<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Marcella Ferreira, Autor em Blog IJEP</title>
	<atom:link href="https://blog.ijep.com.br/author/marcellaferreira/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://blog.ijep.com.br/author/marcellaferreira/</link>
	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Fri, 22 Dec 2023 15:42:07 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=7.1.4</generator>

<image>
	<url>https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/03/cropped-logo-ijep-32x32.png</url>
	<title>Marcella Ferreira, Autor em Blog IJEP</title>
	<link>https://blog.ijep.com.br/author/marcellaferreira/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>Criando intimidade com a sombra: Relação entre ego x sombra x persona</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/relacao-entre-ego-sombra-e-persona/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Dec 2023 15:34:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[integração da sombra]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sanford]]></category>
		<category><![CDATA[whitmont]]></category>
		<category><![CDATA[zweig]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8632</guid>

					<description><![CDATA[<p>Todos nós buscamos sempre entrar em contato com a nossa melhor versão e resistimos à ideia de que para chegarmos perto do melhor em nós teremos que inevitavelmente conhecer também a nossa pior versão. Imaginar que também somos o que não queremos, que aquilo que repudiamos no outro também pode pertencer a nós, que podemos fazer aquilo que não gostaríamos de assumir nem para nós mesmos é assustador. Mas a verdade é que nós somos imperfeitos e conhecer esse estranho que habita em nós é essencial para a busca da nossa totalidade.<br />
Faz parte do processo de desenvolvimento da personalidade a busca por pertencimento e aprovação do outro, porém, por mais que façamos manobras para nos tornar melhores, ‘limpando’ tudo que julgamos como ruim, não somos blindados do contato com a sombra.<br />
Não importa o quanto nossa persona esteja trabalhada ou o quanto adaptada ao coletivo ela esteja. O próprio meio, e não somente nossas questões pessoais, vão continuar nos proporcionando meios de contato com esses conteúdos sombrios a fim de reconhecermos o que tanto nos afeta e de qual forma podemos lidar com eles. Achamos que quanto mais ajustados à polaridade contrária da sombra, mais estaremos seguros. Contudo, acontece justamente o oposto. E é neste momento que o ‘ponto cego’ aparece.<br />
Quando mudamos a pergunta “o que eu tenho a ver com ela?” por “em qual momento eu a considerei como conflitante a mim?” conseguimos compreender o sentido desses conteúdos nos perturbar e decidimos como reagir à eles. Quando trazemos para perto da consciência, tiramos um pouco da carga afetiva desta energia autônoma e buscamos recursos para lidar com ela ou transformá-la. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/relacao-entre-ego-sombra-e-persona/">Criando intimidade com a sombra: Relação entre ego x sombra x persona</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Criando intimidade com a sombra. Reflexões sobre como a persona moldada para se adequar ao coletivo pode se distanciar do verdadeiro eu</em>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="border-style:none;border-width:0px;border-radius:0px;font-size:16px;font-style:italic;font-weight:300"><blockquote><p><em>“Ah, se fosse assim tão simples! Se houvesse pessoas más em um lugar, insidiosamente cometendo más ações, e se nos bastasse separá-las do resto de nós e destruí-las. Mas a linha que divide o bem do mal atravessa o coração de todo ser humano. E quem se disporia a destruir uma parte do seu próprio coração?” Alexander Solzhenitsym</em></p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Dentro de nós, existe uma parte que não gostamos de olhar, que negamos, que contradiz o que gostaríamos de reconhecer em nós. Esta parte é chamada de <strong>sombra</strong>. Muitas vezes ela é um problema de ordem moral, pois vai contra o ego e a persona. Ou seja, vai contra o modo que conseguimos nos enxergar. Segundo Jung “nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento” (Jung, 2012, p19).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Imaginar que também somos o que não queremos, que aquilo que repudiamos no outro também pode pertencer a nós, que podemos fazer aquilo que não gostaríamos de assumir nem para nós mesmos, é assustador. Mas a verdade é que nós somos imperfeitos e conhecer esse estranho que habita em nós é essencial para a busca da nossa totalidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sabemos-que-a-sombra-nao-e-apenas-aquilo-que-desconheco-totalmente-em-mim-mas-tambem-aquilo-que-minha-consciencia-considerou-contraria-a-atitude-ideal" style="font-size:17px">Sabemos que a sombra não é apenas aquilo que desconheço totalmente em mim, mas também, aquilo que minha consciência considerou contrária à atitude ideal.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como o ego é de natureza unilateral, qualquer coisa que se diferencie dele – assuntos negligenciados, inaceitáveis, reprimidos &#8211; vai se acumulando no inconsciente e se torna parte de uma personalidade inferior, ou seja, uma sombra pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>sombra</strong> é parte da psique inconsciente que interage com a consciência. Traz forte carga de afeto para ações e reações e que nos provoca desconfortos sempre que entramos em contato com ela. Esta sensação se dá porque lapidamos nossa personalidade e nosso modo de ver o mundo de forma que esses conteúdos fiquem reprimidos e distantes de nós. Ressaltando esta ideia, encontramos no livro ‘Ao encontro da Sombra’ um trecho que explica esta dinâmica:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“Por ser contrária à atitude consciente que escolhemos, não permitimos que a sombra encontre expressão na nossa vida; assim ela se organiza em uma personalidade relativamente autônoma no inconsciente, onde fica protegida e oculta” (Zweig, et al., 2012, p.28).</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de prosseguirmos, gostaria de complementar esta parte conceitual de sombra com dois recortes feitos por <strong>Edward Whitmont</strong>, apresentados no capítulo “A evolução da sombra”:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“O termo sombra refere-se àquela parte da personalidade que foi reprimida em benefício do ego ideal. (&#8230;) Assim como as figuras oníricas ou fantasias, a sombra representa o inconsciente pessoal. Ela é como que um composto das couraças pessoais dos nossos complexos e, portanto, o portal de acesso a todas as experiências transpessoais mais profundas.” (Zweig, et al., 2012, p.36)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Whitmont pontua a <strong>tendência arquetípica de projetarmos os conteúdos sombrios nos outros</strong>, replicando a dinâmica do bode expiatório. Como se todo o mal ou erro estivesse presente apenas no mundo exterior do outro e este deveria ser eliminado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“A sombra é a experiência arquetípica do ‘outro’, aquele que, por ser-nos estranho, é sempre suspeito. A sombra é o impulso arquetípico de buscar o bode expiatório, de buscar alguém para censurar e atacar a fim de nos vingarmos e nos justificarmos; ela é a experiência arquetípica do inimigo, a experiência da culpabilidade que sempre recai sobre o outro, pois estamos sob a ilusão de que conhecemos a nós mesmos e já trabalhamos adequadamente nossos próprios problemas. Em outras palavras, na medida em que é preciso que eu seja bom e justo, ele, ela ou eles tornam-se os receptáculos de todo o mal que deixo de reconhecer dentro de mim mesmo”. &nbsp;(Zweig, et al., 2012, p.39)</em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-incomodo-da-sombra" style="font-size:19px">O incômodo da sombra</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de a sombra conter pontos positivos e negativos em sua essência, geralmente seus conteúdos nos incomodam. Justamente porque os achamos inadequados e prejudiciais à lapidação da nossa personalidade. Na tentativa de compreender o porquê tais assuntos nos incomodam, costumamos tomar uma certa distância. Olhando para a característica atuante no outro e, só depois disto, abrimo-nos para a possibilidade de nos questionar sobre o motivo daquilo nos afetar tanto. Dificilmente aceitamos com facilidade que aquilo pode ser também uma condição nossa.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px;font-style:italic;font-weight:300"><blockquote><p>“quando nos recusamos a enfrentar a sombra, (&#8230;) nossas projeções transformam o mundo à nossa volta num ambiente que nos mostra a nossa própria face, mesmo que não a reconhecemos como nossa”. <strong>Whitmont</strong> (Zweig, et al., 1994, p.40)</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Faz parte do processo de desenvolvimento da personalidade a busca por pertencimento e aprovação do outro</strong>. Ao mesmo tempo que vamos nos identificando como indivíduo, começamos a lapidar nossas características de forma a potencializar aquilo que nos agrada e que também agrade o outro, enquanto vamos encontrando meios de esconder ou transformar os aspectos que achamos feios e inapropriados. Desta forma, conseguimos também encontrar recursos de adaptação às diversas situações, dando vida às versões de nós mesmos de acordo com o que nos é exigido. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este recurso de adaptação do ego para o mundo exterior é chamado de <strong>persona</strong> &#8211; a qual pode ser positiva ou negativa. <strong>É a máscara que usamos para nos relacionarmos com os outros, para confrontar o mundo e as pessoas</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-persona-e-a-primeira-parte-de-nos-que-as-outras-pessoas-veem-e-a-nossa-parte-que-queremos-que-elas-vejam-sanford-1988-p-88" style="font-size:21px">“A persona é a primeira parte de nós que as outras pessoas veem, e a nossa parte que queremos que elas vejam” <strong>(Sanford, 1988, p.88)</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por conceito, a persona é positiva, pois nos ajuda a adequar ao coletivo. Contudo, ela pode se tornar negativa quando esta adaptação se transforma em uma mudança quase que total do que somos e como nos reconhecemos, visando uma adequação total com o coletivo mesmo que este modo não reflita a nossa própria essência. Podemos assumir que quando isso acontece, essa versão transformada se distancia de quem ela é de verdade, ou seja, do Self e da identificação egóica. O risco do indivíduo não saber mais diferenciar quem ele é da pessoa que ele quer parecer se torna cada vez mais concreto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais que façamos manobras para nos tornar melhores, ‘limpando’ tudo que julgamos como ruim, não somos blindados do contato com a sombra. Ela irá aparecer no nosso cotidiano, assombrando nossa persona, tirando-nos da nossa zona de conforto. Pela própria definição do termo, todo receio extremo, todo incomodo que nos afeta além do que podemos lidar faz parte da nossa sombra. Tudo o que nos impacta fortemente e não é considerado, também alimenta nossa sombra.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-persona-x-anima-animus-sombra-x-ego">Persona x Anima/Animus &#8211; Sombra x Ego</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de prosseguir, é importante ressaltar que <strong>a</strong> <strong>persona não faz polaridade com a sombra</strong> (como muitos confundem conceitualmente). <strong>Persona é uma estrutura psíquica que faz oposição à anima/animus</strong>, uma vez que ambos são recursos relacionais. Enquanto a persona se relaciona com o mundo exterior, anima/animus são recursos de relação com o mundo interior. </p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>sombra</strong>, por sua vez, se apresenta em <strong>oposição ao ego</strong>, conforme explicado no início deste artigo. Não vou me aprofundar nesta questão pois isso seria tema para um próximo artigo, mas essa explicação se faz necessária para entendermos o recorte feito neste texto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não importa o quanto nossa persona esteja trabalhada ou o quanto adaptada ao coletivo ela esteja. O próprio meio, e não somente nossas questões pessoais, vão continuar nos proporcionando meios de contato com esses conteúdos sombrios a fim de reconhecermos o que tanto nos afeta e de qual forma podemos lidar com eles. Porém, é nítido que quando isso acontece, buscamos a saída que parece ser mais garantida: nos blindamos desses conteúdos devolvendo para o outro a responsabilidade de transformação do conteúdo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste cenário, como proteção, buscamos recursos para fortalecer nossa <strong>persona</strong>, melhorando aquilo que achamos que contrapõem o que nos denuncia, nos sentindo superior ao que nos incomoda. Encontramos ferramentas que eliminam o que não deve vir à tona, fazemos tudo como forma de controlar a ação desses conteúdos em nossas vidas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-achamos-que-quanto-mais-ajustados-a-polaridade-contraria-da-sombra-mais-estaremos-seguros-contudo-acontece-justamente-o-oposto" style="font-size:18px">Achamos que quanto mais ajustados à polaridade contrária da sombra, mais estaremos seguros. Contudo, acontece justamente o oposto.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E é neste momento que o ‘ponto cego’ aparece. Se tento compreender meus conteúdos sombrios e adequá-los ao manejo da persona posso, como efeito contrário, alimentá-la, pois vou ‘resolver’ essa falta fortalecendo uma conduta que irá me afastar ainda mais dela; que vai provar para mim e para os outros que aquilo não me pertence.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-lidar-com-a-sombra-nao-basta-ter-conhecimento-sobre-ela-e-preciso-se-apropriar-da-questao-e-entender-sua-real-motivacao-de-existir" style="font-size:18px">Para lidar com a sombra não basta ter conhecimento sobre ela, é preciso se apropriar da questão e entender sua real motivação de existir.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"><em>“A integração da sombra sempre coincide a dissolução da falsa persona. A pessoa torna-se muito mais realista a respeito de si mesma; ver a verdade sobre a nossa própria natureza sempre tem efeitos muito salutares. (&#8230;) Parar de mentir para nós mesmos a respeito de nós mesmos, essa é a maior proteção que podemos ter contra o mal”. (Sanford, p. 47)</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Agora que chegamos ao ponto de entender que mesmo diante de um trabalho de adaptação ao meio exterior, nossa persona não dará conta de esconder ou de se blindar diante da sombra, quero voltar um pouco no início deste artigo. Se toda sombra, antes de ser jogada ao inconsciente passa pelo filtro do ego ideal, não seria uma alternativa para lidar com esses conteúdos, voltar para nossa essência e investigar qual foi a motivação inicial do ego ter desconsiderado a integração desta característica?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-nunca-e-formada-de-modo-aleatorio" style="font-size:20px"><strong>A sombra nunca é formada de modo aleatório</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso falamos que a sombra também guarda um potencial enorme de transformação em nossas vidas. Se nós queremos nos conhecer verdadeiramente, temos que ir em busca da nossa totalidade, reconhecendo os aspectos de luz e sombra. Logo, sabendo mais sobre as nossas sombras, conseguimos entender também quais partes a consciência de cada um rejeita, quais partes ela não quer lidar e o porquê o ego decidiu que aqueles pontos deveriam ser filtrados da consciência. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não paramos para pensar que em muitos casos acabamos vivendo características unilaterais só para não deixar esta sombra ter expressão, mas ela sempre dará um jeito de se apresentar para nós – seja através do comportamento do outro, seja através daquilo que nos afeta. Entrar em contato com a sombra não é ter que transformar todos os conteúdos; algumas características serão trabalhadas, outras deverão ser apenas suportadas. Mas, a partir do momento que nós nos apropriamos do que até então desconhecemos, deixamos de ficar totalmente vulneráveis aos seus conteúdos, pois saberemos também quais são nossos limites, o que podemos fazer e, assim, criamos oportunidades de nos conhecermos dentro da nossa unicidade e inteireza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tiramos do outro a responsabilidade de se tornar impecável dentro do nosso julgamento, permitimos que o coletivo e a nós mesmos sejam diferentes, as vezes conflitantes, mas dentro da verdade de cada um. Isto é parte da cura dos relacionamentos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tentar-entender-a-sombra-pela-persona-pode-ser-uma-manobra-falsa-que-vai-nos-colocar-apenas-como-superior-a-esses-conteudos" style="font-size:20px">Tentar entender a sombra pela persona pode ser uma manobra falsa que vai nos colocar apenas como superior a esses conteúdos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se, depois deste primeiro reconhecimento, pararmos para investigar em qual momento da vida nosso ego ideal – parafraseando Whitmont – fantasiou que seriamos melhores se não tivéssemos tais características; se o julgamento como errado e feio veio de nós mesmos ou se nos foi ensinado pelo núcleo mais próximo, talvez, de fato, conseguiremos entender o sentido desta sombra ter se tornado sombra e reavaliar, se nas condições atuais, tais características devem ainda ser julgadas como inapropriadas por nós ou se já estamos prontos para lapidá-las ao nosso favor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando mudamos a pergunta “o que eu tenho a ver com ela?” por “em qual momento eu a considerei como conflitante a mim?” conseguimos compreender o sentido desses conteúdos nos perturbar e decidimos como reagir à eles. Enquanto a sombra é inconsciente, nossa reação vem proporcional ao desconhecido que se tornou em mim. Quando trazemos para perto da consciência, tiramos um pouco da carga afetiva desta energia autônoma e buscamos recursos para lidar com ela ou transformá-la.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o que é nosso trabalhará ao nosso favor, mesmo que a princípio se pareça negativo. Este é o caminho para a nossa totalidade.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: Criando intimidade com a sombra: Relação entre ego x sombra x persona" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/2zUUQM5HVd0?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/marcellaferreira/">Marcella Helena Ferreira &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas" style="font-size:18px">Referências Bibliográficas:</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>JUNG, Carl Gustav. 2012a</strong>. <em>Aion – Estudo sobre o simbolismo do si-mesmo.</em> 8°. Petrópolis: Vozes, 2012a.Vol.9/2</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>__. 2012b</strong>. <em>O Eu e o Inconsciente.</em> 24°. Petrópolis: Vozes, 2012b.Vol.7/2</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>ZWEIG, Connie e ABRAMS, Jeremiah. 1994</strong>. <em>Ao encontro da sombra</em>. 1°. São Paulo: Cultrix, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>SANFORD, John A. 1998.</strong> <em>Mal o lado sombrio da realidade</em>. 1°. São Paulo: Paulus, 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e confira nossos Cursos e Pós-Graduações: <a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça nossos Congressos Junguianos: <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">Congressos IJEP (pages.net.br)</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/relacao-entre-ego-sombra-e-persona/">Criando intimidade com a sombra: Relação entre ego x sombra x persona</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Você está pronto para ser protagonista da sua própria vida?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/busca-da-autonomia-e-da-realizacao-pessoal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jun 2023 20:15:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[autoestima]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia anal[itica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7837</guid>

					<description><![CDATA[<p>Toda vez que nos encontramos diante de uma tarefa que nos parece desafiadora demais e que exige de nós uma grande transformação, tendemos a estagnar. Quando resistimos à tomada de consciência ou rejeitamos a tarefa do novo, experimentamos a sensação de perda de controle. A vida vai perdendo sentindo, nossos dias se tornam mais difíceis até que nos sentimos sem saída e somos forçados a agir.<br />
Talvez o motivo de tanto sofrimento diante das tarefas seja o medo de correr riscos e nos expor. Nem sempre estaremos prontos para agir e tomar qualquer decisão e, pensar em fazer algo nessas circunstâncias parece assustador.<br />
	Crescer dói, não crescer mutila a nossa alma. Este processo de lapidação egóica é uma tarefa realmente árdua, mas inevitável se quisermos ir em busca de uma realização pessoal. A atitude de ficar escondido, apenas sendo coadjuvante das histórias, em algum momento, não será mais sustentado pela alma. Por mais que o ego busque alternativas para se proteger da situação, a alma apresentará desconfortos deixando em evidência que é preciso mudar. Mesmo com resistências, nós devemos buscar meios para abandonar os papéis secundários e nos tornarmos protagonistas das histórias ao nosso redor.  Resgatar a autonomia diante da nossa própria história é a tarefa a qual não conseguiremos escapar. Uma hora ou outra nós vamos ter que encarar o palco e a plateia e mostrar para todos, quem somos e como queremos viver a nossa história. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/busca-da-autonomia-e-da-realizacao-pessoal/">Você está pronto para ser protagonista da sua própria vida?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>O resgate da autonomia como parte da ampliação da consciência e a busca da realização pessoal. &nbsp;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Deus, tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na minha vida que as vezes parece que estou dentro de um vagão descontrolado, sendo levada a situações que não escolhi, tendo que resolvê-las sem tempo de me preparar para elas, sem entender ao certo para onde elas vão me levar&#8230;só espero que você seja o condutor deste trem, Deus, e esteja realmente me levando para o lugar onde eu devo estar&#8230;”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quem nunca se sentiu assim diante da própria vida? Nem sempre as coisas vão seguir o nosso planejamento e a vida vai nos dar tempo de nos prepararmos para encontrar a melhor resposta. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Confesso que quando me dei conta desta minha conversa com Deus antes de dormir eu me assustei. Não por ser algo inédito na minha vida, mas por entender que diante deste momento, eu realmente esperava que Deus estivesse sob o comando, no meu lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Este artigo não tem a finalidade de questionar a ação de Deus em nossas vidas. Isso é muito pessoal e nós devemos respeitar as diferentes visões sobre o tema. Mas quero ampliar aqui uma questão que eu já vinha elaborando diante dos casos que acompanho e de algumas leituras que fiz: <strong>haverá sempre um momento em que a vida vai cobrar da gente uma posição</strong> e, quando isso acontecer, não restará mais nada a fazer além da gente se tornar protagonista da própria vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como visto, o processo de evolução é um trabalho contínuo. A psique é trabalhada e a consciência é lapidada graças ao enfrentamento das situações. Este processo não se dá exclusivamente na fase do amadurecimento onde vamos nos tornando adultos, mas sim, acontece de forma <strong>constante</strong> <strong>por toda a vida</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desenvolvimento-da-personalidade-e-formacao-do-ego">Desenvolvimento da personalidade e formação do ego</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O <strong>desenvolvimento da personalidade e a formação do ego</strong> devem ser trabalhados continuamente</em>,<em> independentemente da idade.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Inclusive, este pensamento ilustra bem o caminho da individuação, onde somos convidados a construir, transformar, desconstruir ideias, valores, conceitos, sempre e de novo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No livro “<strong>Ego e Arquétipo</strong>”, <strong>Edinger</strong> (2012) ilustra essa ideia de evolução da consciência com um modelo espiral. Onde cada fase a ser vivida passa necessariamente por papéis, desafios de construção e desconstrução, de modo que seja trabalhado o Ego e conquistado o autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E fica evidente que esta caminhada é cíclica, ou seja, a cada novo momento ficaremos frente a frente com nossas sombras, nossos potenciais e vamos descobrindo maneiras de responder e amadurecer diante das experiências.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos então pensar que este processo é cíclico, espiral e cônico, pois conforme vamos aprendendo as lições que a vida traz e vamos expandindo a nossa consciência. Encontramos saídas e respostas mais rápidas, ou vamos tendo menos necessidade de ficarmos parados em um ponto, identificados com o momento presente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-psique-passa-por-esses-movimentos-constantes-mas-nunca-da-mesma-forma" style="font-size:18px">A psique passa por esses movimentos constantes mas nunca da mesma forma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, quando estamos diante de uma tarefa que nos parece desafiadora demais, que exige uma grande transformação ou mesmo constela nossos complexos, tendemos a estagnar.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Toda vez que resistimos à tomada de consciência ou rejeitamos a tarefa do novo, experimentamos a sensação de perda de controle</strong>. Ficamos com o emocional confuso e começamos a produzir sintomas em suas mais diversas formas. Seja diante de pequenas tarefas corriqueiras do dia a dia ou de grandes mudanças impostas pela vida, se não enfrentarmos nossa sombra os sintomas vão nos cobrar uma atitude.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-procrastinacao-preguica-ou-falta-de-prontidao" style="font-size:21px">Procrastinação: preguiça ou falta de prontidão?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Quando resistimos ou nos sentimos paralisados diante de coisas que são julgadas como pequenas, costumamos dizer que estamos <strong>procrastinando</strong>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Interessante pensar que nesses casos, muitos associam a resistência em fazer algo como <strong>preguiça</strong>. Mas será que realmente a pessoa que paralisa ou que arrasta uma situação deixa de fazer apenas por preguiça ou irresponsabilidade?</p>



<p class="wp-block-paragraph">No livro “<strong>Pare de procrastinar</strong>” de Nils <strong>Salzgeber</strong> (2021), fica evidente que muitas vezes essa resistência comportamental vem diante de tarefas julgadas como difíceis. Mas é quase sempre uma reação natural à uma emoção negativa ou desconfortável que é acionada, gerando ansiedade, dor, culpa, entre outros sentimentos. <strong>Por isso, a pessoa tenta mudar o foco para outra tarefa que desperte emoções mais agradáveis</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agora, será que nós não podemos pensar que, diante de grandes mudanças de vida ou grandes tarefas, paralisamos por também nos sentirmos <strong>desconfortáveis</strong> com as nossas emoções?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos pensar neste conflito interno como uma resistência profunda em olhar para a situação e assumir um papel diferente do que estávamos acostumados até então? A diferença talvez seja que nesses casos não julgamos como procrastinação, mas sim uma <strong>falta de prontidão para realizar tais tarefas</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>“A procrastinação geralmente decorre de alguma espécie de medo – do fracasso, do sucesso, do desconhecido, de ser julgado, da reprovação. É muito mais fácil procrastinar do que escrever um livro e correr o risco de ninguém gostar dele. É muito mais fácil procrastinar do que começar um negócio e correr o risco de falir.”</em> </p>
<cite>Salzgeber, 2021, p. 22</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-medo-de-correr-riscos-nao-seria-este-o-motivo-de-encontrarmos-pessoas-em-sofrimento-diante-de-desafios-que-a-vida-impoe" style="font-size:18px">Medo de correr riscos: não seria este o motivo de encontrarmos pessoas em sofrimento diante de desafios que a vida impõe?</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em><strong>Viver é correr riscos</strong>: de fracassarmos, mas também de nos surpreendemos com o sucesso. Como saber se estaremos prontos para lidar com o que vier, sendo algo positivo ou negativo? Quais partes minhas eu terei que conhecer para dar conta deste novo? Tantas perguntas para um processo que é <strong>inevitável</strong>.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Este comportamento até então visto em <strong>adolescentes </strong>agora virou tema também de muitos <strong>adultos</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O medo da vida e do viver, a sensação de despreparo diante das batalhas e responsabilidades, seja ela na vida pessoal ou na coletiva, tem feito com que adultos se sintam impotentes diante da própria vida</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É comum o relato de que grande parte do sofrimento vem pela falta de escolha, mas a verdade é que sempre a fazemos.  <strong>De forma consciente ou inconsciente, o tempo todo escolhemos</strong>: se queremos ou não, se vamos agir ou não, como vamos enfrentar o que nos parece inevitável – e essas decisões cabem somente a cada um.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O grande aprendizado é aprender a lidar com os desafios que vão aparecer pelo caminho, mesmo diante de uma escolha certeira. Independente da escolha (ou da aparente não escolha), inevitavelmente vamos ter que lidar com alguns desafios.  </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">“<em>Enquanto uma pessoa continua a se desenvolver, a paz interior, mesmo para aqueles cuja vida foi enriquecida pelo encontro com o inconsciente, é apenas um breve intervalo entre o conflito resolvido e o conflito que virá, entre respostas e perguntas que nos lançam no tumulto e no sofrimento, até que novos vislumbres ou a própria transformação tragram nova solução, e o interior e o exterior em oposição se reconciliem novamente.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px"><em>A experiência do significado, que é, finalmente, aquilo com que se ocupa a vida, não é, de nenhum modo, equivalente ao não sofrimento; no entanto, a elasticidade da consciência que se dá conta de si e se transforma a si mesma pode nos fortalecer contra os perigos do irracional e do racional, contra o mundo interior e o exterior.</em>” </p>
<cite>Jaffé, 1995, p.59</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-crescer-doi-nao-crescer-mutila-a-nossa-alma">Crescer dói, não crescer mutila a nossa alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Este processo de <strong>lapidação egóica</strong>, buscando a totalidade individual proposto por<strong> Jung </strong>é uma tarefa realmente árdua, mas inevitável se quisermos ir em busca de uma realização pessoal.<strong> Não importa a idade ou o momento de vida, seremos convocados a algumas batalhas pessoais</strong> as quais não poderemos nos ausentar, a não ser que estivermos dispostos a adoecer, física e psiquicamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para algumas pessoas fica mais fácil associar esse chamado com a <strong>jornada do herói</strong>, e posso até concordar, desde que a jornada do herói seja compreendida de fato na sua essência: uma <strong>jornada de autoconhecimento</strong> e<strong> ampliação da consciência</strong> <strong>diante do inconsciente</strong> e não uma tarefa meramente egóica.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse artigo, quero destacar os momentos em que realmente nos sentimos inundados por tarefas, mudanças e surpresas que anunciam grandes transformações de vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Situações em que teremos que rever alguns padrões, crenças, despertar para os aprendizados e realmente partir para o próximo nível da nossa jornada. Quando de fato nos lançamos para o processo, descobrimos que em alguns momentos nós devemos agir junto com os pedidos que a própria vida vai nos fazer. Ou seja, mesmo sem ter a compreensão absoluta do próximo passo, só nos resta fazer um esforço e nos apropriar da situação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-atitude-de-ficar-escondido-apenas-sendo-coadjuvante-das-historias-em-algum-momento-nao-sera-mais-sustentado-pela-alma" style="font-size:20px">A atitude de ficar escondido, apenas sendo coadjuvante das histórias, em algum momento, não será mais sustentado pela alma.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais que o ego busque alternativas para se proteger da situação, a alma apresentará desconfortos deixando em evidência que é preciso mudar. Mesmo com resistências, nós devemos buscar meios para abandonar os papéis secundários e nos tornarmos protagonistas das histórias ao nosso redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Este é um processo realmente difícil, mas necessário</strong>. Muitos recursos do processo analítico nos ajudam neste enfrentamento, seja escutando a sombra, olhando para as fantasias, imaginando soluções, ponderando riscos, buscando um diálogo entre os conteúdos conscientes e inconscientes. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-investigando-o-inconsciente" style="font-size:20px">Investigando o inconsciente</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No livro “<strong>O Eu e o Inconsciente</strong>” (OC, v.7/2, §369), Jung fala que não podemos usar ferramentas como meio de escapar da vida, mas sim para <strong>investigar</strong> aquilo que não se consegue ainda ter clareza.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Complementando esta ideia, ele pontua que dar voz as fantasias e ao inconsciente “<em>não são um substituto da vida; são frutos do espírito que cabem àquele que paga o seu tributo à vida. Quem se exime não experimenta nada, salvo o seu próprio medo mórbido, e este não lhe concede nenhum significado”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos, então, entender que esses momentos de grandes mudanças e tumultos emocionais fazem parte do processo de <strong>individuação</strong> e que nós não deveríamos resistir ao enfrentamento das mudanças solicitadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas é preciso deixar claro que há uma diferença entre se sentir receoso diante da mudança imposta pela vida, e de se sentir totalmente descontrolado e desconectado da própria vida e das decisões a serem tomadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No primeiro caso, devemos enfrentar essas <strong>emoções</strong> como um ajuste psíquico necessário para a nossa ampliação da consciência, e esta tarefa pode ser sim enfrentada pela nossa versão protagonista. A nossa versão protagonista entenderá a necessidade de agir apesar do receio e buscará recursos e ajuda necessárias, com a compreensão que desta forma ele poderá atuar a favor da demanda necessária.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já no segundo caso, onde o sentimento é o descontrole diante dos acontecimentos, surgirá a necessidade maior em buscar uma <strong>reconexão</strong> com a própria história, emoções e desejos, entendendo que o papel de coadjuvante, na verdade, aprisiona a pessoa em sofrimentos que não a pertence, mas que a mantém refém de complexos e sombras.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fica-claro-entao-que-fugir-de-algumas-responsabilidades-nao-e-uma-opcao" style="font-size:18px">Fica claro, então, que fugir de algumas responsabilidades não é uma opção.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, teremos sempre liberdade no modo de agir diante delas. <strong>Aniela Jaffé</strong> em “O Mito do Significado” (1995, p.91) fala que “<strong>o homem é livre e não é livre</strong>”. Ela diz que “n<strong>ão é livre para escolher o seu destino, mas sua consciência lhe dá a liberdade para aceitá-lo como uma tarefa que lhe foi atribuída pela natureza</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se estamos dispostos a contribuir com o <strong>processo de individuação</strong>, nos tornamos responsáveis por este processo e nos submetendo voluntariamente ao Self. <strong>O homem é livre para ampliar a sua consciência e, para isso, enfrentar seus medos e todo o desconhecido que habita a sua psique</strong>. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Quando alguém toma a si, voluntariamente, a integridade, não precisa vivenciar que ela lhe ‘acontece’ contra a sua vontade e de modo negativo” </em></p>
<cite>Jung, Aion, v. 9/2, §16</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-da-autonomia-e-a-da-realizacao-pessoal" style="font-size:18px">A busca da autonomia e a da realização pessoal</h2>



<p class="wp-block-paragraph"> Assumir o <strong>protagonismo</strong> da situação é uma tarefa a qual não vamos conseguir escapar na busca da autonomia e da realização pessoal. É trabalhoso mudar a postura e assumir novos papéis, principalmente quando estamos <strong>acomodados</strong> diante dos nossos complexos. Porém, faz parte da vida resgatar a <strong>autonomia</strong> da nossa história pois, uma hora ou outra, vamos ter que encarar o palco e a platéia e nos expor.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“<em>Tornar-se autônomo é algo que nos é exigido, sem sombra de dúvida, como ideal e como reivindicação de nossa vida. Mas uma vez que a autonomia, em todas as suas formas, vem ligada sempre também com um processo de distinção e separação em relação ao outro, gerando assim perda, sentimentos de culpa de um lado, e de outro, sentimentos de mágoa, com medo e angústia frente à separação, de ambos os lados, via de regra, procuramos evitá-la”</em>. </p>
<cite>Kast, 2016, p. 34</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A totalidade do ser humano consiste em aprender conscientemente suportar conflitos, desenvolver a capacidade de buscar soluções para eles através de uma decisão ou de uma aceitação.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A vida ensina que devemos tentar maneiras de mudar aquilo que nos incomoda, mas que, algumas vezes, quando sem alternativa, devemos apenas aprender a suportar.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-tambem-e-amadurecimento-psiquico" style="font-size:19px">Isso também é amadurecimento psíquico. </h2>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“&#8230;Só espero que você seja o condutor deste trem, Self, e esteja realmente me levando para o lugar onde eu devo estar&#8230;” . Tornar-se <strong>protagonista</strong> é realmente um grande desafio, mas é o primeiro grande passo na <strong>autonomia</strong> da nossa história.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando entendermos isso, poderemos então pensar “<strong>quando é que eu irei conseguir me tornar roteirista da minha própria história?</strong>” Talvez a <strong>consciência </strong>ainda tenha um trabalho a fazer antes de conseguir escutar a resposta do <strong>Self</strong> e tomar posse desta autonomia. É possível que esta resposta (ou confirmação) seja dada apenas no <strong>desembarque do trem</strong>. Mas nós chegaremos lá.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/marcellaferreira/"><strong>Marcella Helena Ferreira</strong> &#8211; Analista em formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/"><strong>Maria Cristina Guarnieri</strong> &#8211; Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, Edward F., <em>Ego e Arquétipo</em>. São Paulo – SP: Ed. Cultrix, 2012</p>



<p class="wp-block-paragraph">JAFFÉ, Aniela. <em>O Mito do Significado</em>. São Paulo – SP: Ed. Cultrix, 1995</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>O Eu e o Inconsciente</em>. OC v.7/2. Petrópolis – RJ: Ed. Vozes, 2015</p>



<p class="wp-block-paragraph">________________ <em>Aion</em>. OC v.9/2. Petrópolis – RJ: Ed. Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAST, Verena. <em>O Caminho para si mesmo</em>. Petropolis – RJ: Ed. Vozes, 2016</p>



<p class="wp-block-paragraph">SALZGEBER, Nils. <em>Pare de Procrastinar.</em> Campinas – SP: Ed. Auster, 2021</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Você está pronto para ser protagonista da sua própria vida?" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/ReC46F0rwxA?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site: <a href="https://www.ijep.com.br/">https://www.ijep.com.br/</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça nosso canal no YouTube: <a href="https://www.youtube.com/c/IJEPInstitutoJunguiano">https://www.youtube.com/c/IJEPInstitutoJunguiano</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/busca-da-autonomia-e-da-realizacao-pessoal/">Você está pronto para ser protagonista da sua própria vida?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Mudança de comportamento como chave para a busca da saúde integral – corpo, mente e alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mudanca-de-comportamento-como-chave-para-a-busca-da-saude-integral-corpo-mente-e-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Dec 2022 09:16:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Estresse]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[corpo mente e alma]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
		<category><![CDATA[saúde integral]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6950</guid>

					<description><![CDATA[<p>Para a compreensão do conceito de saúde integral, devemos lembrar que nós somos um sistema complexo que para funcionar precisa estar em harmonia com todas as pequenas partes, órgãos, funções e emoções. Esta engrenagem de corpo – alma – mente precisa estar em equilíbrio para a saúde se instalar no nosso corpo, seja no campo físico ou mental. </p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mudanca-de-comportamento-como-chave-para-a-busca-da-saude-integral-corpo-mente-e-alma/">Mudança de comportamento como chave para a busca da saúde integral – corpo, mente e alma</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">“A maior batalha que travará com a sua saúde não será contra o corpo; será contra a mente”&nbsp;&#8211; (Dr Suhas Kshirsagar)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Para a compreensão do conceito de saúde integral, devemos lembrar que nós somos um sistema complexo que para funcionar precisa estar em harmonia com todas as pequenas partes, órgãos, funções e emoções. Esta engrenagem de corpo – alma – mente precisa estar em equilíbrio para a saúde se instalar no nosso corpo, seja no campo físico ou mental.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto na visão da Psicossomática quanto no Ayurveda (entre tantas outras terapias que compartilham a visão da saúde integral) corpo e mente não são aspectos que se separam quando falamos sobre saúde nem sobre o processo de adoecimento. Se temos a formação de sintomas, temos um desequilíbrio neste nosso sistema integral, não importando o local primário da manifestação dos primeiros sinais. Jung aborda a ligação da saúde do corpo e psíquica em suas obras completas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que, inversamente, um sofrimento corporal pode afetar a psique; pois a psique e o corpo não estão separados, mas são animados por uma mesma vida. Assim sendo, é rara a doença corporal que não revele complicações psíquicas, mesmo quando não seja psiquicamente causada” (Jung, 2012, §194)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma, “há uma tendência para se considerar todas as doenças como sendo psicossomáticas, na medida em que elas envolvem a inter-relação contínua entre corpo e mente na sua origem, desenvolvimento e cura” (Ramos, 1994, p36). E é esta visão integral que nos faz entender como que a nossa rotina agitada e estressante proporciona uma desconexão com o nosso próprio corpo. Não percebemos mais quando estamos chegando ao nosso limite, quando precisamos descansar, quando algo não nos está fazendo bem e por isso, temos um prato cheio de sintomas aparecendo diariamente no nosso consultório ou mesmo nos encontros com amigos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não se tem mais idade limite nem pré-disposição genética para somatizar algo. Sintomas que são comuns nos dias de hoje – ansiedade, depressão, sobrepeso, alergias etc. – estão sendo encarados como algo normal. Só esquecemos que nem tudo que é comum é normal. Não é normal o corpo não ter energia para executar as tarefas do dia a dia, não é normal o corpo não conseguir descansar depois de um dia intenso de trabalho, não é normal sentir dores, não é normal se sentir angustiada a cada nova tarefa do dia. Não é normal viver em processo de adoecimento. Mas está muito comum.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso corpo é um sistema complexo e inteligente que consegue por si só se autorregular para manter o estado normal de saúde e bem-estar. Mas sabemos também que nossa vida naturalmente irá nos desequilibrar pois nossas demandas diárias propõem também uma desordem a esta ordem. Logo, podemos entender que no exercício natural de saúde não devemos nos blindar diante da vida, mas deveríamos naturalmente voltar ao nosso equilíbrio saudável, funcionando dentro de cada realidade e possibilidades. Impossível achar que vamos ficar imunes a tudo o que acontece à nossa volta, mas devemos sempre voltar para o que seria o nosso estado natural saudável.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Doença e saúde são conceitos singulares, pois se referem a um estado das pessoas, e não, como se costuma dizer hoje com frequência, a órgãos ou partes do corpo. O corpo nunca está só doente ou só saudável, visto que nele se expressam realmente as informações da consciência”. (Dethlefsen, 2007, p14)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para ficar mais claro o meu raciocínio, vou dar alguns exemplos. Nem sempre vamos conseguir comer apenas alimentos orgânicos, frescos, preparados na hora com pouca gordura; nem sempre vamos conseguir estar em meio a natureza purificando nossos pulmões e acalmando nosso olhar; nem sempre será possível trabalhar numa carga horária que dê para desligar tudo e se preparar para relaxar junto com o pôr do sol; nem sempre conseguiremos dormir cedo para levantar dispostos e descansados cedinho na manhã; por isso precisamos ter consciência do nosso corpo e do que é saudável para conseguir auto regular essas condições, conseguindo fazer limpezas físicas e mentais, tanto externas quanto a nível celular. Você já deve ter lido inúmeras reportagens falando que para sermos saudáveis nós precisamos dormir no mínimo 8 horas diárias, certo? E se eu te disser que esta não é uma regra pois mais do que horas cronológicas, devemos nos certificar sobre a qualidade dessas horas – para a saúde, a qualidade tem que prevalecer em relação a quantidade de horas dormidas. Tem gente que precisa de 7 horas bem dormidas para se sentir disposto no dia seguinte, outras precisam de um pouco mais. Quantos adolescentes que dormem de 10 horas para mais acordam sem pique, desmotivados, sem fome&#8230;e dormiram mais do que as 8 horas mínimas recomendadas?&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cada um de nós tem um corpo que funciona melhor em condições específicas; cada corpo vai precisar se equilibrar ao ambiente, rotina, clima e emoção se quiser ter bem-estar mesmo em momentos em que a nossa rotina ideal não for possível.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um sintoma se manifesta no corpo, fica mais fácil identificar e ir atrás de uma solução. Muitos tomam medicamentos para excluir aquele incômodo e não percebem que a melhora é pontual e normalmente volta – se não pior – da mesma forma que a última crise. Isso se dá pela cultura de olhar os sintomas e tratar apenas essas consequências. Nós tiramos a dor, nós paramos uma diarreia, nós anestesiamos uma emoção ruim e por aí seguimos até o próximo desconforto. Transformamos eventos agudos e pontuais – que serviriam para nos sinalizar que algo nos fez mal, que perdemos o nosso equilíbrio e, através dos sintomas, nosso corpo busca se auto limpar, autorregular, detoxificar como forma de recuperar a ordem, – em sintomas crônicos, perenes e profundos – demonstrando o agravamento desta desregulagem, passando de uma simples disfunção para uma lesão ou destruição celular.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Numa visão integral, devemos atuar na consequência (sintomas/ queixa) enquanto também buscamos a sua causa. Duas pessoas podem chegar e relatar os mesmos desconfortos, num quadro muito similar de queixa, porém, com causas totalmente diferentes. Como exemplo, podemos falar sobre a depressão. Nem toda depressão é causada por um desequilíbrio químico emocional, ela também pode ser causada por um desequilíbrio fisiológico no organismo. Além de ser desencadeada por situações psíquicas, já se tem evidencias que também podem ser provocadas pelo uso de alguns medicamentos ou por instabilidades hormonais e nutricionais. Mas, quando vamos pedir ajuda a algum médico ou quando recebemos o paciente em nosso consultório, vamos receber relatos de sintomas muito semelhantes. O trabalho de investigação da causa mudaria todo o tratamento, inclusive, a eficácia da resposta ao tratamento já que atuaríamos exatamente no que provoca e não apenas no que incomoda.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É certo que, quando acertamos o gatilho de qualquer queixa – seja emocional ou física – tomamos consciência do que estamos fazendo ou do que deixamos de fazer para amenizar ou eliminar o desequilíbrio. Passamos a nos conhecer mais, a compreender o que de fato nos ajuda ou nos agride pedindo ações que provoquem mudanças necessárias para o nosso bem-estar. No entanto, é aqui que se encontra a maior das barreiras num processo de busca pela saúde: a mudança de comportamento. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais que esteja claro que um determinado tipo de alimento nos traz desconforto, resistimos a tirar ele do nosso cardápio com justificativas infinitas para não ter que mudar. Quando torna-se evidente o quanto uma situação específica enfraquece o emocional e desperta gatilhos que levam à uma ansiedade, por exemplo, não é raro ver uma luta contra si próprio e seus sentimentos na decisão de não fazer escolhas, de não se proteger daquilo que mais o machuca, evitando a exposição ou um clima tenso com o outro, denunciando uma dificuldade em afastar tudo aquilo que fere nessas condições.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não basta querer eliminar um sintoma. Não basta decidir que não queremos mais conviver com algum desconforto emocional. É preciso ter consciência do nosso corpo (físico e emocional) e do que ele precisa para que as mudanças sejam de fato efetuadas. Sem este alinhamento, dificilmente conseguiremos mudar um comportamento já instalado.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“As pessoas supõem que podem recorrer apenas à força de vontade para mudar, que podem usar a mente para forçar o corpo a deixar os maus hábitos. Na verdade, seus hábitos funcionam ao contrário. Seu corpo lhe dá todo tipo de dica sobre do que realmente precisa, mas durante muitos anos você pegou essas dicas e as transformou em emoções subjetivas, sob a forma de anseios e hábitos. Para rompê-los, é preciso se sintonizar com o corpo e sua fonte de dados brutos.” (Kshirsagar, 2020, p46)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A chave de todo processo de cura está numa mudança de comportamento. E, para a gente conseguir mudar nossos hábitos, é preciso vencer as barreiras da mente, dos condicionamentos. Conforme explica o Dr Suhas, “se conseguir equilibrar seus pensamentos e escutar o seu corpo, você estará no quadro mental certo para mudar de vida”. (Kshirsagar, 2020, p45). Quando precisamos olhar para nosso emocional e mudar atitudes que sabemos que atuam nas nossas sombras, achamos difícil demais. Quando precisamos fazer ajustes pragmáticos de situações que influenciam diretamente no nosso organismo, justificamos o porquê de nos manter na situação. Se a mente não entender a importância de mudar e auxiliar esses processos – psíquicos ou físicos – e diariamente, com consciência, fazer escolhas que nos beneficiam, continuaremos a fazer a manutenção das consequências alimentando os padrões que provocam as causas de todo adoecimento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Por meio da autoconsciência, a mente pode usar o cérebro para gerar “moléculas de emoção” e agir sobre todo o sistema. Enquanto o uso apropriado da consciência pode tornar um corpo doente mais saudável, o controle inconsciente inapropriado das emoções pode causar muitas doenças (&#8230;).” (Lipton, 2007 p156)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ideal ayurvédico – que pode ser adaptado a diversas outras linhas – de trazer para o cotidiano a análise do estilo de vida em que fomos criados, buscando consciência diária da nossa mente, do nosso corpo e das circunstâncias mutáveis precisa ser ensinado e treinado. Sem esta auto-observação, como vamos mudar padrões de comportamentos que nos levaram ao estado que nos encontramos hoje?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós não ficamos doentes da noite para o dia. Por pior que seja uma condição, se ela for pontual, não terá a capacidade de adoecer todo o sistema de forma crônica. A busca pela saúde e bem-estar se dá por tudo aquilo que fazemos diariamente, ao longo do tempo. Pequenas ações contínuas podem melhorar ou piorar um estado de saúde mais do que algo pontual. Podemos presenciar uma cena que nos abala emocionalmente de forma aguda e isso será mais fácil de olhar e trabalhar do que constantes pequenos abusos sofridos por uma pessoa ao longo de anos. Um dia de excessos com comidas e bebidas é mais fácil de manejar e restaurar do que uma vida inteira com hábitos nocivos e destrutivos. Mas só conseguiremos atuar numa melhora contínua se tivermos a mente forte o suficiente para instalar novos hábitos que mudarão o comportamento diário.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como podem perceber, tudo influencia a nossa saúde. E para ter saúde, devemos cuidar do nosso corpo, da nossa mente, dos nossos pensamentos, dos nossos hábitos, dos lugares que frequentamos, das pessoas com que convivemos. Se quisermos levar uma vida saudável, devemos cuidar para que todos os pontos de contato sejam também saudáveis, deixando para as variáveis que naturalmente vão nos desorganizar apenas aquilo que não podemos mudar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Na última década, as pesquisas epigenéticas estabeleceram que os padrões de DNA passados por meio dos genes não são definitivos, isto é, os genes não comandam nosso destino! Influências ambientais como nutrição, estresse e emoções podem influenciar os genes ainda que não causem modificações em sua estrutura. Os epigeneticistas já descobriram que essas modificações podem ser passadas para as gerações futuras da mesma maneira que o padrão de DNA é passado pela dupla espiral”. (Lipton, 2007. p82)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não são os nossos genes, nem as situações que tivemos que viver ao longo das nossas vidas que vão determinar o nosso futuro. Por mais que eles possam influenciar fortemente uma condição, nós podemos mudar e fazer novas escolhas, mudando assim sintomas e complexos que nos adoecem. Gosto muito da frase do Bruce Lipton aponta logo na apresentação do seu livro Biologia da Crença: “assim como cada célula, o destino de nossa vida é determinado não por nossos genes, mas por nossas respostas aos sinais do meio ambiente que impulsionam e controlam todos os tipos de vida”. (p.16)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se eu não sou o resultado somente daquilo que me acontece, mas principalmente de como eu respondo àquilo que me acontece, posso trabalhar minha mente e meu comportamento para lapidar pouco a pouco a forma como vou responder aos eventos que me acontecem.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apenas neste trabalho em conjunto, mente e corpo, meus hábitos cada vez mais conscientes serão a chave para a busca da saúde e do bem-estar, mesmo nos altos e baixos saudáveis da vida. Nosso comportamento será o resultado das nossas escolhas diárias e constantes. Mude seu comportamento e mude seu padrão de saúde.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marcella Helena Ferreira &#8211; Analista junguiana em formação</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Mudança de comportamento como chave para a busca da saúde integral – corpo, mente e alma" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/2n96RJTosxI?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">DETHLEFSEN, Thorwald<em>. A doença como caminho: uma visão nova da cura como ponto de mutação em quem um mal se deixa transformar em bem</em>. – São Paulo: Cultrix, 2007</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Psicologia do Inconsciente</em>. 21 ed.Vol. 7/1 – Petrópolis: Vozes, 2012</p>



<p class="wp-block-paragraph">KSHIRSAGAR, Suhas.&nbsp;<em>Mude seus horários, mude sua vida</em>&nbsp;– Rio de Janeiro: Sextante, 2020</p>



<p class="wp-block-paragraph">LIPTON, Bruce H.&nbsp;<em>A biologia da Crença: ciência e espiritualidade na mesma sintonia: o poder da consciência sobre a matéria e os milagres</em>&nbsp;– São Paulo: Butterfly Editora, 2007</p>



<p class="wp-block-paragraph">RAMOS, Denise Gimenez.&nbsp;<em>A Psique do corpo: uma compreensão simbólica da doença</em>&nbsp;– São Paulo: Summus, 1994</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mudanca-de-comportamento-como-chave-para-a-busca-da-saude-integral-corpo-mente-e-alma/">Mudança de comportamento como chave para a busca da saúde integral – corpo, mente e alma</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O caminho solitário para o mundo interior: o eremita no equilíbrio entre cronos e kairós</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-caminho-solitario-para-o-mundo-interior-o-eremita-no-equilibrio-entre-cronos-e-kairos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 10 Dec 2021 12:25:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[individuação]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4504</guid>

					<description><![CDATA[<p>Muitas vezes sentimos que estamos estagnados, com dificuldades em atender as demandas do dia a dia da mesma forma, no mesmo ritmo, com a mesma intensidade e destreza que estamos habituados. Nesses momentos, onde estamos com a libido voltada para o mundo interior, somos convidados a olhar para dentro, de uma forma e num ritmo diferentes. Se usarmos a imagem do Eremita para ilustrar este momento, podemos imaginar que ele nos convida a uma caminhada diferente, para o nosso mundo interno, trazendo luz para a escuridão, prudência para nossos atos, transformando todo nosso aprendizado em sabedoria.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-caminho-solitario-para-o-mundo-interior-o-eremita-no-equilibrio-entre-cronos-e-kairos/">O caminho solitário para o mundo interior: o eremita no equilíbrio entre cronos e kairós</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_410.jpeg" alt="O caminho solitário para o mundo interior:  O Eremita no equilíbrio entre Cronos e Kairós. Psicologia Junguiana" width="570" height="680"/></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Quantas vezes a vida não te respondeu na velocidade que você esperava? Quantas vezes a ansiedade bateu&nbsp;à&nbsp;sua porta porque você não conseguiu corresponder&nbsp;à&nbsp;uma expectativa, entregar uma demanda dentro do tempo que te foi exigido e que você concordou que deveria ser feito como se diz popularmente ‘a toque de caixa’?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar do desconforto,&nbsp;é&nbsp;fato que nem sempre vamos conseguir dar conta das várias demandas da vida no prazo que gostaríamos. E, apesar de ser uma realidade muito palpável para todos nós, certamente encontraremos muitos julgamentos diante desses momentos: tanto nosso quanto dos outros. Ninguém quer se deparar com a sensação de impotência diante de uma tarefa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses momentos em que simplesmente não conseguimos agir são muitas vezes julgados como preguiça, procrastinação, despreparo, falta de compromisso, entre tantos outros termos depreciativos. Porém, em alguns casos – e ouso a sugerir que talvez em boa parte deles – não há nada de errado com a pessoa, simplesmente não&nbsp;é&nbsp;hora da ação. Assustador pensar sobre isso num mundo onde nós somos avaliados pelas entregas, onde obtemos reconhecimento se conseguimos entregar além do que foi pedido. Um mundo onde aprendemos que o sucesso virá apenas através de sucessões de momentos de superação. Brincamos de ser super-heróis, queremos nos transformar em super-máquinas até&nbsp;a hora que esse ‘robô’ pedirá uma manutenção&nbsp;– e ficaremos chocados com esta falha no sistema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Onde foi que nos perdemos de nós mesmos? Onde foi que nos desconectamos dos próprios ritmos da vida? Sabemos que esses ciclos existem, mas não lidamos muito bem com eles. Negamos a ideia de que, mesmo dentro desse ciclo, há uma ordem natural e superior a nós e que nem sempre vai ressoar com o que planejamos. Resistimos&nbsp;à&nbsp;ideia de que mesmo no ciclo há momentos de pausas. No ciclo há&nbsp;momentos de espera, há&nbsp;também surpresas. Mesmo tendo uma ideia de continuidade, os acontecimentos dentro dos ciclos podem não sair como o esperado, mas que no final, sempre corresponderão a uma ordem perfeita, nem sempre perfeita para nós. E assim&nbsp;é&nbsp;a vida. E assim que a alma ganha vida e nós vamos amadurecendo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pela própria ideia da enantiodromia – conceito muito trabalhado por Jung –&nbsp;sabemos que não&nbsp;é&nbsp;possível viver apenas dentro de uma única condição, despendendo toda a energia apenas para o mundo exterior, escutando e fortalecendo apenas o ego. Inevitavelmente seremos cobrados para olhar para dentro, a pausar, a reduzir nosso ritmo, a escutar e, em alguns casos, fortalecer também aspectos do nosso inconsciente. Nesta mudança de fluxo da libido, que para a psicologia analítica&nbsp;é&nbsp;energia psíquica, seremos convidados a dialogar com a imagem do Eremita em nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A libido não se move apenas para frente e para trás, mas também se move para dentro e para fora. Desta forma, Jung explica:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Progressão e regressão podem ser relacionadas com a extroversão e a introversão da libido. (&#8230;) Progressão&nbsp;é&nbsp;um movimento de vida que camina para frente no sentido do tempo. Este movimento pode dar-se de duas formas diversas, ou de modo extrovertido, quando os objetos, (&#8230;)as condições do ambiente, influenciam preponderantemente a progressão, ou introvertidamente quando a progressão deve adequar-se&nbsp;às condições do Eu(&#8230;). A regressão também pode dar-se de duas formas, ou como um retrair-se do mundo externo (introversão), ou como um refugiar-se em vivências externas extravagantes (extroversão). (&#8230;) Esses dois modos diferentes de reagir, que chamei de extro e introversão, correspondem a dois tipos opostos de atitude.” (O.C 8/1 § 77)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Eremita&nbsp;é&nbsp;uma imagem que nos chama muita atenção. Um homem de mais idade, simples em suas vestes, que sai para caminhar&nbsp;à&nbsp;noite levando consigo apenas um lampião. (em algumas representações é&nbsp;possível encontrar uma ampulheta no lugar do lampião remetendo ao tempo). Ele se encontra sozinho. Apenas ele e a natureza. Muitos associam esta imagem com o velho sábio ou até&nbsp;mesmo o Guru, mas na verdade, ele&nbsp;é&nbsp;o discípulo. Ele não está pronto, ele ainda não tem todas as respostas, ele&nbsp;é&nbsp;o homem em busca da sua iluminação, da reavaliação de tudo que viveu, da conscientização de todos os aprendizados, responsável pela sua própria trajetória.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar da aparência, ele não&nbsp;é&nbsp;frágil. Ele usa da sua experiência de vida para resgatar a prudência. Ele não&nbsp;é&nbsp;aquele que já sabe tudo, mas que por ter vivido tanto, consegue ir mais profundo em si. Ele não&nbsp;é&nbsp;paralisação, apenas sabe que em alguns momentos,&nbsp;é&nbsp;preciso ir mais devagar pois do contrário pode tropeçar, cair, se machucar. Ele sabe. E se não sabe, tem este tempo para aprender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “A prudência&nbsp;é a consciência constante de estar entre duas escuridões: a escuridão do ponto branco da síntese absoluta em cima, que ofusca e pede preparação lenta e gradual do espírito, a fim de suportar a sua luz sem ficar cego, e a escuridão do ponto negro, do subconsciente em baixo.” (Meditações sobre os 22 arcanos maiores do Tarot, p.229)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento, somos convocados ao esforço para tirarmos a clareza da escuridão&nbsp;– ficamos frente a frente com o desconhecido e também com o incognoscível a fim de conhecê-los. A descoberta daquilo que nem imaginamos que está tanto no nosso ego quanto na nossa alma. São dois desconhecidos se apresentando para nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A qualidade da experiência do Eremita em nós vai depender muito de como encaramos este momento. Ele será precioso se entendermos a grandiosidade da oportunidade deste encontro. Mas será angustiante se olharmos como impedimento, ou resistirmos a tarefa de olhar para dentro. A experiência do Eremita dependerá exclusivamente do olhar de cada um para este chamado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se engana quem pensa que a fase do Eremita&nbsp;é&nbsp;uma fase de paralisação. Quando entramos nesta fase, nossos ritmos são alterados. Para percorrer este caminho precisamos de calma, a caminhada tem que ser feita lentamente. Mas não&nbsp;é&nbsp;permito parar. Precisamos de prudência, tiramos as lições de tudo que vivemos. Temos tempo para reorganizar nossos pensamentos, para olhar para nossos sentimentos, apurar nossas percepções e reconectar com nossa intuição.&nbsp;É nesta hora que o mundo exterior se cala para que o mundo interior possa sussurrar seus preciosos ensinamentos. No tempo do Eremita nós precisamos ter a coragem de caminhar na escuridão da nossa alma, usando tudo que aprendemos ao longo das experiências, iluminando caminho que está por vir. Podemos dar conta apenas do próximo passo, devemos resgatar a fé&nbsp;que nossa alma saberá nos guiar. O mundo lá fora&nbsp;é&nbsp;silenciado junto das nossas ansiedades, sem isso, não seria possível encontrar o caminho que nos levará exatamente para o ponto onde devemos estar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando falo sobre o resgate da fé&nbsp;eu não estou falando sobre ausência total de dúvidas, mas a intensidade da confiança que coloca a fé&nbsp;como resultado da união do ser humano entregue no seu Divino interior. Como consta no capítulo 9 do livro Meditações sobre os 22 arcanos maiores do tarô, “a fé&nbsp;que transporta montanhas&nbsp;é, pois, a união completa&nbsp;– ainda que por um instante – do homem com Deus”. (p.220)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “A fé&nbsp;qual ‘nada&nbsp;é&nbsp;impossível’ é o estado da alma no qual ‘Deus age, e a alma também age’. É o estado da alma concentrada na verdade,&nbsp;à&nbsp;qual Deus acrescenta a intensidade da certeza e o poder que tornam os milagres possíveis. Ela&nbsp;é&nbsp;a magia devida a união de dois magos: Deus e o Homem”. (Meditações sobre os 22 arcanos maiores do tarô, p.220)</p>



<p class="wp-block-paragraph">É uma dança entre ter fé, agir, esperar, olhar para dentro e caminhar. É um processo lindo e muito transformador que nos mostra o quanto, no fundo, temos medo deste encontro que nos faz olhar a fundo para a nossa vida e a enxergar o que não faz sentido, quais caminhos não nos levarão para onde queremos, reconhecer o que está legal, o que precisa ser melhorado, quais lições já podemos transformar em sabedoria. Não aprendemos a conviver com ele no nosso dia a dia reservando um pequeno momento para estarmos a sós com a nossa voz interior. Resistimos&nbsp;à&nbsp;sua visita porque não queremos perder tempo de ação, não aceitamos os momentos de regressão da libido que nos garante saúde, energia para continuarmos caminhando também no mundo exterior. Tentamos enganá-lo e no fundo enganamos a nós mesmos, nos colocando sujeitos&nbsp;à&nbsp;uma paralisação obrigatória através de somatizações e adoecimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Gostando ou não, este encontro&nbsp;é&nbsp;inevitável&nbsp;– é ele que nos mantém saudáveis em nossa caminhada. Por que resistimos tanto a ter este encontro, mesmo sabendo que não conseguiremos escapar dele? Talvez seja porque não sabemos o que nos espera; talvez porque exija de nós uma postura tão na contramão da loucura em que vivemos; talvez porque somos atormentados pela ideia de termos que passar por tudo isso cara a cara com a solidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não há&nbsp;nada que alguém possa fazer, ninguém poderá sentir, pensar, se confrontar por nós. É um caminho onde ninguém pode andar por nós. É cada um na sua própria jornada, aprendendo a respeitar o próprio ritmo, na sua própria companhia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Conforme vamos criando intimidade com esses períodos, ressignificamos a sensação de solidão necessária e passamos a confiar nos belos momentos de solitude – não devemos temer a nossa própria companhia pois nós nunca estaremos sozinhos nesta jornada. Não deveria existir sofrimento em silenciar as vozes externas para verdadeiramente nos escutarmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando o Eremita nos resgata, voltamos a entender a importância dos ciclos; começamos a enxergar que as coisas só&nbsp;acontecem porque respeitam uma ordem, e quase nunca temos controle sobre isso. Percebemos que cada área da nossa vida se encontra em um ponto diferente deste ciclo e compreendemos onde estamos e para onde queremos ir.&nbsp; Quando aceitamos Cronos em sua magnitude e resgatamos a fé&nbsp;na nossa própria caminhada podemos nos colocar&nbsp;à&nbsp;disposição para receber as bênçãos do seu filho Kairós. Abrimos as portas para os acontecimentos que podem verdadeiramente nos transformar. Abrimos espaço para o momento exato, o momento oportuno das grandes viradas, dos acontecimentos significativos, para as grandes transformações. Ligando os pontos desses pequenos e grandiosos momentos vamos compreendendo os mistérios da vida. Vamos amadurecendo no tempo simbólico das coisas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">São nos momentos de regressão da energia psíquica que o Eremita nos chama para caminhar. São nesses momentos que prestamos contas da nossa própria vida e reavaliamos se o que vivemos está de acordo com o que sentimos, com o que nossa alma nos pede. Sem isso não temos equilíbrio. Sem isso, não conseguimos despertar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tão prejudicial quanto evitar este encontro&nbsp;é&nbsp;não querer sair dele. Ele&nbsp;é&nbsp;profundo e&nbsp;é&nbsp;transformador porque envolve uma ação. Não&nbsp;é&nbsp;para ficar estagnado. Assim como não se constroem casas em cima de pontes nós não devemos viver isolados nem paralisados no nosso mundo interior. Aceitar que isso também faz parte do ciclo natural e saudável da vida&nbsp;é&nbsp;a nossa tarefa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Devemos respeitar mais esses momentos de pausa – que na verdade gosto de chamá-los de espera ativa. Reduzimos a velocidade para conseguirmos captar mais os detalhes, mas seguimos caminhando. Não podemos deixar que a conduta moderna de alta performance nos paralise ou nos enfraqueçam pelo leviano julgamento desses momentos em que nossa libido está sendo empregada em outras tarefas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung reforça a importância de se lançar para esta tarefa do mundo interior para a nossa própria evolução mas isso não pode ser encaixado como uma tarefa que dá para mensurar e agilizar por pura necessidade de não sair do controle. Pior ainda, não se pode ter garantias de resultados como se fosse possível prever e controlar essa caminhada e suas transformações. Somos tão vaidosos em nosso pequeno mundo ilusório que brincamos de deuses: nos sentimos fascinados por este outro universo em nós (o inconsciente) e ao mesmo tempo queremos controlá-lo, queremos que ele trabalhe para nós, no nosso tempo e do nosso jeito. Até&nbsp;este encontro está sendo desrespeitado pela nossa loucura atual.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que o Eremita nos encontre e nos ensine a ter mais equilíbrio em nosso agir, sentir, planejar e viver. E que Kairós nos surpreenda toda vez que nos lançarmos com fé&nbsp;nos ciclos da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marcella Helena Ferreira&nbsp;– Membro Analista em formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;Maria Cristina Guarnieri&nbsp;– Analista Didata do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFER</strong><strong>ÊNCIAS:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav, A energia psíquica, v.8/1 – Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">MEDITAÇÕES sobre os 22 arcanos maiores do tarô – São Paulo: Paulus, 1989</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="O caminho solitário para o mundo interior:  O Eremita no equilíbrio entre Cronos e Kairós." width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/lBMub9GDWoc?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-marcella-ferreira-10-12-2021"><strong><em>Marcella Ferreira &#8211; 10/12/2021</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-caminho-solitario-para-o-mundo-interior-o-eremita-no-equilibrio-entre-cronos-e-kairos/">O caminho solitário para o mundo interior: o eremita no equilíbrio entre cronos e kairós</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O lugar da fantasia e dos desejos pessoais diante dos papéis e convenções num relacionamento íntimo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-lugar-da-fantasia-e-dos-desejos-pessoais-diante-dos-papeis-e-convencoes-num-relacionamento-intimo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 29 Jun 2021 22:55:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Casamento]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Felicidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[desejos sexuais]]></category>
		<category><![CDATA[falta de tesão]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamento]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>
		<category><![CDATA[tesão]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=4248</guid>

					<description><![CDATA[<p>O que difere um relacionamento de amizade de um relacionamento íntimo como o casamento é o sexo. Muito se fala sobre sexo, algumas vezes de forma extremamente mecânica e cheio de regras, quase que um protocolo a se seguir, porém, resultando em julgamentos e ações de pouca intimidade de fato.&#160; E antes de desenvolver minha [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-lugar-da-fantasia-e-dos-desejos-pessoais-diante-dos-papeis-e-convencoes-num-relacionamento-intimo/">O lugar da fantasia e dos desejos pessoais diante dos papéis e convenções num relacionamento íntimo</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>O que difere um relacionamento de amizade de um relacionamento íntimo como o casamento é o sexo. </strong>Muito se fala sobre sexo, algumas vezes de forma extremamente mecânica e cheio de regras, quase que um protocolo a se seguir, porém, resultando em julgamentos e ações de pouca intimidade de fato.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E antes de desenvolver minha ideia sobre o tema, gostaria de fazer algumas pontuações importantes, para que os recortes dados neste artigo possam ser compreendidos por todos: ao usar a palavra ‘<strong>casamento</strong>’&nbsp;também considerarei qualquer tipo de relacionamento íntimo estável. Como as referências citadas usam como ilustração de casal um homem e uma mulher, manterei pela norma, mas peço para que considerem também outras possibilidades de união, afinal, a dinâmica psíquica no <strong>relacionamento</strong> que abordarei neste texto é do ser humano, logo, respeita toda forma de <strong>amor</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre inúmeros fatores que podem atrapalhar a questão sexual num casamento como estresse, cobranças, autoestima, etc., pouco se fala sobre o papel da <strong>fantasia</strong> e dos desejos diante da dinâmica de um casal. E é este o ponto que eu quero trazer para reflexão neste artigo. <strong>Qual é o lugar da fantasia e dos desejos mais íntimos diante dos papéis e convenções que o casamento pode aflorar?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>Jung</strong>, em um <strong>casamento</strong> encontramos a experiência individual de duas pessoas atuando concomitantemente com a parte que cabe a cada um no próprio relacionamento. Desta forma, devemos considerar e analisar a “psicologia do relacionamento e não apenas psicologia de um indivíduo isolado. É até&nbsp;difícil separar o que são partes individuais das partes que pertencem ao relacionamento”. (JUNG, 1991, 602s) Ou seja, além de olhar para os conteúdos que cada pessoa vivencia na relação, precisamos também notar como o próprio casamento vai se desenhando, qual forma ele toma, com quais características, necessidades e sombras. Pois, tomando o lugar de um ‘terceiro elemento’ atuando, o casamento em si também precisa ser contemplado na dinâmica da intimidade.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">E talvez seja este ponto que nos impacta tanto. O casamento até então como relacionamento ou união de pessoas que se amam e desejam compartilhar uma história em comum se torna uma instituição casamento, carregado de tradições, regras, exigências, carregado de conteúdos simbólicos que se sobrepõem a própria experiência compartilhada do casal. Podemos então considerar que o casamento em si vem acompanhado de um conteúdo arquetípico que acaba influenciando a psique individual. Jung cita que:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) todos nós somos casados assim, de acordo com antiquíssimas regras, ideias consagradas, tabus, etc. O casamento é um sacramento com leis irrevogáveis; devemos criticar os costumes, não as pessoas individualmente. (JUNG, 1991, 91)&nbsp;&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Por mais que o casamento tenha uma influência arquetípica,&nbsp;“em períodos históricos diferentes, casamento e família também tiveram significados diferentes. Todas as instituições sociais, inclusive casamento e família, estão continuamente se modificando”. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.21) Agora, é curioso como mesmo tendo muitas possibilidades de reescrever a história desta vivência, continuamos olhando para o casamento como um grande sacrifício que exige dos parceiros dedicação e confronto constante diante dos anseios pessoais e também coletivos do casal. E de fato, é algo inerente ao casamento a constante reavaliação, entrega e ponderação entre os parceiros que desejam usar esta experiência como uma oportunidade de autoconhecimento e ampliação da consciência. Como tudo na nossa vida, a experiência do casamento também é um grande paradoxo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que se tenha uma troca saudável entre os parceiros é preciso que duas pessoas inteiras – e não perfeitas, vale lembrar – estejam disponíveis para a relação. Quando o <strong>casamento</strong> como uma instituição se torna maior ou mais importante do que a vivência em si, perdemos a qualidade do relacionamento e, consequentemente, a qualidade da sexualidade entre o casal.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da mesma forma, quando os conteúdos individuais são deixados de lado para vivenciar apenas os protocolos da relação, o casal acaba priorizando os papéis e as funções e, como Jung explica, “(&#8230;) A vontade própria que mantém o “eu” é rompida, a mulher torna-se mãe, o homem torna-se pai e assim ambos são privados da liberdade e transformados em instrumentos da vida que continua. (JUNG, 2013, §330). Quando isto acontece, a sexualidade é fortemente prejudicada e consequentemente, a espontaneidade dos parceiros em compartilhar todos os desejos íntimos se enfraquece, isso quando não se perde totalmente no contexto das funções.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Importante também diferenciar sexualidade do sexo. Tecnicamente falando, sexualidade e genitalidade devem ser olhados como algo distinto. Nem sempre o casal que tem uma prática sexual ativa tem uma sexualidade saudável, que garante conexão, prazer, intimidade e troca entre os parceiros. Quando os papéis se tornam maiores do que as individualidades num casamento, percebemos primeiramente o enfraquecimento da sexualidade com consequente perda na qualidade e prazer no ato sexual.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, como podemos então entender a sexualidade? Sua atuação dentro de um relacionamento íntimo&nbsp;é muito mais ampla, “implica necessariamente o envolvimento de quatro dimensões: afetividade, emoção, comunicação e prazer” (NORONHA, LOPES e MONTGOMERY, 1993, p.48)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <strong>sexo</strong> enquanto experiência natural e cultural se transformou ao longo dos anos em sexualidade, ou seja, foi capaz de assumir qualidades e significados além do ato sexual e da penetração, como também na parte <strong>emocional, afetiva, social, erótica, e se resgatou seu caráter espiritual.&nbsp;</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) o sexual não é redutível ao genital. Assim, sexualidade não designa apenas as atividades e o prazer que dependem do funcionamento do aparelho genital, mas envolve toda série de excitações e de atividades presentes desde a infância, que proporcionam prazer irredutível à satisfação de uma necessidade fisiológica fundamental (como respiração, fome) e que estão, a título de componentes, na chamada forma normal do amor sexual (TEDESCO e CURY, 2007, p.28)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É&nbsp;no&nbsp;âmbito da sexualidade que o desejo e admiração entre o casal se tornam evidentes pois fazem parte da manutenção da libido sexual, do autoconhecimento e do jogo erótico de sedução dos parceiros. Quando o casal se perde nos papéis e convenções, as funções acabam tomando o lugar do erótico, tão vital para a exploração e cumplicidade no relacionamento. É comum vermos queixas que ao longo dos anos o casal perde o toque, o beijo, o olhar para o outro e também para si próprio. A sexualidade afetiva acaba se tornando também uma função, até mesmo no ato sexual; em muitos casos com mais obrigações do que prazer.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A fusão sexual expressa a ponte que une, em nós, todas as incompatibilidades e oposições predominantes. Até certo ponto, o homem e a mulher completam um ao outro, e até certo ponto não estão, de forma alguma, sincronizados um ao outro. No ato de amor, toda polaridade e fragmentação do ser é superada. Aí está seu fascínio (&#8230;) O ato de amor é, acima de tudo, muito mais que uma expressão de relacionamento pessoal entre um certo homem e uma certa mulher. É um símbolo que vai além do relacionamento pessoal. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.103)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se pensarmos que o sexo é algo natural e ligado aos nossos instintos, o que nos desperta prazer e desejo é&nbsp;também algo ligado a individualidade de cada um. A variedade das fantasias e vivências sexuais são tão múltiplas quanto a variedade psíquica. No universo das <strong>fantasias</strong> podemos olhar para nós como um outro, podemos nos experimentar em diferentes peles e situações, podemos, inclusive, nos aproximar de possibilidades que não necessariamente bancaríamos (ou precisaríamos) viver no mundo concreto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A sexualidade entendida como uma forma de relacionamento interpessoal entre um homem e uma mulher também não abrange a totalidade do fenômeno. A maioria das fantasias sexuais são vividas independentemente do relacionamento humano; estão ligadas às pessoas com as quais dificilmente se pode ter qualquer relacionamento ou com quem um relacionamento seria impossível (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.91)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se olharmos para as fantasias como algo vivo e dinâmico da nossa intimidade, conseguimos compreender tantos outros elementos simbólicos que nos afetam e também influenciam nossas relações. Ao invés de vivenciarmos esses desejos como algo sombrio, poderíamos viver ou ao menos olhar para esses aspectos como parte da nossa totalidade psíquica. No livro “O casamento está morto. Viva o casamento!”&nbsp;Guggenbuhl-Craig propõe o exercício de olharmos para a sexualidade e fantasias como parte do processo de individuação, pois, sendo também essencial para o relacionamento íntimo, ajudaria os próprios parceiros a lidar com as questões não olhadas na psique. Se uma das tarefas do processo de individuação&nbsp;é trazer para a consciência parte dos conteúdos da sombra &#8211; tanto pessoal quanto coletiva e também arquetípica -, as fantasias seriam também porta de acesso a esses conteúdos, e talvez por isto, as pessoas tenham tanto temor em entrar em contato com seus desejos íntimos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A individuação necessita de símbolos vivos. Mas onde, hoje em dia, encontramos símbolos vivos atuantes? Símbolos que sejam tão vivos e efetivos como os Deuses da antiga Grécia ou do processo alquímico? Exatamente neste ponto um novo entendimento da sexualidade se nos revela. Ela não é idêntica à reprodução e seu significado não é exaurido nas relações humanas ou na experiência do prazer. A sexualidade, com todas as suas variações, pode ser entendida como uma fantasia de individuação, uma fantasia cujos símbolos são tão vivos e tão efetivos que podem até mesmo influenciar nossa psicologia. E, desta forma, os símbolos não são propriedade exclusiva de uma elite acadêmica, mas de todas as pessoas. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.94)&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda explorando esta ideia, o autor destaca sobre a sexualidade dentro de um relacionamento íntimo&nbsp;“(&#8230;) este poderoso acontecimento no qual o homem e a mulher se tornam um, física e psicologicamente, deve ser entendido como um símbolo vivo do&nbsp;<em>mysterium coniunctionis</em>, a meta do caminho da individuação”. (p. 103) E, sendo um símbolo vivo, nos convida periodicamente a confrontar com nossos conteúdos inconscientes, inclusive nos dando oportunidades de entrarmos em contato com a nossa ânima/ânimus:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>&nbsp;Quais são as possibilidades para um homem de chegar a um acordo com o feminino? Uma possibilidade pode estar no relacionamento com uma mulher, como por exemplo, num casamento; outra pode consistir em fantasias sexuais, incluindo as homossexuais, &#8211; onde o feminino pode ser experimentado com outro homem cuja meta não é reprodução, relacionamento humano ou prazer, mas a confrontação com a anima, com o feminino. Outra possibilidade existe num relacionamento para um ajustamento para a mulher. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.94)&nbsp;</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Quando nos permitimos ampliar o olhar para os nossos desejos e encontrar no casamento um campo seguro, livre e protegido para compartilhar nossas conteúdos psíquicos, perdemos o receio de mostrar todas as nossas fantasias, até&nbsp;porque será um acordo entre o casal colocá-las em prática ou então apenas poder olhar e imaginá-las. Caberá ao casal delimitar a atuação desses desejos na prática sexual, reforçando a cumplicidade na exposição desses conteúdos. Quando o casal atinge este estágio de intimidade, sofre menos pressão do coletivo refletido nas condutas da sociedade e também nos questionamentos sobre a moralidade.&nbsp;&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>(&#8230;) Ainda assim, existem casais cuja sexualidade é constringida por certas pressões para a normalidade. Cada parceiro permite-se revelar ao outro apenas dentro de certos limites, e cada um se contém naquilo que acredita não ser permitido. Por conseguinte, raramente um marido e uma mulher satisfazem completamente um ao outro. Ao invés de cada um encorajar o outro a expressar e relatar suas fantasias sexuais mais secretas e peculiares, um certo medo de anormalidade domina a cena, até mesmo uma tendência à condenação moralista de qualquer coisa que não pertença, incondicionalmente, a um dos parceiros. (GUGGENBUHL-CRAIG, 1980, p.112)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Evoluímos tanto como sociedade, mas ainda somos impactados por preceitos impostos ao longo das gerações. Ainda temos medo de olhar para o nosso universo interior e descobrir nossos segredos. Receamos sermos julgados pelos outros, tendo nossos valores roubados por meros preconceitos. Aceitamos os papéis, mas esquecemos de quem dá vida a esses papéis. Nos distanciamos dos nossos parceiros justamente quando eles seriam os melhores companheiros para a troca das nossas verdades. Aqui, não importa o quão conservador ou não cada pessoa é. O que importa é o quanto nos sentimos livres para nos olharmos como uma totalidade e, com isso, nos conhecermos cada vez mais dentro dos universos pessoais e coletivos. O quanto permitimos que o nosso relacionamento se aprofunde, evitando relações rasas e falsas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Fica claro que o casamento como oportunidade de autoconhecimento não&nbsp;é fácil. A confrontação com a sombra no casamento nunca termina, é preciso encarar nossos céus e infernos juntamente com os do parceiro; tanto psicologicamente quanto no mundo das fantasias. Mas é somente cuidando da forma como esta dinâmica&nbsp;é vivenciada que se torna possível o fortalecimento dos parceiros como casal e também o amadurecimento psíquico individual.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como não&nbsp;é&nbsp;possível esgotar os conteúdos inconscientes da psique, também não podemos nos enganar que todas, extremamente todas as fantasias e todos os desejos serão compartilhados com o parceiro. Por mais que a troca seja essencial para um relacionamento, é preciso também sempre cuidar para que uma parte da individualidade seja preservada. Isso é extremamente saudável, afinal, só conseguimos evoluir em uma relação se a nossa condição individual for mantida, com seus conteúdos positivos e negativos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando as individualidades se abrem para o relacionamento, transformam a experiência do casamento em um agente ativo e atuante do processo de individuação, com energia suficiente para a transformação individual e do próprio relacionamento em si.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Que saibamos dar voz ao nosso inconsciente também através da <strong>vida dos desejos e fantasias</strong>, proporcionando um relacionamento maduro e uma sexualidade saudável. Que saibamos usufruir deste processo com leveza, alegria e diversão, já que o mundo dos desejos e fantasias nos permite uma boa dose de humor. Olhar para essas questões com naturalidade é extremamente sadio. Isso é respeitar nossos limites e também respeitar nosso parceiro também em sua intimidade. Isso nos liberta e nos protege. Isso nos transforma.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Marcella Helena Ferreira</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Junguiana em formação, com especialização em Psicossomática e Terapeuta Ayurveda</p>



<p class="wp-block-paragraph">marcellahlferreira@gmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Maria Cristina Guarnieri</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Didata&nbsp;responsável</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="O lugar da fantasia e dos desejos pessoais diante dos papéis e convenções num relacionamento íntimo" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/YTmHbkzcrhs?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências Bibliográficas</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">GUGGENBUHL-CRAIG Adolf, O casamento está morto. Viva o casamento!,2d. São Paulo, SP: Símbolo, 1980.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG Carl Gustav; O desenvolvimento da personalidade, 14 ed. Vol.17. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a</p>



<p class="wp-block-paragraph">____________ TRAUMANALYSE. Segundo anotações dos seminários de 1928-1930. Editado por William McGuire; traduzido do inglês por Brigitte Stein. Olten/Freiburg i. Br. 1991.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NORONHA, Decio Teixeira, Gerson Pereira LOPES, e Malcom MONTGOMERY. Tocoginecologia Psicossomática. São Paulo, SP: Almed, 1993</p>



<p class="wp-block-paragraph">TEDESCO, J. Julio A., e Alexandre Faisal CURY. Ginecologia Psicossomática. São Paulo: Atheneu, 2007</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/o-lugar-da-fantasia-e-dos-desejos-pessoais-diante-dos-papeis-e-convencoes-num-relacionamento-intimo/">O lugar da fantasia e dos desejos pessoais diante dos papéis e convenções num relacionamento íntimo</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Raiva: moralmente contida, mentalmente não reconhecida, emocionalmente ferida</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/raiva-moralmente-contida-mentalmente-nao-reconhecida-emocionalmente-ferida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Jun 2021 19:29:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Raiva]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[raiva]]></category>
		<category><![CDATA[raiva e psicologia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5908</guid>

					<description><![CDATA[<p>Falar sobre a raiva, tentar entender o mecanismo dela é um tema que gera muita curiosidade. Diferente da culpa, a raiva é uma emoção que conseguimos identificar com mais facilidade, tanto em nós quanto no outro. Podemos facilmente falar sobre este sentimento, mas nos sentimos extremamente incomodados quando temos que lidar com ela. A verdade [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/raiva-moralmente-contida-mentalmente-nao-reconhecida-emocionalmente-ferida/">Raiva: moralmente contida, mentalmente não reconhecida, emocionalmente ferida</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Falar sobre a raiva, tentar entender o mecanismo dela é um tema que gera muita curiosidade. Diferente da culpa, a raiva é uma emoção que conseguimos identificar com mais facilidade, tanto em nós quanto no outro. Podemos facilmente falar sobre este sentimento, mas nos sentimos extremamente incomodados quando temos que lidar com ela. A verdade é que todos nós sentimos raiva, mas como conviver com ela de forma não destrutiva ou prejudicial para as relações?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo sendo uma emoção como qualquer outra, relutamos toda vez que temos que assumi-la. Talvez seja porque associamos a raiva com uma manifestação negativa e desta forma, seguimos tentando domá-la, contendo a sua manifestação, mesmo que no íntimo se sinta e muito!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como definição, os dicionários trazem como sinônimos da raiva os sentimentos de fúria, ira, cólera, irritação e&nbsp;ódio. Já numa associação mais informal, é comum encontrar diferentes temas relacionados ao sentimento, como privação de raciocínio lógico, falta de calma, até um distúrbio do equilíbrio emocional. Jung, ao falar sobre a raiva, ressalta que usualmente as emoções e os afetos que nos tomam são personificados frequentemente sobre a forma de demônio.&nbsp;“Dizer que o indivíduo&nbsp;‘teve um acesso de raiva’ significa que algo caiu sobre ele e o subjugou; que o demônio está montado nele; que está possesso e que alguma coisa penetrou no seu íntimo”. (JUNG, 2013, §627)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando olhamos para essas definições ficamos até apreensivos de pensar que nós podemos sentir isto, da forma como eles colocam, mas sentimos. E aprender a lidar com esta emoção&nbsp;é a nossa tarefa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No campo mitológico, encontramos a representação da raiva no Cão Louco de 3 cabeças&nbsp;– conhecido como Cérbero, o guardião do submundo. Ele é conhecido como aquele cuja personalidade é mais colérica, que traz uma disposição para se zangar e para sentir ira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E porque usam um cão com 3 cabeças para representar a raiva? Talvez porque a raiva tenha 3 origens, segundo a proposta feita por James Hollis no livro Os Pantanais da Alma (2013). Segundo o autor, podemos identificar 3 (três) tipos de raiva, que ele chama de ‘raiva causada pela ferida do excesso’, a ‘raiva causada pela ferida da insuficiência’ e a ‘raiva causada por ódio a nós mesmos’</p>



<p class="wp-block-paragraph">No cenário da raiva causada pela ferida do excesso, percebemos que em algum momento da vida, a criança sentiu um esmagamento do seus próprios limites vindas do mundo exterior, como por exemplo, crianças que cresceram em ambientes pesados, com pais e/ou responsáveis extremamente opressores, diversos tipos de abusos nas relações interfamiliares, sofrendo por ter relações familiares disfuncionais, entre outros. Nesses casos, a criança passa a se sentir culpada ou apreensiva em expressar seus sentimentos contrários, com medo de retaliação, preocupação em tornar o ambiente ainda mais prejudicial e acaba abafando seus sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já no cenário oposto, aquele que Hollis (2013) chamou de raiva causada pela ferida da insuficiência, percebemos uma série de eventos em que as respostas foram insuficientes em relação as necessidades da criança. Muito comum em casos de negligências, situações de abandono ou mesmo falta de amparo nas necessidades primárias da criança. Nessa condição, temos um ambiente árido, com pouca ou quase nada assistência e amparo e, usualmente, pais ou responsáveis que pareciam não enxergar as reais necessidades da criança.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como resultado desses dois cenários acima, Hollis (2013) pontua que o indivíduo começa a interpretar de forma errada ou distorcida a natureza do mundo, mudando a própria personalidade para tentar se encaixar no ambiente em que vive, tentando quase que constantemente administrar o nível de ansiedade originária desta situação. A raiva que no momento foi reprimida, fica sendo alimentada de forma inconsciente na psique, podendo vir a ser&nbsp;extravasada&nbsp;em situações corriqueiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já no último cenário que ele propõe, temos a raiva causada pelo ódio de nós mesmos. Apesar do nome indicar uma revolta muito grande direcionada à nós mesmos, o autor pontua que este é um tipo de raiva que sentimos toda vez que nós pensamos ou chegamos a conclusão – consciente ou inconscientemente – de que somos, de algum modo, co-autores ou participantes deste auto ferimento. Sofremos por algo que fizemos e que não concordávamos, ou mesmo que fizemos por não saber o quanto aquilo podia nos ferir. E além da ferida do próprio assunto, sentimos um sofrimento ainda maior ao descobrirmos que&nbsp;contribuímos&nbsp;para esta ferida. Nestes casos, a raiva que sentimos é direcionada não somente ao que causou mas também a nós mesmos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a nossa alma sofre alguma limitação, quando ela é comprimida, tirando da gente a espontaneidade; podemos reagir com raiva, com ansiedade ou até mesmo com dores no corpo. Todas essas reações são naturais a este estado de limitação. Porém, como desde muito cedo somos ensinados que sentir raiva é algo feio, ruim, que não devemos sentir muito menos colocá-la para fora, essa alternativa passa a ser canalizada de outras formas. Mas é interessante recordar que mesmo usando outras emoções para reagir a um fato não significa que não estamos sentindo raiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Logo, podemos pensar que a raiva – com todo o seu potencial, mas também com todo o seu julgamento negativo – é uma das portas que nos leva ao encontro com a sombra, “pois são vivenciadas pelo mundo do ego, e pelo coletivo, como anárquicas, perturbadoras da ordem social, fora de controle”. (HOLLIS, 2013, p.128). Logo, faz sentido ter como representante da raiva o guardião do submundo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Temos muita raiva vagando na nossa psique. E como fomos ensinados a retê-la, ela segue sendo carregada pelo inconsciente. E é desta forma que vamos adoecendo, por guardar tanto sentimentos legítimos que nos mostram quais são nossos limites, nossas contrariedades, nossas fraquezas e nossos desejos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como outras emoções, a raiva quando não&nbsp;é elaborada piora o sistema imunológico. Se não olhamos para a totalidade dos nossos sentimentos, buscando mascarar partes importantes da gente, distanciando o corpo da mente, avançaremos na produção de sintomas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda seguindo a proposta do autor James Hollis (2013), nós devemos, como primeiro passo, reconhecer a presença da raiva no momento em que ela aparece. Reconhecer que algo nos incomodou profundamente nos ajuda a entender o por que este sentimento apareceu. E é neste momento que devemos também nos atentar para as razões que despertaram a raiva em nós. Em qual momento, quais foram os gatilhos que nos levaram a sentir um desconforto tão grande a ponto de crescer e tomar conta das emoções. Na sequência, ele propõem que devemos também tentar recordar quais os motivos saudáveis existentes por trás da raiva. Sim, é importante também para o reconhecimento da raiva entender o que ela traz de positivo. Não temos o hábito de associar algo positivo a raiva, mas possivelmente também existem boas justificativas para o sentimento ter aparecido. Criar este hábito nos ajuda a perceber a o que estávamos tentando reagir legitimamente. Se algo feriu ou incomodou, o que tudo isso diz sobre nós mesmos? E por fim, neste exame de trazer para a consciência o que a raiva denuncia, devemos nos questionar sobre como lidar com o conteúdo que a raiva traz como forma de crescermos no mundo e amadurecermos nossas emoções.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Claro que a vida não respeita muito o passo a passo. Mas é interessante pensar o quanto não criamos intimidade com os sentimentos que aparecem em nós. Muitas vezes não nos preocupamos em nos perceber, em buscar um diálogo com o próprio sentimento e assim caminhar no processo de autoconhecimento. Ao nos permitir uma aproximação com a raiva vamos nos surpreender com o fato dela também carregar bons ensinamentos para nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se fizermos uma análise honesta e sem julgamentos veremos que muitas vezes a raiva só estava tentando nos mostrar que algo não estava legal; que aquele jeito que a pessoa nos tratou não condiz com o que esperávamos; mostra que algo não está de acordo com os nossos valores ou crenças; ela nos indica que o nosso limite foi ultrapassado e por nos sentirmos violados, manifestamos este sentimento de forma intensa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A raiva por si só&nbsp;não&nbsp;é boa nem ruim. Ela apenas denuncia algo. Como reagimos a ela é que pode transformá-la em positiva ou negativa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A agressividade que normalmente associamos ao sentimento da raiva também respeita esta dualidade – quando ela é um impulso canalizado, ela pode ser um agente transformador de alguma situação; já quando a consequência da raiva é uma agressividade violenta, direcionando a ataques, ela se torna apenas destrutiva, tanto para a pessoa que sente quanto para o alvo do ataque.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando entramos em uma dinâmica autopunitiva ao lidar com a raiva, desenvolvemos um mecanismo de agressividade violenta em nós mesmos. Como Willian Blake&nbsp; (<em>apud&nbsp;</em>HOLLIS, 2013, p.134) escreveu em seu poema “A árvore envenenada”&nbsp;(1974)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>“Eu estava zangado com meu amigo:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Eu falei da minha ira, minha ira terminou.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Eu estava zangado com meu inimigo:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Eu nada disse, minha ira cresceu.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Quanto mais nós isolarmos o sentimento da raiva da nossa consciência, mais tóxica será&nbsp;sua manifestação. Quando não elaboramos o sentimento, a raiva natural sinalizadora se transforma em raiva destrutiva agressiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“É&nbsp;extremamente difícil superar a raiva quando reconhecemos que nós&nbsp;é que somos o problema, que vivemos nossa vida em má-fé. Sem dúvida uma das mais chocantes descobertas, feitas por aqueles que procuram se tornar conscientes e responsáveis, é a realização da conivência inconsciente. (&#8230;) Mas o mais difícil de tudo é enfrentar o fato que perpetuamos nossa ferida”.&nbsp;(HOLLIS,2013, p.135)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Muito do nosso sofrimento vem como consequência de sucessivas violações ao nossos sentimentos. Se fomos educados desta forma ou se pela própria sobrevivência entendemos que é nosso dever suprir as dores e desconfortos ao invés de olharmos para ela, o fato é que perpetuamos nossas feridas toda vez que negligenciamos nossas emoções. Aprender a lidar com elas, ponderar suas manifestações é diferente do que simplesmente sufocá-las em seu interior. Reconhecer o que se sente e buscar suas motivações é o jeito que temos de evitar futuras repetições e associações que fortalecem os complexos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mesmo que a nossa espontaneidade em relação aos sentimentos tenha sido abalada ao longo da vida, sempre poderemos retomá-la.&nbsp;É uma tarefa que está&nbsp;sempre&nbsp;à&nbsp;disposição para a retomada do nosso eu natural:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quem já&nbsp;não acordou às quatro da manhã para um encontro com a terrível verdade que, história&nbsp;à parte, somos culpados pelo que fizemos da nossa vida, pelo que nos tornamos, pelo que fizemos aos outros? Podemos vivenciar esse reconhecimento com vergonha, tristeza ou depressão, mas ele também encerra certo grau de raiva autodirigida”.(HOLLIS, 2013, p. 135)</p>



<p class="wp-block-paragraph">É sempre trabalhoso reconhecer o quanto de raiva lançamos para nós mesmos quando não podemos direciona-la à situação provocadora. Muito dos sentimentos que nos fazem sofrer, como vergonha, tristeza, ansiedade, depressão tem como base uma raiva a nós mesmos, uma culpabilização por algo que julgamos que não deveríamos ter feito, ou que deveríamos ter feito e fomos omissos. Muito dos nossos sintomas que nos levam a adoecer, ou nos geram sofrimento, são potencializados pelo tanto de raiva que lutamos para não reconhecer – e esta resistência só faz aumentar as emoções não elaboradas dentro de nós.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Desta forma, podemos entender que a raiva é&nbsp;também uma legítima reação da alma diante de uma ferida. Quando nós nos permitimos olhar e assumir para nós mesmos o que sentimos ou como nos sentimos, nós podemos curar a nossa alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando somos capazes de reconhecer que nosso caminho pode estar bloqueado pelo Cérbero de três cabeças, o cão furioso do excesso, da insuficiência e do ódio por nós mesmos, torna-se possível escaparmos ao seu rosnado e ao seu domínio”.&nbsp;(HOLLIS, 2013, p. 136)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Será sempre melhor sinalizar que não gostamos de algo, no momento em que acontece, podendo ter o cuidado de escolher as melhores palavras do que deixar a raiva crescer, e transbordá-la escolhendo as piores e mais dolorosas palavras quando já&nbsp;não suportamos mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Quando somos capazes de reconhecer a raiva, detectar suas origens, perceber seus efeitos sobre nosso eu imaginal, finalmente podemos nos libertar dos limites do passado”. (HOLLIS, 2013, p. 137)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A raiva sempre fez parte da nossa vida, agora é&nbsp;hora de legitimá-la como um sentimento também positivo, trazendo oportunidades de validar o que estamos sentindo e nos preservar. Reconhecer a raiva é dar uma oportunidade de reconhecer o que extravasa dentro de nós sem quem isto seja vivenciado de forma destrutiva. Quando vamos, pouco a pouco, tomando consciência sobre quem somos e como tudo o que acontece no mundo nos atinge, vamos reescrevendo nossa história e nos libertando de complexos que nos aprisionaram até então. Vamos acolhendo nossa sombra, transformando o que é possível e aprendendo a suportar tantos outros fatos que não podemos apagar da nossa história, mas que enfim podem tomar outro rumo e não mais nos atingir da mesma forma. A raiva nos liberta das prisões dos nossos sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Marcella Helena Ferreira – Analista em Formação IJEP</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Didata&nbsp; responsável : Maria Cristina Mariante Guarnieri</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFER</strong><strong>Ê</strong><strong>NCIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">HOLLIS, James.&nbsp;<em>Os Pantanais da Alma</em>: nova vida em lugares sombrios. São Paulo, Ed. Paulus, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A Natureza da Psique</em>. O.C&nbsp;–&nbsp;8/2.&nbsp; Petrópolis, Ed. Vozes, 2013</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="RAIVA: MORALMENTE CONTIDA, MENTALMENTE NÃO RECONHECIDA, EMOCIONALMENTE FERIDA - Marcella Ferreira" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Ry5pL0OVWLY?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-marcella-helena-ferreira"><strong><em>Marcella Helena Ferreira</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/raiva-moralmente-contida-mentalmente-nao-reconhecida-emocionalmente-ferida/">Raiva: moralmente contida, mentalmente não reconhecida, emocionalmente ferida</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Dançando ao som da vida: entendendo o ritmo da eterna impermanência</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/dancando-ao-som-da-vida-entendendo-o-ritmo-da-eterna-impermanencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Apr 2020 19:32:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5914</guid>

					<description><![CDATA[<p>Quando comecei a escrever este artigo, a questão central era totalmente diferente do momento em que nós nos encontramos agora. Num piscar de olhos, tudo mudou e o artigo pediu uma revisão antes de ser publicado. Porém, não acho que devo fazer associações com o momento presente, ao menos não neste artigo, porque seria forçar [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/dancando-ao-som-da-vida-entendendo-o-ritmo-da-eterna-impermanencia/">Dançando ao som da vida: entendendo o ritmo da eterna impermanência</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Quando comecei a escrever este artigo, a questão central era totalmente diferente do momento em que nós nos encontramos agora. Num piscar de olhos, tudo mudou e o artigo pediu uma revisão antes de ser publicado. Porém, não acho que devo fazer associações com o momento presente, ao menos não neste artigo, porque seria forçar um pouco seu significado dentro da proposta que coloco aqui. Mesmo que o tema se aplique para a atualidade, desejo profundamente que você o leia pensando na vida, em sua máxima potencialidade, e não apenas no momento que estamos vivendo. Nossos humores e sentimentos estão tão conturbados por conta da incerteza do amanhã que amenizar isso não seria o correto no meu entendimento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando pensamos em desejos para o ano, planos, mudanças, muitas vezes olhamos para o que temos com um ar de cansaço desejando que as coisas melhorem. Desejo este muito legítimo, claro. Mas repare como normalmente melhorar significa buscar mais calma, mais organização, mais controle, estabilidade, etc., desejar que tudo se ajeite. Na prática, não é errado buscar por isto desde que isto não signifique estagnação ou paralisação. A busca incessante pelo controle e previsão faz com que os casos de ansiedade venham aumentando a cada ano que passa – estamos vivendo cada vez mais desconectados do momento presente querendo dar conta de tudo que possa vir. Para responder a demanda da nossa geração, estamos tentando controlar a vida como se fosse possível capturá-la e moldá-la ao que a gente gostaria que ela fosse. São tantos acontecimentos e sentimentos diários que o ato de esperar algo acontecer é motivo de grande sofrimento. “Você tem que se preparar”, dizem alguns especialistas. Mas se preparar para o que? Para o que vai vir que eu nem sei o que é? Assim, seguimos atrás da receitinha mágica do controle e estabilidade da nossa vida. Projeto de super-herói, não?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas infelizmente a vida não funciona desta forma. É certo que por não aprendermos a escutá-la, ela parece ser mais complexa do que ela realmente é.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Cada um de nós espontaneamente evita encarar seus problemas, enquanto possível; não se deve mencioná-los, ou melhor ainda, nega-se sua existência. Queremos que nossa vida seja simples, segura e tranquila, e por isto os problemas são tabus. Queremos certezas e não dúvidas; queremos resultados e não experimentos, sem, entretanto, nos darmos conta de que as certezas só podem surgir através da dúvida, e os resultados através do experimento”. (JUNG, 2011, §751)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nosso mundo é composto por dualidades, assim como a nossa psique também funciona através das polaridades. Estamos constantemente flutuando entre os lados, pegando um pouquinho do que cada um tem para nos oferecer. No movimento constante de pêndulo, o princípio da enantiodromia vai se desenhando. Necessariamente vamos percorrer por todos os lados da situação e, assim, nos lançar para a possibilidade de nos descobrir maiores, mais profundos e mais completos do que imaginávamos. Mas esta é apenas uma das possibilidades de entendimento para o desenrolar da vida. Podemos olhar para cada acontecimento isoladamente e julgar como ‘bom’ ou ‘ruim’ de acordo com o repertório individual e por conta disto, muitas vezes, a vida parecerá injusta, negativa, assustadoramente mutante. O sofrimento que aparece como consequência desta dinâmica é sempre o resultado da incompreensão da realidade fundamental: a vida é um eterno recomeço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Grandes sábios e estudiosos relatam que a vida é uma constante evolução e que estamos sempre em movimento. Gosto muito da ‘Lenda do anel do Rei’, do mestre Sufi Nasrudin que compartilha a valiosíssima mensagem que o salva no conto: “isto também passará”. Chico Xavier também levava esta ideia como ensinamento da vida. Dizem que bem acima da sua cama tinha uma placa com os dizeres “isso também passa” – trecho de uma mensagem psicografada pelo médium. Quando questionado sobre isto, Chico disse que a mensagem no seu quarto servia para que, diante dos dias ruins, ele pudesse lembrar que aquilo ia passar e que deveria ter algum motivo para ele estar passando por aquilo. Mas a placa também servia para lembrá-lo, nos momentos de muita felicidade, que ele não deveria deixar tudo de lado e ser levado pela euforia já que aquilo também iria passar. Interessante pensar que na visão oriental, demonstrando a mesma ideia da impermanência da vida, a Roda de Samsara representa o fluxo contínuo de nascimento, morte e renascimentos até que a pessoa se ilumine.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entre tantos outros exemplos que podemos dar, ao mergulhar no simbolismo do Tarot, encontramos no Arcano X, conhecido como Roda da Fortuna ou Roda do Destino. Esta carta fala sobre a transitoriedade da vida, sobre as mudanças bruscas ou leves que a vida nos impõe, nos ensina sobre os ciclos da vida. Rica de significado, a carta já começa surpreendendo desde o seu nome. Ao buscar no dicionário o significado da palavra destino, vamos encontrar respostas como: ‘o que há de vir, futuro, sucessão inevitável de acontecimentos’. Agora, já buscou pela palavra fortuna? Vamos encontrar respostas que levam à: ‘destino, acaso, riqueza, grande quantidade de dinheiro, eventualidade’. Ou seja, fortuna = destino, por isto podemos encontrar essas duas possibilidades nos baralhos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Voltando ao ‘coração’ deste artigo: a vida é uma sucessão de movimentos. Desde a escola estudamos que, na teoria da evolução, sobrevive quem mais se adapta às mudanças da vida: seja no ambiente, seja nas características biológicas. Logo, viver resistindo as mudanças, adoece. De tempos em tempos, a vida nos dá a oportunidade de fazermos a roda girar. É o momento onde declínios e ascensões acontecem. A Roda incentiva a vivenciar e olhar o lado oposto, provoca limpezas e cria espaços para que o novo apareça. Nos faz relembrar que, querendo ou não, devemos nos entregar à vida e aceitar que tudo é transitório e que faz parte dela deixar as situações e pessoas irem, que devemos nos abrir para receber o novo, mudar, ajustar as coisas. É claro que reviravoltas tiram a nossa estabilidade, mexem com as nossas certezas (tornando assim um campo fértil para a ansiedade) mas saber lidar com esses momentos é a grande chave da sabedoria.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O simbolismo da carta Roda da Fortuna também é encontrada na mitologia. Comumente associada com as Moiras, temos o movimento constante no tear delas, que fiavam, teciam e cortavam o fio da vida. Também encontramos, apesar de ser menos comum, a associação ao mito de Sisifo, comparando sua tortura à condição humana – o homem trabalha constantemente para sua ascensão e tem que lidar com o inevitável declínio – eu particularmente não gosto desta associação para a Roda pois seu movimento é sempre visando uma evolução, alguma transformação que é possível passar, encerrar, sem ficar presos à ela (ou à alguma condição). Pegando a ideia do fio do destino, devemos sempre lembrar que tudo está conectado &#8211; nossa vida com a vida do outro, nossa vida com o tempo das circunstâncias. Cada um deve fazer a sua parte e contar que o desenrolar da nossa história também depende dos eventos externos – pessoas, ambientes e situações. O externo influencia a nossa vida tanto quanto os conteúdos internos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Mas a contemplação dos ciclos exteriores é uma introdução à dos ciclos interiores. (&#8230;) Essa verdade simples, redescoberta por biólogos, não era desconhecida dos mestres antigos, esses observadores da evidência. Eles sabiam que não somos os mesmos no inverno e no verão, de manhã e à noite. A consciência se levanta com o Sol e declina com ele. O inconsciente sobe com a noite, e suas estrelas empalidecem com o aparecimento do astro-rei” (PERROT, 1998, p.338)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim como a jornada do tarot nos ensina, é preciso aprender a confiar na vida. Ao longo da vida, muitas vezes nós vamos tropeçar, outras cair, mas sempre a vida vai oferecer novas oportunidades e caminhos. Como Jung traz em sua obra “(&#8230;) não há mudança que seja incondicional por um longo período de tempo. A vida tem que ser conquistada sempre e de novo”. (JUNG, 2011, §142)&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aprender a conviver com os ciclos da vida faz com que a gente sinta mais prazer em viver. Conforme aprendemos a lidar de forma consciente com a impermanência das situações, passamos a reconhecer alguns de seus obstáculos e aprendemos como superá-los. Vamos confiando no fluxo e entendendo que toda mudança é contornável e que, assim, aos poucos concluímos etapas e afinamos o nosso querer. A vida vai ganhando sentido. Compreendemos que momentos de puro susto e arrebatamento são poucos perto das infinitas escolhas e mudanças que o nosso próprio dia a dia pede para a gente fazer. Somos nós em comunhão com a vida lapidando a nossa história, escolhendo o que fica, o que vai, o que precisa mudar, o que precisa melhorar. São nas pequenas e diárias transformações que a nossa história vai ganhando cor.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A contemplação desses ritmos é um ato religioso: ela nos religa às leis que governam a existência do homem. Boa parte de nossas desgraças não provém do fato de que nos esquecemos dos ‘segredos naturais’, das leis das transformações, e as substituímos pelas decisões do nosso eu, fundadas na ciência limitada e fragmentária, que é a parte que toca ao ego.” (PERROT, 1998, p.338)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se prestarmos bem atenção, veremos que essas mudanças não são tão inesperadas quanto muitas vezes as sentimos. Normalmente elas já vinham se desenhando, dando sinais que algo precisava ser transformado, ou usando os termos do Arcano, a roda precisa girar. Sobre as grandes mudanças serem atribuídas exclusivamente aos eventos exteriores, Jung, no livro A Natureza da Psique, afirma que “estou convencido de que as circunstâncias exteriores frequentemente são por assim dizer meras ocasiões para que se manifeste uma nova atitude perante a vida e o mundo, preparada inconscientemente desde longa data” (JUNG, 2011, §594). Tudo o que acontece no mundo exterior está acontecendo no mundo interior simultaneamente, a questão é saber o quanto se está consciente diante dos fatos. O complexo do eu é apenas um dentre os vários complexos e quando eles aparecem associados “ao complexo do eu, deste modo se tornam conscientes, mas podem existir também por um longo período de tempo sem se associarem ao eu”. (JUNG, 2011, §582) Seguindo o raciocínio de que alguns conteúdos seguem sendo construídos de forma inconsciente, até surpreendentemente’ invadir a consciência, Jung exemplifica com a conversão de Paulo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;“Embora pareça que o momento da conversão tenha sido absolutamente repentino, contudo, sabemos por longa e variada experiência que uma transformação tão fundamental exige um longo período de incubação. E só quando esta preparação está completa, isto é, quando o indivíduo está maduro para a conversão, é que a nova percepção irrompe com violenta emoção”. (JUNG, 2011, §582)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Importante frisar que as mudanças da vida são sempre neutras, o que muda é apenas a visão e o julgamento pessoal como bom ou ruim. Gosto muito da explicação que a psicóloga e estudiosa de Tarot Corinne Morel fala sobre o arcano:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A definição de um sistema de valores subjetivos faz com que o indivíduo e a sociedade em seu conjunto associem noções de felicidade ou infelicidade aos ritmos: desenvolver-se ou crescer é positivo, declinar ou envelhecer é negativo; ganhar ou enriquecer é positivo, perder ou empobrecer é negativo, e assim por diante. Entretanto, na realidade, nada é bom ou ruim, mas tudo é útil. “ (MOREL, 2018, p. 106)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Deste modo, não deveríamos ter tanto medo diante das mudanças da vida. Há sempre uma inteligência maior tecendo e ligando os acontecimentos para a nossa evolução. O destino não vem ao nosso encontro, ao contrário, nós que nos dirigimos a ele. Toda vez que fazemos a nossa parte, aceitamos as mudanças, nos colocamos à disposição do que vida quer, estamos abertos para receber dela sempre o melhor. O Self sempre tentará se manifestar através do inconsciente, mas para isso, precisamos colocar o nosso ego para servi-lo. É um trabalho em conjunto, ego trabalhando para dar voz ao Self e assim desfrutar da verdade da sua alma. No universo não existe involução. Todo e qualquer movimento da vida, no final, nos ajudam a evoluir. Sempre.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O destino vai se desenhando como resposta as escolhas feitas diariamente. Por isso, ter consciência sobre o que se vive e escolhe, evita a surpresa de ter que lidar com seus conteúdos como surpresas.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, não resista ao destino. Confie no seu Self. Faça a roda girar. Pois, independente como ela gira, sempre trará crescimento numa nova fase da vida!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Marcella Helena Ferreira</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Junguiana em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;marcellahlferreira@gmail.com</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências Bibliográficas:</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. A natureza da Psique: a dinâmica do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">MOREL, Corinne. Tarô Psicológico para Iniciantes. São Paulo: Pensamento, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PERROT, Etienne. O Caminho da Transformação: Segundo C.G. Jung e a Alquimia. São Paulo: Paulus, 1998.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Marcella Helena Ferreira</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/dancando-ao-som-da-vida-entendendo-o-ritmo-da-eterna-impermanencia/">Dançando ao som da vida: entendendo o ritmo da eterna impermanência</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A virtude da temperança</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-virtude-da-temperanca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Nov 2019 19:34:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[tarô]]></category>
		<category><![CDATA[tarot]]></category>
		<category><![CDATA[temperança]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5920</guid>

					<description><![CDATA[<p>Na visão junguiana, a meta da vida é o significado, ser feliz é apenas uma consequência. Assim, precisamos aprender a enxergar o sentido de cada situação que passamos. Viver uma vida totalmente voltada para o literal ou de maneira unilateralizada produz sintomas e adoece, pois é a capacidade de simbolizar que permite um diálogo entre [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-virtude-da-temperanca/">A virtude da temperança</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Na visão junguiana, a meta da vida é o significado, ser feliz é apenas uma consequência. Assim, precisamos aprender a enxergar o sentido de cada situação que passamos. Viver uma vida totalmente voltada para o literal ou de maneira unilateralizada produz sintomas e adoece, pois é a capacidade de simbolizar que permite um diálogo entre a situação/objeto e o indivíduo, levando então ao sentido de cada momento. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Se quisermos de fato iniciar o diálogo com o nosso inconsciente, precisamos primeiro aprender a decifrar a sua linguagem. O inconsciente se apresenta e se comunica sempre através de símbolos, que são&nbsp;<em>“um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida cotidiana, embora possua conotações especiais al</em><em>ém do seu significado evidente e convencional”</em>. (JUNG, 2008 p.18) Desta forma, o símbolo nos convida para ir além do que se pode ver, ao subjetivo de cada situação. Pede envolvimento pessoal e individual.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando entramos em contato com oráculos, o convite para o envolvimento pessoal, para ir além do que é apresentado se intensifica, pois eles são recursos simbólicos para o acesso aos conteúdos do inconsciente. Indo para o universo do Tarot, cada lâmina, rica em símbolos, conta uma história, nos mostra uma personalidade e um aprendizado. Todas as cartas são rituais de passagem – estágios ou processos, não resultados ou lugares estáticos imutáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveitando a excelente oportunidade, peguei o meu próprio&nbsp;<em>deck</em>&nbsp;e me concentrei para ver qual carta estaria em conexão com o momento e, para a surpresa – nem tanto, confesso – saiu a carta que mais representaria não apenas o momento pessoal mas também coletivo, uma vez que sabemos que os oráculos falam sobre a nossa vida sempre dentro de um contexto coletivo, sendo inevitável a visitação do que acontece ao nosso redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A carta em questão, tão bonita e doce quanto temida, é a Temperança. Representada pelo número XIV, a Temperança faz parte dos Arcanos Maiores – e vale aqui compartilhar como curiosidade que a palavra arcano significa mistério – e, portanto, sendo um dos mistérios do Tarot, pede para tentarmos decifrar seu simbolismo além de evidenciar um desafio dentro da jornada da vida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tarots clássicos e modernos, vemos um homem com asas, representando a conexão entre os homens com as hierarquias superiores, tocando o solo com os pés – um deles em contato com a água e outro na terra, e segura nas mãos dois jarros onde a água é trocada entre eles, como se fosse temperar as forças opostas através do liquido. Percebemos aqui a importância de temperar, equilibrar as polaridades: temos homem e anjo, água e terra, razão e emoção, consciente e inconsciente etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale reparar que mesmo tendo a troca de água entre os jarros, seu conteúdo está contido. Não é despejado de volta na água nem entra água nova. É um momento mais de pausa, de contenção e é por isso que muitas pessoas não se sentem à vontade quando ela aparece – não adianta apressar, tentar controlar, fingir que nada está acontecendo. A carta pede sim movimento, equilíbrio, porém ficamos reféns de algo maior que nós – o momento certo e oportuno está fora das nossas mãos. Muitas vezes temos que fazer nossa parte e apenas esperar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tempos em que vivemos, cheios de urgência, crises de ansiedade em larga escala; pedir para fazer o possível, tentando equilibrar os opostos na própria individualidade e aguardar, parece até um pouco torturante. Mas é exatamente o que a vida nos pede em muitos momentos. Sair da onipotência de achar que controlamos tudo e todos e parar para olhar os sinais e o ritmo que a própria vida nos impõe é de grande sabedoria. E isso é algo que precisamos aprender com a Temperança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Arcano XIV nos convida a fazer a nossa alquimia pessoal – ver em qual área da vida está precisando de um pouco mais de sal, onde precisamos adoçar mais, em qual área colocar pimenta, quase que um processo gastronômico. Ela pede um olhar apurado e coragem para as transformações – é preciso lapidar, é preciso transmutar, é preciso entrar em processos profundos e refletir. E para fazer tudo isso, precisa de tempo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo é o nosso maior aliado no alcance dos nossos objetivos. Neste arcano, dedicar tempo para os cuidados com o corpo, alimentação, estudos, acalmar, entrar em contato com a nossa alma é imprescindível; o tempo se torna nosso maior aliado para a realização dos nossos objetivos. Precisamos resgatar a confiança que as metas e exigências materiais podem ser conquistadas com leveza e serenidade. A vida pode e deve ser levada de forma diferente, com mais presença e atenção. É preciso se lançar para as conquistas da jornada com coragem de se relacionar com cada etapa deste processo, permitindo influenciar e ser influenciado, buscando o sentido profundo de tudo a nossa volta. No tempo onde o imediatismo e o consumismo estão tão em alta, a Temperança surge para desacelerar e nos ensinar a ver além do literal e objetivo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela nos convida a agir com moderação e talvez seja isso que assuste. Como moderar quando apenas se quer controlar e acelerar todos os processos? Como pensar em moderar quando se busca extrair o máximo de cada experiência? E é aqui que novamente ela entra para recordar que a moderação não é necessariamente rasa. Moderar é dar tempo ao tempo, ponderar, é também buscar a exata medida e, para isso, é necessária uma profunda reflexão. O problema é acharmos que apenas o que é exagerado é profundo. Há muita intensidade, análise e envolvimento na moderação e isso é um paradoxo – como a própria vida também o é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com moderação, deixamos de ser escravos dos desejos e passamos a ser co-autor das realizações. Podemos sim conquistar, ir atrás do que queremos, mas sempre entendendo que o tempo oportuno precisa estar afinado com os nossos desejos para que eles se concretizem no agora. A moderação também é nossa aliada pois nos protege de ciladas. Por que se briga tanto com ela, não é?&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a energia da Temperança na nossa vida, entendemos que o momento, muitas vezes, não é de superar, mas sim, de respeitar nossos limites. Entender o que queremos, o que é possível, o que é bom, sempre na harmonia perfeita da consciência e dos ‘mistérios’ do inconsciente que também têm voz ativa nos nossos dias.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quantos momentos fantasiamos ter super poderes para acelerar os fatos, concluir o que nos consome, e brincarmos assim de semi-Deus? Mas a Temperança aparece nestes exatos momentos para nos ensinar que não se deve ter pressa; que é melhor aprender a ser pacientes e avançar aos poucos, com mais preparo, com mais cautela. Geralmente são momentos em que temos apenas que aceitar que nem tudo está ao nosso alcance, que nos resta ter calma e aguardar. Há um tempo certo para tudo na nossa vida. Encontramos na Bíblia a passagem que retrata perfeitamente este tempo de amadurecimento das coisas, que revela o ritmo da vida, do qual desconhecemos&nbsp; a ordem em que se dará o evento, pois isso pertence a Deus, mas que para cada coisa o seu tempo no propósito da existência:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">2 Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">3 Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">4 Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">5 Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">6 Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">7 Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">8 Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz “. (Eclesiastes 3:1-8 )</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que, na simbologia desta carta, temos a figura de um anjo. Ou seja, não podemos deixar de lado a dimensão espiritual. É preciso também dar voz para este algo além da gente (da mente racional) quando ela se manifesta. O Self vai sempre tentar dialogar com a gente, então nos cabe apenas escutá-lo através das diversas manifestações do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste raciocínio, impossível não lembrar do relato do próprio Jung no ‘O Livro Vermelho’. Em duas passagens distintas, em momentos de angústia, ansiedade e raiva, a voz da alma fala para ele esperar. A primeira passagem pode ser encontrada no&nbsp;<em>Liber Primus</em>, Cap IV chamado ‘O deserto’:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“(&#8230;) o que me leva para o deserto, e o que eu devo fazer lá? Existe uma ilusão de que não posso mais confiar ao meu pensamento? Verdadeira é apenas a vida, e tão só a vida me leva ao deserto, realmente não meu pensar que gostaria de voltar para as pessoas, para as coisas, pois lhe é sinistro estar no deserto. Minha alma, o que eu devo fazer aqui? Mas a minha alma falou-me e disse: ‘Espera’. Eu escuto a terrível palavra. Ao deserto pertence a dor”. (JUNG, 2013 p.128)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir deste capítulo começa uma discussão de Jung sobre a questão do tempo&nbsp; &#8211; ele fala sobre o homem moderno e sua busca em ganhar tempo, acelerar o processo, etc., e que usa da aceleração do tempo um meio de não se responsabilizar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de prosseguir para o segundo exemplo, é importante ressaltar que nos capítulos seguintes, de aprofundamento no deserto, Jung conclui que nem o espirito da época, nem o espirito da profundeza – alma – são divinos, mas que a balança é divina – se referindo ao equilíbrio entre o homem que trabalha e o homem que tem essas experiências, o equilíbrio entre o ego e o Self. Puxando para o nosso tema da virtude da Temperança, mesmo que seja iniciado por um período de dor ou desconforto, aprender a equilibrar as polaridades consciência e inconsciente é uma grande virtude.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na jornada dos Arcanos Maiores do Tarot, temos os arquétipos do Enforcado e da Morte antecedendo a Temperança, nos indicando a possibilidade de antes analisarmos as situações que nos trazem desconforto e fazermos as mudanças necessárias, tirando o que não nos serve mais, limpando o que foi deixado de lado para então, no momento dela, fazermos este equilíbrio, a ponderação, reorganizando os assuntos e sentimentos conforme cabe em cada vida. Pensando nos processos alquímicos, após a Putrefação sugerida no Arcano XIII da Morte, deve-se fazer a Destilação, onde todas as impurezas são extraídas do material já dissolvido, um processo de extração das virtudes. Robert M. Place reforça o propósito da Temperança com a simbologia da Alquimia quando relembra que a&nbsp;<em>“mítica Maria, a Judia,&nbsp;</em><em>é creditada como inventora da Destilaçã</em><em>o –&nbsp;</em><em>tamb</em><em>ém conhecida como Banho-Maria”</em>&nbsp;(2016 p.186), traz o processo mais fundamental da alquimia que é a extração do material de sua solução pela evaporação forçada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais a frente, no cap. VI chamado Divisão do espírito, Jung novamente se revolta com a sua alma quando, novamente, ela propõe algo difícil para ele:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“(&#8230;) Este caminho está cercado de magia infernal; laços invisíveis foram atirados sobre mim e me amarram. Mas o espírito da profundeza aproximou-se de mim e falou: ‘Desce para tua profundeza, afunda-te’. Eu, porém, me revoltei contra ele e falei: ‘Como posso afundar-me? Sou incapaz de fazer isso comigo’. Então o espírito me dirigiu palavras que me pareceram ridículas, e ele disse: Senta-te e descansa’.”. (JUNG, 2013, p.142)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Concluímos, então, que a alma pede ação, mas muitas vezes pede que enfrentemos o estado da espera, da maturação. Enquanto a alquimia está sendo feita, devemos deixar alguns comandos de lado pois só assim é que teremos mais sabedoria para seguirmos a diante. Nem todos os conteúdos estão prontos para serem mexidos no agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Temperança, desta forma, também nos induz a compreender a importância do sentimento como uma função de escolha ativa e inteligente. A água despejada incessantemente de um cálice para o outro se dá porque o sentimento também deve fluir constantemente, sendo reequilibrado a cada momento, de acordo com o que a situação pede. Nós temos a liberdade de escolha, mas temos também que entender que nem sempre os resultados serão imediatos. Deve se ter um olhar atento, honesto e profundo a cada momento, sempre e de novo &#8211; parafraseando o Jung no livro ‘A Natureza da Psique’ (2011).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta difícil relação de espera, devemos compreender que não se trata de uma espera passiva, omissa, onde corremos o risco da procrastinação. A grande joia desta carta é compreender que na espera ativa, eu faço a minha parte, o que já está a minha disposição e deixo o espírito, a alma fazer a parte dela, numa equilibrada e harmoniosa interação do homem com o universo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, nos tempos atuais de cólera, intolerância e imediatismo, vamos conversar com a Temperança dentro de nós e aprendermos qual é o nosso limite e quais os potenciais ainda não trabalhados, buscando sempre o nosso melhor diante das situações. Como comentei no início, é uma carta bela e doce porque se este momento for encarado como um potencial vasto de aprendizado da nossa alma, ela só tem a nos presentear. Agora é também temido por muitos pois nos traz aquele tipo de lição a qual nós não podemos fugir. Se quisermos amadurecer, teremos que aprender a lidar com ela, olhar no fundo dos seus olhos e humildemente nos render que existem outros de nós neste jogo da vida querendo também ter espaço e presença. Que na jornada da vida, temos alguns momentos de controle. Mas nos outros, só nos resta aguardar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências Bibliográficas</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>A natureza da Psique</strong>: a dinâmica do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>O Livro Vermelho</strong>: edição sem ilustrações. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. [et al.]&nbsp;<strong>O Homem e seus símbolos</strong>. 2 edição especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PLACE, Robert M.&nbsp;<strong>Alquimia e tarô&nbsp;</strong>– Uma investigação de suas conexões históricas. São Bernardo do Campo: Presságio, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Marcella Helena Ferreira</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Junguiana em formação pelo IJEP, especialista em Psicoterapia Junguiana e Psicossomática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para contato:&nbsp;<a href="mailto:marcellahlferreira@gmail.com">marcellahlferreira@gmail.com</a>&nbsp;/@conhecendojung</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A virtude da Temperança</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão junguiana, a meta da vida é o significado, ser feliz é apenas uma consequência. Assim,</p>



<p class="wp-block-paragraph">precisamos aprender a enxergar o sentido de cada situação que passamos. Viver uma vida totalmente voltada para o literal ou de maneira unilateralizada produz sintomas e adoece, pois é a capacidade de simbolizar que permite um diálogo entre a situação/objeto e o indivíduo, levando então ao sentido de cada momento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se quisermos de fato iniciar o diálogo com o nosso inconsciente, precisamos primeiro aprender a decifrar a sua linguagem. O inconsciente se apresenta e se comunica sempre através de símbolos, que são&nbsp;<em>“um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida cotidiana, embora possua conotações especiais al</em><em>ém do seu significado evidente e convencional”</em>. (JUNG, 2008 p.18) Desta forma, o símbolo nos convida para ir além do que se pode ver, ao subjetivo de cada situação. Pede envolvimento pessoal e individual.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando entramos em contato com oráculos, o convite para o envolvimento pessoal, para ir além do que é apresentado se intensifica, pois eles são recursos simbólicos para o acesso aos conteúdos do inconsciente. Indo para o universo do Tarot, cada lâmina, rica em símbolos, conta uma história, nos mostra uma personalidade e um aprendizado. Todas as cartas são rituais de passagem – estágios ou processos, não resultados ou lugares estáticos imutáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveitando a excelente oportunidade, peguei o meu próprio&nbsp;<em>deck</em>&nbsp;e me concentrei para ver qual carta estaria em conexão com o momento e, para a surpresa – nem tanto, confesso – saiu a carta que mais representaria não apenas o momento pessoal mas também coletivo, uma vez que sabemos que os oráculos falam sobre a nossa vida sempre dentro de um contexto coletivo, sendo inevitável a visitação do que acontece ao nosso redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A carta em questão, tão bonita e doce quanto temida, é a Temperança. Representada pelo número XIV, a Temperança faz parte dos Arcanos Maiores – e vale aqui compartilhar como curiosidade que a palavra arcano significa mistério – e, portanto, sendo um dos mistérios do Tarot, pede para tentarmos decifrar seu simbolismo além de evidenciar um desafio dentro da jornada da vida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tarots clássicos e modernos, vemos um homem com asas, representando a conexão entre os homens com as hierarquias superiores, tocando o solo com os pés – um deles em contato com a água e outro na terra, e segura nas mãos dois jarros onde a água é trocada entre eles, como se fosse temperar as forças opostas através do liquido. Percebemos aqui a importância de temperar, equilibrar as polaridades: temos homem e anjo, água e terra, razão e emoção, consciente e inconsciente etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale reparar que mesmo tendo a troca de água entre os jarros, seu conteúdo está contido. Não é despejado de volta na água nem entra água nova. É um momento mais de pausa, de contenção e é por isso que muitas pessoas não se sentem à vontade quando ela aparece – não adianta apressar, tentar controlar, fingir que nada está acontecendo. A carta pede sim movimento, equilíbrio, porém ficamos reféns de algo maior que nós – o momento certo e oportuno está fora das nossas mãos. Muitas vezes temos que fazer nossa parte e apenas esperar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tempos em que vivemos, cheios de urgência, crises de ansiedade em larga escala; pedir para fazer o possível, tentando equilibrar os opostos na própria individualidade e aguardar, parece até um pouco torturante. Mas é exatamente o que a vida nos pede em muitos momentos. Sair da onipotência de achar que controlamos tudo e todos e parar para olhar os sinais e o ritmo que a própria vida nos impõe é de grande sabedoria. E isso é algo que precisamos aprender com a Temperança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Arcano XIV nos convida a fazer a nossa alquimia pessoal – ver em qual área da vida está precisando de um pouco mais de sal, onde precisamos adoçar mais, em qual área colocar pimenta, quase que um processo gastronômico. Ela pede um olhar apurado e coragem para as transformações – é preciso lapidar, é preciso transmutar, é preciso entrar em processos profundos e refletir. E para fazer tudo isso, precisa de tempo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo é o nosso maior aliado no alcance dos nossos objetivos. Neste arcano, dedicar tempo para os cuidados com o corpo, alimentação, estudos, acalmar, entrar em contato com a nossa alma é imprescindível; o tempo se torna nosso maior aliado para a realização dos nossos objetivos. Precisamos resgatar a confiança que as metas e exigências materiais podem ser conquistadas com leveza e serenidade. A vida pode e deve ser levada de forma diferente, com mais presença e atenção. É preciso se lançar para as conquistas da jornada com coragem de se relacionar com cada etapa deste processo, permitindo influenciar e ser influenciado, buscando o sentido profundo de tudo a nossa volta. No tempo onde o imediatismo e o consumismo estão tão em alta, a Temperança surge para desacelerar e nos ensinar a ver além do literal e objetivo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela nos convida a agir com moderação e talvez seja isso que assuste. Como moderar quando apenas se quer controlar e acelerar todos os processos? Como pensar em moderar quando se busca extrair o máximo de cada experiência? E é aqui que novamente ela entra para recordar que a moderação não é necessariamente rasa. Moderar é dar tempo ao tempo, ponderar, é também buscar a exata medida e, para isso, é necessária uma profunda reflexão. O problema é acharmos que apenas o que é exagerado é profundo. Há muita intensidade, análise e envolvimento na moderação e isso é um paradoxo – como a própria vida também o é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com moderação, deixamos de ser escravos dos desejos e passamos a ser co-autor das realizações. Podemos sim conquistar, ir atrás do que queremos, mas sempre entendendo que o tempo oportuno precisa estar afinado com os nossos desejos para que eles se concretizem no agora. A moderação também é nossa aliada pois nos protege de ciladas. Por que se briga tanto com ela, não é?&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a energia da Temperança na nossa vida, entendemos que o momento, muitas vezes, não é de superar, mas sim, de respeitar nossos limites. Entender o que queremos, o que é possível, o que é bom, sempre na harmonia perfeita da consciência e dos ‘mistérios’ do inconsciente que também têm voz ativa nos nossos dias.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quantos momentos fantasiamos ter super poderes para acelerar os fatos, concluir o que nos consome, e brincarmos assim de semi-Deus? Mas a Temperança aparece nestes exatos momentos para nos ensinar que não se deve ter pressa; que é melhor aprender a ser pacientes e avançar aos poucos, com mais preparo, com mais cautela. Geralmente são momentos em que temos apenas que aceitar que nem tudo está ao nosso alcance, que nos resta ter calma e aguardar. Há um tempo certo para tudo na nossa vida. Encontramos na Bíblia a passagem que retrata perfeitamente este tempo de amadurecimento das coisas, que revela o ritmo da vida, do qual desconhecemos&nbsp; a ordem em que se dará o evento, pois isso pertence a Deus, mas que para cada coisa o seu tempo no propósito da existência:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">2 Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">3 Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">4 Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">5 Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">6 Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">7 Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">8 Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz “. (Eclesiastes 3:1-8 )</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que, na simbologia desta carta, temos a figura de um anjo. Ou seja, não podemos deixar de lado a dimensão espiritual. É preciso também dar voz para este algo além da gente (da mente racional) quando ela se manifesta. O Self vai sempre tentar dialogar com a gente, então nos cabe apenas escutá-lo através das diversas manifestações do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste raciocínio, impossível não lembrar do relato do próprio Jung no ‘O Livro Vermelho’. Em duas passagens distintas, em momentos de angústia, ansiedade e raiva, a voz da alma fala para ele esperar. A primeira passagem pode ser encontrada no&nbsp;<em>Liber Primus</em>, Cap IV chamado ‘O deserto’:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“(&#8230;) o que me leva para o deserto, e o que eu devo fazer lá? Existe uma ilusão de que não posso mais confiar ao meu pensamento? Verdadeira é apenas a vida, e tão só a vida me leva ao deserto, realmente não meu pensar que gostaria de voltar para as pessoas, para as coisas, pois lhe é sinistro estar no deserto. Minha alma, o que eu devo fazer aqui? Mas a minha alma falou-me e disse: ‘Espera’. Eu escuto a terrível palavra. Ao deserto pertence a dor”. (JUNG, 2013 p.128)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir deste capítulo começa uma discussão de Jung sobre a questão do tempo&nbsp; &#8211; ele fala sobre o homem moderno e sua busca em ganhar tempo, acelerar o processo, etc., e que usa da aceleração do tempo um meio de não se responsabilizar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de prosseguir para o segundo exemplo, é importante ressaltar que nos capítulos seguintes, de aprofundamento no deserto, Jung conclui que nem o espirito da época, nem o espirito da profundeza – alma – são divinos, mas que a balança é divina – se referindo ao equilíbrio entre o homem que trabalha e o homem que tem essas experiências, o equilíbrio entre o ego e o Self. Puxando para o nosso tema da virtude da Temperança, mesmo que seja iniciado por um período de dor ou desconforto, aprender a equilibrar as polaridades consciência e inconsciente é uma grande virtude.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na jornada dos Arcanos Maiores do Tarot, temos os arquétipos do Enforcado e da Morte antecedendo a Temperança, nos indicando a possibilidade de antes analisarmos as situações que nos trazem desconforto e fazermos as mudanças necessárias, tirando o que não nos serve mais, limpando o que foi deixado de lado para então, no momento dela, fazermos este equilíbrio, a ponderação, reorganizando os assuntos e sentimentos conforme cabe em cada vida. Pensando nos processos alquímicos, após a Putrefação sugerida no Arcano XIII da Morte, deve-se fazer a Destilação, onde todas as impurezas são extraídas do material já dissolvido, um processo de extração das virtudes. Robert M. Place reforça o propósito da Temperança com a simbologia da Alquimia quando relembra que a&nbsp;<em>“mítica Maria, a Judia,&nbsp;</em><em>é creditada como inventora da Destilaçã</em><em>o –&nbsp;</em><em>tamb</em><em>ém conhecida como Banho-Maria”</em>&nbsp;(2016 p.186), traz o processo mais fundamental da alquimia que é a extração do material de sua solução pela evaporação forçada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais a frente, no cap. VI chamado Divisão do espírito, Jung novamente se revolta com a sua alma quando, novamente, ela propõe algo difícil para ele:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“(&#8230;) Este caminho está cercado de magia infernal; laços invisíveis foram atirados sobre mim e me amarram. Mas o espírito da profundeza aproximou-se de mim e falou: ‘Desce para tua profundeza, afunda-te’. Eu, porém, me revoltei contra ele e falei: ‘Como posso afundar-me? Sou incapaz de fazer isso comigo’. Então o espírito me dirigiu palavras que me pareceram ridículas, e ele disse: Senta-te e descansa’.”. (JUNG, 2013, p.142)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Concluímos, então, que a alma pede ação, mas muitas vezes pede que enfrentemos o estado da espera, da maturação. Enquanto a alquimia está sendo feita, devemos deixar alguns comandos de lado pois só assim é que teremos mais sabedoria para seguirmos a diante. Nem todos os conteúdos estão prontos para serem mexidos no agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Temperança, desta forma, também nos induz a compreender a importância do sentimento como uma função de escolha ativa e inteligente. A água despejada incessantemente de um cálice para o outro se dá porque o sentimento também deve fluir constantemente, sendo reequilibrado a cada momento, de acordo com o que a situação pede. Nós temos a liberdade de escolha, mas temos também que entender que nem sempre os resultados serão imediatos. Deve se ter um olhar atento, honesto e profundo a cada momento, sempre e de novo &#8211; parafraseando o Jung no livro ‘A Natureza da Psique’ (2011).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta difícil relação de espera, devemos compreender que não se trata de uma espera passiva, omissa, onde corremos o risco da procrastinação. A grande joia desta carta é compreender que na espera ativa, eu faço a minha parte, o que já está a minha disposição e deixo o espírito, a alma fazer a parte dela, numa equilibrada e harmoniosa interação do homem com o universo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, nos tempos atuais de cólera, intolerância e imediatismo, vamos conversar com a Temperança dentro de nós e aprendermos qual é o nosso limite e quais os potenciais ainda não trabalhados, buscando sempre o nosso melhor diante das situações. Como comentei no início, é uma carta bela e doce porque se este momento for encarado como um potencial vasto de aprendizado da nossa alma, ela só tem a nos presentear. Agora é também temido por muitos pois nos traz aquele tipo de lição a qual nós não podemos fugir. Se quisermos amadurecer, teremos que aprender a lidar com ela, olhar no fundo dos seus olhos e humildemente nos render que existem outros de nós neste jogo da vida querendo também ter espaço e presença. Que na jornada da vida, temos alguns momentos de controle. Mas nos outros, só nos resta aguardar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências Bibliográficas</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>A natureza da Psique</strong>: a dinâmica do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>O Livro Vermelho</strong>: edição sem ilustrações. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. [et al.]&nbsp;<strong>O Homem e seus símbolos</strong>. 2 edição especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PLACE, Robert M.&nbsp;<strong>Alquimia e tarô&nbsp;</strong>– Uma investigação de suas conexões históricas. São Bernardo do Campo: Presságio, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Marcella Helena Ferreira</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Junguiana em formação pelo IJEP, especialista em Psicoterapia Junguiana e Psicossomática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para contato:&nbsp;<a href="mailto:marcellahlferreira@gmail.com">marcellahlferreira@gmail.com</a>&nbsp;/@conhecendojung</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A virtude da Temperança</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Na visão junguiana, a meta da vida é o significado, ser feliz é apenas uma consequência. Assim,</p>



<p class="wp-block-paragraph">precisamos aprender a enxergar o sentido de cada situação que passamos. Viver uma vida totalmente voltada para o literal ou de maneira unilateralizada produz sintomas e adoece, pois é a capacidade de simbolizar que permite um diálogo entre a situação/objeto e o indivíduo, levando então ao sentido de cada momento.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se quisermos de fato iniciar o diálogo com o nosso inconsciente, precisamos primeiro aprender a decifrar a sua linguagem. O inconsciente se apresenta e se comunica sempre através de símbolos, que são&nbsp;<em>“um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida cotidiana, embora possua conotações especiais al</em><em>ém do seu significado evidente e convencional”</em>. (JUNG, 2008 p.18) Desta forma, o símbolo nos convida para ir além do que se pode ver, ao subjetivo de cada situação. Pede envolvimento pessoal e individual.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando entramos em contato com oráculos, o convite para o envolvimento pessoal, para ir além do que é apresentado se intensifica, pois eles são recursos simbólicos para o acesso aos conteúdos do inconsciente. Indo para o universo do Tarot, cada lâmina, rica em símbolos, conta uma história, nos mostra uma personalidade e um aprendizado. Todas as cartas são rituais de passagem – estágios ou processos, não resultados ou lugares estáticos imutáveis.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveitando a excelente oportunidade, peguei o meu próprio&nbsp;<em>deck</em>&nbsp;e me concentrei para ver qual carta estaria em conexão com o momento e, para a surpresa – nem tanto, confesso – saiu a carta que mais representaria não apenas o momento pessoal mas também coletivo, uma vez que sabemos que os oráculos falam sobre a nossa vida sempre dentro de um contexto coletivo, sendo inevitável a visitação do que acontece ao nosso redor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A carta em questão, tão bonita e doce quanto temida, é a Temperança. Representada pelo número XIV, a Temperança faz parte dos Arcanos Maiores – e vale aqui compartilhar como curiosidade que a palavra arcano significa mistério – e, portanto, sendo um dos mistérios do Tarot, pede para tentarmos decifrar seu simbolismo além de evidenciar um desafio dentro da jornada da vida.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tarots clássicos e modernos, vemos um homem com asas, representando a conexão entre os homens com as hierarquias superiores, tocando o solo com os pés – um deles em contato com a água e outro na terra, e segura nas mãos dois jarros onde a água é trocada entre eles, como se fosse temperar as forças opostas através do liquido. Percebemos aqui a importância de temperar, equilibrar as polaridades: temos homem e anjo, água e terra, razão e emoção, consciente e inconsciente etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vale reparar que mesmo tendo a troca de água entre os jarros, seu conteúdo está contido. Não é despejado de volta na água nem entra água nova. É um momento mais de pausa, de contenção e é por isso que muitas pessoas não se sentem à vontade quando ela aparece – não adianta apressar, tentar controlar, fingir que nada está acontecendo. A carta pede sim movimento, equilíbrio, porém ficamos reféns de algo maior que nós – o momento certo e oportuno está fora das nossas mãos. Muitas vezes temos que fazer nossa parte e apenas esperar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos tempos em que vivemos, cheios de urgência, crises de ansiedade em larga escala; pedir para fazer o possível, tentando equilibrar os opostos na própria individualidade e aguardar, parece até um pouco torturante. Mas é exatamente o que a vida nos pede em muitos momentos. Sair da onipotência de achar que controlamos tudo e todos e parar para olhar os sinais e o ritmo que a própria vida nos impõe é de grande sabedoria. E isso é algo que precisamos aprender com a Temperança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O Arcano XIV nos convida a fazer a nossa alquimia pessoal – ver em qual área da vida está precisando de um pouco mais de sal, onde precisamos adoçar mais, em qual área colocar pimenta, quase que um processo gastronômico. Ela pede um olhar apurado e coragem para as transformações – é preciso lapidar, é preciso transmutar, é preciso entrar em processos profundos e refletir. E para fazer tudo isso, precisa de tempo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">O tempo é o nosso maior aliado no alcance dos nossos objetivos. Neste arcano, dedicar tempo para os cuidados com o corpo, alimentação, estudos, acalmar, entrar em contato com a nossa alma é imprescindível; o tempo se torna nosso maior aliado para a realização dos nossos objetivos. Precisamos resgatar a confiança que as metas e exigências materiais podem ser conquistadas com leveza e serenidade. A vida pode e deve ser levada de forma diferente, com mais presença e atenção. É preciso se lançar para as conquistas da jornada com coragem de se relacionar com cada etapa deste processo, permitindo influenciar e ser influenciado, buscando o sentido profundo de tudo a nossa volta. No tempo onde o imediatismo e o consumismo estão tão em alta, a Temperança surge para desacelerar e nos ensinar a ver além do literal e objetivo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ela nos convida a agir com moderação e talvez seja isso que assuste. Como moderar quando apenas se quer controlar e acelerar todos os processos? Como pensar em moderar quando se busca extrair o máximo de cada experiência? E é aqui que novamente ela entra para recordar que a moderação não é necessariamente rasa. Moderar é dar tempo ao tempo, ponderar, é também buscar a exata medida e, para isso, é necessária uma profunda reflexão. O problema é acharmos que apenas o que é exagerado é profundo. Há muita intensidade, análise e envolvimento na moderação e isso é um paradoxo – como a própria vida também o é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com moderação, deixamos de ser escravos dos desejos e passamos a ser co-autor das realizações. Podemos sim conquistar, ir atrás do que queremos, mas sempre entendendo que o tempo oportuno precisa estar afinado com os nossos desejos para que eles se concretizem no agora. A moderação também é nossa aliada pois nos protege de ciladas. Por que se briga tanto com ela, não é?&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com a energia da Temperança na nossa vida, entendemos que o momento, muitas vezes, não é de superar, mas sim, de respeitar nossos limites. Entender o que queremos, o que é possível, o que é bom, sempre na harmonia perfeita da consciência e dos ‘mistérios’ do inconsciente que também têm voz ativa nos nossos dias.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quantos momentos fantasiamos ter super poderes para acelerar os fatos, concluir o que nos consome, e brincarmos assim de semi-Deus? Mas a Temperança aparece nestes exatos momentos para nos ensinar que não se deve ter pressa; que é melhor aprender a ser pacientes e avançar aos poucos, com mais preparo, com mais cautela. Geralmente são momentos em que temos apenas que aceitar que nem tudo está ao nosso alcance, que nos resta ter calma e aguardar. Há um tempo certo para tudo na nossa vida. Encontramos na Bíblia a passagem que retrata perfeitamente este tempo de amadurecimento das coisas, que revela o ritmo da vida, do qual desconhecemos&nbsp; a ordem em que se dará o evento, pois isso pertence a Deus, mas que para cada coisa o seu tempo no propósito da existência:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“1 Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">2 Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">3 Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">4 Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">5 Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">6 Tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">7 Tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">8 Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz “. (Eclesiastes 3:1-8 )</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que, na simbologia desta carta, temos a figura de um anjo. Ou seja, não podemos deixar de lado a dimensão espiritual. É preciso também dar voz para este algo além da gente (da mente racional) quando ela se manifesta. O Self vai sempre tentar dialogar com a gente, então nos cabe apenas escutá-lo através das diversas manifestações do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste raciocínio, impossível não lembrar do relato do próprio Jung no ‘O Livro Vermelho’. Em duas passagens distintas, em momentos de angústia, ansiedade e raiva, a voz da alma fala para ele esperar. A primeira passagem pode ser encontrada no&nbsp;<em>Liber Primus</em>, Cap IV chamado ‘O deserto’:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“(&#8230;) o que me leva para o deserto, e o que eu devo fazer lá? Existe uma ilusão de que não posso mais confiar ao meu pensamento? Verdadeira é apenas a vida, e tão só a vida me leva ao deserto, realmente não meu pensar que gostaria de voltar para as pessoas, para as coisas, pois lhe é sinistro estar no deserto. Minha alma, o que eu devo fazer aqui? Mas a minha alma falou-me e disse: ‘Espera’. Eu escuto a terrível palavra. Ao deserto pertence a dor”. (JUNG, 2013 p.128)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir deste capítulo começa uma discussão de Jung sobre a questão do tempo&nbsp; &#8211; ele fala sobre o homem moderno e sua busca em ganhar tempo, acelerar o processo, etc., e que usa da aceleração do tempo um meio de não se responsabilizar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Antes de prosseguir para o segundo exemplo, é importante ressaltar que nos capítulos seguintes, de aprofundamento no deserto, Jung conclui que nem o espirito da época, nem o espirito da profundeza – alma – são divinos, mas que a balança é divina – se referindo ao equilíbrio entre o homem que trabalha e o homem que tem essas experiências, o equilíbrio entre o ego e o Self. Puxando para o nosso tema da virtude da Temperança, mesmo que seja iniciado por um período de dor ou desconforto, aprender a equilibrar as polaridades consciência e inconsciente é uma grande virtude.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na jornada dos Arcanos Maiores do Tarot, temos os arquétipos do Enforcado e da Morte antecedendo a Temperança, nos indicando a possibilidade de antes analisarmos as situações que nos trazem desconforto e fazermos as mudanças necessárias, tirando o que não nos serve mais, limpando o que foi deixado de lado para então, no momento dela, fazermos este equilíbrio, a ponderação, reorganizando os assuntos e sentimentos conforme cabe em cada vida. Pensando nos processos alquímicos, após a Putrefação sugerida no Arcano XIII da Morte, deve-se fazer a Destilação, onde todas as impurezas são extraídas do material já dissolvido, um processo de extração das virtudes. Robert M. Place reforça o propósito da Temperança com a simbologia da Alquimia quando relembra que a&nbsp;<em>“mítica Maria, a Judia,&nbsp;</em><em>é creditada como inventora da Destilaçã</em><em>o –&nbsp;</em><em>tamb</em><em>ém conhecida como Banho-Maria”</em>&nbsp;(2016 p.186), traz o processo mais fundamental da alquimia que é a extração do material de sua solução pela evaporação forçada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mais a frente, no cap. VI chamado Divisão do espírito, Jung novamente se revolta com a sua alma quando, novamente, ela propõe algo difícil para ele:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“(&#8230;) Este caminho está cercado de magia infernal; laços invisíveis foram atirados sobre mim e me amarram. Mas o espírito da profundeza aproximou-se de mim e falou: ‘Desce para tua profundeza, afunda-te’. Eu, porém, me revoltei contra ele e falei: ‘Como posso afundar-me? Sou incapaz de fazer isso comigo’. Então o espírito me dirigiu palavras que me pareceram ridículas, e ele disse: Senta-te e descansa’.”. (JUNG, 2013, p.142)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Concluímos, então, que a alma pede ação, mas muitas vezes pede que enfrentemos o estado da espera, da maturação. Enquanto a alquimia está sendo feita, devemos deixar alguns comandos de lado pois só assim é que teremos mais sabedoria para seguirmos a diante. Nem todos os conteúdos estão prontos para serem mexidos no agora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Temperança, desta forma, também nos induz a compreender a importância do sentimento como uma função de escolha ativa e inteligente. A água despejada incessantemente de um cálice para o outro se dá porque o sentimento também deve fluir constantemente, sendo reequilibrado a cada momento, de acordo com o que a situação pede. Nós temos a liberdade de escolha, mas temos também que entender que nem sempre os resultados serão imediatos. Deve se ter um olhar atento, honesto e profundo a cada momento, sempre e de novo &#8211; parafraseando o Jung no livro ‘A Natureza da Psique’ (2011).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesta difícil relação de espera, devemos compreender que não se trata de uma espera passiva, omissa, onde corremos o risco da procrastinação. A grande joia desta carta é compreender que na espera ativa, eu faço a minha parte, o que já está a minha disposição e deixo o espírito, a alma fazer a parte dela, numa equilibrada e harmoniosa interação do homem com o universo.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, nos tempos atuais de cólera, intolerância e imediatismo, vamos conversar com a Temperança dentro de nós e aprendermos qual é o nosso limite e quais os potenciais ainda não trabalhados, buscando sempre o nosso melhor diante das situações. Como comentei no início, é uma carta bela e doce porque se este momento for encarado como um potencial vasto de aprendizado da nossa alma, ela só tem a nos presentear. Agora é também temido por muitos pois nos traz aquele tipo de lição a qual nós não podemos fugir. Se quisermos amadurecer, teremos que aprender a lidar com ela, olhar no fundo dos seus olhos e humildemente nos render que existem outros de nós neste jogo da vida querendo também ter espaço e presença. Que na jornada da vida, temos alguns momentos de controle. Mas nos outros, só nos resta aguardar.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências Bibliográficas</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>A natureza da Psique</strong>: a dinâmica do inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<strong>O Livro Vermelho</strong>: edição sem ilustrações. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. [et al.]&nbsp;<strong>O Homem e seus símbolos</strong>. 2 edição especial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PLACE, Robert M.&nbsp;<strong>Alquimia e tarô&nbsp;</strong>– Uma investigação de suas conexões históricas. São Bernardo do Campo: Presságio, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Marcella Helena Ferreira</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Junguiana em formação pelo IJEP, especialista em Psicoterapia Junguiana e Psicossomática.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para contato:&nbsp;<a href="mailto:marcellahlferreira@gmail.com">marcellahlferreira@gmail.com</a>&nbsp;/@conhecendojung</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-marcella-helena-ferreira"><strong><em>Marcella Helena Ferreira&nbsp;</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-virtude-da-temperanca/">A virtude da temperança</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Quando o feminino se torna sombrio para a sociedade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/quando-o-feminino-se-torna-sombrio-para-a-sociedade-a-importancia-de-resgatar-o-arquetipo-do-feminino-para-o-desenvolvimento-humano/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 15 Jun 2019 19:27:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mulher]]></category>
		<category><![CDATA[arquétipo feminino]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[feminino]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5903</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo trata da importância de resgatar o arquétipo do feminino para o desenvolvimento social e humano. No meio de tantas discussões e confrontos atuais em relação ao feminismo e também ao machismo, percebemos uma parte considerável tanto de homens quanto de mulheres mais preocupados em levantar bandeiras do que buscar compreender as visões [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-o-feminino-se-torna-sombrio-para-a-sociedade-a-importancia-de-resgatar-o-arquetipo-do-feminino-para-o-desenvolvimento-humano/">Quando o feminino se torna sombrio para a sociedade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>O presente artigo trata da  importância de resgatar o arquétipo do feminino para o desenvolvimento social e humano.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">No meio de tantas discussões e confrontos atuais em relação ao feminismo e também ao machismo, percebemos uma parte considerável tanto de homens quanto de mulheres mais preocupados em levantar bandeiras do que buscar compreender as visões opostas e auxiliar para uma harmonização entre as polaridades. Percebemos esta característica em vários assuntos políticos, sociais, culturais, etc., sem que haja uma tentativa de diálogo entre eles.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto homens quanto mulheres encontram grandes dificuldades quando tentam dialogar com seu contraponto anímico da psique &#8211; chamado na visão analítica de anima e animus &#8211; fato este, que em muitas das vezes, leva o indivíduo à uma unilateralização, descartando a outra parte complementar da psique. Neste artigo, vou ampliar esta ideia focando nas mulheres e também em como as manifestações do arquétipo feminino se tornaram sombrias para a sociedade em que vivemos.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-as-regras-sao-ditadas-pelo-coletivo-qualquer-aspecto-pessoal-que-vai-contra-a-massa-se-torna-sombrio-para-o-individuo-permanecendo-escondido-e-reprimido-da-consciencia" style="font-size:18px">Quando as regras são ditadas pelo coletivo, qualquer aspecto pessoal que vai contra a massa se torna sombrio para o indivíduo, permanecendo escondido e reprimido da consciência.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje encontramos muitas mulheres nesta situação: se escondendo em troca de uma adequação aos padrões coletivos. <strong>Com isso, olhar para sua alma implica para a mulher olhar também para seus aspectos sombrios</strong>, uma vez que estão cada vez mais identificadas com a sua persona masculinizada, ou mesmo sendo influenciadas no nível inconsciente pelo animus negativo, olhar para sua alma feminina se torna o primeiro passo para uma busca de totalidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ideia trabalhada pela autora <strong>Nancy QuallsCorbett</strong> e fundamentada pela junguiana <strong>Ann Unalov </strong>que afirma que o processo de individuação se inicia através do confronto inicial com o feminino.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">&#8220;para o homem, através da anima, que leva ao si-mesmo; para a mulher, através do si-mesmo feminino, e não através de quaisquer elementos contrassexuais.&#8221; </p>
<cite>(QUALLS-CORBETT, 2002 p. 71) </cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ou-seja-sendo-de-vital-importancia-o-olhar-para-a-energia-feminina" style="font-size:19px"><strong>Ou seja, sendo de vital importância  o olhar para a energia feminina</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todos nós estamos, de certa forma, acostumados a ver mulheres influenciadas por um animus negativo, alimentando diariamente uma atitude masculinizada e, qualquer mudança nesta condição acabará influenciando a todos, homens e mulheres &#8211; pois os homens também têm um lado feminino em sua psique. Jung, em sua obra, fala sobre a diferenciação psíquica da mulher e a sua importância também para o masculino quando cita a influência da anima: </p>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher, com sua psicologia tão diversa da psicologia masculina, é e sempre foi uma fonte de informação sobre as coisas que o homem nem mesmo vê. É capaz de inspirá-lo e sua capacidade intuitiva, muitas vezes superior à do homem, pode adverti-lo convenientemente. Seu sentimento, orientado para as coisas pessoais, é apto para indicar-lhe caminhos; sem essa orientação, o sentimento masculino, menos orientado para o elemento pessoal, não os descobriria (JUNG, 2011b, p. 78). A História nos proporcionou grandes avanços culturais, sociais e tecnológicos, mas às custas da negação de outros aspectos, também importantes, como uma alma feminina. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">&#8220;À medida que o princípio espiritual masculino se tornou mais dominante, a apreciação da natureza feminina instintiva retrocedeu para o inconsciente&#8221; </p>
<cite>(QUALLS-CORBETT, 2002 p. 65).</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, as imagens arquetípicas do feminino se tornam sombrias para a mulher contemporânea. Para sobreviver no modelo atual da sociedade, principalmente no ambiente profissional, é imprescindível um animus positivo que a ajude a transitar pelo simbólico-relacional, porém, aqui estamos retratando quando ele é negativo levando a mulher a ostentar uma persona masculizada para se sentir aprovada. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-harding-traz-em-seu-livro" style="font-size:22px">Harding traz em seu livro: </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse desenvolvimento masculino está definitivamente ligado à sua vida no mundo dos negócios e, na maioria dos casos, é até exigido como um pré-requisito para se ganhar a vida no mundo, praticando uma profissão ou seguindo uma ocupação. A mudança de caráter, que tem acompanhado essa evolução, não existe só na parte profissional da vida de uma mulher, mas afeta a sua personalidade inteira, e tem causado mudanças profundas na sua relação consigo mesma e com os outros. (&#8230;) essas mudanças têm produzido para a mulher um inevitável conflito interno entre a necessidade de expressar-se através do trabalho, como um homem faz, e a necessidade interior de viver de acordo com sua própria natureza feminina (HARDING, 1985, p. 35).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A mulher que nega sua alma, asfixia sua criatividade e também o desenvolvimento pessoal. É preciso desenvolver um diálogo entre as polaridades, aprender a se relacionar com ele e usá-lo ao nosso favor. Normalmente a mulher tomada pelo animus negativo não tem consciência de que é ele quem está dominando uma vez que ele age de modo inconsciente.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-esta-ideia-jung-escreve" style="font-size:21px">Sobre esta ideia, <strong>Jung</strong> escreve:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A mulher tomada pelo animus corre sempre o risco de perder sua feminilidade, sua persona adequadamente feminina. (&#8230;) tais transformações psíquicas do sexo implicam-se pelo fato de que uma função interior se volta para fora. O motivo desta perversão é, naturalmente, a insuficiência ou o desconhecimento total do mundo interior, que se ergue, autônomo, em oposição ao mundo exterior; as exigências de adaptação ao mundo interior igualam às do mundo exterior.</p>
<cite>(JUNG, 2012b, p. 100)</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">É notável que a mulher demasiadamente identificada com a sociedade patriarcal tem uma tendência de supervalorizar a persona masculinizada. Com isso, cria-se um ideal de dominação de si-mesma, ou seja, de controle absoluto de tudo &#8211; e este é um pensamento tipicamente masculino -, que só se consegue às custas da repressão de sua sensibilidade. Ela se ‘esquece de olhar para dentro e de se questionar o que faz sentido para sua vida. Jung destaca que quando uma mulher está tomada pelo animus negativo, &#8220;ela reprime também certas emoções como se fossem fraquezas femininas&#8221; (JUNG, 2011a p. 50).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-fazer-isso-essa-feminilidade-e-sentimentalidade-reprimida-se-acumulam-e-se-tornam-sombrias-tanto-para-a-propria-mulher-quanto-para-o-coletivo" style="font-size:18px">Ao fazer isso, essa feminilidade e sentimentalidade reprimida se acumulam e se tornam sombrias tanto para a própria mulher quanto para o coletivo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O resgate da alma feminina na psique da mulher é vital &#8220;se as mulheres quiserem entender a si próprias, mas também se o mundo patriarcalmente masculino, adoecido graças à sua unilateralidade extrema, quiser re-cobrar a saúde&#8221;, enfatiza Neumann</strong> (2011, p. 5).</p>



<p class="wp-block-paragraph">É de vital importância que a mulher entenda a importância de se olhar simbolicamente, de resgatar e respeitar os valores da sua alma. Se o caminho para a individuação é buscar um equilíbrio ou aprender a lidar com a tensão entre os, a mulher de hoje tem um caminho um pouco mais longo para percorrer. Mais do que aprender a usar o lado masculino interior a seu favor, a mulher precisa antes se conhecer, voltar a acolher seu lado feminino da alma, para então entender e aprender a ressignificar também a imagem que ela terá do masculino. Entendendo que o homem não pode ser mais um adversário dela, mas sim também um aliado, um companheiro de jornada.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma mulher que se respeita, abre espaço para outras mulheres poderem se expressar. Uma mulher com consciência das suas polaridades melhora a imagem do feminino tanto para outras mulheres quanto para os homens. E sabendo que para o processo de individuação masculina é necessário aprender a relacionar com o feminino interior dele, teremos um ganho onde o homem também aprenderá a valorizar a imagem de mulher dentro e fora dele. Como reflexo desta reação, a mulher tem hoje um trabalho duplo: resgatar e aprender a conhecer tanto seu lado feminino quanto seu lado masculino; só assim ela conseguirá acessar sua totalidade, sem negar nenhum dos lados.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-desta-forma-podemos-concluir-que-o-arquetipo-do-feminino-se-tornou-sombrio-para-o-desenvolvimento-humano" style="font-size:20px">Desta forma, podemos concluir que o arquétipo do feminino se tornou sombrio para o desenvolvimento humano.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A tomada de consciência para este fato e a iniciativa de resgatá-lo é vital para o desenvolvimento e saúde da mulher e também para a mudança da sociedade. Não podemos ficar na ilusão de que hoje as mulheres ganharam tanta autonomia que têm a liberdade de serem quem elas quiserem. É preciso se desprender das regras e exigências impostas pelo animus, que inibem a expressão da sua totalidade. É preciso lutar para o seu feminino ter voz, e a expressão da sua alma ser valorizada justamente por ser quem se é.   </p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/marcellaferreira/">Marcella Ferreira</a> &#8211; Psicoterapeuta junguiana, taróloga, membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="mailto:marcella@conhecendojung.com.br">marcella@conhecendojung.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;<a href="http://www.conhecendojung.com.br/">www.conhecendojung.com.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Espaço Leela (consultório) &#8211; Vila Mariana &#8211; SP</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">HARDING, Mary Esther. 1985. Os mistérios da mulher. São Paulo : Paulinas, 1985.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. 2011a. Civilização em transição. 4º. Petrópolis : Vozes, 2011a. Vol. 10/3.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;-. 2012b. O eu e o inconsciente. 24º. Petrópolis : Vozes, 2012e. Vol. 7/2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, Erich. 2011.&nbsp;O medo do feminino. 2º. São Paulo : Paulus, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">QUALLS-CORBETT, Nancy. 2002. A prostituta sagrada. 1º. São Paulo : Paulus, 2002.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-marcella-helena-ferreira"><strong><em>Marcella Helena Ferreira</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/quando-o-feminino-se-torna-sombrio-para-a-sociedade-a-importancia-de-resgatar-o-arquetipo-do-feminino-para-o-desenvolvimento-humano/">Quando o feminino se torna sombrio para a sociedade</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
