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	<title>Veridiana Aleixo, Autor em Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Mon, 12 Oct 2026 15:52:33 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Veridiana Aleixo, Autor em Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>As Pontes de Madison: o paradoxo da vida e do amor</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/as-pontes-de-madison-o-paradoxo-da-vida-e-do-amor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Veridiana Aleixo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Jun 2026 17:34:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Filmes e Séries]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[alquimia]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
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		<category><![CDATA[paradoxo]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Simbolismo]]></category>
		<category><![CDATA[vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>ste ensaio propõe um percurso simbólico pelas imagens do filme As Pontes de Madison de 1995, tecendo reflexões sobre a paradoxal condição humana em sua relação com as forças arquetípicas, a partir da psicologia de Carl Gustav Jung. Um encontro de cada indivíduo com a alma que passa, necessariamente, pelo encontro com o outro.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>“<strong>Eu percebi que o amor não obedece à própria expectativa. É um mistério puro e absoluto.</strong> O que Robert e eu tivemos não teria continuado se estivéssemos juntos. E o que Richard e eu dividimos iria desaparecer se nos separássemos.”</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Resumo: </strong>Este ensaio propõe um percurso simbólico pelas imagens do filme <strong><em>As Pontes de Madison</em></strong> de 1995, tecendo reflexões sobre a paradoxal condição humana em sua relação com as forças arquetípicas, a partir da psicologia de Carl Gustav Jung. Um encontro de cada indivíduo com a alma que passa, necessariamente, pelo encontro com o outro.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É com essa afirmação que a personagem Francesca Johnson, interpretada por Meryl Streep no filme As Pontes de Madison de 1995, parece integrar internamente a profunda experiência afetiva compartilhada com o fotógrafo Robert Kincaid, vivido pelo ator Clint Eastwood, que também dirige o filme.</p>



<h2 id="h-uma-afirmacao-que-revela-um-paradoxo-paradoxo-do-latim-paradoxum-do-grego-paradoxos-significa-incrivel-contrario-ao-que-se-espera" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Uma afirmação que revela um paradoxo. Paradoxo &#8211; do Latim PARADOXUM, do Grego PARADOXOS, significa “incrível, contrário ao que se espera”.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É por este motivo e, sobretudo, por esta frase, que este filme pareceu-me muito apropriado para tecer aqui neste ensaio algumas reflexões sobre a natureza do amor, da paixão e da existência humana, à luz da psicologia analítica de Carl Gustav Jung.</p>



<h2 id="h-a-arte-e-a-vida-simbolica" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>A arte e a vida simbólica</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A história do filme se passa nos anos 1960, em Iowa, EUA, onde vivem Francesca Johnson, seu marido Richard e seus filhos adolescentes Michael e Carolyn. Francesca, italiana da pequena cidade de Bari, casa-se com Richard após a 2a. Guerra Mundial e muda-se para os EUA em busca do sonho da liberdade e do novo então prometidos pela ideia de “ir para a America”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A vida deles, no entanto, na zona rural de Iowa, gira em torno da criação de novilhos, da agricultura e da pacata relação com a comunidade e com outras famílias vizinhas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Até o momento em que Robert Kincaid, um fotógrafo da National Geographic, chega na cidade para fotografar as pontes do condado de Madison, especialmente a Ponte Roseman. Francesca acaba sendo sua guia para encontrar a ponte pela primeira vez e este parece ser aquele acontecimento do destino, aparentemente casual, que se torna um divisor de águas na vida dos dois e, posteriormente, de toda a família de Francesca.</p>



<h2 id="h-vale-ampliarmos-simbolicamente-alguns-fatos-desta-rica-narrativa" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Vale ampliarmos simbolicamente alguns fatos desta rica narrativa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando Robert e Francesca se encontram pela primeira vez, ele pede a ela indicações de como chegar à Ponte Roseman. É interessante notar como, em um primeiro momento, ela tem dificuldades em dar a ele as direções indicativas para a ponte, como se seu corpo soubesse chegar, mas ela não conseguisse expressar as orientações em palavras, racionalmente. Por causa disso, ela mesma se oferece para acompanhar Robert até o local, corpo a corpo junto com ele.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Uma curiosidade sobre a Ponte Roseman, é que está localizada sobre o Middle River (Rio do Meio, da Metade) e que ganhou fama como uma “ponte assombrada” em 1892 quando, um fugitivo da prisão do condado, prestes a ser pego pelas forças policiais que se aproximavam pelas duas extremidades da ponte, misteriosamente desapareceu após soltar um grito terrível e nunca mais foi encontrado, como se tivesse desaparecido no ar.</p>



<h2 id="h-o-lugar-carregado-de-misterio-que-marca-o-encontro-dos-dois-e-portanto-um-local-limiar-de-travessia-ao-mesmo-tempo-de-separacao-e-de-uniao-o-que-geralmente-esta-associado-simbolicamente-a-imagem-de-pontes" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O lugar carregado de mistério que marca o encontro dos dois, é, portanto, <strong>um local limiar, de travessia</strong>, ao mesmo tempo de separação e de união, o que geralmente está associado simbolicamente à imagem de pontes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Robert e Francesca saem então da “propriedade Richard Johnson” em direção à ponte. Neste exato momento parecem estar saindo também dos domínios do casamento tradicional. No trajeto até a ponte, Robert comenta sobre o “cheiro maravilhoso e único de Iowa”, relacionando-o à composição do solo, um “cheiro rico, de terra”, que Francesca não consegue sentir, mas que é distinto e especial para ele. <strong>O cheiro rico da terra, como símbolo do feminino, o inebria.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao longo do caminho eles descobrem que Robert conhece Bari, a pequena cidade onde Francesca nasceu. Ele conta que estava simplesmente de passagem por lá, pois iria pegar um barco para outro local, mas achou a cidade tão bonita que desceu do trem e ficou por uns dias. Ela, surpresa, pergunta: “você desceu do trem só porque era bonito? você desceu do trem e ficou lá sem conhecer ninguém?”. De alguma forma, esta atitude de Robert, livre, desprendida, sem planejamento e guiada pela experiência de beleza de um lugar toca Francesca profundamente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O caminho até a ponte parece ser cada vez mais alvo das flechadas de Eros. Robert oferece-lhe cigarros e cerveja; ela os desfruta relaxadamente. O contato entre os dois vai despertando em Francesca seu próprio senso de humor e espontaneidade, libertando-a das convenções sociais impostas pela <em>persona</em> de esposa e mãe estadunidense dos anos 60. <strong>Algo genuíno nela vai encontrando brechas para se expressar.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">O romance entre eles inevitavelmente se concretiza. E quando eles fazem amor pela primeira vez, Francesca lhe diz: &#8220;Me leve a algum lugar….agora….me leve a algum lugar onde você esteve.” Robert então relata suas aventuras pelo mundo como fotógrafo e ela viaja por meio dele, desbrava um mundo desconhecido através das histórias dele. Nas palavras de Francesca: “tudo o que eu pensava saber sobre mim foi embora. <strong>Eu estava agindo como uma outra mulher. Melhor, era eu mesma como nunca havia sido antes.</strong>”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">E quanto a Robert, apesar de ser apaixonado e obcecado por seu trabalho como fotógrafo, não se considerava um artista pois suas fotos para a National Geographic eram tecnicamente perfeitas, mas sem nenhum toque pessoal. Seus projetos autorais haviam sido negados por editores diversas vezes. E Francesca aparece-lhe como a mulher que diz: “talvez você tenha que se convencer primeiro (que é um artista). Talvez deva se perguntar a si mesmo por que é uma obsessão.” <strong>Ela o convida a entrar em contato com sua alma</strong>, a reconhecer o artista que nele vive.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Assim, vamos testemunhando, a cada cena do filme, um encontro romântico apaixonado como cenário para <strong>o real encontro dos dois personagens com suas partes desconhecidas e negligenciadas pelo ego</strong>, <em>anima</em> e <em>animus</em> como imagens da alma relacionando-se e <strong>proporcionando uma experiência da totalidade,</strong> do Si-mesmo, por isso tão intensa e especial. Uma experiência simbolicamente vivida em 4 dias, coincidentemente uma quaternidade, que, segundo Jung, é um símbolo da totalidade e desempenha um papel importante no mundo de imagens do inconsciente (Cf. JUNG, 2014, p. 425).</p>



<h2 id="h-esta-imagem-e-ao-mesmo-tempo-um-simbolo-de-quaternidade-que-psicologicamente-sempre-indica-o-proprio-si-mesmo-jung-2013-p-550" class="wp-block-heading is-style-large" style="font-size:18px"><em>Esta imagem é ao mesmo tempo um símbolo de quaternidade, que psicologicamente sempre indica o próprio si-mesmo. (JUNG, 2013, p. 550)</em></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Há várias referências no filme à relação do homem com a <em>anima</em> e ao encontro alquímico da <em>coniunctio</em>. Em uma cena em que ambos caminham à noite pelas redondezas da casa de Francesca, inebriado pela beleza do lugar, Robert cita os versos finais do poema “<strong>A Canção do Delirante Aengus</strong>” de W. B. Yeats, que ela também conhece, e que dizem “as maçãs prateadas da lua e as maçãs douradas do sol”:</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Talvez eu esteja cansado de vagar em meus caminhos</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Por tantas terras cheias de cavernas e colinas,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Eu vou encontrar o lugar para onde ela se foi,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>E beijar seus lábios e segurar suas mãos;</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Caminharemos entre coloridas folhagens,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>E ficaremos juntos até o tempo do fim do tempo, colhendo</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As prateadas maçãs da lua,</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>As douradas maçãs do sol.</em></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No simbolismo da alquimia, a lua relacionada à prata e o sol relacionado ao ouro referem-se, dentre uma gama vastíssima e complexa de significados, aos princípios feminino e masculino da psique, cujo encontro integrador é a meta e a natureza do processo alquímico, da <em>opus</em>, representando a jornada da individuação.</p>



<h2 id="h-a-natureza-domina-a-natureza" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>“A Natureza domina a Natureza”</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em certo ponto desta história, como na vida, o movimento enantiodrômico que visa sustentar a tensão entre os opostos, se impõe. Um belo dia, enquanto a dupla apaixonada almoçava tranquilamente, uma vizinha de Francesca chega inesperadamente e anuncia que o clima mágico deste encontro de imagens de alma não vai, ou melhor, não <strong>pode</strong> durar para sempre. <strong>Como se o âmbito concreto e limitado da consciência precisasse entrar em ação, de maneira compensatória, para que a maravilha numinosa do que eles viviam passasse a existir de alguma outra forma.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A narrativa do filme intercala as cenas de Francesca e Robert com as de seus filhos Michael e Carolyn lendo os diários de Francesca após a sua morte e se transformando a partir dos relatos da mãe. Michael, <strong>ainda conectado com seu complexo materno de forma visivelmente infantil</strong>, reconhece este fato conscientemente e toma uma atitude concreta em relação a seu próprio casamento, que era deixado em segundo plano em sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Já a filha Carolyn, através da história da mãe, reconecta-se com sua força interior, seu parceiro interior, que lhe dá coragem para terminar um casamento infeliz. É interessante a cena em que ela faz isso usando o vestido que a mãe usou em sua primeira noite de amor com Robert, e que Francesca considerava como sendo seu vestido de noiva. E assim Carolyn, <strong>casada com ela mesma</strong>, tem coragem para, amorosamente, telefonar ao marido e pedir-lhe o divórcio.</p>



<h2 id="h-paradoxo-a-condicao-para-a-vida" class="wp-block-heading" style="font-size:21px"><strong>Paradoxo: a condição para a vida</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No final da história, certamente indo contra as expectativas do grande público, Francesca não deixa a família e Robert parte sozinho. Os motivos desta decisão são contados pela própria Francesca: “Não me parece a coisa certa para ninguém. Richard não merece&#8230; ele não saberia viver fora daqui. E meus filhos…Carolyn só tem 16 anos, está na idade de descobrir as coisas, vai se apaixonar e tentar construir uma vida para alguém. Se eu partir, o que vai significar para ela?” <strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Um senso da concreta realidade humana, nua e crua</strong>, se apresenta na decisão de Francesca. Ela está profundamente apaixonada por Robert, sabe que esta experiência nunca mais se repetirá, no entanto, a responsabilidade por suas escolhas de vida a leva a prezar o futuro de sua família e seu marido, que a ama e a quem, certamente, ela ama também.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Apesar da dor, a separação de Francesca e Robert foi, paradoxalmente, <strong>a condição para que o amor que eles sentiam um pelo outro se transmutasse em toda a sua beleza e força</strong>. A determinação e a liberdade interior de Robert ficaram vivas dentro de Francesca, <strong>como parte dela</strong>, e possibilitaram que ela se dedicasse com amor à família e ao marido até sua morte. E a beleza, a poesia e a feminilidade da mulher italiana presentes em Francesca <strong>seguiram vivas nos trabalhos de Robert</strong> a partir de então, inspirando-o a publicar seu livro autoral de fotografias.</p>



<h2 id="h-o-que-francesca-e-robert-viveram-foi-tipicamente-humano-ao-superar-a-ordem-do-somente-humano-foi-uma-experiencia-do-encontro-divino-com-a-integralidade-de-cada-um-atraves-da-relacao-foi-um-exemplo-de-um-dos-raros-momentos-da-vida-em-que-somos-autorizados-pelos-deuses-a-adentrarmos-a-dimensao-divina-essa-autorizacao-no-entanto-nao-e-ampla-e-irrestrita" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">O que Francesca e Robert viveram foi tipicamente humano ao superar a ordem do “somente humano”. Foi <strong>uma experiência do encontro divino, com a integralidade de cada um, através da relação</strong>. Foi um exemplo de um dos raros momentos da vida em que somos “autorizados” pelos deuses a adentrarmos a dimensão divina. <strong>Essa autorização, no entanto, não é ampla e irrestrita</strong>. </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nossa natureza humana exige que em algum momento inCORPOremos essa fagulha divina em nossa dimensão finita, restrita, mortal e essa incorporação é um sacrifício, é nosso recolhimento humilde de volta à nossa dimensão humana. Como escreveu Marie-Louise von Franz: “<em>se o poder e a paixão se detêm no nível concreto, querendo esta ou aquela coisa e são incapazes de sacrificar esse desejo, então essa mesma libido apaixonada, que é a base do processo de individuação, é enfraquecida, torna-se destrutiva e se destrói a si mesma</em>.” (VON FRANZ, 2022)</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"></p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph"></p>
</blockquote>



<h2 id="h-von-franz-segue-nos-provocando-a-pensar-que-esta-dinamica-tem-natureza-de-sacrificio-para-nos-seres-humanos-mortais-mas-tambem-para-os-deuses-para-a-dimensao-arquetipica" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Von Franz segue nos provocando a pensar que esta dinâmica tem natureza de sacrifício para nós, seres humanos mortais, mas também para os deuses, para a dimensão arquetípica:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Quando a imagem arquetípica se acerca do campo da consciência, é para o ego uma condição de grande esclarecimento, um estado de exultação etc&#8230; mas para o pobre arquétipo é justamente o oposto, pois ele caiem algo muito pequeno e inadequado. Portanto, visto por um lado, é uma grande realização e, por outro, uma queda muito grave. (VON FRANZ, 2022)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Em sua última noite juntos, Francesca diz a Robert: “Eu não imaginava que um amor assim aconteceria, e agora que aconteceu, quero mantê-lo para sempre, quero continuar amando você como eu amo agora para o resto da minha vida. <strong>O melhor que posso fazer é tentar nos guardar em algum lugar dentro de mim</strong>.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>Final feliz?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Temos a tendência a fantasiar que se Francesca e Robert tivessem ficado juntos, teriam vivido “felizes para sempre” como nos contos de fada. Mas ouso dizer que, para que isso acontecesse, eles teriam que, em algum momento, libertar um ao outro de suas projeções, relacionando-se com o humano Robert e a humana Francesca, o que não acontece sem uma boa dose de frustração e dor. <strong>O amor entre humanos inteiros que não mais projetam suas imagens de alma nos parceiros também é real e belo, mas não é carregado da mesma característica numinosa.</strong></p>



<h2 id="h-jung-nos-diz-sobre-o-amor" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">Jung nos diz sobre o amor:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Todo amor verdadeiro e profundo é um sacrifício. A gente sacrifica suas possibilidades, ou melhor, as ilusões de suas possibilidades. Se não houvesse necessidade desse sacrifício, nossas ilusões impediriam o surgimento do sentimento profundo e responsável e, com isso, ficaríamos privados também da possibilidade de experimentar o verdadeiro amor. (JUNG, 2013, p. 231)</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">“Assim como o fiel que se entrega todo a seu Deus participa da manifestação da graça divina, também o amor só revela seus mais altos segredos e maravilhas àquele que é capaz de entrega total e de fidelidade ao sentimento&#8230; Mas, por ser o amor devotado e fiel o mais belo, nunca se deveria procurar o que pode torná-lo fácil.” (JUNG, 2013, p. 232)</p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No caso deste filme, a experiência do verdadeiro amor estendeu-se sobre todos os personagens, não somente sobre Francesca e Robert. Certamente estendeu-se sobre mim também e tantos outros espectadores que se sentiram atravessados por esta trama arquetípica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Que possamos aprender com esta bela história que <strong>honrar a dimensão divina do amor e ser fiel ao próprio sentimento, é justamente aprender como vivê-lo sendo somente humano.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/veridiana-aleixo-de-moura-e-souza/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/veridiana-aleixo-de-moura-e-souza/">Veridiana Aleixo de Moura e Souza &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata</a></strong></p>



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<h2 id="h-referencias" class="wp-block-heading" style="font-size:18px">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Civilização em transição</em>. 6.ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em>. 11.ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Símbolos da Transformação</em>. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">VON FRANZ, Marie-Louise. <em>Alquimia: Uma Introdução ao Simbolismo e seu Significado na Psicologia de Carl G. Jung</em>. 1. ed. São Paulo: Pensamento-Cultrix, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>O Guepardo Enjaulado que nos Habita</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-guepardo-enjaulado-que-nos-habita/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Veridiana Aleixo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Jan 2026 11:15:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sincronicidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: O artigo explora o fenômeno da projeção, da constelação de complexos e da sincronicidade a partir de uma experiência pessoal da autora com um casal de guepardos na savana africana. Um convite a exercitarmos o olhar simbólico para os acontecimentos da vida e refletirmos sobre nossa inevitável e intrincada participação neles. Há um dentro [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: O artigo explora o fenômeno da projeção, da constelação de complexos e da sincronicidade a partir de uma experiência pessoal da autora com um casal de guepardos na savana africana. Um convite a exercitarmos o olhar simbólico para os acontecimentos da vida e refletirmos sobre nossa inevitável e intrincada participação neles. Há um dentro e um fora de nós, afinal? Seja qual for a resposta a esta pergunta, Jung nos convoca a direcionarmos o foco de atenção ao que entendemos como sendo nosso mundo interno, em busca de ampliação de consciência sobre nós mesmos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-um-relato-de-fatos-reais" style="font-size:19px"><strong>UM RELATO DE FATOS REAIS</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A jaula chega, na caçamba de uma pequena caminhonete. É uma caixa de aproximadamente três metros cúbicos. Respirações suspensas. Dedos nos disparadores das câmeras fotográficas. Foco. Corações palpitando. O homem que restou – o único homem – dentro da área cercada de duzentos metros quadrados na paisagem da região do Karoo, África do Sul, abaixa-se, aproximando sua face da lateral da jaula. Lá dentro, Ivory – seu nome de animal doméstico – vira a cabeça na direção do homem, como se estivesse se aproximando para ouvir o que ele teria a lhe dizer. Sim, tenho certeza que o homem lhe falou algo. <em>Good luck my friend</em>, talvez.</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-a-grade-da-jaula-e-entao-suspensa-lentamente-pelo-homem-que-permanece-em-pe-transpirando-respeito-sabendo-se-presa-que-liberta-seu-predador" style="font-size:19px">A grade da jaula é então suspensa lentamente pelo homem que permanece em pé, transpirando respeito, sabendo-se presa que liberta seu predador. Em breve, Ivory não terá mais esse nome; ganhará um número de identificação como forma de “romper os laços afetivos que caracterizavam sua relação com os humanos que o mantinham cativo como um animal doméstico desde o nascimento, há 4 anos”, diz o chefe da equipe que realizava a operação aos sortudos turistas que presenciavam a cena.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Ivory, ou o guepardo macho número 2, dá um passo titubeante para fora da jaula e então para. Ergue a cabeça deixando o vento frio que cortava a planície africana e que conectava a todos – humanos, felinos, antílopes, babuínos – roçar-lhe a face, movendo-a suavemente, de um lado para o outro. Inclina o focinho levemente para cima, depois um pouco para baixo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-entao-lentamente-vai-saindo-da-jaula" style="font-size:19px">E então, lentamente, vai saindo da jaula.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Passo após passo. Cauteloso. Começa a andar pela área cheirando cada tronco de arbusto, cada buraco de besouro no chão. Espreguiça-se. Mesmo sedado com medicamentos para suportar a longa viagem entre as instalações da ONG, onde esteve por alguns meses depois de ser libertado de seu cativeiro doméstico, e a reserva natural, que será seu novo lar, ele reúne forças para começar a explorar seu novo entorno.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E, imediatamente, faz brotar água de meus olhos, uma fêmea da espécie <em>homo sapiens</em> que estava testemunhando a cena, profundamente emocionada enquanto tentava filmar e tirar fotografias, como se quisesse eternizar em imagens aquela sensação inesperada de conexão com algo indescritível, desconhecido e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;letter-spacing:-1px">(Vale dizer que nada daquilo havia sido programado; a guia que conduzia o veículo no safari turístico em que eu estava foi informada pelo rádio no meio do passeio sobre o que aconteceria, e assim resolveu mudar a rota original para que o grupo pudesse presenciar a cena.)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-realidade-interna-dos-fatos" style="font-size:19px"><strong>A REALIDADE INTERNA DOS FATOS</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><em>Tem vida aqui</em>, foi como traduzi em palavras silenciosas o que senti ao estar frente a frente com aquele animal magnífico sendo libertado de seu cativeiro por mãos humanas. Olhar direta e intensamente para os olhos do guepardo, para a beleza de seu corpo esguio, para o âmbar cristalino de seus olhos me colocou em contato com a força da vida. Era isto o que eu sentia. Mas não somente isso. Eu sentia também profunda tristeza por aquele ser, que seria capaz de correr em uma velocidade de mais de 100 km por hora, estar em um estado tão fragilizado por ter servido de <em>pet</em> para humanos desde seu nascimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-forca-do-que-me-afetou-me-surpreendeu" style="font-size:19px">A força do que me afetou me surpreendeu.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Olhei rapidamente ao redor; eu era a única do grupo de turistas que chorava, e não estava somente emocionada, eu estava arrebatada, arrancada violentamente de meu estado consciente e controlado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A avalanche de emoções não terminou aí. Ao final do passeio, fomos todos para o alto de uma colina, observar o pôr-do-sol. Lá, a guia nos contou que cerca de seis meses antes, uma guepardo fêmea havia sido libertada naquela reserva, ficando inicialmente confinada a uma área de duzentos metros quadrados e depois passando a habitar uma área bem maior, o equivalente a aproximadamente trezentos campos de futebol. A equipe comemorava o fato dela já estar fortalecida, conseguindo caçar para se alimentar sozinha. Desde então, nenhum grupo havia conseguido avistá-la. Se tudo corresse bem, em breve ela e Ivory estariam se encontrando e procriando.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-certo-momento-eu-me-distancio-do-grupo-para-sozinha-contemplar-o-indescritivel-horizonte-da-savana-africana" style="font-size:19px">Em certo momento eu me distancio do grupo para, sozinha, contemplar o indescritível horizonte da savana africana.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">E então vejo ao longe um animal correndo <strong>exatamente em minha direção</strong>, em uma linha reta. Levei uns bons segundos para processar a informação que meus olhos me traziam. Gritei chamando a guia que correu até mim com um binóculo e pôde confirmar que sim, era a guepardo fêmea, a mesma que ninguém havia conseguido observar nos últimos seis meses! Uma inacreditável “coincidência”, exclamaram todos os presentes ali.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">De fato, qual a chance de se avistar um único felino selvagem em uma área daquele tamanho, correndo em linha reta na sua direção? A probabilidade deste evento é naturalmente baixa. E qual a probabilidade de, além disso, ter &#8220;coincidentemente” testemunhado no mesmo dia a reintrodução de outro felino da mesma espécie em ambiente selvagem, sem programação, sem agendamento?</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Este episódio, acontecido há sete anos, rendeu e ainda rende muitos relatos empolgados da minha parte. E principalmente: o fato tornou-se matéria prima para um profundo processo de <strong>autorreflexão</strong>, ancorado na psicologia analítica de Carl Gustav Jung.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-projecao-o-primeiro-sinal-do-inconsciente" style="font-size:19px"><strong>PROJEÇÃO: O PRIMEIRO SINAL DO INCONSCIENTE</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A partir da teoria junguiana podemos considerar que situações como esta que vivi, de grande intensidade afetiva, intenso significado pessoal e catalisadora de profundas transformações internas, indicam que <strong>algumas dinâmicas psíquicas importantes estão acontecendo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A primeira delas diz respeito a um fenômeno do funcionamento psíquico que é a projeção de conteúdos inconscientes. Neste fenômeno, um objeto externo ao sujeito &#8211; seja ele uma pessoa, um animal, ou uma situação social por exemplo &#8211; é visto por este sujeito como portador de determinadas características que relacionam-se a conteúdos inconscientes ativados na psique deste sujeito, ou seja, carregados de energia psíquica. O contato com um objeto externo determinado que engancha nestes aspectos inconscientes faz disparar na consciência associações de pensamentos, reações afetivas e fisiológicas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-portanto-as-projecoes-sao-geralmente-os-primeiros-caminhos-pelos-quais-o-inconsciente-se-manifesta-cf-jung-2012-p-383-seguido-pelos-sonhos-e-fantasias" style="font-size:19px">Portanto, as projeções são, geralmente, os primeiros caminhos pelos quais o inconsciente se manifesta (Cf. JUNG, 2012, p. 383), seguido pelos sonhos e fantasias.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">No meu caso, por exemplo, de fato o guepardo estava sendo libertado de uma situação de cativeiro e reagindo com seus instintos a uma nova situação. Porém a minha intensa reação emocional e os pensamentos que passaram pela minha cabeça no momento <strong>relacionavam-se a aspectos do meu mundo interno, e não somente ao guepardo</strong>. Certamente o contexto todo era propício a esse enganchamento da projeção, já que “<em>o portador da projeção não é um objeto qualquer, mas sempre se ajusta à natureza do conteúdo a ser projetado, isto é, oferece um gancho adequado à coisa a ser pendurada&#8221;</em> (JUNG, 2012, p. 499).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-complexos-arquetipos-e-nossa-ancestralidade-animal" style="font-size:19px"><strong>COMPLEXOS, ARQUÉTIPOS E NOSSA ANCESTRALIDADE ANIMAL</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O segundo fato psíquico que podemos identificar com esta situação é que um complexo foi ativado, ou constelado. Um complexo é “<em>uma imagem de determinada situação psíquica de forte carga emocional</em>” (JUNG, 2013, p. 201),&nbsp; um conjunto determinado de afetos, memórias, pensamentos, associações que é parte constitutiva da psique individual e que compõe o inconsciente pessoal, atuando com relativa autonomia em relação ao ego. Por isso e também por conter elevada carga afetiva associada a seu núcleo arquetípico, um complexo pode tomar de assalto &#8211; arrebatar &#8211; a consciência, interferindo assim na percepção e nas reações&nbsp; fisiológicas e comportamentais, quando alguma situação objetiva externa é associada ao complexo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pensem comigo: <strong>uma experiência de retorno à liberdade, de expressão de reações naturais, espontâneas, de realização da natureza interior</strong> de cada ser é fundamentalmente arquetípica, aproximando o ser humano da Humanidade. E ainda vai além; a experiência relaciona-se com a mais profunda ancestralidade humana, profunda no sentido de alcançar nossos ancestrais não-humanos &#8211; os animais &#8211; conosco ainda ligados de certa maneira no inconsciente coletivo. Conecta-se, assim, com uma dimensão instintiva de sobrevivência. E por isso, envolve uma quantidade enorme de energia psíquica, de valor afetivo e emocional, e é justamente daí que provém sua força de irrupção, como a lava incandescente de um vulcão que precisa vir à tona para aliviar sua pressão interior.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tanto-arquetipos-quanto-instintos-formam-o-inconsciente-coletivo" style="font-size:19px"><strong>Tanto arquétipos quanto instintos formam o inconsciente coletivo</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung (2013, p. 270) afirma que “da mesma maneira como os instintos impelem o homem a adotar uma forma de existência especificamente humana, assim também os arquétipos forçam a percepção e a intuição a assumirem determinados padrões especificamente humanos.”</p>



<p class="wp-block-paragraph" id="h-devemos-concordar-com-jung-2013-p-271-quando-este-diz-que-a-questao-do-instinto-nao-pode-ser-tratada-psicologicamente-sem-levar-em-conta-a-dos-arquetipos-pois-uma-coisa-condiciona-a-outra" style="font-size:19px">Devemos concordar com Jung quando este diz que “<strong><em>a questão do instinto não pode ser tratada psicologicamente sem levar em conta a dos arquétipos, pois uma coisa condiciona a outra</em></strong>” (2013, p. 271).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Isto nos leva a crer, portanto, que a minha experiência subjetiva ao testemunhar o que acontecia com o guepardo sendo liberto, dada a característica incontrolável e afetivamente intensa da reação gerada, pode ter tocado os âmbitos arquetípico e instintivo simultaneamente, âmbitos que tratamos separadamente para tentar compreendê-los conscientemente, mas que relacionam-se e interpenetram-se de uma maneira muito complexa, como dois aspectos de uma mesma realidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung chega a nomear os <strong>arquétipos</strong> como “<strong>imagens do instinto</strong>”, dizendo que somente por assimilação das imagens instintivas é que nós humanos entramos em contato com a realidade do instinto, pois as imagens do instinto significam e ao mesmo tempo evocam o instinto (Cf. JUNG, 2013, p. 414).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nao-foi-obra-do-acaso" style="font-size:19px"><strong>NÃO FOI OBRA DO ACASO</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por fim, o encontro não planejado com os dois guepardos recém-libertos, macho e fêmea, na mesma tarde, uma coincidência sem conexão causal porém profundamente significativa para mim, de caráter numinoso, me levou a pensar, como pensou Jung em relação a uma experiência que ele próprio teve em 1949, que <strong>aquilo não poderia ser obra do acaso</strong> (Cf. JUNG, 2014, p.826-827), o que me fez qualificar a minha experiência como uma sincronicidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Digo isto pois, além da ausência de conexões causais, além do caráter numinoso e afetivo, esta experiência relacionou-se diretamente com o meu estado psíquico na ocasião. Como escreveu Jung:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A sincronicidade, portanto, significa, em primeiro lugar, a simultaneidade de um estado psíquico com um ou vários acontecimentos que aparecem como paralelos significativos de um estado subjetivo momentâneo e, em certas circunstâncias, também vice-versa.</p><cite>JUNG, 2014, p. 850</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jung também afirma que (2014, p. 846) “os casos de <em>coincidências </em>significativas, que devemos distinguir dos grupos casuais, parecem repousar sobre fundamentos arquetípicos” (grifo do autor). Ele relaciona a sincronicidade com os arquétipos justamente pelo fator emocional e afetivo que é presente nestes fenômenos e que “repousa grandemente nos instintos cujo aspecto formal é justamente o arquétipo.” (JUNG, 2014, p. 846)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">O fenômeno da sincronicidade é demasiado complexo, abrangente e misterioso para ser colocado em palavras em sua integralidade. Nem o próprio Jung conseguiu fazer isso ao longo de sua vida de prática e estudo, plantando as sementes para as próximas gerações seguirem o trabalho. O que sabemos através de seus escritos é que parece haver uma relação entre a dimensão psíquica humana e a dimensão concreta e material do mundo e que <strong>determinadas disposições psíquicas parecem ser capazes de eliminar o fator tempo e o fator espaço dos fenômenos</strong> (Cf. JUNG, 2014, p. 836) dando origem a eventos como o que eu &#8211; e tantas outras pessoas na história &#8211; experienciaram.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-papel-do-ego-nessa-historia" style="font-size:19px"><strong>O PAPEL DO EGO NESSA HISTÓRIA</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Mas, afinal de contas, o que fazer com toda essa informação? <strong>Como podemos dar início a uma transformação em nossa atitude consciente que vá ao encontro das necessidades de realização criativa do que reside como potência no vir-a-ser do inconsciente?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Bem, no meu caso, um primeiro movimento foi identificar quais as características do acontecimento eu considerava que estavam relacionadas com minha forte emoção. Ou seja, foi a <strong>hora do ego entrar em cena novamente</strong>, após ser impiedosamente posto de lado nas coxias do teatro da consciência pelo complexo constelado e pelo efeito numinoso da sincronicidade. O papel do ego foi então ampliar simbolicamente o acontecido e cada um de seus elementos, buscando nesta ampliação conexões com o meu estado subjetivo do momento, com o meu contexto de vida na ocasião e, principalmente, abrindo espaço para a conscientização de conteúdos inconscientes que poderiam estar sendo projetados na situação dos guepardos, situação que tinha funcionado como um anteparo, uma tela de projeção que estava prestes a rebater de volta para minha consciência aspectos meus que precisavam ser corajosamente encarados.&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-onde-andava-meu-lado-natural-espontaneo-selvagem" style="font-size:19px">Por onde andava meu lado natural, espontâneo, selvagem?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Como estava eu vivendo meus talentos e dons inatos? Eu me sentia de alguma forma enjaulada, domesticada? Que crenças e padrões de comportamento me aprisionavam dentro de meu próprio ser? Como seria poder viver minha natureza mais íntima e singular? Que papel a união fêmea-macho, feminino-masculino (uma <em>coniunctio oppositorum</em>)estava ocupando &#8211; e precisando ocupar &#8211; na minha vida? No que eu precisava começar a conscientemente colocar minha atenção? Estas perguntas me acompanham até hoje, como uma fonte viva e pulsante de energia &#8211; vital e psíquica &#8211; e estão presentes no meu processo de análise pessoal. Pois <strong>esse é aquele tipo de pergunta que não tem uma resposta definitiva e nem deve ter; serve como disparador do movimento da vida, cutuca o espírito, reacende a dúvida e a fagulha que mantém acesa a chama da nossa alma.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-afinal-existe-o-dentro-e-o-fora-de-nos" style="font-size:19px"><strong>AFINAL, EXISTE “O DENTRO” E “O FORA” DE NÓS?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Viver uma experiência como esta que relatei aqui pode mexer profundamente com a noção que temos do que é interno e externo a nós mesmos. A consciência e seu gestor, o ego, têm por prerrogativa natural estabelecer limites, discriminar, ordenar, selecionar, julgar. E portanto a tendência predominante e quase automática em nós &#8211; ainda mais considerando o estado geral da consciência coletiva da humanidade, o espírito da época &#8211; é que nos vejamos como seres bem separados do restante dos seres, humanos ou não-humanos. É demasiado fácil nos percebermos limitados e definidos por “nossos” corpos, “nossa” pele, “nossos” pensamentos, “nossa” pátria.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A ciência contemporânea, no entanto, sobretudo a física de partículas e de campo, já enxerga a realidade das coisas de maneira diversa há algumas décadas. Experiências nestas áreas têm revelado a matéria como sendo algo “completamente inconstante” (Cf. CAPRA, 1988, p. 67).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-seu-best-seller-mundial-o-tao-da-fisica-o-fisico-fritjof-capra-diz" style="font-size:19px">Em seu <em>best seller</em> mundial O Tao da Física, o físico <strong>Fritjof Capra</strong> diz:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Todas as partículas podem ser transmutadas em outras partículas; elas podem ser criadas da energia e podem desfazer-se em energia. Nesse mundo, conceitos clássicos como “partículas elementares”, “substância material” ou <strong>“objeto isolado”</strong> perderam qualquer significado. <strong>A totalidade do universo aparece-nos como uma teia dinâmica de padrões inseparáveis de energia.</strong></p><cite>CAPRA, 1988, p. 67. Grifos nossos</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Tanto Jung quanto sua fiel colaboradora Marie-Louise von Franz mantiveram profundo e regular contato pessoal e realizaram intensas trocas intelectuais com um dos mais reconhecidos físicos do século XX, Wolfgang Pauli. Esta relação frutificou no trabalho de ambos e hoje é alimento para todos os que são apaixonados pelo assunto e instigados por este mistério, como eu.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-consideracoes-finais" style="font-size:19px"><strong>CONSIDERAÇÕES FINAIS</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Esta experiência reafirmou em mim a certeza que <strong>dedicar a devida atenção às situações em que somos intensamente afetados, seja de forma positiva ou negativa, é fundamental</strong>. Trata-se de um exercício de investigação no qual, a partir dos acontecimentos que consideramos externos a nós e, principalmente, da sinalização que nossas emoções nos dão, redirecionamos a lupa para dentro de nós mesmos <strong>ao encontro de algo que demanda tornar-se consciente</strong>, de algo que está pedindo para realizar-se a partir do inconsciente. Nem sempre este algo é agradável aos olhos de nosso ego, porém <strong>trazê-lo à luz é nossa mais preciosa tarefa como seres humanos.</strong></p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: O Guepardo Enjaulado que nos Habita" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/LVBdsKVQ6fg?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/veridiana-aleixo-de-moura-e-souza/">Veridiana Aleixo de Moura e Souza &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><a href="https://blog.ijep.com.br/author/waldemarmagaldi/"><strong>Waldemar Magaldi &#8211; Analista Didata</strong> <strong>IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">CAPRA, Fritjof. <em>O Tao da Física</em>. Um paralelo entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental. ed. 7. São Paulo: Cultrix, 1988.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Ab-reação, análise dos sonhos e transferência</em>. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>A Natureza da Psique</em>. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______ <em>Sincronicidade</em>. 21. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<figure class="wp-block-image size-full is-resized"><a href="http://www.ijep.com.br"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="960" height="540" src="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/01/Pos-graduacoes-IJEP-1-1.png" alt="" class="wp-image-11737" style="width:697px;height:auto" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/01/Pos-graduacoes-IJEP-1-1.png 960w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/01/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/01/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/01/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2026/01/Pos-graduacoes-IJEP-1-1-450x253.png 450w" sizes="(max-width: 960px) 100vw, 960px" /></a></figure>



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