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	<title>Arquivos projeção - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Sun, 28 Jun 2026 17:42:53 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos projeção - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O que me irrita no outro, será que é mesmo do outro?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2026 23:04:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Projeção]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio aborda o tema projeção na Psicologia Analítica de C.G. Jung, explorando reações como a irritação intensa ou a inveja que diante do outro pode revelar conteúdos inconscientes não reconhecidos, propondo que aquilo que criticamos no outro pode indicar desejos, faltas ou possibilidades negadas em nós. Ninguém tem consciência da projeção, ela causa uma apercepção que tinge a clareza dos fatos.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-que-me-irrita-no-outro-sera-que-e-mesmo-do-outro/">O que me irrita no outro, será que é mesmo do outro?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo:</strong> Este ensaio aborda o tema projeção na Psicologia Analítica de C.G. Jung, explorando reações como a irritação intensa ou a inveja que diante do outro pode revelar conteúdos inconscientes não reconhecidos, propondo que aquilo que criticamos no outro pode indicar desejos, faltas ou possibilidades negadas em nós. Ninguém tem consciência da projeção, ela causa uma apercepção que tinge a clareza dos fatos.</p>



<h2 id="h-este-texto-busca-trazer-a-abordagem-de-que-muitas-vezes-a-irritabilidade-e-a-inveja-que-sentimos-pelo-outro-podem-ser-projecoes-de-conteudos-inconscientes-reprimidos-em-nos" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Este texto busca trazer a abordagem de que muitas vezes a irritabilidade e a inveja que sentimos pelo outro podem ser projeções de conteúdos inconscientes reprimidos em nós.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Poucas coisas nos atravessam com tanta força quanto a irritação que algumas pessoas despertam em nós. Há incômodos quase banais, como um jeito de falar, um riso “fora de hora”, algo que alguém repete insistentemente. E há aqueles que vêm com tanto afeto, que nos faz sentir até mesmo um efeito físico, desmedido e impossível de ignorar. Nesses momentos, temos a convicção simples e confortável de que <em>o problema é o outro, ou seja, </em>algo que vem daquela pessoa está nos incomodando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É comum em nossas relações cotidianas, essa fala reverberar: A atitude dele me irrita; o defeito dela me incomoda; eu jamais faria o que ele fez; não consigo entender como alguém escolhe se vestir daquela forma. Considero aquelas palavras inadmissíveis, e infinitos outros exemplos que caberiam aqui.</p>



<h2 id="h-mas-essa-certeza-tem-algo-de-fragil-esta-transferido-para-o-objeto-conteudos-inconscientes-do-proprio-sujeito" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Mas essa certeza tem algo de frágil está transferido para o objeto, conteúdos inconscientes do próprio sujeito.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung nos traz uma hipótese inquietante: e se aquilo que mais nos fere no outro for um fragmento de conteúdo interno do nosso inconsciente que a consciência não suporta reconhecer? Pois aquilo que não tem espaço de assentamento na consciência, acaba arremessado para fora, projetado na figura do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Percebemos o mundo através da lente do Ego, o complexo do eu. Entre o sujeito e o objeto existe uma névoa feita de memórias, medos, desejos não admitidos e aspectos esquecidos de nós mesmos que estão depositados no inconsciente. C.G. Jung chamou de <strong>projeção</strong> esse movimento silencioso pelo qual lançamos no outro conteúdos que ainda não reconhecemos como nossos. Não se trata de um simples erro de julgamento; é um mecanismo inevitável quando não temos consciência destes conteúdos, pois permanecem reprimidos na sombra inconsciente. É um mecanismo de defesa para que o Ego ideal permaneça na sua ilusão de existência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4"><strong>Como se sabe, não é o sujeito que projeta, mas o inconsciente. Por isso não se cria a projeção: ela já existe de antemão. A consequência da projeção é um isolamento do sujeito em relação ao mundo exterior, pois ao invés de uma relação real o que existe é uma reação ilusória. (JUNG. 2013, p.17)</strong></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A irritação intensa, então, pode ser menos uma reação ao outro e mais o estremecimento diante de algo íntimo que foi recusado. Aquilo que condenamos com fervor pode tocar uma possibilidade de conteúdos que reprimimos em nós: a arrogância que negamos, a dependência que escondemos e a fragilidade que juramos não ter. O outro se torna tela, e a emoção a própria tinta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nesse território que habita a <strong>sombra</strong> esse conjunto de qualidades que o ego não integra à própria imagem. Ela não é apenas o que há de “negativo”; é tudo o que não coube na consciência, sendo assim ela ganha força e procura expressão. Muitas vezes, encontra passagem na irritação e na raiva.</p>



<h2 id="h-as-coisas-que-nao-aceitamos-em-nos-explica-nise-da-silveira-projetamos-no-outro" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">As coisas que não aceitamos em nós, explica Nise da Silveira, projetamos no outro:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;line-height:1.4"><strong>A sombra é uma espessa massa de componentes diversos, aglomerando desde pequenas fraquezas, aspectos imaturos ou inferiores, complexos reprimidos, até forças verdadeiramente maléficas, negrumes assustadores. Mas também na sombra poderão ser discernidos traços positivos: qualidades valiosas que não se desenvolveram devido a condições externas desfavoráveis ou porque o indivíduo não dispôs de energia suficiente para levá-las a diante, quando isso exige ultrapassar convenções vulgares. (SILVEIRA. 2024, pag. 105)</strong></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Como diz a citação acima, essa irritação também pode se referir a conteúdos positivos que reconhecemos em outras pessoas, e não temos por algum motivo energia para executá-los.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao ampliar esse olhar, entramos em um território mais delicado: o da inveja. Diferente da irritação mais superficial, a inveja costuma operar de forma mais silenciosa e disfarçada, ela raramente se apresenta como tal. Costuma-se vestir de crítica, de desdém e julgamento moral. Aquilo que nos incomoda profundamente no outro pode não ser apenas um traço “insuportável” daquela pessoa, mas também algo que de maneira inconsciente, reconhecemos ou não como valioso e inacessível em nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A inveja surge, muitas vezes, diante daquilo que o outro vive e encara com aparente naturalidade: liberdade, espontaneidade, beleza, sucesso e reconhecimento. O que nos irrita pode ser, paradoxalmente, aquilo que desejamos, mas não nos permitimos desejar, ou pior, algo que queremos e julgamos não poder alcançar. Nesse ponto a irritação deixa de ser apenas uma reação ao outro e passa a ser um sintoma de uma tensão interna.</p>



<h2 id="h-e-mais-facil-e-ate-natural-criticarmos-do-que-admitirmos-a-propria-falta" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">É mais fácil e até natural criticarmos do que admitirmos a própria falta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando alguém nos provoca uma antipatia intensa sem motivo proposital, vale a pergunta incômoda: o que exatamente essa pessoa está expressando que me afeta de forma tão intensa? O que há nela que me desafia, que me expõe e que me desorganiza? Nem sempre a resposta será inveja ou a raiva, mas frequentemente haverá ali um componente de comparação, explícito ou não.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não significa que tudo o que reconhecemos no outro seja sempre projeção. &nbsp;Por exemplo, utilizamos do julgamento para qualificarmos as relações, e isso é uma função da consciência. Nisso o julgamento se diferencia da projeção, onde nos sentimos extremamente afetados. Na tentativa de banir um conteúdo incomodo, esse mesmo é lançado sobre o objeto, mas o sujeito acaba, se conectando internamente a imagem deste objeto.</p>



<h2 id="h-sendo-assim-a-projecao-nos-direciona-para-o-caminho-de-encontro-desses-conteudos-carregados-de-afeto-que-jung-chama-de-complexos" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Sendo assim a projeção nos direciona para o caminho de encontro desses conteúdos carregados de afeto que Jung chama de complexos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A inveja quando reconhecida, deixa de ser apenas um afeto desconfortável e pode se tornar um sinalizador de desejos não assumidos, potenciais não desenvolvidos e partes de nós que foram reprimidas e negligenciadas. Um possível caminho para não moralizar esse sentimento, seria questioná-lo: o que esse sentimento diz sobre mim? O que isso revela sobre aquilo que valorizo mesmo que eu não admita?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez o outro não seja um problema, talvez seja também um espelho, ainda que distorcido, incômodo e difícil de encarar. E nesse espelho não vemos apenas o que rejeitamos, vemos também aquilo que em algum nível, gostaríamos de ser, de assumir e de nos apropriar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Concluo com uma reflexão de ficarmos atentos naquilo que nos irrita com frequência e nos incomoda no outro, pois pode ser o chamado mais urgente da nossa própria alma. Quem é o outro no meu mundo interno?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/monica-contreras/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/monica-contreras/">Mônica Contreras – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf – Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo</em>. 10 ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SILVEIRA, Nise da. Jung: Vida e obra. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2024.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="488" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-3-1024x488.png" alt="" class="wp-image-13268" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-3-1024x488.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-3-300x143.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-3-768x366.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-3-150x72.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-3-450x215.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/06/curso-de-introducao-JUNG-1-1-3.png 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



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			</item>
		<item>
		<title>A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-psicossomatica-e-a-clinica-junguiana-a-doenca-como-simbolo-de-autorregulacao-psiquica/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 Jun 2026 20:42:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo tem como objetivo provocar uma reflexão sobre os efeitos da atuação da sombra, como complexo, na vida do indivíduo e sua consequente influência em processos de adoecimento. O adoecimento surge como uma forma simbólica da psique manifestar aspectos inconscientes que pedem reconhecimento e integração. O quanto menos reconhecemos as mensagens do inconsciente, mais força e energia o complexo acumula e os sintomas e doenças surgem, como tentativa de uma autorregularão psíquica. O autoconhecimento para compreensão do indivíduo, de suas motivações inconscientes e de suas decisões de vida são um caminho para uma adaptação saudável a um mundo cada vez mais adoecido.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:0.3">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Reumatismo, raquitismo, cistite, disritmia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Hérnia, pediculose, tétano, hipocrisia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Brucelose, febre tifoide, arteriosclerose, miopia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Catapora, culpa, cárie, cãibra, lepra, afasia</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O pulso ainda pulsa</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>E o corpo ainda é pouco</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>(Titãs)<a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><strong>[1]</strong></a></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo tem como objetivo provocar uma reflexão sobre os efeitos da atuação da sombra, como complexo, na vida do indivíduo e sua consequente influência em processos de adoecimento. O adoecimento surge como uma forma simbólica da psique manifestar aspectos inconscientes que pedem reconhecimento e integração. O quanto menos reconhecemos as mensagens do inconsciente, mais força e energia o complexo acumula e os sintomas e doenças surgem, como tentativa de uma autorregularão psíquica. O autoconhecimento para compreensão do indivíduo, de suas motivações inconscientes e de suas decisões de vida são um caminho para uma adaptação saudável a um mundo cada vez mais adoecido.</p>



<h2 id="h-palavras-chave-psicossomatica-doenca-complexo-sombra-jung" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave: psicossomática, doença, complexo, sombra, Jung</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há uma lista infinita de sintomas de diversas origens e natureza. Pode-se destacar entre tantos: as questões com o peso (perda, aumento), fadiga, dores (cabeça, articulação, muscular), tontura / vertigem, sonolência ou insônia, náusea, taquicardia, impotência, tosse, prurido e muitos, muitos outros; às vezes isolados às vezes associados, por curto período ou recorrente. Os estudos da Psicossomática, a partir de uma abordagem analítica, contribuem para uma compreensão mais ampla e profunda sobre o sentido simbólico dos processos de adoecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A partir de um olhar retrospectivo para os estudos da Psicossomática, Ramos (2005, p. 22) comenta sobre as tribos primitivas. Elas lidavam com o processo do adoecer como “a consequência da violação de um tabu ou uma ofensa aos deuses”, os processos de cura dos xamãs e pajés incluíam chás de ervas, evocação de espíritos e palavras com poder de cura. Assim, a autoridade implícita na figura do xamã, com toda sabedoria que ele representava, tinha o poder de interferir no tratamento e no processo de cura dos indivíduos.</p>



<h2 id="h-no-pensamento-grego-cometer-a-hybris-que-era-uma-ofensa-a-um-deus-fazia-com-que-voce-ficasse-escravizado-por-ele-e-fosse-castigado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">No pensamento grego, cometer a <em>hybris</em>, que era uma ofensa a um deus fazia com que você ficasse escravizado por ele e fosse castigado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Daí a geração de um “sintoma”, refletindo o processo de sofrimento. Aqui também o valor da palavra era bastante forte. Havia a visão do homem integral, onde corpo e alma eram entendidos como um todo inseparável, trazendo assim uma atitude holística para os tratamentos. Com o desenvolvimento da civilização ocidental, chegamos ao pensamento científico e temos como representante Descartes. Conforme Ramos (2005) as ideias dele, devido à sua complexidade, foram interpretadas de forma equivocada provocando a percepção de que havia uma separação entre as instancias corpo e mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No início do século XIX, a chamada medicina romântica trouxe uma visão do homem global, com uma medicina que atuava de forma muito pessoal, tratando cada doente de forma única e integrada entre sociedade, arte, religião e a relação com outros. Uma visão que veio a contribuir depois com o conceito de<strong> Self</strong> da psicologia analítica. Surge então no final do século XIX o pensamento biomédico, onde, o olhar para a doença passa a ser reducionista, pois a base para a compreensão da mesma era a realização de análises biológicas: as pequenas partes de um todo entendidas separadamente. Tudo era mensurável, possível de ser classificado, e a simbologia das manifestações sintomáticas perde aqui seu lugar, fazendo com que a visão do homem, bem como do seu processo de adoecimento, fosse fragmentada.</p>



<h2 id="h-o-termo-psicossomatica-conforme-ramos-2005-surge-historicamente-pela-primeira-vez-em-1808-sendo-aceito-e-difundido-a-partir-do-seculo-passado-conforme-afirma-mello-fº" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O termo “Psicossomática” conforme Ramos (2005), surge historicamente pela primeira vez em 1808, sendo aceito e difundido a partir do século passado, conforme afirma Mello Fº:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O termo psicossomática surgiu a partir do século passado, depois de séculos de estruturação, quando Heinroth criou as expressões psicossomática (1918) e somatopsíquica (1928) distinguindo os dois tipos de influências e as duas diferentes direções. Contudo, o movimento só se consolidou em meados deste século com Alexander e a Escola de Chicago. Porém as incertezas sobre a relação mente-corpo se expressam na própria denominação psico-somático (com hífen) ainda utilizada entre estudiosos destes fenômenos e por médicos em geral. (Mello Fº, 2010, p. 29)                                                                                                                               </p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Ramos</strong> (2005) cita a importância de Helen Dunbar, médica americana e precursora dos estudos de psicossomática e psicobiologia, para o aprofundamento de estudos sistemáticos sobre o tema e para tornar o termo público. Dunbar foi influenciada em suas pesquisas pelos trabalhos de Jung. Isto ocorreu na época em que ele estuda os complexos por meio da análise das respostas do experimento de associação de palavras.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Desta época muitos estudos sobre a questão mente-corpo, como atores na formação das doenças evoluíram. Em 1936, <strong>Hans Selye</strong>, endocrinologista canadense, tem uma contribuição de grande valor para o entendimento do estresse, sendo este definido incialmente pelo autor, como doença de adaptação, o que contribuiu com a visão das transformações físicas a partir de processos de estresse.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No estudo da evolução do conceito de Psicossomática, Ramos (2005), destaca também a contribuição da teoria psicanalítica de Sigmund Freud, que buscava compreender como as emoções influenciavam na etiologia da formação das doenças. A visão aqui é de que, os conteúdos reprimidos no inconsciente eram os responsáveis pelos sintomas associados à histeria, porém com uma visão ainda limitada da extensão desta atuação, bem como das dimensões do inconsciente. Várias escolas então surgiram, com o objetivo de se ampliar as contribuições da psicanálise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Franz Alexander </strong>e <strong>Thomaz French</strong> (1940) fundaram a Escola de Chicago baseados na crença de que mente e corpo funcionavam de modo complementar, mas ainda separadamente. Outra importante escola foi a Escola de Paris, representada por Marty, M’Uzmam e David (1963). Em 1970, foi desenvolvido o conceito de alexitimia por John C. Nemiah e Peter E. Sifneos, referindo-se as pessoas que não reconhecem sentimentos e são incapazes de expressar e nomear os mesmos. </p>



<h2 id="h-atualmente-a-definicao-de-psicossomatica-passa-pela-compreensao-de-uma-area-que" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Atualmente a definição de Psicossomática passa pela compreensão de uma área que</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230; integre as três perspectivas: a doença com sua dimensão psicológica; a relação médico-paciente com seus múltiplos desdobramentos; a ação terapêutica voltada para a pessoa do doente, este entendido como um todo biopsicossocial. (Eksterman, A. in Mello Fº, 2010, p. 39.)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Porém, na visão de Ramos (2005), com toda evolução não houve uma teoria que pudesse apresentar o conceito de Psicossomática com uma coerência entre teoria e prática terapêutica “não há uma teoria e abrangente unificadora” (Ramos, 2005, p. 43). Baseada em sua atuação terapêutica e em seus estudos, a autora constrói uma visão da psicossomática pautada no pensamento analítico de Jung, tratando o processo de adoecimento físico como uma expressão simbólica da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Compreender os complexos é fundamental na teoria junguiana, para que se possa pensar a doença de sua perspectiva simbólica. Os complexos são núcleos carregados de grande carga afetiva presentes no inconsciente pessoal. &nbsp;Formam-se a partir das vivências doloridas e traumáticas. São carregados de energia e podem dominar a vontade consciente e manifestar-se de modo a dominar o próprio complexo do ego. Segundo Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de <em><strong>autonomia</strong>, </em>vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um <em><strong>corpus</strong> <strong>alienum</strong> </em>corpo estranho, animado de vida própria. (Jung, OC 8/2 § 201, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-o-inconsciente-se-comunica-com-o-a-consciencia-por-meio-do-corpo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O inconsciente se comunica com o a consciência por meio do corpo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É neste que as manifestações são percebidas e sentidas. Para Jung, o corpo e alma, são duas dimensões que coexistem numa mesma estrutura e afetam-se simultaneamente, dependendo uma da outra para que a vida aconteça. <strong>As funções vitais atuam independente da vontade consciente do ego</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“O eu sequer tem uma pálida ideia da função reguladora e incrivelmente importante dos processos orgânicos internos a serviço do qual está o sistema nervoso simpático”. (Jung, OC 8/2, § 613).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando as emoções guardadas são acionadas elas podem fazer com que o funcionamento orgânico, inconsciente e silencioso, traga para o universo consciente a percepção então de seu funcionamento, por meio de reações e sintomas desagradáveis e que afetam nosso bem-estar (suores, taquicardias, angústias, sufocamentos, irritações, dores, tremedeiras, etc.).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesta dialética – corpo e psique &#8211; que os conteúdos inconscientes e as suas imagens ganham vida e os complexos, até então afastados da consciência, se “materializam”.</p>



<h2 id="h-quando-um-complexo-se-constela-ou-se-manifesta-e-possivel-compreender-que-ficou-mais-energizado-do-que-o-proprio-complexo-do-ego-que-nao-consegue-segurar-o-seu-impulso-para-a-manifestacao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando um complexo se constela, ou se manifesta, é possível compreender que ficou mais energizado do que o próprio complexo do ego, que não consegue segurar o seu impulso para a manifestação. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-o-sintoma-entao-surge-porque-a-energia-do-complexo-e-capaz-de-afetar-o-organismo-e-gerar-respostas-fisiologicas-provocadas-pelas-emocoes" style="font-size:18px">O sintoma então surge porque a energia do complexo é capaz de afetar o organismo e gerar respostas fisiológicas provocadas pelas emoções.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230; nossa consciência não está em condição de produzir um complexo autônomo a seu bel-prazer. [&#8230;] Quando eu disse, anteriormente, que a ideia deve necessariamente suscitar uma resposta das emoções, eu me referi a uma prontidão inconsciente que, por causa de sua natureza afetiva, atinge uma profundidade inteiramente inacessível à nossa consciência. Assim, nossa razão consciente não é capaz de destruir as raízes dos sintomas nervosos. Para isto seriam necessários processos emocionais que têm o poder de influenciar o sistema nervoso simpático. (Jung, OC 8/2, § 642)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-na-manifestacao-de-um-complexo-alem-do-sintoma-e-de-um-consequente-sofrimento-fisico-a-consciencia-tambem-e-afetada" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na manifestação de um complexo além do sintoma e de um consequente sofrimento físico, a consciência também é afetada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela passa a receber as mensagens indecifráveis, criadas pela distância entre consciência e inconsciente. Se o indivíduo não for capaz de compreendê-las como um canal de comunicação do inconsciente, está criado o campo para manifestação de processos de adoecimento ainda mais graves e profundos, com a fragmentação da unidade mente-corpo. O complexo cria neste momento uma polaridade, forte opositora da consciência e do ego, e atua como se fosse a totalidade do indivíduo. Neste processo a importância do símbolo é fundamental. Ramos (2005) afirma que a expressão simbólica do complexo em nosso corpo nos dá um caminho e oportunidade para resgatar a relação ego self. Dawson (2002) confirma esta percepção conforme citado abaixo:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na prática junguiana, as fantasias, os sonhos, a sintomatologia, as defesas e a resistência são todos vistos em termos de sua função criativa e sua teleologia. Pressupõe-se que eles refletem as tentativas da psique de superar obstáculos, construir significado e oferecer opções potenciais para o futuro, em vez de existirem apenas como respostas de inadaptação à história passada. (Dawson, 2002, p. 68).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A doença surge então como uma consequência de algo que precisa ser atendido e integrado em nossa personalidade total. Caso esta condição seja ignorada, os sintomas podem voltar ou mesmo pode aparecer como novas formas de doenças. O universo inconsciente é extremamente vasto de imagens e de representações e procura a todo instante fazer-se presente, nem sempre de forma inteligível ou agradável. Há a necessidade de se fazer um esforço no sentido de compreender e transformar estas mensagens em elementos vitais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A psique é feita de uma série de imagens, no sentido mais amplo do termo, não é, porém, uma justaposição ou uma sucessão, mas uma estrutura riquíssima de sentido e uma objetivação das atividades vitais, expressa através de imagens. E da mesma forma que a matéria corporal, que está pronta para a vida, precisa da psique para se tornar capaz de viver, assim também a psique pressupõe o corpo para que suas imagens possam viver. (Jung, OC 8/2, § 618)</p>
</blockquote>



<h2 id="h-a-sombra-e-como-um-repositorio-da-psique-que-mantem-aspectos-reprimidos-no-inconsciente-pessoal" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">A sombra, é como um repositório da psique, que mantém aspectos reprimidos no inconsciente pessoal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">São aquelas qualidades não aceitas pelo indivíduo e por isso possuem um teor negativo ou inferior, que se virem à consciência podem adquirir um aspecto destrutivo.  Forma-se a partir de vivências pessoais e imagens primordiais deixadas de lado pela função do ego consciente, por representar algum tipo de ameaça à sua integridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na condição de conteúdos que querem ser esquecidos e não podem acessar a consciência, a sombra assume características equivalentes às do complexo, conforme afirma Stein (2015), “<em>A sombra, um complexo funcional complementar, é uma espécie de contra-pessoa. A sombra pode ser pensada como uma subpersonalidade que quer o que a persona não permitirá.</em>” (Stein, 2015, p. 101)</p>



<h2 id="h-nao-seria-errado-portanto-afirmar-que-quando-o-sintoma-organico-vinculado-a-um-complexo-se-associa-a-uma-imagem-arquetipica-que-este-passa-a-ter-um-carater-simbolico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Não seria errado, portanto, afirmar que quando o sintoma orgânico, vinculado a um complexo se associa a uma imagem arquetípica, que este passa a ter um caráter simbólico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A natureza arquetípica deste conteúdo dará forma, energia e sustentação ao complexo e se constelará quanto mais distante da consciência e menos possibilidade de simbolizar esta tiver. É nesta dimensão que o processo compensatório da psique atua, apontando par a necessidade de um reconhecimento e de uma posterior integração e psíquica. É o restabelecimento de uma ordem que foi desintegrada ou perdida. </p>



<h2 id="h-como-um-arquetipo-a-sombra-possui-forma-e-imagem-significativas-podendo-ser-nociva-a-vida-do-individuo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Como um <strong>arquétipo</strong>, a sombra possui forma e imagem significativas podendo ser nociva à vida do indivíduo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estes conteúdos são expulsos, como afirma Jung (OC 7/2) por meio da <strong>projeção</strong>, sendo transferido para o objeto e fazendo com que o indivíduo se libere deles. Porém a projeção é um mecanismo neurótico de defesa que não contribui para a integração dos aspectos sombrios que pertencem na verdade ao próprio indivíduo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mesmo quando acontece de as qualidades projetadas serem qualidades reais da outra pessoa [&#8230;], a reação afetiva que marca a projeção sugere que o complexo afetivo em nós embaça a nossa visão e interfere com a nossa capacidade de ver com objetividade e estabelecer relações de um modo humano. (Whitmont in Zweig, 1998 p. 37)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesta dinâmica psíquica temo a persona como o arquétipo mais próximo da consciência. Conforme o indivíduo se desenvolve ele recebe do meio mensagens e informações de como dever ser e agir para adaptar-se e ser bem aceito. Estas informações são absorvidas pelo ego que vai dando forma à persona, que tem como função adaptar o indivíduo ao meio em que ele vive. Ao passo que a persona se forma e se solidifica os conteúdos que não foram aceitos por ela e consequentemente pelo complexo do ego, se mantém no inconsciente, na sombra. “<em>O desenvolvimento do ego baseia-se na repressão do &#8220;errado&#8221; ou do &#8220;mau&#8221; e na promoção do &#8220;bom&#8221;.</em> “ (Whitmont in Zweig, 1998 p. 38). Segundo Whitmont, esta é uma condição arquetípica da formação do ego e da estruturação da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como a persona tem uma função social, ela nos dá a impressão de uma individualidade, porém é coletiva, uma vez que expressa qualidades arquetípicas do indivíduo no todo: profissão, títulos, posses, coisas que todas as pessoas além do indivíduo, também podem possuir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>identificação com a persona</strong>, assumindo-a como a própria individualidade, faz com que o ego deixe de lado outros aspectos importantes da personalidade total. Ocasionando, assim, uma inflação do ego,sendo dado a este um valor superdimensionado.</p>



<h2 id="h-sobre-a-persona-jung-afirma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Sobre a persona, Jung afirma:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que <em>aparenta uma individualidade, </em>procurando convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade, quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala a psique coletiva. Ao analisarmos a persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é no fundo coletiva; em outras palavras, a persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de <em>real; </em>ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que “alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo”. De certo modo, tais dados são reais; mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário. (Jung, OC 7/2, § 245 e 246, grifos do autor)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esta forte valorização dos aspectos da persona pode estar relacionada ao fato de necessitarmos, até um determinado ponto de correspondermos àquilo que a sociedade espera, mostrando muitas vezes algo que não corresponde ao que realmente somos. Quando a sombra necessita vir à superfície, esta necessidade de se fazer presente e conhecida pode gerar inúmeros conflitos, pois a atuação da persona impede a realização da sombra e essa fica ainda mais densa, aumentado o jogo de projeções para se manter. Esta não é uma condição sustentável por muito tempo.</p>



<h2 id="h-afirma-sanford-a-sombra-sera-mais-perigosa-quao-mais-distante-estiver-do-ego-e-da-personalidade-consciente-sanford-1988-p-72" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Afirma Sanford “a sombra será mais perigosa, quão mais distante estiver do ego e da personalidade consciente.” (Sanford, 1988, p. 72)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Forma-se então o seguinte paradoxo: por meio da inflação do ego a unilateralidade fragiliza a possibilidade do acesso aos conteúdos arquetípicos e sombrios, que estão no centro do complexo afetivo. Este, por sua vez, detém uma forte carga energética e se faz presente por meio de sintomas que se não forem adequadamente simbolizados se configuram como doença, que podem caminhar na direção da destruição do organismo e de sua estrutura física, sede do complexo do ego e da consciência. Em resumo, o ego quando se coloca em uma condição de unidade e superioridade (inflação) se fragiliza, deixando espaço para ser “derrotado” pela sombra que esta mesma condição de inflação formou no inconsciente. O que parecia força vira fraqueza. Corpo e alma se separam e nesta tensão buscam se reencontrar, por meio da doença.</p>



<h2 id="h-na-tentativa-de-uma-autorregulacao-a-dinamica-psiquica-estabelece-uma-possibilidade-da-dinamica-entre-a-consciencia-e-o-inconsciente-elaborem-as-tensoes-existentes-por-meio-da-expressao-simbolica-do-sintoma" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na tentativa de uma autorregulação, a dinâmica psíquica estabelece uma possibilidade da dinâmica entre a consciência e o inconsciente elaborem as tensões existentes, por meio da expressão simbólica do sintoma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Devemos lembrar que para psicologia junguiana, a visão da psicossomática tem como premissa, o fato de que psique e soma são uma unidade. Logo, um desequilíbrio no processo de um aspecto ou de outro, gera consequentemente uma necessidade de equilíbrio para compensar a polarização criada. Sonhos, fantasias, sintomas e doenças podem ser compreendidos como uma busca do ser total ou do Self, de reorganizar uma harmonia perdida.</p>



<h2 id="h-e-por-meio-do-mecanismo-compensatorio-e-autorregulador-do-inconsciente-que-possiveis-caminhos-surgem" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É por meio do mecanismo compensatório e autorregulador do inconsciente que possíveis caminhos surgem.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Atitudes muito rígidas, sob o ponto de vista de uma consciência que não está disposta a reconhecer e integrar conteúdos sombrios e ameaçadores dificulta a percepção destes sinais, que não começam grandes, mas que vão tomando vultos mais significativos, ao passo que a polarização vai tornando-se mais voluptuosa. Assim, devemos considerar que do inconsciente emana uma energia que lança luz sobre os aspectos do adoecimento, tendo este um caráter teleológico e se apresentando como mensageiro de sentido e do potencial de transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A autorregulação, não tem como caráter primordial a eliminação do sintoma simplesmente, mas indicação de possíveis saídas. É um convite para a interiorização. Por isso, o sintoma deve ser escutado. Esta é uma linguagem por meio da qual a psique nos conta o que devemos fazer, ou para onde devemos seguir no caminho infindável do processo de individuação.&nbsp;</p>



<h2 id="h-por-fim" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>Por fim,</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O foco deste artigo é provocar uma reflexão sobre como a dinâmica psíquica, quando não compreendida, pode exprimir-se por meio de sintomas e doenças. Neste caso, o complexo e a sombra, funcionam como “aliados”, manifestando-se nas mais diversas situações da vida. Ambos representam traços inferiores, reprimidos e obscuros da personalidade, tem natureza emocional e autonomia. O que o complexo do ego rejeitou e reprimiu forma no inconsciente os complexos, estes se separam da personalidade total e vão compor a sombra individual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Estes conteúdos são de relevante valor, pois é aí que está escrita a história de vida do indivíduo. </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Temos a tendência de considerar que esta biografia se faz por meio das realizações concretas no mundo, que são obras do universo consciente e pouco se dá conta do quanto esses feitos só foram possíveis e viáveis pela ativa participação do mundo inconsciente.</p>



<h2 id="h-o-inconsciente-e-vivo-e-ativo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O inconsciente é vivo e ativo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ele nos acompanhada por toda a vida, em seus aspectos positivos e negativos. Temos uma necessidade real de adaptação ao mundo e às questões cotidianas, mas essa adaptação não pode acontecer sem um pensamento crítico, sem um olhar sincero para nossos desejos, mas também para nossos medos e nossas vulnerabilidades. Por vezes, é esta pequena fresta que não deixamos entrar luz, que precisa ser iluminada para termos uma resposta mais lúcida às questões da vida.   </p>



<h2 id="h-e-honesto-conosco-buscar-reconhecer-quem-em-nos-decide-pelos-caminhos-que-tomamos" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É honesto conosco buscar reconhecer <strong>quem</strong>, em nós, decide pelos caminhos que tomamos. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Provavelmente, numa resposta objetiva dirá que o sujeito da escolha foi nossa consciência, poque ela sabe&#8230; sabe o que melhor, sabe o que agrada, sabe o que será sucesso!!  E tudo bem, se e apenas se, as nossas questões internas e mais prementes não estiverem subjugadas a uma sombra, reprimidas e desmerecidas. Muitas vezes neste lugar mais sombrio está o lampejo de criatividade e o potencial que tanto insistimos em buscar fora – no outro, no trabalho, na viagem&#8230;</p>



<h2 id="h-nao-podemos-esquecer-que-todo-sintoma-esta-a-servico-de-equilibrar-um-sistema-integrado" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Não podemos esquecer que todo sintoma está a serviço de equilibrar um sistema integrado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os sintomas servem para compensar desequilíbrios internos. Logo, escutar o ambiente externo e sufocar a voz interior na sombra pode ter consequências desastrosas para a real saúde do indivíduo nas esferas bio-psico-social-espiritual.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viver em meio à dualidade e à paradoxos, é uma condição humana e arquetípica. É somente em meio a polaridades e a busca de integração de forças contrarias, que temos a oportunidade de evoluir e aprender. Passar por desconforto, fatores estressores, manifestações incomodas do complexo e da sombra, são uma realidade e sempre existirão. Temos que aprender a dar para estes elementos o espaço que eles nos pedem para transformá-los em aliados e não em nossos detratores. Eles são parte de nós, querem ser reconhecidos, aceitos e integrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/">Gilmara Marques Fadim Alves – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina M. Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li>DAWSON, Terence, YOUNG-EISENDRATH, Polly. <em>Manual de Cambridge para Estudos Junguianos</em>. São Paulo. 2002. Artmed</li>



<li>JUNG, Carl Gustav.<em> O eu e o inconsciente</em>. 27ª ed. OC 7/2. Petrópolis: Vozes, 2016.</li>



<li>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 3ª ed. OC 8/2. Petrópolis: Vozes, 1991.</li>



<li>MELLO Fº, Julio de&#8230; [et al]. <em>Psicossomática hoje</em>. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2010.</li>



<li>RAMOS, Denise G. <em>A Psique do corpo: uma compreensão simbólica da doença</em>. São Paulo: Summus, 2005</li>



<li>SANFORD, J. A. <em>Mal: O lado sombrio da realidade</em>. &#8211; Coleção Amor e Psique. São Paulo: Paulus, 1998</li>



<li>ZWEIG,C &amp; ABRAMS, J. (orgs.). <em>Ao encontro da sombra</em>. São Paulo: Cultrix, 1999</li>
</ol>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1">[1]</a> <em>https://www.letras.mus.br/titas/48989/</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-psicossomatica-e-a-clinica-junguiana-a-doenca-como-simbolo-de-autorregulacao-psiquica/">A psicossomática e a clínica junguiana: a doença como símbolo de autorregulação psíquica</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Quando o analista se confunde com o destino do analisando</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-o-analista-se-confunde-com-o-destino-do-analisando/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2026 16:57:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Contratransferência]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Transferência]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O ensaio sustenta que o analista, embora ocupe lugar importante no processo clínico, não pode confundir sua função com posse sobre a travessia psíquica do paciente. Quando se esquece de que é instrumento e mediador, e não autor da jornada, a clínica se deforma por dentro. A partir de Jung, o texto mostra que a análise é um encontro entre duas personalidades mutuamente afetadas, e que o analista também está implicado no campo transferencial.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O ensaio sustenta que o analista, embora ocupe lugar importante no processo clínico, não pode confundir sua função com posse sobre a travessia psíquica do paciente. Quando se esquece de que é instrumento e mediador, e não autor da jornada, a clínica se deforma por dentro. A partir de Jung, o texto mostra que a análise é um encontro entre duas personalidades mutuamente afetadas, e que o analista também está implicado no campo transferencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O perigo surge quando essa implicação degenera em inflação, identificação com a persona profissional e apropriação narcísica do lugar analítico. Nesses casos, a escuta deixa de servir à alteridade do paciente e passa a confirmar o poder, a imagem e a centralidade do próprio analista.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O texto distingue dois perfis recorrentes dessa distorção: o profissional imaturo, dependente de validação, e o experiente inflado, que abandona a autocrítica e passa a operar como autoridade última. Defende, por fim, que o risco não é apenas técnico, mas estrutural, pois compromete a própria base da função analítica e exige vigilância ética constante, sobretudo nos próprios meios analíticos.</p>



<h2 id="h-palavras-chave-analista-transferencia-inflacao-psiquica-persona-etica-analitica-funcao-analitica-confidencialidade-narcisismo-alteridade-poder-simbolico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave: </strong>analista; transferência; inflação psíquica; persona; ética analítica; função analítica; confidencialidade; narcisismo; alteridade; poder simbólico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O analista que se esquece de que é instrumento reflexivo começa, inevitavelmente, a se colocar como destino na vida daqueles que atende.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há, no trabalho analítico, uma tensão estrutural que nunca pode ser abolida sem que algo essencial se perca. O analista ocupa um lugar importante, às vezes decisivo, na travessia do paciente. Mas esse lugar, justamente por sua importância, precisa ser sustentado com rigor ético e com vigilância psicológica. Ele participa do processo, porém não o possui. Intervém, mas não o governa. É mediador de uma relação, não senhor de um destino. Quando essa distinção se obscurece, a clínica começa a adoecer por dentro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung insistiu, em diferentes momentos de suas obras, que a situação analítica não pode ser compreendida como aplicação mecânica de um método sobre um objeto passivo. Para ele, trata-se do encontro entre duas personalidades, entre dois sistemas psíquicos que se afetam mutuamente. Não há neutralidade mágica, nem posição extraterritorial. O analista entra no processo e, ao entrar, também é alcançado por ele. Por isso Jung afirma que o encontro analítico é como a mistura de duas substâncias químicas: se há reação, ambas se transformam. E ele ainda acrescenta que “influir” é, ao mesmo tempo, ser afetado. O profissional que tenta se proteger sob um “halo de profissionalismo e autoridade paternais” (JUNG, 2013b, p. 85) não se torna mais lúcido, torna-se apenas menos apto a conhecer o que se passa, porque se separa de um dos seus instrumentos mais importantes de percepção: a própria afetação psíquica.</p>



<h2 id="h-o-analista-nao-e-um-observador-puro-nem-uma-consciencia-intacta-pairando-acima-do-drama-do-outro" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O analista não é um observador puro, nem uma consciência intacta pairando acima do drama do outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se ele se imagina nessa posição, já começou a falsear a situação clínica. Jung chega a dizer que o analista também está em análise, porque é parte integrante do processo psíquico do tratamento e está exposto às influências transformadoras implicadas nele. Quando se fecha a essa influência, perde também a possibilidade de influir verdadeiramente sobre o analisando. Em outras palavras: o analista só pode ocupar legitimamente sua função se aceitar que também ele está implicado, convocado e, em alguma medida, examinado no encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É exatamente aí que começa um dos riscos centrais da função analítica. Porque ser investido transferencialmente produz um efeito real sobre o analista (JUNG, 2014, p. 75-76). A transferência não é apenas um “fenômeno do paciente”. Ela organiza um campo. Jung observa que, em certos momentos do processo, o analista deixa de ser apenas portador das imagens parentais mais comuns e pode ser investido com qualidades exaltadas ou mesmo divinas. O analista se torna, para o paciente, algo maior do que um outro humano: um salvador, um portador de resposta última, uma figura providencial. Isso não ocorre necessariamente de modo consciente, mas pode estruturar profundamente a relação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se o analista não souber reconhecer esse movimento, poderá sucumbir a ele de duas maneiras. A primeira é grosseira: ele pode acreditar estar literalmente no lugar que lhe foi atribuído. A segunda é mais sofisticada e, por isso mesmo, mais perigosa: ele pode afirmar teoricamente que sabe tratar-se de uma projeção, mas, na prática, começa a usufruir psiquicamente dessa posição. Já não precisa que o analisando o chame de mestre, guia ou salvador. Basta que passe a se sentir secretamente imprescindível para ele. Nesse caso, a inflação já se instalou.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung foi extremamente claro ao descrever os perigos da inflação psíquica. Ao longo da obra <em>O Eu e o Inconsciente</em>, ele mostra que, à medida que conteúdos mais amplos da psique são assimilados sem o devido discernimento, ocorre uma ampliação indevida da consciência, que pode ser vivida como elevação. O sujeito passa a se sentir maior, mais especial, mais autorizado. Essa ampliação, no entanto, não é realização de si. É confusão entre a individualidade e conteúdos impessoais, entre o eu e a psique coletiva. Jung observa que essa assimilação pode levar à inflação, e mais ainda: quando alguém incorpora ilegitimamente conteúdos suprapessoais como se fossem patrimônio próprio, estende indevidamente os limites de sua personalidade.</p>



<h2 id="h-na-clinica-isso-assume-formas-muito-reconheciveis-o-analista-passa-a-supor-que-sua-leitura-e-mais-verdadeira-do-que-a-experiencia-do-paciente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na clínica, isso assume formas muito reconhecíveis. O analista passa a supor que sua leitura é mais verdadeira do que a experiência do paciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A análise deixa de ser proposta em uma dialética — a imprescindível dialética junguiana — e começa a operar como veredito, uma interpretação unilateral. A escuta deixa de ser abertura para a alteridade e passa a funcionar como triagem daquilo que confirma a própria teoria, a própria visão de mundo, a própria imagem e, principalmente, o próprio poder. O paciente, então, já não comparece como outro, mas sim como campo de validação narcísica do analista.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse desvio costuma ser favorecido por uma outra confusão, também descrita por Jung: a identificação com a persona. Em vez de sustentar a função analítica como função, o sujeito passa a confundir-se com a imagem social e simbólica do analista. Jung diz que a persona é uma máscara da psique coletiva, um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que “alguém parece ser”: nome, título, ocupação, papel. Ela tem sua realidade funcional, mas não corresponde à individualidade essencial da pessoa. Quando alguém se identifica com ela, acredita ser aquilo que representa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso do analista, isso é especialmente delicado. Porque a função já é, por si mesma, socialmente investida de autoridade. O lugar do analista vem cercado de suposições de saber, profundidade, experiência e discernimento. Se esse lugar não for submetido continuamente ao crivo da própria análise, da supervisão e do confronto com a sombra, a persona profissional começa a endurecer e a perder a capacidade empática de experimentar a visão do paciente, mesmo quando não coincide com a própria. Aos poucos, o sujeito deixa de exercer a função de analista e passa a habitá-la egocentricamente. Já não trabalha como analista, mas torna-se “O Analista”. E aqui a máscara deixa de proteger a tarefa e começa a encobrir a pobreza interior que se forma e se nutre dessa dinâmica.</p>



<h2 id="h-jung-adverte-que-ao-dissolver-a-persona-descobre-se-que-aquilo-que-parecia-individual-era-em-grande-medida-coletivo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung adverte que, ao dissolver a persona, descobre-se que aquilo que parecia individual era, em grande medida, coletivo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso vale também para a “imagem do analista experiente”, “sábio”, “iniciado”, “profundo”. Tudo isso pode ser apenas persona neurótica. Quando não há trabalho interior suficiente, a persona profissional torna-se o disfarce elegante de uma imaturidade não elaborada. O sujeito sustenta uma linguagem sofisticada, uma doutrina refinada, uma posição social reconhecida — até mesmo uma relação de poder formal já consolidada —, mas internamente continua tomado por necessidades infantis de validação, centralidade, indispensabilidade e poder.</p>



<h2 id="h-e-nesse-ponto-que-a-questao-etica-se-torna-inseparavel-da-questao-simbolica-porque-nao-se-trata-apenas-de-nao-cometer-infracoes-trata-se-de-nao-se-desviar-estruturalmente-da-funcao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É nesse ponto que a questão ética se torna inseparável da questão simbólica. Porque não se trata apenas de “não cometer infrações”. Trata-se de não se desviar estruturalmente da função.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O setting analítico exige uma renúncia muito específica: a renúncia a ocupar, para o outro, o lugar de verdade última. O analista precisa suportar ser importante sem se tornar absoluto. Ser investido sem tomar posse do investimento. Ser necessário em certos momentos sem concluir, por isso, que é indispensável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung oferece uma formulação particularmente fecunda quando diz que, na prática, o analista adequadamente treinado se faz de “função transcendente” temporária para o paciente (JUNG, 2013a, p. 18-19), ajudando-o a unir consciência e inconsciente e a alcançar uma nova atitude. Isso é muito diferente de ser o destino do outro. A função transcendente é mediação entre opostos, não é apropriação da alma alheia. O analista ocupa provisoriamente uma função de ponte, de apoio, de continente, para que o paciente possa se relacionar mais amplamente com a própria psique. Porém, quando ele se instala nesse lugar como proprietário, a mediação colapsa e vira dependência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O problema, então, não é a importância do analista. Negar isso seria ingenuidade. O problema é o que ele faz com essa importância inerente. Se ele não suporta a própria limitação, tenderá a transformar a transferência em prova de valor pessoal. Se não tolera a própria falta, precisará que o analisando permaneça vinculado, agradecido, convencido e dependente, mesmo quando a resposta imposta sobre si não reverbera com sua realidade psíquica ou até mesmo realidade concreta. Se ele não trabalha a própria sombra, qualquer ruptura será vivida como ofensa narcísica, distanciando-se, assim, do seu próprio curador ferido. E então o que deveria ser lido simbolicamente — interrupção, resistência, recusa, afastamento necessário ou mudança de rumo — passa a ser vivido pessoalmente como abandono, desautorização, afronta ou traição.</p>



<h2 id="h-nesse-contexto-acredito-que-existem-dois-perfis-recorrentes-dessa-distorcao-na-clinica-analitica-e-no-contexto-das-formacoes-de-analistas-nos-varios-institutos-junguianos-existentes-hoje-acredito-ser-necessario-aprofunda-los" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nesse contexto, acredito que existem dois perfis recorrentes dessa distorção na clínica analítica, e, no contexto das formações de analistas nos vários institutos junguianos existentes hoje, acredito ser necessário aprofundá-los:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O primeiro é o profissional mais imaturo, frequentemente ainda sustentado por uma persona de saber precocemente rígida — porque a rigidez traz determinado alívio em relação a insegurança e dúvida. Ele conhece conceitos, talvez tenha boa retórica, talvez já ocupe um lugar institucional — até como professor e/ou supervisor —, mas internamente ainda depende muito de reconhecimento externo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso, embora afirme teoricamente que não sabe tudo sobre a psique alheia, reage afetivamente como se os analisandos devessem reconhecê-lo com esse saber. A saída de um paciente, a discordância de um supervisionando, a crítica de um colega ou a simples não adesão às suas formulações podem desencadear ressentimento, desqualificação ou retaliação velada ou direta, inclusive com exposição do afeto em lugares onde ocupa algum poder e não pode ser confrontado, ganhando uma ilusão de validação interna em suas distorções. Aqui, como pode-se notar, <strong>a fragilidade egóica se protege por meio da linguagem do saber</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O segundo perfil é mais difícil de perceber justamente porque costuma vir acompanhado de trajetória, prestígio e experiência. Trata-se do analista que, ao longo dos anos, vai deixando de se submeter ao próprio processo e começa a falar a partir de uma posição já não interrogada. A dúvida diminui, a autorreflexão empobrece, a teoria vira armadura, e o sujeito passa a operar como se estivesse em um ponto de vista mais alto, como se fosse o exemplo claro de “inconsciente que se realiza” — e aqui faço óbvia referência a como Jung teoricamente se descreve na deformada biografia <em>Memórias, sonhos, reflexões </em>(JUNG, 2016, p. 25), que estudiosos como o Sonu Shamdasani afirmam ter sido editada posteriormente com o intuito de criar uma imagem de Jung como uma figura quase “profética” ou “sábio espiritual”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De toda forma, em certos casos de inflação psíquica, Jung afirma que é possível observar o aspecto daquilo que ele chamou de personalidade-mana (JUNG, 2015, p. 118): a figura que acredita estar investida de um poder especial, de uma autoridade quase mágica, fascinante e superior. E mesmo quando ele não se nomeia assim, o campo relacional denuncia a presença dessa inflação. Há excesso de reverência e referência a si mesmo, pouca possibilidade de discordância, grande assimetria simbólica e uma atmosfera em que o analista parece mais interessado em conservar o lugar que ocupa do que em favorecer a autonomia do outro. Assim, não resta mais nada ao analisando a não ser orbitar o analista, quando o trabalho deveria favorecer uma relação mais ampla do analisando com o próprio centro psíquico e com o desenvolvimento da autonomia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, vale ressaltar, algo ainda mais perigoso acontece quando esses dois perfis se encontram — por exemplo, um analista mais velho, já inflado por sua posição, atendendo um mais jovem, em formação ou sem tanta experiência, ainda vulnerável à fascinação pela autoridade e pelo desejo de validação externa. Nesse caso, forma-se um campo particularmente propício à repetição da distorção que empobrece a formação na psicologia analítica e, consequentemente, esta como um todo. A experiência vira critério de verdade. O tempo de prática vira prova de legitimidade absoluta. A tradição vira escudo contra a crítica. E a formação, que deveria servir à ampliação da consciência e ao contato com a alma, pode se transformar em aparelho de reprodução de submissão, um desserviço à psicologia junguiana.</p>



<h2 id="h-nesses-contextos-o-que-mais-se-perde-e-precisamente-a-dimensao-analitica-da-experiencia-porque-analise-supoe-relacao-viva-com-o-nao-sabido" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nesses contextos, o que mais se perde é precisamente a dimensão analítica da experiência. Porque análise supõe relação viva com o não sabido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Supõe trabalho com símbolos, ambivalências, conflitos e limites. Supõe que nenhuma teoria, por mais preciosa que seja, substitui o encontro com aquilo que ainda não foi assimilado. Jung, em <em>A vida simbólica</em> (JUNG, 2012, p. 70-71)<em>, </em>insistiu que a psicoterapia não é um método simples, nem algo que possa ser aplicado estereotipadamente, mas um procedimento dialético, um diálogo entre duas pessoas. Quando o analista se esconde atrás do manto de uma doutrina para preservar prestígio e autoridade, ele trai a própria vida da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Daí decorre um ponto ético decisivo: o analista não tem o direito de usar a teoria para imunizar-se contra a alteridade do paciente. Pois a teoria deveria ampliar a escuta, não a deveria blindar. Deveria oferecer linguagem para o indizível, não servir de instrumento de submissão. Quando ela vira proteção egóica, o que resta já não é clínica no sentido profundo, mas administração de influência. É o exemplo claro do poder ocupando de maneira destrutiva um lugar que deveria ser do seu oposto, o amor.</p>



<h2 id="h-isso-toca-inclusive-diretamente-a-questao-da-confidencialidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Isso toca, inclusive, diretamente a questão da confidencialidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Explico: em sua última entrevista, no programa <em>Face to Face,</em> da BBC, conduzida por John Freeman em 1959, Jung, aos 83 anos, se recusou a compartilhar sonhos que Freud, falecido em 1939, lhe havia contado em um passado distante, antes de cortarem relações por discordâncias diversas. A justificativa dele foi simples e rigorosa: aquilo pertence à intimidade de quem confiou esse material e não deve ser divulgado. É preciso reforçar o óbvio: o que se compartilha em análise ou supervisão não é informação qualquer. É matéria psíquica confiada em condição de vulnerabilidade.</p>



<h2 id="h-mesmo-quando-o-analisando-ou-o-supervisionando-interrompe-o-processo-se-afasta-se-cala-ou-morre-esse-estatuto-nao-se-dissolve-o-material-clinico-nao-pertence-ao-analista-o-fato-de-te-lo-escutado-nao-lhe-da-posse-sobre-ele" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Mesmo quando o analisando ou o supervisionando interrompe o processo, se afasta, se cala ou morre, esse estatuto não se dissolve. O material clínico não pertence ao analista. O fato de tê-lo escutado não lhe dá posse sobre ele.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O setting implica uma assimetria fundada em confiança, e violá-la — de forma direta ou indireta — não é apenas um erro técnico ou uma indiscrição ética. É uma ruptura do símbolo que sustenta a própria situação analítica. Quando o analista, sem preservar o anonimato do analisando ou supervisionando, expõe, sugere, insinua ou tangencia o conteúdo clínico para obter elaboração pessoal, exibição teórica, coesão grupal ou prestígio simbólico, ele rebaixa o segredo do outro a instrumento de uso próprio. O que deveria ser guardado como expressão singular de uma alma é convertido em objeto de circulação egóica, despotencializando o processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso o analista precisa permanecer em trabalho constante com a própria sombra. A inflação não começa quando ele comete uma grande falta visível. Ela começa antes, em pequenos deslocamentos internos quase imperceptíveis: no prazer de ser procurado, na dificuldade de ser contrariado, na fantasia de excepcionalidade, na superioridade moral disfarçada de discernimento, no uso da teoria como arma, no gozo silencioso de ser central para alguém. Se isso não é reconhecido, um dia pode ser institucionalizado como estilo clínico.</p>



<h2 id="h-jung-foi-severo-ao-afirmar-que-a-individuacao-nao-autoriza-ninguem-a-retirar-se-da-coletividade-sem-produzir-valores-equivalentes-jung-2012-p-25" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung foi severo ao afirmar que a individuação não autoriza ninguém a retirar-se da coletividade sem produzir valores equivalentes (JUNG, 2012, p. 25). </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pode-se transpor essa ideia à função analítica: nenhuma formação, nenhuma análise pessoal, nenhum reconhecimento e nenhuma experiência conferem licença para situar-se acima da crítica, da ética ou da alteridade. Ao contrário, quanto mais alguém ocupa um lugar de autoridade, mais precisa produzir um equivalente em humildade psíquica, responsabilidade simbólica e disponibilidade para o próprio exame. A autoridade analítica só se legitima quando aceita não coincidir consigo mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É por isso que a clínica exige uma ética mais radical do que a simples observância de regras. Exige uma posição interior. Exige que o analista permaneça em relação com o não-saber, com o limite, com a própria vulnerabilidade ao engano e com a alteridade irredutível do outro. Exige que ele renuncie ao gozo de ocupar o lugar de destino e aceite, mais modestamente e mais arduamente, ser apenas uma função importante em certa travessia que não lhe pertence.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando isso se mantém, a análise ainda pode conservar sua dignidade. O paciente encontra ali não um senhor de sua jornada, mas uma presença suficientemente trabalhada para não sequestrar seu processo. O analista, por sua vez, não se torna menor por isso. Ele se torna mais confiável, e isso fortalece o processo. Porque só quem não precisa ser o centro pode realmente ajudar alguém a se aproximar do próprio centro.</p>



<h2 id="h-quando-essa-renuncia-falha-ja-nao-estamos-diante-de-uma-analise-propriamente-dita-mas-de-suas-deformacoes-possiveis-sugestao-sofisticada-dependencia-erotizada-captura-transferencial-doutrinacao-simbolica-ou-manipulacao-com-verniz-teorico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando essa renúncia falha, já não estamos diante de uma análise propriamente dita, mas de suas deformações possíveis: sugestão sofisticada, dependência erotizada, captura transferencial, doutrinação simbólica ou manipulação com verniz teórico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para deixar bem claro, o risco, portanto, é estrutural, e não apenas erro técnico do analista, como quem aplica mal um conceito, interpreta precipitadamente ou conduz inadequadamente uma sessão. A questão aqui levantada não é algo resumido ao manejo, ao método, ao enquadre, à prática profissional em sentido mais operacional. Quando eu digo que o risco é estrutural, estou dizendo que o problema atinge a própria estrutura da posição analítica. Ou seja, mexe no fundamento do trabalho, na forma como o analista se coloca diante do analisando, do saber, do poder, da transferência e do mistério da psique.</p>



<h2 id="h-em-outras-palavras-se-o-analista-comeca-a-ocupar-o-lugar-de-dono-do-processo-de-autoridade-ultima-de-referencia-absoluta-o-que-se-corrompe-nao-e-apenas-uma-intervencao-aqui-ou-ali-o-que-se-corrompe-e-o-proprio-vinculo-analitico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Em outras palavras: se o analista começa a ocupar o lugar de dono do processo, de autoridade última, de referência absoluta, o que se corrompe não é apenas uma intervenção aqui ou ali. O que se corrompe é o próprio vínculo analítico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A análise deixa de ser análise na sua base. Ela pode até continuar parecendo análise por fora — com setting, linguagem sofisticada, interpretações, supervisão, teoria —, mas por dentro já está organizada por outra lógica: narcisismo, poder, sugestão, submissão e dependência. E isso tudo deve ser visto sem complacência e com rigor, sobretudo dentro dos próprios meios analíticos — principalmente entre analistas em formação, analistas didatas, institutos junguianos, escolas de formação, grupos de supervisão e círculos clínicos em geral. Porque é nesses meios que muitas vezes surge uma blindagem: o abuso simbólico pode ser encoberto por linguagem técnica, o autoritarismo pode ser confundido com profundidade, e a inflação pode ser confundida com maturidade ou experiência. E, nesses casos, não há dúvida alguma: quem perde verdadeiramente é a psicologia analítica e, ainda, todos aqueles que confiam nela como caminho de autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/leandroscapellato/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/leandroscapellato/">Leandro Scapellato – Analista em formação/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Quando o analista se confunde com o destino do analisando&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/nqnwuwHAE1o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>A prática da psicoterapia</em>. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>A vida simbólica. </em>Vol. 2. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012q.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>Face to Face</em>: entrevista com Carl Gustav Jung. Entrevista concedida a John Freeman. BBC Television, 1959. Disponível em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=x5VXNeXw648">https://www.youtube.com/watch?v=x5VXNeXw648</a>. Acesso em: 23 mar. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>O eu e o inconsciente</em>. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>Psicologia do inconsciente</em>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>Memórias, sonhos, reflexões</em>. Org. Aniela Jaffé. 33. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">SHAMDASANI, Sonu. <em>Jung Stripped Bare by His Biographers, Even</em>. London: Karnac Books, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O que significa realmente conhecer alguém? Entre o encontro, a projeção e o mistério do outro</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-que-significa-realmente-conhecer-alguem-entre-o-encontro-a-projecao-e-o-misterio-do-outro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Jun 2026 20:55:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[anima e animus]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[individualidade]]></category>
		<category><![CDATA[masculino e feminino]]></category>
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		<category><![CDATA[relação]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[relações]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A gente acha que conhece as pessoas. Sabe o que elas gostam, onde trabalham, o que pensam, o que postam. Mas isso não é conhecer alguém. Isso é ter informação. Conhecer alguém é outra coisa.Acontece no encontro. No jeito que a pessoa reage quando algo não sai como esperado.Nos silêncios.Nos desconfortos.Nas contradições que aparecem com [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px;line-height:1.1">
<p class="wp-block-paragraph">A gente acha que conhece as pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sabe o que elas gostam, onde trabalham, o que pensam, o que postam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas isso não é conhecer alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso é ter informação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conhecer alguém é outra coisa.<br>Acontece no encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No jeito que a pessoa reage quando algo não sai como esperado.<br>Nos silêncios.<br>Nos desconfortos.<br>Nas contradições que aparecem com o tempo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E é aí que muita gente desiste.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque conhecer de verdade exige atravessar a queda das projeções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aquele momento em que o outro deixa de ser quem a gente imaginou&#8230;<br>e passa a ser quem ele é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nem toda amizade sobrevive a isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas acabam quando a idealização cai.<br>Outras ficam, e se tornam mais reais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Menos encantadas&#8230;<br>mas muito mais verdadeiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez a amizade não seja sobre encontrar alguém que &#8220;combina&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas alguém com quem é possível continuar&#8230;<br>mesmo quando o mistério aparece.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque no fundo&#8230;<br>ninguém conhece totalmente ninguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E talvez seja exatamente isso<br>que torna alguns encontros tão raros.</p>
</blockquote>



<h2 id="h-vivemos-em-uma-epoca-curiosa-nunca-tivemos-acesso-a-tanta-informacao-sobre-as-pessoas-e-ao-mesmo-tempo-talvez-nunca-tenha-sido-tao-dificil-dizer-que-realmente-conhecemos-alguem" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Vivemos em uma época curiosa. Nunca tivemos acesso a tanta informação sobre as pessoas e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido tão difícil dizer que realmente conhecemos alguém.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sabemos onde as pessoas trabalham, o que estudaram, quais lugares frequentam, o que gostam de comer, que músicas escutam, quais filmes assistem. Em poucos minutos, uma busca na internet pode revelar uma quantidade impressionante de dados sobre a vida de alguém.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mas, mesmo assim, algo permanece inacessível.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque conhecer alguém não é simplesmente acumular informações sobre essa pessoa. Existe uma diferença sutil e profundamente importante entre <strong>saber sobre alguém</strong> e <strong>conhecer alguém de verdade</strong>. Saber sobre alguém pertence ao campo dos fatos. Podemos listar características, eventos biográficos, preferências, escolhas. É possível organizar essas informações como quem organiza arquivos em uma base de dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Conhecer alguém, no entanto, pertence a outra dimensão. Ele acontece no encontro. E encontros humanos são sempre mais complexos do que qualquer conjunto de informações.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Carl Gustav Jung observou que cada pessoa carrega dentro de si uma realidade psíquica muito mais vasta do que aquilo que aparece na superfície da vida cotidiana. Aquilo que mostramos ao mundo, nossos papéis sociais, nossas histórias, nossas narrativas conscientes, representa apenas uma parte daquilo que somos.</p>



<h2 id="h-a-psique-e-em-grande-parte-inconsciente-jung-2013" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A psique é, em grande parte, inconsciente.” (JUNG, 2013).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa que conhecer verdadeiramente alguém implica entrar em contato não apenas com aquilo que a pessoa diz sobre si mesma, mas também com aquilo que se revela lentamente na relação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O modo como alguém reage às situações, as histórias que escolhe contar, os silêncios que aparecem em determinados momentos, as emoções que surgem inesperadamente, tudo isso compõe uma espécie de linguagem da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E essa linguagem não pode ser reduzida a dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela se revela no tempo.</p>



<h2 id="h-a-cultura-contemporanea-desenvolveu-uma-confianca-enorme-na-ideia-de-que-tudo-pode-ser-conhecido-atraves-da-informacao-quanto-mais-dados-possuimos-sobre-um-fenomeno-mais-acreditamos-compreende-lo" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A cultura contemporânea desenvolveu uma confiança enorme na ideia de que tudo pode ser conhecido através da informação. Quanto mais dados possuímos sobre um fenômeno, mais acreditamos compreendê-lo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse modelo funciona muito bem para diversos campos do conhecimento. Sistemas financeiros, redes de comunicação, tecnologia da informação e processos organizacionais dependem justamente da capacidade de coletar, organizar e interpretar grandes volumes de dados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas quando aplicamos essa mesma lógica às relações humanas, algo começa a escapar. Podemos saber quase tudo sobre alguém e, ainda assim, não conhecer essa pessoa. Da mesma forma, às vezes conhecemos alguém profundamente mesmo sabendo muito pouco sobre sua história objetiva. Isso acontece porque o conhecimento humano não se limita à informação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele envolve presença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Envolve escuta.</p>



<h2 id="h-envolve-a-capacidade-de-perceber-nuances-que-nao-aparecem-nos-fatos-mas-se-manifestam-no-modo-como-uma-pessoa-habita-o-mundo" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Envolve a capacidade de perceber nuances que não aparecem nos fatos, mas se manifestam no modo como uma pessoa habita o mundo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A psicologia analítica reconhece que cada indivíduo é portador de uma história psíquica única. Experiências da infância, imagens arquetípicas, complexos emocionais e desejos inconscientes participam silenciosamente da construção da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Grande parte desses conteúdos não aparecem diretamente na narrativa consciente da pessoa. Eles se revelam no encontro. E, por isso, conhecer alguém exige algo que nenhuma base de dados pode oferecer: tempo compartilhado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das marcas mais curiosas da cultura contemporânea é a sensação de que tudo pode ser conhecido, explicado e organizado. Vivemos cercados por sistemas que prometem tornar o mundo cada vez mais transparente: algoritmos que antecipam preferências, redes sociais que revelam hábitos, plataformas que registram cada passo de nossas rotinas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse cenário, parece natural acreditar que conhecer alguém seja apenas uma questão de acesso à informação. Nós sabemos onde as pessoas trabalham, que lugares frequentam, o que publicam, com quem se relacionam. Podemos acompanhar suas opiniões, suas viagens, suas conquistas e até mesmo seus estados emocionais expressos em imagens e textos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, paradoxalmente, essa abundância de informação não necessariamente nos aproxima das pessoas. Em muitos casos, ela cria apenas a sensação de proximidade. A psique humana, no entanto, não se organiza apenas em torno daquilo que é visível. Existe uma dimensão profunda da experiência humana que não pode ser totalmente capturada por dados ou descrições objetivas.</p>



<h2 id="h-jung-observou-que-grande-parte-da-vida-psiquica-permanece-inconsciente-influenciando-silenciosamente-pensamentos-emocoes-e-comportamentos" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Jung observou que grande parte da vida psíquica permanece inconsciente, influenciando silenciosamente pensamentos, emoções e comportamentos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa que mesmo a pessoa que mais acreditamos conhecer guarda dentro de si territórios desconhecidos. Não porque esteja escondendo algo, mas porque a própria natureza da psique humana é, em grande medida, misteriosa. Conhecer alguém, portanto, não é apenas reunir informações sobre essa pessoa. É participar de uma experiência que se revela lentamente, no encontro e na convivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando duas pessoas se encontram de forma verdadeira, algo acontece que não pode ser completamente previsto. Uma conversa pode abrir perguntas que antes não existiam. Um olhar pode despertar lembranças ou reflexões inesperadas. Às vezes, um simples diálogo produz mudanças profundas na maneira como alguém percebe a própria vida.</p>



<h2 id="h-jung-descreveu-esse-fenomeno-com-uma-imagem-muito-conhecida" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung descreveu esse fenômeno com uma imagem muito conhecida:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p class="wp-block-paragraph">“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver reação, ambas se transformam.” (JUNG, 2012, p. 49).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa frase aponta para um aspecto fundamental das relações humanas: os encontros verdadeiros são sempre transformadores. Eles nos confrontam com perspectivas diferentes, revelam aspectos de nós mesmos que permaneciam ocultos e, muitas vezes, ampliam nossa compreensão da realidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso acontece porque cada pessoa carrega dentro de si um universo psíquico singular. Quando dois universos se encontram, surge um campo relacional que não existia antes. Nesse campo, novas possibilidades de pensamento e sentimento podem emergir. E, às vezes, aquilo que começa como uma simples conversa transforma-se em um vínculo significativo. Entre as muitas formas que os encontros humanos podem assumir, a amizade entre homens e mulheres ocupa um lugar particularmente interessante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Durante muito tempo, a cultura tratou esse tipo de relação com certa desconfiança. Muitas narrativas sociais sugeriam que homens e mulheres não poderiam desenvolver uma amizade profunda sem que ela se transformasse necessariamente em um relacionamento amoroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ideia, no entanto, revela mais sobre os limites culturais do que sobre a complexidade das relações humanas. Homens e mulheres podem, sim, desenvolver amizades intensas, baseadas em diálogo, admiração intelectual, troca emocional e crescimento mútuo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva da Psicologia Analítica, esse tipo de vínculo pode possuir uma função psíquica importante. Jung observou que cada pessoa carrega dentro de si imagens arquetípicas do feminino e do masculino, aquilo que ele chamou de Anima e Animus. Essas imagens influenciam profundamente a forma como percebemos e nos relacionamos com o outro.</p>



<h2 id="h-a-anima-e-o-arquetipo-da-vida-no-inconsciente-masculino-jung-2013-p-26" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A anima é o arquétipo da vida no inconsciente masculino.” (JUNG, 2013, p. 26).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um homem estabelece uma relação significativa com uma mulher, seja ela amorosa, profissional ou amistosa, aspectos de sua própria vida emocional podem ser mobilizados. Da mesma forma, uma mulher também pode entrar em contato com dimensões de seu próprio Animus através da relação com o masculino. Isso não significa que toda amizade entre homens e mulheres esteja marcada por projeções românticas ou conflitos inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Significa apenas que esse tipo de relação pode favorecer um diálogo psíquico entre dimensões complementares da experiência humana. Em muitos casos, esse diálogo torna-se um espaço de aprendizado mútuo. Homens podem desenvolver maior sensibilidade emocional. Mulheres podem ampliar formas de expressão intelectual ou assertiva. Ambos podem encontrar no outro uma perspectiva que desafia e enriquece a própria visão de mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, a amizade entre homens e mulheres pode funcionar como um território fértil para o desenvolvimento psicológico. Um espaço onde duas pessoas, sem necessariamente se tornar um casal, participam do crescimento uma da outra. Talvez seja justamente por isso que conhecer alguém nunca seja um processo completo. Por mais longa que seja uma relação, sempre permanece algo do outro que escapa à nossa compreensão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe um núcleo de mistério na experiência humana que não pode ser totalmente traduzido em palavras ou conceitos. A alteridade &#8211; a experiência de encontrar alguém que é verdadeiramente diferente de nós &#8211; lembra constantemente que o mundo não se resume às nossas próprias percepções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O outro possui uma interioridade própria, uma história única, uma forma singular de habitar o mundo. E talvez seja justamente isso que torna os encontros humanos tão preciosos. Eles nos lembram que a vida não é apenas um conjunto de informações organizadas. Ela é também um campo de experiências compartilhadas, de descobertas inesperadas e de relações que ampliam nossa consciência.</p>



<h2 id="h-conhecer-alguem-nesse-sentido-nunca-e-um-processo-terminado" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Conhecer alguém, nesse sentido, nunca é um processo terminado.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É um caminho. Um caminho que se constrói no tempo, na escuta e na disposição de permanecer aberto ao mistério que cada pessoa carrega dentro de si. Quando duas pessoas se encontram pela primeira vez, aquilo que se apresenta na relação raramente corresponde à totalidade daquilo que cada uma é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada indivíduo chega ao encontro carregando histórias, experiências, expectativas e defesas. Ao longo da vida aprendemos, consciente ou inconscientemente, a mostrar certos aspectos de nós mesmos e a proteger outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung chamou de Persona essa dimensão da personalidade que se apresenta ao mundo. A Persona não é falsa no sentido de mentira; ela é, antes de tudo, uma forma de adaptação social. Através dela conseguimos circular na sociedade, trabalhar, estabelecer relações e ocupar determinados papéis.</p>



<h2 id="h-a-persona-e-aquilo-que-alguem-nao-e-realmente-mas-que-ele-e-os-outros-pensam-que-ele-e-jung-2013-p-305" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A persona é aquilo que alguém não é realmente, mas que ele e os outros pensam que ele é.” (JUNG, 2013, p. 305).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse mecanismo é necessário. Sem alguma forma de Persona, a convivência humana seria extremamente difícil. No entanto, quando duas pessoas começam a se conhecer, aquilo que aparece inicialmente na relação costuma ser justamente essa camada mais visível e social da personalidade. O verdadeiro conhecimento do outro exige algo mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele exige tempo suficiente para que as máscaras sociais possam, aos poucos, relaxar. Pequenos gestos, contradições, fragilidades e histórias pessoais começam então a aparecer. É, nesse momento que a relação deixa de ser apenas um encontro entre papéis e começa a tornar-se um encontro entre pessoas. Mesmo quando acreditamos estar vendo o outro com clareza, existe um elemento que sempre participa das relações humanas: a projeção.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Psicologia Analítica, projeção é o processo pelo qual os conteúdos da própria psique são atribuídos a outra pessoa. Aquilo que ainda não reconhecemos em nós mesmos pode ser percebido como pertencente ao outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse fenômeno é extremamente comum nos vínculos humanos. Às vezes idealizamos alguém, atribuindo-lhe qualidades que desejamos encontrar. Em outras ocasiões, reagimos negativamente a comportamentos que, na verdade, refletem conflitos internos nossos.</p>



<h2 id="h-jung-descreveu-esse-processo-de-forma-bastante-clara" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung descreveu esse processo de forma bastante clara:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“As projeções transformam o mundo em uma réplica do nosso próprio rosto desconhecido.” (JUNG, 2013, p. 233).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Isso significa que, em muitos encontros, não estamos lidando apenas com o outro real, mas também com imagens internas que projetamos sobre ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse fenômeno não precisa ser compreendido apenas de maneira negativa. Em muitos casos, as projeções funcionam como pontes que permitem à psique entrar em contato com aspectos ainda inconscientes de si mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma projeção se torna consciente, aquilo que antes parecia pertencer exclusivamente ao outro começa a ser reconhecido como parte da própria experiência psíquica. Dessa forma, algumas relações humanas funcionam como verdadeiros espelhos. Elas revelam dimensões de nós mesmos que dificilmente seriam percebidas em isolamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro elemento fundamental para conhecer alguém é o tempo. A cultura contemporânea, marcada pela velocidade e pela instantaneidade, frequentemente cria a ilusão de que as relações podem se desenvolver rapidamente. Conversas intensas, trocas frequentes de mensagens e afinidades aparentes podem gerar a sensação de que já compreendemos profundamente a outra pessoa. Mas a experiência humana mostra que o verdadeiro conhecimento de alguém acontece de maneira muito mais lenta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É no decorrer do tempo que surgem os pequenos detalhes da vida cotidiana: a forma como alguém reage ao conflito, como lida com frustrações, como se comporta em momentos de alegria ou de perda. Esses aspectos raramente aparecem nas primeiras interações. Eles se revelam na convivência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conhecer alguém implica atravessar diferentes fases da vida ao lado dessa pessoa. Significa observar mudanças, amadurecimentos, dúvidas e transformações. A identidade humana não é estática. Cada indivíduo está em constante processo de desenvolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung descreveu esse movimento como Processo de Individuação, o caminho pelo qual a pessoa se aproxima gradualmente da totalidade de sua própria psique.</p>



<h2 id="h-individuacao-significa-tornar-se-um-ser-unico-e-indivisivel-jung-2011-p-275" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“Individuação significa tornar-se um ser único e indivisível.” (JUNG, 2011, p. 275).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando acompanhamos alguém ao longo do tempo, testemunhamos partes desse processo. E talvez seja justamente essa experiência compartilhada que torna certos vínculos tão significativos. Entre as muitas formas de relação humana, a amizade ocupa um lugar singular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diferente dos vínculos familiares, que muitas vezes são determinados pela história e pela biologia, a amizade nasce da escolha. Ela se constrói a partir de afinidades, interesses comuns e, muitas vezes, de um certo reconhecimento silencioso entre duas pessoas. Na amizade, existe uma liberdade particular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os amigos podem compartilhar pensamentos, dúvidas e reflexões que nem sempre encontram espaço em outros contextos. Conversas que começam de forma casual podem se transformar em diálogos profundos sobre a vida, os valores e o sentido da existência.</p>



<h2 id="h-em-algumas-situacoes-a-amizade-torna-se-um-espaco-privilegiado-para-o-desenvolvimento-psicologico-os-dois-individuos-que-se-encontram-em-momentos-semelhantes-de-suas-trajetorias-podem-oferecer-um-ao-outro-algo-extremamente-valioso-escuta-questionamento-e-presenca" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Em algumas situações, a amizade torna-se um espaço privilegiado para o desenvolvimento psicológico. Os dois indivíduos que se encontram em momentos semelhantes de suas trajetórias podem oferecer um ao outro algo extremamente valioso: escuta, questionamento e presença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Através dessas trocas, aspectos da própria personalidade começam a se tornar mais claros. Perguntas que permaneciam difusas encontram novas formas de expressão. Ideias que antes pareciam isoladas ganham sentido no diálogo com o outro. Neste contexto, a amizade pode participar do Processo de Individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não porque os amigos tenham a função de analisar ou orientar a vida um do outro, mas porque o encontro humano cria um espaço onde a consciência pode se ampliar. A presença do outro, com sua história e sua perspectiva singular, torna-se um convite permanente à reflexão. E, muitas vezes, é justamente nesses encontros, simples, cotidianos, aparentemente sem pretensão, que surgem algumas das conversas mais transformadoras da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar das profundas transformações sociais ocorridas nas últimas décadas, a amizade entre homens e mulheres ainda costuma ser cercada por certo grau de desconfiança cultural. Em muitas narrativas sociais, permanece a ideia de que a proximidade entre um homem e uma mulher inevitavelmente conduz ao campo amoroso ou sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa suposição aparece frequentemente em conversas cotidianas, em filmes, em literatura popular e até mesmo em discursos psicológicos simplificados. Segundo essa visão, homens e mulheres não conseguiriam sustentar uma amizade profunda sem que, em algum momento, o desejo erótico emergisse como elemento central da relação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, a experiência humana mostra que as relações são muito mais complexas do que esse modelo sugere. A proximidade entre homens e mulheres pode, de fato, despertar tensões eróticas. Isso não deveria causar surpresa. A psique humana é atravessada por forças afetivas e simbólicas que nem sempre seguem limites rígidos entre amizade, admiração e desejo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconheceu que as relações entre homens e mulheres frequentemente mobilizam imagens arquetípicas profundas.</p>



<h2 id="h-todo-homem-carrega-dentro-de-si-a-imagem-eterna-da-mulher-nao-a-imagem-de-uma-mulher-particular-mas-de-uma-mulher-determinada-jung-2013-p-26" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“Todo homem carrega dentro de si a imagem eterna da mulher, não a imagem de uma mulher particular, mas de uma mulher determinada.” (JUNG, 2013, p. 26).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essas imagens psíquicas influenciam profundamente a forma como percebemos o outro sexo. Em muitos encontros, aquilo que inicialmente nos atrai ou nos intriga não é apenas a pessoa concreta que está diante de nós, mas também a imagem arquetípica que ela constela dentro da psique. É, nesse ponto que muitas amizades entre homens e mulheres se tornam psicologicamente interessantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A presença da tensão simbólica entre masculino e feminino pode enriquecer o diálogo e ampliar a consciência de ambos os lados. A relação torna-se um espaço onde cada um entra em contato com aspectos da própria psique que talvez permanecessem menos desenvolvidos em contextos exclusivamente masculinos ou femininos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marie-Louise von Franz, importante colaboradora de Jung, observou que o encontro com o outro sexo frequentemente desempenha um papel essencial no desenvolvimento psicológico.</p>



<h2 id="h-o-encontro-com-o-outro-sexo-e-um-dos-fatores-mais-importantes-no-processo-de-desenvolvimento-da-personalidade-von-franz-1990-p-112" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“O encontro com o outro sexo é um dos fatores mais importantes no processo de desenvolvimento da personalidade.” (VON FRANZ, 1990, p. 112).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando esse encontro acontece dentro de um campo de amizade, e não apenas de relação amorosa, ele pode produzir efeitos particularmente interessantes. A amizade entre homens e mulheres permite que exista diálogo sem que todas as energias da relação sejam absorvidas pela expectativa romântica. Nesse espaço, torna-se possível explorar ideias, compartilhar reflexões e desenvolver intimidade intelectual e emocional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não significa que a dimensão erótica esteja completamente ausente. Em muitos casos, ela aparece como uma tensão latente que faz parte da complexidade da relação. Mas a existência dessa tensão não precisa necessariamente conduzir à transformação da amizade em relacionamento amoroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando reconhecida com maturidade, ela pode inclusive contribuir para aprofundar o vínculo, permitindo que duas pessoas permaneçam conscientes das forças psíquicas que atravessam a relação. Assim, a amizade entre homens e mulheres pode funcionar como um espaço privilegiado de crescimento psicológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Homens podem entrar em contato com dimensões emocionais que frequentemente são pouco estimuladas em ambientes exclusivamente masculinos. Mulheres podem ampliar sua relação com o pensamento, a assertividade e outras formas de expressão frequentemente associadas ao masculino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung observou que o desenvolvimento psicológico envolve justamente o diálogo entre diferentes dimensões da psique.</p>



<h2 id="h-a-psique-e-uma-realidade-complexa-composta-por-opostos-que-precisam-entrar-em-relacao-jung-2013-p-89" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A psique é uma realidade complexa, composta por opostos que precisam entrar em relação.” (JUNG, 2013, p. 89).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando uma amizade entre homem e mulher consegue sustentar esse diálogo sem reduzir a relação apenas ao campo do desejo, algo bastante interessante acontece. O encontro torna-se um espaço de ampliação da consciência. Duas pessoas, com histórias e experiências diferentes, ajudam uma à outra a perceber aspectos do mundo, e de si mesmas, que talvez permanecessem invisíveis em outros contextos. E talvez seja justamente essa possibilidade de crescimento mútuo que torna algumas dessas amizades tão profundamente significativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um homem e uma mulher desenvolvem uma relação próxima, nem sempre é simples compreender a natureza do vínculo que se estabelece entre eles. A proximidade emocional, o diálogo profundo e a sensação de reconhecimento mútuo podem despertar sentimentos que transitam entre diferentes dimensões da experiência humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em alguns casos, trata-se de amizade genuína. Em outros, o que aparece na relação é a projeção de imagens inconscientes que pertencem à própria psique. A Psicologia Analítica oferece uma chave importante para compreender essa dinâmica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um homem encontra uma mulher que ressoa a Ânima, é comum que ela se torne portadora de qualidades simbólicas que ultrapassam a pessoa concreta. Algo da vida psíquica profunda passa a se projetar sobre ela. O mesmo ocorre, em direção oposta, quando uma mulher projeta aspectos de seu Animus em um homem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesses momentos, a relação pode adquirir uma intensidade particular. Surge uma sensação de fascínio, de profundidade ou de destino compartilhado que parece difícil de explicar apenas em termos racionais. Jung descreveu esse fenômeno de forma bastante direta:</p>



<h2 id="h-onde-reina-a-projecao-da-anima-ali-se-encontra-um-dos-maiores-encantamentos-da-vida-jung-2013-p-28" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“Onde reina a projeção da anima, ali se encontra um dos maiores encantamentos da vida.” (JUNG, 2013, p. 28).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse encantamento, no entanto, possui uma característica importante: ele não pertence exclusivamente ao outro. Grande parte da energia emocional que aparece na relação tem origem na própria psique de quem projeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando essa dinâmica não é reconhecida, a amizade pode facilmente transformar-se em enamoramento. O outro passa a ser percebido como alguém excepcional, quase portador de qualidades extraordinárias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em muitos casos, o que está sendo amado não é exatamente a pessoa real, mas a imagem psíquica que foi projetada sobre ela. Isso não significa que o sentimento seja falso. Pelo contrário, ele pode ser extremamente intenso e transformador. Mas a compreensão desse processo ajuda a perceber que algumas relações possuem uma função psicológica específica. Elas servem como espelhos. Através do outro, a pessoa entra em contato com aspectos da própria alma que permaneciam inconscientes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marie-Louise von Franz descreveu esse processo ao afirmar que as projeções frequentemente desempenham um papel importante no desenvolvimento psicológico.</p>



<h2 id="h-a-projecao-e-uma-tentativa-inconsciente-de-tornar-visivel-algo-que-ainda-nao-foi-reconhecido-na-propria-psique-von-franz-1990-p-98" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A projeção é uma tentativa inconsciente de tornar visível algo que ainda não foi reconhecido na própria psique.” (VON FRANZ, 1990, p. 98).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a projeção começa a se dissolver, algo interessante pode acontecer. A relação pode perder parte da intensidade romântica inicial, mas ganhar uma nova qualidade de consciência. O outro deixa de ser portador de uma imagem idealizada e passa a ser reconhecido como pessoa real, com suas próprias complexidades e limites. É nesse momento que algumas relações se transformam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O enamoramento diminui, mas algo mais estável pode surgir em seu lugar: a amizade. A amizade, nesse sentido, representa um encontro menos dominado por projeções e mais aberto à realidade do outro. Ela não exige que o outro corresponda a uma imagem ideal. Ela permite que duas pessoas se encontrem como realmente são.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente, algumas das amizades mais profundas entre homens e mulheres surgem justamente depois que certas projeções se tornam conscientes. Quando o fascínio inicial se transforma em compreensão, a relação pode adquirir uma qualidade mais tranquila e, ao mesmo tempo, mais verdadeira. Duas pessoas passam a se encontrar sem a necessidade de corresponder às expectativas idealizadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe espaço para diálogo, discordância, aprendizado e crescimento mútuo. Esse tipo de amizade possui uma força particular porque não depende da idealização. Ela nasce da experiência compartilhada de reconhecer a humanidade do outro. Neste sentido, a amizade pode representar um estágio mais maduro do encontro entre masculino e feminino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não porque o desejo desapareça completamente, mas porque ele deixa de dominar a relação. A presença do outro continua sendo significativa, mas não exige que a relação se transforme em algo que talvez não corresponda ao caminho de cada um. E quando isso acontece, a amizade torna-se um espaço de liberdade. Duas pessoas podem caminhar lado a lado, compartilhando ideias, experiências e reflexões, sem que a relação precise assumir uma forma predeterminada.</p>



<h2 id="h-e-talvez-seja-justamente-essa-liberdade-que-torna-algumas-amizades-entre-homens-e-mulheres-tao-raras-e-tao-preciosas-talvez-uma-das-maiores-dificuldades-da-cultura-contemporanea-seja-reconhecer-que-o-amor-pode-assumir-formas-diferentes-daquelas-que-estamos-acostumados-a-imaginar" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">E talvez seja justamente essa liberdade que torna algumas amizades entre homens e mulheres tão raras e tão preciosas. Talvez uma das maiores dificuldades da cultura contemporânea seja reconhecer que o amor pode assumir formas diferentes daquelas que estamos acostumados a imaginar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas narrativas sociais ainda sugerem que a proximidade profunda entre duas pessoas precisa necessariamente conduzir ao relacionamento amoroso. Quando isso não acontece, surge a impressão de que algo ficou incompleto ou mal resolvido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, a experiência humana mostra que algumas relações encontram sua forma mais verdadeira justamente fora do modelo romântico. A amizade pode ser uma dessas formas. Quando duas pessoas conseguem sustentar um vínculo baseado em respeito, diálogo e reconhecimento mútuo, sem que a relação precise se tornar possessiva ou exclusiva, algo raro acontece. O encontro deixa de ser dominado pela necessidade de possuir o outro. Ele se torna um espaço de liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista da Psicologia Analítica, essa possibilidade está relacionada ao amadurecimento da relação com as projeções inconscientes. À medida que imagens idealizadas se dissolvem, o outro deixa de ser portador de expectativas psíquicas e passa a ser percebido como indivíduo real.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung observou que o desenvolvimento psicológico envolve justamente essa capacidade de reconhecer a alteridade.</p>



<h2 id="h-a-relacao-verdadeira-com-o-outro-so-se-torna-possivel-quando-as-projecoes-sao-retiradas-jung-2013-p-132" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><em>“A relação verdadeira com o outro só se torna possível quando as projeções são retiradas.” (JUNG, 2013, p. 132).</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando isso acontece, a relação ganha uma nova qualidade. A presença do outro continua sendo significativa, mas já não precisa corresponder a uma imagem idealizada ou a um papel previamente definido. Duas pessoas podem simplesmente compartilhar experiências, pensamentos e momentos da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse tipo de vínculo não elimina as tensões naturais da relação entre masculino e feminino. Pelo contrário, reconhece sua existência sem permitir que elas determinem completamente o destino da relação. Existe espaço para admiração, para troca intelectual, para aprendizado mútuo. Existe espaço, sobretudo, para o reconhecimento de que cada pessoa permanece sendo um mistério. Conhecer alguém nunca é um processo completo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais longa que seja uma amizade, sempre haverá aspectos da interioridade do outro que permanecem inacessíveis. Cada ser humano carrega dentro de si uma história, uma imaginação e uma profundidade que não podem ser totalmente traduzidas. Talvez seja justamente essa dimensão de mistério que torna os encontros humanos tão significativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eles nos lembram que a vida não é apenas um conjunto de informações organizadas, mas uma experiência compartilhada entre consciências que se encontram. Algumas dessas relações tornam-se breves. Outras permanecem ao longo dos anos. E algumas, silenciosamente, participam do Processo de Individuação de ambos os envolvidos. Não porque tenham sido planejadas para isso. Mas, porque, no encontro entre duas histórias, algo da alma encontra espaço para se reconhecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez seja isso que realmente significa conhecer alguém. Não dominar sua história. Não compreender completamente sua interioridade. Mas permanecer aberto ao mistério que cada pessoa traz consigo e permitir que esse encontro transforme, ainda que discretamente, o curso da própria vida.</p>



<h2 id="h-e-voce-tem-cuidado-das-suas-amizades-tem-cultivado-elas" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">E você tem cuidado das suas amizades, tem cultivado elas?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Boas reflexões!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/">Ms. Natalhe Vieni – Analista Didata em Formação</a></strong></p>



<h2 id="h-esp-gabriel-yamaya-analista-em-formacao" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gabriel-yamaya/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/gabriel-yamaya/">Esp. Gabriel Yamaya – Analista em Formação</a></h2>



<h2 id="h-dra-simone-magaldi-didata-e-fundadora-do-ijep" class="wp-block-heading" style="font-size:17px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. Simone Magaldi – Didata e Fundadora do IJEP</a></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação:</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: O que significa realmente conhecer alguém?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/XogJZwz142g?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:19px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</strong>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>O eu e o inconsciente</strong>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>A natureza da psique</strong>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>A prática da psicoterapia</strong>. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. <strong>A grande mãe: um estudo fenomenológico das constituições femininas do inconsciente</strong>. São Paulo: Cultrix, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <strong>A interpretação dos contos de fadas</strong>. São Paulo: Paulus, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <strong>O processo de individuação</strong>. In: JUNG, C. G. (Org.). <em>O homem e seus símbolos</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James. <strong>A passagem do meio: da crise à individuação</strong>. São Paulo: Paulus, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. <strong>Sociedade do cansaço</strong>. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
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		<title>As aventuras do Seu Albo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/as-aventuras-do-seu-albo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2026 14:44:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[albedo]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[nigredo]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[rubedo]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12894</guid>

					<description><![CDATA[<p>"O ‘homem sem sombra’, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo."</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-prologo" style="font-size:20px">Prólogo</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>O ‘<strong>homem sem sombra</strong>’, com efeito, é o tipo humano estatisticamente mais comum, alguém que acredita ser apenas aquilo que gostaria de saber a respeito de si mesmo</em>.</p><cite>C.G. JUNG, OC 8/2, §409</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Seu Albo era uma figura conhecida na região. Se autodefinia como uma pessoa muito correta, com retidão de caráter e convicto de que era contra qualquer tipo de maldade. Uns diziam que ele tinha 30 anos, outros uns 60, mas todos sabiam que seu nome era Albo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em um dia de folga, sempre acompanhado de suas convicções, andava displicentemente pelas ruas de sua cidade quando viu jovens vestidos com roupas estravagantes:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Essa juventude está perdida! – disse a si mesmo, vestindo sua sandália com meias sociais, short bege e camisa florida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mais alguns metros de caminhada e, surpresa, encontrou um amigo da juventude.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Grande amigo! Você viu a pouca vergonha que está neste país? Estão destruindo nosso bem maior: a família! – disse Albo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O pai de Albo tinha sido alcoólatra e, antes de morrer precocemente, teve diversos episódios de violência contra sua mãe. Já Seu Albo já tinha se separado três vezes, contudo, segundo ele, isso se deu porque elas não eram boas mulheres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Verdade Albo, esse mundo está perdido – respondeu o amigo, dando aquelas respostas tão óbvias e esperadas que só perdem em automatismo e irreflexão para quando levamos um tombo e tentamos nos proteger com as mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Bom te ver amigo! Precisamos marcar alguma coisa – naturalmente que na cabeça do Seu Albo essa “alguma coisa” era algum encontro fortuito numa casa de prostituição qualquer; normal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-continuou-sua-caminhada-e-nela-ficava-a-refletir-sobre-muitas-situacoes-da-vida-por-exemplo-como-as-pessoas-eram-egoistas-como-ninguem-respeitava-mais-nada-como-este-pais-estava-jogado-as-tracas-como-os-valores-sabe-se-la-do-que-tinham-sido-perdidos-e-como-ninguem-percebia-isso" style="font-size:18px">Continuou sua caminhada, e nela ficava a refletir sobre muitas situações da vida, por exemplo: como as pessoas eram egoístas, como ninguém respeitava mais nada, como este país estava jogado às traças, como os valores (sabe-se lá do que) tinham sido perdidos e como “ninguém” percebia isso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Acidentalmente e distraidamente, Seu Albo entrou numa ciclovia, e por pouco não foi atropelado por uma bicicleta. Ficou muito irritado!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Quem você pensa que é? – Vociferou contra o ciclista!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sou um ciclista, pedalando uma bicicleta, na ciclovia, que é uma via feita para ciclistas pedalarem suas respectivas bicicletas&#8230; – respondeu.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E você sabe com quem está falando? – Carteirou (?).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sei&#8230; com um “albo” – disse o ciclista em voz baixa e voltou à sua pedalada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas não passou de um susto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-seu-albo-voltou-para-sua-casa-e-resolveu-dar-uma-volta-de-carro-poucos-metros-dirigindo-e-ele-quase-atropelou-uma-pessoa-que-atravessava-na-faixa-de-pedestres" style="font-size:18px">Seu Albo voltou para sua casa e resolveu dar uma volta de carro. Poucos metros dirigindo e ele quase atropelou uma pessoa que atravessava na faixa de pedestres.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Você endoideceu de atravessar desse jeito? – buzinou e berrou em seguida!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-num-mix-de-susto-e-alivio-a-pessoa-continuou-sua-caminhada-em-silencio-apenas-murmurou-albo" style="font-size:18px">Num mix de susto e alívio, a pessoa continuou sua caminhada em silêncio. Apenas murmurou “albo”&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Essas pessoas que não prestam atenção por onde andam me tiram do sério – disse Albo a si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dirigiu seu carro até o local onde praticava sua religião. Seu Albo a praticava com muito fervor e devoção. Sempre dizia que ter fé era essencial e que Deus só sabia fazer o bem. Por outro lado, ele não entendia como outras pessoas poderiam praticar religiões diferentes da sua, ou como podiam praticar uma religião menos evoluída que a sua: “Só pode ser coisa do diabo”, falava regularmente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-jovem-colega-desse-espaco-religioso-aparentemente-demonstrando-sensatez-se-incomodou-com-as-falas-de-albo" style="font-size:18px">Um jovem colega desse espaço religioso, aparentemente demonstrando sensatez, se incomodou com as falas de Albo:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo, de onde raios você tirou que uma religião que é diferente da sua só pode ser coisa do diabo ou algo que o valha?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Meu filho, – usando o termo “filho” num tom que misturava acolhimento e soberba – você ainda vai aprender. Deus é bom, logo, essas coisas ruins que vemos das outras religiões só podem ser coisas do diabo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Na perspectiva religiosa, quem criou o mundo, Seu Albo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Deus, é claro!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Bem, e isso inclui seres vivos, entidades e figuras históricas, certo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Evidente!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Então Deus criou o diabo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Não seja ingênuo, filho. Deus não é culpado pela criação do diabo. A maldade vem do livre-arbítrio que Deus outorgou – quis usar uma palavra difícil para parecer culto – aos seres humanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Se Deus criou tudo, o livre-arbítrio e o mal não seriam uma criação de Deus?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Filho, é muito difícil conversar com você. Para seu governo, saiba que algumas das minhas crenças foram até comprovadas cientificamente!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo, mas se foi comprovado cientificamente, será que isso não deixou de ser uma experiência de fé? A fé que eu aprendi na mesma religião que praticamos, é aquela que contempla a dúvida, que caminha na incerteza e que é guiada por princípios éticos, que independem de uma comprovação concreta, senão da própria experiência sagrada e individual que qualquer pessoa pode ter. Isso é muito diferente daquilo que hoje chamamos de “cientificamente”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Quanta bobagem! Deixemos essa conversa para quando você conseguir argumentar, entender o que é Deus e o que fé, vai ler – e saiu, cheio de dúvidas, mas sem dar chance ao inquisidor, assim Seu Albo o considerava, continuar seus argumentos “vazios” (?).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-o-jovem-achou-interessante-que-seu-albo-ja-tivesse-entendido-o-que-era-deus" style="font-size:18px">Já o jovem achou interessante que Seu Albo já tivesse entendido o que era Deus&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Algum tempo passou e Seu Albo foi tomado por uma angústia. Não sabia descrevê-la muito bem, mas estava muito introspectivo, de poucas palavras, às vezes até chorava “escondido” em sua casa. Percebeu que ele tinha que mudar algumas atitudes em sua vida. Começou a se dar conta que por vezes tinha uma postura radical ou inflexível, até mesmo arrogante. Constatou pela sua própria reflexão que precisava mudar e colocar essas mudanças em prática. Soube que usar pronomes neutros era uma nova forma de se comunicar, muito mais inclusiva e que provavelmente o deixaria menos radical ou intransigente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Agora uso pronomes neutros! Assim consigo englobar todas as pessoas quando me referir a elas – comentou com um conhecido do bairro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Seu Albo&#8230; a expressão “todas as pessoas” já não é neutra e inclusiva?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; A neutralidade está em você usar pronomes que incluam pessoas de qualquer orientação sexual ou gênero.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E se falo “todos”, não faço isso?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Coisas do patriarcado – bufou. – Você não sabe nada de inclusão! Sou inclusivo!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Mas posso falar “todos”?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Fale o que quiser, mas isso não é inclusivo!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Então estou excluído da sua lista de que é ser inclusivo?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; De certa forma, sim!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Você acabou de dizer que era inclusivo, mas me excluiu&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Claro que sou inclusivo! Inclusivo e diverso! Veja só: na empresa que eu trabalho fizemos programas de diversidade. Agora usamos pronomes neutros, temos programas de liderança feminina, temos projetos para PcDs, coitados (?)! Chamamos até uma monja budista para dar uma palestra aos funcionários.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Muito bacana essa iniciativa! Penso que a ideia de diversidade também passa pela ideia de diversidade religiosa, algo que é muito bonito e potente aqui no Brasil. Que tal chamarem um Pastor ou uma Mãe de Santo para uma palestra na próxima vez?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Não&#8230; Daria muita polêmica – disse Seu Abo tentando sair do assunto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Você não é inclusivo e diverso? – retrucou o homem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixa-eu-te-explicar-usou-essa-expressao-para-ganhar-tempo-pois-na-pratica-nao-sabia-o-que-falar-continuou" style="font-size:18px">&#8211; Deixa eu te explicar&#8230; – usou essa expressão para ganhar tempo pois, na prática, não sabia o que falar. Continuou:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211;&nbsp; Eu era uma pessoa muito extrema, mas agora sou mais flexível. Por isso resolvi virar inclusivo – Seu Albo era conhecido na empresa em que trabalhava por ser um líder incoerente e sempre com ideias que emergiam de última hora. Não raro a equipe tinha que trabalhar muitas horas além do expediente normal para operacionalizar suas ideias “diversas” e “inclusivas”, que não consideravam nem excesso de horas trabalhas, nem uma vida saudável na relação com o trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sei, e o que mais faz? – indagou seu conhecido do bairro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sou uma pessoa boa, faço as coisas certas, sou ético! Ajudo as pessoas, especialmente as da minha equipe – ao falar isso se lembrou de quando um de seus funcionários lhe confidenciou algo muito particular e, no dia seguinte, boa parte da equipe abordou esse funcionário para tratar do tema. O funcionário, consternado, indagou Seu Albo em seguida, ao passo que ele disse que não tinha falado “com ninguém”, só com outra pessoa da equipe, mas que o fez apenas querendo ajudar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Teve até uma vez que depois de eu tentar ajudar uma pessoa com a maior das boas vontades, ela pediu demissão e teve a pachorra de falar que eu a expus – contou ao conhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sei quem é essa pessoa Seu Albo, e até onde eu soube, ela foi exposta mesmo – afirmou o conhecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Ela é uma mal-agradecida, isso sim! – grasnou.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-caminhar-da-jornada-da-vida-seu-albo-se-tornou-ativista-critico-do-consumismo-vazio-e-resolveu-se-envolver-com-pautas-ambientais-embora-fizesse-questao-de-usar-seu-carro-movido-a-combustivel-fossil-pois-segundo-ele-nao-queria-dirigir-um-carrinho-de-golfe-anabolizado" style="font-size:18px">No caminhar da jornada da vida, Seu Albo se tornou ativista, crítico do consumismo vazio e resolveu se envolver com pautas ambientais, embora fizesse questão de usar seu carro movido a combustível fóssil, pois, segundo ele “não queria dirigir um carrinho de golfe anabolizado”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Agora também não consumo carne por uma motivação muito clara: sou a favor do bem-estar animal – disse com alegria!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E consumir carne é sinônimo de sofrimento animal, Seu Albo? – indagou um colega de trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Claro! Animais também merecem ser bem tratados. Amo cachorros – Seu Albo se esquecera que a poucos anos atrás tinha feito uma cirurgia que o livrou de um problema de saúde mais grave, e que praticamente todas as cirurgias que hoje são feitas em seres humanos, eram, e continuam sendo, desenvolvidas com pesquisas que utilizam animais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-dessas-falas-e-ou-comportamentos-a-angustia-parecia-acompanha-lo" style="font-size:18px">Apesar dessas falas e/ou comportamentos, a angústia parecia acompanhá-lo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Certo dia teve um sonho. Nele via pessoas nadando e se chafurdando numa piscina ou poço de lama, não sabia muito bem quem eram, mas lhe pareciam muito familiares, embora não conseguisse descrever seus rostos. Claramente se divertiam com aquilo, como se fosse uma brincadeira. Mas o que aquela lama parecia mesmo era cocô. Ele não sabia explicar como aquilo parecia legal e empolgante. Era uma verdadeira esbórnia de merda. Quis participar também. Caminhou em direção à piscina/poço. Quando foi pular, acordou.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Finalmente, resolveu procurar por análise. Disseram-lhe que a análise junguiana era muito boa, pois trabalharia questões mais profundas e lá seus sonhos seriam investigados em detalhes. Levou a sério e logo teve seu primeiro encontro com o terapeuta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Sabe Analista, sou uma pessoa muito resiliente! O problema é que as pessoas têm inveja de mim.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; E o que você tem de invejável?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Eu sou uma pessoa boa, faço as coisas certas, sou ético, respeito as pessoas, protejo o meio-ambiente e os animais, sou inclusivo e diverso, defendo a religião e a fé. Não tenho político de estimação, família para mim é sagrada e meus valores são inegociáveis. Minha vida vai muito bem. O problema são as pessoas que questionam minhas falas e meus comportamentos&#8230; Elas não me entendem!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; O problema são as pessoas&#8230; entendi. De quais pessoas estamos falando?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; De quase todas as quais eu me relaciono ou me relacionei de alguma forma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Todas é muita coisa, não?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Na verdade, acho que só tem uma &#8211; os olhos da Albo lacrimejaram, e continuou:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8211; Eu! Eu não me entendo. E às vezes acho que sou um merda.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por qualquer acaso da vida, este texto caiu nas mãos de Seu Albo, que o leu atentamente. Ao terminar, apenas disse a si mesmo:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nossa-tenho-um-amigo-que-e-exatamente-assim" style="font-size:18px">&#8211; Nossa, tenho um amigo que é exatamente assim.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8212;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-epilogo" style="font-size:22px">Epílogo</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Muitas vezes é trágico ver como uma pessoa estraga de modo evidente &nbsp;a própria vida e a dos outros, e como é incapaz de perceber até que ponto essa tragédia parte dela e é&nbsp; alimentada progressivamente por ela mesma. Não é a sua consciência que o faz, pois esta lamenta e amaldiçoa o mundo desleal que dela se afasta cada vez mais. Pelo contrário, é um fator inconsciente que trama as <strong>ilusões que encobrem o mundo e o próprio sujeito</strong>” </em>(OC 9/2, §18).</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O <strong>retorno ao caos</strong> era considerado pelos alquimistas como uma parte da obra. E o estado da nigredo (negrura) e mortificatio (mortificação, morte), seguido do ignis purgatorii (fogo do purgatório ) e da albedo (alvura). O espírito do caos é indispensável para a obra [&#8230;]. O inconsciente é bom e mau, ou nem bom nem mau. Ele é a mãe de todas as possibilidades”</em> (OC 14/1, §247).</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Entre os alquimistas, o Paraíso é um símbolo popular do albedo (alvura), isto é, do estado de <strong>inocência readquirido</strong>&#8230;”</em> (OC 9/2, §373).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-termos-psiquicos-a-albedo-so-cumpre-com-seu-objetivo-alquimico-quando-compoe-um-par-de-opostos-com-a-nigredo-levando-de-maneira-consequente-a-citrinitas-amarelecimento-e-em-seguida-a-rubedo-vermelhidao-que-e-um-simbolismo-da-sintese-dos-opostos" style="font-size:18px">Em termos psíquicos, a <em>albedo</em> só cumpre com seu objetivo alquímico quando compõe um par de opostos com a nigredo, levando de maneira consequente à <em>citrinitas</em> (amarelecimento) e em seguida à <em>rubedo</em> (vermelhidão), que é um simbolismo da síntese dos opostos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Do contrário, uma pessoa “alba” será aquela que vive sua fantasia paradisíaca de si mesma, composta pelas próprias verdades, circunscrita ao conhecimento dos padrões típicos e mais aprazíveis do ego, como se esse fosse toda a psique. Ela chamará a isso de “autoconhecimento”. Em suma, uma pessoa “alba” será aquela que viverá uma suposta “clareza” dos limites da consciência, como se esta fosse sua totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Albo</em>: (do latim), claro, branco. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/rafaelrodrigues/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/rafaelrodrigues/">Rafael Rodrigues de Souza &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>O Olhar que Cria e o Olhar que Destrói: Os Efeitos Pigmaleão e Golem na Clínica e na Vida</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-olhar-que-cria-e-o-olhar-que-destroi-os-efeitos-pigmaleao-e-golem-na-clinica-e-na-vida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Monica Martinez]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 10:42:27 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O olhar que recebemos pode expandir a vida psíquica — ou restringi-la. Neste artigo, exploramos como as expectativas do outro moldam profundamente a experiência humana, articulando dois conceitos da psicologia social: o Efeito Pigmaleão, que eleva, e o Efeito Golem, que rebaixa. A partir de mitos, pesquisas clássicas e da clínica junguiana, refletimos sobre o poder criativo ou destrutivo do olhar que incide sobre o sujeito. No setting analítico, essa dinâmica se manifesta na forma como o terapeuta sustenta — ou limita — a emergência do Self. Enquanto o olhar pigmaleônico favorece o florescimento da potência psíquica, o olhar golem pode cristalizar defesas, sintomas e identificações empobrecidas. O texto convida, assim, a uma pergunta ética e clínica fundamental: que imagem ajudamos a esculpir no outro — e em nós mesmos? Afinal, o olhar que reconhece o “suficientemente bom” não apenas vê: ele cria condições para que a vida se torne mais inteira.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O olhar que recebemos pode expandir a vida psíquica — ou restringi-la. Neste artigo, exploramos como as expectativas do outro moldam profundamente a experiência humana, articulando dois conceitos da psicologia social: <strong>o Efeito Pigmaleão, que eleva, e o Efeito Golem, que rebaixa</strong>. A partir de mitos, pesquisas clássicas e da clínica junguiana, refletimos sobre o poder criativo ou destrutivo do olhar que incide sobre o sujeito. No setting analítico, essa dinâmica se manifesta na forma como o terapeuta sustenta — ou limita — a emergência do Self. Enquanto o olhar pigmaleônico favorece o florescimento da potência psíquica, o olhar golem pode cristalizar defesas, sintomas e identificações empobrecidas. O texto convida, assim, a uma pergunta ética e clínica fundamental: <strong>que imagem ajudamos a esculpir no outro</strong> — e em nós mesmos? Afinal, o olhar que reconhece o “suficientemente bom” não apenas vê: ele cria condições para que a vida se torne mais inteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na jornada da individuação, o campo analítico presta atenção à psicodinâmica junguiana (2012), buscando tornar conscientes complexos internos — como o parental — e sombras, com suas riquezas e pobrezas. Ainda assim, grande parte das demandas que emergem no setting terapêutico diz respeito à experiência de não ter sido verdadeiramente visto, ouvido ou acolhido, revelando que o sofrimento humano também nasce da qualidade do olhar que recebemos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Partindo dessa constatação, propomos aprofundar uma reflexão essencial: somos moldados não apenas pela arquitetura interna da psique, mas também pelas expectativas que o outro projeta sobre nós — e que, inevitavelmente, passamos a projetar sobre nós mesmos. Nesse sentido, dois conceitos da psicologia social ilustram com precisão esse movimento criativo ou destrutivo: o Efeito Pigmaleão e o Efeito Golem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-forca-de-pigmaleao-a-profecia-que-eleva" style="font-size:22px"><strong>A Força de Pigmaleão: A Profecia que Eleva</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O Efeito Pigmaleão, também chamado de Profecia Autorrealizável, descreve como expectativas positivas podem elevar o desempenho de alguém. Quando se acredita no potencial de uma pessoa, o comportamento naturalmente se ajusta para facilitar que esse potencial floresça.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O mito de <em>Pigmaleão </em>narra o amor do escultor por sua criação, Galateia, a quem Afrodite concede vida. Essa metáfora, transposta para a ciência por <strong>Rosenthal</strong> e <strong>Jacobson</strong> (1968), inspirou um experimento marcante: alunos de uma escola primária na Califórnia fizeram um teste de QI no início do ano. Os pesquisadores informaram aos professores que 20% das crianças haviam obtido resultados excepcionalmente altos e que, portanto, deveriam demonstrar grande avanço acadêmico. Apenas os docentes receberam essa informação; os alunos não.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No término do ano letivo, todas as crianças refizeram o teste — e aqueles 20% apresentaram progresso significativamente maior. Contudo, esse grupo havia sido escolhido aleatoriamente: não eram mais capazes; foram apenas percebidos como tal. Os pesquisadores concluíram que, ao acreditarem que certas crianças teriam desempenho superior, os professores passaram a tratá-las de forma mais encorajadora, receptiva e estimulante, criando um clima de confiança e entusiasmo que colaborou diretamente para seu desenvolvimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na clínica junguiana, essa dinâmica ecoa a postura do analista ao enxergar o “Ouro na Sombra”. Ao sustentar a crença na capacidade autorreguladora da psique, o terapeuta funciona como um Pigmaleão que empresta estrutura para que o Self possa emergir com maior vitalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-efeito-golem-o-barro-da-desvalorizacao" style="font-size:22px"><strong>O Efeito Golem: O Barro da Desvalorização</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Se Pigmaleão é a profecia que eleva, o Efeito Golem é o seu &#8220;gêmeo sombrio&#8221;, representando a profecia que rebaixa. Expectativas negativas podem ser tão influentes quanto as positivas — porém, produzindo queda real em sua autoestima e segurança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O termo remete à lenda judaica do Golem de Praga: um ser de barro trazido à vida por um rabino para proteger a comunidade. Embora tenha sido criado para o bem, o Golem é uma criatura sem alma, bruta e puramente obediente, que acaba se tornando destrutiva e incontrolável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-referencia-lembra-nos-de-que-expectativas-empobrecidas-criam-versoes-igualmente-empobrecidas-do-outro" style="font-size:19px">A referência lembra-nos de que expectativas empobrecidas criam versões igualmente empobrecidas do outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Quando alguém é observado com desconfiança ou baixa expectativa, tende a incorporar essa imagem como verdade. Em consequência, cristaliza defesas e contrai sua capacidade criativa</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O estudo <em>Pygmalion, Galatea, and the Golem</em> (Babad, Inbar e Rosenthal, 1982) mostrou que professores mais suscetíveis ao viés tratavam como menos capazes os alunos considerados de baixo potencial, ao passo que favoreciam aqueles vistos como promissores — mesmo quando essa distinção era inventada. Os efeitos Golem foram especialmente evidentes entre docentes mais dogmáticos, enquanto professores imparciais mantiveram tratamento equilibrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na clínica, <strong>o Golem aparece de formas sutis:</strong> o terapeuta oferece menos tempo para respostas, reage mais aos erros do que aos acertos, reduz desafios por acreditar que o analisando “não dará conta” ou fixa-se excessivamente nos sintomas, ignorando a saúde latente. Se o analista enxerga apenas patologia, por exemplo, o paciente tende a identificar-se com a doença. Quando o analisando percebe — mesmo inconscientemente — que está sendo visto como incapaz, pode passar a agir segundo essa imagem, confirmando o preconceito inicial. Por outro lado, quando o terapeuta sustenta a visão da potência vital, ajuda o indivíduo a acessar recursos internos que talvez estejam adormecidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Simbolicamente, o Efeito Golem pode manifestar-se também como o Crítico Interno implacável, que converte o “vinho da vida” em algo sem valor, impedindo o indivíduo de habitar plenamente sua existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-responsabilidade-do-olhar" style="font-size:22px"><strong>A Responsabilidade do Olhar</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esse mecanismo pode ser resumido em quatro etapas: o que acreditamos sobre alguém determina como agimos em relação a essa pessoa; nossas ações influenciam diretamente seu comportamento; a resposta do outro retroalimenta nossas crenças iniciais; e assim criamos um ciclo que pode expandir ou limitar a vida psíquica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-o-analista-junguiano-reconhecer-essa-dinamica-amplia-a-consciencia-da-cotransferencia-e-das-manifestacoes-contratransferenciais" style="font-size:19px">Para o analista junguiano, reconhecer essa dinâmica amplia a consciência da cotransferência e das manifestações contratransferenciais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É crucial perguntar: estamos atuando como Pigmaleão, invocando vida, ou como Golem, endurecendo a psique do outro com nossas projeções? A noção winnicottiana de “suficientemente bom” torna-se essencial, pois quando o terapeuta sustenta essa medida justa, permite que a realidade psíquica se reorganize rumo à totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O maior perigo, portanto, não é o fracasso, mas a desvalorização do “suficientemente bom”. O Efeito Golem também pode ser dirigido a si mesmo — o Autogolem — quando o próprio terapeuta minimiza seus avanços por compará-los a um ideal inalcançável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Devemos nos perguntar continuamente: que “estátua” estamos ajudando nossos analisandos a esculpir? Estamos oferecendo o olhar de Pigmaleão (potência) ou de Golem (insuficiência)? Nosso olhar abre caminhos ou restringe possibilidades? Como terapeutas, também somos humanos e carregamos limites que precisam ser elaborados em análise e supervisão. Reconhecer esses limites permite, inclusive, encaminhar analisandos quando necessário, garantindo que recebam o olhar mais apropriado à sua jornada.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: O Olhar que Cria e o Olhar que Destrói: Os Efeitos Pigmaleão e Golem na Clínica e na Vida" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/VYqlhntsjfQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/monicamartinez/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/monicamartinez/">Monica Martinez &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Babad, E. Y., Inbar, J., &amp; Rosenthal, R. Pygmalion, Galatea, and the Golem: Investigations of biased and unbiased teachers.&nbsp;<strong>Journal of Educational Psychology</strong><em>, 74</em>(4), 459–474, 1982.&nbsp;Disponível em: <a href="https://psycnet.apa.org/doi/10.1037/0022-0663.74.4.459" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://doi.org/10.1037/0022-0663.74.4.459</a>. Acesso em: 12 fev. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique (OC 8/2)</strong>. 9. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rosenthal, R., Jacobson, L. Pygmalion in the classroom.&nbsp;<strong>Urban Rev</strong>&nbsp;3, 16–20, 1968. Disponível em: <a href="https://doi.org/10.1007/BF02322211">https://doi.org/10.1007/BF02322211</a>. Acesso em: 12 fev. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2026 16:43:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/">Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Resumo:</em><strong><em> </em></strong><em>Vivemos numa época em que o sexo circula com facilidade, imagens se oferecem explicitamente e sem resistência, e o prazer parece ao alcance das mãos facilitado pela projeção das telas. Um excesso de auto estímulo e de facilidades faz com que algo nos encontros reais se perca. Há um esvaziamento de Eros. Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Num flerte entre a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a filosofia contemporânea de Byung-Chul Han, o texto infere no vício em pornografia como fenômeno psíquico e cultural. Desnudamos Narciso, sombra, anima e projeção como cena imagética para revelar como a excitação compulsiva e compulsória pode coexistir com a dor e desconexão da alma, e o empobrecimento da intimidade (minha e do outro). Um convite para pensar o desejo desejante que se retroalimenta como sofrimento e a tela como extensão projetiva da dor psíquica que aponta o que está oculto no inconsciente.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexo-e-bom-e-muita-gente-gosta" style="font-size:20px">Sexo é bom e muita gente gosta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O erotismo faz parte da saúde sexual, emocional, mental e afetiva. “Transar”, fazer amor, “pegar alguém” faz parte do cotidiano e não deveria ser um tabu na contemporaneidade. Quando estamos num relacionamento, nos sentimos conectados e desejados, a sexualidade surge como uma linguagem natural da intimidade. Quando fluído e consensual, uma vida sexual ativa ajuda na melhora da autoestima, na reconexão com o prazer e afetos, alivia o estresse, melhora a criatividade e sensação de bem-estar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Rita Lee</strong>, em sua música <strong>Amor e Sexo</strong>, traz uma reflexão sobre este tema tão desejado, e ressalta com beleza poética a diferença complementar entres esses dois mundos: <strong>Amor é um livro / Sexo é esporte / Sexo é escolha / Amor é sorte</strong>. E se o sexo é esporte, a masturbação surge como braço integrante desta mesma sinfonia. É quando nos tornamos, ao mesmo tempo, amante e amado; em que descobrimos o ritmo do próprio desejo e a autonomia sobre o prazer. Neste autoerotismo saudável, aprendemos a habitar a nossa própria pele antes de nos entregar à pele do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, é justamente na fronteira entre o conhecer-se e o perder-se que o cenário contemporâneo nos impõe um novo desafio. Quando o toque deixa de ser uma exploração dos sentidos para se tornar um refúgio mecânico diante de uma tela, o que era para ser descoberta pode se transformar em uma perda sombria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-dados-divulgados-pelo-site-pornhub-o-brasil-ocupa-o-4º-lugar-entre-os-paises-que-mais-acessam-conteudo-pornografico-no-mundo-a-frente-aparecem-estados-unidos-mexico-e-filipinas-que-compoem-o-top-tres-global-fonte-correio-brasiliense-2025" style="font-size:18px">Segundo dados divulgados pelo site Pornhub, o Brasil ocupa o 4º lugar entre os países que mais acessam conteúdo pornográfico no mundo. À frente aparecem Estados Unidos, México e Filipinas, que compõem o top três global (Fonte: Correio Brasiliense, 2025).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se a masturbação pode ser compreendida como ensaio do prazer, a pornografia assume o papel da projeção da fantasia. As imagens oferecem roteiros prontos, intensificam estímulos e prometem facilitar o acesso ao gozo, reorganizando o ritmo do desejo em torno da rapidez, da repetição e da escalada visual. A pornografia permite acessar o inconfessável, a experimentar o prazer indizível, revela aquilo que é mais obscuro e até incompreendido do ser. Estimular-se usando as fantasias pornográficas passa a ser problema quando o consumo se torna compulsivo e interfere na economia psíquica, ao deslocar o erotismo da vivência para uma relação predominantemente imagética e solitária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A compulsão por pornografia é entendida como uma manifestação do Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo (TCSC), caracterizada pelo consumo repetitivo, excessivo e incontrolável de conteúdo pornográfico, resultando em prejuízos significativos para o funcionamento psicológico, social, profissional ou ocupacional da pessoa (WERY; BILLIEUX, 2017). </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diferente do uso recreativo, o vício se revela quando o prazer dá lugar a um padrão persistente e fora de controle, onde a vontade de parar não encontra eco na ação, e as horas se perdem na solidão do quarto e no brilho da tela. Essa condição se distancia da ludicidade pelo seu caráter de prisão, e se manifesta na tentativa frustrada de silenciar o hábito, no tempo excessivo e na insistência em um caminho que o próprio indivíduo já reconhece como prejudicial, mas do qual não consegue mais se desviar sozinho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-vez-mais-cedo-criancas-e-adolescentes-entram-em-contato-com-pornografia-impulsionados-pela-facilidade-da-internet-e-ausencia-efetiva-de-barreiras-etarias-no-ambiente-digital" style="font-size:18px">Cada vez mais cedo, crianças e adolescentes entram em contato com pornografia impulsionados pela facilidade da internet e ausência efetiva de barreiras etárias no ambiente digital.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil indicam que uma significativa parcela das crianças iniciou o uso da internet aos 6 anos de idade ou antes (CETIC.br, 2023). Essa precocidade amplia a exposição a riscos digitais, entre eles experiências ofensivas ou perturbadoras, relatadas por uma proporção expressiva de usuários entre 9 e 17 anos, conforme apontam os indicadores da pesquisa (CETIC.br, 2023). Nesse contexto, o primeiro contato com a sexualidade tende a ser desassistida e incide com maior frequência sobre meninos. Aquilo que deveria ser sustentado pela família, escola e sociedade no campo da educação sexual é substituído por um acesso clandestino a encenações exageradas, de relações performáticas e esvaziadas de afeto, sem erotismo saudável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-o-consumo-pornografico-adquire-densidade-simbolica-quando-entendido-como-meio-de-projecao-do-inconsciente" style="font-size:18px">À luz da Psicologia Analítica, o consumo pornográfico adquire densidade simbólica quando entendido como meio de projeção do inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (OC 6, §554) define projeção como <em>“um fato inconsciente, não submetido a controle consciente</em>”, um mecanismo pelo qual conteúdos psíquicos são deslocados para objetos externos, passando a ser percebidos como qualidades do outro e não como pertencentes ao próprio sujeito (OC 6; §862). Também afirma que certas projeções “pertencem à esfera da sombra, isto é, o lado obscuro da própria personalidade” (OC 9/2, §19). Importante ressaltar que, para Jung (OC 9/2, §14), “a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-ousamos-dizer-que-quando-a-pornografia-se-torna-a-unica-maneira-possivel-de-se-chegar-ao-orgasmo-dialogamos-com-um-comportamento-narcisista" style="font-size:18px">Então ousamos dizer que, quando a pornografia se torna a única maneira possível de se chegar ao orgasmo, dialogamos com um comportamento narcisista.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa provocação se ancora no mito de Narciso que, ao permanecer fixado na contemplação do seu reflexo na água, acaba se afogando em sua projeção. Nesse contexto, a pornografia funciona como uma muleta do autoerotismo, na qual o indivíduo só consegue alcançar o gozo por meio das imagens projetadas nas cenas, deslocando a experiência erótica da relação com o outro para um circuito autorreferenciado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-e-importante-entender-a-especificidade-da-busca-compulsiva-do-tema-pornografico-e-qual-a-simbologia-esta-contida-por-tras-da-cena-pois-ela-oferece-uma-superficie-imagetica-que-acolhe-os-conteudos-sombrios" style="font-size:18px">Por isso é importante entender a especificidade da busca compulsiva do tema pornográfico e qual a simbologia está contida por trás da cena, pois ela oferece uma superfície imagética que acolhe os conteúdos sombrios.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A objetificação do corpo, fantasias agressivas, impulsos de dominação, desejos dissociados do afeto, intensidades pulsionais e tantos outros fetiches encontram neste palco uma forma de expressão deslocada, ou seja, a pessoa é afetada pelas imagens porque algo de sua própria psique foi ali projetada. Entretanto, essa revelação ocorre de modo literal e empobrecido, sem elaboração simbólica, fixada em roteiros repetitivos e estereotipados, reforçando papéis de gênero, violências e ausência de afeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para exemplificarmos, segundo dados divulgados pelo site Pornhub, as buscas que apresentam crescimento expressivo são termos como “sexo em grupo” (aumento de 544%), “punheta trans” (488%), “coroa gostosa transando” (442%) e “lésbicas tesoura” (231%) (Fonte: Correio Brasiliense, 2025). Chama atenção que “punheta trans” esteja no topo do campo de pesquisa pois, segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil liderou em 2024 pelo 16º ano consecutivo, os maiores índices globais de assassinatos contra essa população. Grande parte das vítimas são mulheres trans, jovens, negras e nordestinas, e os crimes são marcados por extrema violência (Fonte: CNN Brasil, 2025), ao mesmo tempo que os direitos sociais dessas pessoas estão sempre em fragilidade institucional. Também é interessante observar que o aumento do “conservadorismo” traz a reboque o aumento de buscas de sexo em grupo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-abordar-a-relacao-do-sujeito-com-sua-anima-a-dinamica-psiquica-revela-um-grau-ainda-mais-sensivel-de-complexidade" style="font-size:18px">Ao abordar a relação do sujeito com sua anima, a dinâmica psíquica revela um grau ainda mais sensível de complexidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung compreende a anima como o arquétipo da face feminina na psique masculina, cuja função consiste em mediar a relação entre consciência e inconsciente, atuando como ponte entre o mundo interior e a experiência relacional (JUNG, OC 9/2, §27). Ela personifica tendências psicológicas associadas à vida afetiva, à intuição e à sensibilidade, que frequentemente permanecem à margem da personalidade consciente. Quando essa função não encontra reconhecimento e elaboração, a anima tende a ser projetada em figuras externas. A pornografia oferece um campo imagético vasto e incessante, ao apresentar figuras femininas esvaziadas de subjetividade, reduzidas a corpos destinados a submissão da fantasia e do prazer unilateral do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nessa configuração, a <strong>anima</strong> perde sua dimensão simbólica e passa a ser vivenciada como imagem disponível ao consumo, deslocando o erotismo à objetificação. Essa dinâmica encontra um paralelo mítico na ação de Nêmesis, deusa da justa retribuição e do equilíbrio moral, que pune Narciso fazendo com que o amor recusado ao outro retorne sob a forma de um fascínio autorreferido pela própria imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-adverte-que-a-projecao-da-anima-empobrece-gravemente-a-capacidade-de-vinculo-pois-substitui-o-encontro-com-a-alteridade-real-por-uma-relacao-distorcida-na-qual-o-outro-e-apenas-suporte-para-conteudos-inconscientes-nao-elaborados-jung-oc-7-2-339" style="font-size:18px">Jung adverte que a projeção da anima empobrece gravemente a capacidade de vínculo, pois substitui o encontro com a alteridade real por uma relação distorcida, na qual o outro é apenas suporte para conteúdos inconscientes não elaborados (JUNG, OC 7/2, §339).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O erotismo, que em sua dimensão simbólica convoca transformação, risco e reciprocidade, é reduzido a excitação visual controlável, onde tudo está sob o domínio das mãos. A experiência erótica deixa de ser um espaço de encontro e passa a operar como circuito fechado de autoestimulação, no qual o sujeito se relaciona consigo mesmo e com suas projeções.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse deslocamento convida a uma mudança de perspectiva clínica e teórica. O debate ganha profundidade quando se afasta de diálogos moralizantes e se aproxima do campo simbólico, pois a pornografia revela menos sobre desvios do desejo e mais sobre processos de dissociação entre imagem e corpo vivido, excitação e afeto, fantasia e relação, numa espécie de “afastamento da alma”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-cisao-tambem-se-inscreve-em-uma-ampla-logica-cultural-marcada-pela-hiperexposicao-aceleracao-do-consumo-e-pelo-esvaziamento-da-experiencia-do-outro-como-presenca" style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma ampla lógica cultural, marcada pela hiperexposição, aceleração do consumo e pelo esvaziamento da experiência do outro como presença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse ponto que a reflexão de Byung-Chul Han ilumina o modo como a sociedade contemporânea transforma o erotismo em desempenho e a alteridade em superfície disponível, aprofundando a ruptura entre desejo, vínculo e experiência simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso do vício em pornografia, viver imerso nas projeções leva o indivíduo a um autoerotismo de maneira quase literal. A energia erótica é direcionada a imagens projetadas de si e se enovela numa relação consigo mesmo de uma maneira compulsiva, levando ao esgarçamento das relações principalmente afetivo-sexuais pois, diante do outro, tem-se dificuldade da troca com aquele que sente, reage e exige uma dedicação libidinal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por meio dos dados de buscas e temas em relevância, a pornografia pode evidenciar uma sombra moral, pois as procuras chamam a atenção pelo contraste com os temas destacados na vida pública das redes sociais. Este vício pode ser entendido como uma perseguição pela satisfação eterna de algo que não chega, pois existe o desejo desejante que jamais se sacia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma lógica cultural mais ampla, marcada pela hiperexposição, pela aceleração do consumo e a substituição progressiva da experiência do outro por superfícies disponíveis ao olhar e à apropriação imediata.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-agonia-do-eros-byung-chul-han-2017-p-56-faz-uma-provocacao-ao-dizer-que-a-pornografizacao-do-mundo-se-realiza-como-sua-profanacao-ela-profana-o-erotismo-e-a-profanacao-se-realiza-como-desritualizacao-e-dessacralizacao-han-2017-p-61" style="font-size:18px">Em <strong>Agonia do Eros</strong>, Byung-Chul Han (2017, p. 56) faz uma provocação ao dizer que “<em>a pornografização do mundo se realiza como sua profanação. Ela profana o erotismo”, e “a profanação se realiza como desritualização e dessacralização</em>” (HAN, 2017, p. 61).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Continua ao descrever a erosão contemporânea do Eros como consequência direta de uma cultura que transforma o desejo em desempenho, e o encontro em mera positividade. Han (2017) acredita que o Eros só se constitui plenamente quando a relação envolve diferença e imprevisibilidade, pois a experiência erótica exige que o outro não seja reduzido a objeto de satisfação porque o desejo se sustenta justamente naquilo que escapa e se mantém como alteridade. É essa assimetria entre o eu e o outro que introduz risco, tensão e abertura ao desconhecido, elementos indispensáveis à vitalidade do Eros. Quando essa alteridade é dissolvida, o erotismo perde sua força transformadora e se converte em estímulo previsível e consumível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pornografia-se-insere-neste-escancaramento-descrito-por-han-no-qual-tudo-deve-estar-exposto-sem-zonas-de-misterio-ou-negatividade-para-ele-o-erotico-nao-esta-desprovido-de-misterio-han-2017-p-60" style="font-size:18px">A pornografia se insere neste “escancaramento” descrito por Han, no qual tudo deve estar exposto sem zonas de mistério ou negatividade. Para ele “o erótico não está desprovido de mistério” (HAN, 2017, p. 60).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O corpo pornográfico é um corpo sem segredos e interioridade, oferecido ao olhar como mercadoria erótica, cuja função é responder imediatamente ao desejo, sem frustração ou elaboração simbólica. Nesse cenário, o Eros passa a funcionar como excitabilidade técnica, organizada segundo a lógica da escalada sensorial, o que empobrece tanto a experiência do prazer quanto a capacidade de vínculo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Han</strong> observa que a sociedade contemporânea desloca o desejo para o campo do desempenho individual, transformando a sexualidade em um espaço de autoexploração, no qual o sujeito acredita exercer liberdade enquanto se submete a circuitos compulsivos de repetição. Essa leitura encontra ressonância direta na compreensão junguiana do narcisismo, pois a libido, impedida de se orientar em direção ao outro como alteridade viva, retorna ao próprio sujeito e se fixa em imagens que funcionam como espelhos ampliados de suas fantasias inconscientes. O resultado é uma economia libidinal autorreferida, na qual o prazer se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia de sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse ponto, a pornografia revela sua afinidade profunda com a lógica narcísica descrita tanto pelo mito quanto pela clínica. Assim como Narciso se apaixona por uma imagem que o reflete e o captura, o sujeito contemporâneo se vê enredado em imagens que prometem satisfação infinita e entregam repetição compulsiva, num movimento que conduz à saturação do desejo e ao empobrecimento do encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Byung-Chul Han descreve esse processo como a transformação do Eros em pornografia, entendida como um regime no qual a exposição total substitui a tensão erótica, e a proximidade excessiva elimina a distância necessária à experiência amorosa. O desaparecimento do outro é a agonia do Eros (HAN, 2017, p. 74).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-junguiano-esse-cenario-pode-ser-compreendido-como-um-colapso-da-funcao-simbolica-da-anima-cuja-mediacao-entre-consciencia-e-inconsciente-se-fragiliza-quando-o-feminino-psiquico-e-reduzido-a-condicao-de-imagem-erotizada-e-consumivel" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, esse cenário pode ser compreendido como um colapso da função simbólica da anima, cuja mediação entre consciência e inconsciente se fragiliza quando o feminino psíquico é reduzido à condição de imagem erotizada e consumível.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung adverte que a anima, quando projetada de maneira não elaborada, aprisiona o sujeito em fantasias que impedem o amadurecimento da relação e a integração dos afetos (JUNG, OC 7/2, §339). A pornografia intensifica esse processo ao oferecer imagens prontas e roteiros estereotipados, pois cristaliza a projeção em cenas fixas, repetidas e empobrecidas, impedindo que o conteúdo inconsciente seja simbolizado e transformado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Han (2017) acrescenta que o desaparecimento da alteridade conduz a uma forma de gozo solitário, no qual o sujeito se relaciona apenas consigo mesmo, ainda que sob a ilusão de multiplicidade de parceiros e experiências. Essa dinâmica ilumina o paradoxo contemporâneo do vício em pornografia: quanto maior a oferta de imagens e estímulos, mais restrito se torna o campo do desejo, que passa a girar em torno dos mesmos temas, das mesmas cenas e das mesmas intensidades, produzindo um fechamento progressivo da vida erótica e afetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-vicio-em-pornografia-pode-ser-compreendido-como-uma-busca-incessante-por-satisfacao-total-que-jamais-se-cumpre-pois-esta-fundada-na-eliminacao-da-alteridade-e-na-recusa-da-vulnerabilidade-inerente-ao-encontro-erotico" style="font-size:18px">Assim, o vício em pornografia pode ser compreendido como uma busca incessante por satisfação total que jamais se cumpre, pois está fundada na eliminação da alteridade e na recusa da vulnerabilidade inerente ao encontro erótico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trata-se de um desejo que se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia, pois cada nova imagem promete preencher uma falta que se reinscreve imediatamente após o gozo, reproduzindo a lógica de todo comportamento compulsivo. Nesse sentido, a pornografia revela muito mais que conteúdos sombrios individuais, ela expressa uma sombra cultural marcada pela dificuldade coletiva de sustentar o Eros como experiência simbólica e transformadora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diante desse fenômeno, a clínica é convocada a oferecer um espaço onde o sujeito possa reencontrar a dimensão imagética do desejo, reconhecendo os fragmentos da sua anima, sombra e de conflitos não elaborados projetados nas telas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sustentar essa travessia implica recolocar o erotismo no campo da alteridade. Relacionar-se com o outro implica sustentar o risco das dores e amargores relativo ao encontro, condição que restitui ao Eros sua potência de transformação, pois é no reflexo do olhar deste outro onde existe a possibilidade da quebra da autorreferenciação e solidão.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/HnfEJEqGz8o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Soave – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL é o país que mais mata pessoas trans e travestis, aponta dossiê. CNN Brasil, [s. l.], 29 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-e-travestis-aponta-dossie/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisas/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">CORREIO BRAZILIENSE. Brasil é o 4º maior consumidor de pornografia no mundo. Correio Braziliense, Brasília, 30 dez. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2025/12/7316169-brasil-e-o-4-maior-consumidor-de-pornografia-no-mundo.html. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2017;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2);</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/2);</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 6);</p>



<p class="wp-block-paragraph">WERY, A.; BILLIEUX, J. Problematic cybersex: Conceptualization, assessment, and treatment. Addictive Behaviors, v. 64, p. 238-246, 2017</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Encontrar Alguém &#8211; A Busca da Projeção</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/encontrar-alguem-a-busca-da-projecao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dayse Raphael]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 14 Feb 2026 00:32:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamento]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12112</guid>

					<description><![CDATA[<p>Encontrar alguém é a expressão do desejo de relacionar-se com aquela pessoa para a qual transferimos emocionalmente os sentimentos que alimentamos em nós. Isto ocorre graças ao fenômeno da projeção, em que conteúdos inconscientes são deslocados para um objeto externo, que pode ser o indivíduo que desperta um apaixonamento, mesmo ao primeiro encontro.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Encontrar alguém é a expressão do desejo de relacionar-se com aquela pessoa para a qual transferimos emocionalmente os sentimentos que alimentamos em nós. Isto ocorre graças ao fenômeno da projeção, em que conteúdos inconscientes são deslocados para um objeto externo, que pode ser o indivíduo que desperta um apaixonamento, mesmo ao primeiro encontro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:18px">INTRODUÇÃO</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em atendimento a pessoas de ambos os sexos, é comum o questionamento sobre encontrar alguém. Não serve qualquer alguém. Este alguém precisa ter características que abrandem o sentimento de falta de completude, que atendam expectativas específicas como companheirismo, generosidade quanto a atenção, carinho, disponibilidade de tempo, e por aí vai. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É preciso que seja um alguém que traduza os desejos mais diversos; não precisa ser alguém conhecido, que tenha encontrado e já conversado, ou mesmo que já viu e observou nas atividades sociais. Este alguém parece não pertencer ao mundo dos vivos, que apresentam qualidades e defeitos, brincam e se aborrecem, são cheirosos ou apresentam cheiros de origem duvidosa, têm interesse próprio e agenda repleta de atividades cotidianas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-musica-encontrar-alguem-de-jota-quest-ha-a-descricao-de-alguem-que-esta-no-mundo-das-ideias-e-por-quem-ha-a-expectativa-de-que-haja-a-satisfacao-de-estar-com-a-companhia-idealizada" style="font-size:18px">Na música <em>Encontrar Alguém</em> de Jota Quest, há a descrição de alguém que está no mundo das ideias, e por quem há a expectativa de que haja a satisfação de estar com a companhia idealizada:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:0.9">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Da esquina eu vi o brilho dos teus olhos/Tua vontade de morrer de rir/Teus cabelos tentaram esconder/Mas vi tua boca feliz</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tua alma leve como as fadas/Que bailavam no teu peito/Tua pele clara como a paz/Que existe em todo sonho bom</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quis matar os seus desejos/Ver a cor dos teus segredos, baby/ E contar pra todo mundo /O beijo que nunca esqueci</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Encontrar alguém/Encontrar alguém/ Encontrar alguém que me dê amor”</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-projecao-e-sombra" style="font-size:18px">PROJEÇÃO E SOMBRA</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O alguém desejado se apresenta nas projeções de quem o busca, atendendo critérios muito específicos, nas pessoas que encontramos a todo minuto, nos ambientes mais exclusivos ou mesmo em público, nos templos religiosos, nas academias ou escolas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esses critérios são os mais díspares e incontáveis: o desejo de ter ao lado alguém protetor, alegre, com disposição e desejo de aventura, sempre pronto para ir a um <em>happy hour</em>, assim como alguém com gosto erudito que aprecie as salas de música clássica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Conforme o desejo inconsciente, é possível projetar em um líder religioso a figura de um pai protetor, acolhedor, aquele que se fará sempre presente nos momentos das mais diversas adversidades, que não permitirá que nada de mal aconteça. Isto só pode ocorrer se a pessoa tiver um “gancho” com essas características para que haja o deslocamento afetivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E do que se trata esse gancho?&nbsp; É algo não físico percebido inconscientemente pelo emissor da projeção em alguém que tenha as qualidades que não são reconhecidas pelo emissor. Mas esse alguém receptor também não tem a consciência de estar recebendo uma projeção.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-von-franz-afirma-que" style="font-size:18px"><strong>Von Franz afirma que,</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>o inconsciente da pessoa faz a projeção, via de regra não escolhe simplesmente qualquer objeto ao acaso, e sim aquele que contém algumas, ou até muitas, das características da propriedade projetada. Jung fala de um “gancho” no objeto no qual a pessoa que faz a projeção a pendura como um casaco. (2011, p.280)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que nos leva ao encantamento por um alguém que representa tão bem tudo que desejamos está no transbordamento do nosso inconsciente sobre aquilo que supostamente encontramos no outro, o que Jung denomina objeto, conforme parágrafo acima.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Facilmente identificamos nos ambientes coletivos casais nos quais um dos parceiros tem aparência ou condição social muito beneficiada em relação ao outro, e ainda assim, este parece alimentar sentimentos intensos e profundos que são traduzidos no bem-estar daquela companhia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung esclarece sobre a situação ilusória que a projeção carrega sobre o objeto de desejo, sendo algo que não transita pela realidade e que permeia o mundo das ideias de quem procura alguém. Mas que, ainda que ilusória, ao projetar sobre o objeto, ou a pessoa, suas fantasias sobre os mais diversos temas, esta ação faz do receptor dessa projeção, alguém ilusoriamente real. Portanto “<strong>as projeções criam uma relação ilusória; mas acontece que, num determinado momento, esta relação é da maior importância para o paciente</strong> [&#8230;]” (JUNG, 2022a, p.19). As projeções vêm sempre do inconsciente e se desvanecem após seu recolhimento, conforme explica Jung:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-vez-que-o-adepto-tem-consciencia-de-si-como-homem-sua-masculinidade-nao-pode-ser-projetada-desde-que-so-podem-ser-projetados-os-conteudos-inconscientes-2022a-p-104" style="font-size:18px"><em>“<strong>Uma vez que o adepto tem consciência de si como homem, sua masculinidade não pode ser projetada, desde que só podem ser projetados os conteúdos inconscientes</strong>.” (2022a, p.104)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando buscamos encontrar alguém projetamos algo admirável, sedutor e socialmente aceito, porém há oportunidades em que projetamos algo totalmente oposto, ou seja, conteúdos que provocam repulsa por representar tudo aquilo que consideramos ruim, desagradável, ou politicamente incorreto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No momento em que encontramos alguém que nos evoca repulsa, esta reação está enxarcada de projeção, que representa nossa própria sombra, aquele conteúdo que menos admiramos e que reprimimos. Segundo Jung, “<strong>estamos convencidos de que certas pessoas possuem todos os defeitos que não encontramos em nós mesmos [&#8230;] Devemos ter o máximo cuidado para não projetar despudoradamente nossa própria sombra</strong> [&#8230;] “ (2022c, p.105)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É difícil e muito doloroso reconhecer que em nós há conteúdos menos nobres, ou mesmo que somos capazes de abrigar os monstros mais terríveis, ainda que eles não estejam manifestos no nosso cotidiano. Fica muito mais fácil reconhecê-los nos outros, naqueles que estão fora de nós, e que, portanto, poderão ser receptores de todo nosso sentimento discriminatório e repulsivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-encontrar-alguem-e-o-outro-em-mim" style="font-size:18px">ENCONTRAR ALGUÉM E O OUTRO EM MIM</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dione diz que projeção é uma forma de vida potencial repleta de energia psíquica que encontra expressão no objeto (Cf. 1990, p.166). Isto esclarece muito do que seja a busca de encontrar alguém com quem seja possível desenvolver um relacionamento satisfatório.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A energia psíquica de quem está buscando encontrar alguém estará voltada para fora, para o objeto que denominamos outra pessoa. Aquelas características sedutoras, atraentes e acolhedoras que identificamos naquele alguém especial e que procuramos por tanto tempo, estão dentro daquele que procura, mas que desconhece em si.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-atracao-que-o-outro-nos-provoca" style="font-size:18px"><strong>Esta atração que o outro nos provoca,</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>esta empatia, é uma espécie de processo de percepção que se caracteriza por transferir sentimentalmente um conteúdo psíquico para o objeto&#8230; e isto é possível se o conteúdo projetação estiver mais vinculado ao sujeito do que ao objeto&#8230;e não é submetido a controle consciente. (JUNG, 2022d, p.303)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Encontrar alguém que atenda as expectativas é uma jornada difícil, muitas vezes frustrante e sempre trilhada para fora de si. É responsabilizar o outro pelo atendimento ou não dos nossos desejos e fantasias, é transferir nossos melhores sentimentos para alguém que não tem, obrigatoriamente, como satisfazer nossas expectativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Encontrar alguém é buscar no outro o que não é possível, ainda, reconhecer em si, e caminhar a passos largos para alguém que não terá como manter as expectativas daquele que procura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung nos esclarece que “com a retirada das projeções, desenvolveu-se lentamente um conhecimento consciente [&#8230;]” (JUNG, 2022, p.104), o que torna possível o “casamento interior”&nbsp; com as qualidades positivas e negativas inconscientes em nós. No processo de individuação a primeira tarefa é recolhermos as projeções sombrias, para caminharmos rumo ao desenvolvimento da nossa personalidade, ao potencial inerente que devemos nos tornar e que intrinsecamente já somos.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Encontrar Alguém – A Busca da Projeção&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/JkwW-TTvzt0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/dayse-de-araujo-raphael/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/dayse-de-araujo-raphael/">Dayse Raphael – Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano – Membro Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">DIONE, Arthut. <em>Jung e astrologia</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</em>. 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Mysterium Coniunctionis</em>. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______<em>Psicologia e Religião</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Tipos psicológicos</em>. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie&nbsp; Louise. <em>Psicoterapia</em>. São Paulo. Paulus, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Lavar a Louça: Um olhar simbólico sobre uma prática diária</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/lavar-a-louca-um-olhar-simbolico-sobre-uma-pratica-diaria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Held dos Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Feb 2026 23:16:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[cotidiano]]></category>
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		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[lavar a louça]]></category>
		<category><![CDATA[nutrição]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psique]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre o ato cotidiano de lavar a louça, compreendendo-o como uma metáfora do processo de ampliação da consciência, sob a perspectiva da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. A partir da observação desse gesto simples, são exploradas as correspondências simbólicas entre sujeira e sombra, água e inconsciente, limpeza e integração psíquica. Assim como o alimento nutre o corpo, o contato com o inconsciente nutre a alma, exigindo a constante “lavagem” das projeções e resíduos psíquicos. Lavar a louça, nesse contexto, torna-se um rito diário de autoconhecimento e humildade, no qual o indivíduo, ao cuidar de sua própria “louça psíquica”, contribui também para a transformação coletiva.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo propõe uma reflexão simbólica sobre o ato cotidiano de lavar a louça, compreendendo-o como uma metáfora do processo de ampliação da consciência, sob a perspectiva da psicologia analítica de Carl Gustav Jung. A partir da observação desse gesto simples, são exploradas as correspondências simbólicas entre sujeira e sombra, água e inconsciente, limpeza e integração psíquica. Assim como o alimento nutre o corpo, o contato com o inconsciente nutre a alma, exigindo a constante “lavagem” das projeções e resíduos psíquicos. Lavar a louça, nesse contexto, torna-se um rito diário de autoconhecimento e humildade, no qual o indivíduo, ao cuidar de sua própria “louça psíquica”, contribui também para a transformação coletiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:19px"><strong>INTRODUÇÃO</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Lavar a louça é um hábito cotidiano e inevitável, alguém sempre precisará fazê-lo! Afinal, precisamos nos alimentar todos os dias e, consequentemente, aparecerão louças sujas para lavar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O simples ato de utilizar utensílios à mesa é expressão de um processo civilizatório milenar. Ao longo da história, aprendemos a fabricar e empregar instrumentos para preparar e consumir os alimentos, distanciando-nos gradualmente da forma direta e instintiva de alimentação de nossos ancestrais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sujar e depois lavar são, portanto, atos inseparáveis do processo de nutrição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nutrir-se é um ato que nos traz prazer, sustento e vida, carrega também o lado inevitável de lidar com os resíduos que permanecem após o banquete. Há sempre, depois de um belo almoço de domingo, uma pia repleta de louças à nossa espera, um lembrete de que todo prazer implica também algum tipo de trabalho, e que toda nutrição, deixa vestígios que precisam ser cuidados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-consciencia-e-simbolo" style="font-size:19px"><strong>CONSCIÊNCIA E SÍMBOLO</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sob a perspectiva junguiana, nada é exclusivamente bom ou ruim, tudo contém os dois lados. A maneira como rotulamos algo como bom ou mau, belo ou feio, Deus ou diabo, advém da função da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">De acordo com <strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">Balestrini Junior</a></strong> e <strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/leostorres/">Torres</a></strong> (2022, p. 236) “<em>Se pudermos, de alguma forma, oferecer uma “definição” do que é consciência, poderíamos dizer que ela é um processo de percepção sensorial, categorização, valoração e avaliação das possibilidades da experiência fenomênica</em>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para os propósitos deste artigo, é importante esclarecer o que Jung compreende por símbolo:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>“A essência do símbolo consiste em apresentar uma situação que não é totalmente compreensível em si e só aponta intuitivamente para seu possível significado. A criação de um símbolo não é um processo racional, pois este não poderia gerar uma imagem que apresentasse um conteúdo, no fundo, incompreensível. A compreensão do símbolo exige uma certa intuição que capta, aproximadamente, o sentido desse símbolo criado e o incorpora na consciência.” (JUNG, 2015, p. 136)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim, o símbolo expressa algo que ultrapassa o entendimento puramente racional, remetendo a um conteúdo psíquico que busca ser integrado à consciência. Sob essa perspectiva, a imagem da nutrição pode ser compreendida simbolicamente como a nutrição da alma. Alimentar-se, nesse sentido, não se limita à dimensão física, mas implica também um movimento de ampliação da consciência. Sendo assim, será que, para alimentarmos nossa alma, não iremos, também, gerar sujeiras e por consequência ter que “lavar a louça”?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sujeira-e-a-sombra" style="font-size:19px"><strong>A SUJEIRA E A SOMBRA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O que, no trecho acima, se designa como “sujeira” pode, sob à luz da teoria junguiana, ser compreendido simbolicamente como a sombra. Assim como, no cotidiano, não é possível nos alimentarmos sem gerar algum tipo de sujeira, o simples fato de existirmos também implica a criação de sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Segundo Jung (2013, p. 91), a “<em>Sombra é para mim a parte “negativa” da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal</em>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em outra parte, Jung (1978, p. 105) aprofunda que “<em>Todo individuo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará</em>.” &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Convém destacar que a sombra não se restringe a conteúdos negativos da personalidade. Inclui igualmente potenciais e qualidades socialmente valorizados, que podem ser projetados em outros objetos que sirvam de “gancho” para tais conteúdos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Desta forma, assim como lavar a louça várias vezes ao dia se faz necessário para evitar o acúmulo e o consequente aumento do trabalho, também se faz necessário o exercício contínuo de ampliação da consciência, um processo que poderíamos compreender como uma “limpeza da sombra”.&nbsp; Mesmo que, pela perspectiva junguiana, não seja possível a eliminação total da sombra, seu reconhecimento e integração são essenciais para a ampliação da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este artigo aborda a temática de lavar a louça, porque toda vez que eu realizo essa atividade, tenho a impressão de que algo na minha psique se organiza. É como se eu fosse dando espaço para que pensamentos até então “truncados” se manifestassem de maneira mais fluida. Muitas vezes durante o ato de lavar a louça, surgem soluções para problemas que, até então, pareciam insolúveis. De fato, a ideia de realizar este artigo surgiu exatamente nesse contexto: enquanto lavava a louça, perguntei a mim mesma qual tema poderia elaborar para o próximo artigo do IJEP?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-agua-e-o-inconsciente" style="font-size:19px"><strong>A ÁGUA E O INCONSCIENTE</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">&nbsp;Para Jung “a água é o símbolo mais comum do inconsciente” (JUNG, 2016, p. 36), em outro texto ele aprofunda essa relação ao afirmar:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>[&#8230;] a água é tangível e terrestre, também é o fluido do corpo dominado pelo instinto, sangue e fluxo de sangue, o odor do animal e a corporalidade cheia de paixão. O inconsciente é a psique que alcança, a partir da luz diurna de uma consciência espiritual, e moralmente lúcida, o sistema nervoso designado há muito tempo por “simpático”. Este não controla como o sistema cerebroespinal a percepção e a atividade muscular e através delas o meio ambiente; mantém, no entanto, o equilíbrio da vida sem os órgãos dos sentidos, através das vias misteriosas de excitação, que não só anunciam a natureza mais profunda de outra vida, mas também irradia sobre ela um efeito interno. (JUNG, 2016, p. 37)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No processo alquímico, a água aparece como uma das principais imagens simbólicas, representada pela <em>Solutio</em>. Conforme Edinger explica:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>As imagens básicas que se referem a esse símbolo são as que estão nadando na água, banhando-se, tomando ducha, talvez se afogando, dissolução; mas também batismo, rejuvenescimento através do processo, através de uma provação pela água. Solutio é uma imagem da descida para o inconsciente que possui o efeito de dissolver a estrutura sólida e ordenada do ego. Para o alquimista, a solutio significava o retorno da matéria diferenciada ao seu estado original indiferenciado, prima materia. A água era vista como o útero, e entrar na água, a solutio, era retornar ao útero para renascer. (EDINGER, 2008, p. 66)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir dessa perspectiva, a água não se limita a ser um elemento físico; ela se torna um símbolo do fluxo da vida psíquica e dos conteúdos inconscientes. Ao manipulá-la, guiando seu curso, permitindo que flua ou simplesmente observando seu movimento, entramos em contato com os aspectos instintivos e emocionais da psique, abrindo espaço para que o inconsciente se manifeste simbolicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim, conforme a pia vai ficando organizada e a louça se torna limpa, a sensação de satisfação e alívio ganham um espaço maior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-mesmos-devemos-lavar-as-nossas-loucas" style="font-size:19px"><strong>NÓS MESMOS DEVEMOS LAVAR AS NOSSAS “LOUÇAS”</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Também é importante considerar que devemos lavar nossas próprias “louças”. Diferente do ato literal, em que podemos delegar a tarefa a outra pessoa, no sentido simbólico cada um é responsável pela própria “sujeira” psíquica. Durante esse processo, é comum tentarmos transferir responsabilidades ou conflitos para os pais, cônjuges ou outras pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Tal feito de tentar responsabilizar outras pessoas pelos nossos atos, na psicologia analítica é chamado de projeção, “que indica o processo psicológico de estranhamento segundo o qual o sujeito &#8211; na relação que mantém com um objeto &#8211; transfere e inclui no próprio objeto qualquer gênero de conteúdos que sejam fundamentalmente de sua pertinência.” (PIERI, 2022, p.397)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-como-lavamos-a-louca-psiquica" style="font-size:19px"><strong>MAS COMO LAVAMOS A “LOUÇA” PSÍQUICA?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este artigo propõe uma analogia entre o gesto cotidiano de lavar a louça e o movimento de ampliação da consciência. Mas é evidente que o ato, isoladamente, não transforma a psique, ainda que, para mim, traga certa ordem interior. Se assim fosse, provavelmente o mundo estaria em um estado muito mais harmonioso.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O ato de lavar a louça diariamente pode ser compreendido, simbolicamente, como o processo de análise, no qual vamos trazendo à consciência os aspectos sombrios inconscientes e integrando as “sujeiras” psíquicas para que novas possam emergir.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Realizar terapia e dispor-se ao mergulho no inconsciente torna-se, portanto, um ato de responsabilidade consigo mesmo e para com o coletivo, com todos que compartilham e compartilharão este mundo. Jung (2013, p.12) ressalta essa relação entre o cuidado individual e a transformação coletiva:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>A psicologia do indivíduo corresponde à psicologia das nações. As nações fazem exatamente o que cada um faz individualmente; e do modo como o indivíduo age, a nação também agirá. Somente com a transformação da atitude do indivíduo é que começará a transformar-se a psicologia da nação. Até hoje, os grandes problemas da humanidade nunca foram resolvidos por decretos coletivos, mas somente pela renovação da atitude do indivíduo. Em tempo algum, meditar sobre si mesmo foi uma necessidade tão imperiosa e a única coisa certa, como nesta catastrófica época contemporânea. Mas quem se questiona a si mesmo depara invariavelmente com as barreiras do inconsciente, que contém justamente aquilo que mais importa conhecer.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>CONCLUSÃO</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">“Lavar a louça” psíquica é um ato simbólico de autoconhecimento e humildade. Assim como a água limpa os resíduos da matéria, o contato com o inconsciente dissolve as impurezas emocionais e as projeções que nos impedem de enxergar com clareza. O processo analítico, tal como o ato de lavar a louça, exige presença, repetição e entrega, pois a sujeira sempre retorna, assim como os conteúdos que insistem em emergir da sombra. Ao assumir a responsabilidade por essa limpeza interior, cada indivíduo participa silenciosamente da purificação coletiva, transformando o mundo a partir do gesto mais íntimo e cotidiano: o de cuidar da própria alma.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/carolina-santos/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/carolina-santos/">Carolina Held dos Santos &#8211; Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BALESTRINI JUNIOR, José Luiz; TORRES, Leonardo; A Consciência: Um Campo Interacional e Dialético. IN: MAGALDI FILHO, Waldemar (Org.) <em>Fundamentos da Psicologia Analítica,</em> São Paulo: Eleva Cultural, 2022.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, Edward F.; <em>O Mistério da Coniunctio &#8211; </em>Imagem alquímica da individuação. São Paulo: Paulus, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Psicologia e Religião </em>Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Psicologia do inconsciente</em>. Ed. digital. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________<em>Tipos Psicológicos. </em>Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo </em>Ed. digital. Petrópolis: Editora Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PIERI, Paolo Francesco. <em>Dicionário Junguiano.</em> Petrópolis: Editora Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Matrículas abertas</strong>: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3.png" alt="" class="wp-image-11997" style="width:692px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/Pos-graduacoes-IJEP-1-3-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Violência contra pessoas LGBTQIA+: uma sombra materializada</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/violencia-contra-pessoas-lgbtqia-uma-sombra-materializada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 21:24:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[agressão]]></category>
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		<category><![CDATA[violência de gênero]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas. Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pessoas-lgbtqia-tem-280-mais-chances-de-sofrer-algum-tipo-de-agressao-ou-abuso-durante-a-vida-couter-apud-souza-et-al-2022" style="font-size:19px">Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso durante a vida (COUTER apud SOUZA et al, 2022).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas pessoas também apresentam uma tendência maior a quadros depressivos, ideações suicidas e abuso de substâncias. Enquanto por muito tempo se atribuiu esse quadro ao caráter e à individualidade, hoje é possível observar que o preconceito e a discriminação que sofrem na verdade causam, durante o decurso de uma vida, feridas que muitas vezes não cicatrizam. Isso porque recebem a projeção de sombra coletiva, que se materializa na violência implícita e explícita sofrida por essa parte da população.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até hoje perdura uma crença &#8211; que permeia desde mentes individuais, e alguns segmentos da sociedade como a religião e até a ciência &#8211; de que a existência humana no campo afetivo-sexual só pode se dar de forma heterossexual e binária. Apesar de, historicamente, a humanidade apresentar grande diversidade em formas de ser e amar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-registros-historicos-e-mitos-mostram-que-a-homossexualidade-e-a-transexualidade-por-exemplo-existem-desde-que-a-humanidade-surgiu" style="font-size:19px">Registros históricos e mitos mostram que a homossexualidade e a transexualidade, por exemplo, existem desde que a humanidade surgiu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Povos indígenas das Américas, da Ásia e da Oceania apresentavam classes de gênero além do masculino e feminino. Inclusive, alguns tendo uma espécie de terceiro gênero ou denominações específicas para pessoas homossexuais ou transgênero como os Dois-Espíritos na América do Norte, Mahu na Indonésia e Hijra na Índia (ROUGHGARDEN, 2004). Além da conhecida história da homossexualidade na Grécia antiga, chamada de pederastia, que consistia numa espécie de relação tutor-aluno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O todo-poderoso Zeus, por exemplo, teve em Ganimedes um amante, levando-o para o Olimpo. Em outro momento ele e Hera utilizam o pobre profeta Tirésias como instrumento de disputa entre masculino e feminino. Outra figura mitológica que troca de gênero é Caeneus, uma mulher que ao ser violentada por Poseidon pede para se tornar um homem invencível/inviolável (BRANDÃO, 1987).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muito-do-preconceito-contra-pessoas-lgbtqia-se-da-por-serem-pessoas-que-nao-vivem-de-acordo-com-a-norma-ou-com-o-que-se-considerou-por-muito-tempo-a-normalidade" style="font-size:19px">Muito do preconceito contra pessoas LGBTQIA+ se dá por serem pessoas que não vivem de acordo com a norma ou com o que se considerou por muito tempo a normalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas pessoas, por destoarem do que se espera de uma pessoa seja no aspecto afetivo-sexual ou na identidade, sofrem com as projeções de sombra e com a manifestação da síndrome do bode expiatório.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A definição das normas de gênero ganha força no século XVIII com as críticas ao comportamento e a tentativa de criação de uma fronteira rígida entre o que é ser homem e mulher e entre o que é exclusivamente masculino e feminino. Desde então, passa-se a acreditar que certas atividades, vestimentas e costumes são exclusivos do homem ou da mulher, tornando aqueles que não se encaixam no padrão algo a ser corrigido ou eliminado. Isso sendo reforçado dioturnamente pela religião cristã quando falamos de civilização ocidental.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Associa-se então a pessoa que não se encaixa como problemática e essa camada da população passa a receber todo tipo de projeção coletiva, tornando-se o bode expiatório, principalmente em momentos de tensão e instabilidade. De alguma forma atribui-se ao desviado da norma a causa de catástrofes, como punição dos deuses. Isso pois, se entendia que era uma escolha da pessoa e uma afronta a Deus, mesmo que, sabemos hoje, ninguém escolhe ser LGBTQIA+, nasce-se assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-kurt-lewin-denominou-as-parcelas-da-populacao-mais-vulneraveis-aos-dissabores-coletivos-de-minorias-psicologicas" style="font-size:19px"><strong>Kurt Lewin</strong> denominou as parcelas da população mais vulneráveis aos dissabores coletivos de minorias psicológicas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Segundo Lewin, as características de uma minoria psicológica são a ausência de representatividade e autonomia, tendo seu destino coletivo atrelado a outro grupo, não necessariamente menos indivíduos em relação à população em geral, como é o caso das mulheres, por exemplo. Lewin cunhou sua teoria estudando os judeus durante a Primeira e a Segunda Guerra. Ele buscou entender os mecanismos psicológicos por trás da perseguição ao seu povo e as dinâmicas sociais intra e extra grupo (MAILHIOT, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Lewin também identificou que os grupos minoritários tendem a ser alvo de uma agressividade deslocada do grupo dominante ou de uma minoria privilegiada, que manobra as massas para direcionar sua violência a grupos desfavorecidos ou com poucas defesas. Apesar da atitude individual de pessoas ligadas à uma minoria ser usada muitas vezes como justificativa para o preconceito e a discriminação, a psicologia social e a teoria de Lewin apontam que na verdade a questão é coletiva, e muitas vezes não se justifica pelas razões mais comumente apresentadas como motivo de discriminação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maioria-sempre-tem-interesse-em-barrar-a-aquisicao-de-direitos-e-privilegios-pelas-minorias" style="font-size:19px">A maioria sempre tem interesse em barrar a aquisição de direitos e privilégios pelas minorias.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Usando como exemplo os judeus que Lewin estudou, o autor aponta que em 400 anos os motivos de perseguição foram diversos, desde a religião no passado até a um preconceito baseado em teorias racistas com o advento do nazismo. Ele também aponta que é uma ilusão dos minoritários acreditarem que se forem bem-sucedidos serão aceitos pela maioria, na verdade, em momentos de crise serão os primeiros a serem perseguidos. Pode-se observar esse fenômeno também em relação às mulheres, que foram queimadas por anos em fogueiras, numa clara perseguição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O fenômeno do <strong>bode expiatório</strong> consiste em identificar pessoas ou grupos como causadores do mal ou de delitos, responsabilizá-los por isso e expulsá-los da vida comunitária, negar direitos e às vezes até a própria humanidade, a fim de proporcionar ao restante da comunidade um sentimento de inculpabilidade e reconciliação com padrões coletivos. Proporciona aos membros da comunidade a sensação de segurança e de perfeição, uma certa identificação com o padrão divino e com o que é “correto”, tudo o que não se encaixa nesse padrão é taxado como demoníaco, no entanto, apenas atua como forma de negação da sombra, uma das maneiras mais conhecidas de se livrar da culpa, é criando bodes expiatórios (KAST, 2022; PERERA, 1991).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A população <strong>LGBTQIA+</strong> não é diferente. Assim como dito acima, pessoas assim existem desde sempre, porém, a relação da maioria para com elas é que se transforma. &nbsp;O que era punido por ser pecado, passa a ser crime e depois doença.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Para Jung: &nbsp;</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Sentimo-nos satisfeitos porque a pessoa perversa cometeu o crime por nós. Este é o sentido profundo de Cristo, enquanto redentor, ter sido crucificado entre dois ladrões; eles também, à sua maneira, eram redentores da humanidade, eram os bodes expiatórios (JUNG, 2015a, §210).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-que-e-mau-e-inferior-que-nao-queremos-reconhecer-em-nos-mesmos-atribuimos-aos-outros-jung-2013b" style="font-size:19px">Tudo que é mau e inferior, que não queremos reconhecer em nós mesmos, atribuímos aos outros (JUNG, 2013b)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A negação da sombra na situação do bode expiatório é um desafio, pois o sacrifício ou a exclusão de tal figura representa a tentativa de controle do homem perante a natureza e as intempéries divinas, ao mesmo tempo que o adverte da sua impotência e desamparo. Para Jung (2016, §44) “<em>Preferem inventar o mundo heroico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-atualidade-essa-realidade-tem-entre-tropecos-avancado-na-maioria-dos-paises-do-mundo" style="font-size:19px">Na atualidade essa realidade tem, entre tropeços, avançado na maioria dos países do mundo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A OMS (Organização Mundial da Saúde), APA (Associação Americana de Psiquiatria), CFP (Conselho Federal de Psicologia) e CFM (Conselho Federal de Medicina) deixaram de categorizar a homossexualidade e a transexualidade como doenças, abrindo espaço para a inclusão e a aquisição de direitos, trazendo visibilidade à população. No entanto, não faltam violências reais e simbólicas contra esse grupo, como as malfadadas terapias de conversão praticadas por igrejas e estabelecimentos de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ainda paira na sociedade e, infelizmente parece estar em ascensão, a crença de que a não normatividade é a causa das mais diversas mazelas sociais e econômicas, com base em moralismos vazios e fazendo com que indivíduos se sintam à vontade para bradar impropérios dos mais absurdos contra a população LGBTQIA+ sem qualquer consequência. Esses discursos validam e dão coragem para ação a indivíduos praticarem violências, assassinatos, discriminações e outras agressões contra essa população, acreditando estarem em seu direito de maioria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além dos ataques aos indivíduos por meio de violências e até assassinatos, coletivamente há uma inércia legislativa na consolidação dos direitos, no entanto, para revogá-los há uma certa celeridade. Sugiro uma pesquisa sobre iniciativas legislativas em revogar o direito à constituição familiar entre pessoas do mesmo gênero, afirmação de gênero entre outros. Observe, por exemplo, as iniciativas do presidente <strong>Donald Trump</strong> para a finalização dos programas de diversidade e inclusão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por anos e anos foram negados os mais diversos acessos às pessoas por discriminação de gênero e sexualidade e, quando esse quadro começa a mudar na primeira crise os direitos são revogados. Isso não se aplica somente à população LGBTQIA+, mas a todas as minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-pode-esquecer-o-inconsciente-de-uma-pessoa-ou-grupo-se-projeta-sobre-outra-s-pessoa-s-isto-e-aquilo-que-alguem-nao-ve-em-si-mesmo-passa-a-censurar-no-outro" style="font-size:19px">Não se pode esquecer: o inconsciente de uma pessoa (ou grupo) se <strong>projeta</strong> sobre outra(s) pessoa(s), isto é, aquilo que alguém não vê em si mesmo, passa a censurar no outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este princípio tem uma validade geral tão impressionante que seria bom se todos, antes de criticar os outros, se sentassem e ponderassem cuidadosamente se a carapuça que querem enfiar na cabeça do outro não é aquela que se ajusta perfeitamente a eles (Cf. JUNG, 2013b).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-ultimo-gostaria-de-trazer-a-musica-geni-e-o-zepelim-de-chico-buarque-para-essa-conversa" style="font-size:19px"><strong>Por último, gostaria de trazer a música Geni e o Zepelim de Chico Buarque para essa conversa</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na sua genialidade, Chico traduz a dinâmica do bode expiatório na figura da sofrida Geni. Não sabemos ao certo quem é Geni, apenas que é uma marginalizada pela sociedade. Geni está sempre entre os excluídos e sofre diariamente agressões da sociedade em que está inserida, até o momento de crise em que é apresentada ao sacrifício, e, na vã esperança de talvez ser posteriormente aceita, aceita se sacrificar para salvar àqueles que sempre a condenaram. O destino de Geni nunca está, nem esteve em suas mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir do momento em que a maioria se vê de joelhos diante de um algoz e seu destino depende daquela que tanto desprezaram, imploram por sua misericórdia. Geni, com sua inclinação de acolher os excluídos acaba cedendo aos apelos e, mais uma vez, sofre as mais diversas violências, como sacrifício. No entanto, ao retornar, volta a ser discriminada e agredida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-pessoas-lgbtqia-causam-medo-pois-confrontam-pessoas-com-a-liberdade-individual-apresentada-pelo-self-de-maneira-simbolica" style="font-size:19px">As pessoas LGBTQIA+ causam medo, pois confrontam pessoas com a liberdade individual, apresentada pelo Self de maneira simbólica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">De alguma forma questionam o monoteísmo do ego, que se sente desafiado quando a diversidade questiona suas certezas e descobertas, baseadas nos valores dominantes das maiorias psicológicas e das minorias privilegiadas. Cada assassinato, suicídio ou agressão a uma pessoa LGBTQIA+ é uma tentativa de negação da diversidade humana no agressor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">As minorias privilegiadas jamais renunciarão a seus privilégios em detrimento dos direitos de qualquer outro grupo, e, infelizmente, manipulam a massa mantendo-a na inconsciência de seu lugar enquanto atacam as minorias indefesas. Massa essa que tem as mãos sujas de sangue, como executora indireta de um crime.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Angelo Soave Junior – Analista Didata em formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia-e-referencias" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia e Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega v. III. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRUPO GAY DA BAHIA.<em> Mortes violentas de LGBT no Brasil em 2024. </em>Acesso em 01 dez de 2025.Disponível em:&nbsp;<a href="https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/">https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl G. <em>A prática da psicoterapia</em>/ O.C. 16/1<em>. </em>Petropólis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Civilização em Transição/ </em>O. C. 10/3<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>______ </strong><em>A vida simbólica: escritos diversos/ </em>O.C 18/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2015a</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>______ </strong><em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo </em>O.C 9/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: viva a sua própria vida. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAIHIOT, G. B. <em>Dinâmica e gênese dos grupos:</em>&nbsp; Atualidade das descobertas de Kurt Lewin. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PERERA, Sylvia Brinton. O complexo de bode expiatório, Rumo a uma Mitologia da Sombra e da Culpa. São Paulo: Cultrix, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ROUGHGARDEN, Joan. <em>Evolução do Gênero e da Sexualidade</em>. Tradução: Maria Edna Tenório Nunes. Londrina: Editora Planta, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SOAVE JUNIOR. M. A. A<em> arteterapia como ferramenta para o enfrentamento dos efeitos do estresse de minoria em pessoas LGBTQIA+</em>. Monografia de Formação de Membro Analista do IJEP. Brasília, 2024. Disponível em <a href="https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia">https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">SOUZA et al. Desfechos negativos em saúde mental de minorias de sexo e de gênero: uma análise comportamental a partir da teoria do estresse de minorias. <em>Revista Perspectivas</em>. Ed. Especial: Estresse de Minorias pp.069-085. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</strong>: Matrículas abertas &#8211; <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="http://www.ijep.com.br"><img decoding="async" width="819" height="1024" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png" alt="" class="wp-image-11969" style="aspect-ratio:0.7998077385243931;width:485px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png 819w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-240x300.png 240w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-768x960.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-150x188.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-450x563.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1.png 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" /></a></figure>
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