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	<title>Arquivos sociedade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos sociedade - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Princípio da Colaboração e a Ética Amorosa</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-principio-da-colaboracao-e-a-etica-amorosa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Carolina Diniz Bastos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Feb 2026 19:20:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[amorosidade]]></category>
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		<category><![CDATA[projeção]]></category>
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		<category><![CDATA[relações]]></category>
		<category><![CDATA[teoria junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo propõe uma aproximação entre o processo analítico e a construção de uma ética amorosa por meio do confronto com a sombra individual. A partir dos textos de Jung, hooks e Neumann, conclui-se que o envolvimento do indivíduo em seu processo de autoconhecimento favorece uma atitude de alteridade, promovendo uma prática relacional mais amorosa e justa.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-principio-da-colaboracao-e-a-etica-amorosa/">O Princípio da Colaboração e a Ética Amorosa</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo propõe uma aproximação entre o processo analítico e a construção de uma ética amorosa por meio do confronto com a sombra individual. A partir dos textos de Jung, hooks e Neumann, conclui-se que o envolvimento do indivíduo em seu processo de autoconhecimento favorece uma atitude de alteridade, promovendo uma prática relacional mais amorosa e justa.</p>



<p style="font-size:19px">A busca por uma sociedade capaz de acolher a vida individual em harmonia com a coletividade atravessa a história da filosofia, da psicologia e da literatura. Carl Gustav Jung (1875–1961) e bell hooks (1952–2021), apesar de trajetórias históricas e intelectuais muito distintas, convergem ao propor que as dinâmicas sociais não podem ser reduzidas à racionalidade ou à normatividade externa. Ambos defendem que uma vida em comunidade exige um processo de transformação, o primeiro a partir do confronto com o inconsciente, de uma transformação que parte do indivíduo para o coletivo, e a segunda pela decisão consciente de amar como prática política e relacional.</p>



<p style="font-size:19px">Em seu memorando à UNESCO de 1948 (JUNG, 2012, § 1.391), Jung apontou que a mudança das atitudes humanas não poderiam vir apenas de fatores intelectuais ou normativos, mas de um processo dialético no qual se integram razão, sentimento e experiência relacional. O processo em questão é o que conhecemos como <strong>análise</strong>, concebida como prática colaborativa: analista e analisando se expõem juntos a conteúdos inconscientes e a partir de sua ampliação reconhecem tanto as potencialidades criativas quanto as fragilidades e aspectos sombrios da psique. Em outras palavras, a mudança de atitude parte da compreensão da existência do aspecto inconsciente da psique (e suas instâncias: pessoal e coletiva), e da colaboração entre indivíduos no <em>setting terapêutico</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-ambito-do-inconsciente-pessoal-se-da-dois-fenomenos-psiquicos-relevantes-para-a-discussao-a-sombra-e-os-complexos" style="font-size:19px">No âmbito do inconsciente pessoal se dá dois fenômenos psíquicos relevantes para a discussão; a sombra e os complexos.</h2>



<p style="font-size:19px">Em primeiro lugar, a <strong>sombra</strong> é caracterizada como as partes de uma personalidade que são rejeitadas pelo complexo do ego (eu) com o intuito de se adaptar socialmente. Deste modo, a sombra não necessariamente é definida como a “personificação” das partes negativas de um indivíduo, mas sim como um acúmulo de características que não são favoráveis à consolidação do eu enquanto complexo regente da consciência. No contexto dos sistemas éticos até então concebidos, ou seja, determinados exclusivamente pelo ponto de vista da consciência, aspectos da personalidade em desacordo com o <em>status quo</em> não são permitidos de existir à luz do dia, considerando ainda sua repressão uma prática esperada.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A velha ética, falando psicologicamente, é uma “ética&nbsp; parcial”. Ela é uma ética da atitude consciente, deixando de considerar e avaliar as tendências e efeitos no inconsciente. [&#8230;] A velha ética exige supressão e sacrifício e, em princípio, permite também a repressão, isto é, ela não olha o estado da psique, a personalidade total, mas contenta-se com a atitude ética da consciência como um sistema parcial da personalidade. Isso favorece coletivamente uma forma ilusória de ética, que se refere unicamente ao agir do ego e da consciência. Esse ilusionismo é, porém, perigoso, porque, na vida em comum do grupo e do coletivo, leva a fenômenos negativos de compensação, nos quais o lado reprimido e recalcado da sombra irrompe no seio da vida comunitária, na forma da psicologia do bode expiatório, e, na vida em comum internacional, nas explosões epidêmicas de reações ativistas de massas, as guerras. (NEUMANN, 1991, p. 54)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">O segundo fenômeno psíquico do inconsciente pessoal, determinado como&nbsp;complexos, é um emaranhado de conteúdos inconscientes com grande carga afetiva que não são incorporados ao consciente por debilitar a autonomia do eu, prejudicando radicalmente sua vontade e atuação. Sendo assim, podemos compreender os complexos como entidades que apresentam uma característica coletiva, uma vez que são desenvolvidos a partir de temas universais, como o complexo materno, paterno, de inferioridade, de poder, entre outros. Sua formação se dá em volta deste núcleo arquetípico, ou seja, derivado do inconsciente coletivo, e dos conteúdos do inconsciente pessoal que se aproximam a essas características impessoais e as orbitam.</p>



<p style="font-size:19px">O confronto com o inconsciente, em especial com as duas instâncias citadas, longe de ser um percurso simples, é o caminho para a <strong>ampliação da consciência</strong>. Essa jornada de autoconhecimento implica reconhecer as próprias limitações, integrar polaridades internas e assumir responsabilidade por escolhas e renúncias que ultrapassam o nível individual, tocando o coletivo. Nesse sentido, o processo analítico leva a atitudes éticas que se iniciam no <strong>reconhecimento da própria sombra</strong> e se expandem em direção ao <strong>outro</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A neurose está intimamente entrelaçada com o problema do próprio tempo e representa uma tentativa frustrada do indivíduo de resolver dentro de si um problema universal. A neurose é uma cisão interna. Na maioria das pessoas, essa cisão representa uma ruptura entre o consciente, que desejaria manter-se fiel a seu ideal moral, e o inconsciente, que é atraído por seu ideal imoral (no sentido atual da palavra) e que a consciência tudo faz para desmentir. (JUNG, 2014a, p. 31 § 18)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-durante-o-processo-de-analise-o-confronto-com-a-sombra-e-o-primeiro-grande-encontro-com-o-inconsciente" style="font-size:19px">Durante o processo de análise, o confronto com a sombra é o primeiro grande encontro com o inconsciente.</h2>



<p style="font-size:19px">Nesta situação é muito desafiador para o eu a compreensão de que suas afetações para com o ambiente externo muitas vezes se enquadram no que conhecemos como projeção. A projeção surge a partir de um alto grau de dissociação com uma característica inconsciente do indivíduo. Para conseguir reconhecê-la a pessoa precisa &#8211; inconscientemente &#8211; materializar seus aspectos no mundo exterior através da projeção, seja em outros indivíduos, seja em objetos inanimados. A partir deste encontro com algo que considera “estranho” à sua natureza consciente e sua disposição social, inicia-se uma relação distorcida com este objeto, ou seja, uma paixão com características negativas ou positivas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-fundamental-uma-reflexao-critica-sobre-a-projecao-uma-vez-que-os-afetos-mobilizados-por-estes-conteudos-sao-exatamente-promovedores-de-conflitos-com-o-outro-em-pequena-e-grande-escala" style="font-size:19px"><strong>É fundamental uma reflexão crítica sobre a projeção, uma vez que os afetos mobilizados por estes conteúdos são exatamente promovedores de conflitos com o outro em pequena e grande escala</strong>.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>Os conteúdos inconscientes são de natureza pessoal quando podemos reconhecer em nosso passado seus efeitos, sua manifestação parcial, ou ainda sua origem específica. São partes integrantes da personalidade, pertencem a seu inventário e sua perda produziria na consciência, de um modo ou de outro, uma inferioridade. A natureza desta inferioridade não seria psicológica como no caso de uma mutilação orgânica ou de um defeito de nascença, mas o de uma omissão que geraria um ressentimento moral. O sentimento de uma inferioridade moral indica sempre que o elemento ausente é algo que não deveria faltar em relação ao sentimento ou, em outras palavras, representa algo que deveria ser conscientizado se nos déssemos a esse trabalho. O sentimento de inferioridade moral não provém de uma colisão com a lei moral geralmente aceita e de certo modo arbitrária, mas de um conflito com o próprio si-mesmo (Selbst) que, por razões de equilíbrio psíquico, exige que o déficit seja compensado. Sempre que se manifesta um sentimento de inferioridade moral, aparece a necessidade de assimilar uma parte inconsciente e também a possibilidade de fazê-lo. [&#8230;] Poderia acrescentar que esta “ampliação” se refere, em primeiro lugar, à consciência moral, ao autoconhecimento, pois os conteúdos do inconsciente liberados e conscientizados pela análise são em geral desagradáveis e por isso mesmo foram reprimidos. (JUNG, 2015a, p. 24&nbsp; §218)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-principio-da-colaboracao-surge-aqui-como-nucleo-etico-a-analise-e-o-dialogo-entre-duas-subjetividades-que-no-encontro-transformam-se-mutuamente" style="font-size:19px">O princípio da colaboração surge aqui como núcleo ético: a análise é o diálogo entre duas subjetividades que, no encontro, transformam-se mutuamente.</h2>



<p style="font-size:19px">Essa experiência de escuta e confronto possibilita um deslocamento de uma atitude egoísta &#8211; de inflação e unilateralidade &#8211; em direção à alteridade, pois o reconhecimento de aspectos inconscientes abre espaço para acolher aquilo que é estranho, tanto em si quanto no outro.</p>



<p style="font-size:19px">bell hooks, em <em>Tudo sobre amor </em>(2020), também propõe uma ética que não se restringe à normatividade ou ao dever imposto de fora. Para ela, o amor é uma prática consciente, que envolve cuidado, respeito, responsabilidade e compromisso. Amar é escolher a verdade e a justiça como princípios das relações interpessoais e sociais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-autora-denuncia-a-naturalizacao-da-dominacao-nas-culturas-patriarcais-e-recorda-em-dialogo-com-jung-que-onde-o-desejo-de-poder-e-imperioso-o-amor-estara-ausente" style="font-size:19px">A autora denuncia a naturalização da dominação nas culturas patriarcais e recorda, em diálogo com Jung, que onde o desejo de poder é imperioso, o amor estará ausente.</h2>



<p style="font-size:19px">Não há amor em relações baseadas na opressão. O amor, enquanto prática ética, rompe a lógica do poder e recoloca no centro da vida comunitária a colaboração, a solidariedade e o cuidado mútuo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:20px"><em>A dominação não pode existir em qualquer situação social em que prevaleça uma ética amorosa. É importante lembrar a percepção de Jung, de que, se o desejo de poder predomina, o amor estará ausente. Quando o amor está presente, o desejo de dominar e exercer poder não pode ser a ordem do dia. [&#8230;] A preocupação em relação ao bem coletivo de nosso país, de nossa cidade ou vizinhança, baseada em valores amorosos, faz com que todos busquemos nutrir e proteger esse bem. Se todas as políticas públicas fossem criadas no espírito do amor, não teríamos que nos preocupar com o desemprego, as pessoas em situação de rua, o fracasso de escolas em ensinar às crianças ou os vícios. (hooks, 2020, p. 117)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">hooks também descreve em seu texto sua própria experiência com processos de terapia e seu percurso de autoconhecimento como fundamentais para sustentar uma ética amorosa. Reconhecer a própria vulnerabilidade, confrontar a dor e a sombra, abrir-se para o inconsciente: todos esses movimentos, que se apresentam como árduo desafio para o ego, favorecem a vivência do amor de forma plena e transformadora.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-aproximacao-entre-jung-e-hooks-permite-vislumbrar-uma-concepcao-de-etica-enraizada-no-autoconhecimento-e-na-relacao-com-o-outro" style="font-size:19px">A aproximação entre Jung e hooks permite vislumbrar uma concepção de ética enraizada no autoconhecimento e na relação com o outro.</h2>



<p style="font-size:19px">O confronto com o inconsciente, com aquilo que é estranho a nós mesmos, torna-se condição para ampliar a consciência e, assim, reconhecer a humanidade do outro em suas dificuldades e resistências.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>A assunção da sombra é um amadurecimento rumo ao profundo da própria origem, e, com a perda da ilusão flutuante de um ideal do ego, logra-se novo aprofundamento, enraizamento e firmeza. (NEUMANN, 1991, p. 75)</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">A alteridade parte justamente da aceitação das próprias contradições, favorecendo a capacidade de convivência com as contradições alheias. Assim, a ética deixa de ser uma obediência cega à normas externas, mas uma escolha consciente de integrar aspectos conflituosos e de reconhecer o processo de autoconhecimento do outro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-e-hooks-apontam-para-um-horizonte-comum-sem-autoconhecimento-nao-ha-etica-e-sem-amor-nao-ha-convivencia-justa" style="font-size:19px">Jung e hooks apontam para um horizonte comum; sem autoconhecimento não há ética, e sem amor não há convivência justa.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>O princípio da colaboração, presente tanto na análise junguiana quanto na ética amorosa, constitui o eixo de uma vida que busca sentido</strong>. A ética, neste contexto, nasce do diálogo entre consciente e inconsciente, e se realiza na prática do cuidado e do amor como resposta ao outro que me é estranho.</p>



<p style="font-size:19px">A ética precisa ser compreendida como processo interno que parte do reconhecimento das próprias polaridades e contradições e que se concretiza na atitude consciente de se confrontar com aspectos inconscientes da própria psique. A realização plena da vida não se encontra na supremacia da razão, mas na abertura ao simbólico, ao afetivo e ao relacional, dimensões que Jung e hooks recolocam no centro do debate ético e da transformação social.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Carolina Diniz Bastos &#8211; Analista em Formação</strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/balestrini/">José Luiz Balestrini &#8211; Analista Didata</a></strong></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px"><strong>Referências:</strong></h1>



<p>HOOKS, bell. Tudo sobre amor: novas perspectivas. Tradução de Ana Ban. 1. ed. São Paulo: Elefante, 2020.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A vida simbólica.</em> Escritos diversos. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p>______ <em>Tipos psicológicos</em>. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013a.</p>



<p>______ <em>A energia psíquica</em>. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2013b.</p>



<p>______ <em>A natureza da psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013c.</p>



<p>______<em>Psicologia do inconsciente</em>. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2014a.</p>



<p>______<em>O eu e o inconsciente</em>. 27. ed. Petrópolis: Vozes, 2015a.</p>



<p>NEUMANN, Erich. Psicologia profunda e nova ética. São Paulo: Edições Paulinas, 1991.</p>



<p><strong>Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa &#8211; IJEP</strong></p>



<p><strong>Matrículas abertas: <em>Psicologia Junguiana &#8211; Psicossomática &#8211; Arteterapia</em></strong>:</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><a href="http://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-819x1024.png" alt="" class="wp-image-11931" style="width:415px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-819x1024.png 819w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-240x300.png 240w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-768x960.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-150x188.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1-450x563.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/02/jung-2-1.png 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" /></a></figure>



<div class="wp-block-yoast-seo-ai-summarize yoast-ai-summarize"><h2>Resumo do Blog:</h2>
<ul class="wp-block-list yoast-ai-summarize-list">
<li>O artigo analisa a conexão entre o autoconhecimento e a construção de uma ética amorosa através do confronto com a sombra individual.</li>



<li>Baseando-se em Jung e hooks, conclui-se que a transformação pessoal promove relações mais justas e amorosas.</li>



<li>O processo analítico, ao integrar inconsciente e consciente, permite o reconhecimento da própria sombra e favorece a alteridade.</li>



<li>A ética proposta não é apenas uma obediência a normas, mas uma escolha consciente que envolve responsabilidade e cuidado.</li>



<li>Sem autoconhecimento não existe ética, e sem amor não há convivência justa, enfatizando o papel da colaboração em relações saudáveis.</li>
</ul>
</div>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Epidemia psíquica e sombra coletiva: uma leitura junguiana da violência policial no RJ</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/epidemia-psiquica-e-sombra-coletiva-violencia-policial-no-rio-de-janeiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Pessanha Lima]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 04 Dec 2025 14:33:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[epidemia psíquica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência policial]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=11544</guid>

					<description><![CDATA[<p>Por que cenas de morte e violência são recebidas com alívio e não com horror pela população? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça? Neste artigo, eu analiso o recente episódio da violência policial no Rio de Janeiro, que tirou a vida de mais de 120 pessoas, pela lente da psicologia analítica. O objetivo é entender o que está por trás da naturalização da violência no Brasil — e o que podemos fazer para romper esse ciclo.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Por que cenas de morte e violência são recebidas com alívio e não com horror pela população? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça? Neste artigo, eu analiso o recente episódio da violência policial no Rio de Janeiro, que tirou a vida de mais de 120 pessoas, pela lente da psicologia analítica. O objetivo é entender o que está por trás da naturalização da violência no Brasil — e o que podemos fazer para romper esse ciclo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dia-25-de-outubro-de-2025-rio-de-janeiro-complexo-da-penha-e-do-alemao-duas-comunidades-altamente-populosas-na-cidade-e-dominadas-por-uma-violenta-faccao-criminosa" style="font-size:19px">Dia 25 de outubro de 2025, Rio de Janeiro, Complexo da Penha e do Alemão &#8211; duas comunidades altamente populosas na cidade e dominadas por uma violenta facção criminosa.</h2>



<p style="font-size:19px">Neste dia, uma megaoperação policial deixou mais de uma centena de mortos. Na manhã seguinte, os moradores da comunidade, entre homens, mulheres e até mesmo crianças entraram na mata e resgataram mais de 60 pessoas mortas. A cena dos corpos enfileirados no chão, cobertos de sangue e com mães e mulheres chorando abraçadas a eles não sai da minha cabeça. Sem dúvida nenhuma, foi uma das cenas mais aterrorizantes que vi em toda minha vida.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">A violenta operação policial, que resultou nessas mortes com características de execução policial, expôs novamente uma ferida simbólica da sociedade brasileira: a <strong>naturalização da violência e a aprovação popular de ações letais </strong>conduzidas pelo Estado. Segundo pesquisa AtlasIntel, divulgada pelo jornal <em>Valor Econômico</em>,<strong> 55% dos brasileiros — e 62,2% dos cariocas — afirmaram apoiar a operação</strong>.&nbsp; O dado, mais do que estatístico, é sintoma de um <strong>padrão psíquico coletivo</strong>.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Por que cenas de morte e brutalidade são recebidas com alívio</strong> <strong>e não com horror? Por que as pessoas não se sensibilizam com as imagens dos corpos resgatados por moradores e expostos em local público? O que se mobiliza no inconsciente coletivo para que a violência pareça justiça?</strong></p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-o-poder-do-inconsciente-coletivo"><a></a><strong>O poder do inconsciente coletivo</strong></h3>



<p style="font-size:19px">Para a psicologia analítica de Carl Gustav Jung os fenômenos sociais não se explicam apenas por fatores racionais ou políticos, mas também por forças simbólicas, arquetípicas e inconscientes.</p>



<p style="font-size:19px">Além de todo o repertório apreendido a partir de experiências pessoais e toda a gama de conteúdos do inconsciente que nunca tiveram energia psíquica para alcançar a consciência, há uma camada do inconsciente, mais profunda, a qual Jung chamou de <strong>inconsciente coletivo</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-inconsciente-coletivo-e-o-que-nos-faz-igual-a-toda-humanidade" style="font-size:19px">Segundo Jung, o inconsciente coletivo é o que nos faz igual a toda humanidade.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Eu optei pelo termo ‘coletivo’ pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal; isto é, contrariamente à psique pessoal ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são<em>cum grano salis</em> os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos, constituindo, portanto, um substrato psíquico comum de natureza psíquica suprapessoal que existe em cada indivíduo.</p><cite>JUNG, 2012, OC 9/1, §3</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">A existência do inconsciente coletivo nos mostra que a consciência individual não é totalmente livre, neutra ou autônoma. Pelo contrário: ela é fortemente influenciada por fatores herdados e também pelas condições do ambiente em que vivemos, ou seja, do inconsciente coletivo.</p>



<p style="font-size:19px">As estruturas que compõem o inconsciente coletivo, Jung denominou-as inicialmente de “imagens primordiais” para em seguida chamá-las de arquétipos e instintos. Para a análise do fenômeno em questão, vamos nos ater aqui apenas ao conceito de arquétipo.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Arquétipos</strong> são imagens universais que moldam a experiência humana. Existe um arquétipo para cada situação típica da vida. As repetições destas situações ficam gravadas no inconsciente e quando vivemos novamente essas situações, agimos de acordo com a memória que está gravada pelos arquétipos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica-esse-fenomeno" style="font-size:19px">Jung explica esse fenômeno:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Como fatores que influenciam o comportamento humano, os arquétipos desempenham um papel em nada desprezível. É principalmente mediante o processo de identificação que os arquétipos atuam alternadamente na personalidade total. Esta atuação se explica pelo fato de que os arquétipos provavelmente representam situações tipificadas da vida.</p><cite>JUNG, 2013,OC 8/2, §254</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Quando constelados por crises, medos ou tensões sociais, esses arquétipos assumem formas culturais específicas e podem dominar o comportamento coletivo — um processo que Jung descreveu como <strong>possessão arquetípica</strong>. Este termo é usado para descrever quando a consciência é tomada por um conteúdo inconsciente, através da sombra expressa pela voz dos complexos.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-o-complexo-cultural-da-violencia-redentora"><a></a><strong>O complexo cultural da violência redentora</strong></h3>



<p style="font-size:19px">A violência policial no Rio de Janeiro, que já é considerada um dos maiores episódios de violações de direitos humanos da história do país, e a aprovação da ação do Estado pela população pode ser compreendida como a constelação de um <strong>complexo cultural da violência redentora</strong> — um padrão emocional e simbólico que associa o uso da força à eliminação do mal. Trata-se de um complexo, alimentado por séculos de desigualdade, escravidão, autoritarismo e exclusão social. Sua narrativa central é simples: “o mal precisa ser eliminado pela força”. Nesse imaginário, o Estado armado é o herói que vence o inimigo (o bandido, o favelado, o marginal). Este tipo de complexo cultural é constelado sempre que a sociedade sente medo e impotência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-o-e-um-complexo-cultural" style="font-size:19px">Mas o que o é um <strong>complexo cultural</strong>?</h2>



<p style="font-size:19px">Os autores&nbsp; Samuel Kimbles e Thomas Singer criaram a teoria dos Complexos Culturais a partir de uma leitura contemporânea da teoria dos complexos de Jung. Segundo os autores, o complexo cultural é a forma pela qual crenças e emoções profundamente arraigadas atuam tanto na vida de um grupo quanto na psique individual, servindo como mediação entre o sujeito e sua coletividade — seja ela uma comunidade, uma nação ou uma cultura específica (apud Cambray e Carter, 2020, p. 271). Portanto, podemos dizer que os complexos culturais também atuam de forma autônoma, influenciando o inconsciente coletivo do grupo, ao mesmo tempo que é influenciado pelo indivíduo. Esses complexos são constelados pelo <strong>contágio psíquico</strong>.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Quando o afeto coletivo domina o indivíduo</strong></p>



<p style="font-size:19px">A partir deste triste e violento episódio podemos ver que foi constelado na sociedade, ou seja, emergiram do inconsciente coletivo, algumas emoções arquetípicas, tais como medo, raiva, desejo de vingança e de justiça. Estas emoções, como são coletivas, podem ser contagiosas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-explica-jung" style="font-size:19px">Como explica Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo é ativado, ninguém mais é a mesma pessoa.</p><cite>JUNG, 2013, OC 18/1, §93</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">O processo pelo qual emoções, ideias e impulsos inconscientes se espalham entre indivíduos, criando uma identificação coletiva inconsciente é chamado de <strong>contágio psíquico.</strong> Nas redes sociais, esse contágio se intensifica. O indivíduo, tomado por esse afeto coletivo, acredita estar pensando com a razão, quando na verdade está identificado com um conteúdo inconsciente. Ele passa de sujeito autônomo para mera massa de manobra política e social.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-do-pessoal-para-o-coletivo"><a></a><strong>Do pessoal para o coletivo</strong></h3>



<p style="font-size:19px">Mas qual mecanismo psíquico que conecta as pessoas ao complexo cultural? Essa identificação pode ser explicada e entendida a partir do complexo pessoal. Cada pessoa possui seus <strong>complexos</strong>, que são conteúdos inconscientes, carregados de afetos, cujos núcleos emocionais são formados por experiências de vida. De acordo com Jung, os complexos são autônomos, podendo atuar sobre a consciência e exercer influência (inconsciente) nas decisões e comportamentos dos indivíduos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, comporta-se, na esfera do consciente, como um <em>corpus alienum</em> (corpo estranho), animado de vida própria.</p><cite>JUNG, 2013, OC 8/2, § 201</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-sua-obra-jung-chega-a-dizer-que-os-complexos-se-comportam-como-personalidades-secundarias-ou-parciais-dotadas-de-vida-espiritual-autonoma-oc-11-21" style="font-size:19px">Em sua obra, Jung chega a dizer que os complexos “se comportam como personalidades secundárias ou parciais, dotadas de vida espiritual autônoma&#8221; (OC/11, §21).</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>O complexo não é bom, nem ruim, mas sua função é nos mostrar um incômodo inconsciente</strong>. Sendo assim, podemos dizer que os complexos pessoais dos indivíduos que não se sensibilizaram com as imagens das vítimas da megaoperação policial no Rio de Janeiro ressoam com o complexo cultural da violência redentora quando há afinidade afetiva no campo pessoal. Quem cresceu sob um pai autoritário ou ausente tende a admirar o Estado punitivo; quem sentiu impotência ou humilhação por sua condição social encontra na violência uma forma de compensação; e quem teme perder o controle da própria vida projeta o mal no outro, sentindo alívio quando esse outro é eliminado. Estes são apenas alguns exemplos de complexo pessoal, conectados ao complexo cultural constelado. Dessa maneira, o cultural e o pessoal se alimentam mutuamente: a sociedade oferece a narrativa e o indivíduo fornece a emoção reprimida.</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-coletiva"><a></a><strong>A sombra coletiva</strong></h3>



<p style="font-size:19px">Sob a luz da psicologia analítica junguiana, a violência aprovada pela maioria pode ser entendida com <strong>a projeção de uma sombra coletiva</strong>. Para Jung, a sombra é composta por partes reprimidas da nossa personalidade. Ele define como “a soma das propriedades ocultas e desfavoráveis das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal” (OC 7/1, §103) e completa:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará (&#8230;). Se as tendências reprimidas da sombra fossem totalmente más, não haveria qualquer problema. Mas, de um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o homem se choca contra as regras consagradas pela tradição. </p><cite>JUNG, 1978 OC 11 /1 §131 e 134</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Quando não reconhecemos esses aspectos em nós mesmos — ou seja, quando não nos tornamos conscientes de sua existência —, tendemos a negá-los. Integrar a sombra exige justamente o contrário: reconhecer e aceitar essas partes reprimidas, o que implica assumir nossas imperfeições e enfrentar nossos dilemas éticos e morais. Como esse processo é difícil e muitas vezes doloroso, preferimos projetar nos outros essas qualidades incômodas, numa tentativa inconsciente de eliminá-las de nós.</p>



<p style="font-size:19px">Assim, transferimos aos outros nossas falhas e responsabilidades, sempre prontos a justificar nossos erros com desculpas externas. Como, por exemplo, esse tipo de justificativa que é tão comum: “Por que você se atrasou? Porque o trânsito estava ruim.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tudo-aquilo-que-e-negado-com-muita-veemencia-se-manifesta-na-mesma-intensidade-e-vai-ganhando-corpo" style="font-size:19px">Tudo aquilo que é negado com muita veemência se manifesta na mesma intensidade e vai ganhando corpo.</h2>



<p style="font-size:19px">Jung (OC 7/1, §350) diz “que a sombra personifica o que o indivíduo recusa a reconhecer ou admitir e que, no entanto, sempre se impõe a ele direta ou indiretamente, tais como traços inferiores de caráter ou outras tendências incompatíveis”.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Ampliando esse conceito para o coletivo, podemos dizer que tudo aquilo que a sociedade nega em si mesma — o ódio, a revolta diante da falta de assistência digna do Estado, a submissão às regras impostas por facções criminosas e a culpa por, de algum modo, participar desse sistema injusto, seja como consumidor de drogas ou como conivente com as desigualdades sociais — é projetado sobre o outro, geralmente o mais vulnerável. O morador da favela, o jovem negro, o “bandido” passam então a encarnar o mal. O extermínio transforma-se em um ritual inconsciente de purificação simbólica — o sacrifício do bode expiatório, tema recorrente nos mitos e na história humana.<strong></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-anestesiamento-social"><strong>Anestesiamento social</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O efeito desse cruel mecanismo social é a <strong>dessensibilização</strong> — a perda da empatia. A capacidade de reconhecer e se conectar à ferida do outro é o que nos torna humanos. A exposição contínua a cenas de brutalidade cotidiana produz um anestesiamento social, um embotamento afetivo que transforma o horror em rotina e a violência em espetáculo. Jung descreve esse processo como uma <strong>regressão do ego</strong>, isto é, um retorno a formas mais primitivas de funcionamento psíquico, em que os instintos dominam a consciência. Nesse estado regressivo, o pensamento crítico e a reflexão ética cedem lugar ao desejo de punição, o prazer inconsciente na destruição do outro e a adesão emocional a narrativas violentas.</p>



<p style="font-size:19px">Jung adverte que, quando a consciência perde contato com o inconsciente simbólico, com os mitos, por exemplo, “<strong>cria-se uma consciência desenraizada, que não se orienta pelo passado, uma consciência que&nbsp; sucumbe desamparada a todas as sugestões, tornando-se suscetível praticamente a toda epidemia psíquica</strong>” (OC 9/1, §267).</p>



<p style="font-size:19px">Essa “<strong>epidemia psíquica</strong>” é o que vemos na naturalização da violência. Como já vimos anteriormente, uma espécie de contágio emocional coletivo em que o medo, a raiva e o desejo de vingança passam a dominar o campo social. Assim, a repetição das imagens de morte e de exclusão não apenas banaliza o sofrimento, mas <strong>rebaixa o nível de consciência coletiva</strong>, alimentando a sombra social. A violência que se torna hábito é, no fundo, o sinal de uma psique coletiva adoecida, incapaz de conter ou simbolizar seus impulsos destrutivos. </p>



<p style="font-size:19px">Jung via nesses fenômenos não apenas sintomas sociais, mas <strong>avisos do inconsciente coletivo</strong>: quando o humano se desumaniza, é porque a cultura perdeu o vínculo com o eixo do Self. Também chamado de si-mesmo, não é só o centro da consciência, mas também, inclui todo o inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-o-objetivo-do-nosso-desenvolvimento-psicologico-processo-de-individuacao-e-a-realizacao-do-self" style="font-size:19px">Segundo Jung, o objetivo do nosso desenvolvimento psicológico (processo de individuação) é a realização do Self.</h2>



<p style="font-size:19px">Para Jung, à medida que nossa psique vai se desenvolvendo e o si-mesmo vai emergindo do inconsciente, o indivíduo passa a se preocupar menos com sua individualidade e mais com o coletivo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contratendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo. As complicações que ocorrem neste estágio já não são conflitos de desejos egoístas, mas dificuldades que concernem à própria pessoa e aos outros. Neste estágio aparecem problemas gerais que ativaram o inconsciente coletivo; eles exigem uma compensação coletiva e não pessoal. É então que podemos constatar que o inconsciente produz conteúdos válidos, não só para o indivíduo, mas para outros: para muitos e talvez para todos.</p><cite>JUNG, OC 7/2, § 275</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-caminho-da-redencao"><strong>O caminho da redenção</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Enquanto continuarmos negando a sombra coletiva, o país seguirá repetindo seus rituais de extermínio — como se a destruição do outro pudesse curar nossas próprias feridas. Mas a violência não redime, apenas se renova. O desafio é imenso e se dá em dois aspectos inseparáveis: o <strong>coletivo</strong>, que exige coragem política e compromisso social, e o <strong>individual</strong>, que demanda autoconhecimento e transformação interior.</p>



<p style="font-size:19px">No aspecto coletivo, precisamos enfrentar o que é concreto e visível: a desigualdade que empurra vidas para a margem, o racismo cultural que naturaliza quem deve morrer, a necropolítica que discrimina e criminaliza e o medo que autoriza o Estado a matar em nosso nome. É preciso construir políticas que humanizem — que tratem segurança como direito, não como guerra; que substituam o abandono por cuidado e a vingança por justiça. Exige, acima de tudo, dar educação e oportunidades de trabalho para a população carente.</p>



<p style="font-size:19px">No aspecto individual, o trabalho é mais silencioso e talvez mais difícil: olhar para dentro, reconhecer a própria sombra, admitir o ódio, o medo e a indiferença que habitam em nós. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-nos-lembra-que" style="font-size:19px">Jung nos lembra que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do autoconhecimento, atuando consequentemente, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, vai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos.</p><cite>JUNG, OC 7/2, §275</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Só quando deixamos de projetar o mal no outro é que o ciclo da violência começa a se romper. Transformar o país começa por transformar o nosso olhar interno. A verdadeira redenção não está no extermínio, mas na <strong>consciência</strong>. Somente uma sociedade que encara a própria escuridão — e aprende a nomeá-la — pode, enfim, escolher a luz.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Epidemia psíquica e sombra coletiva uma leitura junguiana da violência policial no RJ" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/E8VFTht6aCY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ana-paula-pessanha-lima/">Ana Paula Pessanha Lima &#8211; Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p>AtlasIntel: 55% aprovam megaoperação que resultou em 121 mortes no Rio de Janeiro &#8211; Valor Econômico, 31 de outubro de 2025. Disponível em: <a href="https://valor.globo.com/politica/noticia/2025/10/31/atlasintel-55percent-aprovam-megaoperacao-que-resultou-em-121-mortes-no-rio-de-janeiro.ghtml">https://valor.globo.com/politica/noticia/2025/10/31/atlasintel-55percent-aprovam-megaoperacao-que-resultou-em-121-mortes-no-rio-de-janeiro.ghtml</a>. Acesso em 02 de novembro de 2025.</p>



<p>CAMBRAY, Joseph, CARTER, Linda (org.) Psicologia analítica – Perspectivas contemporâneas em análise junguiana. Rio de Janeiro, Editora Vozes, 2020.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A psicologia do inconsciente. Obras Completas. v 7/1. 2014.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Obras Completas. v 7/2. 2014.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Obras Completas. v 8/2. 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras Completas. v 9/1. 2014.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião. Obras Completas. v 11/1. 1978.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. A vida Simbólica. Obras Completas. v 18/1. 2013.</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Tapa de amor dói sim!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/tapa-de-amor-doi-sim/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Michella Paula Cechinel Reis]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2025 23:21:36 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[2025]]></category>
		<category><![CDATA[barba azul]]></category>
		<category><![CDATA[codependência]]></category>
		<category><![CDATA[dependência emocional]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[machismo]]></category>
		<category><![CDATA[Patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres no Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O presente artigo, escrito em duas mãos, traz reflexões sobre a violência relacionada às mulheres no contexto brasileiro. O Brasil é considerado um dos países mais inseguros para as mulheres, ou seja, a violência doméstica, abusos físicos, psíquicos e sexuais, se traduz em medos, inseguranças e traumas. Normalmente, os abusadores são pessoas conhecidas e as violências ocorrem dentro de casa, no ambiente familiar. Relações disfuncionais se refletem no corpo e na alma de todas as mulheres, numa rede inconsciente coletivamente compartilhada, e os complexos e compensações nas relações abusivas impactam a todos. Mudanças legais e sociais estão em curso, com altos e baixos nos palcos sociopolíticos, portanto, o presente artigo é mais que pertinente, é necessário para ampliarmos as discussões atualmente vigentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-e-noticiada-todos-os-dias-nas-midias-sociais-e-nos-canais-de-telecomunicacao" style="font-size:19px">A violência é noticiada todos os dias nas mídias sociais e nos canais de telecomunicação.</h2>



<p style="font-size:19px">E parte nos comove e em outra medida nos mostra nossa insensibilidade ou normalização em relação à violência. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (PNS, 2019), no Brasil, um contingente de 29,1 milhões de pessoas sofreu violência física, psicológica ou sexual em 2019; a violência atingiu 19,4% das mulheres e 17,0% dos homens. Companheiros, ex-companheiros ou parentes são os principais agressores das mulheres que sofreram violência física (52,4%), psicológica (32,0%) e violência sexual (53,3%). O domicílio é o principal local da agressão das mulheres. A violência sexual gerou consequências psicológicas (60,2%), físicas (19,4%) e sexuais (5,0%) para as vítimas. A pesquisa mostra&nbsp;que a violência atinge mais as mulheres, os jovens, as pessoas pretas ou pardas e a população de menor rendimento.</p>



<p style="font-size:19px">O espírito da época contemporânea é atravessado por recursos tecnológicos e midiáticos que evoluíram sobremaneira nos últimos 50 anos. Isso não significa que os utilizamos de maneira adequada. No Brasil (IBGE, 2021), a sensação de vitimização média a alta para situações que envolvam fotos, vídeos ou conversas divulgadas na internet contra sua vontade foi maior para o grupo etário de 25 a 39 anos. Ou seja, a violência não se restringe a presença do agressor(a) no ambiente físico, virtualmente existem riscos que precisam ser mais bem estudados para aprendermos a nos proteger, criar regulamentações e políticas públicas necessárias. Tudo é novo e ao mesmo tempo velho, pois a violência não é algo novo, mas uma construção histórica e cultural.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-historicamente-a-violencia-contra-as-mulheres-foi-respaldada-pelos-contextos-religiosos-e-patriarcais-conforme-ensina-borges-2020" style="font-size:19px">Historicamente, a violência contra as mulheres foi respaldada pelos contextos religiosos e patriarcais, conforme ensina BORGES (2020):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:16px">
<p style="font-size:18px"><em>A Idade Média foi considerada por muitos historiadores como a Idade das Trevas, uma época de muita perseguição religiosa, várias doenças e ataques entre povos, porém foi nessa época que as mulheres conquistaram acesso a grande parte das profissões e também ao direito de propriedade, porém subjugadas como podemos destacar no trecho do livro MALLEUS MALEFICARUM:</em></p>



<p style="font-size:18px"><em>[..] convém observar que houve uma falha na formação da primeira mulher, por ter sido ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela do peito, cuja curvatura é, por assim dizer, contrária à retidão do homem. E como, em virtude dessa falha, a mulher é animal imperfeito, sempre decepciona e mente (KREMER, SPRENGER 1991, pag. 116).</em></p>



<p style="font-size:18px"><em>As mulheres deste período eram muito desvalorizadas, pois a sociedade era toda centralizada na figura do homem, porém com as guerras, doenças e perseguições a expectativa de vida desse período tornou-se muito baixa. Decorrente desses fatos as mulheres tornavam-se viúvas de forma precoce, assim tinham que assumir como chefe de família. Entretanto, a participação das mulheres durante a Idade Média foi ainda mais concisa por meio de mulheres de destaque que estudaram em universidades e que participaram da vida política da época, exemplos como de Hilda de Whitby que fundou vários mosteiros e conventos pela Europa, da Duquesa da Aquitânia que lecionou e governou o feudo junto ao seu marido, e um dos maiores exemplos da história Joana D’arc.</em></p>



<p style="font-size:18px"><em>Joana D’arc é uma das mais ilustres figura da história francesa, nasceu no período da Idade Média, em uma época bastante conturbada e sem muito espaço para manifestação do pensamento feminino. Essa valente figura rompeu com os paradigmas impostos pela sociedade, vestia roupas masculinas e possuía uma forte personalidade.</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Diante dos dados expostos, fica evidente que a violência contra as mulheres é muito mais que apenas um problema cultural e localizado, mas uma inferência de que o corpo feminino é menos valioso que o masculino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-patente-que-a-mulher-vem-sendo-diminuida-enquanto-ser-humano-por-ser-taxada-de-suja-fragil-emocional-esses-dados-remontam-como-visto-acima-uma-trajetoria-de-milhares-de-anos" style="font-size:19px">É patente que a mulher vem sendo diminuída enquanto ser humano, por ser taxada de “suja”, “frágil”, “emocional”. Esses dados remontam, como visto acima, uma trajetória de milhares de anos.</h2>



<p style="font-size:19px">A persistência da violência contra as mulheres no Brasil segue sendo uma das expressões mais alarmantes das desigualdades de gênero no país. Em mais um ano, os dados do sistema de saúde revelam números elevados de homicídios femininos e de agressões a mulheres, evidenciando a continuidade desse fenômeno estrutural. A despeito das políticas públicas implementadas nas últimas décadas e dos avanços normativos – como a atualização da Lei do Feminicídio (Lei nº 14.994), em 2024 –, a letalidade feminina, especialmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade, segue como um problema público grave, e que, só em 2023, matou quase 4 mil mulheres (IPEA, 2025). Isso representa 4 mulheres mortas diariamente em consequência do feminicídio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-de-conquista-feminina-no-pais-com-as-normativas-de-lei-do-feminicidio-e-lei-maria-da-penha-sao-muito-atuais-sendo-promulgadas-em-2006-e-2015-respectivamente" style="font-size:19px">A história de conquista feminina no país com as normativas de Lei do Feminicídio e Lei Maria da Penha são muito atuais, sendo promulgadas em 2006 e 2015, respectivamente.</h2>



<p style="font-size:19px">Isso significa que, anteriormente a 2006, essas violências não eram tratadas como uma violência direcionada à mulher pelo simples fato de ser mulher. Infelizmente, o Brasil ainda é um país com muitas subnotificações, tornando os dados aproximados com relação aos abusos sofridos e às marcas deixadas ao longo dos anos. Cabe ainda, relembrar que durante o período escravista no Brasil, a Lei do Ventre Livre, que estabelecia que os filhos nascidos de mães escravas seriam livres foi promulgada em 28 de setembro de 1871, apenas 17 anos antes do fim da escravidão.</p>



<p id="h-quando-falamos-de-uma-populacao-mais-vulneravel-falamos-especialmente-de-mulheres-pretas-ou-pardas-com-baixos-salarios-poucos-direitos-trabalhistas-acesso-a-bens-e-servicos-restritos-a-sua-condicao-economica-como-mulheres-nessas-condicoes-sao-assistidas-quando-em-condicoes-de-violencia-domestica-e-abusos-spivak-celebre-autora-argumenta-se-o-subalterno-pode-falar-se-ele-a-tem-voz-para-spivak-2010-p-13-14-o-termo-subalterno-refere-se-as-camadas-mais-baixas-da-sociedade-constituidas-pelos-modos-especificos-de-exclusao-de-mercados-da-representacao-politica-e-legal-e-da-possibilidade-de-se-tornarem-membros-plenos-no-estrato-social-dominante" style="font-size:19px">Quando falamos de uma população mais vulnerável, falamos especialmente de mulheres pretas ou pardas com baixos salários, poucos direitos trabalhistas, acesso a bens e serviços restritos a sua condição econômica. Como mulheres nessas condições são assistidas quando em condições de violência doméstica e abusos? Spivak, célebre autora, argumenta se o subalterno pode falar, se ele(a) tem voz? Para Spivak (2010, p. 13-14) o termo subalterno refere-se “às camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão de mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-atlas-da-violencia-2025-fornece-um-retrato-alarmante-e-preciso-da-violencia-de-genero-no-brasil-mulheres-continuam-sob-grave-ameaca-especialmente-dentro-de-casa-com-impacto-diferenciado-sobre-mulheres-negras-e-jovens" style="font-size:19px">O <em><strong>Atlas da Violência 2025</strong></em> fornece um retrato alarmante e preciso da violência de gênero no Brasil: mulheres continuam sob grave ameaça, especialmente dentro de casa, com impacto diferenciado sobre mulheres negras e jovens.</h2>



<p style="font-size:19px">A combinação entre violência letal, formas não letais e subnotificação aponta para a urgência de ações políticas, legais e sociais mais eficazes, ampliando o alcance da proteção e atuando na prevenção desde o ambiente familiar até o contexto estrutural (IPEA, 2025).</p>



<p style="font-size:19px">Entre os mamíferos, os chimpanzés e humanos regularmente matam adultos de sua própria espécie. Também compartilham outros males, como assassinatos políticos, espancamentos e estupros. O estupro é um ato comum aos orangotangos machos e gorilas machos matam bebês com muita frequência, embora essa atitude não seja exclusiva dos primatas (Wrangham e Peterson, 1996).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pergunta-se-se-ha-algo-com-os-primatas-que-os-predispoe-a-violencia-e-aos-seres-humanos" style="font-size:19px">Pergunta-se se há algo com os primatas que os predispõe a violência? E aos seres humanos?</h2>



<p id="h-wrangham-e-peterson-1996-p-181-no-livro-o-macho-demoniaco-mostram-que-os-ataques-violentos-dos-chimpanzes-machos-contra-as-femeas-e-um-aspecto-sistematico-e-comum-os-autores-comparam-o-comportamento-dos-humanos-e-dos-chimpanzes-da-seguinte-forma-1-ambos-sao-casos-de-violencia-de-machos-contra-femeas-ou-homens-contra-mulheres-no-caso-humano-2-ambos-sao-exemplos-de-violencia-no-relacionamento-os-machos-conhecem-as-femeas-a-muito-tempo-membros-da-sua-comunidade-e-nao-havia-um-contexto-como-falta-de-comida-ou-aliancas-a-outros-grupos-para-justificar-o-comportamento-3-fatores-superficiais-desencadeiam-a-reacao-mas-a-questao-subjacente-e-o-controle-ou-a-dominacao-da-femea-pelo-macho" style="font-size:19px">Wrangham e Peterson (1996, p. 181) no livro “<strong>O macho demoníaco</strong>” mostram que os ataques violentos dos chimpanzés machos contra as fêmeas é um aspecto sistemático e comum. Os autores comparam o comportamento dos humanos e dos chimpanzés da seguinte forma: <strong>1)</strong> ambos são casos de violência de machos contra fêmeas, ou homens contra mulheres no caso humano; <strong>2)</strong> ambos são exemplos de violência no relacionamento &#8211; os machos conhecem as fêmeas a muito tempo, membros da sua comunidade e não havia um contexto como falta de comida ou alianças a outros grupos para justificar o comportamento; <strong>3)</strong> fatores superficiais desencadeiam a reação, mas a questão subjacente é o controle ou a dominação da fêmea pelo macho.</p>



<p style="font-size:19px">Os autores, pautados nas pesquisas com primatas, buscaram a associação entre a violência do macho/homem como fator biológico, instintivo e social. Entretanto, os próprios autores admitem que a complexidade do tema é maior que uma herança geracional, genética ou modulação de comportamentos ao longo da história. Se temos a maldição de um temperamento masculino demoníaco e uma capacidade maquiavélica para expressá-lo, somos também abençoados com uma inteligência que é capaz, através da sabedoria, afastar-nos do passado de grande primata. Se a inteligência é capaz de enxergar, a sabedoria é capaz de ouvir e ver ao longe, ou seja, a sabedoria é a perspectiva futura (WRANGHAM e PETERSON, 1996, p. 315).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-machismo-estrutural-resultado-do-patriarcado-e-a-subordinacao-da-mulher-as-necessidades-dos-homens-ao-longo-de-milenios-e-uma-base-importante-para-atitudes-violentas-e-possessivas-em-relacao-aos-corpos-femininos" style="font-size:19px">O machismo estrutural, resultado do patriarcado, e a subordinação da mulher às necessidades dos homens ao longo de milênios, é uma base importante para atitudes violentas e possessivas em relação aos corpos femininos.</h2>



<p style="font-size:19px">Essa construção de força masculina está mais vinculada à força física. Através da força, homens e animais machos imprimem abusos físicos, psicológicos e sexuais ao sexo oposto. Pensando na imagem arquetípica do masculino, esse seria o lado demoníaco do arquétipo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-oc-7-2-245-254-menciona-em-sua-obra-a-persona-como-um-fragmento-da-psique-coletiva-comportamentos-ou-papeis-esperados-em-determinado-tempo-e-epoca-incluindo-os-papeis-de-homens-e-mulheres" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (OC 7/2, § 245-254) menciona em sua obra a <strong>persona</strong>, como um fragmento da psique coletiva, comportamentos ou papéis esperados em determinado tempo e época, incluindo os papéis de homens e mulheres.</h2>



<p style="font-size:19px">Esses papéis são construções sociais, influenciados pela história humana e sua evolução ao longo dos séculos. À medida que aumenta a influência do inconsciente coletivo, a consciência perde seu poder de liderança, e passa a se mover como uma peça de xadrez, à mercê do inconsciente. Esse colapso da consciência e domínio do inconsciente é desastroso ao indivíduo, ele perde o chão, desenraiza. Essa inundação pode ser refletida em paranoia e esquizofrenia, em excentricidade e atitude infantil, apartando-o da sociedade, ou entrando em um processo de restauração regressiva da persona.</p>



<p style="font-size:19px">Jung, em seu livro “<strong>Aspectos do drama contemporâneo</strong>”, descreve as guerras europeias do século XX como uma onda de primitividade e violência, que seriam a manifestação de &#8220;poderes obscuros&#8221; que se intensificaram durante a Primeira Guerra e atingiram o auge na Segunda, em movimentos como o Nazismo e o Fascismo. Ele afirma que o &#8220;caos e a desordem do mundo&#8221; se refletem de forma semelhante na mente de cada pessoa, e que essa ausência de direção é equilibrada no inconsciente pelos &#8220;arquétipos da ordem&#8221;. A integração dos conteúdos inconscientes é apresentada como uma ação individual de concretização, compreensão e julgamento ético, que exige uma grande responsabilidade moral (§ 449-451).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-diante-do-exposto-muitas-perguntas-ficam-em-suspenso" style="font-size:19px">Diante do exposto, muitas perguntas ficam em suspenso:</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Quais complexos estão envolvidos nessa construção coletiva, que incide em diferentes tipos de violências? A violência e a necessidade de dominação podem ser atreladas a uma necessidade compensatória, busca-se dominar o outro na tentativa de se sentir superior? </strong></p>



<p style="font-size:19px">Ousamos dizer que um estudo sobre o assunto seria muito rico e beneficiaria sobremaneira a humanidade. Entender essa necessidade de poder, especialmente em relação às mulheres.</p>



<p style="font-size:19px">Uma pesquisa sobre o perfil dos agressores presos em flagrante mostra que são homens adultos jovens em maior percentual, com baixa escolaridade, possuíam uma ocupação e havia relato de passagens pela polícia anteriormente em aproximadamente 30% dos casos, incluindo a própria violência doméstica. É interessante que o tipo de violência se caracteriza de forma distinta em relação ao consumo de substâncias: os agressores que consumiram somente álcool praticam mais violência física (39,7%); os que ingeriram álcool e drogas associados perpetraram mais violência psicológica (30%); e os usuários de drogas isoladas cometeram mais a psicológica (75%) &#8211; (MADUREIRA, et. al., 2014).</p>



<p style="font-size:19px">Estudo feito no Maranhão observou que os atos violentos foram praticados majoritariamente por indivíduos que não têm mais relações afetivas com as vítimas e entre as motivações para a violência destacam-se o inconformismo com o fim da relação, ciúmes, dentre outros (BEZERRA e RODRIGUES, 2021). Em grande parte dos casos, as violências contra a mulher são cometidas no ambiente doméstico, na frente dos filhos, gerando impactos na saúde emocional e psíquica de toda a família (LEITE, et. al., 2015).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existe-um-ditado-popular-que-diz-violencia-gera-mais-violencia" style="font-size:19px">Existe um ditado popular que diz “<strong>violência gera mais violência</strong>”.</h2>



<p style="font-size:19px">Em ciclos repetitivos de vitimização e agressão, com trocas de papéis ao longo da vida e a reprodução de padrões de conduta, de forma sistêmica. Enquanto não ocorre uma quebra, um repensar, não há mudanças significativas. A relação entre vítima e agressores gera polaridades, e movimentos internos compensatórios se manifestam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-conto-brilhante-que-trabalha-essa-questao-chama-se-barba-azul" style="font-size:19px">Um conto brilhante que trabalha essa questão chama-se Barba Azul. </h2>



<p style="font-size:19px">O <strong>Barba Azul</strong> seduz mulheres, casa com elas e depois as mata, jogando seus restos mortais no porão.Sua tática de sedução, afinal ele não é tão atraente assim, é o poder e dinheiro. Ele conquista a moça e sua família mostrando suas propriedades, seu conforto e o padrão de vida que a moça terá sob sua tutela.</p>



<p style="font-size:19px">Até que um dia ele avisa que tem uma única sala que não pode ser aberta, senão a mataria. E não por acaso, ele entrega todas as chaves da casa para ela enquanto viaja (intencional? Perverso?). Quando volta e descobre que o porão foi aberto num arroubo de curiosidade da mulher, avisa que ela irá morrer. Ela, espertamente, usa de suas habilidades para enrolar o Barba Azul enquanto chama seus irmãos para ajudá-la.</p>



<p style="font-size:19px">No fim, Barba Azul é morto e despedaçado, e seus pedaços espalhados pelos cantos do mundo. Note que ele nunca é eliminado de vez, ele fica espalhado, com menos energia psíquica, mas está lá, em algum lugar internamente.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Estudos observam que o manejo do trauma ocorre de maneira mais eficiente para pessoas que usaram de suas habilidades para escapar, se salvar ou resolver a situação</strong>. Quando entram em estado mais passivo ou letárgico, o trauma se instala com uma profundidade maior (LEVINE, 2022). Essa é a ideia do conto do Barba Azul. A única esposa que sobreviveu foi a que teve uma atitude, que lutou para sobreviver com inteligência.</p>



<p style="font-size:19px">Cabe observar ainda, que nesse conto, demonstra-se uma dinâmica psíquica de agressor-vítima, em que a vítima em determinado momento passa a se identificar com o agressor, de forma a permanecer no relacionamento ainda que seja abusivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-esse-assunto-kast-2022" style="font-size:19px">Sobre esse assunto, Kast (2022):</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px"><em>Tal &#8220;identificação com o agressor&#8221; é também um conhecido mecanismo de defesa ou de enfrentamento: quando temos medo de alguém, podemos assumir seu ponto de vista, traindo a nós mesmos no processo e assim estabilizando temporariamente nossa autoestima, pois fingimos estar de acordo com o mais forte – nós nos identificamos com o agressor.</em></p>
</blockquote>



<p id="h-compele-se-dizer-que-as-razoes-que-mantem-as-vitimas-em-relacionamentos-sao-muitas-a-principal-delas-e-a-falta-de-independencia-financeira-contudo-o-agressor-se-nutre-do-medo-da-vitima-numa-tentativa-de-manter-o-controle-em-uma-relacao-desigual" style="font-size:19px">Compele-se dizer que as razões que mantém as vítimas em relacionamentos são muitas. A principal delas é a falta de independência financeira. Contudo, o agressor se nutre do medo da vítima, numa tentativa de manter o controle em uma relação desigual.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-significativo-para-pensarmos-essa-questao-seria-a-relacao-de-codependencia-que-se-estabelece-entre-agressores-e-vitimas" style="font-size:19px">Outro ponto significativo para pensarmos essa questão seria a relação de codependência que se estabelece entre agressores e vítimas.</h2>



<p style="font-size:19px">Muitas pessoas incorporam uma entidade <strong>salvadora</strong>, capaz de redimir o outro(a) de seus desvios de conduta, como se o seu amor fosse suficiente para a mudança do outro(a). Na verdade, estamos em nossa jornada de autoconhecimento e precisamos nos ver com nossos aspectos sombrios, que nos atravessam para nos ensinar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-temos-em-jogo-sao-carencias-afetivas-e-complexos-constelados-que-nos-aprisionam-a-situacoes-que-nao-sao-saudaveis" style="font-size:19px">O que temos em jogo são carências afetivas e complexos constelados que nos aprisionam a situações que não são saudáveis.</h2>



<p style="font-size:19px">Em relação aos homens, o que não pertence à consciência masculina (o não “eu”) é sentido como se não pertencesse ao eu, por isso, a imagem da <em>anima</em> (contraparte feminina) é projetada nas mulheres. Os índices de divórcios cada vez maiores apontam que essa projeção no sexo oposto, ocasiona relacionamentos complicados (JUNG, 9/1, § 61).</p>



<p style="font-size:19px">A <strong><em>anima</em> </strong>é o arquétipo do significado ou sentido, o arquétipo da vida (JUNG, 9/1, § 66). Um homem que se priva de entrar em contato com seu aspecto psíquico feminino está desalmado e sem vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-poder-esta-muito-vinculada-a-imagem-de-homem-em-uma-sociedade-patriarcal-que-estabeleceu-ha-milhares-de-anos-uma-relacao-de-subordinacao-do-corpo-feminino-e-sua-capacidade-reprodutiva" style="font-size:19px">A ideia de poder está muito vinculada à imagem de homem em uma sociedade patriarcal, que estabeleceu há milhares de anos uma relação de subordinação do corpo feminino e sua capacidade reprodutiva.</h2>



<p style="font-size:19px">Construiu-se uma divisão sexual, social e do trabalho entre homens e mulheres, delegando às mulheres os trabalhos tido como inferiores e menos valorizados, simbolizando seu papel na hierarquia social (BOURDIEU, 2024). Esse complexo cultural que atravessa gerações permeia o inconsciente coletivo traçando relações injustas entre os dois sexos ainda nos dias de hoje. Em nossa sociedade o que faz um homem ser considerado forte? Ter dinheiro, poder e mulheres, ou seja, ele precisa “possuir”.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Por outro lado, os homens expõem sua vulnerabilidade e sentimentos com muito mais facilidade para as mulheres do que entre os amigos. É compreensível que a população mais vulnerável estude sobre os seus “opressores”, para entender melhor o fenômeno e traçar formas de resistência. Isso significa que as mulheres estavam muito mais atentas aos homens do que o inverso, por uma questão de necessidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-ideia-de-submissao-das-mulheres-e-construida-ao-longo-de-todo-um-trabalho-de-socializacao-um-trabalho-que-tende-a-diminui-las-nega-las-fazem-parte-das-virtudes-negativas-da-abnegacao-resignacao-e-do-silencio-feminino" style="font-size:19px">A ideia de submissão das mulheres é construída ao longo de todo um trabalho de socialização. Um trabalho que tende a diminuí-las, negá-las, fazem parte das virtudes negativas da abnegação, resignação e do silêncio feminino.</h2>



<p style="font-size:19px">Ao mesmo tempo, aprisionam os homens em uma <em>persona</em> de domínio e os obrigando a afirmar sua virilidade. A virilidade entendida como a capacidade reprodutiva, sexual e social, aptidão ao combate e ao exercício da violência são uma carga ou cilada. Às mulheres fica relegada a fragilidade, a astúcia diabólica e a magia. Como a honra e a vergonha estão ligadas a virilidade masculina, práticas sexuais violentas como visita coletiva a bordeis, estupros coletivos realizados por adolescentes são formas de provar sua condição de homem (BOURDIEU, 2024, p. 86-91).</p>



<p style="font-size:19px">Bourdieu explana que o que chamamos de coragem tem suas raízes na covardia ou medo de ser excluído do mundo dos homens tidos como fortes, e para comprová-lo, atos como matar, torturar e violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão estão relacionados. A virilidade é uma noção relacional, construída diante dos outros homens, para os homens e contra a feminilidade, em uma espécie de medo do feminino, construída dentro de si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-contra-mulheres-e-feminicidio-provocados-pelos-homens-nos-dias-atuais-podem-ser-um-reflexo-dessa-persona-coletiva-de-um-masculino-toxico-e-ferido-em-sua-construcao-social-de-virilidade" style="font-size:19px">A violência contra mulheres e feminicídio provocados pelos homens nos dias atuais podem ser um reflexo dessa persona coletiva de um masculino tóxico e ferido em sua construção social de virilidade.</h2>



<p style="font-size:19px">É comum esse tipo de ato ocorrer após o término de um relacionamento ou durante a tentativa de finalizar um ciclo de violência já estabelecido na família.&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Atualmente, observamos uma crise do masculino, não coincidentemente após a legalização e aumento dos divórcios e o aumento de mulheres no mercado de trabalho, garantindo recursos financeiros e independência. Em consequência, ocorre um fenômeno sem precedentes: o aumento de mulheres chefiando os lares brasileiros.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-grafico-01-numero-de-domicilios-pelo-sexo-do-responsavel-brasil" style="font-size:16px"><strong>Gráfico 01:</strong> Número de domicílios pelo sexo do responsável, Brasil.</h2>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><img decoding="async" width="884" height="500" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png" alt="" class="wp-image-11518" style="aspect-ratio:1.768018416858509;width:552px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1.png 884w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-300x170.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-768x434.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-1-450x255.png 450w" sizes="(max-width: 884px) 100vw, 884px" /></figure>



<p>Fonte: IBGE, <a href="https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6788">Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua</a>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-estrutura-patriarcal-aprisiona-mulheres-e-homens-criando-expectativas-personas-a-serem-alcancadas-gerando-empecilhos-para-um-crescimento-e-amadurecimento-mutuo-em-relacoes-mais-equitativas-e-menos-opressoras-para-ambos" style="font-size:20px">Essa estrutura patriarcal aprisiona mulheres e homens, criando expectativas (personas) a serem alcançadas, gerando empecilhos para um crescimento e amadurecimento mútuo, em relações mais equitativas e menos opressoras para ambos.</h2>



<p></p>



<p style="font-size:20px">Não se questiona os papéis se não houver um atravessamento ou incômodo por alguma das partes. Entretanto, mudanças não ocorrem de forma unilateral. Precisam envolver diversos atores, homens e mulheres em trabalho conjunto. O mundo está mudando porque as pessoas mudam e se transformam. As imagens de homens e mulheres estão sendo revistas, gerando conflitos entre os que querem conservar o que se entende por imagem de família, apegados a estruturas que não funcionam mais.</p>



<p id="h-arriscariamos-dizer-que-a-base-dos-conflitos-politicos-atuais-estao-calcados-nessa-polaridade-o-desejo-de-mudanca-e-conservacao-coexistindo-e-em-confronto-ao-mesmo-tempo-felizmente-os-movimentos-e-mudancas-sociais-estao-em-constante-fluxo-nao-conseguimos-impedir-o-curso-da-vida-e-da-alma" style="font-size:20px">Arriscaríamos dizer que a base dos conflitos políticos atuais estão calcados nessa polaridade: o desejo de mudança e conservação coexistindo e em confronto ao mesmo tempo. Felizmente, os movimentos e mudanças sociais estão em constante fluxo. Não conseguimos impedir o curso da vida e da alma.</p>



<p style="font-size:20px">Como mulheres e como analistas junguianas, não podemos ignorar as questões sociais de nosso tempo. A violência não é um fenômeno isolado — ela é coletiva, sistêmica, e nos atravessa em múltiplos níveis. Quando uma mulher sofre abusos físicos, psicológicos ou patrimoniais, todo o sistema ao seu redor é afetado. Somos parte de uma grande psique coletiva, que se manifesta em nossas individualidades. Cada ferida aberta em uma mulher reverbera em todas nós.</p>



<p id="h-michella-cechinel-reis-analista-em-formacao-pelo-ijep" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/michellacechinel/">Michella Cechinel Reis &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/paula-penas/"><strong>Paula de Azevedo Bernardi Peñas</strong> &#8211; <strong>Analista em formação pelo IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/"><strong>Dra. E. Simone Magaldi</strong> &#8211; <strong>Analista Didata do IJEP</strong></a></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: Tapa de amor dói sim!" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/x36klunNvN0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p>BEZERRA, A.R.; RORIGUES, Z.M.R. Violência contra as mulheres: o perfil da vítima e do agressor em São Luís-MA. Revista do Departamento de Geografia, v. 41, e176806, 2021. Disponível em: [https://revistas.usp.br/rdg/article/view/176806]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p>BORGES, José Carlos. A mulher e suas concepções históricas. 2020. RC:52704. Disponível em: <a href="https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas">https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/concepcoes-historicas</a>. Acesso em: 10.nov.2025</p>



<p>BOURDIEU, P. A dominação masculina: a condição feminina e a violência simbólica. 23 ed. Rio de Janeiro: Difel, 2024.</p>



<p>Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019). Pesquisa Nacional de Saúde: acidentes, violências, doenças transmissíveis, atividade sexual, características do trabalho e apoio social. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento, [Ministério da Saúde].</p>



<p>Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2021). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: vitimização &#8211; sensação de segurança. Brasil / IBGE, Coordenação de Trabalho e Rendimento.</p>



<p>CERQUEIRA, Daniel; BUENO, Samira (coord.). Atlas da Violência 2025. Brasília: Ipea; FBSP, 2025. Disponível em:<a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025"> </a><a href="https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025">https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025</a>. Acesso em: 10 ago. 2025.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-c-g-o-eu-e-o-inconsciente-dois-escritos-sobre-psicologia-analitica-27-ed-rio-de-janeiro-vozes-2015" style="font-size:16px">JUNG, C.G. O eu e o inconsciente: dois escritos sobre psicologia analítica. 27 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2015.</h2>



<p>JUNG, C.G. Aspectos do drama contemporâneo: civilização em mudança. 5 ed. Rio de Janeiro, Vozes, 2012.</p>



<p>JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. 11 ed. Petropolis, RJ: Vozes, 2014, reimpressão 2019.</p>



<p>KAST, Verena. Abandonar o papel de vítima: Viva sua própria vida. Ed. Vozes, 2022.</p>



<p>LEITE, F. M. C. et al. Violência contra a mulher: caracterizando a vítima, a agressão e o autor. Revista de Pesquisa Cuidado é Fundamental Online, v. 7, n. 1, p. 2181-2191, 2015. Disponível em: [https://www.redalyc.org/pdf/5057/505750945029.pdf]. Acesso em: [12/08/2025].</p>



<p>LEVINE, P.A. O despertar do tigre: curando o trauma. 5 ed. São Paulo, Summus, 2022.</p>



<p>MADUREIRA, A.B.; et. al. Perfil de homens autores de violência contra mulheres detidos em flagrante: contribuições para o enfrentamento. Esc Anna Nery 2014;18(4):600-606. DOI: 10.5935/1414-8145.20140085.</p>



<p style="font-size:16px">WRANGHAM, R.; PETERSON, D. O macho demoníaco: as origens da agressividade humana. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 1996.</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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		<title>Intolerância com os Intolerantes</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/intolerancia-com-os-intolerantes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Renata Pastorello]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 18:46:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[ego]]></category>
		<category><![CDATA[função transcendente]]></category>
		<category><![CDATA[intolerância]]></category>
		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo propõe uma reflexão sobre o paradoxo da intolerância, de Karl Popper, à luz da Psicologia Analítica. A partir de uma vivência cotidiana, analisa-se a intolerância como expressão da cisão entre ego e sombra e a necessidade de integração desses opostos pela função transcendente. A única intolerância que deveríamos admitir na sociedade e [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo:</strong> Este artigo propõe uma reflexão sobre o paradoxo da intolerância, de Karl Popper, à luz da Psicologia Analítica. A partir de uma vivência cotidiana, analisa-se a intolerância como expressão da cisão entre ego e sombra e a necessidade de integração desses opostos pela função transcendente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-unica-intolerancia-que-deveriamos-admitir-na-sociedade-e-principalmente-dentro-de-nos-e-a-intolerancia-com-a-intolerancia" style="font-size:19px">A única intolerância que deveríamos admitir na sociedade e principalmente dentro de nós é a intolerância com a intolerância.</h2>



<p style="font-size:19px">Este é o Paradoxo da intolerância formulado por Karl Popper que consiste em que a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da própria tolerância. Uma sociedade tolerante deve, para se preservar, reservar o direito de não tolerar a intolerância (especialmente quando ela envolve violência física, discursos de ódio ou a tentativa de suprimir o debate racional ou a imposição de uma ideia única).</p>



<p style="font-size:19px">Durante uma aventura pessoal em ser a única administradora de um Grupo de Whatsapp de bairro, onde o intuito deste grupo era promover um lugar civilizado de anúncios de produtos e/ou serviços para os moradores, pude perceber o quanto estamos, como sociedade, cultivando a intolerância e querendo que sejamos muito tolerantes com a intolerância alheia.</p>



<p style="font-size:19px">Neste contexto, os participantes ao invés de tolerarem as pequenas imperfeições do grupo, iam pela via contrária: vociferavam a exigência de regras tão perfeitas para que eles, os participantes, não tivessem que sustentar desconforto algum.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-experiencia-antropologica-evidenciou-se-este-espirito-do-tempo-em-que-o-que-e-fortalecido-e-o-desejo-de-satisfacao-do-ego-ao-inves-de-fortalecer-a-flexibilidade-deste-ego" style="font-size:19px">Nessa experiência antropológica evidenciou-se este espírito do tempo em que o que é fortalecido é o desejo de satisfação do ego, ao invés de fortalecer a flexibilidade deste ego.</h2>



<p style="font-size:19px">Um ego forte é como o material de uma ponte: é forte o suficiente para sustentar o peso que o atravessa, porém é flexível o suficiente para não se romper com o movimento da travessia. A intolerância é um sintoma da não aceitação da própria sombra, da cisão e oposição do ego aos conteúdos inconscientes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-negar-o-mal-dentro-de-si-o-inconsciente-o-projeta-no-outro-e-justifica-a-violencia-moral-em-nome-do-bem-jung-chama-essa-dinamica-de-posse-pela-sombra" style="font-size:19px">Ao negar o “mal dentro de si”, o inconsciente o projeta no outro e justifica a violência moral em nome do “bem”. Jung chama essa dinâmica de posse pela sombra:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>com a projeção do mal, nós deslocamos o medo e a irritação que sentimos em relação ao nosso próprio mal para o opositor, aumentando ainda mais o peso da sua ameaça.</p><cite>(JUNG, 2019c, p.572)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">A projeção é um mecanismo do inconsciente de reorganizar a experiência psíquica buscando se relacionar com a consciência. Porém, na busca por um ego perfeito e imaculado, o indivíduo fragmenta o que é &#8220;indesejável&#8221; (a Sombra) e suprimi o diálogo com esses aspectos transformando-os em luta, esta podendo ocorrer do lado de dentro, como processos depressivos, e ou do lado de fora designando a resolução de forma externa.</p>



<p style="font-size:19px">Esta defesa egóica que luta pela manutenção de uma perfeição estática é o que o torna intolerante, sendo dominado muitas vezes por um complexo de inferioridade que, paradoxalmente, se manifesta como um complexo de superioridade ou tirania (como a exigência de regras &#8220;perfeitas&#8221; no grupo, que é uma forma de domínio moral).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ego-inflado-aparecendo-na-forma-de-unico-eu-em-nos-que-deseja-controlar-o-ambiente-as-regras-do-grupo-para-evitar-o-confronto-com-a-propria-multiplicidade-interna" style="font-size:19px">O ego inflado aparecendo na forma de único eu em nós que deseja controlar o ambiente (as regras do grupo) para evitar o confronto com a própria multiplicidade interna.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Como ponto de referência do campo da consciência, o eu é o sujeito de todos os esforços de adaptação na medida em que estes são produzidos pela vontade. [&#8230;] O eu conserva sua condição de centro do campo da consciência; mas, como ponto central da personalidade, tornou-se problemático. Constitui parte desta personalidade, não há dúvida, mas não representa a sua totalidade. </p><cite>(JUNG, 2019a, p.11)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">O antídoto para a cisão e a intolerância é a aceitação da dualidade e a integração de todos os aspectos da vida. Especialmente os aspectos que não são agradáveis ao julgamento do ego. O que o Jung chamou de Função Transcendente, a proposta da sua psicologia não está em abraçar um dos lados, ou seja, não é agirmos como se o inconsciente tivesse passe livre para o mundo externo e nem a repressão total deste inconsciente visando atender única e exclusivamente a adaptação externa:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Por “função transcendente” não se deve entender algo de misterioso e por assim dizer suprassensível ou metafísico, mas uma função que, por sua natureza, pode-se comparar com uma função matemática de igual denominação, e é uma função de números reais e imaginários. A função psicológica e “transcendente” resulta da união dos conteúdos conscientes e inconscientes. </p><cite>(JUNG, 2019b, p.131)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Ou seja, a Função Transcendente é uma atividade natural da psique que une consciente e inconsciente, gerando uma nova atitude levando em consideração os dois mundos: interno e externo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-contexto-a-intolerancia-pode-simbolizar-uma-dificuldade-em-realizar-a-funcao-transcendente-a-intolerancia-demonstra-uma-recusa-interior-em-buscar-uma-nova-atitude-que-inclua-o-que-foi-projetado" style="font-size:19px">Neste contexto a intolerância pode simbolizar uma dificuldade em realizar a Função Transcendente; a intolerância demonstra uma recusa interior em buscar uma nova atitude que inclua o que foi projetado.</h2>



<p style="font-size:19px">A atitude tolerante, por outro lado, exige o trabalho psíquico de sustentar o desconforto, estabelecendo um diálogo com ele (o &#8220;erro&#8221; do outro, a imperfeição da regra). A flexibilidade do Ego (a ponte forte, porém flexível) só é possível quando ele está em relação com a totalidade. A intolerância é um sinal de que o ego se recusa a estabelecer um diálogo com o inconsciente e se tornou um centro rígido e tirânico.</p>



<p style="font-size:19px">A verdadeira &#8220;regra perfeita&#8221; está na estrutura interna do ego em utilizar a flexibilidade, para adaptar-se na medida do possível na estrutura externa. A aceitação da Sombra é o que torna a convivência possível. A intolerância social é, em última análise, o grito da alma que se recusa a confrontar a imperfeição mais íntima: a totalidade da vida que contém não somente a luz como a sombra.</p>



<p style="font-size:19px">Talvez o verdadeiro sentido do paradoxo de Popper não seja apenas político, mas também psicológico: precisamos aprender a ser intolerantes com a intolerância interior, com a parte de nós que deseja excluir, punir, aniquilar o diferente. Só assim o coletivo poderá se transformar — não pela repressão do mal, mas por sua integração consciente.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Intolerância com os Intolerantes" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/xZMfrKp0Qx0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/renata-pastorello/">Renata Pastorello – Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/ajaxsalvador/">Ajax Salvador – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px"><strong>Referências:</strong></h2>



<p style="font-size:16px">JUNG, Carl. G.<em> Aion</em>, 9.ed. Petrópolis: Vozes, 2019</p>



<p style="font-size:16px">___________<em> A Natureza da Psique</em>, 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2019</p>



<p style="font-size:16px">___________<em>Presente e futuro</em>, 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2019</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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		<title>O caminho da alma: dos autorretratos às selfies</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-caminho-da-alma-dos-autorretratos-as-selfies/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 13:43:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Redes Sociais]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[autorretrato]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[contemporaneidade]]></category>
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		<category><![CDATA[frida kahlo]]></category>
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		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
		<category><![CDATA[self]]></category>
		<category><![CDATA[selfies]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu ando pelo mundo prestando atençãoEm cores que eu não sei o nome Cores de AlmodóvarCores de Frida Kahlo, cores Esquadros, Adriana Calcanhoto Resumo: Este artigo tem o objetivo de propor uma conversa sobre dois movimentos: primeiro, os autorretratos tão frequentemente pintados por artistas nos séculos passados e o movimento contemporâneo das selfies, as fotos [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:14px">
<figure class="wp-block-pullquote has-text-align-center is-style-solid-bg" style="font-size:18px"><blockquote><p><em>Eu ando pelo mundo prestando atenção<br>Em cores que eu não sei o nome <br>Cores de Almodóvar<br>Cores de Frida Kahlo, cores</em></p><cite>Esquadros, Adriana Calcanhoto</cite></blockquote></figure>
</blockquote>



<p style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: Este artigo tem o objetivo de propor uma conversa sobre dois movimentos: primeiro, os autorretratos tão frequentemente pintados por artistas nos séculos passados e o movimento contemporâneo das selfies, as fotos individuais tiradas e postadas com frequência nas redes sociais. Não é de hoje que o ser humano se interessa por se retratar. Divulgar sua própria imagem é algo mais novo. Mas o que há de diferente nestes dois movimentos? Como o pensamento de Jung e a psicologia analítica nos convida a compreender as diferenças destas atitudes? O que elas expressam sobre os seus respectivos tempos?</p>



<p style="font-size:18px"><strong>Palavras-chave</strong>: Arte; Autorretrato; Selfie; Espírito do Tempo; Jung</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-e-de-hoje-que-o-ser-humano-se-interessa-por-se-retratar" style="font-size:22px">Não é de hoje que o ser humano se interessa por se retratar.</h2>



<p style="font-size:19px">Desde os áureos tempos, no universo da arte, temos um histórico de artistas de renome se representando nas telas. Dentre estes gênios, posso destacar aqui Rembrandt, Frida Kahlo, Van Gogh, Picasso, entre muitos outros. Este desejo de se retratar, com o passar dos tempos foi se moldando ao desenvolvimento tecnológico e hoje chegamos às famosas <em>selfies</em> &#8211; as fotos tiradas com os <em>smartphones</em> e postadas com frequência nas redes sociais.</p>



<p style="font-size:19px">Aqui, vem a pergunta: O que separa umas imagens das outras? Vamos fazer um olhar sobre como as mudanças foram acontecendo e o que isso tem a ver com a alma e como a psicologia analítica compreende estes fenômenos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-artistas-e-seus-autorretratos" style="font-size:21px"><strong>Os artistas e seus autorretratos</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Para dar início a esta conversa, vale lembrar que o homem sempre utilizou a arte e as imagens como uma forma de expressão. Os artistas em suas obras representaram em suas produções cenas do cotidiano, a natureza os animais e as pessoas. No século XVII houve na Europa um crescimento na pintura de paisagens, mas ainda assim a figura humana nunca deixou de ser um objeto de desejo dos artistas, conforme Mullins (2024, p.144). &nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Na história da arte há registros muito antigos de autorretratos, como na Grécia antiga, onde eram criadas imagens de si mesmos. Conforme aponta Bugler (2019, p. 190), “Na Idade Média, a arte ocidental era extremamente voltada para a religião e os poucos retratos feitos eram de pessoas eminentes e poderosas como governantes ou líderes da igreja.” Continua a autora dizendo que, na época da Renascença o autorretrato ressurge, facilitado pelo avanço tecnológico da época: o espelho. Isto facilita em muito para os artistas a produção das suas autoimagens, uma vez que pagar modelos para serem retratados custava muito caro.</p>



<p style="font-size:19px">Os autorretratos serviam na época, como um “cartão de visitas”, onde o artista podia demonstrar seu talento e sua obra. Ao observar a imagem do próprio artista representada, aquele que queria seu retrato pintado poderia contratá-lo. Conforme o desenvolvimento socioeconômico da época, a temática da arte começa a se expandir e os retratos a se popularizar. Logo, pessoas de um nível social inferior aos altos escalões já podiam pagar por um retrato. Diz Bugler (2019) que um mercador bem-sucedido poderia encomendar um retrato de si mesmo e um artista poderia, do mesmo modo, expressar o orgulho de sua profissão e ter conquistas por meio de um autorretrato. Estes autorretratos demonstravam muito mais do que habilidade e uma capacidade técnica, por assim dizer.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-rembrandt-o-grande-retratista" style="font-size:21px"><strong>Rembrandt – o grande retratista</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606 – 1669), pintor holandês, foi um dos artistas que mais se representou por meio de autorretratos. Viveu na Idade Moderna e é um dos mais famosos representantes da época áurea holandesa (1600 – 1714). Hoje há um número de mais de 80 autorretratos deste artista. Ele foi um jovem talentoso. Professor de arte conhecido por ser esnobe e extravagante, pois dava mais atenção às suas autoimagens do que a seus clientes. Na meia idade o artista entra em falência. A Holanda, sua terra, começa a passar por uma crise econômica. Rembrandt continua a viver sua vida de forma modesta, atendendo a pedidos de seus clientes e sendo respeitado por sua arte. “Trabalhou até sua morte em 1669, e sua arte cresceu em esplendor pictórico e em profundidade de sentimentos até o fim.” (Bugler, 2019 p. 188).</p>



<p style="font-size:19px">Autores como Gompertz (2023) e Mullins (2024) falam de Rembrandt como uma persona, alguém capaz de desenvolver personagens diversos em suas representações, mas que conservava nas autoimagens uma imagem singular e penetrante, o que também realizava para aqueles que o contratavam. Diz Mullins (2024, p. 188) que ele se tornou “o artista mais importante para os comerciantes metropolitanos ricos e para as guildas da cidade”.</p>



<p style="font-size:19px">Sobre o artista, Gompertz (2023) comenta que Rembrandt se interessava pela essência em seus autorretratos, ao olhar para si era o que procurava captar e representar. Tinha em seu semblante um ato de dúvida, “de um mestre artesão conferindo se a mancha de empaste aplicada vigorosamente logo abaixo do olho esquerdo dá a impressão correta de uma profunda ruga na pele”. (Gompertz, 2023, p.78)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-autorretrato-mais-famoso-de-rembrandt-e-o-autorretrato-com-dois-circulos-1665-onde-esta-em-uma-fase-de-vida-mais-introspectiva" style="font-size:19px">O autorretrato mais famoso de Rembrandt é o <em>Autorretrato com dois círculos (1665)</em>, onde está em uma fase de vida mais introspectiva.</h2>



<p style="font-size:19px">Ele havia perdido sua esposa, seus três filhos e sua amante. Neste autorretrato, ele expressa o que vai em sua alma:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Rembrandt tinha passado mais de quarenta anos desenvolvendo sua técnica, sempre se empenhando em obter um efeito que revelasse uma verdade para além do poder descritivo das palavras. [&#8230;] É mais do que um autorretrato, é uma autoavaliação: um acerto de contas. Rembrandt montou laboriosamente a imagem com múltiplas camadas de tinta translúcida para criar essa apresentação inflexivelmente honesta da maneira como se via pouco antes de morrer. Ele está nos dando uma aula magistral sobre a arte da autopercepção. Cada músculo contraído, cada pequena ruga revela algo sobre o espírito interior.&#8221; </p><cite>Gompertz, 2023, p.78</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:15px"></p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="alignleft size-full is-resized"><img decoding="async" width="298" height="239" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Imagem1-1.jpg" alt="" class="wp-image-11476" style="width:374px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Imagem1-1.jpg 298w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Imagem1-1-150x120.jpg 150w" sizes="(max-width: 298px) 100vw, 298px" /></figure>
</div>


<p style="font-size:15px"></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p></p>



<p><em>Autorretrato com dois círculos (1665)&nbsp;https://www.historiadasartes.com/rembrandt/. Acesso em 26/10/2025.</em></p>



<p style="font-size:19px">O autor continua dizendo que Rembrandt escolhia a si mesmo como modelo não apenas por praticidade ou economia, como já citado, mas também porque buscava compreender como a interioridade humana se reflete na aparência externa.</p>



<p style="font-size:19px">Esse estudo exigia um olhar intenso e honesto que poucos modelos suportariam. Ao se retratar, ele podia observar-se sem restrições e perseguir a verdade interior. Para Rembrandt, conhecer-se exigia sinceridade absoluta. Suas imperfeições e expressões revelavam aspectos profundos de si; pintar era, acima de tudo, um ato de autoconhecimento e autenticidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-frida-kahlo-suas-dores-sua-janela-para-o-mundo" style="font-size:21px"><strong>Frida Kahlo – suas dores, sua janela para o mundo</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Uma outra artista famosa por seus autorretratos é a mexicana Frida Kahlo (1907 – 1954). Conforme <strong>Bugler</strong> (2019, p. 191) “<strong>Talvez a contribuição mais notável ao autorretrato na arte recente tenha vindo da pintora mexicana Frida Kahlo. Cerca de 150 pinturas suas são conhecidas, e mais de um terço, são autorretratos</strong>.”</p>



<p style="font-size:19px">Ela teve uma vida curta, marcada por tragédias pessoais e por um relacionamento bastante conturbado. Teve poliomielite na infância, sofreu um grave acidente de ônibus aos dezoito anos, que a impediu de estudar medicina, bem como de ter filhos (sofreu alguns abortos). Sua coluna, bacia e órgãos internos foram severamente atingidos neste acidente.</p>



<p style="font-size:19px">Afirma Mullins (2024), que Frida começa a pintar aos 18 anos após o grave acidente. Por estar imobilizada sua mãe providencia um cavalete especial para que pudesse pintar deitada. Os autorretratos que cria contém grande intensidade emocional e reflete o seu corpo fraturado. Lágrimas, sangue e feridas são imagens comuns em seus quadros.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Às vezes, pintava seu coração com as artérias se enroscando nos membros, ou sua espinha dorsal como a coluna de um templo grego, quebrada e desmoronando. [&#8230;] é o fogo emocional da obra de Kahlo que nos fala mais alto hoje.</p><cite>(Mullins, 2024, p. 233)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-seus-autorretratos-costumava-estampar-suas-dores-sao-imagens-marcadas-por-cores-fortes" style="font-size:19px">Em seus autorretratos costumava estampar suas dores. São imagens marcadas por cores fortes.</h2>



<p style="font-size:19px">Gompertz (2023) comenta que as obras de Frida fazem parte de uma capacidade de observação e percepção muito aguçadas; segundo o autor, ela usava sua dor para ver o mundo e o retratava assim como o percebia em suas pinturas e em seus autorretratos. &nbsp;&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">A artista casou-se precocemente com Diego Rivera, também artista e revolucionário, 20 anos mais velho, que alimentava muitos casos extraconjugais. Ele torna-se amante de Cristina, irmã mais nova de sua esposa. Isso aconteceu cinco anos depois de eles se casarem. Frida procura a ajuda do pai, um fotógrafo alemão, que ela considera amante da filosofia, mas um pai ausente e difícil no relacionamento. Frida se divorcia em 1939, depois de anos de sofrimento, e produz a obra <em><strong>As Duas Fridas</strong></em>, um famoso autorretrato.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-e-uma-obra-de-grandes-dimensoes-quase-em-tamanho-natural" style="font-size:19px">Esta é uma obra de grandes dimensões quase em tamanho natural:</h2>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="382" height="383" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image.png" alt="" class="wp-image-11477" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image.png 382w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-300x300.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/image-150x150.png 150w" sizes="(max-width: 382px) 100vw, 382px" /></figure>



<p><em><a href="https://www.culturagenial.com/quadro-as-duas-fridas-frida-kahlo/">https://www.culturagenial.com/quadro-as-duas-fridas-frida-kahlo/</a> Acesso em 26/10/2025.</em></p>



<p style="font-size:19px">De acordo com Gompertz (2023), Frida pintava a sua realidade e não os seus sonhos. O cenário de fundo desse retrato é um céu de um azul intenso, com muitas nuvens. Na pintura, estão retratadas uma Frida com vestes mexicanas e outra com vestido de casamento em estilo colonial.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>São dois aspectos ancestrais da artista expressos na imagem: as raízes indígenas maternas e suas raízes europeias germânicas paternas. As duas figuras se ligam por uma veia que vai de coração a coração.</strong></p>



<p style="font-size:19px">A Frida vestida de noiva tem uma tesoura na mão e o vestido manchado de sangue que se funde com as flores vermelhas pintadas na barra do seu vestido. As Fridas olham diretamente para o observador. É um autorretrato que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>expõe suas dores, [&#8230;] seu conhecimento anatômico [&#8230;] o dualismo de suas origens, suas identidades, seu interior e exterior, o corpo e a mente, a Madonna e o Menino, a vida e a morte, a Frida europeia tem sangue nas mãos a Frida mexicana tem amor.</p><cite>(Gompertz, 2023, p. 42)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Ela usou todas as suas experiências dolorosas como janela para compreender o mundo. A artista pode ser compreendida como uma força da natureza na expressão de sua arte. Frida, além de artista, foi também uma defensora e revolucionária, expressando por meio de sua arte os valores nacionalistas. Diz Gompertz (2023, p. 37) “<em>O que ela dizia, pintava, vestia e escrevia era um manifesto sobre a independência e a cultura do México. Esse era seu tema. A dor era a lente pela qual o via</em>.”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-fotografia-entra-na-cena-dos-autorretratos" style="font-size:21px"><strong>A fotografia entra na cena dos autorretratos</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O advento da fotografia no século XIX trouxe um avanço tecnológico para o universo da arte. Como toda grande mudança, essa também não foi inicialmente bem aceita. Artistas pensaram que seria ali o fim da pintura. Na verdade, a fotografia trouxe para o universo da arte, depois deste susto inicial, novas maneiras de olhar e captar o mundo ao redor. Comenta-se que a pintura <em>Mulheres no Jardim</em> de <strong>Claude Monet</strong> provavelmente foi baseada em uma fotografia, e algumas de suas visitas aos bulevares parisienses foram inspiradas por fotos de Nadar, fotógrafo mais famoso da época, que as tirou de um balão de ar quente. (cf. Bugler, 2019, p. 229)</p>



<p style="font-size:19px">No cenário dos retratos, com a fotografia passando a ocupar um espaço no mundo contemporâneo, ela torna acessível a possibilidade das autoimagens àqueles que gostariam de ter seus retratos, mas que não tinham condições de arcar com os custos que isto representava. Artistas utilizavam da fotografia para minimizar o tempo e as dificuldades naturais de usar um modelo vivo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-gompertz-nos-diz-que-a-fotografia-revolucionou-a-arte-ao-passo-que-com-a-camera-o-artista-poderia-modificar-sua-forma-de-ver-para-o-autor-a-maquina-fotografica" style="font-size:19px"><strong>Gompertz</strong> nos diz que a fotografia revolucionou a arte, ao passo que com a câmera o artista poderia modificar sua forma de ver; para o autor a máquina fotográfica:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“desafiou os artistas a fazerem melhor. &nbsp;Ela permitia criar uma imagem com perspectiva linear com muito mais rapidez e com um custo muito menor do que faria um artista, e com maior autenticidade.” </p><cite>(Gompertz, 2023, p.175)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Para <strong>Walter Benjamin </strong>(1892 – 1940), ensaista alemão e um dos representantes da Escola de Frankfurt, o advento da fotografia representava um risco para as obras de arte. Segundo Benjamin (1933), as obras possuem uma “aura”, o que as torna autênticas e únicas, originais e vinculadas ao seu tempo-espaço de criação. Para o teórico, este caráter sagrado se perde, quando a técnica da fotografia passa a reproduzir de modo massivo as obras de arte. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-benjamim-escreve-em-1933-um-ensaio-chamado-a-obra-de-arte-na-era-de-sua-reprodutibilidade-tecnica-a-ssim-diz-ele" style="font-size:19px">Benjamim escreve, em 1933, um ensaio chamado <em>A Obra De Arte na era de Sua Reprodutibilidade Técnica</em>. A<strong>ssim diz ele:</strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>No início do século XX, a reprodução técnica tinha atingido um nível tal que começara a tornar objeto seu, não só a totalidade das obras de arte provenientes de épocas anteriores, e a submeter os seus efeitos às modificações mais profundas, como também a conquistar o seu próprio lugar entre os procedimentos artísticos. </p><cite>(Benjamim, 1933, e-book)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px"><strong>Benjamin</strong> (1933) compreendia, inclusive, que a reprodução de uma obra de arte, como um exercido de aprendizado de um novo artista, é altamente compreensível e inclusive recomendável, onde este estaria sendo treinado em sua nova &nbsp;&nbsp;profissão. A crítica vem da reprodução massiva e realizada por um meio tecnológico, o que tira o indivíduo da realização manual e da presença. Assim, ainda que bem reproduzida, a obra perde “o aqui e o agora”, que na visão do autor é o que vincula a obra a seu tempo. Esse modo de observar a entrada da fotografia no espaço da arte nos remete ao mundo contemporâneo.</p>



<p style="font-size:19px">É verdade que, com o passar do tempo, a fotografia se populariza e amplia a possibilidade de vermos imagens captadas, tornarem-se eternizadas. Além dos retratos pessoais, as fotografias congelam cenas de eventos, lugares, vivências, pessoas. Elas criam memórias que foram se acumulando em álbuns de retratos. Com o passar do tempo, esses álbuns armazenam as imagens fotográficas de forma tecnológica, por meio de imagens digitais, agora guardadas nas nuvens!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-selfies-e-as-autoimagens-nas-redes" style="font-size:21px"><strong>As selfies e as autoimagens nas redes</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Chegamos então à época das redes sociais. Recheadas de imagens criadas primeiro pelas máquinas dos celulares, depois por solicitação e montagens feitas pela inteligência artificial. Em seu livro <em>Existências Penduradas</em>, Norval Baitello Júnior (2019) nos presenteia com pequenos textos que provocam reflexões importantes acerca de como, em nosso mundo contemporâneo, estamos lidando com as imagens que criamos.</p>



<p style="font-size:19px">Conforme já foi apresentado, quando falamos de uma obra de arte, falamos de imagens que vão além do artista. Vimos que, quando o artista retrata numa pintura sua autoimagem, ele expressa emoções complexas e símbolos universais, presentes no espírito de seu tempo, como também nas feridas de sua alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-que-retratam-as-selfies-queridinhas-das-redes-sociais" style="font-size:19px"><strong>Mas o que retratam as <em>selfies</em>, queridinhas das redes sociais?</strong></h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Baitello</strong> (2019), em suas reflexões compreende que a <em>selfie</em> surge como um fenômeno, parte de um cenário global sendo disseminada pelos celulares, que cabem na mão e que contém um mundo em si. As fotos são realizadas de forma muito simples: “<em>A mão direita ou a esquerda levantada à frente e acima do corpo, o rosto voltado para o alto. Ao fundo, em frente, ou no fundo, logo abaixo, um cenário espetacular qualquer</em>” (Baitello, 2019 p. 14).&nbsp; Continua Baitello (2019, p. 15) a dizer que nesta imagem, todo o restante, o entorno perdem seu valor, dando lugar a um “corpo pendurado diante de um cenário”.&nbsp;&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Em sua obra, o autor questiona se estamos vivendo no mundo real ou nas imagens de nós mesmos e nos provoca a pensar, que ao seguir este padrão comportamental de nosso tempo, estaremos propensos a habitar mais as imagens do que o mundo. Nestas imagens somos imortais, transfigurados (vide os milhares de filtros fornecidos hoje pela IA). O homem encontra-se em uma encruzilhada entre viver nas fantasias de “eus” fictícios e imortais e a realidade de uma vida plena, sujeita às adversidades das dores, do envelhecimento e da morte. Para Baitello (2019) este cenário contemporâneo nos coloca em um paradoxo &#8211; estamos nelas e, ao mesmo tempo, fora delas &#8211; uma coexistência entre presença e ausência, em certo ponto, similar ao que apontava Benjamin (1933).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-baitello-no-decorrer-de-seu-livro-vai-ampliando-estas-imagens-sobre-as-selfies-e-suas-representacoes-e-nos-traz-diversas-provocacoes-como-nbsp-expressao-de-desamparo-2019-p-19" style="font-size:18px"><strong>Baitello</strong>, no decorrer de seu livro, vai ampliando estas imagens sobre as <em>selfies</em> e suas representações e nos traz diversas provocações como &nbsp;“expressão de desamparo” (2019, p.19).</h2>



<p style="font-size:19px">Em consonância com Benjamin (1933), ele comenta sobre o valor massivo capitalista das imagens “Isso é o valor da exposição, a grande moeda do nosso tempo.” (p. 53); e sobre o fato dessas imagens circularem ou orbitarem nas redes, o autor diz: “Orbitar é permanecer, ainda que como lixo!” (p. 84).</p>



<p style="font-size:19px">Há diversas outras pontuações como estas, o que nos faz compreender, como as <em>selfies</em> e sua profusão nas redes sociais representam não mais um alinhamento genuíno e profundo, com a alma do artista (quando estes se retratavam), mas um verdadeiro distanciamento do indivíduo de si mesmo e de sua alma.</p>



<p style="font-size:19px">Ao provocar essa comparação, não tenho o interesse de demonizar o que acontece no mundo atual e nem retirar o valor da nossa evolução tecnológica. A comparação entre estas dois mundos nos servem para uma reflexão sobre a polaridade racionalista e distanciada do sentido da vida que estamos vivendo. A vida hoje se dá em um mundo regido sob a égide de um conjunto de normas sociais que nos coloca num estado de alerta constante.</p>



<p style="font-size:19px">Parece que estamos em vias de perder a capacidade de fazer aquilo que uma obra de arte nos convidava a fazer: parar, contemplar, observar. Tudo é muito rápido, tudo é muito instantâneo. A um clique, você posta uma selfie, que é uma imagem sua. O artista, quando apresentava o seu autorretrato como referência do seu trabalho, tinha que ser fidedigno, como era Rembrandt, aos traços, às emoções, às expressões. Se pensarmos no que era o autorretrato, uma imagem trabalhada com muito cuidado, com muito apreço, com muita cautela. A alma do artista, de algum modo, estava expressa ali.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-varias-sao-as-questoes-que-surgem-aqui" style="font-size:19px"><strong>Várias são as questões que surgem aqui:</strong></h2>



<p style="font-size:19px"><strong>A alma de uma <em>selfie</em> está onde? Essa rapidez de pensamentos e sensações permite a contemplação? Será que há tempo de se pensar nessa <em>selfie</em> como um espelho da alma do indivíduo que se retrata nas redes sociais?</strong></p>



<p style="font-size:19px">Se Jung estivesse hoje acompanhando esse movimento, fico imaginando aqui o que ele diria. Uma das falas que penso ilustrar essa breve análise é a seguinte, presente na OC 8/2:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A psicologia analítica é uma reação contra uma racionalização exagerada da consciência que na preocupação de produzir processos orientados se isola da natureza e assim priva o homem de sua história natural e o transpõe para um presente limitado racionalmente que consiste num curto espaço de tempo situado entre o nascimento e a morte [&#8230;] A vida se torna então insípida e já não representa o homem em sua totalidade [&#8230;] Vivemos protegidos por nossas muralhas racionalistas contra a eternidade da natureza a psicologia analítica procura justamente romper essas muralhas ao desencavar de novo as imagens fantasiosas do inconsciente que a nossa mente é racionalista havia rejeitado.</p><cite>(Jung, OC 8/2, §739)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Claro que as selfies não são arte, mas estão vinculadas a um registro fotográfico, que tem origens e desdobramentos artísticos por sua natureza de reproduzir imagens pictóricas. Assim, as autoimagens se transformam em quadros “pendurados”, como conceitua Baitello (2019), distanciando-se da corporificação de quem as produz. Vale lembrar que, vinculado ao espírito de seu tempo, os autorretratos serviam para expor o talento do artista, mas também para expressar de forma autêntica, singular e genuína a profundidade anímica de quem produzia aquela pintura, muito além da técnica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-vazio-mecanicista-e-massivo-das-selfies-representam-uma-linha-bem-diferente" style="font-size:19px"><strong>O vazio mecanicista e massivo das <em>selfies</em> representam uma linha bem diferente.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Estas autoimagens traduzem o espírito de nosso tempo, em que se apela por pertencimento e aceitação. O meio ou o externo é mais importante. São imagens fragmentárias das identidades contemporâneas. Versões múltiplas de si mesmo, efêmeras e desconectas da expressão da alma.</p>



<p style="font-size:19px">Jonathan Haidt (2024, p. 200 &#8211; 202) em seu livro <em>A Geração Ansiosa</em>, comenta que as meninas são mais afetadas pelas imagens nas redes sociais do que os meninos. É mais comum, também, que as meninas façam mais <em>selfies</em> do que os meninos &#8211; uma vez que este meio, com este fim expositivo, as atraem bem mais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-modo-como-elas-sao-afetadas-e-descrito-pelo-autor-com-os-seguintes-pontos" style="font-size:19px">O modo como elas são afetadas é descrito pelo autor, com os seguintes pontos:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px">Há uma maior tendência das adolescentes se afetarem mais pela comparação social e pelo perfeccionismo;</li>



<li style="font-size:19px">O fato de as adolescentes serem mais sensíveis a agressões do tipo relacional, logo, serem vítimas fáceis de <em>bullying,</em> que as remetem exatamente a esse lugar das comparações e do ideal de imagem difundida nas redes sociais;</li>



<li style="font-size:19px">As meninas são mais abertas a exporem suas emoções, suas dificuldades, tornando-as, de algum modo, mais vulneráveis aos ataques e suas consequências;</li>



<li style="font-size:19px">Por serem mais vulneráveis, ficam mais expostas e mais sujeitas às cenas de assédio.</li>
</ul>



<p style="font-size:19px">Continua o autor, dizendo que as redes sociais se tornam uma grande armadilha, tendo ela um poder sobre relacionamentos para meninos e meninas, o que traz sérios desdobramentos para a saúde mental e uma tendência à solidão que disparou entre as meninas no início da década de 2010 (cf. Haidt, 2024, p. 202).</p>



<p style="font-size:19px">A partir desta análise, temos aqui uma questão evidenciada nas <em>selfies</em>: aspectos do espírito de um tempo, infelizmente, vazio, que não privilegia a contemplação, a possibilidade de uma conversa, a possibilidade de expressão de alma.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>O mundo moderno expõe mecanicamente imagens de pessoas, na busca de uma comparação, de uma referência irreal, massificando a possibilidade do alcance de uma identidade que converse com as reais demandas do indivídu</strong>o.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-os-artistas-e-suas-obras" style="font-size:21px"><strong>Jung, os artistas e suas obras</strong></h2>



<p style="font-size:19px">E o que é que a psicologia analítica, então, tem a ver com tudo isso? Para Jung (OC 15), o artista é um mediador. Como humano, é uma pessoa que possui um potencial criativo, mas que está a serviço de seu tempo e do sentido da sua época. Sobre isto, ele diz o seguinte:&nbsp;</p>



<p style="font-size:19px">Ainda que a obra de arte e o homem criador estejam ligados entre si por uma profunda relação, numa interação recíproca, não é menos verdade que não se explicam mutuamente. Certamente é possível tirar de um deduções válidas no que concerne ao outro, mas tais deduções nunca são concludentes. (Jung, OC 15 §134)</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Com esta afirmação, Jung nos convida a refletir sobre como a arte nasce de processos psíquicos profundos. Há uma intencionalidade inconsciente e um trabalho simbólico da alma. A tentativa de compreender o artista não pode ser vista separadamente da possibilidade de compreender o próprio funcionamento da psique humana. Quando o artista cria uma obra, ele torna-se um canal por meio do qual manifesta-se o inconsciente coletivo e o sentido pulsante do espírito de seu tempo. A arte, neste sentido tem pra Jung uma função compensatória, trazendo à luz da consciência daquilo que precisa ser reconhecido e integrado. Assim, a visão de Jung sobre o artista se dá da seguinte forma: “Enquanto pessoa, tem seus humores, caprichos e metas egoístas; mas enquanto artista ele é, no mais alto sentido, “homem”, e <em><strong>homem coletivo</strong></em>, portador e plasmador da alma inconsciente e ativa da humanidade.” </p><cite>(Jung, OC 15, § 157, grifos do autor)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Assim, a arte não é compreendida por Jung simplesmente como um sintoma da vida pessoal do artista, nem a psique do artista se reduz à sua criação. Jung enxerga a autonomia da obra de arte. Depois de criada, ela adquire uma vida própria, em uma existência simbólica independente de seu autor. O vínculo entre o criador e sua obra é profundo, mas não causal nem explicativo no sentido estrito. Assim, as possíveis análises de uma obra de arte não podem se propor a fechar uma reflexão. Elas devem ser amplas, do mesmo modo que Jung compreende o sonho. Não se deve perder a riqueza simbólica que uma obra carrega em todos os elementos que ela possui.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-dizia-que-a-psique-se-expressa-por-meio-de-imagens" style="font-size:19px">Jung dizia que a psique se expressa por meio de imagens.</h2>



<p style="font-size:19px">São muitas as suas afirmações a este respeito, mas uma em particular, tem um trecho na OC 8/2 que vem contribuir para a análise que está sendo desenvolvida aqui. Para o autor:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Somente quando nos contemplamos no espelho da imagem que temos do mundo é que nos vemos de corpo inteiro. Só aparecemos na imagem que criamos. Só aparecemos em plena luz e nos vemos inteiros e completos em nosso ato criativo. Nunca imprimiremos uma face no mundo que não seja a nossa própria; e devemos fazê-lo, justamente para nos encontrarmos a nós próprios, porque o homem, criador de seus próprios instrumentos, é superior à Ciência e à Arte em si mesmas. </p><cite>(Jung, OC 8/2, §737)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Partindo deste ponto, fico imaginando Frida Kahlo, dada a delicadeza e a profundidade de suas autoimagens, sendo expostas num imediatismo sem reflexão das redes sociais. Suas obras, além de expressarem sua dor e o seu físico vilipendiado, expressam marcas do seu tempo. <strong>Não há na obra de arte os tais filtros que disfarçam e que mascaram aquilo que a alma pretende dizer</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">Os filtros das redes funcionam como <strong>personas</strong>, máscaras midiáticas e digitais, por meio das quais as pessoas tentam aparentar o que não são, na tentativa de se adaptar a um mundo que não os aceita em sua forma autêntica.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo - &quot;O caminho da alma: dos autorretratos às selfies&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/fIMwPN3T1KQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/gilmaraalves/">Gilmara Marques Fadim Alves – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina M. Guarnieri – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>BAITELLO JÚNIOR, Norval. <em>Existências penduradas: ensaios sobre o mundo da imagem e o pensar</em>. São Paulo: Unisinos, 2019.</p>



<p>BENJAMIN, Walter. <em>A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica</em>. 1933, E-book.</p>



<p>BUGLER, Caroline [et al.]. <em>O Livro da Arte</em>. 1. ed. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.</p>



<p>GOMPERTZ, Will. <em>Como os artistas veem o mundo</em>. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2023.</p>



<p>HAIDT, Jonathan. <em>A Geração Ansiosa: como a Grande Reconfiguração da Infância está causando uma epidemia de doenças mentais</em>. 1. ed. São Paulo: Cia. das Letras, 2024.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>O espírito na arte e na ciência</em>. Petrópolis: Vozes, 2017 OC 15</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da Psique</em>. Petrópolis: Vozes, 1991. OC 8/2</p>



<p>MULLINS, Charlotte. <em>Uma breve história da arte</em>. Porto Alegre: L&amp;PM, 2024.</p>



<p></p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><a href="www.ijep.com.br"><img loading="lazy" decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP.png" alt="" class="wp-image-11494" style="width:637px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/12/Pos-graduacoes-IJEP-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></a></figure>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O que Prometeu, Epimeteu e Pandora tem com as BETs?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-que-prometeu-epimeteu-e-pandora-tem-com-as-bets/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gabriel Yamaya]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Nov 2025 20:24:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[apostas]]></category>
		<category><![CDATA[bets]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[epimeteu]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[pandora]]></category>
		<category><![CDATA[prometeu]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O presente texto visa trazer um pouco de reflexão no que anda ocorrendo na psique coletiva, dentro do mercado das BETS, das últimas notícias e dos dados alarmantes que envolvem esse segmento no Brasil. O crescimento dos números e o aumento de problemas ocasionados pelas apostas online, seja em caráter social, psicológico ou financeiro, [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Resumo</strong>: O presente texto visa trazer um pouco de reflexão no que anda ocorrendo na psique coletiva, dentro do mercado das BETS, das últimas notícias e dos dados alarmantes que envolvem esse segmento no Brasil. O crescimento dos números e o aumento de problemas ocasionados pelas apostas online, seja em caráter social, psicológico ou financeiro, deixam essa questão em nítida evidência, trazendo um certo olhar de atenção para o que está por trás desse fenômeno que tem impactado negativamente a vida de muitas pessoas. Por isso, esse artigo busca ampliar essa questão através do olhar da psicologia analítica de Carl Gustav Jung e de uma breve releitura do mito de Prometeu, Epimeteu e Pandora. Numa tentativa de associar o que simbolicamente vem acontecendo dentro dos indivíduos, que estão sendo levados a gastar seus salários e economias, rompendo casamentos, perdendo empregos, caindo assim num grande conflito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-notorio-como-o-numero-em-apostas-esportivas-tem-aumentado-significativamente-nos-ultimos-anos" style="font-size:21px">É notório como o número em apostas esportivas tem aumentado significativamente nos últimos anos.</h2>



<p style="font-size:19px">É um mercado que já movimenta bilhões de reais, muitas dezenas e até milhares de pessoas estão engajadas nesse movimento coletivo, que não se dá somente nos dias de hoje, mas, que se iniciou desde a época da Roma e Grécia antiga, em corridas de bigas e gladiadores. Já na China antiga, esse tipo de dinâmica existe há mais de 2 mil anos, com jogos de dados e formas rudimentares de loteria.</p>



<p style="font-size:19px">O objetivo desse artigo é articular sobre diversas perspectivas, fazendo aproximações entre o mito de Prometeu, Epimeteu e Pandora. Além disso, iremos olhar a partir da teoria da psicologia analítica, de Carl Gustav Jung, no que pode estar por detrás desse tema que é observado há vários séculos e, que tem levado as pessoas a terem prejuízos, financeiros, sociais e psicológicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-a-empresa-pwc-houve-crescimento-acelerado-das-apostas-esportivas-no-brasil-sendo-que-de-2020-a-2024-tivemos-um-aumento-de-89" style="font-size:19px">Segundo a empresa PWC, houve crescimento acelerado das apostas esportivas no Brasil, sendo que de 2020 a 2024 tivemos um aumento de 89%.</h2>



<p style="font-size:19px">Já em termos financeiros, a indústria de apostas esportivas no Brasil, movimenta estimadamente, entre R$60 bilhões e R$100 bilhões em 2023. De acordo com essa pesquisa, os apostadores de esportes <em>online</em> são formados, em sua maioria, por homens jovens e de classe média baixa. 54% dos respondentes afirmam que a motivação deles para apostar é somente o desejo de ganhar dinheiro.</p>



<p style="font-size:19px">Segundo o CNC, em nota emitida em 23 de setembro, o Banco Central, apontou que são gastos entre R$20 bilhões e R$30 bilhões por mês no Brasil e, em agosto de 2024, foi realizado um estudo que identificou que cerca de R$3 bilhões foram pagos com o Bolsa Família.</p>



<p style="font-size:19px">No que diz respeito às questões de caráter social e psicológico, foi possível identificar através de um artigo publicado pela UNIFESP (Carneiro,2020), que 1,4 milhões de brasileiros apostadores já desenvolveram transtornos de jogo, com inúmero impacto em suas vidas.</p>



<p style="font-size:19px">Ainda falando nesse estudo e outros que estão ali presentes, foram levantados dados da AFIFI et al. (2010) que apontam que para mulheres o surgimento para o desejo dos jogos está associado com a meia idade, ter uma renda mensal baixa, ou mediana, baixo nível educacional, nunca terem se casado, terem uma vida estressante e terem uma baixa habilidade de lidar com os desafios da vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ja-entre-os-homens-ter-problemas-associados-ao-jogo-estaria-relacionado-a-serem-divorciados-ou-viuvos-alem-da-falta-de-suporte-social" style="font-size:19px">Já entre os homens, ter problemas associados ao jogo, estaria relacionado à serem divorciados, ou viúvos, além da falta de suporte social.</h2>



<p style="font-size:19px">Outro apontamento que chama atenção nessa pesquisa é que o antes chamado Transtorno do Impulso no DSM IV recentemente está sendo nomeado como <strong>Jogo Patológico</strong> &#8211; que estava agrupado com patologias, como Oniomania, impulso sexual excessivo, automutilação recorrente, vídeo game compulsivos, entre outros, justamente por ter similaridades com a dependência química. Ficou assim associado, inicialmente, em modelos pré-existentes, sendo agora, considerado um formato a ser seguido, como parâmetro até para estudos, diagnósticos e tratamento de outras dependências, não consideradas químicas, ou seja, comportamentais.</p>



<p style="font-size:19px">Vale ressaltar que esse tipo de comportamento não é ainda levado com a devida seriedade, sendo a nossa própria estrutura social um grande problema dentro dessa questão. Fazendo com que a necessidade de criar estratégias e formas preventivas no ambiente escolar, bem como no social, destinados à infância e à adolescência, seja deixada em segundo plano (Frisone. et al, 2020).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quantas-propagandas-sao-vistas-das-empresas-que-sao-responsaveis-por-esse-s-tipos-de-jogos" style="font-size:19px"><strong>Quantas propagandas são vistas das empresas que são responsáveis por esse</strong>s<strong> tipos de jogos?</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Elas utilizam diversos tipos de meios de veiculação em massa para atingir o público, seja nas camisas de time de futebol, anúncios na TV aberta, como à cabo, rádio, redes sociais. Aproveitam e utilizam celebridades no mundo esportivo, campeões olímpicos, blogueiras e influenciadores digitais, encenando como se fosse uma simples diversão, e até mesmo a possbilidade de ganhos financeiros aos espectadores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-enredo-de-prometeu-epimeteu-pandora-e-as-bets" style="font-size:22px"><strong>O enredo de Prometeu, Epimeteu, Pandora e, as BETS</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Como o próprio mito trás, Prometeu era um titã, que deu fogo aos homens, tido como o criador da humanidade, que como a narrativa diz, ele é aquele que vê antes, ou, tido como prudente. Seu irmão, Epimeteu, que vê depois, é tido como o inconsequente, já Pandora, a primeira humana criada por Zeus, com grandes qualidades, como graça, beleza, persuasão, inteligência, meiguice, paciência e, eloquência. Prometeu, desperta a ira de Zeus, onde após enganá-lo num ato de sacrifício, faz com que ele retire dos seres humanos o fogo, e assim os fazem sofrer com o frio, perdendo a capacidade de dominar a natureza e utilizá-lo ao seu favor.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-prometeu-entao-se-sente-compadecido-pelos-seres-humanos-decide-assim-roubar-o-fogo-divino-e-da-lo-aos-seres-humanos-fornecendo-a-capacidade-do-saber-tecnico-do-conhecimento-e-o-pensamento-simbolico" style="font-size:19px">Prometeu, então, se sente compadecido pelos seres humanos. Decide, assim, roubar o fogo divino e dá-lo aos seres humanos &#8211; fornecendo a capacidade do saber técnico, do conhecimento e o pensamento simbólico.</h2>



<p style="font-size:19px">Todo esse ocorrido não é bem visto por Zeus, pois, isso faz com que ele se sinta desafiado em sua posição, já que deixa os seres humanos numa condição de independência e gera uma possível quebra na hierarquia. Como punição, Zeus o coloca sob uma rocha, onde uma águia come diariamente o seu fígado que se regenera para ser devorado pelo animal repetidamente. Dando uma possível conotação de como a sua arrogância, dos seus saberes e previsões, lhe concede a um repetido sofrimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-prometeu-orgulha-se-de-ter-passado-o-conhecimento-aos-seres-humanos-onde-num-paradoxo-junto-com-essa-qualidade-vem-uma-dor-que-todos-carregam" style="font-size:19px">Prometeu orgulha-se de ter passado o conhecimento aos seres humanos onde, num paradoxo, junto com essa qualidade vem uma dor que todos carregam.</h2>



<p style="font-size:19px">Sendo este representado pelo homem que se diz visionário, premonitor do futuro e das sortes lançadas, contudo, punido por suas transgressões.</p>



<p style="font-size:19px">Num possível paralelismo, seres humanos, com seu ego inflado, podem vir a assemelhar-se a Prometeu nessa parte do mito que, num ato prometéico, rouba o fogo dos deuses, tentando até mesmo no caso das possíveis previsões e adivinhações, dominar o destino de suas vidas, acreditando fielmente serem senhores dos seus destinos (<em>hybris</em>).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-as-apostas-esportivas-podem-ser-vistas-aqui-como-uma-tentativa-moderna-de-roubar-o-fogo-dos-deuses-controlar-o-acaso-e-prever-o-futuro" style="font-size:19px">As apostas esportivas podem ser vistas, aqui, como uma tentativa moderna de roubar o fogo dos deuses, controlar o acaso e prever o futuro.</h2>



<p style="font-size:19px">Dessa maneira, desejam antever o que irá ocorrer, utilizando suas faculdades mentais e prometéicas para ganhos financeiros, em jogos de azar, como as BETS, numa empreitada vazia e sem sentido, de adivinhações de resultados, visando apenas o lucro financeiro, como que aplicando os saberes apenas em benefício próprio.</p>



<p style="font-size:19px">Aqui a técnica fica completamente desacompanhada do sagrado, onde, separado da alma, o conhecimento acaba trazendo a morte simbólica e até literal do indivíduo. Assim como alguns viciados em jogos que chegam a cometer suicídio, pois, é visto que pessoas que têm uma relação problemática com jogos de azar têm 2 a 3 vezes mais probabilidade de pensar em tirar a própria vida &#8211; conforme artigo publicado na revista&nbsp;<a href="https://psycnet.apa.org/fulltext/2024-35228-001.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Psychological Bulletin</em></a>.</p>



<p style="font-size:19px">O ponto em que Prometeu é punido (fígado devorado) faz pensar se o sofrimento repetitivo, da compulsão, não seja o castigo dos seres humanos que, assim como nos jogos de azar, ficam num pesado ciclo, entre o arrependimento e a recaída, que só fazem eles se afundarem nos inúmeros prejuízos que as apostas levam.</p>



<p style="font-size:19px">Já Epimeteu comete um ato desmedido em sua tarefa, no momento que ele deve conceder aos seres vivos habilidades, dando diversos talentos aos animais, como força, velocidade, garras, defesas; gastando tudo o que tinha e sobrando quase nada aos seres humanos. Ato que foi corrigido por Prometeu que rouba o fogo e a técnica dos deuses para compensar a falta de habilidade física que lhes faltavam.</p>



<p style="font-size:19px">Epimeteu, o que age sem pensar, age imprudentemente, aproximando-se aqui dos apostadores patológicos que, sem refletir e impulsionados por sentimentos de gratificação e recompensa, acreditando que irão sempre ganhar dinheiro, ficam dessa forma presos nesse ato epimetéico desmedido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-epimeteus-contenporaneos-das-bets-sao-tomados-por-uma-compulsao-exacerbada-que-ate-mesmo-endividados-esses-sujeitos-continuam-apostando" style="font-size:19px">Os <em>epimeteus</em> contenporâneos das BETS, são tomados por uma compulsão exacerbada, que até mesmo endividados, esses sujeitos continuam apostando.</h2>



<p style="font-size:19px">É visto que, 58% das pessoas que gastaram com&nbsp;BETS, por meio de aplicativos ou sites na internet, estão nessas condições, conforme publicado num estudo realizado pela <a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/10/01/mais-de-22-milhoes-de-pessoas-apostaram-nas-bets-no-ultimo-mes-revela-datasenado?utm_source=chatgpt.com"><em>Agência Senado</em></a><em>, </em>em 2024. Os então <em>epimetéicos</em> de hoje, como o mitologema traz, continuam gastando tudo no “bicho” &#8211; coincidência ou não, um dos jogos mais famoso nos dias de hoje é chamado de&nbsp;“Tigre da Fortuna” , além do conhecido “Jogo do Bicho”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seres-humanos-que-como-titas-das-bets-comportam-se-como-prometeu-e-epimeteu-nos-mitos" style="font-size:19px">Seres humanos que, como titãs das BETS, comportam-se como Prometeu e Epimeteu nos mitos.</h2>



<p style="font-size:19px">De um lado, prevendo e utilizando suas capacidades de introverter sua energia psíquica: como que entrando em contato com seu íntimo, numa tentativa de sentir algo que está dentro de si, como que uma voz, buscam aproximar-se de uma sensação que os instiga a escolher determinados números, cores, resultados, animais e o momento certo para utilizá-los, nessas inúmeras rodadas de palpites e adivinhações; ou então colocando toda sua energia psíquica para fora: como que agindo com um certo fazer em direção ao meio, para ver depois o que foi assim feito.</p>



<p style="font-size:19px">Delineando o que a extroversão psíquica tem em sua característica, promovendo no sujeito o desejo de ser para o mundo o que ele acha que o mundo quer dele, num foco total aos objetos exteriores, visando impressioná-los, dominá-los e, até mesmo possuí-los, numa exagerada atitude externa, esse não prevê, mas, apenas vê, o montante de dinheiro, o prazer momentâneo, do jogar pelo jogar, até as últimas consequências, ou inconsequências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-logo-o-perigo-do-extrovertido-esta-em-querer-ser-atrai-do-para-dentro-do-objeto-e-la-se-perder-completamente-oc6-627-633" style="font-size:19px">Logo, “<strong><em>O perigo do extrovertido está em querer ser atrai-do para dentro do objeto e lá se perder completamente</em></strong>”(OC6, § 627-633).</h2>



<p style="font-size:19px">O apostador parece que vive na dicotomia entre as duas instâncias, refém de dois irmãos que operam em sua psique, um que o faz querer adivinhar e o outro realizar.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A linha de vida que Prometeu escolhe é, sem dúvida, introvertida. Ele sacrifica toda ligação com o presente para, por meio da previsão, criar um futuro distante. Já com Epimeteu é bem diferente: ele percebe que seu objetivo é o mundo e aquilo que o mundo valoriza.</p><cite>JUNG, 2020, §282</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-pandora-foi-criada-sob-as-ordens-de-zeus-que-mandou-hefesto-um-ser-inventivo-deus-do-fogo-e-das-habilidades-tecnicas-criar-uma-mulher-com-todas-as-perfeicoes-assim-feito-ele-teria-de-leva-la-a-assembleia-dos-deuses-para-apresenta-la" style="font-size:19px">Pandora foi criada sob as ordens de Zeus que mandou Hefesto, um ser inventivo (deus do fogo e das habilidades técnicas), criar uma mulher com todas as perfeições. Assim feito, ele teria de levá-la à assembleia dos Deuses para apresentá-la.</h2>



<p style="font-size:19px">Todos ficaram encantados com ela e cada deus então lhe deu um dom: Atena, o das artes, neste caso de tecer; Afrodite, o encanto; Cárites, que é deusa da persuasão e beleza, lhe deu colares ouro; Hermes, deus da comunicação ou mensageiro dos deuses, lhe deu a capacidade de persuadir ou a arte de seduzir os corações através de discursos insinuantes.</p>



<p style="font-size:19px">Após receber todos os presentes, Zeus dá a <strong>Pandora</strong> uma caixa bem fechada e ordenou-lhe que levasse como presente a Prometeu  que, por sua vez, rejeitou e recomendou que Epimeteu fizesse o mesmo. Contudo, ao ver tal beleza, Epimeteu ficou encantado e a tomou como esposa. Em uma dada circunstância, Pandora abre a caixa que acaba espalhando para o mundo desgraça e desespero. Sobrando, dentro da caixa, somente a esperança.</p>



<p style="font-size:19px">As estratégias de marketing atuais das BETS refletem bem uma sedução <em>pandóriana</em>, donde o indivíduo voltado para fora, assim como Epimeteu, no mito, sem reflexão, se sentisse deslumbrado, com tanta resplandecência de tais atributos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-trazendo-uma-possivel-associacao-entre-os-meios-de-publicidade-utilizados-hoje-para-atrair-os-apostadores-e-os-dons-de-pandora" style="font-size:19px">Trazendo uma possível associação entre os meios de publicidade utilizados hoje para atrair os apostadores e os dons de Pandora.</h2>



<p style="font-size:19px">Os presentes dos deuses de Pandora, encontram-se em diversas atividades publicitárias das BETS, no caso, na arte de tecer dada por Atena, que produzem <em>layouts</em>, cores, fontes e as logomarcas dessas empresas, na aparente beleza de ganhos financeiros, em discursos cheios de promessas, que saem das gargantas dos influencers, envolvidas pelos colares de ouro de Cárites, sedução das narrativas dos vários slogans, com uma comunicação e fala insinuantes, concebidas por <strong>Hermes</strong> que, ousam dizer, que é possível até mesmo jogar de maneira contida, como a frase: “<strong><em>Não mete o loco, jogue responsável</em></strong>”, frase adotada por umas das BETs mais famosas do país.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-epimeteus-da-contemporaneidade-que-quase-hipnotizados-se-lancam-sem-pensar-nas-ideias-fabricadas-pelas-novas-pandoras-ou-a-industria-de-propagandas-das-bets" style="font-size:19px"><strong>Epimeteus</strong> da contemporaneidade que, quase hipnotizados, se lançam sem pensar nas ideias fabricadas pelas novas pandoras, ou a indústria de propagandas das BETs.</h2>



<p style="font-size:19px">Iludidos em gerar riqueza financeira, prometendo a possibilidade de ganhos justos ou até mesmo de ter isso como uma possibilidade de renda fixa. <strong>Casando-os com essa fantasia imputada ou gerada em suas mentes, enamorando-se com a vaidade que esse tipo de união instável assim proporciona.</strong></p>



<p style="font-size:19px">Todo sofrimento e angústia, despejados no mundo ao abrir a caixa de Pandora, fazem com que os Prometeus e Epimeteus busquem prazeres momentâneos, no intuito de atenuar esse mal estar, esquecer as mazelas, ou aliviar as suas angústias, vendo nos jogos a possibilidade de que isso se atenue.</p>



<p style="font-size:19px">Nesse contexto, as apostas são consideradas subterfúgios que, segundo Carneiro (2024), estão bastante presentes na sociedade moderna que se apresenta, cada vez mais, como uma grande fabricante de pessoas ávidas por anestesiamento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ainda-relembrando-a-participacao-mitica-de-pandora-nao-podemos-deixar-de-citar-que-na-caixa-restou-a-tao-famosa-esperanca" style="font-size:19px">Ainda relembrando a participação mítica de Pandora, não podemos deixar de citar que na caixa restou a tão famosa Esperança.</h2>



<p style="font-size:19px">Considerada paradoxal por alguns filósofos, em sua ambiguidade também encontra-se no universos de apostas online, numa ilusão, envolvida pelo único e exclusivo desejo de possuir bens, alcançar fama e ter sucesso, mantendo os indivíduos no vício, mas que, ao mesmo tempo, poderia permitir que o indivíduo acreditasse também na sua transformação, desenvolvimento, evolução e transposição de padrões dominantes, regenerando-o.</p>



<p style="font-size:19px">A esperança aqui, que poderia ser força motriz do eterno vir a ser, fica enviesada na esperança de ganhar o que nunca se teve, para perder o que poderia ter sido, como que existindo nessa parcela da população somente a excitação do próximo ganho. Em um ciclo destrutivo que fica entre o quase ganhar e o perder, indo embora os seus trabalhos, finanças pessoais, relacionamentos e, por quê não, a si mesmo?</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;O que Prometeu, Epimeteu e Pandora tem com as BETs?&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/g4gKmcP1MBI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px"><strong>Gabriel Yamaya &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fontes" style="font-size:17px">Fontes:</h2>



<p style="font-size:16px">CARNEIRO, Elizabeth &#8211; Jogo de aposta: um assunto de sáude pública ainda negligenciado e em franca expansão no Brasil e no mundo. 2024. Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). https://repositorio.unifesp.br/items/d44157fb-bd00-45aa-9662-d600201d8c00. Acesso em: 12 de março de 2024.</p>



<p>Revista Pesquisa FAPESP. A proliferação de sites de apostas aumenta os gastos das famílias e o risco de problemas de jogos de azar. Brasileiros apostam R$ 20 bilhões por mês online e a demanda por tratamento de dependência está aumentando. 2024. https://revistapesquisa.fapesp.br/en/proliferation-of-betting-sites-increases-household-spending-and-risk-of-gambling-problems/. Acesso em: 14 de outubro de 2024.</p>



<p>Sala da Imprensa. PwC: parte do orçamento familiar no Brasil é transferido para apostas esportivas e setor de Varejo sente o impacto. https://www.pwc.com.br/pt/sala-de-imprensa/release/pwc-parte-do-orcamento-familiar-no-brasil-e-transferido-para-apostas-esportivas-e-setor-de-varejo-sente-o-impacto.html?. Acesso em: 26 de agosto de 2024.</p>



<p style="font-size:16px">Portal do Comércio. Galípolo diz à CPI que Banco Central não possui papel na regulamentação das bets. 2025. https://portaldocomercio.org.br/diario-legislativo/galipolo-diz-a-cpi-que-banco-central-nao-possui-papel-na-regulamentacao-das-bets/. Acesso em: 10 de abril de 2025.</p>



<p style="font-size:16px">Agência Senado. Mais de 22 milhões de pessoas apostaram nas &#8216;bets&#8217; no último mês, revela DataSenado. 2024. <a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/10/01/mais-de-22-milhoes-de-pessoas-apostaram-nas-bets-no-ultimo-mes-revela-datasenado?utm_source=chatgpt.com">https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/10/01/mais-de-22-milhoes-de-pessoas-apostaram-nas-bets-no-ultimo-mes-revela-datasenado?utm_source=chatgpt.com</a>. Acesso em: 01 de outubro de 2024.</p>



<p style="font-size:16px">American Psychological Association. Suicídio em indivíduos com problemas de jogo. 2024. <a href="https://psycnet.apa.org/fulltext/2024-35228-001.html">https://psycnet.apa.org/fulltext/2024-35228-001.html</a>. Acesso em: 13 de maio de 2024.</p>



<p style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Tradução de Álvaro Cabral. Petrópolis: Vozes, 2013. (Obras completas de C. G. Jung, v. 6).</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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		<title>Do jeito que a vida quer, é, desse jeito!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/do-jeito-que-a-vida-quer-e-desse-jeito/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Natalhe Vieni]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Nov 2025 15:50:55 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>“Ninguém sabe a mágoa que trago no peitoQuem me vê sorrir desse jeitoNem sequer sabe da minha solidãoÉ que meu samba me ajuda na vidaMinha dor vai passando esquecidaVou vivendo essa vida do jeito que ela me levarVamos falar de mulher, a morena e dinheiroDo batuque do surdo e até do pandeiroMas não fale da [...]</p>
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<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg has-black-color has-text-color has-link-color wp-elements-f9ad04c8afa12fcf694e0e9bba725d46" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“Ninguém sabe a mágoa que trago no peito<br>Quem me vê sorrir desse jeito<br>Nem sequer sabe da minha solidão</em><br><em>É que meu samba me ajuda na vida<br>Minha dor vai passando esquecida<br>Vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar</em><br><em>Vamos falar de mulher, a morena e dinheiro<br>Do batuque do surdo e até do pandeiro<br>Mas não fale da vida<br>Que você não sabe o que eu já passei</em><br><em>Aumente esse samba que o verso não para<br>Batuque mais forte e a tristeza se cala<br>Que eu levo essa vida do jeito que ela me levar</em><br><em>É do jeito que a vida quer<br>É desse jeito”</em></p><cite><em>Benito di Paula</em></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-preambulo" style="font-size:20px"><em><strong>Preâmbulo</strong></em></h2>



<p style="font-size:19px"><em>Percebi que algumas canções a gente não &#8220;ouve&#8221;; a gente incorpora. O samba empurra o corpo pra frente, mesmo quando a alma quer ficar.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em><strong>Em &#8220;do jeito que a vida quer&#8221;&nbsp;eu escuto um chamado antigo: tornar-se quem se é, não pelo controle, mas pela entrega lúcida</strong>. No batuque, a memória do corpo aparece: lembranças guardadas na pele, histórias que o Brasil tentou esquecer, afetos que pedem reconhecimento. É rito. É travessia.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>Penso na encruzilhada como esse lugar simbólico onde destino e escolha se encaram. Ali, a vida pede posição: qual caminho eu sustento? o do medo repetido, ou o da consciência que abre passagem? Individuar é aceitar que toda luz carrega sombra, e que a sombra, quando acolhida, vira potência criadora. É trabalho de alma e, sim, dá dor. Mas é dor que organiza, como quem afina um tambor antes da roda começar. Também é educação do sensível: aprender com o mundo, com o outro, com a própria história.</em></p>



<p style="font-size:19px"><em>A psique não nasce no vazio; ela dança no coletivo, no terreiro da cultura. Quando o corpo lembra, o país aparece dentro da gente: nossas veias abertas, nossa fome de justiça, nossas resistências miúdas que salvam o dia. e, pouco a pouco, a vida vai ensinando um compasso possível: menos perfeição, mais presença; menos culpa, mais cuidado; menos pressa, mais escuta. Se esse tema te atravessa, vem comigo nessa roda. Lê com calma, respira entre os parágrafos, deixa o samba trabalhar em você. Porque às vezes é isso: a alma aprende a caminhar&#8230; do jeito que a vida quer.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-cancoes-que-nao-se-ouvem-com-os-ouvidos-mas-com-o-corpo" style="font-size:21px"><strong>Há canções que não se ouvem com os ouvidos, mas com o corpo.</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O samba de <strong>Benito di Paula</strong>, em <em>“<strong>Do jeito que a vida quer</strong>”</em>, é uma dessas. Ele pulsa na alma coletiva, atravessa a história do Brasil e ressoa no inconsciente como um chamado à entrega, àquilo que Jung chamaria de Processo de Individuação, o processo de se tornar quem se é, mesmo diante das feridas e da sombra.</p>



<p style="font-size:19px">Mas esse chamado não ecoa apenas no indivíduo isolado: ele vibra nas camadas mais profundas da psique coletiva, onde a dor pessoal encontra a dor do mundo. É ali que o ritmo se torna ritual e o corpo se faz memória, corpo que dança, mas também carrega.</p>



<p style="font-size:19px">Carrega as marcas do que o país tentou esquecer: o lamento dos navios negreiros, o silêncio das senzalas, o grito das favelas, a solidão dos exílios internos. O samba é, então, mais que música, é um corpo simbólico onde o sofrimento coletivo ganha forma e respiração.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-1959-440-dizia-que-o-inconsciente-coletivo-e-um-solo-comum-uma-base-psiquica-universal-onde-se-enraizam-os-simbolos-e-as-experiencias-humanas" style="font-size:19px"><strong>Jung </strong>(1959, §440) dizia que o inconsciente coletivo é um solo comum, uma base psíquica universal onde se enraízam os símbolos e as experiências humanas.</h2>



<p style="font-size:19px">Nesse solo, a <strong>sombra coletiva</strong> do Brasil se move: feita de desigualdades, culpas coloniais e dores transgeracionais que atravessam séculos. Quando Benito canta, ele não fala só de si, ele canta o sofrimento do outro, o de todos.</p>



<p style="font-size:19px">E, ao fazê-lo, realiza um ato de Individuação que é também comunitário: transforma o lamento em gesto de comunhão, o trauma em criação. Ouvir essa canção é se perceber parte desse grande corpo vivo, onde a dor é compartilhada e, por isso mesmo, humanizadora.&nbsp; Porque há dores que só se suportam quando dançadas juntas.<br>E há canções que nos lembram que o caminho da consciência não é solitário, é coral.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-coletiva-guarda-o-sofrimento-de-um-povo-a-sombra-pessoal-o-que-cada-um-faz-com-esse-sofrimento-entre-uma-e-outra-o-samba-se-torna-ponte-o-gesto-de-transformar-o-que-herdamos-em-criacao-propria" style="font-size:19px">A sombra coletiva guarda o sofrimento de um povo; a sombra pessoal, o que cada um faz com esse sofrimento. Entre uma e outra, o samba se torna ponte, o gesto de transformar o que herdamos em criação própria.</h2>



<p style="font-size:19px">Benito canta o que muitos não ousam dizer: a mágoa no peito, a solidão disfarçada de sorriso. E nesse gesto de cantar a dor, a música transforma em rito. O samba, aqui, é mais que música, é alquimia. É o corpo se movendo em direção ao Self, o Eu maior, que sabe que a vida, em sua sabedoria arquetípica, sempre nos leva aonde precisamos estar, mesmo quando resistimos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quem-me-ve-sorrir-desse-jeito-nem-sequer-sabe-a-minha-solidao" style="font-size:21px">“<strong><em>Quem me vê sorrir desse jeito / nem sequer sabe a minha solidão</em></strong>”.</h2>



<p style="font-size:19px">Esses versos expõem o que <strong>Jung</strong> (1954, §70) descreve como o <strong>conflito entre Persona e Sombra</strong>: a face que mostramos ao mundo e aquilo que escondemos até de nós mesmos. A Persona, socialmente aceita, sorri, enquanto a Sombra, reprimida, chora. Mas é justamente quando o sujeito dá voz à sombra — como Benito o faz — que inicia um movimento de cura simbólica.</p>



<p style="font-size:19px">A música, portanto, torna-se um canal entre inconsciente e consciência, um modo de expressar o indizível, de revelar a verdade escondida sob as máscaras. O silêncio entre dois batuques é também parte da música. É nele que a alma respira, e que o som se transforma em escuta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-cancao-devolve-dignidade-a-dor-e-como-lembra-neumann-1995-p-84-o-processo-criativo-e-a-tentativa-da-psique-de-se-tornar-consciente-de-si-mesma" style="font-size:19px">A canção devolve dignidade à dor. E, como lembra Neumann (1995, p. 84), “<strong><em>o processo criativo é a tentativa da psique de se tornar consciente de si mesma</em></strong>”.</h2>



<p style="font-size:19px">Assim, cada verso é uma confissão, mas também uma oferenda: transformar sofrimento em arte é uma das formas mais antigas de religar-se ao sagrado. O samba, enquanto expressão da alma brasileira, nasce do entre-lugar: da dor e da festa, da escravidão e da liberdade, do corpo ferido que ainda assim dança.</p>



<p style="font-size:19px">Em “<strong><em>A Alma Brasileira</em></strong>”, <strong>Walter Boechat</strong> (2001), encontramos a noção de que o brasileiro se constrói na dialética entre o sofrimento e a criatividade, entre o trauma histórico e a potência simbólica de reexistir. Em “<strong><em>Desvelando a Alma Brasileira</em></strong>” Humbertho Oliveira, (2007), amplia-se essa visão, mostrando como o inconsciente coletivo nacional carrega as marcas de um povo que, ao transformar dor em ritmo, também cria um modo singular de Individuação coletiva.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>O samba, portanto, é uma psicologia em movimento, um modo de elaborar os complexos coloniais, as feridas da exclusão e as ambiguidades do amor</strong>. Ele cumpre o papel simbólico de ritualizar o sofrimento, devolvendo sentido à experiência humana. Como diria Jung (1964, §120), “<strong><em>o sofrimento precisa ser assumido; só o sofrimento assumido tem poder de transformação</em></strong>”. O batuque é, nesse sentido, uma forma de assumir o sofrimento dançando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-do-jeito-qu-e-a-vida-quer-essa-frase-e-entrega-e-sabedoria-ancestral" style="font-size:21px">“<em>É do jeito qu</em>e a vida quer.” Essa frase é entrega e sabedoria ancestral.</h2>



<p style="font-size:19px">Em “<em><strong>As veias abertas da América Latina</strong></em>”, <strong>Eduardo Galeano</strong> (1971, p. 11) fala de uma terra sangrada, mas viva, de um continente que aprendeu a sobreviver e cantar, mesmo sob a dor. Viver &#8216;do jeito que a vida quer&#8217; é reconhecer que o destino não é punição, mas processo. É o diálogo entre o consciente e o inconsciente, entre a vontade pessoal e o movimento arquetípico que conduz a existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-1958-828-dizia-que-o-destino-e-muitas-vezes-a-expressao-exterior-do-inconsciente" style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (1958, §828) dizia que o destino é, muitas vezes, a expressão exterior do inconsciente.</h2>



<p style="font-size:19px">Assim, quando Benito canta a entrega à vida, ele também nos convida à Individuação: confiar no ritmo que não controlamos, mas que, misteriosamente, sempre nos ensina algo sobre nós mesmos.</p>



<p style="font-size:19px">Talvez viver seja isso: aprender a ouvir o próprio samba interno. A música de Benito é um espelho do inconsciente coletivo latino-americano, um chamado à autenticidade num tempo em que tantos ainda vivem sob máscaras. Escutar &#8216;Do jeito que a vida quer&#8217; é lembrar que a vida não exige perfeição, exige presença. É permitir que a dor dance conosco, até que o riso e o pranto se tornem uma coisa só.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-ha-tambem-um-silencio-que-e-so-nosso-aquele-que-fica-depois-do-samba-quando-o-batuque-cessa-e-restamos-a-sos-com-o-que-nao-dissemos" style="font-size:19px">Mas há também um silêncio que é só nosso, aquele que fica depois do samba, quando o batuque cessa e restamos a sós com o que não dissemos.</h2>



<p style="font-size:19px">Talvez seja ali que se revele a parte mais difícil de viver “do jeito que a vida quer”: o encontro com a própria verdade. Entre o que mostramos e o que sentimos existe um intervalo, e nesse intervalo habita a persona, a máscara que criamos para sermos aceitos, para sermos amados, para caber no olhar do outro.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Jung (1954, §70) dizia que a persona é necessária à vida social, mas perigosa quando esquecemos que ela é apenas uma parte de nós</strong>. Quando nos identificamos demais com ela, perdemos o contato com a alma viva que pulsa por baixo. Sorrimos, mas o sorriso pesa. Vivemos cercados, mas raramente somos vistos. E as pessoas, presas em seus próprios espelhos, nos julgam a partir do reflexo que projetam, não da presença que somos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quantas-vezes-o-outro-acredita-nos-conhecer-quando-na-verdade-so-conhece-o-papel-que-desempenhamos-diante-dele" style="font-size:21px"><strong>Quantas vezes o outro acredita nos conhecer, quando na verdade só conhece o papel que desempenhamos diante dele?</strong></h2>



<p style="font-size:19px">É nesse desencontro que nasce a solidão profunda, não a solidão de estar só, mas a de não ser verdadeiramente percebido. E é também nesse ponto que o sofrimento se torna convite: o de retirar, aos poucos, as máscaras que nos impedem de sermos acolhidos. Porque o acolhimento só é possível quando há verdade, e a verdade, quando vem, costuma vir com lágrimas e muito, muito sofrimento, talvez por isso a escondemos tanto!</p>



<p style="font-size:19px">Benito canta com esse tipo de verdade: aquela que não busca aplauso, mas compreensão. Ao se mostrar ferido, ele nos ensina que vulnerabilidade não é fraqueza, é gesto de inteireza. Talvez a vida queira justamente isso: que deixemos de parecer fortes para, enfim, sermos humanos. Que aceitemos o olhar do outro não como espelho, mas como testemunha, alguém que vê e não julga, que escuta o que o corpo ainda não conseguiu dizer.</p>



<p style="font-size:19px">E é nesse momento, quando o samba silencia e resta apenas o coração batendo no mesmo compasso do mundo, que entendemos o que Benito sussurra por entre os versos: a vida quer verdade, não performance; presença, não perfeição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-o-mundo-raramente-entende-o-que-e-verdade-vivemos-em-uma-epoca-em-que-ate-o-afeto-precisa-justificar-sua-utilidade" style="font-size:19px">Mas o mundo raramente entende o que é verdade. Vivemos em uma época em que até o afeto precisa justificar sua utilidade.</h2>



<p style="font-size:19px">Ser gentil virou estratégia, ser bom virou marketing, e até o sofrimento precisa se explicar para ser tolerado. A alma, cansada de ter que provar valor, se recolhe. E o sujeito, pressionado a ser produtivo, a ser “positivo”, acaba perdendo o direito de simplesmente ser. Essa exigência de utilidade é a sombra da modernidade racional, que perdeu a escuta do símbolo e o valor do inútil, aquilo que simplesmente é.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Jung</strong> (1934, §134) advertia que “<strong><em>quanto mais o indivíduo se identifica com o papel social, mais se afasta do Self</em></strong>”. E esse afastamento dói, porque o mundo aplaude o desempenho, mas ignora o cansaço. Queremos ser compreendidos, mas somos constantemente interpretados; queremos ser acolhidos, mas somos medidos pelo quanto servimos. A necessidade de ser útil é uma das feridas mais sutis da modernidade, um amor condicionado, uma forma de sobrevivência travestida de virtude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quantas-vezes-o-amor-que-recebemos-vem-atrelado-a-funcao-que-exercemos-quantas-vezes-somos-lembrados-apenas-quando-fazemos-algo-que-os-outros-precisam" style="font-size:19px"><strong>Quantas vezes o amor que recebemos vem atrelado à função que exercemos? Quantas vezes somos lembrados apenas quando fazemos algo que os outros precisam?</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Essa incompreensão cotidiana, esse não ser visto pelo que se é, mas pelo que se oferece, fere silenciosamente o coração humano. A psique, nesse estado, adoece de invisibilidade. E, como diria <strong>Neumann</strong> (1995, p. 102), “<em>a perda da alma começa quando deixamos de sentir que temos um valor intrínseco</em>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-a-grande-cura-nao-esteja-em-sermos-uteis-mas-em-sermos-inteiros-mesmo-quando-a-inteireza-nos-torna-desconfortaveis-aos-olhos-do-mundo" style="font-size:19px">Talvez a grande cura não esteja em sermos úteis, mas em sermos inteiros, mesmo quando a inteireza nos torna desconfortáveis aos olhos do mundo.</h2>



<p style="font-size:19px">Benito, ao cantar sua solidão, recusa o papel de herói feliz e produtivo: ele devolve dignidade à vulnerabilidade. O samba, nesse sentido, é um ato de resistência contra a indiferença, um lembrete de que a alma não veio ao mundo para funcionar, mas para sentir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-momentos-em-que-o-abandono-e-uma-iniciacao-quando-ninguem-nos-entende-o-que-talvez-esteja-nascendo-e-a-escuta-da-alma" style="font-size:19px"><strong>Há momentos em que o abandono é uma iniciação. Quando ninguém nos entende, o que talvez esteja nascendo é a escuta da alma</strong>.</h2>



<p style="font-size:19px">Jung (1959, §446) dizia que o Self não surge na comodidade, mas no colapso das certezas. A incompreensão, então, é a sombra que prepara o encontro com o divino interior, um modo da vida dizer: “pare de representar e comece a existir”.</p>



<p style="font-size:19px">Podemos dar um passo além da crítica ao mundo e conduzir nossa consciência para dentro, descobrir que, por trás da dor de não ser compreendido, há um chamado do Self. Quando a persona se rompe, não é apenas sofrimento: é um início de renascimento psíquico. A solidão e o sentimento de inutilidade, vistos pelo olhar junguiano, são símbolos de uma travessia, o ego perdendo o controle para que o Self possa emergir.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-linguagem-de-jung-esse-gesto-de-acolher-o-sentir-e-o-retorno-da-anima-o-principio-feminino-da-alma-que-quando-silenciado-empobrece-o-mundo-interno" style="font-size:19px">Na linguagem de Jung, esse gesto de acolher o sentir é o retorno da anima, o princípio feminino da alma que, quando silenciado, empobrece o mundo interno.</h2>



<p style="font-size:19px">Podemos ainda refletir que vivemos em uma cultura que idolatra a razão e despreza o sentir. Acolher-se é um gesto feminino no sentido mais sagrado da palavra: é permitir que o amor volte a ter voz. Quando negamos o sentir, negamos a própria alma.</p>



<p style="font-size:19px">Por isso a música é tão essencial, ela pode devolver à psique o direito de chorar, de tremer, de ser atravessada. É o corpo relembrando à mente que viver é verbo que se conjuga com o coração. A ferida da não-escuta é também a ferida do princípio feminino, do sentir, do cuidado, da amorosidade que a sociedade patriarcal rejeita.</p>



<p style="font-size:19px">Há um instante em que todos chegamos à encruzilhada, o ponto onde o caminho já não pode ser apenas racional. Ali, somos convidados a entregar o controle e ouvir o que a vida quer de nós. O samba nasce dessa escuta: do passo que se arrisca, do compasso que aceita o improviso. Viver, afinal, é isso: dançar entre o que se escolhe e o que é escolhido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-talvez-o-segredo-esteja-justamente-ai-no-consentimento-amoroso-diante-do-destino-e-voce-tem-vivido-do-jeito-que-a-vida-quer-ou-ainda-tenta-conduzir-o-ritmo" style="font-size:19px"><strong><em>E talvez o segredo esteja justamente aí, no consentimento amoroso diante do destino. </em></strong><strong>E você, tem vivido do jeito que a vida quer, ou ainda tenta conduzir o ritmo?</strong></h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Do jeito que a vida quer, é, desse jeito!" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/IgSoLZm3ELU?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/natalhe/">Ms. Natalhe Vieni &#8211; Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>REFERÊNCIAS</strong>:</h2>



<p style="font-size:15px">BENITO DI PAULA. <em>Do jeito que a vida quer</em>. In: <strong>Benito Di Paula</strong>. Rio de Janeiro: Copacabana Discos, 1974. Faixa 5.</p>



<p style="font-size:15px">FREIRE, Paulo. <em>Pedagogia do oprimido</em>. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2020.</p>



<p style="font-size:15px">GALEANO, Eduardo. <em>As veias abertas da América Latina</em>. Porto Alegre: L&amp;PM, 2013.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>O desenvolvimento da personalidade</em>. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav. <em>Memórias, sonhos, reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.</p>



<p style="font-size:15px">NEUMANN, Erich. <em>A grande mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente</em>. São Paulo: Cultrix, 2008.</p>



<p style="font-size:15px">PIAGET, Jean. <em>A formação do símbolo na criança: imitação, jogo e sonho, imagem e representação</em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1990.</p>



<p style="font-size:15px">BOECHAT, Walter (Org.). A alma brasileira: luzes e sombra. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p style="font-size:15px">OLIVEIRA, Humbertho (Org.). Desvelando a alma brasileira: psicologia junguiana e raízes culturais. Petrópolis: Vozes, 2018</p>



<p style="font-size:15px">PRANDI, Reginaldo. <em>Mitologia dos orixás</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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		<title>Quando os titãs capturam os relacionamentos afetivos e a violência vira seu palco</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-os-titas-capturam-os-relacionamentos-afetivos-e-a-violencia-vira-seu-palco/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Pimentel Rocha]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 10 Nov 2025 14:09:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Nesse artigo, a temática da violência crescente nos relacionamentos afetivos é ampliada e debatida, passando pela metáfora dos titãs e da inconsciência ao se relacionar. A questão de como a ira e a agressividade ganham força também é abordada, levando em consideração a cultura atual e os ditames coletivos. Uma visão da sombra coletiva [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:20px"><strong>Resumo</strong>: Nesse artigo, a temática da violência crescente nos relacionamentos afetivos é ampliada e debatida, passando pela metáfora dos titãs e da inconsciência ao se relacionar. A questão de como a ira e a agressividade ganham força também é abordada, levando em consideração a cultura atual e os ditames coletivos. Uma visão da sombra coletiva é destacada como um dos pilares da violência e da agressividade rompante na sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-premissa-de-todo-relacionamento-afetivo-saudavel-criativo-e-funcional-o-conhecimento-minimo-sobre-a-natureza-subjetiva-daquele-que-se-propoe-a-compartilhar-dores-alegrias-sorrisos-e-angustias-com-o-outro" style="font-size:20px">É premissa de todo relacionamento afetivo saudável, criativo e funcional o conhecimento mínimo sobre a natureza subjetiva daquele que se propõe a compartilhar dores, alegrias, sorrisos e angústias com o outro.</h2>



<p style="font-size:20px">A delegação da responsabilidade própria de se autogerir e de se administrar emocionalmente ao outro acaba solapando um desenvolvimento conjunto e direcionado para uma finalidade construtiva.</p>



<p style="font-size:20px">Logo, abrir mão da própria capacidade de reconhecer quais aspectos precisam ser elaborados (presentes em uma projeção de conteúdos inconscientes), encarcera o movimento recíproco do dar e receber. A dinâmica do poder e do controle é a ferramenta titânica mais eficiente para a promoção da violência e da anestesia do tear vínculos e relações. &nbsp;Ferramenta estimulada a todo momento pela cultura, grupos e mídias sociais e contextos familiares.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:21px"><blockquote><p>Não resta dúvida que o mal provém, em grande parte, da inconsciência ilimitada do homem, como também é verdade que um conhecimento mais profundo nos ajuda a lutar contra as causas psíquicas do mal.</p><cite>Jung, OC.10/3, §166</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">Quanto mais inconscientes somos sobre o que nos atravessa, mais a consciência é invadida por conteúdos sombrios e pelas constelações dos complexos. Assim, em uma dinâmica conjugal, a razão e o discernimento são afastados, sendo substituídos pela ação do aspecto primitivo inconsciente de todo ser humano, anunciando a entrada em campo da força violenta e bruta dos titãs. Deste modo, se tem um embate entre sombras e não entre vozes conscientes e direcionadas a um amor compartilhado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-explica" style="font-size:20px">Jung explica:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>De modo geral, estas resistências ligam-se a projeções que não podem ser reconhecidas como tais e cujo conhecimento implica um esforço moral que ultrapassa os limites habituais do indivíduo. Os traços característicos da sombra podem ser reconhecidos, sem maior dificuldade, como qualidades pertinentes à personalidade, mas tanto a compreensão como a vontade falham, pois a causa a emoção parece provir, sem dúvida alguma, de outra pessoa.</p><cite>OC 9.2, §16</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-outro-alicerce-para-relacoes-abusivas-e-violentas-e-o-falsear-aquilo-que-somos" style="font-size:20px">Um outro alicerce para relações abusivas e violentas é o falsear aquilo que somos.</h2>



<p style="font-size:20px">A espontaneidade é o aroma que encanta e atrai multidões como também desperta fúria e perseguições. A angústia em ver no parceiro/a aquele lado que tanto foi renegado ou subvalorizado por mim, provoca terremotos e tsunamis emocionais profundas, capazes de destronar a consciência e levar o indivíduo a todo tipo de barbárie.</p>



<p style="font-size:20px">A inveja &#8211; aspecto genuinamente humano &#8211; daqueles que conseguiram expressar aquilo que tanto foi negado por mim é uma força que ganha intensidade quando a superficialidade se torna regra nas relações. A frustração interna em não ter trabalhado possibilidades e potências inerentes e múltiplas do ser se espelha em uma frustração externa, que se faz ser reconhecida independente da vontade pessoal, das defesas e compensações inconscientes.&nbsp; Esse movimento profundo de autoalienação cobra um preço alto e exige uma conscientização amarga, que infelizmente é desaguado nos parceiros/as.</p>



<p style="font-size:20px">A autoalienação é uma erva daninha que se espalha e se expressa de inúmeras formas. Seja em uma busca insaciável por um corpo perfeito, volumoso, com veias e voz grossa; seja por encantos de uma distorcida imagem social luxuosa ostentada em redes sociais com viagens e objetos de luxo. <strong>O território desconhecido em mim é o lugar de morada dos titãs</strong>.</p>



<p style="font-size:20px">Na mitologia, as figuras simbólicas dos titãs representam tanto uma força poderosa,&nbsp; intensa, construtiva da terra como a destruição brutal e domínio da consciência pelos instintos e forças primitivas. <strong>March</strong> comenta: “<strong><em>Depois Urano fecundou Gaia, que deu à luz a raça dos deuses primordiais conhecidas como titãs: Oceano, Ceos, Crio, Hiperio etc..</em></strong>” (March, 2016, p.42)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vale-ressaltar-que-a-fuga-de-si-mesmo-nao-poder-ser-abafada-por-uma-dependencia-afetiva-ou-seja-por-uma-ausencia-constante-daquilo-que-me-toca-e-me-afeta-genuinamente" style="font-size:20px">Vale ressaltar que a fuga de si mesmo não poder ser abafada por uma dependência afetiva, ou seja, por uma ausência constante daquilo que me toca e me afeta genuinamente.</h2>



<p style="font-size:20px">A maior plenitude de uma consciência é ter a sensibilidade psíquica, corporal, espiritual de poder ser tocada, mexida, afetada, sendo posteriormente elaborada, ampliada e integrada. Entretanto, não é um movimento inconsciente ao outro enredado por traumas, dores, ausências maternas, paternas que irá preencher um vazio infinito de valorização e de reconhecimento. Esse poço apenas pode ser preenchido por uma redenção ao centro solar, uno, que vivifica toda a vida; a autopercepção honesta, profunda e misericordiosa entoada pelo Si mesmo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-violencia-titanica-de-um-ser-humano-ignora-todas-as-dependencias-e-interrelacoes-necessarias-com-o-meio-que-o-cerca" style="font-size:20px">A violência titânica de um ser humano ignora todas as dependências e interrelações necessárias com o meio que o cerca.</h2>



<p style="font-size:20px">O que se tem é o uso da natureza como uma serviçal pronta para qualquer tipo de satisfação imediata e fugaz. Então, a partir do momento que há um corte no olhar observador que singulariza a natureza viva daquilo que chega até mim, o descarte, a agressão e o uso desalmado ganham palco. Então, podendo levar à fúria dos inconscientes e à derrocada de um encontro criativo e vivo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A sequência desses fenômenos é de certo modo ordenada por dois arquétipos, o da anima que exprime vida incondicional, e o do “velho sábio”, que personifica a mente.</p><cite>Jung, OC.14/1. §307</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ataque-violento-contra-a-figura-feminina-denota-uma-agressao-contra-a-propria-vida-que-se-torna-insuportavel-de-ser-vivida-e-sentida-aquela-que-se-torna-falsa" style="font-size:20px">O ataque violento contra a figura feminina denota uma agressão contra a própria vida que se torna insuportável de ser vivida e sentida, aquela que se torna falsa.</h2>



<p style="font-size:20px">A projeção da anima em mulheres, na comunidade homoafetiva e em tudo aquilo ligado ao sensível se transforma no alvo inconsciente a ser destruído por lembrar ao ego a dor e angústia profunda de se abandonar. A figura do feminino passa a carregar a ameaça constante do precipício que convida o ego massificado e ignorante de si mesmo a pular dentro (como uma tentativa de se resgatar).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-negacao-da-anima-da-vida-e-sua-conexao-gera-uma-ferida-angustiante-que-a-todo-tempo-relembra-sua-presenca-e-o-seu-vazio-jung-cita" style="font-size:20px">A negação da anima, da vida e sua conexão, gera uma ferida angustiante que a todo tempo relembra sua presença e o seu vazio. <strong>Jung </strong>cita:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A anima em seu aspecto negativo, isto é, quando ela, permanecendo inconsciente, oculta-se no sujeito e exerce uma influência possessiva sobre ele. Os sintomas principais dessa possessão são de uma parte caprichos cegos e confusões compulsivas, e de outra parte isolamento, frio e sem nenhum relacionamento, numa atitude de princípios (confusão de ideias).</p><cite>OC. 4/2, §204</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-monick-complementa" style="font-size:20px"><strong>Monick</strong> complementa:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Na fúria, a tempestade de resposta emocional nasce da necessidade urgente que o homem experimenta de proteger e salvar a sua identidade, o seu próprio ser- isso e/ou a retaliação da ofensa que está sobre ele, como ela é percebida subjetivamente. A ira pode ser a emoção que se sente quando não há nada a fazer. É mais provável que surja a fúria quando o homem se sente incapaz.</p><cite>Monick, 1993, p. 116</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espirito-da-epoca-cada-vez-mais-raso-seco-egoista-indiferente-estimulando-a-produtividade-e-performance-a-todo-custo-alavanca-a-ira-e-o-controle" style="font-size:20px">O espírito da época cada vez mais raso, seco, egoísta, indiferente estimulando a produtividade e performance a todo custo alavanca a ira e o controle.</h2>



<p style="font-size:20px">Como consequência, a raiva profunda em ser decepado, castrado, dividido e desmembrado em uma cama que não cabe a grandeza e a riqueza de ser quem somos é enterrada no inconsciente. Logo, a não permissão de sermos vistos com a totalidade intrínseca e inerente ao humano somado com a anestesia da capacidade de ligação com o mundo, com a natureza com aquilo que nos cerca, acaba constelando os titãs e ogros que habitam em todos nós.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ampliando-o-tema-monick-comenta" style="font-size:20px">Ampliando o tema, Monick comenta:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A fúria masculina é uma indicação de que um homem está em contato pessoal e doloroso com um ferimento profundo, até mesmo com o não-ser. Pode-se receber essa fúria, e afastar-se dela, julgando-a com dureza adequada, mas sem um mínimo de compreensão. </p><cite>Monick, 1993, p. 119</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px"><strong>Até que ponto a cultura vigente permite que haja um espaço para que a raiva e a exposição de feridas masculinas emocionais sejam elaboradas? Enquanto coletivo, abafamos a fúria ou damos espaço para que ela seja ouvida?</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-revolta-da-sombra-se-faz-presente-na-consciencia-de-todos-aqueles-que-vivem-de-maneira-inconsciente" style="font-size:20px">A revolta da sombra se faz presente na consciência de todos aqueles que vivem de maneira inconsciente.</h2>



<p style="font-size:20px">Seu motim, seu grito, é proclamado em alto e bom tom em todos de forma explicita ou implícita, degradando relacionamentos e vínculos conjugais. Como consequência, a raiva se intensifica e toma o lugar da consciência.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O campo amplo e vasto do inconsciente, não alcançado pela crítica e pelo controle da consciência, acha-se aberto e desprotegido para receber todas as influências e infecções psíquicas possíveis.</p><cite>Jung, OC. 10/1, §493</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">Nas consciências pautadas pelo princípio masculino, pode se expressar através da sequência extrema de socos e golpes em algo delicado; pela brutalidade de respostas desconcertantes e fora de contexto; pela indiferença do sentir do outro; na cegueira em momentos de abertura daquilo que fere e causa sofrimento, angústia.</p>



<p style="font-size:20px">Por outro lado, nas consciências pautadas pelo princípio feminino, pode se manifestar através de manipulações emocionais sutis e perversas; pelo controle da vida e dos movimentos do outro com uma voz aveludada e mansa; pela ambiguidade proposital de palavras, falas e atos; pela sedução e jogo de sinais afetivos deturpados e com aroma podre; ou até mesmo pelo uso efetivo e camuflado de benefícios que esconde a busca por um novo pai e não um parceiro ao lado.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Dizer que um indivíduo “teve um acesso de raiva” significa que algo caiu sobre ele e o subjugou; que o demônio está montado nele; que está possesso e que alguma coisa penetrou em seu íntimo.</p><cite>Jung, OC.8.2, §627</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">É importante destacar que gentileza e proteção, compaixão e apoio, atos de afeto e trocas são raízes de qualquer relacionamento saudável que busca uma construção conjunta. Entretanto, quando a invisibilidade do outro; quando há a percepção de um corpo vivo como um objeto ou um negócio que pode angariar benefícios; quando a minha total inconsciência sobre o que me desafia e me atravessa; a terra alquímica da união entre polos diferentes se torna seca, abrindo rachaduras através das quais o clamor das sombras e o grito dos titãs internos saem e fazem presença. Sendo todo esse processo iluminado com a coroa da violência e da destruição.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-fenomeno-moderno-comum-na-atualidade-e-colocar-estigmas-nas-relacoes-padroes-de-classificacao" style="font-size:20px">Um fenômeno moderno comum na atualidade é colocar estigmas nas relações, padrões de classificação.</h2>



<p style="font-size:20px">A fuga de relações profundas ao classificar “ficantes” em várias categorias cobra seu preço quando a ausência do contato (necessidade arquetipicamente humana) fala mais forte. Ao se colocar barreiras, requisitos a serem conquistados, avaliações empresariais e capitalistas em um campo afetivo e de aproximação e constituição de vínculos, uma faixa preta de alienação é amarrada nos olhos, na percepção de alma.</p>



<p style="font-size:20px">A máquina das redes socias em criar fantasias, as denúncias falsas de agressões de parceiros/as, a demonização e destruição da imagem masculina com a vulgarização interesseira da feminina alimentam nossos titãs. Formas de violência profunda que permeiam o campo social e coletivo. Se engana quem pensa que essa força agressiva, titânica, estimulada a todo instante “desaparece” em um passe de mágica ou por discursos ideológicos. É necessário o enfrentamento de si mesmo.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A culpa coletiva psicológica é uma fatalidade trágica; atinge a todos, justos e injustos, que, de alguma maneira, se encontravam na proximidade do crime.</p><cite>Jung, OC.10/2, §405</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mais-uma-vez-a-sombra-coletiva-tem-seu-peso-sua-voz-e-sua-forca-de-atuacao-no-inconsciente-coletivo-e-pessoal" style="font-size:20px">Mais uma vez, a sombra coletiva tem seu peso, sua voz e sua força de atuação no inconsciente coletivo e pessoal.</h2>



<p style="font-size:20px">Aquilo que não é reconhecido na dinâmica coletiva se manifesta em dinâmicas particulares, seja em relacionamentos seja em uma indisponibilidade para criar vínculos. O caminho não é a instrumentalização dessa força para se obter lucro, mas sim uma identificação, mediação, integração e diálogo não excludente da sua própria existência e eficácia.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importunam, diretamente ou indiretamente, como por exemplo traços inferiores de caráter e outras tendências incompatíveis.</p><cite>Jung, OC.9.1, §513</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px"><strong>Por fim, a amplitude da experiência humana, que permite uma ampliação de consciência, está sendo encaixotada em uma esteira de massificação e padronização de produtos</strong>.</p>



<p style="font-size:20px">O produto do relacionamento perfeito, instagramável, que atende todos os requisitos de um casal margarina que anda pelos campos com um cachorro <em>gold retriver</em>. Ou seja, uma ilusão que captura e sequestra a possibilidade de transformação mútua quando se relaciona afetivamente com alguém. A propaganda é: compre esse produto e não se preocupe em integrar os conteúdos sombrios e dos complexos. A máquina das redes socias e denúncias fazem o resto.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Quando os titãs capturam os relacionamentos afetivos e a violência vira seu palco&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/H_tk5-ZsZbc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/pedro-rocha/">Pedro Pimentel Rocha &#8211; Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi – Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p>JUNG, C. G. <strong>A natureza da psique</strong>.<strong>OC.8.2</strong> Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>Os arquétipos e o inconsciente coletivo. OC.9/1</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>Aion. Estudo sobre o simbolismo do Si-mesmo</strong>.<strong>OC.9.2</strong> Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>Presente e futuro. OC.10/1</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>Aspectos do drama contemporâneo. OC.10/2</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>Civilização em transição. OC.10/3</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>Mysterium Coniunctionis. OC.14/1</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p>JUNG, C. G. <strong>Mysterium Coniunctionis. OC.14/2</strong>. Petrópolis: Vozes, 2021</p>



<p>MARCH, J. <strong>Mitos clássicos</strong>. 2ªd – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016</p>



<p>MONICK, E. <strong>Castração e fúria masculina: a ferida fálica</strong>. São Paulo: editora paulinas, 1993.</p>



<p><a href="http://www.ijep.com.br"><strong>www.ijep.com.br</strong></a></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Cronos e Kairós &#8211; Tempo sem vida é ausência de alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/cronos-e-kairos-tempo-sem-vida-e-ausencia-de-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Mônica Araujo Contreras]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Oct 2025 15:00:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[atualidade]]></category>
		<category><![CDATA[cronos]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[kairós]]></category>
		<category><![CDATA[padrões culturais]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
		<category><![CDATA[tempo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Tempo, tempo, tempo, tempo. És um dos deuses mais lindos”&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; A partir do pequeno trecho acima da música “Oração ao tempo” escrita por Caetano Veloso, começo este artigo fazendo um convite para que reflitam, sobre o que estamos fazendo com o nosso tempo. Estamos vivendo momentos que nos fazem felizes e nos aproximam de quem [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:22px"><strong><em>“Tempo, tempo, tempo, tempo. És um dos deuses mais lindos”&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">A partir do pequeno trecho acima da música “<strong>Oração ao tempo</strong>” escrita por Caetano Veloso, começo este artigo fazendo um convite para que reflitam, sobre o que estamos fazendo com o nosso tempo. Estamos vivendo momentos que nos fazem felizes e nos aproximam de quem somos, ou apenas vivendo mecanicamente uma rotina de produtividade e de cumprir agendas e compromissos?</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>Uma meta poderia ser tempo para a alma. Ter tempo, respirar lentamente, desfrutar de nossas experiências – ou, quando forem experiências difíceis, absorvê-las calmamente, depois soltá-las.</strong></p><cite> <strong>(Kast. 2016, p. 112)</strong></cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Vimemos em uma época que ouvimos muitas falas em relação a falta de tempo. As pessoas se queixam de não fazer determinadas coisas como por exemplo: simples momentos de lazer ou uma visita a família, alegando não ter tempo para isso. E esse tempo quando utilizado para trabalhar, estudar e produzir, de forma mecânica verificamos uma rotina que a sociedade nos apresenta como o padrão coletivo a ser seguido, perdendo o contato com a alma, como busca de anestesiamento causando adoecimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-individuo-para-se-relacionar-com-o-mundo-exterior-se-utiliza-da-persona-uma-mascara-para-ocultar-sua-verdadeira-natureza-a-qual-jung-cita" style="font-size:19px">O indivíduo para se relacionar com o mundo exterior se utiliza da persona, uma máscara para ocultar sua verdadeira natureza, a qual Jung cita:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p><strong>Como o seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer aos outros e a si mesma que é individual, quando na realidade não passa de um papel ou desempenho através do qual fala a psique coletiva. </strong></p><cite><strong>(JUNG. 2006, p.134)</strong></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-se-pode-perder-tempo-mas-o-que-e-perder-ou-ganhar" style="font-size:19px"><strong>Não se pode perder tempo! Mas o que é perder ou ganhar?</strong></h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Muitas vezes passamos a cumprir um papel para nós e para a sociedade, fazendo uso da persona e reprimindo cada vez mais conteúdo para a sombra que reúne todas as qualidades desagradáveis, culpas, complexos, emoções negativas bem como potenciais. Temos que produzir cada vez mais, trabalhar, nos atualizar em nossas áreas de atuação e em assuntos diversos, nos relacionar com a família e amigos, cuidar da saúde e se exercitar, conhecer lugares e experimentar coisas diferentes, e muito mais por se fazer. Mas será que em meio a toda essa cobrança em atender inúmeras expectativas, estamos utilizando tempo para movermo-nos a totalidade, rumo ao caminho da individuação?</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p><strong>Evidentemente, não podemos voltar no tempo, e mesmo que sonhemos com uma vida na natureza, sem relógio – na verdade, não é um sonho que levamos a sério: Idealizar o passado não ajuda em nada. Portanto, trata-se de garantir aquilo que, desde sempre, tem sido um problema: fazer de tudo para que, além da divisão e sobreposição do tempo, respeitemos também o tempo rítmico, a nossa necessidade de ritmos na nossa vida. E isso significa em primeiro lugar tomar tempo para determinados aspectos da nossa vida, para que possamos experimentar algo que satisfaça nosso coração, para que voltemos a nos sentir em casa na nossa vida. </strong></p><cite><strong>(Kast. 2016, p. 11)</strong></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-preciso-o-equilibrio-do-tempo-para-nos-aproximar-dos-simbolos-arquetipicos-dos-deuses-do-tempo-cronos-e-kairos-que-habitam-em-cada-um-de-nos" style="font-size:19px">É preciso o equilíbrio do tempo, para nos aproximar dos símbolos arquetípicos dos deuses do tempo: Cronos e Kairós que habitam em cada um de nós.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Quando nos anestesiamos no movimento coletivo devorador, estamos vivendo em Cronos com a exaustão em busca de um objetivo que quando alcançado já é preciso ter outro, e mais outro em vista e recomeçar, sem pausas para recarregar e alimentar a alma.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">A profundidade e a qualidade do tempo permanecem sobre o domínio de Kairós, onde sem essa relação não é possível desfrutar de coisas que fazem realmente sentido. O fluir do tempo e das coisas a seu tempo, ou seja, o momento da oportunidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-cronos-e-tempo-cronologico-e-fisico-quantitativo-e-sequencial" style="font-size:19px"><strong>Cronos</strong> é tempo cronológico e físico, quantitativo e sequencial.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">De acordo com a citação de <strong>Brandão (1987, p. 198) Crono foi identificado muitas vezes com o <em>Tempo </em>personificado. Crono devora, ao mesmo tempo que gera. </strong>Kairós o tempo da alma a qualidade do tempo vivido. É o tempo oportuno que faz um acontecimento ser memorável e especial em sua significância da ocasião, um tempo divino o momento único. Cronos representa o caos, sua perspectiva de tempo é devoradora. Usamos nosso tempo para produzir, performar e crescer<del>,</del> fatiado em partes. Quando não há envolvimento apenas fixação no crescimento até o limite de nossas forças, estamos negando a transformação. <strong>E é aí que o tempo insano devora seus próprios filhos, podendo levar a exaustão e ao adoecimento</strong>.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Por outro lado,<strong> Kairós</strong> é bálsamo, é tempo certo é espera que se aprimora para que no momento certo, venha a colheita do fruto que sacia nossa fome. Os deuses do tempo deveriam caminhar juntos, mas muitas vezes caminham em oposição em nós. Enquanto acordamos e dormimos seguindo o tempo lógico, quantitativo que nos faz organizar nossa rotina diária estamos vivendo ritmados por Cronos. Já viver o tempo da vida em Kairós, não é tempo morto é o tempo da alma vivenciado com significado e propósito. Enquanto Cronos pode simbolizar o caos que ao mesmo tempo nos ordena, nos estrutura e nos organiza, Kairós aponta para a necessidade do ajuste entre consciente e inconsciente, que é preciso ter quietude, pausa e desacelerar esse ritmo para respirar e se voltar para dentro de nós, usando esse tempo com qualidade e propósito, alimentando nossa conexão com a alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vivemos-o-espirito-da-epoca-de-um-tempo-que-se-mede-em-acoes-que-organiza-a-vida-pratica-que-nos-pede-eficiencia-e-produtividade" style="font-size:19px">Vivemos o “<strong>espírito da época</strong>” de um tempo que se mede em ações, que organiza a vida prática, que nos pede eficiência e produtividade.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Sob essa visão, Cronos é o arquétipo do que chamamos de tempo histórico, do mundo exterior que nos empurra para cumprir tarefas, papéis e rituais sociais. Kairós é o tempo oportuno, o instante essencial. Quando estamos dispersos, serenos, calmos, fluídos seu tempo se faz presente e certeiro. Não é espera passiva, mas uma espera ativa onde permanecemos em contato com o inconsciente para acolher as imagens do que é único e inevitável no momento.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Cronos pode parecer impiedoso: devora a nossa energia, transforma dias em correria, desorganiza o sono, injeta desorientação e exaustão. Quando nos prendemos excessivamente a Cronos, o tempo cronológico pode nos distanciar dos nossos propósitos de vida, nos adoecendo pela sobrecarga de internalizar uma voz de “produza mais” que ressoa no corpo e na psique.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">É a conexão com os símbolos que podem estabelecer a relação com conteúdo do inconsciente as imagens que emergem a consciência levando a função transcendente. Quando o equilíbrio integra Cronos e Kairós, a experiência do tempo ganha densidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-ao-falar-entre-a-relacao-de-oposicao-diz-o-seguinte" style="font-size:19px">Segundo Jung, ao falar entre a relação de oposição diz o seguinte:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p><strong>Consiste em suprir a separação vigente entre consciência e o inconsciente. Não se pode fazer isto, condenando unilateralmente os conteúdos do inconsciente, mas, pelo contrário, reconhecendo a importância para a compensação da unilateralidade da consciência e levando em conta está importância. A tendência do inconsciente e da consciência são os dois fatores que formam a função transcendente. <em>É chamado transcendente, porque torna possível organicamente a passagem de uma atitude para a outra, sem perda do inconsciente.</em> </strong></p><cite><strong>(JUNG. 2017, p. 18)</strong></cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Sábio é aquele que consegue fazer a integração de viver Cronos sem afastar Kairós. Quando estamos vivendo Kairós queremos que Cronos permaneça imóvel, porque queremos que o tempo pare para eternizar o momento. Cada momento é oportuno, dependendo das lentes pela qual encaramos as circunstâncias encontramos Kairós, mesmo bem meio aos ponteiros do relógio, surgindo aos poucos e com leveza sem negar as demandas da vida prática.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Os deuses do tempo são dimensões complementares da experiência temporal humana.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5"><strong>Cronos caminha com a rotina diária, ordenando a existência</strong>; <strong>Kairós abre o espaço para a transformação, quando o tempo se faz nutritivo e decisivo</strong>.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.5">Ao honrar ambos, o sujeito pode navegar entre a exaustão do tempo que devora seus filhos e a oportunidade sagrada de um momento que não se repete. Encontrando equilíbrio entre agir no mundo e ouvir o que o inconsciente revela sobre o chamado da nossa alma. Sem se perder de si mesmo durante a jornada.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Cronos e Kairós – Tempo sem vida é ausência de alma" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/A3I1I6WTELY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/monica-contreras/">Mônica Contreras – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf– Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>Obras Completas de C. G. Jung.</em> Petrópolis, RJ: Vozes. Os seguintes volumes são mencionados no texto:</p>



<p>Vol. VII/ 2 – <em>O eu e o inconsciente</em>, 2006.</p>



<p>Vol. VIII/ 2 – <em>A Natureza da Psique</em>, 2013</p>



<p>KAST, Verena. <em>A Alma precisa de tempo</em>. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p></p>
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		<title>Da Aventura Exterior à Jornada Interior: Uma breve Análise sobre Riscos e Autoconhecimento</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/da-aventura-exterior-a-jornada-interior-uma-breve-analise-sobre-riscos-e-autoconhecimento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Patricia Moura Vernalha]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Aug 2025 12:39:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[aventuras]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[esportes radicais]]></category>
		<category><![CDATA[jornada interior]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Este artigo é a tentativa de traçar um paralelo entre o enfrentamento do medo, a exploração de limites e autoconhecimento sob a ótica da Psicologia Analítica. Essa integração visa à compreensão de como experiências de risco, ou até mesmo esportes radicais servem de catalisadores para o desenvolvimento pessoal, podendo funcionar como um sistema de [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:20px"><em><strong>Resumo</strong>: Este artigo é a tentativa de traçar um paralelo entre o enfrentamento do medo, a exploração de limites e autoconhecimento sob a ótica da Psicologia Analítica. Essa integração visa à compreensão de como experiências de risco, ou até mesmo esportes radicais servem de catalisadores para o desenvolvimento pessoal, podendo funcionar como um sistema de compensação para prorrogar ou evitar o aprofundamento da conexão com o mundo interior.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-por-experiencias-radicais-e-novas-aventuras-tem-ganhado-crescente-popularidade-nas-ultimas-decadas" style="font-size:20px">A busca por experiências radicais e novas aventuras têm ganhado crescente popularidade nas últimas décadas.</h2>



<p style="font-size:20px">Essa tendência parece estar ligada a várias mudanças sociais, culturais e psicológicas que moldam o comportamento humano contemporâneo.</p>



<p style="font-size:20px">Caracterizada por rotinas monótonas e crescente urbanização, a vida moderna se vê as voltas em um ambiente estressante e desconectado da natureza. As atividades de aventura oferecem uma oportunidade para romper com esse cotidiano.</p>



<p style="font-size:20px">Não há dúvidas sobre os benefícios físicos e mentais que existem na conexão do ser humano com a natureza, onde a busca pelo novo pode representar um engajamento ativo no estímulo da criatividade e capacidade de explorar, e ainda, superar obstáculos em atividades extremas poderia estar relacionado a uma maior capacidade no enfrentamento dos desafios da vida cotidiana. Acredito que poderíamos traçar aqui um paralelo sobre o enfrentamento do medo, exploração de limites e a contribuição para o autoconhecimento, sob a ótica da Psicologia Analítica.</p>



<p style="font-size:20px">Com um pouco mais de calma, enxergamos o outro lado da moeda, um cenário que pode se transformar em problema, quando falta planejamento e preparo adequado para as experiências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-ultimos-acontecimentos-envolvendo-quedas-de-baloes-no-brasil-e-ainda-o-acidente-na-perigosa-trilha-de-um-vulcao-na-indonesia-abrem-espaco-para-reflexoes-e-inumeros-questionamentos" style="font-size:20px">Os últimos acontecimentos, envolvendo quedas de balões no Brasil e ainda o acidente na perigosa trilha de um vulcão na Indonésia, abrem espaço para reflexões e inúmeros questionamentos.</h2>



<p style="font-size:20px">Este estudo também nos aproxima da tentativa de compreensão sobre as reais motivações que levam indivíduos a se arriscarem em atividades sem o devido conhecimento, preparo ou ainda a falta de adequada crítica sobre as implicações de possíveis falhas na segurança de um modo geral. Seriam estas experiências compensatórias?</p>



<p style="font-size:20px">O mundo parece estar de cabeça para baixo quando observamos que a vida de pessoas pode estar em segundo plano, ofuscada pela supremacia do comercio e a venda agressiva de experiências turísticas. A incessante busca por lucro e exploração do turismo como um produto comercial, transformam experiências autênticas em mercadorias, fazendo com que a verdadeira essência da vivência e da conexão com o entorno não seja prioridade. Esse fenômeno não apenas desumaniza as interações sociais, mas também aliena os indivíduos de suas próprias vivências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-somos-convocados-agora-a-desafiar-novas-formas-de-perceber-o-mundo-pois-aquilo-que-e-divertido-simples-e-com-sentido-pode-estar-tomando-distancia-de-um-proposito-real" style="font-size:20px">Somos convocados agora a desafiar novas formas de perceber o mundo, pois aquilo que é divertido, simples e com sentido, pode estar tomando distância de um propósito real.</h2>



<p style="font-size:20px">Antes de avançarmos é importante destacar que não há intenção aqui de oposição, muito menos desmerecimento aos amantes de esportes radicais, bem como aqueles que apreciam experiências de risco. Na verdade, estas atividades podem proporcionar grande satisfação e experiências profundas e enriquecedoras. Um exemplo emblemático disso foi à atuação de mergulhadores amadores que, com coragem, desempenharam um papel crucial no resgate das crianças presas em uma caverna na Tailândia, muito bem documentado em <strong>“The Rescue”</strong> (2021), feito esse, que ressalta não apenas as habilidades e a paixão dos praticantes, mas também a capacidade de unir as pessoas em situações de risco e solidariedade. Portanto, ao abordar os riscos, é igualmente necessário reconhecer pontos positivos e suas contribuições.</p>



<p style="font-size:20px">Porém aqui, buscamos entender o que de fato estaria por trás do anseio de uma intensa emoção? Uma <strong>fuga</strong> necessária?<strong> Compensações devido a rotinas maçantes, monótonas ou até mesmo complexas</strong>? Para Jung, o medo, que é inerente à natureza humana e considerado uma emoção, poderia surgir do conflito entre o consciente que reprime e o inconsciente que revela. Ao falar da questão do medo cita o que conhecemos em sua obra por <strong>sombra.</strong></p>



<p style="font-size:20px">O inconsciente pessoal contém desde memórias reprimidas, lembranças perdidas, até percepções dolorosas, que não foram intensas o suficiente para alcançar a consciência; ou seja, estamos falando de algo que corresponde à sombra. (JUNG, 2013)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-traz-ainda-a-importancia-do-processo-de-tomada-de-consciencia-da-parte-inferior-da-personalidade-jung-2014" style="font-size:20px">Traz ainda, a importância do processo de tomada de consciência da parte inferior da personalidade. (JUNG, 2014)</h2>



<p style="font-size:20px">Sobre o temido encontro consigo mesmo, encontro este que necessita de coragem para enfrentar tudo o que demais desagradável nos habita, <strong>Jung</strong>, (2016) fala sobre a evitação que acontece a qualquer custo, principalmente nas projeções que fazemos a nossa volta. A sombra está viva em nossa personalidade e quer sempre participar, não sendo possível anulá-la de forma alguma. A figura da sombra personifica tudo aquilo que nos incomoda e não reconhecemos em nós mesmos.</p>



<p style="font-size:20px">São aquisições da existência individual, os conteúdos do inconsciente pessoal. A sombra constitui um problema de ordem moral, que desafia a personalidade do eu como energia moral. Sem isso é impossível qualquer tipo de autoconhecimento. (JUNG, 2015)</p>



<p style="font-size:20px">Uma ideia de que essas atividades seriam como compensações para desafios pessoais. A busca por experiências emocionantes pode ser vista como uma maneira de ignorar a necessidade de olhar para dentro, fornecendo uma descarga de adrenalina que serve como uma distração momentânea dos dilemas internos. Essa busca, muitas vezes é percebida como liberdade, mas pode ser apenas um escapismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-muito-maior-do-que-podemos-imaginar-o-numero-de-pessoas-que-tem-medo-do-inconsciente-tais-pessoas-tem-medo-ate-da-propria-sombra" style="font-size:20px">É muito maior do que podemos imaginar o número de pessoas que tem medo do inconsciente: <strong><em>“Tais pessoas tem medo até da própria sombra.”.</em></strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>[&#8230;] E para curar-se tal caso, devemos encontrar um caminho através do qual a personalidade consciente e a sombra possam conviver.</p><cite> JUNG, 2013 §132</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-e-inadequada-e-incomoda-mas-nao-e-de-todo-mal" style="font-size:20px">A sombra é inadequada e incômoda, mas não é de todo mal.</h2>



<p style="font-size:20px">Jung, 2002, também nos lembra da necessidade do medo para se proteger. Sobre o medo do inconsciente, fala sobre um sintoma relacionado à falta de adaptação, onde o homem estaria sempre à procura de tarefas, evitando momentos de maior contemplação e contato com o mundo interior, bem como dos possíveis ataques de seus conteúdos.</p>



<p style="font-size:20px">A busca por adrenalina pode ser uma forma de se conectar com a vida, mas deve ser equilibrada com uma rica exploração interna de nossas sombras e de nossa psique. Em última análise, a verdadeira aventura pode ser aquela que nos leva para dentro, onde reside a fonte de nossa autenticidade e crescimento pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-de-suma-importancia-para-o-desenvolvimento-psicologico-clarear-o-sombrio-abre-as-portas-para-um-processo-de-compreensao-que-pode-facilitar-a-individuacao-jung-1985" style="font-size:20px">De suma importância para o desenvolvimento psicológico, clarear o sombrio abre as portas para um processo de compreensão que pode facilitar a individuação. (JUNG, 1985)</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-medo-das-emocoes-do-inconsciente-e-tao-forte-que-obrigou-o-homem-civilizado-a-desenvolver-a-consciencia-jung-2016" style="font-size:20px">O medo das emoções do inconsciente é tão forte, que obrigou o homem civilizado a desenvolver a consciência. (JUNG, 2016)</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-a-tomada-de-consciencia-da-sombra-e-que-se-inicia-o-desenrolar-do-processo-de-individuacao-que-e-uma-tarefa-sumamente-penosa-jung-1979" style="font-size:20px">Com a tomada de consciência da sombra é que se inicia o desenrolar do processo de individuação que é uma tarefa sumamente penosa. (JUNG,1979)</h2>



<p style="font-size:20px">Em símbolos da transformação, traz o medo do mundo interno, que em relação ao mundo externo pode ser bem mais pavoroso, principalmente quando negado.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-individuacao-o-manejo-do-medo-se-apresenta-em-grande-valia-libertando-ou-aprisionando-o-individuo-nesse-caminho" style="font-size:20px">Na individuação, o manejo do medo se apresenta em grande valia, libertando ou aprisionando o indivíduo nesse caminho:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>[&#8230;] Quanto mais o individuo foge à adaptação tanto mais aumenta seu medo, que então o acomete em todas as oportunidades e em grau cada vez maior, impedindo-o.</p><cite>JUNG, 2016, §456</cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O medo da vida não é um fantasma imaginário, mas um pânico muito real que só parece tão insignificante porque sua verdadeira origem é inconsciente e por isso projetada: a jovem parcela da personalidade que é impedida e retida diante da vida produz medo e transforma-se em medo. O medo parece vir da mãe, mas na realidade é o medo mortal do indivíduo instintivo, inconsciente, que em consequência do continuo recuo diante da realidade, está excluído da vida.</p><cite>JUNG, 2016, §551</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">Por vezes sentimos muito medo de mergulhar profundamente naquilo que verdadeiramente somos e tomados por este medo acabamos por nos entregar a infinitos estímulos externos, que de forma ilusória promete nos conectar com algo divino, como a natureza, através das mais variadas experiências, mas acabamos anestesiados e desconectados de nossos propósitos; de certo, nos afastando da <strong>conexão</strong> e caminhando para uma <strong>invasão</strong> à natureza.</p>



<p style="font-size:20px">O medo da vida e da morte, podem também explicar situações de relação simbiótica entre mãe e filho. A ideia é que o indivíduo sente-se mais seguro permanecendo em um estágio mais conhecido e, portanto mais seguro, dificultando a separação do mundo da mãe.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-individuo-precisa-deixar-o-conforto-e-a-seguranca-da-fase-vivida-para-arriscar-se-ao-desconhecido" style="font-size:20px">O indivíduo precisa deixar o conforto e a segurança da fase vivida para arriscar-se ao desconhecido.</h2>



<p style="font-size:20px">Chama atenção o fato de muitos consumidores de experiências de aventuras acabarem por esquecer e não questionar medidas de segurança, não refletindo sobre possíveis consequências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-podemos-conciliar-a-busca-por-emocao-e-aventura-com-a-necessidade-de-explorar-nosso-mundo-interior-e-confrontar-nossas-sombras" style="font-size:20px">Como podemos conciliar a busca por emoção e aventura com a necessidade de explorar nosso mundo interior e confrontar nossas sombras?</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>[&#8230;] Uma consciência mais elevada e mais ampla, que só surgirá mediante a assimilação do desconhecido, tende para autonomia. [&#8230;] Quanto mais poderosa e independente se torna a consciência e, com ela, a vontade consciente, tanto mais o inconsciente é empurrado para o fundo, surgindo facilmente à possibilidade de a consciência em formação emancipar-se da imagem primordial inconsciente.</p><cite> JUNG, 2003, §12&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">Von Franz, 1999, em seu livro: <strong><em>Puer Aeternus: A luta do adulto contra o paraíso</em> <em>da infância</em>,</strong> onde puer tem por definição: “<em>um arquétipo relacionado à adolescência, que pode “indicar certo tipo de jovem que tem um complexo materno fora do comum</em>”, fala que o adulto aprisionado neste arquétipo tem dificuldades para trabalhar e se relacionar”. Outra característica desse comportamento é que segundo a autora, a ligação com a mãe é tão forte que a forma encontrada para se desfazer esse nó, tem muitas vezes, um fim trágico. O comportamento de risco é característico e apesar da contradição, parece ser a única saída para vencer o medo da separação.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>A única saída que este tipo de homem teme é a de se ligar a qualquer coisa. Há um medo terrível de se prender, de entrar no tempo e no espaço totalmente, e de ser o ser humano específico que ele é. Há sempre o medo de ser pego em uma situação da qual seja impossível sair. Toda definição é para ele um inferno. Ao mesmo tempo, há sempre algo simbólico – principalmente uma atração por esportes perigosos, particularmente aviação e alpinismo – de modo que nesses esportes ele se encontra o mais alto possível, simbolizando a separação da mãe, isto é, da terra da vida comum.</p><cite>(Von Franz, 1999 p.10).</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">Citada por Morelli, (2009), Kast explica que os complexos parentais podem se formar em qualquer fase da vida, mas na infância se formarão como base da vida e dependendo do caso, podem ser positivos ou negativos, atrapalhando ou favorecendo o desenvolvimento da psique.·.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O complexo do eu de uma pessoa deve desligar-se, “de modo apropriado à idade”, dos complexos materno e paterno, para que ele possa perceber suas tarefas de desenvolvimento apropriadas à idade e ter à sua disposição um complexo do eu coerente – um” eu suficientemente forte “- que lhe permita perceber as exigências da vida, lidar com dificuldades e conseguir certo grau de prazer e satisfação.</p><cite> (1997, p.10</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">Partindo da exploração dos símbolos na obra de Jung, afirmando que os símbolos são formas através das quais o inconsciente se comunica com a consciência, podem essas experiências ser vistas como símbolos de algo mais profundo – o desejo da libertação, autoafirmação, ou até mesmo uma busca por significado em um mundo repleto de incertezas?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-processo-de-individuacao-temos-um-movimento-em-direcao-ao-entendimento-pleno-de-si-mesmo-o-trabalho-simbolico-e-a-auto-exploracao-sao-essenciais-para-o-crescimento-pessoal" style="font-size:20px">No processo de individuação temos um movimento em direção ao entendimento pleno de si mesmo, O trabalho simbólico e a auto exploração são essenciais para o crescimento pessoal.</h2>



<p style="font-size:20px">Em “<strong>O homem e seus símbolos</strong>&#8221; Jung incentiva uma reflexão crítica sobre nossas decisões e comportamentos”. O desafio aqui se torna não apenas o de buscar emoções intensas, mas também de ser crítico sobre o contexto dessas experiências e suas implicações para a psique. Isso nos leva a um exame mais profundo da forma como lidamos com riscos, tanto internos quanto externos, e nos convida a repensar o que realmente significa ser corajoso.</p>



<p style="font-size:20px"><strong>Kast</strong> (1997) menciona que as atividades como esportes radicais podem ser uma manifestação externa do que está acontecendo internamente na psique. O apelo por esportes radicais, muitas vezes, reflete uma necessidade de romper com rotinas seguras e explorar limites, tanto física quanto emocionais. Para muitos, essas atividades podem representar um símbolo de libertação, coragem e a busca por experiências intensamente significativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-exploracao-de-espacos-externos-e-a-luta-interna-pelo-autoconhecimento-sao-indissociaveis" style="font-size:20px">A exploração de espaços externos e a luta interna pelo autoconhecimento são indissociáveis.</h2>



<p style="font-size:20px">Ambos os caminhos oferecem experiências significativas que, quando integradas de maneira consciente, podem levar a uma compreensão mais profunda de nós mesmos e de nosso lugar no mundo. Assim, a busca por emoção não deve ser apenas uma fuga, mas uma oportunidade para o crescimento e a reflexão pessoal.</p>



<p style="font-size:20px">Enquanto escalar uma montanha ou voar em um balão pode proporcionar uma sensação temporária de liberdade, a verdadeira liberdade reside na capacidade de entender e integrar os próprios sentimentos e experiências.</p>



<p style="font-size:20px">A sensação de liberdade que muitos experimentam em atividades radicais pode servir como um distrator, enquanto a verdadeira coragem reside na disposição de enfrentar a dor, a consciência e as verdades ocultas dentro de si.</p>



<p style="font-size:20px">Através dessa lente, devemos considerar nossas escolhas de forma crítica – não apenas em relação às atividades externas que buscamos, mas também em relação às nossas motivações. O verdadeiro desafio não está apenas em buscar novas emoções, mas em compreender porque e como essas experiências se encaixam em nossas vidas.</p>



<p style="font-size:20px">A busca por adrenalina pode ser uma forma de se conectar com a vida, mas deve ser equilibrada com uma rica exploração interna de nossas sombras e de nossa psique. Em última análise, a verdadeira aventura pode ser aquela que nos leva para dentro, onde reside a fonte de nossa autenticidade e crescimento pessoal.</p>



<p style="font-size:20px">As pessoas devem se sentir encorajadas não apenas a subir montanhas, mas também a deslizar no mais profundo que sua mente possa alcançar.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
https://youtube.com/shorts/InNf27XZzQ8?feature=share
</div></figure>



<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/pmoura/">Patricía Moura Vernalha – Analista em Formação</a></strong></p>



<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata </a> &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p>JUNG,C.G. Psicologia do inconsciente. OC 7/1. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013</p>



<p>JUNG,C.G. A Natureza da psique. OC 8/2. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014</p>



<p>JUNG,C.G. Os arquétipos e o Inconsciente coletivo. OC 9/1, RJ: Vozes, 2016</p>



<p>JUNG,C.G. Aion – Estudos sobre o simbolismo do si- mesmo OC 9/2, RJ: Vozes, 2015</p>



<p>JUNG,C.G. Psicologia e religião OC 11/1. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013</p>



<p>JUNG,C.G. Interpretação psicológica do dogma da trindade. OC. 11/2 Petrópolis, RJ: Vozes,1979</p>



<p>JUNG,C.G. Mysterium Coniumctionis. OC. 14. Petrópolis, RJ: Vozes, 1985</p>



<p>JUNG, C.G. Fundamentos da psicologia analítica OC. 18/1.Petrópolis, RJ: Vozes, 1983</p>



<p>JUNG,C.G. Cartas de C.G. Jung; vol. 1,2 e 3; editado por Aniela Jaffé. Petrópolis, RJ: Vozes: 2002.</p>



<p>KAST, Verena. Pais e filhas, mães e filhos: caminhos para a auto-identidade a partir dos complexos materno e paterno. São Paulo, SP: Loyola, 1997</p>



<p>MORELLI, Paula Nogueira de Toledo. O temor secreto dos perigos da alma – Uma revisão Bibliográfica sobre o conceito do medo na Psicologia Analítica. Mestrado em Psicologia Clínica PUC-SP, 2009</p>



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