<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos setting terapeutico - Blog IJEP</title>
	<atom:link href="https://blog.ijep.com.br/tag/setting-terapeutico/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/setting-terapeutico/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 15 Jun 2026 17:16:24 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.0</generator>

<image>
	<url>https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-logo-ijep-32x32.png</url>
	<title>Arquivos setting terapeutico - Blog IJEP</title>
	<link>https://blog.ijep.com.br/tag/setting-terapeutico/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Quando o analista se confunde com o destino do analisando</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-o-analista-se-confunde-com-o-destino-do-analisando/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriela Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2026 16:57:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Contratransferência]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Transferência]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=13142</guid>

					<description><![CDATA[<p>O ensaio sustenta que o analista, embora ocupe lugar importante no processo clínico, não pode confundir sua função com posse sobre a travessia psíquica do paciente. Quando se esquece de que é instrumento e mediador, e não autor da jornada, a clínica se deforma por dentro. A partir de Jung, o texto mostra que a análise é um encontro entre duas personalidades mutuamente afetadas, e que o analista também está implicado no campo transferencial.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-o-analista-se-confunde-com-o-destino-do-analisando/">Quando o analista se confunde com o destino do analisando</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: O ensaio sustenta que o analista, embora ocupe lugar importante no processo clínico, não pode confundir sua função com posse sobre a travessia psíquica do paciente. Quando se esquece de que é instrumento e mediador, e não autor da jornada, a clínica se deforma por dentro. A partir de Jung, o texto mostra que a análise é um encontro entre duas personalidades mutuamente afetadas, e que o analista também está implicado no campo transferencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O perigo surge quando essa implicação degenera em inflação, identificação com a persona profissional e apropriação narcísica do lugar analítico. Nesses casos, a escuta deixa de servir à alteridade do paciente e passa a confirmar o poder, a imagem e a centralidade do próprio analista.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O texto distingue dois perfis recorrentes dessa distorção: o profissional imaturo, dependente de validação, e o experiente inflado, que abandona a autocrítica e passa a operar como autoridade última. Defende, por fim, que o risco não é apenas técnico, mas estrutural, pois compromete a própria base da função analítica e exige vigilância ética constante, sobretudo nos próprios meios analíticos.</p>



<h2 id="h-palavras-chave-analista-transferencia-inflacao-psiquica-persona-etica-analitica-funcao-analitica-confidencialidade-narcisismo-alteridade-poder-simbolico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave: </strong>analista; transferência; inflação psíquica; persona; ética analítica; função analítica; confidencialidade; narcisismo; alteridade; poder simbólico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O analista que se esquece de que é instrumento reflexivo começa, inevitavelmente, a se colocar como destino na vida daqueles que atende.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há, no trabalho analítico, uma tensão estrutural que nunca pode ser abolida sem que algo essencial se perca. O analista ocupa um lugar importante, às vezes decisivo, na travessia do paciente. Mas esse lugar, justamente por sua importância, precisa ser sustentado com rigor ético e com vigilância psicológica. Ele participa do processo, porém não o possui. Intervém, mas não o governa. É mediador de uma relação, não senhor de um destino. Quando essa distinção se obscurece, a clínica começa a adoecer por dentro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung insistiu, em diferentes momentos de suas obras, que a situação analítica não pode ser compreendida como aplicação mecânica de um método sobre um objeto passivo. Para ele, trata-se do encontro entre duas personalidades, entre dois sistemas psíquicos que se afetam mutuamente. Não há neutralidade mágica, nem posição extraterritorial. O analista entra no processo e, ao entrar, também é alcançado por ele. Por isso Jung afirma que o encontro analítico é como a mistura de duas substâncias químicas: se há reação, ambas se transformam. E ele ainda acrescenta que “influir” é, ao mesmo tempo, ser afetado. O profissional que tenta se proteger sob um “halo de profissionalismo e autoridade paternais” (JUNG, 2013b, p. 85) não se torna mais lúcido, torna-se apenas menos apto a conhecer o que se passa, porque se separa de um dos seus instrumentos mais importantes de percepção: a própria afetação psíquica.</p>



<h2 id="h-o-analista-nao-e-um-observador-puro-nem-uma-consciencia-intacta-pairando-acima-do-drama-do-outro" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O analista não é um observador puro, nem uma consciência intacta pairando acima do drama do outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se ele se imagina nessa posição, já começou a falsear a situação clínica. Jung chega a dizer que o analista também está em análise, porque é parte integrante do processo psíquico do tratamento e está exposto às influências transformadoras implicadas nele. Quando se fecha a essa influência, perde também a possibilidade de influir verdadeiramente sobre o analisando. Em outras palavras: o analista só pode ocupar legitimamente sua função se aceitar que também ele está implicado, convocado e, em alguma medida, examinado no encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É exatamente aí que começa um dos riscos centrais da função analítica. Porque ser investido transferencialmente produz um efeito real sobre o analista (JUNG, 2014, p. 75-76). A transferência não é apenas um “fenômeno do paciente”. Ela organiza um campo. Jung observa que, em certos momentos do processo, o analista deixa de ser apenas portador das imagens parentais mais comuns e pode ser investido com qualidades exaltadas ou mesmo divinas. O analista se torna, para o paciente, algo maior do que um outro humano: um salvador, um portador de resposta última, uma figura providencial. Isso não ocorre necessariamente de modo consciente, mas pode estruturar profundamente a relação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se o analista não souber reconhecer esse movimento, poderá sucumbir a ele de duas maneiras. A primeira é grosseira: ele pode acreditar estar literalmente no lugar que lhe foi atribuído. A segunda é mais sofisticada e, por isso mesmo, mais perigosa: ele pode afirmar teoricamente que sabe tratar-se de uma projeção, mas, na prática, começa a usufruir psiquicamente dessa posição. Já não precisa que o analisando o chame de mestre, guia ou salvador. Basta que passe a se sentir secretamente imprescindível para ele. Nesse caso, a inflação já se instalou.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung foi extremamente claro ao descrever os perigos da inflação psíquica. Ao longo da obra <em>O Eu e o Inconsciente</em>, ele mostra que, à medida que conteúdos mais amplos da psique são assimilados sem o devido discernimento, ocorre uma ampliação indevida da consciência, que pode ser vivida como elevação. O sujeito passa a se sentir maior, mais especial, mais autorizado. Essa ampliação, no entanto, não é realização de si. É confusão entre a individualidade e conteúdos impessoais, entre o eu e a psique coletiva. Jung observa que essa assimilação pode levar à inflação, e mais ainda: quando alguém incorpora ilegitimamente conteúdos suprapessoais como se fossem patrimônio próprio, estende indevidamente os limites de sua personalidade.</p>



<h2 id="h-na-clinica-isso-assume-formas-muito-reconheciveis-o-analista-passa-a-supor-que-sua-leitura-e-mais-verdadeira-do-que-a-experiencia-do-paciente" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Na clínica, isso assume formas muito reconhecíveis. O analista passa a supor que sua leitura é mais verdadeira do que a experiência do paciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A análise deixa de ser proposta em uma dialética — a imprescindível dialética junguiana — e começa a operar como veredito, uma interpretação unilateral. A escuta deixa de ser abertura para a alteridade e passa a funcionar como triagem daquilo que confirma a própria teoria, a própria visão de mundo, a própria imagem e, principalmente, o próprio poder. O paciente, então, já não comparece como outro, mas sim como campo de validação narcísica do analista.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse desvio costuma ser favorecido por uma outra confusão, também descrita por Jung: a identificação com a persona. Em vez de sustentar a função analítica como função, o sujeito passa a confundir-se com a imagem social e simbólica do analista. Jung diz que a persona é uma máscara da psique coletiva, um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que “alguém parece ser”: nome, título, ocupação, papel. Ela tem sua realidade funcional, mas não corresponde à individualidade essencial da pessoa. Quando alguém se identifica com ela, acredita ser aquilo que representa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso do analista, isso é especialmente delicado. Porque a função já é, por si mesma, socialmente investida de autoridade. O lugar do analista vem cercado de suposições de saber, profundidade, experiência e discernimento. Se esse lugar não for submetido continuamente ao crivo da própria análise, da supervisão e do confronto com a sombra, a persona profissional começa a endurecer e a perder a capacidade empática de experimentar a visão do paciente, mesmo quando não coincide com a própria. Aos poucos, o sujeito deixa de exercer a função de analista e passa a habitá-la egocentricamente. Já não trabalha como analista, mas torna-se “O Analista”. E aqui a máscara deixa de proteger a tarefa e começa a encobrir a pobreza interior que se forma e se nutre dessa dinâmica.</p>



<h2 id="h-jung-adverte-que-ao-dissolver-a-persona-descobre-se-que-aquilo-que-parecia-individual-era-em-grande-medida-coletivo" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung adverte que, ao dissolver a persona, descobre-se que aquilo que parecia individual era, em grande medida, coletivo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso vale também para a “imagem do analista experiente”, “sábio”, “iniciado”, “profundo”. Tudo isso pode ser apenas persona neurótica. Quando não há trabalho interior suficiente, a persona profissional torna-se o disfarce elegante de uma imaturidade não elaborada. O sujeito sustenta uma linguagem sofisticada, uma doutrina refinada, uma posição social reconhecida — até mesmo uma relação de poder formal já consolidada —, mas internamente continua tomado por necessidades infantis de validação, centralidade, indispensabilidade e poder.</p>



<h2 id="h-e-nesse-ponto-que-a-questao-etica-se-torna-inseparavel-da-questao-simbolica-porque-nao-se-trata-apenas-de-nao-cometer-infracoes-trata-se-de-nao-se-desviar-estruturalmente-da-funcao" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">É nesse ponto que a questão ética se torna inseparável da questão simbólica. Porque não se trata apenas de “não cometer infrações”. Trata-se de não se desviar estruturalmente da função.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O setting analítico exige uma renúncia muito específica: a renúncia a ocupar, para o outro, o lugar de verdade última. O analista precisa suportar ser importante sem se tornar absoluto. Ser investido sem tomar posse do investimento. Ser necessário em certos momentos sem concluir, por isso, que é indispensável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung oferece uma formulação particularmente fecunda quando diz que, na prática, o analista adequadamente treinado se faz de “função transcendente” temporária para o paciente (JUNG, 2013a, p. 18-19), ajudando-o a unir consciência e inconsciente e a alcançar uma nova atitude. Isso é muito diferente de ser o destino do outro. A função transcendente é mediação entre opostos, não é apropriação da alma alheia. O analista ocupa provisoriamente uma função de ponte, de apoio, de continente, para que o paciente possa se relacionar mais amplamente com a própria psique. Porém, quando ele se instala nesse lugar como proprietário, a mediação colapsa e vira dependência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O problema, então, não é a importância do analista. Negar isso seria ingenuidade. O problema é o que ele faz com essa importância inerente. Se ele não suporta a própria limitação, tenderá a transformar a transferência em prova de valor pessoal. Se não tolera a própria falta, precisará que o analisando permaneça vinculado, agradecido, convencido e dependente, mesmo quando a resposta imposta sobre si não reverbera com sua realidade psíquica ou até mesmo realidade concreta. Se ele não trabalha a própria sombra, qualquer ruptura será vivida como ofensa narcísica, distanciando-se, assim, do seu próprio curador ferido. E então o que deveria ser lido simbolicamente — interrupção, resistência, recusa, afastamento necessário ou mudança de rumo — passa a ser vivido pessoalmente como abandono, desautorização, afronta ou traição.</p>



<h2 id="h-nesse-contexto-acredito-que-existem-dois-perfis-recorrentes-dessa-distorcao-na-clinica-analitica-e-no-contexto-das-formacoes-de-analistas-nos-varios-institutos-junguianos-existentes-hoje-acredito-ser-necessario-aprofunda-los" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nesse contexto, acredito que existem dois perfis recorrentes dessa distorção na clínica analítica, e, no contexto das formações de analistas nos vários institutos junguianos existentes hoje, acredito ser necessário aprofundá-los:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O primeiro é o profissional mais imaturo, frequentemente ainda sustentado por uma persona de saber precocemente rígida — porque a rigidez traz determinado alívio em relação a insegurança e dúvida. Ele conhece conceitos, talvez tenha boa retórica, talvez já ocupe um lugar institucional — até como professor e/ou supervisor —, mas internamente ainda depende muito de reconhecimento externo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso, embora afirme teoricamente que não sabe tudo sobre a psique alheia, reage afetivamente como se os analisandos devessem reconhecê-lo com esse saber. A saída de um paciente, a discordância de um supervisionando, a crítica de um colega ou a simples não adesão às suas formulações podem desencadear ressentimento, desqualificação ou retaliação velada ou direta, inclusive com exposição do afeto em lugares onde ocupa algum poder e não pode ser confrontado, ganhando uma ilusão de validação interna em suas distorções. Aqui, como pode-se notar, <strong>a fragilidade egóica se protege por meio da linguagem do saber</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O segundo perfil é mais difícil de perceber justamente porque costuma vir acompanhado de trajetória, prestígio e experiência. Trata-se do analista que, ao longo dos anos, vai deixando de se submeter ao próprio processo e começa a falar a partir de uma posição já não interrogada. A dúvida diminui, a autorreflexão empobrece, a teoria vira armadura, e o sujeito passa a operar como se estivesse em um ponto de vista mais alto, como se fosse o exemplo claro de “inconsciente que se realiza” — e aqui faço óbvia referência a como Jung teoricamente se descreve na deformada biografia <em>Memórias, sonhos, reflexões </em>(JUNG, 2016, p. 25), que estudiosos como o Sonu Shamdasani afirmam ter sido editada posteriormente com o intuito de criar uma imagem de Jung como uma figura quase “profética” ou “sábio espiritual”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De toda forma, em certos casos de inflação psíquica, Jung afirma que é possível observar o aspecto daquilo que ele chamou de personalidade-mana (JUNG, 2015, p. 118): a figura que acredita estar investida de um poder especial, de uma autoridade quase mágica, fascinante e superior. E mesmo quando ele não se nomeia assim, o campo relacional denuncia a presença dessa inflação. Há excesso de reverência e referência a si mesmo, pouca possibilidade de discordância, grande assimetria simbólica e uma atmosfera em que o analista parece mais interessado em conservar o lugar que ocupa do que em favorecer a autonomia do outro. Assim, não resta mais nada ao analisando a não ser orbitar o analista, quando o trabalho deveria favorecer uma relação mais ampla do analisando com o próprio centro psíquico e com o desenvolvimento da autonomia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, vale ressaltar, algo ainda mais perigoso acontece quando esses dois perfis se encontram — por exemplo, um analista mais velho, já inflado por sua posição, atendendo um mais jovem, em formação ou sem tanta experiência, ainda vulnerável à fascinação pela autoridade e pelo desejo de validação externa. Nesse caso, forma-se um campo particularmente propício à repetição da distorção que empobrece a formação na psicologia analítica e, consequentemente, esta como um todo. A experiência vira critério de verdade. O tempo de prática vira prova de legitimidade absoluta. A tradição vira escudo contra a crítica. E a formação, que deveria servir à ampliação da consciência e ao contato com a alma, pode se transformar em aparelho de reprodução de submissão, um desserviço à psicologia junguiana.</p>



<h2 id="h-nesses-contextos-o-que-mais-se-perde-e-precisamente-a-dimensao-analitica-da-experiencia-porque-analise-supoe-relacao-viva-com-o-nao-sabido" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Nesses contextos, o que mais se perde é precisamente a dimensão analítica da experiência. Porque análise supõe relação viva com o não sabido.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Supõe trabalho com símbolos, ambivalências, conflitos e limites. Supõe que nenhuma teoria, por mais preciosa que seja, substitui o encontro com aquilo que ainda não foi assimilado. Jung, em <em>A vida simbólica</em> (JUNG, 2012, p. 70-71)<em>, </em>insistiu que a psicoterapia não é um método simples, nem algo que possa ser aplicado estereotipadamente, mas um procedimento dialético, um diálogo entre duas pessoas. Quando o analista se esconde atrás do manto de uma doutrina para preservar prestígio e autoridade, ele trai a própria vida da psique.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Daí decorre um ponto ético decisivo: o analista não tem o direito de usar a teoria para imunizar-se contra a alteridade do paciente. Pois a teoria deveria ampliar a escuta, não a deveria blindar. Deveria oferecer linguagem para o indizível, não servir de instrumento de submissão. Quando ela vira proteção egóica, o que resta já não é clínica no sentido profundo, mas administração de influência. É o exemplo claro do poder ocupando de maneira destrutiva um lugar que deveria ser do seu oposto, o amor.</p>



<h2 id="h-isso-toca-inclusive-diretamente-a-questao-da-confidencialidade" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Isso toca, inclusive, diretamente a questão da confidencialidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Explico: em sua última entrevista, no programa <em>Face to Face,</em> da BBC, conduzida por John Freeman em 1959, Jung, aos 83 anos, se recusou a compartilhar sonhos que Freud, falecido em 1939, lhe havia contado em um passado distante, antes de cortarem relações por discordâncias diversas. A justificativa dele foi simples e rigorosa: aquilo pertence à intimidade de quem confiou esse material e não deve ser divulgado. É preciso reforçar o óbvio: o que se compartilha em análise ou supervisão não é informação qualquer. É matéria psíquica confiada em condição de vulnerabilidade.</p>



<h2 id="h-mesmo-quando-o-analisando-ou-o-supervisionando-interrompe-o-processo-se-afasta-se-cala-ou-morre-esse-estatuto-nao-se-dissolve-o-material-clinico-nao-pertence-ao-analista-o-fato-de-te-lo-escutado-nao-lhe-da-posse-sobre-ele" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Mesmo quando o analisando ou o supervisionando interrompe o processo, se afasta, se cala ou morre, esse estatuto não se dissolve. O material clínico não pertence ao analista. O fato de tê-lo escutado não lhe dá posse sobre ele.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O setting implica uma assimetria fundada em confiança, e violá-la — de forma direta ou indireta — não é apenas um erro técnico ou uma indiscrição ética. É uma ruptura do símbolo que sustenta a própria situação analítica. Quando o analista, sem preservar o anonimato do analisando ou supervisionando, expõe, sugere, insinua ou tangencia o conteúdo clínico para obter elaboração pessoal, exibição teórica, coesão grupal ou prestígio simbólico, ele rebaixa o segredo do outro a instrumento de uso próprio. O que deveria ser guardado como expressão singular de uma alma é convertido em objeto de circulação egóica, despotencializando o processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso o analista precisa permanecer em trabalho constante com a própria sombra. A inflação não começa quando ele comete uma grande falta visível. Ela começa antes, em pequenos deslocamentos internos quase imperceptíveis: no prazer de ser procurado, na dificuldade de ser contrariado, na fantasia de excepcionalidade, na superioridade moral disfarçada de discernimento, no uso da teoria como arma, no gozo silencioso de ser central para alguém. Se isso não é reconhecido, um dia pode ser institucionalizado como estilo clínico.</p>



<h2 id="h-jung-foi-severo-ao-afirmar-que-a-individuacao-nao-autoriza-ninguem-a-retirar-se-da-coletividade-sem-produzir-valores-equivalentes-jung-2012-p-25" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung foi severo ao afirmar que a individuação não autoriza ninguém a retirar-se da coletividade sem produzir valores equivalentes (JUNG, 2012, p. 25). </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pode-se transpor essa ideia à função analítica: nenhuma formação, nenhuma análise pessoal, nenhum reconhecimento e nenhuma experiência conferem licença para situar-se acima da crítica, da ética ou da alteridade. Ao contrário, quanto mais alguém ocupa um lugar de autoridade, mais precisa produzir um equivalente em humildade psíquica, responsabilidade simbólica e disponibilidade para o próprio exame. A autoridade analítica só se legitima quando aceita não coincidir consigo mesma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É por isso que a clínica exige uma ética mais radical do que a simples observância de regras. Exige uma posição interior. Exige que o analista permaneça em relação com o não-saber, com o limite, com a própria vulnerabilidade ao engano e com a alteridade irredutível do outro. Exige que ele renuncie ao gozo de ocupar o lugar de destino e aceite, mais modestamente e mais arduamente, ser apenas uma função importante em certa travessia que não lhe pertence.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando isso se mantém, a análise ainda pode conservar sua dignidade. O paciente encontra ali não um senhor de sua jornada, mas uma presença suficientemente trabalhada para não sequestrar seu processo. O analista, por sua vez, não se torna menor por isso. Ele se torna mais confiável, e isso fortalece o processo. Porque só quem não precisa ser o centro pode realmente ajudar alguém a se aproximar do próprio centro.</p>



<h2 id="h-quando-essa-renuncia-falha-ja-nao-estamos-diante-de-uma-analise-propriamente-dita-mas-de-suas-deformacoes-possiveis-sugestao-sofisticada-dependencia-erotizada-captura-transferencial-doutrinacao-simbolica-ou-manipulacao-com-verniz-teorico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Quando essa renúncia falha, já não estamos diante de uma análise propriamente dita, mas de suas deformações possíveis: sugestão sofisticada, dependência erotizada, captura transferencial, doutrinação simbólica ou manipulação com verniz teórico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para deixar bem claro, o risco, portanto, é estrutural, e não apenas erro técnico do analista, como quem aplica mal um conceito, interpreta precipitadamente ou conduz inadequadamente uma sessão. A questão aqui levantada não é algo resumido ao manejo, ao método, ao enquadre, à prática profissional em sentido mais operacional. Quando eu digo que o risco é estrutural, estou dizendo que o problema atinge a própria estrutura da posição analítica. Ou seja, mexe no fundamento do trabalho, na forma como o analista se coloca diante do analisando, do saber, do poder, da transferência e do mistério da psique.</p>



<h2 id="h-em-outras-palavras-se-o-analista-comeca-a-ocupar-o-lugar-de-dono-do-processo-de-autoridade-ultima-de-referencia-absoluta-o-que-se-corrompe-nao-e-apenas-uma-intervencao-aqui-ou-ali-o-que-se-corrompe-e-o-proprio-vinculo-analitico" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Em outras palavras: se o analista começa a ocupar o lugar de dono do processo, de autoridade última, de referência absoluta, o que se corrompe não é apenas uma intervenção aqui ou ali. O que se corrompe é o próprio vínculo analítico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A análise deixa de ser análise na sua base. Ela pode até continuar parecendo análise por fora — com setting, linguagem sofisticada, interpretações, supervisão, teoria —, mas por dentro já está organizada por outra lógica: narcisismo, poder, sugestão, submissão e dependência. E isso tudo deve ser visto sem complacência e com rigor, sobretudo dentro dos próprios meios analíticos — principalmente entre analistas em formação, analistas didatas, institutos junguianos, escolas de formação, grupos de supervisão e círculos clínicos em geral. Porque é nesses meios que muitas vezes surge uma blindagem: o abuso simbólico pode ser encoberto por linguagem técnica, o autoritarismo pode ser confundido com profundidade, e a inflação pode ser confundida com maturidade ou experiência. E, nesses casos, não há dúvida alguma: quem perde verdadeiramente é a psicologia analítica e, ainda, todos aqueles que confiam nela como caminho de autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/leandroscapellato/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/leandroscapellato/">Leandro Scapellato – Analista em formação/IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata/IJEP</a></strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: &quot;Quando o analista se confunde com o destino do analisando&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/nqnwuwHAE1o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>A prática da psicoterapia</em>. 16. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>A vida simbólica. </em>Vol. 2. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012q.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>Face to Face</em>: entrevista com Carl Gustav Jung. Entrevista concedida a John Freeman. BBC Television, 1959. Disponível em: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=x5VXNeXw648">https://www.youtube.com/watch?v=x5VXNeXw648</a>. Acesso em: 23 mar. 2026.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>O eu e o inconsciente</em>. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>Psicologia do inconsciente</em>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">_________________. <em>Memórias, sonhos, reflexões</em>. Org. Aniela Jaffé. 33. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">SHAMDASANI, Sonu. <em>Jung Stripped Bare by His Biographers, Even</em>. London: Karnac Books, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-o-analista-se-confunde-com-o-destino-do-analisando/">Quando o analista se confunde com o destino do analisando</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A Beleza de Errar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-beleza-de-errar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 May 2026 13:49:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[beleza de errar]]></category>
		<category><![CDATA[clínica junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[cura psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[erro]]></category>
		<category><![CDATA[integração]]></category>
		<category><![CDATA[processo de individuação]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12970</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este trabalho convida a repensar o erro não como falha, mas como expressão da vida psíquica que transborda os limites da consciência. À luz da psicologia junguiana, propõe-se compreendê-lo como elemento essencial no processo de individuação e na construção da totalidade. Durante as sessões de atendimento, percebo uma temática recorrente na clínica: um estado [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-beleza-de-errar/">A Beleza de Errar</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: Este trabalho convida a repensar o erro não como falha, mas como expressão da vida psíquica que transborda os limites da consciência. À luz da psicologia junguiana, propõe-se compreendê-lo como elemento essencial no processo de individuação e na construção da totalidade.</p>



<h2 id="h-durante-as-sessoes-de-atendimento-percebo-uma-tematica-recorrente-na-clinica-um-estado-constante-de-inseguranca-em-relacao-a-estar-fazendo-a-coisa-certa" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Durante as sessões de atendimento, percebo uma temática recorrente na clínica: um estado constante de insegurança em relação a estar fazendo a coisa certa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Muitas vezes, esse estado impede meus clientes de agir, pois o medo do erro e das possíveis consequências acaba paralisando o movimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém, é possível observar que aquilo que muitas vezes é vivido como erro ou falha também pode desempenhar um papel fundamental no surgimento de novos caminhos. Ao longo da história, diversos acontecimentos considerados inicialmente equivocados ou acidentais foram reconhecidos como muito importantes para várias descobertas. Um exemplo clássico é o descobrimento da penicilina por Alexander Fleming, que ocorreu a partir de uma contaminação não planejada em um experimento laboratorial. O que poderia ser interpretado como descuido foi, na verdade, um acontecimento decisivo para o desenvolvimento da medicina moderna.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existem outros exemplos emblemáticos como o forno de micro-ondas, que surgiu a partir da observação inesperada de um chocolate derretido próximo a um equipamento de radar, e o post-it que foi desenvolvido a partir de uma tentativa fracassada de criação de um adesivo forte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses casos ilustram que o erro, aquilo que escapa ao controle, não necessariamente interrompem o curso da experiência, mas podem, ao contrário, trazer novas possibilidades. Nesse sentido, tais acontecimentos convidam a refletir não apenas sobre o erro como uma parte integrante de um processo mais amplo, no qual o inesperado pode operar como condição para a criação.</p>



<h2 id="h-a-partir-dessa-perspectiva-o-erro-pode-ser-compreendido-como-a-expressao-de-conteudos-que-escapam-ao-controle-da-consciencia" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A partir dessa perspectiva, o erro pode ser compreendido como a expressão de conteúdos que escapam ao controle da consciência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse é um ponto central na obra de Jung, que entende a psique como um campo dinâmico que é marcado por uma tensão entre polos opostos, entre a rigidez das atitudes conscientes, que são frequentemente moldadas por normas sociais, e a vitalidade da alma, da vida que é de natureza criativa e autônoma. Ele descreve esse &#8220;transbordamento da vida&#8221; de diversas formas, é uma força que não se deixa aprisionar em esquemas preestabelecidos, conforme ele cita:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:1.3">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>As convenções são em si mesmas mecanismos sem alma, que nada mais podem abranger do que a rotina da vida. A vida criadora fica sempre acima da convenção. Por isso deve haver uma erupção destruidora das forças criativas, quando predominar unicamente a rotina da vida na forma de convenções tradicionais (JUNG, 2014b, § 305)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma, a tentativa de evitar o erro a qualquer custo, além de ser uma grande ilusão, também é psicologicamente muito problemática. A busca por uma suposta perfeição, sustentada por ideais rígidos e por uma adesão excessiva às normas externas, tende a produzir uma consciência unilateral, fraca, que se afasta da complexidade da vida psíquica.</p>



<h2 id="h-no-entanto-como-aponta-jung-aquilo-que-nao-encontra-lugar-na-consciencia-nao-deixa-de-existir-muito-pelo-contrario-o-que-foi-reprimido-permanece-ativo-no-inconsciente-buscando-formas-de-expressao" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">No entanto, como aponta Jung, aquilo que não encontra lugar na consciência não deixa de existir, muito pelo contrário, o que foi reprimido permanece ativo no inconsciente, buscando formas de expressão:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px;line-height:1.2">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>A melhor maneira talvez de compreender o inconsciente é considerá-lo como um órgão natural dotado de uma energia criadora específica. Se, em consequência da repressão, seus produtos não encontram acolhida na consciência, surge uma espécie de represamento, uma inibição não natural de uma função orientada para um fim, semelhantemente ao que ocorre com a bílis, um produto da função do fígado, quando impedida de fluir para o intestino. Em consequência da repressão, produzem-se escoamentos psíquicos falsos. Da mesma forma que a bílis penetra na corrente sanguínea, assim também o conteúdo reprimido se irradia para outros domínios psíquicos e fisiológicos. (JUNG, 2014a, § 702)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, quanto maior o esforço em manter-se dentro de um ideal de correção absoluta, maior tende a ser a pressão dos conteúdos excluídos. A consciência, ao tentar se proteger do erro, acaba fazendo exatamente o oposto, pois ela se fragiliza justamente por se tornar menos flexível e menos capaz de dialogar com aquilo que escapa ao seu controle. O erro, então, não aparecerá apenas como uma falha, mas poderá aparecer como uma forma de irrupção desses conteúdos, muitas vezes de maneira inesperada ou desproporcional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa dinâmica aponta para um paradoxo importante dentro da teoria junguiana que é estabelecido pelo seguinte conflito: ao tentar eliminar o erro, corre-se o risco de intensificá-lo. Isso porque a vida psíquica não se organiza segundo critérios de perfeição, mas de compensação e equilíbrio entre o diálogo da consciência com inconsciente.</p>



<h2 id="h-o-inconsciente-nesse-sentido-atua-de-modo-a-contrabalancar-a-unilateralidade-da-consciencia-fazendo-emergir-justamente-aquilo-que-foi-negligenciado-ou-reprimido" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">O inconsciente, nesse sentido, atua de modo a contrabalançar a unilateralidade da consciência, fazendo emergir justamente aquilo que foi negligenciado ou reprimido:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.3"><em>A experiência já mostrou, há muito tempo, que entre a consciência e o inconsciente existe uma relação de compensação, e que o inconsciente sempre procura complementar a parte consciente da psique, acrescentando-lhe o que falta para a totalidade, e prevenindo perigosas perdas de equilíbrio (JUNG, 2013, §252)</em></p>
</blockquote>



<h2 id="h-assim-o-erro-deve-ser-compreendido-como-parte-constitutiva-da-experiencia-humana-nao-como-algo-a-ser-combatido-ou-uma-rara-excecao" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Assim, o erro deve ser compreendido como parte constitutiva da experiência humana, não como algo a ser combatido ou uma rara exceção.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele marca os pontos de tensão entre aquilo que o sujeito acredita que deve ser e o que realmente aquilo que se realiza. Ao invés de ser evitado a qualquer custo, pode-se lidar de outra forma, pode-se convidar o ego a escutar o erro como um sinal, que muitas vezes é incômodo de ouvir, de que há aspectos da vida que não estão sendo contemplados pela consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa perspectiva, a proposta clínica não se orienta pela eliminação do erro, mas pela ampliação da consciência diante dele. Trata-se menos de tentar corrigir algo e muito mais de compreender que dinâmica psíquica está em jogo, que conteúdo busca expressão, que parte da vida insiste em existir apesar das tentativas de controle. É nesse movimento que o erro pode deixar de ser apenas um ponto de interrupção e passar a operar como um elemento de transformação.</p>



<h2 id="h-sob-essa-perspectiva-o-erro-pode-ser-compreendido-como-uma-grande-oportunidade-dentro-do-processo-de-individuacao-conceito-central-na-psicologia-analitica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Sob essa perspectiva, o erro pode ser compreendido como uma grande oportunidade dentro do processo de individuação, conceito central na psicologia analítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A individuação não se refere a um ideal de perfeição, mas a um processo contínuo de tornar-se quem se é, o que implica necessariamente o confronto com aquilo que escapa, que falha e que desorganiza a imagem consciente que o sujeito construiu de si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A experiência do erro, quando simbolizada, favorece o diálogo entre consciência e inconsciente, condição essencial para o processo de individuação. Importante ressaltar que não se trata de valorizar o erro em si, mas de reconhecer sua função dentro da dinâmica psíquica, pois ele pode indicar onde a vida insiste em se manifestar para além das formas conhecidas, convocando o sujeito a uma ampliação de si.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal a cura psíquica é diferente do que entendemos de cura física, onde trabalha-se para a eliminação de algo. A cura psíquica acontece quando há integração.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: A Beleza de Errar" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/E-7bzLwkPGU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/renata-pastorello/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/renata-pastorello/">Renata Pastorello &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl. G.<em> A Prática da Psicoterapia</em>. Edição digital. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">____________<em> A natureza da psique</em>. Edição digital. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014a</p>



<p class="wp-block-paragraph">____________<em> O Desenvolvimento da Personalidade</em>, Edição Digital. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014b</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-beleza-de-errar/">A Beleza de Errar</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Será que é tudo Culpa dos Pais?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 May 2026 12:42:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[complexos parentais]]></category>
		<category><![CDATA[contemporaneidade]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento da personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[maternidade e paternidade]]></category>
		<category><![CDATA[pais e filhos]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[setting analítico]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12956</guid>

					<description><![CDATA[<p>A pergunta “é tudo culpa dos pais?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. Leia o artigo aqui.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/">Será que é tudo Culpa dos Pais?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Um olhar junguiano sobre a culpabilidade dos pais na personalidade dos filhos</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: A pergunta “<strong>é tudo culpa dos pais</strong>?” frequentemente emerge diante do sofrimento psíquico infantil, sustentando uma visão causal e moralizante. A Psicologia Analítica propõe um deslocamento dessa lógica, enfatizando que a influência parental se dá sobretudo em nível inconsciente. A criança, em estado de participação mística, encontra-se imersa no campo psíquico dos pais, sendo profundamente afetada por seus conflitos não elaborados, afetos reprimidos e vidas não vividas. A compreensão de que o inconsciente dos pais atua como um solo invisível na constituição da psique infantil, desloca a noção de culpa para a de responsabilidade psíquica. Ainda assim, a criança não é determinada exclusivamente por esse campo, sendo também atravessada pelo inconsciente coletivo e pelo seu próprio processo de individuação</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pergunta-sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais-emerge-com-frequencia-tanto-na-clinica-quanto-no-discurso-cultural-contemporaneo" style="font-size:18px"><strong>A pergunta: “Será que é tudo culpa dos pais?” emerge com frequência tanto na clínica quanto no discurso cultural contemporâneo.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Diante do sofrimento psíquico, é comum buscar causas objetivas e responsáveis diretos (e externos). Muito frequentemente, procura-se culpabilizar os pais por todo sofrimento psíquico dos filhos, muitas vezes não levando em conta as dinâmicas inconscientes &#8211; pessoais e coletivas &#8211; que nos tomam a todos de assalto. Essa busca constante por um culpado, no entanto, tende a simplificar a imensa complexidade da alma humana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psicologia-analitica-oferece-uma-perspectiva-distinta-dessa-logica-reducionista-causal-e-moralista-deslocando-a-nocao-de-culpa-para-uma-compreensao-simbolica-e-relacional-do-desenvolvimento-psiquico" style="font-size:16px">A Psicologia Analítica oferece uma perspectiva distinta dessa lógica reducionista, causal e moralista, deslocando a noção de culpa para uma compreensão simbólica e relacional do desenvolvimento psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconhece a profunda influência dos pais na constituição da psique infantil, mas recusa a ideia de uma determinação mecânica ou de uma culpabilização consciente; até porque ninguém nasce como uma tábula rasa. Para ele, a criança não é afetada apenas pelos comportamentos explícitos dos pais, mas sobretudo pelo estado inconsciente de suas almas. Assim, a questão central deixa de ser a culpa e passa a ser a responsabilidade psíquica. Afinal, <strong>o inconsciente parental atua como um terreno invisível, onde a semente da psique infantil irá, inevitavelmente, germinar</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:1.4"><em>Também não está resolvido o assunto se os pais apenas procuram viver de acordo com os valores morais geralmente aceitos, porque o cumprimento de costumes e leis pode servir&nbsp; igualmente para encobrir uma mentira de tal modo sutil que, por isso mesmo, escape à percepção de outras pessoas. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-obra-o-desenvolvimento-da-personalidade-jung-afirma-que-a-crianca-vive-inicialmente-em-um-estado-de-profunda-indiferenciacao-em-relacao-ao-mundo-dos-pais" style="font-size:17px">Na obra “<strong>O Desenvolvimento da Personalidade</strong>”<em>,</em> Jung afirma que a criança vive inicialmente em um estado de profunda indiferenciação em relação ao mundo dos pais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele descreve essa condição como uma&nbsp; participação mística, na qual a criança não se percebe como um eu separado. Nesse contexto, os conteúdos inconscientes dos pais, seus conflitos não elaborados, medos, expectativas e frustrações, exercem influência direta sobre a psique infantil. Jung enfatiza que a criança é particularmente sensível não ao que os pais dizem, mas ao que eles são. Nas palavras do autor:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph"><em>O exemplo é o melhor dos mestres! Isto se verifica aqui como uma verdade, que já a muito é conhecida e que ao mesmo tempo é inexorável. Neste sentido o que importa não são palavras boas e sábias, mas tão somente o agir e a vida real dos pais. (JUNG, 2013, p. 49)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Essa ideia desloca nossa reflexão do campo moral para o campo simbólico e inconsciente, indicando que o sofrimento infantil muitas vezes expressa aquilo que não foi simbolizado ou integrado pelos adultos responsáveis. As crianças, com sua sensibilidade aguçada, ou em termos junguianos, ainda imersas no inconsciente dos pais, frequentemente atuam como &#8220;antenas&#8221; emocionais, absorvendo as tensões não ditas do sistema familiar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-outras-palavras-as-dinamicas-inconscientes-dos-pais-deveriam-receber-uma-maior-atencao-em-favor-da-qualidade-de-vida-dos-filhos-e-ate-certo-ponto-para-lhes-garantir-a-liberdade-de-viverem-suas-proprias-vidas" style="font-size:16px">Em outras palavras, as dinâmicas inconscientes dos pais deveriam receber uma maior atenção em favor da qualidade de vida dos filhos, e até certo ponto, para lhes garantir a “liberdade” de viverem suas próprias vidas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Jung (2013, p. 52, § 87), via de regra,&nbsp; o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram. Isso nos mostra que nossos sonhos engavetados e frustrações não elaboradas podem se tornar literalmente o “peso nos ombros” da geração seguinte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung é cuidadoso ao falar de culpa moral dos pais. Em seus textos sobre educação e psicoterapia, ele ressalta que muitos adultos carregam complexos não elaborados que inevitavelmente se manifestam na relação com os filhos, sem que haja nenhuma intenção consciente. Em vez de falar de culpa, Jung traz o conceito de responsabilidade psíquica, que não implica acusação, mas o reconhecimento das limitações e dificuldades dos próprios cuidadores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assumir-essa-responsabilidade-exige-profunda-coragem-para-olhar-para-dentro-e-acolher-as-proprias-imperfeicoes" style="font-size:17px">Assumir essa responsabilidade exige profunda coragem para olhar para dentro e acolher as próprias imperfeições.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:17px;line-height:1.4">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Não é importante que os pais nunca cometam erros, isso seria impossível para seres humanos, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador do seu próximo tanto para o bem quanto para o mal. (JUNG, 2013, p. 90, § 155)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-que-somos-pais-sentimos-na-pele-a-dificuldade-e-a-bencao-que-e-a-criacao-de-filhos" style="font-size:17px">Nós, que somos pais, sentimos na pele a dificuldade e a bênção que é a criação de filhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entendemos, no amor e na dor, que um filho é completamente diferente do outro, e que a mesma educação não traz os mesmos resultados para ambos. Na minha experiência como mãe, tenho duas filhas com uma diferença de seis anos entre elas. Entre os dois nascimentos, vivenciei duas gestações perdidas, episódios de dor que naturalmente deixaram suas marcas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira nasceu com um temperamento completamente diferente da segunda. Claro que as experiências e a visão de mundo delas dependeram de mim: tanto das minhas próprias vivências em diferentes momentos das gestações quanto durante os primeiros anos de suas vidas. A primeira teve sete meses de atenção minha exclusivamente dedicados a ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segunda, infelizmente, foi privada dessa atenção exclusiva, uma vez que, aos seus 40 dias de vida, precisei voltar ao trabalho; e, embora minha casa fosse ao lado do trabalho, não pude dar a ela a mesma presença. Mesmo tentando dar a ambas a mesma educação, eu já não era a mesma pessoa seis anos após a primeira gestação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-fica-evidente-que-todas-as-experiencias-vividas-por-nos-e-pelos-filhos-parecem-determinar-sensibilidades-futuras" style="font-size:16px">Nesse sentido, fica evidente que todas as experiências vividas por nós e pelos filhos parecem determinar sensibilidades futuras.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para mim, se fortalece o conceito de inconsciente coletivo e pessoal quando, independentemente do mesmo estímulo, cada um reage a seu modo. Somado a toda essa revisão do contexto da maternagem se encontram também todas as minhas quinas, curvas e pontos cegos da minha própria personalidade e dos conflitos conscientes e inconscientes que estavam em curso. <strong>Não somos mesmo tábula rasa</strong>; e aqui trago também minha percepção da espiritualidade manifestada em cada um de forma única e autônoma, confirmando que somos singulares e temos, cada um, um <em>dharma </em>a ser cumprido. Essa dimensão espiritual dialoga com o processo de individuação, no qual a alma busca seu propósito e sua totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando para Jung, ele reconhece a força das influências parentais, mas não considera o indivíduo condenado a elas. Cada um tem seu universo único e trilha seu caminho de evolução de forma independente. O&nbsp; processo de individuação pode representar a possibilidade de diferenciação da psique em relação às imagos parentais e aos complexos herdados. O desenvolvimento da consciência e a percepção de nossa luz e sombra permite uma relação mais honesta com os conteúdos inconscientes. Assim a Psicologia Analítica não busca apontar culpados, mas favorecer a integração simbólica das experiências vividas, possibilitando que o indivíduo assuma sua própria trajetória psíquica. Talvez aqui a pergunta “Será que é tudo culpa dos pais?” se transforme em outra: <strong>O que pode ser conscientizado, elaborado e transformado</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-capacidade-de-tomar-consciencia-de-nossas-sombras-e-o-primeiro-passo-para-alcancar-a-tao-almejada-evolucao" style="font-size:17px">A capacidade de tomar consciência de nossas sombras é o primeiro passo para alcançar a tão almejada evolução.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Também devemos nos lembrar que a individuação não é um processo linear. Somos apenas humanos e cometeremos erros ao longo do caminho. A escada é infinita e eventualmente daremos passos para trás. Autossabotagem, percursos equivocados, tudo parte do processo evolutivo da nossa longa jornada rumo à individuação. Reconhecer essas falhas, sem autojulgamento destrutivo, é essencial para continuarmos avançando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-a-relacao-entre-pais-e-filhos-revela-se-complexa-simbolica-e-bastante-inconsciente" style="font-size:17px">À luz da Psicologia Analítica, a relação entre pais e filhos revela-se complexa, simbólica e bastante inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reconhece a profunda influência dos pais no desenvolvimento psíquico dos filhos, mas não abraça explicações simplistas baseadas na culpa. A criança não sofre apenas por falhas objetivas, mas também por aquilo que circula silenciosamente no campo familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa forma a contribuição junguiana permite uma abordagem não acusatória, na qual pais e filhos são compreendidos como participantes de um processo relacional mais amplo. Nesse sentido, à medida que vamos caminhando rumo a nós mesmos, o processo de individuação traz como possibilidade atravessar e transformar essas heranças, além de proporcionar uma compreensão do outro de maneira mais inteira e respeitosa. Desta maneira, abre-se espaço para uma relação mais consciente e mais empática, que compreende as influências das dimensões inconscientes e o destino psíquico que nos cabe e que cabe ao outro, tomando para nós o que é nosso e devolvendo ao outro o que a ele pertence.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conduzir a educação dos filhos é, afinal, conduzir o nosso próprio caminho. Percebo que muito mais do que ensinamos aprendemos com eles. Talvez eles não tenham vindo apenas aprender conosco, mas sim nos ensinar a caminhar com mais leveza e finalmente fluir como o rio. Costumo usar a seguinte metáfora na clínica: deite de costas sobre as águas do rio e se deixe flutuar, ele sabe o caminho e inevitavelmente chega lá. Nadar contra a correnteza com certeza não é uma boa ideia!</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📃Artigo novo: Será que é tudo Culpa dos Pais?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Fq6ODC5JxKo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/andreia-guiotti-di-gregorio/">Andreia Guiotti di Gregório &#8211; Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencia-bibliografica" style="font-size:17px"><strong>Referência bibliográfica</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/sera-que-e-tudo-culpa-dos-pais/">Será que é tudo Culpa dos Pais?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mosaico-como-recurso-de-ressignificacao-no-processo-terapeutico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Beatriz Proença Whitaker de Assumpção]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Feb 2025 22:02:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[kintsugi]]></category>
		<category><![CDATA[mosaico]]></category>
		<category><![CDATA[processo terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[setting terapeutico]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=10191</guid>

					<description><![CDATA[<p>RESUMO: Esse artigo, de motivação pessoal, aborda a expressão criativa de se fazer um mosaico, no processo terapêutico, como uma oportunidade de se trabalhar os complexos e reintegrá-los à totalidade psíquica, facilitando a reorganização do mundo interno do indivíduo. INTRODUÇÃO Tenho em casa um jogador mirim de futebol, que sonha muito em um dia ser [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mosaico-como-recurso-de-ressignificacao-no-processo-terapeutico/">Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>RESUMO</strong>: Esse artigo, de motivação pessoal, aborda a expressão criativa de se fazer um mosaico, no processo terapêutico, como uma oportunidade de se trabalhar os complexos e reintegrá-los à totalidade psíquica, facilitando a reorganização do mundo interno do indivíduo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-introducao" style="font-size:18px">INTRODUÇÃO</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tenho em casa um jogador mirim de futebol, que sonha muito em um dia ser jogador profissional. Seu corpo, mesmo que ele se esforce, não consegue parar de chutar a bola o tempo todo, da hora que sai da cama, até a hora do boa noite. Pouco tempo atrás, ele acertou a bola em uma prateleira muito alta, onde eu acreditava que meus objetos favoritos estariam protegidos do seu talento futebolístico. Me equivoquei, pois um vaso, que tinha um valor emocional muito significativo para mim, despencou lá de cima e, sendo de cerâmica, partiu-se em diversos pedaços e muitos farelos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por saber do meu apreço pelo vaso, meu filho chorava e me abraçava, completamente decepcionado consigo mesmo. Logo que comecei a varrer os cacos, ele me pediu pra que não os jogasse fora, pois ele daria um jeito de colar. Apesar de estar totalmente descrente da eficácia de sua ideia, resolvi guardar os pedaços, para que houvesse uma chance dele se retratar, ainda que apenas em tentativa. Na mesma noite do ocorrido, quando meu marido chegou em casa, ao saber do “caso” do vaso partido, ele me contou que no dia seguinte filmaria uma cena de vaso se quebrando, com a presença no set de filmagem de um restaurador, que usaria uma técnica japonesa para colar os pedaços. Pôde então ser concretizado o desejo muito sincero de uma criança arrependida de sua “boa” pontaria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tecnica-citada-e-chamada-de-kintsugi-que-significa-emendar-com-ouro" style="font-size:19px">A técnica citada é chamada de <strong>Kintsugi</strong>, que significa “emendar com ouro”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A técnica consiste em misturar cola com pó de ouro, prata ou platina para recuperar cerâmicas e porcelanas. Surgiu no Japão, no século XV, quando o xogum (mais alto título militar concedido pelo imperador) Ashikaga Yoshimasa enviou à China uma cerâmica quebrada para ser restaurada. Não satisfeito com o resultado, que utilizou grampos metálicos para juntar os pedaços, o xogum pediu para que artesãos japoneses desenvolvessem outra maneira de consertar a peça. Esses artesãos, ao invés de tentarem disfarçar as emendas entre os pedaços partidos, usaram ouro para colá-los e, assim, evidenciar as falhas. <strong>Com isso, os defeitos e imperfeições não foram mais escondidos, mas valorizados, trazendo uma nova beleza para a peça</strong>. Assim, a técnica Kintsugi permitiu que o objeto ganhasse novo uso após seu dano ou ruptura (Cf. HATANAKA, 2023, sp).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gracas-ao-kintsugi-meu-filho-teve-a-possibilidade-de-reparar-algo-muito-importante-dentro-de-si" style="font-size:19px">Graças ao Kintsugi, meu filho teve a possibilidade de reparar algo muito importante dentro de si. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Ele teve a chance de fazer algo novo surgir dos cacos e me presenteou com um objeto novo, diferente do antigo, mas com um significado muito mais importante para mim.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa situação me fez pensar no uso do mosaico como recurso, dentro de um <em>setting</em> de arteterapia, de possibilidade de ressignificação de uma dor ou até mesmo de conteúdos psíquicos rompidos de nossos clientes. Antes de entrarmos nessa reflexão, vamos conhecer um pouco da sua história como expressão artística.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-breve-historia-do-mosaico" style="font-size:18px">UMA BREVE HISTÓRIA DO MOSAICO</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A palavra mosaico, de origem grega, significa “paciência digna das musas”. “Paciência porque requer concentração e muita atenção para executá-lo, e digna das musas por se tratar de um trabalho de uma beleza rara e magnífica” (MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 39). O mosaico é considerado, assim como a pintura e a escultura, uma das primeiras manifestações culturais do ser humano. Pesquisas indicam que a técnica tem origem nas civilizações antigas, como Egito e Mesopotâmia. Segundo historiadores, o primeiro mosaico produzido data de 3.500 a.C, na antiga cidade de Ur, sendo composto por dois painéis realizados em mármore, arenito vermelho e conchas, que eram carregados em procissões.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A obra retrata a guerra e a paz, com cenas do cotidiano de uma sociedade que utilizava veículos de transporte e de combate com características bem rudimentares.” </p><cite>(MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 40)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No Egito, os mosaicos eram usados para ornamentar as paredes e colunas dos templos com pedras preciosas e vidro. Já na Grécia, os mosaicos eram usados para pavimentar os pisos, retratando cenas com motivos mitológicos e recriando situações de lutas e caças de animais. Quando os romanos conquistaram a Grécia, assimilaram diversas formas de arte, incluindo o mosaico. Neste período, começou a ser usado em basílicas onde eram reproduzidas cenas bíblicas. O mosaico passou então a ser um elemento de difusão do Cristianismo, adquirindo um caráter majestoso de riqueza e poder (Cf. MEDEIROS; BRANCO, 2012, p. 40-43).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Bem mais tarde, no começo do século XX, o arquiteto catalão Antonio Gaudí, utilizou-se do mosaico para conciliar arquitetura e decoração, rompendo com a sua estrutura plana. A técnica chegou no Brasil, sendo utilizada em várias construções espalhadas pelo país, principalmente como revestimento externo. As primeiras cidades a adotarem a técnica, que foi trazida pelos franceses e italianos, foram São Paulo e Rio de Janeiro. Nesta ultima cidade, “as calçadas também ganharam graça e beleza com a iniciativa do prefeito Pereira Passos, quando, em 1905, pavimentou a Avenida Central &#8211; hoje Avenida Rio Branco” (MEDEIROS; BRANCO, 2012, p.43).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-uso-do-mosaico-na-arteterapia" style="font-size:18px">USO DO MOSAICO NA ARTETERAPIA</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim como o vaso despedaçado e depois restaurado, o mosaico permite que peças inteiras de azulejos sejam quebradas para, então, criar e transformar seus múltiplos cacos em uma nova peça, uma nova unidade.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“A produção da peça depende de cada caco encaixado adequadamente na composição da imagem. Um caco que se encaixa em uma determinada parte não cabe na outra.” </p><cite>(MARQUES, 2024, p. 9)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-mesmo-modo-que-o-mosaico-tambem-somos-feitos-de-pedacos-de-diversos-fragmentos-psiquicos-que-nos-compoe" style="font-size:18px">Do mesmo modo que o mosaico, também somos feitos de pedaços; de diversos fragmentos psíquicos que nos compõe.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar de nos reconhecermos como uma unidade, o inconsciente é habitado por inúmeros <strong>complexos</strong>, isto é, imagens de situações psíquicas de forte carga emocional, que geralmente são incompatíveis com a atitude da consciência. Como explica Jung, “<strong>esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de <em>autonomia</em></strong>” (2013, p. 43).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Os complexos são como pedaços que foram arrancados da psique por um choque emocional ou moral, no embate com o mundo exterior</strong>. Por nascerem dessa incompatibilidade com a atitude da consciência, os complexos são reprimidos e se tornam inconscientes. Eles são, então, sentidos em nós como personagens internos autônomos, ou externos (quando projetados), e que têm influência na nossa maneira de pensar, de agir e de sentir. Esse processo de cisão entre consciência e conteúdos do inconsciente tem efeito no indivíduo como uma sensação de perda, “e quando um complexo perdido se torna, de novo, consciente, por exemplo, através do tratamento psicoterapêutico, o indivíduo sente que houve um aumento de força” (JUNG, 2013, p.265).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Verena Kast (2013, p.42), em <em><strong>A dinâmica dos símbolos</strong></em>, identifica no trabalho terapêutico com os complexos, uma chance de desenvolvimento do indivíduo. A autora explica que os complexos podem ter tanto caráter inibidor, quanto promotor. Para ela, ao trabalhar os complexos em um processo analítico, identificando-os e conscientizando-se de sua dinâmica, sempre há a chance de liberar a energia contida nele para que haja sua integração à consciência e, assim, favorecendo o desenvolvimento do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há complexos que inibem, outros que promovem. Esse é um lado da realidade. O outro é que, em todo complexo, ainda que inicialmente se trate de um complexo inibidor sempre será também, se nos envolvermos com ele, um tema de desenvolvimento, um estimulo para o desenvolvimento. (KAST, 2013, p. 72)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-trabalhamos-os-complexos-na-clinica-atraves-da-fantasia-sonhos-e-expressoes-artisticas-ativamos-a-formacao-de-simbolos" style="font-size:18px">Quando trabalhamos os complexos na clínica, através da fantasia, sonhos e expressões artísticas, ativamos a formação de símbolos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os símbolos têm uma função de mediar a relação conflituosa entre a consciência e o inconsciente. Ao simbolizarmos, conseguimos lidar criativamente com a vida, com os conflitos, e, acima de tudo, transformamos as forças inibidoras dos complexos em forças promotoras de desenvolvimento.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Os complexos se tornam visíveis nos símbolos, por meio de fantasias. Pois onde há emoções, também há imagens. Os complexos se fantasiam, por assim dizer, nos símbolos.” </p><cite>(KAST, 2013, p. 48)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A função simbólica do fazer artístico confere uma manifestação visível ao afeto do complexo. Jung percebeu a importância do uso de técnicas expressivas como meio de acesso ao inconsciente. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Como descreve Lígia Diniz (2018, p.35), em <em><strong>Arte: a linguagem da alma</strong></em>, “<strong>a Arteterapia, sob a ótica junguiana, parte do princípio que a vida psíquica tem uma tendência inata à organização e que o processo terapêutico por meio da arte poderá dinamizar esta tendência</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo Diniz (2018, p.35), o símbolo, trazido pela expressão artística, tem a capacidade de tocar o afeto, de compreender, refazer e reparar estruturas. Embora seu sentido oculto nunca seja totalmente esgotado, o símbolo traz a chance de trabalharmos o mundo interno do cliente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pratica-da-arteterapia-facilita-a-decifracao-do-mundo-interno-o-conflito-com-as-imagens-e-a-energia-psiquica-que-ai-se-configuram" style="font-size:18px">A prática da Arteterapia facilita a decifração do mundo interno, o conflito com as imagens e a energia psíquica que aí se configuram.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A compreensão destas formas simbólicas possibilita o confronto com o inconsciente e a tomada de consciência de seus conteúdos, pois o mundo das emoções e o mundo das coisas concretas não estão separados por fronteiras intransponíveis. Ambos permeiam-se no dia a dia, o que é particularmente manifesto nas obras de artes plásticas e literárias, e a Arteterapia pode aperfeiçoar estes intercâmbios. (DINIZ, 2018, p.33)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclusao" style="font-size:18px">CONCLUSÃO</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trabalhar com mosaico no processo terapêutico é propor para o indivíduo que ele revisite seus fragmentos, os complexos, assim como sua memória e experiências, e possa reorganizá-los em uma nova versão. Através dos símbolos que surgem do inconsciente, o mosaico, como recurso terapêutico, traz uma possibilidade de reintegração dos aspectos que estavam cindidos à totalidade psíquica. A expressão do inconsciente através da arte permite que a carga emocional da imagem simbólica seja despotencializada, facilitando essa reorganização do mundo interno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O indivíduo pode ressignificar então seus conflitos, juntando os cacos, reorganizando e colando</strong>. Desse modo, um novo sentido para a experiência vivida surge, assim como aconteceu com meu filho e o vaso restaurado.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/lgpLdFT0k3Q?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Beatriz Assumpção &#8211; Analista em formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/liaromano/">Lia Romano &#8211; Analista Didata IJEP</a> </strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">DINIZ, Lígia. <em>Arte: linguagem da alma</em>. Arteterapia e psicologia junguiana. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">HATANAKA, Paulo (2023). <em>Kintsugi</em>: <em>aceitar e valorizar as imperfeições</em>. <a href="https://www.japanhousesp.com.br/artigo/kintsugi/">https://www.japanhousesp.com.br/artigo/kintsugi/</a> Acesso em: 18 nov. 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>. 10ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">KAST, Verena. <em>A dinâmica dos símbolos</em>. Fundamentos da psicoterapia junguiana. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">MARQUES, Gilmara. <em>O mosaico e a expressão da totalidade da alma</em>. Curso de Arteterapia e expressões criativas, IJEP. São Paulo, 2024. Apostila de aula.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px">MEDEIROS, Adriana; BRANCO, Sonia. <em>Conto de fada</em>. Vivências e técnicas em arteterapia. 2ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Conheça nossas&nbsp;<strong>Pós-graduações</strong>&nbsp;com matrículas abertas:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a>&nbsp;–&nbsp;<strong><em>Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática; Psicologia Junguian</em></strong><em><strong>a</strong></em></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="https://www.ijep.com.br/"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10196" style="width:764px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/PSICOLOGIA-JUNGUIANA.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Não perca</strong>: Vem aí o&nbsp;<strong><a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">X Congresso Junguiano do IJEP</a></strong>, com o tema “<strong>Crise da meia idade: O direito de Envelhecer e de Morrer</strong>“, que ocorrerá nos dias&nbsp;<strong>9, 10 e 11 de Junho de 2025</strong>,<strong>&nbsp;inscrições abertas</strong>! Serão mais de trinta palestras com os Professores e Analistas do IJEP, imperdível! Saiba mais e inscreva-se:&nbsp;<a href="https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep">https://www.institutojunguiano.com.br/x-congresso-ijep</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img decoding="async" width="1024" height="533" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-1024x533.png" alt="" class="wp-image-10197" style="width:761px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-1024x533.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-300x156.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-768x399.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-1536x799.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-150x78.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-450x234.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2-1200x624.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/02/Banner-site-2.png 1909w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mosaico-como-recurso-de-ressignificacao-no-processo-terapeutico/">Mosaico como recurso de Ressignificação no Processo Terapêutico</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
