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	<title>Arquivos sexualidade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Tue, 31 Mar 2026 16:53:21 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos sexualidade - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Expressão de Gênero e Alma: Jung, Psique e Diversidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/expressao-de-genero-e-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Mar 2026 15:16:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma Análise Junguiana da Diversidade de Gênero e Sexualidade Este ensaio propõe uma releitura da obra de Carl Gustav Jung sobre expressão de gênero e alma, sexualidade e subjetividade, partindo de uma abordagem simbólica e histórica, e não literal. A partir disso, discute os conceitos de Anima, Animus, Persona e Processo de Individuação, mostrando como [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-uma-analise-junguiana-da-diversidade-de-genero-e-sexualidade"><em>Uma Análise Junguiana da Diversidade de Gênero e Sexualidade</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este ensaio propõe uma releitura da obra de Carl Gustav Jung sobre expressão de gênero e alma, sexualidade e subjetividade, partindo de uma abordagem simbólica e histórica, e não literal. A partir disso, discute os conceitos de <strong>Anima</strong>, <strong>Animus</strong>, <strong>Persona</strong> e <strong>Processo de Individuação</strong>, mostrando como eles ajudam a pensar as experiências de pessoas LGBTQINAP+ e outras vivências fora da norma, sem reduzi-las a categorias rígidas. O texto defende que a psique é mais complexa do que qualquer binarismo e que a busca pela individuação envolve fidelidade à verdade interior, integração da <strong>Sombra</strong> e construção de uma vida mais autêntica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contexto-historico-e-a-emergencia-da-diversidade-leitura-nao-anacronica-de-jung">Contexto Histórico e a Emergência da Diversidade: Leitura não Anacrônica de Jung</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A obra de Carl Gustav Jung, quando lida com rigor hermenêutico e sem reduções apressadas, continua a oferecer um campo notavelmente fértil para se pensar gênero, sexualidade e subjetividade em sua dimensão mais profunda, como experiência da alma, evitando a unilateralidade do monoteísmo da consciência e da razão que abduziu esta ciência baseada em evidências e, por estar viciada em resultados e certezas, nega toda peculiaridade e singularidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa fecundidade, porém, só se preserva à medida que recusamos dois movimentos igualmente empobrecedores: de um lado, a tentação de transformar Jung em um pensador inteiramente alinhado com as categorias contemporâneas de gênero; de outro, a caricatura que o reduz a um autor meramente binário e heteronormativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O caminho mais sólido é o da leitura em camadas, capaz de distinguir, em sua obra, o que é estrutural, o que é histórico e o que permanece aberto à compreensão simbólica. Embora a pluralidade das expressões de gênero e alma seja frequentemente tratada como um debate recente, ela constitui um fenômeno social e antropológico que atravessa milênios. Sua conceituação teórica e sua aceitação pública, contudo, ganharam força significativa a partir da segunda metade do século XX — sobretudo após a morte de Jung — com o avanço da segunda onda do feminismo nos anos 1970, o desenvolvimento da Teoria <em>Queer</em> por volta de 1990 e a luta crescente por direitos e visibilidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse contexto, a individuação para sujeitos LGBTQINAP+ eleva-se para além da mera adaptação social, constituindo-se como a edificação ativa de uma existência em profunda fidelidade a uma verdade psíquica intrínseca, irredutível a uma escolha voluntária ou a uma simples opção identitária. Essa determinação anímica irrompe na mente e no corpo, impulsionando uma reorganização radical da economia psíquica, uma reconfiguração da <strong>Persona</strong> e um confronto essencial com a <strong>Sombra</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Tal processo não almeja uma identidade meramente obediente, mas sim a concretização de uma forma de vida autêntica e intrinsecamente congruente com o <strong>Self</strong>, um princípio que se estende a todas as orientações sexuais e identidades de gênero que divergem das expectativas normativas, as quais devem ser compreendidas como configurações legítimas e plenamente válidas da experiência humana — jamais como desvios patológicos da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não obstante, a projeção histórica da <strong>Sombra</strong> coletiva sobre esses indivíduos — que os estigmatiza com estereótipos de promiscuidade, malevolência ou patologia — evidencia o caráter profundamente cultural e, amiúde, estrutural do preconceito. A internalização dessas normas discriminatórias pode gerar um sofrimento psíquico considerável, tornando o apoio terapêutico não apenas relevante, mas indispensável. Esse suporte revela-se crucial para o reconhecimento e a integração da verdade psíquica autêntica, capacitando o indivíduo a avançar em seu processo de individuação com pleno respeito à sua singularidade, fomentando resiliência diante das adversidades e consolidando sua dignidade integral.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anima-e-animus-para-alem-da-binaridade-biologica-na-dinamica-psiquica">Anima e Animus: Para Além da Binaridade Biológica na Dinâmica Psíquica</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em Jung, <strong>Anima</strong> e <strong>Animus</strong> não devem ser entendidos como equivalentes rígidos de feminino e masculino em sentido biológico, tampouco como categorias identitárias fechadas. São formas arquetípicas de alteridade psíquica, imagens mediadoras entre consciência e inconsciente, ego e <strong>Self</strong>, adaptação e profundidade, relação e transformação. Funcionam como pontes entre a <strong>Persona</strong> e a dimensão mais recôndita da psique, manifestando aquilo que no sujeito permanece latente, não dominado e ainda em formação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa compreensão é decisiva porque desloca o debate do plano normativo para o plano simbólico. Não se trata de perguntar se uma pessoa trans, lésbica, gay, bissexual, pansexual, <em>queer</em> ou não binária “corresponde” a uma estrutura fixa de <strong>Anima</strong> ou <strong>Animus</strong>, mas de reconhecer que a experiência da alma excede toda moldura identitária e não se deixa converter em mecanismo classificatório.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Jung define a imagem da alma, afirma: “a alma, a atitude interna, é representada no inconsciente por certas pessoas que possuem as qualidades correspondentes à alma. Esta imagem chama-se imagem da alma. Às vezes, são personagens totalmente desconhecidos ou mitológicos&#8230;” (OC 6 §842).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se podem aparecer como desconhecidos ou mitológicos, não se submetem ao binarismo sexual. E continua: “Uma adaptação consciente ao objeto que representa a imagem da alma é impossível exatamente porque a alma é inconsciente para o sujeito.” (OC 6 §842)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora Jung tenha concebido a <strong>Anima</strong> e o <strong>Animus</strong> como arquétipos ligados à polaridade sexual entre homens e mulheres, é crucial reconhecer que em indivíduos transgênero e homossexuais esses arquétipos podem se vincular a imagens arquetípicas masculinas na <strong>Anima</strong> e femininas no <strong>Animus</strong>. Essa dinâmica complexifica a compreensão tradicional e tensiona leituras heteronormativas, revelando a fluidez e autonomia da psique diante das expectativas sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Talvez o ponto essencial seja este: Jung trabalha com imagens, não com etiquetas. Sua psicologia nasce da convicção de que a alma se expressa por símbolos, sonhos, afetos, fantasias, projeções, sintomas, sincronicidades e tensões entre opostos. O uso literal dos pares simbólicos empobrece sua teoria e trai sua lógica interna. Quando <strong>Anima</strong> e <strong>Animus</strong> são tomados como essências fixas, o pensamento enrijece; quando são lidos como funções imaginais de mediação, abrem-se para uma hermenêutica capaz de acolher a pluralidade LGBTQINPA+ sem reduzi-la ao binário.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-persona-e-o-desafio-da-adaptacao-social-entre-a-mascara-e-a-realidade-animica">A Persona e o Desafio da Adaptação Social: Entre a Máscara e a Realidade Anímica</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A reflexão sobre expressão de gênero e alma, sexualidade em Jung ganha densidade quando articulada ao conceito de <strong>Persona</strong>. A <strong>Persona</strong> é a máscara necessária da vida social, que nos permite circular, assumir papéis e responder às demandas coletivas. Mas também pode tornar-se prisão quando exige uma fidelidade que afasta o sujeito de sua verdade interna.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para muitas pessoas LGBTQINPA+, essa tensão é intensa, pois a forma como a sociedade nomeia, regula e interpreta seus corpos e desejos se impõe como regime de legibilidade forçada. A individuação, nesse contexto, não consiste em adequar-se ao repertório normativo, mas em atravessar a <strong>Persona</strong> sem ser capturado por ela — atravessar a aparência social rumo ao chamado interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação não é mera adaptação social nem autoexpressão narcísica. É um processo de diferenciação em direção à totalidade, no qual o sujeito aprende a reconhecer forças inconscientes, integra a <strong>Sombra</strong>, suporta tensões e aproxima-se de uma forma mais inteira de ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung afirma no <em>MSR</em>:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Quando não puderdes distinguir entre vós próprios, de um lado, a sexualidade e a espiritualidade, de outro [&#8230;], sereis vitimados por eles [&#8230;] manifestações de deuses [&#8230;] muito superiores a vós.” (MSR, p.339–340)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para pessoas LGBTQINPA+, além do conflito universal entre consciência e inconsciente, há a experiência concreta da norma que exclui, da linguagem que delimita e da cultura que hierarquiza. A individuação torna-se travessia histórica, relacional e política.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma releitura emergente da psicologia analítica exige reinterpretações que preservem o valor simbólico sem ignorar limites históricos. Gênero, nesse horizonte, não é essência, mas processo simbólico em formação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ressignificando-normalidade-e-saude-na-psicologia-analitica">Ressignificando “Normalidade” e “Saúde” na Psicologia Analítica</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Butler, ao mostrar a performatividade do gênero, evidencia que a identidade é repetição regulada de atos. Preciado revela a produção técnica, farmacológica e política dos corpos e subjetividades nos regimes sexopolíticos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para Butler, sempre há uma dimensão do vivo e do relacional que resiste a ser conhecida — e é justamente essa indeterminação que caracteriza a sexualidade (BUTLER, 2022). Jung, em sintonia, afirma: “A psique não é uma coisa dada, imutável, mas um produto de sua história em marcha.” (OC‑5, Prefácio da 3ª ed.)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ambos fazem uma releitura de Jung sem domesticá-lo. Lembram que a alma habita o corpo, sofre o poder, responde à linguagem e negocia com sistemas de significação. O simbólico não está apartado do político; atravessa as formas concretas da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na experiência trans, em especial, a individuação adquire espessura singular: a tensão entre imagem interna e nomeação externa é vivida de modo agudo, doloroso e criativo. A travessia não se reduz à adequação corporal ou social: envolve reorganizar a economia psíquica, reposicionar a <strong>Persona</strong> e confrontar a <strong>Sombra</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O mesmo vale para pessoas homossexuais, lésbicas, bissexuais e <em>queer</em>. A orientação sexual não é estrutura fixa de alma nem indicador de saúde ou desvio. Cada indivíduo é único, complexo e criativo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O desejo, em Jung, pertence ao simbólico e não se reduz ao unidimensional. Há autores junguianos que trataram a homossexualidade de forma datada, mas isso não impede leituras mais amplas, nas quais a orientação sexual é forma legítima de configuração do <em>eros</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O risco dos modelos normativos é colonizar a subjetividade. Eles pretendem fixar o que deveria ser fluido, impor coerência onde há multiplicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somos atravessados por deuses que imaginamos ter deixado no passado. Eles se manifestam no desejo, na afetividade, na identidade. Paralelamente, normas socioculturais e algoritmos dos <em>Big Data</em> criam tensões entre adaptação interna e externa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não se trata de retorno ingênuo ao politeísmo grego, mas do reconhecimento de que a alma fala com múltiplas vozes — nem sempre conciliáveis. A Energia Psíquica flui para permitir que essas potências se realizem através de nós, criando aspectos que nem sempre coincidem com a imagem que fazemos de nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica não é patológica; revela a riqueza da vida anímica. Cada força arquetípica reclama expressão e, quando recusada, opera de modo sombrio ou sintomático. A individuação consiste em tecer relações conscientes com essas figuras interiores, sem eleger uma única como regente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-individuacao-tem-por-meta-a-cooperacao-viva-de-todos-os-fatores-oc-11-4-268" style="font-size:18px"><em>“A individuação [&#8230;] tem por meta a cooperação viva de todos os fatores.” (OC 11/4, §268)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Acolher essa polifonia é gesto de coragem e antídoto contra normalizações contemporâneas que reduzem a experiência a diagnósticos e identidades fixas. A singularidade não é dado bruto, mas conquista negociada entre múltiplas vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ignorar essa polifonia gera sofrimento. A individuação busca sustentá-la criativamente, não eliminá-la. Acolher desejo e identidade é o próprio caminho.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A orientação sexual deixa de ser algo a justificar e se torna parte do caminho singular pelo qual cada um se torna quem é. Jung reconhece:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nem-toda-libido-se-fixa-numa-forma-regular-resta-sempre-um-quantum-excedente-oc-8-1-91" style="font-size:18px"><em>“Nem toda libido se fixa numa forma regular [&#8230;]. Resta sempre um quantum excedente.” (OC 8/1 §91)</em></h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pluralidade-da-alma-individuacao-e-o-imperativo-etico-da-escuta">A Pluralidade da Alma, Individuação e o Imperativo Ético da Escuta</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação, para sujeitos LGBTQINPA+, exige construir uma vida que não sacrifique a verdade psíquica no altar da conformidade. Implica diferenciar <strong>Persona</strong> e <strong>Self</strong>, reconhecer a <strong>Sombra</strong> produzida pela rejeição social, elaborar imagens internas sem transformá-las em essências aprisionadoras e encontrar pertencimento que não apague singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação não consiste em tornar-se adequado à norma, mas em tornar-se inteiro. Essa inteireza não é homogênea, linear ou binária: é dramática, paradoxal, processual e profundamente humana. A integralidade é sempre imperfeita — e justamente por isso vital.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung escreve:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-da-mesma-forma-que-a-integralidade-e-sempre-imperfeita-a-perfeicao-tambem-e-sempre-incompleta-e-por-isso-constitui-um-estado-final-terrivelmente-esteril-oc-11-4-620" style="font-size:18px"><em>“Da mesma forma que a integralidade é sempre imperfeita, a perfeição também é sempre incompleta e, por isso, constitui um estado final terrivelmente estéril.” (OC 11/4, §620)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sua psicologia recorda que a alma é maior que os conceitos que tentamos usar. Os símbolos não encerram a experiência; a aprofundam. A <strong>Anima</strong> e o <strong>Animus</strong>, compreendidos como mediadores, não aprisionam identidades — revelam que a alteridade habita o interior de todo sujeito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A <strong>Persona</strong> não define o ser; apenas o apresenta. O <strong>Self</strong> aponta para totalidade em processo. As vidas LGBTQINPA+ não são exceção, mas expressão radical da complexidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação, então, não é ajuste à ordem, mas fidelidade a uma verdade mais profunda. Essa fidelidade pode custar caro — mas é nela que reside a possibilidade de vida simbolicamente plena.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung talvez não tenha dito isso com linguagem de hoje, mas sua psicologia aponta nessa direção: a alma não cabe no catálogo do mundo. Ela desloca, resiste, cria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é nessa criação de si, nessa travessia entre ferida e símbolo, que a individuação se torna, para sujeitos LGBTQINPA+, não apenas possível, mas eticamente necessária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Agradeço ao amigo <a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Perez Salvador</a>, que gentilmente revisou este texto e ofereceu citações e sugestões para que ele fique mais inteiro em sua imperfeição.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perguntas-frequentes"><strong>Perguntas frequentes</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>A alma tem gênero na visão de Jung?</strong> Na psicologia junguiana, a alma não é entendida como gênero fixo, mas como realidade psíquica simbólica. Anima e Animus são imagens arquetípicas de alteridade, não etiquetas biológicas rígidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Jung ajuda a pensar diversidade  expressão de gênero e alma?</strong> Sim. Quando lido de forma simbólica e crítica, Jung oferece ferramentas para refletir sobre subjetividade, identidade, conflito interno e individuação sem reduzir a experiência humana à norma binária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Anima e Animus servem para pessoas não binárias?</strong> Podem servir como referências simbólicas, desde que não sejam usados como categorias fechadas. O importante é ler esses conceitos como funções psíquicas de mediação e transformação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>O que é individuação nesse contexto?</strong> É o processo de tornar-se inteiro, integrando tensões internas, reconhecendo a Sombra e vivendo com fidelidade à verdade psíquica, sem se submeter totalmente às expectativas sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>A psicologia analítica patologiza a diversidade sexual?</strong> Não quando é lida criticamente e em diálogo com a contemporaneidade. Uma abordagem madura reconhece a diversidade sexual e de gênero como expressão legítima da complexidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Conclusão</strong> A individuação, para sujeitos LGBTQINAP+, exige construir uma vida que não sacrifique a verdade psíquica no altar da conformidade. Implica diferenciar Persona e Self, reconhecer a Sombra produzida pela rejeição social, elaborar imagens internas sem transformá-las em essências aprisionadoras e encontrar pertencimento que não apague singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A individuação não consiste em tornar-se adequado à norma, mas em tornar-se inteiro. Essa inteireza não é homogênea, linear ou binária: é dramática, paradoxal, processual e profundamente humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung talvez não tenha dito isso com linguagem de hoje, mas sua psicologia aponta nessa direção: a alma não cabe no catálogo do mundo. Ela desloca, resiste, cria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E é nessa criação de si, nessa travessia entre ferida e símbolo, que a individuação se torna, para sujeitos LGBTQINAP+, não apenas possível, mas eticamente necessária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Leia outros artigos do IJEP e conheça nossas formações em psicologia analítica, clínica e pensamento simbólico.</strong></p>



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			</item>
		<item>
		<title>Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Mar 2026 16:43:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[anima/animus]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[amor e sexo]]></category>
		<category><![CDATA[ANima]]></category>
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		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
		<category><![CDATA[vício em pornografia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12556</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Resumo:</em><strong><em> </em></strong><em>Vivemos numa época em que o sexo circula com facilidade, imagens se oferecem explicitamente e sem resistência, e o prazer parece ao alcance das mãos facilitado pela projeção das telas. Um excesso de auto estímulo e de facilidades faz com que algo nos encontros reais se perca. Há um esvaziamento de Eros. Este ensaio nasce da reflexão do desencontro e do desenlace entre o erotismo, as projeções (tantas vezes sombrias) e da solidão humana, culminando no vício em pornografia do masculino.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Num flerte entre a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung e a filosofia contemporânea de Byung-Chul Han, o texto infere no vício em pornografia como fenômeno psíquico e cultural. Desnudamos Narciso, sombra, anima e projeção como cena imagética para revelar como a excitação compulsiva e compulsória pode coexistir com a dor e desconexão da alma, e o empobrecimento da intimidade (minha e do outro). Um convite para pensar o desejo desejante que se retroalimenta como sofrimento e a tela como extensão projetiva da dor psíquica que aponta o que está oculto no inconsciente.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sexo-e-bom-e-muita-gente-gosta" style="font-size:20px">Sexo é bom e muita gente gosta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O erotismo faz parte da saúde sexual, emocional, mental e afetiva. “Transar”, fazer amor, “pegar alguém” faz parte do cotidiano e não deveria ser um tabu na contemporaneidade. Quando estamos num relacionamento, nos sentimos conectados e desejados, a sexualidade surge como uma linguagem natural da intimidade. Quando fluído e consensual, uma vida sexual ativa ajuda na melhora da autoestima, na reconexão com o prazer e afetos, alivia o estresse, melhora a criatividade e sensação de bem-estar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Rita Lee</strong>, em sua música <strong>Amor e Sexo</strong>, traz uma reflexão sobre este tema tão desejado, e ressalta com beleza poética a diferença complementar entres esses dois mundos: <strong>Amor é um livro / Sexo é esporte / Sexo é escolha / Amor é sorte</strong>. E se o sexo é esporte, a masturbação surge como braço integrante desta mesma sinfonia. É quando nos tornamos, ao mesmo tempo, amante e amado; em que descobrimos o ritmo do próprio desejo e a autonomia sobre o prazer. Neste autoerotismo saudável, aprendemos a habitar a nossa própria pele antes de nos entregar à pele do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No entanto, é justamente na fronteira entre o conhecer-se e o perder-se que o cenário contemporâneo nos impõe um novo desafio. Quando o toque deixa de ser uma exploração dos sentidos para se tornar um refúgio mecânico diante de uma tela, o que era para ser descoberta pode se transformar em uma perda sombria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-dados-divulgados-pelo-site-pornhub-o-brasil-ocupa-o-4º-lugar-entre-os-paises-que-mais-acessam-conteudo-pornografico-no-mundo-a-frente-aparecem-estados-unidos-mexico-e-filipinas-que-compoem-o-top-tres-global-fonte-correio-brasiliense-2025" style="font-size:18px">Segundo dados divulgados pelo site Pornhub, o Brasil ocupa o 4º lugar entre os países que mais acessam conteúdo pornográfico no mundo. À frente aparecem Estados Unidos, México e Filipinas, que compõem o top três global (Fonte: Correio Brasiliense, 2025).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Se a masturbação pode ser compreendida como ensaio do prazer, a pornografia assume o papel da projeção da fantasia. As imagens oferecem roteiros prontos, intensificam estímulos e prometem facilitar o acesso ao gozo, reorganizando o ritmo do desejo em torno da rapidez, da repetição e da escalada visual. A pornografia permite acessar o inconfessável, a experimentar o prazer indizível, revela aquilo que é mais obscuro e até incompreendido do ser. Estimular-se usando as fantasias pornográficas passa a ser problema quando o consumo se torna compulsivo e interfere na economia psíquica, ao deslocar o erotismo da vivência para uma relação predominantemente imagética e solitária.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A compulsão por pornografia é entendida como uma manifestação do Transtorno do Comportamento Sexual Compulsivo (TCSC), caracterizada pelo consumo repetitivo, excessivo e incontrolável de conteúdo pornográfico, resultando em prejuízos significativos para o funcionamento psicológico, social, profissional ou ocupacional da pessoa (WERY; BILLIEUX, 2017). </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diferente do uso recreativo, o vício se revela quando o prazer dá lugar a um padrão persistente e fora de controle, onde a vontade de parar não encontra eco na ação, e as horas se perdem na solidão do quarto e no brilho da tela. Essa condição se distancia da ludicidade pelo seu caráter de prisão, e se manifesta na tentativa frustrada de silenciar o hábito, no tempo excessivo e na insistência em um caminho que o próprio indivíduo já reconhece como prejudicial, mas do qual não consegue mais se desviar sozinho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cada-vez-mais-cedo-criancas-e-adolescentes-entram-em-contato-com-pornografia-impulsionados-pela-facilidade-da-internet-e-ausencia-efetiva-de-barreiras-etarias-no-ambiente-digital" style="font-size:18px">Cada vez mais cedo, crianças e adolescentes entram em contato com pornografia impulsionados pela facilidade da internet e ausência efetiva de barreiras etárias no ambiente digital.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil indicam que uma significativa parcela das crianças iniciou o uso da internet aos 6 anos de idade ou antes (CETIC.br, 2023). Essa precocidade amplia a exposição a riscos digitais, entre eles experiências ofensivas ou perturbadoras, relatadas por uma proporção expressiva de usuários entre 9 e 17 anos, conforme apontam os indicadores da pesquisa (CETIC.br, 2023). Nesse contexto, o primeiro contato com a sexualidade tende a ser desassistida e incide com maior frequência sobre meninos. Aquilo que deveria ser sustentado pela família, escola e sociedade no campo da educação sexual é substituído por um acesso clandestino a encenações exageradas, de relações performáticas e esvaziadas de afeto, sem erotismo saudável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-luz-da-psicologia-analitica-o-consumo-pornografico-adquire-densidade-simbolica-quando-entendido-como-meio-de-projecao-do-inconsciente" style="font-size:18px">À luz da Psicologia Analítica, o consumo pornográfico adquire densidade simbólica quando entendido como meio de projeção do inconsciente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (OC 6, §554) define projeção como <em>“um fato inconsciente, não submetido a controle consciente</em>”, um mecanismo pelo qual conteúdos psíquicos são deslocados para objetos externos, passando a ser percebidos como qualidades do outro e não como pertencentes ao próprio sujeito (OC 6; §862). Também afirma que certas projeções “pertencem à esfera da sombra, isto é, o lado obscuro da própria personalidade” (OC 9/2, §19). Importante ressaltar que, para Jung (OC 9/2, §14), “a sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entao-ousamos-dizer-que-quando-a-pornografia-se-torna-a-unica-maneira-possivel-de-se-chegar-ao-orgasmo-dialogamos-com-um-comportamento-narcisista" style="font-size:18px">Então ousamos dizer que, quando a pornografia se torna a única maneira possível de se chegar ao orgasmo, dialogamos com um comportamento narcisista.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa provocação se ancora no mito de Narciso que, ao permanecer fixado na contemplação do seu reflexo na água, acaba se afogando em sua projeção. Nesse contexto, a pornografia funciona como uma muleta do autoerotismo, na qual o indivíduo só consegue alcançar o gozo por meio das imagens projetadas nas cenas, deslocando a experiência erótica da relação com o outro para um circuito autorreferenciado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-e-importante-entender-a-especificidade-da-busca-compulsiva-do-tema-pornografico-e-qual-a-simbologia-esta-contida-por-tras-da-cena-pois-ela-oferece-uma-superficie-imagetica-que-acolhe-os-conteudos-sombrios" style="font-size:18px">Por isso é importante entender a especificidade da busca compulsiva do tema pornográfico e qual a simbologia está contida por trás da cena, pois ela oferece uma superfície imagética que acolhe os conteúdos sombrios.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A objetificação do corpo, fantasias agressivas, impulsos de dominação, desejos dissociados do afeto, intensidades pulsionais e tantos outros fetiches encontram neste palco uma forma de expressão deslocada, ou seja, a pessoa é afetada pelas imagens porque algo de sua própria psique foi ali projetada. Entretanto, essa revelação ocorre de modo literal e empobrecido, sem elaboração simbólica, fixada em roteiros repetitivos e estereotipados, reforçando papéis de gênero, violências e ausência de afeto.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Para exemplificarmos, segundo dados divulgados pelo site Pornhub, as buscas que apresentam crescimento expressivo são termos como “sexo em grupo” (aumento de 544%), “punheta trans” (488%), “coroa gostosa transando” (442%) e “lésbicas tesoura” (231%) (Fonte: Correio Brasiliense, 2025). Chama atenção que “punheta trans” esteja no topo do campo de pesquisa pois, segundo o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil liderou em 2024 pelo 16º ano consecutivo, os maiores índices globais de assassinatos contra essa população. Grande parte das vítimas são mulheres trans, jovens, negras e nordestinas, e os crimes são marcados por extrema violência (Fonte: CNN Brasil, 2025), ao mesmo tempo que os direitos sociais dessas pessoas estão sempre em fragilidade institucional. Também é interessante observar que o aumento do “conservadorismo” traz a reboque o aumento de buscas de sexo em grupo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-abordar-a-relacao-do-sujeito-com-sua-anima-a-dinamica-psiquica-revela-um-grau-ainda-mais-sensivel-de-complexidade" style="font-size:18px">Ao abordar a relação do sujeito com sua anima, a dinâmica psíquica revela um grau ainda mais sensível de complexidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung compreende a anima como o arquétipo da face feminina na psique masculina, cuja função consiste em mediar a relação entre consciência e inconsciente, atuando como ponte entre o mundo interior e a experiência relacional (JUNG, OC 9/2, §27). Ela personifica tendências psicológicas associadas à vida afetiva, à intuição e à sensibilidade, que frequentemente permanecem à margem da personalidade consciente. Quando essa função não encontra reconhecimento e elaboração, a anima tende a ser projetada em figuras externas. A pornografia oferece um campo imagético vasto e incessante, ao apresentar figuras femininas esvaziadas de subjetividade, reduzidas a corpos destinados a submissão da fantasia e do prazer unilateral do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nessa configuração, a <strong>anima</strong> perde sua dimensão simbólica e passa a ser vivenciada como imagem disponível ao consumo, deslocando o erotismo à objetificação. Essa dinâmica encontra um paralelo mítico na ação de Nêmesis, deusa da justa retribuição e do equilíbrio moral, que pune Narciso fazendo com que o amor recusado ao outro retorne sob a forma de um fascínio autorreferido pela própria imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-adverte-que-a-projecao-da-anima-empobrece-gravemente-a-capacidade-de-vinculo-pois-substitui-o-encontro-com-a-alteridade-real-por-uma-relacao-distorcida-na-qual-o-outro-e-apenas-suporte-para-conteudos-inconscientes-nao-elaborados-jung-oc-7-2-339" style="font-size:18px">Jung adverte que a projeção da anima empobrece gravemente a capacidade de vínculo, pois substitui o encontro com a alteridade real por uma relação distorcida, na qual o outro é apenas suporte para conteúdos inconscientes não elaborados (JUNG, OC 7/2, §339).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O erotismo, que em sua dimensão simbólica convoca transformação, risco e reciprocidade, é reduzido a excitação visual controlável, onde tudo está sob o domínio das mãos. A experiência erótica deixa de ser um espaço de encontro e passa a operar como circuito fechado de autoestimulação, no qual o sujeito se relaciona consigo mesmo e com suas projeções.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse deslocamento convida a uma mudança de perspectiva clínica e teórica. O debate ganha profundidade quando se afasta de diálogos moralizantes e se aproxima do campo simbólico, pois a pornografia revela menos sobre desvios do desejo e mais sobre processos de dissociação entre imagem e corpo vivido, excitação e afeto, fantasia e relação, numa espécie de “afastamento da alma”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-cisao-tambem-se-inscreve-em-uma-ampla-logica-cultural-marcada-pela-hiperexposicao-aceleracao-do-consumo-e-pelo-esvaziamento-da-experiencia-do-outro-como-presenca" style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma ampla lógica cultural, marcada pela hiperexposição, aceleração do consumo e pelo esvaziamento da experiência do outro como presença.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse ponto que a reflexão de Byung-Chul Han ilumina o modo como a sociedade contemporânea transforma o erotismo em desempenho e a alteridade em superfície disponível, aprofundando a ruptura entre desejo, vínculo e experiência simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso do vício em pornografia, viver imerso nas projeções leva o indivíduo a um autoerotismo de maneira quase literal. A energia erótica é direcionada a imagens projetadas de si e se enovela numa relação consigo mesmo de uma maneira compulsiva, levando ao esgarçamento das relações principalmente afetivo-sexuais pois, diante do outro, tem-se dificuldade da troca com aquele que sente, reage e exige uma dedicação libidinal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por meio dos dados de buscas e temas em relevância, a pornografia pode evidenciar uma sombra moral, pois as procuras chamam a atenção pelo contraste com os temas destacados na vida pública das redes sociais. Este vício pode ser entendido como uma perseguição pela satisfação eterna de algo que não chega, pois existe o desejo desejante que jamais se sacia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa cisão também se inscreve em uma lógica cultural mais ampla, marcada pela hiperexposição, pela aceleração do consumo e a substituição progressiva da experiência do outro por superfícies disponíveis ao olhar e à apropriação imediata.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-agonia-do-eros-byung-chul-han-2017-p-56-faz-uma-provocacao-ao-dizer-que-a-pornografizacao-do-mundo-se-realiza-como-sua-profanacao-ela-profana-o-erotismo-e-a-profanacao-se-realiza-como-desritualizacao-e-dessacralizacao-han-2017-p-61" style="font-size:18px">Em <strong>Agonia do Eros</strong>, Byung-Chul Han (2017, p. 56) faz uma provocação ao dizer que “<em>a pornografização do mundo se realiza como sua profanação. Ela profana o erotismo”, e “a profanação se realiza como desritualização e dessacralização</em>” (HAN, 2017, p. 61).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Continua ao descrever a erosão contemporânea do Eros como consequência direta de uma cultura que transforma o desejo em desempenho, e o encontro em mera positividade. Han (2017) acredita que o Eros só se constitui plenamente quando a relação envolve diferença e imprevisibilidade, pois a experiência erótica exige que o outro não seja reduzido a objeto de satisfação porque o desejo se sustenta justamente naquilo que escapa e se mantém como alteridade. É essa assimetria entre o eu e o outro que introduz risco, tensão e abertura ao desconhecido, elementos indispensáveis à vitalidade do Eros. Quando essa alteridade é dissolvida, o erotismo perde sua força transformadora e se converte em estímulo previsível e consumível.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-pornografia-se-insere-neste-escancaramento-descrito-por-han-no-qual-tudo-deve-estar-exposto-sem-zonas-de-misterio-ou-negatividade-para-ele-o-erotico-nao-esta-desprovido-de-misterio-han-2017-p-60" style="font-size:18px">A pornografia se insere neste “escancaramento” descrito por Han, no qual tudo deve estar exposto sem zonas de mistério ou negatividade. Para ele “o erótico não está desprovido de mistério” (HAN, 2017, p. 60).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O corpo pornográfico é um corpo sem segredos e interioridade, oferecido ao olhar como mercadoria erótica, cuja função é responder imediatamente ao desejo, sem frustração ou elaboração simbólica. Nesse cenário, o Eros passa a funcionar como excitabilidade técnica, organizada segundo a lógica da escalada sensorial, o que empobrece tanto a experiência do prazer quanto a capacidade de vínculo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Han</strong> observa que a sociedade contemporânea desloca o desejo para o campo do desempenho individual, transformando a sexualidade em um espaço de autoexploração, no qual o sujeito acredita exercer liberdade enquanto se submete a circuitos compulsivos de repetição. Essa leitura encontra ressonância direta na compreensão junguiana do narcisismo, pois a libido, impedida de se orientar em direção ao outro como alteridade viva, retorna ao próprio sujeito e se fixa em imagens que funcionam como espelhos ampliados de suas fantasias inconscientes. O resultado é uma economia libidinal autorreferida, na qual o prazer se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia de sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse ponto, a pornografia revela sua afinidade profunda com a lógica narcísica descrita tanto pelo mito quanto pela clínica. Assim como Narciso se apaixona por uma imagem que o reflete e o captura, o sujeito contemporâneo se vê enredado em imagens que prometem satisfação infinita e entregam repetição compulsiva, num movimento que conduz à saturação do desejo e ao empobrecimento do encontro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Byung-Chul Han descreve esse processo como a transformação do Eros em pornografia, entendida como um regime no qual a exposição total substitui a tensão erótica, e a proximidade excessiva elimina a distância necessária à experiência amorosa. O desaparecimento do outro é a agonia do Eros (HAN, 2017, p. 74).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-do-ponto-de-vista-junguiano-esse-cenario-pode-ser-compreendido-como-um-colapso-da-funcao-simbolica-da-anima-cuja-mediacao-entre-consciencia-e-inconsciente-se-fragiliza-quando-o-feminino-psiquico-e-reduzido-a-condicao-de-imagem-erotizada-e-consumivel" style="font-size:18px">Do ponto de vista junguiano, esse cenário pode ser compreendido como um colapso da função simbólica da anima, cuja mediação entre consciência e inconsciente se fragiliza quando o feminino psíquico é reduzido à condição de imagem erotizada e consumível.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung adverte que a anima, quando projetada de maneira não elaborada, aprisiona o sujeito em fantasias que impedem o amadurecimento da relação e a integração dos afetos (JUNG, OC 7/2, §339). A pornografia intensifica esse processo ao oferecer imagens prontas e roteiros estereotipados, pois cristaliza a projeção em cenas fixas, repetidas e empobrecidas, impedindo que o conteúdo inconsciente seja simbolizado e transformado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Han (2017) acrescenta que o desaparecimento da alteridade conduz a uma forma de gozo solitário, no qual o sujeito se relaciona apenas consigo mesmo, ainda que sob a ilusão de multiplicidade de parceiros e experiências. Essa dinâmica ilumina o paradoxo contemporâneo do vício em pornografia: quanto maior a oferta de imagens e estímulos, mais restrito se torna o campo do desejo, que passa a girar em torno dos mesmos temas, das mesmas cenas e das mesmas intensidades, produzindo um fechamento progressivo da vida erótica e afetiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assim-o-vicio-em-pornografia-pode-ser-compreendido-como-uma-busca-incessante-por-satisfacao-total-que-jamais-se-cumpre-pois-esta-fundada-na-eliminacao-da-alteridade-e-na-recusa-da-vulnerabilidade-inerente-ao-encontro-erotico" style="font-size:18px">Assim, o vício em pornografia pode ser compreendido como uma busca incessante por satisfação total que jamais se cumpre, pois está fundada na eliminação da alteridade e na recusa da vulnerabilidade inerente ao encontro erótico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Trata-se de um desejo que se intensifica ao mesmo tempo em que se esvazia, pois cada nova imagem promete preencher uma falta que se reinscreve imediatamente após o gozo, reproduzindo a lógica de todo comportamento compulsivo. Nesse sentido, a pornografia revela muito mais que conteúdos sombrios individuais, ela expressa uma sombra cultural marcada pela dificuldade coletiva de sustentar o Eros como experiência simbólica e transformadora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Diante desse fenômeno, a clínica é convocada a oferecer um espaço onde o sujeito possa reencontrar a dimensão imagética do desejo, reconhecendo os fragmentos da sua anima, sombra e de conflitos não elaborados projetados nas telas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sustentar essa travessia implica recolocar o erotismo no campo da alteridade. Relacionar-se com o outro implica sustentar o risco das dores e amargores relativo ao encontro, condição que restitui ao Eros sua potência de transformação, pois é no reflexo do olhar deste outro onde existe a possibilidade da quebra da autorreferenciação e solidão.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/HnfEJEqGz8o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Soave – Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRASIL é o país que mais mata pessoas trans e travestis, aponta dossiê. CNN Brasil, [s. l.], 29 jan. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil-e-o-pais-que-mais-mata-pessoas-trans-e-travestis-aponta-dossie/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br). Disponível em: https://cetic.br/pt/pesquisas/. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">CORREIO BRAZILIENSE. Brasil é o 4º maior consumidor de pornografia no mundo. Correio Braziliense, Brasília, 30 dez. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/brasil/2025/12/7316169-brasil-e-o-4-maior-consumidor-de-pornografia-no-mundo.html. Acesso em: 16 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2017;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Aion &#8211; Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 9/2);</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2016 (Obras completas v. 7/2);</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obras completas v. 6);</p>



<p class="wp-block-paragraph">WERY, A.; BILLIEUX, J. Problematic cybersex: Conceptualization, assessment, and treatment. Addictive Behaviors, v. 64, p. 238-246, 2017</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/vicio-em-pornografia-e-o-exilio-da-intimidade-do-masculino/">Vício em pornografia e o exílio da intimidade do masculino</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Promiscuidade Sexual como Expressão Simbólica da Sombra Coletiva &#8211; Um ensaio sob a ótica do amor e da psicologia junguiana (Parte II)</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/promiscuidade-sexual-como-expressao-simbolica-da-sombra-coletiva-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 13:02:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[aids]]></category>
		<category><![CDATA[cg jung]]></category>
		<category><![CDATA[dst]]></category>
		<category><![CDATA[epidemia]]></category>
		<category><![CDATA[hiv]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[promiscuidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=12388</guid>

					<description><![CDATA[<p>Nesse artigo trouxe alguns números novos, explorando o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids, divulgado por ocasião do dia 1 de dezembro –Dia Mundial de Luta contra a Aids – do ano de 2025. Segundo Jung, “Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento (...) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável”. (JUNG.2019, &#038; 231). Nesse sentido, em profundidade de “Alma”, como postula Jung, o termo “fazer amor” nos torna mais próximos dessa afetividade. (...)</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse artigo trouxe alguns números novos, explorando o Boletim Epidemiológico de HIV/Aids, divulgado por ocasião do dia 1 de dezembro –Dia Mundial de Luta contra a Aids – do ano de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo Jung, “<em>Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento (&#8230;) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável</em>”. (JUNG.2019, &amp; 231). Nesse sentido, em profundidade de “Alma”, como postula Jung, o termo “fazer amor” nos torna mais próximos dessa afetividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sexualidade é um dos aspectos da dimensão humana, cercada ainda de muita dor e sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã de nossa sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis. Arrisco a dizer que apenas com o surgimento da AIDS e todas as suas particularidades, principalmente no início da infecção, onde denominada “câncer gay” é que se iniciou a falar sobre sexualidade e a defini-la em seu aspecto mais amplo (biopsicossocial). Foi quando as camadas sociais que se encontravam na sombra coletiva emergiram e a sociedade precisou integrá-las.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Falando-se em epidemia silenciosa, podemos defini-la como aquela epidemia em que existe a transmissão contínua de HIV e ISTs, sem chamar a atenção imediata das autoridades sanitárias, por serem muitos dos casos assintomáticos e subnotificados, prolongando assim o ciclo da infecção e da transmissão. Nesse caso específico, apenas os órgãos midiáticos (IP-imprensa pública.com.br) denominaram como Epidemia silenciosa, na ocasião de divulgação dos dados abaixo, na cidade de Porto Alegre:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De acordo com um estudo em Porto Alegre, Imprensa Pública, 2025, foi identificada uma prevalência de 1,64% de pessoas com HIV na população geral, acima do limite de 1% que a OMS classifica como epidemia generalizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 2024, 4,5% a mais de casos foram diagnosticados que em 2022. Mortes por AIDS atingiram 3,9 de óbitos por 100 mil habitantes. Esse foi o menor índice demonstrado desde 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No perfil demográfico do mesmo estudo, foi identificado que 70,7% dos casos notificados são em homens, sendo 63,2% em pessoas pretas/pardas, 53,6% em homens que fazem sexo com homens (HSH), numa faixa etária de concentração entre 20 e 29 anos. Desses, foram encontrados 37,1% dos infectados. Prevalece aqui ainda, a juvenilização da infecção por HIV.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que é mais sério nesse estudo em minha opinião, é a estimativa de que 11% dos indivíduos com HIV desconhecem seu diagnóstico, motivo pelo qual favorece a contaminação em indivíduos promíscuos e que não fazem sexo com proteção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Os grupos mais vulneráveis identificados são: Homens que fazem sexo com homens, com até 18% de prevalência, população trans/travesti, em mais de 30% e jovens (15–24 anos), onde as novas infecções dobraram entre 2000 e 2015, provavelmente devido à queda no uso de preservativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">As ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) são frequentemente assintomáticas e variam entre sífilis, gonorréia, HPV (papiloma vírus humano), hepatite B e mostram índices de crescimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não ignorando os dados acima, aqui apresento uma síntese atualizada da situação do HIV e da Aids no Brasil, com base no Boletim Epidemiológico de HIV e Aids 2025 do Ministério da Saúde. São abordados dados sociodemográficos, distribuição regional, faixa etária, sexo, formas de transmissão e tendências recentes da epidemia. Também se discute o impacto das estratégias de prevenção combinada, com destaque para a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), cada vez mais relevante no cenário nacional. Os achados indicam a persistência da epidemia entre homens jovens, particularmente homens que fazem sexo com homens (HSH) e ressaltam a importância de políticas públicas integradas para ampliação da testagem, tratamento e prevenção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Até setembro de 2025, o Brasil registrou 683.930 casos de infecção pelo HIV desde o início da vigilância, em 1991. A distribuição por sexo demonstra predomínio masculino: 450.922 casos (65,9%) ocorreram em homens e 232.473 (34,1%) em mulheres. Para Aids, desde 1980 foram notificados 1.165.369 casos, dos quais 67,3% entre homens e 32,7% entre mulheres. A razão de sexos tem aumentado ao longo das últimas décadas, indicando maior concentração da epidemia entre homens adultos jovens, com uma faixa etária de 20 a 29 anos o que representa cerca de 37% dos novos diagnósticos, chegando a 41% entre homens, o que deixa clara ainda, a tendência da juvenilização nos casos novos. Em relação à Aids, observa-se que as maiores proporções estão entre pessoas de 25 a 34 anos, o que ainda reforça o impacto da infecção na população economicamente ativa e sexualmente mais ativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Importante aqui chamar a atenção para um melhor entendimento, de que existe uma diferença entre “pessoas vivendo com HIV e doentes de Aids”. A primeira refere-se a pessoas contaminadas com HIV e que ainda não desenvolveram a doença e a segunda, refere-se a pessoas com infecções oportunistas e que já desenvolveram a doença.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A epidemia apresenta marcantes desigualdades regionais. Em 2023, a maior proporção de novos casos de HIV foi registrada no Sudeste (34,7%), seguido pelo Nordeste (26,9%), Sul (16,4%), Norte (12,8%) e Centro-Oeste (9,3%). Considerando o total de pessoas vivendo com HIV/Aids desde 1980, o Sudeste concentra quase metade dos casos (47,3%). Grandes centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Fortaleza e Salvador permanecem como epicentros da epidemia devido à densidade populacional, desigualdades socioeconômicas e maior acesso à testagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A transmissão sexual continua sendo a principal via de infecção no Brasil. Entre os casos de Aids notificados em 2024, 43,9% ocorreram entre homens que fazem sexo com homens (HSH), categoria que historicamente concentra altas taxas de incidência e que infelizmente, a meu ver, denota uma falha na prevenção primária e a necessidade do desenvolvimento de maiores ações preventivas dessa categoria. Outro aspecto que&nbsp; &nbsp;&nbsp;chama a atenção é o motivo pelo qual essa categoria específica da população não está se prevenindo efetivamente e no caso, se existem falhas nesse processo de prevenção, quais seriam?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Outras modalidades de transmissão incluem relações heterossexuais, uso de drogas injetáveis e transmissão vertical, embora esta última tenha diminuído significativamente devido à eficácia das estratégias de prevenção da transmissão materno-infantil.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar do aumento no número de diagnósticos de HIV influenciado pela ampliação da testagem, a mortalidade por Aids atingiu seu menor valor desde 2013 (3,9 óbitos por 100 mil habitantes em 2023). Esse avanço está diretamente relacionado ao acesso universal à terapia antirretroviral (TARV) e ao fortalecimento da rede de cuidados contínuos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A epidemia atual do HIV no Brasil é caracterizada por uma dinâmica complexa, marcada pela concentração crescente entre homens jovens e entre HSH. Esses dados reforçam a urgência de estratégias de prevenção mais direcionadas e efetivas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A prevenção combinada, preconizada pelo Ministério da Saúde, integra múltiplas estratégias, como a educação em saúde para a promoção da sexualidade segura, o uso consistente de preservativos (gratuitos no SUS), a testagem regular para a ampliação do diagnóstico, tratamento como prevenção (TASP), uma vez que pessoas em tratamento e com carga viral indetectável não transmitem o HIV, profilaxia pós-exposição (PEP), e a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), todas disponíveis no sistema público de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Entretanto, a efetividade da PrEP depende de fatores que extrapolam a dimensão biomédica. Barreiras relacionadas ao estigma, à desinformação, à dificuldade de acesso a serviços, bem como desigualdades sociais e regionais, ainda limitam sua plena implementação. Além disso, a concentração da epidemia entre populações já historicamente vulnerabilizadas revela a necessidade de políticas intersetoriais que integrem saúde, educação, direitos humanos e combate às desigualdades.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O que penso ser importante nesse sentido é que apesar dos desafios, a diminuição da mortalidade por Aids e o aumento da testagem são indicativos de melhorias na resposta brasileira à epidemia. O fortalecimento das estratégias de prevenção combinada, aliado à ampliação da PrEP e da TARV, constitui o eixo central para o controle da epidemia no país, segundo o Ministério da Saúde, por meio do Programa de Aids.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ainda falando-se em sexualidade e tentando linkar a transmissão sexual do HIV/Aids e as ISTS (infecções sexualmente transmissíveis) , podemos afirmar que é na dimensão psicossocial da sexualidade, onde inclui-se também os fatores psicológicos, como emoções, pensamentos e personalidade, combinados a elementos sociais, como por exemplo, o &nbsp;modo como as pessoas interagem, que&nbsp; compreendemos os vários distúrbios sexuais e seria também nessa dimensão onde poderemos compreender alguns dos aspectos importantes da exposição à transmissão do HIV e das ISTs. &nbsp;É aqui que introjetamos as informações recebidas por nossos pais, professores e companheiros, herdando também os mitos, crendices e tabus sexuais, que muito influenciam no desenvolvimento saudável ou não da sexualidade e assimilamos determinadas “normas de comportamento sexual”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No tocante ao comportamental, esse aspecto da sexualidade permite-nos não somente verificar o que as pessoas fazem, mas a forma com que o fazem e porque o fazem. Assim, é importante que evitemos “julgar” o comportamento sexual de outras pessoas a partir dos nossos próprios valores e experiências, por vezes baseado em normoses ou ainda por conceitos religiosos individuais. Ora, o que é normal para mim, muitas vezes não o é para o outro, pois esse julgamento é baseado por nossos próprios valores, crenças, mitos e tabus, herdados em toda a dimensão do aprendizado de vida do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De acordo com Cavalcanti &amp; Cavalcanti, na dimensão clínica da sexualidade, podemos observar que embora o sexo seja uma função natural do ser humano, algumas coisas podem afetar essa espontaneidade das atividades sexuais, como as doenças físicas, violência e abusos sexuais, lesões e uso de drogas que podem comprometer esse padrão de resposta sexual. Entram aqui também, sentimentos como ansiedade, culpa, medo, depressão e conflitos interpessoais, que podem coibir ou mesmo alterar a vivência saudável da sexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No tocante à contemporaneidade e em toda essa questão biológica da sexualidade, infelizmente a mais importante para os padrões sexuais atuais, pouco se aborda a importância emocional do contato humano. Percebemos que esse culto ao corpo, ao consumismo, à performance e à persona sexual, sem a preocupação com o outro, com a afetividade e com os aspectos da alma, como bem fala Jung, tem trazido inúmeros sintomas físicos e mentais, gerando patologias e disfunções sexuais, entre outros distúrbios.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A palavra Promiscuidade deriva do latim <em>promiscuus</em>, que significa “misturado” ou “comum a muitos”. No contexto sexual, refere-se à prática de manter relações sexuais, com vários indivíduos, comumente de forma casual, sem vínculo afetivo, compromisso ou exclusividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS.2003) e Manuais Epidemiológicos de Vigilância de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), a promiscuidade é considerada um fator de risco comportamental para a transmissão de infecções sexualmente transmissíveis e é frequentemente definida por : ter três ou mais parceiros sexuais em um período de 12 meses ou ter mais de um parceiro sexual no mesmo período sem proteção, o que pode denotar um comportamento sexual baseado em sexo casual, com muitas parcerias ao longo do tempo, sem se limitar a um único relacionamento ou parceria estável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Importante salientar que a OMS tem um foco na promoção da saúde sexual e reprodutiva, enfatiza o sexo seguro e a prevenção das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) e que a ideia de promiscuidade e número de parcerias sexuais podem variar de acordo com a cultura, o contexto social e as crenças individuais. Considera ainda, que a saúde sexual é um direito fundamental e que a prática e a orientação sexual da pessoa devem ser respeitadas, desde que não causem danos a si mesmo ou a outrens.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse sentido, a procura demasiada e inconsciente de satisfação emocional por meio de sexo sem envolvimento de Alma, pode denotar uma necessidade de suprir uma carência afetiva, uma negação rígida do desejo, ou ainda, a constelação de algum complexo. Ao mesmo tempo em que a sociedade condena tal comportamento, ela pode alimentá-lo por fenômenos como mídia hiper erótica, cultura de corpos disponíveis e sexo exclusivamente como via de fuga, o que pode ser considerado uma projeção da sombra coletiva.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Sombra é para mim a parte “negativa” da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal.</p><cite>JUNG.2019, p.77</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">De acordo com Jung, do ponto de vista do indivíduo, a sombra é pessoal, formada pelos conteúdos do inconsciente pessoal, mas a sombra também é coletiva e pode compreender os aspectos reprimidos por uma cultura que não reconhece sua própria dimensão obscura. Isso inclui desejos e impulsos sexuais, que ao serem negados, podem retornar de forma distorcida e inconsciente, influenciando padrões de comportamento como a promiscuidade sexual que também pode ser vista como manifestação da sombra coletiva e dessa sexualidade reprimida e inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não eu (&#8230;). Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não.</p><cite>ZWEIGA.2024, p.16</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo Jung, <strong><em>o amor é uma função da totalidade psíquica, e não se reduz ao desejo físico ou à paixão passageira</em></strong>. Para ele, o amor autêntico exige a integração da Anima ou do Animus, ou seja, das dimensões femininas e masculinas inconscientes que habitam cada ser. Sem essa integração, o sujeito se relaciona de forma projetiva e inconsciente, buscando no outro a completude que falta em si, o que pode gerar relações marcadas pela compulsividade, promiscuidade ou idealização perigosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, o comportamento sexual de risco pode ser visto como expressão da fuga da consciência de si, uma tentativa de resolver no outro um vazio interno, uma carência de sentido ou amor-próprio. O comportamento de risco, então, pode ser uma tentativa inconsciente de confronto com a sombra em que o indivíduo desafia a morte, a doença, a moral, porque precisa sentir algo autêntico, mesmo que destrutivo. Alguns relatos clínicos que ouvi, pessoas com HIV relataram que o momento do diagnóstico foi o primeiro encontro real consigo mesmas ou um “chamado à alma”, para o autoamor e o autocuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A sexualidade vivida de forma compulsiva e promíscua, sem proteção, pode estar ligada ao desejo inconsciente de morte (mesmo simbólica) de muitos aspectos sombrios. Muitos jovens hoje romantizam relações marcadas por riscos, com falas como “não gosto de camisinha” ou “sexo é bom com perigo”, mostrando uma fusão inconsciente entre prazer e morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa dinâmica é observável na ascensão de casos de HIV entre jovens homossexuais e bissexuais, que apesar de terem informação e acesso à PrEP (profilaxia pré-exposição) muitas vezes, optam por relações desprotegidas, fenômeno descrito como “bug chasing” (busca deliberada por infecção), que pode ser interpretado, à luz de Jung, como um desejo de iniciação arquetípica pela dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A saúde pública tradicionalmente atua sobre o comportamento e o corpo, mas ignora a subjetividade e o inconsciente. Uma abordagem mais integrativa exigiria reconhecer que a prevenção de HIV e ISTs não é só técnica, mas também simbólica, emocional e espiritual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-bem-diz" style="font-size:18px">Como bem diz:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece.</p><cite>JUNG 2019, p. 112, &amp; 212</cite></blockquote></figure>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O confronto com a nossa própria alma, com a anima e o animus, com o feminino e o masculino, pode ter uma forma sexual, O amor por si mesmo e o amor pelos outros são experimentados corporalmente na sexualidade, seja através de fantasias ou de atividades. Em nenhum outro lugar a união de todos os opostos, a unio mystica, o mysterium coniunctionis, expressa-se de modo mais impressionante que na linguagem do erotismo.” &nbsp;(Guggenbuhl-Craig.2024,p.119)</em></p>
</blockquote>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: PROMISCUIDADE SEXUAL COMO EXPRESSÃO SIMBÓLICA DA SOMBRA COLETIVA" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/Oev5mSGo8j0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mariaivanilde/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Ferreira Alves Membro &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone D. Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:18px">Referências Bibliográficas:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Direção-Geral da Saúde. 2022.</strong> Serviço Nacional de Saúde. <em>Site do Serviço Nacional de Saúde Português. </em>[Online] 25 de Novembro de 2022. https://www.sns24.gov.pt/tema/saude-sexual-e-reprodutiva/comportamentos-sexuais-de-risco/.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung, Carl Gustav. 2013.</strong><em>Obras Completas 10/3 &#8211; Civilização em Transição. </em>Petrópolis&nbsp;: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>. Obras Completas 8/2 &#8211; A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>.Obras completas 7/2 &#8211; O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M</strong>. &#8211; Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5.ed. Payá, 2022</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Zweig, Connie et all</strong> &#8211; Ao Encontro da Sombra- O potencial oculto do lado escuro da natureza humana. Cultrix, 2024</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Boletim Epidemiológico HIV/AIDS 2023</strong>. Ministério da Saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Boletim Epidemiológico HIV e Aid</strong>s – Número Especial 2025. Brasília: Ministério da Saúde, 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Brasil registra menor mortalidade por Aids da série histórica.</strong> Brasília, 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Violência contra pessoas LGBTQIA+: uma sombra materializada</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/violencia-contra-pessoas-lgbtqia-uma-sombra-materializada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mauro Angelo Soave Junior]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 06 Feb 2026 21:24:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Gênero]]></category>
		<category><![CDATA[LGBTQIA+]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[agressão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas. Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente ensaio busca uma reflexão sobre como a sombra pode se materializar em violências, usando como foco a população LGBTQIA+. O ensaio passeia pelos conceitos de sombra, projeção e complexo de bode expiatório, além do conceito das minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pessoas-lgbtqia-tem-280-mais-chances-de-sofrer-algum-tipo-de-agressao-ou-abuso-durante-a-vida-couter-apud-souza-et-al-2022" style="font-size:19px">Pessoas LGBTQIA+ têm 280% mais chances de sofrer algum tipo de agressão ou abuso durante a vida (COUTER apud SOUZA et al, 2022).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas pessoas também apresentam uma tendência maior a quadros depressivos, ideações suicidas e abuso de substâncias. Enquanto por muito tempo se atribuiu esse quadro ao caráter e à individualidade, hoje é possível observar que o preconceito e a discriminação que sofrem na verdade causam, durante o decurso de uma vida, feridas que muitas vezes não cicatrizam. Isso porque recebem a projeção de sombra coletiva, que se materializa na violência implícita e explícita sofrida por essa parte da população.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Até hoje perdura uma crença &#8211; que permeia desde mentes individuais, e alguns segmentos da sociedade como a religião e até a ciência &#8211; de que a existência humana no campo afetivo-sexual só pode se dar de forma heterossexual e binária. Apesar de, historicamente, a humanidade apresentar grande diversidade em formas de ser e amar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-registros-historicos-e-mitos-mostram-que-a-homossexualidade-e-a-transexualidade-por-exemplo-existem-desde-que-a-humanidade-surgiu" style="font-size:19px">Registros históricos e mitos mostram que a homossexualidade e a transexualidade, por exemplo, existem desde que a humanidade surgiu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Povos indígenas das Américas, da Ásia e da Oceania apresentavam classes de gênero além do masculino e feminino. Inclusive, alguns tendo uma espécie de terceiro gênero ou denominações específicas para pessoas homossexuais ou transgênero como os Dois-Espíritos na América do Norte, Mahu na Indonésia e Hijra na Índia (ROUGHGARDEN, 2004). Além da conhecida história da homossexualidade na Grécia antiga, chamada de pederastia, que consistia numa espécie de relação tutor-aluno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O todo-poderoso Zeus, por exemplo, teve em Ganimedes um amante, levando-o para o Olimpo. Em outro momento ele e Hera utilizam o pobre profeta Tirésias como instrumento de disputa entre masculino e feminino. Outra figura mitológica que troca de gênero é Caeneus, uma mulher que ao ser violentada por Poseidon pede para se tornar um homem invencível/inviolável (BRANDÃO, 1987).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-muito-do-preconceito-contra-pessoas-lgbtqia-se-da-por-serem-pessoas-que-nao-vivem-de-acordo-com-a-norma-ou-com-o-que-se-considerou-por-muito-tempo-a-normalidade" style="font-size:19px">Muito do preconceito contra pessoas LGBTQIA+ se dá por serem pessoas que não vivem de acordo com a norma ou com o que se considerou por muito tempo a normalidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Essas pessoas, por destoarem do que se espera de uma pessoa seja no aspecto afetivo-sexual ou na identidade, sofrem com as projeções de sombra e com a manifestação da síndrome do bode expiatório.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A definição das normas de gênero ganha força no século XVIII com as críticas ao comportamento e a tentativa de criação de uma fronteira rígida entre o que é ser homem e mulher e entre o que é exclusivamente masculino e feminino. Desde então, passa-se a acreditar que certas atividades, vestimentas e costumes são exclusivos do homem ou da mulher, tornando aqueles que não se encaixam no padrão algo a ser corrigido ou eliminado. Isso sendo reforçado dioturnamente pela religião cristã quando falamos de civilização ocidental.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Associa-se então a pessoa que não se encaixa como problemática e essa camada da população passa a receber todo tipo de projeção coletiva, tornando-se o bode expiatório, principalmente em momentos de tensão e instabilidade. De alguma forma atribui-se ao desviado da norma a causa de catástrofes, como punição dos deuses. Isso pois, se entendia que era uma escolha da pessoa e uma afronta a Deus, mesmo que, sabemos hoje, ninguém escolhe ser LGBTQIA+, nasce-se assim.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-kurt-lewin-denominou-as-parcelas-da-populacao-mais-vulneraveis-aos-dissabores-coletivos-de-minorias-psicologicas" style="font-size:19px"><strong>Kurt Lewin</strong> denominou as parcelas da população mais vulneráveis aos dissabores coletivos de minorias psicológicas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Segundo Lewin, as características de uma minoria psicológica são a ausência de representatividade e autonomia, tendo seu destino coletivo atrelado a outro grupo, não necessariamente menos indivíduos em relação à população em geral, como é o caso das mulheres, por exemplo. Lewin cunhou sua teoria estudando os judeus durante a Primeira e a Segunda Guerra. Ele buscou entender os mecanismos psicológicos por trás da perseguição ao seu povo e as dinâmicas sociais intra e extra grupo (MAILHIOT, 2013).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Lewin também identificou que os grupos minoritários tendem a ser alvo de uma agressividade deslocada do grupo dominante ou de uma minoria privilegiada, que manobra as massas para direcionar sua violência a grupos desfavorecidos ou com poucas defesas. Apesar da atitude individual de pessoas ligadas à uma minoria ser usada muitas vezes como justificativa para o preconceito e a discriminação, a psicologia social e a teoria de Lewin apontam que na verdade a questão é coletiva, e muitas vezes não se justifica pelas razões mais comumente apresentadas como motivo de discriminação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-maioria-sempre-tem-interesse-em-barrar-a-aquisicao-de-direitos-e-privilegios-pelas-minorias" style="font-size:19px">A maioria sempre tem interesse em barrar a aquisição de direitos e privilégios pelas minorias.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Usando como exemplo os judeus que Lewin estudou, o autor aponta que em 400 anos os motivos de perseguição foram diversos, desde a religião no passado até a um preconceito baseado em teorias racistas com o advento do nazismo. Ele também aponta que é uma ilusão dos minoritários acreditarem que se forem bem-sucedidos serão aceitos pela maioria, na verdade, em momentos de crise serão os primeiros a serem perseguidos. Pode-se observar esse fenômeno também em relação às mulheres, que foram queimadas por anos em fogueiras, numa clara perseguição.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O fenômeno do <strong>bode expiatório</strong> consiste em identificar pessoas ou grupos como causadores do mal ou de delitos, responsabilizá-los por isso e expulsá-los da vida comunitária, negar direitos e às vezes até a própria humanidade, a fim de proporcionar ao restante da comunidade um sentimento de inculpabilidade e reconciliação com padrões coletivos. Proporciona aos membros da comunidade a sensação de segurança e de perfeição, uma certa identificação com o padrão divino e com o que é “correto”, tudo o que não se encaixa nesse padrão é taxado como demoníaco, no entanto, apenas atua como forma de negação da sombra, uma das maneiras mais conhecidas de se livrar da culpa, é criando bodes expiatórios (KAST, 2022; PERERA, 1991).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A população <strong>LGBTQIA+</strong> não é diferente. Assim como dito acima, pessoas assim existem desde sempre, porém, a relação da maioria para com elas é que se transforma. &nbsp;O que era punido por ser pecado, passa a ser crime e depois doença.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Para Jung: &nbsp;</strong></h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Sentimo-nos satisfeitos porque a pessoa perversa cometeu o crime por nós. Este é o sentido profundo de Cristo, enquanto redentor, ter sido crucificado entre dois ladrões; eles também, à sua maneira, eram redentores da humanidade, eram os bodes expiatórios (JUNG, 2015a, §210).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-que-e-mau-e-inferior-que-nao-queremos-reconhecer-em-nos-mesmos-atribuimos-aos-outros-jung-2013b" style="font-size:19px">Tudo que é mau e inferior, que não queremos reconhecer em nós mesmos, atribuímos aos outros (JUNG, 2013b)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A negação da sombra na situação do bode expiatório é um desafio, pois o sacrifício ou a exclusão de tal figura representa a tentativa de controle do homem perante a natureza e as intempéries divinas, ao mesmo tempo que o adverte da sua impotência e desamparo. Para Jung (2016, §44) “<em>Preferem inventar o mundo heroico, além do bem e do mal, e cortam o nó górdio em vez de desatá-lo</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-atualidade-essa-realidade-tem-entre-tropecos-avancado-na-maioria-dos-paises-do-mundo" style="font-size:19px">Na atualidade essa realidade tem, entre tropeços, avançado na maioria dos países do mundo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A OMS (Organização Mundial da Saúde), APA (Associação Americana de Psiquiatria), CFP (Conselho Federal de Psicologia) e CFM (Conselho Federal de Medicina) deixaram de categorizar a homossexualidade e a transexualidade como doenças, abrindo espaço para a inclusão e a aquisição de direitos, trazendo visibilidade à população. No entanto, não faltam violências reais e simbólicas contra esse grupo, como as malfadadas terapias de conversão praticadas por igrejas e estabelecimentos de saúde.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ainda paira na sociedade e, infelizmente parece estar em ascensão, a crença de que a não normatividade é a causa das mais diversas mazelas sociais e econômicas, com base em moralismos vazios e fazendo com que indivíduos se sintam à vontade para bradar impropérios dos mais absurdos contra a população LGBTQIA+ sem qualquer consequência. Esses discursos validam e dão coragem para ação a indivíduos praticarem violências, assassinatos, discriminações e outras agressões contra essa população, acreditando estarem em seu direito de maioria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além dos ataques aos indivíduos por meio de violências e até assassinatos, coletivamente há uma inércia legislativa na consolidação dos direitos, no entanto, para revogá-los há uma certa celeridade. Sugiro uma pesquisa sobre iniciativas legislativas em revogar o direito à constituição familiar entre pessoas do mesmo gênero, afirmação de gênero entre outros. Observe, por exemplo, as iniciativas do presidente <strong>Donald Trump</strong> para a finalização dos programas de diversidade e inclusão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por anos e anos foram negados os mais diversos acessos às pessoas por discriminação de gênero e sexualidade e, quando esse quadro começa a mudar na primeira crise os direitos são revogados. Isso não se aplica somente à população LGBTQIA+, mas a todas as minorias psicológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-pode-esquecer-o-inconsciente-de-uma-pessoa-ou-grupo-se-projeta-sobre-outra-s-pessoa-s-isto-e-aquilo-que-alguem-nao-ve-em-si-mesmo-passa-a-censurar-no-outro" style="font-size:19px">Não se pode esquecer: o inconsciente de uma pessoa (ou grupo) se <strong>projeta</strong> sobre outra(s) pessoa(s), isto é, aquilo que alguém não vê em si mesmo, passa a censurar no outro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este princípio tem uma validade geral tão impressionante que seria bom se todos, antes de criticar os outros, se sentassem e ponderassem cuidadosamente se a carapuça que querem enfiar na cabeça do outro não é aquela que se ajusta perfeitamente a eles (Cf. JUNG, 2013b).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-ultimo-gostaria-de-trazer-a-musica-geni-e-o-zepelim-de-chico-buarque-para-essa-conversa" style="font-size:19px"><strong>Por último, gostaria de trazer a música Geni e o Zepelim de Chico Buarque para essa conversa</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Na sua genialidade, Chico traduz a dinâmica do bode expiatório na figura da sofrida Geni. Não sabemos ao certo quem é Geni, apenas que é uma marginalizada pela sociedade. Geni está sempre entre os excluídos e sofre diariamente agressões da sociedade em que está inserida, até o momento de crise em que é apresentada ao sacrifício, e, na vã esperança de talvez ser posteriormente aceita, aceita se sacrificar para salvar àqueles que sempre a condenaram. O destino de Geni nunca está, nem esteve em suas mãos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir do momento em que a maioria se vê de joelhos diante de um algoz e seu destino depende daquela que tanto desprezaram, imploram por sua misericórdia. Geni, com sua inclinação de acolher os excluídos acaba cedendo aos apelos e, mais uma vez, sofre as mais diversas violências, como sacrifício. No entanto, ao retornar, volta a ser discriminada e agredida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-pessoas-lgbtqia-causam-medo-pois-confrontam-pessoas-com-a-liberdade-individual-apresentada-pelo-self-de-maneira-simbolica" style="font-size:19px">As pessoas LGBTQIA+ causam medo, pois confrontam pessoas com a liberdade individual, apresentada pelo Self de maneira simbólica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">De alguma forma questionam o monoteísmo do ego, que se sente desafiado quando a diversidade questiona suas certezas e descobertas, baseadas nos valores dominantes das maiorias psicológicas e das minorias privilegiadas. Cada assassinato, suicídio ou agressão a uma pessoa LGBTQIA+ é uma tentativa de negação da diversidade humana no agressor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">As minorias privilegiadas jamais renunciarão a seus privilégios em detrimento dos direitos de qualquer outro grupo, e, infelizmente, manipulam a massa mantendo-a na inconsciência de seu lugar enquanto atacam as minorias indefesas. Massa essa que tem as mãos sujas de sangue, como executora indireta de um crime.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Violência contra pessoas LGBTQIA+ - uma sombra materializada" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/YgFldor5Q48?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/maurosoave/">Me. Mauro Angelo Soave Junior – Analista Didata em formação</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia-e-referencias" style="font-size:19px"><strong>Bibliografia e Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega v. III. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GRUPO GAY DA BAHIA.<em> Mortes violentas de LGBT no Brasil em 2024. </em>Acesso em 01 dez de 2025.Disponível em:&nbsp;<a href="https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/">https://grupogaydabahia.com.br/mortes-violentas-de-lgbt-no-brasil-2024/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, Carl G. <em>A prática da psicoterapia</em>/ O.C. 16/1<em>. </em>Petropólis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Civilização em Transição/ </em>O. C. 10/3<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>______ </strong><em>A vida simbólica: escritos diversos/ </em>O.C 18/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2015a</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>______ </strong><em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo </em>O.C 9/1<em>. </em>Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: viva a sua própria vida. Petrópolis: Vozes, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAIHIOT, G. B. <em>Dinâmica e gênese dos grupos:</em>&nbsp; Atualidade das descobertas de Kurt Lewin. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PERERA, Sylvia Brinton. O complexo de bode expiatório, Rumo a uma Mitologia da Sombra e da Culpa. São Paulo: Cultrix, 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ROUGHGARDEN, Joan. <em>Evolução do Gênero e da Sexualidade</em>. Tradução: Maria Edna Tenório Nunes. Londrina: Editora Planta, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SOAVE JUNIOR. M. A. A<em> arteterapia como ferramenta para o enfrentamento dos efeitos do estresse de minoria em pessoas LGBTQIA+</em>. Monografia de Formação de Membro Analista do IJEP. Brasília, 2024. Disponível em <a href="https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia">https://www.ijep.com.br/biblioteca-ijep/a-arteterapia-como-ferramenta-para-o-enfrentamento-dos-efeitos-do-estresse-de-minoria-em-pessoas-lgbtqia</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">SOUZA et al. Desfechos negativos em saúde mental de minorias de sexo e de gênero: uma análise comportamental a partir da teoria do estresse de minorias. <em>Revista Perspectivas</em>. Ed. Especial: Estresse de Minorias pp.069-085. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</strong>: Matrículas abertas &#8211; <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="http://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png" alt="" class="wp-image-11969" style="aspect-ratio:0.7998077385243931;width:485px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-819x1024.png 819w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-240x300.png 240w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-768x960.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-150x188.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1-450x563.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-1.png 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" /></a></figure>
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			</item>
		<item>
		<title>Promiscuidade Sexual como Expressão Simbólica da Sombra Coletiva &#8211; Um ensaio sob a ótica do Amor e da Psicologia Junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/promiscuidade-sexual-como-expressao-simbolica-da-sombra-coletiva/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Jul 2025 17:58:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este ensaio tem como objetivo, a reflexão sobre a Sexualidade e alguns de seus aspectos sombrios como a promiscuidade sexual e o comportamento de risco para a contaminação de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e hepatites, refletindo por meio da psicologia junguiana, a expressão simbólica da sombra coletiva da sexualidade [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6"><strong>Resumo</strong>: Este ensaio tem como objetivo, a reflexão sobre a Sexualidade e alguns de seus aspectos sombrios como a promiscuidade sexual e o comportamento de risco para a contaminação de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), SIDA (síndrome da imunodeficiência adquirida) e hepatites, refletindo por meio da psicologia junguiana, a expressão simbólica da sombra coletiva da sexualidade e a “epidemia silenciosa” de AIDS, como tem retratado a mídia. Refletimos também sobre o pensamento de Jung em relação a esses comportamentos sombrios, o flerte com a morte e a própria essência do Amor!!</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Importante salientar a parca bibliografia sobre o assunto, diante da necessidade e urgência na discussão da matéria, em um momento em que se fala na mídia sobre a “Epidemia silenciosa” de HIV e ISTs (IP-imprensa publica.com.br)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Segundo <strong>Jung</strong>, “<strong><em>Faz parte do amor a profundidade e fidelidade do sentimento (&#8230;) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável</em></strong>”. (JUNG.2019, &amp; 231). Nesse sentido, em profundidade de “Alma”, como postula Jung, o termo “fazer amor” nos torna mais próximos dessa afetividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A sexualidade é um dos aspectos da dimensão humana, cercada ainda de muita dor e sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã de nossa sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis. Arrisco a dizer que apenas com o surgimento da AIDS e todas as suas particularidades, principalmente no início da infecção, onde denominada “câncer gay” é que se iniciou a falar sobre sexualidade e a defini-la em seu aspecto mais amplo (biopsicossocial). Foi quando as camadas sociais que se encontravam na sombra coletiva emergiram e a sociedade precisou integrá-las.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Falando-se em epidemia silenciosa, podemos defini-la como aquela epidemia em que existe a transmissão contínua de HIV e ISTs, sem chamar a atenção imediata das autoridades sanitárias, por serem muitos dos casos assintomáticos e subnotificados, prolongando assim o ciclo da infecção e da transmissão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">De acordo com um estudo em Porto Alegre, Imprensa Pública, 2025, foi identificada uma prevalência de 1,64% de pessoas com HIV na população geral, acima do limite de 1% que a OMS classifica como epidemia generalizada.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, 2024, 4,5% a mais de casos foram diagnosticados que em 2022. Mortes por AIDS atingiram 3,9 por cento de óbitos por 100 mil habitantes. Esse foi o menor índice demonstrado desde 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No perfil demográfico do mesmo estudo, foi identificado que 70,7% dos casos notificados são em homens, sendo 63,2% em pessoas pretas/pardas, 53,6% em homens que fazem sexo com homens (HSH), numa faixa etária de concentração entre 20 a 29 anos. Desses, foram encontrados 37,1% dos infectados. Prevalece aqui ainda, a juvenilização da infecção por HIV.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">O que é mais sério nesse estudo em minha opinião, é a estimativa de que <strong>11% dos indivíduos com HIV desconhecem seu diagnóstico</strong>, motivo pelo qual favorece a contaminação em indivíduos promíscuos e que não fazem sexo com proteção.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Os grupos mais vulneráveis identificados são: Homens que fazem sexo com homens, com até 18% de prevalência, população trans/travesti, em mais de 30% e jovens (15–24 anos), onde as novas infecções dobraram entre 2000–2015, provavelmente devido à queda no uso de preservativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">As ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) são frequentemente assintomáticas e variam entre sífilis, gonorréia, HPV (papiloma vírus humano), hepatite B e mostram índices de crescimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">É na dimensão psicossocial da sexualidade, onde inclui-se também os fatores psicológicos, como emoções, pensamentos e personalidade, combinados a elementos sociais, como por exemplo, o modo como as pessoas interagem, que compreendemos os vários distúrbios sexuais. É aqui que introjetamos as informações recebidas por nossos pais, professores e companheiros, herdando também os mitos, crendices e tabus sexuais, que muito influenciam no desenvolvimento saudável ou não da sexualidade e assimilamos determinadas “normas de comportamento sexual”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No tocante ao comportamental, esse aspecto da sexualidade permite-nos não somente verificar o que as pessoas fazem, mas a forma com que o fazem e porque o fazem. Assim, é importante que evitemos “julgar” o comportamento sexual de outras pessoas a partir dos nossos próprios valores e experiências, por vezes baseado em normoses ou ainda por conceitos religiosos individuais. Ora, o que é normal para mim, muitas vezes não o é para o outro, pois esse julgamento é baseado por nossos próprios valores, crenças, mitos e tabus, herdados em toda a dimensão do aprendizado de vida do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">De acordo com <strong>Cavalcanti &amp; Cavalcanti</strong>, na dimensão clínica da sexualidade, podemos observar que embora o sexo seja uma função natural do ser humano, algumas coisas podem afetar essa espontaneidade das atividades sexuais, como as doenças físicas, violência e abusos sexuais, lesões e uso de drogas que podem comprometer esse padrão de resposta sexual. Entram aqui também, sentimentos como ansiedade, culpa, medo, depressão e conflitos interpessoais, que podem coibir ou mesmo alterar a vivência saudável da sexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">No tocante à contemporaneidade e em toda essa questão biológica da sexualidade, infelizmente a mais importante para os padrões sexuais atuais, pouco se aborda a importância emocional do contato humano. Percebemos que esse culto ao corpo, ao consumismo, à performance e à persona sexual, sem a preocupação com o outro, com a afetividade e com os aspectos da alma, como bem fala Jung, tem trazido inúmeros sintomas físicos e mentais, gerando patologias e disfunções sexuais, entre outros distúrbios.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A palavra Promiscuidade deriva do latim <em>promiscuus</em>, que significa “misturado” ou “comum a muitos”. No contexto sexual, refere-se à prática de manter relações sexuais, com vários indivíduos, comumente de forma casual, sem vínculo afetivo, compromisso ou exclusividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS.2003) e Manuais Epidemiológicos de Vigilância de ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), a promiscuidade é considerada um fator de risco comportamental para a transmissão de infecções sexualmente transmissíveis e é frequentemente definida por : ter três ou mais parceiros sexuais em um período de 12 meses ou ter mais de um parceiro sexual no mesmo período sem proteção, o que pode denotar um comportamento sexual baseado em sexo casual, com muitas parcerias ao longo do tempo, sem se limitar a um único relacionamento ou parceria estável.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Importante salientar que a OMS tem um foco na promoção da saúde sexual e reprodutiva, enfatiza o sexo seguro e a prevenção das ISTs (infecções sexualmente transmissíveis) e que a ideia de promiscuidade e número de parcerias sexuais podem variar de acordo com a cultura, o contexto social e as crenças individuais. Considera ainda, que a saúde sexual é um direito fundamental e que a prática e a orientação sexual da pessoa devem ser respeitadas, desde que não causem danos a si mesmo ou a outrens.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-sentido-a-procura-demasiada-e-inconsciente-de-satisfacao-emocional-por-meio-de-sexo-sem-envolvimento-de-alma-pode-denotar-uma-necessidade-de-suprir-uma-nbsp-carencia-afetiva-uma-negacao-rigida-do-desejo-ou-ainda-a-constelacao-de-algum-complexo" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Nesse sentido, a procura demasiada e inconsciente de satisfação emocional por meio de sexo sem envolvimento de Alma, pode denotar uma necessidade de suprir uma&nbsp; carência afetiva, uma negação rígida do desejo, ou ainda, a constelação de algum complexo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Ao mesmo tempo em que a sociedade condena tal comportamento, ela pode alimentá-lo por fenômenos como mídia hiper erótica, cultura de corpos disponíveis e sexo exclusivamente como via de fuga, o que pode ser considerado uma projeção da sombra coletiva.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>Sombra é para mim a parte “negativa” da personalidade, isto é, a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal.</p><cite>(JUNG.2019, p.77) </cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">De acordo com Jung, do ponto de vista do indivíduo, a sombra é pessoal, formada pelos conteúdos do inconsciente pessoal, mas a sombra também é coletiva e pode compreender os aspectos reprimidos por uma cultura que não reconhece sua própria dimensão obscura. Isso inclui desejos e impulsos sexuais, que ao serem negados, podem retornar de forma distorcida e inconsciente, influenciando padrões de comportamento como a promiscuidade sexual que também pode ser vista como manifestação da sombra coletiva e dessa sexualidade reprimida e inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>A sombra age como um sistema imunológico psíquico, definindo o que é eu e o que é não eu (&#8230;). Por exemplo, alguns permitem a expressão da raiva ou da agressividade; a maioria, não. Alguns permitem a sexualidade, a vulnerabilidade ou as emoções fortes; muitos, não.</p><cite>(ZWEIG.2024, p.16) </cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-amor-e-uma-funcao-da-totalidade-psiquica-e-nao-se-reduz-ao-desejo-fisico-ou-a-paixao-passageira" style="font-size:19.5px">Segundo Jung, <strong>o amor é uma função da totalidade psíquica</strong>, e não se reduz ao desejo físico ou à paixão passageira.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Para ele, o amor autêntico exige a integração da <strong>Anima</strong> e do <strong>Animus</strong>, ou seja, das dimensões femininas e masculinas inconscientes que habitam cada ser. Sem essa integração, o sujeito se relaciona de forma projetiva e inconsciente, buscando no outro a completude que falta em si, o que pode gerar relações marcadas pela compulsividade, promiscuidade ou idealização perigosa.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Assim, o comportamento sexual de risco pode ser visto como expressão da fuga da consciência de si, uma tentativa de resolver no outro um vazio interno, uma carência de sentido ou amor-próprio. O comportamento de risco, então, pode ser uma tentativa inconsciente de confronto com a sombra em que o indivíduo desafia a morte, a doença, a moral, porque precisa sentir algo autêntico, mesmo que destrutivo. Alguns relatos clínicos que ouvi, pessoas com HIV relataram que o momento do diagnóstico foi o primeiro encontro real consigo mesmas ou um “chamado à alma”, para o autoamor e o autocuidado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A sexualidade vivida de forma compulsiva e promíscua, sem proteção, pode estar ligada ao desejo inconsciente de morte (mesmo simbólica) de muitos aspectos sombrios. Muitos jovens hoje romantizam relações marcadas por riscos, com falas como “não gosto de camisinha” ou “sexo é bom com perigo”, mostrando uma fusão inconsciente entre prazer e morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">Essa dinâmica é observável na ascensão de casos de HIV entre jovens homossexuais e bissexuais, que apesar de terem informação e acesso à PrEP (profilaxia pré-exposição) muitas vezes optam por relações desprotegidas, fenômeno descrito como “bug chasing” (busca deliberada por infecção), que pode ser interpretado, à luz de Jung, como um desejo de iniciação arquetípica pela dor.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.6">A saúde pública tradicionalmente atua sobre o comportamento e o corpo, mas ignora a subjetividade e o inconsciente. Uma abordagem mais integrativa exigiria reconhecer que a prevenção de HIV e ISTs não é só técnica, mas também simbólica, emocional e espiritual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-bem-diz-jung" style="font-size:19.5px">Como bem diz Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece. </p><cite>(JUNG 2019, p. 112, &amp; 212)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4">Para finalizar a brilhante reflexão:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19.5px"><blockquote><p>O confronto com a nossa própria alma, com a anima e o animus, com o feminino e o masculino, pode ter uma forma sexual. O amor por si mesmo e o amor pelos outros são experimentados corporalmente na sexualidade, seja através de fantasias ou de atividades. Em nenhum outro lugar a união de todos os opostos, a <em>unio mystica</em>, o <em>mysterium coniunctionis</em>, expressa-se de modo mais impressionante que na linguagem do erotismo.&nbsp;</p><cite> ( Guggenbuhl-Craig.2024, p.119)</cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: PROMISCUIDADE SEXUAL COMO EXPRESSÃO SIMBÓLICA DA SOMBRA COLETIVA" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Jow7v8pZnq8?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/mariaivanilde/">Maria Ivanilde Alves &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:19.5px">REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Direção-Geral da Saúde. 2022.</strong> Serviço Nacional de Saúde. <em>Site do Serviço Nacional de Saúde Português. </em>[Online] 25 de Novembro de 2022. https://www.sns24.gov.pt/tema/saude-sexual-e-reprodutiva/comportamentos-sexuais-de-risco/.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Jung, Carl Gustav. 2013.</strong><em>Obras Completas 10/3 &#8211; Civilização em Transição. </em>Petrópolis&nbsp;: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>. Obras Completas 8/2 &#8211; A Natureza da Psique. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Jung, Carl Gustav</strong>.Obras completas 7/2 &#8211; O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M</strong>. &#8211; Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. 5.ed. Payá, 2022</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Zweig, Connie et all</strong> &#8211; Ao Encontro da Sombra- O potencial oculto do lado escuro da natureza humana. Cultrix, 2024</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19.5px;line-height:1.4"><strong>Boletim Epidemiológico HIV/AIDS 2023</strong>. Ministério da Saúde.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-vivid-green-cyan-color has-text-color has-link-color wp-elements-f678f614b66a65cb91459fc811795ba3" id="h-canais-ijep" style="font-size:22px"><strong>Canais IJEP:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Pós-graduações </strong>&#8211; Certificado pelo MEC &#8211; 2 anos de duração- Psicologia Junguiana; Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática; Matrículas abertas: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>YouTube</strong>: <a href="https://www.youtube.com/@IJEPJung/videos">+700 vídeos de conteúdo junguiano</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10852" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1-1200x675.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/hh-1.png 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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<p class="wp-block-paragraph"></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Sexo sem amor: liberdade sexual ou compensação adoecedora?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sexo-sem-amor-liberdade-sexual-ou-compensacao-adoecedora/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leandro Scapellato]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 17 May 2023 22:52:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7608</guid>

					<description><![CDATA[<p>este artigo tem a intenção de tecer provocações sobre alguns pontos da sexualidade praticada nos tempos atuais, mais precisamente sobre a possibilidade de parte do que é chamado de “liberdade” sexual vivenciada hoje ser somente um movimento de compensação extremada — enantiodromia —  das repressões sexuais dos séculos passados ou de gerações passadas, que pode ser tão adoecedora quanto a própria repressão que tenta combater — e, também, oferecer um breve direcionamento para a questão, sugerindo a reinserção do amor na sexualidade.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo provoca a reflexão sobre a liberdade sexual contemporânea como possível compensação extrema das repressões do passado, alertando para suas potenciais consequências negativas.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria — nome fictício — senta na poltrona mostrando-se ansiosa e dispara — Hoje eu sou apenas conflito! — e ri, sorrindo um sorriso que apenas a dor consegue expressar. Há um pouco mais de seis meses havia feito sua primeira sessão analítica e rapidamente deixou claro que o objetivo de vida dela era conseguir viver o que sua mãe, sua avó e sua bisavó não puderam por causa da repressão que sofreram dos homens da família e da sociedade no passado. Com esse objetivo guiando sua vida, conquistou tudo aquilo que, segundo ela, suas ancestrais não puderam: uma carreira profissional de sucesso, um estilo de vida invejável — com viagens para vários países e muitos amigos — e uma liberdade sexual que, segundo ela, “décadas atrás seria motivo de prisão”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas semanas depois da primeira sessão, era fácil perceber que, apesar de todo esse &#8220;sucesso&#8221;, algo parecia estar fora do lugar. O corpo de Maria gritava sintomas diversos, que envolviam principalmente o aparelho genital feminino como um todo. E após alguns meses se observando com a atenção sugerida, ela percebeu que esses sintomas pareciam aflorar quando ela atravessava vivências sexuais mais “liberais”, como festas sexuais em grupo ou quando tinha relações com homens que havia acabado de conhecer — e que depois não voltaria a contactar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pois bem… Seis meses se passaram, e muitos sonhos e imagens internas foram ampliadas até o dia em que ela se definiu e se reduziu como um “conflito”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">— Eu não desejo ser como minhas ancestrais foram. O que eu conquistei tem um valor enorme e jamais abriria mão disso… Mas, ao mesmo tempo, parece que virei refém dessa minha liberdade, a ponto de não conseguir mais me conectar de verdade com alguém. O sexo parece ter virado apenas um conjunto decorado de técnicas e movimentos robóticos. E isso tem me destruído tanto quanto a repressão patriarcal parece tê-las destruído no passado. Eu provavelmente fui a primeira mulher da minha família a experimentar um orgasmo sexual… Mas hoje esses orgasmos parecem não valer nada. São apenas mais um “check” de uma lista obrigatória que não me nutre em nada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não são novidade as marcas que muitos de nós carregamos individualmente pelas repressões sexuais de um passado pessoal, ou carregamos individualmente por sermos vítimas da compensação adoecida daqueles que foram reprimidos ou já foram vítimas da compensação adoecida de outros &#8211; abusos e outras violências sexuais. Todavia, falar sobre a possibilidade de compensação de repressão sexual levando em consideração apenas a carga psíquica individual é deixar de levar em consideração, em nossa opinião, toda a carga coletiva que nos parece tão predominante quanto a carga individual dessa repressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao longo dos últimos anos, observamos e acompanhamos várias “Marias” e alguns “Joões” com esta mesma dinâmica. Pessoas adultas, de idades diversas, vivendo, muitas vezes com orgulho, uma tal liberdade sexual que mais parece uma prisão que uma libertação. E é com base nisso que tecemos as provocações de hoje: será que vivemos uma liberdade sexual verdadeira e saudável, ou isso que experimentamos — a intensidade, a liberdade, o exagero e a falta de regras como regra — é apenas um movimento compensatório após a repressão sexual das gerações e séculos anteriores, que nos leva ao outro polo também extremo e, portanto, também de unilateralização adoecedora? </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sera-que-este-e-realmente-o-objetivo-final-ou-estamos-apenas-perdidos-e-iludidos-aprisionados-em-nossas-conquistas-cada-vez-mais-extremadas-daquela-liberdade-que-nos-faltava-em-um-passado-relativamente-recente" style="font-size:16px">Será que este é realmente o objetivo final? Ou estamos apenas perdidos e iludidos, aprisionados em nossas conquistas cada vez mais extremadas daquela liberdade que nos faltava em um passado relativamente recente?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa tal “liberdade” sexual não tem significado nem de longe uma felicidade ou uma boa saúde sexual. Pelo contrário, ao que é facilmente observado na clínica analítica, apesar de enormes e necessárias conquistas nessa área, principalmente por parte das mulheres e homossexuais, que sofreram por séculos os massacres de um patriarcado adoecido, o número de pessoas que chegam às sessões com demandas relacionadas à sexualidade continua alto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, por mais que haja uma busca, claro, que é consequência de uma sociedade que agora permite que os indivíduos não sofram calados como sofriam os das gerações passadas, ainda podemos concluir que a quantidade de indivíduos com sintomas e demandas direta ou indiretamente relacionados à sexualidade e que causam sofrimento é enorme, e que a vida sexual intensa e desregrada, sem as duras repressões do passado, não parece fazer isso melhorar — em vários casos o que vemos é o oposto, a desorganização sexual individual é um causador, senão potencializador, das mazelas do indivíduo, inclusive de sua incapacidade de se relacionar profundamente com o outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-propomos-hoje-para-nossa-reflexao-vale-salientar-e-ir-alem-das-compensacoes-pessoais-ou-familiares" style="font-size:17px">O que propomos hoje para nossa reflexão, vale salientar, é ir além das compensações pessoais ou familiares.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não pela sua falta de importância, mas porque nos atrevemos a afirmar que estamos compensando eras inteiras, como, por exemplo, a era vitoriana. Vejamos… O que conhecemos como “era vitoriana” foi um período situado entre os anos de 1837 e 1901. Para este trabalho, a característica que nos importa em relação a esse período é exatamente a forte repressão sexual que existia à época.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-proprio-jung-em-sua-obra-o-espirito-na-arte-e-na-ciencia-diz-que" style="font-size:17px">O próprio Jung, em sua obra <em>O espírito na arte e na ciência, </em>diz que:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:15px">
<p class="wp-block-paragraph"> “[45] A época vitoriana é a época da repressão, uma obstinada tentativa de conservar artificialmente vivos, através do moralismo, os ideais anêmicos que estavam de acordo com a compostura burguesa. Esses ‘ideais’ eram as últimas ramificações das representações religiosas comuns da Idade Média [&#8230;]” (JUNG, 2013b, p. 39).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Sobre as consequências diretas dessa repressão há vasto material, incluindo trabalhos do renomado psicanalista Sigmund <strong>Freud</strong>. Dentre estes estudiosos destaca-se o trabalho de <strong>Wilhelm Reich</strong> &#8211; com algumas ampliações ainda atuais, apesar de limitadas pelo espírito da época. Em sua poderosa e polêmica obra publicada em 1942, <em>A função do orgasmo</em>, Reich faz uma ligação direta e clara entre os sintomas psicológicos que ele observava em vários de seus pacientes e os impulsos sexuais reprimidos, afirmando que “<em>O homem é a única espécie biológica que destruiu sua própria função sexual natural e está doente em consequência disso</em>.” (REICH, 1990, p. 92).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para compreendermos melhor o que essa repressão significa na psique dos indivíduos, nós voltaremos à psicologia analítica de Jung. Mais precisamente, à obra <em>Símbolos da Transformação, </em>onde o autor defende que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p class="wp-block-paragraph">[581] Todo extremo psicológico contém secretamente o seu oposto ou está de alguma forma em estreita relação com ele. Na verdade, é desta contradição que ele deriva a dinâmica que lhe é peculiar. [&#8230;] quanto mais extrema se tornar uma posição, tanto mais se pode esperar a sua enantiodromia, sua reversão para o contrário. (JUNG, 2013c, p. 441).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-sobre-o-termo-enantiodromia-podemos-citar-outra-importante-obra-do-mesmo-autor-tipos-psicologicos" style="font-size:17px">E sobre o termo enantiodromia, podemos citar outra importante obra do mesmo autor, <em>Tipos Psicológicos</em>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:13px">
<p class="wp-block-paragraph">[795] (798) Com o termo enantiodromia quero designar a oposição inconsciente no decorrer do tempo. Este fenômeno característico ocorre quase sempre onde uma direção extremamente unilateral domina a vida consciente de modo que se forma, com o tempo, uma contraposição inconsciente igualmente forte e que se manifesta, em primeiro lugar, na inibição do rendimento consciente e, depois, na interrupção da direção consciente. (JUNG, 2013d, p. 444)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Trazendo isso para a temática deste artigo, podemos compreender que a repressão sexual não acaba com os impulsos sexuais, mas apenas os varrem para o mundo sombrio do inconsciente, onde acumula energia até que se torne capaz de invadir e guiar o indivíduo perigosamente em sua direção.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-foi-exatamente-o-que-rajneesh-chandra-mohan-jain-conhecido-mundialmente-como-osho-afirmou-em-varios-de-seus-discursos-que-foram-transformados-em-livros" style="font-size:17px">Isso foi exatamente o que <strong>Rajneesh Chandra Mohan Jain</strong>, conhecido mundialmente como <strong>Osho</strong>, afirmou em vários de seus discursos que foram transformados em livros.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua obra tântrica <strong>Do sexo à supraconsciência</strong>, ele afirma que os ocidentais passaram séculos tentando inutilmente se livrar do sexo, que é algo inerente a eles, e que, por isso, foram dominados exatamente pela força que tentaram bloquear — citando a “Lei do Efeito Inverso”, do psicólogo francês Émile Coué, que afirma que acabamos por colidir com tudo aquilo que tentamos negar, pois o objeto do nosso medo torna-se o centro de nossa consciência. Para <strong>Osho</strong>, “A Lei do Efeito Inverso capturou a alma do homem” (OSHO, 1993, p. 50). Por isso o sexo está em todo lugar de forma distorcida e doente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para reforçar a ideia aqui demonstrada, podemos também citar outro profissional que, assim como Reich, dedicou boa parte de sua vida aos estudos da sexualidade: Alexander Lowen, médico psicanalista americano, que foi paciente e discípulo de Reich, antes de desenvolver e atualizar as teorias reichianas na chamada bioenergética &#8211; uma terapia que, assim como a reichiana, estrutura seu alicerce nos trabalhos diretos com o corpo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Lowen</strong>, pegando como base exatamente a repressão da era vitoriana, diz que o que apresentamos de sexualidade décadas após o fim dessa época não é liberdade sexual, mas sim uma confusão sexual — apesar das experiências e liberdades experimentadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo ele, o moralismo da época vitoriana não foi resolvido, mas apenas moldado e limitado ao campo emocional. Assim, o sexo passou a ser permitido, mas de forma compensatória, completamente dissociada do amor, o que acabou por afastar os sentimentos do ato sexual em si, transformando-o em algo dominado por técnicas, posições variadas, teorias e desejos, mas sem emoção — os “checks” de Maria. E essa dinâmica, segundo ele e o próprio Reich, seria a causa de adoecimentos dos indivíduos, dentro dessa nova moralidade, quando os sentimentos naturais passam a ser confundidos com pornografia — fantasiada de liberdade sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, durante séculos os homens reprimiram arduamente a sexualidade, mas essa repressão não destruiu a sexualidade em si, mas a transformou em sombra, fortalecendo sua expressão inconsciente dominante e distorcida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais à frente, a partir do fim da era vitoriana, em uma tentativa de compensação imatura desse passado de repressão — enantiodromia —, os indivíduos passaram a alimentar e a buscar de maneira extremada a tal “liberdade” sexual, que se apresentou distorcida, falha e adoecedora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-nova-sexualidade-apresentou-se-desconectada-dos-sentimentos-e-da-conexao-entre-os-individuos" style="font-size:17px">Essa “nova” sexualidade apresentou-se desconectada dos sentimentos e da conexão entre os indivíduos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, o que deveria ser uma expressão natural de amor — em suas diversas formas —, tornou-se um ato superficial e compulsivo, incapaz de suprir as necessidades emocionais naturais. Ou seja, talvez toda essa “liberdade” sexual, com suas limitações emocionais, tenha transformado o sexo em apenas pornografia, alimentando as angústias humanas em vez de aliviá-las.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O próprio <strong>Jung</strong>, também dentro dos limites da época e de ser quem é e de onde fala, chega a mostrar o que ele acredita serem consequências dessa compensação sexual na vida das pessoas, mais precisamente quando ele está observando e analisando a vida dos americanos, na obra <em>Civilização em transição</em>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:12px">
<p class="wp-block-paragraph">[958] Pode-se observar isto sobretudo no problema sexual americano [&#8230;]. Há uma tendência acentuada para a promiscuidade que se manifesta não só nos inúmeros divórcios mas também na liberação da geração mais jovem quanto aos preconceitos sexuais. Consequência inevitável é a deterioração do relacionamento individual entre os sexos. Um acesso fácil não desafia os valores do caráter e por isso também não os desenvolve, dando origem a sérios obstáculos para um entendimento mútuo mais profundo. Este entendimento, sem o qual não existe verdadeiro amor, só é alcançado superando-se todas as dificuldades inerentes à diferença psicológica entre os sexos. A promiscuidade paralisa todos esses esforços porque oferece oportunidades fáceis de fuga. E o relacionamento individual se torna muito supérfluo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais predominarem uma assim chamada liberdade sem preconceitos e a fácil promiscuidade, tanto mais o amor se tornará banal e degenerará em interlúdios sexuais transitórios. Os desenvolvimentos mais recentes no campo da moralidade sexual tendem para o primitivismo sexual, a exemplo da instabilidade dos costumes morais dos povos primitivos onde, sob a influência da emoção coletiva, todos os tabus sexuais desapareciam na mesma hora. (JUNG, 2013a, p. 227)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-porem-se-o-lugar-onde-parecemos-estar-no-momento-nao-parece-ser-saudavel-o-que-devemos-fazer">Porém, se o lugar onde parecemos estar no momento não parece ser saudável, o que devemos fazer?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Parece-nos óbvio que a ideia conservadora retrógrada de retornar às eras das práticas de repressão, misoginia, homofobia, etc. — que ainda existem hoje em certo grau, de maneira diluída em alguns países e escancarada em outros — está fora de cogitação. Não pretendemos defender que as conquistas sejam queimadas como as mulheres consideradas bruxas, por pensarem diferente, o foram na idade média. Muitas dessas conquistas vieram exatamente porque eram necessárias. E outras ainda estão por vir. O que devemos, como profissionais de psicoterapia e análise, talvez seja ajudar nesse processo de conscientização do estado atual e confronto necessários para as transformações que ainda necessitam existir.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como humanidade, precisamos enxergar que, dentro deste mundo hipermoderno de internet, aplicativos de encontros sexuais e acesso quase ilimitado a novas experiências, de tipos cada vez mais variados, a compensação da repressão de maneira tão extremada como o era a própria repressão não é o objetivo final. Como o próprio Jung afirma em a <em>Psicologia do inconsciente</em>:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:14px">
<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] A enantiodromia, ameaça inevitável de qualquer movimento que alcança uma indiscutível superioridade, não é a solução do problema, porque em sua desorganização é tão cega quanto em sua organização”. (JUNG, 2014, p. 84)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-entao-qual-seria-a-solucao-do-problema">Mas, então, qual seria a solução do problema?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Compensações extremadas, conscientes ou não, são apenas jogos de polarizações que contradizem o todo integral do processo de individuação que precisamos percorrer. E enquanto não trouxermos para a consciência a necessidade de integrarmos e agirmos conscientes dentro dessa esfera da sexualidade, pouco sairemos desse ciclo onde um extremo apenas trará o outro, em um imposto e inevitável movimento pendular eterno (assim como já víamos isso em um passado mais distante, por exemplo, com a Idade Média repressiva parecendo se contrapor às liberdades sexuais imaturas, por exemplo, da era romana da história, com seus bacanais públicos e práticas diversas). </p>



<p class="wp-block-paragraph">Não à toa, estamos observando o forte crescimento de movimentos repressivos, conservadores e retrógrados em vários países do ocidente, inclusive no Brasil, onde acabamos de sair de um governo declaradamente conservador que dizia lutar contra a “libertinagem e a degradação dos costumes das pessoas de bem”. Além de estarmos observando na clínica as gerações mais novas parecerem cada vez mais desconectadas da sexualidade, do corpo e do outro, para além daquela conexão virtual das redes sociais. O que seria isso, pelo menos em parte, se não uma tentativa de compensação dessa pseudo liberdade sexual que estamos vivendo?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em suma, Reich, Lowen, Osho e Jung parecem concordar com a necessidade de se integrar a sexualidade e os impulsos sexuais, em vez de reprimi-los, já que essa repressão sempre nos transformará em escravos dessa sexualidade distorcida que sempre será consequência da repressão. Essa integração, porém, é uma transformação daquilo que conhecemos até hoje, e não um fortalecimento sem reflexão do que foi conquistado. Não está em nenhum dos extremos, nem da repressão, muito menos dessa tal “liberdade” sexual. O caminho, talvez, seja o que envolve a reinserção, agora de maneira consciente e madura, do amor — em suas diversas facetas saudáveis — na sexualidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-para-que-isso-aconteca-o-sexo-devera-deixar-de-ser-apenas-ferramenta-de-compensacao-coletiva-ou-individual" style="font-size:18px">E para que isso aconteça, o sexo deverá deixar de ser apenas ferramenta de compensação coletiva ou individual.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Deverá deixar de ser somente desempenho, vício, distração sem valor e expressão das mais densas sombras humanas. Lowen um dia escreveu que “<em>há uma grande necessidade de se compreender a sexualidade como uma expressão emocional</em>” (LOWEN, 1988, p. 10), e, talvez, esse seja o nosso grande desafio… Afinal, em boa parte do globo ocidental, conquistamos o direito de nos relacionar sexualmente com quem desejamos e, muitas vezes, quando desejamos, mas parece que, pelo meio do caminho, desaprendemos a amar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, como o <strong>Osho</strong> costumava afirmar: “<em>O sexo é a energia mais vibrante do homem, mas não deve ser um fim em si mesmo: o sexo deve levar o homem à sua alma. A meta é ir da luxúria à luz</em>” (OSHO, 1993, p. 66).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leandroscapellato/">Leandro Scapellato – Membro analista em formação/IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Membro analista didata/IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">ERA vitoriana. In: <em>WIKIPÉDIA</em>: a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Era_vitoriana. Acesso em: 27 nov. 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Civilização em transição</em>. 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O espírito na arte e na ciência</em>. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Símbolos da transformação</em>. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Tipos psicológicos</em>. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013d.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>A psicologia do inconsciente</em>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">LOWEN, Alexander. <em>Amor e Orgasmo</em>: guia revolucionário para a plena realização sexual. 4. ed. São Paulo: Summus Editorial, 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAJNEESH, Bhagwan Shree (Osho). <em>Do Sexo à Supraconsciência</em>. São Paulo: Cultrix, 1993.</p>



<p class="wp-block-paragraph">REICH, Wilhelm. <em>A Função do Orgasmo</em>. 5. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Sexo sem amor: liberdade sexual ou compensação adoecedora? | Leandro Scapellato" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/GWmm9px74hs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça nossos Congressos Junguianos: <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">Congressos IJEP (pages.net.br)</a></p>
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		<title>Terapêutica e sexualidade – parte II</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/terapeutica-e-sexualidade-parte-ii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 17:55:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[eduacação sexual]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[terapia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5203</guid>

					<description><![CDATA[<p>Quando se fala em sexualidade humana, sabe-se que é impossível compreendê-la de forma simplificada, sem admitir sua natureza multidimensional. Ela pode ainda ser banalizada e literalizada em sua forma biológica (pênis e vagina), embora se saiba que a diversidade dos conceitos contemporâneos tenham ultrapassado essa dimensão e isso tem trazido inúmeras dúvidas e aumentado a dificuldade e o preconceito no divã, em um momento em que os muitos terapeutas não conseguem lidar e ampliar a sua própria sexualidade. Esse artigo traz uma ampliação e reflexão desse tema, na abordagem da psicologia analítica de Carl Gustav Jung.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Desde os primórdios, a <strong>sexualidade</strong> tem exercido grande fascínio sobre as pessoas de todas as camadas sociais. Na arte, literatura, religiões, filosofias e outros sistemas preocupados principalmente em moldar o comportamento humano, tentam até hoje, estabelecer valores e tabus <strong>sexuais</strong>. Nesse contexto, torna-se importante definir a <strong>sexualidade</strong>, em uma dimensão mais ampla, de forma biopsicossocial e espiritual, em que a sua dimensão biológica é apenas um dos seus aspectos, talvez socialmente o seu aspecto principal, cujo viés para muitos seja o mais importante, negligenciando-se todos os outros aspectos de completude do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>sexualidade</strong> é um dos aspectos da dimensão humana, cercada de muito sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã da sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto perpassa pelo conceito de normalidade, como se todos os indivíduos fossem iguais e subjugados a essa “normose” social. Ora, as sociedades são entidades dinâmicas. Assim, o que é normal hoje pode ser anormal amanhã e vice-versa, uma vez que os padrões culturais mudam com o tempo e metaforicamente deve-se também, acompanhar essa mudança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Cavalcanti &amp; Cavalcanti, do ponto de vista psicológico, “sexo normal” é aquele que assim é considerado dentro da visão particular de cada um. O que importa na verdade, é a satisfação pessoal ou a adequação <strong>sexual</strong> de cada indivíduo. Importante lembrar também que “adequação” pressupõe um estado de satisfação intra e interpessoal, ou seja, se o indivíduo está satisfeito com o seu comportamento <strong>sexual</strong> e com o do seu parceiro(a), ele/ela é uma pessoa normal ou adequada, do ponto de vista psicológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando se fala em <strong>sexualidade</strong> humana, sabe-se que é impossível compreendê-la de forma simplificada, sem admitir sua natureza multidimensional. Ela pode ainda ser banalizada e literalizada em sua forma biológica (pênis e vagina), embora se saiba que a diversidade dos conceitos contemporâneos (LGBTQIA+) tenha ultrapassado essa dimensão e isso tem trazido inúmeras dúvidas e aumentado a dificuldade e o preconceito no divã, em um momento em que os muitos terapeutas não conseguem lidar e ampliar a sua própria <strong>sexua</strong>lidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, torna-se importante observar o tipo de educação <strong>sexual</strong> que o indivíduo recebeu na família. É fato que hoje na sociedade contemporânea, essa discussão se torna bem mais ampla e difundida pelos meios digitais, fato que a algum tempo, não se falava ou comentava, devido aos inúmeros mitos, crendices e tabus <strong>sexuais</strong> familiares. Muitos carregam ainda indícios desse tipo de educação sexual, que chamo carinhosamente de “<strong>educastração sexual</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tempos atuais, o destaque que se da à <strong>sexualidade</strong>, principalmente com a erotização, objetiva-se apenas o culto ao corpo e ao consumismo.Tudo é erótico e erotizável, desde uma simples propaganda na televisão, às letras de músicas e danças de todo gênero. Pouco se aborda acerca da importância emocional do contato humano. Há claramente, a vigência de estereótipos sexuais repressivos e de seus preconceitos e tabus. O corpo de cada um, local em que o prazer pode ser mais intenso e gratificante, é o que mais sofre com os condicionamentos sociais, gerando doenças e disfunções, dificultando os espaços relacionais e a manutenção saudável e prazerosa da convivência conjugal, ocasionando dores, mágoas e rupturas dos casais, razão pela qual inúmeras pessoas procuram os consultórios médicos e psicoterápicos, na esperança do encontro de si mesmo e de maior conhecimento afetivo sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cavalcanti &amp; Cavalcanti menciona que o estudo dos problemas sexuais é algo relativamente novo e ainda não existe no Brasil nenhuma disciplina específica, nem nos cursos de medicina, muito menos nos cursos de psicologia, que trate especificamente das questões sexuais e as referências bibliográficas são bem limitadas ligadas ao tema. Jung, em sua obra, também não aprofundou muito, porém, mesmo sendo um homem do seu próprio tempo, com todas as limitações sociais da época não fugiu à discussão, apesar de deixá-la incipiente. Assim mesmo, diante da precariedade, conseguiu abordar em sua obra, uma visão completamente despretensiosa e livre de preconceitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse fato, todavia, não deve servir de pretexto para que profissionais médicos e psicólogos neguem efetiva ajuda às pessoas com esse tipo de dificuldade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung cita a psicoterapia como um “procedimento dialético”, ou seja, um diálogo entre duas pessoas (importante citar que a dialética era a arte de conversação entre os antigos filósofos). Veja-se:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“A pessoa é um sistema psíquico, que atuando sobre outra pessoa, entra em interação com outro sistema psíquico. Esta é talvez a maneira mais moderna de formular a relação psicoterapêutica médico-paciente”.(JUNG 2020).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, é necessário que o analista esteja preparado para atender e entender as dificuldades contemporâneas relacionadas à sexualidade, sem que se tenha necessariamente que encaminhar o cliente a outro profissional “mais capacitado” no tema em questão, já que essa formulação dialética, de acordo com Jung, nada mais é que a troca entre dois sistemas psíquicos. É necessário se atentar à responsabilidade dessa terapêutica e jamais negligenciar o processo da “alma”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Aquilo que não está claro para nós, porque não o queremos reconhecer em nós mesmos, nos leva a impedir que se torne consciente no paciente, naturalmente em detrimento do mesmo. A exigência de análise para o próprio analista tem em vista a idéia do método dialético. Como se sabe, o terapeuta nele se relaciona com outro sistema psíquico, não só para perguntar, mas também para responder (&#8230;) que no processo dialético se encontra em pé de igualdade com aquele que ainda é considerado paciente. (JUNG 2020, p.18)”</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhar com transtornos de natureza sexual é um desafio para qualquer terapeuta. De acordo com Jung, o terapeuta vivencia junto com seu paciente, um processo evolutivo individual. Todavia, ele necessita também se colocar nesse espaço como aprendiz e não negar a dificuldade com o tema, razão pela qual, Jung exigia que todo terapeuta fosse “obrigatoriamente” analisado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com efeito, por também ser parte integrante do processo psíquico, imprescindível que ele estivesse em análise da mesma sorte que seu paciente. Nas palavras dele, “Você tem que ser a pessoa com a qual você quer influir sobre o seu paciente. A palavra, a mera palavra, sempre foi considerada vã”. (JUNG 2020, p.87).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, acerca do tema, entendeu Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) “Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece. (JUNG 2019, p. 112)”</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Ivanilde F. Alves ( Ivy Alves) Membro Analista em Formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra E. Simone Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro didata do IJEP</p>



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</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M.&nbsp;<em>Tratamento Clínico das inadequações sexuais</em>. 5.ed.Payá, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<em>A prática da psicoterapia.</em>&nbsp;Vol.16/1. Vozes, 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<em>Civilização em transição.</em>&nbsp;Vol.16/1. Vozes, 2019.</p>
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		<title>O Contradito não dito vira Interdito e transforma a relação em Maldita</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-contradito-nao-dito-vira-interdito-e-transforma-a-relacao-em-maldita-nos-relacionamentos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 02 Apr 2022 12:33:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na prática de psicoterapia analítica, que exerço há mais de trinta anos, recebo recorrentemente pessoas em crise de relacionamentos, consigo mesmas e nos âmbitos familiares, amorosos, sociais, corporativos e até religiosos. Quando começamos analisar a dinâmica das relações, recorrente e maciçamente, fica evidente a dificuldade de diálogo, entre o ego, geralmente enredado nas artimanhas mentais [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Na prática de psicoterapia analítica, que exerço há mais de trinta anos, recebo recorrentemente pessoas em crise de <strong>relacionamentos</strong>, consigo mesmas e nos âmbitos familiares, amorosos, sociais, corporativos e até religiosos. Quando começamos analisar a dinâmica das relações, recorrente e maciçamente, fica evidente a dificuldade de <strong>diálogo</strong>, entre o ego, geralmente enredado nas artimanhas mentais que negam tanto a sombra quanto a alma, e as demais relações interpessoais, resultando em acúmulo de mal entendidos, contradições e ruídos de comunicação, produzindo sentimentos de mágoas, ressentimentos, culpas ou desejo de vingança. Tudo em função da dificuldade em expor o afeto contraditório que surgiu na relação, interditando as trocas e, consequentemente a vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda expressão de vida, em qualquer âmbito, depende da troca e, na realidade, do consumo de outra forma de vida, fator instintivo gerador de medos, por conta da necessidade de segurança territorial. Deve ser esta a causa de tanta ansiedade e resistências associadas às relações interpessoais. O medo, que deveria ser um instrumento para possibilitar a consciência crítica diante das escolhas da vida, se ficar ausente produzirá a loucura, o risco eminente da morte e, se aparecer em demasia, impossibilitará o fluir da vida. <strong>Por isso, aprender a mediar o medo, e continuar trocando, é a grande meta do sábio. </strong>Infelizmente, com a supremacia da razão e do materialismo, de forma iludida, as pessoas passaram a lidar com o medo por meio da fantasia de poder. O poder, por sua vez, pode manifestar-se de várias formas: como riqueza material, força física, armas, influência, beleza, conhecimento, títulos, habilidades, entre outras, mas todas elas são possibilidades estéreis porque impedem a criatividade evolutiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num primeiro momento, o poder pode abrandar o desconforto do medo, mas com o passar do tempo, a pessoa descobre que ele interditou a vida. Por isso que C. G. Jung, sabiamente, constantemente afirmava que na vaga do amor se instala o poder! <strong>O amor gera trocas e enaltece a vida, o poder gera ilusão de controle, com opressão e estagnação da vida.</strong> É nesta realidade que começa o trabalho analítico, possibilitando o livre pensar, sentir, perceber e intuir, em busca de um refinamento dialógico, para que aconteça a celebração da vida, que deve estar sempre bendita. O presente, que é &nbsp;dádiva maior e divina, deve ser desfrutado a cada momento presente, sem deixar que o passado ou o futuro interfiram negativamente na realidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A capacidade de expressar os sentimentos contraditórios que surgem nas relações, consigo mesmo e com o entorno relacional, é o meio mais saudável, apesar de gerar tensões e até desconfortos momentâneos, para a conquista de relações virtuosas, amorosas e benditas. Mas, essa disponibilidade é para a minoria das pessoas, porque a grande massa, desde cedo, é treinada <strong>a viver aprisionada nas máscaras sociais</strong>, as personas, impostas pela família e sociedade, atuando pacificamente como meros observadores, preferencialmente ocupados em consumir o inútil, endividar-se e trabalhar para poder pagar as dívidas continuando na roda do consumo, até morrer sem nunca ter tido a oportunidade de viver de fato. Por isso, quem conseguiu desencaixar-se desta dinâmica perversa, tem a obrigação de incomodar os encaixados, normoticamente, para que consigamos um futuro mais pleno de sentido e significado existencial.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Poder explicitar o contradito, nas relações intrapsíquicas e extra psíquicas, contribui muito na jornada do processo de individuação, permitindo a compressão que a nossa condição sigular, que nos faz únicos, complexos,&nbsp; criativos e&nbsp;solitários,&nbsp; seja vivenciada na pluralidade humana , com igualde, liberdade e amorosidade, para que o sentido e o significado do servir de cada um seja alcançado!</strong> Porém, para quem conquistou a capacidade corajosa de expor seus sentimentos e pontos de vista, é necessário muito força para suportar a resistência, negação e até indignação do outro, porque cada um está num estágio evolutivo e precisamos respeitar e amar a todos, servindo e visando a individuação da humanidade!</p>
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		<item>
		<title>Terapêutica e Sexualidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/terapeutica-e-sexualidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 03 Aug 2021 10:23:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
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		<category><![CDATA[terapia sexual]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>TERAPÊUTICA E SEXUALIDADE – Parte 1 - Falando-se em Sexualidade, sabemos que é impossível compreender a sexualidade humana de forma simplista, sem admitir sua natureza multidimensional. Desde os tempos mais remotos, a sexualidade tem exercido grande fascínio sobre as pessoas de todas as camadas sociais. Na arte, literatura, religiões, filosofias e outros sistemas preocupados principalmente em moldar o comportamento humano, tentam estabelecer valores e tabus sexuais.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Falando-se em Sexualidade, sabemos que é impossível compreender a sexualidade humana de forma simplista, sem admitir sua natureza multidimensional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desde os tempos mais remotos, a sexualidade tem exercido grande fascínio sobre as pessoas de todas as camadas sociais. Na arte, literatura, religiões, filosofias e outros sistemas preocupados principalmente em moldar o comportamento humano, tentam estabelecer valores e tabus sexuais.&nbsp;Nesse contexto, torna-se importante definir a sexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;“Tendo em mente as fontes pessoais, coletivas e históricas de nossa herança sexual, é possível ampliar e aprofundar nossos conhecimentos da sexualidade estudando-a a partir de uma perspectiva biológica, psicossocial, comportamental, clínica ou cultural. No entanto, ao examinar a sexualidade sob esses vários enfoques, é preciso ter cuidado para não esquecer que aprender sobre ela, em todas as suas formas, significa, na verdade, adquirir conhecimentos sobre as pessoas e sobre a complexidade da natureza humana”. (MASTERS, WILLIAM H, JONHSON, E. VIRGÍNIA, et al.1982)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, podemos definir a sexualidade numa dimensão mais ampla, de forma biopsicossocial e espiritual, onde em sua dimensão biológica, esses fatores controlam amplamente o desenvolvimento sexual desde a concepção até o nascimento, bem como a capacidade reprodutiva. Esse aspecto também coordena o desejo e funcionamento sexuais e indiretamente, a nossa satisfação sexual e alguns outros fatores da resposta sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Relacionando a palavra sexo também à dimensão biológica, percebemos que na vida cotidiana, esse termo é utilizado muitas vezes com referência ao sexo biológico (masculino e feminino) ou ainda com referência a atividades físicas que envolvem os órgãos genitais (fazer sexo). Assim, podemos correlacionar as diferenças entre “fazer amor” e “fazer sexo”, nessa última, numa conotação ligada apenas ao aspecto biológico da sexualidade, num sentido banalizado socialmente, onde as relações afetivas têm sido deixadas de lado, principalmente entre os jovens. Fazer amor soa mais íntimo e mais descaracterizado dessa visão apenas biológica e leva-se a pensar numa dimensão de afeto e de alma. (JUNG.2019, &amp; 231) “Faz parte do amor a profundidade e&nbsp;fidelidade do sentimento (&#8230;) o verdadeiro amor sempre pressupõe um vínculo duradouro e responsável”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Numa dimensão psicossocial da sexualidade, onde se inclui os fatores psicológicos, como emoções, pensamentos e personalidade, combinados a elementos sociais, como por exemplo, o modo como as pessoas interagem. Nesse aspecto podemos compreender vários distúrbios sexuais, como também a evolução sexual humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;(Masters &amp; Jonhson, 1982, p.12) “Desde a infância, a identidade sexual do indivíduo (percepção individual de ser homem ou mulher) é moldada primordialmente por forças psicossociais (&#8230;) baseiam-se principalmente naquilo que nossos pais, companheiros e professores nos dizem ou demonstram sobre os significados ou finalidades do sexo. Nossa sexualidade é também social, na medida em que é regulada pela sociedade através de leis, tabus e pressões familiares e grupais que tentam persuadir-nos a obedecer a determinadas normas de comportamento sexual”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Normalmente, identidade e papel sexual estão afinados aos estereótipos culturais dos sexos considerando fundamentalmente as diferenças genitais masculina e feminina. Mas é importante saber que existem mais do que homens e mulheres. Existem outros tipos de identidade e esses papéis sexuais ou sociais, tendem a se transformar de acordo com o “espírito da época”, como diz Jung. Hoje, por exemplo, em se falando de papéis sexuais, vemos muitas mulheres com profissões que antes eram apenas de homens e o contrário também é verdadeiro, vemos muitos homens com profissões que antes eram exclusivamente femininas e está tudo certo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A dimensão comportamental permite-nos não somente verificar o que as pessoas fazem, mas como o fazem e porque o fazem. Nesse sentido, é importante que evitemos julgar o comportamento sexual de outras pessoas a partir dos nossos próprios valores e experiências, muitas vezes baseado no que é “normal” ou “anormal”. O que é normal para mim, muitas vezes não o é para o outro, pois nossa objetividade é tolhida por nossos próprios valores e experiências.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa dimensão também definimos a orientação sexual, antes classificada por “opção sexual” e hoje, classificada por Ribeiro (1993), como “identidade afetiva sexual”, visto que ninguém “opta” por ter desejo sexual por essa ou aquela pessoa. Identidade afetivo sexual é a forma como o indivíduo se sente como homem ou como mulher, relacionado ao desejo sexual, numa perspectiva afetiva e erótica. É aqui onde a pessoa indica por quais sexos ou gêneros se sente atraída e se define por heterossexual, quando se atrai pelo sexo oposto, homossexual, quando a atração é por indivíduo do mesmo sexo e bissexual, quando essa atração se dá por ambos os sexos. Importante lembrar que outras definições existem, todavia, ficaremos aqui apenas com essas, por uma questão didática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva clínica, vemos que, embora o sexo seja uma função natural, muitos tipos de obstáculos podem diminuir o prazer ou a espontaneidade de nossas atividades sexuais. Problemas físicos como doenças, lesões ou o uso de drogas podem afetar o padrão de resposta sexual ou desequilibrá-lo totalmente. Sentimentos como ansiedade, culpa, vergonha ou depressão e conflitos em nossas relações interpessoais também são capazes de coibir nossa sexualidade. A perspectiva clínica examina as soluções para esses e outros problemas que impedem que se viva o aspecto saudável e satisfatório do sexo. (MASTERS &amp; JOHNSON, 1982, p.13)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sociedade contemporânea, a ênfase que se da à sexualidade, principalmente com a alavanca ao erotismo, é apenas o culto ao corpo e ao consumismo. Pouco se aborda a importância emocional do contato humano. Há claramente, a vigência de estereótipos sexuais repressivos e de seus preconceitos e tabus. O corpo de cada um, local em que o prazer pode ser mais intenso e gratificante, é o que mais sofre com os condicionamentos sociais, gerando doenças e disfunções.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cavalcanti &amp; Cavalcanti menciona que o estudo dos problemas sexuais é algo relativamente novo e ainda não existe no Brasil, nenhuma disciplina específica nem nos cursos de medicina, muito menos nos cursos de psicologia, que trate especificamente das questões sexuais e as referências bibliográficas são bem limitadas ligadas ao tema. Jung em sua obra, também não aprofundou, porém, mesmo sendo um homem do seu próprio tempo, com todas as limitações sociais da época não fugiu à discussão, apesar de deixá-la incipiente. Assim mesmo, diante da precariedade, conseguiu nos trazer em sua obra, uma visão completamente despretensiosa e sem preconceitos. Esse fato, todavia, não deve servir de pretexto para que profissionais médicos e psicólogos neguem efetiva ajuda às pessoas dificuldades sexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Compreender a sexualidade do outro, passa também pela compreensão e aceitação da sexualidade do terapeuta. Muitos preferem não trabalhar essa questão com seus pacientes/clientes ou se o fazem, o fazem de forma superficial, ou por desconhecimento da matéria ou ainda por dificuldades com a própria sexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Trabalhar com transtornos de natureza sexual é um desafio para qualquer terapeuta, porque a dor da não realização sexual do paciente torna-se também a dor do analista, no sentido de que muitas vezes, o mesmo não consegue transpor seus limites na tentativa da cura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Jung, o terapeuta vivencia junto com seu paciente, um processo evolutivo individual, todavia, ele necessita também se colocar nesse espaço como aprendiz e não negar a dificuldade com o tema. Ora, Jung fala que o analista só consegue conduzir o analisando, até onde ele mesmo, o analista, foi conduzido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Embora eu tenha sido o primeiro a levantar a exigência de análise para o próprio analista, é a Freud que devemos principalmente a inestimável descoberta de que os analistas também têm complexos, e, portanto, um ou mais pontos cegos, que atuam como outros tantos preconceitos. O psicoterapeuta aprendeu isso com os casos em que não conseguia mais interpretar e conduzir o paciente do alto de sua suficiência ou do alto de sua cátedra, abstraindo sua própria personalidade, mas percebia que sua maneira ou atitude particular estavam impedindo a cura do paciente. (JUNG, 2019, p. 18)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como postulam Freud e Jung em relação aos complexos dos analistas e, sabendo-se que toda doença é um complexo, entende-se que essa dificuldade do analista em tratar da natureza desse problema com seu paciente, pode ser a mesma de tratar-se, de entregar-se a essa exigência terapêutica. No entanto, isso torna-se extremamente necessário, caso o mesmo, queira ter a certeza de estar exercendo a influência justa sobre os seus pacientes, além de ser um compromisso ético com si mesmo e com os demais envolvidos. (JUNG, 2019, p.87) “Você tem que ser a pessoa com a qual você quer influir sobre o seu paciente. A palavra, a mera palavra, sempre foi considerada vã”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como diz (JUNG 2019, p. 112, &amp; 212) “Sem considerar o fato das doenças venéreas, a ampla discussão da questão sexual trouxe à superfície da consciência social a extraordinária importância da sexualidade em todas as suas ramificações psíquicas. Grande parte desse trabalho foi feito pela pesquisa psicanalítica bastante divulgada nesses últimos 25 anos. Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este artigo é o primeiro de uma série que pretendo escrever. Em breve seguiremos com o tema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Ivanilde Ferreira Alves</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro Analista em formação pelo IJEP. Brasília</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro didata Ercilia Simone Dalvio Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph">REFERÊNCIAS</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAVALCANTI &amp; CAVALCANTI. Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. Ed. Payâ Eirele. Ano 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A Prática da Psicoterapia. Ed. Vozes Ano 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Civilização em Transição Ed. Vozes Ano 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph">MASTERS &amp; JOHNSON. O Relacionamento Amoroso. Ed. Nova Fronteira. Ano 1982.</p>



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<iframe title="Terapêutica e Sexualidade - parte 1" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/ov1vyGEStY0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<h4 class="wp-block-heading" id="h-maria-ivanilde-ferreira-03-08-2021"><strong><em>MARIA IVANILDE FERREIRA &#8211; 03/08/2021</em></strong></h4>



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		<title>Os complexos e o distúrbio sexual da ejaculação precoce: a contribuição da psicologia junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/os-complexos-e-o-disturbio-sexual-da-ejaculacao-precoce-a-contribuicao-da-psicologia-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Dec 2020 14:34:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[ejaculação precoce]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A terapia sexual normalmente segue as bases da terapia cognitivo comportamental, medicação, etc, aqui será tratada a ejaculação precoce. Após a terapia os sintomas podem desaparecer mas passado um tempo costumam reaparecer. Sendo assim é importante agregar a terapia junguiana para resignificar o complexo causador da ejaculação precoce para que não haja recidivas ou sintomas em outra localização.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Pouco se fala sobre Sexualidade Humana, principalmente quando se trata da sexualidade do homem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Questões sociais e culturais caracterizam o sexo masculino como sexo forte. Em nossa sociedade patriarcal o homem tem que ser forte, provedor, não chorar, fragilizar-se ou mesmo adoecer. Claro, esse padrão vem sendo desconstruído, porém, ainda temos dificuldades em encaminhar homens ao serviço de saúde para tratamento de suas enfermidades sejam elas físicas, mentais e/ou sexuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tratando-se de dificuldades sexuais, principalmente masculinas, sabe-se que o estado tem limitações nesse trabalho, principalmente no que concerne ao número de profissionais capacitados para esse fim. Assim, inúmeras disfunções sexuais deixam de ser diagnosticadas e tratadas muitas vezes, por dificuldade interna dos profissionais em lidar com assuntos relacionados à sexualidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No ano de 2000, uma pesquisa da Fiocruz sobre o perfil sexual da população brasileira, revelou que 15,8% dos homens tinham distúrbio de ejaculação precoce. Cumpre ressaltar que, dos 2835 indivíduos analisados, 47% eram do gênero masculino. Isso revela o enorme sofrimento psíquico dessa população e vem ganhando um grau progressivo, ao examinar a história natural da ejaculação precoce em nossa civilização, segundo Cavalcanti &amp; Cavalcanti.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nas civilizações orientais, o prazer compartilhado sempre foi uma preocupação comum. Os árabes, de acordo com afirmações do Xeique Nefzaui em O Jardim das Delícias, o homem louvável é aquele que “sabe controlar a emissão, não sendo rápido na descarga”. Os taoístas chineses sempre foram mestres em técnicas de contenção ejaculatória. O que dizer então dos hinduístas, no sexo tântrico que não preconiza alcançar o orgasmo e sim o prazer supremo e prolongado, onde o homem tem uma grande descarga de energia ao alcançar o orgasmo e a mulher ao ter vários orgasmos, nutre e recarrega a energia do seu parceiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Kaplan define o ejaculador precoce como aquele indivíduo incapaz de manter o controle voluntário sobre o seu reflexo ejaculatório. Ela valoriza o autocontrole do indivíduo. Masters &amp; Johnson, caracterizam o ejaculador, como aquele incapaz de retardar a ejaculação por tempo suficiente para que sua parceira sem disfunção, atinja o orgasmo em pelo menos 50% dos casos. Assim, pode-se afirmar que o mesmo indivíduo pode ser ejaculador precoce para uma mulher e não o ser para outra. Já a Academia Internacional de Sexologia Médica (AISM) define ejaculação precoce como “condição persistente ou recorrente em que o homem não pode perceber e/ou controlar as sensações proprioceptivas que precedem o reflexo ejaculatório, produzindo mal estar pessoal e/ou em relação à parceira”. Existem alguns critérios médicos para essa definição e a etiologia de cada caso, razão pela qual faz-se necessário um diagnóstico inicial realizado pelo médico urologista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir da revolução sexual iniciada na década de 1960 onde as mulheres iniciaram os movimentos de equidade de gênero, advento da pílula anticoncepcional, a descoberta do prazer feminino, quando o orgasmo começou a ser preconizado nas relações sexuais pelas mulheres, tornou-se evidente a inadequação sexual do casal. Ao homem que tinha todo o poder sob a mulher na cama, começou a ser cobrado uma maior continência ejaculatória, um esforço e um tempo de ereção suficiente para que a mulher também alcançasse o orgasmo. Tornou-se também obrigatório um conhecimento maior da anatomia e fisiologia dos genitais masculinos e femininos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Cavalcanti &amp; Cavalcanti em Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais (2020), “estabeleceu-se uma verdadeira tirania do orgasmo e o homem passou a introjetar uma responsabilidade que, a rigor, nem sempre lhe deveria caber. Assim, muitos indivíduos foram e ainda são considerados ejaculadores precoces, quando, na verdade, suas parceiras são anorgásmicas ou necessitam de uma fase de excitação demasiado longa”. Ficou assim explícita a inadequação sexual e a ejaculação precoce passou a ser um fato disfuncional causador de enorme sofrimento psicológico, passível de tratamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como diz Carl Gustav Jung em Civilização em Transição (2019 OC, pág 112, parágrafo 212) “Sem considerar o fato das doenças venéreas, a ampla discussão da questão sexual trouxe à superfície da consciência social a extraordinária importância da sexualidade em todas as suas ramificações psíquicas. Grande parte desse trabalho foi feito pela pesquisa psicanalítica bastante divulgada nesses últimos 25 anos. Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece”. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Terapia Sexual é realizada com abordagem cognitivo comportamental, de forma breve, enfocando os sintomas. O cliente/paciente na maioria das vezes, obtém melhoras do quadro sintomático, todavia, retorna à clínica pouco tempo depois com a mesma dificuldade, o que nos leva a acreditar que sem trabalhar os complexos relacionados ao caso, não teremos sucesso nesse trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Complexo é um agrupamento de representações mentais, mantidas juntas por emoções , que se organizam a partir de experiências emocionais significativas do indivíduo, tendo como núcleo um arquétipo. Eles fazem parte do funcionamento da psique. O que determina a patologia ou a criatividade do complexo é seu grau de autonomia. “Só se consegue ajudar o indivíduo a tirar a exuberância de um complexo, dando a ele a possibilidade de interagir com ele, de se aprofundar nele, de se entregar a ele. É um processo. Não somos nós que temos o complexo, o complexo é que nos tem”, segundo W. Magaldi.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, de acordo com Jung em A Natureza da Psique, (volume 8 das OC, página 47, parágrafo 208) “Através de semelhante desenvolvimento, o complexo revela sua força original que excede às vezes até mesmo o poder do complexo do eu. Somente então é que se compreende que o eu tem toda a razão de praticar a magia cautelosa dos nomes do complexo, pois é de todo evidente que aquilo que o meu eu receia é algo que ameaça sinistramente controlar minha vida. Entre as pessoas que passam geralmente por normais, há um skeleton in the copyboard (um esqueleto dentro do armário) cuja existência não se deve mencionar em sua presença, sob pena de morte, tão grande é o medo que este fantasma, sempre á espreita, inspira-nos.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung, toda doença é um complexo e, em vista disso, qualquer terapia em que não se enfoque esse tema, não tem resultado satisfatório. Torna-se necessário, ressignificar esses complexos&nbsp;mais importantes para uma boa convivência sexual, mais especificamente, aqueles que contribuem para o distúrbio da ejaculação precoce, como: o complexo materno, o complexo do pênis pequeno, o complexo de inferioridade, o complexo religioso (Imago Dei)&#8230;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem trabalhar esses complexos, seria possível auxiliar de outras formas utilizando-se outras técnicas, como: a terapia medicamentosa, a terapia cognitivo comportamental (TCC), porém, tais complexos poderiam ser somatizados de uma outra maneira, não menos danosa, posteriormente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Independente de sua origem, o transtorno da ejaculação precoce, pode desencadear uma série de outros danos, pois além da ansiedade, o indivíduo pode adquirir por frustração repetida, um sentimento de vergonha e de menos valia, por não conseguir satisfazer sexualmente a parceira e por não se adequar socialmente aos padrões exigidos do “macho”. Esse sentimento de desqualificação pode generalizar para outros aspectos da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Importante se faz trabalhar também outros aspectos da sexualidade, como a auto estima, a auto imagem com fortalecimento da persona, a exploração do próprio corpo, a masturbação mútua, a vivência de fantasias sexuais, desvinculando a sexualidade apenas ao aspecto biológico e ao binômio pênis x vagina. A sexualidade é muito mais ampla e atinge todo um domínio biopsicossocial e espiritual. Ampliando esse conceito à luz da psicologia junguiana, podemos obter essa transformação e cura, no momento em que esse indivíduo interiorizar essa dor, em busca do Self e do sagrado. Essa conexão com o sagrado, que é individual é que traz a cura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Considero um desacerto falarmos nos dias de hoje da problemática sexual sem vinculá-la ao amor. As duas questões nunca deveriam ser separadas, pois se existe algo com problemática sexual esta só pode ser resolvida pelo amor. Qualquer outra solução seria um substituto prejudicial. A sexualidade simplesmente experimentada como sexualidade é animalesca. Mas como expressão do amor é santificada. Por isso não perguntamos o que alguém faz, mas como o faz. Se o faz por amor e no espírito do amor, então serve a um Deus; e o que quer que faça não cabe a nós julgá-lo, pois está enobrecido”. Jung em Civilização em Transição ( vol 10/3 OC, pág 123, parágrafo 234).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O cerne da Psicologia Junguiana é o Sagrado. É o ego render-se ao self, render-se a imagem de Deus, pois todas as coisas estão em Deus. O self manda a doença e o self cura a doença. Contra o self não se luta. Entrega-se!!! Esse é o segredo da cura.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Ivanilde F. Alves</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Distrito Federal</p>



<p class="wp-block-paragraph">REFERÊNCIAS:</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Civilização em Transição. 2019 Editora Vozes</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A Natureza da Psique. 2019 Editora Vozes</p>



<p class="wp-block-paragraph">MASTERS , William H., JOHNSON, E. Virgínia. O Relacionamento Amoroso. Editora Nova Fronteira S/A. Rio de Janeiro-Rj. 1982</p>



<p class="wp-block-paragraph">CAVALCANTI, Ricardo. , CAVALCANTI, Mabel. Tratamento Clínico das Inadequações Sexuais. Quinta Edição. Editora Payá. 2020. São Paulo- SP</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>MARIA IVANILDE FERREIRA &#8211; 23/12/2020</em></strong></h4>
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