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	<title>Arquivos Povos Indígenas - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Povos Indígenas - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Menos Zeus, mais Nhanderú: um olhar sobre mitologia indígena brasileira</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/menos-zeus-mais-nhanderu-um-olhar-sobre-mitologia-indigena-brasileira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Aug 2021 19:31:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Contos de Fada]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Povos Indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>"Boa parte dos analistas junguianos trabalham de forma quase predominante com os mitos gregos. A maioria das escolas formadoras tem um “excesso de Grécia” e uma miopia para os saberes dos ancestrais da nossa terra. Temos muita Ariel e pouca Yara. Como os mitos tratam de assuntos arquetípicos, trabalhar com a narrativa dos mitos dos povos originários é um convite para emergir do inconsciente as imagens que nos constituem como brasileiros. "</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/menos-zeus-mais-nhanderu-um-olhar-sobre-mitologia-indigena-brasileira/">Menos Zeus, mais Nhanderú: um olhar sobre mitologia indígena brasileira</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Muito se lê, estuda e debate sobre os mitos principalmente gregos. Nós brasileiros os pesquisamos e os utilizamos como referências e objetos de estudo em vários campos do saber.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém existe uma espécie de “apagamento” dos mitos indígenas brasileiros, onde grande parte das pessoas os desconhecem. Existe um “excesso de Zeus” e um “esquecimento de Nhanderú”<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/menos-zeus-mais-nhanderu-um-olhar-sobre-mitologia-indigena-brasileira#_ftn1">[1]</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung estudou com profundidade os mitos e sua obra é transpassada por inúmeros relatos de sonhos de pacientes cujos aspectos centrais apresentam figuras mitológicas. Ele apurou que as imagens míticas simbólicas eram provenientes das camadas mais profundas do inconsciente e se manifestam por meio de sonhos, expressões artísticas etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo de suas pesquisas, Jung também constatou que os mitos fazem parte do inconsciente coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No momento político brasileiro, percebemos um enorme preconceito contra os povos indígenas. Uma rápida pesquisa nos sites de busca mostra uma espécie de necropolítica que trabalha de forma bastante sombria para a destituição dos territórios indígenas, a exploração ilegal das terras e um importante descaso com essa população. O atual presidente em exercício se referiu a eles como “seres humanos como nós” e, num discurso na ONU em 2020, os culpou da devastação ecológica causada pelas queimadas da Amazônia.<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/menos-zeus-mais-nhanderu-um-olhar-sobre-mitologia-indigena-brasileira#_ftn2">[2]</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">De todo passado histórico até os dias atuais, os indígenas pairam sobre a densa nuvem do preconceito e do esquecimento social, ficando à margem das políticas públicas, sendo vistos pela sociedade como “bons selvagens” e por entidades religiosas como “catequisáveis”, num forte desrespeito com as tradições religiosas e seus saberes ancestrais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todo este passado sombrio está denegado ao inconsciente coletivo brasileiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Boa parte dos analistas junguianos trabalham de forma quase predominante com os mitos gregos. A maioria das escolas formadoras tem um “excesso de Grécia” e uma miopia para os saberes dos ancestrais da nossa terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos muita Ariel e pouca Yara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como os mitos tratam de assuntos arquetípicos, trabalhar com a narrativa dos mitos dos povos originários é um convite para emergir do inconsciente as imagens que nos constituem como brasileiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os mitos indígenas possuem um profundo saber da terra, a interação com a fauna e a flora, o conhecimento da medicina das plantas, os deuses da natureza, tudo numa bonita e poética simbiose com o fluxo da vida, sem a carga de culpa e pecado advindos dos mitos cristãos. É um resgate imagético de pertencimento à grande mãe natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As narrativas indígenas brasileiras poderão nos ajudar na conscientização e no reconhecimento de nossa identidade pessoal e espiritual, a ampliar nossa consciência, a confrontar nossa sombra pessoal e coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Kaká Werá, escritor, ambientalista e conferencista indígena brasileiro do povo Tapuia, trouxe à reflexão na aula&nbsp;<em>O Poder Sagrado da História</em>&nbsp;que a palavra tupi significa “som de pé”. Para os tupis somos uma “fala andante”. Ao escutar a história de alguém, os pajés aguçam sua escuta para ouvir o&nbsp;<em>nheng</em>&nbsp;da alma. A expressão&nbsp;<em>nheng</em>&nbsp;aproxima-se do termo platônico&nbsp;<em>poiesis</em>, que é o impulso que cria algo através da imaginação e dos sentimentos. Com isso, os pajés percebem as enfermidades, as angústias, as questões que a alma traz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como diz lindamente Jung no livro A Natureza da Psique, “a alma é o ponto de partida de todas as experiências humanas, e todos os conhecimentos que adquirimos acabam por levar a ela. A alma é o começo e o fim de qualquer conhecimento” (p. 61,&nbsp;§261).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os mitos estão no inconsciente coletivo e, consequentemente, na psique de todos os seres humanos. Conforme Jung, o inconsciente coletivo contém componentes de ordem impessoal, coletiva, instintos e arquétipos pois, do mesmo modo que o indivíduo não é apenas um ser singular e separado, mas também um ser social, a psique não é algo isolado e totalmente individual, mas também um fenômeno coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como se utilizam de linguagem metafórica, os mitos têm o poder de entrar no mundo dos mistérios que a humanidade não deu conta de decifrar racionalmente.&nbsp; As histórias míticas são prenhes de significados, imagens arquetípicas e simbólicas e refletem frequentemente os problemas e conflitos coletivos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, fazer associações em torno de uma narrativa mítica significa mergulhá-la no inconsciente deixando que venha à tona as emoções, imagens, afetos ou símbolos oriundos ao tema apresentado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como os mitos participam da psique do indivíduo, as histórias míticas, ao serem aprofundadas e elaboradas, podem elucidar conflitos internos, trazer à tona complexos, conteúdos inconscientes, e abrir a possibilidade para atribuir um novo olhar e significado na vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nise da Silveira vai além e diz que os mitos são fenômenos psíquicos que revelam a própria natureza da psique (1981, p.128-129).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Psique é a palavra com origem no grego psykhé, usada para descrever a alma ou espírito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como um entrelaçamento poético, a mitologia contida no inconsciente coletivo mistura-se em nosso inconsciente pessoal compondo o tecido da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo assim, será que a mitologia dos nossos povos originários ajudariam a cerzir nossa tão esgarçada alma brasileira?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como os símbolos chegam onde as palavras não acessam e transcendem a racionalidade, eles ajudam a irromper o&nbsp;<em>nheng.</em>&nbsp;A compreensão e ampliação das imagens arquetípicas contidas na mitologia podem ajudar no processo de nosso autoconhecimento, na sensação de pertencimento, no resgate de nossa identidade ancestral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniel Munduruku, escritor, professor e conferencista indígena, nos traz a reflexão que “para os indígenas, um sonho contado é um sonho para todos. O sonho não é só individual mas da tribo, pois os sonhos são a alma do mundo.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa reflexão muito se assemelha aos dizeres de Joseph Campbell em&nbsp;<em>O Poder do Mito</em>&nbsp;ao trazer que “os mitos são os sonhos do mundo, os sonhos arquetípicos que lidam com os magnos problemas humanos”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sendo assim podemos pensar que, ao sonhar os sonhos do mundo também sonhamos os sonhos dos nossos ancestrais indígenas. Mas, como somos desassociados daqueles saberes, ao trabalharmos as narrativas míticas indígenas, também poderemos resgatar os conhecimentos esquecidos da nossa história primeva tais como: os animais como espíritos da floresta; as histórias míticas dos alimentos oriundos da terra; a espiritualidade dos nossos deuses arcaicos (sol, lua, rios, etc); a proeza dos guerreiros indígenas; o conhecimento das plantas medicinais pelos xamãs; o viver em prol da coletividade; as vivências e provações do amor; a naturalidade do corpo; o envelhecimento como processo natural; etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E fica aqui a provocação de que se, ao resgatarmos a mitologia indígena, também resgataríamos uma parte esquecida e renegada na nossa alma brasileira pois, ao nos aproximarmos dos saberes dos povos originários, estaríamos também nos aproximando da nossa própria história varrida ao inconsciente coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Precisamos nos reapropriar de nossa cultura ancestral indígena, pesquisar sobre nossa história sem distorções românticas, a ler as mitologias dos nossos povos originários, investigar os saberes ancestrais da nossa terra, ouvir com alma os conselhos de Nhanderú.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez o caminho para a cura do nosso inconsciente cultural também passe pelo reconhecimento dos símbolos, mitos e tradições dos nossos povos originários.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniela Euzebio – Membro Analista em formação pelo IJEP &#8211; SP</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone Magaldi – Analista&nbsp;Didata</p>



<p class="wp-block-paragraph">REFERÊNCIAS</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAMPBELL, Joseph; MOYERS, Bill.&nbsp;<strong>O Poder do Mito</strong>. São Paulo: Palas Athena Editora, 1990</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>A Natureza da Psique</strong>. Petrópolis: Vozes, 1986 (Obras completas de C.G.Jung, v. 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo</strong>. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas de C.G.Jung, v. 9/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">MUNDURUKU, Daniel.&nbsp;<strong>Contos Indígenas Brasileiros</strong>. São Paulo: Global Editora, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, Nise da. Jung –&nbsp;<strong>Vida e Obra</strong>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981</p>



<p class="wp-block-paragraph">WERÁ, Kaka.&nbsp;<strong>O Poder Sagrado da História</strong>. Aula ministrada via YouTube, canal Kaká Werá: acessado em 23 de agosto de 2021.</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/menos-zeus-mais-nhanderu-um-olhar-sobre-mitologia-indigena-brasileira#_ftnref1">[1]</a>&nbsp;Guarani: Deus verdadeiro</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/menos-zeus-mais-nhanderu-um-olhar-sobre-mitologia-indigena-brasileira#_ftnref2">[2]</a>&nbsp;Fonte: https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/09/22/em-video-gravado-bolsonaro-faz-discurso-na-abertura-da-assembleia-da-onu.ghtml</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-daniela-euzebio-27-08-2021"><strong><em>Daniela Euzebio &#8211; 27/08/2021</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/menos-zeus-mais-nhanderu-um-olhar-sobre-mitologia-indigena-brasileira/">Menos Zeus, mais Nhanderú: um olhar sobre mitologia indígena brasileira</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Os indígenas na sombra coletiva brasileira</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/os-indigenas-na-sombra-coletiva-brasileira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 19 Oct 2020 11:42:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Povos Indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[persona e sombra]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Boa parte dos terapeutas junguianos brasileiros não bebem da fonte dos mitos indígenas. Nos aprofundamos nos estudos principalmente dos mitos gregos e não olhamos os mitos dos povos originários com a profundidade que eles merecem. Temos um “excesso de Grécia” e uma miopia para os saberes dos ancestrais da nossa terra. Por isso, para refletirmos sobre a sombra coletiva projetada nos povos indígenas, é importante contextualizar o Espírito da Época no período do descobrimento do Brasil. Este texto é um convite (e uma provocação) para refletirmos sobre esses nossos irmãos tão relegados à sombra e descaso.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Este texto é um convite (e uma provocação) para refletirmos de forma crítica sobre a sombra coletiva projetada nos povos indígenas. Para isso, é importante contextualizar o Espírito da Época no período de colonização e do contato entre os índios e os brancos ocorridos no Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No tempo das grandes navegações, boa parte da Europa estava sob forte domínio político, econômico, moral, social etc. da Igreja Católica, e a sociedade estava profundamente marcada pelo pensamento religioso com seu conceito de pecado. A organização social era basicamente dividida entre Clero, Nobreza e Servos. A Igreja Católica não se diferenciava das estruturas de poder, principalmente nos países ibéricos e os jesuítas faziam parte do pacote colonizador/civilizador das novas terras. Havia uma intensa repressão no campo das ciências, pensamento, na sexualidade e liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além da fortíssima influência no poder político e social, a Igreja também detinha o poder financeiro/material, ocasionando na exigência do celibato aos padres para evitar a repartição dos bens em caso de herdeiros ou família. A participação da mulher na sociedade era nula, sua função mais básica era casar para gerar filhos ou serem usadas como moeda de troca para alianças políticas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dado esse contexto, o Espírito da Época foi marcado por uma profunda sombra, onde o diferente do convencionado era tido como demoníaco, primitivo, inadequado, que deveria ser aniquilado. Numa perspectiva de descobertas de novas terras e seus habitantes, a escolha (quando oferecida) era entre se converter ou morrer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao mesmo tempo, nesta época o Brasil era povoado por diferentes nações indígenas que tinham um modo de vida livre, a nudez do corpo não era um tabu, &nbsp;trabalhavam em prol da tribo e da coletividade, detinham o saber da terra e mantinham um profundo saber ancestral. Não havia um pudor e um medo do corpo como na perspectiva da cristandade europeia, ao mesmo tempo, o corpo não era erotizado e portanto, não necessitava ser escondido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao chegarem no Brasil, os portugueses não consideraram os indígenas como humanos pois viviam de forma extremante antagônica aos modos impostos pela igreja. Além disso, a nudez dos corpos constelara a sombra do tabu e da sexualidade nestes homens. Por isso, os europeus classificaram os indígenas como seres animalescos e primitivos, desprovidos de alma, que apenas seriam salvos mediante a catequização e ao batismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como a castidade, a “pureza” de espírito, a repulsa ao corpo e a busca da vida de santidade eram os valores constituintes à persona e à consciência coletiva dos europeus, eles projetaram sua sombra nos povos indígenas e acreditavam que, ao forçar os indígenas a negar suas crenças, estariam gerando benefício espiritual e os fazendo evoluir de uma condição semianimal a um humano de verdade (CARIBÉ, 2020).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessas terras o corpo não era um tabu, mas colocou os portugueses frente a frente com o que mais temiam: o corpo das mulheres indígenas despertou o desejo sexual masculino. Desejo este que também se lançou para a natureza (a grande mãe) que aqui exuberava em suas riquezas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não demorou muito para que os portugueses passassem a ter filhos com as mulheres indígenas, uma vez que para elas o sexo não era um tabu e nem algo cercado de tantos mistérios. Os filhos gerados entre o pai/homem português e a mulher/mãe indígena eram considerados bastardos e não foram reconhecidos pelo pai e não podiam aprender a língua e religião da mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na psicologia analítica, a sombra é composta pelos conteúdos psíquicos rejeitados pelo ego e por aspectos que ainda não atingiram a consciência. A sombra coletiva, de uma família, de um grupo ou até de um povo, é a soma e a sobreposição das sombras individuais, ou seja, os aspectos negados pelos indivíduos compõem um aspecto considerado sombrio por um grupo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra, que está em conflito com os valores reconhecidos (isto é, a fachada cultural sobre a animalidade) não é aceita como uma parte negativa da própria psique da pessoa e, portanto, é projetada para o mundo exterior e vivenciada como um objeto exterior. Ela é combatida, castiga da e exterminada com &#8220;aquele estranho lá fora &#8220;, em vez de ser tratada como um problema interior da própria pessoa (ZWEIG e ABRAMS (2012), no caso dessa persona coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme a Psicologia Analítica, ao projetarmos a sombra sobre os outros atribuímos a eles aquelas qualidades “sórdidas” que gostaríamos de negar em nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todo saber indígena sobre seu modo de vida religioso, espiritual, medicinal, social, coletivo, ao pertencimento à natureza e a terra foram fortemente reprimidos pelos portugueses e “jogados” ao inconsciente coletivo desde então e considerados de menor valor, ou ainda, apenas ilustrações de um passado distante e não-civilizado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao pensarmos em arquétipo materno, é importante emergir do inconsciente coletivo que a imagem arquetípica da&nbsp;<strong><u>grande mãe brasileira é uma mulher indígena</u></strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E que a criança bastarda fruto do desprezo do pai e da negação dos saberes da mãe se fixou na sombra do povo brasileiro como um sentimento de negação de seu próprio valor, uma espécie de desvalorização constelada no inconsciente coletivo brasileiro onde sofremos por não saber onde somos bons e por tentarmos o reconhecimento do outro, a agradar o todo tempo (GAMBINI, 2020).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Caribé (2020) a violência colonizadora se reproduz em nossa alma sob a forma de complexos culturais, tais como o da escravidão, do holocausto, da busca de identidade, da inferioridade, da orfandade, entre outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além disso, ainda compõe a sombra coletiva brasileira um sentimento que o indígena é inferior e, atualmente, ainda é visto como habitante indesejado, que deveria se entregar à civilidade branca e capitalista ou viver uma vida nas sombras onde as práticas originárias não são aceitas socialmente. Muitos ainda veem o índio como coisa do passado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Basta lembrar a fala recente do presidente em exercício que “cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”.<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/os-indigenas-na-sombra-coletiva-brasileira#_ftn1">[1]</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao trazermos essa reflexão para a contemporaneidade vimos que este tropeço comunicativo ainda reflete sobre a inserção do indígena na sombra e inconsciente coletivo brasileiro. Por que tantos brasileiros após mais de 500 anos de convivência ainda não os consideram humanos ou parte integrativa da nossa sociedade? Quais projeções estão em ação na negação deste outro?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Devemos sempre lembrar que “a sombra coletiva, agregada e institucional sempre contém a sombra não examinada de cada um de nós. Aquilo do qual somos inconscientes, ou não desejamos enfrentar, contribuirá para nossa sombra coletiva e institucional.” (HOLLIS, 2010)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aos índios é negado o direito a terra, a cultura própria aos seus modos de vida. E pior: muitas vezes se nega a humanidade ao indígena ao projetar sobre ele expectativas de seres bons, puros, nos moldes do “bom selvagem” ou do ser da terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra sobre os indígenas está cada vez mais evidente e perversa, quando o atual presidente em exercício culpa os indígenas e ONGs por queimadas, devastações e consequências da COVID-19 em seu discurso na ONU.<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/os-indigenas-na-sombra-coletiva-brasileira#_ftn2">[2]</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Criminalizar os indígenas, estigmatizá-los sobre a pecha de selvagens, vagabundos, preguiçosos revela a grande perversidade constelada na sombra coletiva vigente pois, “a medida que os indivíduos inseridos num grupo ou nação tornam-se idênticos à consciência cultural, também eles pertencerão a sombra coletiva” (STANFORD, 1988).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao termos coragem de encarar nossa sombra individual, fazer emergir preconceitos e tabus, trabalhar para integrá-los à consciência, começaremos a despotencializar essa sombra e a formar nossa “alma brasileira”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como analistas junguianos, nos aprofundamos nos estudos principalmente dos mitos gregos e não olhamos os mitos dos povos originários com a profundidade que eles merecem. Temos um “excesso de Grécia” e uma miopia para os saberes dos ancestrais da nossa terra. Temos muita Ariel e pouca Yara.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso faz-se urgente que nós como brasileiros passemos a pesquisar sobre nossa história sem distorções românticas, a ler as mitologias dos nossos indígenas, a investigar os saberes ancestrais da nossa terra, a ouvirmos com alma os conselhos de Nhanderu<a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/os-indigenas-na-sombra-coletiva-brasileira#_ftn3"><sup>[3]</sup></a>. O caminho para a cura do inconsciente cultural latino-americano passa pelo reconhecimento dos símbolos, mitos e tradições dos nossos povos originários (CARIBÉ, 2020).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ser brasileiro é também assumir sua alma ancestral indígena.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniela Euzebio – analista em formação pelo IJEP – (11) 99623-5529 SP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mauro Soave – analista em formação pelo IJEP – (61) 9677-4719 BRASÍLIA</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">CARIBÉ, Teresa. Somos todos Tupinambá in OLIVEIRA, Humbertho (org). Morte e renascimento da ancestralidade indígena na alma brasileira: psicologia junguiana e inconsciente cultural, (Coleção Reflexões Junguianas). Petrópolis, RJ: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">OLIVEIRA, Humbertho (org). Morte e renascimento da ancestralidade indígena na alma brasileira: psicologia junguiana e inconsciente cultural, (Coleção Reflexões Junguianas). Petrópolis, RJ: Vozes, 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">GAMBINI, Roberto. Morte e Renascimento da Ancestralidade Indígena na Alma Brasileira. Publicado em 22 de julho de 2020. Acesso em 24/09/2020. Disponível em:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/watch?v=Um1xKVmahOg&amp;ab_channel=RobertoGambini">https://www.youtube.com/watch?v=Um1xKVmahOg&amp;ab_channel=RobertoGambini</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">GAMBINI, Roberto – O Espelho Índio – Os jesuítas e a destruição da alma indígena. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016e (Obras completas de C.G.Jung, v. 7/1).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aspectos do drama contemporâneo: civilização em mudança. Petrópolis: Vozes, 2016b (Obras completas de C.G.Jung, v. 10/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, Connie e ABRAMS, Jeremiah (orgs) &#8211; Ao Encontro da Sombra. São Paulo &#8211; Cultrix, 2012</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James – A Sombra Interior – Por que pessoas boas fazem coisas ruins? São Paulo &#8211; Novo Século, 2010</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANFORD, John A. MAL – O Lado Sombrio da Realidade. São Paulo: Paulinas, 1988</p>



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<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/os-indigenas-na-sombra-coletiva-brasileira#_ftnref1">[1]</a>&nbsp;https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/01/24/cada-vez-mais-o-indio-e-um-ser-humano-igual-a-nos-diz-bolsonaro-em-transmissao-nas-redes-sociais.ghtml</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/os-indigenas-na-sombra-coletiva-brasileira#_ftnref2">[2]</a>&nbsp;https://www.brasildefato.com.br/2020/09/22/bolsonaro-culpa-indios-caboclos-midia-e-ongs-por-queimadas-e-consequencias-da-covid</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br/artigos/show/os-indigenas-na-sombra-coletiva-brasileira#_ftnref3">[3]</a>&nbsp;Em guarani, “Nhanderú etê” significa “Deus Verdadeiro”. É o Deus de forma humana cujos olhos refletem a infinidade das cores. Onde aparece, reflete luz. Vaga pelo cosmos num veículo voador chamado “Bairý” (https://www.xapuri.info/sagrado-indigena/nhanderu-o-deus-luz-guarani-da-infinidade-das-cores/#:~:text=%E2%80%9CNhanderu%20ete%E2%80%9D%20percorreu%20o%20%E2%80%9C,%E2%80%9CBair%C3%BD%E2%80%9D%20at%C3%A9%20a%20Terra.)</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Daniela Euzébio e Mauro Soave &#8211; 19/10/2020</em></strong></h4>



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