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	<title>Arquivos psicossomatica - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Thu, 09 Jul 2026 15:03:53 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos psicossomatica - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Hildegarda de Bingen, uma Psicossomatista no Século XII?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/hildegarda-de-bingen-uma-psicossomatista-no-seculo-xii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jun 2026 20:33:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No século XII, em plena Idade Média, período em que às mulheres cabiam o silêncio e a obediência aos maridos, além de serem proibidas de estudar e ter acesso aos livros, viveu uma mulher que ganhou grande notoriedade. Santa Hildegarda de Bingen se destacou em teologia, filosofia, música e medicina, entre outras áreas. Respeitada como profetiza e visionária, Hildegarda deixou registrado em sua obra um vasto conhecimento sobre medicina integrativa. Seu tratamento compreendia aliar remédios a partir de plantas medicinais a um estilo de vida mais harmônico, tanto consigo mesmo, quanto com a natureza e com o divino. Até os dias atuais, podemos perceber sua influência em movimentos ecológicos, pacifistas, naturalistas e até feministas. Sua visão, que integrava corpo, mente e alma, não faria dela uma psicossomatista em plena Idade Média? Esse artigo traz um pouco de sua incrível história e se debruça sobre sua faceta de curadora de corpos e almas.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/hildegarda-de-bingen-uma-psicossomatista-no-seculo-xii/">Hildegarda de Bingen, uma Psicossomatista no Século XII?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>RESUMO: </strong>No século XII, em plena Idade Média, período em que às mulheres cabiam o silêncio e a obediência aos maridos, além de serem proibidas de estudar e ter acesso aos livros, viveu uma mulher que ganhou grande notoriedade. Santa Hildegarda de Bingen se destacou em teologia, filosofia, música e medicina, entre outras áreas. Respeitada como profetiza e visionária, Hildegarda deixou registrado em sua obra um vasto conhecimento sobre medicina integrativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seu tratamento compreendia aliar remédios a partir de plantas medicinais a um estilo de vida mais harmônico, tanto consigo mesmo, quanto com a natureza e com o divino. Até os dias atuais, podemos perceber sua influência em movimentos ecológicos, pacifistas, naturalistas e até feministas. Sua visão, que integrava corpo, mente e alma, não faria dela uma psicossomatista em plena Idade Média? Esse artigo traz um pouco de sua incrível história e se debruça sobre sua faceta de curadora de corpos e almas.</p>



<h2 id="h-introducao" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>INTRODUÇÃO</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Meu primeiro contato com a história de Hildegarda de Bingen aconteceu durante minhas pesquisas sobre as curandeiras da Idade Média e me cativou de imediato, tanto quanto me intrigou. Em uma época em que eram negados o acesso aos livros e aos estudos às mulheres, as curandeiras transmitiam entre si o conhecimento que obtinham através da observação e interpretação da natureza. Formando uma sabedoria ancestral que englobava o uso de plantas, animais e minerais no preparo de remédios, infusões, emplastos, banhos, assim como talismãs e encantamentos.</p>



<h2 id="h-elas-atuavam-tanto-no-campo-fisico-concreto-quanto-no-invisivel-espiritual" class="wp-block-heading" style="font-size:17px">Elas atuavam tanto no campo físico, concreto, quanto no invisível, espiritual.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em meio a essas mulheres que, no final da Idade Média, foram desacreditadas, acusadas e perseguidas, existiu uma que se sobressaiu em diversas áreas: filosofia, teologia, música, astronomia, botânica e medicina, deixando obras escritas relevantes para muitas delas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa mulher fascinante que conseguiu, em um momento histórico de silenciamento e apagamento do feminino, ser conhecida e respeitada como visionária e profetisa. Influenciando personalidades notáveis como o imperador Frederico Barbarossa e o Papa Eugênio III, foi chamada de primeira médica da Alemanha (Cf. NOGUEIRA; VASCONCELOS, 2022, p.58).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além de sua notória contribuição na área médica, ela foi a primeira mulher a ser considerada uma autoridade em assuntos teológicos. A única mulher medieval a quem se concedeu o direito de pregar a doutrina cristã em público. A única a ser lembrada como compositora de uma vasta obra musical e dramaturga não anônima do Século XII. E, também, a primeira autora a escrever sobre sexualidade e ginecologia sobre o ponto de vista feminino (Cf. VASCONCELOS, 2022).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><em>Nesse sentido, infelizmente, o percentual de mulheres que conseguiam ser aceitas no meio cultural, intelectual e de produção de conhecimento era extremamente reduzido. Portanto, o legado intelectual de Hildegarda, surpreendente nos dias de hoje, </em><em>é </em><em>mais impressionante ainda por ter sido realizado por uma figura feminina na </em><em>é</em><em>poca medieval</em><em>. (MARTINS, 2022, p. 44)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Mas afinal, quem foi Hildegarda de Bingen? E como ela conseguiu tanta notoriedade nesse período histórico em que, segundo a sentença de Paulo de Tarso (1, Tim. 2,12), as mulheres não podiam ensinar, aprender e transmitir conhecimento, podendo elas apenas obedecer ao marido e ficar em silêncio (Cf. MARTINS, 2019, p.30)? Nesse artigo vamos conhecer um pouco de sua história, dando uma maior atenção à sua faceta médica naturalista, que promovia a cura do ser humano, tanto do corpo como da alma, através de sua visão integralista.</p>



<h2 id="h-uma-breve-historia-de-sua-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>UMA BREVE HISTORIA DE SUA VIDA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Hildegarda nasceu em 1098, na cidade de Bermersheim, próxima ao Rio Reno, na atual região da Alemanha. Filha de família nobre, aos 8 anos foi confiada aos cuidados de Jutta von Sponheim, abadessa de um convento beneditino para homens e mulheres, como meio de receber instruções. Jutta a ensinou a ler e escrever, cantar salmos, trabalhos manuais, música e botânica. Ainda criança, Hildegarda começou a ter visões espiritualistas, que continham mensagens divinas, e a acompanharam por toda a sua vida. Suas visões, já na vida adulta, foram reconhecidas como autênticas pelo Papa Eugenio III, lhe rendendo o <em>Privilegia, </em>documento que lhe concedeu a emancipação civil e eclesiástica<em>, </em>garantindo autonomia para sua escrita<em>.</em> Essas visões foram registradas, juntamente com algumas de suas lindas ilustrações das visões e de mandalas, em seu livro <em>Scivitas;</em> sua única obra com tradução para o português até os tempos atuais (Cf. ESTEVAM, 2020, p.18).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por volta dos quinze anos, fez votos religiosos para se tornar monja beneditina, passando a cuidar dos enfermos que procuravam por ajuda médica e espiritual nos mosteiros. Aprendeu então a fazer emplastos, decocções, banhos e unguentos a partir de plantas, assim como receitar dietas alimentares e a utilização de amuletos. Quando Jutta faleceu, Hildegarda estava com 38 anos e foi eleita para assumir a posição de abadessa do convento. Alguns anos mais tarde, conseguiu permissão para criar um convento exclusivamente feminino em Bingen, longe da autoridade jurídica, financeira e espiritual dos monges, que se desdobrou em litígio por parte do abade do seu antigo mosteiro.</p>



<h2 id="h-em-bingen-pode-se-dedicar-a-seu-trabalho-de-terapeuta-medica-conselheira-espiritual-e-profetiza-recebendo-cada-vez-mais-peregrinos-e-pessoas-em-busca-do-seu-dom" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Em Bingen, pôde se dedicar a seu trabalho de terapeuta, médica, conselheira espiritual e profetiza, recebendo cada vez mais peregrinos e pessoas em busca do seu dom.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Foi nesse período em que produziu boa parte de sua obra, baseada toda ela em suas visões divinas. Apesar de se apresentar como iletrada, em seus textos podemos perceber sua erudição: era bem informada sobre as discussões de pensadores de seu tempo, como Hugo de São Vitor e Constantino Africano, e teve acesso a autores clássicos como Isidoro de Sevilha, Celso e Galeno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua obra <em><strong>Physica</strong></em>, composta de nove livros, ela descreveu e classificou os elementos da natureza e indicou os remédios que podem ser obtidos de cada planta ou órgão animal, compondo uma verdadeira enciclopédia: são cerca de 300 plantas, 61 tipos de aves e animais voadores, e 41 tipos de mamíferos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>&#8220;Atribui-se a esse livro o estatuto de ter sido o primeiro livro de ciências naturais do Sacro Império Romano-Germânico e de ter sido a base para o estudo da Botânica durante toda a Baixa Idade Média na Europa (sécs. XI ao XV) até o século XVI” (MARTINS, 2019, p.163).</em></strong></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Outra obra de muita importância é <em><strong>Causae et Curae</strong></em>, que compreende cinco livros, que tratam desde a Criação do mundo, astros e natureza, há sonhos, causas e tratamento das doenças.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 10 de maio de 2012, o <strong>Papa Bento XVI </strong>completou o processo de canonização de Hildegarda, iniciado ainda no século XIII. Em seguida, em 7 de outubro de 2012, o mesmo Papa concedeu-lhe o título de Doutora da Igreja Católica Romana, consagrando-a como a quarta mulher a receber esse título, ao lado de Catarina de Siena, Teresa de Ávila e Teresa de Lisieux.</p>



<h2 id="h-a-medicina-de-hildegarda" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>A MEDICINA DE HILDEGARDA</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Hildegarda</strong>, que também era conhecida como<strong> Sibila do Reno</strong>, considerava o ser humano como um sistema complexo interligado entre corpo, mente e espírito (alma): “ela acreditava que a saúde resultava do equilíbrio desses elementos, e que as doenças surgiam quando esse equilíbrio era perturbado” (Antunes, 2024, p.10), considerando dessa forma que o sistema de cura deveria atuar nesses três níveis.</p>



<h2 id="h-sua-medicina-consequentemente-envolvia-praticas-ao-mesmo-tempo-magicas-religiosas-e-cientificas" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Sua medicina, consequentemente, envolvia práticas ao mesmo tempo mágicas, religiosas e científicas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para ela, o humano era reflexo do macrocosmos composto do Divino e da Natureza, e o desequilíbrio trazido pela doença podia ser corrigido de volta ao eixo com um estilo de vida mais harmônico, com uma alimentação mais leve e saudável, com a purificação dos humores, a reconexão com o divino e com a ordem natural. Ou seja, uma vida de moderação que promovesse a conexão com Deus e com a Natureza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os tratamentos prescritos combinavam o uso de ervas e plantas medicinais com conselhos espirituais e práticas de purificação da mente e da alma, como oração, contemplação da natureza, cantos e leituras, a reforma nos hábitos alimentares, e serviços comunitários. Ela ensinava que a mente tinha a capacidade de influenciar o corpo e a alma e defendia que práticas como meditação e oração ajudavam a cultivar uma vida de virtude, fortalecer a mente, a saúde e a conexão com o espiritual (Cf. ANTUNES, 2024, p.43, p.99).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua obra, a abadessa registrou uma compreensão de que quase todas as doenças são causadas por um apagão espiritual da personalidade interior: ela reconhecia os efeitos do estresse, da ansiedade e das emoções negativas na saúde e no bem-estar geral, o que implicava em uma perda de vitalidade, ou de <em>viriditas.</em> Esse era o termo usado por ela para designar as forças curativas transmitidas por Deus para as plantas e animais, representando a energia da fecundidade, da renovação, do crescimento e da regeneração que permeia todas as coisas vivas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px;letter-spacing:0px"><strong><em>Sua medicina é baseada no princípio de que todos os processos internos nas pessoas podem ser rastreados até sua origem bioquímica. A substância que faz alguém triste e que desempenha uma regra em todas as enfermidades sérias, ela chama de bile negra.(STREHLOW; WEIGHARD, 2023, p. 30)</em></strong></p>
</blockquote>



<h2 id="h-emocoes-reprimidas-e-a-bile-negra" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>Emoções reprimidas e a Bile Negra</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A teoria dos humores foi criada por Hipócrates (século V a.C.) e desenvolvida posteriormente por Galeno (século II d.C.). Acreditava-se que a saúde dependia do equilíbrio dos quatro fluidos corporais: sangue, bílis amarela, pituíta (muco/fleuma) e atrabílis (bile negra). Hildegarda relacionava ainda cada humor a uma qualidade dos elementos aristotélicos: quente, frio, seco e úmido, empregando medicamentos de qualidades opostas no tratamento. Ela atribuiu muitas doenças ao desequilíbrio no nível dos quatro humores básicos do organismo: quanto maior fosse o grau de desarmonia entre esses líquidos, mais grave seria a doença.</p>



<h2 id="h-para-ela-essas-alteracoes-bioquimicas-nos-fluidos-corporais-tinham-raizes-espirituais-e-emocionais-ela-entendia-que-os-humores-podiam-sofrer-alteracoes-quando-despertadas-as-paixoes-a-ira-a-tristeza-ou-a-raiva" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Para ela, essas alterações bioquímicas nos fluidos corporais tinham raízes espirituais e emocionais; ela entendia que os humores podiam sofrer alterações quando despertadas as paixões, a ira, a tristeza ou a raiva. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para<strong> Hildegarda</strong>, a química do sangue sofria uma grande mudança como resultado de influências negativas. Por exemplo, se alguém não resistisse à ira e explodisse, a bile se acalmava. Porém, se a ira continuasse, a escuridão da bile negra formava uma névoa que envolvia a vesícula biliar, liberando um fluxo completamente amargo, tornando a pessoa triste. A ira contida ativaria um ingrediente no sangue que levaria a um tipo de auto envenenamento (Cf. STREHLOW; WEIGHARD, 2023, p.129).</p>



<h2 id="h-um-corpo-intoxicado-por-emocoes-nao-processadas-segunda-ela-sobrecarregava-o-figado-tornando-o-inchado-e-obstruido" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Um corpo intoxicado por emoções não processadas, segunda ela, sobrecarregava o fígado, tornando-o inchado e obstruído.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ela descrevia esse órgão como um filtro que remove os resíduos prejudiciais e poluentes e transforma em substâncias não venenosas para que os rins possam secretar. O excesso de bile produzida pelo fígado é armazenado na vesícula biliar, se tornando concentrado. A bile negra seria o resultado dessa concentração, contaminando o sangue e causando um humor denso e nocivo. Seu excesso levaria à tristeza profunda, perda de vitalidade, isolamento afetivo e à melancolia. Uma pessoa envenenada pela bile negra sofreria de depressão, febre emocional e problemas estomacais. Segundo Hildegarda, o excesso de bile negra era, dessa forma, uma oportunidade para que a pessoa revisse seu estilo de vida, como um sinal de que algo precisava ser curado e alguma emoção precisava ser libertada. A pessoa estava sendo chamada a reencontrar com o seu centro e se curar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das maiores contribuições da medicina de Hildegarda é o uso de remédios que neutralizam a melancolia. Seu tratamento envolvia unir alimentação e uso de plantas medicinais, que ajudavam na digestão e circulação do sangue, com orações, contemplação e contato com a natureza, meditação para aquietar a mente e se reconectar com o divino e a beleza que há na vida. A música também era uma parte importante do tratamento para aliviar a melancolia, pois ela acreditava que o fígado podia ser influenciado pela audição, e a música, como afirmava, tinha o poder de unir o corpo à alma.</p>



<h2 id="h-numa-e-poca-em-que-nao-era-comum-as-mulheres-participarem-das-deciso-es-pol-i-ticas-e-religiosas-hildegarda-fez-se-ouvir-1" class="wp-block-heading" style="font-size:20px"><strong>&#8220;Numa </strong><strong>é</strong><strong>poca em que não era comum as mulheres participarem das decisõ</strong><strong>es pol</strong><strong>í</strong><strong>ticas e religiosas, Hildegarda fez-se ouvir”</strong><a href="#_ftn1" id="_ftnref1"><strong><sup><strong><sup>[1]</sup></strong></sup></strong></a><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A partir da segunda metade do século XX, os escritos de Hildegarda começaram a serem traduzidos em várias línguas. Suas cartas, mais de 400, puderam lançar luz à aspectos do seu cotidiano, revelando os traços de sua personalidade e como lidava com os problemas administrativos da sua comunidade, como se posicionava e reagia às repercussões das suas obras e como percecionava o contexto social da sua época.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>Delas emerge a figura de uma mulher apaixonada, de convicções firmes, eloquente e destemida, audaz no trato com os poderosos mas possuidora de grande tato diplom</em><em>á</em><em>tico quando necess</em><em>á</em><em>rio, cuidadosa e atenta </em><em>à</em><em>s necessidades das suas monjas e daqueles que a ela recorriam em busca de conselho. Não hesitou em usar a sua aura de profetisa para fazer valer as suas ideias e conquistar os seus objetivos, por vezes amea</em><em>ç</em><em>ando os seus destinat</em><em>á</em><em>rios em nome de Deus (VASCONCELOS, 2022).</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O pensamento holístico de Hildegarda é considerado moderno até nos tempos atuais. Podemos notar sua influência em movimentos ecológicos, pacifistas, naturalistas e até feministas. Ela se tornou um ícone para muitos que querem viver um estilo de vida mais simples e ligado à natureza (Cf. VASCONCELOS, 2022). Sua visão integral do ser humano, que associa corpo, mente e alma e entende o homem como elemento constituinte da natureza e do divino, me faz pensar na Santa Hildegarda de Bingen como uma psicossomatista junguiana em plena Idade Média. Podemos encontrar em seus textos uma série de outras ideias semelhante àquelas que tão bem conhecemos no universo junguiano. Mas isso será assunto para o meu trabalho de conclusão de curso da Psicossomática.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/beatriz-whitaker/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/beatriz-whitaker/">Beatriz Assumpção: Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/liaromano/">Lia Romano: Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Vídeo de apresentação:</p>



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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ANTUNES, Priscila. <em>O mínimo sobre a medicina de Santa Hildegarda</em>. 1.ed. Campinas: O Minimo, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ESTEVAM, Maria Terezinha. <em>Um estudo sobre o Physica, de Hildegarda de Bingen: </em>as virtudes curativas de algumas plantas. Dissertação (Mestrado em História da Ciência), PUCSP, São Paulo, 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARTINS, Maria Cristina da Silva. O Livro de Plantas de Hildegarda de Bingen. <em>Rónai &#8211; Revista de Estudos Clássicos e Tradutórios</em>. Juíz de Fora. vol.10, n.1, p. 26-49, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ Hildegarda de Bingen: Physica e Causae et Curae. <em>Cadernos de Tradução</em>, Porto Alegre, Numero especial, p.165-177, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NOGUEIRA, Maria Simone Marinho; VASCONELOS, Ana Rachel G.C. Ciência e fé em Hildegard von Bingen. <em>Basilíade &#8211; Revista de filosofia</em>, Curitiba, v.4, n.8,&nbsp; jul/dez, p.57-72, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">STREHLOW, Weighard; HERTZKA, Gottfried. <em>A medicina de Santa Hildegarda</em>. 1.ed. Bela Vista do Paraíso: Calvariae Editorial, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VASCONCELOS, Teresa. <em>Santa Hildegarda, mulher de Deus em tempos medievais</em>. <a href="https://setemargens.com/santa-hildegarda-mulher-de-deus-em-tempos-medievais/">https://setemargens.com/santa-hildegarda-mulher-de-deus-em-tempos-medievais/</a> , 08/01/2022. Acesso em: 23 de abr. 2026</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="#_ftnref1" id="_ftn1"><strong><sup><strong><sup>[1]</sup></strong></sup></strong></a> VASCONCELOS, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Transtorno de ansiedade por doença, a busca por cuidado como caminho para o amadurecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/transtorno-de-ansiedade-por-doenca-a-busca-por-cuidado-como-caminho-para-o-amadurecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Nov 2022 13:58:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psiquiatria]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomatica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6834</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo busca explorar possíveis chamados do transtorno de ansiedade por doença, ou como é mais conhecido, a hipocondria. Esse transtorno tem como principal característica a crença de que se padece de uma doença grave, mesmo quando essa possibilidade é descartada por exames médicos. Qual seria a busca de um ego que acredita que há algo de mal em si, mas não é identificável? Quais as possíveis correlações com outros transtornos como a ansiedade, a depressão e o pânico? Com base na teoria junguiana fazemos um olhar e uma reflexão sobre esse tema.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Começa assim: uma dor, um incômodo, uma disfuncionalidade, por menor que seja. Ela se mantém por um período, desaparece, retorna, desaparece. Pode ser também um ruído, um aperto, uma fisgada, uma pontada. “Há algo acontecendo&#8230;” diz uma voz interior. Uma sensação desconfortável percorre o corpo. O tempo passa, a sensação continua. “Talvez seja o momento de fazer uma visita ao médico&#8230;” diz uma voz interior. No médico, uma descrição detalhada de quando começou, onde pega mais, quanto tempo durou e a intensidade que oscilou. Exames, exames, exames. Um colesterol um pouco alterado, uma pré-diabetes, nada fora do esperado para alguém levemente sedentário e que gosta de uns doces.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ufa!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Parece estar tudo bem&#8230;” diz uma voz interior. “Mas&#8230;” a mesma voz aponta para a continuidade do sintoma, ou talvez alguma outra sensação que tenha passado desapercebida. A sensação desconfortável percorre o corpo. Uma nova consulta médica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que descrevo acima é um possível roteiro de uma crise de ansiedade por doença. Poderíamos substituir a consulta médica por uma automedicação, ou ainda, a evitação de qualquer contato que possa trazer um (não) diagnóstico. Quem convive com isso ou com alguém próximo acometido por isso sabe muito bem o que é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O transtorno de ansiedade por doença era previamente chamado de hipocondria, sendo hipo do grego&nbsp;<em>hypo</em>&nbsp;e condria derivada do&nbsp;<em>chondros.&nbsp;</em>A origem da palavra é referência ao hipocôndrio, uma cartilagem abaixo do abdome, onde se acreditava ficar as vísceras do humor, dessa forma a hipocondria também era uma denominação para melancolia. Mais tarde, pelo estigma jocoso que a palavra ganhou, passou a se chamar transtorno de ansiedade por doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse transtorno é caracterizado pela presença de uma preocupação constante com o adoecimento grave e a morte. Pessoas acometidas tendem a interpretar pequenas dores e sinais do corpo como sintoma de um mal letal, incapacitante e oculto. Por mais que pessoas próximas e exames médicos apontem que não há nada de errado, do ponto de vista orgânico ou físico, a pessoa não se livra dessa crença e preocupação, podendo visitar vários médicos de diferentes especialidades na esperança de que alguém descubra finalmente o mal terrível que se oculta em seu corpo. Não raro, duvidam dos médicos e se sentem incompreendidos e injustiçados por estes e por seus próximos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro sintoma observado, curiosamente oposto, pode ser a evitação da área médica. Ou seja, há uma escolha do hipocondríaco de não saber que mal ele acredita que lhe aflige. Prefere a bênção da ignorância mesmo que muitas vezes não haja nada a descobrir de fato. Esse quadro pode levar inclusive à automedicação, que representa um risco real para a saúde. Também comum é a busca na internet por sintomas, que por sua vez, gera ansiedade e pode piorar o quadro, pois sintomas genéricos que podem significar algo grave são um prato cheio para quem é atravessado por esse transtorno. Essa prática ganhou até nome: Cybercondria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os dados apontam que o transtorno de ansiedade por doença muitas vezes é um acompanhante de outros transtornos ansiosos e/ou depressivos (DIB, VALENÇA e NARDI, 2006). Dessa forma, podemos pensar que uma pessoa ansiosa, em constante estágio de vigilância tende a interpretar uma dor, um sinal na pele ou qualquer outra mudança no corpo como ameaça grave. Não raro, pode levar seu portador em casos mais extremos a um ataque de pânico.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cultura contemporânea idealiza e idolatra um corpo perfeito, sem dores, incômodos e com todos os indicadores dentro dos padrões mais restritos. Além disso, o materialismo e o desejo egóico pelo concreto e tangível faz com que se desvalorizem os sintomas psíquicos. Essa combinação pode gerar um quadro de hipervigilância com o corpo e descuido com a mente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung (1985) a alma humana vive unida ao corpo, numa unidade indissolúvel, por isto só artificialmente é que se pode separar a psicologia dos pressupostos básicos da biologia. Ou seja, um ferimento ou moléstia corpórea podem trazer sofrimento psíquico e o sofrimento psíquico pode se manifestar no corpo. Complexos e sentimentos são capazes de mudar a organização das células e os componentes químicos do corpo enquanto a atividade física e medicamentos são capazes de mudar o humor e controlar pensamentos intrusivos. Corpo e alma adoecem juntos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com O’Sullivan, 2016:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O corpo tem inúmeras formas de expressar emoção. O enrubescimento ocorre quando os vasos sanguíneos da cabeça e do pescoço se dilatam e se tornam repletos de sangue. Trata-se de uma mudança física instantânea que é vista na superfície, mas que reflete um sentimento de constrangimento ou de felicidade não expresso. Quando acontece, é impossível controla-lo. Esse ponto é importante. Os rubores denunciam um sentimento e, mesmo quando aumentam o constrangimento de alguém, não é possível contê-los.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O materialismo faz com que tudo que não seja tangível seja ignorado, dessa forma os transtornos e sintomas mentais muitas vezes são minimizados e até ridicularizados. O sofrimento psíquico não encontra, muitas vezes, acolhida e persiste até o momento em que se manifesta como somatização ou algum sintoma mais grave. No transtorno de ansiedade por doença pode ser esse o caso. Como não há maneira de se mostrar ou quando isso é feito, é ignorado, uma doença física é mais plausível, dessa forma, a pessoa afetada está em busca de descobrir o que há de errado com ela. Qualquer coisa é melhor do que a humilhação de um distúrbio psicológico. A sociedade é muito crítica com relação a doenças psicológicas, e os pacientes sabem disso (O’Sullivan, 2016).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale um parênteses aqui de que ainda estamos em uma pandemia e obviamente devemos ficar atentos aos sintomas que se manifestam e não ignorar a busca por ajuda médica. E vale dizer que a pandemia aumentou os níveis de sofrimento psíquico e da ansiedade por doença, sendo que agora, o mal da vez poderia ser a própria Covid-19, que tem sintomas muito parecidos com outras doenças menos perigosas. A pandemia foi um gatilho, pois diante de uma doença nova, contagiosa, “invisível” e muitas vezes silenciosa, a ansiedade por doença era até esperada. Aliás, essas são palavras-gatilho: invisível, silenciosa e poderia ser evitada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando ao tema, o transtorno da ansiedade por doença se caracteriza então por uma hipervigilância do corpo, que se transforma no medo de estar padecendo de algo grave sem que se saiba. A origem desse transtorno não é clara, mas as hipóteses são de que pode ser um traço genético, colateralidade de outros transtornos mentais como a depressão e a ansiedade e uma estratégia infantil de busca a atenção dos mais próximos, afinal, uma doença é algo que mobiliza aqueles que nos amam em cuidado. Há uma doença, um sofrimento, mas não há nada de errado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante diferenciar o transtorno de ansiedade por doença da Síndrome de Munchausen, em que o paciente simula ou causa em si próprio ou em outros (por procuração) doenças para que tenha a atenção. No caso da ansiedade por doença, não há esse passo a mais, ficando apenas nessa especulação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Novamente citando O’Sullivan (2016):</p>



<p class="wp-block-paragraph">A maioria de nós tem consciência de que o estresse aumenta a pressão arterial e nos torna mais vulneráveis a úlceras estomacais. No entanto, quantos sabem da frequência com que nossas emoções podem produzir deficiência grave onde não existe nenhum tipo de doença física? Os transtornos psicossomáticos são sintomas físicos que mascaram o sofrimento emocional. A própria natureza da apresentação física dos sintomas esconde o sofrimento na sua raiz; logo, é natural que os afetados pensem automaticamente em uma doença clínica para explicar seu sofrimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Faço esse paralelo entre a hipocondria e a somatização, mas são questões diferentes. O hipocondríaco não apresenta danos, lesões ou algo orgânico que justifique suas suspeitas, apenas sente que seu corpo está sob uma forte ameaça, necessitando de atenção e cuidado constante, sente que há algo de errado, mas não sabe o que é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O hipocondríaco olha seu corpo sob uma lente da perfeição, ou seja, qualquer desconforto, por menor que seja, pode ser uma falha mortal. O hipocondríaco está sob a influência de um complexo. Um complexo ativo nos coloca por algum tempo num estado de não-liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas [&#8230;]os complexos não são totalmente de natureza mórbida, mas manifestações vitais próprias da psique, seja esta diferenciada ou primitiva (JUNG, 2002).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo no hipocondríaco não permite que ele veja seu sofrimento mental. Podem ser vários: depressão, ansiedade, pânico entre outros. O corpo então convida ao cuidado consigo mesmo, chamando essa mãe para gestar um ego mais adulto. Na consciência o hipocondríaco aparece como alguém preocupado com a saúde, prevenido e sempre alerta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale lembrar que a “hipocondria” em níveis saudáveis é até bem-vinda. Ela nos orienta para que prestemos atenção em nosso corpo, em nós mesmos caso haja algo errado e, aí sim, buscar uma ajuda médica. Esse movimento de autocuidado, quando extremado, leva ao sofrimento pelo transtorno de ansiedade por doença. Um medo de enfiar o pé na lama do mundo, de ralar o joelho, ou ainda, ver isso como um grande risco à vida. É na intensidade do distúrbio emocional que consiste o valor, isto é, a energia que o paciente deveria ter a seu dispor, para sanar o seu estado de adaptação reduzida. Nada conseguimos, reprimindo este estado de depressão ou depreciando-o racionalmente (JUNG, 2002).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem está na sombra do hipocondríaco? Alguém que não se preocupa com a saúde, um descuidado capaz de deixar passar uma doença grave, uma pessoa que não se responsabiliza pelo seu corpo, um para-suicida. Uma pessoa que precisa de muito cuidado, mas não consegue pedir isso de maneira assertiva, ou ainda, não se sente capaz de cuidar de si, precisa da atenção de alguém, uma mãe arquetípica projetada nos profissionais de saúde, mas que precisa ser encontrado dentro de si. Ninguém sabe melhor do que o psicoterapeuta que a mitologização dos pais se prolonga muito tempo através da idade adulta, e só é abandonada após uma grande resistência (JUNG, 2000).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A criança divina que se choca com sua mortalidade, o sofrer existencial se torna algo de errado. “Tem algo de errado pelo fato de eu estar sentindo isso&#8230;” E então vem para esse ego a ameaça da morte, aciona-se assim esse complexo, que eu chamaria inicialmente de materno, despertando a busca pelo cuidado, porém olhando somente para o físico, levando o hipocondríaco a buscar os médicos enquanto poderia se beneficiar apenas de uma busca ao psiquiatra ou à terapia. A libido regride ao estado infantil e busca uma mãe externa. Talvez inconscientemente a sensação de desamparo, que causa angústia e sofrimento mentais, se manifestem na hipervigilância e não no sintoma e esse ego sai em busca de alguém que diga que tudo vai ficar bem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mal sabe o hipocondríaco que precisa encontrar isso em si mesmo, quando a libido se move e ele percebe que a mãe que busca nos médicos na verdade é a mãe simbólica, que permitirá que, com essa dor, renasça uma nova pessoa. O transtorno de ansiedade por doença pode ser um chamado à transformação simbólica, um chamado ao encontro dessa mãe e dessa mortalidade, da queda do herói à condição de guerreiro. Precisa também buscar em si o pai, que o ensina a enfrentar o mundo, suportar a dor e ver o sofrimento, psíquico e físico, como partes da vida e do viver, e não simplesmente como ameaça.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na hipocondria o ego vê a dor de viver como uma ameaça à própria vida. Há uma unilateralidade a respeito da vida como evitação da morte. Viver então passa a ser um evitar, prevenir e cuidar. Não há entrega à morte e dessa forma deixa-se de viver. Novamente, temos sim que nos atentar aos sinais, sintomas e chamados do nosso corpo, no entanto, quando estamos o tempo todo vigilantes, vendo a doença como uma falha, estaremos sempre negando os convites da vida real em busca da perfeição. Viver dói.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mauro Angelo Soave Junior – Membro analista em formação</p>



<p class="wp-block-paragraph">E. Simone Magaldi – Analista didata</p>



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<p class="wp-block-paragraph">Referências bibliográficas</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo – Petrópolis, RJ : Vozes, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A Natureza da Psique /- Petrópolis, RJ : Vozes, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O’SULLIVAN, Suzanne. Isso é coisa da sua cabeça: histórias verdadeiras sobre doenças imaginárias. 1. Ed. – Rio de Janeiro : Best Seller, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WIKIPEDIA: Hipocondria, disponível em:&nbsp;&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Hipocondria#:~:text=A%20hipocondria%2C%20do%20grego%20hypo,padece%20de%20uma%20doen%C3%A7a%20grave">https://pt.wikipedia.org/wiki/Hipocondria#:~:text=A%20hipocondria%2C%20do%20grego%20hypo,padece%20de%20uma%20doen%C3%A7a%20grave</a>, acesso em novembro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Transtorno de Ansiedade por Doença por Joel E. Dimsdale , MD, University of California, San Diego Manual MSD, Versão Saúde para Família, disponível em&nbsp;<a href="https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%BArbios-de-sa%C3%BAde-mental/transtornos-de-sintomas-som%C3%A1ticos-e-transtornos-relacionados/transtorno-de-ansiedade-por-doen%C3%A7a?query=Transtorno%20de%20ansiedade%20de%20doen%C3%A7a">https://www.msdmanuals.com/pt-br/casa/dist%C3%Barbios-de-as%C3%Bade-mental/transtornos-de-sintomas-som%C3%A1ticos-e-transtornos-relacionados/transtorno-de-ansiedade-por-doen%C3%A7a?query=Transtorno%20de%20ansiedade%20de%20doen%C3%A7a</a>&nbsp;, acesso em novembro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DIB, M., VALENÇA, A. M, NARDI, A. E.&nbsp;Transtorno de pânico e hipocondria. Relato de caso. J. bras. Psiquiatr. 55 (1). 2006.&nbsp;&nbsp;Disponível em&nbsp;<a href="https://doi/">https://doi</a>.org/10.1590/S0047-20852006000100013 , acesso em novembro de 2022.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/transtorno-de-ansiedade-por-doenca-a-busca-por-cuidado-como-caminho-para-o-amadurecimento/">Transtorno de ansiedade por doença, a busca por cuidado como caminho para o amadurecimento</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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