ocupando muito espaço no contexto analítico. Essas questões, inevitavelmente, remetem aos aspectos da transcendência e do sagrado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acredito que minha profissão é semelhante ao sacerdócio, missionário e evangélico, por apontar para as boas novas da vida, em direção ao autoconhecimento e ao si mesmo ou Self, que é o nosso centro integrador e unificador capaz de interligar a alma com o espírito, a mente e o corpo. Ou seja, por meio do&nbsp;<em>nous</em>, que é a consciência, podemos produzir mudanças no corpo, ou&nbsp;<em>soma</em>. Este, por sua vez, poderá modificar a alma, ou&nbsp;<em>psique</em>, para que o&nbsp;<em>pneuma</em>, o grande espírito ou unidade divina, também seja modificado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A metanóia exige uma espécie de transgressão, por provocar muitas transformações tanto nos comportamentos quanto no pensamento e no caráter das pessoas, produzindo rompimentos de valores, relacionamentos e até de visão de mundo. Muitas vezes surge na forma de crise e queixas, fazendo com que os indivíduos repensem seu existir. Sendo que, na base dessa crise está a experiência simbólica da morte e do renascimento, em direção ao servir. Ou seja, a superação da metanóia, para mim, acontece quando a pessoa encontra o entusiasmo em servir ao si mesmo e, consequentemente, ao outro. Por isso a individuação é uma meta coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumindo:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>AUTOCONHECIMENTO; AUTOESTIMA; AUTONOMIA</strong>&nbsp;é o tripé de objetivos da análise junguiana. Esse processo deve ser trabalhado mais ou menos nesta sequência. Com o&nbsp;<strong>autoconhecimento</strong>&nbsp;o cliente poderá compreender suas peculiaridades, se diferenciar da imago parental e dos condicionamentos adquiridos, reconhecer seus aspectos sombrios e os complexos, para ficar mais íntegro e consciente das suas potencialidades, capacidades, fraquezas e defeitos, consciente de quem ele é, como ele é e o que ele é. A&nbsp;<strong>autoestima</strong>, que equivale ao amor-próprio, tem a ver com aprender a respeitar-se, para poder dar e exigir respeito, já que agora já sabe o que é e como é, assim como o que não é, o que lhe pertence, o que deseja e não deseja, por que, para que, para si-mesmo e para os demais. Por fim, a&nbsp;<strong>autonomia</strong>, que irá dar a liberdade para as escolhas conscientes de dependência e servidão, livre dos códigos de conduta ou regras morais, porque já encontrou a dimensão ética do seu existir. Tudo isso para poder servir a Alma e ser feliz vivendo com propósito, sentido e significado, no caminho para aquilo que a Psicologia Junguiana chama de Processo de&nbsp;<strong>INDIVIDUAÇÃO</strong>!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Finalizo reiterando que o caminho do autoconhecimento, proposto pela psicologia junguiana, depende do confronto analítico consigo mesmo, valendo-se do analista como mero espelho gerador de questionamentos, dúvidas, desconfortos, desatenções, atenções, conflitos, amplificações, ampliações, reduções, calcinações, sublimações, putrefações, mortificações, dissoluções, entre outras operações e etapas. Porém, quando o vínculo é frágil ou o cliente, ao invés de simbolizar, literaliza as devolutivas do analista, ou transforma-as em monólogos, por não estar comprometido com o enfrentamento dos conteúdos sombrios, os complexos e os desconfortos opositivos, o vaso se rompe e o processo deixará de acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Waldemar Magaldi Filho</strong>, psicólogo, mestre e doutor em ciências da religião, fundador e coordenador dos cursos de pós-graduação que titulam e formam especialistas em<a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicologia-junguiana" target="_blank" rel="noreferrer noopener">&nbsp;<strong>Psicologia Analítica</strong></a><strong>,&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/psicossomatica" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Psicossomática</a>,&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/cursos/show/arteterapia-e-expressoes-criativas" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Arteterapia e Expressões Criativas&nbsp;</a>do IJEP&nbsp;</strong>– Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa&nbsp;, que acontecem desde 1991 –&nbsp;</em><strong><em><a href="mailto:wmagaldi@ijep.com.br" target="_blank" rel="noreferrer noopener">wmagaldi@ijep.com.br</a></em></strong></p>



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		<title>O Ego Imagina Enquanto é Imaginado</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-ego-imagina-enquanto-e-imaginado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 26 Mar 2022 19:52:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[ego]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">A dimensão do ego, que atua em cada um de nós, possibilita a impressão de continuidade da consciência no eixo tempo e espaço, baseando-se na auto referência corporal, na concretude da matéria e na memória cronológica dos acontecimentos. Isso nos possibilita a impressão de estarmos no controle de nós mesmos, mas é pura ilusão, porque nossa mente mente. Ela é fruto da relação da nossa estrutura biológica com a anímica, possibilitada e mantida pela contínua ação do espírito, como elemento unificador. &nbsp;Com isso, quando imaginamos estar imaginando, estamos sendo imaginados pelo Self, a totalidade psíquica. E é este quatérnio composto de corpo, alma, mente e espírito, que se mantém dançando enquanto imaginamos estar existindo nesta realidade temporal e espacial.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para o ego aceitar sua finitude temporal, que ele é imaginado ao invés de imaginar e que sua impressão de controle e poder são ilusórios, é um golpe muito grande. Por isso ele tenta ficar apegado à literalidade e concretude, correndo o risco de virar uma coisa, um objeto que se relaciona com outros objetos, sem vínculo e sem amor. Defendendo-se com suas crenças, até tornar-se uma espécie de máquina previsível, ordinária, dessacralizada, presa na repetição dos seus reflexos instintivos, no domínio dos complexos, hábitos e condicionamentos, permanecendo alienado do si mesmo, simultaneamente opressor e oprimido consigo mesmo e com os outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, como a totalidade psíquica carrega em seu bojo o chamado para o processo de individuação, essa situação pode ser superada com o aparecimento de conflitos, que tiram o indivíduo daquela impressão da zona de conforto, com o surgimento de sonhos, sintomas, eventos sincronísticos ou produções criativas, capazes de gerar incômodo, desconforto e crises, possibilitando o surgimento daquilo que Jung chamou de função transcendente, a tensão entre o eu e o inconsciente capaz de possibilitar a desconstrução da máquina e a possibilidade do surgimento do ser integral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, quando surge a crise podemos afirmar que o oráculo se abriu e que o ego pode estar mais próximo do seu engajamento consciente ao processo de individuação. Mas isso não é tarefa fácil, porque superar os condicionamentos neurológicos, bioquímicos, mentais e relacionais é muito difícil, principalmente porque surgem as resistências de todas estas instâncias, com intuito de manter a unilateralidade, que apesar de patológica é o mecanismo mais usado para manter a ilusão de conforto do ego, que imagina enquanto que é imaginado.</p>



<h4 class="has-text-align-right wp-block-heading">Autor: <strong>Waldemar Magaldi Filho</strong></h4>
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		<title>Desenvolvimento da Personalidade e Psicoterapia Analítica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/desenvolvimento-da-personalidade-e-psicoterapia-analitica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 26 Mar 2022 19:48:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">O desenvolvimento da personalidade, de acordo com minha leitura da obra junguiana, recebe inúmeras influencias desde a concepção do feto. Apesar de haver um contexto apriorístico, equivalente ao conceito de&nbsp;daimon, que é a base fundante do&nbsp;Self, portador de toda potencialidade do vir a ser de cada um e advindo do inconsciente coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo com esse núcleo, quase que inviolável, logo na primeira expressão de vida intrauterina o bebe está completamente contido pelo&nbsp;Self&nbsp;materno, numa espécie de participação mística, que perdura até os dois anos de idade, responsável pelo início da formação do inconsciente pessoal. Com isso, a criança sofre forte carga afetiva e emocional da mãe, permitindo-nos afirmar que as experiências existenciais podem preceder a essência. Isso justifica os conflitos neuróticos à medida que as determinantes existências adaptativas, os traumas, os condicionamentos, o aprendizado e as crenças conflitam com a potencialidade a priori do&nbsp;Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A estruturação da consciência se dá em função da expressão do complexo de ego, por meio da diferenciação da condição pré-egóica (pleroma, uroboru ou narcisismo primário) e pré-verbal, possibilitando tanto a consolidação do arquétipo da sombra, quanto da persona, que será a responsável pelas máscaras relacionais, capacitando o indivíduo adaptar-se diante da pluralidade e diferenças de possibilidades de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido que <strong>o processo analítico pode contribuir, aliviando a neurose resultante desse conflito, possibilitando o reconhecimento deste &#8220;chamado&#8221; por meio do autoconhecimento</strong> e da separação simbólica da imago parental, permitindo a identificação das várias forças muitas vezes manifestadas como necessidades, que são mais instintivas, ou como os desejos, mais arquetípicos. O confronto analítico contribui para a diferenciação do indivíduo, capacitando-o ao reconhecimento de que sua vida não pode estar a serviço da reparação ou realização da vida não vivida ou mal vivida dos seus ancestrais. Porém, separar desse dinamismo e encontrar sentido e significado existencial exige muito investimento e superação dos mecanismos de defesa do ego, que para manter-se na zona de conforto do conhecido fica contrário a qualquer mudança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não basta reconhecer e saber da existência dessas determinantes e nem querer realizar a separação, porque a mudança de atitude não acontece de imediato. O padrão de condicionamento instintivo e habitual, acompanhado da rede associativa neural, da dependência bioquímica gerada pelo ambiente emocional aprendido e condicionado e o entorno relacional do meio intersubjetivo, exercem forte influência contra mudanças. Essa é a razão da necessidade de um bom vínculo psicoterapêutico e de muita persistência para que a transformação aconteça.</p>
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		<title>Meu crime, seu castigo: a sombra do dia a dia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/meu-crime-seu-castigo-a-sombra-do-dia-a-dia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 09 Dec 2020 17:27:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“E se de fato tudo isso tiver sido feito de forma consciente e não como tolice, se você tinha mesmo um objetivo definido e firme, então como é que até agora não deu sequer uma olhada na bolsa e não sabe o que lhe coube, por que assumiu todos esses sofrimentos e se meteu conscientemente [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>“E se de fato tudo isso tiver sido feito de forma consciente e não como tolice, se você tinha mesmo um objetivo definido e firme, então como é que até agora não deu sequer uma olhada na bolsa e não sabe o que lhe coube, por que assumiu todos esses sofrimentos e se meteu conscientemente numa coisa tão vil, infame, sórdida?” – Raskólnikov&nbsp;</em>(Dostoiévski, 2019, pág. 117).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A frase acima é um pequeno trecho de uma das diversas reflexões existenciais de Raskólnikov, personagem central no clássico “Crime e castigo” de Dostoiévski. Nesta passagem ele conversa consigo e questiona seu feito cruel, o assassinato vil de uma senhora e sua irmã, sem uma razão aparente, do ponto de vista da consciência, mas com forte carga emocional. Seu drama pessoal o faz transitar entre o entorpecimento da culpa, a ponto de não averiguar o conteúdo da bolsa que tinha roubado quase que aleatoriamente (afinal não era a materialidade do crime que o interessava), e a profundidade que aquele ato poderia revelar sobre si, como se fosse um brutal processo analítico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar da introdução acima ter sido pautada por Dostoiévski, este artigo não ambiciona analisar a obra do autor russo; ela foi um preâmbulo – e base reflexiva – para este texto, que intenciona explorar aquele o conteúdo mais desconhecido da nossa psique: a sombra – e suas manifestações no dia a dia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung explica a sombra da seguinte maneira:&nbsp;<em>“O inconsciente pessoal contém lembranças perdidas, reprimidas (propositalmente esquecidas), evocações dolorosas, percepções que, por assim dizer, não ultrapassaram o limiar da consciência (subliminais), isto é, percepções dos sentidos que por falta de intensidade não atingiram a consciência e conteúdos que ainda não amadureceram para a consciência. Corresponde à figura da sombra, que frequentemente aparece nos sonhos</em>&nbsp;(OC 7/1, § 103, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O processo de formação da sombra é complexo, pois contém a) componentes com núcleos arquetípicos, ou seja, inatos; b) componentes que nos são “depositados” ao longo de nosso desenvolvimento psicológico, da infância até a velhice; c) componentes do nosso processo educacional e cultural, formal e informal. Dessa miríade de experiências que vivenciamos, parte fica retido pela consciência e outra parte repousa na sombra. Contudo, não se trata de assumir que a sombra é negativa. Na verdade, ela parece negativa ao ego, justamente por representar aquilo que é mais desconhecido por ele.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Reconhecer a sombra difícil, mas o surpreendente é que ela se manifesta diariamente, em nossos pequenos atos. Considerando o cenário de polarização política, por exemplo, é comum vociferarmos contra aqueles que fazem oposição àquilo que acreditamos. Não importa se nossa crença é produto de, dentre várias coisas, da nossa sombra. Que tipo de ameaça representa a alguém, um indivíduo que quer ter uma sociedade mais justa, equânime e com menos desigualdade? Ao atacar ideias como estas, o que seria despertado na pessoa que ataca? Seria uma fantasia sombria de poder, que quando ameaçada, se defende com frases prontas e irrefletidas como “eu conquistei tudo na minha vida, portanto todos devem fazer isso”?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Frans de Waal (2010), biólogo holandês, argumenta que a empatia é algo inatamente humano, e que pode ser desenvolvida em sua plenitude. Apesar disto, na perspectiva junguiana, quando faltam recursos à consciência para que os conteúdos da sombra e dos complexos sejam diferenciados e a empatia prospere, o que resta é projeção da sombra, que pode ser observada em frases tais como “Eu sou empático. Só não sou empático com vagabundos”, que poderia ser facilmente proferida por pessoas muito próximas de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra reside nos pequenos detalhes, ela é sorrateira. Quantas vezes não nos deparamos com argumentos que foram construídos na “minha humilde opinião”, revelando o desejo de grandeza opinativa da pessoa? Que sombra é essa que se disfarça na sutil inclusão da palavra “humilde” no momento de emitir uma opinião qualquer? Mas a sombra não é um mal que deve ser expulso. Oposto, ela é uma potência que deve ser reconhecida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Raskólnikov em Crime e castigo decide testar o limite de sua sombra, cometendo um crime sangrento. Mas a sombra não precisa de sangue para se expressar. Onde estaria a sombra, silenciosa e aceitável, quando ações tais como a precarização do trabalho, redução sistemática de salários, falta de apoio educacional e social aos funcionários, são compartilhadas e aprovadas por um corpo de liderança? São esses mesmo funcionários, também entorpecidos por suas sombras, que agredirão, inadvertidamente, até a morte, pessoas e animais – afinal, eles eram “problemáticos”. Quem é o criminoso e quem é o culpado?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A busca pelo autoconhecimento e enfrentamento da sombra deveria ser algo apresentado desde os primeiros momentos no processo educacional das crianças, para que estas tivessem a possibilidade de ampliarem suas consciências, saindo de um dos maiores problemas da contemporaneidade que é a autorreferência. É como se tudo aquilo que cremos, não importando de onde isso veio, fosse o suficiente para analisar todos os acontecimentos do mundo. É essa autorreferência que vai, sombriamente, criar as fake news, as correntes do WhatsApp e as “humildes” opiniões.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como explica Jung, nada daquilo que vivenciamos é apenas algo externo e observável, conforme suas palavras&nbsp;<em>“[&#8230;] toda experiência contém um número indefinido de fatores desconhecidos, sem considerar o fato de que toda realidade concreta sempre tem alguns aspectos que ignoramos [&#8230;]&nbsp;</em>(Jung, 2008, pág. 23). Emma Jung e Von Franz, ajudam a compreender esta noção, argumentando que os conteúdos internos são experimentados externamente pela projeção, de modo que ela não é apenas um mecanismo de defesa, conforme apresentou Freud, e sim um mecanismo que também tem como fim&nbsp;<em>“permitir que as coisas se tornem conscientemente perceptíveis e distinguíveis, ao se confrontarem com o não-eu”&nbsp;</em>(1980, pág. 36), e são nas projeções, além dos sonhos e expressões criativas, que a sombra apresenta um caminho possível de ser reconhecida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A questão é que, com grande esforço, é possível pelo menos assumir uma postura de aprendiz diante destes fatores desconhecidos, apresentados sutilmente pela sombra do dia a dia. Dizer que eles podem ser reconhecidos em sua plenitude seria uma ousadia, ou um atestado de iluminação plena, assim como Jesus Cristo e Buda atingiram (Jung, OC 12, 2012), mas ter uma postura ativa para buscar a compreensão da obscuridade do inconsciente é fundamental para despertarmos nossa potência criativa e curativa, individual e social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No exercício de imaginação ativa, em que busca o reconhecimento e enfrentamento da própria sombra no Livro Vermelho, Jung traz a seguinte passagem:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“’Jung: Então, por que andais juntos pelo mundo se não estais satisfeitos e se não sois amigos?’</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>‘Alma: O que fazer? Também o demônio é necessário, caso contrário não se tem nada para incutir temor às pessoas’.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>‘Vermelho: É absolutamente necessário que eu compactue com o clero, senão perco a minha freguesia’”&nbsp;</em>(Jung, 2015, pág. 242).</p>



<p class="wp-block-paragraph">De outra forma, o que Jung provavelmente intencionava dizer, conforme descrito também ao longo de sua obra, é que pares de opostos são necessários, portanto, a sombra não é algo que se elimina ou se desfaz. Ela é parte integrante e necessária da psique. Porém, quando não reconhecida e não integrada, pode gerar toda a sorte de patologias individuais e coletivas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que tipo de aspectos da sombra são constelados numa depressão ou num processo de ansiedade? O que nossa sombra quer revelar quando somos tomados por uma angústia? Até mesmo situações triviais, como brigas e desentendimentos com amigos e parentes, estão o tempo todo influenciadas pela nossa sombra. O mesmo vale para o apaixonamento: por que uma pessoa, outrora objeto de nossa atração e desejo, torna-se repulsiva e odiosa?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gosto quando Hillman (1993, pág. 11) afirma:&nbsp;<em>“O exterior provoca sofrimento, mas ele não é em si sofrimento”</em>. Em outras palavras, o sofrimento é aquilo que fazemos com o conteúdo interno que é despertado por uma situação exterior. Reconhecer a sombra não é sinônimo de reduzir sofrimento, mas sim atribuir um sentido a este, porque o sofrimento é parte integrante da vida, por mais que a sociedade contemporânea busque constantemente estratégias de anestesiamento, seja com os celulares, passando freneticamente as telas das redes sociais, por meio de medicamentos ou entorpecentes (álcool, drogas, açúcar).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Escutar o que a nossa alma quer expressar – missão de Jung em O Livro Vermelho – não é tarefa fácil, e esta tarefa fica um tanto mais pesada quando ela nos coloca diante dos conteúdos apresentados pela sombra, por meio dos complexos constelados, nos sonhos ou em nossas projeções. Cabe ao indivíduo “resolver-se” consigo e compreender suas dimensões sombrias, pois uma sociedade não passa de um grupo de indivíduos, como nos lembra Jung<em>:&nbsp;</em><em>“’Sociedade’ é um simples conceito para a simbiose de um grupo humano. Um conceito não é portador de vida. O único portador natural de vida é o indivíduo, e assim é na natureza inteira”</em>(OC 16/1, §224, 2013b).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossos “crimes”, enquanto não reconhecidos como parte de nossa totalidade, continuarão sendo projetados e, muitas vezes, aplicados como castigo àqueles que absorvem, involutariamente, a nossa projeção. É fundamental que o ato de pensar e reconsiderar nossos posicionamentos diante da vida seja uma meta constante, mesmo que isso comece a ser feito agora. Atribuir a alguém ou a algo a responsabilidade pela nossa mudança é assumir a normose, ou seja, a incapacidade de enfrentar sua própria sombra e se despir da identificação com a(s) persona(s). É pertinente a citação de Jung quando ele diz que&nbsp;<em>“Ser ‘normal’ é a meta ideal para os fracassados e todos os que ainda se encontram abaixo do nível geral de ajustamento. Mas para as pessoas cuja capacidade é bem superior à do homem médio, pessoas que nunca tiveram dificuldades em alcançar sucessos e cujas realizações sempre foram mais do que satisfatórias, para estas, a ideia ou a obrigação moral de não ser mais do que normal, significa o próprio leito de Procusto*, isto é, o tédio mortal, insuportável, um inferno estéril, sem esperança”</em>&nbsp;(OC 16/1, § 161, 2013b).</p>



<p class="wp-block-paragraph">É na “normalidade” que a sombra se esconde e, ao mesmo tempo, revela seu potencial. Ao normalizarmos tudo aquilo que é desumano, atribuindo ao outro a responsabilidade das mudanças, assumimos a persona de criminosos sociais, mas que é legitimada pela aceitação coletiva: “faço isso porque todos fazem”. Contudo, a ética do&nbsp;<em>Self,&nbsp;</em>aquela que não é refém dos desígnios coletivos, sempre provocará o indivíduo a sair de sua normalidade. Mas a resistência egóica do indíviduo, de não escutar as revelações de suas secreções sintomáticas, de dor, patologias, angústias existenciais e frustrações constantes, é que o colocará num estado de inércia. É uma inércia destrutiva, que atribui aos governantes, às organizações ou às instituições a responsabilidade pela mudança de algo, sem se dar conta de que esses conglomerados se reduzem a nada quando se exclui o fator humano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao analisar as etapas da vida humana, Jung faz uma poderosa provocação, especialmente ao indivíduo adulto, que se recusa, na melhor perspectiva&nbsp;<em>sísifica</em>** possível, a morte simbólica:<em>&nbsp;“A vida natural é o solo em que se nutre a alma. Quem não consegue acompanhar essa vida, permanece enrijecido e parado em pleno ar. É por isso que muitas pessoas petrificam na idade madura, olham para trás e se agarram ao passado, com um medo secreto da morte no coração. Subtraem-se ao processo vital, pelo menos psicologicamente, e por isto ficam paradas como colunas nostálgicas, com recordações muito vívidas do seu tempo de juventude, mas sem nenhuma relação vital com o presente”</em>&nbsp;(OC 8/2, § 800, 2013a).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o que devemos esperar quando enfrentamos a sombra do dia a dia e reconhecemos seus potenciais positivos e negativos? Dostoiévski esboça uma resposta ao descrever os sentimentos de Raskólnikov:&nbsp;<em>“Ademais, o que significavam todos, todos esses suplícios do passado? Tudo, até o crime dele, até a condenação e o exílio, agora, no primeiro impulso, pareciam-lhe algum fato externo, estranho, até como se não tivesse acontecido com ele. Aliás, nessa noite ele não conseguia pensar de forma demorada e constante em nada de modo consciente; apenas sentia. A dialética dera lugar à vida, e na consciência devia elaborar-se algo bem diferente”&nbsp;</em>(Dostoiévski, 2019, pág. 562).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Notas:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>* leito de Procusto: cama em que Procusto impingia às pessoas a tortura de cortar ou esticar seus membros caso elas fossem maiores ou menores que o tamanho da cama; ele mesmo seria vítima disso ao ser colocado lateralmente na cama e ser cortado por Teseu.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>**”sísifica” se refere ao rei Sísifo, que por diversas vezes recusou a morte, sendo condenado a uma danação eterna.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Rafael Rodrigues</strong>&nbsp;é Analista em formação no IJEP e Mestrando em Comunicação na UNIP. Atende online e em seu consultório particular na Vila Mariana em São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e castigo, 8ª ed. São Paulo: Editora 34, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James. Cidade &amp; alma. São Paulo: Studio Nobel, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique, OC 8/2, 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia, OC 16/1, 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav (Org). O homem e seus símbolos, 2ª ed. especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O Livro Vermelho: edição sem ilustrações, 4ª ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do inconsciente, OC 7/1, 24ª ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia, OC 12, 6ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Emma &amp; VON FRANZ, Marie-Louise. A lenda do Graal: do ponto de vista psicológico. São Paulo: Cultrix, 1980.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WAAL, Frans de. A era da empatia: lições da natureza para uma sociedade mais gentil. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Rafael Rodrigues&nbsp;</em></strong></h4>
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		<title>Mecanismos diabólicos para a dominação mental (ou os fundamentos do fascismo) &#8211; 1ª parte: a dúvida</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mecanismos-diabolicos-para-a-dominacao-mental-ou-os-fundamentos-do-fascismo-1a-parte-a-duvida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 04 Feb 2020 16:26:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Em seu livro “Cartas de um diabo a seu aprendiz&#8221;, C.S. Lewis faz uma inversão genial de valores contando com detalhes os mecanismos e artimanhas utilizados pelos seres que habitam o inferno para afastar as pessoas do verdadeiro caminho que levaria ao encontro com Deus. Na história, um diabo explica a seu aprendiz, através de [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Em seu livro “Cartas de um diabo a seu aprendiz&#8221;, C.S. Lewis faz uma inversão genial de valores contando com detalhes os mecanismos e artimanhas utilizados pelos seres que habitam o inferno para afastar as pessoas do verdadeiro caminho que levaria ao encontro com Deus. Na história, um diabo explica a seu aprendiz, através de cartas breves, quais ações devem ser tomadas para direcionar seu paciente (um ser humano) para que o comportamento terreno deste último o leve, no futuro, para as profundezas do inferno. É impressionante como, apesar do gigantesco avanço tecnológico que tivemos nos últimos anos, conseguimos viver ainda em um abismo espiritual tão grande. Muitos dos processos descritos no livro de Lewis, publicado pela primeira vez em 1942, podem ser observados atualmente. Num primeiro momento, parece absurdo pensar que um texto escrito durante a segunda guerra mundial ainda fale muito sobre o comportamento do ser humano contemporâneo, mas infelizmente, isso é verdade. Não é minha intenção fazer uma resenha do livro, apenas destacarei alguns trechos que mostram claramente que os capetinhas devem mesmo existir e parecem estar no caminho certo para a dominação da mente de uma grande parcela da população.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa primeira parte vamos falar um pouco sobre ciência e religião com foco principal naquilo que teoricamente as separam, e que deveria ser o elemento unificador entre as duas: a dúvida. Jung diz em muitos momentos de sua obra que a paradoxalidade é o que nos leva mais próximo possível da experiência verdadeira do encontro com o si mesmo. O primeiro paradoxo religioso se apresenta, portanto, no ato de aceitarmos a dúvida e, mesmo assim, seguirmos em frente acreditando que seja possível integrar os aspectos mais profundos e sombrios do nosso ser. Devemos continuar sempre e a todo momento nos perguntando se estamos no caminho certo para essa união ou não, duvidando de cada ação e pensamento. A negação do paradoxal na religião, seja ela qual for, desencadeia uma diminuição energética de seus símbolos transformando-os em meros sinais literalizados e unilateralizados. Por consequência, o afastamento daquilo que é simbólico nos leva diretamente ao seu contrário, ou seja, àquilo que é diabólico. Não acredito que seja por acaso que Lewis comece seu livro exatamente com essa questão. As instruções da primeira carta do diabo são claras para que seu aprendiz mantenha seu paciente preso na concretude, mesmo que essa percepção da realidade seja deturpada: “Ensine-o a chamá-lo&nbsp;<em>(o materialismo)</em>&nbsp;de &#8220;vida real” e não o deixe perguntar o que ele quer dizer com &#8220;real&#8221;. (Carta I)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O objetivo principal das forças demoníacas aqui é que o indivíduo, preso naquilo que ele acredita ser a realidade, não tenha dúvidas. Ele precisa estar completamente cego e preso em qualquer que seja seu sistema de crenças. Nada pode ser questionado. Isso o levará cada vez mais para longe do processo de individuação descrito por Jung, mantendo-o afastado do encontro com o divino que existe em si mesmo e, consequentemente, a mercê das forças negadas do inconsciente. A pessoa se torna assim um ser autômato e robotizado que segue o comportamento coletivo sem nenhum tipo de questionamento. Para que isso ocorra é muito importante que a pessoa faça parte de um grupo, de uma instituição ou de um partido que pense da mesma maneira que ele. Jung diz sobre a massificação: &#8220;No seio da massa, o homem desce inconscientemente a um nível moral e intelectual inferior, que sempre existe sob o limiar da consciência, e o inconsciente está sempre pronto para irromper, logo que ocorra a formação e atração de uma massa.” (JUNG, 2016, p. 23)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A certeza, como a conhecemos popularmente, é o caminho para a perdição. Ela leva a pessoa a viver dominada por forças inconscientes, exatamente como o diabo deseja. Em sua etimologia a palavra &#8220;certeza” vem de&nbsp;<em>certanus&nbsp;</em>que, por sua vez, deriva de&nbsp;<em>certus</em>. Essa expressão indica algo seguro, garantido e determinado. Porém,&nbsp;<em>certus</em>&nbsp;é uma variante de&nbsp;<em>cernere</em>&nbsp;cuja tradução é peneirar ou separar. Palavra que dará origem a &#8220;discernimento” que é a faculdade de escolher através da reflexão. Portanto, originalmente a certeza só pode existir no ato contínuo de distinguir, separar e refletir. Ela, assim como os outros fenômenos da natureza, é mutável. O fundamentalismo religioso prega tudo como certo, salvação ou danação determinadas por regras pré-estabelecidas que servem somente ao propósito da instituição e não do indivíduo. A reflexão não é somente negada como também considerada desnecessária. Massificado, o indivíduo se preocupa cada vez menos com as questões morais, já que o grupo em que ele está inserido permite as maiores barbaridades e atrocidades em nome de algo tido como maior.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda na primeira carta, o espírito maligno diz a seu aprendiz: &#8220;Graças aos processos que colocamos em ação dentro deles&nbsp;<em>(dos seres humanos)</em>&nbsp;há séculos, eles acham de todo impossível acreditar no desconhecido quando o que é familiar está bem diante de seus olhos. Persista incutindo nele a&nbsp;<em>banalidade</em>&nbsp;das coisas. Acima de tudo, não tente usar a ciência (quero dizer, as ciências verdadeiras) como defesa contra o cristianismo. Elas vão positivamente encorajá-lo a pensar sobre as realidades que ele não pode tocar nem ver.” (Carta I)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, é bem mais fácil acreditar que a terra é plana porque é apenas isso que podemos enxergar. Mas o diabo continua: &#8220;Mas o ideal mesmo seria não deixá-lo ler qualquer obra científica; antes, procure dar-lhe uma sensação geral de que ele sabe tudo e que aquilo que consegue fisgar de conversas e leituras casuais é ‘resultado de pesquisas mais recentes’. Lembre-se de que você existe para confundi-lo.&#8221; (Carta I)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dada a importância do momento social, político e principalmente cultural do nosso país, faço questão agora de citar algumas frases pronunciadas por algumas pessoas tidas como &#8220;líderes” e conselheiros do nosso governo atual. Essas falas podem ser fortes indicativos de que eles estejam sendo influenciados por aprendizes de diabos ou até mesmo por seres de camadas superiores na hierarquia infernal:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Não estudei o assunto da terra plana. Só assisti a uns vídeos de experimentos que mostram a planicidade das superfícies aquáticas, e não consegui encontrar, até agora, nada que os refute.” (Olavo de Carvalho em sua conta de Twitter no dia 29 de maio de 2019)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Os livros hoje em dia, como regra, é um amontoado… Muita coisa escrita, tem que suavizar aquilo” (Presidente Jair Bolsonaro sobre os livros escolares em 3 de janeiro de 2020)</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A Igreja Evangélica perdeu espaço na História. Nós perdemos o espaço na ciência quando nós deixamos a teoria da evolução entrar nas escolas. Quando nós não questionamos. Quando nós não fomos ocupar a ciência. A Igreja Evangélica deixou a ciência para lá. &#8220;Ah, vamos deixar a ciência caminhar sozinha&#8221;. E aí cientistas tomaram conta dessa área. E nós nos afastamos”. (Ministra Damares em de janeiro de 2019)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Se for somado o desmatamento que falam dos últimos 10 anos, a Amazônia já acabou. Eu entendo a necessidade de preservar, mas a psicose ambiental deixou de existir comigo.” (Presidente Bolsonaro em julho de 2019 sobre o desmatamento na Amazônia)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os verdadeiros líderes religiosos não temem a ciência e não utilizam a fé para negá-la. Assim como o cientista que entende que nunca chegará na pedra fundamental da existência por ela ser mutável &#8211; como todos os fenômenos da natureza &#8211; não sente a necessidade egoísta de negar a crença dos outros, sejam elas quais forem. Existem nos dois, nos religiosos e nos cientistas verdadeiros, a dúvida. É exatamente ela que os impulsiona a perguntar, investigar e estudar cada vez mais. Quando reduzidos a fundamentalismos, tanto um discurso quanto o outro, acabam negando aquilo que deveria ser uma das bases principais de seu pensamento: a aceitação e a reflexão acerca daquilo que é diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos dias de hoje a ciência pode ser reduzida de maneira ainda mais rápida a frases e manchetes de jornais encontradas na rede www (world wide web &#8211; grande teia mundial). Todo mundo pode se tornar um &#8220;especialista&#8221; em algo com apenas alguns minutos de pesquisa sobre qualquer assunto. Assim como acontece com a ciência, a religião também não consegue escapar de tal reducionismo. Os dados científicos são reduzidos às “pesquisas mais recentes” e os rituais religiosos são categorizados em &#8220;práticas arcaicas sem sentido” pela falta da experiência real do simbolismo que deveriam carregar. Os dois lados sofrem de literalização, o que implica em serem tomados sempre como verdades absolutas ou mentiras descaradas. A ciência cria as bombas que serão utilizadas pelos grupos religiosos extremistas para explodir aqueles que pensam de maneira diversa. E parece que nenhum dos lados percebe o quanto se ajudam nesse processo destrutivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma mensagem muito interessante do texto acima está numa frase que parece pequena, mas diz muito sobre o que vivemos atualmente: &#8220;Persista incutindo nele a&nbsp;<em>banalidade</em>&nbsp;das coisas.&#8221; A cada dia em que vivemos sob o domínio sombrio dos diabretes, os absurdos ditos e as ações inconsequentes do nosso governo se tornam banais. Até pouco tempo seria ilógico e insensato falar sobre um possível retorno do AI5, hoje isso é discutido quase como uma possibilidade real. Não sabemos o que o amanhã trará (esse texto foi escrito antes do ex secretário da cultura Roberto Alvim parafrasear e copiar frases de Goebbels em seu discurso sobre o futuro da cultura no Brasil). Os absurdos são tantos em tão pouco tempo que se tornam ordinários e acabam virando piada. No entanto, alguns poucos percebem o quanto isso é sério e o quanto estamos sendo coniventes se deixamos que essas coisas se tornem apenas motivo de risadas em conversas de bar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o que é possível fazer? Bom, o primeiro passo é trabalhar a nossa própria reflexão. Independente de concordar ou não com as atitudes do governo atual, ou mesmo com as do passado, refletir é preciso. Não se trata aqui de algo que se encontra longe de cada um de nós como indivíduos. Como descrito no livro de Lewis, todos temos os nossos próprios aprendizes de diabo cuidando e soprando em nossas mentes as ideias mais disparatadas sobre como estamos corretos a respeito de tudo. Tentam nos fazer acreditar que estamos no caminho certo, que nossas crenças são as únicas verdadeiras e que a relativização é uma bobagem. Ao contrário do que a maioria do que os ditos cristãos acreditam e pregam, certo é o diabo, Deus é dúvida. E a dúvida gera o embate para a função transcendente e, consequentemente, para que o processo de individuação se instale, despertando, de um lado, a capacidade crítica e reflexiva e de outro a certeza de que nada pode ser absoluto e literal. Estado de consciência necessário para impedir que o fascismo, nazismo, imperialismo ou absolutismo venham dominar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*Jose Luiz Balestrini Junior, ser humano, psicólogo, especialista em psicologia junguiana pelo IJEP, membro analista em formação pelo IJEP, especialista em medicina tradicional chinesa, e Sifu (mestre) de Kung Fu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E-mail:&nbsp;balestrini@lungfu.com.br</p>



<p class="wp-block-paragraph">Atende e dá aulas na Zona Sul de São Paulo<br>Av. Ibijau, 236 &#8211; Moema<br>Consultório: (11) 98207-7766</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Psicologia e religião, O.C. Vol. 11/1, Petrópolis, Vozes, 2016</p>



<p class="wp-block-paragraph">LEWIS, C.S. Cartas de um diabo a seu aprendiz, Rio de Janeiro, Thomas Nelson Brasil, 2017</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>José Balestrini</em></strong></h4>
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		<item>
		<title>A alma burocrática</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-alma-burocratica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 16:58:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Burnout]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
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		<category><![CDATA[burocracia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No mundo em que vivemos hoje sobra espaço ou tempo para a alma? Vou fazer uma brincadeira e comparar um dia dessa nossa existência miserável de simbolismo, forçada e repetida de maneira automática e robótica, com o curso de uma vida humana em nossa sociedade. Imagine que um dia é uma vida. Despertamos de um [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">No mundo em que vivemos hoje sobra espaço ou tempo para a alma?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vou fazer uma brincadeira e comparar um dia dessa nossa existência miserável de simbolismo, forçada e repetida de maneira automática e robótica, com o curso de uma vida humana em nossa sociedade. Imagine que um dia é uma vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Despertamos de um sono cheio de conteúdo simbólico. Saímos de um lugar onde o inconsciente está tentando nos avisar dos perigos e prazeres da vida material. O despertar é na verdade um celular que toca um alarme chato e repetitivo todas as manhãs. E por mais que o indivíduo tente encontrar um toque melhor, não encontra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então o Ser está desperto (ou pensa que está). Já levantou, tomou seu banho, comeu seu pão e agora se prepara para buscar sua alma. Sai de casa contente, sabendo que esse dia é importante: está em busca daquilo que o completa. Irá encontrar o sentido de sua vida. Chega na empresa antes que ela abra e já na porta percebe que não será tão fácil assim, a fila está grande. Levou um livro para ajudar a passar o tempo, mas não consegue ler, está muito ansioso. Pensa e sente que depois que estiver em poder de sua alma, saberá o que fazer, saberá para onde ir. O painel eletrônico toca chamando as senhas constantemente, e o celular avisa o tempo todo que chegam mensagens e notificações sobre postagens vazias de seus (des) conhecidos das redes sociais. Olha então as tais redes acreditando que o tempo pode passar mais rápido se tiver afastado de si mesmo. Espera pacientemente, sabe que no fim irá ser recompensado. Não é todo mundo que consegue encontrar sua alma. Finalmente chamam sua senha, chegou sua vez! Ele vai até o atendente e se senta em frente à pequena mesa. Entrega os formulários necessários preenchidos. O atendente olha cuidadosamente para os papéis espalhados em sua mesa, checa a tela do computador. O coração do protagonista bate mais forte, está aflito e angustiado para receber o que é seu por direito. E recebe a notícia como um tiro no peito: &#8220;falta um carimbo.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos frustrados por sentir que o processo burocrático do dia a dia, o sistema e a ordem são mais importantes do que a vida humana. As pessoas não se importam em realmente ajudar o outro, pensam sim em cumprir horário, carimbar, assinar e despachar papéis que muitas vezes atrapalham mais do que ajudam a resolver os problemas reais de cada um. O verdadeiro contato humano se esvai, some, dissipa, dissolve, e com ele a possibilidade do encontro com o outro e com o si mesmo. Robotizados, os seres humanos não tem chance de viver simbolicamente. Perdidos em documentos e burocracias, quem consegue tempo para pensar em si mesmo? De praticar rituais? De se dedicar à arte?</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Somente a vida simbólica pode expressar a necessidade da alma &#8211; a necessidade diária da alma, bem entendido. E pelo fato de as pessoas não terem isso, não conseguem sair dessa roda viva, dessa vida assustadora, maçante e banal onde são &#8220;nada mais do que&#8221;. (OC 18/1, 627)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Kanji Watanabe, o personagem principal do filme japonês Ikiru (Viver), de 1952, de Akira Kurosawa, era nada mais do que um velho agente burocrata. Uma peça de uma máquina que nem ele mesmo sabia muito bem para que servia. Passou anos numa função robotizada qualquer até ser acometido por um câncer de estômago avassalador. Entendeu o chamado do Self e saiu em busca de algum significado para sua vida vazia. É claro que encontrar esse significado não foi fácil. Kanji experimenta a vida boêmia, procurando a felicidade e a realização de si mesmo de maneira hedonista. Não encontra. Tenta viver da felicidade de uma garota mais nova e cheia de vigor, o que também não funciona. Kanji Watanabe passa por várias situações até perceber o que deveria fazer para viver o pouco tempo que lhe restava com dignidade de si mesmo e morrer satisfeito com o que havia alcançado. Vou deixar o leitor curioso&#8230; se você ainda não assistiu a esse filme, vale muito a pena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viver (Ikiru). O filme mostra com exatidão o encontro da vida simbólica por Watanabe, e seu caminho para o mito do significado. E a reflexão que podemos fazer quando entramos em contato com essa história nos traz mais perguntas do que respostas: Então uma vida sem simbolismo é uma vida de verdade? Passar o tempo cercado e preso a papéis, carimbos, documentos físicos e digitais podem ser considerados realmente viver?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, a pergunta que mais me intriga: é preciso esperar um câncer de estômago para perceber que viver é muito mais do que ser &#8220;nada mais do que&#8221;?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu entendo que a resposta para essa pergunta pode ter aproximadamente 7,6 bilhões de respostas, que é mais ou menos o número de habitantes humanos no mundo hoje. No fim, cada um de nós irá encontrar seu caminho e seu significado de uma maneira peculiar, particular, individual. O encontro com a alma não é exclusivo de qualquer ser humano, mas exige dedicação e coragem do indivíduo porque o caminho não é fácil e nem tranquilo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Umas das mais famosas frases de Jung no livro Memórias, Sonho e Reflexões, diz: &#8220;Minha vida é a história de um inconsciente que se realizou. Tudo o que nele repousa aspira a tornar-se acontecimento, e a personalidade, por seu lado, quer evoluir a partir de suas condições inconscientes e experimentar-se como totalidade.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ah! Então o que precisamos fazer é deixar que nossos inconscientes se realizem! Aparentemente isso não é tão simples quanto parece. Mesmo nos aplicando diariamente nessa busca, acreditando que estamos deixando espaço e tempo para a alma, nada pode garantir que, como Jung e Watanabe, consigamos permitir que nossos inconscientes se realizem.&nbsp; Viver exige esforço, e ao mesmo tempo, não podemos fazer muito se não deixarmos a vida acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso estar atento! Pode ser que estejamos mais presos à máquina do que imaginamos, só não conseguimos perceber. Pode ser que a burocracia já tenha tomado conta das nossas almas e que elas precisem da nossa ajuda para retomar sua liberdade. Encontremos tempo para as expressões da alma! E apesar de não ser garantida, aumentamos assim as chances da realização de nossos inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><img decoding="async" alt="" src="https://www.ijep.com.br/admin/jscripts/tiny_mce3/plugins/ajaxfilemanager/upload_files/alma%20buro%202.jpg">*Jose Luiz Balestrini Junior, ser humano, psicólogo, especialista em psicologia junguiana pelo IJEP, analista junguiano em formação pelo IJEP e Sifu (mestre) de Kung Fu.&nbsp;Atende e dá aulas na Zona Sul de São Paulo<br>Av. Ibijaú, 236 &#8211; Moema &#8211; São Paulo &#8211; SP<br>Fone: (11) 98207-7766<br>E-mail:&nbsp;<a href="mailto:balestrini@lungfu.com.br">&nbsp;balestrini@lungfu.com.br</a><br>www.lungfu.com.br</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Jose Luiz Balestrini Junior &#8211;</em></strong></h4>
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		<title>Vamos refletir sobre a nossa (própria) educação?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vamos-refletir-sobre-a-nossa-propria-educacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[José Luiz Balestrini Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Jun 2019 19:17:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Acredito que seja algo óbvio que a situação da educação em nosso país vai de mal a pior. Essa é uma reclamação constante de praticamente todas as camadas da sociedade que, embora por motivos diferentes, acreditam que investir numa educação de qualidade é o caminho para a construção de um futuro melhor para o país. [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Acredito que seja algo óbvio que a situação da educação em nosso país vai de mal a pior. Essa é uma reclamação constante de praticamente todas as camadas da sociedade que, embora por motivos diferentes, acreditam que investir numa educação de qualidade é o caminho para a construção de um futuro melhor para o país. Porém, acredito que a pergunta central que devemos fazer é: o que é educação de qualidade? Lendo o&nbsp;Desenvolvimento da Personalidade&nbsp;de Jung me deparei com a seguinte passagem:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Quanto mais débil é a consciência do &#8220;eu&#8221;, tanto menos importa considerar quem propriamente foi afetado, e igualmente tanto menos está o indivíduo em condição de proteger-se contra o contágio geral. Esta proteção apenas poderia ser atenuante se alguém fosse capaz de dizer: &#8220;Tu é que estás excitado ou furioso, e não eu, pois eu não sou tu&#8221;.&#8221; (JUNG, OC, Vol. XVII p. 83)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A afirmação de Jung é extremamente atual e aponta diretamente para um comportamento que podemos observar acontecer com certa frequência na nossa sociedade: a dificuldade do ser humano de se diferenciar da massa. Esse problema se apresenta de maneira circular. Não será possível ao indivíduo aceitar o outro, respeitar o diferente, se ele não consegue diferenciar a si mesmo. Sem saber o que é verdadeiramente seu, projeta no outro suas frustrações inconscientes. Por um lado, isso pode gerar uma identificação com uma população específica que concorda com seus pensamentos, e por outro pode causar conflitos, muitas vezes violentos, com quem pensa diferente. Cria-se assim um círculo vicioso no qual o indivíduo não sabe quem ele é de verdade e assim não consegue aceitar que o outro seja diferente. Na afirmação acima Jung estava exemplificando para explicar como a criança, ainda vivendo a&nbsp;participation mystique, ou seja, sofrendo influência direta do inconsciente do grupo de adultos onde está inserida, se sente. Mais adiante no texto ele irá dizer:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Em geral se acentua muito pouco quão importante é para a criança a vida que os pais levam, pois o que atua sobre as crianças são os fatos e não as palavras. &#8221; (JUNG, OC, Vol. XVII, p.84)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, as crianças aprendem muito mais com as atitudes dos pais do que com o que estes acham por direito impor aos filhos através das palavras. E não estamos falando aqui somente das atitudes conscientes, mas principalmente do que está velado, escondido e/ou negado no inconsciente dos pais e responsáveis pela educação dessas crianças. Jung afirma também que os professores são tão responsáveis pela verdadeira educação das crianças quanto os pais: a escola caracteriza o primeiro ambiente que substitui a casa e a família. É extremamente importante que a crianças encontrem nesse ambiente figuras que influenciem o desenvolvimento total de suas personalidades e não somente os bombardeiem com informação atrás de informação. É importante então que os professores desenvolvam, além de suas atividades docentes, a sua própria e constante educação para servir de exemplo às crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Tal atitude não pode ser obtida artificialmente, mesmo com toda a boa vontade, mas somente se realiza de modo natural, à medida que o professor procura simplesmente cumprir seu dever como homem e cidadão. É preciso que ele mesmo seja uma pessoa correta e sadia; o bom exemplo é o melhor método de ensino. Por mais perfeito que seja o método, de nada adiantará se a pessoa que o executa não se encontrar acima dele em virtude do valor de sua personalidade. &#8221; (JUNG, OC,Vol. XVII, p. 107a)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito se fala do quanto precisamos investir mais em educação, porém essa análise é baseada na maioria das vezes em números e gráficos que não representam de maneira alguma o principal problema da educação em nosso país. Estamos vivendo uma bola de neve da deseducação e a juventude está sendo atropelada e engolida por essa avalanche. O problema não está somente nos números, nos baixos salários dos professores, na falta de verba para equipamentos e no absurdo que é faltar merenda para as crianças nas escolas (ou em qualquer outro lugar, obviamente). É claro que todos esses fatores influenciam diretamente e agravam o problema em grau altíssimo. Porém, assistindo ao documentário&nbsp;Nunca me sonharam&nbsp;que fala sobre os problemas enfrentados pelos alunos da rede pública de algumas das principais cidades do país, podemos fazer uma reflexão acerca do problema que ultrapassa as questões financeiras e burocráticas. O filme, em determinado momento, mostra claramente como a falta de sonhos de um futuro melhor dos pais, responsáveis, professores, ou seja, de todos os educadores, está afetando a capacidade de sonhar dos jovens e crianças que estão sob a influência desses adultos. Sem um referencial para aprender a sonhar, será muito difícil que esses jovens construam uma realidade diferente para si mesmos e para suas futuras famílias. Como será possível aos pais, responsáveis, professores e quaisquer outros adultos envolvidos na formação dessas crianças sonharem qualquer futuro para elas se eles mesmos nunca foram sonhados por seus próprios pais e responsáveis? Como sonhar o outro se não se sabe sonhar a si mesmo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas crianças se tornarão adultos desprovidos de capacidade de diferenciar-se do grupo, da massa. Nunca pensarão por si mesmos, apenas seguirão a correnteza sem nenhum poder de reflexão fazendo aquilo que a massa ditar. Agindo exatamente com o grupo age ou ordena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dei destaque até agora para os alunos da rede pública, porém também é preciso pensar em como a deseducação também acontece nas escolas privadas. Por motivos e causas diferentes, essas crianças ditas privilegiadas, se tornarão indivíduos afastados da reflexão e da dúvida, sendo estas condições essenciais para o desenvolvimento de pensamento crítico. As escolas privadas se preocupam, em sua maioria, com resultados apenas. O importante para elas são os números! Os alunos irão aprender somente a produzir e a obedecer e não a fantasiar e sonhar. De maneira alguma devemos pensar que uma coisa é mais importante do que outra. O ser humano que somente fantasia terá tantos problemas de desequilíbrio psíquico quanto aquele que só produz, e a causa está exatamente no desequilíbrio das duas atitudes. Cada uma deveria ter espaço para acontecer no comportamento humano, porém a sociedade atual reforça o comportamento produtivo muito mais do que o criativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda estamos escravos da razão, do concretismo e do materialismo e isso está enraizado no nosso sistema educacional. O capitalismo desenfreado, o desejo de consumo, a energia voltada inteiramente para o objeto produzirá seres unilateralizados que no máximo serão capazes de viver a vida não vivida dos pais, porque estes últimos pelo menos tiveram sonhos para si mesmos e os projetaram em sua prole. Essas crianças, quando adultos, esquecerão seus sonhos, trocarão suas fantasias pela estabilidade financeira, pelo comodismo e pelo modismo. Sua libido estará assim totalmente voltada para fora, para o objeto. A introversão se perde e com ela a chance do encontro com si mesmo. Se as crianças de hoje são privadas de sonhos e aspirações, o que será das próximas gerações? Não terão nem como herança o desejo inconsciente de realizar o que os pais não puderam?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivemos hoje a cultura da informação superficial contrária a uma busca pelo aprofundamento. Apesar de todas as possibilidades de ampliação de conteúdos que o mundo virtual nos oferece, a maioria de nós se preocupa somente em compartilhar bobagens nas redes sociais, divulgar notícias sensacionalistas que normalmente não são de origens confiáveis. A educação baseada somente na informação produz indivíduos desprovidos de reflexão e espiritualidade. É preciso semear a reflexão!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A situação atual da nossa sociedade, o comportamento reativo e as reações violentas e exageradas frente ao diferente e ao desacordo que observamos nas notícias e algumas vezes até em pessoas próximas de nós, já é resultado dessa educação que não preza pela reflexão. O adulto de hoje acredita que sua educação acaba quando ele atinge certa idade ou certo grau de escolaridade. A partir daí acha que não é preciso mais estudar, não é preciso mais pensar. Está pronto para o mercado de trabalho, está pronto para se tornar mais uma peça na engrenagem do sistema e fazer sua contribuição para no nosso&nbsp;belo&nbsp;quadro social (parafraseando Raul Seixas). Quando na verdade o caminho do autoconhecimento exige estudo constante, de si e da sociedade. Nosso sistema educacional forma então indivíduos sem poder de reflexão, afastados de si mesmos que não conseguem nem entender os seus próprios desejos. Nesse interim, uma camada muito estreita da sociedade se beneficia da ignorância generalizada do povo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;E para onde conduzem tais desejos confusos, mostram aqueles países em que os chefes de governo conseguiram usurpar os poderes paternos por meio de hábeis manipulações das esperanças infantis da massa sugestionável. Daí resulta que o empobrecimento espiritual, o aparvalhamento e a degeneração moral vêm substituir o entusiasmo anterior em estabelecer metas espirituais e morais, gerando desse modo a psicose das massas, que somente poderá terminar em catástrofe. &#8221; (JUNG, OC Vol. XVII, p.159)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabendo que a situação da educação em nosso país já é bem ruim, e sem querer ser pessimista, acho que ainda cabe a pergunta: já estamos nessa catástrofe? Ou ainda há mais por vir?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o principal aqui é perceber que qualquer que seja a resposta a essa pergunta, é preciso agir! Seja de forma social, familiar ou individual, é preciso investir numa educação de si e do próximo que contemple a reflexão. E respondendo à questão proposta no início do texto, educação de qualidade engloba pais, responsáveis, professores, diretores e todos aqueles que tiverem qualquer convívio com as crianças num esforço para ensinar conteúdos também, mas acima de tudo valores éticos e poder de reflexão através de suas próprias atitudes cotidianas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*A foto é reprodução de uma cena do filme&nbsp;The Wall&nbsp;de 1982 da banda Pink Floyd.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*Jose Luiz Balestrini Junior, ser humano, psicólogo, analista junguiano em formação pelo IJEP e Sifu (mestre) de Kung Fu, e-mail:&nbsp;<a href="mailto:balestrini@lungfu.com.br">balestrini@lungfu.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Atende e dá aulas na Zona Sul de São Paulo. Consultório: 11-98207-7766</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G., O desenvolvimento da personalidade (OC; Vol. XVII). Petrópolis: Vozes. (2013)</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Jose Luiz Balestrini Junior&nbsp;</em></strong></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>Reimaginando Personalidade  Revendo  &#8211; Da Formação da Personalidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/reimaginando-personalidade-revendo-da-formacao-da-personalidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ajax Salvador]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Jun 2019 12:37:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Associação Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Congresso Junguiano]]></category>
		<category><![CDATA[IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Instituto Junguiano]]></category>
		<category><![CDATA[Jung na Prática]]></category>
		<category><![CDATA[Medicina Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Pós-graduação em Psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>"(...) é algo de grande e misterioso o que designamos por ‘personalidade(...)"   (JUNG, 2013a, §312)</p>
<p>Este artigo apresenta uma reflexão inspirada no texto traduzido como "Da formação da personalidade" publicado no Volume VII da Obras completas de C.G. Jung. (JUNG, 2013a, p.178)</p>
<p>A narrativa, de forma interessante, não começa definindo ou conceituando o que se quer dizer com "personalidade", mas enfatizando sua importância através de um verso de Goethe. Segue afirmando uma "opinião" de quão forte são os desejos de desenvolver a totalidade do ser humano - "à qual se dá o nome de personalidade" (JUNG, 2013a, p.178) itálico do autor. "Se dá o nome" não é a mesma coisa do que dizer que é! Ou seja, pode-se entender que Jung aproxima-se do tema falando dos discursos sobre este e não afirmando positivamente sua literalidade.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;(&#8230;) é algo de grande e misterioso o que designamos por ‘personalidade(&#8230;)&#8221;&nbsp; &nbsp;(JUNG, 2013a, §312)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este artigo apresenta uma reflexão inspirada no texto traduzido como &#8220;Da formação da personalidade&#8221; publicado no Volume VII da Obras completas de C.G. Jung. (JUNG, 2013a, p.178)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A narrativa, de forma interessante, não começa definindo ou conceituando o que se quer dizer com &#8220;personalidade&#8221;, mas enfatizando sua importância através de um verso de Goethe. Segue afirmando uma &#8220;opinião&#8221; de quão forte são os desejos de desenvolver a totalidade do ser humano &#8211; &#8220;à qual se dá o nome de&nbsp;personalidade&#8221; (JUNG, 2013a, p.178) itálico do autor. &#8220;Se dá o nome&#8221; não é a mesma coisa do que dizer que é! Ou seja, pode-se entender que Jung aproxima-se do tema falando dos discursos sobre este e não afirmando positivamente sua literalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como toda palavra este enigma nomeado &#8220;personalidade&#8221; é uma presença que tem etimologia, história e pode ser personificada &#8211; &#8220;as palavras são pessoas&#8221; (Hillman, 2010, p.54). O texto aponta que &#8220;deveras é algo de grande e misterioso o que designamos por ‘personalidade. Tudo o que se possa dizer sobre ela será sempre singularmente insatisfatório e inadequado (&#8230;)&#8221; (JUNG, 2013a, §312); aparece nesta narrativa que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Personalidade é&nbsp;realização máxima&nbsp;da índole inata e específica&nbsp;de um ser vivo particular. (&#8230;) é a obra a que se chega pela máxima coragem de viver, pela&nbsp;afirmação absoluta do ser individual, e pela&nbsp;adaptação, a mais perfeita possível, a tudo que existe de universal, e tudo&nbsp;aliado a máxima liberdade de decisão própria. &#8221; (JUNG,2013a, §289) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pode-se pensar na personalidade como a realização máxima do particular e individual dentro da mais perfeita adaptação a tudo que é universal.&nbsp;Seria o máximo do particular no máximo do universal.&nbsp;Pois &#8220;(&#8230;) a camada psíquica mais profunda, sobre a qual se afirma a consciência individual, é de natureza universal (&#8230;)&#8221; (JUNG, 2013a, §307). Neste sentido universal não estaria em oposição ao particular pois os padrões universais, coletivos, transpessoais ou arquetípicos só se realizariam e se manifestariam a partir de vivencias empíricas particulares que, em associação singular, configuram complexos organizados por grandes temas coletivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O texto fala dos efeitos de um ideal pedagógico apresentado como &#8220;Educação para a personalidade&#8221; (JUNG, 2013a, §284) que teria incrementado um movimento que contrapõe &#8220;personalidade&#8221; com &#8220;homem coletivizado ou normal&#8221; produzido pela massificação geral. No entanto a narrativa carrega uma ambiguidade, pode-se dizer um certo cinismo, pois parece estar falando da importância e dos grandes feitos libertadores de personalidades dotadas de liderança e desvaloriza-se a grande massa inerte e secundária, mas ao final aponta que a massa &#8220;necessita sempre de um demagogo&#8221; (JUNG,2013a, §284). Os exemplos de &#8220;personalidades dotadas de liderança&#8221; do período da 2ª guerra mundial beiram a caricatura: o Dulce na Itália e o Führer na Alemanha.&nbsp; Neste ponto a narrativa faz uma inflexão ao afirmar que o &#8220;problema real&#8221; é efeito de um desejo intenso em muitas pessoas de encontrar &#8220;uma personalidade&#8221; &#8211; &#8220;O desejo intenso de encontrar uma personalidade se converteu em problema real, que preocupa hoje em dia muita gente&#8221; (JUNG,2013a, §284).</p>



<p class="wp-block-paragraph">É como se este ideal da personalidade estivesse associado à expectativa valorada positivamente de independência das massas e do coletivo; esta valoração produziria um desejo e expectativa de um lugar de liderança redentora. Esta expectativa converter-se-ia em problema; quanto mais massa ou coletivo, mais demanda por personalidade redentora da massificação. É no contexto em que se considera esta posição importante que não ter esta tal &#8220;personalidade&#8221; &#8211; que diferenciasse de um dito &#8220;homem coletivizado ou normal&#8221; torna-se um problema e, quanto mais este &#8220;homem de personalidade&#8221; torna-se importante maior fica o problema. Poder-se-ia ver aí elementos que sustentam o culto às celebridades numa sociedade do espetáculo (DEBORD,1997)? Mas isto seria outra reflexão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há em Jung uma crítica ao ideal de &#8220;educar para personalidade&#8221; pois, &#8220;geralmente se vê na ‘personalidade a totalidade psíquica, dotada de decisão, resistência e força, mas isto é um ideal de pessoa adulta que se pretende atribuir à infância. &#8221; (JUNG,2013a, §286). Entretanto &#8220;no adulto está oculto uma criança,&nbsp;uma criança eterna,&nbsp;algo ainda em formação e que jamais estará terminado&nbsp;(&#8230;)&#8221; (JUNG,2013a, §286) itálico do autor. Esta criança eterna é considerada por ele uma parte importante da personalidade. Pode-se então pensar em múltiplas personalidades &#8211; vontades parciais, pequenas pessoas ou complexos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apoiado em estudos de Janet e Prince, Jung fala da extrema dissociabilidade da consciência: &#8220;As intenções da vontade ficam dificultadas (pela constelação de complexos) quando não se tornam de todo impossível. &#8221; (JUNG, 1984, §201); &#8220;(&#8230;) cada fragmento da personalidade tinha uma componente caracterológica própria e sua memória separada. Cada um destes fragmentos existe lado a lado, relativamente independentes uns dos outros (&#8230;)&#8221; (JUNG, 1984, §202). Cada complexo como uma &#8220;personalidade fragmentaria&#8221; teria um elevado grau de autonomia, independência uns dos outros e que pode conduzir sujeitos sem que estes percebam conscientemente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A consciência poderia ser então reimaginada, metaforicamente, como uma multiplicidade de estilos de consciência. Jung já apontava que&nbsp;unidade da consciência é uma mera ilusão. &#8220;Gostamos de pensar que somos unificados; mas isso não acontece nem nunca aconteceu (&#8230;)&#8221; (JUNG, 1983, p.67). A própria ideia de unidade já era entendida por Jung como complexo.&nbsp;&#8220;o complexo é uma unidade psíquica&#8221;&nbsp;(JUNG, 1999, p.33). Não haveria algo que pudesse ser unitário, isolado e fora da psique pois:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Todo acontecimento afetivo torna-se um complexo.&nbsp;Se o acontecimento não estiver relacionado a um complexo já existente, possuindo assim um significado momentâneo, ele submerge (&#8230;) até o momento em que uma impressão semelhante a reproduza novamente.&#8221; (JUNG, 1999, p.58)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um paradoxo importante, pois, embora os complexos deem a interpretação e conduzam, a realização da personalidade deveria estar aliada a vivência da &#8220;máxima liberdade de decisão própria&#8221; (JUNG, 2013a, §289) e à liberdade na ação pois &#8220;(&#8230;) somente pela ação é que se torna manifesto quem somos de verdade. &#8221; (JUNG, 2013a, §290). Há uma valoração significativa da ação em relação às intenções, desejos, sentimentos ou pensamentos. Ohomem só apareceria como totalidade vivente e como unidade no ato!&nbsp;&#8220;O entusiasmo, a continuidade, e o executar dão origem&nbsp;à&nbsp;ação&nbsp;e é só nela que o homem aparece como totalidade vivente e como unidade.&nbsp;&#8221; (JUNG, 2012, §407) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele diferencia personalidade de individualismo. A personalidade não se desenvolveria obedecendo a nenhum desejo, ordem ou consideração, mas somente à necessidade movida por coação de acontecimentos (externos ou internos). &#8220;Qualquer outro desenvolvimento seria justamente individualismo. &#8221; (JUNG, 2013a, §293). Entretanto, não bastaria apenas a necessidade, seria preciso também associar-se a esta uma decisão consciente e moral. &#8220;Se faltar a necessidade, esse desenvolvimento não passará de uma acrobacia da vontade, se faltar a decisão consciente, o desenvolvimento seria apenas um automatismo indistinto e inconsciente&#8221; (JUNG, 2013a, §296).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando trata das convenções de natureza moral, social, política, filosófica e religiosa, Jung as coloca como necessidades coletivas associadas à renúncia da integralidade singular do vivente. Neste sentido a grandeza das personalidades históricas estaria em serem sementes que propagam continuamente o libertar-se das convenções. Como o peso da humanidade e dos costumes eternos levam o vivente a preferir o caminho planejado em direção a metas conhecidas, seria preciso uma força maior que conduzisse alguém a um caminho estreito íngreme e que leva ao desconhecido. Por isso a personalidade eminente surgiria como uma aparição sobrenatural, uma força demoníaca ou um dom divino. Este fator irracional é denominado por Jung como&nbsp;&#8220;designação&#8221;. Algo maior do que a consciência que em lendas se atribuem a um demônio pessoal, como uma voz interior que se dirige a pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta perspectiva o psíquico não se identifica com a consciência. Padrões inconscientes podem aparecer na forma de convenções &#8211; &#8221; O mecanismo das convenções conserva os homens inconscientes, &#8221; (JUNG, 2013a, §305) pois então poderiam fazer mudanças sem precisar tomar decisão consciente. No texto sobre a psicologia da transferência Jung cita o texto alquímico em que &#8220;o artífice é servidor da obra&#8221;. (JUNG, 1978, p.129). O homem puramente natural, em sua ingenuidade espontânea amplia a tal ponto sua personalidade que o eu normal em grande medida desaparece, (JUNG, 1978, p.130);&nbsp;&#8220;a integração do inconsciente só é possível quando o Eu se suspende. &#8221;&nbsp;(JUNG, 1978, p.160) negritos meus. Por isso a morte é, ao mesmo tempo, concepção; &#8220;A nova&nbsp;personalidade não é um terceiro entre o consciente e inconsciente, se não que é os dois juntos. (&#8230;) não deve ser qualificada de eu mas de&nbsp;si &#8211; mesmo. &#8221; (JUNG, 1978, p.131) negritos meus. Ou seja, o processo que envolve a individuação não se confunde com inflação do ego, nem com crise neurótica ou psicótica, passa por uma mudança de atitude na consciência onde o complexo do ego perde sua centralidade na personalidade; a consciência se amplia ao integrar o misterioso e desconhecido como fazendo parte desta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung aponta que os padrões inconscientes podem aparecer como duros, pesados, imóveis e inacessíveis, como uma lei natural desenfreada. Compara as guerras e revoluções com epidemias psíquicas e entre estas o movimento do &#8220;esclarecimento&#8221;. Pode-se refletir que o processo de abstração cético (cartesianismo) que levou ao &#8220;esclarecimento&#8221; produziu um &#8220;deus do terror&#8221; ao desprezar as pretensões de todo o saber alcançado por meio de autoridade e experiência (tradição, mito, religião). Ao valorar representação como por diante de si &#8211; perceber &#8211; as coisas deixam de ser essenciais e passam a estar na condição de &#8220;meu objeto&#8221;, ou o que o ‘eu sabe delas. As cosias em si, enquanto tal passam a ser uma abstração vazia de toda determinidade e por isso chamam-se fenômenos &#8211; aparecimento. O esclarecimento assim realizaria a atitude abstrativa. Mas há riscos importantes na dominação da função de abstrair.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;O homem mergulha tão profundamente e nela (função de abstração) se perde que, ao final,&nbsp;coloca sua verdade abstrata acima da realidade da vida, e a vida, que poderia estorvar o gozo da beleza abstrata, é de todo reprimida.&nbsp;Ele mesmo se torna abstração, ele se identifica com o valor eterno de sua imagem e nela se fixa, porque se transformou para ele em fórmula redentora. Renuncia, desse modo, a si mesmo e transfere sua vida para sua abstração na qual, de certa forma, fica cristalizado. &#8221; (JUNG, 1991b, p.285) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se tudo aparece na psique em associação por inúmeros complexos em constelação e os complexos se configuram por padrões arquetípicos, estilos de consciência, fantasias dominantes, estilos imaginativos de discurso que são muito maiores que qualquer vivente isolado, então tudo que aparece na psique está conectado internamente a partir das experiência empíricas singulares e coletivamente nos padrões arquetípicos que lhes dão sentido; participa assim, de alguma forma, de padrões coletivos &#8211; &#8220;excesso de símbolos coletivos que constituem a estrutura fundamental da personalidade. &#8221; (JUNG, 1999, §527). Esta participação misteriosa que a consciência pode não perceber é designada como &#8220;participação mística&#8221;. Jung diz que a abstração seria uma função que &#8220;luta contra a participação mística primitiva. Ela afasta do objeto para destruir os vínculos com ele. &#8221; (JUNG, 1991b, p.283). Perante a quantidade impressionante e estonteante de objetos animados, vivos pela infinidade de sentidos e significados, em constante mudança, que podem falar à imaginação, o homem criaria para si uma abstração; &#8220;isto é, uma imagem abstrata universal em que limita as impressões numa forma fixa. Esta imagem tem o significado mágico de uma proteção contra a mudança caótica da vivência. &#8221; (JUNG, 1991b, p.285).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viver uma forma de vida preso a abstração faz com que o que for excluído desta aglutine-se de forma inconsciente e pode surgir como ameaça que a consciência em cisão e embate lutará contra para preservar sua forma de viver. Uma leitura histórica feita por Jung indica que estas &#8220;pequenas pessoas&#8221; (complexos/personalidades parciais) foram em grande parte postas a serviço do Eu (vontade do homem) levando a uma dissociação entre uma autoconsciência e um inimigo invisível. Isto poderia fazer &#8220;sucumbir a uma&nbsp;vontade tirânica de um governo interior que apresenta traços de uma supra-humanidade demoníaca&#8221;&nbsp;(JUNG, 1978, p.57) negritos meus. Haveriam muitas atividades que não estão ordenadas de acordo com o estilo dominante na consciência. O medo seria expressão de uma atitude frente à atividade psíquica existente fora do domínio da consciência a qual não poderia ser atingida nem pela vontade, nem pela inteligência. Os produtos destas atividades não costumam ser inofensivos para este governo interior que definiu o que está estabelecido, podendo até ser um mal. Este mal tentador e convincente poder surgir como uma &#8220;voz interior&#8221; e, embora se apresente sob uma forma individual, é veículo das tensões e conflitos de um sofrer coletivo do qual todos fazem parte. Se o &#8220;eu&#8221; sucumbir inteiramente segue-se a catástrofe; entretanto se sucumbir apenas em parte poderá assimilar a voz e o mal pode virar salvação &#8211; &#8220;a voz da natureza é sempre boa e sempre destruidora. (&#8230;) o que é bom não permanece sempre bom, (&#8230;)&#8221; (JUNG, 2013a, §320).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sintetizando, pode-se rever este&nbsp;enigma chamado personalidade&nbsp;como o campo onde se problematizam os encontros do que é&nbsp;mais universal e coletivo&nbsp;(padrões arquetípicos) com o que é&nbsp;mais singular&nbsp;de cada vivente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A personalidade é falada, escrita e vivida como tensão entre o que é&nbsp;mais único e singular, pois só pode ser realizada em ações por este vivente, por necessidade e escolha, a partir do conjunto de associações afetivas empiricamente determinadas no processo de vida que viveu (por isso é sentida como sendo sua) e o que é&nbsp;mais universal e coletivo(pois toda interpretação do que foi vivido, empiricamente, de forma singular só se realizou a partir de padrões transpessoais coletivos &#8211; padrões arquetípicos).&nbsp;O máximo do particular no máximo do universal!&nbsp;Nesta perspectiva &#8220;personalidade&#8221; não termina, literalmente, onde acaba uma pessoa. Ela só existe conectada em participação misteriosa com o coletivo, pois é um campo ao mesmo tempo consciente e inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A &#8220;Personalidade&#8221; é única para cada vivente, na medida em que o encontro e vivência de cada padrão coletivo se realizou de maneira absolutamente singular, neste vivente, e é, ao mesmo tempo, coletiva, muito maior do que ele; pois é também todos os padrões coletivos infinitos que constituem pessoas, famílias, sociedades, culturas, governos, formas de trabalhar e de existir. Assim &#8220;personalidade&#8221; é o campo onde convivem em cada um, na cultura e na sociedade o &#8220;homem coletivizado ou normal&#8221;, massificado, que renuncia a integralidade em favor de convenções de natureza moral, social, política, filosófica e religiosa e algo de absolutamente singular que em sua indeterminação, entropicamente, pulsa vivo em relação de tensão com tudo que foi vivido como determinado, até aquele momento; um fator irracional que, embora particular, é vivido como maior do que cada um &#8211;&nbsp;designação. E&nbsp;&#8220;(&#8230;) quem não puder perder a sua vida não a ganhará. (&#8230;) A formação da personalidade é sempre um risco (&#8230;) o perigo máximo e o auxílio indispensável.&nbsp;&#8221; (JUNG, 2013a, §321) negritos meus.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Somente o outono revela o que a primavera produziu&#8221; (JUNG, 2013a, §290). &#8220;A personalidade, no sentido da realização total de nosso ser é um ideal inatingível.&nbsp;&#8221; (JUNG, 2013a, §291).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O poeta Fernando Pessoa pode ajudar neste reimaginar da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou um evadido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo que nasci</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fecharam-me em mim,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ah, mas eu fugi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a gente se cansa</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do mesmo lugar,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do mesmo ser</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por que não se cansar?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha alma procura-me</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas eu ando a monte,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Oxalá que ela</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nunca me encontre.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser um é cadeia,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser eu, não é ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Viverei fugindo</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas vivo a valer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(PESSOA,1977, §710).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Minha alma é uma orquestra oculta;</p>



<p class="wp-block-paragraph">não sei que instrumentos tange e range,</p>



<p class="wp-block-paragraph">cordas e harpas, tímbales e tambores, dentro de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só me conheço como sinfonia. (&#8230;)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bernardo Soares (PESSOA, 1996, p.128).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vivem em nós inúmeros;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se penso ou sinto, ignoro</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem é que pensa ou sente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sou somente o lugar</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde se sente ou pensa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenho mais almas que uma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há mais eus do que eu mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existo todavia</p>



<p class="wp-block-paragraph">Indiferente a todos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(&#8230;)Ricardo Reis (PESSOA,1977, §423).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ajax Perez Salvador, Membro Analista didáta do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando Jung fala &#8220;do processo criador&#8221; (JUNG, 1985, p.62) discute questões sobre arte e refere que a convicção de estar criando com liberdade absoluta seria uma ilusão do consciente. &#8220;Ele (artista) acredita estar nadando, mas na realidade está sendo levado por uma corrente invisível. &#8221; (JUNG, 1985, p.63) negritos meus. &#8220;A maneira de produzir aparentemente consciente e proposital seria apenas uma ilusão subjetiva&#8221; (JUNG, 1985, p.65) negritos meus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">[1] &#8220;O egoísta (&#8220;salbstisch&#8221;) nada tem a ver com o conceito de Si-mesmo, tal como aqui o usamos. Por outro lado, a realização do Si-mesmo parece ser o contrário do despojamento do Si-mesmo. &#8221; &nbsp;(JUNG, 2001, §267).</p>



<h1 class="wp-block-heading">Referências</h1>



<p class="wp-block-paragraph">DEBORD, Guy.&nbsp;A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, James.&nbsp;Re-vendo a psicologia. Petrópolis: Editora Vozes Ltda, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;A Natureza da Psique. Vols. VIII-2. Petrópolis: Vozes, 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Ab-reação, análise dos sonhos , psicologia da transferência. Vol. 16/2 OC. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Fundamentos de Psicologia Analítica.&nbsp;Vol. Vol. XVIII/1. Petrópolis: Vozes, 1983.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;La psicologia de la transferencia. Buenos Aires: Editorial Paidos, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;O Desenvolvimento da Personalidade. 14ª. Vol. 17. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;O Espírito na Arte e na Ciência. Vol. XV. Petropólis: Vozes, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Psicogênese das doenças mentais. Vol. III. Petrópolis: Vozes, 1999.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes, 1991b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PESSOA, Fernando.&nbsp;Livro do desassossego. Vol. I. Campinas: Unicamp, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph">-.&nbsp;Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar S A, 1977.</p>
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