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	<title>Arquivos terapia - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos terapia - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A literatura como cartografia da alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-literatura-como-cartografia-da-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniela Aimar Euzebio]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 16 Mar 2026 20:10:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há livros que lemos e outros que nos leem. Neste ensaio, a literatura é pensada como uma cartografia da alma, um espaço onde psicologia, arte e experiência humana se entrelaçam, mostrando como mitos, romances e poemas evidenciam movimentos invisíveis da psique individual e coletiva. Um convite para pensar como a literatura revela os afetos por vezes ocultos nas prateleiras do nosso inconsciente.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: <strong>Ler é mágico</strong>&#8230; E quando nos permitimos adentrar no mundo fantástico dos livros, algo nos é atravessado. A literatura se revela como uma das formas mais ricas de exploração do existir e da existência, agindo como uma ponte que nos transporta em direção a um entendimento profundo da vida. <strong>Grandes pensadores como Jung, Freud, Lacan e Frankl encontraram na literatura chaves que abriram as portas e apontaram algumas inquietações da alma</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há livros que lemos e outros que nos leem. Neste ensaio, a literatura é pensada como uma cartografia da alma, um espaço onde psicologia, arte e experiência humana se entrelaçam, mostrando como mitos, romances e poemas evidenciam movimentos invisíveis da psique individual e coletiva. <strong>Um convite para pensar como a literatura revela os afetos por vezes ocultos nas prateleiras do nosso inconsciente</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ler-e-magico">Ler é mágico&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ler é mágico&#8230; E quando nos permitimos adentrar no mundo fantástico dos livros, algo nos é atravessado. A literatura se revela como uma das formas mais ricas de exploração do existir e da existência, agindo como uma ponte que nos transporta em direção a um entendimento profundo da alma. Ao abrir as páginas de um livro, somos convidados a habitar novos mundos, a experimentar emoções e palpitações, um refúgio precioso contra o automatismo das rotinas, permitindo que a imaginação percorra caminhos antes inacessíveis e vivencie aventuras que ampliam os limites da realidade. Aprendemos a amar ou odiar os personagens, a nos aventurar em situações jamais sonhadas, a achar um jeito de nos livrar das culpas e punições, a penalizar os traidores, revelando projetivamente as densidades que nem sempre temos consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Jung</strong> (OC 15, §133) reflete que “<strong>a alma é ao mesmo tempo mãe de toda ciência e vaso matricial da criação artística</strong>”. Por isso, é esperado que as ciências da alma possam ajudar no estudo da estrutura de um texto e explicar as circunstâncias psicológicas do seu autor e do Espírito da Época.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por isso, percorrer a jornada nos livros literários é como olhar reflexivamente para o nosso próprio interior, onde a obra funciona como um espelho capaz de revelar nuances de nossos desejos, medos e motivações mais íntimas. Através do diálogo com o texto, somos incentivados a ponderar sobre dilemas éticos e escolhas morais, um processo que nutre o crescimento pessoal e emocional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-muito-antes-de-sua-formalizacao-como-ciencia-a-psicologia-ja-encontrava-na-literatura-um-territorio-privilegiado-de-expressao-e-investigacao-da-experiencia-humana" style="font-size:18px">Desde muito antes de sua formalização como ciência, a psicologia já encontrava na literatura um território privilegiado de expressão e investigação da experiência humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mitos, tragédias, poemas, contos, crônicas, romances etc., constituem formas simbólicas por meio das quais a humanidade olhou para seus afetos, dando linguagem ao que por vezes nos escapa à consciência imediata. Ao narrar histórias, o escritor mobiliza imagens que pertencem simultaneamente à sua experiência singular e a um campo coletivo mais amplo, tornando a obra literária um espaço onde a psique se revela em sua dimensão individual e histórica.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-entende-que-a-alma-se-apresenta-como-um-principio-gerador-que-atravessa-todas-as-expressoes-humanas-animando-acoes-pensamentos-criacoes-e-vinculos" style="font-size:18px">Jung entende que a alma se apresenta como um princípio gerador que atravessa todas as expressões humanas, animando ações, pensamentos, criações e vínculos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ela se manifesta como origem dinâmica da experiência, sem jamais se oferecer como objeto isolável ou entidade apreensível em si mesma. O que se torna acessível ao olhar atento são suas formas de expressão: gestos, símbolos, narrativas, obras, escolhas, sofrimentos e buscas de sentido. A alma se deixa conhecer por meio de suas múltiplas aparições encarnadas em diversas linguagens, como se sua natureza pedisse movimento contínuo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-jung-provoca-ao-dizer-que-o-trabalho-do-psicologo-ou-de-profissionais-que-lidam-com-a-psique-assume-inevitavelmente-um-carater-transdisciplinar" style="font-size:18px">Por isso, Jung provoca ao dizer que o trabalho do psicólogo (ou de profissionais que lidam com a psique) assume inevitavelmente um caráter transdisciplinar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O estudo da psique convoca um deslocamento constante e um caminhar para além dos territórios metodológicos, pois a alma é ampla e circula pela arte, religião, filosofia, mitologia, literatura, música e práticas culturais que dão forma à experiência humana.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É uma particularidade da alma ser não apenas mãe e origem de toda a ação humana, como também expressar-se em todas as formas e atividades do espírito; não podemos encontrar em parte alguma a essência da alma em si mesma, mas somente percebê-la e compreendê-la em suas múltiplas formas de manifestação. Por isso, o psicólogo é obrigado a adentrar em vários domínios, deixando o castelo seguro de sua especialidade; e isto, não como pretensão ou diletantismo, mas por amor ao conhecimento, em busca da verdade. Ele não conseguirá limitar a alma à estreiteza do laboratório e do consultório médico; deverá persegui-la em domínios talvez estranhos a ele, onde quer que ela atue de modo evidente. (JUNG, OC 15, p. 86, prefácio)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-seja-por-isso-que-diversos-pensadores-psicologos-e-psicanalistas-se-debrucaram-de-forma-tao-apaixonada-nas-leituras-dos-classicos" style="font-size:18px">Talvez seja por isso que diversos pensadores, psicólogos e psicanalistas se debruçaram de forma tão apaixonada nas leituras dos clássicos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Freud, foi um leitor erudito de tragédias gregas, teatro elisabetano, romances modernos e mitologia clássica, a literatura aparece em sua obra como confirmação empírica e histórica de estruturas psíquicas que sua clínica revelava. O complexo de Édipo, por exemplo, nasce da leitura atenta de Sófocles, cuja tragédia Freud compreende como expressão simbólica de desejos inconscientes universais (FREUD, 2012). Em 1914, Freud retoma o termo “narcisismo”, inspirado na figura mítica de Narciso, e o eleva a um estatuto <em>metapsicológico</em> ao integrá-lo à psicanálise. Em <em>Introdução ao narcisismo</em>, o conceito busca compreender o modo como a libido se recolhe, investe o próprio eu e participa da constituição da subjetividade. O narcisismo torna-se uma chave para pensar a economia profunda do psiquismo, onde se organizam as bases do vínculo entre o sujeito, o desejo e sua própria imagem.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-autor-importante-para-freud-foi-shakespeare-que-ocupa-lugar-em-sua-reflexao-sobre-o-conflito-psiquico-a-ambivalencia-afetiva-e-a-culpa" style="font-size:18px">Outro autor importante para Freud foi Shakespeare, que ocupa lugar em sua reflexão sobre o conflito psíquico, a ambivalência afetiva e a culpa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Freud recorre sistematicamente à literatura para demonstrar que os poetas e escritores “sabem” da psique antes da ciência, pois acessam o inconsciente por vias intuitivas e estéticas. Em textos como <em>Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1996)</em>, realiza uma análise minuciosa de uma obra literária, tratando-a com o mesmo rigor aplicado ao material clínico. O romance, o mito e a tragédia tornam-se documentos psíquicos capazes de revelar os mecanismos do desejo, do recalque, da sublimação e da fantasia, participando da própria constituição da teoria freudiana.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Lacan, por hipótese, talvez seja o autor que mais radicalmente reinscreve a literatura no coração da teoria psicanalítica. Para ele, o inconsciente é estruturado como linguagem, o que torna a literatura um campo privilegiado de manifestação do desejo, da falta e do gozo. Lacan analisa Sófocles (Antígona), Shakespeare (Hamlet), Edgar Allan Poe (A carta roubada), James Joyce (Ulisses), entre outros, como verdadeiros operadores conceituais. Joyce, por exemplo, torna-se central para a formulação do seu conceito de <em>sinthoma</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Viktor Frankl, fundador da Logoterapia, foi um humanista erudito que utilizou a literatura e a filosofia como provas vivas de sua teoria antropológica, apoiando-se em Dostoiévski, Nietzsche, Goethe e textos bíblicos para fundamentação de seu arcabouço teórico. Para ele, a literatura é testemunho existencial da busca de sentido, especialmente diante do sofrimento extremo</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-jung-a-literatura-integra-o-nucleo-do-pensamento-psicologico-uma-vez-que-poemas-mitos-contos-romances-e-producoes-artisticas-se-apresentam-como-expressoes-simbolicas-do-inconsciente-coletivo" style="font-size:18px">Em Jung, a literatura integra o núcleo do pensamento psicológico, uma vez que poemas, mitos, contos, romances e produções artísticas se apresentam como expressões simbólicas do inconsciente coletivo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A obra literária torna-se um campo privilegiado para a observação dos movimentos arquetípicos que atravessam a psique e se organizam em imagens, narrativas e formas estéticas. Nessa perspectiva, a arte se apresenta como um fenômeno autônomo, portador de uma coerência interna e de uma lógica simbólica própria, cuja compreensão demanda atenção à sua singularidade e à sua força expressiva, reconhecendo nela um campo de sentido que se sustenta para além de leituras redutivas ancoradas exclusivamente na biografia ou na patologia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, o exame psicológico de uma obra de arte revela-se como o resultado de processos anímicos elaborados, que solicitam uma abordagem capaz de sustentar simultaneamente a complexidade do objeto artístico e a dinâmica psíquica de quem a criou.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Embora autor e obra se encontrem entrelaçados por vínculos indissociáveis e exerçam influência recíproca, a psicologia junguiana sustenta a necessidade de reconhecer os limites dessa relação. A obra conserva uma dimensão de mistério que excede a biografia de seu autor, assim como a personalidade do artista abriga profundidades que nenhuma produção consegue esgotar plenamente.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O estudo da obra como entidade autônoma e a investigação do artista como personalidade singular se articulam em diálogo constante, preservando a dignidade do processo criativo. Desse modo, a psicologia se afasta de explicações deterministas e se aproxima de uma compreensão mais profunda da relação entre psique e expressão, reconhecendo que, na tensão viva entre o ser humano e suas criações, habita um enigma que a ciência da alma se empenha em iluminar, acompanhando o movimento pelo qual a experiência interior se transforma em forma, linguagem e sentido no mundo. O estudo de uma obra de arte é o fruto “intencional” de atividades anímicas complexas. Estudar as circunstâncias psicológicas do homem criador equivale a estudar o próprio aparelho psíquico. No primeiro caso, o objeto da análise e interpretação psicológicas é a obra de arte concreta; no segundo, trata-se da abordagem do ser humano criador, como personalidade única e singular. Ainda que a obra de arte e o homem criador estejam ligados entre si por uma profunda relação, numa interação recíproca, não é menos verdade que não se explicam mutuamente. Certamente é possível tirar de um deduções válidas no que concerne ao outro, mas tais deduções nunca são concludentes (JUNG, OC 15, §134)</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-texto-psicologia-e-poesia-incluido-em-o-espirito-na-arte-e-na-ciencia-oc-15-jung-distingue-o-modo-psicologico-e-o-modo-visionario-da-criacao-literaria" style="font-size:18px">No texto “Psicologia e poesia”, incluído em <em>O espírito na arte e na ciência </em>(OC 15), Jung distingue o modo psicológico e o modo visionário da criação literária.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Essa distinção é decisiva para os estudos interdisciplinares entre psicologia e literatura, pois reconhece que há obras que emergem da experiência consciente e outras que irrompem de camadas profundas da psique, portadoras de imagens numinosas e arquetípicas. Nessas últimas, a literatura funciona como campo de reorganização simbólica do inconsciente coletivo, especialmente em períodos de crise cultural.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung dialoga extensivamente com Goethe, sobretudo com o <em>Fausto</em>, que considera uma obra arquetípica por excelência; com Nietzsche, cuja escrita visionária é analisada em <em>Assim falou Zaratustra</em>; com a mitologia greco-romana; os épicos orientais e a literatura medieval. Para Jung, o poeta é alguém que é “tomado” por imagens que precisam ser ditas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (OC 15, §148) afirma que, quando a atenção se afasta da psicologia pessoal do poeta, a obra de arte pode ser compreendida como o lugar onde emerge uma vivência originária, anterior ao eu consciente e às explicações racionalistas, expressando conteúdos psíquicos que se impõem por sua própria força simbólica. Essa vivência, denominada por Jung de visão, manifesta-se como um acontecimento psíquico pleno, dotado de sentido próprio e de força arquetípica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A obra possui estatuto simbólico autêntico, seu conteúdo pode assumir formas físicas, anímicas ou metafísicas, mas essa distinção perde relevância diante de sua condição fundamental, onde a psique se afirma como campo legítimo de experiência, capaz de produzir acontecimentos tão decisivos quanto aqueles inscritos no mundo externo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sempre-que-o-inconsciente-coletivo-se-encarna-na-vivencia-e-se-casa-com-a-consciencia-da-epoca-ocorre-um-ato-criador-que-concerne-a-toda-a-epoca-a-obra-e-entao-no-sentindo-mais-profundo-uma-mensagem-dirigida-a-todos-os-contemporaneos-jung-oc-15-153" style="font-size:18px">“<em>Sempre que o inconsciente coletivo se encarna na vivência e se casa com a consciência da época, ocorre um ato criador que concerne a toda a época; a obra é, então, no sentindo mais profundo, uma mensagem dirigida a todos os contemporâneos</em>” (JUNG, OC 15, §153).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung (OC 15, §153) reforça que “<em>todas as épocas têm sua unilateralidade, seus preconceitos e males psíquicos. Cada época pode ser comparada à alma de um indivíduo: apresenta uma situação consciente específica e restrita, necessitando por esse motivo de uma compensação</em>”. &nbsp;Ao dar forma ao que ainda precisa de linguagem, essas figuras trazem à superfície aquilo que a consciência cultural não conseguiu integrar. As obras tocam dimensões que estão na sombra coletiva, e revelam desejos, angústias e aspirações que se encontram difusos, mas intensamente ativos no fundo da vida social.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-expressao-dessas-imagens-compensatorias-exerce-um-impacto-ambivalente-sobre-a-epoca-que-as-acolhe" style="font-size:18px">A expressão dessas imagens compensatórias exerce um impacto ambivalente sobre a época que as acolhe.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando encontram condições favoráveis, podem contribuir para processos de ampliação de consciência, renovação simbólica e transformação criativa da cultura. Em outras circunstâncias, as mesmas forças podem ser mobilizadas de modo destrutivo, intensificando rupturas, conflitos e movimentos regressivos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-exemplo-ilustrativo-publicado-em-1774-os-sofrimentos-do-jovem-werther-de-goethe-produziu-um-impacto-que-rapidamente-ultrapassou-o-ambito-literario-e-revelou-uma-ferida-psiquica-coletiva-na-europa" style="font-size:18px">Como exemplo ilustrativo, publicado em 1774, <strong><em>Os sofrimentos do jovem Werther</em> </strong>de Goethe, produziu um impacto que rapidamente ultrapassou o âmbito literário e revelou uma ferida psíquica coletiva na Europa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No momento de sua publicação, a obra encontrou uma juventude atravessada por tensões e disponibilizou uma linguagem capaz de dar forma a experiências afetivas intensas e sombrias que ainda não haviam alcançado elaboração consciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Werther é um jovem sensível, seu sofrimento nasce do amor idealizado por Charlotte e, do confronto com os limites sociais e morais de sua época, sente-se incapaz de integrar seu desejo, realizar o amor e lidar com a frustração. Desesperado, põe fim à sua existência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Neste período, houve uma forte identificação coletiva e registros históricos associaram a leitura da obra a uma série de suicídios, fenômeno posteriormente denominado efeito Werther (contágio psíquico). Mais do que estabelecer uma relação direta entre texto e ato, esse impacto revela a fragilidade simbólica de uma geração que se via profundamente afetada pela idealização do sentimento e pela dificuldade de elaborar frustrações dentro dos limites sociais. O romance atuou como um catalisador, trazendo à tona afetos que estavam eclipsados no Espírito da Época. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Werther permanece um exemplo da capacidade que a literatura tem de tornar visível o estado psíquico de um tempo, mesmo quando esse encontro se dá sob o signo da inquietação sombria: “<em>esses poetas falam por milhares e dezenas de milhares de seres humanos, proclamando de antemão as metamorfoses da consciência de sua época</em>” (JUNG, OC 15, §154).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-ler-uma-obra-que-nos-toca-nos-vemos-implicados-afetivamente-por-personagens-que-revelam-emocoes-conflitos-desejos-e-feridas-nos-permitindo-reconhecer-aspectos-de-nossa-vida-interior" style="font-size:18px">Ao ler uma obra que nos toca, nos vemos implicados afetivamente por personagens que revelam emoções, conflitos, desejos e feridas, nos permitindo reconhecer aspectos de nossa vida interior. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A intensidade da identificação diante de determinadas figuras literárias revela muito mais sobre a dinâmica psíquica do leitor do que sobre o personagem em si, que atua como espelho simbólico de experiências subjetivas em busca de linguagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesse processo, o inconsciente pessoal projeta-se de modo seletivo, elegendo personagens que evidenciam os complexos ativos. Heróis, anti-heróis, vilões, mocinhas, figuras trágicas tornam-se representações das nossas próprias contradições, dilemas morais, fantasias e desejos. O personagem assume a função de mediador, possibilitando ao leitor experimentar emoções intensas, atravessar conflitos e ensaiar soluções simbólicas que permanecem, no cotidiano, suspensas ou reprimidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a identificação se torna consciente, a narrativa atua como um campo de simbolização no qual o sujeito pode retirar gradualmente suas projeções, reintegrando-as à própria história psíquica com maior discernimento. Desse modo, os personagens emergem como imagens arquetípicas que acolhem projeções, condensam afetos e traduzem conflitos íntimos e, por vezes, sombrios. A obra literária se consolida como um espaço simbólico onde o inconsciente pessoal encontra expressão. Permitindo que o leitor se aproxime de si mesmo projetivamente por meio do outro fictício, reconhecendo na alteridade do personagem as múltiplas faces de sua alma em movimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-por-isso-que-a-literatura-pode-se-colocar-como-uma-verdadeira-cartografia-da-alma-um-territorio-onde-a-experiencia-humana-encontra-forma-densidade-emocoes-e-linguagem-e-cada-obra-abre-uma-passagem-entre-o-individual-e-o-coletivo-permitindo-que-afetos-se-organizem-simbolicamente" style="font-size:18px">É por isso que a literatura pode se colocar como uma verdadeira cartografia da alma&#8230; Um território onde a experiência humana encontra forma, densidade, emoções e linguagem, e cada obra abre uma passagem entre o individual e o coletivo, permitindo que afetos se organizem simbolicamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ler passa a ser um ato dialético do tempo, um modo de reconhecer na trama das palavras os movimentos invisíveis que atravessam uma época e se inscrevem na individualidade de cada um.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Psicologia e literatura se entrelaçam num diálogo vivo, no qual a psique se revela em sua vocação criadora, sustentando incômodos essenciais e acompanhando a humanidade em seu esforço contínuo de compreender a si mesma, de simbolizar o indizível e de manter aberta a travessia entre o mundo interior e a história que se escreve coletivamente.</p>



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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/daniela/">Me. Daniela Euzebio – Analista Didata em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:18px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 1991;</p>



<p class="wp-block-paragraph">FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Porto Alegre: L&amp;PM, 2012;</p>



<p class="wp-block-paragraph">FREUD, Sigmund. Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen. Rio de Janeiro: Imago, 1996;</p>



<p class="wp-block-paragraph">FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: ______. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010;</p>



<p class="wp-block-paragraph">GOETHE, Johann Wolfgang von. Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: L&amp;PM, 2017;</p>



<p class="wp-block-paragraph">GOMES, José Carlos Vitor; HOLANDA, Adriano Furtado. Dostoiévski e Frankl: um diálogo sobre o sofrimento. Revista Logos &amp; Existência, v. 2, n. 1, p. 55-68, 2013. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org. Acesso em: 13 jan. 2026;</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O espírito na arte e na ciência. Petrópolis: Vozes, 2013 (OC 15); LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. (Contém o &#8220;Seminário sobre &#8216;A Carta Roubada'&#8221;);</p>



<p class="wp-block-paragraph">LACAN, Jacques. O seminário, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007. (Trata de James Joyce);</p>



<p class="wp-block-paragraph">LACAN, Jacques. O seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro: Zahar, 2016. (Trata de Hamlet);</p>



<p class="wp-block-paragraph">LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988. (Trata de Antígona);</p>



<p class="wp-block-paragraph">PHILLIPS, David P. The Influence of Suggestion on Suicide: Substantive and Theoretical Implications of the Werther Effect. American Sociological Review, [s. l.], v. 39, n. 3, p. 340–354, 1974.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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		<title>O cantar como terapia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-cantar-como-terapia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marta Beatriz Conceição Guedes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Feb 2026 19:45:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[C G Jung]]></category>
		<category><![CDATA[cantar]]></category>
		<category><![CDATA[cura]]></category>
		<category><![CDATA[Diane Austin]]></category>
		<category><![CDATA[expressões criativas]]></category>
		<category><![CDATA[inconsciente]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[terapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O artigo discute como o canto e o cantar funcionam como via de expressão e integração psíquica. A voz é apresentada como mediadora entre consciente e inconsciente, revelando complexos e conteúdos emocionais profundos. A prática vocal no setting terapêutico ativa padrões afetivos ligados à transferência e mobiliza o terapeuta pela contratransferência, criando um campo sonoro relacional. A música e o canto permitem identificar e transformar complexos, favorecendo a diferenciação e reorganização psíquica. Assim, o cantar torna-se instrumento clínico e simbólico de cura e individuação.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O artigo discute como o canto e o cantar funcionam como via de expressão e integração psíquica. A voz é apresentada como mediadora entre consciente e inconsciente, revelando complexos e conteúdos emocionais profundos. A prática vocal no setting terapêutico ativa padrões afetivos ligados à transferência e mobiliza o terapeuta pela contratransferência, criando um campo sonoro relacional. A música e o canto permitem identificar e transformar complexos, favorecendo a diferenciação e reorganização psíquica. Assim, o cantar torna-se instrumento clínico e simbólico de cura e individuação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desde-minha-infancia-fui-profundamente-tocada-pela-experiencia-de-cantar-principalmente-pela-vivencia-com-a-minha-avo-que-adorava-nelson-goncalves" style="font-size:19px">Desde minha infância, fui profundamente tocada pela experiência de cantar, principalmente pela vivência com a minha avó, que adorava Nelson Gonçalves.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O cantar não se limitava apenas a uma expressão estética, mas como um canal direto com as emoções mais profundas e com conteúdos psíquicos que, por vezes, escapam à linguagem racional. Este ano resgatei o canto como parte da minha rotina e, através dessa vivência pessoal, despertei a percepção de que minha voz — sua timidez, sua potência, suas variações — se manifestava como reflexo direto de meu estado psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir disso procurei livros que trouxessem uma abordagem junguiana sobre o canto e o cantar e encontrei, dentre outros o livro <em>The Theory and Practice of Vocal Psychotherapy</em>, de Diana Austin, que propõe que a voz humana é uma extensão da psique, que os registros vocais podem ser utilizados como mediadores entre consciente e inconsciente, além de poderem favorecer a integração de conteúdos psíquicos dissociados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse sentido, no presente artigo proponho que, sob a ótica da Psicologia Analítica, o uso terapêutico da voz pode se configurar como uma via simbólica de cura e integração psíquica. Para isso analisaremos brevemente, com base nos conceitos junguianos de complexos, self e individuação, articulados ao conceito de transferência e contratransferência, bem como à prática vocal como instrumento expressivo e transformador.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Inicialmente, observamos que a potência terapêutica do canto reside no fato de que, ao cantarmos, voz e corpo atuam como instrumentos intimamente conectados, vibrando em sintonia com os sons e a ressonância que a experiência proporciona.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tanto-fazemos-musica-como-somos-a-musica" style="font-size:19px"><em>Tanto fazemos música como somos a música</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Internamente, a voz acaba por nos ajudar a nos conectar com nossos corpos e expressar as nossas emoções, externamente ela nos ajuda a nos conectar com os outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além disso, cantar é uma atividade neuromuscular, e padrões musculares são conectados aos padrões psicológicos e emocionais de resposta (Austin, 2008), o que possibilita que trabalhemos através do canto a integração de <strong>complexos</strong>, entendidos na psicologia analítica como conteúdos psíquicos autônomos de origem inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-complexos-sao-assim-definidos-por-jung" style="font-size:19px">Os complexos são assim definidos por <strong>Jung</strong>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>O que é, portanto, cientificamente falando, um “complexo afetivo”? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum [corpo estranho], animado de vida própria. (2000, p.43)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Portanto, o cantar pode proporcionar aos clientes expressar o que estava oculto, dando voz aos sentimentos inconscientes, promovendo “<em>uma libertação emocional, devido ao efeito da música, da letra e das memórias e associações ligadas à canção</em>” (Austin, 2008, p. 20).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além disso, a singularidade, o self pessoal, é revelado através do som e das características da voz. O processo do canto terapêutico possibilita que o cliente encontre sua própria voz, seu próprio som, dando mais passos para tornar-se cada vez mais completo, ou seja, caminhando para o processo de individuação. Contudo, Austin aponta que para que o canto seja utilizado como ferramenta terapêutica e que tenha força curativa é necessário que haja uma relação de afeto entre cliente e analista, manifestadas pela transferência e pela contratransferência.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A transferência é uma especialização do fenômeno inconsciente da projeção, se apresentando como o processo pelo qual o paciente projeta no analista conteúdos inconscientes – em especial os arquétipos parentais (imago) – impulsionado pelo princípio de Eros (ligação e relacionamento). É uma expressão do anseio interior pela totalidade psíquica (Self), tornando-se um palco vital para a reexperimentação e integração das polaridades, um passo essencial no processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É de se ressaltar que na relação entre analista e analisando a transferência toma um lugar de extrema relevância, pois para Jung (2012, p. 46), “<em>o êxito ou fracasso do tratamento tem, no fundo, muito a ver com ela</em>”, tratando-se de um laço e uma ligação que lhe dizem respeito e se criaram a partir de um inconsciente comum (2012, p. 61).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A projeção do paciente sobre o seu analista leva a uma perturbação, a uma afetação deste, nomeada de contratransferência, pela qual constata-se que da mesma forma que o analisando influencia o analista com seus conteúdos inconscientes, o analista influencia o analisando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nas-palavras-de-jung" style="font-size:19px">Nas palavras de Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><em>O fato de o paciente transmitir ao médico um conteúdo ativado do inconsciente também constela neste último o material inconsciente correspondente, através da ação indutiva regularmente exercida em maior ou menor grau pelas projeções. Médico e paciente encontram-se assim numa relação fundada na inconsciência mútua.&nbsp;(Jung, 2012 p. 59)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim, a contratransferência é uma reação inconsciente do analista aos conteúdos projetados pelo analisando na transferência, sendo um fenômeno mútuo; e para Austin, necessário ao sucesso da terapia do canto. Não é vista como um obstáculo a ser superado, mas como um instrumento de diagnóstico e uma fonte de informação valiosa sobre o material do paciente e o campo inconsciente compartilhado. A título de ilustração, trago um exemplo apontado por Austin no setting terapêutico em que ela e sua cliente Terry entraram num estado de ressonância psíquica e a partir daí construíram um terceiro elemento que a retirou da angústia que a levou procurar a terapia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Terry sofria com uma autocrítica severa e sentimentos de vergonha e incapacidade, bem como não conseguia estabelecer limites para si e para os outros, sintomas que se somatizavam em sua voz, tornando-a aguda e estridente sempre que era afetada por uma circunstância relacionada à imagem internalizada de sua infância, quando conviveu com uma mãe hipercrítica, que a invalidava constantemente, e que tinha uma voz aguda, cortante e penetrante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-terapia-vocal-a-relacao-terapeutica-atuou-como-temenos-von-franz-1992" style="font-size:19px">Na terapia vocal, a relação terapêutica atuou como <em>temenos</em> (<strong>Von Franz</strong>, 1992)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isto é, <strong><em>um espaço de contenção e segurança</em></strong>, onde a transferência do complexo materno negativo de Terry se manifestou sonoramente. Através da improvisação vocal conjunta, a díade analítica constelou o complexo materno positivo em Austin, permitindo à terapeuta acolher e espelhar as dissonâncias afetivas (contratransferência). Essa sintonia no vínculo facilitou a desidentificação da paciente com a imago materna destrutiva, transformando a vergonha projetada em agressividade saudável integrada ao ego, validada pela escuta ativa e participativa da analista.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Além deste caso, Austin identificou de forma geral em seu estudo qualidades semelhantes na música de vários clientes quando eles estão presos em um aspecto traumatizante do complexo de poder. Ela relata que identificou em vários casos clientes que improvisaram em torno de questões envolvendo julgamento extremo ou abuso verbal ou físico, produzindo músicas com qualidades semelhantes. Eram músicas rápidas, com ritmo, melodia e harmonia repetitivos e um caráter compulsivo. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A autora relata ainda que o complexo de poder se manifestava nos clientes de forma consistente através do efeito que a música lhes afetava, pois cada um experimentava sua música como &#8220;intensa&#8221; e &#8220;com vida própria&#8221;. Sentiam que poderiam continuar tocando por horas sem qualquer mudança nos padrões musicais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Uma cliente descreveu a sensação de estar &#8220;possuída&#8221;. Outro disse que se sentiu “atacado pelo ódio a si mesmo”. Dois dos clientes, quando solicitados a desenhar o que vivenciaram durante a improvisação, desenharam padrões giratórios que pareciam ciclones. Esses desenhos lembram o padrão circular espiral que foi denominado “vórtice traumático” pelo Dr. Peter Levine (Austin, 2008, p.43, tradução nossa).</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estar-preso-em-um-complexo-e-ser-metaforicamente-possuido" style="font-size:19px">Estar preso em um complexo é ser metaforicamente possuído.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por isso a autora afirma que a música pode ser útil para identificar os sons de alguém capturado. Ademais, a música também pode ser extremamente eficaz para ajudar os clientes a retornarem a si mesmo, ajudando-os a diferenciar suas próprias vozes do estado de identidade inconsciente com o complexo. A música pode permitir que os clientes se conectem a sentimentos autênticos (o sentimento por trás do julgamento), podendo então se diferenciar do complexo e encontrar seu próprio ponto de vista (Austin, 2008).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por todo o exposto, a prática vocal no setting terapêutico revela-se um recurso singular para acessar e transformar conteúdos inconscientes que se expressam com mais precisão pelo corpo e pela vibração sonora do que pela linguagem conceitual. Como propõe <strong>Diane Austin</strong>, o canto cria um campo de ressonância emocional que favorece a emergência de complexos, memórias e afetos, permitindo que sejam elaborados por meio da experiência estética, corporal e simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A transferência torna esse processo possível, pois é na relação com o terapeuta que o canto se torna veículo vivo de padrões afetivos antigos, abrindo espaço para reorganização psíquica e reconfiguração de vínculos internos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A <strong>contratransferência</strong>, integrada ao trabalho vocal, amplia esse campo de transformação ao revelar elementos do inconsciente compartilhado e ao permitir que a voz do terapeuta funcione como sustentação, espelho e presença simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Nesse encontro entre duas vozes — literal e metaforicamente — cria-se um espaço de individuação, onde o cliente pode diferenciar-se de seus complexos, reencontrar sua própria sonoridade e reafirmar sua singularidade psíquica ao integrar partes até então dissociadas. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Assim, o cantar, quando inserido na prática analítica, deixa de ser mero recurso expressivo e se torna caminho de cura profunda e de retorno à inteireza.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;O cantar como terapia&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/AsiTcM84Is4?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/marta-guedes/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/marta-guedes/">Marta Beatriz Conceição Guedes &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Z. Maluf &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Austin, D. (2008). The Theory and Practice of Vocal Psychotherapy: Songs of the Self. London/Philadelphia: Jessica Kingsley Publishers.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2000). A natureza da psique. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2012). Ab-reação, anpalise dos sonhos e transferência. Petrópolis, RJ: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2014). Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Von Franz, M. (1992). Puer Aeternus: a Luta do Adulto Contra o Paraíso da Infância. São Paulo: Paulus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Matrículas abertas &#8211; Psicologia Junguiana // Arteterapia e expressões criativas // Psicossomática &#8211; 2 anos &#8211; Certificação pelo MEC: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>O diálogo entre o cliente e o terapeuta</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-dialogo-entre-o-cliente-e-o-terapeuta/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Eugenio Menezes]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Jul 2025 11:57:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[análise junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[diálogo]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicologiaanalitica]]></category>
		<category><![CDATA[terapia]]></category>
		<category><![CDATA[terapia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O fato de procurar por um terapeuta indica que uma pessoa está disposta a percorrer um caminho de autoconhecimento no qual, respeitando e aceitando o que é e/ou o que não é, interage com um (a) profissional para imaginar um pouco mais de sabor e sentido para sua vida. No diálogo, o cliente busca [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Resumo</strong>: O fato de procurar por um terapeuta indica que uma pessoa está disposta a percorrer um caminho de autoconhecimento no qual, respeitando e aceitando o que é e/ou o que não é, interage com um (a) profissional para imaginar um pouco mais de sabor e sentido para sua vida. No diálogo, o cliente busca ir além dos discursos que já ouve cotidianamente nos ambientes familiares, religiosos e profissionais. Num mundo cheio de discursos a respeito de como se deve viver, o ritual semanal da terapia é um exercício de aprendizado do diálogo. O texto revisa a noção de diálogo a partir da observação empírica da análise junguiana e dos trabalhos de Carl Gustav Jung, Simone Magaldi e Vilém Flusser.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O fato de procurar por um terapeuta indica que uma pessoa está disposta a percorrer um caminho de autoconhecimento no qual, respeitando e aceitando o que é e/ou o que não é, interage com um (a) profissional para imaginar um pouco mais de sabor e sentido para sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O diálogo é uma dinâmica marcante do processo terapêutico pelo fato que é muito comum que um cliente busque ir além dos discursos que já ouve cotidianamente nos ambientes familiares, religiosos e profissionais. Num mundo cheio de discursos a respeito de como se deve viver, o ritual semanal da terapia é um exercício de aprendizado do diálogo que pode desabrochar numa relação criativa entre as duas pessoas em ação (cliente e terapeuta) e aquilo que se desenvolve entre elas, isto é, o próprio processo de análise.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tensao-entre-o-discurso-repetitivo-sobre-como-se-deve-viver-e-o-dialogo-criativo-onde-a-vida-pode-ser-reinventada-marca-o-processo-terapeutico-nbsp" style="font-size:20px">A tensão entre o <strong>discurso</strong> repetitivo sobre como se deve viver e o <strong>diálogo</strong> criativo onde a vida pode ser reinventada marca o processo terapêutico.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Essa potencialidade dialógica criativa talvez seja uma das razões pelas quais se prefere o termo cliente por se entender que se trata de uma pessoa ativa que busca a análise com determinado propósito de melhoria em sua vida, que investe tempo e dinheiro na relação com o terapeuta, e não apenas de um indefeso paciente que não entende nada a respeito de sua enfermidade e aceita pacientemente as orientações de um médico com plenos poderes curativos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-tensao-entre-discurso-e-dialogo-esta-presente-em-muitos-estudos-a-respeito-da-relacao-entre-o-eu-e-o-outro-entre-um-eu-e-um-tu" style="font-size:20px"><strong>A tensão entre discurso e diálogo está presente em muitos estudos a respeito da relação entre o eu e o outro, entre um eu e um tu</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A questão se torna fundamental quando na cultura contemporânea é muito comum ouvirmos que devemos viver de forma independente dos outros, que devemos nos vivar por conta, que não precisamos gastar tempo com os outros ou apenas estarmos perto de outros muito parecidos conosco mesmos, como ocorre em grupos de WhatsApp que repetem para pessoas conhecidas a mesma forma de olhar para os principais fatos de cada dia. Por outro lado, em outros grupos muito se fala a respeito da importância dos outros em nossas vidas, mas não se tem muito a consciência de que a beleza do encontro com o outro está justamente no fato que nesta relação podemos muitas vezes ser levados a modificar nosso jeito de ver o mundo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Na linguagem junguiana nós estamos misturados com os outros já no campo do chamado <strong>inconsciente coletivo</strong>. Como afirma a Profa. Simone Magaldi no texto “Inconsciente Coletivo e Inconsciente Pessoal”, publicado em <em>“Fundamentos da Psicologia Analítica”:</em></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nós nos tornamos humanos em função dos arquétipos, nos humanizamos perante os arquétipos, isto é, a experiência arquetípica é que nos faz humanos. Essa camada do inconsciente onde somos todos iguais é que nos faz partilhar das experiências de todos os povos. </p><cite>(Magaldi, 2025, p. 59)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Neste sentido, segundo a autora, que a cultura, no campo do inconsciente coletivo, trata “a imagem, a lembrança e, na linguagem junguiana, o arquétipo da mãe, do pai, herói, rei, príncipe, servidor, político&#8230;”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A autora remete a C.G. Jung para mostrar o quanto não somos mais entidades separadas dos outros, mas somos um:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px;line-height:1.4"><blockquote><p>A camada mais profunda que conseguimos atingir na mente do inconsciente é aquela em que o homem “perde” a sua individualidade particular, mas onde sua mente se alarga, mergulhando na mente da humanidade – não a consciência, mas o inconsciente onde somos todos iguais. Como o corpo tem sua conformação anatômica com dois olhos, duas orelhas, um nariz e assim por diante, e apenas ligeiras diferenças individuais o mesmo se dá com a mente em conformação básica. A esse nível coletivo não somos mais entidades separadas, somos um. Podemos compreender isso quando estudamos a psicologia dos povos primitivos.</p><cite><em>(OC 18/1, § 87)</em></cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-dialogo-e-a-busca-de-sentido" style="font-size:22px"><strong>O diálogo e a busca de sentido</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A relação do cliente com o terapeuta também é marcada pelo princípio biológico do desenvolvimento. Em termos biológicos, cada parte do organismo se desenvolve dia após dia desde o nascimento. Assim, na perspectiva junguiana, “a vida é teleológica <em>par excellence</em>”. Ela é “a<em> própria persecução de um determinado fim, e o organismo nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura alcançar</em>” (OC 8/2, § 798).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Nas palavras das Profa. Simone Magaldi no texto “<strong>Sincronicidade</strong>”, também publicado em <em>“Fundamentos da Psicologia Analítica”:</em></p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px;line-height:1.4"><blockquote><p>Ou seja, biologicamente, temos um caminho de desenvolvimento, que significa exatamente nos “des-envolver”. A negativa “des” significa nos livrarmos das amarras dos nossos envolvimentos para rumar em direção ao nosso próprio propósito; psicologicamente também temos um caminho. Lá na frente, um si-mesmo que pede por completude, que pede por ser único, que nos chama. É o sentido teleológico da vida humana. </p><cite><em>(Magaldi, 2025, p.175)</em></cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Para Jung, acompanhando a reflexão da Profa. Simone, “<em>assim como para os órficos pitagóricos, a psique carrega todo o conhecimento. Precisamos ouvir nosso daimon. Quem conhece um pouquinho de Sócrates sabe do que estou falando. Sócrates ouvia seu daimon, ele seguia esse daimon, esse gênio que falava com ele, indicando o seu destino. Assim é com todos nós, quando seguimos o nosso destino rumo à plenitude</em>” (Magaldi, 2025, p. 176).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Neste caminho rumo a uma vida com algum sentido, que não sirva apenas para si mesmo, mas também para os outros de seu entorno, o cliente em relação com o terapeuta se embrenha no chamado processo de individuação no qual percebe uma meta para viver, o seu próprio Mito do Significado, a sua possibilidade de corresponder ao seu destino e ser capaz de viver. Assim, em outras palavras, “<em>um indivíduo que não corresponde ao seu destino é quase incapaz de viver, ou seja, ele não apenas é infeliz</em>” (Magaldi, 2025, p. 126).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-ambiente-cultural-no-qual-vivemos-nem-sempre-nos-ajuda-a-ter-nosso-perfil-nossa-singularidade" style="font-size:20px">O ambiente cultural no qual vivemos nem sempre nos ajuda a ter nosso perfil, nossa singularidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Ao contrário, quer que nos adequemos às coisas, às tradições e às representações mais comuns e aceitas pela maioria das pessoas. Neste contexto, apresentando o processo de individuação que o cliente pode desenvolver na interação com seu terapeuta, a Profa. Simone Magaldi, no livro <em>“<strong>Ordem e Caos. Uma visão transdisciplinar</strong>”</em>, enfatiza:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px;line-height:1.4"><blockquote><p>Esse é o nosso conflito cotidiano; o ser o si-mesmo e assim trilhar o caminho que é o processo de Individuação, ou ser as representações, as personas, os papéis que a sociedade exige em cada situação e que acabamos por representar em cada uma delas, de acordo com o senso comum. O caos, portanto, não só se estabelece por invasões do nosso interior mais profundo, mas, principalmente, por cobranças do exterior que, via de regra, não coincidem com as expectativas do Self. </p><cite>(Magaldi, 2021, p.57)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Neste processo a relação entre o cliente e o terapeuta não será “morna” como ocorre em muitas das interações humanas. É muito provável que tal qual numa experiência de mistura de elementos em um laboratório, como faziam os alquimistas, a relação indique alguma forma de virada na vida do cliente, uma mudança de perspectiva para a vida, uma transformação, uma metanóia. Diante desta possibilidade, alguns se renderão ao universo sagrado do <em>Misterium tremendum e fascinorum </em>e mudarão suas vidas. “Outros podem adoecer e continuar infelizes e sem sentido para vida” (Magaldi, 2021, p. 81)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dimensoes-filosoficas-do-dialogo" style="font-size:22px"><strong>Dimensões filosóficas do diálogo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Um dos pensadores contemporâneos que trabalhou a temática do diálogo foi o filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser (1920-1991) que, após invasão nazista de sua cidade, Praga, aos vinte anos veio para o Brasil com a família de sua namorada Edith Barth. Aqui viveu trinta e dois anos (1940 -1972) e desenvolveu toda sua formação como pai de família, estudioso de perfil autodidata, depois professor universitário e debatedor no cenário cultural paulistano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Em sua história de vida, registrada no livro <em>Bodenlos: uma autobiografia filosófica</em> (2007), encontramos a lista dos onze interlocutores com os quais manteve diálogos no Brasil. No ambiente desse fecundo diálogo, sua vida parece praticamente um enfrentamento da falta de fundamento expressa no próprio título da obra – <em>Bodenlos</em>, em alemão, quer dizer “sem chão” ou “sem-terra”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-livro-relata-as-interlocucoes-com-sete-brasileiros-e-quatro-imigrantes" style="font-size:20px">No livro, relata as interlocuções com sete brasileiros e quatro imigrantes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Os brasileiros são Milton Vargas, Vicente Ferreira da Silva, João Guimarães Rosa, Haroldo de Campos, Dora Ferreira da Silva, José Bueno e Miguel Reale. Os quatro imigrantes são o tcheco Alex Bloch, o artista plástico romeno Samson Flexor, o judeu ortodoxo inglês Romy Fink e a artista plástica suíça Mira Schendel. A obra indica que a construção da produção intelectual de Flusser aconteceu na conversação, na interação com outras pessoas que também buscavam justificativas para continuar a viver e manter um engajamento na contemporaneidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O diálogo com os interlocutores brasileiros permitiu uma análise fenomenológica de como a “gente” compreende o mundo. A simples palavra “gente”, por exemplo, adquire em seus textos um significado especial, observado por Gustavo Bernardo: Com a “gente” no lugar do “eu” e do “nós”, o filósofo diz “eu” e diz, ao mesmo tempo, “nós”, ou melhor, diz “toda a gente”. Assim ele questiona de dentro, na forma, o “eu solar”, isto é, o “eu” centro do sistema e do universo (Bernardo <em>apud</em> Flusser, 2007, p. 15).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Entendemos que o contexto da conversação, em especial com os interlocutores citados no livro, permitiu um progressivo engajamento reflexivo no universo dos códigos usados tanto na comunicação presencial como na crescente comunicação mediada por equipamentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Provocar e deixar-se provocar pela presença dos outros, com suas vivências e posicionamentos diante dos fatos e acontecimentos, parece ter sido a melhor forma de construção de suas concepções. Assim, podemos dizer que praticou um método fenomenológico na medida em que cultivou a perspectiva da volta às coisas, isto é, da atenção aos fenômenos, ao que aparece à consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aqui-podemos-citar-uma-observacao-de-gustavo-bernardo-sobre-as-conversacoes-de-flusser-com-a-obra-de-edmund-husserl-1859-1938" style="font-size:20px">Aqui podemos citar uma observação de <strong>Gustavo Bernardo</strong> sobre as conversações de Flusser com a obra de Edmund Husserl (1859-1938):</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px;line-height:1.4"><blockquote><p>Atormentava a Husserl a questão central de todo idealismo: o que vemos, existe? E: o que existe, existe mesmo? Na linguagem do filósofo alemão [Husserl], toda percepção da coisa é indissociável da tese do mundo, assim como, para Spinoza, toda representação é juízo situado na ordem das ideias. Vemos não isto, mas isto tudo relacionado àquilo e àquilo outro, vemos as relações.</p><cite> (Bernardo, 2002, p. 62)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Pelo fato de Flusser se referir às relações entre pessoas e/ou coisas, percebemos que sua metodologia é marcada por perguntas, pela observação atenta dos fenômenos e, especialmente, pela coragem de duvidar, condição básica para o diálogo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Relembrando que é pelo espanto que os homens começam a filosofar, como dizia Aristóteles, com o lema “vamos às coisas” Husserl propôs como método da filosofia a <em>epoché</em> ou redução fenomenológica, termos do vocabulário filosófico para suspensão dos pré-julgamentos em relação aos fenômenos. Um leitor de Flusser se sente em ambiente familiar com essa perspectiva de olhar para o mundo, com essa forma de olhar para os fenômenos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tal-perspectiva-fenomenologica-na-maneira-de-olhar-empiricamente-para-as-pessoas-e-para-as-coisas-que-sao-sempre-representadas-psiquicamente-nos-aproxima-da-postura-investigativa-e-dialogica-de-carl-gustav-jung" style="font-size:20px">Tal perspectiva fenomenológica na maneira de olhar empiricamente para as pessoas e para as coisas que são sempre representadas psiquicamente nos aproxima da postura investigativa e dialógica de Carl Gustav Jung.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O exame das noções de discurso e diálogo em <strong>Vilém Flusser</strong> é marcado pelos princípios da Teoria da Informação, bastante difundida no período no qual escreveu, meados dos anos 1970. Assim, o discurso é “o processo pelo qual informações existentes são transmitidas por emissores, em posse de tais informações, para receptores que devem ser informados”. Por outro lado, o diálogo “<em>é processo pelo qual vários detentores de informações parciais e duvidosas (ou, em todo o caso, duvidadas) trocam tais informações entre si a fim de alcançar síntese que possa ser considerada informação nova</em>” (2007a, p. 89-90).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O próprio autor, por outro lado, alerta que sua reflexão sobre discurso e diálogo segue um caminho diferente da “teoria da informação” ou da “informática” e que a teoria da comunicação deverá ser “entendida como uma disciplina interpretativa” e “a comunicação humana será abordada como um fenômeno significativo a ser interpretado” (2007b, p. 92). Praticamente, em condições dialógicas, o que é visto de maneira privada acaba sendo compartilhado, isto é, “<em>o que é visto subjetivamente tem de ser intersubjetivado</em>” (2007b, p. 184).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Nesse sentido, o diálogo pode ser concebido como uma situação na qual dois ou mais sistemas trocam informações, situação que pressupõe quatro condições prévias, conforme descritas no texto “Política e língua”, publicado no jornal “<em>O Estado de S.Paulo</em>”, em 1968, e republicado na coletânea <em>Ficções filosóficas</em>, em 1998:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px;line-height:1.4"><blockquote><p><em>(a) os sistemas não podem ser idênticos ou muito semelhantes; (b) os sistemas não podem ser inteiramente ou quase inteiramente diferentes; (c) um dos sistemas não pode englobar ou quase englobar o outro; (d) os sistemas devem estar abertos para o outro</em>.</p><cite>(Flusser, 1998, p. 100)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-proprio-autor-apresenta-exemplos-das-quatro-condicoes" style="font-size:20px">O próprio autor apresenta exemplos das quatro condições.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Como exemplo da primeira condição, na qual muitas vezes qualquer sentença ou afirmação é redundante, Flusser cita o caso de pessoas muito próximas ou casais quando não têm quase nada de novo a dizer um para o outro. Para ilustrar a segunda condição, fala sobre a incomunicabilidade entre um esquimó e um balula da África Central. As relações entre gerações são exemplos da terceira situação. Para mostrar a última condição, lembra o Muro de Berlim, contexto no qual um dos sistemas interrompeu o canal comunicante com o receio de que informações alterassem o repertório (Menezes; Künsch, 2017).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dentre-os-textos-do-livro-o-mundo-codificado-de-vilem-flusser-destacamos-o-que-e-comunicacao-no-qual-mostra-a-diferenca-entre-comunicacao-dialogica-e-comunicacao-discursiva" style="font-size:20px">Dentre os textos do livro “<em>O mundo codificado</em>”, de Vilém Flusser, destacamos “O que é comunicação? ”, no qual mostra a diferença entre comunicação dialógica e comunicação discursiva:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px;line-height:1.4"><blockquote><p>Para produzir informação, os homens trocam diferentes informações disponíveis na esperança de sintetizar uma nova informação. Essa é a forma de comunicação dialógica. Para preservar, manter a informação, os homens compartilham informações existentes na esperança de que elas, assim compartilhadas, possam resistir melhor ao efeito entrópico da natureza. Essa é a forma de comunicação discursiva. </p><cite>(Flusser 2007b: 97)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:10px">O deixar-se alterar ou captar a alteração provocada pelo outro é uma postura que merece ser melhor observada. É possível que a própria condição de “sem chão”, que frisamos ser a tradução portuguesa do título do livro “<em>Bodenlos</em>”, leve a esta postura, encaminhe para uma consciência de se estar em contínuo processo de engajamento nos discursos e diálogos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:22px"><strong>O deixar-se alterar na relação terapêutica</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Aquilo que enche o coração transborda pela boca. Este apurado provérbio alemão, que expressa muitos relatos do início de um processo terapêutico, é citado por Jung nas primeiras páginas de uma de suas obras (OC 16/2, §262) a respeito da relação entre o terapeuta e o cliente, marcada pelo que investiga sob o termo “transferência”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Trata-se de uma relação considerada dialogicamente como uma experiência crucial que articula a consciência de um com a consciência do outro, bem como o inconsciente de um com o inconsciente do outro. Na medida em que uma pessoa verbaliza sua história singular ocorre uma ligação intensa com o terapeuta; este fica sensibilizado pelo poder das imagens gravadas na memória do cliente e compartilhadas com a sua memória de profissional da escuta. Ambos progressivamente “<strong>agem com o coração</strong>”, ação presente na palavra “<strong>coragem</strong>” (ação do coração) que faz com que os dois caminhem como valorosos parceiros em uma relação humana na qual atuam, de certa forma, em pé de igualdade, no processo terapêutico.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A palavra “processo” está ligada a uma imagem muito cara ao Prof. <strong>Waldemar Magaldi</strong>. Trata-se da metáfora de um quebrador de pedras que com seu martelo dedica muitos dias para separar calmamente uma veia de mármore de um grande rochedo. Processo (do latim <em>procedere</em>) é uma palavra que indica a ação de avançar, ir para frente (<em>pro+cedere</em>), um conjunto contínuo de ações, como as marteladas, com determinado objetivo. No caso da terapia, o profissional, com diligência e perseverança, vai partindo a pedra, isto é, vai dando marteladas com perguntas que geram um conjunto de respostas, ainda que contraditórias, até que surjam, especialmente na ampliação da narrativa dos sonhos dos clientes, as questões a serem aprofundadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Uma prática que lembra o método socrático de perguntas e respostas que levavam o interlocutor a encontrar dentro de si novos conhecimentos, método também conhecido como “maiêutica”, palavra grega para a profissão da mãe de Sócrates que era uma parteira, exercia a “maieutike” ou a “arte de partejar”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Quando apresenta sua tese a respeito de seus problemas o cliente pode ser confrontado como uma antítese, com uma ou várias ampliações a respeito da narrativa apresentada, até que aos poucos, no exercício do diálogo, termo talvez mais profundo que dialética, surja uma nova leitura e uma nova posição diante da própria história de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Um diálogo que acolha a narrativa da história privada com um olhar retrospectivo que indague a respeito de por quealgo aconteceu e, com um olhar prospectivo, pergunte a respeito de para que um fato aconteceu, situação que demanda a chamada finalidade ou propósito do que fazer com o que aconteceu, como já indicamos com o termo “teleologia” no início do texto. Contexto que vai além da pergunta “quem eu sou ou o que eu sou? ”, presente no crachá que uma pessoa usa no ambiente de trabalho, para se chegar a pergunta “para que eu vivo? ”, questão que revelará aos poucos a finalidade de uma vida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-trata-se-de-um-clima-dialogico-da-relacao-entre-dois-sistemas-psiquicos-no-qual-ambos-tecem-juntos-algo-de-novo-acao-presente-na-palavra-confiar-ou-fiar-junto-na-qual-o-terapeuta-com-uma-presenca-muitas-vezes-silenciosa-assume-uma-postura-amorosa" style="font-size:20px">Trata-se de um clima dialógico, da relação entre dois sistemas psíquicos, no qual ambos tecem juntos algo de novo, ação presente na palavra “confiar” ou <strong>fiar junto</strong>, na qual o terapeuta, com uma presença muitas vezes silenciosa, assume uma postura amorosa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">A atitude de quem ama não com o objetivo de fazer o outro ser do jeito que ele (terapeuta) quer, mas de quem ama desejando que o outro (o cliente) se realize do jeito dele. Afinal, quem ama deseja que o outro se torne ele mesmo, que seja feliz do seu jeito e não do jeito que imaginamos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-processo-de-transformacao-do-cliente-e-do-terapeuta-ocorre-segundo-jung-algo-similar-a-um-periodo-de-incubacao" style="font-size:20px">No processo de transformação do cliente e do terapeuta ocorre, segundo Jung, algo similar a um período de incubação:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px;line-height:1.4"><blockquote><p>Na vida humana existem momentos de se virar a página. Aparecem tendências e interesses até então não cultivados; ou se anuncia uma mudança da personalidade (chamada mudança de caráter). Durante o período de incubação de tais mudanças é frequente verificar-se uma perda de energia do consciente: a nova evolução retirou do consciente a energia de que necessitava. É no período que precede as psicoses que essa baixa de energia aparece nitidamente, ou, então, na calma e no vazio que antecedem as novas criações.</p><cite>(OC 16/2, § 373)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Lembrando, com Jung, que “<strong><em>ninguém se vincula com o outro, se antes não se vincular consigo mesmo</em></strong>” (OC 16/2, § 445), alinhamos algumas dinâmicas que podem estar presentes no diálogo, isto é, no trabalho persistente e lento que um cliente decide fazer consigo mesmo para se desenvolver (<em>des</em>-envolver) na interação com um terapeuta.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Considerando, como enfatiza o filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser, acima citado, que a contestação é a mola propulsora de todo pensar, o texto que o (a) leitor (a) tem em mãos é um texto a ser contestado.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: O diálogo entre o cliente e o terapeuta" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/MZsAwDTzofY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/eugenio-menezes/">Dr. José Eugenio de O. Menezes – Membro Analista em formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">BERNARDO, Gustavo. <strong>A dúvida de Flusser</strong>. Rio de Janeiro: Globo, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORNHAUSEN, Diogo A. Intersubjetividade e Comunicação: abordagem filosófica e cultural de Vilém Flusser. <strong>34° Encontro Nacional da Compós</strong>. Curitiba: Compós, 2025. Disponível em: &lt; <a href="https://publicacoes.softaliza.com.br/compos2025/article/view/11416">https://publicacoes.softaliza.com.br/compos2025/article/view/11416</a>&gt;. Acesso em: 29 jun. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">BORNHAUSEN, Diogo A.; BAITELLO Jr., Norval. Os outros de Flusser: dossiê sobre a correspondência de Vilém Flusser. <strong>Revista Líbero</strong>, v.1, n. 45, 2020. Disponível em: &lt; <a href="https://seer.casperlibero.edu.br/index.php/libero/article/view/1169">https://seer.casperlibero.edu.br/index.php/libero/article/view/1169</a>&gt;. Acesso em: 29 jun. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FLUSSER, Vilém. <strong>Ficções Filosóficas</strong>. São Paulo: Edusp, 1998.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FLUSSER, Vilém. <strong>Bodenlos: uma autobiografia filosófica</strong>. São Paulo: Annablume, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FLUSSER, Vilém. <strong>O mundo codificado</strong>. Org. Rafael Cardoso. São Paulo: Cosac Naif, 2007b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>A natureza da psique</strong>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013. [OC 8/2]</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</strong>. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. [OC 16/2]</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <strong>A vida simbólica</strong>. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013. [OC 18/1]</p>



<p class="wp-block-paragraph">KÜNSCH, Dimas A.; MENEZES, José Eugenio de O. O terraço é o mundo: Vilém Flusser e o pensamento da compreensão. <strong>Revista Galáxia</strong>. São Paulo, v. 35, n. 2, 2017. Disponível em:&lt; <a href="https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/29036">https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/29036</a>&gt;. Acesso em: 29 jun.2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, E. Simone D. <strong>Ordem e Caos. Uma visão transdisciplinar.</strong> São Paulo: Eleva Cultural, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, E. Simone D. Inconsciente Coletivo e Inconsciente Pessoal. In: MAGALDI, Waldemar (Org.). <strong>Fundamentos da Psicologia Analítica</strong>. 2° ed. São Paulo: Eleva Cultural, 2025. p. 59-64.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MAGALDI, E. Simone D. Sincronicidade. In: MAGALDI, Waldemar (Org.). <strong>Fundamentos da Psicologia Analítica</strong>. 2° ed. São Paulo: Eleva Cultural, 2025. p. 175-190.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MENEZES, José Eugenio de O. Para ler Vilém Flusser. <strong>Revista Líbero.</strong> São Paulo, v. 25, n.52, 2022. Disponível em: &lt; <a href="https://seer.casperlibero.edu.br/index.php/libero/article/view/454">https://seer.casperlibero.edu.br/index.php/libero/article/view/454</a>&gt;. Acesso em: 29 jun. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MENEZES, José Eugenio de O. <strong>Cultura do Ouvir e Ecologia da Comunicação</strong>. São Paulo: UNI, 2016. Disponível em: &lt; <a href="https://static.casperlibero.edu.br/uploads/2014/07/CULTURA-DO-OUVIR.pdf">https://static.casperlibero.edu.br/uploads/2014/07/CULTURA-DO-OUVIR.pdf</a>&gt; .&nbsp; Acesso em 29 jun. 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZIELINSKI, Siegfried et al. (Orgs). <strong>Flusseriana: an intellectual toolbox</strong>. Minnesota: Univocal, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Terapêutica e sexualidade – parte II</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/terapeutica-e-sexualidade-parte-ii/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maria Ivanilde Ferreira Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 17:55:31 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[eduacação sexual]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[terapia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5203</guid>

					<description><![CDATA[<p>Quando se fala em sexualidade humana, sabe-se que é impossível compreendê-la de forma simplificada, sem admitir sua natureza multidimensional. Ela pode ainda ser banalizada e literalizada em sua forma biológica (pênis e vagina), embora se saiba que a diversidade dos conceitos contemporâneos tenham ultrapassado essa dimensão e isso tem trazido inúmeras dúvidas e aumentado a dificuldade e o preconceito no divã, em um momento em que os muitos terapeutas não conseguem lidar e ampliar a sua própria sexualidade. Esse artigo traz uma ampliação e reflexão desse tema, na abordagem da psicologia analítica de Carl Gustav Jung.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Desde os primórdios, a <strong>sexualidade</strong> tem exercido grande fascínio sobre as pessoas de todas as camadas sociais. Na arte, literatura, religiões, filosofias e outros sistemas preocupados principalmente em moldar o comportamento humano, tentam até hoje, estabelecer valores e tabus <strong>sexuais</strong>. Nesse contexto, torna-se importante definir a <strong>sexualidade</strong>, em uma dimensão mais ampla, de forma biopsicossocial e espiritual, em que a sua dimensão biológica é apenas um dos seus aspectos, talvez socialmente o seu aspecto principal, cujo viés para muitos seja o mais importante, negligenciando-se todos os outros aspectos de completude do indivíduo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>sexualidade</strong> é um dos aspectos da dimensão humana, cercada de muito sofrimento, em razão do ocultamento e da aura do pecado, imposto principalmente pela formação judaico-cristã da sociedade ocidental. A cultura do pecado manteve o véu da ignorância e do preconceito em torno do assunto e em razão disso, pouco se fala e se pesquisa sobre o tema, dado os parcos recursos bibliográficos disponíveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto perpassa pelo conceito de normalidade, como se todos os indivíduos fossem iguais e subjugados a essa “normose” social. Ora, as sociedades são entidades dinâmicas. Assim, o que é normal hoje pode ser anormal amanhã e vice-versa, uma vez que os padrões culturais mudam com o tempo e metaforicamente deve-se também, acompanhar essa mudança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Cavalcanti &amp; Cavalcanti, do ponto de vista psicológico, “sexo normal” é aquele que assim é considerado dentro da visão particular de cada um. O que importa na verdade, é a satisfação pessoal ou a adequação <strong>sexual</strong> de cada indivíduo. Importante lembrar também que “adequação” pressupõe um estado de satisfação intra e interpessoal, ou seja, se o indivíduo está satisfeito com o seu comportamento <strong>sexual</strong> e com o do seu parceiro(a), ele/ela é uma pessoa normal ou adequada, do ponto de vista psicológico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando se fala em <strong>sexualidade</strong> humana, sabe-se que é impossível compreendê-la de forma simplificada, sem admitir sua natureza multidimensional. Ela pode ainda ser banalizada e literalizada em sua forma biológica (pênis e vagina), embora se saiba que a diversidade dos conceitos contemporâneos (LGBTQIA+) tenha ultrapassado essa dimensão e isso tem trazido inúmeras dúvidas e aumentado a dificuldade e o preconceito no divã, em um momento em que os muitos terapeutas não conseguem lidar e ampliar a sua própria <strong>sexua</strong>lidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, torna-se importante observar o tipo de educação <strong>sexual</strong> que o indivíduo recebeu na família. É fato que hoje na sociedade contemporânea, essa discussão se torna bem mais ampla e difundida pelos meios digitais, fato que a algum tempo, não se falava ou comentava, devido aos inúmeros mitos, crendices e tabus <strong>sexuais</strong> familiares. Muitos carregam ainda indícios desse tipo de educação sexual, que chamo carinhosamente de “<strong>educastração sexual</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tempos atuais, o destaque que se da à <strong>sexualidade</strong>, principalmente com a erotização, objetiva-se apenas o culto ao corpo e ao consumismo.Tudo é erótico e erotizável, desde uma simples propaganda na televisão, às letras de músicas e danças de todo gênero. Pouco se aborda acerca da importância emocional do contato humano. Há claramente, a vigência de estereótipos sexuais repressivos e de seus preconceitos e tabus. O corpo de cada um, local em que o prazer pode ser mais intenso e gratificante, é o que mais sofre com os condicionamentos sociais, gerando doenças e disfunções, dificultando os espaços relacionais e a manutenção saudável e prazerosa da convivência conjugal, ocasionando dores, mágoas e rupturas dos casais, razão pela qual inúmeras pessoas procuram os consultórios médicos e psicoterápicos, na esperança do encontro de si mesmo e de maior conhecimento afetivo sexual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cavalcanti &amp; Cavalcanti menciona que o estudo dos problemas sexuais é algo relativamente novo e ainda não existe no Brasil nenhuma disciplina específica, nem nos cursos de medicina, muito menos nos cursos de psicologia, que trate especificamente das questões sexuais e as referências bibliográficas são bem limitadas ligadas ao tema. Jung, em sua obra, também não aprofundou muito, porém, mesmo sendo um homem do seu próprio tempo, com todas as limitações sociais da época não fugiu à discussão, apesar de deixá-la incipiente. Assim mesmo, diante da precariedade, conseguiu abordar em sua obra, uma visão completamente despretensiosa e livre de preconceitos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse fato, todavia, não deve servir de pretexto para que profissionais médicos e psicólogos neguem efetiva ajuda às pessoas com esse tipo de dificuldade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung cita a psicoterapia como um “procedimento dialético”, ou seja, um diálogo entre duas pessoas (importante citar que a dialética era a arte de conversação entre os antigos filósofos). Veja-se:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“A pessoa é um sistema psíquico, que atuando sobre outra pessoa, entra em interação com outro sistema psíquico. Esta é talvez a maneira mais moderna de formular a relação psicoterapêutica médico-paciente”.(JUNG 2020).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido, é necessário que o analista esteja preparado para atender e entender as dificuldades contemporâneas relacionadas à sexualidade, sem que se tenha necessariamente que encaminhar o cliente a outro profissional “mais capacitado” no tema em questão, já que essa formulação dialética, de acordo com Jung, nada mais é que a troca entre dois sistemas psíquicos. É necessário se atentar à responsabilidade dessa terapêutica e jamais negligenciar o processo da “alma”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse sentido:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Aquilo que não está claro para nós, porque não o queremos reconhecer em nós mesmos, nos leva a impedir que se torne consciente no paciente, naturalmente em detrimento do mesmo. A exigência de análise para o próprio analista tem em vista a idéia do método dialético. Como se sabe, o terapeuta nele se relaciona com outro sistema psíquico, não só para perguntar, mas também para responder (&#8230;) que no processo dialético se encontra em pé de igualdade com aquele que ainda é considerado paciente. (JUNG 2020, p.18)”</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhar com transtornos de natureza sexual é um desafio para qualquer terapeuta. De acordo com Jung, o terapeuta vivencia junto com seu paciente, um processo evolutivo individual. Todavia, ele necessita também se colocar nesse espaço como aprendiz e não negar a dificuldade com o tema, razão pela qual, Jung exigia que todo terapeuta fosse “obrigatoriamente” analisado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com efeito, por também ser parte integrante do processo psíquico, imprescindível que ele estivesse em análise da mesma sorte que seu paciente. Nas palavras dele, “Você tem que ser a pessoa com a qual você quer influir sobre o seu paciente. A palavra, a mera palavra, sempre foi considerada vã”. (JUNG 2020, p.87).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, acerca do tema, entendeu Jung:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) “Já não é possível hoje em dia passar por cima da importante realidade psicológica da sexualidade com ar de deboche ou com indignação moral. Começa-se a incluir a questão sexual no círculo dos grandes problemas e a discuti-la com a seriedade que sua importância merece. (JUNG 2019, p. 112)”</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Ivanilde F. Alves ( Ivy Alves) Membro Analista em Formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra E. Simone Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro didata do IJEP</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Terapêutica e sexualidade – parte II | Ivy Alves" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/i95FXG6AjUY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">CAVALCANTI, R; CAVALCANTI, M.&nbsp;<em>Tratamento Clínico das inadequações sexuais</em>. 5.ed.Payá, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<em>A prática da psicoterapia.</em>&nbsp;Vol.16/1. Vozes, 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<em>Civilização em transição.</em>&nbsp;Vol.16/1. Vozes, 2019.</p>
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		<title>Psicoterapeutas: jardineiros da psique</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/psicoterapeutas-jardineiros-da-psique/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Jul 2019 19:32:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Seeting Terapêutico]]></category>
		<category><![CDATA[terapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desde criança as vivências com a natureza me mobilizam e me encantam. O contato com os quatro elementos: terra, fogo, água e ar, que correspondem à luz da psicologia junguiana, e as funções da consciência: sensação, intuição, sentimento e pensamento, auxiliam-me no processo de &#8220;cura&#8221; nas dimensões do corpo, mente, alma e espírito, possibilitando ressignificações [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Desde criança as vivências com a natureza me mobilizam e me encantam. O contato com os quatro elementos: terra, fogo, água e ar, que correspondem à luz da psicologia junguiana, e as funções da consciência: sensação, intuição, sentimento e pensamento, auxiliam-me no processo de &#8220;cura&#8221; nas dimensões do corpo, mente, alma e espírito, possibilitando ressignificações dos padrões de unilateralidade e intensidade, devido à integração da tensão de opostos geradores de cisão e conflitos. A partir de observações, vivências e reflexões sobre a natureza pude estabelecer conexões com a psique e o processo de psicoterapia, além de perceber que a lei que rege a natureza é a lei da harmonia (Marte/Ares x Vênus/Afrodite), dinâmica da consonância dos dissonantes. É o que trabalhamos com o nosso cliente que se apresenta sem luz em algum aspecto na busca de si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em uma entrevista realizada por McGuire e Hull (1997, p. 189), Jung descreveu a ligação entre o homem e o meio ambiente a partir dos seguintes termos:&nbsp; &#8220;Todos nós precisamos de alimento para a psique, é impossível encontrar esse alimento nas habitações urbanas, sem uma única mancha de verde ou árvore em flor; necessitamos de um relacionamento com a natureza; precisamos projetar-nos nas coisas que nos cercam; o meu eu não está confinado no corpo; estende-se a todas as coisas que fiz e a todas as coisas à minha volta, sem estas coisas não seria eu mesmo, não seria um ser humano. Tudo que me rodeia é parte de mim.&#8221; Com isso, Jung nos mostra o quanto que a natureza é sábia e nos oferece elementos que possibilitam ampliar reflexões sobre a dimensão do ser humano integral em busca da alteridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma, é interessante observarmos o processo de psicoterapia, segundo a psicologia analítica junguiana, como um contínuo caminhar rumo a si mesmo (Self), que envolve a enantiodromia. Inicialmente aparecem as queixas emergentes, carregadas de elementos sombrios a serem discriminados, diferenciados e integrados, resultando em aprendizagem sobre o que o sofrimento trouxe e o despertar de atitude transformadora para resgatar a harmonia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em termos gerais, o jardineiro é o profissional que cuida dos jardins, repara solo, aduba a terra, rega plantas e realiza podas em determinadas épocas para que elas revigorem, cresçam e floresçam. Para arrumar o jardim é necessário conhecimento, manejo adequado, em que a falta ou o excesso geram desarmonia, que é equivalente à lei da compensação das polaridades. Vindo ao encontro, Milton Nascimento, em sua canção &#8220;O Cio da Terra&#8221; nos lembra da importância de afagar a terra e fecundar o chão&#8230; &#8220;cio da terra propicia estação.&#8221; Preparar o solo, semear, cuidar e colher&#8230; Metaforicamente, é o que nós psicoterapeutas realizamos com nossos clientes, numa dinâmica que envolve o expandir, penetrar, retrair e cristalizar, em ciclos que compreendem o espaço, movimento, energia e tempo, que de alguma forma contemplo neste texto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante considerar que as estações do ano nos mostram que existe tempo para tudo. E, para ampliar este pensamento, cito Jung (2011, v. 8/2, par. 780) que diz: &#8220;Há alguma coisa semelhante ao sol dentro de nós, e falar em manhã de primavera, tarde de outono da vida não é mero palavrório sentimental, mas expressão de verdades psicológicas&#8221;. A primavera sugere época de crescer e expandir até florir. Envolve força e renovação. O verão pode ser visto como momento de exteriorizar sentimentos, em que acontecem encontros com otimismo e leveza, guiados pela energia do sol.&nbsp; No outono as folhas caem encerrando um ciclo, terminando com nostalgia e amadurecimento. Por fim, o inverno representa recolhimento e interiorização, tristeza, melancolia e depressão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Geralmente o cliente nos procura no inverno de sua vida, no âmago da dor, em busca de resgatar e integrar a escuridão do seu inconsciente à luz da consciência. No decorrer das sessões, ocorre o que podemos chamar de outono, período em que a ampliação dos conteúdos trazidos permite amadurecimento e o cliente começa a perceber a vida com mais leveza e otimismo, analogicamente comparado ao verão. Por fim, nosso cliente cresce, expande e ressignifica sua história, tempo da primavera de sua vida. E o que é a vida senão uma mistura de estações, permeadas pelos elementos terra, água, fogo e ar? &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Plantas nascem, alimentam-se de lodo, estrume, restos que se transformam em flores, frutos e sementes, que nos remete para infância, juventude, vida adulta e velhice. Nascemos, crescemos, reproduzimos e morremos. Ciclos em que podemos transitar em solos férteis e florescer com as podas realizadas. E podas são lapidações, é deixar morrer algo dentro de nós antes da morte física, para nascer o novo. Plantas embelezam, produzem aromas e essências que curam, ao mesmo tempo produzem a droga que afeta e podem matar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto que pode ser considerado é o que Jung (2011, v. 9/2, par. 78) apresenta sobre as profundezas da alma: &#8220;Árvore nenhuma cresce em direção ao céu, se suas raízes também não se estenderem até o inferno&#8221;. As raízes da árvore procuram espaços e crescem para todas as direções, com aspectos primitivos e funcionais. Sem enraizamento a árvore fica comprometida. Muito similar ao que acontece na história de vida do cliente que é ser único e com história única, que precisa ser compreendido numa dimensão maior. O caule, por sua vez, ligado às raízes e condutor de seiva, é possibilidade de transformação e transcendência. Permite conexões com as dimensões superiores da existência. A copa da árvore, com suas folhas que sintetizam energia, com flores que embelezam e perfumam e com sementes como fonte de renovação, simboliza o alcance da plenitude. Desta forma, podemos refletir sobre alguns princípios da natureza: flores são mandalas naturais e florescem onde foram plantadas, ipês nos ensinam muito sobre como passar por seca intensa para florir, folhas que caem produzem adubo e rosas nascem em planta com espinhos. A adubação e a poda são feitas para estimular o crescimento; quando são mal feitas castram e matam. Flor e fruto colhidos antes do tempo não tem o mesmo encanto e sabor. A árvore se mostra frondosa e produz sombra. Do mesmo modo, nós psicoterapeutas trabalhamos com personas e auxiliamos na integração conteúdos sombrios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vindo ao encontro do manejo psicoterático, Jung (2011, v. 10/3, par. 882) contribui de forma significativa: &#8220;Falta contato com natureza que cresce, vive e respira. A pessoa sabe o que é um coelho ou uma vaca através de livros ilustrados, enciclopédias ou televisão. E pensa que conhece realmente, mas fica admirada quando mais tarde descobre que o estábulo fede, pois isso não estava na enciclopédia&#8221;. Penso que nesta visão, Jung sugere que não basta aprendermos conteúdos, definições, técnicas e ficarmos presos ao mundo das ideias. Neste sentido, lembro-me do meu pai, homem do campo e sem conhecimento teórico, todas as noites observava e céu e previa o tempo para o dia seguinte com precisão, por meio de observações, intuições e sensações. &nbsp;É necessário compreender a dor do cliente numa dimensão maior e não tocar em &#8220;feridas&#8221; que não podemos ajudar a curar. Céu, estrelas, lua, sol, vento, seca, chuva, quantas analogias e aprendizagens nos permitem! E como disse Rubem Alves: &#8220;Todo jardim começa com um sonho de amor. Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A natureza é cíclica e tudo que brota da terra vai para a terra, mesmo após transformações recebidas pela ação do homem. Tudo que temos e precisamos origina-se da natureza. Já dizia Jung (2011, v. 10/1, par. 514), com muita sabedoria: &#8220;Por mais que joguemos fora a natureza por meio da força, ela sempre retorna&#8221;. Saber esperar é um aprendizado tão importante para ser resgatado nesta sociedade imediatista e consumista que estamos inseridos. É preciso trabalhar o valor de aguardar e confiar, assim como a natureza nos mostra seus ciclos de produção em que ocorre o tempo de plantar e o de colher, época de estiagem das águas, época de reprodução e relação com o processo natural do amanhecer e anoitecer. Nestas vivências, pequenas frustrações nos preparam para as maiores que virão como processo natural da vida. É preocupante o aumento de crianças medicadas com ansiolíticos, sem falar do suicídio na adolescência. Doenças emocionais, físicas e espirituais se alastrando, pessoas correndo contra o tempo e cada vez mais doentes, sem transformar seus sintomas em expressões simbólicas. Diante desta realidade, também cabe à nós psicoterapeutas resgatarmos o valor da natureza, que nos dá limite, que é organizador e estruturante, possibilitando administrar as frustrações do nosso imediatismo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para finalizar, trago mais uma citação de Jung (1981, v.16/1, Par. 153), que nos remete ao valor do trabalho do psicoterapeuta: &#8220;Uma árvore que cresceu torta não endireita com uma confissão, nem com esclarecimento, mas que ela só pode ser aprumada pela arte e técnica de um jardineiro.&#8221; Assim como o jardineiro que planta, poda, aduba e faz florescer, nós psicoterapeutas &#8211; jardineiros da psique &#8211; podemos ajudar a embelezar seres humanos em busca de sentido e significado, desconstruindo crenças, ajudando a criarem recursos internos para suportarem as podas necessárias e viverem com mais exuberância no florescer de suas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claci Maria Strieder, Especialista em Psicossomática e Analista Junguiana em formação pelo Ijep.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Brasília &#8211; DF</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contato: (61) 99951.0003 &#8211;&nbsp;<a href="mailto:clacims@gmail.com">clacims@gmail.com</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ALVES, Rubem. Postado em textos, crônicas e poesias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, 1981, v.16/1, Par. 153.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, 2011, v. 8/2, par. 780.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, 2011, v. 9/2, par. 78.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, 2011, v. 10/1, par. 514</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, 2011, v. 10/3, par. 882</p>



<p class="wp-block-paragraph">MCGUIRE, W.; HULL, R. F. C. C. G. Jung: entrevistas e encontros. 1. ed. São Paulo: Cultrix, 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NASCIMENTO, Milton.&nbsp; O Cio da Terra &#8211; GERAES, EMI Odeon Brazil,1976.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder&nbsp;</em></strong></h4>
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