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	<title>Sebastien Baudry, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Sebastien Baudry, Autor em Blog IJEP</title>
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		<title>Alma, música e inteligência artificial</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 11 Jul 2026 19:51:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
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		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A crescente presença da inteligência artificial na produção musical e artística desafia concepções tradicionais sobre criatividade, emoção e experiência humana. Se a arte constitui uma expressão simbólica da vida psíquica, capaz de conectar o indivíduo às dimensões conscientes e inconscientes da existência, como compreender obras produzidas por sistemas que não sonham, não sofrem e não possuem subjetividade própria? A partir de uma reflexão sobre o papel do símbolo na Psicologia Analítica e das noções de simulacro propostas por Baudrillard, emerge a questão de saber se a arte gerada por IA representa uma nova forma de expressão simbólica ou apenas uma simulação cada vez mais convincente da experiência estética.</p>
<p>A aparente capacidade dessas obras de despertar emoção, empatia e identificação conduz a uma reflexão mais ampla sobre a relação contemporânea com o simbólico, a autenticidade e a própria condição humana.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: A crescente presença da inteligência artificial na produção musical e artística desafia concepções tradicionais sobre criatividade, emoção e experiência humana. Se a arte constitui uma expressão simbólica da vida psíquica, capaz de conectar o indivíduo às dimensões conscientes e inconscientes da existência, como compreender obras produzidas por sistemas que não sonham, não sofrem e não possuem subjetividade própria? A partir de uma reflexão sobre o papel do símbolo na Psicologia Analítica e das noções de simulacro propostas por Baudrillard, emerge a questão de saber se a arte gerada por IA representa uma nova forma de expressão simbólica ou apenas uma simulação cada vez mais convincente da experiência estética.</p>



<h2 id="h-a-aparente-capacidade-dessas-obras-de-despertar-emocao-empatia-e-identificacao-conduz-a-uma-reflexao-mais-ampla-sobre-a-relacao-contemporanea-com-o-simbolico-a-autenticidade-e-a-propria-condicao-humana" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">A aparente capacidade dessas obras de despertar emoção, empatia e identificação conduz a uma reflexão mais ampla sobre a relação contemporânea com o simbólico, a autenticidade e a própria condição humana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Este final de semana &#8211; como gosto de fazer para relaxar &#8211; tentei ir tomar café em uma das cafeterias &#8220;descoladas&#8221; aqui na cidade. Digo tentei porque sempre está lotada e, no sábado à tarde, costuma ser difícil achar um lugar para sentar-se. Mas, como estava chovendo um pouco, decidi tentar a sorte, acreditando que o mau tempo fosse dissuadir as pessoas de sair de casa. Coloquei o fone de ouvido para fazer companhia e liguei naquela plataforma de streaming do logotipo verde, a mesma que tem uma funcionalidade interessante&nbsp; de &#8220;descobertas da semana&#8221; que procura encontrar músicas recentes no padrão do histórico de escutas da pessoa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estranhamente, começou com uma música MPB. Lembro-me bem de pensar, assim que a moça começou a cantar: que música mal escrita!!! Optei por trocar e ouvir uma cantora espanhola que eu havia descoberto uns dias antes. Chegando à cafeteria, ela estava lotada, não consegui entrar e tive que voltar, debaixo de chuva, um tanto decepcionado. Porém, a música era tão boa de ouvir e com este estilo que chamam de &#8220;neo flamenco&#8221; ou &#8220;flamenco soul&#8221;, que desperta uma energia tão emocional, que até pensei em dar voltas pelo bairro, apesar da chuva, para poder aproveitar um pouco mais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Foi então que algo chamou minha atenção. Pareceu-me que soava um pouco estranho, um pouco artificial, especialmente quando a cantora buscava notas mais difíceis, mais agudas, como se algo tivesse sido corrigido na gravação. Porém, isso não fazia sentido devido à alta técnica vocal que ela apresentava nas outras partes da música. Fui então procurar saber mais sobre essa cantora. Busquei imagens e vídeos para perceber se, em apresentações ao vivo, isso também era perceptível. Não encontrei nada, por um simples e agora óbvio motivo: Essa cantora não existe! Ela é uma criação da inteligência artificial.</p>



<h2 id="h-foi-para-mim-uma-imensa-decepcao-e-me-peguei-a-pensar-a-musica-da-ia-desperta-mais-emocao-que-a-musica-humana-a-ia-esta-roubando-a-nossa-alma" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Foi para mim uma imensa decepção e me peguei a pensar: A música da IA desperta mais emoção que a música humana? A IA está roubando a nossa alma!?!</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Antes que me julguem e me chamem de preconceituoso, preciso me justificar. A primeira coisa que notei foi que a métrica da letra não acompanha o ritmo intrínseco dos instrumentos, como está acontecendo em várias músicas &#8220;pop&#8221; contemporâneas. Ou seja, a acentuação das palavras não &#8220;casa&#8221; com a &#8220;batida&#8221; da música. Isto é uma tendência mundial nas composições de hoje, certamente devido ao fato de que a tecnologia permite que letristas e compositores possam trabalhar de forma assíncrona, sem obrigatoriamente se encontrar. E faz com que se tente encaixar uma letra numa música já escrita ou vice-versa, e não mais, como antigamente, ter dois processos criativos que acontecem em simbiose. Isto provoca, às vezes, para os ouvidos um pouco mais treinados, a sensação de que se tentou forçar um redondo em um quadrado.</p>



<h2 id="h-este-fenomeno-e-especialmente-perceptivel-no-brasil-devido-ao-fato-de-que-o-portugues-falado-e-uma-lingua-baseada-em-acentuacao-grafica-e-que-portanto-eliminar-esses-acentos-para-encaixa-los-numa-melodia-que-nao-foi-composta-se-preocupando-com-a-posicao-das-silabas-nas-frases-faz-a-letra-soar-estranha" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Este fenômeno é especialmente perceptível no Brasil devido ao fato de que o português falado é uma língua baseada em acentuação gráfica e que, portanto, eliminar esses acentos para encaixá-los numa melodia que não foi composta se preocupando com a posição das sílabas nas frases faz a letra soar estranha.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para entender melhor ao que me refiro, é simples: relembremos a letra de Garota de Ipanema, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Não precisa cantar, basta dizer em voz alta: &#8220;Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, que é essa menina, que vem e que passa&#8221;, para ouvir de imediato a batida do violão da bossa nova e imaginar o balanço do mar e o andar gracioso da carioca caminhando em Ipanema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso em si é relevante, mas menos do que o segundo ponto, a seguir. Nessa música que citei acima, mas também em muitas canções de MPB contemporâneas, podemos notar que a letra é quase 100% baseada em ideias, opiniões ou lições, de forma essencialmente racional, em total contraste com sucessos mais antigos, nos quais a letra era muito mais poética. Lembramos os dentes de chumbo, a lava e a solidão de Paulinho da Viola, a revelação da ingratidão pela Rolleiflex de João Gilberto, o oceano de Djavan, as ilhas que dançam sobre o mar de uma tarde que não quer se pôr no Relicário de Nando Reis, e muitas outras pérolas da escrita popular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando Keppie Coutts, professora de <em>songwriting</em> (escrita de letras) da renomada faculdade de música Berklee College of Music, em Boston, nos Estados Unidos, e do Conservatório de Sydney, na Austrália, ensina que, para ser um sucesso, a letra de uma música precisa mesclar ideias e pelo menos 50% de metáforas, ela está, em verdade, nos dizendo que toda boa música precisa ter uma dimensão simbólica.</p>



<h2 id="h-e-podemos-entender-isso-em-termos-junguianos-sem-essa-dimensao-simbolica-se-nao-ha-poesia-nao-ha-arte" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">E podemos entender isso em termos junguianos. Sem essa dimensão simbólica, se não há poesia, não há arte. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">A música vira notícia, a literatura vira jornalismo. Poderíamos dizer que, para o ouvinte ou espectador, esse tipo de construção artística somente ativa a função pensamento, ignorando totalmente sensação, intuição e sentimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sem a dimensão simbólica, a letra absolutamente literal não provoca emoção e o assunto contado de forma linear não permite um vínculo afetivo, somente uma identificação racional. É vital entendermos a importância do simbólico no funcionamento e no impacto psíquico que a arte tem sobre nós, os humanos.</p>



<h2 id="h-jung-afirma-que-a-psique-e-feita-de-uma-serie-de-imagens-no-sentido-mais-amplo-do-termo-nao-e-porem-uma-justaposicao-ou-uma-sucessao-mas-uma-estrutura-riquissima-de-sentido-e-uma-objetivacao-das-atividades-vitais-expressa-atraves-de-imagens-jung-2013a-p-281" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Jung afirma que: “a psique é feita de uma série de imagens, no sentido mais amplo do termo; não é, porém, uma justaposição ou uma sucessão, mas uma estrutura riquíssima de sentido e uma objetivação das atividades vitais, expressa através de imagens” (JUNG, 2013a, p. 281).</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E, ao lembrarmos Hillman quando diz &#8220;(&#8230;) As imagens nos sustentam, e podemos estar nas garras de uma imagem. De fato, elas podem vir de nossas profundezas mais viscerais&#8221;, podemos entender um pouco melhor o funcionamento da arte e sua supraimportância para a humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O símbolo, expresso na forma da imagem, nos conecta com nossa dimensão emocional e inconsciente, e isso é uma via de mão dupla. Olhar para uma pintura ou ouvir uma poesia abre um canal direto para descermos até nossas profundezas e mergulharmos num lamaçal de emoções, sentindo coisas que nem sabíamos que existiam em nós. Mas o movimento não acontece apenas de fora para dentro. A experiência artística também permite que conteúdos ocultos, esquecidos ou ainda não compreendidos encontrem uma forma de expressão. Aquilo que permanece nas sombras da psique pode emergir através da imagem simbólica, tornando-se visível à consciência. Em outras palavras, a arte não apenas nos toca; ela também nos revela. Ela cria uma ponte entre nossa experiência individual, os conteúdos coletivos do inconsciente e a capacidade humana de refletir sobre ambos.</p>



<h2 id="h-isto-tende-a-explicar-porque-individuos-completamente-distintos-com-historias-diferentes-e-das-mais-variadas-culturas-podem-se-encontrar-em-torno-de-series-filmes-e-musicas-ate-mesmo-em-linguagens-diferentes-pois-sao-unidos-pelo-impacto-emocional-da-mesma-imagem-simbolica" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Isto tende a explicar porque indivíduos completamente distintos, com histórias diferentes e das mais variadas culturas, podem se encontrar em torno de séries, filmes e músicas, até mesmo em linguagens diferentes, pois são unidos pelo impacto emocional da mesma imagem simbólica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A arte, na perspectiva da Psicologia Analítica, constitui uma expressão simbólica da vida psíquica. Isto significa que a arte somente pode existir a partir da soma de experiências humanas, sejam elas individuais ou frutos de uma vivência coletiva. No entanto, estamos vendo emergir uma profusão de obras criadas pelo uso de algoritmos. Mais de 40% de todo o catálogo da supracitada plataforma de streaming foi criado por inteligências artificiais generativas. Obras estas que estão tendo um impacto emocional a tal ponto que hoje fica difícil reconhecer o verdadeiro do artificial, o humano daquilo que foi criado pela máquina.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Além da minha experiência pessoal, alguns meses atrás circulou nas redes sociais uma &#8220;trend&#8221; de milhares de pessoas repostando vídeos de selfies dançando ao som de uma versão gospel da música &#8220;Staying Alive&#8221;, dos Bee Gees. Versão obviamente criada por uma IA, sem que ninguém aparentemente se importe. Isso introduz uma série de questões inéditas: Como pode existir simbolismo sem sujeito?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma pintura, um poema ou uma composição musical produzidos por um algoritmo são capazes de mobilizar emoções, evocar imagens arquetípicas e despertar experiências subjetivas profundas. Entretanto, diferentemente do artista humano, a inteligência artificial não sonha, não sofre, não ama e não participa da dinâmica simbólica da psique. E, por definição, por ser uma máquina, não tem vida própria e não pode haver uma vivência real da transformação do instinto, do arquétipo em desejo, do nascimento interior da vontade, nem da experiência transformadora do numinoso.</p>



<h2 id="h-ainda-assim-suas-producoes-parecem-atingir-o-observador-de-maneira-semelhante-a-arte-tradicional-surge-entao-uma-tensao-fundamental-entre-o-efeito-simbolico-produzido-na-consciencia-do-receptor-e-a-ausencia-aparente-de-uma-experiencia-interior-que-de-origem-a-obra" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">Ainda assim, suas produções parecem atingir o observador de maneira semelhante à arte tradicional. Surge então uma tensão fundamental entre o efeito simbólico produzido na consciência do receptor e a ausência aparente de uma experiência interior que dê origem à obra.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essa questão também pode ser compreendida à luz das reflexões de Jean Baudrillard. Para o filósofo francês, a sociedade contemporânea é marcada pela presença crescente dos simulacros, isto é, representações que passam a funcionar independentemente de uma realidade original. Sob essa perspectiva, a arte produzida por inteligência artificial apresenta um desafio interessante. A emoção despertada por uma música criada por IA não depende necessariamente de uma experiência humana real que lhe deu origem, mas da sua capacidade de produzir significado e provocar emoções no ouvinte a partir de um compilado sem vida de imagens, de um catálogo de conceitos inertes. A obra deixa de ser apenas a expressão de uma vivência pessoal para tornar-se uma construção capaz de reproduzir os efeitos da experiência estética.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Parece surgir então um fenômeno importante: não estamos diante de uma nova forma de expressão simbólica, mas apenas de uma simulação cada vez mais convincente daquilo que tradicionalmente reconhecemos como arte?</p>



<h2 id="h-e-isso-nos-obriga-a-olhar-para-uma-questao-preocupante" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">E isso nos obriga a olhar para uma questão preocupante.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Hoje parece ser possível fazer arte sem artista, ou seja, ter uma experiência humana profunda e significativa baseada em uma forma de colagem de imagens vazias, ao mesmo tempo em que as obras produzidas por humanos já não possuem mais a qualidade simbólica que a arte verdadeira costumava expressar. Isto não significa, portanto, que as máquinas estejam demonstrando cada vez mais inteligência, porque o algoritmo nunca poderá ser maior do que uma cópia cada vez mais fiel do real, mas que, em contrapartida, a humanidade está perdendo sua conexão com o simbólico, com o profundo, com o sagrado, ou seja, com tudo aquilo que expressa a peculiaridade da espécie humana no planeta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um estudo publicado em 2023 por John W. Ayers et al. no JAMA Internal Medicine comparou a percepção de pessoas atendidas em telemedicina por humanos e por chatbots de inteligência artificial. Os avaliadores preferiram as respostas da IA em cerca de 79% dos casos, não pelo lado técnico, mas porque as respostas dadas pareceram mais empáticas e acolhedoras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, ao contrário do que eu disse no início do artigo, não parece que a inteligência artificial apresente um perigo porque estaria roubando a nossa alma. Isto ela não poderia fazer. Transistores, CPUs e outros componentes eletrônicos não podem criar e <a>nem roubar</a><a href="#_msocom_1">[1]</a>&nbsp; alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O alarme há de soar porque, se GPT, Gemini e outros Claudes parecem ter mais alma do que nós, é porque, certamente, estamos perdendo nossa humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/sebastienbaudry/" data-type="link" data-id="https://blog.ijep.com.br/author/sebastienbaudry/">Sebastien Baudry &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista didata IJEP</a></strong></p>



<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:16px">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Comparing Physician and Artificial Intelligence Chatbot Responses to Patient Questions Posted to a Public Social Media Forum, <em>AMA Internal Medicine</em>. 2023</p>



<p class="wp-block-paragraph">BAUDRILLARD, Jean, Simulacres et simulation, Paris&nbsp;: Galilée, 1981</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Natureza da psique</em>. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013<br>HILLMAN, James.&nbsp;<em>Uma investigação sobre a imagem</em>. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a id="_msocom_1"></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Existe solitude?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/existe-solitude/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Feb 2026 12:06:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[Solidão]]></category>
		<category><![CDATA[Solitude]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A solidão, longe de ser apenas um estado emocional, tornou-se um dos grandes desafios da saúde mental contemporânea, associada ao aumento de depressão, ansiedade, suicídio e declínio cognitivo. Diante desse cenário, ganha força a ideia de “solitude” como um estar só supostamente positivo e criativo. Questionamos o porquê e o significado dessa oposição gramatical. E com base em Jung, dados científicos, música e poesia, sugerimos uma reflexão: talvez a “solitude” não seja um contraponto à solidão, mas um parceiro necessário para que possa cumprir uma missão, permitir a integração das sombras, individuais e coletivas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo</strong>: A solidão, longe de ser apenas um estado emocional, tornou-se um dos grandes desafios da saúde mental contemporânea, associada ao aumento de depressão, ansiedade, suicídio e declínio cognitivo. Diante desse cenário, ganha força a ideia de “solitude” como um estar só supostamente positivo e criativo. Questionamos o porquê e o significado dessa oposição gramatical. E com base em Jung, dados científicos, música e poesia, sugerimos uma reflexão: talvez a “solitude” não seja um contraponto à solidão, mas um parceiro necessário para que possa cumprir uma missão, permitir a integração das sombras, individuais e coletivas.</p>



<h2 class="wp-block-heading has-text-align-center" id="h-solid-a-o-que-nada-viver-e-bom" style="font-size:18px">“<em>Solid</em><em>ã</em><em>o que nada, viver é bom”.</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Estas são as palavras de Cazuza. E de imediato, percebemos que a vírgula introduz um contraponto. Se viver é bom, então o que vem antes, a solidão, é obrigatoriamente ruim. Ele parece nos dizer que tudo aquilo que ele relata da vida de artista nessa música que fez em parceria com George Israel e Nilo Romero, as partidas e as chegadas, as diárias de hotéis e os quartos, em princípio vazios, haveriam de parecer um sacrifício, mas que, em verdade, são oportunidades de encontros, crescimento e alegria.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-mistura-de-estar-so-com-bem-estar-ha-quem-chame-de-solitude" style="font-size:18px">Essa mistura de estar só com bem-estar, há quem chame de <em>solitude</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A palavra solitude carrega consigo uma carga histórica, cultural e psicológica significativa. Tradicionalmente, é compreendida como a experiência de estar só ou, mais profundamente, de sentir-se isolado do convívio e do reconhecimento do outro. Não por acaso, é uma das condições humanas mais temidas e evitadas, pois remete ao vazio, à ausência e, muitas vezes, ao sofrimento psíquico. Em oposição, o termo <em>solitude</em> se popularizou nos últimos tempos para tentar diferenciar a solidão “sofrida” de uma suposta solidão “escolhida” ou “produtiva”. <em>Solitude</em> seria, então, o estado de estar só, mas em paz, desfrutando de si mesmo, enquanto solidão representaria o sofrimento pela ausência do outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Este significado para a palavra <em>solitude</em> já consta em vários dicionários, o que lhe confere uma legitimidade; no entanto, se procurarmos analisar a essência e os conceitos por trás dela, ao comparar a etimologia das duas palavras, encontramos que:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:18px">Solitude vem do latim&nbsp;<em>solitū</em><em>do,</em><em>īnis</em>&nbsp;&#8216;solidão, retiro&#8217;;</li>



<li style="font-size:18px">Solidão vem do latim&nbsp;<em>solitū</em><em>do,</em><em>īnis</em>&nbsp;&#8216;solidão, retiro; desamparo, abandono&#8217;;</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Lemos no dicionário <em>Oxford</em> <em>Language</em> que ambas têm a mesma raiz latina, que significa “estado de estar só”. O termo <em>solitude</em>, incorporado ao português por influência de línguas estrangeiras (especialmente do inglês <em>solitude</em> e do francês <em>solitude,</em> que significa literalmente solidão), não traz, em sua origem, uma distinção positiva em relação à solidão.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas então, se não tem na base nenhuma diferença, se a distinção entre solidão e <em>solitude</em> não se sustenta etimologicamente, por que a língua brasileira sentiu necessidade de inventar uma nova palavra a partir da mesma raiz, mas derivando-a de maneira em aparência totalmente oposta?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Vamos desenvolver aqui uma reflexão a este respeito e procurar entender se a arte, especialmente a poesia e a música popular, e a psicologia analítica, conseguem nos ajudar a entender esse mistério da linguística moderna.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esta-reflexao-me-veio-apos-ouvir-novamente-a-frase-bem-conhecida-do-jung" style="font-size:18px">Esta reflexão me veio após ouvir novamente a frase bem conhecida do Jung:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A solid</em><em>ã</em><em>o n</em><em>ão significa a aus</em><em>ê</em><em>ncia de pessoas </em><em>à </em><em>nossa volta, mas sim o fato de não podermos comunicar-lhes as coisas que julgamos importantes, ou mostrar-lhes o valor de pensamentos que lhes parecem improv</em><em>á</em><em>veis. (JUNG, 2016, p. 349)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pouco à frente ele acrescenta:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>A solid</em><em>ã</em><em>o n</em><em>ã</em><em>o significa necessariamente oposi</em><em>çã</em><em>o à </em><em>comunidade; ningu</em><em>é</em><em>m sente mais profundamente a comunidade do que o solit</em><em>á</em><em>rio, e esta s</em><em>ó </em><em>floresce quando cada um se lembra de sua pr</em><em>ó</em><em>pria natureza, sem identificar-se com os outros. (</em><em>JUNG, 2016, p. 349)</em><em></em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung aqui não somente nos fala em conceitos e ideias intelectuais. Por “coisas” precisamos também entender sensações, sentimentos e dores de todas as naturezas. Esses pensamentos do Jung parecem trazer uma dupla perspectiva sobre a solidão. De um lado, a solidão nasce de não poder expressar algo que vem de dentro, quando o mundo interior se choca com o mundo exterior, mesmo quando cheio de gente. E, nesse caso, se sente só aquele que não encontra um ouvido competente, compassivo ou compreensivo. Mas ao mesmo tempo, o encontro com a própria natureza precisa de um afastamento do coletivo para acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É nesse recolhimento que certas verdades internas finalmente conseguem emergir, pois o silêncio e a ausência de estímulos externos abrem espaço para escutarmos a nós mesmos. Estar só permite que aspectos profundos da psique se tornem visíveis, revelando conteúdos que dificilmente afloram na presença constante do outro. Assim, a solidão, quando vivida conscientemente, pode transformar-se em um terreno fértil para reflexão e autoconhecimento. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, quando o tema é solidão, algumas referências musicais vêm à minha mente, expressando também essas duas facetas da solidão. Isto parece corroborar a necessidade do uso de duas palavras. Aprofundemos mais um pouco. Imediatamente ouço na minha cabeça a voz de Marisa Monte cantando as palavras de Paulinho da Viola:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Solid</em><em>ã</em><em>o é </em><em>lava que cobre tudo;</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Amargura em minha boca, sorri seus dentes de chumbo</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Solid</em><em>ão, palavra cavada no coraçã</em><em>o;</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.4"><em>Resignado e mudo no compasso da desilusã</em><em>o.</em><em></em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esses-versos-dentro-dos-mais-bonitos-da-musica-popular-brasileira-ja-nos-dao-o-tom-para-muitos-a-solidao-doi-o-fato-de-estar-so-quando-imposto-pelo-outro-e-doloroso" style="font-size:18px">Esses versos, dentro dos mais bonitos da música popular brasileira, já nos dão o tom: Para muitos, a solidão dói. O fato de estar só, quando imposto pelo outro, é doloroso.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A solidão desponta como um fenômeno global e crescente que afeta pessoas de todas as idades, mas os dados recentes mostram que seu impacto precoce, especialmente na infância e adolescência, pode gerar efeitos duradouros sobre o desenvolvimento emocional, cognitivo e social. Jovens entre 13 e 29 anos já relatam níveis elevados de solidão, desmontando a ideia de que esse sofrimento pertence apenas à velhice e revelando vulnerabilidades intensas em fases de formação identitária. (Wang, J., Jiao, D., Zhao, X., et al., 2025).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estudos-contemporaneos-indicam-que-experiencias-de-isolamento-na-infancia-aumentam-o-risco-de-depressao-ansiedade-e-ate-declinio-cognitivo-e-demencia-na-vida-adulta-reforcando-que-a-solidao-atua-de-forma-cumulativa-ao-longo-da-vida" style="font-size:18px">Estudos contemporâneos indicam que experiências de isolamento na infância aumentam o risco de depressão, ansiedade e até declínio cognitivo e demência na vida adulta, reforçando que a solidão atua de forma cumulativa ao longo da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Somado a isso, a solidão está associada à mortalidade precoce em níveis comparáveis a fatores como tabagismo e sedentarismo, além de relacionar-se ao aumento de suicídios e sofrimento mental, especialmente em contextos de ruptura social e falta de apoio. Esses achados evidenciam que compreender e prevenir a solidão desde cedo é essencial para reduzir seus impactos profundos na saúde individual e coletiva. (Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., Baker, M., Harris, T., &amp; Stephenson, D., 2015).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O <em>Harvard Study of Adult Development</em><em> </em>(WALDINGER, Robert J.; SCHULTZ, Marc, 2023), pesquisa realizada desde 1938, o mais longo estudo já realizado sobre vida adulta e felicidade, demonstra que pessoas com relacionamentos sociais fortes vivem mais, têm melhor saúde mental e física e apresentam menor risco de declínio cognitivo do que aquelas isoladas, colocando os vínculos afetivos acima de riqueza ou status como fator central de bem-estar.&nbsp; O estudo conclui que a ausência de conexões humanas profundas coloca indivíduos em clara desvantagem física e emocional ao longo da vida, reforçando que o oposto da solidão não é a presença de pessoas, mas a presença de relacionamentos significativos, comprovando o que C.G. Jung já nos havia dito.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Segundo o diretor do estudo, Robert Waldinger, a solidão é tão prejudicial à saúde quanto tabagismo e abuso de álcool, contribuindo para maior mortalidade e sofrimento psicológico. Razão pela qual ele é categórico ao afirmar que “loneliness kills”: solidão mata.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-daquilo-que-nos-quer-matar-queremos-distancia" style="font-size:18px">E, daquilo que nos quer matar, queremos distância.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E se, estar só, como o disse Jung, é consequência do fato de não podermos compartilhar com os outros tudo aquilo que sentimos e pensamos, entendemos que a solidão vem sempre acompanhada, e também retroalimenta, o que ele chamou de Sombra.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-figura-da-sombra-personifica-tudo-o-que-o-sujeito-nao-reconhece-em-si-e-sempre-o-importuna-direta-ou-indiretamente-como-por-exemplo-tra-c-os-inferiores-de-car-a-ter-e-outras-tend-e-ncias-incompat-i-veis-jung-2016a-p-513" style="font-size:18px"><em>A figura da sombra personifica tudo o que o sujeito não reconhece em si e sempre o importuna, direta ou indiretamente, como por exemplo tra</em><em>ç</em><em>os inferiores de car</em><em>á</em><em>ter e outras tend</em><em>ê</em><em>ncias incompat</em><em>í</em><em>veis. (JUNG, 2016a , p.</em><em> 513)</em><em></em></h2>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Carlos Drummond de Andrade diz poeticamente que “solidão gera inúmeros companheiros em nós”, poderíamos ouvir isso como se estivéssemos em uma aula sobre os fundamentos da psicologia analítica. A solidão gera o que Jung chamou de complexos, amalgamas autônomos de afetos agrupados em volta de um mesmo conceito e que para muitos tornam-se parceiros, infelizes cúmplices para a vida inteira.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas uma das características mais importantes da sombra e dos complexos, que formam o inconsciente pessoal, é que eles são partes constituintes do nosso ser. Como Jung disse singelamente em Prática da Psicoterapia (p. 146), “a sombra não existe sem a luz, o mal não existe sem o bem, e vice-versa”. Nós somos, portanto, feitos de tudo que gostamos em nós, das nossas qualidades, mas também daquilo que nos deixa desconfortáveis, dos desejos, vontades que temos dificuldade em aceitar, porque se chocam com a realidade e as necessidades dos outros e do mundo e que preferimos ignorar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E, o nosso processo de evolução, que alguns podem chamar de autoconhecimento e que em parte corresponde ao que Jung chamou de “processo de individuação”, que seria de forma resumida, o processo de “tornarmos nós quem nascemos para ser”, basicamente consiste em recuperar todos os conteúdos, todos os afetos, sentimentos, pensamentos, atitudes frustradas que jazem nas profundezas do inconsciente e trazê-los de volta para a luz da consciência para que a personalidade possa ser novamente unificada e completa.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-isso-precisa-ser-feito-so-em-silencio" style="font-size:18px">E isso precisa ser feito só, em silêncio.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>O lado sombrio também pertence à minha totalidade, e ao tomar consciência da minha sombra, consigo lembrar-me de novo de que sou um ser humano como os demais. Em todo caso, com essa redescoberta da própria totalidade – que a princípio se faz em silêncio – fica restabelecido o estado anterior, o estado do qual derivou a neurose, isto é, o complexo isolado. (JUNG, 2014, p.143)</em><em></em></p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-a-psicologia-profunda-argumenta-cientificamente-a-poesia-e-a-musica-ciencias-populares-dos-que-sofrem-ja-o-dizia-ha-muito-tempo" style="font-size:18px">Se a psicologia profunda argumenta cientificamente, a poesia e a música, ciências populares dos que sofrem, já o dizia há muito tempo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Rolando Laserie o expressa perfeitamente na letra do bolero <em>Hola Soledad</em> que se tornou um clássico do novo flamenco na voz de Sandra Carrasco, aqui livremente traduzido para o português:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Olá, solid</em><em>ã</em><em>o,</em><em><br></em><em>N</em><em>ão me surpreende a tua presen</em><em>ça.</em><em><br></em><em>Quase sempre est</em><em>á</em><em>s comigo.</em><em><br></em><em>Te saú</em><em>da um velho amigo.</em><em><br></em><em>Este encontro </em><em>é </em><em>apenas mais um.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Olá, solid</em><em>ã</em><em>o,</em><em><br></em><em>Esta noite eu te esperava.</em><em><br></em><em>Embora eu nã</em><em>o te diga nada.</em><em><br>É </em><em>t</em><em>ão grande a minha tristeza,</em><em><br></em><em>Tu j</em><em>á conheces a minha dor</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px"><em>Eu sou um p</em><em>á</em><em>ssaro ferido</em><em><br></em><em>Que chora sozinho no seu ninho</em><em><br></em><em>Porque n</em><em>ão pode voar.</em><em><br></em><em>E por isso estou contigo.</em><em><br></em><em>Solid</em><em>ão, eu sou teu amigo</em><em><br></em><em>Vem, vamos conversar.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A música nos faz mergulhar profundamente nas nossas emoções, emoções que são somente nossas, e que têm algo a dizer, se as podemos ouvir, lá, no fundo da alma, mas somente se silenciarmos a algazarra incessante da vida moderna.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-solidao-nos-convida-a-ter-uma-conversa-intima-conosco-mesmos" style="font-size:18px">A solidão nos convida a ter uma conversa íntima conosco mesmos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Georges Moustaki, cantor e poeta francês de origem egípcia, autor de mais de 300 canções disse em uma delas:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Pour avoir si souvent dormi avec ma solitude,<br>Je m&#8217;en suis fait presque une amie, une douce habitude.<br>Elle ne me quitte pas d&#8217;un pas, fidèle comme une ombre.<br>Elle m&#8217;a suivi ça et là, aux quatres coins du monde.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Non, je ne suis jamais seul avec ma solitude</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ai-aparece-a-solitude" style="font-size:18px"><strong>Aí aparece a </strong><strong>“</strong><strong>solitude</strong><strong>’</strong><strong>&#8230;</strong><strong></strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Pois é, mas a tradução literal nos mostra que o estar só não sempre é a personificação de um monstro perigoso, mas também uma presença companheira:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Por ter tantas vezes dormido com a minha solidã</em><em>o,</em><em><br></em><em>Acabei fazendo dela quase uma amiga, um doce h</em><em>á</em><em>bito.</em><em><br></em><em>Ela n</em><em>ão me deixa um s</em><em>ó </em><em>instante, fiel como uma sombra.</em><em><br></em><em>Ela me seguiu por toda parte, pelos quatro cantos do mundo.</em><em><br></em><em>N</em><em>ão, eu nunca estou sozinho com a minha solidã</em><em>o.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E em meio a tudo isso surge essa palavra nova, em contraponto, em oposição à solidão, e com ela, o paradoxo. Se a <em>solitude</em> se nutre da paz e da luz para permitir o crescimento, o que fazemos com a poeira debaixo do tapete, os afetos recalcados que não conseguimos mais enxergar, mas que são partes integrantes da gente?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E se relembrarmos Cazuza, poeta exagerado, procurando a felicidade nas curvas de todas as estradas, pelo menos como o mostravam os filmes a seu respeito e recortes de jornais e televisão, ele não era feliz. E parece que essa busca constante pelo contato com o outro, nada mais era que uma forma de driblar uma solidão da qual não conseguia dar conta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nos-aprendemos-a-fugir-do-que-amedronta-e-doi-e-um-reflexo-herdado-dos-tempos-antigos-nos-quais-ainda-eramos-frageis-e-cacados-por-criaturas-reais-mais-fortes-de-que-nos" style="font-size:18px">Nós aprendemos a fugir do que amedronta e dói. É um reflexo herdado dos tempos antigos nos quais ainda éramos frágeis e caçados por criaturas reais, mais fortes de que nós.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar da evolução, ainda vive dentro de todos os <em>Homo Sapiens</em>, um ser reptiliano que mantém essas atitudes de preservação, esquivando-se dos monstros simbólicos, até imaginários que vivem dentro da gente, escondidos em nossa sombra.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“<em>N</em><em>ã</em><em>o é </em><em>de admirar que seja este o caso, uma vez que o reconhecimento mais elementar da sombra provoca ainda as maiores resist</em><em>ê</em><em>ncias no homem europeu contempor</em><em>âneo</em>” disse Jung (JUNG, 2016a, 486) explicando por que, por mais que necessário e exigido pelo processo de individuação, o encontro com a sombra é um processo complexo e às vezes improvável.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-contexto-podemos-comecar-a-indagar-um-motivo-para-a-aparicao-da-solid-a-o" style="font-size:18px">Neste contexto podemos começar a indagar um motivo para a aparição da <em>solid</em><em>ã</em><em>o</em>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na sociedade contemporânea, a hiperconexão digital cria a ilusão de que estamos sempre acompanhados, cercados de mensagens, notificações, “amigos” virtuais e fluxos incessantes de informação, mas raramente presentes de fato uns para os outros. As redes sociais nos oferecem a sensação reconfortante de pertencimento imediato, enquanto, na prática, muitas interações permanecem superficiais, performáticas e desprovidas de intimidade. Vivemos um paradoxo: quanto mais conectados tecnologicamente, mais isolados afetivamente. A lógica da exposição constante transforma vínculos em vitrines e conversas em likes, substituindo a profundidade do encontro pelo consumo de imagens.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-cenario-a-solidao-nao-desaparece-apenas-se-disfarca" style="font-size:18px">Nesse cenário, a solidão não desaparece, apenas se disfarça.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A ausência de diálogo autêntico e de relações que sustentem nossa interioridade amplia o vazio psíquico, fazendo com que a “conexão” digital funcione muitas vezes como ruído, distração e anestesia para o medo de estarmos realmente sós. Uma característica dos meios de comunicação digitais é que eles são assíncronos, ou seja, a resposta não sempre se dá exatamente em seguida da pergunta, não permitindo uma verdadeira conexão emocional. Os afetos se desencontram e o clássico modelo projeção / contra projeção muda de fugura, podendo até deixar de existir. Na conversa presencial, as reações do interlocutor, afetam direto e imediatamente a pessoa. No virtual, o impacto emocional dos assuntos discutidos pode se diluir no tempo, a medida que as respostas demoram para chegar. Assim, um sentimento, mesmo quando claramente expressado, pode não encontrar ouvido e fica inevitavelmente absorvido pela sombra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma análise recente posiciona a solidão de forma explícita como um desafio de saúde pública, reunindo evidências robustas de que ela aumenta tanto a morbidade quanto a mortalidade, e destacando a necessidade de políticas e intervenções que abordem o problema em múltiplos níveis. O estudo propõe ainda um “modelo de espectro da solidão”, que reconhece suas diferentes intensidades e manifestações ao longo da vida, facilitando a criação de estratégias preventivas e terapêuticas mais precisas e efetivas (Zeas-Sigüenza, A., Voldstad, A., Ruisoto, P., et al. 2025).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-portanto-uma-dimensao-coletiva-na-solidao" style="font-size:18px">Há, portanto, uma dimensão coletiva na solidão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Isso é meio subentendido. O fato de estar só pode ser percebido em contraponto a um grupo e, como os estudos mostram, a solidão de um único ser precisa tornar-se uma preocupação de todos. A solidão dói e amedronta, isto é um fato. Portanto precisamos da ideia, do conceito de <em>solitude</em> e do seu conforto desapegado para criar coragem de enfrentar momentos a sós, para esquecermos, durante um tempo, o medo de entrar em contato com os nossos lados sombrios, o que é necessário para evoluirmos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Mas a leitura junguiana nos obriga a ficarmos atentos. A verdadeira superação da solidão não está em rebatizá-la, mas em aceitá-la com tudo o que ela traz à tona. A <em>solitude</em> que emergiu, na forma de uma palavra estrangeira, bonita, leve e descolada, não pode ser um meio de evitarmos a necessidade de enfrentar partes de nós mesmos para as quais não queremos olhar. A <em>solitude</em> não deve oferecer à sociedade brasileira um motivo politicamente correto de não encarar, sem ser taxada de covarde, a sombra coletiva contemporânea: A dificuldade de viver e de se relacionar no mundo moderno.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deixo-os-com-o-poema-ausencia-de-carlos-drummond-de-andrade-2012" style="font-size:18px">Deixo-os com o poema Ausência de Carlos Drummond de Andrade (2012):</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>Por muito tempo achei que</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>a aus</em><em>ência é falta.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>E lastimava ignorante, a falta.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>Hoje n</em><em>ã</em><em>o a lastimo.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>N</em><em>ã</em><em>o h</em><em>á falta na aus</em><em>ência.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>A aus</em><em>ência é </em><em>um estar em mim.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>E sinto-a, branca, t</em><em>ã</em><em>o pegada,</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>Aconchegada nos meus bra</em><em>ç</em><em>os,</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>que rio e dan</em><em>ç</em><em>o e invento</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>exclama</em><em>çõ</em><em>es alegres,</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>porque a aus</em><em>ê</em><em>ncia assimilada,</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:17px;line-height:0.5"><em>ningué</em><em>m a rouba mais de mim.</em><em></em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>E pergunto-lhes: quantas solidões cabem nossas <em>solitudes</em>?</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Existe Solitude?" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/ku0WJeJUaFI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/sebastienbaudry/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/sebastienbaudry/">Sebastien Baudry &#8211; Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Site agência brasil: <a href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2025-07/oms-uma-em-cada-seis-pessoas-no-mundo-e-afetada-pela-solidao?utm_source=chatgpt.com">OMS: uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão | Agência Brasil</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Site CNN Brasil: <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/solidao-causa-quase-1-milhao-de-mortes-por-ano-diz-oms/?utm_source=chatgpt.com">Solidão causa quase 1 milhão de mortes por ano, diz OMS | CNN Brasil</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Site do Governo&nbsp; federal: <a href="https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2022/setembro/anualmente-mais-de-700-mil-pessoas-cometem-suicidio-segundo-oms?utm_source=chatgpt.com">Anualmente, mais de 700 mil pessoas cometem suicídio, segundo OMS — Ministério da Saúde</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Site do Tribunal de justiça do distrito federal: <a href="https://www.tjdft.jus.br/informacoes/programas-projetos-e-acoes/pro-vida/dicas-de-saude/pilulas-de-saude/setembro-amarelo-2025-se-precisar-peca-ajuda?utm_source=chatgpt.com">Setembro Amarelo 2025: se precisar, peça ajuda! — Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Holt-Lunstad, J., Smith, T. B., Baker, M., Harris, T., &amp; Stephenson, D. (2015). <em>Loneliness and social isolation as risk factors for mortality: A meta-analytic review.</em> Perspectives on Psychological Science, 10(2), 227–237.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hajek, A., &amp; König, H.-H. (2023). <em>Prevalence and correlates of loneliness and social isolation: A systematic review and meta-analysis.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Wang, J., Jiao, D., Zhao, X., et al. (2025). <em>Childhood Loneliness and Cognitive Decline and Dementia Risk in Middle-Aged and Older Adults.</em> JAMA Network Open, 8(9), e2531493.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Zeas-Sigüenza, A., Voldstad, A., Ruisoto, P., et al. (2025). <em>Loneliness as a Public Health Challenge: A Systematic Review and Meta-Analysis to Inform Policy and Practice.</em> European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education, 15(7), 131.</p>



<p class="wp-block-paragraph">DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. <em>Claro enigma</em>. São Paulo: Companhia das Letras, 2012</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav, <em>A prática da psicoterapia</em>. 16/1 Obra Completa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________,&nbsp;Memórias, sonhos, reflexões.&nbsp;31 ed.Rio de Janeiro, rj:&nbsp;Nova Fronteira,&nbsp;2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________, <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 9/1 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________, <em>Tipos psicológicos</em>. 6 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDINGER, Robert J.; SCHULTZ, Marc. <em>A boa vida: lições do estudo científico mais longo sobre a felicidade</em>. Rio de Janeiro: Sextante, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Videos:</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Solidão que nada: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=yF13CeJsrFY">Solidão Que Nada</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Hola Soledad: <a href="https://www.youtube.com/watch?v=AB5dlQUaSfo">https://www.youtube.com/watch?v=AB5dlQUaSfo</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ma solitude: https://www.youtube.com/watch?v=h9-OzSzCDWo</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/existe-solitude/">Existe solitude?</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Sarah, a sombra e o mar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sarah-a-sombra-e-o-mar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Jul 2025 21:43:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
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		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
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		<category><![CDATA[santa sarah]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Cada ano, no último final de semana, Sarah é salva das águas pelos guardiões da Camarga….. Isso é parte da procissão que acontece em “Les saintes Maries de la mer” na França, em homenagem à santa padroeira dos ciganos. Este ritual de fé mistura referências tanto judeu-cristãs quanto do povo cigano, que é tido [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Resumo</strong>: Cada ano, no último final de semana, <strong>Sarah</strong> é salva das águas pelos guardiões da Camarga….. Isso é parte da procissão que acontece em “<em>Les saintes Maries de la mer</em>” na França, em homenagem à santa padroeira dos ciganos. Este ritual de fé mistura referências tanto judeu-cristãs quanto do povo cigano, que é tido como oriundo da Índia. Isso nos leva a questionar como símbolos de culturas tão distantes podem vir a se mesclar, buscando compreender, a partir da psicologia analítica, embasada em conceitos do inconsciente coletivo, o significado dessa travessia arquetípica que é simbolizada pelo mito de Sarah La Noire.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-ultimo-dia-24-de-maio-alias-como-todos-os-anos-festejamos-santa-sarah-kali" style="font-size:20px">Nesse último dia 24 de maio, aliás como todos os anos, festejamos “santa” <strong>Sarah Kali</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E isso me trouxe de volta algumas lembranças de infância, especialmente das viagens para “<em>Les Saintes Maries de la Mer</em>”. Eu era ainda muito jovem para saber que o que era para mim férias à beira do mar dessa pequena cidade do sul da França, para muitos, era uma peregrinação para um destino sagrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu propositalmente grafei santa com aspas porque se Sarah tem inspiração cristã, e mesmo tendo seu lugar de culto reconhecido no porão de uma igreja católica, ela nunca foi oficialmente canonizada. Ela é o que chamam uma santa local, ou seja, ela é reverenciada e sagrada somente naquele lugar. E isso lhe confere uma característica muito especialmente simbólica quando lembramos que Sarah é a santa padroeira dos Ciganos, esse povo que não pertence a lugar nenhum, mas caminha levando-a junto, por todos os cantos da terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Falar sobre o povo cigano e sua cultura é muito complexo e controverso, mas sem entrar em demais detalhes, para podermos desenvolver o assunto que nos interessa aqui, o simbolismo de Santa Sarah, e para não cair em estereótipos, é preciso introduzir algumas referências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-primeira-e-que-se-estou-usando-a-palavra-cigano-e-por-comodidade-e-facilitar-a-identificacao-no-entanto-a-palavra-correta-e-roms-e-na-verdade-para-ser-bem-preciso-seria-rroms-com-duas-letras-r" style="font-size:20px">A primeira é que se estou usando a palavra “Cigano” é por comodidade e facilitar a identificação, no entanto, a palavra correta é “Roms” e na verdade para ser bem preciso seria “Rroms”, com duas letras r.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Quem frequenta centros de <strong>Umbanda</strong> e outras casas espiritualistas pode se achar familiarizado com parte dessa cultura, no entanto, por mais que “giras ciganas” sempre demonstrem admiração e carinho, o uso da palavra “cigano” é redutora pois somente faz referência de forma caricatural a somente uma das etnias que formam esse povo multicultural, também chamado Romani.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Ainda nos dias de hoje essa denominação possui uma definição pejorativa, associada até no dicionário a conceitos de quem &#8220;é velhaco, burlador e que trapaceia, que barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota ou sovina&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em segundo lugar, o povo romani é constituído por várias etnias, diferenciadas essencialmente pelos caminhos por onde se espalharam pela Europa e pelos idiomas, sendo as principais os Roms e os Sinti que se encontram essencialmente em países como Romênia, Bulgária e os Kalons mais presentes na península ibérica e América Latina e cujos idiomas e culturas se impregnaram da língua espanhola e ficaram famosos através da arte, especialmente dos estilos musicais como o flamenco e mundialmente representados pela Banda francesa “Gipsy Kings”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Um ponto interessante, e que lembraremos mais adiante, é que, apesar do esforço para unificar esse povo por parte da “união internacional romani”, organização não governamental que representa os interesses e direitos dos Rroms, alguns grupos étnicos ainda se recusam a ser assimilados a outros e não se reconhecem como parte de uma única cultura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Isto parece ser confirmado pela semiótica, na França, desde sempre terra de asilo e ponto de contato de todos os caminhos para todos eles, mesmo querendo impor o politicamente correto “Rrom”, a língua popular ainda mantém vivas várias palavras como Tzigane, Bohemien, Romanichel ou Gitan, para designar os “ciganos” em função de por onde chegaram, Norte, leste ou sul.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-todos-esses-pontos-tornam-muito-complexo-e-quase-impossivel-chegar-a-um-consenso-socioantropologico-sobre-esse-grande-misterio-que-e-a-origem-dos-ciganos" style="font-size:20px">Todos esses pontos tornam muito complexo e quase impossível chegar a um consenso socioantropológico sobre esse grande mistério que é a origem dos ciganos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Por onde passaram e continuam a passar, é bastante claro, em contrapartida, de onde vieram, muito menos. A teoria mais aceita, baseada em estudos das raízes linguísticas, é que teriam se originado da Índia, de onde teriam saído por volta do século 10 depois de Cristo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-entao-se-a-raiz-cultural-e-indiana-por-que-sua-principal-referencia-espiritual-seria-crista" style="font-size:20px">Mas então, se a raiz cultural é indiana, por que sua principal referência espiritual seria cristã?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O fato de que as próprias etnias não se reconhecerem como um único grupo e algumas diferenças culturais obrigam a questionar se esta conclusão se sustenta. E nós que gostamos de observar o mundo por lentes emprestadas por <strong>Jung</strong>, sabemos que o primeiro papel do analista é questionar o óbvio e isso também é verdadeiro quando se quer entender uma tendência coletiva. Lembrando que <strong>Jung sempre frisou que qualquer forma de unilateralidade é uma forma de doença e portanto precisa ser estudada</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O caminho dos ciganos pelo sul da Europa, especialmente pela Espanha até a França, parece seguir o mesmo de outro grupo de nômades que também saíram ou passaram pelo Oriente Médio e com o qual compartilha algumas características, os judeus. <strong>Pode parecer coincidência, mas alguns alegam que não</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<strong>As chaves de Salomão, o Falcão de Sabá</strong>”, Ralph Ellis alega, baseando-se em narrativas bíblicas e revisitadas com fontes arqueológicas, que a palavra Gipsy, que designa os ciganos em inglês, é derivativa da palavra Egyptian, mas em verdade expressa uma verdade histórica esquecida que os ciganos seriam bem originários do Egito e seriam de ascendência semita. Lisardo Cano Monte também apoia essa ideia em “Gitanos, las tribos perdidas de Israel”, no entanto, focando mais especialmente nos kalons. Ambos colocam o início da jornada nômade dos Rroms como um eterno exílio do Egito, no início da era cristã, em direção em parte para a Índia, onde haveria acontecido uma mescla cultural e uma assimilação linguística, o que explicaria por que o idioma romanês parece derivar do Sânscrito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-estudar-a-mitologia-pudesse-nos-ajudar-a-entender-de-fato-a-origem-misteriosa-desse-povo" style="font-size:20px">Talvez estudar a mitologia pudesse nos ajudar a entender de fato a origem misteriosa desse povo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Há várias histórias e lendas que contam a vida de Sarah. A principal tradição conta que ela teria nascido no Egito, na época de Jesus. Alguns dizem que era escrava de Maria, outros, uma parteira, em quem um anjo teria incarnado para assistir Maria, pois nenhuma humana aguentaria a intensidade da luz do filho de Deus quando vier ao mundo. Diz a lenda que após a ressurreição do Cristo, os Romanos, para acabar com o Cristianismo levado em frente por Maria, teriam jogado um barco ao mar, com a bordo, Maria Jacobé, irmã de Maria mãe de Jesus e mãe dos apóstolos Tiago Maior e João evangelista, Maria Salomé, mãe de Tiago Menor e João e Maria Madalena, sem água nem comida para que morressem de sede e de fome junto com Sarah, a escrava.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Após algum tempo o barco à deriva ficou perdido no meio do Mediterrâneo, e Sarah percebendo a iminência de uma tragédia, orou a Deus para que salvasse essas 3 santas mulheres. O barco finalmente chegou com todas sã e salvas na cidade de “Petit Rhone” no sul da França onde foram resgatadas pelos habitantes locais. E então, como forma de agradecimento do milagre que havia acontecido e da sua fé inabalável, Sarah passou a usar, para sempre, um lenço amarrado na cabeça.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-impacto-dessa-chegada-na-vida-local-foi-tao-grande-que-a-cidade-foi-rebatizada-les-saintes-maries-de-la-mer-em-portugues-as-santas-marias-do-mar-e-todos-os-anos-e-o-palco-de-um-ritual-muito-bonito" style="font-size:20px">O impacto dessa chegada na vida local foi tão grande que a cidade foi rebatizada “<em>Les Saintes Maries de la Mer</em>”, em português “<em>As Santas Marias do Mar</em>”, e todos os anos é o palco de um ritual muito bonito.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">No terceiro final de semana do mês de maio, caravanas de carroças e carros levam ciganos de todas as etnias até a cidade para que possam participar da procissão à Santa Sarah que acontece no domingo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Nesse dia, a imagem de Sarah, que fica na cripta da igreja, é levada, escoltada pelos “guardiões”, até o mar, acompanhada por uma multidão de pessoas vindas de todos os cantos do mundo</strong>. Os guardiões são figuras emblemáticas da Camargue, nome da região situada entre os dois braços do rio Reno, onde fica “<em>Les saintes maries de la mer</em>”, e são chamados assim porque pastoreiam e protegem a cavalo seus rebanhos. O ponto culminante deste impressionante ritual de fé acontece quando os guardiões adentram o mar, imergindo até seus cavalos, para alcançar a imagem de Sarah e resgatá-la, levando-a, segura, até o porão da igreja Notre-Dame-de-la-mer (nossa senhora do mar) para protegê-la, repetindo simbolicamente o que haveria acontecido um pouco mais de dois mil anos atrás.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-a-procissao-os-fieis-especialmente-as-mulheres-a-procura-de-engravidar-ou-de-um-casamento-pedem-bencao-ou-agradecem-algum-acontecimento-feliz-amarrando-um-diklo-um-lenco-colorido-nos-ombros-da-santa" style="font-size:20px">Após a procissão, os fiéis, especialmente as mulheres à procura de engravidar ou de um casamento, pedem benção ou agradecem algum acontecimento feliz amarrando um “Diklô”, um lenço colorido, nos ombros da Santa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Este ritual, junto com o acolhimento pelos países de tradição latina (França, Itália, Portugal e Espanha) e o impacto que a cultura cigana teve nesses países de identidade cristã, como o flamenco ou o Gipsy Jazz, historicamente ancorado em Paris, parece sustentar a ideia de uma origem judaico-egípcia do povo Romani.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-introduz-a-questao-dos-arquetipos-e-do-inconsciente-coletivo-como-um-dos-fundamentos-essenciais-da-psicologia-analitica-e-como-ideias-fundamentais-para-compreender-como-simbolos-e-mitos-surgem-em-diferentes-culturas-eles-sempre-expressam-estruturas-psiquicas-comuns-a-humanidade" style="font-size:20px"><strong>Jung</strong> introduz a questão dos arquétipos e do inconsciente coletivo como um dos fundamentos essenciais da psicologia analítica e como ideias fundamentais para compreender como símbolos e mitos surgem em diferentes culturas. Eles sempre expressam estruturas psíquicas comuns à humanidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos <strong>inconsciente pessoal</strong>. Este, porém, repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos <strong>inconsciente coletivo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu optei pelo termo “coletivo” pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal. Isto é, contrariamente à psique pessoal, ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são cum grano salis os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos. Constituindo, portanto, um substrato psíquico comum de natureza psíquica supra pessoal que existe em cada indivíduo (JUNG, C.G. 2016b, 3)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu gosto de me referir aos arquétipos como “DNA espiritual” da espécie humana, como uma forma de lembrarmos que não são personagens, heróis ou deuses em si, mas as ideias primordiais, emoções, bases e aptidões que são as raízes do comportamento humano, pedras e tijolos com os quais ao longo do tempo, construímos hábitos, comportamentos, culturas e civilizações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-simbolo-no-entanto-pressupoe-sempre-que-a-expressao-escolhida-seja-a-melhor-designacao-ou-formula-possivel-de-um-fato-relativamente-desconhecido-mas-cuja-existencia-e-conhecida-ou-postulada-jung-c-g-2015-903" style="font-size:20px">“O símbolo, no entanto, pressupõe sempre que a expressão escolhida seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada.” (JUNG, C.G., 2015, 903)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<em>Símbolos da transformação</em>” (2016, 344), Jung nos explica que os símbolos do inconsciente tendem a se repetir continuamente em inúmeras variações até que o sentido seja compreendido. Ou, em outras palavras, até que o conteúdo inconsciente tenha sido assimilado. Isto é um aspecto essencial para entender a dinâmica do inconsciente coletivo, especialmente quando lembramos que ele também disse que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Os ritos religiosos são representações simbólicas de conteúdos do inconsciente coletivo; são tentativas de assimilação desses conteúdos, que de outra forma permaneceriam fora da consciência.” </p><cite>(JUNG, C.G., 211, 91)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Ou seja, os ritos religiosos, como os contos de fada trazem para nós recados escondidos na sombra coletiva, necessidades de evolução, lições que irão se repetir até que entendamos claramente esses recados, que apesar de já presentes em todos nós, ainda não foram totalmente assimilados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Munidos dessas bases preciosas, nos resta mergulhar no ofício de todo bom analista junguiano, que é observar quais imagens nessa história se destacam para tentar perceber os símbolos e investigar em qual direção eles nos levam. Afinal de contas, a participação em um ritual religioso em muito se assemelha a estar em um sonho coletivo onde todos estão levados por uma sombra individual, em uma direção comum, na esperança da transformação de uma dor particular.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-observar-o-mito-de-sarah-kali-do-meu-ponto-de-vista-tres-aspectos-simbolicos-merecem-um-destaque-especial" style="font-size:20px">Ao observar o mito de Sarah Kali, do meu ponto de vista, três aspectos simbólicos merecem um destaque especial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Primeiramente, Sarah é salva das águas em meio a uma travessia. É muito interessante lembrar que Jung assimila o mar ao inconsciente, e Neumann em “<strong>A Grande Mãe</strong>” a um grande útero-matriz aquático como arquétipo universal de morte e renascimento, associado a ritos de iniciação. No seu ritual de fé, Sarah é salva e devolvida ao mar, numa parada inexorável, repetindo a caminhada e a limpeza, como ensaiando um batismo infinito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ela-e-uma-figura-feminina-quase-mariana-e-o-paralelo-com-a-ideia-da-grande-mae-e-todas-as-heroinas-da-mitologia-grega-e-obvio-mas-o-mais-relevante-e-que-a-imagem-de-sarah-e-preta" style="font-size:20px">Ela é uma figura feminina, quase mariana, e o paralelo com a ideia da grande mãe e todas as heroínas da mitologia grega é óbvio, mas o mais relevante é que a imagem de Sarah é preta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Com certeza não é por acaso que ela é conhecida como <strong>Sarah la Noire</strong> (Sarah a Negra, em português). <strong>A negritude é sua principal característica</strong>. Embora poderíamos abrir uma reflexão étnica e racial que poderia ser até oportuna, o que nos interessa aqui é a mensagem simbólica passada pela adoração de uma figura escura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>La noire</strong> é o negro, a cor da pele, mas também a escuridão da noite na qual nada se vê, o que nos leva ao conceito de <strong>sombra</strong> de <strong>Jung</strong>, este repositório no inconsciente onde escondemos os desejos, as vontades que nos deixam desconfortáveis, mas também tudo aquilo em nós que não queremos enxergar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E se aceitamos a ideia de um inconsciente coletivo, com todas as variações de coletivo, da família, do bairro, da cidade, da religião, de todas as formas possíveis de aglomeração humana, naturalmente temos que aceitar a ideia de uma sombra coletiva e, portanto, repleta de dores comuns com as quais ninguém quer entrar em contato.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<em>The cult of the black virgin</em>”, o analista junguiano <strong>Ean Begg</strong>, diplomado de Oxford e do instituto C.G. Jung de Zurique, faz um amplo estudo das representações de imagens e aparições de Maria de Nazaré negras e constatou que se trata de um fenômeno recorrente, desde a Idade Média. Até imagens de Maria, escurecidas pelo tempo, foram mantidas propositalmente pretas após a limpeza quando poderiam ter apresentado a tradicional feição europeia da mãe do Cristo. E lembramos com certeza da imagem de nossa senhora aparecida, escurecida pelo lodo do rio, mas que a tradição não fez questão de esbranquiçar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-nos-lembra-que-nos-ultimos-150-anos-algumas-das-virgens-maria-reportadas-em-aparicoes-coletivas-eram-negras" style="font-size:20px">Ele nos lembra que nos últimos 150 anos, algumas das virgens Maria reportadas em aparições coletivas eram negras.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Fenômeno que parece querer manter viva a ideia de um feminino oculto, sombrio, mas que não precisa se esconder mais. Ele enfatiza que, tal como o encontro do também negro feminino poderoso da <strong>rainha de Sabá </strong>com o masculino sábio do <strong>rei Salomão</strong> trouxe fertilidade e transformação ao reino, as santas Marias do Mar trouxeram, em Sarah, a luz redentora de Jesus, o rei dos reis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E não importa o ponto de início da jornada, se foi Egito ou Índia, ou se meramente passou por ela em algum momento, mas fato é que, sem que consigamos entender os motivos, os ciganos se encontraram com Sarah na beira do Mediterrâneo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-para-nos-nao-importa-comprovar-ou-analisar-questoes-historicas-ou-antropologicas-mas-sim-ver-como-esse-tipo-de-reflexao-nos-permite-aprofundar-nosso-conhecimento-da-psicologia-analitica" style="font-size:20px">E, para nós, não importa comprovar ou analisar questões históricas ou antropológicas, mas sim, ver como esse tipo de reflexão nos permite aprofundar nosso conhecimento da psicologia analítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A devoção à Santa Sarah pode ser compreendida como integração do arquétipo da Mãe Negra e da Sombra acolhedora. O banho de sua imagem no mar simboliza a travessia, o rompimento das barreiras, a purificação e a reconexão com o inconsciente profundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Se Jung tivesse presenciado esse rito, ele certamente nos reafirmaria que a identificação com a imagem, especialmente religiosa, não acontece pelo estudo, pelo entendimento e pela razão, mas pelo chamado inconsciente da sombra, pela sintonia do arquétipo invisível para os olhos, mas que entra em ressonância com o nosso lado oculto. E talvez o veria como um mito vivo de integração da sombra coletiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mar-seria-o-inconsciente-primordial-os-guardioes-a-cavalo-os-herois-e-sarah-o-arquetipo-da-grande-mae-negra-explicaria-que-o-ritual-reafirma-a-vontade-de-pertencimento-e-a-cura-psiquica-individual-e-coletiva" style="font-size:20px">O mar seria o inconsciente primordial, os guardiões a cavalo os heróis, e Sarah, o arquétipo da<strong> Grande Mãe Negra</strong>, explicaria que o ritual reafirma a vontade de pertencimento e a cura psíquica, individual e coletiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Por mais que a imagem e o ritual em sua superfície se apresentem como cristãos, eles somente permitem dar um rosto a uma temática universal com a qual todos podem se identificar, pois reaviva em cada um questões humanas universais. Portanto, a identificação com o símbolo ou a sensação da necessidade de participar de ritos ou de pertencer a alguma forma peculiar de cultura ou religião pode acontecer sim pela vivência, pela herança espiritual e ancestralidade, mas também porque símbolos e ritos, mesmo de culturas completamente desconhecidas, sempre vão trazer à tona situações que podem tocar no âmago arquetípico que está fundo em cada um de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Para os ciganos, sejam eles do Egito ou da Índia, venerar <strong>Sarah Kali</strong> é honrar essa força de sobrevivência e regeneração necessária à resiliência de todas as minorias. O rito de levá-la ao mar que une o simbolismo do útero aquático à cor negra revela a necessidade de uma imersão no inconsciente, uma travessia, um retorno à origem. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Sarah, salva das águas sombrias, escancara para os <em>gadjês</em>, os não ciganos, tocados pela beleza do resgate daquilo que estava prestes a se perder, o recado que ainda não foi entendido: <strong>O que foi um dia marginalizado, em algum momento, retornará como sagrado</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Sarah, a sombra e o mar" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/C7qqvfSEfNI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Sebastien Baudry &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Begg, E. The Cult of the Black Virgin. Chiron Publications, Acheville-NC, Estados Unidos, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hancock, Ian, We Are the Romani People, Vol. 8, University of Hertfordshire Press. Hatfield, Reino Unido, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav, Psicologia e Religião. Obra Completa, 11/1. 11ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________, Tipos psicológicos. 6 Obra Completa. 9ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ Símbolos da transformação. Obra Completa, 5ª ed. original Petrópolis, RJ: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Obra Completa, 9/1 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann, E. A Grande Mãe. São Paulo, SP, Cultrix, 1994</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Os heróis do dia-dia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Dec 2024 20:59:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[jornada do herói]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu não sou daqui. Isto, para muitos que me conhecem, não deve causar surpresa. No entanto, quando digo que moro no Brasil há quase três décadas, todos dizem: “Ah, você já é brasileiro”. E, se de fato eu conheço quase todos os estados do Brasil e morei em várias de suas capitais, eu nunca fui [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Eu não sou daqui.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Isto, para muitos que me conhecem, não deve causar surpresa. No entanto, quando digo que moro no Brasil há quase três décadas, todos dizem: “<em>Ah, você já é brasileiro</em>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, se de fato eu conheço quase todos os estados do Brasil e morei em várias de suas capitais, eu nunca fui me deitar com um beijo do gordo, nunca vi o show da Xuxa nem achei graças nos trapalhões. Vivi até jovem adulto na Europa, mais especificamente na França, e a outra metade da minha vida aqui, onde disseram que não existe pecado neste sul do Equador.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E essa dicotomia existencial sempre me deixou com dúvida. Falo e escrevo português e já aconteceu, em um restaurante em Paris, que o garçom ao ouvir meu pedido me respondeu em inglês por conta do meu sotaque ao falar em francês.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-teria-entao-ja-me-metamorfoseado-seria-eu-agora-brasileiro" style="font-size:18px">Teria então, já me metamorfoseado? Seria eu agora brasileiro?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Estava quase me convencendo disso ao assistir os jogos olímpicos, sempre torcendo pelos atletas brasileiros. E confesso ter ficado muito emocionado quando a Judoca Larissa Pimenta venceu na repescagem o direito de lutar e conquistar a medalha de bronze.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E isso durou até a final do judô por equipes, onde a seleção da França enfrentava o poderoso time do Japão.  Comecei a ficar estranhamento ansioso ao ver que o “país do sol nascente” estava liderando com certa facilidade. E permaneci numa sensação de intensa angústia até a luta dos pesos pesados quando ele entrou no tatami. Ele, o nosso herói, Teddy Riner.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E tudo mudou</strong>. Em mim e no estádio inteiro; foi uma explosão de alegria quando ele ganhou de um <a><em>Ippon</em> <em>m</em></a> agistral, (a pontuação máxima nessa luta), revirando no chão o atleta japonês de cem quilos como se fosse um bom e tradicional crepe francês. Ele, nesse momento, confirmou o que todos especulavam antes dos jogos: que ele era o maior de todos os tempos. E como todo bom e verdadeiro herói, devolveu ao time a gana de lutar. E, assim, levou o “nosso” time ao segundo ouro olímpico consecutivo,</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-estava-bem-claro" style="font-size:18px">Estava bem claro.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Esse momento de grande emoção revelou aquilo que estava na <strong>sombra</strong>, dormente, mas bem presente. Eu, sim, sou francês!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa anedota esportiva que poderia parecer corriqueira, me fez repensar dois conceitos muito importantes que a psicologia analítica nos apresenta e que aparecem em muitas conversas junguianas. E que, apesar de parecerem bem distantes uma da outra, iremos perceber, são indissociáveis quando procuramos encontrar seu sentido real.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-primeira-e-a-importancia-da-experiencia" style="font-size:17px">A primeira é a importância da <strong>experiência</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Somos o que vivemos, o que experienciamos</strong>. Jung nos fala um pouco a respeito em dois livros aparentemente singelos, mas que vale a pena ler, “<em>Sobre sentimentos e a sombra</em>” e, especialmente, “<em>Um mito moderno sobre as coisas vistas no céu</em>”. Nessas obras, ele nos apresenta uma explicação daquilo que esta presente em toda sua obra, mas nunca de forma perfeitamente clara: o que é ter <strong>consciência</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-segunda-e-a-importancia-dos-mitos-e-em-particular-o-do-heroi-e-de-sua-jornada" style="font-size:17px">A segunda é a importância dos Mitos e, em particular, o do Herói e de sua jornada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se pensarmos bem, enxergar atletas como heróis tem um sentido pois, na mitologia grega, os heróis eram figuras semidivinas, muitas vezes descendentes de deuses e humanos, que realizavam feitos extraordinários e enfrentavam grandes desafios. Dotados de força, coragem e inteligência, eles representavam virtudes e fraquezas humanas, como honra, bravura e orgulho.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A busca pela glória e o enfrentamento de dificuldades extremas faziam parte de seu destino, o que os tornavam exemplos de superação e resistência. Esses heróis, como Hércules e Aquiles, eram celebrados por suas façanhas que iam além das limitações humanas e, em alguns casos, até alcançavam um status quase divino após a morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A ideia de heroísmo na mitologia grega influenciou profundamente a cultura esportiva, especialmente nos Jogos Olímpicos. Assim como os heróis mitológicos, os atletas olímpicos são vistos como símbolos de excelência física e mental. Eles enfrentam desafios intensos e competem por honra e reconhecimento, exaltando virtudes como disciplina, dedicação e a busca constante pela superação de limites. Os Jogos Olímpicos antigos, realizados em homenagem a Zeus, também celebravam esse espírito de heroísmo, onde os atletas competiam em diversas modalidades, buscando se destacar e eternizar seu nome.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, o conceito de &#8220;herói&#8221; migrou da mitologia para o esporte onde atletas olímpicos são celebrados como heróis modernos, inspirando milhões com sua força e determinação, mantendo viva a essência do heroísmo grego.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existem-muitas-historias-de-herois-e-de-acordo-com-joseph-campell-todas-seguem-a-mesma-narrativa-que-ele-descreve-em-seu-livro-o-heroi-de-mil-faces-como-baseada-numa-estrutura-de-12-etapas-mas-que-e-frequentemente-simplificada-em-6-passos-que-destacam-os-principais-momentos-da-narrativa-e-ainda-mantem-o-arco-de-transformacao-do-heroi" style="font-size:17px">Existem muitas histórias de heróis e, de acordo com Joseph Campell, todas seguem a mesma narrativa que ele descreve em seu livro “O herói de mil faces” como baseada numa estrutura de 12 etapas, mas que é frequentemente simplificada em 6 passos que destacam os principais momentos da narrativa e ainda mantém o arco de transformação do herói.</h2>



<ol class="wp-block-list">
<li><strong>Chamado à Aventura</strong>: O herói começa em um mundo comum, mas recebe um chamado para entrar em uma aventura ou missão. Esse chamado pode vir de várias formas — uma crise, uma descoberta ou um encontro inesperado — que leva o herói a perceber que algo novo precisa ser feito.</li>



<li><strong>Recusa do Chamado</strong>: Inicialmente, o herói pode resistir ou recusar o chamado devido a medo, dúvida ou lealdades que o prendem ao seu mundo comum. Essa etapa mostra a relutância inicial, que torna o herói mais humano e vulnerável.</li>



<li><strong>Encontro com o Mentor</strong>: O herói encontra um mentor ou guia que lhe oferece apoio, sabedoria ou equipamentos para enfrentar a jornada. Esse mentor pode ser um personagem (como Gandalf para Frodo ou Yoda para Luke) ou uma experiência que lhe fornece coragem e direção.</li>



<li><strong>Travessia do Limiar</strong>: Aqui, o herói finalmente aceita o desafio e cruza o &#8220;limiar&#8221; para o mundo desconhecido. Ao fazer isso, ele entra em uma realidade nova e muitas vezes hostil, onde precisará enfrentar testes e adversários que colocam à prova suas habilidades e determinação.</li>



<li><strong>Provação ou Abismo</strong>: Esse é o ponto central da jornada, onde o herói enfrenta seu maior desafio ou &#8220;provação&#8221;. Ele pode encarar uma grande batalha, superar uma perda, ou confrontar algo em si mesmo. É uma experiência transformadora e, muitas vezes, simboliza uma “morte” e renascimento, onde ele abandona antigas crenças ou atitudes para evoluir.</li>



<li><strong>Retorno Transformado</strong>: O herói volta ao seu mundo original, mas agora transformado pelas experiências da jornada. Ele traz consigo um &#8220;elixir&#8221; ou conhecimento que beneficia a si mesmo e/ou sua comunidade. O retorno marca a conclusão da jornada e a integração do herói renovado ao seu ambiente original.</li>
</ol>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-saber-isso-tudo-serve-para-que" style="font-size:18px">Mas, saber isso tudo serve para que?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nenhum de nós é Apolo nem Hercules e, certamente, bem poucos são atletas de alto nível como o Teddy, a Larissa e outras figuras emblemáticas. Ademais, o esporte olímpico, para nós que formamos a plateia, fornece um divertimento carregado de emoções, que pode, como toda experiência afetiva quando entendida, trazer algo de relevante. Mas, depois da alegria da vitória dos nossos heróis, depois que toda a adrenalina caiu, o que permanece deste acontecimento? uma memória feliz, só?</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mircea Eliade </strong>ao nos explicar que os mitos são <strong>arquétipos </strong>transmitidos por meio de uma narrativa nos dá um início de caminho para entender por que eles continuam tão importantes aos olhos de muitos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: um ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser. </p><cite>ELIADE, Mircea, 2011, p.11</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-a-conceito-principal-aqui-nao-e-sobrenatural-ou-de-cosmos-e-que-os-arquetipos-fazem-parte-de-toda-criacao-desde-seu-principio" style="font-size:17px">Mas a conceito principal aqui não é sobrenatural ou de cosmos, é que os arquétipos fazem parte de toda criação desde seu princípio.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E como Jung nos ensina, os arquétipos são imagem primordiais “<strong>sempre coletivas, no mínimo comum a todos os povos e tempos” e “provavelmente são comuns a todas as raças e épocas os principais motivos mitológicos</strong>” (JUNG, 2015, 764).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras palavras, os arquétipos são as representações internas de todos os comportamentos, desejos, emoções, qualidade e defeitos, ideias e conceitos potenciais que nos definem como espécie humana e que mitos, contos e outras formas de narrativas e expressões artísticas retratam de forma transcultural e atemporal, e dentro delas, evidentemente a referência ao Herói.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E por mais que estejamos fartos de ler e ouvir que os mitos nos contam sobre quem nós somos, evidenciando nossa luz e, particularmente, nossas sombras, ainda me parece que ainda falta muito para que este grande ensinamento de Jung passe a ser realmente entendido e útil para todos. Se os mitos e contos de fadas deixam amostra nossas sombras, é para que nós, dentro e fora do consultório, possamos crescer e evoluir ao lembrar dos segredos que carregam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E se todos os humanos, através do planeta, se conectam e são afetados por obras como <em>“A guerra das estrelas”, “O senhor dos Anéis”, “Matrix”, “Rei Leão”</em>, entre outros, é porque têm essa jornada do herói gravada em seu DNA. Portanto, cada um de nos, de alguma forma, tem algo de herói em si. Cada um pode pensar e agir como herói.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-parece-papo-de-coach-mas-se-tentarmos-aproximar-a-narrativa-mitologica-simbolica-de-conceitos-psicologicos-e-cientificos-percebemos-que-observacoes-empiricas-confirmam-hoje-o-que-jung-e-campbell-nos-contaram-anos-atras" style="font-size:17px">Parece papo de <em>coach</em>, mas se tentarmos aproximar a narrativa mitológica, simbólica, de conceitos psicológicos e científicos, percebemos que observações empíricas confirmam hoje o que Jung e Campbell nos contaram anos atras.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Durante doze anos, os psicólogos James O. Prochaska professor de psicologia da universidade de Rhode Island, medalha de honra de pesquisa clinica da sociedade do Câncer Norte americana e um dos cinco autores em psicologia mais citados (sociedade americana de psicologia), John Norcross, professor da universidade de Scranton  e Carlo DiClemente, professor emérito da Universidade de Maryland e diretor do centro de pesquisa em vício em cigarro,“MDQuit tonbacco”, estudaram histórias de pessoas que conseguiram se livrar de vícios e padrões complexos de repetição e, dessa forma, transformar suas vidas. O estudo procurava entender se havia algo em comum, uma forma de receita que explicasse como essas transformações eram possíveis, muitas  vezes, sem ajuda de psicoterapia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse estudo levou Prochaska, Norcross e DiClemente a construir um modelo empírico, transteórico, de mudança de comportamento, que levou centros renomados de tratamento como a unidades de prevenção de câncer da Universidade de Duke, o centro de tratamento de vícios de Harvard, ambos nos estados unidos, e da universidade de Criton na Australia a reformular seus procedimentos clínicos para aplicar esse método considerado disruptivo por seus diretores. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse método deu origem a um livro chamado &nbsp;<em>Changing for Good, </em>no qual eles explicam que a mudança comportamental ocorre em estágios pelos quais a pessoa progride ou retrocede, dependendo de sua prontidão e motivação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nessa-obra-publicada-em-1994-eles-detalham-que-a-mudanca-acontece-em-seis-passos-obrigatorios-e-sucessivos" style="font-size:17px">Nessa obra publicada em 1994, eles detalham que a mudança acontece em seis passos obrigatórios e sucessivos:</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Pré-contemplação</strong>: A pessoa ainda não reconhece o problema e não pensa em mudança. Ela pode estar em negação ou simplesmente não perceber as consequências de suas ações.</li>



<li><strong>Contemplação</strong>: A pessoa começa a reconhecer o problema e pensa em fazer mudanças, mas ainda sente ambivalência e incertezas.</li>



<li><strong>Preparação</strong>: A pessoa está pronta para mudar e começa a fazer planos concretos para isso, buscando estratégias ou ajuda profissional.</li>



<li><strong>Ação</strong>: Neste estágio, a pessoa implementa ativamente mudanças em seu comportamento, desenvolvendo novas habilidades e adotando novos hábitos.</li>



<li><strong>Manutenção</strong>: A pessoa foca em manter as mudanças e evitar recaídas, integrando o novo comportamento ao seu estilo de vida.</li>



<li><strong>Encerramento</strong>: O comportamento problemático já não representa uma ameaça significativa, e a nova mudança se tornou estável. Esse estágio nem sempre é alcançado em casos de comportamentos complexos, como vícios.</li>
</ul>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-fica-facil-perceber-que-esse-modelo-de-transformacao-pessoal-que-eles-mostraram-ser-inato-e-transcultural-ou-em-outras-palavras-arquetipico-segue-o-processo-da-jornada-do-heroi" style="font-size:17px">Fica fácil perceber que esse modelo de transformação pessoal, que eles mostraram ser inato e transcultural, ou em outras palavras, arquetípico, segue o processo da jornada do herói.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A pre-contemplação se assemelha ao chamado à aventura com suas hesitações e falta de certezas. A contemplação ainda não permite ir para a ação, tanto quanto a recusa do chamado mantém o herói imóvel. A preparação que precisa da ajuda de outros, do apoio de patrocinadores, nada mais é que um encontro com mentores. Fica também muito evidente que a etapa da ação é a travessia do limiar em que a aventura da transformação pode de fato começar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em seguida há de vir a prova, e todos que já acompanharam processos de desintoxicação podem testemunhar que a fase de manutenção é uma guerra de constantes provações que exigem do sujeito a maior capacidade de luta contra desejos ainda presentes. Na última fase, o herói volta para casa transformado tanto quanto o enceramento do processo de mudança permite vislumbrar uma vida nova, uma volta ao lugar de partida, mas com outras referências e novos hábitos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ambos-os-modelos-apresentam-uma-estrutura-ciclica-de-transformacao" style="font-size:17px">Ambos os modelos apresentam uma estrutura cíclica de transformação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A Jornada do Herói narra uma mudança épica e simbólica, com obstáculos externos e internos, enquanto o modelo de <em>Changing for Good</em> foca na mudança de comportamentos práticos e pessoais. Em ambos, o protagonista (o herói ou a pessoa) passa por resistência, apoio, transformação e retorno, simbolizando que a verdadeira mudança exige autoconhecimento, perseverança e apoio externo em momentos críticos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas há um recado importante que os autores passam no livro. Muitas pessoas não conseguem transitar com êxito até o passo 4 e ficam presos, indo e vindo entre contemplação e preparação, as vezes iniciam uma ação, mas acabam recaindo para uma das fases anteriores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mostraram que um dos fatores importantes para o sucesso é a “<strong>tomada de consciência</strong>” que quase sempre passa por uma percepção física das consequências da não transformação. É o fumante que percebe que não consegue mais subir escadas, o alcoolista ou o viciado em jogo que perde sua família por teimosia em não querer aceitar o que todos lhe falam: é preciso mudar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-como-sempre-nos-ajuda-a-entender-isso-melhor-quando-descreve-o-processo-de-conscientizacao" style="font-size:17px">Jung, como sempre nos ajuda a entender isso melhor quando descreve o processo de conscientização:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>Mas, quando o conteúdo inconsciente aparece, quer dizer, entra no campo da consciência, então, também já se dividiu em “quatro”. Ele só pode se tornar objeto de experiência, através das quatro funções básicas da consciência: é percebido como algo existente (sensação), reconhecido como tal e diferenciado do objeto da experiência (pensamento), revela-se aceitável, “agradável” ou não (sentimento), e, finalmente, pressente-se de onde vem e para onde vai (intuição).</p><cite>JUNG, CG,&nbsp; 2013a, 774</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-explica-por-que-certos-traumas-nao-se-curam-projetos-nao-se-concretizam-e-resolucoes-de-fim-de-ano-nao-vingam" style="font-size:17px">Isso explica por que certos traumas não se curam, projetos não se concretizam e resoluções de fim de ano não vingam.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Somente adquirimos consciência plena de algo, quando o ocorrido foi processado por cada uma das funções psicológicas descritas por Jung. Ou, em outras palavras, somente quando mente, corpo, coração e espírito age juntos podemos pretender ter um entendimento real do assunto. Quando desenhamos, pintamos ou moldamos em barro sonhos, histórias e fantasias, quando registramos projetos e uma ideias à caneta no papel com a mão, quando dançamos sobre um tema, imagens, emoções e conceitos saiam do cérebro racional e se materializam através do movimento, permitindo que sintamos, tocamos, ouçamos com todas as dimensões do ser. Só assim ativamos a plena capacidade de entender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não basta querer, saber que é necessário para que uma mudança aconteça. Precisa sentir na pele, nos pulmões, nas batidas aceleradas do coração quando sobe a escada para, de fato, entender que é necessário parar de fumar. Tudo precisa de um preparo, de um planejamento, mas a idealização racional da transformação não é suficiente. Necessita dar asas a um desejo, permitir a percepção física da necessidade da transformação, que também precisa fazer sentido para que estejamos prontos para ação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tanto quanto a jornada do herói nos conta que cada um de nós tem potencial de transformar sua vida, os mitos, contos de fada e todas as formas de narrativas arquetípicas dizem tudo a nosso respeito. Mas o que a leitura aprofundada da obra de Jung, corroborada pela ciência e as pesquisas académicas contemporâneas, nos ensina e que é juntando a teoria a prática, aproximando o simbólico e o concreto, confrontando o real e o imaginário, vivenciando materialmente a fantasia que a transformação acontece para que, como o disse Cazuza, se heróis morrem de overdose, que possa ser de alegria.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Os heróis do dia-dia" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/CxW2sijqLkY?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><br><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Sebastien Baudry &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:17px">Referências:</h1>



<p class="wp-block-paragraph">CAMPELL, J. O <em>Herói de mil faces</em>. 10 ed. São Paulo, SP: Editora Pensamento LTDA, 1997.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>A prática da psicoterapia</em>. 16/1 Obra Completa. 16 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Um mito moderno sobre coisas vistas no céu</em>. 10/4 Obra Completa. 6 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Tipos psicoló</em><em>gicos</em>. 6 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">PROCHASKA, J. 0, NOCROSS J.C. DICLEMENTE C.C, <em>Changing for good,</em> Avon Books,&nbsp;New York,&nbsp;1995.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A improvisação no Jazz e a função simbólica da música</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-improvisacao-no-jazz-e-a-funcao-simbolica-da-musica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Jul 2024 18:17:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9250</guid>

					<description><![CDATA[<p>Desde os primórdios da humanidade A música é presente em todas as culturas e em cada lugar pode tomar formas diferentes, seja ela erudita, tecno ou popular. O Jazz retrata, inicialmente nos Estados Unidos, a união das culturas imigrantes, europeias e africanas oriundas do tráfico de escravos, sobre as quais este pais foi construindo. Este estilo de música próprio e complexo tem como ponto central a improvisação. Tentamos discutir neste artigo, como um entendimento simbólico da improvisação permite aproximar o Jazz da psicologia analítica, abrindo espaço para uma reflexão mais ampla sobre a importância psicológica da nossa relação com a música.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Paris…..Aaaah Paris……</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Algumas vezes acordo com saudades dessa cidade onde vivi alguns anos atras, onde fiz faculdades, sim, com s, e onde começou minha relação com a psicanalise.</em> Mas hoje, não é da comida, dos croissants, da arquitetura, dos museus e outros atributos conhecidos, portanto turísticos da cidade luz, mas de momentos especiais que compartilhei com colegas, como nas <em>Rue des Lombards</em> e <em>Rue de la Huchette, </em>nas <em>boîtes </em>de <em>Jazz.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Nós, os músicos, frequentávamos essas casas de shows intimistas, como o bem famoso <em>Caveau</em> que, aliás, foi retratado de forma um pouco fantasiosa no filme <em>LaLaLand</em>, de Damien Chazelle que ganhou 6 Óscares em 2017. Uma caraterística desses <em>clubs</em> de jazz é que costumam ficar em porões e, que portanto, para entrar, precisa descer, deixar a luz para traz e encarar a escuridão. Voltaremos a falar nessa metáfora mais a frente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pouca gente sabe, mas, se o grande pianista Duke Ellington se referiu ao Jazz como à única forma de arte verdadeiramente norte americana, a cidade de Paris teve uma importância especial na história deste estilo musical, essencialmente nos seus primórdios.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-jazz-nasceu-no-final-do-seculo-19-inicio-do-seculo-20-nas-comunidades-afro-americanas-de-new-orleans-na-luisiana-mesclando-tradicoes-musicais-vindas-da-africa-da-europa-e-do-caribe-ainda-vivas-na-alma-dos-descendentes-de-escravos-e-portanto-todos-seus-expoentes-eram-negros" style="font-size:16px">O Jazz nasceu no final do século 19, início do século 20 nas comunidades Afro-americanas de New Orleans, na Luisiana, mesclando tradições musicais vindas da África, da Europa e do Caribe, ainda vivas na alma dos descendentes de escravos e, portanto, todos seus expoentes eram negros.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">É difícil dizer por que, talvez devido à forte relação que existia entre a França e à cultura local conhecida como <em>Cajun</em>, palavra derivada do francês <em>Acadien</em> que designa os imigrantes francofones que se refugiaram ali após terem sido expulsos do Canadá. Mas o fato é que, nos anos 1920-1930, muito músicos fugindo da segregação racial, que estava se intensificando nos Estados Unidos, encontraram em Paris asilo e possibilidade de trabalhar, e de se expressar artisticamente nos vários clubes da cidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Depois da segunda guerra mundial e até nos anos 70, a cidade permaneceu o ponto de entrada dos &#8220;jazzistas” para a Europa. Marcando o início da carreira internacional de muitos músicos como Sidney Bechet, Dexter Gordon, Kenny Clark ou Bud Powel, como o ilustra o filme <em>Bird</em> (1988) de <em>Clint Eastwood</em> que narra, graças à especial atuação de Foret Whitaker, a passagem do grande músico Charlie Parker &#8211; “pai” do estilo be-bop.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-jazz-evolui-muito-atraves-dos-tempos" style="font-size:20px">O Jazz evolui muito através dos tempos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Nos anos 1920, o jazz tradicional e o estilo Dixieland se popularizaram com músicos como Louis Armstrong ganhando destaque. Nos anos 1930, a era do <em>swing </em>dominou, com grandes bandas lideradas por Duke Ellington, Count Basie e Benny Goodman trazendo o jazz para o <em>mainstream</em> e para grandes salas de dança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nos anos 1950, o <em>cool</em> jazz e o <em>hard bop</em> emergiram, oferecendo novas direções musicais. O <em>cool</em> jazz, representado por Miles Davis e Dave Brubeck, era mais suave e melódico, enquanto o <em>hard bop</em>, com Art Blakey e Horace Silver, incorporava elementos de <em>blues</em> e <em>gospel</em>. Na década de 1960, o <em>modal </em>jazz, popularizado por Miles Davis, e o <em>free</em> jazz, liderado por Ornette Coleman e John Coltrane, desafiaram as convenções tradicionais, buscando maior liberdade na expressão musical.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir dos anos 1970, o jazz <em>fusion</em> combinou o jazz com rock, funk e música eletrônica, com músicos como Herbie Hancock e Chick Corea à frente. Nos anos 1980, o neo-tradicionalismo ressurgiu com artistas como Wynton Marsalis, enquanto o jazz continuou a evoluir e se diversificar, incorporando influências globais e explorando novos territórios sonoros. Hoje, o jazz permanece uma forma de arte global, vibrante e relevante, refletindo a inovação e a improvisação em seu núcleo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-afinal-de-contas-o-que-e-o-jazz">Mas afinal de contas, o que é o Jazz?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Poderíamos dar uma primeira reposta, explicando que o jazz é caracterizado por uma abordagem única ao ritmo e à harmonia, que são fundamentais para sua identidade e expressividade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ritmo no jazz é conhecido por sua complexidade e flexibilidade. Um dos elementos centrais é o <strong>swing</strong>, uma sensação rítmica que faz a música &#8220;balançar&#8221; e envolve acentuações ligeiramente deslocadas e uma divisão tripartida dos tempos. Outro aspecto importante é a <strong>sincope</strong>, que desloca acentos musicais para as partes fracas do compasso, criando um senso de imprevisibilidade e excitação. A bateria e o contrabaixo desempenham papéis cruciais na manutenção do ritmo. Enquanto a seção rítmica (geralmente piano, contrabaixo e bateria) fornece uma base sólida para a improvisação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E continuando, explicar que a harmonia, é muitas vezes sofisticada e rica, que lança mão de acordes complexos e progressões harmônicas inovadoras. A improvisação harmônica, onde os músicos improvisam melodias sobre sequências de acordes, é uma característica central, permitindo a exploração de novas possibilidades melódicas e harmônicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, como todo o que se refere a arte, considerações como essas são sempre incompletas porque somente abrangem questões académicas que deixam de lado o mais importante, aquilo que não se vê e que, portanto, não se pode racionalmente expressar com palavras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para entender devemos, portanto, como as vezes é necessário fazer no consultório, quando se percebe que a análise está indo para um caminho demasiado racional, lançar mão de uma técnica eficaz, invocar o confronto com o oposto e se perguntar, afinal de conta o que não é Jazz?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-essa-tatica-abre-portas-um-tanto-mais-interessantes">E essa tática abre portas um tanto mais interessantes&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando fiz a faculdade, a primeira coisa que tivemos que escolher foi qual caminho musical queríamos trilhar, ou do Jazz ou o do Rock. E assim talvez fica mais fácil entender: seria Jazz tudo que não é Rock. E, aos conhecedores e puristas, que poderiam argumentar que existe estilos denominados “Jazz-Rock” e <em>fusion</em>, digo imediatamente sim, é verdade e é justamente ali que queremos chegar em conclusão. Mas, no momento, vamos nos contentar em explorar essa afirmação: É jazz o que não é Rock.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao pensar em Rock, imediatamente lembremos da energia corporal, de uma certa intensidade e, por vezes, uma certa agressividade, desenvolta e sensual, que, a priori, é o contrário de racional. E, se Jung não se atentou muito à esses estilos musicais que estavam ainda começando na época dele, ele nos deixou ferramentas interessantes para nossa investigação.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-pensarmos-nas-funcoes-psicologicas-encontramos-uma-outra-maneira-de-observar-num-primeiro-momento-e-dizer-que-o-rock-ativa-em-nos-a-funcao-sensacao-e-que-o-jazz-com-sua-forma-elitizada-intelectual-e-racional-de-abordar-a-musica-catalisa-a-funcao-pensamento" style="font-size:17px">Se pensarmos nas funções psicológicas, encontramos uma outra maneira de observar, num primeiro momento, e dizer que o Rock ativa em nós a função sensação e que o Jazz, com sua forma elitizada, intelectual e racional de abordar a música, catalisa a função pensamento.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, é fato de que a primeira abordagem do Jazz é até analítica, com sua preocupação em como tratar a complexidade da harmonia e construir frases musicais de impacto, como o faria um escritor, querendo expressar algo de relevante em meio à inumeráveis e, as vezes impossíveis de entender, regras gramaticais. Diante disso, o que resulta ao final, como em tudo que é arte, é a percepção do belo, daquilo que é esteticamente relevante, daquilo que é bom ou ruim, daquilo que se gostou ou não. E isso seria, talvez, a expressão da <strong>função sentimento</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aconteceu então, no meio da apresentação musical uma transformação, que poderíamos adjetivar de alquímica, um processo em que a emoção conseguiu escalar do fundo da sombra até a consciência e fundir-se à razão para virar sentimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, para quem já assistiu em festivais ou concertos os maiores músicos de Jazz improvisarem, isso não deveria ser surpresa. A improvisação, um dos pilares fundamentais do jazz, permite aos músicos se expressarem de maneira imediata e emocional, criando frases musicais inéditas, muitas vezes resultando em solos que são intensamente pessoais e únicos a cada performance.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em <em>Quando a psique canta</em>, Joel Kroeker, que era músico de Jazz antes de se tornar analista junguiano, disse que a “música é um sonho desperto que carrega conteúdos simbólicos” (2022, p.107). Quando <strong>Jung</strong> disse:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:17px"><blockquote><p>O símbolo, no entanto, pressupõe sempre que a expressão escolhida seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada. (Jung, 2015, § 903)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-mais">E mais,</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todo produto psíquico que tiver sido por algum momento a melhor expressão possível de um fato até então desconhecido ou apenas relativamente conhecido pode ser considerado um símbolo se aceitarmos que a expressão pretende designar o que é apenas pressentido e não está ainda claramente consciente (Jung, 2015, §906).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele está nos dizendo que o sentido primário, real, daquilo que ainda não entendemos, mas cuja existência é revelada ao Ego pelo símbolo, está na verdade, escondido nas profundezas do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O professor Geraldo José de Paiva, professor de psicologia da religião da Universidade de São Paulo, explica que símbolo é relativo a “introdução em uma realidade de ordem diferente”, “um elemento de transição entre determinada ordem de realidade e outra ordem de realidade” (Paiva, 2022, p. 93). E nos lembra a etimologia da palavra, derivada de <em>symballo</em>, que significa colocar juntos e que, de acordo com Antoine Vergote, na Grécia, o símbolo “já era entendido como uma certa presença do ausente e a consciência simultânea do já e do ainda não” (<em>a</em>pud Paiva, 2022, p. 96).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-e-claro-que-ha-uma-dimensao-divina-na-musica-e-sempre-imaginamos-o-artista-flertando-com-as-nuvens-procurando-inspiracao-criativa-divina-nos-ceus-acima-dos-pobres-mortais" style="font-size:18px">E é claro que há uma dimensão divina na música e sempre imaginamos o artista flertando com as nuvens, procurando inspiração criativa, divina, nos céus, acima dos pobres mortais.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, quando observamos génios como Miles Davis ou o imenso pianista norte americano Keith Jarrett nesse momento de absoluta intimidade criativa que é a improvisação, vemo-los, tocando, olhando para o chão, como procurando escondida na terra, a semente da beleza, confirmando o que Jung já nos disse, é da sombra que nasce a Luz.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, se existem <strong>símbolos musicais</strong>, podemos entender que estes são uma porta de acesso as dimensões invisíveis da psique, ou como o disse <strong>Kroeker</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Um símbolo é como um elevador de eixo de mina que dá acesso a camadas mais profundas, as quais anteriormente estavam fora do ponto de contato da consciência. Símbolos musicais podem nos conduzir a essas profundezas (2022, p. 111).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-faz-sentido-se-pensarmos-como-certas-musicas-fazem-aflorar-tristezas-passadas-ou-geram-irresistiveis-vontades-de-dancar-ou-mesmo-de-pular-de-alegria" style="font-size:17px">O que faz sentido se pensarmos como certas músicas fazem aflorar tristezas passadas ou geram irresistíveis vontades de dançar ou mesmo de pular de alegria.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Lembramos também a experiência de Pavlov com o cachorro, o qual salivava ao ouvir o som de uma campainha, o que prova a relação direta entre o som e as regiões mas instintivas do ser.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tudo isso esclarece a relação que poderíamos traçar entre a psicologia analítica e o<strong> Jazz</strong>: a improvisação age como catalisador da função transcendente de forma a resgatar emoções profundas, esquecidas, para que possamos sublimá-las e nos permite ampliar essa observação e leva-la até o consultório.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Um dos meus mestres, o guitarrista <strong>John McLaughlin</strong>, disse uma vez que para improvisar é preciso quebrar as regras, mas o pressuposto é que para quebrá-las e preciso de antemão conhecer essas regras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A improvisação, como a psicologia, precisa ser baseada em profundo conhecimento teórico, mas somente ganha valor quando conseguimos nos libertar de tudo que nos impede de entrar em contato com a luz escondida em nós e nos outros, clientes, analistas e todos membros da comunidade humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Uma das principais regras na improvisação é que se tudo é possível, se podemos esquecer as regras, após momentos de tensão, ao fugir dos padrões musicais tradicionais até, as vezes, incomodar o ouvido do leigo não acostumado, é imprescindível concluir com melodias que devolvam ao ouvinte sensação de calma e bem estar, onde as mais intensas emoções foram transformadas para dar presença ao belo.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O Jazz permanece e se funde com todas as culturas para nos lembrar, o quanto é importante, especialmente no nosso mundo de hoje, tão ferido pelas tensões sociopolíticas, resgatar um modo de integrar a razão e a emoção.</em></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A improvisação no Jazz e a função simbólica da música&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/nQi5zlCyYF0?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/"><strong>Sebastien Baudry</strong> &#8211; <strong>Analista em formação</strong></a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/"><strong>Maria Cristina Mariante Guarnieri</strong> &#8211; <strong>Analista didata</strong></a></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:20px">Referências:</h1>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, C. G. <em>A prática da psicoterapia</em>. 16/1 Obra Completa. 16 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">__________ <em>Símbolos da transformação</em>. 5 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">__________ <em>Tipos psicoló</em><em>gicos</em>. 6 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">Kroeker, Joel. <em>Quando a Psique Canta: A música na psicoterapia junguiana</em>. São Paulo, SP: Paulus Editora, 2022 .</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">PAIVA, Geraldo José de. Psicologia da religião: Uma introdução. São Paulo, SP: Editora da Universidade de São Paulo, 2022.</p>
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		<title>O Brinco de Ouro da Princesa</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-brinco-de-ouro-da-princesa-mitologia-do-futebol/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 12 Jan 2024 22:51:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No Brasil, a relação entre torcedores e seus clubes é uma paixão profunda, integrada à identidade cultural. Além do apoio esportivo, essa conexão cria uma comunidade única, onde as emoções durante as partidas são intensas. Vitórias geram celebrações efusivas, enquanto derrotas podem causar tristeza palpável. Os estádios se tornam templos onde rituais, superstições e tradições fortalecem esse vínculo. As rivalidades entre clubes acentuam ainda mais essa paixão, transformando jogos em embates culturais carregados de história e emoção.<br />
Isso nos leva a questionar se existe uma mitologia do futebol e o que observar essa experiência cultural e emocional que une pessoas de diferentes origens em torno de uma mesma paixão poderia nos ensinar sobre a sociedade contemporânea.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>:<em> No Brasil, a relação entre torcedores e seus clubes é uma paixão profunda, integrada à identidade cultural. Além do apoio esportivo, essa conexão cria uma comunidade única, onde as emoções durante as partidas são intensas. Vitórias geram celebrações efusivas, enquanto derrotas podem causar tristeza palpável. Os estádios se tornam templos onde rituais, superstições e tradições fortalecem esse vínculo.</em> <em>As rivalidades entre clubes acentuam ainda mais essa paixão, transformando jogos em embates culturais carregados de história e emoção. Isso nos leva a questionar se existe uma mitologia do futebol</em>.<em> Um convite para a refletir sobre a sociedade contemporânea,</em> <em>a partir dessa <span>experiência</span></em>, <em><span>cultural e emocional</span>, q<span>ue une pessoas de diferentes origens em torno de uma mesma paixão</span>.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-algumas-semanas-atras-estava-me-perguntando-o-que-poderia-fazer-no-final-de-semana-e-no-sabado-alguns-amigos-indagaram" style="font-size:18px">Algumas semanas atrás, estava me perguntando o que poderia fazer no final de semana, e, no sábado, alguns amigos indagaram:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;-<em>Que tal irmos ao Brinco?</em>&#8220;</p>



<p class="wp-block-paragraph">“-<em>Que brinco?</em>” perguntei, um tanto surpreso pela proposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;-<em>O brinco de ouro!</em>&#8221; complementaram.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não conhecendo ainda muito bem a cidade, fiquei me perguntando que lugar estranho seria esse, mas o convite parecia anunciar a possibilidade de alguma diversão. Fiquei bem curioso…o nome soava como tirado de alguma lenda medieval.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-seria-o-palco-de-algum-mito-moderno"><strong>Seria o palco de algum mito moderno?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Q<strong>uando me disseram que o nome completo deste lugar era &#8220;O Brinco de Ouro da Princesa&#8221;,&nbsp;comecei a ficar bem mais animado, pois soava como um verdadeiro convite para aventuras.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">E, eu, imerso no universo de Carl Gustav Jung, em cuja obra, referências a mitos, lendas e histórias ancestrais são tão frequentes que formaram a base da Psicologia Analítica, comecei a imaginar cavalos e cavaleiros, armaduras e donzelas em perigo precisando de resgate imediato, reis, rainhas, princesas e infelizes, mas inevitáveis, guerras para poder conquistar um eterno graal.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, não estava tão longe da verdade, pois esse brinco já foi de reis e legião, mesmo se “Urbana”. E lá muito se fala, também, em defesas fortes e ataques imparáveis necessários para as vitórias. Lá se confrontaram inúmeras vezes tropas tramando batalhas para poder levar taças de volta para casa, identificadas por suas bandeiras e brasões coloridos.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>O “Brinco de ouro” foi um presente dado</strong>, <strong>em 1953</strong>, <strong>a esta que tem o apelido de “Princesa do Oeste”: a cidade de Campinas, no interior de São Paulo. E é hoje o decrépito estádio do Guarani Futebol Clube que há muito tempo não vê nada de ouro.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Não sei se assistir a uma partida de futebol no Brasil é algo divertido, mas com certeza é uma observação antropológica que nos leva a questionar, à vista de todas as histórias que o país tem relacionadas a esse esporte e à intensidade das emoções que provoca, se haveria uma mitologia do futebol, e em segundo lugar, o que essa mitologia teria para nos ensinar nos dias de hoje.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mitologia">Mitologia</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre que se ouve a palavra mitologia, imediatamente vem à mente a mitologia grega. O conjunto de mitos que eram narrados originalmente de forma oral na Grécia antiga, dos quais os primeiros registros são comumente associados aos poetas Hesíodo e Homero. Certamente todos se lembram do longo poema <em>A Odisseia</em>, que narra a Guerra de Troia e a volta de Ulisses para Ítaca. A mitologia grega, ao longo de todas as histórias de heróis e deuses do Olimpo, acaba por entreter, mas sempre apresentando fenômenos da natureza e valores sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras culturas, por mais que a palavra mitologia não seja empregada, certamente porque nas tradições oriundas das culturas católicas e judaicas essas histórias de deuses e de situações de enfrentamento de elementos naturais que levam à construção de valores e questionamento de modelos sociais são, de forma geral, escritos religiosos e por isso não são sempre vistos assim para a população geral, mas também são mitos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-de-fato-algo-magico-no-futebol-no-mundo-todo-e-especialmente-no-brasil">Há, de fato, algo mágico no futebol no mundo todo e, especialmente, no Brasil.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A imensa maioria dos brasileiros, de todos os gêneros, mesmo os que não seguem quotidianamente o futebol, se une para assistir e fazer a festa quando o Brasil joga na Copa do Mundo. Essa paixão pelo jogo irradia tanto que até se faz sentir nos outros países. E sua relação com a bola redonda virou uma das marcas registradas do povo brasileiro e contribui para colocar o país no <em>mapa mundi</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso não é o um fenômeno exclusivo do futebol. Já ouvimos relatos de expatriados dizendo o quanto se emocionavam quando o Ayrton Senna corria, pois sabiam que no domingo o mundo inteiro se lembraria do seu “tão amado país de origem”. Contudo, há sempre uma emoção especial quando a “seleção canarinha” entra em campo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mesmo acontece com os times nacionais. Os torcedores vestem a camisa do seu time do coração em muitas ocasiões, tais como eventos familiares, passeios em shopping e até, às vezes, em situações mais formais, como se fosse um sinal de reconhecimento entre iniciados, de pertencimento a alguma sociedade nada secreta. Tanto quanto com a seleção, para alguns, os resultados do seu clube influenciam diretamente no estado de espírito e podem direcionar as emoções do dia, tão forte é o relacionamento de “amor” com o clube.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-jogadores-sao-vistos-pelos-seus-fas-como-modelos-e-ate-deuses">Os jogadores são vistos pelos seus fãs como modelos e até deuses</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Os jogadores são vistos pelos seus fãs como modelos e até deuses e acompanhamos as trajetórias de atletas como o Pelé, que passou de rei do futebol a ministro, e as conquistas fora campo por jogadores tidos como lendas dos gramados, de prazeres absolutamente inalcançáveis para o comum dos mortais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, como os Deuses da Grécia antiga, esses heróis capazes das maiores conquistas nos campos, com arte, talento, inteligência estratégica, também têm defeitos. Lembramos as exuberâncias sociais de Maradona e seu vício em cocaína, de inúmeros escândalos sexuais e diversos crimes que seriam pesadamente cobrados para o comum dos mortais, mas que parecem mais facilmente perdoáveis ou compreensíveis devido à toda a alegria que proporcionam a essa população que, de um pouco de tudo, permanece carente. Mas se podemos perceber, nessas histórias altamente mediatizadas, todos os elementos constitutivos dos mitos, estamos longes de testemunhar o anúncio de alguma nova luz para a humanidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-mircea-eliade-os-mitos-sao-arquetipos-transmitidos-por-meio-da-narrativa-mitica">Para Mircea Eliade os mitos são arquétipos transmitidos por meio da narrativa mítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ele nos mostra como o mito é relevante para se compreender determinados comportamentos que surgem na sociedade. O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É sempre portanto, a narrativa de uma “criação”: ele relata de que modo algo foi produzido e começou a ser (ELIADE, 2011, p.11).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para que possamos falar em mitologia, precisaria que essas narrativas dessem lugar a histórias simbólicas que teriam como objetivo, ou pelo menos como efeito, um crescimento ou esclarecimento do funcionamento da coletividade em que estão inseridas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-isso-posto-muitas-similaridades-existem-entre-historias-mitologicas-e-narracao-de-jogos-de-futebol">Isso posto, muitas similaridades existem entre histórias mitológicas e narração de jogos de futebol.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Carlos Byington em seu artigo “O arquétipo da alteridade e a riqueza simbólica do futebol” nos esclarece sobre as funções simbólicas e culturais do futebol. Ele descreve que o jogo é repleto de expressões arquetípicas: imagens e atitudes primordiais que todos nós partilhamos e que nos definem como a “espécie humana’. Explica, ainda, que o jogo acontece geralmente dentro dos dois maiores símbolos Junguianos da totalidade: o quadrado do campo e seus quatro lados e a mandala que é representada pelo círculo da arena (Byington, 1982).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todo jogo começa com a bola no centro e a emoção que toma conta das torcidas quando o árbitro apita o início da partida, chega imediatamente à periferia dessa gigante mandala popular em um frenesi contagiante.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-deus-e-um-circulo-infinito-cujo-centro-esta-em-todos-os-lugares-e-sua-circunferencia-em-nenhum" style="font-size:20px">“<strong>Deus é um círculo infinito cujo centro está em todos os lugares e sua circunferência em nenhum</strong>”</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E, lembrando <strong>Blaise Pascal</strong> quando disse “<em>Deus é um círculo infinito cujo centro está em todos os lugares e sua circunferência em nenhum</em>”, entendemos o poder numinoso do jogo de futebol.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Byington</strong> (1982) traz também um outro aspecto interessante para entender o fenômeno do futebol. O jogo seria uma expressão viva dos dois principais elementos que constituem a psique humana. Os arquétipos matriarcais e patriarcais. Promovendo uma luta entre a sensualidade feminina, expressa pela criatividade dos lances e refinamento técnico com toda a entrega emocional, que o jogo necessita, e os princípios masculinos, da ordem, força, poder e conquista.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Harmonizados, contudo, pelo arquétipo da <strong>alteridade</strong>, ancorado em nossa sociedade pelos mitos de <strong>Cristo</strong> e<strong> Buda</strong>, que “permitem a relação da sensualidade matriarcal e do poder patriarcal em igualdade de condições na personalidade e na Cultura”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alteridade">Alteridade</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Arquétipo da <strong>Alteridade</strong> substituiu os exercícios guerreiros pelas competições desportivas, que propõem um confronto de polaridades. Dentre as quais estão o desejo e o poder, a mente e o corpo, a razão e a emoção, a cabeça e o resto do corpo, a grosseria e a destreza, a vitória e a derrota, a euforia e a depressão, a alegria e a tristeza, a inteligência racional e o instinto, sem que um polo destrua o outro (Byington, 1982). E conclui dizendo:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O futebol é um exercício de confrontação de opostos, durante o qual várias emoções são experimentadas, isto é, soltas, exercidas, conhecidas, elaboradas e refinadas. Mais eficiente que qualquer Universidade, o futebol é uma escola de treinamento emocional, democrático e ético da alma coletiva, contendo alto potencial pedagógico civilizador. (Byington, Carlos, 1982)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-aspecto-essencial-quando-observamos-o-futebol-e-sua-dimensao-coletiva">Outro aspecto essencial quando observamos o futebol é sua dimensão coletiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não poderia haver jogos sem torcidas e sabemos o quanto “jogar em casa” é determinante para o resultado final, devido à “energia” que os torcedores, em massa, entregam para seu time. Durante o jogo, esta identificação (torcedor-time) chega a tal ponto que precisa ser limitada e contida&#8230; Esta delimitação física é necessária para favorecer a identificação emocional que, assim, pode atingir com segurança o grau intenso de empolgação necessária para que o povo se torne também agente do drama que se desenrola (<strong>Byington, 1982</strong>).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> (2013b, 329) se refere a este comportamento como <em>participação mística</em>, empregando o termo do antropólogo <strong>Lucien Levi-Bruhl</strong>, para descrever “<strong>este fato psicológico que entre o sujeito e o objeto não há aquela distinção absoluta que se encontra em nossa mente racional</strong>”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Vestir as cores uniformiza as pessoas e permite fundir-se com a massa, no que aparenta ser uma consciência coletiva. Todos viraram palmeirenses, corintianos ou no caso bugres e, neste momento, ao que parece, a humanidade igualmente fanatizada que se encontra do outro lado do estádio vira motivo de ódio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-colocar-a-camisa-do-time-parece-ser-como-colocar-o-brasao-e-fazer-parte-de-uma-coletividade-invencivel">Colocar a camisa do time parece ser como colocar o brasão e fazer parte de uma coletividade invencível.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todos nós já ouvimos dizer e muitas vezes gritar: “Sou corintiano e sofredor!”.&nbsp; Isso, aliás, é um mote muito significativo da importância do time para muitos torcedores, o sofrimento partilhado. No momento em que veste a camisa, a pessoa parece perder sua própria identidade para tornar-se um torcedor, às vezes com uma identificação tão forte que continua fora do estádio.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> certamente chamaria de identificação com a <strong>persona</strong><em>,</em> essa máscara social que precisamos usar para nos adaptar ao coletivo. E é ali que tem outro aspecto fundamental para entendermos os mecanismos do fanatismo por esporte: ao vestir a camisa, torna-se torcedor e perde sua individualidade para virar meramente um elemento da torcida (que parece ser um organismo vivo e autônomo). <strong>Ficou claramente evidenciada a simbologia arquetípica e imensa carga afetiva desses comportamentos</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p>Cada vez que um arquétipo aparece em sonho, na fantasia ou na vida, ele traz consigo uma “influência” específica ou uma força que lhe confere um efeito numinoso e fascinante ou que impele à ação. (Jung, 2013a, 109)</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-portanto-podemos-entender-a-torcida-como-um-conglomerado-de-pessoas-ligadas-por-uma-mesma-energia-afetiva-projetada-sobre-o-time-e-seus-herois-seu-exercito-sagrado" style="font-size:16px"><strong>Portanto, podemos entender a torcida como um conglomerado de pessoas ligadas por uma mesma energia afetiva, projetada sobre o time e seus heróis </strong>&#8211;<strong> seu exército sagrado.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">Se o cavalheiro veste o brasão por amor e fidelidade à dama que o escolheu como campeão para vingar sua honra, o mesmo se escuta sempre nos estádios: “onde há de reinar o amor ao time e os jogadores se sacrificam por amor à camisa”. Todavia, permanecer um minuto observando os torcedores adentrando a arena provoca imediatamente uma percepção totalmente oposta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu me lembro de um dos primeiros jogos que assisti ao vivo. Foi para a inauguração do estádio do Corinthians em vista à Copa do Mundo de 2014. Eu era responsável pela supervisão da entrada dos torcedores no estádio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-ouvi-no-radio-a-gavioes-esta-chegando-quis-olhar-de-perto-esse-fenomeno-que-e-uma-das-principais-torcidas-organizadas-do-pais-e-me-dirigi-a-entrada" style="font-size:18px">Quando ouvi no rádio: “A Gaviões está chegando”, quis olhar de perto esse fenômeno que é uma das principais torcidas organizadas do país, e me dirigi à entrada.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando vi, de um lado, esse amontoado de gente com suas camisas marchando que nem um exército bem organizado debaixo de sua bandeira gigante e, de outro lado, a tropa de choque da Polícia Militar protegida por capacetes e escudos, voltei para dentro, tamanha era a violência potencial que emergia daquele encontro prestes a acontecer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E naquele Brinco de ouro, violência é também o que se destacava nas palavras proferidas e atitudes dos torcedores do Guarani, neste sábado. O que me levou a me perguntar por que, neste momento, em que supostamente celebramos a alteridade e o amor pelo clube, o que mais se percebe é violência explícita e verbalização do ódio pelo adversário. O que pode parecer sem sentido já, que neste dia, o adversário era a Ponte Preta, outro time de Campinas, ou seja, este outro odiado poderia ser o vizinho ou professor da escola do seu filho ou seu médico.</p>



<figure class="wp-block-pullquote"><blockquote><p><strong>Byington</strong> (1982), novamente começa a nos indicar um possível caminho quando diz que o futebol se joga com os pés e que “<strong>os pés representam a base física do ser humano, como bem ilustra a figura mitológica do centauro</strong>&#8220;.</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Eles pertencem à metade inferior do corpo, associada aos processos inconscientes, “instintivos e vegetativos”. Também poderíamos associar o <strong>gol</strong>, o Clímax do jogo &#8211; com sua intensa explosão afetiva, que libera a torcida da tensão do jogo até então ainda não definido &#8211; como a expressão simbólica de um <strong>gozo coletivo</strong> reprimido.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-simbologia-do-futebol" style="font-size:20px">Simbologia do futebol</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Como, de acordo com Jung (2014, 634), a função psicológica da mandala é religar a Consciência ao centro da personalidade, podemos pensar que o apego ao futebol é um chamado simbólico, catalisado pela dinâmica energética da mandala para observarmos o quanto essas questões primordiais e arcaicas ainda agem como elementos centrais da personalidade, e que a despeito de qualquer ilusão de evolução espiritual, o corpo ainda parece falar mais alto de que a alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>No entanto, o que chama atenção é que este carinho verbalizado pelo time</strong>. No volume coletivo do estádio que se transforma numa massa de ódio professando injúrias contra a mãe do juiz. Mas também direcionada de forma extremamente violenta à torcida oposta, como se o uniforme virasse uma armadura com poder de transmutar o quieto rapaz de classe média urbana em um soldado numa guerra santa, detentor da verdade e de todos os direitos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-similitude-com-seitas-religiosas-e-marcante">A similitude com seitas religiosas é marcante.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A similitude com seitas religiosas é marcante. Em ambos os casos, a proposta de amor que vincula o grupo, fundamento ideológico dessas associações de seres humanos, costuma dar lugar à expressão de uma segregação baseada na aparente diferença de pensamento ou de pertencimento a outro grupo religioso, étnico ou cultural, e para a torcida, de outro pais, cidade ou bairro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung considera a <strong>atitude religiosa</strong> como a procura por algo externo, maior de que o ser. Para proporcionar um sentido a um mundo onde muitas perguntas permanecem desprovidas de respostas, e frente a esse abismo metafisico uma necessidade de proteção. E sobre a religião também nos explica que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não só o cristianismo, com sua simbólica salvífica, mas, de um modo geral, todas as religiões, e mesmo as formas mágicas das religiões dos primitivos, são psicoterapias. São formas de cuidar e curar os sofrimentos da alma e os padecimentos corporais de origem psíquica (JUNG, 2013, 20).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-tambem-nos-lembra-que-todo-simbolo-devido-a-sua-origem-arquetipica-ao-mesmo-tempo-sempre-carrega-luz-e-sombra">Jung também nos lembra que todo símbolo, devido à sua origem arquetípica, ao mesmo tempo, sempre carrega luz e sombra.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Essas imagens contêm não só o que há de mais belo e grandioso no pensamento e sentimento humanos, mas também as piores infâmias e os atos mais diabólicos que a humanidade foi capaz de cometer. Graças à sua energia específica, pois comportam-se como centros autônomos carregados de energia, exercem um efeito fascinante e comovente sobre o consciente. Consequentemente, podem provocar grandes alterações no sujeito. Isso é constatado nas conversões religiosas, em influências por sugestão e, muito especialmente, na eclosão de certas formas de esquizofrenia. (JUNG, 2013a, 109)</p>



<p class="wp-block-paragraph">E com sua alegoria entre o campo de futebol e a mandala, <strong>Carlos Byington</strong> (1982) nos dá um gancho, com certa liberdade de interpretação, para começar a elaborar um princípio de resposta. Se o Campo de futebol é um quadrado dentro da mandala formada pela arena, existe também outra mandala ao centro do campo. Assim, poderíamos fantasiar que essa perspectiva de um símbolo dentro de outro também pode ser invertida e que, portanto, a dinâmica psíquica inversa também poderia ser catalisada pela configuração do estádio.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isto é, se fora do estádio se fala em amor, valores morais, éticos e transformadores do esporte, ao adentrar o recinto, liberta-se também a palavra da sombra, e o lado obscuro da comunidade se manifesta livremente. As torcidas organizadas, assim como as escolas de samba tem forte conexão com a periferia e as comunidades. Aliás, algumas escolas são ligadas as torcidas. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Dessa maneira, podemos começar a perceber que a violência da torcida é uma resposta arquetípica. Uma projeção da violência do ressentido da vida, ainda não assimilada e que precisa se expressar de alguma forma.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-de-que-nos-serve-essa-reflexao" style="font-size:19px">Mas de que nos serve essa reflexão?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Mas de que nos serve essa reflexão sobre um tema tão comum no Brasil? E que somos obrigados a concluir que não conseguimos entender por completo? Afinal de contas, exageros de torcidas, agressões em estádios estão tão banais no país que nem chamam mais a atenção da mídia. No entanto, é imprescindível lembrar que o futebol acompanha sempre movimentos políticos e sociais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seja o movimento da “nação corintiana” e das torcidas organizadas, que nasce em 1969, com a criação da “Gaviões da Fiel”, talvez coincidentemente (ou não), logo após o ato inconstitucional n.5 (AI5) &#8211; expressão mais importante da ditadura militar, ou as decisões de localização das copas do mundo que acompanham pautas econômico-sociais. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Lembramos os ex-presidentes do Brasil que se declararam publicamente corintianos ou palmeirenses. Da forma como Hitler, Mussolini ou Franco tentaram aproveitar a popularidade deste esporte para ganhar massa eleitoral.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isto não significa que haja qualquer tendência ou orientação política nas torcidas organizadas, mas que elas representam expressões visíveis de necessidades comuns que juntam pessoas de universos socioeconômicos completamente diferentes. Por isso, como certas seitas religiosas, se inteligentemente manipuladas podem influenciar no destino de uma nação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pergunta que faço é: qual a origem deste ressentimento que amedronta ao ponto de ocasionar uma resposta de proteção tão violenta? da qual nem estado nem religião conseguem dar conta? Não se tem resposta. <strong>Estudos mostraram que não há relação direta entre poder aquisitivo e violência das torcidas</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-resumo-porque-toda-esta-luz-manifesta-se-em-sombra-ninguem-sabe" style="font-size:21px">Em resumo, porque toda esta luz manifesta-se em sombra, ninguém sabe.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Mas seja talvez ali que reside a grande lição que devemos aprender, a importância da observação da ressurgência de figuras arquetípicas</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> explica, no primeiro capítulo de&nbsp; “Aspectos do drama contemporâneo”, que as manifestações da juventude alemã nos anos 30 evidenciavam à ressurgência do Deus mítico Wotan: o “<strong>furor teutónicus</strong>” (Jung, 2012, 388).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que, para o observador atento e conhecedor da mitologia, anunciava a chegada do nacional socialismo (Jung, 2012, 385). Nos alertando sobre o fato de que para entender os acontecimentos humanos é preciso atentar-se às expressões simbólicas, pois elas são as manifestações do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sempre que tentamos entender uma situação cultural, política ou histórica, se nos mantivermos somente no racional, sem trazer o inconsciente para a reflexão, reduzimos nossa percepção dos fatores humanos, uma vez que a consciência não passa da parte visível do ‘i<strong>ceberg da psique</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-que-essa-reflexao-nos-ensina-de-relevante-para-os-dias-de-hoje" style="font-size:19px"><strong>E o que essa reflexão nos ensina de relevante para os dias de hoje?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É tristemente simples&#8230;</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Se o <strong>futebol</strong> não passa de um ensaio elegante e lúdico de uma batalha, durante a partida são colocados em jogo os mesmos arquétipos, regidos pelas mesmas energias humanas que nas batalhas de verdade, só que pacificados pelo contexto do esporte. Exatamente como mitos e contos encenam de forma artísticas qualidade e defeitos da realidade íntima de todos os homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, nesses momentos turvos em que percebemos que o mundo permanece imerso em conflitos armados e ameaças de genocídios, cujos motivos ninguém consegue entender (já que ninguém até hoje conseguiu resolver), todos os professores de Direito e Geopolítica, todos os Diplomatas, Chefes de estado e pseudointelectuais precisam voltar-se para um lugar de maior humildade e entender que as constantes alegações de motivos econômicos e políticos nunca foram respostas adequadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somente poderá haver um esboço de solução quando se levar em consideração todas as dimensões humanas subjacentes, escondidas atrás dos fatos palpáveis, o que somente a observação dos símbolos &#8211; que são a linguagem do inconsciente &#8211; permite revelar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E espero, que com a graças dos deuses, isso aconteça antes de que as últimas princesas tenham de vender seus últimos brincos de ouro para permanecerem vivas, mesmo que somente em nossos sonhos.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo Novo: O Brinco de Ouro da Princesa" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Oh8lf9Agv-I?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Analista em Formação: Sebastien Baudry</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Analista Didata: Maria Cristina Guarnieri</a></p>



<h1 class="wp-block-heading" id="h-referencias">Referências: </h1>



<p class="wp-block-paragraph">Byington, Carlos, Revista Psicologia Atual, Ano 5 nº 25, São Paulo, 1982. Última revisão em maio de 2006</p>



<p class="wp-block-paragraph">ELIADE, Mircea. Mito e Realidade São Paulo, SP: Perspectiva, 2011</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. Aspectos do drama contemporâneo 10/2 Obra Completa. 5 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>A prática da psicoterapia</em>. 16/1 Obra Completa. 16 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Psicologia do inconsciente</em>. 7/1 Obra Completa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>A natureza da psique</em>. 8/2 Obra Completa.&nbsp; 10 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 9/1 Obra Completa.&nbsp; 1’ ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossas Pós-Graduações:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="577" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-1024x577.png" alt="" class="wp-image-8736" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-1024x577.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-768x433.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-1536x865.png 1536w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-150x85.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-450x254.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2-1200x676.png 1200w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2024/01/POS-GRADUACOES-IJEP-MATRICULAS-ABERTAS-2.png 1640w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Conheça também nossos Congressos Junguianos:&nbsp;<a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep">Congressos IJEP (pages.net.br)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
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		<title>Simbologia do Espelho e Sombra</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sobre-a-simbologia-do-espelho-e-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Jun 2023 19:58:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[Persona]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia anal[itica]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu me lembrei esses dias de uma frase famosa do escritor britânico Alan Watts que, quando questionado sobre o motivo de porque não comia carne, teria respondido : “porque as vacas gritam mais alto que as cenouras quando as matam”. Qual é o interesse da colocação um tanto simplória acima? A qual, de fato, carece [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph"><em>Eu me lembrei esses dias de uma frase famosa do escritor britânico <strong>Alan Watts</strong> que, quando questionado sobre o motivo de porque não comia carne, teria respondido :</em> <em>“porque as vacas gritam mais alto que as cenouras quando as matam”.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Qual é o interesse da colocação um tanto simplória acima? A qual, de fato, carece de aprofundamento, especialmente por pertencer a um autor tão consagrado e espiritual como Watts, um grande conhecedor da <strong>doutrina budista</strong> e amador dos pensamentos de<strong> Jung</strong>?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Porque ela provoca em mim um encadeamento de memórias que me levaram a refletir sobre um tema que acredito ser um dos pilares mais importante da psicologia analítica quando queremos extrapolar os limites do consultório e confrontar Jung com a vida real: a <strong>projeção da sombra</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira delas, quanto a essa colocação sobre o sofrimento animal, é que: por mais que faça o mais absoluto sentido, <strong>é necessário lembrar em todos os aspectos da vida que este planeta é habitado por outros seres sensíveis</strong> além de nós. Somente arranha a superfície da filosofia budista sobre o tema.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mestre Zen norte americano <strong>Philip Kapleau</strong> &#8211; referido como <em>roshi, </em>venerável sábio ou professor, traz uma visão bem diferente: a essa mesma pergunta: “<em>porque não comer animais</em>?”, deu uma resposta infinitamente mais interessante que este batido argumento de que todas as vidas são equivalentes e que, além de absolutamente esclarecedora, permite uma conexão evidente com Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A segunda memória é uma viagem no tempo até momentos quase esquecidos da minha adolescência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-na-epoca-eu-sofri-muito-com-esse-dilema-pois-na-franca-onde-eu-cresci-era-comum-consumir-carne-de-cavalo-e-cavalos-eram-minha-grande-paixao">Na época eu sofri muito com esse dilema, pois, na França, onde eu cresci, era comum consumir carne de cavalo. E cavalos eram minha grande paixão.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Lá, paradoxalmente, se em alguns lugares a tradição o mantém como alimento, este animal também é parte da vida quotidiana e seu uso continua no trabalho em fazendas, no esporte, no divertimento e ainda encontramos, no sul do país, rebanhos de cavalos selvagens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dizem que se o cachorro é o melhor amigo do homem, o cavalo é sua mais nobre conquista. É um animal tão nobre que nem sobre patas anda&#8230;ele tem pernas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-cavalo-e-indissociavel-da-historia-e-da-humanidade">O cavalo é indissociável da história e da humanidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Cavalo de batalha de Napoleão Bonaparte encontra-se exposto empalhado no museu da guerra em Paris. A conquista dos territórios do leste da Europa, e sua povoação a partir da Rússia, foi realizada pelos cossacos &#8211; eméritos cavaleiros. Tanto que <strong>Gengis Khan</strong> conseguiu estender seu fantástico império graças a relação estreita que os guerreiros mongóis tinham com seus cavalos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda a história de Alexandre o Grande e suas conquistas estão ligadas ao seu amado <em>Bucephalus</em>. <strong>O que seria de Ulisses e da Odisseia e de toda a popularidade das histórias e da mitologia grega se não houvesse o episódio do Cavalo de Tróia</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-uma-relacao-de-cumplicidade-entre-os-homens-e-os-cavalos-que-se-encontra-em-todas-as-culturas-nbsp"><strong>Há uma relação de cumplicidade entre os homens e os cavalos que se encontra em todas as culturas</strong>.&nbsp;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ela é presente em vários relatos, de índios norte-americanos até os demais conquistadores. E é na <strong>Espanha</strong> onde encontramos um dos mais lindos espetáculos. Quando a dançarina de <strong>flamenco</strong> brinca de seduzir o animal com seu bailado, talvez como uma forma de ganhar o coração do seu cavaleiro, numa dissociação artística que enfatiza a lado simbólico do garanhão, macho, majestoso e poderoso que conecta a cabeça do humano à terra com&nbsp;suas 4 &#8220;pernas&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa relação do homem com o cavalo, por ser transcrultural e atemporal, deixa pressupor uma relação <strong>arquetípica</strong>. Há algo em comum entre as duas espécies. Algo que as conecta além da utilidade, do trabalho, de uma forma ainda mais profunda e que não conseguimos entender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu tive a oportunidade de presenciar, vivenciar, apreciar toda majestade deste nobre animal. Na época eu praticava hipismo e, para poder pagar aulas e competições, ajudava a cuidar dos animais na academia onde treinava. Era comum soltarmos alguns cavalos na arena de adestramento para se divertirem, desfrutando de um espaço maior de que nos estábulos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-foi-assim-que-um-dia-fui-agraciado-com-uma-experiencia-impar" style="font-size:19px">Foi assim que, um dia, fui agraciado com uma experiência ímpar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Fiquei durante um bom tempo assistindo ao <em>ballet</em> majestoso de um jovem imponente garanhão. Ele alternava galopes e batidas de cascos, relinches e bufadas, num inexorável bailado coreografado para mostrar a um outro animal o quanto poderoso era. Que o domínio do pedaço era dele e que, com certeza , o outro deveria se afastar se quisesse evitar uma luta fadada à derrota.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O mais interessante era que o temido adversário não existia. As paredes da arena, onde tudo aconteceu, eram revestidas de espelhos a fim de que que os cavaleiros pudessem olhar suas posturas e corrigi-las (conforme mandam as cartilhas desta disciplina exigente que é o adestramento equestre). O bicho, sem entender que isto não teria fim, estava tentando intimidar a si mesmo. <strong>Ele não percebia que o adversário era ele mesmo, refletido no espelho.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-espere-um-pouco-e-a-resposta-do-mestre-zen-sobre-comer-carne-de-animais">Mas, espere um pouco&#8230;E a resposta do mestre Zen sobre comer carne de animais?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">E sim, eu comi um dia, carne de cavalo. Tive outra experiencia parecida depois. Um filhote de cachorro ficava rosnando para sua própria imagem que via num espelho fixado à uma porta. Corria atrás e voltava como desapontado de não ter encontrado, do outro lado, nenhuma fera ameaçadora.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso, se não nos prova, pelo menos recorda o que muito se fala sobre a diferença essencial entre a psique humana e a dos animais. Especialmente dos mamíferos, que apesar de compartilharmos muito do DNA, da estrutura corporal, da mecânica da vida e da homeostase, algo entre nós difere: <strong>humanos tem a capacidade de perceber sua própria existência, a certeza de estar vivo que lhe confere o Ego, centro organizador da consciência</strong>. Humanos tem consciência e animais não, pelo menos não tanto, ao que parece.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Jung</strong> escreveu pouco sobre a formação do Ego em si. Apesar disso, alguns psicólogos e psicanalistas abordam que esse encontro com o espelho é um dos momentos essenciais para a formação do Eu. Dessa maneira, para dar início ao desenvolvimento da personalidade e a esse processo sem fim, que Jung descreve como “<strong>individuação</strong>”, a aventura de <strong>se tornar quem de fato é</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-encontro-com-o-espelho">O encontro com o espelho</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O primeiro a estudar este momento, denominado &#8220;<strong>estágio do espelho</strong>”, foi o psicólogo francês <strong>Henri Wallon</strong>, em seu livro <em>Les origines do caractere chez l´enfant</em>  &#8211; as origens da personalidade na criança (1931). Trata-se do momento no qual a criança, ao reconhecer sua imagem refletida no espelho, começa a perceber que é <strong>um ser individual</strong>, que possui um corpo que a diferencia de outros seres humanos. <strong>René Zazzo</strong>, um dos pioneiros da psicologia da criança descreve, em 1977, na revista francesa “Enfance”, o processo do estágio do espelho em 4 fases:</p>



<ol class="wp-block-list" style="list-style-type:1">
<li>Reconhecimento da imagem do outro (a criança nunca está sozinha frente ao espelho);</li>



<li>A criança confunde sua imagem com a de outra criança e tende a brincar com ela;</li>



<li>Desconforto com seu reflexo e fuga obstinada do espelho;</li>



<li>Momento jubilatório da identificação da sua própria imagem.</li>
</ol>



<p class="wp-block-paragraph">Lembrando que foi o também psicanalista francês <strong>Jacques Lacan</strong> quem trouxe este assunto para a psicanálise, o que fez no congresso da associação internacional de psicanálise em Marienbad, na então Checoslováquia (1936), antes de publicar na revista francesa de psicanálise (1949).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ele continuou desenvolvendo o assunto durante toda sua carreira enfatizando aos poucos importância do olhar do outro nessa formação do Eu; haja vista que é quando é apresentado ao espelho, por um adulto, e que lhe é dito “olha, é você ali”. Geralmente por um dos pais cuja imagem reconhece ao lado da sua, que a criança começa a entender que este terceiro desconhecido, “sou eu”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De fato, esse aspecto é fundamental. Justamente porque demonstra que precisamos do outro para nos reconhecer. É com a certeza que o outro sabe quem ele é que podemos começar a caminhar em direção a ele para iniciar a descoberta de nós mesmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-precisamos-do-olhar-do-outro-para-entender-quem-nos-somos">Precisámos do olhar do outro para entender quem nós somos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Françoise Dolto</strong> (202), pediatra e psicanalista, elaborou outro ponto interessante: acrescentou que precisamos conceber esse espelho como “<strong>uma superfície psíquica oni-refletora</strong>”, considerando a importância de tudo que é refletido e recebido como volta da interação com o outro, como sons, fala, toques ou expressões corporais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Em resumo, precisamos entender que, para nos desenvolvermos, para nos tornarmos indivíduos plenos e autônomos, precisamos ao longo da vida nos deparar com <strong>espelhos simbólicos</strong> oferecidos pela interação com os outros.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Em sumo, é o olhar do outro tanto quanto nosso olhar no outro que nos permite aprender e entender quem nós somos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-o-zen-budismo-nisso-tudo-calma-ai-que-chegamos-la">E o Zen budismo nisso tudo? Calma aí que chegamos lá&#8230;</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Para fazer essa conexão, devemos antes elaborar mais um pouco essa questão do espelho simbólico. Espelhos e reflexos aparecem em várias histórias e contos, da branca de neve até o mito de narciso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“<strong>O</strong> <strong>retrato de Dorian Gray</strong>”, livro do <strong>Oscar Wilde</strong>, acaba mostrando a realidade escondida por trás da tardia boa consciência adquirida pelo protagonista da história. E, se todas essas narrativas parecem dar a lição de que, se olharmos bem para a imagem, iremos ver algo sombrio, é bem interessante a continuação da história de Alice.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em “<strong>Alice no país das maravilhas</strong>”, <strong>Lewis Caroll</strong> nos mostra como <strong>no universo da criança imaginário e realidade de misturam</strong>. Contudo, na sua sequência, que muitos não conhecem, <strong>Alice através do espelho</strong>, a pequena aventureira atravessa o espelho para se deparar com figuras estranhas e altamente simbólicas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso, é muito relevante que o título original da novela fosse: <strong>Através do espelho, e o que Alice encontrou ali</strong> (traduzido para o português).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso nos faz pensar que para o nosso desenvolvimento, não basta olhar no espelho, pois isso nos fixaria no momento presente como <strong>Narciso</strong> preso na eterna admiração do seu reflexo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-precisamos-olhar-atrave-s-e-ir-a-o-outro-lado-po-is-alem-da-imagem-refletida-ha-algo-precioso-p-ara-ser-encontrado" style="font-size:20px"><strong>Precisamos olhar atravé</strong>s e<strong> ir a</strong>o<strong> outro lado,</strong> po<strong>is, além da imagem refletida</strong> <strong>há algo precioso p</strong>ara ser<strong> encontrado</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Quando falamos em desenvolvimento e aspectos sombrios, imediatamente lembramos o que Jung nós ensinou sobre a formação da personalidade. À medida que tomamos consciência da nossa existência e que se firma o Ego como centro organizador da consciência, responsável por guiar-nos pela vida em sociedade. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Juntamente e irremediavelmente se forma a <strong>sombra</strong>: parte do inconsciente pessoal com todos os conteúdos, desejos, vontades e atitudes reprimidas por serem julgadas inadequadas ao momento da consciência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-compreendendo-os-conteudos-sombrios">Compreendendo os conteúdos sombrios</h2>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>É importante ressaltar sempre que sombrio não significa “do mal” ou “pecaminoso”, mas sim em oposição “à luz da consciência”, ou seja, tudo aquilo para que, no presente momento, é melhor não olhar, nem ter conhecimento.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto importante é que esses conteúdos são “<strong>sombrios</strong>” justamente por terem sido reprimidos. Isso é a base de que chamam a “psicodinâmica” na qual se enquadram tanta a psicanálise quanto à psicologia analítica. São conteúdos que existiam no inconsciente &#8211; seja ele pessoal ou impessoal, coletivo. Os quais receberam energia suficiente, na forma de desejos e vontades, até serem elevados à consciência para serem realizados e vivenciados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entretanto, por serem incompatíveis com a percepção do Ego, com moral, ética, religião, valores individuais ou do coletivo o qual é envolvido, esses conteúdos são devolvidos e jogados para baixo do tapete do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o ponto chave para <strong>Jung</strong> é que <strong>a psique é um sistema fechado no qual a energia não se volatiliza, não desaparece</strong>. Portanto, por mais que o Ego não queira enxergar essas vontades e desejos, esses permanecem ativos. Assim, permanecem na<strong> sombra</strong>, na <strong>escuridão afetiva</strong>. Até que, intensos demais para serem ignorados, reaparecem sob a forma de <strong>projeção</strong>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“&#8230; todas as tendências de adaptação ao mundo externo são reprimidas e somem no inconsciente. E, assim, quando percebidas, aparecem como não pertencendo à própria personalidade, mas como projetadas”.</em></p>
<cite> Jung, 2015, 267</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tendemos-a-jogar-nos-outros-e-nos-objetos-todas-essas-questoes-que-nos-inquietam-mas-que-nao-percebemos">Tendemos a “jogar” nos outros e nos objetos todas essas questões que nos inquietam, mas que não percebemos.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“O objetivo essencial do opus psychologicum é o desenvolvimento da consciência, isto é, em primeiro lugar, a tomada de consciência dos conteúdos até então projetados. Esse esforço leva pouco a pouco ao conhecimento do outro, bem como ao conhecimento de si e, assim, a distinguir o que a pessoa é na realidade daquilo que nela é projetado ou o que ela fantasia a seu respeito.”</em></p>
<cite> Jung, 2011, 471</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Começamos a dar aos outros qualidades e defeitos que não tem e, assim, criamos vínculos afetivos com artistas, líderes religiosos ou políticos, acreditando ser o que não são.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Começamos a amar e odiar personagens de ficção, nos ligar em novelas ou heróis de desenhos, jogadores e times de futebol e, muitas vezes, damos à eles mais importância de que a membros da família ou a amigos próximos. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Choramos o falecimento de cantores e cantoras que nunca encontramos, como se um pedaço de nós tivesse morrido também.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas se pensarmos bem, certamente <strong>um pedaço de nós</strong> se foi junto do famoso que partiu e de que tanto gostamos. Se foi o pedaço da nossa alma que o Ego nunca aceitou, esse aspecto nosso escondido que tivemos que pintar na cara do outro para nunca esquecermos que nos incomoda por dentro. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-projecao-jung-disse">Sobre projeção, Jung disse:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Esta expressão designa, pois, um estado de identidade que se tornou perceptível e, assim, objeto de crítica, seja da crítica do próprio sujeito, seja da crítica de outros.”</em></p>
<cite>Jung, 2015, 881</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:20px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“Para configurar esta relação, o sujeito destaca de si um conteúdo, por exemplo, um sentimento, e o transfere para o objeto, dando vida a este e incluindo-o na esfera subjetiva.”</em></p>
<cite>Jung, 2015, 882</cite></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Assim, ao longo do decorrer da vida, <strong>fazemos dos outros nossos espelhos vivos</strong>, para que nosso “eu”, incapaz de olhar para dentro, com o olhar constante fixado para fora, possa enxergar o que lhe falta para tornar-se, na totalidade, quem há de ser. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-preciso-como-alice-atravessar-o-espelho">É preciso, como Alice, atravessar o espelho. </h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ir além da sensação, do afeto que a imagem refletida causa. Procurar do outro lado o sentido escondido e questionar, tal como fez o mestre Zen, para que seja possível responder a seguinte pergunta: <em>Não é proibido comer carne</em>. <em>Nada é proibido. Mas se você se deleita ao comer, o que diz sobre você que seu maior prazer advém da morte de outro ser?”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Nesse contexto, indago: o que significa sobre nós, como coletivo, curtir, assistir filmes de terror, “cidade alerta”, campeonatos de MMA, não chorarmos ao ver o espelho da sociedade dormindo na calçada e não fazer nada, xingar o torcedor do outro time porque é divertido?</em> </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Então</strong>, <strong>pergunto</strong>:<strong> o que diz ao seu respeito tudo aquilo de que gosta?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Analista em formação: Sebastien Baudry</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Analista didata: Maria Cristina Guarnieri</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS</h2>



<p class="wp-block-paragraph">DOLTO, <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Fran%2525C3%2525A7oise_Dolto">F,</a> NASIO J.-D. L&#8217;enfant du miroir, Paris, França: Payot, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">KAPLEAU, P. Zen Budismo – O Caminho da iluminação, Editora Arx.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G. <em>Ab-reaçã</em><em>o, análise dos sonhos, transferê</em><em>ncia</em>. 16/2 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ <em>Tipos psicológicos</em>. 6 Obra Completa. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALLON, H. <em>Les origines du caractère chez l&#8217;enfant. Les préludes du sentiment de Personnalité</em>. Paris, França: <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Presses_universitaires_de_France">Presses universitaires de France</a>. 1983</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Jacques_Lacan">LACAN,</a> J. <em>Le Stade du miroir comme formateur de la fonction du Je: telle qu&#8217;elle nous est révélée dans l&#8217;expérience psychanalytique</em>. Paris, França:&nbsp; <a href="https://fr.wikipedia.org/wiki/Presses_universitaires_de_France">Presses universitaires de France</a>, 1949.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZAZZO, R, <em>Image spéculaire et image anti spéculaire. Expériences sur la construction de l&#8217;image de soi. </em>Revista<em> Enfance</em><strong>, </strong>Paris Fance, 1977, 30-2-4, pp.223-230</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Sobre a Simbologia do espelho e sombra" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/1Z2pjLWjyh4?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Acesso nosso site:<a href=" https://www.ijep.com.br/"> https://www.ijep.com.br/</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Sobre a mitologia dos Lobisomens e a sua relevância no cenário sociopolítico atual</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sobre-a-mitologia-dos-lobisomens-e-a-sua-relevancia-no-cenario-sociopolitico-atual/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Dec 2022 09:19:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[arteterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[lobisomens]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Todos conhecem a lenda do lobisomem. Todos sabem que quem foi mordido por um monstro se transforma na lua cheia. Mas já se perguntaram se é lenda mesmo ou se  existem em algum lugar. E se existem, já pesaram por onde eles andam na lua nova ? É a essas perguntas e a outra mais importante ainda: qual poderia ser o significado do mito do lobisomem e qual seria sua relevância para os dias atuais, que tentaremos responder neste artigo, aprofundando um pouco a história e a simbologia dessa lenda mais conhecida do grande público que a mitologia grega.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading" id="h-lobisomens-existem">Lobisomens existem?</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Todo mundo já tem uma resposta para essa pergunta, em livros, em filmes&nbsp;&nbsp;e em seriados: é&nbsp;claro que sim!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os lobisomens existem e como veremos mais à frente, psiquiatria e medicina também o confirmam.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Então, se&nbsp;para esta pergunta, já achamos a resposta, imediatamente outra dúvida surge à&nbsp;mente:&nbsp;&#8220;Por onde será que andam os lobisomens na lua nova?&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para responder a esta indagação e entender a relevância dessa mitologia para os dias atuais, proponho mergulhar na história do nosso relacionamento com esses seres mágicos &#8211; e empreguei o termo &#8220;mágico&#8221; de propósito, mesmo se parece contraditório, pois magia mais se entende como sendo luz, em oposição à sombra sanguinária que representam esses monstros, mas no meu dicionário a mais correta definição de magia é &#8220;apelar as forças do invisível para obter-se resultado visível”. E, novamente lembrando Jung e a prevalência&nbsp;dos &#8220;para quê&#8221; sobre os &#8220;porquês&#8221;, buscando entender qual mensagem essa imagem pode nos entregar, pois é fácil constatar que referências a esses monstros são mais e mais comuns nos dias de hoje, especialmente para mentes jovens, haja vista o sucesso da franquia “Moonlight&#8221; e outras frequentes referências nas artes e culturas recentes.<br></p>



<p class="wp-block-paragraph">Há um fundamento de realidade em toda mitologia e somos obrigados a aceitar que existe uma mitologia dos lobisomens, mais conhecida do grande público que a mitologia grega. Com certeza, em todos os lugares do mundo, todos sabem que homens mordidos por monstros se transformam em lobos sanguinários e famintos, sempre que a lua cheia aparece no céu, para desaparecerem logo em seguida; que somente as balas de pratas podem vencê-los e que seus piores inimigos são os vampiros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não é fácil identificar como,&nbsp;onde, e nem quando nasceu a lenda do lobisomem, mas parece tão antiga quanto a humanidade. A transformação de homem em lobo já aparece na epopeia de Gilgamesh, um dos mais antigos escritos conhecidos, datado por volta do segundo milênio antes de Cristo e que conta, em diversos poemas, a lenda deste antigo herói da mitologia da Mesopotâmia que certamente foi rei da suméria. Gilgamesh que está representado numa escultura que se encontra no museu do Louvre como o mestre dos animais, recusou os avanços sexuais da deusa Ishtar-<strong>Inanna</strong>porquê ela havia usado de magia no passado para transformar um antigo amor em lobo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra referência precoce aparece na mitologia grega quando Zeus transforma em lobo Lycaon, filho de Pelasgo e de&nbsp;Melibea, por ter-lhe servido carne humana como alimento em um banquete de boas-vindas à cidade de Arcádia na qual reinava, infringindo assim uma lei divina que não permitia qualquer tipo de sacrifício humano. Certamente, ali foi plantada a primeira semente de que chamamos de licantropia, nome dado à transformação do homem em lobo, pois há uma grande quantidade de filmes, livros e séries que ainda se referem aos Lobisomens como &#8220;Lycans&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na mitologia nórdica, lobisomens aparecem também na lenda dos&nbsp;<em>Volsungs</em>, quando o rei Sigmund descobre peles de lobos mágicas&nbsp;que, quando vestidas, transformam quem as carrega em monstros sanguinários que não conseguem parar de matar nem se despir das peles durante 10 dias.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outra referência interessante se encontra nas lendas do Cáucaso, onde de acordo com o folclore local, o povo da Chechênia teria nascido de uma fêmea de lobo cinzenta, sendo a linha mestre no mito nacional, no qual o lobo solitário simboliza força, independência e liberdade, havendo ali um provérbio sobre os clãs: &#8220;Livres e igualitários como lobos&#8221;. Mesmo não se tratando&nbsp;<em>a priori</em>&nbsp;de história de lobisomem,&nbsp;é uma dentre outras referências que passarão a fazer mais sentido à medida do desenvolvimento do nosso argumento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Na Alemanha e na França, nos séculos 16 e 17, a ficção começa a encontrar com a realidade e vários relatos muito similares aparecem, contando histórias de assassinatos selvagens com corpo mutilados, nas quais os suspeitos declararam que se transformavam em lobo para atacar suas vítimas após pactos feitos com o Diabo ou com espíritos para conseguir força e prazeres materiais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns casos de &#8220;serial killers” foram atribuídos a supostos lobisomens devido ao fato que muitos crimes violentos eram seguidos de canibalismo. A&nbsp;licantropia nesta&nbsp;época reunia todas as características para explicar tais fenômenos, incompreensível para as mentes comuns, sendo que ainda não existia a psicologia para trazer uma visão mais científica, como foi o caso de Gilles Garnier, o &#8220;lobisomem de Dole&#8221;, um eremita que foi preso após a descoberta de corpos de crianças com parte da carne de coxa e braços devoradas. Trata-se do único caso oficial de licantropia recenseado nos anais da polícia francesa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É certamente nesta época, por volta de 1570, que começa a aparecer a relação da transformação do homem em lobo com a lua cheia. Na Europa do norte não&nbsp;existía luz elétrica nem calefação, e, como é bem conhecido, não se fazia muito uso de banho. Portanto, faz muito sentido imaginar que um eremita se cobrisse de peles de animais para se aquecer no inverno e que, faminto e malcheiroso, se sentia obrigado a pedir e até agredir pessoas por comida,&nbsp;aparecendo como homem-animal violento na luz da lua cheia, único momento no qual de noite haveria luz para poder enxergar o agressor.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outros fenômenos físicos podem ter alimentado a crença na existência dos lobisomens, como a Hipertricose,&nbsp;doença causada por mutação genética, também conhecida popularmente como “síndrome do lobisomem”&nbsp;e que tem por principal sintoma o crescimento de pelos em toda a superfície do corpo. É provável que pessoas acometidas por essa condição tenham sido confundidas com animais, tanto quanto o era em tempos remotos quem sofria de Síndrome de Down.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A psiquiatria, por sua vez, também identifica como Licantropia clínica, dentro das zoopatologias, a condição em que um paciente acredita se transformar em lobo.&nbsp;Tanto&nbsp;é que a literatura atesta essa afirmação quando Stephen King o famoso escritor norte-americano disse: &#8220;Monsters are real, ghosts are real too. They live inside us, and sometimes, they win&#8221;, (Monstros são reais, fantasmas são reais também. Eles vivem dentro da gente, e, as vezes eles vencem),</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">O próprio Jung indaga:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;O pensamento é real? Provavelmente&#8221; e esclarece: &#8220;O Pensamento existiu e existe mesmo que não se refira a uma realidade palpável e produz inclusive efeitos exteriores.&#8221;&nbsp;(JUNG, 2019, §744).</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, se após&nbsp;assistir a um filme, você não consegue dormir tranquilo sem antes verificar que todas as janelas e portas estão perfeitamente trancadas é&nbsp;porque&nbsp;continua vivenciando o medo que causou o monstro, criando o efeito da insegurança que somente passa se houver atitude externa, material, de tornar a sua casa segura. O efeito do medo é real e, portanto, a causa deste medo também, o monstro, é real. Por mais que se trate de uma realidade psíquica, essa situação retrata uma necessidade real, verdadeira, de quem a vive.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A respeito do Lobisomem, especificamente, Jung escreveu muito pouco e somente deixou algumas referências em que os equipara a bruxas e outras figuras folclóricas tratando-as como símbolos de projeções arquetípicas, ou seja, relativas a imagens primordiais, a referências universais, comportamentos, desejos, medos e instintos, compartilhados por toda a espécie humana e que constroem o que ele chamou &#8220;inconsciente coletivo&#8221;.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, a licantropia, como o dissemos anteriormente, pela psiquiatria, faz parte de um leque mais abrangente de zoopatologias, que traduzem a ilusão de transformar-se em animal. E este comportamento é encontrado em várias culturas, de parte e outra do globo, como o observou Mircea Eliade.&nbsp; É o boto que seduz as meninas nas lendas amazónicas, transformações&nbsp; nas lendas dos povos nativos das Américas, narrativas xamânicas ou mesmo os druidas celtas que tomavam formas de bichos para poder aproveitar suas forças vitais, &#8220;homens gatos&#8221;, na novela &#8220;SleepWalkers&#8221; (sonâmbulos) de Stephen King ou no filme cult de 1982 &#8220;Cat People&#8221; (A marca da pantera) do diretor Paul Shrader, em que os instintos sexuais levam uma mulher a se transformar em uma monstruosa onça parda, igualmente a Zeus que tomou forma de animal para poder conquistar objetos de paixão.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos, portanto, considerar este fenômeno como arquetípico, pois é atemporal, transcultural e ligado a instintos e conceitos primordiais dos homens.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Com esta percepção, relembramos imediatamente Jung quando disse em Psicologia e Religião:&nbsp;&#8220;É surpreendente a transformação que se opera no caráter de um homem quando nele irrompem as forças coletivas. Um homem afável pode tornar-se um louco varrido ou uma fera selvagem&#8221; (Jung, 2019_1 &#8211;&nbsp;§25)</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Na realidade basta uma neurose para desencadear uma força impossível de controlar por meios racionais&#8221; (Jung, 2019_1-&nbsp;§26)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Se estivéssemos falando de licantropia clínica, de distúrbios mentais, estaríamos conseguindo, agora, enquadrar o mistério dos lobisomens na teoria da psicologia analítica e aproximá-lo a um &#8220;complexo&#8221;, este aglomerado de energias afetivas em volta de um núcleo arquetípico, que pode chegar a se sobrepor ao ego, tomar conta da atitude da consciência, e levar a pessoa a se tonar uma forma de encarnação do mal. No entanto, estes casos são extremamente raros e esse tipo de entendimento ja é bastante conhecido quando se trata de&nbsp;<em>serial killers</em>&nbsp;e atos de loucura ou crimes ligados a episódios de esquizofrenia.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading">De fato, o lobisomem como retratado em filmes não existe, até que se prove o contrário, mas a lenda ainda está&nbsp;presente e a mitologia até&nbsp;se mantém viva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Em seu livro &#8220;The nature of the beast&#8221;, Carys Crossen conta que o lobisomem sempre foi uma metáfora para as pulsões sombrias da humanidade em direção à violência e, mais recentemente, para as dificuldades dos adolescentes em lidar com os instintos. Isso vai muito de encontro com os pensamentos de Jung como ele ilustra em Mysterium Conuinctionis (§269 e&nbsp;§279) que a função psicológica mais inconsciente, mais sombria costuma aparecer na mitologia na forma de grandes animais com o leviatã, a baleia, o dragão e o lobo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Crossen também complementa que dos anos 70 até hoje, a mitologia dos lobisomens vem se alterando de uma forma constante. Inicialmente, a vítima se transformava em lobo, o animal; depois apareceu se transformando em homem-lobo somente uma vez e morria assim, como exposto no filme &#8220;Um lobisomem americano em Londres&#8221;; posteriormente, começou a viver histórias onde ia se transformando em monstro e voltava à forma humana, ciclicamente, de acordo com o ciclo da lua. Atualmente, em literatura e seriados contemporâneos, já nem aparece mais na forma do lobo, mas somente tem sua força interna como combustível de violência e motivo de conexão com a natureza, como no seriado canadense Bitten, de 2014.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos então pensar que se a mitologia vai evoluindo ao longo do tempo, porém sem se afastar completamente da história original, mas mantendo uma atração popular suficiente para que se invista nela imensos volumes de dinheiro, é porque ela ainda é necessária para a projeção dos mesmos conteúdos arquetípicos, das mesmas necessidades e medos ancestrais para a gerações mais novas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, o lobisomem nos dias de hoje continua sendo uma realidade psíquica que precisa se expressar por meio das várias narrativas e ilustrações que encontramos principalmente nas telas de cinema e de televisão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para podemos entender um pouco mais sobre essa necessidade ainda tão real e da relevância que tem para as civilizações atuais, precisamos focar no que se mantém fixo nas lendas através dos tempos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que chama imediatamente atenção é que o lobisomem é a expressão do mal que tomou conta do homem de bem. E recordando André Malreaux quando disse que nas guerras os homens dão aulas ao inferno, basta observar passivamente o mundo como ele se apresenta para ter certeza de que se trata de uma realidade. Às vezes, o mal toma conta.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A primeira lição aparece com a metáfora da bala de prata que é uma solução mágica para resolver de uma vez por todas um problema maior que todo entendimento racional. Um único tiro certeiro acaba para sempre com a expressão do mal. Porém essa solução não é desprovida de consequência e tem um alto preço a pagar. Matar o lobisomem tanto quanto matar Mister Hyde significa também matar o doutor Jekyll, o homem que ele era antes, o homem que ele ainda é quando entra a lua minguante.</p>



<p class="wp-block-paragraph">John Sanford nos lembra em &#8220;Mal, o lado sombrio da realidade&#8221;, que o mal é necessário pois quando nos confrontamos com ele, de alguma forma sofremos e em consequência incentiva a ativação a função sentimento, sem a qual não poderíamos ser verdadeiramente humanos. Eliminar o mal também é eliminar o humano na gente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro aspecto bem interessante e que merece destaque, é que nas várias representações de lobisomem é extremamente raro ver transformação de mulher em lobo. Se há vários exemplos de transformações de mulheres em outros animais, raramente aparece uma “lóbis-mulher”. E é mais estranho ainda quando lembramos que, na maioria das fantasias, as figuras de lobos são em geral de fêmeas de lobo cinzento ou são animais acompanhando bruxas ou outras figuras femininas. A analista junguiana australiana Chantal Bourgault Du Coudray argumenta que a lua é&nbsp;a representação de um arquétipo feminino e que o ciclo da lua ao qual o lobisomem responde derramando sangue pode ser interpretado como um símbolo do ciclo menstrual e que a figura do lobo que toma conta do ser seria, em verdade, uma loba.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda transformação em lobisomem seria, portanto, o aparecimento de uma figura feminina inconsciente e, sendo que a figura principal é de um homem e que o terceiro elemento produzido pela transformação,&nbsp;é de fato uma loba, faz todo sentindo então pensar que o lobisomem é a expressão de uma anima, lutando para aparecer.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A lenda do Lobisomem retrataria, portanto, o combate interior entre um feminino ferido, oprimido por não se expressar, dominado por um masculino incapaz de se harmonizar com ele. Por isso, quando ganha a batalha e consegue “sair para fora”, corre, uivando para a lua, a grande mãe.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas talvez o elemento mais importante para os dias de hoje a aprender na mitologia do homem lobo e que certamente passa o mais despercebido, é que tudo começa por uma mordida. É o veneno, o vírus inoculado pela besta que enfiou seus dentes na carne do homem que vai, aos poucos, correndo pelo seu sangue, infectar o ser até que se torne incapaz de lutar contra, que o mal o submerge e o torne uma fera de que nenhuma razão pode dar conta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando, novamente, observamos o mundo percebemos que a história&nbsp;é cíclica. O que uns chamam de mal e que se achava domado, de alguma forma reaparece. Em “Aspectos do drama contemporâneo” Jung nos mostra como forças negativas não assimiladas pela população reaparecem em símbolos de Deuses sombrios como&nbsp;<em>Wotan</em>. E, de fato, nos tempos de hoje, vemos bestas sanguinárias voltando a tomar conta do planeta e da humanidade que nele habita, quando voltam aparecer os monstros do nazismo, em narrativas russas e fascistas ao redor do globo, na Turquia, na Hungria e especialmente na Itália, sem esquecer obviamente no Brasil; quando a purificação étnica bate à&nbsp;porta da Síria e junto com a expansão territorial azeri acha justo invadir novamente a Armênia ou quando o masculino invade o feminino sem pedir licença nem consentimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E, é neste momento, quando somente conseguimos enxergar o mal nos olhos do outro, por mais que nada desculpe a expressão da violência, se quisermos domar a besta para sempre, devemos lembrar a origem do mal. Devemos lembrar que que tudo começou com uma ferida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E talvez seja isso a lição que vem nos ensinar o Lobisomem. Não é&nbsp;a besta&nbsp;à nossa frente que devemos abater, mas é da sua ferida invisível, histórica, inconsciente que se tornou um complexo coletivo que devemos cuidar. Uma das metáforas utilizada entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial pela propaganda nazista, para ganhar a opinião do homem de bem da Alemanha, foi da facada nas costas supostamente dada pelo povo judeu, que gangrenou até levar o partido nacional socialista alemão a tomar o poder. É a falta de cuidado, de tentativa de entendimento das circunstâncias socioeconômicas que levaram à ditadura de Mussolini na Itália que permitiram a volta do fascismo na pessoa de Giorgia Meloni.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Certamente, na situação completamente polarizada em que se encontra o Brasil, onde pelos olhos da metade do País, a outra parte representa uma encarnação do mal a ser eliminada, havemos de lembrar que não há solução mágica. Se no cenário político existem duas feras a serem destruídas, no ponto de vista de cada parte envolvida, e porque há, na base, duas feridas coletivas, sejam elas consequência da mordida da fome ou da mordida da insegurança, que cresceram na população até que o monstro do medo tomasse conta das consciências. E que o primeiro que atirar no outro qualquer bala de prata, também matará a nossa humanidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading">E então, sei que querem perguntar, por onde anda o lobisomem na lua nova?&nbsp;</h2>



<h2 class="wp-block-heading">A resposta é simples: dentro da gente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Membro Analista em formação:&nbsp;Sebastien Baudry</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista didata: Maria Cristina Guarnieri.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Sobre a mitologia dos Lobisomens e sua relevância no cenário sociopolítico atual | Sebastien Baudry" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/zvPkCkN17kQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referencias:</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;Mysterium Coniunctionis. OC. 14/1. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_______________.&nbsp;A Natureza da Psique. OC. 7/2. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_______________.&nbsp;Psicologia e Religião. OC. 11/1. Petrópolis: Vozes, 2019_1.</p>



<p class="wp-block-paragraph">D&#8217;ARBOIS DE JUBAINVILLE, H. Os Druidas. Os Deuses Celtas com Formas de Animais. São Paulo: Madras, 2003.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ELIADE, MIRCEA, Ritos e Símbolos de Iniciação,&nbsp;<em>Birth and Rebirth</em>.&nbsp;Londres: Harvill Press,1958</p>



<p class="wp-block-paragraph">CROSSEN, Carys .&nbsp;<em>The nature of the beast, Transformations of the Werewolf from the 1970s to the Twenty-First Century</em>.&nbsp;Cardiff, País de Galles: University of Walles Press, 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANFORD, John A. Mal o lado sombrio da realidade.&nbsp;São Paulo: Paulus, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">CHANTAL BOURGAULT DU COUDRAY (2003) The Cycle of the Werewolf: Romantic Ecologies of Selfhood in Popular Fantasy, Australian Feminist Studies, 18:40, 57-72, DOI: 10.1080/0816464022000056376</p>
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		<title>Sobre o simbolismo da bandeira do Brasil</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sobre-o-simbolismo-da-bandeira-do-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Jun 2022 22:46:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Bandeira do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
		<category><![CDATA[símbolo]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Eu me lembro ainda como se fosse ontem quando, pela primeira vez, em 1995, fui à Brasília ver a torre da TV, a Esplanada dos Ministérios, a Catedral e o Congresso Nacional. Catedral aliás que é bem interessante e que talvez teria chamado à atenção de Jung, já que para chegar ao seu altar, para poder aproximar-se da luz divina, é preciso descer, e não subir uma escada, ou seja, para elevar-se é precisa primeiro dar as costas ao sol, , afundar-se, descer em direção à escuridão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E me&nbsp;lembro, especialmente, da emoção que senti ao olhar para essa <strong>Bandeira</strong> que flutuava atras, e que mesmo não sendo a do meu país me seduzia de tanta majestade e impunha respeito e esperança no futuro de uma nação, que se dizia então, ainda criança, como aprendendo a caminhar sozinha depois de anos de ditadura. Recordo-me como essa sensação me gerou conforto em relação a minha mudança de Paris para Goiânia: não era tanta loucura assim e, talvez, valesse mesmo a pena dar uma chance a este lugar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Assim se passaram 27 anos e, no último dia 7 de setembro, assisti na televisão à cerimônia do dia da Independência. Não consegui reconhecê-la nesse pano verde e amarelo que parecia haver perdido toda sua imponência e que se recusava a voar. Quando apareceu um voo de Urubus, de carniceiros que pareciam acompanhar o hasteamento em pano de fundo, me perguntei o quanto simbólico era aquela imagem. Esse evento me incentivou a compartilhar uma pequena reflexão sobre os símbolos e sua dinâmica, como participam de nossas vidas e em especial sobre este, que é o maior símbolo da nação, sua <strong>bandeira</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung chama atenção de que não devemos confundir sinais com símbolos e os descrevem como a melhor expressão possível de algo relativamente desconhecido: “O símbolo, no entanto, pressupõe sempre que a expressão escolhida seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada” (símbolos da transformação, 903)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung,&nbsp;os símbolos, ao contrário de sinais ou logomarcas, não nascem de uma reflexão consciente, de uma atividade cognitiva e racional, mas da necessidade de expressão de um fato psíquico, inconsciente do qual desconhecemos pelo menos parcialmente a existência ou seu significado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Todo produto psíquico que tiver sido por algum momento a melhor expressão possível de um fato até então desconhecido ou apenas relativamente conhecido pode ser considerado um símbolo se aceitarmos que a expressão pretende designar o que é apenas pressentido e não está ainda claramente consciente. (JUNG, 2018, p.906)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Em outras palavras, significa que quando somos atraídos por um símbolo, qualquer que seja sua natureza, não nos ligamos a ele porque a imagem ou palavra tem um significado racional, mas porque permite a expressão de uma emoção, de um desejo, de uma vontade que reverbera em nós sem que muitas vezes o saibamos ou percebamos sua importância.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Outro ponto muito relevante para o desenvolvimento de nossa reflexão é que, de acordo com Jung, o símbolo somente permanece vivo num coletivo humano enquanto seu significado sombrio ainda não foi plenamente revelado e incorporado pela cultura, momento a partir do qual sua importância começa a definhar até um possível esquecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Enquanto um símbolo for vivo, é a melhor expressão de alguma coisa. E só é vivo enquanto cheio de significado. Mas, uma vez brotado o sentido dele, isto é, encontrada aquela expressão que fórmula melhor a coisa procurada, esperada ou pressentida do que o símbolo até então empregado, o símbolo está morto, isto é, só terá ainda significado histórico. (JUNG, 2018,&nbsp;&nbsp;p.905).</p>



<p class="wp-block-paragraph">E isso é muito interessante para quem procura compreender as dinâmicas humanas, pois ao observarmos a emergência de símbolos e sua adoção coletiva podemos perceber, na popularidade de criações artísticas, nos personagens fictícios ou reais, no crescente de aspirações religiosas e em outros movimentos e aglomerações populares em volta de um determinado discurso, o que está na sombra da sociedade, quais são as dores, as vontades e desejos ocultos num determinado momento da história. Ou seja, a emergência de um símbolo revela a sombra coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Algumas semanas antes do Dia da Independência houve uma votação no Congresso para avaliar a possibilidade de voltar para o voto impresso, e no mesmo momento em que este assunto está em pauta, quando a nação faz uso do seu extremamente frágil sistema democrático para rever o próprio conceito da participação do povo à vida administrativa, econômica e social do país, o chefe do Executivo coloca blindados para desfilar em frente aos ministérios e ao próprio palácio do Congresso Nacional.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ou seja, no exato momento em que o país decide refletir se mantém o recém conquistado &#8220;Progresso&#8221;, que trouxe a democracia que deu voz à população, acompanhando tendências de evolução do mundo moderno, vem a &#8220;Ordem&#8221; ameaçar calar-lhe violentamente a boca.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É nossa hipótese que o <strong>Brasil</strong> sabia, simbolicamente falando, desde sua constituição, como&nbsp;seria sua história, qual seria&nbsp;a trama da sua evolução. Tanto o sabia que a escancarou na sua <strong>bandeira</strong>, para o mundo inteiro ver, talvez com a certeza coletivamente inconsciente de que os que vivem aqui não enxergariam. Está escrito em verde sobre amarelo, &#8220;ordem e progresso&#8221;, dentro do azul do céu da cidade maravilhosa do Rio de Janeiro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas todos nós falhamos em entender. E o motivo para isso, é que nos somos humanos e somente enxergamos aquilo que estamos preparados para entender, o resto, esquecemos até amadurecer. Mas a sabedoria popular nos aponta constantemente para nosso erro, sem que percebamos. Está na boca de todos os sábios anciões e pseudo filósofos do <strong>Brasil</strong>: &#8220;vocês nunca tiveram uma guerra”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É se há algo que as guerras ensinam, sejam elas, a Guerra de secessão norte americana, a Revolução Francesa e outras bolcheviques ou bolivarianas e talvez hoje o mais recente conflito na Ucrânia, é que não há progresso sem desordem. Para que se possa desfrutar da paz, valorizar um estado de equilíbrio e fartura, precisa ter vivido as inseguranças e as restrições da guerra.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Da revolução francesa de 1789 nasceu uma nova ordem mundial, com o renascimento dos conceitos democráticos esquecidos desde a Grécia antiga, firmando o movimento literário e filosófico iniciado em 1715, “le siècle des lumières”, o Iluminismo, cuja principal meta era permitir ao povo ter acesso ao verdadeiro saber, a liberdade e à felicidade. O mundo começa a se transformar, vendo decair o poder das realezas, germinar novos conceitos político-sociais ainda em uso hoje como as noções de direita e esquerda ou o voto popular, e, especialmente, academias, artes e ciências florescem, livres do jugo das religiões. O humanismo começa mostrar sua cara e logo a escravidão será abolida. Mas, é essencial lembrarmo-nos que este parto de uma nova era da humanidade, este início de uma nova perspectiva de evolução, se deu num banho, num verdadeiro mar de sangue.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp;busca por essas novas liberdades, igualdades e fraternidades também justificou assassinar, cortar cabeças, destruir monumentos, incendiar bairros e vilarejos. E, por mais que se possa enxergar uma até justa retribuição a séculos de submissão do povo aos abusos da nobreza e às torturas da inquisição, este episódio histórico é certamente um dos mais sombrios da história da humanidade. Ou seja, foi necessário um caos para destruir uma ordem que era por demais injustamente estabelecida. A luz somente é percebida se acesa no escuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ordem e Progresso não são companheiros, mas um é a sombra do outro. E é justamente essa história de luz e de sombra que nos conta a <strong>bandeira</strong> <strong>do Brasil</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando cheguei, me contaram que essa <strong>bandeira</strong> &#8211; que era a uma das mais bonitas que eu já havia visto &#8211; representava o país como ele é, como cantado pelo Martinho da Vila, uma aquarela Brasileira, estampada com as cores do sol, do céu, do mar e do verde da nossa amada Amazônia.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Só que a realidade é um tanto diferente, a <strong>bandeira</strong> nasceu, quando, pelo decreto de 18 de setembro de 1822, se deu ao <strong>Brasil</strong> “um escudo de armas” para diferenciá-lo do reino de Portugal. As cores foram mantidas da bandeira anterior, o verde da Casa de Bragança, o ouro da Casa de Habsburgo e o azul do Brasão de armas,&nbsp;símbolo do império. Ou seja, todas as vezes que as crianças no início do expediente escolar ou todos os torcedores antes do culto aos deuses da bola redonda cantam o hino nacional, com a mão no peito, acreditando ser uma prova de amor e deferência à sua nação, estão na verdade olhando fixamente, mas&nbsp;sem enxergar, o símbolo de que é realmente seu país: a sobra de um império militarmente imposto&nbsp;às populações autóctones, forçosamente, contra a sua vontade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A <strong>bandeira</strong>, como todo símbolo, nos mostra o que gostaríamos de ser para que possamos olhar para aquilo que realmente somos.&nbsp; Olhamos fascinados para a ela e seu leme de Ordem e Progresso e nos encantamos pelas suas cores, enquanto continuamos olhando sem ver um país tão desigual e violento, sem enxergar suas dores e caos. Parece, então, que ainda não entendemos o seu símbolo e o recado que ela precisa nos dar sobre nossa intimidade coletiva.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhamos e não enxergamos, e isso é muito relevante. Pois precisamos compreender para que seja possível nos entregar ao processo de um progresso que traga a verdadeira ordem. E nessa hora não faz mal querer olhar para os livros de História e lembrar que essa frase, tão importante e tão comum para todos nós, veio do lema do positivismo de Auguste Comte: “<em>O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim</em>.” <strong>Mas o “Amor” como princípio de todas as coisas foi deixado de lado. </strong>Somente foram estampados na <strong>bandeira</strong> os símbolos do poder e da ganância e, como novamente Jung ensinou, onde impera o poder, não há espaço para o amor e, portanto, não haveria lugar para ele na bandeira.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Seria então por isso que o mote foi truncado? Para que nos lembremos que gostamos de gritar alto a serenata à amizade universal, mas que não conseguimos aceitar que temos, antes de tudo, sede e vontade de um poder pelo qual tomaríamos as armas? Para que recordemos que para o amor não estaríamos coletivamente preparados?</p>



<p class="wp-block-paragraph">Observemos a sociedade, as ruas das nossas cidades, nossos programas de televisão, nossas estradas, matas e selvas de concretos, como tratamos as minorias e os animais para, talvez, encontrar uma resposta a esta pergunta. Olhamos para aquilo que todos nós sabemos que é a verdade nua e crua: vemos todos os dias, nas ruas e nos noticiários, a constante violência da sociedade brasileira expressa pela pobreza, sujeira e outras discriminações de minorias,&nbsp;mas preferimos viver o mito da nação amorosa, mais &#8220;cristã do mundo&#8221; e orgulhosa das suas paradas de acolhimento às diferenças. Está selado na bandeira, a realeza, o império e as armas, mas escolhemos viver o mito do Brasil “dessas nossas verdes matas e cachoeiras e cascatas de colorido sutil e deste lindo céu azul de anil.”, como disse Martinho da vila em sua&nbsp;<em>Aquarela brasileira</em>,</p>



<p class="wp-block-paragraph">Olhamos para a persona coletiva do país, nos apegamos a ela ao ponto de cantar-lhe serenatas, imortalizá-la em poemas e filmes, de sofrer por ela e chorar em estádio, mas sem nunca enxergar a sua real essência, a verdade que vive no seu inconsciente, a dinâmica das suas emoções mais profundas. Amamos a sua cara, mas não queremos sentir suas dores, tal como Cazuza cantou na sua música “Um trem para as estrelas” escrita em parceria com Gilberto Gil: &#8220;estranho o seu Cristo Rio que olha tão longe, além, com os braços sempre abertos,&nbsp;mas sem proteger ninguém&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung ensina que isso tudo se deve ao fenômeno da projeção. Quando existem em nós, questões afetivas com as quais não conseguimos lidar, muitas vezes por não termos força ou equilíbrio emocional para isso, e que esses assuntos ainda são muito amedrontadores ou dolorosos, nos apegamos à imagens que os representam. Olhamos para símbolos de todas essas vontades, todos esses desejos e dores que tem uma intensidade com a qual tememos ter que nos deparar em nossa intimidade. Ou seja, nos fascinamos por imagens de fora porque não conseguimos olhar para dentro de nós, como uma forma de não esquecer a sujeira emocional que nossa saudável necessidade de bem-estar jogou para debaixo do tapete do inconsciente. Olhamos para a Bandeira, hipnotizados pela sua aparente beleza e histórias mal contadas, para nos proteger da dor e da culpa que provocaria olhar para realidade do país.</p>



<p class="wp-block-paragraph">E quando esses conteúdos sombrios, escondidos dentro da gente encontram sintonia com outros indivíduos, acontecem fenômenos de comportamento de massa como desordem de torcedores de futebol, ou loucura coletiva de &#8220;groupies&#8221; de artistas famosos, mas também como alienação à cultos religiosos ou fanatismo político. Há por traz de toda movimentação de massa, uma tendência, uma vontade arcaica individual que faz com que os que precisam se proteger da sua própria escuridão, tal insetos atraídos por uma falsa luz, se agrupam em volta de quem já botou para fora, para todos verem, suas dores, medos e desejos mais inapropriados.&nbsp;A relação aparentemente absurda de amor incondicionalmente sofrido que um grupo de adolescentes pode expressar para um artista, vem do mesmo mecanismo, atemporal e transcultural que encontramos também na relação insana da torcida com seu time do coração e nos mostra que a intensidade dessa relação afetiva é inversamente proporcional à capacidade de raciocinar a relação. Se não fosse assim, essas paixões morreriam assim que o artista encontrasse um novo par amoroso ou o time começasse a jogar mal. Mas mesmo assim, ganhando ou perdendo continuamos a amar, sem questionar o motivo deste amor, de olhos fechados. Tanto quanto olhamos para a bandeiras e juramos amor ao país do qual é o símbolo, olhamos para sua luz, sem aparentemente olhar para sua sombra, suas dores e questionar a realidade que ela esconde. Como o disse Jung, a aquisição da consciência é um evento recente na evolução da humanidade&nbsp;e &#8220;a parte de baixo&#8221; do cérebro, o límbico, que lida com instintos e afetos, muitas vezes ainda é mais poderosa que &#8220;a parte de cima&#8221;, o córtex cerebral que nos confere a habilidade da razão, e ainda nos impede de ter uma percepção clara do mundo como ele é.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando um indivíduo sente a necessidade de resolver&nbsp;dores ou dificuldades internas, um dos caminhos possíveis é o da análise, onde ele se obrigará a olhar para dentro, para poder entender o que está projetando no outro, o que faz com que se apegue a algo de forma irracional. Um dos princípios da análise é, após enxergar os mecanismos psíquicos e os fundamentos de atitudes que trazem sofrimento, procurar desconstruir crenças e destruir padrões negativos forjados por sua história pessoal, para poder reconstruir uma base de vida mais sólida, mais de acordo com uma nova perspectiva existencial e visão do mundo organizadas em volta da sua verdadeira essência.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><br>Todo trabalho de investigação começa pela observação, seja o empirismo em ciência ou a anamnese em terapia. É preciso primeiro olhar como estão as coisas para poder entendê-las, olhar para a casa para poder arrumá-la, pois&nbsp;não há como&nbsp;<s>c</s>olocar ordem onde não se enxerga a desordem. É justamente assim que acontece a psicoterapia no prisma junguiano: para que se possa evoluir e crescer é necessário tirar o poder da ilusória ordem do Ego e da consciência e dar voz à aparente desordem vital que se esconde no inconsciente. O mesmo precisa acontecer no âmbito coletivo se quisermos ter uma chance de crescimento saudável como nação.&nbsp;&nbsp;É necessário que o país entre em análise para reconstruir sua identidade ainda demasiadamente influenciada pelos seus traumas de infância, e o primeiro passo é observar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso os artistas são tão importantes para uma nação, porque, às vezes, sem o perceber, ilustram a sombra e nos oferecem um caminho. Cantou o ex-vocalista do Barão vermelho:</p>



<p class="wp-block-paragraph">“São 7 horas da manhã<br>Vejo Cristo da janela<br>O sol já apagou sua luz<br>E o povo lá embaixo espera<br>Nas filas dos pontos de ônibus<br>Procurando aonde ir<br>São todos seus cicerones<br>Correm pra não desistir</p>



<p class="wp-block-paragraph">Dos seus salários de fome<br>É&nbsp;a esperança que eles tem<br>Neste filme como extras<br>Todos querem se dar bem</p>



<p class="wp-block-paragraph">Num trem pras estrelas<br>Depois dos navios negreiros<br>Outras correntezas”</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses trens onde todos querem se dar bem, os ónibus lotados do Rio de Janeiro que levam os mais simples para suas jornadas de trabalho em busca à conquista senão de seus sonhos, pelo menos uma melhoria do cotidiano, nada mais são que a evolução dos navios negreiros que trouxeram seus ancestrais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É preciso olhar para o passado, ressignificar as marcas que a história cravou em nosso inconsciente cultural, para poder ver como encontrar com o presente se queremos ter uma chance de futuro. E é preciso coragem para querer enxergar no Brasil sua desordem e falta de progresso, abraçar a sombra coletiva, tanto quanto procuramos encontrar nossa escuridão individual na terapia, para poder pintar em todas as suas ruas e paredes uma aquarela brasileira com pigmentos de esperança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se eu citei Martinho da Vila e Cazuza, quem sabe a cultura popular nos demonstre a sua força: o carnaval e Ary Barroso expõe a todos que tem ouvidos para escutar, a solução para o Brasil se encontra nos livros de história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Abre a cortina do passado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tira a mãe preta do cerrado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bota o Rei Congo no congado</p>



<p class="wp-block-paragraph">Canta de novo o trovador</p>



<p class="wp-block-paragraph">A merencória à luz da Lua</p>



<p class="wp-block-paragraph">Toda canção do seu amor</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quero ver essa dona caminhando</p>



<p class="wp-block-paragraph">Pelos salões arrastando</p>



<p class="wp-block-paragraph">O seu vestido rendado&#8221;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas tenho certeza de que já estamos no caminho porque, se a bandeira esconde com suas cores uma sofrida realidade, também estão cravados lá o azul do céu do rio de janeiro e suas estrelas, guias de uma navegação rumo ao futuro e, delas, não tiramos os olhos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista em formação:&nbsp;Sebastien Baudry</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista didata responsável: Maria Cristina Guarnieri.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Sobre o simbolismo da bandeira do Brasil | Sebastien Baudry" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/PH_5070vwGQ?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G.&nbsp;<em>Símbolos da transformação</em>. Vozes: São Paulo, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Cazuza / Glberto Gil,&nbsp;<em>Um trem para as estrelas.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Matinho da Vila:&nbsp;<em>Aquarela Brasileira</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ary Barroso: Aquarela do Brasil.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Coleção das leis do Brasil de 1822</em>.Decreto de 18 de setembro de 1822</p>



<p class="wp-block-paragraph">Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887. p.56</p>
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