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	<title>Arquivos Criança - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Fri, 30 Jan 2026 14:04:34 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Arquivos Criança - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>Um diálogo necessário entre a Psicologia Analítica e relatórios de saúde mental da criança e do adolescente</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/um-dialogo-necessario-entre-a-psicologia-analitica-e-relatorios-de-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Danielle Chaves Gomes de Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 17:49:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
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		<category><![CDATA[crianças e adolescentes]]></category>
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		<category><![CDATA[projeção]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo busca tangenciar informações de relatórios de saúde mental da criança e do adolescente e a Psicologia Analítica. O objetivo é fazer um recorte na vida psíquica desta etapa da vida e discuti-los como expressão do que se manifesta na alma das crianças e dos adolescentes e que está pedindo olhar, acolhimento, cuidado e escuta.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/um-dialogo-necessario-entre-a-psicologia-analitica-e-relatorios-de-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente/">Um diálogo necessário entre a Psicologia Analítica e relatórios de saúde mental da criança e do adolescente</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Resumo: </strong>Este artigo busca tangenciar informações de relatórios de saúde mental da criança e do adolescente e a Psicologia Analítica. O objetivo é fazer um recorte na vida psíquica desta etapa da vida e discuti-los como expressão do que se manifesta na alma das crianças e dos adolescentes e que está pedindo olhar, acolhimento, cuidado e escuta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tenho-grande-interesse-em-aproximar-a-psicologia-analitica-de-outras-areas-do-conhecimento-e-das-questoes-que-marcam-a-contemporaneidade" style="font-size:19px">Tenho grande interesse em aproximar a Psicologia Analítica de outras áreas do conhecimento e das questões que marcam a contemporaneidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Acredito que nós, terapeutas junguianos, podemos construir pontes entre a Psicologia Analítica e os fenômenos atuais, ampliando reflexões sobre os desafios do nosso tempo. Esse tangenciamento — seja em artigos como esse, congressos, aulas, diálogos ou sessões de análise — enriquece terapeutas, analisandos, profissionais de outras áreas e o coletivo. Por isso, considero essencial que a Psicologia Analítica dialogue com campos como políticas públicas, epidemiologia, cultura, educação e saúde, pois esses espaços evidenciam, de forma concreta, como a vida psíquica se expressa na sociedade em determinado tempo e espaço.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Entre os muitos temas possíveis, escolho aqui a infância e a adolescência. Seguindo a intenção exposta anteriormente, os dados oficiais de saúde mental aparecem como uma fonte valiosa de reflexão, já que há a possibilidade de analisá-los como expressão do que se manifesta na alma das crianças e dos adolescentes e que está pedindo olhar, acolhimento, cuidado e escuta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-antes-de-avancar-e-importante-fazer-algumas-ressalvas" style="font-size:19px">Antes de avançar, é importante fazer algumas ressalvas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Definir saúde mental não é simples, devido às diversas discussões sobre o tema. Assim, utilizo a definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) pela frequência com que aparece na literatura e por ser uma das principais referências deste trabalho. Além disso, embora o foco aqui seja a vida psíquica de crianças e adolescentes, é essencial lembrar que todos somos frutos de um contexto biopsicossocial e espiritual, que deve sempre ser considerado na análise.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Para a OMS, a saúde mental está inserida em um contexto biopsicossocial e, portanto, sofre a influência de múltiplos fatores que estão interligados entre si, exercendo cada qual a sua participação no bem-estar mental. Quando há saúde mental, o indivíduo é capaz de lidar com situações estressantes da vida, de aprender, desenvolver suas habilidades, trabalhar, se relacionar e contribuir com sua comunidade. Especificamente em relação às crianças, ela se reflete em distintos aspectos do desenvolvimento, como um senso positivo de identidade, capacidade de organizar pensamentos e emoções, construção de relacionamentos sociais e capacidade de aprendizado &#8211; o que irá impactar, no futuro, na sua participação na sociedade.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-oms-lembra-que-a-saude-mental-nao-esta-inserida-em-um-sistema-binario-no-qual-ou-se-tem-saude-mental-ou-nao" style="font-size:19px">A OMS lembra que a saúde mental não está inserida em um sistema binário, no qual ou se tem saúde mental ou não.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Pelo contrário, uma pessoa com algum diagnóstico de transtorno mental pode experienciar períodos de maior bem-estar mental, assim como uma pessoa sem qualquer transtorno pode passar por momentos de baixo nível de bem-estar. Sendo assim, no decorrer da vida, o bem-estar mental oscila na dependência de fatores individuais, familiares e estruturais que, combinados, são determinantes da saúde mental porque podem atuar de forma protetiva ou não (WHO, 2021; WHO, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em 2022, ano em que a ONU estimou a população mundial em 8 bilhões, a OMS divulgou sua maior revisão sobre saúde mental desde a virada do século, e apontou que cerca de 970 milhões de pessoas viviam com pelo menos um transtorno mental em 2019,&nbsp; aproximadamente 13% da população mundial (WHO, 2022; UNITED NATIONS, 2022).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relatório mais recente, constatou-se que a prevalência aumentou para 14% em 2021, avançando mais rápido que o crescimento populacional entre 2011 e 2021. Entre as crianças de 5 a 9 anos, 7% viviam com algum transtorno mental; entre adolescentes de 10 a 19 anos, esse número subia para 14%.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alem-disso-um-terco-dos-transtornos-que-aparecem-na-vida-adulta-se-inicia-ate-os-14-anos-metade-ate-os-18-e-quase-dois-tercos-ate-os-25-anos-who-2025" style="font-size:19px">Além disso, um terço dos transtornos que aparecem na vida adulta se inicia até os 14 anos; metade até os 18; e quase dois terços até os 25 anos (WHO, 2025).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A esses dados soma-se o relatório do UNICEF (2021), que reforça o papel decisivo dos determinantes de saúde mental na infância e adolescência. O documento destaca o papel crucial dos determinantes de saúde mental nessa fase do desenvolvimento e mostra como experiências adversas — como abuso, negligência e violência — influenciam de forma significativa o bem-estar psíquico infantil.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong>Para facilitar a compreensão, o UNICEF organiza esses determinantes em três esferas</strong>: o mundo da criança (ambiente doméstico e cuidados), o mundo ao redor (escola, comunidade, vínculos) e o mundo mais amplo (determinantes sociais).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em relação ao primeiro fator, foco deste artigo, ressalta que o papel dos pais no processo de promoção e apoio ao desenvolvimento físico, emocional, social e intelectual de uma criança é de suma importância para a construção de uma base sólida da saúde mental da criança e do adolescente. Porém, muitos pais precisam de apoio nesta construção em relação à própria saúde mental, com orientações, informações e apoio psicossocial. (UNICEF, 2021).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Dentre tantos dados, estudos, considerações e apontamentos, uma informação é comum e de extrema importância: o período da vida compreendido desde a gestação até a puberdade é a etapa da vida na qual o ser humano está mais suscetível à influência dos fatores determinantes de saúde mental.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-por-sua-vez-destaca-que-nesta-fase-se-encontram-as-bases-da-vida-psiquica-como-sera-explicitado-adiante" style="font-size:19px">Jung, por sua vez, destaca que nesta fase se encontram as bases da vida psíquica, como será explicitado adiante.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Considerando que a criança permanece por muitos anos sob a influência dos pais e do ambiente familiar, é de extrema importância ir além dos critérios diagnósticos e, com base na Psicologia Junguiana, compreender como a dinâmica familiar impacta o desenvolvimento psíquico, ajudando a interpretar o que os dados oficiais revelam.&nbsp; Isto não significa que se negue os diagnósticos apresentados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sobre isso, a psicopatologia, na perspectiva da Psicologia Analítica, tem uma visão importante sobre a forma como se dá a dinâmica da relação consciência e inconsciente, na compreensão da psicogênese do que é dito “doente”, conforme pontua <strong>Salvador</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>O texto Junguiano leva a refletir que algo apareceria como psicopatológico (doente) quando, numa dissociação na psique, se instalasse uma cisão e embate onde o padrão dominante na consciência vivesse como ameaça e lutasse contra os aspectos configurados em complexo de outra forma. (&#8230;) E, quanto mais unilateral e rígida, maior a intensidade do que diverge do dominante.</p><cite>(2022, p. 441)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Desta forma, o Professor <strong>Ajax Salvador</strong> nos traz que aquilo que aparece como ‘doente’, trata-se, na realidade, da dinâmica de um eu rígido, inflexível e unilateral, que não se relaciona com os conteúdos do inconsciente.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É essa dinâmica de “luta” contra os conteúdos inconscientes que está como pano de fundo do sofrimento da alma, podendo chegar até mesmo a uma dissociação psíquica, levando a um quadro de psicose. Porém, quando falamos da infância e da adolescência, um olhar para além desta dinâmica deve ser lançado, pois se trata de uma etapa da vida em que a psique ainda está em formação e desenvolvimento e a criança ainda está imersa na vida psíquica dos pais e cuidadores.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-neste-sentido-carl-gustav-jung-destaca-que-ha-um-fator-preponderante-em-relacao-aos-outros-que-influencia-a-formacao-e-o-desenvolvimento-da-psique-infantil" style="font-size:19px">Neste sentido, Carl Gustav Jung destaca que há um fator preponderante em relação aos outros que influencia a formação e o desenvolvimento da psique infantil:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Via de regra, o fator que atua psiquicamente de um modo mais intenso sobre a criança é a vida que os pais ou antepassados não viveram (pois se trata de fenômeno psicológico atávico do pecado original). Tal afirmação poderia parecer algo de sumário e artificial sem esta restrição: essa parte da vida a que nos referimos seria aquela que os pais poderiam ter vivido se não a tivesse ocultado mediante subterfúgios mais ou menos gastos. Trata-se, pois, de uma parte da vida que — numa expressão inequívoca — foi abafada talvez com uma mentira piedosa. É isto que abriga os germes mais virulentos. (JUNG, 2013a, p. 52).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-ressalta-ainda-que-os-pais-sao-fontes-primarias-das-neuroses-dos-filhos-e-que-via-de-regra-as-reacoes-mais-fortes-sobre-as-criancas-nao-provem-do-estado-consciente-dos-pais-mas-de-seu-fundo-inconsciente-jung-2013a-p-51-p-84" style="font-size:19px">Jung ressalta ainda que os pais são fontes primárias das neuroses dos filhos e que “<em>(&#8230;) via de regra, as reações mais fortes sobre as crianças não provêm do estado consciente dos pais, mas de seu fundo inconsciente</em>.” (JUNG, 2013a, p. 51, p. 84).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Sendo assim, é importante compreender que não são somente as atitudes conscientes de pais e cuidadores que afetam a vida psíquica da criança. A forma que se relacionam com o inconsciente também afeta, ou seja, aquilo que não é falado, que é negado, reprimido e não confrontado também afeta. Isso ocorre porque o eu da criança está em formação e, portanto, principalmente a criança pequena, vive em um estado de inconsciência sobre si própria, que origina uma indiferenciação em relação ao objeto, de tal maneira que experimenta a mãe e o mundo como sendo si própria. (JUNG, 2013a, p. 50).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">A consequência é que, devido ao estado de identidade que se estabelece, a criança não sabe diferenciar o que é conteúdo dela e o que é conteúdo de seus pais, e a consequência é que ela vai se tornando depositária das questões deles, tomando como parte de si tudo o que ocorre na vida psíquica de seus pais.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-isso-jung-nos-diz-nesse-trecho-que-e-longo-mas-fundamental-para-o-entendimento" style="font-size:19px"><strong>Sobre isso, Jung nos diz nesse trecho que é longo, mas fundamental para o entendimento:</strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Não é a vida honesta e piedosa, não é a inculcação de verdades pedagógicas que exercem influência moldadora sobre o caráter da pessoa em formação; o que tem maior influência é a atitude emocional, pessoal e inconsciente, dos pais e educadores. A desarmonia latente entre os pais, uma preocupação secreta, desejos secretos e reprimidos, tudo isso produz na criança um estado emocional, com sinais perfeitamente reconhecíveis, que devagar, mas segura e inconscientemente vai penetrando na psique dela, levando às mesmas atitudes e, portanto, às mesmas reações aos estímulos do meio ambiente. (&#8230;). Se nós, adultos, mostramo-nos sensíveis a estas influências do meio ambiente, o que dizer então de uma criança cuja psique é mole e moldável como cera! O pai e a mãe gravam o sinete de sua personalidade fundo na psique da criança; e mais fundo quanto mais sensível e impressionável ela for. Tudo é retratado inconscientemente na criança, mesmo coisas das quais nunca se falou.</p><cite>JUNG, 2012, p. 524</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Zweig e Abrams (1994, p.69) ampliam essa ideia ao dizer que&nbsp; “Cada um de nós tem uma herança psicológica que não é menos real que nossa herança biológica. Essa herança inclui um legado de sombra que nos é transmitido e que absorvemos no caldo psíquico do nosso ambiente familiar.” Portanto, estamos falando de uma herança psíquica transgeracional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-outro-ponto-essencial-da-relacao-parental-e-a-projecao" style="font-size:19px"><strong>Outro ponto essencial da relação parental é a projeção.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Jacoby (2010, p.28) mostra como a imagem arquetípica da criança é frequentemente projetada sobre o filho quando os pais não buscam sua própria realização. Nestes casos, o desejo de autorrealização é projetado nas crianças e pode trazer consequências significativas em suas vidas porque “ela rouba, até mesmo violenta, o crescente esforço por autonomia da criança em amadurecimento.” (JACOBY, 2010, p.27).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-campo-da-relacao-primal-autores-como-neumann-e-edinger-destacam-que-sera-fundamental-para-o-desenvolvimento-psiquico" style="font-size:19px">No campo da relação primal, autores como Neumann e Edinger destacam que será fundamental para o desenvolvimento psíquico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É a vivência de segurança adquirida na relação primal que capacita o eu a integrar as possíveis crises que possam transcorrer no percurso do desenvolvimento. Também é esta experiência que capacita a criança a suportar as inibições impostas por um código de conduta ou por valores culturais (NEUMANN, 1995, p. 51). Edinger (2020, p. 29, p.60) pontua que&nbsp; a vivência de segurança e acolhimento nos primeiros anos é decisiva para a formação do eixo eu–Si-mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Quando essa relação é fragilizada — seja por ausência de afeto, violência, rejeição, abandono ou mesmo conflitos familiares intensos — surgem danos psíquicos que podem ressoar por toda a vida, como sentimentos de vazio, desespero, falta de sentido e, em casos extremos, psicoses e risco de suicídio. Aqui, vale lembrar os dados de suicídio na infância e na adolescência apresentados nos relatórios e a reflexão acerca do quanto tais análises podem estar representando a dor da falta do amor, da aceitação e de um ambiente amoroso. Por outro lado, um ambiente excessivamente permissivo também pode gerar inflação do eu, dificultando o contato com limites e frustrações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-desafio-da-educacao-esta-em-estabelecer-o-equilibrio-entre-os-dois-caminhos" style="font-size:19px">O desafio da educação está em estabelecer o equilíbrio entre os dois caminhos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É possível perceber, após toda a discussão do tema, que a conclusão dos relatórios de que a maioria dos transtornos mentais se iniciam no início do desenvolvimento é perfeitamente plausível de acordo com a visão junguiana, ao considerar que a psique do adulto é uma consequência da psique que iniciou sua formação na infância. Inclusive, como coloca Jung, tal influência pode conduzir toda a vida da pessoa: “Vemos em cada neurótico como a constelação do meio ambiente infantil influencia não só o caráter da neurose, mas também o destino de vida, até mesmo em pequenos detalhes.” (JUNG, 2012, p. 526).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Em resumo, pais e cuidadores exercem grande influência sobre o desenvolvimento psíquico infantojuvenil por diversas vias: herança psicológica transgeracional; formação da sombra; projeções parentais; e prejuízo da formação e desenvolvimento do eixo eu-Si-mesmo &#8211; onde está a influência da relação primal, do tipo de educação e do ambiente. Por isso, quando falamos de saúde mental da criança e do adolescente, não podemos separar essa discussão da saúde mental dos pais e cuidadores e de seu compromisso com o autoconhecimento. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-que-esse-efeito-seja-minimizado-jung-pontua-que" style="font-size:19px">Para que esse efeito seja minimizado, Jung pontua que:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>A única coisa que pode preservar a criança desses danos desnaturais é a atitude sincera dos pais diante dos problemas da vida.” (JUNG, 2013a, p. 89). Também nos lembra que: “Para o bem de seus filhos, os pais deveriam considerar seu dever jamais esquecer suas próprias dificuldades íntimas. O que não devem fazer é reprimi-las levianamente e talvez fugir de confrontos dolorosos. </p><cite>JUNG, 2013a, p. 140</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">É possível concluir o quanto esta fase da vida é importante e determinante para o bem-estar mental de toda uma vida, não somente na infância. Além disso, fica claro que não é possível separar saúde mental da criança e do adolescente da saúde mental parental.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-em-resumo-a-compreensao-junguiana-mostra-que-quando-se-fala-de-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente-e-de-suma-importancia" style="font-size:19px"><strong>Em resumo, a compreensão junguiana mostra que quando se fala de saúde mental da criança e do adolescente, é de suma importância:</strong></h2>



<ul class="wp-block-list">
<li style="font-size:19px">a valorização do autoconhecimento dos pais;</li>



<li style="font-size:19px">que se incluam intervenções que ajudem pais e cuidadores a reconhecerem suas projeções;</li>



<li style="font-size:19px">que políticas públicas considerem pais e cuidadores, e não apenas as crianças;</li>



<li style="font-size:19px">a compreensão dos sintomas infantis como expressões também de complexos familiares;</li>



<li style="font-size:19px">que considerem a criança como sujeito, mas também como parte de um campo psíquico maior.</li>
</ul>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px">Por fim, ressalto o quanto Jung foi pioneiro: muito antes de haver dados epidemiológicos mundiais, ele já apontava que as bases da vida psíquica se estruturam nos primeiros anos de vida, aquilo que hoje é sustentado por pesquisas globais.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Psicologia Analítica e saúde mental da criança e do adolescente" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/kXYWMnIix98?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/danielle-chaves-gomes-de-oliveira/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/danielle-chaves-gomes-de-oliveira/">Danielle Chaves Gomes de Oliveira – Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/" type="link" id="https://blog.ijep.com.br/author/mgloriagmiranda/">Maria da Glória Miranda &#8211; Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-bibliograficas"><strong>Referências Bibliográficas:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">EDINGER, E.F. Ego e arquétipo: uma síntese fascinante dos conceitos psicológicos</p>



<p class="wp-block-paragraph">fundamentais de Jung. 2.ed. São Paulo, Cultrix, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HILLMAN, J. Estudos de psicologia arquetípica. 1.ed. Rio de Janeiro, Vozes, 1978.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOB, M. Psicoterapia Junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças. 1.ed. São</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paulo, Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G. Estudos Experimentais, 3. ed., Petrópolis, Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C.G O desenvolvimento da personalidade. 14. ed. Petrópolis, Vozes, 2013a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E. A criança. 10. ed. São Paulo, Cultrix, 1995</p>



<p class="wp-block-paragraph">SALVADOR, A.P. Psicopatologia na perspectiva junguiana: uma psicopatologia “re-imaginada”.In: MAGALDI, W. (Org.). Fundamentos da psicologia analítica. 1.ed. São Paulo, Eleva Cultural, 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNICEF. United Nations Children’s Fund, The State of the World’s Children 2021: On My</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mind – Promoting, protecting and caring for children’s mental health, UNICEF, New York:</p>



<p class="wp-block-paragraph">2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNITED NATIONS. Department of Economic and Social Affairs, Population Division. World Population Prospects 2022: Summary of Results. New York: United Nations; 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Comprehensive mental health action plan</p>



<p class="wp-block-paragraph">2013–2030. Geneva: World Health Organization; 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). World mental health report: transforming</p>



<p class="wp-block-paragraph">mental health for all. Geneva: World Health Organization; 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health today: latest data. Genebra:2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph">ZWEIG, C.; ABRAMS, J. Ao encontro da sombra. 1. ed. São Paulo, Cultrix, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/um-dialogo-necessario-entre-a-psicologia-analitica-e-relatorios-de-saude-mental-da-crianca-e-do-adolescente/">Um diálogo necessário entre a Psicologia Analítica e relatórios de saúde mental da criança e do adolescente</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Superparentalidade: de crianças superprotegidas a adultos infantilizados</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/superparentalidade-de-criancas-superprotegidas-a-adultos-infantilizados/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Jun 2025 12:44:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Personalidade]]></category>
		<category><![CDATA[Processo de Individuação]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[desenvolvimento da personalidade]]></category>
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		<category><![CDATA[superparentalidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Não é importante que os pais nunca cometam erros – isso seria impossível para os seres humanos –, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente, a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador de seu próximo tanto para o [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-large" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>Não é importante que os pais nunca cometam erros – isso seria impossível para os seres humanos –, mas que os reconheçam como erros. Não é a vida que deve ser detida, mas a nossa inconsciência; primeiramente, a do educador, isto é, a própria, pois cada um é educador de seu próximo tanto para o bem como para o mal. </em></p><cite>(Jung, 2021, p.90)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><em><strong>Resumo</strong>: Na tentativa de proteger excessivamente seus filhos, muitos pais acabam impedindo que eles vivenciem experiências importantes e realizem tarefas simples do dia a dia. Aborda-se como esse excesso de “cuidado” pode formar adultos inseguros, dependentes e com dificuldades para enfrentar os desafios da vida.</em> <em>A superproteção compromete o desenvolvimento da criança, passando pela adolescência até a vida adulta, resultando em indivíduos emocionalmente presos à infância e marcados pela imaturidade. <strong>Mais do que nunca, precisamos refletir sobre nossa forma de educar: estaremos verdadeiramente preparando nossas crianças para a vida ou apenas protegendo a nós mesmos</strong>?</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-criancas-que-ganham-autonomia-no-autocuidado-e-nas-tarefas-domesticas-tornam-se-adultos-mais-afetuosos-regulados-emocional-e-cognitivamente" style="font-size:19px">Crianças que ganham autonomia no autocuidado e nas tarefas domésticas tornam-se adultos mais afetuosos, regulados emocional e cognitivamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa é uma questão levantada no artigo realizado pela&nbsp;<em>La Trobe University</em>:&nbsp;<em>Executive functions and household chores: Does engagement in chores predict children’s cognition?</em>&nbsp;(Funções executivas e tarefas domésticas: o envolvimento nas tarefas prevê a cognição das crianças?&nbsp;– tradução livre).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Embora a tese apresentada acima pareça óbvia para muitos leitores, temos observado uma atitude contrária por parte de muitos pais nos dias de hoje. E é sobre essa <strong>superproteção parental</strong> que proponho refletirmos ao longo deste artigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O estudo australiano aponta que a&nbsp;<strong>superparentalidade</strong>&nbsp;tira das crianças a oportunidade de progresso por meio da realização de tarefas simples do dia a dia. O envolvimento excessivo dos pais prejudica o desenvolvimento emocional e comportamental desses indivíduos ao longo da vida, que crescem dependentes e incapazes de se autoafirmarem, tornando-se <strong>adultos infantilizados</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-observando-a-forma-como-a-sociedade-contemporanea-vivencia-a-parentalidade-entendo-que-estamos-em-crise" style="font-size:19px">Observando a forma como a sociedade contemporânea vivencia a parentalidade, entendo que estamos em crise.</h2>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-perdemo-nos-diante-da-ideia-do-que-e-amar-cuidar-e-ensinar" style="font-size:19px">Perdemo-nos diante da ideia do que é amar, cuidar e ensinar.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Como elaborei no meu último artigo,&nbsp;<a href="https://blog.sudamar.com.br/a-parentalidade-positiva-e-a-sua-sombra-na-contemporaneidade/"><em>“A parentalidade positiva e a sua sombra na contemporaneidade”</em></a>, penso que assumimos novas demandas impostas por uma geração que acredita na fórmula certa para a construção da <strong>família perfeita</strong>. Nela, não cabem erros, fraquezas e vulnerabilidades – nem para os pais, nem para os filhos. Vivemos a era que teme o sofrimento e a insatisfação das crianças.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A rotina pesada do dia a dia, somada às ideias equivocadas de que&nbsp;amor nunca é demais&nbsp;e de que&nbsp;frustração desregula as crianças emocionalmente, tem invertido a lógica da dinâmica familiar. Fazer pelos filhos torna-se mais importante do que permitir que eles errem e se desenvolvam no tempo deles – essa é a cartilha da <strong>superparentalidade</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-assumir-as-pequenas-tarefas-e-desafios-dos-filhos-perdemos-a-chance-de-encoraja-los-e-de-oferecer-suporte-emocional-frente-as-adversidades-e-aprendizados-da-vida" style="font-size:19px">Ao assumir as pequenas tarefas e desafios dos filhos, perdemos a chance de encorajá-los e de oferecer suporte emocional frente às adversidades e aprendizados da vida.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Criamos tanta culpa e desconexão com nossas crianças e, por outro lado, assumimos o controle de tudo – inclusive das pequenas atividades cotidianas que elas já são capazes de desenvolver sozinhas, como vestir-se, comer, amarrar os tênis, tomar banho ou preparar seu lanche. Quando o amor e o cuidado tornam-se desmedidos, sufocamos e interditamos os indivíduos em seu processo de desenvolvimento natural e necessário.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Segundo <strong>Neumann</strong>, é preciso saber diferenciar o mimar “verdadeiro” do “falso”, da mãe-bruxa que atrai a criança para sua casa de chocolate. “<strong>Mimar [&#8230;] não produz distúrbios sérios, até tornar-se necessário para a criança afrouxar os laços com a mãe, e esse processo é impedido ou prevenido pelo fato de a mãe ter mimado o filho</strong>”&nbsp;(1995, p. 54, grifos meus). Nesse caso, o mimo não saudável gerará um processo de dependência e codependência, afetando diretamente o desenvolvimento da criança. Vale ressaltar que podemos ampliar tranquilamente esse conceito, designado por Neumann à mãe, para todos que exercem a <strong>parentalidade</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O mimo que ultrapassa a primeira infância priva as crianças de se desenvolverem a partir de inibições, contradições e frustrações. Dinâmicas fundamentais para que, no futuro, esses indivíduos sejam capazes de suportar a tensão psíquica entre o consciente e o inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>“A capacidade de uma criança aceitar restrições com relativa facilidade depende de uma capacidade de se integrar, de formar um ego integral e um eixo ego-Self positivo”&nbsp;(NEUMANN, 1995, p. 57-58).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Na perspectiva junguiana, compreendemos que o receio que os pais têm de que seus filhos se frustrem fala mais sobre eles mesmos do que sobre as crianças. É uma dinâmica psíquica sutil que reforça ainda mais a dependência emocional – a princípio natural e necessária entre filhos e pais –, mas que se torna disfuncional quando não é superada ao longo do desenvolvimento infantil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-psique-da-crianca-jung-diz" style="font-size:19px">Sobre a psique da criança, <strong>Jung</strong> diz:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><strong>A criança tem uma psicologia singular</strong>. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que doença genuína da criança. <strong>Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte, ainda depende da vida psíquica dos pais&nbsp;</strong>(2021, p. 84).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para a psicologia analítica, o desenvolvimento da personalidade pressupõe a diferenciação entre a psique dos filhos e a de seus pais no caminho do adultecimento, permitindo o processo de individuação de cada um ao longo da vida.&nbsp;“[&#8230;] <strong>apegar-se demasiadamente aos pais é desnatural e doentio</strong> [&#8230;]”&nbsp;(JUNG, 2021, p. 85).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-a-individuacao-jung-afirma-que-e-um-processo-que-nunca-chega-ao-fim-mas-e-o-caminho-para-nos-tornarmos-seres-unicos-realizando-nossas-potencialidades" style="font-size:19px">Sobre a individuação, Jung afirma que é um processo que nunca chega ao fim, mas é o caminho para nos tornarmos seres únicos, realizando nossas potencialidades:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p><em>“</em>A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é<em>”</em>&nbsp;(2020, p. 64).</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-limitarmos-nossas-criancas-em-seu-processo-de-amadurecimento-fisico-emocional-e-cognitivo-causamos-um-interdito-na-passagem-da-infancia-para-a-adolescencia-e-depois-para-a-vida-adulta" style="font-size:19px">Ao limitarmos nossas crianças em seu processo de amadurecimento físico, emocional e cognitivo, causamos um interdito na passagem da infância para a adolescência e, depois, para a vida adulta.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">“Aqueles que passam conscientemente pela transição trazem mais significado à sua vida. Os que não passam permanecem prisioneiros da infância, não importa o sucesso aparente que possam ter na vida”&nbsp;(HOLLIS, 2023, p. 9).</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-superparentalidade-tornou-se-um-sintoma-que-evidencia-o-peso-e-as-expectativas-geradas-sobre-a-criacao-dos-filhos-trazendo-impactos-negativos-para-toda-uma-geracao-da-infancia-a-adultez" style="font-size:19px">A <strong>superparentalidade</strong> tornou-se um sintoma que evidencia o peso e as expectativas geradas sobre a criação dos filhos, trazendo impactos negativos para toda uma geração – da infância à adultez.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">À medida que nos desconectamos dos instintos maternos e paternos, perdemos a capacidade de observar, respeitar e favorecer o desenvolvimento das etapas da vida humana, que acontecem a partir de experiências boas e ruins. Privar crianças e adolescentes de frustrações e tristezas não os torna mais felizes ou amorosos – pelo contrário. No entanto, oferecer suporte emocional, acolhimento e segurança durante situações difíceis favorece a formação de indivíduos mais seguros e autônomos, além de fortalecer ainda mais o vínculo familiar.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Podemos até concluir que a personalidade adulta não examinada é um agregado de atitudes, comportamentos e reflexos psíquicos ocasionados pelos traumas da infância, cujo objetivo fundamental é controlar o nível de sofrimento experimentado pela memória orgânica da infância que conduzimos dentro de nós. Podemos chamar essa memória orgânica de criança interior, e nossas várias neuroses representam estratégias inconscientemente desenvolvidas para defender essa criança. (A palavra ‘neurose’ não é usada aqui no sentido clínico, e sim como termo genérico para a divisão entre a nossa natureza e a nossa aculturação)&nbsp;(HOLLIS, 2023, p. 13).</p></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao adotarmos a <strong>superparentalidade</strong> como modelo, formamos uma geração de jovens adultos infantilizados e incapazes de fazerem por si mesmos o básico. De forma mais ampla, esse comportamento parental poda a possibilidade de desenvolvimento cognitivo e emocional. Criando indivíduos desconectados de suas emoções, sentimentos, necessidades básicas e sem condições de compreender o outro em suas vulnerabilidades e deficiências – ou seja, incapazes de praticar empatia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-afeto-desmedido-ou-a-falta-dele-esta-inexoravelmente-ligado-ao-desenvolvimento-emocional-de-criancas-e-adolescentes-e-a-sua-capacidade-de-no-futuro-tornarem-se-adultos-emocionalmente-regulados" style="font-size:19px"><strong>O afeto desmedido – ou a falta dele – está inexoravelmente ligado ao desenvolvimento emocional de crianças e adolescentes e à sua capacidade de, no futuro, tornarem-se adultos emocionalmente regulados.</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A autonomia que os indivíduos terão na fase adulta é desenvolvida ainda na infância, por meio da participação em tarefas domésticas, no cuidado de suas próprias coisas e de seu corpo. Essas habilidades são fundamentais para a autorregulação na vida madura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A presença afetiva dos pais na vida dos filhos é preponderante para o desenvolvimento psíquico da criança. No entanto, é fundamental que essa presença sofra modificações ao longo do tempo. A influência dos pais precisa diminuir para que os adolescentes conectem-se com outros pares, vivam novas relações, diferenciem-se do ambiente familiar e descubram sua identidade na vida adulta.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;Superparentalidade: de crianças superprotegidas a adultos infantilizados&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/lh4wrpvZpfo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/clarissegrand/">Clarisse Grand Court – Analista Junguiana em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias-nbsp" style="font-size:19px"><strong>Referências:&nbsp;</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">HOLLIS, James. A passagem do Meio: da miséria ao significado da meia idade. 1 ed. São Paulo: Paulus, 2023.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; O desenvolvimento da personalidade. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2021b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">_____, Carl Gustav.&nbsp; O eu e o inconsciente. 27.ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">NEUMANN, Erich. A Criança: Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação. 10.ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Obradović, Jelena. Supporting Children’s School Readiness. IN: Stanford University. <a href="https://bingschool.stanford.edu/news/supporting-childrens-school-readiness-jelena-obradovic">https://bingschool.stanford.edu/news/supporting-childrens-school-readiness-jelena-obradovic</a> . Acesso em 28 de abril de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">TEPPER, Deana L.; HOWELL,Tiffani; BENNETT, Pauleen.(2022). Executive functions and household chores: Does engagement in chores predict children&#8217;s cognition? In: Australian Occupational Therapy Journal. <a href="https://www.researchgate.net/publication/360998732_Executive_functions_and_household_chores_Does_engagement_in_chores_predict_children's_cognition">https://www.researchgate.net/publication/360998732_Executive_functions_and_household_chores_Does_engagement_in_chores_predict_children&#8217;s_cognition</a> . Acesso em 28 de abril de 2025.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong>Conheça nossos cursos, congressos e pós-graduações</strong>: <a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br </a></p>
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			</item>
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		<title>É possível usar o pensamento junguiano para fazer a análise de crianças e adolescentes?</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/e-possivel-usar-o-pensamento-junguiano-para-fazer-a-analise-de-criancas-e-adolescentes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 10 Jun 2025 12:45:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[EducaçãoTransformadora]]></category>
		<category><![CDATA[FreirePiaget]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[PsicologiaJunguiana]]></category>
		<category><![CDATA[TerapiaInfantil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Você já pensou em como a psicologia junguiana pode ajudar no desenvolvimento de crianças e adolescentes? Neste artigo, exploro a intersecção entre a psicologia analítica de Carl Jung, a educação transformadora de Paulo Freire e o desenvolvimento cognitivo de Piaget, oferecendo uma abordagem única para a terapia de crianças, adolescentes e jovens. Com mais [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Resumo: <strong>Você já pensou em como a psicologia junguiana pode ajudar no desenvolvimento de crianças e adolescentes? </strong>Neste artigo, exploro a intersecção entre a psicologia analítica de Carl Jung, a educação transformadora de Paulo Freire e o desenvolvimento cognitivo de Piaget, oferecendo uma abordagem única para a terapia de crianças, adolescentes e jovens. Com mais de 30 anos de experiência como educadora, psicopedagoga e agora como analista, compartilho insights sobre como integrar essas perspectivas para promover o autoconhecimento, a autonomia e a transformação social.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-mais-de-tres-decadas-em-sala-de-aula-convivendo-com-criancas-adolescentes-familias-e-o-complexo-mundo-da-escola-comecei-a-perceber-que-o-que-acontecia-ali-ia-alem-do-que-os-olhos-podiam-ver" style="font-size:19px">Após mais de três décadas em sala de aula, convivendo com crianças, adolescentes, famílias e o complexo mundo da escola, comecei a perceber que o que acontecia ali ia além do que os olhos podiam ver.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Comportamentos repetitivos, desenhos carregados de símbolos, silêncios profundos, explosões de raiva&#8230; tudo isso me fazia perguntar: o que mais está sendo dito aqui, por trás do que é visível? Foi quando me aproximei da psicologia de Carl Gustav Jung e encontrei uma linguagem que parecia traduzir aquilo que eu intuía, mas não conseguia nomear.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-via-o-inconsciente-nao-apenas-como-algo-que-carregamos-por-dentro-mas-como-um-campo-vivo-cheio-de-imagens-e-significados-que-nos-atravessam-mesmo-sem-sabermos" style="font-size:19px">Jung via o inconsciente não apenas como algo que carregamos por dentro, mas como um campo vivo, cheio de imagens e significados que nos atravessam, mesmo sem sabermos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ele afirmava que “o Self é a totalidade da personalidade, que abrange o consciente e o inconsciente; é o centro regulador da psique” (JUNG, 1976, p. 167). Mesmo na infância, esse Self está se desenhando, e as crianças nos mostram isso de formas simbólicas e espontâneas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao longo da minha experiência como educadora e psicopedagoga e, mais recentemente, como analista junguiana, percebo que a jornada de compreender o desenvolvimento de crianças e adolescentes é multifacetada, desafiadora e profundamente transformadora. Durante mais de 30 anos como professora, trabalhei com famílias e jovens de diferentes realidades, observando não apenas as questões acadêmicas, mas também as psicológicas e emocionais que se manifestam de forma evidente ou oculta. Em muitos casos, os desafios enfrentados pelos jovens eram tão profundos quanto suas dificuldades acadêmicas, exigindo mais do que apenas uma abordagem pedagógica convencional.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">No contexto da psicologia junguiana, podemos considerar essas questões não resolvidas como símbolos e imagens do inconsciente que, quando trabalhados, podem promover uma integração emocional e psicológica, resultando em um desenvolvimento saudável e equilibrado. Ao integrar a perspectiva junguiana com os pensamentos de Paulo Freire e Piaget, podemos criar uma abordagem terapêutica que favoreça a autonomia, o autoconhecimento e a transformação social de crianças e adolescentes e de suas famílias.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Recordo-me de um aluno que só desenhava labirintos, com linhas complexas e sempre sem saída.</strong> Não era apenas distração: era expressão. Como dizia Jung, “<strong>as imagens do inconsciente possuem vida própria, e aparecem nos sonhos das crianças de forma viva, direta e transformadora</strong>” (JUNG, 2013, p. 41).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-aprendi-que-como-educadora-eu-nao-precisava-interpretar-mas-escutar-escutar-as-imagens-os-gestos-os-silencios" style="font-size:19px">Aprendi que, como educadora, eu não precisava interpretar, mas escutar — escutar as imagens, os gestos, os silêncios.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Este texto visa expandir a ideia de como podemos usar o pensamento junguiano para a terapia de crianças e adolescentes, considerando as contribuições do filósofo Paulo Freire e do psicólogo Jean Piaget. A intersecção desses pensadores oferece uma abordagem rica para o desenvolvimento integral também dos adolescentes. Através desta vivência como educadora e terapeuta, observo que essas perspectivas não apenas se complementam, mas oferecem uma base sólida para uma prática terapêutica que respeite o processo de individuação e crescimento das crianças e adolescentes.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jean-piaget-nos-ensinou-sobre-os-estagios-do-desenvolvimento-cognitivo-da-crianca-e-como-ela-constroi-o-pensamento-atraves-da-acao" style="font-size:19px"><strong>Jean Piaget</strong> nos ensinou sobre os estágios do desenvolvimento cognitivo da criança e como ela constrói o pensamento através da ação.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ele dizia: “<strong>A criança é um ser que constrói progressivamente suas estruturas cognitivas, através da ação sobre o mundo</strong>” (PIAGET, 1975, p. 14). Mas, se Piaget nos ofereceu as bases para entender como a criança pensa, Jung nos ajuda a entender o que ela sente e como expressa isso de forma simbólica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A psicologia analítica de Carl Gustav Jung oferece uma lente profunda para compreender o inconsciente e os processos de desenvolvimento que ocorrem durante a infância e adolescência. Em sua teoria, Jung (1959) introduziu o conceito de arquétipos, que são imagens primordiais do inconsciente coletivo. Esses arquétipos emergem em sonhos, mitos e histórias culturais, refletindo as experiências universais da humanidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Para<strong> Jung</strong>, a infância é um momento crucial no desenvolvimento da psique, é quando a criança começa a entrar em contato com esses arquétipos e a formar uma base psíquica para seu futuro. Ele sugere que, por meio do processo de individuação, a criança, o jovem e o adulto aprendem a integrar os aspectos inconscientes da psique, o que é essencial para o nosso equilíbrio emocional.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-dizia-que-o-jogo-infantil-e-o-trabalho-da-crianca-e-por-meio-do-brincar-que-ela-expressa-e-elabora-conteudos-inconscientes-jung-2000-p-88" style="font-size:19px">Jung dizia que “<strong>o jogo infantil é o trabalho da criança. É por meio do brincar que ela expressa e elabora conteúdos inconscientes</strong>” (JUNG, 2000, p. 88).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Muitas vezes, o que vemos no brincar é a tentativa da criança de organizar o caos interno, de ensaiar soluções simbólicas para os conflitos reais que enfrenta.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A utilização da psicologia analítica com crianças e adolescentes é extremamente valiosa, pois possibilita a interpretação simbólica dos conteúdos inconscientes que emergem em seus comportamentos e sonhos. Por exemplo, os sonhos podem ser analisados como manifestações do inconsciente da criança e de sua carga transgeracional, refletindo os medos, desejos e conflitos internos que ela ainda não consegue expressar verbalmente. Jung acreditava que, ao permitir que a criança se conectasse com esses conteúdos simbólicos, a terapia proporcionaria uma oportunidade de transformação emocional e psicodinâmica, ajudando-a a integrar seus aspectos inconscientes de maneira saudável e construtiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Além disso, a psicologia junguiana também enfatiza a importância da relação terapêutica como um espaço seguro para o processo de individuação. Quando a criança sente que pode ser autêntica e explorar seus sentimentos sem julgamento, ela começa a entender melhor suas próprias motivações e emoções. Isso é fundamental para o desenvolvimento emocional e psicológico de crianças e adolescentes, que frequentemente se encontram em um momento de busca por identidade, pertencimento e autoconhecimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O pedagogo <strong>Paulo Freire</strong> (1996) é amplamente reconhecido por sua abordagem educacional libertadora, que defende a conscientização e o protagonismo dos educandos no processo de aprendizagem. Para Freire, a educação deve ser um espaço de diálogo e transformação, onde o educador e o educando se tornam sujeitos ativos da construção do conhecimento. Essa perspectiva tem grande relevância na psicoterapia, pois ela reconfigura a relação entre o terapeuta e o paciente, enfatizando a importância da troca e da escuta atenta. Ao adotar a visão de Freire, a psicoterapia junguiana se torna mais do que um processo de interpretação e análise simbólica: ela se transforma em um espaço de liberdade, onde a criança ou o adolescente pode reescrever suas histórias e integrar suas experiências de maneira autêntica e transformadora.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Paulo Freire, em sua profunda defesa da escuta e do diálogo, dizia que “<strong>ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo</strong>” (FREIRE, 1987, p. 78). Essa visão do educador como alguém que escuta, acompanha e respeita o tempo e o saber do outro é profundamente compatível com o olhar junguiano.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Quando Freire fala da “palavra como práxis” (FREIRE, 1996, p. 42), penso imediatamente nos símbolos que emergem nas falas das crianças e adolescentes. Não são apenas palavras: são imagens vivas que revelam seu mundo interior. O educador, nesse contexto, não precisa dar respostas, mas sustentar perguntas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-acreditava-que-o-ambiente-ao-redor-da-crianca-influencia-diretamente-na-formacao-do-self-ele-dizia-se-o-ambiente-externo-nega-a-expressao-do-self-a-crianca-tende-a-desenvolver-uma-persona-fragil-ou-um-ego-defensivo-prejudicando-a-integracao-de-sua-totalidade-jung-2013-p-121" style="font-size:19px">Jung acreditava que o ambiente ao redor da criança influencia diretamente na formação do Self. Ele dizia: “<strong>Se o ambiente externo nega a expressão do Self, a criança tende a desenvolver uma persona frágil ou um ego defensivo, prejudicando a integração de sua totalidade</strong>” (JUNG,2013, p.121).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A escola, assim como a família, pode ser espelho ou máscara. Pode ajudar a criança a se encontrar ou forçá-la a se esconder. Paulo Freire também alertava para isso: “A opressão nega a vocação ontológica do ser humano para a plenitude” (FREIRE, 1987, p. 33). Precisamos de escolas que acolham o símbolo e a diferença, que escutem o silêncio e permitam o tempo da alma.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Ao longo dos anos, fui fazendo registros de alguns desenhos de crianças, uma espécie de mapa com símbolos que surgiam em sala de aula. Crianças que desenhavam dragões, adolescentes que escreviam poesias sobre abismos, alunos que falavam com pedras como se fossem oráculos e adultos que sonhavam com ondas gigantes e avassaladoras. Não eram apenas brincadeiras: eram manifestações da alma. Jung dizia que “o símbolo é a melhor expressão possível de algo que ainda não pode ser totalmente conhecido ou racionalizado” (JUNG,1976, p.159).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essas expressões me ensinaram e me ensinam até hoje, mais do que qualquer diagnóstico. Elas exigem sensibilidade e presença, não apenas técnica. A escuta simbólica, o diálogo verdadeiro e o respeito ao tempo da psique são ferramentas essenciais para quem trabalha com crianças e adolescentes. A psicologia junguiana, quando aliada à pedagogia freiriana e aos aportes de Piaget, nos oferece um caminho mais humano, mais profundo e mais integrador. Como educadora, não interpretei imagens, mas caminhei com elas. Não diagnostiquei, mas acolhi. Não corrigi sonhos, mas os escutei com reverência. É possível, sim, usar o pensamento junguiano para compreender melhor as infâncias e adolescências — e, quem sabe, curar um pouco da nossa própria criança interior.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Freire acredita que a educação deve promover a liberdade, e isso se aplica perfeitamente à psicoterapia, onde o terapeuta deve criar um ambiente seguro para que o cliente, especialmente uma criança ou adolescente, possa expressar seus sentimentos, pensamentos e experiências sem medo de julgamento.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Essa relação de confiança e liberdade é essencial para o desenvolvimento psíquico saudável, pois permite que o cliente se conecte com os conteúdos inconscientes que precisam ser trabalhados. No contexto junguiano, isso pode ser feito através da exploração de símbolos e imagens que surgem durante a terapia.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">A educação transformadora de Freire não se limita às salas de aula. Ela pode ser aplicada também no espaço terapêutico, onde a criança ou adolescente é convidado a se tornar sujeito de seu próprio processo de cura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Dessa forma, a psicoterapia junguiana, ao incorporar as ideias de Freire, se torna não apenas uma técnica de cura, mas também um ato de empoderamento, onde a criança ou adolescente aprende a lidar com seus conflitos internos e externos de maneira construtiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-teoria-do-desenvolvimento-cognitivo-de-jean-piaget-1976-e-fundamental-para-compreender-como-as-criancas-constroem-sua-percepcao-do-mundo-ao-seu-redor" style="font-size:19px">A teoria do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget (1976) é fundamental para compreender como as crianças constroem sua percepção do mundo ao seu redor.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Piaget propôs que as crianças passassem pelos estágios de desenvolvimento cognitivo, cada um caracterizado por diferentes formas de pensar e entender o mundo. Esses estágios – sensório-motor, pré-operacional, operações concretas e operações formais – influenciam como as crianças processam informações e resolvem problemas, o que tem implicações diretas para a psicoterapia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-integrar-a-teoria-de-piaget-com-a-psicologia-analitica-de-jung-podemos-ver-como-o-desenvolvimento-cognitivo-das-criancas-e-adolescentes-pode-impactar-o-processo-terapeutico" style="font-size:19px">Ao integrar a teoria de Piaget com a psicologia analítica de Jung, podemos ver como o desenvolvimento cognitivo das crianças e adolescentes pode impactar o processo terapêutico.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Durante o estágio pré-operacional, por exemplo, a criança tende a pensar de forma egocêntrica e simbólica.&nbsp; A terapia junguiana pode ser particularmente eficaz nesse estágio, ajudando a criança a entender e integrar esses símbolos, permitindo-lhe desenvolver uma maior compreensão de si mesma e do mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">À medida que a criança avança para os estágios de operações concretas e formais, ela começa a construir raciocínios mais lógicos e abstratos. A psicoterapia junguiana, nesse caso, pode ser usada para explorar as questões mais complexas que surgem com o desenvolvimento da consciência e da identidade. Adolescentes, por exemplo, muitas vezes, enfrentam conflitos internos sobre quem são, qual é o seu papel na sociedade e como se relacionam com os outros. A terapia junguiana pode ajudar a explorar esses temas de maneira profunda, utilizando metáforas e símbolos para facilitar a compreensão e a aceitação de si mesmos, uma boa opção é o uso da Arteterapia e expressões criativas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-minha-experiencia-como-educadora-e-psicopedagoga-juntamente-com-minha-formacao-em-psicologia-analitica-me-permitiu-observar-de-perto-os-processos-de-desenvolvimento-e-os-desafios-enfrentados-por-criancas-e-adolescentes" style="font-size:19px">Minha experiência como educadora e psicopedagoga, juntamente com minha formação em psicologia analítica, me permitiu observar de perto os processos de desenvolvimento e os desafios enfrentados por crianças e adolescentes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Muitas vezes, percebi que os desafios emocionais e psicológicos de meus alunos estavam diretamente relacionados à sua capacidade de integrar suas experiências e diferentes identidades. Quando esses jovens se deparavam com dificuldades, como dificuldades de relacionamento, de aprendizagem, conflitos familiares ou problemas de autoestima, suas emoções se manifestavam de formas que nem sempre eram compreendidas ou respeitadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Agora, como analista, posso perceber claramente o valor de integrar a psicologia analítica na terapia de jovens. A minha prática terapêutica, fundamentada na escuta ativa, na interpretação simbólica e na valorização da autonomia do indivíduo, reflete muito do que Paulo Freire propôs no campo da educação. A liberdade de ser quem se é, a capacidade de transformar-se e de encontrar significado nos próprios desafios são componentes essenciais do processo terapêutico, tanto na educação quanto na terapia.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-integracao-da-psicologia-analitica-com-os-conceitos-educacionais-de-freire-e-piaget-me-permite-oferecer-uma-abordagem-integral-que-respeita-o-ritmo-e-as-necessidades-emocionais-e-cognitivas-de-cada-crianca-e-adolescente" style="font-size:19px">Essa integração da psicologia analítica com os conceitos educacionais de <strong>Freire</strong> e <strong>Piaget </strong>me permite oferecer uma abordagem integral, que respeita o ritmo e as necessidades emocionais e cognitivas de cada criança e adolescente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">Cada símbolo, cada arquétipo que emerge no processo terapêutico é visto não apenas como uma manifestação do inconsciente, mas como uma ferramenta para o autoconhecimento e a transformação pessoal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-integrar-a-psicologia-analitica-com-os-pensamentos-de-paulo-freire-e-jean-piaget-cria-um-caminho-rico-e-dinamico-para-a-terapia-de-criancas-e-adolescentes" style="font-size:19px">Integrar a psicologia analítica com os pensamentos de Paulo Freire e Jean Piaget cria um caminho rico e dinâmico para a terapia de crianças e adolescentes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px;line-height:1.4">O processo de individuação proposto por Jung, aliado à abordagem libertadora de Freire e à compreensão do desenvolvimento cognitivo de Piaget, oferece uma base sólida para a terapia que respeita a individualidade de cada jovem e sua jornada de crescimento. A experiência de ser educadora, psicopedagoga e analista me permite afirmar que essa abordagem integrada é profundamente eficaz no tratamento das questões emocionais e psicológicas que surgem no processo de desenvolvimento das novas gerações.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo: &quot;É possível usar o pensamento junguiano para fazer a análise de crianças e adolescentes?&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/zeeXJi7_BeA?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/elaine-cristina-bedin/">Elaine Cristina Bedin &#8211; Analista em Formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Simone Magaldi &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">FREIRE, Paulo<em>. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa</em>. São Paulo: Paz e Terra, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FREIRE, Paulo. <em>Pedagogia do oprimido</em>. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav<em>. A natureza da psique.</em> Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. <em>Memórias, sonhos, reflexões</em>. Trad. Sérgio Milliet. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1959.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav<em>. O desenvolvimento da personalidade</em>. Petrópolis: Vozes, 2000.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav<em>. Tipos Psicológicos</em>. Petrópolis: Vozes, 1976.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PIAGET, Jean. <em>A psicologia da criança</em>. Trad. Francisco R. Bordini. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1976.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PIAGET, Jean. <em>O nascimento da inteligência na criança.</em> Rio de Janeiro: Zahar, 1975.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10571" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/06/image-3.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



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		<title>A parentalidade positiva e a sua sombra na contemporaneidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-parentalidade-positiva-e-a-sua-sombra-na-contemporaneidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 04 Nov 2024 14:02:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Burnout]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Somos conduzidos a sermos e a fazermos o melhor em todos os âmbitos da nossa vida pessoal, profissional, escolar, familiar e assim desejamos nos tornar verdadeiras obras-primas. Nessa árdua luta para criar a nossa própria perfeição, esquecemos que somos seres humanos.” WOODMAN, 2002, p.13 Resumo: A busca pela parentalidade perfeita tornou-se uma característica marcante da [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:16px"><blockquote><p><em>“Somos conduzidos a sermos e a fazermos o melhor em todos os âmbitos da nossa vida pessoal, profissional, escolar, familiar e assim desejamos nos tornar verdadeiras obras-primas. Nessa árdua luta para criar a nossa própria perfeição, esquecemos que somos seres humanos.”</em></p><cite><em> </em>WOODMAN, 2002, p.13</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Resumo</strong>: <em>A busca pela parentalidade perfeita tornou-se uma característica marcante da contemporaneidade, amplificada pelas redes sociais e o padrão de performance estabelecido. Essa pressão constante leva ao esgotamento emocional e físico dos pais e filhos, resultando no fenômeno conhecido como Burnout Parental. Distante dos saberes instintivos e ancestrais, os pais se veem presos a um ideal de perfeição inalcançável, desconsiderando as reais necessidades de seus filhos e de si mesmos. Sob a perspectiva Junguiana, o artigo convida à reflexão sobre as a sombra dessa parentalidade, revelando o impacto psicológico profundo desse padrão idealizado.</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-busca-da-perfeicao"><strong>A busca da perfeição</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A rotina de muitas famílias parece ter se tornado uma grande maratona sem direito a medalha no final do dia. É preciso acompanhar de perto todas as tarefas escolares e extracurriculares dos filhos, dar conta do trabalho e, de forma alguma, demonstrar que os filhos “roubam” o tempo dedicado à vida profissional. Criar crianças super bem-educadas, excelentes alunos e autorregulados emocionalmente. Enquanto tudo isso acontece, os pais e mães devem ressignificar toda criação que recebeu e aplicar, sem direito a erro, novas metodologias baseadas no repertório emocional que adquiriu há menos tempo do que se torno pai ou mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A busca pela parentalidade perfeita tornou-se um sintoma que evidencia o peso e a expectativa gerada sobre a criação de filhos na contemporaneidade, trazendo impactos negativos aos pais e às crianças</strong>. Trata-se de uma meta de performance inatingível e cruel para toda a família, uma vez que a perfeição é algo sempre imaginal e muito distante do real.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Abandonamos os saberes ancestrais, transgeracionais e instintivos sobre o cuidar, o nutrir e o acolher – ligados ao complexo materno presente no inconsciente coletivo &#8211; e passamos a adotar fórmulas, dicas e regras difundidas nas redes sociais por “influenciadores digitais” totalmente alheios à realidade social, econômica e psíquica vivida na intimidade de cada família. Perdemos a rede de apoio familiar e comunitária e, com isso, acreditamos não saber mais maternar e paternar, que é proporcionar à criança &#8211; com afeto e presença &#8211; o desenvolvimento de todo o seu potencial psíquico, físico e emocional. Aspectos que nada tem a ver com performance.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-assumimos-novas-demandas-impostas-por-uma-sociedade-que-acredita-na-formula-certa-para-a-construcao-da-familia-perfeita" style="font-size:17px">Assumimos novas demandas impostas por uma sociedade que acredita na fórmula certa para a construção da <strong>família perfeita</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O resultado dessa pressão é um estresse crônico, aliado à uma sensação de fracasso, impotência e exaustão, que já conhecemos pelo nome de Burnout. Porém agora, estamos falando do <strong>Burnout Parental</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O estudo “O poder da parentalidade positiva: evidências para ajudar os pais e seus filhos a prosperarem” (tradução livre), desenvolvido pela Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, em 2023, apresenta dados alarmantes sobre o adoecimento dos pais que não conseguem alcançar o ideal da família feliz pautado por padrões irreais e distorcidos sobre o que é parentalidade e, mais especificamente, <strong>parentalidade positiva</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O material divulgado menciona que cerca de 60% dos pais entrevistados relatam estarem com Burnout. Sentem que não são bons pais e mães. Quando se dedicam ao trabalho, acreditam que falham no cuidado com os filhos, e, quando dedicam tempo aos filhos, sentem que precisam exaustivamente compensar essas horas de trabalho. As expectativas que têm de si e de seus filhos são muito mais altas do que de fato é possível ser e fazer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda de acordo com o estudo, o padrão de <strong>parentalidade positiva </strong>pressupõe, no <strong>imaginário coletivo</strong>, pais que são modelos de paciência e calma, cujos filhos são sempre bem-comportados e respeitáveis. Havendo, portanto, no ideal coletivo, uma associação intrínseca entre os conceitos de <strong>parentalidade positiva</strong> e <strong>parentalidade perfeita</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-artigo-tecnico-publicado-no-site-news-medical-life-sciences-a-dra-liji-thomas-amplia-o-estudo-americano-e-aponta-o-sentido-real-do-que-seria-a-parentalidade-positiva" style="font-size:17px">No artigo técnico publicado no site <em>News Medical Life Sciences</em>, a Dra. Liji Thomas, amplia o estudo americano e aponta o sentido real do que seria a parentalidade positiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">A parentalidade positiva incorpora múltiplos objetivos, o mais importante dos quais é construir um relacionamento de confiança e carinho com os filhos. Comunicação e escuta com respeito à criança são essenciais para isso. Além disso, estabelecer limites, elogiar e recompensar resultados comportamentais desejáveis, e amá-los não importa o que aconteça. O amor, a segurança e o conforto que a criança ganha com esse relacionamento são essenciais para desenvolver uma pessoa emocional e relacional saudável quando adulta. (THOMAS, 2024).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-entanto-na-sociedade-contemporanea-onde-tudo-se-torna-objeto-de-competicao-e-performance-os-conceitos-ganham-novos-sentidos-e-significados" style="font-size:17px">No entanto, na sociedade contemporânea, onde tudo se torna objeto de competição e performance, os conceitos ganham novos sentidos e significados.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Na perspectiva Junguiana, podemos ampliar para a unilateralização desse ideal de comportamento parental, onde não cabem erros, frustrações, medos e muito menos uma curva de aprendizado.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>[&#8230;] estamos tão ocupados em afazeres e metas a alcançar que perdemos o contato com a nossa vida interior, com essa vida que confere significado e símbolos e, por outro lado, cria os símbolos que dão sentido à vida. [&#8230;]. Nunca antes estivemos tão distantes da sabedoria da natureza e de nossos instintos. </p><cite>JUNG apud Woodman, 2002, p. 27</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-parentalidade-contemporanea-e-o-papel-das-redes-sociais"><strong>Parentalidade Contemporânea e o Papel das Redes Sociais</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A parentalidade traz o início de uma transição, ou seja, uma nova fase de incertezas e mudanças sem um destino certo. Nessa era digital, onde a rede social dita as “regras”, os conhecimentos se tornam incertos e superficiais. Como muito bem analisou Zygmunt Bauman ao longo de anos de estudos sobre a sociedade pós-moderna e suas relações superficiais e líquidas, são tempos de medo, insegurança e, portanto, de muita negatividade. “Há uma propensão natural a negar o que se teme muito e o que não se sabe resolver”. (BAUMAN apud ABRANCHES, 2017, p. 29). E o que o filósofo chama de negatividade, faço um paralelo com o que Jung denominou Sombra.&nbsp; Aquilo em nós que desconhecemos, tememos ou negamos.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>[&#8230;] sombra, aquela personalidade oculta, recalcada, frequentemente inferior e carregada de culpas, cujas ramificações se estendem até o reino de nossos ancestrais.   A sombra não é constituída apenas de tendências moralmente repreensíveis, mas apresenta um certo número de boas qualidades: instintos normais, reações adequadas, impulsos criadores, e outros. </p><cite>JUNG, 2020, p. 312-13</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">A sombra vem à tona, muitas vezes, com uma convocação moral, uma atitude compensatória do ego. Nesse sentido, entendo que o <strong>Burnout Parental</strong> é um sintoma contemporâneo manifestado por essa sombra coletiva da performance, da <strong>parentalidade perfeita</strong> e desconectada com a real necessidade desses pais e crianças em sua singularidade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo o filósofo contemporâneo <strong>Byung-Chul Han</strong>, tudo virou trabalho, produtividade e performance. Entendo que até a parentalidade embarcou nesse <em>modus operandi</em>. <strong>Perdeu-se a alma e o sentido. Entrou em cena a parentalidade pautada por metas e que busca resultados</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-que-causa-a-depressao-do-esgotamento-nao-e-o-imperativo-de-obedecer-apenas-a-si-mesmo-mas-a-pressao-do-desempenho" style="font-size:17px">O que causa a depressão do esgotamento não é o imperativo de obedecer apenas a si mesmo, mas a pressão do desempenho.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Visto a partir daqui, a Síndrome de Burnout não expressa o si-mesmo esgotado, mas antes a alma consumida. [&#8230;]. O que torna doente, na realidade, não é excesso de responsabilidade e iniciativa, mas o imperativo do desempenho como um novo mandato da sociedade pós-moderna do trabalho. (2021a, p. 27).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Se tememos o desconhecido, não entramos em contato com saberes primordiais que “aprendemos” a negar. O resultado é uma sociedade desconectada com o si-mesmo mas hiperconectada com a materialidade, a racionalidade e a performance. Pais e filhos que seguem cartilhas irreais e surreais de padrões inatingíveis.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-natureza-instintiva-e-o-guia-que-nos-conduz-a-nos-reconectarmos-com-o-nosso-ritmo-interno-nossas-necessidades-nossa-intuicao-cuidadora-e-protetora-ou-seja-o-nosso-ciclo-vital" style="font-size:17px">A natureza instintiva é o guia que nos conduz a nos reconectarmos com o nosso ritmo interno, nossas necessidades, nossa intuição cuidadora e protetora, ou seja, o nosso ciclo vital.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O instinto são, entretanto, fatores impessoais, universalmente difundidos e hereditários, de caráter mobilizador, que muitas vezes se encontram afastados do limiar da consciência [&#8230;]. [&#8230;] são forças motrizes especificamente formadas, que perseguem suas metas inerentes antes de toda conscientização, independente do grau de consciência. (JUNG, 2021b, p. 52-53).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Talvez não exista nada na nossa experiência ontogenética que nos permita responder aos desafios experienciados na parentalidade de forma prévia. E é esse desconhecido que nos faz buscar respostas ou referências externas, sujeitos a pressões sociais em busca do sucesso parental.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O largo número de perfis nas redes sociais voltados para a parentalidade, isso inclui influenciadores e anônimos digitais que disseminam conceitos, sugestões e vivências sobre maternidade, paternidade e ambos, reforça o importante papel que as redes têm sobre a construção do “ideal” de parentalidade no século XXI. De acordo com relatórios do projeto social: <em>We are Social</em> em parceria com o <em>Hootsuite</em>, em 2022, no Brasil eram 150 milhões de usuários com perfis ativos em redes sociais &#8211; um dos maiores percentuais do mundo &#8211; sendo 130 milhões no Facebook e 69 milhões no Instagram. Já de acordo com a plataforma Shopify, no mesmo ano, o TikTok chegou à marca de 1,7 bilhão de usuários, sendo 98,6% ativos no Brasil.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-entanto-o-que-ha-em-comum-entre-esses-perfis-parentais-e-a-revelacao-de-uma-parentalidade-cansativa-e-estressante" style="font-size:17px">No entanto, o que há em comum entre esses perfis parentais é a revelação de uma parentalidade cansativa e estressante.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“[&#8230;] nas performances realizadas em plataformas digitais, diferentes indivíduos constroem suas identidades na interseção com a figura e as ações de outros indivíduos que com eles interagem, criando laços e valores sociais.” </p><cite>SOUZA, 2022, p.40</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Percebemos então que existe nesse ambiente digital, ora implícita ora explicitamente, um <em>modus operandi</em> de <strong>parentalidade</strong>. Ou como Jung aponta, uma persona idealizada: a persona de pais e mães perfeitos e filhos mais que perfeitos, resultantes de uma <strong>parentalidade super perfeita</strong>. Uma identificação total, onde pais e mães incorporam, sem qualquer crítica ou reflexão, a projeção da perfeição.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No entanto, Jung sugere que os instintos perseguem suas metas. Ou seja, podemos nos conectar as nossas experiências filogenéticas, aos saberes primordiais e instintivos, encontrando mais e melhores respostas do que a larga rede social e toda a inteligência artificial são capazes de responder. Precisamos trabalhar a favor da diferenciação, desenvolvendo conteúdos inconscientes e sombrios e retirando o ego do padrão defensivo e autômato.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa jornada pela parentalidade perfeita esbarramos em outra dualidade: <strong>Mimar ou não mimar os filhos, eis a questão!</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-amor-incondicional-x-pacto-de-amor"><strong>O Amor Incondicional X Pacto de Amor</strong></h2>



<figure class="wp-block-pullquote is-style-solid-bg" style="font-size:19px"><blockquote><p>“Vivemos a era do hedonismo, um imperativo ao prazer e aos desejos. Nesse tempo, não cabem perder, gerar frustrações, angústias ou sentimentos de fracasso.” </p><cite>SOUZA, 2022, p. 222</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph">Um padrão de comportamento transferido para as crianças que precisam ser atendidas não em suas necessidades vitais, psíquicas ou afetivas, mas em seus caprichos vazios de afeto e responsabilidades. Algo que a psicanalista Marcia Neder denominou como <strong>infantolatria</strong>, o culto à criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cultura ocidental, a partir de um determinado momento, transformou a criança em uma divindade, um ser divino. [&#8230;]. A partir do século XIX, houve uma grande mudança na imagem do filho, da mãe e do pai. Em vez de organizada pelo poder do pai, a família passou a ser organizada pelo amor à criança. [&#8230;]. Quem perdeu o poder foi o adulto e quem ganhou o poder foi a criança, e ganhou porque nós demos esse poder a ela. (NEDER apud SOUZA, 2022, p.120).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-por-que-sera-que-o-ideal-de-criancas-sempre-bem-educadas-que-a-parentalidade-positiva-sugere-resultou-em-uma-realidade-de-criancas-mimadas-e-pais-esgotados" style="font-size:17px"><strong>E por que será que o ideal de crianças sempre bem-educadas que a parentalidade positiva sugere, resultou em uma realidade de crianças mimadas e pais esgotados?</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph">A falta de referenciais positivos e acolhedores, sejam eles internos ou externos, nos empurrou para o medo. O medo de falhar, o medo de “não dar conta”, o medo de perder o amor dos filhos. Uma atitude compensatória de uma geração que foi para o mercado de trabalho e terceirizou a criação das crianças e agora busca equilibrar essa equação, mas sem renunciar à alta performance em nenhum âmbito da vida, seja pessoal ou profissional. Parece que o resultado é uma parentalidade insegura, polarizada e adoecida. Saímos da relação autoritária e dominadora entre pais e filhos para a relação permissiva e passiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Confundimos amar com mimar</strong>. Mas não o mimar necessário na relação primal positiva na primeira fase da vida, essa que é sinônimo de um eixo ego-Self saudável. Adotamos o mimar que atende aos caprichos e vontades, ultrapassa limites físicos, psíquicos e emocionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo <strong>NEUMANN</strong>, é preciso saber diferenciar o mimar “verdadeiro” do “falso”, da mãe-bruxa que atrai a criança a sua casa de chocolate. “Mimar [&#8230;] não produz distúrbios sérios, <strong>até tornar-se necessário</strong> para a criança afrouxar os laços com a mãe, e esse processo é impedido ou prevenido pelo fato de a mãe ter mimado o filho” (1995, p. 54. Grifos meus). Nesse caso, o mimo não saudável irá gerar um processo de dependência e co-dependência e que irá afetar diretamente o desenvolvimento da criança, mas também a autoridade e liberdade dos pais. Vale ressaltar que podemos tranquilamente ampliar esse conceito que o Neumann designa à mãe para todos que exercem a <strong>parentalidade</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-mimar-contemporaneo-que-ultrapassa-a-primeira-infancia-priva-as-criancas-de-se-desenvolverem-a-partir-de-inibicoes-contradicoes-e-frustracoes" style="font-size:18px"><strong>Esse mimar contemporâneo, que ultrapassa a primeira infância, priva as crianças de se desenvolverem a partir de inibições, contradições e frustrações</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Uma dinâmica que será fundamental para que no futuro esses indivíduos sejam capazes de suportar a tensão psíquica entre o consciente e o inconsciente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>“A capacidade de uma criança aceitar restrições com relativa facilidade depende de uma capacidade de se integrar, de formar um ego integral e um eixo ego-Self positivo.” </p><cite>NEUMANN, 2021, p. 57-58.</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-a-base-da-criacao-devesse-estar-mais-associada-a-confianca-ao-afeto-e-a-seguranca-que-a-parentalidade-pode-e-deve-dar-a-crianca" style="font-size:17px">Talvez a base da criação devesse estar mais associada à confiança, ao afeto e à segurança que a parentalidade pode e deve dar à criança.</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Não podemos esquecer que a criança precisa se tornar um ser autônomo no futuro. O desejo dos pais e das mães em suprirem todas as necessidades de seus filhos, de nunca falharem, de serem onipresentes e onipotentes, é tão fantasioso e infantil quanto o de se atingir a meta da <strong>parentalidade perfeita</strong>. E essa neurose é compartilhada entre pais, mães e filhos, como bem explica Jung, “a criança se encontra de tal modo ligada e unida à atitude psíquica dos pais, que não é de causar espanto se a maioria das perturbações nervosas verificadas na infância devam sua origem a algo de perturbado na atmosfera psíquica dos pais” (2021b p. 48).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, olhar para a sombra dessa <strong>parentalidade perfeita</strong> é uma tentativa de dar luz a esse sofrimento psíquico que evidencia uma atitude neurótica da contemporaneidade. Uma exacerbação desse padrão performático e idealizado que tem se espalhado por todos os âmbitos da vida humana, infelizmente até mesmo no que se refere ao desenvolvimento psíquico, físico e emocional das crianças.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;A parentalidade positiva e a sua sombra na contemporaneidade&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/IeoiciWwi3g?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/clarissegrand/">Clarisse Grand Court – Membro Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências:</strong></h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">ABRANCHES, Sergio. A Era do Imprevisto: a grande transição do século XIX. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">GAWLIK, Kate; MELNYK, Bernadette Mazurek. The Ohio State University. The Power of Positive Parenting: Evidence to help parents and their children thrive. 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; Aion: estudo sobre simbolismo do Si-mesmo. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">_____, Carl Gustav.&nbsp; Os Arquétipos e o inconsciente coletivo. 12.ed. Petrópolis: Vozes, 2021a.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">_____, Carl Gustav.&nbsp; O desenvolvimento da personalidade. 13.ed. Petrópolis: Vozes, 2021b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">NEUMANN, Erich. A Criança: Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início de sua Formação. 10.ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">THOMAS, Liji. (2024). Study finds pressure to be “perfect” leads to unhealthy impacts on both parents and their children. In: News Medical Life Sciences. Disponível em. <a href="https://www.news-medical.net/news/20240510/Study-finds-pressure-to-be-e2809cperfecte2809d-leads-to-unhealthy-impacts-on-both-parents-and-their-children.aspx">https://www.news-medical.net/news/20240510/Study-finds-pressure-to-be-e2809cperfecte2809d-leads-to-unhealthy-impacts-on-both-parents-and-their-children.aspx</a> &nbsp;&nbsp;Acesso em 20 de outubro de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">WOODMAN, Marion. O Vício da Perfeição: Compreendendo a relação entre distúrbios alimentares e desenvolvimentos psíquicos. São Paulo: Summus. 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">TikTok no Brasil: estatísticas e dicas (2024). Disponível em <a href="https://www.shopify.com/br/blog/tiktok-brasil">https://www.shopify.com/br/blog/tiktok-brasil</a>&nbsp; . Acesso em 20 de outubro de 2024.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:15px">SOUZA, Ana Luiza de Figueiredo. Ser mãe é f@oda: mulheres, (não maternidade) e mídias sociais. Porto Alegre: Zouk. 2022.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep">Canais IJEP:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Aproveite para nos acompanhar no YouTube:&nbsp;<a href="https://www.youtube.com/channel/UCrbwUrT0W4Tp-swBxAVwX5Q">Canal IJEP – Bem vindos(as)! (youtube.com)</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">Acesse nosso site e conheça nossos Cursos e&nbsp;<strong>Pós-Graduações</strong>&nbsp;com&nbsp;<strong>Matrículas Abertas</strong>:&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">IJEP | Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</a>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicossomática</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Psicologia Analítica</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>*Arteterapia e Expressões Criativas</em></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Promoção especial para o próximo semestre&nbsp;</strong>(março/abril 2025):</p>



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			</item>
		<item>
		<title>A interação entre terapeuta, escola e família na clínica de crianças e adolescentes</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-interacao-entre-terapeuta-escola-e-familia-na-clinica-de-criancas-e-adolescentes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jul 2024 12:35:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=9229</guid>

					<description><![CDATA[<p>O presente artigo tem por objetivo discorrer sobre a importância da integração família, escola e terapeuta na psicoterapia com crianças e adolescentes, afinal é através dos pais que as crianças adentram aos consultórios. Almeja-se discutir a presença e escuta ativa desta família, assim como a interação e observações relatadas por educadores que, às vezes, passam a maioria do tempo com essa criança. E por fim, o analista, que absorve todas as informações trazidas pelo meio, interagindo com a crianças e elaborando suas ações para desvelar os complexos familiares que assombram esse sistema e sustentar o processo analítico. Através de experiências empíricas, integrando esse tripé: família, escola e analista, busca-se aspectos relevantes conscientes ou inconscientes, que possam promover o desenvolvimento psicosocioemocional dessa criança. Promovendo um ambiente favorável e facilitador para que esse indivíduo renasça numa outra perspectiva que, apesar das sombras familiares estarem presentes, possam trilhar seu caminho aliviando suas amarras.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">É através dos pais que as crianças e/ou adolescentes chegam ao consultório, afinal a família busca ajuda e orientação por acreditarem que esse profissional poderá orientá-los e assim, melhorar a adequação da criança ao meio onde vive. Algumas vezes, os próprios pais não percebem as dificuldades do filho, transferindo esse papel para a escola.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong>A participação da família no processo terapêutico da criança é primordial</strong>, afinal é um processo que não envolve apenas aspectos individuais da criança, mas também toda a história pregressa da família. Nesse momento saliento a importância de uma anamnese bem detalhada e escuta aguçada do terapeuta, afinal a anamnese ajuda a enxergar além do que está na superfície, explorando pensamentos, sentimentos, e padrões que podem estar submersos ou velados, aquelas informações que realmente nos ajudem a identificar a dinâmica psíquica.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Jung não aprofundou os seus estudos na infância, mas suas observações foram de grande valia para os pós junguianos. Ele observou que o ego surge do inconsciente, aliás do inconsciente materno, sendo a relação mãe-bebê imprescindível para permear todas as outras relações no decorrer de sua vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ele nos traz o termo criado por <strong>Lévi Bruhl</strong>, “<em><strong>participation mystique</strong></em>” (participação mística) e relaciona este termo de identidade que acontece com pais e filhos, com a psicologia dos povos primitivos onde o rebaixamento da consciência permite que o indivíduo seja contagiado pelas emoções do ambiente onde se encontra, não há diferenciação clara entre sujeito e objeto (JUNG, 2013, p.50). No início do processo de desenvolvimento, a criança se confunde com a mãe, não conseguindo se perceber com um ser único e diferente desta.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-crianca-nasce-inconsciente-ou-seja-mergulhada-no-inconsciente-da-mae-e-com-o-passar-do-tempo-e-que-desenvolve-o-consciente-neumann-1995-p-17" style="font-size:18px">A criança nasce inconsciente, ou seja, mergulhada no inconsciente da mãe e, com o passar do tempo é que desenvolve o consciente (Neumann, 1995, p.17).</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Podemos dizer que a consciência da criança e suas reações egóicas, estão diretamente conectadas com sua experiência corporal. A criança aprende a ter uma relação de Eros com o seu próprio corpo através das experiências vividas com sua mãe (Ibid., 1995, p.18).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A vivência dessa relação de forma positiva, permite uma diferenciação progressiva entre a criança e o mundo, formando-se assim, sua própria identidade. Estas observações são imprescindíveis para a nossa discussão, já que a identidade da criança é constituída a partir das vivências e dos olhos da mãe. É de suma importância a presença da família durante o processo terapêutico para a evolução da própria criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Da mesma forma que a criança sente prazer nas coisas que sua mãe lhe proporciona, o oposto também é verdadeiro: uma sensação de incômodo e desprazer podem provocar sérios problemas ao longo de sua vida. A criança pequena é como um homem primitivo, uma pedra bruta que precisa ser lapidada. Não existe diferenciação entre sujeito e objeto, ego e self, indivíduo e mundo, essa diferenciação inicia-se por volta, mais ou menos, dos 3 anos de idade.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Durante o processo de desenvolvimento da criança ocorre um redirecionamento da energia psíquica através da diferenciação das partes e o todo, proporcionando à criança um distanciamento da mãe, uma percepção do seu próprio eu.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Nesta fase, as crianças começam a perceber a necessidade de experenciar e aprender a lidar com os conflitos, planejar e realizar as suas próprias atividades diárias, ir à busca de atingir metas e objetivos. Adquirem habilidades sociais e que são ou não, valorizadas pela família ou pelos seus pares. A importância da validação e voz de incentivo dos pais é de grande valia, ao mesmo tempo que eles estabelecem limites, transmitem afeto e segurança.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung" style="font-size:19px">Para Jung:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>(&#8230;) sempre que uma criança pequena manifesta os sintomas de neurose, não se deveria perder muito tempo na pesquisa de seu inconsciente. A pesquisa deveria ser iniciada em outro lugar, a saber, na própria mãe, pois de acordo com a regra geral os pais são quase sempre os autores diretos da neurose da criança, ou pelo menos fatores importantes.</p><cite>2013, p. 75</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Na clínica de crianças e adolescentes sob a perspectiva da psicologia analítica, a interação entre terapeuta, escola e família desempenha um papel muito importante no processo de individuação e no enfrentamento dos desafios emocionais.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">No <em>setting</em> terapêutico, o terapeuta atua como um detetive, um investigador. Seguindo pistas e buscando compreender os complexos simbólicos manifestados pelas crianças e adolescentes, no contexto familiar e no âmbito escolar. Estas pistas o levarão às possibilidades de desvelar mistérios que envolvem a criança dentro daquela família.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A família, como primeira instituição da criança, representa o núcleo primordial de influência, onde são transmitidos valores, crenças e traumas que impactam diretamente no desenvolvimento psicológico dos jovens, o chamado inconsciente familiar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A escola é um ambiente onde muitos desses conflitos se manifestam. Por isso, é fundamental para identificar padrões comportamentais e emocionais que podem estar relacionados a questões mais profundas da psique individual e coletiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Lembrando que a criança e/ou adolescente passa a maior parte do tempo na escola, as observações feitas pelos educadores são muito importantes para o processo terapêutico dessa criança. Os educadores são capazes de observar padrões de comportamento da criança em diferentes contextos e momentos do dia, fornecendo informações valiosas para complementar as informações dadas pela família. Dentro de uma instituição de ensino, o educador, estaria complementando a educação dos pais e conduzindo a criança para um mundo muito mais amplo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-crianca-projeta-sobre-ele-a-imagem-dos-pais-o-que-possibilita-um-espaco-onde-ela-possa-depositar-suas-duvidas-angustias-euforia-medos-insegurancas-etc" style="font-size:18px">A criança projeta sobre ele a imagem dos pais, o que possibilita um espaço onde ela possa depositar suas dúvidas, angústias, euforia, medos, inseguranças, etc.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse suporte que o educador oferece, promove a transição do estágio de dependência dos pais para a autonomia perante o mundo externo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">A integração entre terapeuta e escola exerce um papel fundamental na psicoterapia de crianças, pois permite uma abordagem mais abrangente e eficaz para lidar com os desafios emocionais e comportamentais dos pequenos. Ou seja, essa interação considera a criança de forma integral, na sua completude, atendendo inclusive ao preconizado pela teoria analítica de Jung.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por sua vez, o terapeuta pode compartilhar estratégias, adaptações e orientações com a equipe escolar, contribuindo para um ambiente mais acolhedor e favorável ao desenvolvimento emocional das crianças. Além de promover a mediação entre escola e família, favorecer a compreensão da dinâmica familiar e desvelar os sintomas apresentados pela criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao compreender melhor o ambiente escolar em que a criança está inserida, o terapeuta também pode adaptar suas estratégias terapêuticas de maneira mais adequada, considerando os desafios específicos que a criança enfrenta em seu dia a dia. Possibilitando assim, intervenções mais rápidas e assertivas junto à criança e sua família.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-alem-disso-a-integracao-entre-terapeuta-e-escola-promovem-uma-abordagem-colaborativa-e-multidisciplinar-no-suporte-as-criancas" style="font-size:18px">Além disso, a integração entre terapeuta e escola promovem uma abordagem colaborativa e multidisciplinar no suporte às crianças.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Profissionais de diferentes áreas e a família podem unir esforços para criar um plano de intervenção integrado, que levem em consideração as necessidades específicas de cada criança. Essa colaboração pode envolver não apenas o terapeuta e os educadores, mas também outros profissionais, como psicopedagogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos escolares e orientadores educacionais, formando uma equipe multidisciplinar dedicada em prol do bem-estar da criança.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao reconhecer a importância da saúde emocional das crianças e investir em parcerias com profissionais afins, as escolas podem criar um ambiente mais inclusivo e acolhedor, onde as crianças se sintam seguras para expressar suas emoções e buscar ajuda quando necessário.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dessa-forma-a-integracao-entre-terapeuta-e-escola-se-torna-uma-peca-chave-na-promocao-do-desenvolvimento-saudavel-e-da-resiliencia-emocional-nbsp-das-nbsp-criancas" style="font-size:18px">Dessa forma, a integração entre terapeuta e escola se torna uma peça-chave na promoção do desenvolvimento saudável e da resiliência emocional&nbsp;das&nbsp;crianças.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Por fim, a integração entre terapeuta e escola não apenas beneficia a criança em terapia, mas também contribui para promover uma cultura de saúde mental e bem-estar dentro do ambiente escolar como um todo. &nbsp;Podemos pensar também que esta integração favorece o desenvolvimento da personalidade, bem como o processo de construção do ego que ocorre nesta fase, que como diz Jung, vai até em torno de 21 anos.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Ao integrar esses três pilares, ou seja, ao formarmos esse tripé &#8211; terapeuta, família, escola &#8211; na Clínica Junguiana de crianças e adolescentes podemos promover um ambiente terapêutico saudável, onde todos os aspectos são considerados e olhados: físico, mental, emocional e espiritual, facilitando assim, o processo de autoconhecimento e crescimento pessoal.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Esse processo faz parte de um jogo e é neste jogo que o terapeuta deve entrar, entre o consciente e inconsciente, entre o real e o imaginário, entre o típico e o atípico, entre o conhecer e reconhecer as emoções, para flexibilizar e tornar possível o diálogo com si mesmo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Não há concepções totalmente fechadas, inflexíveis e inquestionáveis, devemos jogar o jogo do eu, do saber e não saber, do construir e desconstruir, para que possamos promover o diálogo entre a escola e a família, tecer uma rede de interrelações e apoio para as famílias se expressarem e participarem do processo evolutivo das crianças e adolescentes que se deslocam da dependência para a independência.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: A interação entre terapeuta, escola e família na clínica de crianças e adolescentes" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/nWAIgII-Hkg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/elaine-cristina-bedin/">Elaine Bedin &#8211; Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav<em>. A natureza da psique.</em>&nbsp; 10. ed. Petrópolis:Vozes, 1984.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav. <em>O Eu e o Inconsciente</em>.10. ed. Petrópolis: Vozes, 1987.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, C.G. <em>Psicologia do Inconsciente</em>. Petrópolis: Vozes, 2007b.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl<em>. Estudos Experimentais</em>. 3 ed. Petrópolis: Vozes, 2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl Gustav. <em>Tipos Psicológicos</em>. 7. ed. Petrópolis: Vozes,2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, C. G. <em>O desenvolvimento da Personalidade</em>.14 ed. Petrópolis: Vozes,2013.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, C.G. <em>A energia psíquica</em><strong>.</strong> 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, C.G. <em>Os arquétipos e o inconsciente coletivo</em><strong>.</strong> 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, C.G.<em>O homem e seus símbolos<strong>.</strong></em>Harper Collins: Brasil, 2016.<a></a></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, C.G. <em>Memórias, sonhos, reflexões</em>. Tradução Dora Ferreira da Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,2012.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">NEUMANN, Erich<em>. A Criança – </em>Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento desde o Início da sua formação.10. ed. São Paulo: Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">WINNICCOTT, D. W. <em>O Brincar e a Realidade</em>, Rio de Janeiro: Imago Editora, 1975.</p>
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		<title>Pais e Mães entristecidos, filhos adoecidos: A dinâmica oculta na relação entre adultos e crianças</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/pais-e-maes-entristecidos-filhos-adoecidos-a-dinamica-oculta-na-relacao-entre-adultos-e-criancas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Clarisse Grand Court]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 Apr 2023 22:22:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7470</guid>

					<description><![CDATA[<p>Segundo Laura Gutman, as crianças são ‘seres fusionais’, ou seja, que, para serem, precisam entrar em fusão emocional com os outros. Portanto, querendo ou não, reconhecendo ou não, pais e mães mantém uma relação intrínseca, corporal e emocional, com os seus filhos. Desconhecer a relação fusional da figura paterna e materna com a criança, afeta a dinâmica das famílias contemporâneas que não conseguem compreender as necessidades, angústias e carências físicas, emocionais e<br />
espirituais de seus filhos. Neste artigo, convido o leitor a refletir sobre essa relação psíquica oculta e como pais e mães entristecidos e inconscientes sobre seus aspectos<br />
ocultos impactam no desenvolvimento de seus filhos. </p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">“As crianças são <strong>‘seres fusionais’</strong>, ou seja, que, para serem, precisam entrar em fusão emocional com os outros. Esse ser com o outro é um caminho relativamente longo de construção psíquica em direção ao ‘eu sou’”. (GUTMAN, 2021, p. 24. Grifos da autora). Portanto, querendo ou não, reconhecendo ou não, pais e mães mantém uma relação intrínseca, corporal e emocional, com os seus filhos. Segundo Jung expõe, se a criança está de tal modo ligada à atitude psíquica dos pais, o que importa não são palavras boas e sábias, mas sim como eles agem e a vida real desses pais. (Cf. JUNG, 2021ª, p. 48-49).&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Podemos pensar então que, o desconhecimento sobre a <strong>relação fusional</strong> da figura paterna e materna com a criança e sobre a <strong>ligação psíquica familiar</strong>, afeta a dinâmica das famílias contemporâneas. Seja na clínica ou nas relações pessoais, encontramos cada vez mais mães e pais que não conseguem compreender as necessidades, angústias e carências físicas, emocionais e espirituais de seus filhos e, mesmo aqueles que dizem viver num ambiente sem brigas e com afeto, relatam as mesmas questões e desafios.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo a autora Gutman, todas as crianças se relacionam fusionalmente e esse processo acontece de forma lenta e gradual. Na fase recém-nascida até cerca de 2 anos, o bebê está fundido com a emoção da mãe ou figura materna, vivendo a relação que chamamos de bebê-mãe. E, à medida que cresce, esse laço vai sendo ampliado para o pai ou figura paterna até chegar nas outras pessoas que fazem parte dessa relação de cuidado, proteção e confiança. &nbsp;“A passagem da fusão à separação requer do ser humano longos 13 ou 14 anos, conforme cada indivíduo” (GUTMAN, 2021, p. 25).</p>



<p class="wp-block-paragraph">“A criança tem uma psicologia singular. Assim como seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que propriamente doença genuína da criança. Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais” (JUNG, 2021, p. 84).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tais esclarecimentos se fazem necessários para que possamos compreender como aspectos ocultos e/ou inconscientes dos pais afetam os filhos. E quando transferimos essa dinâmica psicológica para a nossa sociedade contemporânea onde, de acordo com dados da Organização Nacional de Saúde (OMS), somente no Brasil, cerca de 18,6 milhões de pessoas sofrem de <strong>transtorno de ansiedade</strong> e, segundo a revista Nursing, mais de 50% dos brasileiros afirmam que a sua <strong>saúde mental</strong> piorou nos últimos anos, abrir essa caixa de pandora do inconsciente materno e paterno se torna mais do que urgente. &nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uma sociedade doente é capaz de criar crianças felizes?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa é uma pergunta bastante dura para quem, assim como eu, tem filhos. Mas justamente pelo incômodo e até certo pavor que ela causa que é preciso colocá-la na pauta das famílias, das escolas, das empresas e de toda a sociedade. Queremos ter crianças educadas, inteligentes, corajosas, gentis, saudáveis&#8230;, mas será que estamos aptos para favorecer esse desenvolvimento de forma equilibrada e positiva emocionalmente?!</p>



<p class="wp-block-paragraph">A chegada de toda criança traz para seus pais a abertura de um grande portal. Um portal que os leva para um lugar desconhecido, ambíguo e cheio de antinomias. Porém, aqueles que arriscam atravessá-lo, têm a possibilidade de entrar num novo mundo. O mundo do autoconhecimento e, assim, possibilitar as crianças que se liberem das neuroses que rondam o inconsciente de seus cuidadores.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entender que as crianças são seres fusionais é o caminho para entender a importância do “para que” a criança chora e adoece. Qual o propósito desses sintomas para essa família que sofre junta.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste sentido, podemos compreender que, enquanto a criança é uma oportunidade no caminho do <strong>autoconhecimento</strong> mais profundo, é também um processo desafiador, que gera muitas angústias, medos e confrontos com as mais profundas convicções. Na verdade, estamos falando sobre o contato direto com a sombra desses pais e mães, ou seja, daqueles aspectos ocultos presentes no inconsciente pessoal e que por uma necessidade adaptativa fomos adormecendo/esquecendo ou não valorizando ao longo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“[&#8230;] sombra, aquela personalidade oculta, recalcada, frequentemente inferior e carregadas de culpas, cujas ramificações se estendem até o reino de nossos ancestrais.&nbsp;&nbsp; A sombra não é constituída apenas de tendências moralmente repreensíveis, mas apresenta um certo número de boas qualidades: instintos normais, reações adequadas, impulsos criadores, e outros”. (JUNG, 2020, p. 312-13).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Entrar em contato com a sombra é ampliar a consciência sobre si mesmo e, querendo ou não, somos compostos de aspectos positivos e negativos, bons e maus, bonitos e feios e todas as dualidades que cabem em qualquer ser humano. Não à toa, todo processo de autoconhecimento gera crise. Porém, podemos olhar para uma experiência de crise como algo extremamente ruim ou uma possibilidade evolutiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando insistimos em negar a nossa <strong>sombra</strong>, e não seguir no caminho da ampliação da consciência, tais aspectos reaparecem no plano físico. E como diz Gutman (2021, p. 163), “essa materialização inconsciente dos aspectos ocultos de nossa alma se intitula sintoma”. Dentro do ambiente familiar, o <strong>adoecimento da criança</strong>, seja ele físico ou emocional, está diretamente ligado a essa relação fusional e inconsciente da dinâmica psíquica entre pai, mãe e filhos. Por isso, o processo de “cura” do mal-estar dos bebês e das crianças perpassa pela prontidão de seus pais em reconhecer, cuidar e ressignificar a sua parte oculta nessa história.</p>



<p class="wp-block-paragraph">“Assim como os adultos precisam da doença para materializar e compreender com maior exatidão seus desequilíbrios, <strong>os bebês e as crianças pequenas também funcionam como espelho da desarmonia dos adultos com os quais estão em fusão</strong>” (GUTMAN, 2021, p. 168-69. Grifos da autora).</p>



<p class="wp-block-paragraph">              Portanto, cuidar das nossas crianças inclui se preocupar com bem-estar delas, suprindo suas necessidades básicas. Mas para além disso, perguntar-se verdadeiramente o que está em desequilíbrio na família e o que não está sendo dito, encarado e reconhecido. O sintoma pode ser a possibilidade de nos questionarmos sobre os nossos aspectos inconscientes e buscar colocar luz na nossa escuridão.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante disso, como responder à questão: <strong>uma sociedade doente é capaz de criar crianças felizes?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </strong>Talvez não exista uma resposta clara e simples para essa questão. E, de fato, a proposta deste artigo não é trazer uma resposta, mas sim propor uma reflexão sobre o quanto nós, mães e pais, atravessamos o <strong>desenvolvimento psíquico</strong> dos nossos filhos quando estamos inconscientes sobre nós mesmos. Minha singela intenção ao escrever estas linhas não é sentenciar, mas sim, quem sabe, despertar dentro de cada pai e mãe a fagulha para o processo de autoconhecimento. Por mais angustiante e perturbador que possa ser reconhecer o desconhecido em si, somente quando nos tornamos conscientes sobre quem de fato somos é que temos a possibilidade de transformar. Portanto, ao invés de dar uma resposta, gostaria de propor um novo questionamento: <strong>vamos criar filhos felizes ou filhos com coragem para viver?!</strong> &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Clarisse Grand Court – Analista Junguiana em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Maria Cristina Mariante Guarnieri – Analista didata.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">ANDRADE, Jéssica. Mommy Burnout: conheça a síndrome do esgotamento mental materno. Correio Brasiliense. 2022. <a href="https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2022/04/4999262-mommy-burnout-conheca-a-sindrome-do-esgotamento-mental-materno.html">https://www.correiobraziliense.com.br/ciencia-e-saude/2022/04/4999262-mommy-burnout-conheca-a-sindrome-do-esgotamento-mental-materno.html</a>. Acesso em: 18 agosto de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Revista Nursing. Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a OMS. <a href="http://www.revistanursing.com.br/brasil-e-o-pais-mais-ansioso-do-mundo-segundo-oms/#:~:text=Dados%20da%20Organiza%C3%A7%C3%A3o%20Mundial%20de,no%20topo%20do%20ranking%20mundial">http://www.revistanursing.com.br/brasil-e-o-pais-mais-ansioso-do-mundo-segundo-oms/#:~:text=Dados%20da%20Organiza%C3%A7%C3%A3o%20Mundial%20de,no%20topo%20do%20ranking%20mundial</a>. Acesso em: 22 novembro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Site PEBMED. Saúde mental de 53% dos brasileiros piorou entre 2020 e 2021, aponta estud.o <a href="https://pebmed.com.br/saude-mental-de-53-dos-brasileiros-piorou-entre-2020-e-2021-aponta-estudo/#:~:text=Mais%20de%2050%25%20dos%20brasileiros%20afirmaram%20que%20sua%20sa%C3%BAde%20emocional,74%20anos%2C%20de%20forma%20online">https://pebmed.com.br/saude-mental-de-53-dos-brasileiros-piorou-entre-2020-e-2021-aponta-estudo/#:~:text=Mais%20de%2050%25%20dos%20brasileiros%20afirmaram%20que%20sua%20sa%C3%BAde%20emocional,74%20anos%2C%20de%20forma%20online</a>. Acesso em: 22 novembro de 2022.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUTMAN, Laura <em>A maternidade e encontro com a própria sombra</em>. 21.ed. Rio de Janeiro: BestSeller, 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">GUTMAN, Laura <em>O poder do discurso materno</em>. 5.ed. São Paulo: Ágora, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp; Aion: ESTUDO SOBRE SIMBOLISMO DO SI-MESMO. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">______.&nbsp; O desenvolvimento da personalidade. 14.ed. Petrópolis: Vozes, 2021a.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Pais e Mães entristecidos, filhos adoecidos: A dinâmica oculta narelação entre adultos e crianças" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/h2DxWeLzj60?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>
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			</item>
		<item>
		<title>A Criança invisível – Santa Dulce e os Coringas contemporâneos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-crianca-invisivel-santa-dulce-e-os-coringas-contemporaneos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Jul 2022 10:17:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Sociabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[coringa]]></category>
		<category><![CDATA[criança abandonada]]></category>
		<category><![CDATA[Elton John]]></category>
		<category><![CDATA[INVISIBILIDADE]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[SANTA DULCE]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=5143</guid>

					<description><![CDATA[<p>Hoje, 13 de outubro/2019, é um dia especial! Devido a comemoração festiva do Círio de Nossa Senhora de Nazaré e da canonização da Santa Dulce dos Pobres, logo após o dia da Padroeira do Brasil e dia das crianças. Neste contexto, acabei de assistir os filmes Coringa e, tardiamente, Rocketman, biografia do cantor Elton John. A soma desses afetos que vivenciei desencadeou fortes emoções e reflexões, que tomo a liberdade de compartilhar para quem se interessar.<br />
A palavra que mais me atravessou foi: INVISIBILIDADE.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/a-crianca-invisivel-santa-dulce-e-os-coringas-contemporaneos/">A Criança invisível – Santa Dulce e os Coringas contemporâneos</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Hoje, 13 de outubro/2019, é um dia especial! Devido a comemoração festiva&nbsp;do&nbsp;Círio de Nossa Senhora de Nazaré e da canonização da Santa Dulce dos Pobres, logo após o dia da Padroeira do Brasil e dia das crianças. Neste contexto, acabei de assistir os filmes Coringa e, tardiamente, Rocketman, biografia do cantor Elton John. A soma desses afetos que vivenciei desencadeou fortes emoções e reflexões, que tomo a liberdade de compartilhar para quem se interessar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A palavra que mais me atravessou foi: <strong>INVISIBILIDADE</strong>. Há muitos anos escrevo textos e comento nas aulas que esse é o drama do homem contemporâneo, com sua miserabilidade egoísta, devido ao contínuo estado de alarme, ou por já estar excluído ou pelo medo da exclusão social e do abandono, sem perceber que o abandono e a exclusão começam em nosso íntimo, ao deixarmos de ver nossa criança interior e, consequentemente, nossa alma, porque nos desconectamos dos aspectos saudáveis do complexo materno, onde o cuidado, o acolhimento, a atenção, a nutrição – física e espiritual – e amor são praticados e aprendidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Do ponto de vista da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, a conexão com a criança interior é que irá possibilitar o surgimento da potencialidade do velho sábio, permitindo que toda potencialidade criativa e ética estejam associadas, possibilitando o estado de alegria do viver, mesmo quando surgem obstáculos. Bem diferente do que nossa atual sociedade capitalista estimula, que é a identificação com o <em>Puer Aeternos</em>, o <em>Peter Pan</em>, da terra do nunca, lugar em que o cantor Michael Jackson, uma outra criança abandonada, se refugiou para tentar lidar, literal e patologicamente, com suas criança ferida, reproduzindo mais feridas nas crianças que ele recebia. A&nbsp;relação com a criança interna não tem nada a ver com a identificação com ela. Essa relação exige distanciamento emocional, para compreendermos que tudo que fizeram ou deixaram de fazer faz parte do nosso caminho evolutivo, e o que mais importa é o que faremos com isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;Em todo adulto espreita uma criança &#8211; uma criança eterna, algo que está sempre vindo a ser, que nunca está completo e que solicita cuidado, atenção e educação incessantes. Essa é a parte da personalidade humana que quer desenvolver-se e tornar-se completa&#8221; (Jung, O Desenvolvimento da Personalidade, p. 175)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A criança saudável é séria com sua diversão. Lembrando que diversão tem a ver com diversidade e a patologia da criança é que leva para a adversidade, o caminho da divisão diabólica, ao invés da integração simbólica. Desta forma, divertir equivale a integrar o diverso, com entrega, compromisso e ritmo. Bem diferente do que acontece com o <em>Puer</em>, onde as relações são efêmeras, líquidas e vazias, apesar de espetaculares. Na dimensão opositiva do<em> Puer </em>está o <em>Senix</em>, o velho ranzinza e sectário, que não tem paciência para nada. Esse é o futuro que nos espera, caso continuemos nesta dinâmica, um amontoado de velhos excluídos e doentes, por deixarem de consumir&nbsp;o supérfluo, passam a consumir os serviços de saúde, aguardando o chamado da morte sem nunca terem vivido. Isso me fez lembrar do livro: A morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstói.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando deixamos de lado os aspectos saudáveis do arquétipo da criança, a&nbsp;meu ver, também estamos com dificuldades em lidar com os benefícios positivos do complexo materno. Essa situação reflete na falta de cuidado, na exacerbação do medo e na busca desenfreada e iludida de poder. Mas, o que mais impacta negativamente é o distanciamento do processo de individuação, caminho teleológico para a realização humana, em busca de sentido e significado existencial, por meio do servir, como Jung comenta a respeito deste arquétipo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;é uma personificação de forças vitais, que vão além do alcance limitado da nossa consciência, dos nossos caminhos e possibilidades, desconhecidos pela consciência e sua unilateralidade, e uma inteireza que abrange as profundidades da natureza. Ela representa o mais forte e inelutável impulso do ser, isto é, o impulso de realizar-se a si mesmo&#8221; (Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, página 171, p. 289).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em Rocketman, quando o cantor Elton Hércules John, com muita visibilidade, apesar de muito doente, numa clínica para dependências, abusos e compulsões, consegue dar o abraço na sua criança interior, Reginald Kenneth Dwight, sempre invisível, tudo se transformou, não muito diferente da trajetória de Fred Mercury, que somente após cair no fundo do poço, adquirir autoconhecimento e amor-próprio, que conseguiu superar os vícios patológicos, apesar que, neste caso, a AIDS não permitiu longevidade. Bem diferente do que aconteceu com Arthur Fleck , com seu complexo materno negativo e total invisibilidade social, após tantos abusos, inclusive do Estado que deixou de tratar e medicar seus transtornos&nbsp; psíquicos, ultrapassou o limite, na forma do personagem Coringa, que passou a existir, ou seja, ter visibilidade, apesar de patológica, como estava acontecendo com Elton John.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste contexto que as comemorações e festividades para as variações da imagem arquetípica da Grande Mãe se justificam. Graças a essa conexão que conseguimos, mesmo que de forma inconsciente, recordar nossa criança interior. O problema é que, com tantos estímulos artificiais, efêmeros e descartáveis, rapidamente voltamos para nossa dimensão egoísta, invisíveis e cegos para não vermos os sofrimentos alheios, assim também fugimos dos nossos, investindo e desperdiçando toda a vida apenas para as questões materiais da sobrevivência, da competição, do acúmulo, do prazer efêmero. Infelizmente, cada vez mais, sem amor e compaixão, como foi o legado da vida da agora Santa Dulce dos Pobres, que lutou para dar cuidado, inclusão e visibilidade para as crianças mal-amadas, sofridas e abandonadas, nossos coringas contemporâneos, nosso futuro será nefasto!</p>



<p class="wp-block-paragraph">13 de outubro de 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph">Paz e Bem, graças ao reconhecimento e aceitação consciente da Guerra e do Mal que habitam em nós!</p>



<p class="wp-block-paragraph">WALDEMAR MAGALDI FILHO. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP &#8211; Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa, oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&gt;&gt;&gt; @ijep_jung &lt;&lt;&lt;</p>
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		<title>Contágio psíquico e a atmosfera familiar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/contagio-psiquico-e-a-atmosfera-familiar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jul 2022 10:45:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[contágio psíquico]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Pais e Filhos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo visamos estudar o fenômeno do Contágio Psíquico no ambiente familiar a fim de reconhecer e refletir sobre sua atuação e sobre sua gênese ontológica, muitas vezes falseada pelo racionalismo e pela ilusão da inteira diferenciação entre os integrantes da família. Recorremos, para tanto, a C. G. Jung para reconhecer e aprofundar sobre a psique familiar e participação mística; e também a Erich Neumann para entender a presenta do fenômeno do Contágio Psíquico no desenvolvimento da consciência humana.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Nas Obras Completas, quando C. G. Jung (2018) discorre sobre o grupo familiar, tende a utilizar o termo&nbsp;“atmosfera familiar”, o que, de fato, é muito interessante para ampliarmos o fenômeno do contágio psíquico. Uma atmosfera (do grego antigo:&nbsp;ἀτμός, vapor, ar, e&nbsp;σφαῖρα, esfera)&nbsp;é&nbsp;uma camada de gases que envolve (geralmente) corpos materiais.&nbsp;Em uma família, podemos aproximar, homologicamente, esse termo &#8220;corpos materiais&#8221; dos egos que a compõe, tendo aí uma diferenciação entre um e outro. Contudo, tudo isso é relativamente uma ilusão. Em qualquer ambiência micro ou macro-cósmica, um corpo sempre retroagirá sobre o outro. Ou seja, a ideia de diferenciação do eu (ego) e do outro é parcialmente satisfatória. Devemos, de antemão, considerar a ideia dos “gases”, que são indiferenciados. Essa indiferenciação é demasiadamente profunda. A partir da&nbsp;física quântica, perceberemos que nada&nbsp;é&nbsp;matéria, mas energia se relacionando, e sabemos que energia é informação transitando no tempo e no espaço. Já,&nbsp;no cotidiano humano, se levarmos em consideração a hereditariedade biológica ou até mesmo o quanto ficamos semelhantes fisionomicamente com os nossos pais com o passar dos anos perceberemos que não somos tão diferenciados assim,&nbsp;literal e simbolicamente. Para C. G. Jung, podemos denominar essa ambiência de inconsciente familiar e até coletivo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para aprofundarmos a ideia de gases, talvez seja interessante ter em mente a problemática de Hillman: eu não sei se a psique está em mim ou se eu estou na psique. Se considerarmos uma psique familiar, ou seja, uma consciência da família com seus valores, leis, hierarquias, hábitos etc; e o inconsciente familiar que ultrapassa o pessoal e garante uma influência geracional, poderemos vislumbrar que há algo de indiferenciado e, portanto, de livre acesso de conteúdos inconsciente na psique familiar. Isso fica mais claro nos dias atuais pois já existem pesquisas sobre psicopatologia e família que demonstram a sugestionabilidade dos familiares de desenvolverem a patologia presente em pelo menos um único indivíduo, como a depressão, o pânico, a ansiedade, etc. Curiosamente, parece que a atmosfera familiar também acontece interespécies e não se restringe à psicopatologias. Estive em diversos diálogos com médicos veterinários e muitos relatam que, frequentemente, atendem animais em que o tutor possui a mesma patologia, como metástases.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Evidentemente, existem estudos que levantam a hipótese de que há unicamente hereditariedade genética nas psicopatologias. Em nossa opinião, é necessário relativizar essa hipótese, visto que ela cai em um determinismo, e todo determinismo é uma grande unilateralidade racionalista. O próprio C. Jung já discorreu sobre: &#8220;muita coisa que&nbsp;é&nbsp;interpretada como hereditariedade em sentido estrito&nbsp;é&nbsp;antes uma espécie de contágio psíquico que consiste em uma adaptação da psique infantil ao inconsciente dos pais.” (JUNG, 2017, § 248)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para adentrarmos a ideia de contágio psíquico no ambiente familiar, vale recorrermos a Erich Neumann (1995) (2014) quando descreve-nos os estágios de desenvolvimento da consciência. O primeiro estágio inicia-se desde a concepção e se encerra no primeiro ano de vida. Até então, o neonato, segundo o autor, não possui autonomia corporal. Se o compararmos com outros mamíferos nos primeiros momentos de vida até completarem 12 meses perceberemos que o ser humano nasce prematuro.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann (1995) aponta que ao longo do desenvolvimento da consciência os estágios são dominâncias e permanências de imagens arquetípicas cuja superação de cada estágio pelo indivíduo cria uma relativa diferenciação para assim surgir o ego solar. Isso significa que toda vivência humana interior ou exterior é mediada pelas imagens, sendo a primeira mais direta (do inconsciente para o ego) e a segunda mais indireta (a concepção do mundo feita pelo ego para ele mesmo). É importante frisar isso pois Neumann propõe entendermos os estágios como imagens. Do período intrauterino ao primeiro ano de vida, a imagem que o autor sugere é a&nbsp;<em>uroboros</em>&nbsp;– a cobra que morde a própria calda, portanto, não possuindo fim ou começo, seria uma simbiose, em um primeiro momento com o todo experiencial; e depois, em um segundo momento, com a mãe. Mais especificamente, para o autor, seria o Self migrando ou criando um atrator, primeiro para o&nbsp;<em>uno</em>&nbsp;urobórico e depois para a Grande Mãe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann (1995) aponta que o desenvolvimento da consciência é homologicamente semelhante tanto filo quanto ontogenicamente, portanto, estes estágios primeiros são matriarcais. E, quando a consciência segue o seu desenvolvimento, prosseguindo para o estágio patriarcal até o ego solar, os estágios antecessores ainda permanecem na psique, não sendo um processo unilateral, mas um processo que se estabelece em camadas. Isto é importante conceber para chegarmos ao fenômeno da participação mística que C. G. Jung atualizou de Levy Brühl. Este epifenômeno, ou seja, esse abandono do ego e retorno ao estado urobórico fica evidente quando Jung afirma que, ”via de regra, quando o inconsciente coletivo se torna verdadeiramente constelado em grandes grupos sociais, a consequência será&nbsp;uma quebra pública, uma epidemia mental que pode conduzir a revoluções, guerra, ou coisa semelhante. Tais movimentos são tremendamente contagiosos, eu diria inexoravelmente contagiosos, pois, quando o inconsciente coletivo&nbsp;é&nbsp;ativado, ninguém mais&nbsp;é&nbsp;a mesma pessoa.”–&nbsp;(JUNG, 2019, p. 61-62).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Isso se dá, porque a consciência provém do inconsciente. O que nos permite depreender que a relativa diferenciação só é possível se houver,&nbsp;<em>a priori,</em>&nbsp;indiferenciação. Mesmo que fosse possível construir muros egóicos para diferenciar-se de um terreno ilimitado, não escaparíamos da atmosfera invasora e necessária para estarmos vivos e respirando. É por meio deste terreno e dessa atmosfera indiferenciados que a primeira comunicação humana atua e nunca deixará de atuar na vida do indivíduo: o contágio psíquico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O contágio psíquico possui pouca relação entre egos, senão cairíamos em um fenômeno mecânico de imitação macaqueada. Ele ocorre sem freios devido à ilusão racionalista de que somos inteiramente diferenciados. Se desvelássemos este véu da diferenciação e considerássemos que somente em parte somos diferenciados, perceberíamos que o contágio se estabelece do inconsciente para a consciência. Isto é, a emergência do fenômeno do contágio não é causal: aquele ri pois o outro está rindo; ou chora pois o outro está chorando; ou boceja pois outro está bocejando. A relação do contágio é sincronística do&nbsp;<em>vocatus atque non vocatus devs aderi&nbsp;</em>(invocado ou não deus está presente), isto é, […] quando possuído, não&nbsp;é&nbsp;mais um indivíduo,&nbsp;ele passa a ser o próprio possuidor, ou seja, a força psíquica coletiva (a imagem) que o contágio leva e traz.&nbsp;Isso acontece, em maior ou menor grau, garantindo menos ou mais autonomia para o próprio&nbsp;ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso mesmo, no ambiente familiar,&nbsp;é supérfluo o esforço dos pais de esconder algo considerado negativo dos filhos, pois, aquilo que não é falado ou não é exposto é tão presente e impactante na psique individual quanto aquilo que é. A diferença é que um está na luz e o outro na sombra, garantindo mais elaboração consciente ao primeiro e menos elaboração ao segundo. Assim, no caso da criança, ela terá que lidar com o contágio psíquico de conteúdos coletivos e familiares sem o suporte paterno e materno, o que pode conferir uma experiência destrutiva para ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&#8220;A criança faz de tal modo parte da atmosfera psíquica dos pais que as dificuldades ocultas aí&nbsp;existentes e ainda não resolvidas podem influir consideravelmente na saúde dela. A participação mística (<em>participation mystique</em>), que consiste na identidade primitiva e inconsciente, faz com que a criança sinta os conflitos dos pais e sofra como se os problemas fossem dela própria. Não são jamais os conflitos patentes e as dificuldades visíveis que têm esse efeito envenenador, mas as dificuldades e problemas dos pais mantidos ocultos, ou mantidos inconscientes. O causador de tais perturbações neuróticas sem exceção alguma&nbsp;é&nbsp;sempre o inconsciente. Coisas que pairam no ar ou que a criança percebe de modo indefinido, a atmosfera abafada e cheia de temores e apreensões, tudo isso penetra lentamente na alma da criança, como se fossem vapores venenosos&#8221;.&nbsp;(JUNG, 2018, § 217)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leonardo Torres: Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Analista Ditada: Waldemar Magaldi</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E.&nbsp;<strong>A Crian</strong><strong>ça</strong>. São Paulo: Editora Cultrix, 1995.</p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMANN, E.&nbsp;<strong>Hist</strong><strong>ó</strong><strong>ria da Origem da Consci</strong><strong>ê</strong><strong>ncia.&nbsp;</strong>São Paulo: Editora Cultrix, 2014.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A Natureza da Psique</strong>. Petrópolis: Vozes, 2017.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>O Desenvolvimento da Personalidade</strong>. Petrópolis: Vozes, 2018.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G.&nbsp;<strong>A Vida Simb</strong><strong>ó</strong><strong>lica I</strong>. Petrópolis: Vozes, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">TORRES, L.&nbsp;<strong>Contágio Psíquico</strong>: a loucura das massas e suas reverberações na mídia. São Paulo: Eleva Cultural, 2021. ISBN 978-65-993921-0-8.</p>



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<iframe title="Contágio Psíquico e Atmosfera Familiar" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/pyE5sXxrb6A?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<h4 class="wp-block-heading" id="h-leonardo-torres-11-03-2022"><strong><em>Leonardo Torres &#8211; 11/03/2022</em></strong></h4>
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		<title>Considerações sobre o processo de psicodiagnóstico infantil na clínica junguiana</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/consideracoes-sobre-o-processo-de-psicodiagnostico-infantil-na-clinica-junguiana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gilmara Alves]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Jun 2022 14:50:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Diagnóstico Psicológico]]></category>
		<category><![CDATA[Psicopatologia]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[diagnóstico infantil]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia da criança]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” C. G. Jung, fundador da psicologia analítica. Ao receber uma criança no consultório, esta nos chega com uma queixa específica e narrada por seus pais ou cuidadores. Pode ser algum medo, questões de cunho comportamental, dificuldades de aprendizagem, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>“Tudo aquilo que quisermos mudar nas crianças, devemos primeiro examinar se não é algo que é melhor mudar em nós mesmos.” C. G. Jung, fundador da psicologia analítica. </p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Ao receber uma criança no consultório, esta nos chega com uma queixa específica e narrada por seus pais ou cuidadores. Pode ser algum medo, questões de cunho comportamental, dificuldades de aprendizagem, questões de relacionamento e interatividade social, entre outras. Os pais narram as dificuldades destes pequenos de acordo com o que veem e percebem em seus filhos. Às vezes são queixas pautadas nas narrativas escolares proveniente das observações de professores e coordenadores pedagógicos, como também, podem estar orientados por outros profissionais da área de saúde. Às vezes, os pais podem associar estas condições&nbsp;às suas próprias dificuldades e estilos pessoais, mas raramente passa disto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas, em nosso papel como analistas, como compreender se aquela queixa é de fato o que aflige a criança, ou se ela mascara ou disfarça algum tipo de questão mais profunda? O quanto este comportamento ou dificuldade apresentado pelos pequenos não são apenas sintomas de questões mais complexas e inacessíveis para seus pais? Diferente do cliente adulto, a criança, que está em processo de desenvolvimento de personalidade e de estrutura de ego, não tem um discurso analítico, racional e fluente para explicar aquilo que vive e que está sentindo. Por este motivo, é&nbsp;importante que se faça uma investigação cuidadosa e detalhada sobre a vida desta criança, para que se possa desenvolver um processo terapêutico que seja efetivo para o atendimento de suas reais questões. É aqui que entra o processo de psicodiagnóstico, que deve preceder ao processo terapêutico.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O processo de psicodiagnóstico tem, de acordo com KRUG, (2016), a seguinte definição:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Compreendemos que o psicodiagnóstico&nbsp;é um procedimento científico de investigação e intervenção clínica, limitado no tempo, que emprega técnicas e/ou testes com o propósito de avaliar uma ou mais características psicológicas, visando um diagnóstico psicológico (descritivo e ou dinâmico), construído a luz de uma orientação teórica que subsidia a compreensão da situação avaliada gerando uma ou mais indicações terapêuticas e encaminhamentos. (KRUG, 2016, pag.18)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta definição está em acordo com o que também diz outra teórica da&nbsp;área, OCAMPO (1995), quando afirma que o processo de psicodiagnóstico deve observar e respeitar um tempo limite, onde as partes &#8211; analista e cliente &#8211; objetivam “conseguir uma descrição e compreensão, o mais profundo e completa possível, da personalidade total do paciente ou do grupo familiar”&nbsp;(OCAMPO, 1995, pag 17). A autora completa a visão, dizendo que o processo “abrange os aspectos passados, presentes e futuros desta personalidade, utilizando para alcançar tais objetivos certas técnicas.”&nbsp;(OCAMPO, 1995, pag 17).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A partir desses pontos, entende-se que o processo de psicodiagnóstico&nbsp;é uma etapa inicial que pode ter grande valia para o trabalho terapêutico com a criança, pois é por meio dele que o analista poderá aprofundar e detalhar quais são as questões que envolvem a criança – a estrutura e ambiente familiar, escolar, social; seu mundo interno de fantasias e de projeções. O psicodiagnóstico&nbsp;é uma construção inicial do caso, que deve ser realizado com muita qualidade e com critérios sérios e éticos. Não se deve utilizar esta etapa do processo para taxar e reduzir a percepção acerca das questões, mas pelo contrário para ampliar e abrir possibilidades de acompanhamento e orientações.&nbsp;&nbsp;A criança, segundo JUNG (1991), “tem uma psique extremamente influenciável e dependente, que se movimenta por completo no âmbito nebuloso da psique dos pais, do qual só relativamente tarde consegue libertar-se.” (JUNG, 1991 §99)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em sua obra&nbsp;<em>O desenvolvimento da personalidade</em>, Jung&nbsp;é&nbsp;bastante crítico e reticente ao falar do trabalho psicológico com crianças. Ele pontua que essa atividade é muito difícil e que deve ser realizada com muita cautela por parte do analista, pois como a criança é uma personalidade em formação, e como dito anteriormente &#8211; extremamente influenciável, se for orientada de modo indevido, pode-se intervir de forma inadequada no processo de aquisição de consciência, que&nbsp;é, segundo Jung a tarefa da infância. “Precisamos lidar com algo de imprevisível, pois não sabemos como e em que sentido se desenvolverá a personalidade em formação”. (JUNG, 1991, §292). O conhecimento, a simplicidade e abertura do analista, como também seu próprio trabalho de autodesenvolvimento é considerado por Jung como crucial para o trabalho com crianças. Isto posto, é importante destacar que Jung deixou escritos importantes sobre a personalidade infantil em desenvolvimento, mas não se aprofundou sobre o tratamento em particular da criança. Autores como Mario Jacoby, Michael Fordham e Erich Neumann, ampliaram o legado de Jung e a visão da psicologia analítica para o tratamento clínico deste público.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">FODHAM (2001), corrobora com a visão de Jung a respeito da complexidade e da seriedade necessárias para o trabalho com crianças, e destaca em sua obra&nbsp;<em>A criança como indiví</em><em>duo</em>&nbsp;a seguinte colocação:</p>



<p class="wp-block-paragraph">[&#8230;] a análise junguiana infantil é uma técnica que exige treinamento especial. A perícia que o analista infantil deve atingir centra-se em: dar início à terapia, já que isso requer a elaboração de um diagnóstico da família, utilizar técnicas lúdicas e estar permanentemente atento às ocasiões em que os pais precisarem de ajuda (FORDHAM 2001, pag. 144).</p>



<p class="wp-block-paragraph">O princípio básico deixado por Jung e desenvolvido por seus sucessores neste tema, postula que a psicologia infantil deve ser compreendida à luz da psicologia familiar e dos complexos materno e paterno. Para Jung:&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>A criança tem uma psicologia singular. Assim como o seu corpo, durante a vida embrionária, é uma parte do corpo materno, também sua mente, por muitos anos, constitui parte da atmosfera psíquica dos pais. Este fato esclarece de pronto porque muitas das neuroses infantis são muito mais sintomas das condições psíquicas reinantes entre os pais do que propriamente doença genuína da criança. Apenas em parte a criança tem psicologia própria; em relação à maior parte ainda depende da vida psíquica dos pais. (JUNG, 1991, §143).</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">A forma e a proporção em que os complexos se constelam no inconsciente das crianças, devem surgir durante o processo psicodiagnóstico e servirá para nortear grande parte do trabalho a ser desenvolvido com a criança, bem como com os pais. Em acordo com a visão de Jung, JACOBY (2010) afirma que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">As disposições e necessidades arquetípicas no indivíduo estão interligadas com o meio de um modo intrincado que apresenta uma influência poderosa, marcante, especialmente na primeira infância. Nesse encontro entre a disposição natural da criança e a reação do ambiente, nós achamos a origem de muitos complexos psíquicos, especialmente quando a criança responde aos vários modos de seus pais se sintonizarem com ele. (JACOBY, 2010, pag. 142).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ainda sobre a natureza dos complexos e a importância de se considerar sua presença e manifestação nos diagnósticos, JUNG (1987) afirma:&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em psicoterapia, o reconhecimento da doença depende [&#8230;] muito menos do quadro clínico da enfermidade do que dos complexos nela contidos. O diagnóstico psicológico visa ao diagnóstico dos complexos e, por conseguinte, à formulação de fatos que seriam antes camuflados do que mostrados pelo quadro clínico da doença. (JUNG, 1987 §198).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao estruturar um processo de psicodiagnóstico infantil, embasado na psicologia analítica,&nbsp;é importante que dentro deste processo, todas as etapas (apresentadas a seguir) tenham como ideia central esta imagem da criança, como ser em formação, ligada inconscientemente aos seus pais e sob efeito da autonomia dos complexos.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">De modo geral o processo de psicodiagnóstico abrange, as seguintes etapas:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Entrevista de anamnese com os pais</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta entrevista pode se desenvolver em dois ou três encontros e tem como objetivo principal detalhar de forma mais específica possível a história de vida da criança. Isto engloba compreender seu ambiente familiar, desde um olhar sobre a infância de seus pais, a relação conjugal de ambos, condições sob a qual a criança foi concebida. Expectativas atendidas ou frustradas com a chegada da criança na família, histórias de abortos, outros filhos, relações parentais dos pais com seus genitores. JUNG (1991) afirma que “A causa recalcada do sofrimento, além da neurose [&#8230;] irradia-se de modo misterioso pelo ambiente e afeta também os filhos, caso existam. Deste modo são transmitidos muitas vezes por várias gerações” (JUNG, 1991, § 154).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Uso de teste psicol</strong><strong>ógicos</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os testes psicológicos são uma ferramenta de bastante valor neste processo. Cabe aqui destacar que eles são parte do processo e tem como objetivo ajudar o profissional a conhecer e ampliar a sua visão sobre os pontos que estes tetes se propõe a averiguar.&nbsp;<strong>Os testes nã</strong><strong>o det</strong><strong>êm a verdade sobre a condiçã</strong><strong>o psicol</strong><strong>ógica da crianç</strong><strong>a.</strong>&nbsp;Toda criança vive sobre um determinado ambiente e contexto e estes dados devem ser levados em consideração na análise a ser realizada. Eles podem ajudar a reforçar determinadas percepções como também a descartar hipóteses.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante destacar que os testes psicológicos são ferramentas de uso exclusivo do psicólogo, mas analistas junguianos e arte terapeutas podem e devem se valer dos conhecimentos das expressões e das representações simbólicas que são produzidas pelas crianças nos seus desenhos, pinturas e histórias. As cores, as formas e mesmo a atitude da criança ao desenhar contém muito sobre seu psiquismo. O processo de simbolização de conteúdos inconscientes&nbsp;é muito presente na expressão infantil. As imagens podem trazer representações de conteúdos arquetípicos, sombrios e dos complexos. Segundo RABELLO (2016), no livro&nbsp;<em>O desenho infantil</em>, ao criar, a criança estabelece uma dialética com a sua produção e ela “transforma a sua imaginação em formas gráficas e deixa registrado o que está sentindo, o que pensa, ou o que desejaria que acontecesse. (RABELLO, 2016, pag. 22). Ainda sobre o uso dos desenhos, FURTH (2004) afirma que “os complexos são descobertos a partir da análise de imagens do inconsciente, expressas nos desenhos, bem como nos sonhos.”&nbsp;(FURTH, 2004, pag. 33)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Hora l</strong><strong>ú</strong><strong>dica</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Esta etapa consiste em uma ou duas sessões lúdicas com a criança. Nestas interações o analista precisa estabelecer uma relação com a criança e adotar uma postura de facilitador e observador atento na forma de expressão de seu cliente. Neste momento, o analista poderá se utilizar de recursos diversos para esta interação. A espontaneidade e a criatividade precisam estar presentes de modo genuíno. O brincar tem uma linguagem própria, sendo que neste fazer lúdico, a criança expressa e comunica a sua forma de estar no mundo. Segundo FORDHAM (2001):</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;[&#8230;] a brincadeira é um veículo para a comunicação significativa, um elemento que se revela especialmente útil ao analista. Em vez de falar, a criança irá brincar, exprimindo seus amores e ódios, medos e esperanças,&nbsp;às vezes de forma transparente, mas, em geral, de modo indireto. (FORDHAM, 2001, pag. 26).</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Olhar multidisciplinar</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">O analista poderá contar ainda com relatos e com materiais de outros processos diagnósticos aos quais a criança já tenha sido submetida e que são conduzidos por outros profissionais, como pediatra, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psiquiatra, professores e pedagogos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Todas estas etapas devem, ao final, serem consolidadas em uma visão global e sistêmica acerca da vida e da dinâmica da criança. Nada deve ser simplesmente descartado. Este conjunto de observações e dados coletados com e sobre a criança, constituem um material muito precioso para o analista junguiano. São recortes, expressões e manifestações genuínas da dinâmica inconsciente da criança, bem como de aspectos de seu drama familiar. Portanto, a análise deste material deve ser muito cuidadosa, para que o analista possa, ao concluir o psicodiagnóstico, estruturar uma devolutiva para os pais de modo que, nesta reunião, estes possam receber as orientações de forma clara sobre a conduta e continuidade do processo com a criança. Vale destacar ainda que, há uma grande chance de, com todo o processo realizado, de surgirem questões que não foram apontadas pelos pais no início do processo, pois segundo o próprio C. Jung (1991)&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>[&#8230;] tanto os pais como os filhos estão inconscientes a respeito do que está acontecendo. Como são contagiantes os complexos dos pais, deduz-se dos efeitos que suas singularidades produzem nos filhos. Mesmo que os pais façam esforços constantes e eficientes para se dominarem, de modo que um adulto nem sequer perceba o mínimo vestígio de um complexo adulto, os filhos, contudo, de qualquer maneira serão afetados por ele. (JUNG, 1991, §106)</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">Por esta razão&nbsp;é necessário que se trabalhe de forma respeitosa, honesta e transparente, tendo como premissa o processo de desenvolvimento da criança bem como seu bem-estar físico e emocional. Caso haja a necessidade de orientação de terapia para seus pais, visto que a consciência e o ego da criança se encontram em formação e ainda sob forte influência dos complexos familiares, esta orientação precisa ser realizada.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Considerações sobre o processo de psicodiagnóstico infantil na clínica junguiana | Gilmara Alves" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/5LVFWzrVLKw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
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<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências Bibliográficas</strong><strong></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">FORDHAM, Michael.&nbsp;<strong>A criança como indiví</strong><strong>duo</strong>. 1ª ed. São Paulo: Cultrix, 2001.</p>



<p class="wp-block-paragraph">FURTH, Gregg M.&nbsp;<strong>O mundo secreto dos desenhos – uma abordagem junguiana da cura pela arte.</strong>Coleção Amor e Psique 1ª ed. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph">HUTZ, Claudio Simon; BANDEIRA, Denise H.; TRENTINI, Clarissa M. &amp; KRUG, Jefferson Silva (organizadores).&nbsp;<strong>Psicodiagn</strong><strong>ó</strong><strong>stico</strong>. Porto Alegre. Artmed, 2016</p>



<p class="wp-block-paragraph">JACOBY, Mario.&nbsp;<strong>Psicoterapia junguiana e a pesquisa contemporânea com crianças.&nbsp;</strong>Coleção Amor e Psique. São Paulo: Paulus, 2010.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<strong>O desenvolvimento da personalidade</strong>. [1972] 5ª&nbsp;ed. Vol. XVII. Petrópolis: Vozes, 1991</p>



<p class="wp-block-paragraph">___________.&nbsp;<strong>A prá</strong><strong>tica da psicoterapia</strong>. [1971] 3ª&nbsp;ed. Vol. XVI/1. Petrópolis: Vozes, 1987</p>



<p class="wp-block-paragraph">OCAMPO, Maria Luísa S. de. &amp; colaboradores.&nbsp;<strong>O processo psicodiagnóstico e as técnicas projetivas.</strong>&nbsp;8ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995</p>



<p class="wp-block-paragraph">RABELLO, Nancy.&nbsp;<strong>O desenho infantil. Entenda como a criança se comunica por meio de traços e cores</strong>. 3ª ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2019</p>
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		<title>Influência da vida dos pais em seus filhos</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/influencia-da-vida-dos-pais-em-seus-filhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 30 Nov 2021 12:58:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adolescência]]></category>
		<category><![CDATA[Criança]]></category>
		<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Logo após Jung estudar sua arvore genealógica colocou em dúvida o caminho que sua vida tomou, se estava realmente vivendo sua vida ou se estava respondendo a algo que foi negligenciado por parte de sua família. Este questionamento que Jung se fez nos oferece um caminho para lidar com o mesmo problema que surge na experiencia humana observada no consultório. Isso nos traz a seguinte questão: O que este individuo está vivenciando é algo pessoal ou do coletivo familiar? São questões como essas que este artigo reflete.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Logo após Jung estudar sua árvore genealógica, colocou em dúvida o caminho que sua vida tomou, se estava realmente vivendo sua vida ou se estava respondendo a algo que foi negligenciado por parte de sua família. No vol. 17 sobre o desenvolvimento da personalidade ele nos alerta a respeito do mesmo problema, já que a criança se encontra envolvida pelo inconsciente dos pais.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>Tenho a forte impressão de estar sob a influência de coisas e problemas que foram deixados incompletos e sem resposta por parte de meus pais, de meus avós e de outros antepassados. Muitas vezes parece haver numa família um carma impessoal que se transmite dos pais aos filhos. Sempre pensei que teria de responder a questões que o destino já propusera a meus antepassados, sem que estes lhes houvessem dado qualquer resposta; ou melhor, que deveria terminar ou simplesmente prosseguir, tratando de problemas que as épocas anteriores haviam deixado em suspenso.&nbsp;(Jung, 2015e, p. 234)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">Diante da questão levantada por Jung acredito que seja importante uma reflexão sobre o peso carregado pelos filhos em virtude de falta de consciência dos pais. Desejo refletir também a respeito da dificuldade da tomada de consciência dos sentimentos que a criança vivencia como seus, por influência do inconsciente dos pais e a falta de autenticidade dos próprios sentimentos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Trabalhar essas questões que muitas vezes são dos pais apresenta um grau maior de dificuldade na exploração e tomada de consciência a respeito de suas origens. Não é de se espantar que em muitos casos existe uma ausência de momentos marcantes que possam ser tomadas como possíveis raízes das neuroses e complexos, tornando um trabalho enfadonho até mesmo para os analistas mais experientes. As queixas levantadas em análise pelos indivíduos quase sempre são vagas e sem grande objetividade já que o problema em si é muito mais do coletivo que do pessoal, segundo Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>[&#8230;]É difícil saber se tais problemas são de natureza pessoal ou de natureza geral (coletiva). Parece-me ser este último o caso. Enquanto não é reconhecido como tal um problema coletivo toma sempre a forma pessoal e provoca, ocasionalmente a ilusão de uma certa desordem no domínio da psique pessoal.&nbsp;(Jung, 2015e, p. 234)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante ficar claro que o coletivo, a que Jung faz referência nesta última citação, é o coletivo familiar, afinal de contas os primeiros momentos de vida de uma criança são totalmente envolvidos pelos pais. Todo o cuidado, todo o carinho e atenção necessários estão voltados para esse pequeno ser. Neste estágio da vida não existe experiência pessoal, apenas a experiência do coletivo ao seu redor. Seriam então os complexos formados a partir dos complexos dos pais, seriam esses complexos na criança a neurose inconsciente dos pais? Na história humana podemos encontrar essas referências em muitos lugares e culturas, da bíblia a filosofia budista. Por isso a preocupação de Jung com a importante tarefa dos pais e dos educadores de se trabalharem e desenvolverem psiquicamente é de extrema importância, já que “a criança se encontra de tal modo ligada e unida à atitude psíquica dos pais, que não é de causar espanto se a maioria das perturbações nervosas verificadas na infância devam sua origem a algo de perturbado na atmosfera psíquica dos pais.”&nbsp;(Jung, 2012f, §80)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Posto isso, fica claro que para algumas questões apresentadas pelas crianças, quando levadas para um trabalho terapêutico, são na verdade apenas expressão dos problemas dos pais, os verdadeiros neuróticos. Essas crianças passam a repetir em suas vidas tudo aquilo que não foi vivido por seus pais, tudo aquilo que não foi possível de se tornar consciente. Quando na vida adulta, tudo que não foi vivido de forma genuína e consciente, somado no que pertence ao campo da experiencia pessoal, torna-se combustível para que os velhos problemas sejam vivenciados pelas gerações seguintes como novos problemas. Por isso, a atitude de alteridade é o caminho inicial para conseguir distinguir o que é meu e o que é do outro, neste caso, o que pertence a história dos pais e a de si próprio. Essa é uma das tarefas mais importantes na vida, conforme explica Johnson:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>A tarefa mais importante em nossos anos de maturidade é viver nossa vida não vivida, o que deve ser alcançado muito antes que uma tragédia nos abale profundamente ou que cheguemos ao nosso leito de morte. Viver nossa vida não vivida é tornarmo-nos realizados; é trazer propósito e significado para nossa existência.&nbsp;(Johnson &amp; Ruhl, 2011, p. 13)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;A partir da reflexão a respeito do viver a vida não vivida é que podemos abordar a questão da autenticidade dos próprios sentimentos, afinal de contas, se podemos chegar ao ponto de viver o que não nos pertence, então poderíamos afirmar que os sentimentos decorrentes destas experiencias também não nos pertencem. Tal pensamento não teria valor para nós, porque mesmo sendo ou não nossos os sentimentos, eles foram experimentados, em algum momento foram vivenciados e precisam ser conscientizados.&nbsp; Jung deixa claro essa ideia quando está falando do valor da ab-reação, de que nada adianta apenas reviver, porque é preciso reviver diante do outro, na figura do médico/terapeuta. e reconhecer todas a possibilidades contidas na conscientização destes conteúdos:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><em>O paciente deve ser capaz, não só de reconhecer a causa e a origem de sua neurose, mas também de enxergar a meta a ser atingida. A parte doente não pode ser simplesmente eliminada, como se fosse um corpo estranho, sem o risco de destruir ao mesmo tempo algo de essencial que deveria continuar vivo. Nossa tarefa não é destruir, mas cercar de cuidados e alimentar o broto que quer crescer até tornar-se finalmente capaz de desempenhar o seu papel dentro da totalidade da alma.&nbsp;(Jung, 2011a,&nbsp; §293)</em></p>



<p class="wp-block-paragraph">O que precisamos oferecer para nossos clientes é o suporte necessário para conseguir tomar consciência dos reais sentimentos e emoções de forma autêntica, nesta ampliação de consciência é preciso vencer o medo que surge quando o indivíduo se questiona.&nbsp;<strong>Se esses sentimentos não são meus, então quais são, o que é real na minha vida se o que eu sentia não era meu?</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Por isso mesmo que a atitude do analista é parte integrante das possíveis transformações que podem surgir a partir deste enfrentamento. Mais do que nunca, é preciso estar claro que “o objetivo mais nobre da psicoterapia não é colocar o paciente num estado impossível de felicidade, mas sim possibilitar que adquira firmeza e paciência filosóficas para suportar o sofrimento.”&nbsp;(Jung, 2011d, §185)&nbsp;Precisamos estar prontos e preparados para ajudar nossos clientes no desenvolvimento desta atitude, para que tenha condições de enfrentar o medo da desconstrução e ao mesmo tempo se colocar aberto para uma autêntica construção do que é real no seu ser. Somente desta forma esse indivíduo pode continuar seu caminho de desenvolvimento mais conhecido no meio junguiano como o processo de individuação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Daniel Gomes – Analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Waldemar Magaldi – Analista Didata</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências</p>



<p class="wp-block-paragraph">Johnson, R. A., &amp; Ruhl, J. M. (2011). Viver a vida não vivida. Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2011a). Ab-reação, análise dos sonhos e transferência (Vol. 16/2). Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2011d). A prática da psicoterapia (Vol. 16/1). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2012f). O desenvolvimento da personalidade (Vol. 17). Petrópolis: Vozes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung, C. G. (2015e). Memórias, Sonhos, Reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-daniel-gomes-30-11-2021"><strong><em>Daniel Gomes &#8211; 30/11/2021</em></strong></h4>
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