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	<title>Dulce Kurauti, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Dulce Kurauti, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Os Contos de Fada e a Dobradura na Arteterapia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/contos-de-fada-e-dobradura-na-arteterapia-de-borgem-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jun 2023 19:41:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo abordará a relação dos contos de fada e da dobradura na arteterapia de abordagem junguiana. Dobradura é a arte de criar formas que representam seres vivos ou objetos, dobrando uma folha de papel, sendo que no seu modelo mais tradicional não se usa tesoura ou cola para se chegar ao resultado desejado. [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>O presente artigo abordará a relação dos contos de fada e da dobradura na arteterapia de abordagem junguiana.</em></strong> </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Dobradura</strong> é a arte de criar formas que representam seres vivos ou objetos, dobrando uma folha de papel, sendo que no seu modelo mais tradicional não se usa tesoura ou cola para se chegar ao resultado desejado. Essa arte está fortemente associada à cultura japonesa. Tanto é assim que a palavra japonesa para dobradura, &#8220;<strong>origami</strong>&#8221; (ori=dobrar, kami=papel), também é muito utilizada para dar nome a essa arte fora do seu país de origem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo falaremos sobre a história da <strong>dobradura</strong> no Japão. Desde seu início a dobradura tem uma forte ligação com processos de cura &#8211; que permanece até os dias de hoje, bem como a uma vivência metafórica do seu processo de produção, de modo que <strong>a dobradura pode ser um recurso expressivo na arteterapia de abordagem junguiana.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Traremos também uma breve história sobre os <strong>contos de fada, </strong>sua importância para a análise junguiana, e como podemos aliar as duas técnicas para promover um diálogo entre o eixo Ego-Self.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-historia-da-dobradura-no-japao-e-a-relacao-com-processos-de-cura" style="font-size:23px"><strong>A história da dobradura no Japão e a relação com processos de cura</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>dobradura </strong>se tornou mais popular no Japão a medida em que o papel se tornou um produto menos caro. Inicialmente, o conhecimento era transmitido verbalmente, de geração para geração. Somente em 1797 veio a ser publicado o primeiro livro que ensinava como dobrar <strong>1000 tsurus</strong> (<strong>Hiden Senbazuru Orikata</strong>).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1845 foi publicado o livro (Kan no Mado), com 150 modelos, onde foi apresentado o modelo do sapo, muito popular até hoje. A partir da publicação deste livro, o <strong>origami</strong> se espalhou como atividade recreativa por todo o Japão;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No primeiro livro de <strong>dobradura</strong> publicado no mundo, o que se ensina a dobrar 1000 tsurus, encontra-se a seguinte frase: &#8220;A magnificência do <strong>origami,</strong> que tem tocado o coração de cada um de nós, transcende as fronteiras nacionais e regionais e se espalha pelo mundo como a linguagem universal do <strong>origami</strong>&#8220;. A magnificência citada nessa frase ganha ainda mais força quando consideramos que essa arte permanece fiel à sua origem através dos séculos e ainda hoje toca o coração das pessoas ao redor do mundo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tsuru">Tsuru</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Este livro já traz uma relação entre a <strong>dobradura</strong> e processos de cura. O <em>Tsuru </em>(Grou) é um <strong>origami</strong> muito popular, considerado por muitos o símbolo do <strong>origami</strong>, já que no Japão o <em>Tsuru </em>é considerado uma ave sagrada. Na mitologia japonesa, ele tem uma expectativa de vida de cerca de mil anos. É também símbolo da saúde, da boa sorte, felicidade, longevidade e fortuna.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Ao dobrar mil <em>tsurus</em> com a mente voltada para um desejo este desejo é atendido pelos deuses. Por isso é comum dobrar mil <em>tsurus </em>desejando a rápida recuperação de um enfermo.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa crença é tão forte no Japão que, mesmo nos dias de hoje, é comum encontrar centenas de móbiles de mil tsurus em locais em que as pessoas pedem uma interseção para alguém doente ou agradecem quando seus desejos são atendidos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outra-dobradura-associada-a-cura-e-o-kusudama-kusu-remedio-dama-bola">Outra <strong>dobradura</strong> associada à cura é o <em>kusudama</em> (kusu=remédio, dama=bola).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No Japão, antigamente, pendurava-se as bolas de cura &#8211; feitas com ervas medicinais ou aromáticas &#8211; perto da cama dos enfermos. Em seu interior e com um cordão com um pompom na sua extremidade que espalharia a energia de cura no ambiente ou a levaria até a pessoa doente. Tecnicamente falando, o kusudama é um estilo de <strong>dobradura</strong> modular em que montamos um poliedro, sendo que seu modelo mais comum, de trinta peças, produz dodecaedro, um poliedro com 12 faces. Vale adiantar que em cada uma dessas faces tem mandala, ou seja, podemos estabelecer aqui uma relação entre essa arte tão antiga e tradicional da cultura japonesa com a arteterapia de abordagem junguiana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-dobradura-na-arteterapia-de-abordagem-junguiana"><strong>A dobradura na arteterapia de abordagem junguiana</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na práxis da arteterapia com abordagem junguiana, a vivência metafórica e simbólica do processo é tão ou até mesmo mais importante do que o resultado obtido e certamente, como descrito a seguir, ao fazer uma <strong>dobradura</strong> temos a oportunidade de vivenciar o processo metaforicamente, de forma a levar a reflexões importantes no processo de autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já no primeiro passo nos deparamos com uma questão interessante: qual o lado do papel queremos que apareça, que predomine? Então, decidimos automaticamente que o outro lado é o que será ocultado. Podemos associar facilmente essa etapa do processo com os conceitos de persona e sombra: lado que vai aparecer na <strong>dobradura</strong> seria a persona e o avesso que vai ficar escondido seria a sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Usualmente o papel que temos para trabalhar tem um lado colorido, estampado, brilhante e um avesso menos interessante, branco, sem brilho, sem muitos atrativos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na maioria das vezes o lado que se escolhe mostrar é o mais interessante. Como acontece com a <strong>persona</strong> que construímos para nos mostrar para o mundo de uma forma que acreditamos que vamos agradar mais: seremos mais bem aceitos e, ao mesmo tempo, deixamos na <strong>sombra</strong> um lado que achamos desprovido de graça e atrativos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“A persona é um complicado sistema de relação entre a consciência individual e a sociedade; é uma espécie de máscara destinada, por um lado, a produzir um determinado efeito sobre os outros e por outro lado a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo”. </em></p>
<cite>JUNG, 1982, § 305</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-olhar-como-lidamos-com-o-avesso-do-papel-traz-boas-reflexoes">Olhar como lidamos com o avesso do papel traz boas reflexões.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na confecção da <strong>dobradura</strong>, vamos nos esforçar para fazer dobras perfeitas, totalmente alinhadas, de forma que não apareça sequer o mínimo sinal do que está do outro lado do papel, o que é praticamente impossível conseguir e ao final do trabalho, vamos encontrar vários sinais incômodos que vão nos lembrar da existência desse outro lado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, também aspectos positivos em se ter um avesso contrastante, um deles é que essa diferenciação entre os lados nos dá uma referência para fazer as dobras alinhadas, se usarmos uma folha de papel sulfite branco vamos perceber o quanto é difícil saber se estamos no caminho certo, ou seja, apesar de a princípio tentarmos evitar o encontro com a sombra a todo custo, ela sempre terá meios de nos lembrar de sua existência através de sinais incômodos que insistem em aparecer, mas isso que tanto resistimos em aceitar como nosso também tem a possibilidade de nos guiar no autoconhecimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-revelada-na-dobradura">A sombra revelada na dobradura</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>sombra</strong> contém os aspectos ocultos, reprimidos e desfavoráveis (ou nefandos) da sua personalidade. Mas esta<strong> sombra</strong> não é apenas o simples inverso do ego consciente. </p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como o ego contém atitudes desfavoráveis e destrutivas, a sombra possui algumas boas qualidades — instintos normais e impulsos criadores. Segundo Jung, <strong>Ego e a sombra</strong> &#8211; apesar de separados &#8211; são tão indissoluvelmente ligados um ao outro quanto o sentimento e o pensamento (O homem e seus símbolos, 1964, p. 118).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por fim, no trabalho com a sombra, pode-se buscar dobraduras em que a frente e o avesso façam parte da peça, uma forma de se trabalhar com o conceito de integração da sombra. Na imagem de apresentação do artigo temos três peças, duas em que o verso do papel aparece e outra monocromática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o avesso do papel aparece ele está totalmente integrado na <strong>mandala</strong> formada, o contraste entre as faces do papel gera uma harmonia, realça e delimita formas. Já a peça de cor única não é totalmente desprovida de graça. Contudo, comparando-a às outras percebe-se o quanto o contraste enriquece o resultado. Acreditamos que esta seja uma boa maneira de vivenciar como podemos ter um belo resultado ao trazer nosso lado oculto para a consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-lidar-com-os-aspectos-ocultos-da-nossa-personalidade-ou-seja-lidar-com-a-sombra-nao-e-uma-tarefa-agradavel-entretanto-ignorar-esse-lado-ira-trazer-consequencias-mais-dificeis-ainda-por-isso-qualquer-recurso-que-possamos-utilizar-para-nos-ajudar-a-encara-la-tem-muito-valor" style="font-size:21px">Lidar com os aspectos ocultos da nossa personalidade, ou seja, lidar com a sombra não é uma tarefa agradável. Entretanto, ignorar esse lado irá trazer consequências mais difíceis ainda. Por isso, qualquer recurso que possamos utilizar para nos ajudar a encará-la tem muito valor.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vai depender muito de nós mesmos a nossa sombra tornar-se nossa amiga ou inimiga. (&#8230;) Na verdade, ela (a sombra) se parece com qualquer ser humano com que temos de nos relacionar, algumas vezes cedendo, outras resistindo, outras ainda dando-lhe amor — segundo as circunstâncias.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-a-sombra-so-se-torna-hostil-quando-e-ignorada-ou-incompreendida-o-homem-e-seus-simbolos-1964-p-173" style="font-size:18px">Segundo <strong>Jung</strong>, <strong>a sombra só se torna hostil quando é ignorada ou incompreendida</strong> (O homem e seus símbolos, 1964, p. 173). </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Outra etapa do processo, que pode levar a reflexões importantes, é o fazer as dobras que marcam o papel, as quais podem ser olhadas como as marcas deixadas pelas experiências de vida. As dobras são feitas para direcionar o papel no caminho para se chegar ao resultado desejado. Quanto mais reforçamos a dobra mais marcado fica o papel. Assim como as experiências da vida, quanto mais intensa ela for, mais forte será a marca deixada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se a vivência intensa for traumática podemos ter um complexo que pode ser ressignificado com novas vivências. Todavia, não poderá ser totalmente excluído da história de vida de uma pessoa, pois uma vez que uma dobra é feita sua marca não pode ser mais apagada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-bola-de-cura">A bola de cura</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Falando agora da bola de <strong>cura</strong>, é possível fazer várias conexões tanto da peça em si quanto do seu processo de produção com os conceitos da psicologia junguiana. Considerando que a bola de cura é um poliedro com mandalas em suas faces, é fácil associá-la à cura também a partir da perspectiva da psicologia junguiana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Adicionalmente, apesar de não termos a história da origem desta <strong>dobradura</strong>, parece plausível assumir que ela não foi criada a partir da visão de Jung de que as mandalas seriam uma representação do si mesmo. Ou seja, as bolas de cura podem ser vistas como uma materialização arquetípica de uma imagem do Si-mesmo e o cordão que sai dela &#8211; para levar a energia de cura até o enfermo &#8211; seria a função transcendente que faz a conexão <strong>Ego- Self</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No modelo mais tradicional da bola de cura &#8211; que é montada encaixando-se trinta peças que geram um dodecaedro, um poliedro de doze faces -, as mandalas que surgem tem mais uma conexão com o divino. Elas sempre apresentam um pentagrama, garantido matematicamente, que para os pitagóricos é o símbolo da conexão do homem com o divino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Partindo das propriedades das mandalas trazidas por Jung, temos que a cura associada a essa <strong>dobradura</strong> seria a pessoa se tornar inteira, chegar o mais próximo possível de quem ela realmente é, livre das personas e das cobranças e modelos impostos pelo mundo exterior. Isto é, a conexão Ego-Self estaria estabelecida e o processo de individuação se realizando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mandala-circulo">Mandala = <strong>círculo</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como já dito, mandala significa círculo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>(&#8230;) A energia do ponto central manifesta-se na compulsão e ímpeto irresistíveis de tornar-se o que se é, tal como todo organismo é compelido a assumir aproximadamente a forma que lhe é essencialmente própria. Este centro não é pensado como sendo o eu, mas se assim se pode dizer, como o si-mesmo. Embora o centro represente, por um lado, um ponto mais interior, a ele pertence também, por outro lado, uma periferia ou área circundante, que contém tudo quanto pertence ao si-mesmo, isto é, os pares de opostos que constituem o todo da personalidade. </em></p>
<cite>Jung, 2000, p. 361</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-montar-uma-bola-de-cura-tem-varias-semelhancas-com-o-processo-de-autoconhecimento">Montar uma <strong>bola de cura</strong> tem várias semelhanças com o processo de autoconhecimento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A bola de cura vai se formando à medida que vamos encaixando as várias peças umas nas outras. O que pode ser comparado à integração</strong> <strong>e a</strong>o <strong>encaixe dos vários aspectos inconscientes da personalidade na consciência.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma que na terapia, em vários momentos sentimos que a montagem não está funcionando, que as peças não estão tão firmes como deveriam. Todavia, de forma interessante, quando conseguimos suportar a tensão do medo do fracasso, da vontade de desistir, e prosseguimos, em algum momento conseguimos fazer com que as peças apoiem umas às outras, e cada nova peça incluída dá mais firmeza para o todo. Isto é, quanto mais ampliamos nossa consciência integrando conteúdos inconscientes e tornando-nos mais completos temos mais recursos para continuar em busca da totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desse modo, quando um <strong>kusudama</strong> fica pronto não é mais possível identificar as partes que a constituíram. Elas se tornaram uma única peça, inteira, integral, sem começo, sem fim. Nos permitindo fazer um paralelo dessa imagem com a imagem de uma personalidade com todos seus aspectos integrados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao fazer uma <strong>dobradura</strong> podemos ter uma experiência mais restrita, quase que somente mecânica. Somente seguindo o passo a passo das orientações sobre como dobrar e marcar o papel, em qual direção levar as dobras ou, podemos ter uma experiência metafórica, vivendo o processo, dialogando com o papel que se deixa conduzir e aceita todas as marcas que vamos deixando nele. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Em ambos os casos, provavelmente o resultado no papel pode ser o mesmo. Ao passo que, no segundo caso temos a oportunidade de trabalhar a favor do processo de autoconhecimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-contos-de-fada-e-a-dobradura-na-arteterapia"><strong>Os Contos de Fada e a Dobradura na arteterapia</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Existe ainda a possibilidade de usar um <strong>conto de fada</strong> como base para se realizar a <strong>dobradura</strong>. Nesse caso, o <strong>origami</strong> trará tridimensionalidade a algum personagem do conto. O personagem pode ter sido previamente escolhido pelo arteterapeuta &#8211; a fim de responder a uma demanda identificada por ele. Ou também pode ser escolhido no momento da contação, juntamente ao analisando. Esta atividade pode durar uma ou mais sessões, a depender do que irá emergir para ser trabalhado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os <strong>contos de fada</strong>, na antiguidade, eram transmitidos através de narrativa oral, por este motivo não é possível precisar sua origem. Os primeiros registros de <strong>contos de fada</strong> datam de 4.000 a.C. e seguem até os dias de hoje, praticamente inalterados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para <strong>Von-Franz</strong>, a explicação para o fato de os <strong>contos de fada</strong> atravessarem séculos sendo contados em diferentes regiões e em diferentes épocas se dá pelo fato de que sua origem está nas camadas mais profundas do inconsciente, comum à psique de todos os seres humanos, o <strong>inconsciente coletivo</strong>. Eles representam os arquétipos na sua forma mais pura. Através das imagens arquetípicas podemos compreender melhor os processos da psique coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Através dos <strong>contos de fada</strong> e dos mitos podemos reconhecer a expressão do arquétipo. Por ser um conteúdo autônomo do inconsciente, por meio dos <strong>contos de fada</strong> conseguimos perceber o arquétipo através de alguns de seus personagens. A exemplo do velho sábio, da bruxa, do herói, da princesa. Essas figuras objetivam o <strong>arquétipo</strong>, uma vez que que pela vontade do <strong>consciente</strong> não é possível reconhecer o arquétipo. Por isso, ao ouvir um <strong>conto de fada</strong> as imagens arquetípicas nele presentes &#8211; representadas pelos heróis, bruxas, princesas, etc &#8211; falam diretamente à nossa alma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-os-contos-de-fada-sao-uma-conexao-entre-o-consciente-e-o-inconsciente-portanto-uma-linguagem-internacional-para-qualquer-idade-raca-e-cultura" style="font-size:21px">Para Jung os <strong>contos de fada</strong> são uma conexão entre o consciente e o inconsciente, portanto uma linguagem internacional para qualquer idade, raça e cultura.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por sua vez, segundo Von-Franz os <strong>contos de fada</strong> utilizam material da psique coletiva &#8211; daí a dificuldade deste trabalho.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Certa vez, ouvi Jung dizer que, se você fizer uma interpretação minuciosa de um conto de fadas, precisará de no mínimo uma semana de férias depois, porque se trata de um trabalho difícil. A dificuldade se deve ao fato de que o conto de fadas se baseia em certas funções da psique sem nenhum material pessoal que o sustente. O que temos é apenas um esqueleto da psique com a pele e a carne removidas. Só resta o que é de interesse humano geral. Trata-se de padrões absolutamente abstratos</em>. </p>
<cite>Von Franz, 2010, p. 13</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Contar histórias é uma arte medicinal. Ao entrar em contato com a história, estamos trabalhando com a energia arquetípica e os arquétipos nos modificam. Ao ouvir uma história o nosso inconsciente fica alerta e de prontidão para reconhecer uma situação ou identificar um arquétipo em seus personagens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje utilizamos os <strong>contos de fada</strong> como técnica expressiva, mas os povos antigos já os utilizavam com a finalidade de “curar” a alma ou como rito de passagem entre etapas de amadurecimento. Os contos são um ótimo material para estudar a anatomia comparada da psique. Neles encontramos as estruturas básicas da psique humana representada por fadas, príncipes, princesas, bruxas, lobos, dragões, etc., e estes transitam entre o bem e o mal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Utilizando a <strong>dobradura</strong> podemos representar esses personagens de forma concreta e ampliar ainda mais seu simbolismo. Ao ouvir o conto e poder materializar algum personagem ou situação através do <strong>origami</strong> amplia-se ainda mais a possibilidade de despertar conteúdos inconscientes que serão trabalhados no processo terapêutico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contos-de-fada-e-as-imagens-arquetipicas">Contos de fada e as imagens arquetípicas</h2>



<p class="wp-block-paragraph">As <strong>imagens arquetípicas</strong> não se dirigem ao consciente racional. Por isso, preservam sua estrutura narrativa, conservando-se e podendo ser passada a várias gerações. De acordo com Von-Franz através dos <strong>contos de fada</strong> temos a reprodução simbólica de imagens arquetípicas, entre elas, a sombra, a anima e o animus. Os personagens dos contos representam instâncias psíquicas que se encontram em nós, com as quais precisamos nos defrontar para o amadurecimento da psique, ou seja, para alcançar a individuação. A motivação dos <strong>contos de fada</strong> se dá por sua natureza e linguagem simbólicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-contar-historias-requer-cuidado-e-responsabilidade"><strong>Contar histórias requer cuidado e responsabilidade.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>É  preciso ter sensibilidade ao escolher o conto a</em></strong> <strong><em>ser</em></strong> <strong><em>trabalhado</em></strong>.<strong><em> Ou seja, perceber se é o momento adequado para aquele conto.</em></strong> Sendo trabalho do arteterapeuta permitir que os conteúdos sejam reconhecidos e trabalhados adequadamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que pode ser feito utilizando as histórias como fio condutor para o propósito final, que vem por meio das artes plásticas, neste caso, o <strong>origami.</strong> Nosso inconsciente é como um solo que receberá a semente (história) que germina e brota imagens inconscientes projetadas para a transformação e o crescimento pessoal. Realizar a <strong>dobradura</strong> é dar tridimensionalidade a essas imagens e permitir o diálogo entre consciente e inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-a-arteterapia-o-mais-importante-e-o-percurso-a-jornada-que-se-realizara-utilizando-o-origami-como-recurso-expressivo" style="font-size:20px">Para a arteterapia o mais importante é o percurso, a jornada que se realizará utilizando o <strong>origami</strong> como recurso expressivo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A técnica da dobradura amplia as possibilidades de intervenção do terapeuta, porém, é o <strong>caminho </strong>que nos interessa. <strong>O que acontece ao longo desse caminho</strong>? Dobras que não se fazem, marcas que ficam à mostra, o papel que se rasga, o que se quer esconder fica à mostra.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse contexto, o resultado nem sempre é o esperado, mas é o processo que conta. Este processo traz muitas informações, e a partir delas se dá o caminho da análise, que já começa com a escolha do papel, sua textura, sua cor etc. Então, podemos escolher o conto de fada de acordo com a demanda da análise e a partir da leitura dele realizar o <strong>origami </strong>correspondente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse caso temos duas técnicas que unidas vão nos proporcionar um aprofundamento no conteúdo da psique e levar a uma reflexão.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><em>Que marcas são essas? Quais marcas quero esconder? Quais marcas me dão orgulho? Que marcas me trouxeram até aqui? Marcas da vida, marcas na alma. Que terão que ser vistas, que sempre estarão lá, mas que podem ganhar novos significados.</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/dulce/">Dulce Kurauti e Keller Villela &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Simone Magaldi &#8211; Fundadora e Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A Vida Simbólica 18/1. 5ª edição. Editora: Vozes, 2011. Petrópolis/RJ</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;________________ O Eu e o Inconsciente 7/2. 23ª edição, 2011. Editora Vozes. Petrópolis/RJ</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;________________ Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo 9/1. 8ª edição. 2012. Editora Vozes. Petrópolis/RJ.</p>



<p class="wp-block-paragraph">________________ O homem e seus símbolos 5ª edição. 1964. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro/RJ.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>KANEGAE, Mari e IMAMURA, Paulo. Origami: Arte e Técnica da dobradura de Papel. São Paulo.Aliança Cultural Brasil-Japão, 10ª edição, 1999.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">PHILIPPINI, Angela. Imaginário em Arteterapia: a Vez e a Voz dos Personagens, Editora Wak: Rio de Janeiro, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie Louise. A Interpretação dos Contos de Fada. São Paulo. Paulus, 7ª edição, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______________________ A Individuação nos Contos de Fada. São Paulo. Paulus, 5ª edição, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______________________ Animus e Anima nos Contos de Fadas. São Paulo. Verus, 2010.</p>



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		<item>
		<title>Psique e Matéria como Unidade sob a ótica junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/psique-e-materia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Feb 2023 12:46:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo trago a possibilidade de compreender psique e matéria como uma unidade a partir do caminho vislumbrado por Jung e explorado mais a fundo por von Franz, em que o mundo arquetípico dos números naturais seriam a chave para esse entendimento.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo abordará a Psique e a Matéria como Unidade, a partir da perspectiva da Psicologia Junguiana. A relação entre psique e matéria é um dos grandes desafios da área do conhecimento da humanidade nos tempos atuais.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao terminar sua obra sobre sincronicidade, Jung começou a tatear sobre a possibilidade de um avanço no entendimento desta relação através dos arquétipos dos números naturais. Poucos anos antes de falecer, por se sentir sem condições de continuar nessa empreitada, ele deixou essa missão para Marie Louise von Franz, uma das mais importantes sucessoras de seu trabalho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de ter tido dúvidas sobre se deveria realizar essa missão ou delegá-la para alguém mais capacitado do que ela, após a morte de Jung, o tema não a deixou em paz, fazendo com que ela tomasse para si esse empreendimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-presente-artigo-foi-escrito-tendo-como-base-dois-livros-de-von-franz-em-que-ela-discorre-sobre-o-assunto-psyche-and-matter-2014-e-number-and-time-1974" style="font-size:18px">O presente artigo foi escrito tendo como base dois livros de von Franz em que ela discorre sobre o assunto: “Psyche and matter” (2014) e “Number and time” (1974).</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Busca-se trazer uma perspectiva inicial sobre o tema, que será aprofundado na monografia de formação de membro analista do IJEP.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">A descoberta da existência do inconsciente por Sigmund Freud e Carl Gustav Jung foi de fundamental importância para o entendimento da psique humana. Apesar de terem tomado caminhos bem diferentes, ambos foram responsáveis pelo trabalho empírico que permitiu ter algum tipo de conhecimento dos conteúdos inconscientes da psique. Sonhos, fantasias, atos falhos, sintomas, gestos involuntários, nos dão alguma noção do que se passa no infinito reino do inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-partir-da-descoberta-do-inconsciente-jung-seguiu-um-caminho-diferente-de-freud-e-dos-materialistas-de-sua-epoca-no-estudo-e-entendimento-da-psique" style="font-size:19px">A partir da descoberta do inconsciente, Jung seguiu um caminho diferente de Freud e dos materialistas de sua época no estudo e entendimento da psique.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para <strong>Freud</strong>, o inconsciente era um local onde eram despejados impulsos sexuais reprimidos e ele buscou conectá-los, através dos seus conhecimentos médicos, direcionando sua busca de entendimento em processos biológicos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> preferiu outra abordagem, antes de assumir qualquer tipo de relação entre o inconsciente e o corpo, ele quis observar os fenômenos psíquicos em si, não por acreditar que essa relação não fosse válida, mas sim porque ele achava que naquele momento, esse caminho seria precipitado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma, ele foi em oposição aos seus contemporâneos materialistas, que assumiram apressadamente que a psique seria apenas um aspecto secundário da personalidade, sujeito totalmente aos processos fisiológicos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-seguir-seu-caminho-jung-chegou-a-descoberta-do-conteudo-mais-importante-da-psique-os-complexos" style="font-size:18px">Ao seguir seu caminho, <strong>Jung</strong> chegou à descoberta do conteúdo mais importante da psique, os <strong>complexos</strong>.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>“A via regia que nos leva ao inconsciente, entretanto, não são os sonhos, como ele (Freud) pensava, mas os complexos, responsáveis pelos sonhos e sintomas”</em> </p>
<cite>JUNG, 2000, §210</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Através do uso do teste de associação de palavras, Jung descobriu a existência dos complexos. Complexos seriam um agrupamento de vivências semelhantes carregadas de forte carga emocional, que agem como uma personalidade com certa autonomia e que toda vez que são acionados provocam reações tanto emocionais quanto corporais fora do alcance da vontade do ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse grau de autonomia pode ser tão grande, que nós não temos complexos, são eles que podem “nos ter”. A partir do teste de associação de palavras, Jung percebeu que seus pacientes levavam um tempo ligeiramente maior para responder quando eram citadas palavras associadas a alguma vivência traumática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Posteriormente, quando esse teste foi feito junto com psico galvanômetro, foi possível perceber que sempre que acontecia esse atraso na resposta, ocorria também um desvio na curva respiratória ou na permeabilidade elétrica da pele. Ou seja, obteve-se indicações de que os complexos tinham também efeitos fisiológicos nos indivíduos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-com-o-conhecimento-de-psicossomatica-que-se-tem-hoje-sabe-se-que-os-complexos-afetam-o-corpo-de-varias-formas" style="font-size:21px">Com o conhecimento de psicossomática que se tem hoje, sabe-se que os complexos afetam o corpo de várias formas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os complexos impactam, por exemplo, o batimento cardíaco, a digestão, o aparelho respiratório, o urinário etc. Ou seja, o mundo inconsciente da psique não estaria relacionado apenas aos processos mentais. Mas sim do corpo como um todo, sendo que o cérebro teria a função específica de organizar nosso entendimento do mundo exterior.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Para Jung, os complexos têm forte relação com a personalidade e ele direcionou seus esforços no entendimento dessa relação</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É imprescindível trazer o conceito de psique segundo <strong>Jung</strong>. Começando com a <strong>consciência</strong>, temos que seu conteúdo é tudo aquilo que conhecemos, que temos consciência, que está no domínio do complexo do ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ademais, além da consciência existe o imenso mundo do <strong>inconsciente</strong>. Em uma primeira camada encontra-se o <strong>inconsciente pessoal</strong> &#8211; no qual estão os conteúdos da vivência pessoal de um indivíduo.Já em camada mais profunda encontra-se o <strong>inconsciente coletivo</strong> &#8211; no qual estão abrigados conteúdos comuns à toda humanidade, a exemplo de sua capacidade criativa, tanto consciente quanto inconsciente, sendo a base da estrutura da psique.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-conceito-importante-relacionado-ao-inconsciente-coletivo-e-o-de-arquetipos" style="font-size:18px">Outro conceito importante, relacionado ao inconsciente coletivo, é o <strong>de arquétipos</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Arquétipos são estruturas psíquicas existentes<em> a priori</em>, não observáveis, uma vez que são estimulados por vivências similares. Sejam elas externas, um perigo que represente uma ameaça de morte, ou internas, levam às mesmas reações, sentimentos, emoções, fantasias, sensações em todas as pessoas, como acontece com os instintos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-associacao-desses-efeitos-com-emocoes-como-amor-medo-entusiasmo-etc-leva-a-efeitos-fisicos-como-aceleracao-do-coracao-ondas-de-suor-tremores-e-varias-outras-situacoes" style="font-size:18px">A associação desses efeitos com emoções, como amor, medo, entusiasmo, etc., leva a efeitos físicos como aceleração do coração, ondas de suor, tremores e várias outras situações.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dessa ideia, <strong>Jung</strong> fez um diagrama (Figura 1) para representar a psique, atribuindo a ele um espectro de cores, de forma que em um extremo está a parte puramente instintiva, que ele nomeou de infravermelho e no outro extremo está a parte puramente arquetípica, nomeada de ultravioleta. Entre eles existe um espaço em que o ego transita, e no meio desse caminho está a consciência, onde ele pode usufruir de uma certa autonomia de decisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fora deste campo, a polarização em qualquer um dos lados pode levar o ego a ser tomado por um complexo como, por exemplo, a ninfomania ou a compulsão alimentar no extremo infravermelho, ou, ainda,  a pessoa pode ser tomada pela ideia de que é um deus salvador no extremo ultravioleta.</p>


<div class="wp-block-image">
<figure class="aligncenter size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2023/02/Imagem1.gif" alt="" class="wp-image-7378" style="width:552px;height:161px" width="552" height="161"/></figure>
</div>


<p class="wp-block-paragraph"></p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando este modelo, vivemos cotidianamente situações em que o mundo da matéria, percebido por nosso corpo, afeta nosso mundo psíquico. Reciprocamente temos também o mundo psíquico se manifestando no corpo. A existência dessa relação de mão dupla pode ser demonstrada de forma estatística e vem sendo objeto de estudo da medicina psicossomática. Mas como podemos descrever e entender a conexão entre psique e matéria? </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung">Para <strong>Jung</strong>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>&#8220;os dois polos (infravermelho e ultravioleta) fazem parte de uma única e desconhecida realidade viva, e são vistas como dois fatores diferentes somente na consciência, Se nós somos afetados pelo físico ou o assim chamado eventos </em>&#8216;<em>materiais&#8217; do mundo externo nós os chamamos matéria, se nós somos mobilizados por fantasias, ideias ou sentimento internos, nós chamamos isso de psique objetiva ou inconsciente coletivo.&#8221; </em></p>
<cite>von Franz, Number and time, 1974, p. 5 <a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn1"><sup>[1]</sup></a></cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ao se aprofundar no estudo dos arquétipos (que não são acessados diretamente) Jung identificou as imagens arquetípicas nas religiões, mitos e contos de fadas. Mesmo com pontos de diferenciação, os arquétipos mantinham um padrão que se repetia. Além de estarem na base dessas imagens recorrentes, os arquétipos &#8211; que constituem a matriz criativa da inconsciência e do funcionamento da consciência, também estão na base da ciência e de suas premissas intelectuais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No excelente livro, Die physikalische Weltbild in der Antike (“A imagem do mundo físico na antiguidade), S. Sambursky, demonstra de forma detalhada que todos os temas da física do Ocidente são derivados de imagens simbólicas primitivas intuitivas da filosofia natural grega.”<a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn2">[2]</a>&nbsp;(S. Sambursky, apud von Franz, Matter and Psique, 2014, p.15)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-os-pitagoricos-os-numeros-sao-o-alfabeto-com-que-os-deuses-escreveram-o-universo" style="font-size:23px"><strong>Para os pitagóricos “os números são o alfabeto com que os deuses escreveram o universo”.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na física moderna, uma das ideias mais importantes da filosofia que guia é a de que, no fim das contas, tudo o que se está lidando é com uma estrutura matemática. Os pitagóricos já tinham trazido isso para o mundo quando trouxeram que números naturais, e algumas relações entre eles são constantes da natureza, em até 95% (para guardar uma certa margem de segurança). Pois fazem parte da base da ciência natural moderna, são imagens do divino, o que provoca tanto interesse sobre elas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos exemplos mais conhecidos de uma constante da natureza que representa uma imagem divina é a <strong>proporção áurea</strong>, 1,6180. A <strong>proporção áurea</strong> pode ser obtida de forma aproximada na <strong>sequência de Fibonacci</strong>. Esta última, por sua vez, é uma <strong>sequência infinita </strong>construída, em que um termo é a soma dos dois anteriores: (1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, &#8230;).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de alguns matemáticos afirmarem que os números são apenas uma questão de nomenclatura, eles foram nomeados como um, dois, três e assim por diante e da mesma forma poderiam se chamar X, Y, Z &#8230;  E essa troca não teria nenhum efeito, para este grupo a forma como nos referimos aos números seria uma mera convenção inventada pela consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-grupo-certamente-pode-ser-considerado-dentre-aqueles-que-acreditam-que-somente-a-consciencia-e-o-ego-compoem-a-psique" style="font-size:22px">Esse grupo certamente pode ser considerado dentre aqueles que acreditam que somente a consciência e o ego compõem a psique</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se imaginarmos um processo em que “inventamos” os números a partir de uma  contagem de algum elemento, como ervilhas por exemplo, vamos fazendo o levantamento e vamos nomeando o agrupamento de ervilhas de “um”, “dois”, “três”, e assim por diante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este é um processo totalmente criado pela nossa mente e, como fizeram os pitagóricos, várias características desses números foram descobertas. Números pares, ímpares, primos, e mais do que isso, foram descobertas também relações entre eles que ainda hoje não foi possível desvendar a explicação totalmente. Se essas características tivessem sido criadas da mesma forma que os nomes que nós atribuímos aos números, certamente seríamos capazes de falar tudo sobre eles.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ocidente-e-oriente">Ocidente e oriente</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Comparando as visões ocidentais e orientais sobre os números, temos vivências significativamente diferentes entre os dois, enquanto no ocidente temos uma visão predominantemente quantitativa, no oriente temos uma perspectiva qualitativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No seu livro “<strong>Adivinhação e sincronicidade </strong>&#8211;<strong> A psicologia da probabilidade significativa</strong>”, von Franz cita uma história que muito bem ilustra a perspectiva qualitativa dos números para os chineses. Em uma certa batalha, onze generais tinham que decidir se prosseguiriam com a guerra ou se bateriam em retirada. Não houve unanimidade entre eles. A decisão foi votada, sendo que oito deles votaram pela retirada e três votaram por continuar e atacar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Diferentemente do que uma mente ocidental acharia. Justamente porque <strong>três </strong>é o número que representa a unanimidade eles partiram para o ataque e foram vitoriosos (von Franz, Adivinhação e sincronicidade &#8211; A psicologia da probabilidade significativa, 1980, pp. 99, 100).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ampliando essa diferença de percepção para a visão sobre psique e matéria temos que: “Enquanto muitos no Ocidente gostariam de derivar tudo da matéria, ao contrário, no Oriente, por exemplo, os tântricos dizem que a matéria nada mais é do que a definição do pensamento de Deus.”<a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn3"><sup>[3]</sup></a>&nbsp;(von Franz, Matter and Psique, 2014, p. 17)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> focou seus esforços em explorar como o mundo do inconsciente pessoal e coletivo afetavam a pessoa. Nesse sentido, ele se deparou com um desafio, pois, até então, o mundo psíquico só podia ser percebido em seu próprio meio. Diferentemente dos físicos que levavam a vivência da matéria para o mundo mental, psíquico.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sincronicidade">Sincronicidade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao formular o conceito de sincronicidade, que Jung sabia que enfrentaria muita resistência do racionalismo ocidental, o autor nos trouxe uma nova perspectiva de entendimento da relação entre psique e matéria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um<strong> evento sincrônístico </strong>é uma imagem simbólica constelada no mundo psíquico interior, um sonho, uma imaginação ativa, ou um palpite repentino originado no inconsciente, que coincide de uma forma “milagrosa”, não explicável de forma causal ou racional, com um evento similar do mundo exterior (von Franz, Number and time, 1974, p. 6)<a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn4">.<sup>[4]</sup></a></p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>I Ching</strong><em>, </em>um livro chinês de adivinhação e sabedoria, é totalmente baseado na sincronicidade. Deixarei a análise mais profunda desta relação para a monografia de formação de membro analista do IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, acho interessante deixar registrado aqui um fato que nos chama a atenção: quando pensamos na relação entre a psique e matéria, que a quantidade de hexagramas do <em>I Ching</em>, 64, é exatamente a mesma de combinações possíveis do código genético dos seres humanos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com o conceito de <strong>sincronicidade</strong>, em que um evento psíquico se espelha no mundo exterior da matéria, foi possível pensar na existência de uma unidade que está na base da dualidade entre psique e matéria de forma mais compreensível. A partir disso, Jung utilizou o termo <em>unus mundus</em> para designar essa unidade de existência. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-psique-e-materia">Psique e matéria</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> reconhecia que ele próprio não tinha mergulhado nas profundezas desse abismo do entendimento da unidade de existência entre psique e matéria.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apesar-disso-ele-nos-deixou-a-seguinte-pista">Apesar disso, ele nos deixou a seguinte pista:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“<em>Nessa conexão eu sempre me deparo com o enigma dos números naturais. Eu tenho um sentimento distinto de que eles são a chave para o mistério, desde que eles são ao mesmo tempo descobertos e inventados, quantidade e significado</em>&#8221; </p>
<cite>von Franz, Number and time, 1974, p. 9 <a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftn5"><sup>[5]</sup></a></cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/dulce/">Dulce Ayako Kurauti </a>&#8211; Membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone Magaldi</a> &#8211; Membro Didata do IJEP</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Psique e matéria como unidade a partir da perspectiva da Psicologia Junguiana" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/GQT1XG3HS5o?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bibliografia</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">von Franz, M.-L. (1974).&nbsp;<em>Number and time.</em>&nbsp;Northwestern University Press: Evanston.</p>



<p class="wp-block-paragraph">von Franz, M.-L. (1980).&nbsp;<em>Adivinhação e sincronicidade &#8211; A psicologia da probabilidade significativa.</em>&nbsp;São Paulo: Cultrix.</p>



<p class="wp-block-paragraph">von Franz, M.-L. (2014).&nbsp;<em>Matter and Psique.</em>&nbsp;Boston &amp; London: Shambhala.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a>&nbsp;(&#8230;)&nbsp;the tvvo poles partake of one and the same unknown living reality, and are registered only as two different factors in consciousness. If we are afTected by the physical or so-called “material” events of the outer world, we call it matter; if we are moved by fantasies, ideas, or feelings from within, we call it the objective psyche or the collective un- conscious.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref2"><sup>[2]</sup></a><sup>&nbsp;S</sup>. Sambursky, in his outstanding book Die physikalische Weltbild in der Antike (“The Image of the Physical World in Antiquity”), demonstrates in a detailed fashion that all the basic themes of modern Western physics are derived from the intuitive primal symbolic images of Greek natural philosophy.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref3"><sup>[3]</sup></a>&nbsp;Whereas many in the West would like to derive everything from matter, conversely, in the East, for instance, the Tantrics say that matter is nothing other than the definiteness of God’s thought.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref4"><sup>[4]</sup></a>&nbsp;(&#8230;)&nbsp;a symbolic image constellated in the psychic inner world, a dream, for instance, or a waking vision, or a sudden hunch originating in the unconscious, which coincides in a “miraculous” man- ner, not causally or rationally explicable, with an event of similar meaning in the outer world.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="applewebdata://BA98AD81-AC68-4C9F-B842-ED04760F44FE#_ftnref5"><sup>[5]</sup></a>&nbsp;n this connection I always come upon the enigma of the natural number. 1 have a distinct feeling that number is a key to the mystery, since it is just as much discovered as it is invented. It is quantity as well as meaning.</p>
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		<title>Fotografia como ferramenta terapêutica</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/fotografia-como-ferramenta-terapeutica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Jul 2022 12:32:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia e psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A busca de ajuda pelos clientes nos consultórios em grande parte se deve ao fato deles perceberem que sofrem de angústias e desconfortos que não conseguem explicar, mas que trazem impactos negativos em suas vidas. Em muitos casos essas angústias e desconfortos assumem intensidade mais forte, tornando-se o que hoje parece ser uma epidemia, que [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">A busca de ajuda pelos clientes nos consultórios em grande parte se deve ao fato deles perceberem que sofrem de angústias e desconfortos que não conseguem explicar, mas que trazem impactos negativos em suas vidas. Em muitos casos essas angústias e desconfortos assumem intensidade mais forte, tornando-se o que hoje parece ser uma epidemia, que dependendo dos sintomas pode ser chamada de depressão, crises de ansiedade, pânico etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung, os conflitos da vida civilizada surgem por conta da grande exigência que é feita para que a consciência tenha uma atitude dirigida para a execução de um fim, tornado-a unilateral, o que pode levar a um distanciamento do inconsciente. Quanto maior for essa distância “tanto maior é a possibilidade de surgir uma forte contraposição, a qual, quando irrompe, pode ter consequências desagradáveis.” (JUNG, 2000, §139)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses conteúdos inconscientes, que precisam ser integrados à consciência, para equilibrar sua atitude unilateral, são tanto as características da personalidade que são incompatíveis com os objetivos da consciência, quanto os complexos, que se formam a partir de experiências afetivas de caráter traumático que no momento em que foram vividos não puderam ser mantidos na consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung deu a seguinte definição para o complexo:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que é, portanto, cientificamente falando, um &#8220;complexo afetivo&#8221;? É a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência. Esta imagem é dotada de poderosa coerência interior e tem sua totalidade própria e goza de um grau relativamente elevado de autonomia, vale dizer: está sujeita ao controle das disposições da consciência até um certo limite e, por isto, se comporta, na esfera do consciente, como um corpus alienum corpo estranho, animado de vida própria. Com algum esforço de vontade, pode-se, em geral, reprimir o complexo, mas é impossível negar sua existência, e na primeira ocasião favorável ele volta à tona com toda a sua força original. (JUNG, 2000, §201)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um complexo ativo, ou constelado, como se costuma dizer, faz com que a pessoa fique num “estado de não-liberdade, de pensamentos obsessivos e ações compulsivas” (JUNG, 2000, §200), sendo que, a intensidade dessas manifestações está relacionada com a carga emocional e afetiva da situação que a originou e o quanto a pessoa está inconsciente dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung diz também que a situação psíquica que gera um complexo é um “trauma, um choque emocional, ou coisa semelhante, que arrancou fora um pedaço da psique. (&#8230;) Regra geral, há uma inconsciência pronunciada a respeito dos complexos, e isto naturalmente lhes confere uma liberdade ainda maior.” (JUNG, 2017, §204)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para se atenuar esse efeito que os complexos têm sobre a consciência, de tirar a autonomia de sua vontade e assumir personalidades indesejáveis o trabalho a ser feito é tornar consciente seus conteúdos inconscientes. A necessidade de se resgatar esses conteúdos, que estão inconscientes, faz com que a fotografia seja um recurso muito eficiente no auxílio desse processo, dada a sua capacidade de registrar a história de uma pessoa e trazer à tona lembranças que foram apagadas de sua memória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A relação da fotografia com a memória já pode ser entendida a partir do entendimento da origem grega da palavra, phos ou photo, que significa “luz”, e graphein, que quer dizer “marcar”, “desenhar” ou “registrar”, ou seja, registrar com a luz um momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além do fato, do momento em si, em seu trabalho em que relaciona fotografia e memória, Fábio d‟Abadia de Sousa (2010, p. 7), fala sobre a capacidade de a fotografia trazer à tona memórias sensoriais e afetivas envolvidas naquele momento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada foto é capaz de recriar aquilo que se sentiu em torno de uma viagem, um casamento, um aniversário ou um momento ordinário da vida.&nbsp;&nbsp; São comuns os relatos de pessoas que ao reverem fotografias de seu passado, além daquilo que aparece na imagem, também recordam uma série de acontecimentos relacionados ao instante registrado, como pessoas, lugares, espaços, texturas, sabores, cheiros, ódios, amores, alegrias, tristezas, vitórias, derrotas, enfim, ocorre um avivamento pleno de experiências passadas aparentemente perdidas na memória. (SOUSA, 2010, p. 7)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dada essa capacidade da fotografia fazer emergir essa profusão de memórias, ela pode ser utilizada na arteterapia junguiana como um recurso para o resgate da história de uma pessoa, identificação de complexos e sua ressignificação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existem várias formas de usar a fotografia no processo de arteterapia junguiana. Vou apresentar aqui uma metodologia aprendida nos encontros de supervisão com Dra E. Simone Magaldi, membro didata do IJEP, como uma possibilidade a ser considerada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro ponto a ser observado é que essa técnica não é indicada para o início do processo terapêutico, é importante que o terapeuta tenha tido um tempo para conhecer o cliente, e avaliar se o seu ego está em condições de lidar os conteúdos que podem surgir na vivência, pois no processo de resgate de memória, uma lembrança mais dolorosa pode ser acessada e não é possível interromper o fluxo de emoções e afetos que irrompem na consciência.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No modelo considerado trabalha-se com fotografias de forma a se conseguir percorrer a história do cliente de forma exaustiva. Como forma de apoiar uma divisão em etapas que possibilite cobrir toda a história do indivíduo de forma organizada, não cansativa, e que faça sentido do ponto de vista do desenvolvimento da pessoa, é utilizada a teoria dos setênios da Antroposofia como direcionador do processo. Ou seja, a história do cliente será revisitada em fases de sete em sete anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A teoria dos setênios da Antroposofia trata o desenvolvimento humano considerando ciclos de sete anos, em que cada uma das fases é um período de características únicas esperadas. Ao se comparar as características de cada fase com o que se revela nas fotos é possível ver o quanto a história do cliente se desenvolveu de acordo com o que é esperado e como o atingimento ou não dos objetivos de cada etapa impactou as seguintes, um insumo importante para o processo de autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seu livro “O desenvolvimento da personalidade”, Jung fala das condições que precisam ser satisfeitas para se chegar ao melhor desenvolvimento possível da personalidade (2013, § 289), nos dando suporte para:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Atingir a personalidade não é tarefa insignificante, mas o melhor desenvolvimento possível da totalidade de um indivíduo determinado. Não é possível calcular o número de condições que devem ser satisfeitas para se conseguir isso. Requer-se para tanto a vida inteira de uma pessoa, em todos os seus aspectos biológicos, sociais e psíquicos. Personalidade é a realização máxima da índole inata e específica de um ser vivo em particular.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em nossa metodologia será utilizado como parâmetro dessas condições as características descritas nos setênios da Antroposofia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O conceito de Antroposofia é muito complexo e amplo, portanto, ele não será explanado neste artigo. Para se conhecer e entender o tema, um livro que pode ser consultado é o livro “Bases antroposóficas da metodologia biográfica” de Gudrun Burkhard, publicado em 2015 pela editora Antroposófica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia é ter de uma a duas fotos de cada idade dentro de um setênio, sendo que para o primeiro setênio pede-se que sejam trazidas fotos da gestação e do casamento dos pais. A expectativa é de que cada ciclo seja objeto de análise por pelo menos uma sessão, podendo ir além caso seja necessário.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na sessão de análise das fotos, pede-se para o cliente que as exponha sobre a mesa e as organize da forma que achar melhor, e uma vez que essas fotos estejam expostas, ele pode contar a sua versão da história dessa fase de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse momento, o próprio cliente já pode identificar espontaneamente situações relevantes para o processo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele pode ressignificar lembranças, corrigindo percepções imprecisas. Uma infância que era vista como solitária e triste, pode aparecer como rodeada de companhias e alegre, quando as fotos mostrarem que ele tinha muitos amigos com quem brincava sempre sorridente. Memórias perdidas também podem irromper a barreira da consciência revelando traumas que deram origem aos complexos. Em ambos os casos, ao se ter acesso a aspectos que estavam inconscientes, uma etapa importante do processo terapêutico foi cumprida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além de lidar com o material manifestado pelo cliente, o terapeuta tem que explorar todo um mundo de possibilidades que não foi acessado pelo cliente em sua abordagem. O importante é buscar ler todas as mensagens que estão nas fotos, principalmente na sua linguagem simbólica, ou seja, naquilo que não está óbvio, que está oculto por trás e além da imagem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para orientar essa exploração toma-se como base os pontos fundamentais de cada fase de desenvolvimento humano, apresentados pela teoria dos setênios junto com os elementos registrados nas fotos para se conseguir uma visão mais ampla da história do cliente e, possibilitar o acesso às memórias perdidas que podem ser a origem de complexos afetivos que perturbam a sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A título de exemplo, no primeiro setênio, receber amor, calor, confiança e alegria de seus pais, é um fator muito importante desta fase, pois ele é base da construção do senso moral da criança. Com base nisso, o que as fotos dizem sobre a relação dos pais com a criança, eles se mostram afetuosos e presentes ou frios e ausentes? Eles estimularam o desenvolvimento da confiança da criança com atitudes de estímulo? E antes de tudo isso, tanto pai quanto mãe eram figuras existentes, ou um dos dois ou ambos faltaram por falecimento ou abandono?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existem também, aspectos importantes a serem explorados além do que se apresenta nas fotografias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguma foto teve um efeito perturbador sobre o cliente? Da mesma forma que Jung percebeu a existência dos complexos a partir de perturbações nos testes de associação de palavras, aqui também alguma foto pode ter o mesmo efeito sobre o cliente, o que já pode ser um indício de que algum complexo foi acionado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outras questões importantes a serem tratadas: Qual a disposição das fotos? Qual o elemento central da apresentação? Existem ausências significativas? Alguma lembrança paralela foi trazida?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entender a perspectiva de quem tira as fotos também pode trazer subsídios importantes para a terapia, principalmente nas fotos familiares, em que pode existir a figura da pessoa que “gostava de tirar fotos” e que coloca muito do seu olhar nas imagens registradas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa metodologia podemos explorar as memórias trazidas pelas fotos e todos os efeitos e afetos relacionados direta ou indiretamente com elas de forma a enriquecer o processo de autoconhecimento do cliente que vai conhecer melhor sua história pregressa, seus efeitos no presente, ressignificar lembranças, despotencializar complexos para que ele possa dar os próximos passos com uma maior autonomia do ego a serviço do Self.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mestre Dulce Kurauti</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;&nbsp; &nbsp; &nbsp;Membro analista em formação pelo&nbsp;IJEP</p>
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		<title>Feminino reprimido: uma variável sombria na equação das calorias ingeridas e consumidas</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/feminino-reprimido-uma-variavel-sombria-na-equacao-das-calorias-ingeridas-e-consumidas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Jul 2022 12:52:15 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[calorias]]></category>
		<category><![CDATA[emagrecimento]]></category>
		<category><![CDATA[gordofobia]]></category>
		<category><![CDATA[gordura]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[obesidade]]></category>
		<category><![CDATA[peso]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É fato que questões relacionadas com o peso são, em maior ou menor grau, uma preocupação presente na vida da maioria das pessoas, e, muito provavelmente, em uma consulta informal em qualquer grupo de pessoas, uma boa parte terá ressalvas quanto ao próprio peso. Considerando a situação do Brasil, uma pesquisa online de 2012 feita [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">É fato que questões relacionadas com o peso são, em maior ou menor grau, uma preocupação presente na vida da maioria das pessoas, e, muito provavelmente, em uma consulta informal em qualquer grupo de pessoas, uma boa parte terá ressalvas quanto ao próprio peso. Considerando a situação do Brasil, uma pesquisa online de 2012 feita com 25 mil pessoas da América Latina, aponta que os brasileiros são o povo mais insatisfeito com o próprio peso, além de se destacarem também por um uso maior de remédios de <strong>emagrecimento</strong>:”&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-table"><table><tbody><tr><td>&nbsp;</td><td>Brasil&nbsp;</td><td>América Latina&nbsp;</td></tr><tr><td>Um pouco acima do peso&nbsp;</td><td>43%&nbsp;</td><td>35%&nbsp;</td></tr><tr><td>Acima do peso&nbsp;</td><td>16%&nbsp;</td><td>28%&nbsp;</td></tr><tr><td>Satisfeito com o próprio peso&nbsp;</td><td>30%&nbsp;</td><td>37%&nbsp;</td></tr><tr><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td><td>&nbsp;</td></tr><tr><td>Uso de emagrecedores&nbsp;</td><td>12%&nbsp;</td><td>8%&nbsp;</td></tr></tbody></table><figcaption class="wp-element-caption">Fonte: Brasileiro é o que mais usa remédio de emagrecer na América Latina &#8211; notícias em Ciência e Saúde (globo.com)&nbsp;</figcaption></figure>



<p class="wp-block-paragraph">O peso corporal é um indicador importante de saúde, seu excesso é um fator de risco para várias doenças graves, além de ter impactos físicos mais diretos, principalmente relacionados a uma sobrecarga para os ossos. De forma mais subjetiva ele está relacionado também a autoimagem desejada, imposta pelos padrões vigentes de “beleza perfeita”, pois não podemos nos esquecer que o padrão de beleza mudou muito ao longo da história e já houve época em que corpos mais robustos eram os belos e os corpos esquálidos buscados hoje seriam o oposto.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando a relevância, que o tema tem na vida das pessoas, não é de se estranhar a frequência com que ele aparece nos atendimentos terapêuticos, abrangendo tanto questões relacionadas à saúde, quanto à insatisfação com a autoimagem e a busca, muitas vezes obsessiva, por um corpo ideal.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse artigo vou apresentar uma perspectiva sobre o excesso de peso no universo feminino, que vai além de um saldo positivo entre as <strong>calorias</strong> ingeridas e consumidas que se transforma em gordura. Essa perspectiva está baseada <strong>no livro <em>“A coruja era filha do padeiro</em>” de Marion Woodman</strong>, onde a autora amplia nosso entendimento sobre a dinâmica do ganho de peso falando sobre seus aspectos fisiológicos e psicológicos, partindo de um estudo feito com mulheres que estavam acima do peso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estar acima do peso desejado é um fator de grande angústia e sofrimento para as mulheres, mesmo estando conscientes de que existe um padrão vigente que impõe modelos de magreza que desconsideram características individuais porém dada a enxurrada de imagens de “corpos magros e belos” que inundam as redes sociais, é uma tarefa hercúlea se colocar na frente de um espelho e se sentir bem quando a imagem ali refletida não se parece com as imagens estampadas nas capas de revista há algum tempo atrás e, nos dias de hoje, postadas nas redes sociais.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo em casos em que as mulheres percebem que a comida não é utilizada apenas para se nutrir, que muitas vezes ela acaba assumindo um papel emocional, o mais comum é elas se agarrarem à ideia de que conseguir atingir o peso desejado é somente uma questão objetiva matemática de <strong>calorias</strong> ingeridas e gastas, porém existem vários fatos que contrariam essa linha de raciocínio. Pessoas que se alimentam de forma bem parecida, mas uma delas ganha mais peso que a outra, pessoas que conseguem eliminar peso às custas de muita disciplina tanto na dieta quanto nos exercícios que eliminam peso, mas que acabam voltando à situação anterior mesmo mantendo a duras penas boa parte do rigor na dieta e nos exercícios.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E por que isso acontece? Existiria uma variável oculta na equação que resulta no peso final de uma pessoa?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seu livro, <strong>Mary Woodman</strong> traz uma perspectiva enriquecedora sobre o tema, por um lado uma visão fisiológica sobre como as células de gordura podem se constituir de duas formas diferentes e como elas influenciam de formas distintas a dinâmica de ganho/perda de peso, e por outro, uma perspectiva da psicologia junguiana que tira da sombra uma variável oculta, o feminino reprimido.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com relação aos tipos de obesidade, Woodman apresenta duas possibilidades, a obesidade primária e a secundária. A obesidade primária é aquela em que a <strong>gordura</strong> é constituída por um maior número de células do que a média das pessoas não obesas, e a secundária tem uma quantidade de células de gordura dentro do padrão, porém de maior tamanho.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estudos já mostraram que uma perda sustentável do peso, ou seja, em que não se recupere os quilos eliminados, é mais provável no segundo tipo de obesidade, quando um peso menor é atingindo pela diminuição do tamanho das células de gordura. No primeiro caso, há uma diminuição da quantidade de células de <strong>gordura</strong>, porém o corpo vai tentar recuperar as células perdidas assim que a força de vontade da pessoa não for mais tão firme quanto antes.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme citado pela autora, quando a <strong>obesidade</strong> surge na infância, ela é caracterizada pelo maior número de células de gordura, explicando porque é tão difícil para pessoas que estão acima do peso desde a infância perderem peso e manter o resultado obtido. Se o aumento de peso acontece só na vida adulta, temos a obesidade secundária, o que aumenta consideravelmente as chances de não se recuperar os quilos perdidos. Assim podemos entender porque pessoas que foram crianças obesas tendem a ter muito mais dificuldade em ter e manter um peso considerado normal, o que já agrega uma nova variável à contabilidade do peso. Para trazer alguma luz para a razão pela qual as células se constituem de forma diferente nas duas fases da vida, coloco a seguir uma citação de Jung feita por de Marie-Louise von Franz que encontrei no livro sobre tipos psicológicos, ou seja, dentro de um contexto totalmente diferente do tema abordado aqui, que pode ser um paralelo biológico interessante:&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Ele assinala, por exemplo, as duas maneiras pelas quais as espécies animais se adaptam à realidade: ou reproduzindo-se tremendamente e tendo um mecanismo inferior de defesa, como as pulgas, os piolhos, e os coelhos, ou procriando muito pouco e construindo fortíssimos mecanismos de defesa, como o porco espinho e o elefante. (von Franz &amp; Hillman, 2020)</em>&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Por esse paralelo, podemos considerar que o ego da criança ainda tem muito a aprender, seu sistema de defesa com relação ao mundo ainda está sendo construído, então quando as células de gordura são produzidas vão se comportar como as pulgas, procriando muito e quando isso vem a acontecer na vida adulta elas se reproduzem pouco mas ficam robustas, mais fortes como o elefante, sendo que no primeiro caso como o padrão não muda na vida adulta, parece que ele fica estacionado no estágio anterior de desenvolvimento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando o aspecto psíquico do tema a partir da visão junguiana, em que o corpo é um canal de expressão dos complexos, Goodman fez um experimento de associação de palavra e obesidade com vinte mulheres obesas e vinte no grupo controle e, uma análise mais profunda em três casos de estudo, identificou o feminino reprimido como um complexo manifestado em seus corpos como o excesso de peso.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi a partir de seu experimento de associação de palavras que Jung percebeu que as pessoas tinham reações físicas involuntárias muito sutis quando determinadas palavras eram ouvidas. Ao buscar a origem dessas reações “Jung terminaria por concluir que os vários sintomas corporais eram mensagens da própria psique. Em consequência, era possível atribuir-lhes significado simbólico” (Woodman, 2020, p. 104).&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir do seu experimento de associação de palavras e do estudo de casos, a autora percebeu a relação de cinco complexos com a obesidade, complexo paterno, materno, alimentar, sexual e religioso, e analisando seus aspectos simbólicos percebeu um ponto em comum entre todos eles, a perda do feminino.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo vou trazer alguns aspectos que mostram a relação destes complexos com a perda do feminino e com a obesidade&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo paterno pode se manifestar quando se tem a imagem de um pai perfeito, idealizado que provoca na filha o desejo de estar à altura dessa perfeição, levando-a a renegar seu lado sombrio, seus demônios. Ela faz de tudo para criar uma boa imagem para seu pai e ao fazer isso não pode se tornar uma mulher completa com limitações e imperfeições. Essa rigidez com que se cobra perfeição faz com que ela perca um aspecto essencial do feminino,&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>a sua devoção à ordem apolínea de vida, conjugada com o medo do demônio, leva-a buscar o controle do ego por meio da atividade do animus. Todavia, ao ignorar o seu lado puella, ela está perdendo o seu vínculo com Dionísio, o que leva à perda do componente essencial da natureza feminina. (Woodman, 2020, p. 165)</em>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O complexo materno tem um papel mais importante no que diz respeito a desordens alimentares do que o complexo paterno e, tudo pode começar desde muito cedo com uma mãe que não sabe diferenciar os tipos de choros da criança e que assume que todos eles são de fome e atende a todos os chamados do bebê com comida, o que faz com que ele tenha dificuldade em diferenciar suas percepções corporais, pois tudo foi tratado da mesma forma, sendo alimentado, o que está fortemente associado à desordens alimentares.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao focar em seu peso, a mulher obesa desvia a atenção do enfrentamento que precisa acontecer para que haja o resgate do seu lado feminino mais instintivo, que foi renegado a favor de uma falsa sensação do controle do ego, pois se deixar levar por um ritmo mais espontâneo da vida é extremamente assustador e, como sua mãe também vive apartada desse ritmo, não consegue passar para a filha a segurança de que ela estará presente para acolhê-la nesse momento difícil.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>Curvar-se à Grande Deusa é aceitar a vida tal como é: hoje inverno, amanhã primavera; a crueldade combinada com a beleza; a solidão seguindo o amor. Só é possível submeter-se quando sabe que os braços da mãe amorosa &#8211; ou, talvez, as asas estendidas do Espírito Santo &#8211; estarão abertas para acolher a criança que cai. (Woodman, 2020)</em>&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A manifestação dos outros três complexos podem ser observados na mulher obesa quando ela, por temer o contato com sua natureza feminina mais instintiva, passa o dia submetida a uma vigilância rígida para não ser levada pelos seus anseios de todos os tipos de fome, espiritual, sexual e de uma vida plena, mas à noite sucumbe às investidas desse lado sombrio inconsciente e vai tentar saciar todas as fomes de forma literal com o alimento proibido.&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><em>“A ligação intima entre o alimento físico e o alimento religioso é evidente. Elas anseiam pelo seu &#8220;pão de cada dia&#8221;, mas encaram o símbolo em termos concretos. (&#8230;) comer até que o ego caia no inconsciente torna- se uma paródia do orgasmo “ (Woodman, 2020, pp. 175, 176)</em>&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Aqui novamente o caminho é tornar o ego forte para que ele suporte a integração do feminino que está apartado, o que é uma tarefa árdua em uma cultura que se afastou da vida simbólica e por isso sacia a fome espiritual e sexual com o alimento na sua forma literal. Resgatar a capacidade de simbolizar os sintomas é o caminho para realizar a difícil tarefa, que pode contar com a ajuda dos sonhos e da imaginação ativa com o próprio corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com todas as considerações feitas é difícil se manter preso à ideia de que o peso corporal é apenas o resultado de uma operação aritmética, existem outras variáveis tanto fisiológicas quanto psíquicas que entram nessa conta, mas que não podem ser controladas como a quantidade de calorias ingeridas, até mesmo a obesidade primária pode significar uma eterna luta contra <strong>o excesso peso</strong>, em que as <strong>calorias</strong> consumidas não são a principal componente do resultado. E o mais importante de tudo é algo que deve ser considerado muito além da obesidade, a relação da psique com o corpo, a partir da perspectiva de que um sintoma é uma mensagem da psique, um complexo, que está manifestado de forma simbólica no corpo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako Kurauti&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro analista em formação pelo IJEP&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dra E. Simone Magaldi Membro didata do IJEP&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Feminino reprimido, uma variável sombria | Dulce Kurauti" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/dyVlhuyOZXI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bibliografia</strong><strong></strong>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">von Franz, M.-L., &amp; Hillman, J. (2020). <em>A tipologia de Jung &#8211; Ensaios sobre psicologia analística.</em> &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Woodman, M. (2020). <em>A coruja era filha do padeiro.</em> Cultrix.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2012/01/brasileiro-e-o-que-mais-usa-remedio-de-emagrecer-na-america-latina.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">G1 &#8211; Brasileiro é o que mais usa remédio de emagrecer na América Latina &#8211; notícias em Ciência e Saúde (globo.com)</a>&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Hikikomori – jovens isolados em suas casas e aprisionados pelo complexo materno</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/hikikomori-jovens-isolados-em-suas-casas-e-aprisionados-pelo-complexo-materno/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Aug 2021 12:36:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[hikikomori]]></category>
		<category><![CDATA[japão]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O povo japonês é admirado por um lado pela sua disciplina, determinação e por muitos comportamentos que refletem um conceito de cidadania e uma preocupação com o outro que nos espantam. Quem não se lembra de como chamou a nossa atenção os torcedores japoneses recolhendo o lixo nos estádios nos jogos da copa do mundo [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">O povo japonês é admirado por um lado pela sua disciplina, determinação e por muitos comportamentos que refletem um conceito de cidadania e uma preocupação com o outro que nos espantam. Quem não se lembra de como chamou a nossa atenção os torcedores japoneses recolhendo o lixo nos estádios nos jogos da copa do mundo realizado aqui no Brasil? E quem tiver a oportunidade de visitar esse país vai verificar que lá não se encontra nenhum lixo jogado no chão. Agora, na pandemia, também se falou muito como já estava incorporada na cultura desse povo o uso da máscara por alguém que está doente para evitar que outros de se infectassem. No transporte público há um silêncio predominante tanto porque as pessoas não conversam, mas também porque há avisos espalhados por todo o espaço para deixar o celular no modo silencioso durante a viagem, tudo isso para não incomodar os passageiros.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por outro lado, existem outras situações que nos causam muita estranheza. Em um país com um povo e uma cultura tão virtuosos, a taxa de crescimento da população tem sido negativa, e isso ocorre pela dificuldade que as pessoas têm em se relacionar e, por consequência, namorar, casar e ter filhos. Considerando que lá há rapazes que pagam para serem abraçados e poderem deitar a cabeça no colo de jovens fantasiadas e, moças que trabalham em escritórios e contratam belos rapazes para irem até suas &nbsp;empresas para assistirem a um filme triste juntos, e eles secarem suas lágrimas com um lenço ou afagar seu rosto, tema de outro artigo que escrevi para o IJEP, “Amor e Sexo no Japão, uma sombra que ameaça o país do sol nascente”, podemos entender melhor a origem dos problemas de relacionamento dos japoneses..</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que vemos aqui é um povo muito adaptado aos padrões coletivos de comportamento cuja principal preocupação é o bem-estar do grupo, sendo que o indivíduo tem pouco ou nenhum espaço para se expressar, o que pela psicologia junguiana é fonte de muitas neuroses, que seriam as várias situações singulares que os japoneses vivenciam no que diz respeito a se expressarem individualmente e consequentemente com as relações.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas identificações com o papel social são fontes abundantes de neuroses. O homem jamais conseguirá desembaraçar-se de si mesmo, em benefício de uma personalidade artificial. A simples tentativa de fazê-lo desencadeia, em todos os casos habituais, reações inconscientes: caprichos, afetos, angústias, ideias obsessivas, fraquezas, vícios, etc. (JUNG, 2015, §307)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A esse papel social ao qual nos queremos adaptar individualmente, mas que nos leva a um padrão coletivo, Jung denominou de persona, e ainda segundo ele, quanto mais se está identificado com essa persona, mais se perde da individualidade (JUNG, 2015, pág. 172). No caso do povo japonês, conseguimos ver claramente o quanto eles se adequaram a essa persona em detrimento de suas expressões individuais e as neuroses decorrentes desse quadro.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dentre esses fenômenos que nos chamam a atenção, há o <em>&#8220;hikikomori</em>&#8220;, termo que foi primeiramente definido por Tamaki Saito em 1998 em seu livro “<em>Hikikomori, uma adolescência sem fim</em>”, para se referir tanto ao fenômeno quanto às pessoas que vivem em total isolamento social por um longo período.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No prefácio da tradução de seu livro para o inglês, quatorze anos após a primeira publicação do seu livro, Saito (2013) traz algumas informações atualizadas sobre o assunto após ter se tornado um entendido em problemas psicológicos da juventude. O autor traz que, segundo números levantados pelo Gabinete de Governo Japonês, através de uma pesquisa feita em 2010 com 5000 pessoas entre 15 e 39 anos, estimou-se que o número de hikikomoris no Japão seria em torno de 700 mil, porém o autor acredita que a quantidade esteja subestimada devido ao grande sentimento de vergonha associado a esta condição. Para ele um número mais real seria em torno de um milhão de pessoas que estariam em isolamento em suas casas por 6 meses ou mais, sendo que ele cita casos extremos de pessoas que viveram mais de 20 anos nessa condição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ponto que o autor trouxe é que esse fenômeno passou a ser observado em outros países do mundo, citando a Coréia do Sul com 300 mil casos. Além da Coréia do Sul, foi constatada a ocorrência deste fenômeno em outros países como Austrália, Índia, Espanha, Canadá, EUA, França, Reino Unido, Itália e Portugal (Domingues-Castro, Torres, 2018, apud Torres, 2021, p. 197), o que reforça a fala de Saito (2013, p.6) de que a ideia de que “hikikomori deriva de uma patologia da sociedade japonesa é simplesmente um engano (&#8230;) parece ser muito mais plausível que a condição esteja associada a natureza da família e como os jovens lidam com a sociedade”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com relação ao entendimento do quadro de hikikomori, Saito participou de um grupo que pesquisou essa condição e, como resultado da pesquisa, foi apresentado que “hikikomoris poderiam ser diagnosticados com algum tipo de distúrbio psicológico”, mas ele não concordou com essa conclusão, em sua opinião os distúrbios psicológicos são um efeito secundário que vêm junto com o quadro, ou seja, é uma consequência do isolamento vivido por essas pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo através do entendimento da psique pela perspectiva da psicologia junguiana, podemos entender a relação de uma característica própria da cultura japonesa não só com o hikikomori, mas, também, com os outros comportamentos dessa cultura que no chocam, e até mesmo com as qualidades que tanto admiramos aqui do outro lado do mundo. Apesar de à primeira vista parecer que isso vai contra a percepção de Saito, de que é um engano achar que o hikikomori é algo se origina da sociedade japonesa, o que iremos ver, a partir da perspectiva da psicologia analítica, é que a condição psíquica que gera esse sintoma é universal e pode ser vivida por qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo, e ao mesmo tempo características da cultura japonesa fornecem condições favoráveis ao surgimento do hkikomori.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No artigo “Quem são os hikikomori, os jovens japoneses que vivem sem sair de seus quartos” de Edd Gent para BBC, publicado em março de 2019, o professor de psiquiatria Takahiro Kato da Universidade de Kyushu e estudioso do tema diz que &#8220;No Japão há um ditado muito famoso que diz: que &#8216;O prego que se destaca leva martelada’ e que as rígidas normas sociais, as altas expectativas manifestadas pelos pais e a &#8216;cultura da vergonha&#8217; fazem com que a sociedade japonesa seja terreno fértil para sentimentos de inadequação e o desejo de querer se esconder do mundo.&#8221; Para ele, esse aspecto da cultura japonesa pode tornar seus jovens mais pré-dispostos a viver isolados em casa quando não se veem em condições de atender às expectativas da sociedade, da família, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O significado do ditado para os japoneses fica mais claro na declaração de um visitante do centro Yokayoka, da região de Fukuoka, mesma região da universidade de Kato, que oferece apoio aos hikikomoris: “A escola é uma monocultura, todo mundo tem que ter a mesma opinião. Se alguém diz algo (diferente/se destaca) está fora do grupo (leva martelada/é castigado)&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe também a dificuldade de se encaixar no modelo de sucesso da sociedade japonesa, devido à estagnação econômica combinada com a globalização que traz o modelo ocidental mais individualista e competitivo do ocidente para um país que é tradicionalmente coletivista e hierárquico, diz o professor Kato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O artigo da BBC também traz a ocorrência deste quadro em outros países, colocando em dúvida a relação do aspecto cultural japonês com o hikikomori.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sob a perspectiva da psicologia junguiana, o prego que se destaca é aquele que não se adapta ao padrão coletivo da cultura japonesa, ou seja, não consegue agir de acordo com a persona que a cultura japonesa espera que ele assuma. No caso dos hikikomori, dada dificuldade de atingir as expectativas de sucesso da sociedade e da família japonesa, eles parecem estar vivendo literalmente a condição de exclusão, se isolando e assim ao invés de viverem de acordo com a persona da pessoa bem sucedida, que a sociedade espera e que dá orgulho a família, eles vivem o lado sombrio dessa figura, se recusam a enfrentar o mundo, a crescer, e viram uma vergonha e um fardo para família, vivendo uma adolescência sem fim, como definiu o autor Tamaki Saito.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os hikikomori são tomados pelo lado infantil e melancólico que surge na psique para compensar o alto grau de exigência para se tornar o “homem forte” que existe na sociedade japonesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O &#8220;homem forte&#8221; no contexto social é, frequentemente, uma<strong>&nbsp;criança</strong>&nbsp;na &#8220;vida particular&#8221;, no tocante a seus estados de espírito. Sua disciplina pública (particularmente exigida dos outros) fraqueja lamentavelmente no lar e a &#8220;alegria profissional&#8221; que ostenta mostra em casa um rosto melancólico.&nbsp;(JUNG, 2015,&nbsp;§307)</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com Jung, “A construção de uma persona coletivamente adequada significa uma considerável concessão ao mundo exterior, um verdadeiro auto sacrifício, que força o eu a identificar-se com a persona “. No caso do povo japonês, temos vários exemplos do quão longe esse auto sacrifício pode chegar. Como o caso dos kamikazes, que eram os pilotos de avião da bomba da 2ª Guerra Mundial, que se lançavam junto com seus aviões em ataques suicidas, para destruir o maior número possível de unidades inimigas e, também, para garantir que não seriam capturados o que seria uma desonra muito pior do que a própria morte. Outro fenômeno que podemos citar é o que acontece com os karoshis que são os trabalhadores que literalmente morrem de tanto trabalhar e o próprio suicídio em si, que no Japão era visto com uma forma honrosa de aliviar o peso da vergonha, que recai tanto sobre a pessoa e, mais ainda, sobre a família, quando alguém fracassa e não se atinge as expectativas da persona do japonês bem-sucedido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse lado sombrio da persona do adulto japonês bem-sucedido é vivido como uma eterna adolescência, em que os jovens não lidam com o medo do abandono da Mãe e ficam presos a um complexo materno, segundo Hollis (2017, p. 15, apud Torres, 2021, p. 201). Encarar medo de abandonar a proteção materna faz parte da passagem para o mundo adulto, e segundo Jung:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;“Não é bastante passar para a idade adulta e nem mesmo separar-se exteriormente da mãe; são celebradas consagrações como homem, particularmente impressionantes, e cerimônias de renascimento que efetivam plenamente o ato de separação da mãe (e, portanto, da infância) (JUNG, 2015, §314)&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, considerando o grau de exigência e pressão que existe para que os jovens japoneses se adéquem ao modelo do adulto bem sucedido, a cultura da vergonha e o sentimento exclusão&nbsp; que recai sobre os “pregos que se destacam”, sob a perspectiva da psicologia junguiana é possível relacionar esses aspectos específicos do modo de vida japonês com o fenômeno hikikomori, jovens presos ao complexo materno, tomados pelo lado infantil e sombrio da persona do adulto ideal para compensar a rigidez desse modelo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao mesmo tempo, esse medo de abandonar a Mãe e partir para a vida adulta faz parte da vida de todos os jovens, e a falta dos ritos de passagem dos dias atuais pode tornar o processo bem mais difícil ou ele pode até não acontecer o que explicaria casos de hikikomori observados em outros países do mundo, dependendo de como se lida coma pressão existente para se atender a essas expectativas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como ajuda para tirar os hikikomori do seu isolamento, os japoneses criaram um serviço conhecido como irmãs de aluguel, que seriam moças que fazem o papel de irmãs mais velhas, que vão visitar os hikikomori em suas casas e tentam tirá-los do isolamento. Vale lembrar que na cultura japonesa os irmãos mais velhos têm status e autoridade muito próximos ao dos pais, ou seja, essa ajuda pode ser vista como se contratasse os serviços de uma figura próxima à da mãe em status, mas que fala com eles sem cobrança, sem pressão, respeitando os desejos deles. É como se fosse uma figura materna que vem do mundo externo e chama para esse outro lado, para se contrapor ao medo de se abandonar a mãe, o complexo materno, que os mantêm isolados em suas casas. No documentário “Rent-a-sister: Coaxing Japan’s hikikomori out of their rooms” (Alugue uma irmã: persuadindo hikikomori do Japão para fora de seus quartos) de Amelia Martyn-Hemphil feito para BBC World em janeiro de 2019, pode ser visto como esse serviço funciona e casos de sucesso das irmãs de aluguel.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako Kurauti</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro analista em formação pelo IJEP/SP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Didata E. Simone D. Magaldi</p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-bibliografia">Bibliografia</h1>



<p class="wp-block-paragraph">GENT, E. Quem são os hikikomori, os jovens japoneses que vivem sem sair de seus quartos.&nbsp;<strong>BBC Future</strong>, Março 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>O eu e o Inconsicente</strong>. 27a. ed. Petrópolis: Vozes, v. 7/2, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MARTYN-HEMPHIL, A. Rent-a-sister: Coaxing Japan’s hikikomori out of their rooms.&nbsp;<strong>BBC World</strong>, janeiro 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SAITO, T.&nbsp;<strong>HIKIKOMORI &#8211; Adolescence without End</strong>. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TORRES, L.&nbsp;<strong>Comtágio Psíquico:</strong>&nbsp;A Loucura das Massas e suas Reverberações na Mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2021.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-dulce-kurauti"><strong><em>Dulce Kurauti&nbsp;</em></strong></h4>
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		<title>Idosos japoneses criminosos: prisioneiros conscientes da justiça e inconscientes da sombra</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/idosos-japoneses-criminosos-prisioneiros-conscientes-da-justica-e-inconscientes-da-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Dec 2019 12:27:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[envelhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[japão]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No artigo “Aposentados na cadeia: idosos japoneses que se esforçam para serem presos”, escrito pelo correspondente Ed Butler para a rede BBC, ele fala sobre o aumento da criminalidade entre os idosos japoneses e as possíveis causas para essa situação. Segundo o artigo a proporção de pessoas com mais de 65 anos condenadas em 1995 [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">No artigo “Aposentados na cadeia: idosos japoneses que se esforçam para serem presos”, escrito pelo correspondente Ed Butler para a rede BBC, ele fala sobre o aumento da criminalidade entre os idosos japoneses e as possíveis causas para essa situação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o artigo a proporção de pessoas com mais de 65 anos condenadas em 1995 era de 01 em cada 20 condenações e passou agora para 01 em cada 05, ou seja, foi de 5% para 20%, um aumento de4 vezes na taxa. Entre as idosas esse aumento está acontecendo em uma velocidade maior, levando a necessidade de se contratar mais guardas do sexo feminino. A reincidência também é um dado que chama a atenção, dos 2,5 mil condenados com mais de 65 anos em 2016, mais de um terço estava voltando para a cadeia pela sexta vez.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das causas apontadas por um demógrafo australiano que trabalha em Tóquio e fez uma pesquisa sobre os aposentados japoneses é a pobreza. A aposentadoria que eles recebem do governo é insuficiente para pagar todos os custos que eles têm para viver. Diante dessa dificuldade, muitos deles vêm na prisão uma forma de ter moradia, alimentação e cuidados médicos de forma gratuita e com a “vantagem” adicional de poderem poupar a aposentadoria, que continua a ser paga durante o período na cadeia, o que lhes permite ter uma economia quando eles saem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa situação vai contra a imagem que temos dos japoneses, que são tidos como um povo muito respeitador do bom comportamento, da correção e das leis. Sendo assim, causa espanto saber que idosos deliberadamente cometem delitos com a intenção não de se beneficiar do produto “crime”, mas sim, de serem pegos e poderem usufruir dos “benefícios” do sistema prisional.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um idoso de 69 anos, entrevistado no artigo, ilustra bem essa situação, ele cometeu a primeira infração com 62 anos. Ele roubou uma bicicleta e se apresentou na delegacia dizendo “Olha, eu roubei isso!” e conseguiu ser condenado a um ano de prisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com aparência amistosa, nada ameaçadora, o entrevistado mostrou uma faca para um grupo de mulheres em uma praça na expectativa de que alguma delas ligasse para a polícia. Novamente a estratégia funcionou e com uma sucessão de planos bem sucedidos ele passou metade dos últimos oito anos preso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de existir realmente uma questão financeira, o diretor do centro de reabilitação, onde estava detido o entrevistado, aponta uma causa psicológica como mais forte para explicar esse comportamento: a solidão. As relações familiares mudaram e eles não têm ninguém com quem possam contar. O entrevistado, que não tem mais contato com os irmãos mais velhos, nem com suas ex-mulheres e filhos, reconhece que se pudesse contar com o apoio de familiares certamente não escolheria fazer o que fez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O distanciamento dos familiares também explica o aumento do suicídio entre os idosos, que não querem se tornar um fardo para os filhos, que por conta da crise financeira pela qual passou o Japão, saíram das províncias menores em busca de oportunidades em províncias maiores e deixaram os pais por conta própria.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A falta de suporte familiar na vida fora da prisão leva os idosos infratores a acharem que a prisão é uma boa solução para resolver seus problemas de ordem financeira, e uma vez lá, percebem que podem ter também a companhia de pessoas, o que deve influenciar fortemente o desejo de voltar, segundo o diretor do centro de reabilitação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Refletindo sobre a questão sobre o ponto de vista da psicologia junguiana, podemos ver que as virtudes como obediência cega às regras e às leis, a disciplina, a eficiência, a produtividade, que são extremamente valorizadas tanto pelo povo japonês como pelo resto do mundo, foram adquiridas à custa da negação de outras características da natureza humana que foram relegadas a condição de fraqueza. A demonstração de afeto, falhas e erros &nbsp;não são toleradas pois atrapalham e contrariam o modelo a ser seguido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essas características da natureza humana que foram negadas ficam relegadas a uma parte inconsciente da personalidade e quanto mais se faz um esforço que permaneçam nessa condição, mais o inconsciente vai fazer um movimento no sentido de fazer com que sejam integrados à consciência, fazendo com que eles se manifestem de forma indesejada, involuntária, compulsiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando nos recusamos a enfrentar a sombra, ou quando tentamos combatê-la com a força da nossa vontade, exclamando: &#8220;Para trás, Satanás!&#8221;, estamos tão-somente relegando essa energia para o inconsciente e dali ela exercerá seu poder de uma forma negativa, compulsiva, projetada. Então, nossas projeções transformam o mundo à nossa volta num ambiente que nos mostra a nossa própria face, mesmo que não a reconheçamos como nossa. Tornamo-nos cada vez mais isolados; em vez de uma relação real com o mundo à nossa volta, existe apenas uma relação ilusória, pois nos relacionamos, não com o mundo como ele é, mas sim com o &#8220;mundo mau e perverso&#8221; que a projeção da nossa sombra nos mostra.” (EDWARD C. WHITMONT &nbsp;in ZWEIG e ABRAMS, 2006, p. 40)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ver a demonstração de afeto como uma fraqueza dificulta enormemente a criação de vínculos verdadeiros e duradouros entre as pessoas, levando as pessoas ao sentimento de solidão e isolamento. Porém ao invés de lidar com a questão das emoções de forma natural, os japoneses encontram as formas mais bizarras de resolverem as angústias que surgem pela dificuldade de terem relacionamentos baseados nos sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso dos idosos criminosos eles trocam sua liberdade pela companhia que encontram nas prisões, com outras pessoas que também se sentem solitárias e que foram forçadas pela lei a viver juntas. Entre as pessoas mais jovens também não é diferente, no o artigo AMOR E SEXO NO JAPÃO – UMA SOMBRA QUE AMEAÇA O PAÍS DO SOL NASCENTE que escrevi baseado em um documentário que mostra as formas fantasiosas que os jovens e os adultos encontram para resolver a dificuldade de se envolver sentimentalmente, que vai desde pagar por um abraço até comprar bonecas que além de servirem de brinquedos sexuais são melhores companhias que seres humanos, pois, foram feitas com expressões em seus rostos que despertam sentimentos em seus donos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outras performances pelas quais o Japão se destaca, como a produção de filmes pornográficos, mangás, a avançada tecnologia na construção de robôs que eles querem que cada vez mais se pareçam com seres humanos mostram como eles projetam nesses recursos a necessidade que eles têm de terem relacionamentos verdadeiros, baseado em sentimentos e emoções com as pessoas, mas como não conseguem, buscam vivê-los em mundo artificial e da fantasia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A intolerância ao erro e às falhas é outro ponto que leva a capacidade de se aprender com os erros e a crescer a partir desse lado sombrio da personalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa questão é tão rígida na formação da personalidade deles que em muitos casos, ao se cometer algum erro, o suicídio é visto como única saída honrosa para a pessoa que com esse ato de coragem livra a família do peso da vergonha de ter um fracassado dentre seus entes. Apesar de se estar tentando mudar essa mentalidade, o Japão ainda ocupa o topo do ranking de suicídios, o que mostra que eles ainda não conseguiram incorporar a mentalidade de aprender com os próprios erros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No caso das infrações cometidas pelos idosos que querem ser presos, considerando o tamanho do delito as penas infringidas parecem desproporcionais, pode-se pegar dois anos de prisão pelo roubo de um sanduíche, e ao invés de entenderem a situação pelo lado humano e buscar uma solução que ensine os idosos a serem felizes fora da prisão, o sistema judiciário quer tornar as penas mais severas. Ou seja, rigidez e intolerância&nbsp; a não obediência às regras e às leis.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a>O Japão conseguiu um grau de desenvolvimento financeiro e tecnológico que lhe dá um lugar de destaque no ranking mundial. Essa posição foi conquistada graças a determinação, dedicação e disciplina do seu povo que tem em sua cultura essas características enraizadas e fortalecidas ao longo de uma história milenar. Porém, apesar de agora eles estarem sendo chamados a olhar para questões que dizem respeito a emoções e relações entre as pessoas que também foram desprezadas ao longo de milhares de anos, parecem que eles ainda não estão prontos para desconstruir a imagem de eficiência e perfeição que eles têm diante do mundo e principalmente diante de si mesmos.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako Kurauti</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tel.: (11)99961-7090 email:&nbsp;dulce_kurauti@hotmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph">Consultório na Vila Mariana &#8211; SP</p>



<h1 class="wp-block-heading">Referências</h1>



<p class="wp-block-paragraph">BUTLER, E. Aposentados na cadeia: os idosos japoneses que se esforçam para serem presos.&nbsp;<strong>BBC News</strong>, fev. 2019.&nbsp;<strong>(</strong><a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2019/02/01/idosos-na-prisao-por-que-alguns-aposentados-estao-se-esforcando-para-ir-para-a-cadeia-no-japao.htm">https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/bbc/2019/02/01/idosos-na-prisao-por-que-alguns-aposentados-estao-se-esforcando-para-ir-para-a-cadeia-no-japao.htm</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">KURAUTI, D. A. AMOR E SEXO NO JAPÃO UMA SOMBRA QUE PAIRA SOBRE O PAÍS DO SOL NASCENTE.&nbsp;<strong>IJEP</strong>, nov. 2018.&nbsp;<a href="https://ijep.sampa.br/index.php/artigos/show/amor-e-sexo-no-japao-uma-sombra-que-paira-sobre-o-pais-do-sol-nascente">https://ijep.sampa.br/index.php/artigos/show/amor-e-sexo-no-japao-uma-sombra-que-paira-sobre-o-pais-do-sol-nascente</a>)</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, C.; ABRAMS, J.&nbsp;<strong>Ao encontro da sombra</strong>. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Dulce Ayako Kurauti</em></strong></h4>
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		<title>O que você quer ser quando envelhecer?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-que-voce-quer-ser-quando-envelhecer/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Nov 2019 12:23:33 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A população brasileira está envelhecendo, ela não só está vivendo mais como também o aumento do percentual de idosos está levando a uma inversão na configuração da pirâmide etária, uma base mais estreita do que seu topo, ou seja, com mais idosos que jovens. Segundo dados do IBGE, em 2017 a expectativa de vida ao [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph"><a>A população brasileira está envelhecendo, ela não só está vivendo mais como também o aumento do percentual de idosos está levando a uma inversão na configuração da pirâmide etária, uma base mais estreita do que seu topo, ou seja, com mais idosos que jovens.</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo dados do IBGE, em 2017 a expectativa de vida ao nascer de um brasileiro era de 76 anos, um amento de três meses e 11 dias em um ano e se comparado com um dado bem mais antigo o ganho é mais significativo, para quem nasceu em 1940 a previsão era de que viveriam em média até os 45,5 anos, 31,5 anos a menos do que em 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O percentual de idosos na população também está aumentando, em 2017 as pessoas com 65 anos ou mais representavam 9% da população, e de acordo com as projeções do instituto, em 2039 chegará a 17%, quando pela primeira vez se iguala ao percentual de jovens, pessoas com menos de 15 anos. Em 2060 a previsão é de que uma em cada quatro pessoas no país tenha mais de 65 anos, 25% versus 15% de jovens, caracterizando a inversão da pirâmide etária do país, considerando que em 2010 esses valores eram 7% e 25% respectivamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ampliando o olhar desses dados para as pessoas com 50 anos ou mais, em 2017 a previsão era de que eles viveriam em média até 80,5 anos, enquanto que em 1940 se esperava que vivessem até 69,1 anos, um aumento de 11,4 anos. Em termos de representatividade, essa fatia da população passará de 24% em 2017 para 45% em 2060, quase uma em cada duas pessoas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Obviamente esses dados não estão sendo utilizados apenas para justificar insustentabilidade do nosso sistema previdenciário, dado o foco para o consumo e lado material ao qual estamos submetidos e do qual estamos tendo dificuldade de nos desvencilhar, essa informação tem grande relevância mercadológica, e já há algum tempo produtos voltados para o público com mais de 50 estão sendo divulgadas em propagandas nos meios de comunicação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Predominantemente os produtos dos anúncios estão relacionados ao cuidado com a saúde e o bem estar a partir de certa idade. Há também a adaptação da tecnologia, a fim de torná-la mais amigável e útil para aqueles que se sentem excluídos deste mundo tão modificado por ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As propagandas dos produtos ligados à saúde e ao bem estar mostram cenas que são variações do mesmo tema, ter vitalidade para realizar atividades que remetem a manutenção da juventude. O que se vê, invariavelmente, são pessoas com alguns fios de cabelo grisalhos, com marcas do tempo no rosto, praticando esportes como surfe, ciclismo, caminhadas até o topo de uma montanha, andando de moto, tocando instrumentos, dançando, namorando, jogando vídeo game com seus netos, dando a entender que estão tendo a vida que ainda não tinham tido a oportunidade de viver ou mantendo um estilo de vida jovial e arrojado que tinham tido até então.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dentre esses anúncios, um de um suplemento alimentar chamou particularmente minha atenção, a chamada inicial era a seguinte pergunta: “O que você quer ser quando envelhecer?” e na seqüência surge uma série de situações que não fugiram do padrão descrito anteriormente, finalizando com a seguinte resposta: “Escolha viver bem”, dando a entender que o viver bem a partir de uma certa idade é ter aquele estilo de vida que era almejado na juventude mas que talvez não pôde ser vivido por falta de tempo e dinheiro, e que se foi vivido o produto anunciado daria as condições de ser mantido. Em ambos os casos a resposta estaria em manter os padrões adquiridos na juventude.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pelo olhar da psicologia junguiana a pergunta é perfeita para esta fase da vida, porém a resposta seria muito diferente, porque para Jung a partir da segunda metade da vida há uma transformação psíquica que nos leva a uma inversão nos valores e prioridades que nos guiaram até então, porém como não há nenhuma formação que nos prepare para esse momento, quando atingimos essa fase e nos deparamos essas mudanças, a tendência é tentar nos agarrar aos padrões antigos e ir contra esse movimento psíquico. Para Jung, “todos os distúrbios neuróticos, bastante freqüentes, da idade adulta têm em comum o fato de quererem prolongar a psicologia da fase juvenil para além do limiar da chamada idade do siso“ (JUNG, 2000 §776) e “a causa fundamental de todas as dificuldades desta fase de transição é uma mudança singular que se processa nas profundezas da alma” (JUNG, 2000 §778).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ilustrar a dimensão das mudanças, Jung comparou as etapas da vida com as fases da &nbsp;trajetória descrita pelo Sol durante o dia:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De manhã, o Sol se eleva do mar noturno inconsciente e olha para a vastidão do mundo colorido que se torna tanto mais amplo, quanto mais alto ele ascende no firmamento. O Sol (&#8230;) se dará conta de que seu objetivo supremo está em alcançar a maior altura possível e, consequentemente, a mais ampla disseminação possível de suas bênçãos sobre a terra. (&#8230;) Precisamente ao meio-dia, o Sol começa a declinar e este declínio significa uma inversão de todos os valores e ideais cultivados durante a manhã. O Sol torna-se, então, contraditório consigo mesmo. É como se recolhesse dentro de si seus próprios raios, em vez de emiti-los. A luz e o calor diminuem e por fim se extinguem. (JUNG, 2000 §778).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma que não se pode desviar o sol do seu movimento descendente ou evitar a perda de sua exuberância quando ele passar a recolher seus raios, as pessoas precisariam entender que resistir aos movimentos vindos do inconsciente não trará nada de bom. Apesar de não ser foco desse artigo, vale falar dos resultados aberrantes que algumas pessoas conseguem na busca obsessiva da exuberância da juventude, passam por intervenções cirúrgicas que acabam desfiguradas. No que diz respeito às questões psíquicas, dado o comportamento dominante de nossa época, em que se acredita que a felicidade está proporcionalmente relacionada com a quantidade de bens e riquezas adquiridas, a tendência é acreditar que o sentimento de vazio e insatisfação surgem porque &nbsp;não se tem o suficiente, e parte-se para a busca de mais bens, porém a felicidade desejada não acontece gerando as crises de angústia, depressão e ansiedade tão comuns nos dias de hoje.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Qual seria então a melhor forma de lidar com os desafios trazidos pela meia-idade? No passado as religiões eram as escolas onde se aprendia essa matéria, hoje não são mais. Assim vale usar novamente o exemplo do sol, que recolhe seus raios e os direciona para dentro de si para levar luz para os locais que estiveram obscurecidos e sombrios até então.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse novo olhar permite aceitar que o que tinha valor pela manhã à tarde não tem mais valor, o que era certo vira errado e diante dessas novas possibilidades, trazer do inconsciente não só aqueles talentos e potencialidades que foram negligenciados ou que nunca tiveram a chance de serem realizados, como também os aspectos mais sombrios de nossa personalidade. Em ambos os casos, esses conteúdos foram confinados no inconsciente porque não se ajustavam aos padrões de comportamento e atitudes que eram exigidas como filho, estudante, profissional, marido, mulher, pai ou mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando a energia despendida para se atender a cada uma dessas situações, é possível imaginar porque é tão difícil olhar para o outro lado e começar uma nova jornada igualmente desafiadora. Certamente ter energia, disposição e vigor físico não são coisas ruins, como também não o é estar feliz com a própria aparência. O ponto é que estamos totalmente despreparados para responder a pergunta sobre o que ser quando envelhecer. Acreditamos que viver bem essa fase se resume a evitar que os efeitos adversos da idade não nos afetem.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O inconsciente irá se manifestar diante dessa atitude unilateral e irá atuar no sentido de nos fazer perceber que algo não está indo conforme deveria. Ele vai causar desconfortos emocionais e psíquicos que nos paralisam até que se entenda que precisamos diluir essa rigidez permitindo que os conteúdos inconscientes que se opõe a ela apareçam. Desse confronto deverá aparecer uma pessoa com novas perspectivas, que considerem seus verdadeiros desejos, sem censura e restrições, resultando em uma ampliação de consciência que vai contribuir para a realização do Self, uma necessidade e dever de toda pessoa que está em fase de envelhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, a pergunta “o que você quer ser quando envelhecer?” é realmente muito importante para esse contingente cada vez mais significativo da população, já a resposta sugerida pelas propagandas pode ser uma armadilha, pois ao se acreditar que “viver bem” se resume a ter saúde e energia para se manter um estilo de vida de quando se era jovem, o que irá acontecer será bem diferente das cenas repletas de sorrisos e carregadas de um clima de alegria e felicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako Kurauti</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tel.: (11)99961-7090 email:&nbsp;dulce_kurauti@hotmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph">Consultório na Vila Mariana&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A natureza da psique</strong>. 5a. ed. Petrópolis: Editora Vozes, v. VIII/2, 2000.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Dulce Ayako Kurauti&nbsp;</em></strong></h4>
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		<title>Troquei de emprego porque não suportava meu chefe, mas não adiantou nada, parece que ele me persegue como se fosse minha sombra!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 12:22:07 +0000</pubDate>
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<p class="wp-block-paragraph">A importância de um bom relacionamento com o chefe é óbvia, pois está nas mãos dele as principais decisões que definem o destino da carreira do profissional, apesar deste último ser quem tem que se empenhar para desenvolver seu potencial ao máximo e melhorar seus pontos fracos, para atender às expectativas do seu cargo, é o chefe quem ao final de um período vai dizer se esse esforçoo será recompensado com uma promoção e aumento de salário, se será necessário um tempo maior de espera por isso ou se infelizmente ele não será mantido na empresa. O gestor tem o poder levar o profissional tanto para o céu quanto para o inferno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Existe uma crença amplamente difundida de que um fator importante para um bom relacionamento no ambiente de trabalho é separar a vida profissional da pessoal, uma atitude que se tenta praticar com bastante afinco, mas que é muito difícil de ser mantida, considerando primeiro, que o tempo que se passa no trabalho é longo demais e segundo, que este ambiente é altamente propício a situações de pressão, cobrança, é praticamente impossível manter o papel do profissional cem por cento do tempo, se tornando um terreno favorável para que características negativas da personalidade apareçam de forma descontrolada, impulsiva, sem que a pessoa se dê conta do que está acontecendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E justamente nesses momentos de pressão, o colaborador começa a perceber no gestor traços de personalidade que ele acha insuportáveis, desprezíveis, como por exemplo, inflexibilidade, intolerância, rudeza no trato da equipe. Essas características incomodam a tal ponto que a melhor forma de resolver a questão parece ser arranjar um novo emprego onde se possa trabalhar com alguém totalmente diferente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após investir um tempo na busca por um novo emprego, finalmente se encontra um em que o gestor não lembra em nada o anterior e uma nova jornada se inicia. No começo tudo parece correr satisfatoriamente e dá a entender que a decisão pela troca foi a melhor coisa a ser feita.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porém uma sensação desagradável começa a surgir à medida que o tempo passa e que as situações de conflito e tensão acontecem. Novamente começa a se perceber os mesmos comportamentos desagradáveis do chefe anterior no atual e a situação se agrava a tal ponto que parece haver até semelhança física entre os dois. Então não demora muito para &nbsp;se chega a terrível conclusão de que a tentativa de fugir do problema foi mal sucedida, pois se tem nítida sensação de se trocou de emprego mas não de chefe, como se ele o perseguisse como sua sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de racionalmente essa afirmação soar estranha, sob a perspectiva da psicologia junguiana existe uma explicação bem simples para o que está acontecendo, essa situação pode ser um exemplo de projeção da sombra, ou seja, a pessoa está enxergando no outro características que ela nega, não quer reconhecer como suas por serem inferiores, desprezíveis, negativas. Para não ter que conviver com esse lado indesejado de si mesmo esse conteúdo é rebaixado para um lado sombrio da personalidade, uma camada do inconsciente, fazendo com que se tenha impressão ilusória de que desapareceram. Porém como é parte integrante do indivíduo, existe um esforço natural do inconsciente para mostrar esse lado indesejado que todos temos e a projeção é um das possíveis maneiras de se realizar essa tarefa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No livro &#8220;Ao Encontro da Sombra&#8221;&nbsp;(ZWEIG e ABRAMS, 2006)&nbsp;em que vários autores publicaram textos referentes à sombra sob a perspectiva junguiana, William a. Miller escreve sobre as várias formas em que se pode perceber a sombra de uma pessoa na vida cotidiana, e sobre a projeção ele escreveu:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A projeção é um&nbsp; mecanismo inconsciente que usamos sempre&nbsp; que é ativado&nbsp; um&nbsp; traço ou característica&nbsp; da nossa personalidade que não está relacionado&nbsp; com&nbsp; a consciência. Como resultado da projeção inconsciente, observamos esse traço pessoal nas outras pessoas&nbsp; e reagimos a ele. Vemos nos&nbsp; outros algo que é parte de nós, mas que deixamos de ver em&nbsp; nós.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto esse encontro com a sombra for evitado, seja pela negação da sua existência ou por um esforço da vontade, o inconsciente vai trabalhar com a mesma intensidade dessas forças no sentido oposto, ou seja, para levar a luz da consciência essa parte sombria, causando desconforto, conflitos e angústias até que o indivíduo entenda que negar a sombra é um esforço em vão e que para se tornar uma pessoa completa é preciso integrá-la a personalidade, tornar-se amiga dela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro passo na direção da amizade com a sombra é reconhecer que ela existe, que aquela boa imagem que construímos de nós mesmos e mostramos para o mundo é uma ilusão. O próximo é identificar as características negadas de nós mesmo que precisam fazer parte da nossa personalidade. Uma forma de fazer isso é trabalhar com o material identificado na projeção, listando aquilo que mais odiamos, detestamos, desprezamos nos outros, neste caso, no chefe e refletir sobre como trazer esse conteúdo para consciência de uma forma que não seja impulsiva e descontrolada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale lembrar que a projeção só funciona porque o outro apresenta condições para ela se &#8220;colar&#8221;, ou seja, o outro realmente tem os &#8220;defeitos&#8221; que se vê nele, porém por conta da projeção da sombra eles tomam dimensões desproporcionais à realidade levando da mesma forma a reações exageradas da parte de quem está se vendo no outro. Assim, &nbsp;ao se tornar amigo da sombra, provavelmente não se deixará de ver no chefe tudo aquilo que antes incomodava tanto, o que muda é o tamanho do incômodo causado, permitindo uma relação com o chefe mais realista, livre da interferência de algo criado por nós mesmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako Kurauti</p>



<p class="wp-block-paragraph">Especialista em psicologia junguiana e analista em formação pelo IJEP, especializanda&nbsp; em Arteterapia e Expressões Criativas pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tel.: (11)99961-7090 email:&nbsp;dulce_kurauti@hotmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph">Consultório na Vila Mariana</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referência</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, C.; ABRAMS, J.&nbsp;Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Dulce Ayako Kurauti</em></strong></h4>
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		<title>Amor e sexo no japão: uma sombra que paira sobre o país do sol nascente?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jun 2019 12:17:52 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">A queda da taxa de natalidade no Japão, levando a inversão da pirâmide demográfica e a índices negativos de crescimento da população, tem sido motivo de preocupação para o governo japonês há algum tempo. Dada a longevidade do seu povo, o topo da pirâmide tem se alargado enquanto sua base tem se estreitado, o que implica em ter menos pessoas em idade produtiva gerando um déficit que ameaça a sustentabilidade da previdência do país. Outro efeito, mais direto, é o saldo negativo entre o número de mortes e nascimentos, atualmente o país decresce 200 mil habitantes por ano e segundo projeções de especialistas até 2060 essa perda chegará a 30% do tamanho atual, levando o total de 127 milhões a cair para 87 milhões de habitantes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa situação pode ser explicada em parte porque os homens japoneses se sentem inseguros e desencorajados para casar e constituir família, pois perderam a certeza de estabilidade no emprego após uma crise financeira nos anos noventa e também porque as mulheres japonesas estão cada vez menos dispostas a trocar suas carreiras pela maternidade, pois é costume no país que elas deixem de trabalhar ao se tornarem mães, 70% das mulheres deixam de trabalhar após a primeira gravidez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outras estatísticas também indicam motivos que contribuem significativamente para o número baixo de nascimentos no país: a queda de 30% no número de casamentos nos últimos 30 anos e o baixo índice de filhos fora do casamento, apenas 2% comparado aos 58% da França, por exemplo. Apesar de não ser um fator diretamente ligado à taxa de natalidade, como o casamento é uma condição praticamente necessária para os japoneses se tornarem pais, entender porque eles têm se casado cada vez menos passa a ser essencial para reverter o encolhimento populacional do Japão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antigamente os casamentos eram arranjados, ou seja, os casais eram formados independentemente dos sentimentos dos envolvidos, levando-se em consideração principalmente a opinião e a conveniência das famílias, dificilmente os diretamente envolvidos podiam opinar. Esse costume se tornou antiquado e agora as pessoas têm que encontrar sua cara metade por conta própria, porém apenas abandonar um velho costume não foi suficiente para que eles conseguissem exercer a arte natural, instintiva, da conquista, eles têm dificuldade e se sentem muito inseguros em deixar de ser meros expectadores e passar para o papel de protagonistas dessa busca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para os japoneses demonstrar carinho ou interesse por alguém é considerado um comportamento bastante inapropriado, ou seja, eles se sentem muito envergonhados com situações banais aos nossos olhos como cumprimentar alguém trocando beijos, andar d e mãos dadas com o namorado ou a namorada, dirigir a palavra ou trocar telefones com uma pessoa desconhecida do sexo oposto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">As carências decorrentes dessas inibições se tornaram uma boa oportunidade para criação de negócios que chamam a atenção pela forma impessoal com que tratam de questões tão pessoais. No &#8220;Café do abraço&#8221;, onde um rapaz paga por alguns momentos de aconchego, como ser abraçado por uma moça vestida com uniforme de empregada, deitar a cabeça em seu colo ou receber massagem nos ombros por cima da roupa, sendo que nenhum contato mais íntimo é permitido. Moças que nunca dirigiram a palavra a um rapaz desconhecido e que querem ter aulas de sedução recorrem ao &#8220;Namorado de aluguel&#8221; para contratar um rapaz que faz as vezes de um namorado, levando-a para passear de mãos dadas, ato quase que ousado para ela, dividindo um sorvete no parque e outras situações de casal para que ela se sinta a vontade na presença de um homem e que também dá dicas de como agir quando quiser se aproximar de alguém por quem esteja interessada. Mulheres estressadas pela pressão do trabalho podem contratar um &#8220;Ikemeso danshii&#8221;, serviço que consiste em enviar homens considerados atraentes para o escritório das clientes, assistirem juntos vídeos tristes para que elas possam chorar e descarregar suas tensões através do choro com um ombro amigo e ter suas lágrimas enxugadas por esses rapazes, ponto alto do serviço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A fantasia também é uma forma que os japoneses encontraram de lidar com sua inabilidade em se relacionar. Mulheres que querem viver o sonho de uma cerimônia de casamento, mas que ainda não tem um noivo, contratam os serviços de uma realizadora de eventos para que elas possam ter a experiência com tudo a que têm direito, um lindo vestido, maquiagem, buquê, limusine e um álbum de fotos torne eterno esse momento, apesar de se oferecer um ator para posar como noivo, essa opção não é bem aceita entre as noivas solitárias. As heroínas dos videogames e mangás são as mulheres dos sonhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&#8220;A projeção é um mecanismo inconsciente que usamos sempre que é ativado um traço ou característica da nossa personalidade que não está relacionado com a consciência. Como resultado da projeção inconsciente, observamos esse traço pessoal nas outras pessoas e reagimos a ele. Vemos nos outros algo que é parte de nós, mas que deixamos de ver em nós.&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dulce Ayako kurauti, Membro Analista do IJEP,</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="mailto:dulce_kurauti@hotmail.com">dulce_kurauti@hotmail.com</a></p>



<h1 class="wp-block-heading">Bibliografia</h1>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, C.; ABRAMS, J.&nbsp;Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Empresa/noticia/2015/09/servico-oferece-homens-atraentes-para-secar-lagrimas-de-clientes.html">http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Empresa/noticia/2015/09/servico-oferece-homens-atraentes-para-secar-lagrimas-de-clientes.html</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.dailymotion.com/video/x5p0s2f">http://www.dailymotion.com/video/x5p0s2f</a></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Dulce Ayako kurauti&nbsp;</em></strong></h4>
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			</item>
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		<title>Quando seu crachá se torna a sua identidade &#8211; identificação com a persona do profissional</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-seu-cracha-se-torna-a-sua-identidade-identificacao-persona-profissional/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dulce Kurauti]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Jun 2019 12:30:18 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[profissão e psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O presente artigo trata acerca da identificação com a persona do profissional no mundo corporativo. O mundo corporativo, principalmente o das empresas grandes e altamente lucrativas, aparenta ser a opção certa para se construir a carreira quando se quer atender às expectativas ambiciosas daqueles que estão no início da vida profissional e sonham em obter [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-seu-cracha-se-torna-a-sua-identidade-identificacao-persona-profissional/">Quando seu crachá se torna a sua identidade &#8211; identificação com a persona do profissional</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo trata acerca da identificação com a persona do profissional no mundo corporativo.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O mundo corporativo, principalmente o das empresas grandes e altamente lucrativas, aparenta ser a opção certa para se construir a carreira quando se quer atender às expectativas ambiciosas daqueles que estão no início da vida profissional e sonham em obter altos ganhos financeiros, ocupar cargos executivos de comando e usufruir do poder que eles proporcionam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando as etapas da vida humana segundo Jung (2000), o início da careira profissional é uma das marcas do começo da segunda fase que dura até se atingir a meia-idade. Nessa etapa surgem as exigências de se buscar um lugar no mundo, de produzir algo que faça com o que o jovem adulto sinta que está em voo solo, se soltando dos laços que o amarravam a sua família, que por um lado lhe davam a sensação de segurança e proteção, porém só lhe permitiam ir até o limite do comprimento dessas amarras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A condição primordial para poder se desvencilhar desses laços é a independência financeira, que virá como remuneração pela produção do seu trabalho. O que o mundo corporativo oferece é a oportunidade de se atingir esse objetivo de forma muito mais que satisfatória, pois pode se adicionar ao salário que já não é baixo, um bônus que multiplica por algumas dezenas seu salário e dada a valorização da juventude para se ocupar os cargos de comando, não é raro se conseguir uma ascensão meteórica na carreira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o que se tem aqui é, aparentemente, um cenário ideal para se conseguir conquistar um lugar no mundo, produzir algo de sua própria autoria com seu trabalho e se tornar independente através da remuneração obtida com ele, o que, segundo o conceito apresentado por Jung é o curso natural da vida para o início da vida adulta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando que se está falando de empresas altamente lucrativas, não é difícil se concluir que elas sempre estarão recebendo mais do que estão dando, assim, quem trabalhar para elas terá que dar em troca pelo que recebem, algo que gera muito mais valor, pois elas nunca ficam no prejuízo. Obviamente as pessoas tem consciência que terão que se dedicar muito e que o nível de exigência que terão que enfrentar será altíssimo, mas por mais que estejam cientes de tudo isso não terão noção do custo exato dessa escolha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A única exigência feita para que se possa ter acesso a todas essas recompensas irrecusáveis é que o profissional se ajuste ao modelo de trabalho definido pela empresa, o que parece ser muito razoável, considerando o mundo de possibilidades que está sendo oferecido.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A parte mais simples desse processo é conseguir realizar as longas jornadas de trabalho diárias que consumem tantas horas que restam muito poucas para serem passadas junto à família, amigos, para se cuidar da saúde ou até mesmo para dormir e recuperar a energia gasta. Como se não bastassem todas as horas dedicadas dentro da empresa durante a semana, não é raro se levar atividades para casa para serem concluídas durante a noite ou até mesmo nos finais de semana, essa é uma tentativa de aumentar a presença no convívio familiar, mas isso acaba se provando uma ilusão, pois acaba sendo somente uma presença física que não é suficiente para compensar a ausência sentida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A outra parte dessa adaptação exige mais do que a dedicação de tempo, ela demanda um ajuste de comportamento e personalidade. No que diz respeito a comportamento, expectativa é que os profissionais persigam seus objetivos com a voracidade de uma fera que rói um osso maior até do que eles são capazes de segurar, o que mostra a agressividade e competitividade que eles são instigados a demonstrar como prova de sua capacidade de desempenhar sua função a contento e de que estão aptos a receberem desafios cada vez maiores. Já com relação à personalidade, os talentos natos e o potencial individual são desconsiderados e as funções a serem assumidas são atribuídas de acordo com escolhas estratégicas e as movimentações são feitas como se eles fossem peças de um jogo de xadrez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesses casos em que há a necessidade se apresentar ao mundo externo segundo uma série de características, surge a figura da persona, um recurso da psique, que funciona como uma máscara que permite que um indivíduo se apresente de acordo com as expectativas impostas pelo ambiente e ao mesmo tempo ocultar por trás dela todos os conteúdos pessoais indesejados por não se encaixarem no modelo a ser seguido. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8220;No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade, acerca daquilo que alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo&#8221;. </p>
<cite>(JUNG, 1982, §246)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Desempenhar o papel da persona do profissional modelo exige o empenho de uma grande quantidade de energia, considerando toda a dedicação de tempo exigida, o desprezo e desconsideração com o real potencial do indivíduo na escolha das funções que eles terão que executar, mais a forma desumanizada como são vistos quando se espera que tenham a voracidade de uma fera ou são movimentados entre áreas como peças de xadrez.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse esforço é tão grande que em um dado momento leva a pessoa a uma situação extrema, em que ela só consegue se ver como profissional, não tem mais uma vida familiar, social, ou mesmo individual, todo seu ser se resume a figura caracterizada pelas exigências da sua ocupação, ou seja, ocorre uma identificação total com a persona do profissional e passa-se a ignorar a natureza verdadeira do indivíduo, com seu verdadeiro potencial que abrange um leque mais completo de aspectos da vida,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este fato por si só não gera no indivíduo a sensação de que algo não está certo, é a reação do inconsciente que causando angústias e desconforto leva a perceber que algo está errado nessa vida totalmente desprovida de conteúdos do seu verdadeiro ser (Jung, 1982).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A reação do inconsciente trazendo questionamentos quanto a essa forma de se conduzir a vida, identificado com a persona e afastado do seu verdadeiro ser, ocorre mais frequentemente na segunda metade da vida adulta, quando é esperada a realização do verdadeiro potencial de uma pessoa, e para que se siga nessa etapa de acordo com suas exigências, é necessário que se desfaça essa figura que segura esse movimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta não é uma tarefa fácil, pois, exige uma mudança radical de prioridades e forma de se conduzir a vida, o que antes era importante passa a não ter valor, o que era tido como verdade absoluta passa a ser falso e as pessoas estão totalmente despreparadas para lidar com essa situação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Jung (2000), é fato que não há escolas ou universidades onde se possa aprender os ensinamentos para lidar com os problemas dessa natureza, porém ele próprio traz uma possibilidade para solucionar esse problema, &#8220;Disse há pouco que não temos escolas para os que chegaram aos quarenta anos. Mas isto não é totalmente verdadeiro. Nossas religiões têm sido sempre, ou já foram, estas escolas; mas para quantos de nós elas o são ainda hoje?&#8221; (JUNG, 2000, §786), ou seja, é possível encontrar um caminho que nos ensine a lidar com os desafios trazidos pela mudança radical de perspectiva quanto a condução da vida, porém para estarmos aptos a encontrá-lo temos que rever a forma como entendemos o papel da religião em nossas vidas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">*<a href="https://blog.sudamar.com.br/author/dulce/">Dulce Kurauti</a> é especialista em Psicologia Junguiana e Membro Analista em Formação pelo IJEP. Atende na Vila Mariana, e-mail: dulce_kurauti@hotmail.com &#8211; Fone: (11) 9996-17090</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1982.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. A natureza da psique. 5a. ed. Petrópolis: Editora Vozes, v. VIII/2, 2000.</p>



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