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	<title>Arquivos Espiritualidade - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Espiritualidade - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A relação entre símbolo, intolerância e dúvida no movimento evangélico brasileiro</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-relacao-entre-simbolo-intolerancia-e-duvida-no-movimento-evangelico-brasileiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Silvana Gomes Venâncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Nov 2025 13:38:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciências da Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu sou protestante há mais de 40 anos e sempre gostei de me apresentar como evangélica, no entanto, eu tenho repensado essa identificação e vou explicar o porquê. Para o professor Luiz Longuini Neto, evangélico seria uma forma de identificar parte da cristante como adepta da fé protestante, ou seja, não católica. “Evangelical ou evangélico [...]</p>
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<p style="font-size:20px">Eu sou protestante há mais de 40 anos e sempre gostei de me apresentar como evangélica, no entanto, eu tenho repensado essa identificação e vou explicar o porquê. Para o professor Luiz Longuini Neto, evangélico seria uma forma de identificar parte da cristante como adepta da fé protestante, ou seja, não católica. “<em>Evangelical ou evangélico equivaleria à totalidade dos cristãos que se identificam com a Reforma Protestante do século 16</em>” (LONGUINI, p 21).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" id="h-no-brasil-os-cristaos-nao-catolicos-passaram-a-auto-identificar-se-como-evangelicos-o-mesmo-ocorre-com-as-igrejas-evangelicas-os-proprios-catolicos-passada-a-epoca-de-antagonismos-e-principalmente-por-causa-do-movimento-ecumenico-aceitaram-essa-identificacao-naturalmente-os-catolicos-ao-identificarem-os-cristaos-nao-catolicos-como-evangelicos-contornam-o-designativo-de-protestante-carregado-de-preconceitos-no-brasil-ja-que-no-auge-dos-conflitos-entre-protestantes-e-catolicos-aqueles-eram-designados-por-estes-como-os-que-protestavam-contra-deus-mendonca-1990-p-15-16" style="font-size:20px"><blockquote><p>No Brasil, os cristãos não católicos passaram a auto-identificar-se como evangélicos, o mesmo ocorre com as Igrejas evangélicas. Os próprios católicos, passada a época de antagonismos, e principalmente por causa do movimento ecumenico, aceitaram essa identificação. Naturalmente, os católicos, ao identificarem os cristãos não-católicos como evangélicos, contornam o designativo de “protestante”, carregado de preconceitos no Brasil já que, no auge dos conflitos entre protestantes e católicos, aqueles&nbsp; eram designados por estes como “os que protestavam contra Deus”. </p><cite>(MENDONÇA, 1990, p 15,16)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-uso-do-termo-protestante-para-evangelicos-sempre-foi-mais-usado-por-historiadores-e-sociologos-e-num-momento-ou-outro-algumas-pessoas-de-igrejas-historicas-como-presbiterianos-metodistas-anglicanos-e-luteranos-se-diziam-protestantes" style="font-size:20px">O uso do termo protestante para evangélicos sempre foi mais usado por historiadores e sociólogos e num momento ou outro, algumas pessoas de igrejas históricas, como presbiterianos, metodistas, anglicanos e luteranos se diziam protestantes.</h2>



<p style="font-size:20px">No livro, <em>Introdução ao Protestantismo no Brasil</em>, que foi escrito na década de 90, se tornou um clássico, os professores Antônio Gouvêa Mendonça e Prócoro Velasques Filho, retratam de modo brilhante as ramificações do protestantismo brasileiro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-quem-sao-os-evangelicos-no-brasil-hoje-antes-de-responder-a-esta-pergunta-quero-falar-da-necessidade-humana-de-se-expressar-religiosamente" style="font-size:20px"><strong>Mas quem são os evangélicos no Brasil hoje?</strong> Antes de responder a esta pergunta, quero falar da necessidade humana de se expressar religiosamente.</h2>



<p style="font-size:20px">É claro que uma religião também é um fenômeno sociológico e por esse mesmo motivo pode perder-se de si mesma. Mas para Carl G. Jung, a religião é “(&#8230;) <em>uma das expressões mais antigas e universais da alma humana (&#8230;) além de ser um fenômeno sociológico ou histórico, é também um assunto importante para grande número de indivíduos</em>” (C. G. Jung, OC 11/1 &#8211; §1).</p>



<p style="font-size:20px"><strong>Carl Jung trata desse assunto do ponto de vista psíquico e empírico, se abstendo de uma abordagem metafísica ou filosófica do problema religioso</strong>. Para ele, existe uma função religiosa no inconsciente que é demonstrada nos símbolos religiosos. C. Jung dá esse exemplo: “<em>quando a psicologia se refere, por exemplo, ao tema da concepção virginal, só se ocupa da existência de tal ideia, não cuidando de saber se ela é verdadeira ou falsa, em qualquer sentido</em>”. Ele continua dizendo:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>a ideia é psicologicamente verdadeira, na medida em que existe. A existência psicológica é subjetiva, porquanto uma ideia só pode ocorrer num indivíduo. Mas é objetiva, na medida em que mediante um consensus gentium é partilhada por um grupo maior. </p><cite>(C. G. Jung. OC 11/1&nbsp; &#8211; § 4).</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-sentido-junguiano-toda-religiao-e-verdadeira-e-por-este-motivo-nao-e-simplesmente-criada-por-individuos-ela-irrompe-na-consciencia-individual" style="font-size:20px"><strong>No sentido junguiano, toda religião é verdadeira e por este motivo não é simplesmente criada por indivíduos, ela irrompe na consciência individual</strong>.</h2>



<p style="font-size:20px">C. Jung percebe o caráter&nbsp; numinoso da experiência religiosa, a partir do pensamento de <strong>Rudolf Otto</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Religião é — como diz o vocábulo latino <em>religere </em>— uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolf Otto acertadamente chamou de &#8220;<strong>numinoso</strong>&#8220;, isto é, uma existência ou um efeito dinâmico&nbsp; não causados por um ato arbitrário. Pelo contrário, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vítima do que seu criador.&nbsp; Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do&nbsp; sujeito, e é independente de sua vontade.</p><cite>(C. G. Jung. OC 11/1 &#8211; § 6).</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-c-jung-o-numinoso-pode-ser-capturado-por-um-objeto-visivel-ou-um-influxo-invisivel-que-produz-modificacao-na-consciencia-cf-jung-oc-11-1-6" style="font-size:20px"><strong>Segundo C. Jung, o numinoso pode ser capturado por um objeto visível ou um influxo invisível que produz modificação na consciência</strong> (Cf. JUNG, OC 11/1 &#8211; § 6). </h2>



<p style="font-size:20px">Rudolf Otto fala de uma experiência profunda de anulação, “<em>a estranha e profunda resposta da psique à experiência do numinoso, a qual propusemos chamar de “experiência de criatura”, constituído pelas sensações de afundar, de apoucar-se e ser anulado</em>” (OTTO, 2007, p 90). De acordo com o teólogo <strong>Paul Tillich</strong>, essa experiência é a de estar possuído por aquilo que toca o ser humano incondicionalmente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O sentimento de ser aniquilado pela presença do divino é o que expressa mais profundamente a relação em que se encontra o homem diante do sagrado. E esse sentimento perpassa todo o ato de fé legítimo e de todo estar possuído em última instância.</p><cite>(TILLICH, 2002, p 13)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-problema-religioso-se-manifesta-nos-seres-humanos-com-a-sua-aproximacao-do-numinoso" style="font-size:20px"><strong>O problema religioso se manifesta nos seres humanos com a sua aproximação do numinoso</strong>.</h2>



<p style="font-size:20px">Por isso, vale lembrar, que este só pode ser capturado pelo visível, no símbolo, sendo assim, a experiência religiosa não pode ser de forma alguma algo inflexível, nem mesmo quando se refere a Deus.&nbsp; Para Carl Jung,<strong> Deus é uma realidade psíquica</strong>, embora numa polêmica com Martin Buber, ele diga que nunca afirmou que Deus seja apenas uma realidade psicológica.&nbsp; “<em>Além disso, eu jamais tive a pretensão de enfraquecer o significado dos símbolos; pelo contrário, se deles me ocupei foi por estar convencido de seu valor psicológico</em>” (C. G. Jung. OC 11/2- § 170). Segundo C. Jung, o dogma da trindade é um dos símbolos mais sagrados do Cristianismo, por exemplo.</p>



<p style="font-size:20px">Paul Tillich afirma que o símbolo é fundamental, para aquilo que nos toca incondicionalmente é Deus (Cf. TILLICH, 2002, p 34). Segundo o teólogo alemão, “<strong>Deus é símbolo para Deus</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-p-tillich-a-preocupacao-incondicional-e-um-dos-elementos-responsaveis-pela-integracao-da-pessoa" style="font-size:20px">Segundo <strong>P. Tillich</strong>, a preocupação incondicional é um dos elementos responsáveis pela integração da pessoa:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Uma&nbsp; preocupação incondicional se manifesta em todas as áreas da realidade e em todas as expressões de vida da pessoa. Isso porque o incondicional não é um objeto entre outros, e sim a base e origem de todo o ser, e como tal, o centro unificador da pessoa.</p><cite>TILLICH, 2002, p 69</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-elemento-unificador-do-incondicional-se-segundo-p-tillich-pode-se-manifestar-na-vida-artistica-nbsp-na-atuacao-etica-na-politica-na-pesquisa-cientifica-entre-outros-aspectos-da-vida" style="font-size:20px">Esse elemento unificador do incondicional se segundo P. Tillich, pode se manifestar na vida artística,&nbsp; na atuação ética, na política, na pesquisa científica, entre outros aspectos da vida.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nós mostramos como a <strong>fé</strong> dá forma e une a todos os elementos intelectuais, emocionais e corporais da pessoa e como ela representa a força integradora como tal. Essa imagem do poder da fé contém, porém, apenas as cores alegres e não os aspectos sombrios da desagregação e do mórbido, que podem impedir a fé de criar uma vida integral da personalidade, mesmo naquelas pessoas em que a força da fé se manifesta de modo mais visíveis: nos santos, místicos e profetas. O homem nunca vive exclusivamente a partir do centro da vida. Em todos os âmbitos de seu ser atuam forças corruptoras.&nbsp; </p><cite>TILLICH, 2002, p 70</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">Esse aspecto sombrio e mórbido da relação do ser humano com a fé, precisa ser considerado e observado na experiência religiosa dos evangélicos. Essa dimensão sombria aparece ao meu ver na dificuldade de lidar com a <strong>dúvida</strong>, pois a intolerância mora na dificuldade de lidar com as incertezas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tanto-para-paul-tillich-quanto-para-carl-g-jung-a-experiencia-da-fe-deveria-dar-lugar-para-a-duvida" style="font-size:20px">Tanto para Paul Tillich quanto para Carl G. Jung, a experiência da fé deveria dar lugar para a<strong> dúvida</strong>.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nem a fé pode desaparecer na dúvida, nem a dúvida na fé, se bem que cada uma das duas se pode perder quase que completamente na vida da fé. Mas uma vez que nenhum ser humano é capaz de viver sem uma preocupação última, tanto na fé como dúvida sempre estão por natureza presentes no homem.&nbsp;</p><cite>TILLICH, 2002, p 66</cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nas pessoas que clamam ter uma fé inabalada, o farisaísmo e o fanatismo são frequentemente a prova infalível de que a dúvida provavelmente foi reprimida ou de fato ainda está atuando secretamente. A dúvida não é superada pela repressão, e sim pela coragem. A coragem não nega que a dúvida está aí, mas ela aceita a dúvida como expressão da finitude humana e se confessa, apesar da dúvida, àquilo que toca incondicionalmente. A coragem não precisa de segurança de uma convicção inquestionável. Ela engloba o risco, sem o qual não é possível qualquer vida criativa.&nbsp;</p><cite> TILLICH, 2002, p 66</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">O educador e teólogo <strong>Rubem Alves</strong>, reforça essa ideia, em seu livro <em>Religião e Repressão,</em> ao afirmar que qualquer dúvida, ou questionamento são vistas, em determinadas vertentes do protestantismo, como uma atitude suspeita, embora a&nbsp; dúvida seja radicalmente inerente à fé.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Pensada de forma radical, a experiência da fé se revela como irmã gêmea da dúvida. Não, de forma alguma estou sugerindo que falta alguma coisa à fé, que a fé seja incompleta por estar ainda assombrada pela dúvida. </p><cite>ALVES, Rubem. 2005, p. 107</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px">Em outro livro, <em>Dogmatismo e Tolerância</em>, R. Alves, reitera que: &#8220;<em>A fé chegou mesmo a se identificar com a adesão intelectual a um certo número de proposições dogmáticas, que, pretendia-se, expressavam o ‘sistema de doutrinas’ contidas na Bíblia, e que eram necessárias para a salvação</em>.&#8221; (ALVES, Rubem. 2004, p. 71)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-carl-jung-o-ser-nbsp-humano-exposto-a-duvida-nao-deveria-projeta-las-ao-acreditar-que-aqueles-que-pensam-e-refletem-sobre-as-doutrinas-da-fe-sao-inimigos" style="font-size:20px">Para Carl Jung, o ser&nbsp; humano exposto à dúvida não deveria projetá-las ao acreditar que aqueles que pensam e refletem sobre as doutrinas da fé, são inimigos.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O homem que apenas crê e não procura refletir esquece-se de que é alguém constantemente exposto à dúvida, seu mais íntimo inimigo, pois onde a fé domina, ali também a dúvida está sempre à espreita. Para o homem que pensa, porém, a dúvida é sempre bem recebida, pois ela lhe serve de preciosíssimo degrau para um conhecimento mais perfeito e mais seguro. As pessoas que são capazes de crer deveriam ser mais tolerantes para seus semelhantes, que só sabem pensar. A fé, evidentemente, antecipa-se na chegada ao cume que o pensamento procura atingir mediante uma cansativa ascensão. O crente não deve projetar a dúvida, seu inimigo habitual, naqueles que refletem sobre o conteúdo da doutrina, atribuindo-lhes intenções demolidoras.</p><cite>C. G. Jung. OC 11/2 &#8211; § 170</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fiel-cheio-de-certezas-se-organiza-no-mundo-reconhecendo-aliados-e-projetando-suas-duvidas-gerando-inimigos-que-devem-ser-combatidos-a-duvida-nao-assumida-e-projetada-gera-cristaos-evangelicos-intolerantes-donos-da-verdade" style="font-size:20px">O fiel cheio de certezas se organiza no mundo, reconhecendo aliados e projetando suas dúvidas, gerando inimigos que devem ser combatidos. A dúvida não assumida e projetada, gera cristãos evangélicos intolerantes, <strong>donos da verdade</strong>.</h2>



<p style="font-size:20px">Uma verdade única que exclui todo aquele que pensa e vive diferente.<strong> Esse diferente é alguém que deve ser combatido e ser retirado o seu direito à voz.</strong> Assim sendo, para responder a pergunta quem são os evangélicos hoje, é necessário olhar para a <strong>repressão da dúvida </strong>e também para as alianças políticas de algumas denominações evangélicos com setores da política brasileira, representada pela bancada evangélica, identificada na sigla&nbsp; BBB (bala, bíblia e boi).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-nao-e-possivel-viver-num-mundo-de-certezas-o-fiel-vai-buscar-no-discurso-politico-conservador-o-meio-ideal-para-idealizar-um-mundo-onde-as-diferencas-as-duvidas-e-a-pluralidade-sejam-silenciadas" style="font-size:20px">Como não é possível viver num mundo de certezas, o fiel vai buscar no discurso político conservador o meio ideal para idealizar um mundo onde as diferenças, as dúvidas e a pluralidade sejam silenciadas.</h2>



<p style="font-size:20px">Neste sentido, ser evangélico hoje deixou de ser apenas um ramo do protestantismo, para representar uma ideologia social e política, com um projeto político muito bem definido, para impor a sua visão religiosa, cultural e política. A dúvida pertence ao ser humano, sem lugar interno para ela, estamos diante de um grande complexo cultural que tenta dominar o cenário político brasileiro travestido de ideias religiosas.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;A relação entre símbolo, intolerância e dúvida no movimento evangélico brasileiro&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/s6DrBC-TINM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/silvana-venancio/">Silvana Venancio – Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:20px"><strong>Bibliografia:</strong></p>



<p style="font-size:16px">ALVES, Rubem. <em>Dogmatismo e Tolerância</em>. São Paulo: Loyola, 2004.</p>



<p style="font-size:16px">________.ALVES, Rubem. Religião e Repressão. São Paulo: Loyola, 2005.</p>



<p style="font-size:16px">JUNG, Carl. (1978). <em>Psicologia e Religião</em>. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol.&nbsp; 11/1). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em inglês em 1938.</p>



<p style="font-size:16px">________. (2013). <em>Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade</em>. In Obras&nbsp; completas de C. G. Jung, (Vol. 11/2). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em&nbsp; alemão em 1942.</p>



<p style="font-size:16px">LONGUINI, Luiz. <em>O novo rosto da missão.</em> Viçosa: Ultimato, 2002.</p>



<p style="font-size:16px">MENDONÇA, Antonio G.; VELASQUES. Prócoro Filho. <em>Introdução ao Protestantismo no Brasil</em>. São Paulo, Edições Loyola, 1990.</p>



<p style="font-size:16px">OTTO, Rudolf. <em>O Sagrado</em>. São Leopoldo: Sinodal/EST; Petrópolis: Vozes, 2007.</p>



<p style="font-size:16px">TILLICH, Paul. <em>Dinâmica da fé</em>. 7. ed. Trad. de Walter. Schlupp. São Leopoldo: Sinodal, 2002.</p>



<p style="font-size:21px"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Francisco de Assis e Papa Francisco nos 800 anos do Cântico das Criaturas</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/francisco-de-assis-e-papa-francisco-nos-800-anos-do-cantico-das-criaturas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Eugenio Menezes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Oct 2025 13:00:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[cosmovisão junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[papa francisco]]></category>
		<category><![CDATA[religião]]></category>
		<category><![CDATA[são francisco de assis]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.ijep.com.br/?p=11322</guid>

					<description><![CDATA[<p>Resumo:&#160;Francisco de Assis, que há 800 anos compôs o Cântico das Criaturas e Papa Francisco, que celebrou e ampliou o hino no atual contexto de conscientização e engajamento por uma ecologia integral, convidam a ver o mundo não apenas como um problema a resolver, ou nas próprias palavras do Papa Francisco: &#8220;mas como um mistério [...]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:19px"><strong>Resumo:</strong>&nbsp;Francisco de Assis, que há 800 anos compôs o Cântico das Criaturas e Papa Francisco, que celebrou e ampliou o hino no atual contexto de conscientização e engajamento por uma ecologia integral, convidam a ver o mundo não apenas como um problema a resolver, ou nas próprias palavras do Papa Francisco: &#8220;mas como um mistério que contemplamos na alegria e no louvor&#8221;. Ambos não sucumbiram diante do Sagrado. Deixaram-se tocar e mergulharam no mistério, deram atenção ao próprio Self. Neste sentido, foram além do espaço da religião católica no qual estavam imersos e abraçaram de forma cuidadosa as pessoas das mais diferentes tradições religiosas.</p>



<p style="font-size:19px">A atitude silenciosa dos peregrinos diante dos túmulos de São Francisco, em Assis, e do Papa Francisco, na basílica de Santa Maria Maggiore em Roma, impressiona. Em clima de reverência e encanto, cristãos ou turistas das mais diferentes expressões religiosas, ou mesmo sem vínculos de fé, vivenciam momentos marcados pela comunhão com homens que de alguma forma convidam ao diálogo com o numinoso, com o(s) símbolo(s) do sagrado.</p>



<p style="font-size:19px"><a>O que têm em comum esses homens que viveram em momentos históricos tão diferentes</a><a>?</a> Como continuam mobilizando pessoas para esta atitude de respeito e reverência, ou mesmo de fascínio que envolve personagens como Jesus Cristo, Buda, Maomé e tantos seres encantadores considerados iluminados em diferentes culturas?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-francisco-de-assis" style="font-size:19px"><strong>Francisco de Assis</strong></h2>



<p style="font-size:19px">O filho do negociante de tecidos Pietro Bernardone, ao ser batizado recebeu de sua mãe Joana – também chamada Dona Pica &#8211; o nome de Giovanni di Pietro (pai) di Bernardone (avô). Ao regressar de uma das suas muitas viagens, o pai deu-lhe o nome de Francisco. Nascido entre 1181 e 1182, viveu em uma família próspera no contexto do período de guerras entre Assis e Perúgia, na região da Úmbria (Itália).</p>



<p style="font-size:19px">Em uma das batalhas Assis é vencida e Franscisco, aos 23 anos, passa um ano como prisioneiro, acometido por longa doença, até ser resgatado pelo pai. Entre o fim de 1204 ou início de 1205, parte para a guerra em Apúlia, tem uma visão em Espoleto e volta para Assis onde começa a prestar serviços a leprosos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-entra-em-conflito-com-o-pai-e-conforme-cena-recordada-no-filme-irmao-sol-e-irma-lua-1972-dirigido-por-franco-zeffirelli-despoja-se-de-suas-vestes-diante-da-cidade-e-do-bispo-guido-veste-um-habito-de-eremita-e-trabalha-na-restauracao-de-tres-pequenas-igrejas-sao-damiao-sao-pedro-e-a-de-santa-maria-dos-anjos-ou-porciuncula" style="font-size:19px">Entra em conflito com o pai e, conforme cena recordada no filme <em><strong>Irmão Sol e Irmã Lua </strong></em>(1972), dirigido por Franco Zeffirelli, despoja-se de suas vestes diante da cidade e do Bispo Guido, veste um hábito de eremita e trabalha na restauração de três pequenas igrejas: São Damião, São Pedro e a de Santa Maria dos Anjos ou Porciúncula.</h2>



<p style="font-size:19px">A opção seguinte por um hábito rude, as atividades como pregador itinerante e a formação de um grupo de homens engajados nas mesmas causas, os franciscanos, até sua morte em 1226, estão registrados nas biografias, em produções cinematográficas, nas chamadas <em>Fontes Franciscanas e Clarianas</em> e nas coletâneas denominadas <em>Florilégios de São Francisco</em>, compilações de pequenas “flores” ou breves narrativas derivadas da tradição oral.</p>



<p style="font-size:19px">Um dos vinte e oito afrescos atribuídos ao pintor Giotto (1267-1337) ou a um grupo de artistas nele inspirados, registra a cena de Francisco ouvindo uma voz que o levou a iniciar os trabalhos de reforma da igrejinha de São Damião: “<strong>Vai e reconstrói a minha igreja</strong>”. Alguns de seus biógrafos enfatizam que as palavras não se limitavam à pequena igreja ou mesmo à Igreja Católica, mas remetiam ao conjunto dos seres, a todos os homens e mulheres compreendidos no sentido do termo grego “católico” (καθολικός), romanizado como “universal”.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Com fina percepção sentia o laço de fraternidade e de sororidade que nos une a todos os seres. Ternamente chama a todos de irmãos e de irmãs: o Sol, a Lua, as formigas e o lobo de Gubbio. As coisas têm coração. Ele sentia seu pulsar e nutria veneração e respeito por cada ser, por menor que fosse. Nas hortas, também as ervas daninhas tinham o seu lugar, pois do seu jeito, elas louvavam o Criador.</p><cite>(Boff, 1999, p. 169)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-reconhecimento-da-importancia-de-francisco-vai-alem-do-mundo-cristao-e-permeia-o-universo-denominado-esoterico" style="font-size:19px">O reconhecimento da importância de Francisco vai além do mundo cristão e permeia o universo denominado esotérico.</h2>



<p style="font-size:19px">Os seguidores da denominada Grande Fraternidade Branca, por exemplo, o consideram uma encarnação de Pitágoras, o filósofo grego que propunha um modelo de sociedade onde Ciência e Religião caminhavam juntas, “uma elucidando a outra, trazendo estabilidade às emoções humanas, gerando respeito, fraternidade, cooperação, igualdade e desenvolvimento” (Magaldi, 2021, p. 18 e p. 134).</p>



<p style="font-size:19px">Também no ambiente dos centros espíritas das mais diferentes regiões brasileiras o santo de Assis é estudado e vivenciado especialmente por meio do livro <em>Francisco de Assis</em> de <strong>João Nunes Maia</strong>:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Francisco de Assis viveu a mensagem do Evangelho de modo a consolidar a palavra Amor, fazendo-a sair da teoria e avançar para a prática do dia-a-dia. Não há jeito na Terra de se pensar e escrever sobre a Caridade, sem se lembrar do Homem da Úmbria: todos os caminhos por onde ele passou falam dele. Deixou impregnado no tempo e no espaço, nas coisas e na própria natureza, algo de divino, que somente o tempo poderá revelar no futuro, para a grandeza da fé. Não se pode lembrar dos hansenianos sem encontrar a figura extraordinária de Francisco; não se pode falar da assistência social, sem que ele esteja no meio; não se pode referir ao amor sem a sua benfeitora irradiação.</p><cite>(Maia, 1983, p. 5)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-papa-francisco" style="font-size:19px"><strong>Papa Francisco</strong></h2>



<p style="font-size:19px">Jorge Mario Bergoglio nasceu em Buenos Aires em 17 de dezembro de 1936, filho de imigrantes italianos. Seu pai, Mario, era ferroviário e sua mãe, Regina Sivori, dona de casa. O casal teve cinco filhos. Bergoglio formou-se técnico químico e, em seguida, decidiu seguir o caminho do sacerdócio. Em 1958, entrou para o noviciado da Companhia de Jesus. Completou os estudos de humanidades no Chile e voltou para Buenos Aires em 1963 para dar aulas de filosofia, literatura e psicologia em colégios católicos. Foi ordenado padre em 1969 e em 1973 fez sua profissão perpétua com os jesuítas. Em 1986, concluiu uma tese de doutorado na Alemanha. Em 1992, foi nomeado bispo-auxiliar de Buenos Aires, pelo papa João Paulo II. Em 1998 foi nomeado Arcebispo e Primaz da Argentina. Em 2001, João Paulo II deu a ele o título de cardeal (Angelini, 2014).</p>



<p style="font-size:19px">Na dissertação de mestrado com o título <em>“Os gestos dos Papas no Brasil: relações entre o presencial e o midiatizado&#8221;,</em> a jornalista Cristina Angelini destaca muitos gestos do Papa Francisco: antes da dar a benção no dia que foi eleito papa, 13 de março de 2013, inclinou-se diante da multidão e pediu para ser abençoado; residiu na Casa Santa Marta até seu falecimento em 21 de abril de 2025, um local de convivência com muitas pessoas, e não na residência oficial destinada ao Papa no Vaticano.</p>



<p style="font-size:19px">O simples fato de carregar a própria mala de mão em suas viagens denotava o gesto de quem, ainda como cardeal de Buenos Aires, frisava que “o meu povo é pobre e eu sou um deles”, residia em um apartamento simples, cozinhava a própria comida, e usava transporte público para acessar as comunidades empobrecidas da Grande Buenos Aires. Isso sem contar uma das tiradas de humor registradas no encontro com 3,5 milhões de jovens na Praia de Copacabana, em 2013, durante a Jornada Mundial da Juventude: “O papa é argentino, mas Deus é brasileiro”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-voltemos-as-perguntas-que-mobilizaram-os-fios-que-compoem-o-texto-desta-pequena-ampliacao-de-alguns-elementos-da-vida-dos-dois-homens-separados-por-aproximadamente-800-anos" style="font-size:19px">Voltemos as perguntas que mobilizaram os fios que compõem o texto desta pequena ampliação de alguns elementos da vida dos dois homens separados por aproximadamente 800 anos.</h2>



<p style="font-size:19px">O que eles têm em comum mesmo vivendo em momentos históricos tão diferentes? Como continuam mobilizando pessoas para esta atitude de respeito e reverência para com eles e para com as vivências do encontro com o sagrado que representaram? De que forma ainda cativam as pessoas com a atenção similar que envolve personagens como Buda, Moisés, Jesus Cristo, Maomé, Paramahansa Yogananda, Madre Teresa de Calcutá e tantos seres considerados iluminados em diferentes culturas?</p>



<p style="font-size:19px">A pergunta e a ampliação de possíveis respostas nos remetem a necessidade de nos deixarmos interpelar pela voz do outro. Ou, nas palavras do Papa Francisco, em sua carta sobre <em>O papel da literatura na educação:</em> “Aqui está uma definição de literatura que tanto me agrada: ouvir a voz de alguém. Não esqueçamos o quanto é perigoso deixar de ouvir a voz do outro que nos interpela” (Francisco, 2024, § 20).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-800-anos-do-cantico-das-criaturas" style="font-size:19px"><strong>800 anos do Cântico das Criaturas</strong></h2>



<p style="font-size:19px">A delicadeza das imagens e sons do já citado filme <em>Brother Sun, Sister Moon</em> ou <em>Irmão Sol e Irmã Lua </em>(1972) lembra a canção <em>Doce é Sentir</em>, repetidamente entoada em grupos de jovens daquela década, nos quais participamos. Trata-se de uma memória sonora que remete às nossas histórias de vida e integram o universo simbólico da autora e do autor destas linhas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="line-height:0.7">
<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Doce é sentir</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Em meu coração</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Humildemente</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Vai nascendo amor</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Doce é saber</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Não estou sozinho</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Sou uma parte</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>De uma imensa vida</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Que generosa</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Reluz em torno a mim</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Imenso dom</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Do teu amor sem fim</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>O céu nos deste</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>E as estrelas claras</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Nosso irmão sol</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Nossa irmã lua</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Nossa mãe terra</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Com frutos, campos, flores</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>O fogo e o vento</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>O ar, a água pura</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Fonte de vida</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>De tua criatura</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Que generosa</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Reluz em torno a mim</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Imenso dom</em></p>



<p style="font-size:17px;line-height:0.2"><em>Do teu amor sem fim</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Uma das execuções de <em>Doce é Sentir</em> disponíveis na internet é a do coral Meninas Cantoras de Petrópolis, que interpretam com delicadeza a versão brasileira da canção-título do filme <a><em>Brother Sun, Sister Moon</em></a>, de Donovan Phillips Leitch.</p>



<p style="font-size:19px">A versão popularizou o <em><strong>Cântico do Irmão Sol</strong></em> ou <em><strong>Cântico das Criaturas</strong></em> composto provavelmente entre o inverno europeu de 1224 e 1225, quando Francisco estava bem doente, um ano antes de sua morte. Uma das versões disponíveis do original em italiano antigo revela um estilo extremamente simples, direto, sem rodeios e sem elucubrações conceituais, conforme registra Frei Celso Márcio Teixeira, organizador do livro <em><strong>Escritos de São Francisco</strong></em>, publicado pela Editora Vozes em 2013.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:18px;line-height:1.3">1 Altíssimo, onipotente, bom Senhor, a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">2 Somente a ti, ó Altíssimo, eles convêm, e homem algum é digno de te nomear.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">3 Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente, o senhor Irmão Sol, o qual faz o dia e por ele nos iluminas.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">4 E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, traz o significado [nos dá ele a imagem].</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">5 Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas estrelas: no céu as formaste, claras, e preciosas, e belas.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">6 Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento e pelo ar e pelas nuvens e pelo sereno, e por todo o tempo, pelo qual às tuas criaturas dás sustento.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">7 Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água, que é muito útil e humilde e preciosa e casta.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">8 Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo, pelo qual iluminas a noite, e ele é belo e agradável e robusto e forte.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">9 Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com coloridas flores e ervas.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">10 Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam pelo teu amor e suportam enfermidade e tribulação.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">11 Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, porque por ti, Altíssimo, serão coroados.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">12 Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">13 Ai daqueles que morrerem em pecado mortal! Bem-aventurados os que ela encontrar na tua santíssima vontade, porque a morte segunda não lhe fará mal.</p>



<p style="font-size:18px;line-height:1.3">14 Louvai e bendizei ao meu Senhor, e rendei-lhe graças e servi-o com grande humildade.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-passamos-entao-a-ampliar-uma-das-posturas-comuns-entre-sao-francisco-de-assis-e-papa-francisco-nbsp" style="font-size:19px">Passamos então a ampliar uma das posturas comuns entre São Francisco de Assis e Papa Francisco.&nbsp;</h2>



<p style="font-size:19px">Uma das narrativas do dia da eleição do Papa Francisco conta que Dom Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo entre 1998 e 2006, um dos cardeais brasileiros que participaram do conclave, a reunião dos cardeais para eleição de um papa, teria abraçado o recém-eleito e dito: “<em>Não se esqueça dos pobres</em>”. O próprio Papa Francisco chegou a afirmar que aquilo entrou na sua cabeça e imediatamente lembrou de São Francisco de Assis: “Tomei o seu nome por guia e inspiração, no momento da minha eleição para Bispo de Roma”</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesta-aproximacao-e-ampliacao-das-narrativas-lembramos-que-a-carta-enciclica-publicada-pelo-papa-francisco-em-1995-comeca-justamente-com-as-palavras-laudato-si-do-cantico-das-criaturas" style="font-size:19px">Nesta aproximação e ampliação das narrativas lembramos que a carta encíclica publicada pelo Papa Francisco em 1995 começa justamente com as palavras <em>Laudato Si&#8217;</em>, do Cântico das Criaturas.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:19px"><em>“Laudato si&#8217;, mi&#8217; Signore – Louvado sejas, meu Senhor”, cantava São Francisco de Assis. Neste gracioso cântico, recorda-nos que a nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços. “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”. (Papa Francisco, Laudato si&#8217;, sobre o cuidado da casa comum,1).</em></p>
</blockquote>



<p style="font-size:19px">Segundo o Papa Francisco, “<strong><em>Francisco é o homem da paz. E assim seu nome entrou no meu coração: Francisco de Assis. Para mim, é o home da pobreza, o homem da paz, que ama e cuida da criação. Ele nos traz essa paz</em></strong>” (Hesse, 2019. Contracapa).</p>



<p style="font-size:19px">O escritor alemão <strong>Herman Hesse</strong> (1877-1962), agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1946, em sua monografia poética sobre Francisco de Assis considera que antes de sua morte ele uniu-se aos primeiros companheiros e buscou a tranquilidade no silêncio e no campo “<strong><em>a fonte mais profunda de seu ser, fonte que jamais secou e à qual devemos seu maravilhoso canto do sol</em></strong>” (Hesse, 2019, p.71).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p><strong>Na profunda sensibilidade à natureza reside também a magia misteriosa que Francisco exerce até hoje, mesmo sobre pessoas indiferentes à religião</strong>. O sentimento de gratidão e de alegria com que saúda e ama todas as forças e criaturas do mundo visível, como se fossem irmãos e seres aparentados, é isento de qualquer simbolismo eclesiástico e, em sua humanidade e beleza atemporais, consiste numa das aparições mais insólitas e nobres de todo aquele mundo medieval tardio.</p><cite>(Hesse, 2019, p. 72)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ecologia-interior-e-ecologia-exterior" style="font-size:19px"><strong>Ecologia interior e ecologia exterior</strong></h2>



<p style="font-size:19px">A atenção às pessoas respeitadas como santas, tal como Francisco de Assis e Papa Francisco, nos leva a ampliar nossa contemplação do universo sagrado no qual participamos como seres vivos.</p>



<p style="font-size:19px">Vivemos e nos movemos no campo do que Carl Gustav Jung chamou de antigas imagens do inconsciente coletivo da humanidade. Dentre as figuras arquetípicas dos grandes arquétipos Jung ficou fascinado pelos símbolos de completude e integração que denominou como os símbolos do <em>Si-mesmo</em> presentes em muitos sistemas religiosos de diferentes culturas.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Como psicólogo, mais do que como filósofo ou teólogo, Jung notou que este arquétipo organizador de totalidade era particularmente bem apreendido e desenvolvido por meios de imagens especificamente religiosas e ele, então, veio a compreender que a manifestação psicológica do <em>Si-mesmo</em> era realmente a vivência de Deus ou da ‘imagem-Deus dentro da alma humana. (&#8230;) O objetivo dele era mostrar como a imagem de Deus existe dentro da psique e age de modo apropriadamente semelhante ao de Deus, seja a crença em Deus da pessoa consciente ou não.</p><cite>(Hopcke, 2011, p. 111)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-estilo-de-pesquisa-e-escrita-de-jung-o-levou-a-circular-ao-redor-de-nocoes-para-amplia-las-ate-que-varios-aspectos-fossem-compreendidos-processo-que-ele-chamava-de-circumambulacao" style="font-size:19px">O estilo de pesquisa e escrita de Jung o levou a circular ao redor de noções para ampliá-las até que vários aspectos fossem compreendidos, processo que ele chamava de circumambulação.</h2>



<p style="font-size:19px">Assim ampliou o termo arquétipo da totalidade com outros termos como arquétipo central, Imago Dei, Si-mesmo, Self, representação divina, centelha divina, Cristo em nós, e outros.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Mas seus símbolos empíricos muitas vezes possuem significativa numinosidade (por exemplo, o mandala), isto é, um valor sentimental apriorístico (por exemplo, ‘Deus é círculo’, a tetraktys pitagórica, a quaternidade etc.), demostrando, pois, ser uma representação arquetípica que se distingue de outras representações do gênero por assumir uma posição central correspondente à importância de seu conteúdo e numinosidade.</p><cite> (Jung, OC 6, § 902)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">Francisco de Assis e Papa Francisco, cada um a sua maneira e no contexto da época em que viveram, manifestaram este encantamento pelo sagrado presente na natureza, no conjunto dos seres vivos do qual fazemos parte.</p>



<p style="font-size:19px">Neste universo grávido da presença do sagrado o teólogo Leonardo Boff enfatiza que Francisco de Assis estabeleceu fraternidade com os mais discriminados, como os leprosos, e com todas as pessoas, “como o sultão muçulmano Melek el-Kamel, no Egito, com quem manteve longos diálogos. Rezavam junto. São Francisco assumiu o título mais alto que os muçulmanos dão a Alá: “Altíssimo”. O Cântico das criaturas começa com o “Altíssimo” (Boff, 2025).</p>



<p style="font-size:19px">Ao dar sua contribuição no contexto da celebração dos 800 anos (1225-1925) da composição do Cântico do Irmão Sol ou Cântico das Criaturas, no mesmo texto acima citado Boff explicita a conexão entre a ecologia interior e a ecologia exterior:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:18px"><blockquote><p>Ali encontramos uma síntese completa entre ecologia interior (os impulsos da psique) e ecologia exterior, a relação amigável e fraterna com todas as criaturas. Estamos celebrando o 800º aniversário do Cântico do Irmão Sol em um contexto tão lamentável como o atual. Embora possa parecer estranho, faz sentido porque, em meio a uma dor física e espiritual insuperável, Francisco de Assis teve um momento de iluminação e criou e cantou com seus irmãos este hino, que está repleto do que mais precisamos: a união do céu com a Terra, o significado sacramental do Irmão Sol, da Lua, da água, do fogo, do ar, do vento e da Mãe Terra, vistos como sinais do Criador e, finalmente, a paz e a alegria de viver e coexistir em meio às tribulações que estava vivenciando e pelas quais também &nbsp;nós estamos assolados. </p><cite>(Boff, 2025)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">No Cântico, cruzam-se, segundo Boff, duas linhas, horizontal e vertical, que juntas constituem os símbolos maiores da totalidade: a vertical do Altíssimo que nenhum homem é digno de mencionar e a horizontal das criaturas e da fraternidade universal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-hino-ainda-ressalta-outro-simbolo-arquetipico-da-totalidade-psiquica-do-homem-o-masculino-e-o-feminino" style="font-size:19px">O hino ainda ressalta outro símbolo arquetípico da totalidade psíquica do homem: o masculino e o feminino.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Todos os elementos estão ordenados em pares, onde se combina o feminino com o masculino; sol – lua; vento – água; fogo – terra. Todos os pares são englobados pelo grande casal, Sol – Terra, de cujo matrimônio cósmico nascem todos os demais pares. Inicia-se cantando o senhor e irmão Sol, símbolo arquetípico da virilidade e de toda a paternidade, e conclui-se com o louvor à mãe e irmã Terra, arquetípica da feminilidade e de toda fecundidade.</p><cite>(Boff, 1982, p. 61)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">O mesmo autor enfatiza que esta representação não traduz a ordem objetiva do mundo, mas a ordem de significação profunda. “Por ela o inconsciente mais radical, na sua sede de unidade e totalidade, encontra seu adequado caminho de expressão” (Boff, 1982, p. 61).</p>



<p style="font-size:19px">Podemos dizer que Francisco de Assis, que compôs o Cântico na Idade Média, e Papa Francisco, que celebrou e ampliou o hino no atual contexto de conscientização e engajamento por uma ecologia integral, ambiental, humana, econômica e social, está a necessidade de se ver o mundo não apenas como um problema a resolver, ou nas próprias palavras do Papa Francisco: “o mundo é algo mais que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor” (Papa Francisco, 2015, p. 12).</p>



<p style="font-size:19px">Ambos não sucumbiram diante do Sagrado. Deixaram-se tocar e mergulharam no mistério, não deixaram de dar atenção ao próprio Self, o que em linguagem religiosa poderia ser expresso como não pecaram contra a ética do Self. Neste sentido, foram além do espaço da religião católica no qual estavam imersos e abraçaram de forma cuidadosa as pessoas das mais diferentes tradições religiosas.</p>



<p style="font-size:19px">Lembram assim uma afirmação de Antônio Gouvêa Mendonça, professor de Ciências da Religião em diversas instituições: “a igreja a que estou vinculado não me basta”. Ou então a delicadeza de um nosso amigo que quando questionado a respeito de sua formação teológica afirmou que “atualmente sou muito mais católico, muito mais católico no sentido ‘universal’ do termo, mais aberto a acolher a diversidade das manifestações religiosas em diversas expressões religiosas, do que simplesmente católico”. Nesta linha, Francisco de Assis é o mais “<strong><em>holista e ecológico de todos os santos católicos, cuja cosmovisão rompeu com a hierarquia eclesial e atraiu os jovens de Assis saciando-os no Sagrado</em></strong>” (Magaldi, 2021, p. 17)</p>



<p style="font-size:19px">Estamos tratando de pessoas encantadas em reconhecer a natureza como “um livro esplêndido onde Deus nos fala e transmite algo de sua beleza e bondade”. Assim, nas palavras do Papa Francisco, “a pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio” (Papa Francisco, 2015, § 11).</p>



<p style="font-size:19px">Fica para outro momento a ampliação da relação fraterna entre Francisco e Clara, a forma como viveram o masculino e o feminino. Por hora, podemos dizer que Francisco de Assis e o Papa de origem argentina são pessoas que têm alma, isto é, são discípulos de Maria, conforme palavras do Papa Francisco, da “Rainha de toda criação”. Cada um tratou cuidadosamente de sua “anima”, conforme o termo junguiano para o arquétipo do feminino inconsciente presente na personalidade masculina.</p>



<p style="font-size:19px">A contemplação dos santos Francisco e Francisco levam a um encantamento para com eles e para com o sagrado que contemplaram e manifestaram em suas vidas. Eles se colocaram a serviço do sagrado ou, em linguagem junguiana, se colocaram a serviço do Self. Quando deixamos o Self se manifestar, quando permitimos que Ele tensione nossas vidas entre as luzes e sombras que nos constituem, podemos dar alguns passos no caminho do encontro com nossas próprias almas.</p>



<p style="font-size:19px">Estamos a serviço de quem? Fica a pergunta e o desafio. Que Francisco de Assis, Francisco e também Jung nos perdoem por ousarmos nos aventurar, como eles, a ouvir o que deseja e o que pode nossas almas. Tudo isso porque há 800 anos “il Poverello” (o pobrezinho) de Assis reverenciou o sagrado vínculo entre o Altíssimo e as Criaturas.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-9-16 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Francisco de Assis e Papa Francisco nos 800 anos do Cântico das Criaturas&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/DB7_z1lEO5A?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/eugenio-menezes/">Dr. José Eugenio de O. Menezes – Membro Analista em Formação do IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Membro Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>ANGELINI, Maria Cristina. <strong>Os gestos dos Papas no Brasil: relações entre o presencial e o midiatizado. </strong>Dissertação de Mestrado. São Paulo: Faculdade Cásper líbero, 2014. Disponível em: &lt;<a href="https://static.casperlibero.edu.br/uploads/2014/12/MARIA-CRISTINA-ANGELINI.pdf">https://static.casperlibero.edu.br/uploads/2014/12/MARIA-CRISTINA-ANGELINI.pdf</a>&gt;. Acesso em: 20 set. 2025.</p>



<p>BOFF, Leonardo. <strong>São Francisco de Assis: Ternura e Vigor.</strong> Petrópolis: Vozes, 1982.</p>



<p>BOFF, Leonardo. <strong>Saber cuidar. </strong>Ética do humano – compaixão pela terra<strong>.</strong> Petrópolis: Vozes, 2001.</p>



<p>BOFF, Leonardo. <strong>A Oração de São Francisco.</strong> Uma mensagem de paz para o mundo atual. Rio de Janeiro: Sextante, 1999.</p>



<p>BOFF, Leonardo. <strong>A união da ecologia interior com a exterior: </strong>O Cântico ao Irmão Sol de Francisco de&nbsp;Assis. Disponível em: &lt; <a href="https://leonardoboff.org/2025/06/10/a-uniao-da-ecologia-interior-com-a-exterior-o-cantico-ao-irmao-sol-de-francisco-de-assis/">https://leonardoboff.org/2025/06/10/a-uniao-da-ecologia-interior-com-a-exterior-o-cantico-ao-irmao-sol-de-francisco-de-assis/</a>&gt;. Acesso em: 20 set. 2025.</p>



<p>CANTALAMESSA, Raniero. <strong>Apaixonado por Cristo</strong>. O segredo de Francisco de Assis. São Paulo: Loyola, 2019.</p>



<p>FRANCISCO DE ASSIS. <strong>Cântico do Irmão Sol</strong>. Disponível em: &lt;<a href="https://www.capuchinhos.org/franciscanismo/sao-francisco-de-assis/fontes-franciscanas/cantico-das-criaturas">https://www.capuchinhos.org/franciscanismo/sao-francisco-de-assis/fontes-franciscanas/cantico-das-criaturas</a>&gt;. Acesso em: 26 set. 2025.</p>



<p>HESSE, Hermann. <strong>Francisco de Assis</strong>. Rio de Janeiro: Record, 2019.</p>



<p>HOPCKE, Robert H. <strong>Guia para a Obra Completa de C.G. Jung</strong>. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>Tipos Psicológicos</strong>. OC 6. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>LECLERC, Eloi. <strong>O Cântico das Criaturas</strong>. Trad. Michelotto, J. Petrópolis: Vozes, 2025.</p>



<p><a>MAGALDI, E. Simone. <strong>Pitágoras o mestre de Samos</strong>. São Paulo: Eleva Cultural, 2021.</a></p>



<p>MAGALDI, E. Simone. <strong>Ordem e Caos. Uma visão transdisciplinar</strong>. São Paulo: Eleva Cultural, 2021.</p>



<p>MAIA, João Nunes. <strong>Francisco de Assis</strong>. 26° ed. São Paulo: Livros Loureiro, 1983.</p>



<p>MENEZES, J. Eugenio de O. <strong>Cultura do Ouvir e Ecologia da Comunicação</strong>. São Paulo: Uni, 2016. Disponível em: &lt;<a href="https://static.casperlibero.edu.br/uploads/2014/07/CULTURA-DO-OUVIR.pdf">https://static.casperlibero.edu.br/uploads/2014/07/CULTURA-DO-OUVIR.pdf</a>&gt;. Acesso em: 20 set.2025.</p>



<p>MENINAS CANTORAS DE PETRÓPOLIS. <strong>Doce é sentir</strong>. Disponível em: &lt;<a href="https://youtu.be/6QPSBGJzOd0?si=w4eMRoa7vRArmzPt">https://youtu.be/6QPSBGJzOd0?si=w4eMRoa7vRArmzPt</a>&gt;. Acesso em: 20 set. 2025.</p>



<p>PAPA FRANCISCO. <strong>Laudato si&#8217;, sobre o cuidado da casa comum.</strong> São Paulo: Paulinas, 2015.</p>



<p>PAPA FRANCISCO. <strong>O papel da literatura na educação</strong>. Paulinas: Prior Velho – Portugal, 2024.</p>



<p>TEIXEIRA, Celso Márcio (Org. e Trad.). <strong>Escritos de São Francisco</strong>. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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		<title>Sarah, a sombra e o mar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sarah-a-sombra-e-o-mar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Jul 2025 21:43:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Cada ano, no último final de semana, Sarah é salva das águas pelos guardiões da Camarga….. Isso é parte da procissão que acontece em “Les saintes Maries de la mer” na França, em homenagem à santa padroeira dos ciganos. Este ritual de fé mistura referências tanto judeu-cristãs quanto do povo cigano, que é tido [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Resumo</strong>: Cada ano, no último final de semana, <strong>Sarah</strong> é salva das águas pelos guardiões da Camarga….. Isso é parte da procissão que acontece em “<em>Les saintes Maries de la mer</em>” na França, em homenagem à santa padroeira dos ciganos. Este ritual de fé mistura referências tanto judeu-cristãs quanto do povo cigano, que é tido como oriundo da Índia. Isso nos leva a questionar como símbolos de culturas tão distantes podem vir a se mesclar, buscando compreender, a partir da psicologia analítica, embasada em conceitos do inconsciente coletivo, o significado dessa travessia arquetípica que é simbolizada pelo mito de Sarah La Noire.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-ultimo-dia-24-de-maio-alias-como-todos-os-anos-festejamos-santa-sarah-kali" style="font-size:20px">Nesse último dia 24 de maio, aliás como todos os anos, festejamos “santa” <strong>Sarah Kali</strong>.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">E isso me trouxe de volta algumas lembranças de infância, especialmente das viagens para “<em>Les Saintes Maries de la Mer</em>”. Eu era ainda muito jovem para saber que o que era para mim férias à beira do mar dessa pequena cidade do sul da França, para muitos, era uma peregrinação para um destino sagrado.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu propositalmente grafei santa com aspas porque se Sarah tem inspiração cristã, e mesmo tendo seu lugar de culto reconhecido no porão de uma igreja católica, ela nunca foi oficialmente canonizada. Ela é o que chamam uma santa local, ou seja, ela é reverenciada e sagrada somente naquele lugar. E isso lhe confere uma característica muito especialmente simbólica quando lembramos que Sarah é a santa padroeira dos Ciganos, esse povo que não pertence a lugar nenhum, mas caminha levando-a junto, por todos os cantos da terra.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Falar sobre o povo cigano e sua cultura é muito complexo e controverso, mas sem entrar em demais detalhes, para podermos desenvolver o assunto que nos interessa aqui, o simbolismo de Santa Sarah, e para não cair em estereótipos, é preciso introduzir algumas referências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-primeira-e-que-se-estou-usando-a-palavra-cigano-e-por-comodidade-e-facilitar-a-identificacao-no-entanto-a-palavra-correta-e-roms-e-na-verdade-para-ser-bem-preciso-seria-rroms-com-duas-letras-r" style="font-size:20px">A primeira é que se estou usando a palavra “Cigano” é por comodidade e facilitar a identificação, no entanto, a palavra correta é “Roms” e na verdade para ser bem preciso seria “Rroms”, com duas letras r.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Quem frequenta centros de <strong>Umbanda</strong> e outras casas espiritualistas pode se achar familiarizado com parte dessa cultura, no entanto, por mais que “giras ciganas” sempre demonstrem admiração e carinho, o uso da palavra “cigano” é redutora pois somente faz referência de forma caricatural a somente uma das etnias que formam esse povo multicultural, também chamado Romani.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Ainda nos dias de hoje essa denominação possui uma definição pejorativa, associada até no dicionário a conceitos de quem &#8220;é velhaco, burlador e que trapaceia, que barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota ou sovina&#8221;.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Em segundo lugar, o povo romani é constituído por várias etnias, diferenciadas essencialmente pelos caminhos por onde se espalharam pela Europa e pelos idiomas, sendo as principais os Roms e os Sinti que se encontram essencialmente em países como Romênia, Bulgária e os Kalons mais presentes na península ibérica e América Latina e cujos idiomas e culturas se impregnaram da língua espanhola e ficaram famosos através da arte, especialmente dos estilos musicais como o flamenco e mundialmente representados pela Banda francesa “Gipsy Kings”.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Um ponto interessante, e que lembraremos mais adiante, é que, apesar do esforço para unificar esse povo por parte da “união internacional romani”, organização não governamental que representa os interesses e direitos dos Rroms, alguns grupos étnicos ainda se recusam a ser assimilados a outros e não se reconhecem como parte de uma única cultura.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Isto parece ser confirmado pela semiótica, na França, desde sempre terra de asilo e ponto de contato de todos os caminhos para todos eles, mesmo querendo impor o politicamente correto “Rrom”, a língua popular ainda mantém vivas várias palavras como Tzigane, Bohemien, Romanichel ou Gitan, para designar os “ciganos” em função de por onde chegaram, Norte, leste ou sul.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-todos-esses-pontos-tornam-muito-complexo-e-quase-impossivel-chegar-a-um-consenso-socioantropologico-sobre-esse-grande-misterio-que-e-a-origem-dos-ciganos" style="font-size:20px">Todos esses pontos tornam muito complexo e quase impossível chegar a um consenso socioantropológico sobre esse grande mistério que é a origem dos ciganos.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Por onde passaram e continuam a passar, é bastante claro, em contrapartida, de onde vieram, muito menos. A teoria mais aceita, baseada em estudos das raízes linguísticas, é que teriam se originado da Índia, de onde teriam saído por volta do século 10 depois de Cristo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-entao-se-a-raiz-cultural-e-indiana-por-que-sua-principal-referencia-espiritual-seria-crista" style="font-size:20px">Mas então, se a raiz cultural é indiana, por que sua principal referência espiritual seria cristã?</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">O fato de que as próprias etnias não se reconhecerem como um único grupo e algumas diferenças culturais obrigam a questionar se esta conclusão se sustenta. E nós que gostamos de observar o mundo por lentes emprestadas por <strong>Jung</strong>, sabemos que o primeiro papel do analista é questionar o óbvio e isso também é verdadeiro quando se quer entender uma tendência coletiva. Lembrando que <strong>Jung sempre frisou que qualquer forma de unilateralidade é uma forma de doença e portanto precisa ser estudada</strong>.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">O caminho dos ciganos pelo sul da Europa, especialmente pela Espanha até a França, parece seguir o mesmo de outro grupo de nômades que também saíram ou passaram pelo Oriente Médio e com o qual compartilha algumas características, os judeus. <strong>Pode parecer coincidência, mas alguns alegam que não</strong>.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<strong>As chaves de Salomão, o Falcão de Sabá</strong>”, Ralph Ellis alega, baseando-se em narrativas bíblicas e revisitadas com fontes arqueológicas, que a palavra Gipsy, que designa os ciganos em inglês, é derivativa da palavra Egyptian, mas em verdade expressa uma verdade histórica esquecida que os ciganos seriam bem originários do Egito e seriam de ascendência semita. Lisardo Cano Monte também apoia essa ideia em “Gitanos, las tribos perdidas de Israel”, no entanto, focando mais especialmente nos kalons. Ambos colocam o início da jornada nômade dos Rroms como um eterno exílio do Egito, no início da era cristã, em direção em parte para a Índia, onde haveria acontecido uma mescla cultural e uma assimilação linguística, o que explicaria por que o idioma romanês parece derivar do Sânscrito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-estudar-a-mitologia-pudesse-nos-ajudar-a-entender-de-fato-a-origem-misteriosa-desse-povo" style="font-size:20px">Talvez estudar a mitologia pudesse nos ajudar a entender de fato a origem misteriosa desse povo.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Há várias histórias e lendas que contam a vida de Sarah. A principal tradição conta que ela teria nascido no Egito, na época de Jesus. Alguns dizem que era escrava de Maria, outros, uma parteira, em quem um anjo teria incarnado para assistir Maria, pois nenhuma humana aguentaria a intensidade da luz do filho de Deus quando vier ao mundo. Diz a lenda que após a ressurreição do Cristo, os Romanos, para acabar com o Cristianismo levado em frente por Maria, teriam jogado um barco ao mar, com a bordo, Maria Jacobé, irmã de Maria mãe de Jesus e mãe dos apóstolos Tiago Maior e João evangelista, Maria Salomé, mãe de Tiago Menor e João e Maria Madalena, sem água nem comida para que morressem de sede e de fome junto com Sarah, a escrava.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Após algum tempo o barco à deriva ficou perdido no meio do Mediterrâneo, e Sarah percebendo a iminência de uma tragédia, orou a Deus para que salvasse essas 3 santas mulheres. O barco finalmente chegou com todas sã e salvas na cidade de “Petit Rhone” no sul da França onde foram resgatadas pelos habitantes locais. E então, como forma de agradecimento do milagre que havia acontecido e da sua fé inabalável, Sarah passou a usar, para sempre, um lenço amarrado na cabeça.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-impacto-dessa-chegada-na-vida-local-foi-tao-grande-que-a-cidade-foi-rebatizada-les-saintes-maries-de-la-mer-em-portugues-as-santas-marias-do-mar-e-todos-os-anos-e-o-palco-de-um-ritual-muito-bonito" style="font-size:20px">O impacto dessa chegada na vida local foi tão grande que a cidade foi rebatizada “<em>Les Saintes Maries de la Mer</em>”, em português “<em>As Santas Marias do Mar</em>”, e todos os anos é o palco de um ritual muito bonito.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">No terceiro final de semana do mês de maio, caravanas de carroças e carros levam ciganos de todas as etnias até a cidade para que possam participar da procissão à Santa Sarah que acontece no domingo.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Nesse dia, a imagem de Sarah, que fica na cripta da igreja, é levada, escoltada pelos “guardiões”, até o mar, acompanhada por uma multidão de pessoas vindas de todos os cantos do mundo</strong>. Os guardiões são figuras emblemáticas da Camargue, nome da região situada entre os dois braços do rio Reno, onde fica “<em>Les saintes maries de la mer</em>”, e são chamados assim porque pastoreiam e protegem a cavalo seus rebanhos. O ponto culminante deste impressionante ritual de fé acontece quando os guardiões adentram o mar, imergindo até seus cavalos, para alcançar a imagem de Sarah e resgatá-la, levando-a, segura, até o porão da igreja Notre-Dame-de-la-mer (nossa senhora do mar) para protegê-la, repetindo simbolicamente o que haveria acontecido um pouco mais de dois mil anos atrás.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-a-procissao-os-fieis-especialmente-as-mulheres-a-procura-de-engravidar-ou-de-um-casamento-pedem-bencao-ou-agradecem-algum-acontecimento-feliz-amarrando-um-diklo-um-lenco-colorido-nos-ombros-da-santa" style="font-size:20px">Após a procissão, os fiéis, especialmente as mulheres à procura de engravidar ou de um casamento, pedem benção ou agradecem algum acontecimento feliz amarrando um “Diklô”, um lenço colorido, nos ombros da Santa.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Este ritual, junto com o acolhimento pelos países de tradição latina (França, Itália, Portugal e Espanha) e o impacto que a cultura cigana teve nesses países de identidade cristã, como o flamenco ou o Gipsy Jazz, historicamente ancorado em Paris, parece sustentar a ideia de uma origem judaico-egípcia do povo Romani.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-introduz-a-questao-dos-arquetipos-e-do-inconsciente-coletivo-como-um-dos-fundamentos-essenciais-da-psicologia-analitica-e-como-ideias-fundamentais-para-compreender-como-simbolos-e-mitos-surgem-em-diferentes-culturas-eles-sempre-expressam-estruturas-psiquicas-comuns-a-humanidade" style="font-size:20px"><strong>Jung</strong> introduz a questão dos arquétipos e do inconsciente coletivo como um dos fundamentos essenciais da psicologia analítica e como ideias fundamentais para compreender como símbolos e mitos surgem em diferentes culturas. Eles sempre expressam estruturas psíquicas comuns à humanidade.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos <strong>inconsciente pessoal</strong>. Este, porém, repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos <strong>inconsciente coletivo</strong>.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu optei pelo termo “coletivo” pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal. Isto é, contrariamente à psique pessoal, ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são cum grano salis os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos. Constituindo, portanto, um substrato psíquico comum de natureza psíquica supra pessoal que existe em cada indivíduo (JUNG, C.G. 2016b, 3)</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu gosto de me referir aos arquétipos como “DNA espiritual” da espécie humana, como uma forma de lembrarmos que não são personagens, heróis ou deuses em si, mas as ideias primordiais, emoções, bases e aptidões que são as raízes do comportamento humano, pedras e tijolos com os quais ao longo do tempo, construímos hábitos, comportamentos, culturas e civilizações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-simbolo-no-entanto-pressupoe-sempre-que-a-expressao-escolhida-seja-a-melhor-designacao-ou-formula-possivel-de-um-fato-relativamente-desconhecido-mas-cuja-existencia-e-conhecida-ou-postulada-jung-c-g-2015-903" style="font-size:20px">“O símbolo, no entanto, pressupõe sempre que a expressão escolhida seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada.” (JUNG, C.G., 2015, 903)</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<em>Símbolos da transformação</em>” (2016, 344), Jung nos explica que os símbolos do inconsciente tendem a se repetir continuamente em inúmeras variações até que o sentido seja compreendido. Ou, em outras palavras, até que o conteúdo inconsciente tenha sido assimilado. Isto é um aspecto essencial para entender a dinâmica do inconsciente coletivo, especialmente quando lembramos que ele também disse que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Os ritos religiosos são representações simbólicas de conteúdos do inconsciente coletivo; são tentativas de assimilação desses conteúdos, que de outra forma permaneceriam fora da consciência.” </p><cite>(JUNG, C.G., 211, 91)</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Ou seja, os ritos religiosos, como os contos de fada trazem para nós recados escondidos na sombra coletiva, necessidades de evolução, lições que irão se repetir até que entendamos claramente esses recados, que apesar de já presentes em todos nós, ainda não foram totalmente assimilados.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Munidos dessas bases preciosas, nos resta mergulhar no ofício de todo bom analista junguiano, que é observar quais imagens nessa história se destacam para tentar perceber os símbolos e investigar em qual direção eles nos levam. Afinal de contas, a participação em um ritual religioso em muito se assemelha a estar em um sonho coletivo onde todos estão levados por uma sombra individual, em uma direção comum, na esperança da transformação de uma dor particular.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-observar-o-mito-de-sarah-kali-do-meu-ponto-de-vista-tres-aspectos-simbolicos-merecem-um-destaque-especial" style="font-size:20px">Ao observar o mito de Sarah Kali, do meu ponto de vista, três aspectos simbólicos merecem um destaque especial.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Primeiramente, Sarah é salva das águas em meio a uma travessia. É muito interessante lembrar que Jung assimila o mar ao inconsciente, e Neumann em “<strong>A Grande Mãe</strong>” a um grande útero-matriz aquático como arquétipo universal de morte e renascimento, associado a ritos de iniciação. No seu ritual de fé, Sarah é salva e devolvida ao mar, numa parada inexorável, repetindo a caminhada e a limpeza, como ensaiando um batismo infinito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ela-e-uma-figura-feminina-quase-mariana-e-o-paralelo-com-a-ideia-da-grande-mae-e-todas-as-heroinas-da-mitologia-grega-e-obvio-mas-o-mais-relevante-e-que-a-imagem-de-sarah-e-preta" style="font-size:20px">Ela é uma figura feminina, quase mariana, e o paralelo com a ideia da grande mãe e todas as heroínas da mitologia grega é óbvio, mas o mais relevante é que a imagem de Sarah é preta.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Com certeza não é por acaso que ela é conhecida como <strong>Sarah la Noire</strong> (Sarah a Negra, em português). <strong>A negritude é sua principal característica</strong>. Embora poderíamos abrir uma reflexão étnica e racial que poderia ser até oportuna, o que nos interessa aqui é a mensagem simbólica passada pela adoração de uma figura escura.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>La noire</strong> é o negro, a cor da pele, mas também a escuridão da noite na qual nada se vê, o que nos leva ao conceito de <strong>sombra</strong> de <strong>Jung</strong>, este repositório no inconsciente onde escondemos os desejos, as vontades que nos deixam desconfortáveis, mas também tudo aquilo em nós que não queremos enxergar.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">E se aceitamos a ideia de um inconsciente coletivo, com todas as variações de coletivo, da família, do bairro, da cidade, da religião, de todas as formas possíveis de aglomeração humana, naturalmente temos que aceitar a ideia de uma sombra coletiva e, portanto, repleta de dores comuns com as quais ninguém quer entrar em contato.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<em>The cult of the black virgin</em>”, o analista junguiano <strong>Ean Begg</strong>, diplomado de Oxford e do instituto C.G. Jung de Zurique, faz um amplo estudo das representações de imagens e aparições de Maria de Nazaré negras e constatou que se trata de um fenômeno recorrente, desde a Idade Média. Até imagens de Maria, escurecidas pelo tempo, foram mantidas propositalmente pretas após a limpeza quando poderiam ter apresentado a tradicional feição europeia da mãe do Cristo. E lembramos com certeza da imagem de nossa senhora aparecida, escurecida pelo lodo do rio, mas que a tradição não fez questão de esbranquiçar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-nos-lembra-que-nos-ultimos-150-anos-algumas-das-virgens-maria-reportadas-em-aparicoes-coletivas-eram-negras" style="font-size:20px">Ele nos lembra que nos últimos 150 anos, algumas das virgens Maria reportadas em aparições coletivas eram negras.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Fenômeno que parece querer manter viva a ideia de um feminino oculto, sombrio, mas que não precisa se esconder mais. Ele enfatiza que, tal como o encontro do também negro feminino poderoso da <strong>rainha de Sabá </strong>com o masculino sábio do <strong>rei Salomão</strong> trouxe fertilidade e transformação ao reino, as santas Marias do Mar trouxeram, em Sarah, a luz redentora de Jesus, o rei dos reis.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">E não importa o ponto de início da jornada, se foi Egito ou Índia, ou se meramente passou por ela em algum momento, mas fato é que, sem que consigamos entender os motivos, os ciganos se encontraram com Sarah na beira do Mediterrâneo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-para-nos-nao-importa-comprovar-ou-analisar-questoes-historicas-ou-antropologicas-mas-sim-ver-como-esse-tipo-de-reflexao-nos-permite-aprofundar-nosso-conhecimento-da-psicologia-analitica" style="font-size:20px">E, para nós, não importa comprovar ou analisar questões históricas ou antropológicas, mas sim, ver como esse tipo de reflexão nos permite aprofundar nosso conhecimento da psicologia analítica.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">A devoção à Santa Sarah pode ser compreendida como integração do arquétipo da Mãe Negra e da Sombra acolhedora. O banho de sua imagem no mar simboliza a travessia, o rompimento das barreiras, a purificação e a reconexão com o inconsciente profundo.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Se Jung tivesse presenciado esse rito, ele certamente nos reafirmaria que a identificação com a imagem, especialmente religiosa, não acontece pelo estudo, pelo entendimento e pela razão, mas pelo chamado inconsciente da sombra, pela sintonia do arquétipo invisível para os olhos, mas que entra em ressonância com o nosso lado oculto. E talvez o veria como um mito vivo de integração da sombra coletiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mar-seria-o-inconsciente-primordial-os-guardioes-a-cavalo-os-herois-e-sarah-o-arquetipo-da-grande-mae-negra-explicaria-que-o-ritual-reafirma-a-vontade-de-pertencimento-e-a-cura-psiquica-individual-e-coletiva" style="font-size:20px">O mar seria o inconsciente primordial, os guardiões a cavalo os heróis, e Sarah, o arquétipo da<strong> Grande Mãe Negra</strong>, explicaria que o ritual reafirma a vontade de pertencimento e a cura psíquica, individual e coletiva.</h2>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Por mais que a imagem e o ritual em sua superfície se apresentem como cristãos, eles somente permitem dar um rosto a uma temática universal com a qual todos podem se identificar, pois reaviva em cada um questões humanas universais. Portanto, a identificação com o símbolo ou a sensação da necessidade de participar de ritos ou de pertencer a alguma forma peculiar de cultura ou religião pode acontecer sim pela vivência, pela herança espiritual e ancestralidade, mas também porque símbolos e ritos, mesmo de culturas completamente desconhecidas, sempre vão trazer à tona situações que podem tocar no âmago arquetípico que está fundo em cada um de nós.</p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Para os ciganos, sejam eles do Egito ou da Índia, venerar <strong>Sarah Kali</strong> é honrar essa força de sobrevivência e regeneração necessária à resiliência de todas as minorias. O rito de levá-la ao mar que une o simbolismo do útero aquático à cor negra revela a necessidade de uma imersão no inconsciente, uma travessia, um retorno à origem. </p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5">Sarah, salva das águas sombrias, escancara para os <em>gadjês</em>, os não ciganos, tocados pela beleza do resgate daquilo que estava prestes a se perder, o recado que ainda não foi entendido: <strong>O que foi um dia marginalizado, em algum momento, retornará como sagrado</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Sarah, a sombra e o mar" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/C7qqvfSEfNI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Sebastien Baudry &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p>Begg, E. The Cult of the Black Virgin. Chiron Publications, Acheville-NC, Estados Unidos, 2011.</p>



<p>Hancock, Ian, We Are the Romani People, Vol. 8, University of Hertfordshire Press. Hatfield, Reino Unido, 2002.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav, Psicologia e Religião. Obra Completa, 11/1. 11ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.</p>



<p>_________, Tipos psicológicos. 6 Obra Completa. 9ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p>__________ Símbolos da transformação. Obra Completa, 5ª ed. original Petrópolis, RJ: Vozes, 2016.</p>



<p>__________ Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Obra Completa, 9/1 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016a.</p>



<p>Neumann, E. A Grande Mãe. São Paulo, SP, Cultrix, 1994</p>



<p><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p></p>
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		<title>Banho de Floresta e Participação Mística</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/banho-de-floresta-e-participacao-mistica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elfriede Walzberg]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 15 Jul 2025 20:01:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Estresse]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[floresta]]></category>
		<category><![CDATA[jung]]></category>
		<category><![CDATA[participação mistica]]></category>
		<category><![CDATA[reconexãointerna]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8230; Adentrei a vida da floresta marrom,E a grande vida dos antigos cumes, a paciência da pedra, senti as mudanças nas veiasNa garganta da montanha, um grão em muitos séculos, temos nosso tempo, não o seu; e fui o riachoEscoando os galhos da floresta; e fui o alce bebendo; e fui as estrelasFervendo de luz, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p><em>&#8230; Adentrei a vida da floresta marrom,<br>E a grande vida dos antigos cumes, a paciência da pedra, senti as mudanças nas veias<br>Na garganta da montanha, um grão em muitos séculos, temos nosso tempo, não o seu; e fui o riacho<br>Escoando os galhos da floresta; e fui o alce bebendo; e fui as estrelas<br>Fervendo de luz, vagando solitárias, cada qual senhora de seu próprio ápice; e fui a escuridão<br>Ao redor das estrelas, incluí-as, elas eram parte de mim. Fui ainda a humanidade, um líquen móvel<br>Na face da pedra redonda&#8230;<br>&#8230; como posso expressar a dignidade que encontrei, que não tem cor, mas clareza;<br>Não o mel, mas o êxtase&#8230;</em></p><cite>Jeffers, Robinson apud <a>Macy, J; Brown</a>, M. Y., 2004, p. 37-38</cite></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px"><strong>Resumo</strong>: Neste artigo aborda-se a aproximação da experiência de (re)conexão do <strong>banho de floresta</strong> com o termo <strong>participação mística </strong>presente na narrativa junguiana. Ambos os temas são apresentados enfatizando-se aspectos que os aproximam. Essa reflexão traz a importância de uma mudança de perspectiva dos seres humanos em relação à natureza para atravessar a crise que afeta o planeta Terra.</p>



<p style="font-size:19px">Referindo-se às estrofes acima <strong>Macy</strong> e <strong>Brown</strong> (2004) colocam a importância de haver mudanças nos seres humanos em relação ao mundo natural para um despertar de uma grande mudança (Grande Virada) que possua uma base cognitiva, espiritual e perceptiva para a humanidade passar pela crise que afeta o planeta Terra:</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-essa-mudanca-em-nosso-senso-de-identidade-salvara-vidas-nos-traumas-sociopoliticos-e-ecologicos-que-nos-aguardam-macy-brown-2004-p-38" style="font-size:19px">“<strong>Essa mudança em nosso senso de identidade salvará vidas nos traumas sociopolíticos e ecológicos que nos aguardam</strong>.” (MACY; BROWN, 2004, p.38)</h2>



<p style="font-size:19px">Com essa colocação pontuo a importância de uma mudança de perspectiva dos seres humanos em relação à natureza trazendo relevância para a seguinte reflexão: poderia a experiência de (re)conexão do <strong>Banho de Floresta</strong> ser aproximada do termo participação mística presente na narrativa junguiana? Essa questão me surgiu ao participar de Banhos de Floresta e ao ouvir o relato de outros participantes (que conduzi ou foram conduzidos por outros guias de Banho de Floresta).</p>



<p style="font-size:19px">Serão abordados a seguir, de forma breve, o <strong>Banho de Floresta</strong> e a <strong>Participação Mística</strong>, com ênfase em aspectos que os aproximam.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-banho-de-floresta-ou-shinrin-yoku" style="font-size:22px">Banho de Floresta ou <em>Shinrin-Yoku</em></h2>



<p style="font-size:19px">O Banho de Floresta é também conhecido pelo termo <a><em>Shinrin-Yoku</em></a>. <em>Shinrin</em> traduz-se como floresta e <em>Yoku</em> pode ser traduzido por banhar-se. De forma mais abrangente é possível compreender <em>Shinrin-Yoku</em> como banhar-se na atmosfera da floresta com todos os sentidos despertos. (cf. SELHUB; LOGAN, 2012) Essa expressão foi criada no Japão por Tomohide Akiyama, em 1982, que teve como objetivo ter uma marca única que associasse o ecoturismo de florestas com saúde e bem-estar. (cf. CLIFFORD, 2018)</p>



<p style="font-size:19px">Os Banhos de Floresta, no entanto, são práticas com <strong>raízes ancestrais</strong>. O xintoísmo, religião tradicional japonesa que teve forte influência na formação do povo japonês, acredita no poder curativo das florestas e tem a visão de que todas as coisas &#8211; rios, montanhas, árvores&#8230; &#8211; são habitadas por espíritos. Povos originários por todo o planeta sempre buscaram a cura em meio ao mundo natural: colhendo ervas, raízes, fazendo rituais e entrando em relação com outros seres.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-onde-houver-povos-tradicionais-e-florestas-ha-praticas-terapeuticas-baseadas-na-floresta-clifford-2018-p-23" style="font-size:19px">“Onde houver povos tradicionais e florestas, há práticas terapêuticas baseadas na floresta.” <a>(CLIFFORD, 2018, p 23)</a></h2>



<p style="font-size:19px">Vários benefícios a nível físico e psíquico estão sendo comprovados atualmente para o ser humano que participa do <em>Shinrin-Yoku. </em>Benefícios como diminuição do stress, da ansiedade e dos sintomas depressivos; melhora no sono e na sensação de vivacidade foram confirmados por pesquisas realizadas por uma equipe na Universidade de Chiba pelo Centro de Meio Ambiente, Saúde e Serviços de Campo. Em outras pesquisas resultados objetivos de queda de cortisol, frequência cardíaca e pressão arterial foram constatados, que afetam o sistema circulatório e nervoso parassimpático, o que resulta em diminuição do stress (cf. SELHUB; LOGAN, 2012, p.19). </p>



<p style="font-size:19px">O aumento da imunidade foi outro benefício constatado, segundo Li e colaboradores (2009) pelo aumento das células assassinas naturais humanas (células NK) após a exposição a fitoncidas de árvores, presente em florestas. &nbsp;A consideração dos resultados das pesquisas científicas atuais relacionadas aos Banhos de Floresta e o reconhecimento e aceitação da natureza como parte dos seres humanos é de extrema importância, pois acarretará numa grande influência na sobrevivência de indivíduos, de nações e do planeta. Pode-se entender que o cérebro é influenciado pela natureza e responde ao ambiente natural, isso influencia diretamente na saúde dos seres humanos e do planeta, além de diminuir o distanciamento da natureza que leva a um menor envolvimento perante a crise ambiental (cf. SELHUB; LOGAN, 2012).</p>



<p style="font-size:19px">Durante a prática do Banho de Floresta os sentidos são percebidos, os pensamentos vão diminuindo de intensidade e há um foco no estado presente que faz com que a floresta seja percebida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quando-permitimos-que-a-floresta-ocupe-o-seu-lugar-dentro-de-nos-ela-ajuda-a-capacidade-natural-de-cura-e-bem-estar-do-nosso-corpo-clifford-2018-p-nbsp-20" style="font-size:19px">“Quando permitimos que a floresta ocupe o seu lugar dentro de nós, ela ajuda a capacidade natural de cura e bem-estar do nosso corpo.” (CLIFFORD,2018, p.&nbsp; 20)</h2>



<p style="font-size:19px">O foco da prática é a ligação e a relação, sentir e experienciar o pertencimento ao mundo natural, o ritmo é lento (diferenciando-se de uma caminhada), busca-se o silêncio e a imobilidade. Segundo <strong>Clifford</strong> (2018, p. 22):</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Tomar um banho de floresta é ficar imerso num estado de graça que permeia o mundo, sentir um poder imanente e uma beleza que estão em todo o lado, a sussurrar. É a nossa herança humana enquanto membros da comunidade da Terra, não apenas para ouvir esses sussurros, mas para lhes juntarmos as nossas próprias vozes. Se aprendermos isto, talvez possamos começar a reparar alguns dos danos que a nossa espécie causou e encontrar novas maneiras de cuidar do bem-estar do vasto mundo selvagem.</p></blockquote></figure>



<p style="font-size:19px">O Banho de Floresta é uma prática de conexão com o mundo natural e que, segundo Li (2018), traz um sexto sentido além dos cinco sempre mencionados – tato, paladar, visão, olfato, audição – que proporciona uma conexão além do limite humano, uma conexão com o mundo. Segundo o autor é uma sensação de felicidade e de entusiasmo, de transcendência, que quando experienciada pode-se dizer que realmente ‘banhou-se em uma floresta’.</p>



<p style="font-size:19px">Após essa breve apresentação sobre o Banho de Floresta será apresentada a Participação Mística presente na psicologia junguiana.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-participacao-mistica-nbsp-nbsp-nbsp-nbsp" style="font-size:22px">Participação Mística&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</h2>



<p style="font-size:19px">O antropólogo, filósofo, escritor, sociólogo e professor universitário da universidade de Paris, Lucien Lévy-Bruhl (Paris,1857 – id.,1939) (cf. WIKIPÉDIA, 2013) descreveu o termo <em>participation mystique. </em><strong>Elealega</strong> que a participação mística ocorre nos povos originários, pois estes não compreendem a alma (psique) como uma unidade. Muitos deles acreditam ter uma “alma do mato” além da sua própria (em algum animal selvagem ou árvore) com a qual mantem uma identidade psíquica. <strong>Lévy-Bruhl </strong>chega a retirar essa descrição que fez, devido às críticas ocorridas, mas Jung acredita que seus críticos foram injustos (cf. JUNG, 2009) e afirma que é “<strong>um fenômeno psicológico bem conhecido o de um indivíduo identificar-se, inconscientemente, com alguma outra pessoa ou objeto</strong>.” (JUNG, 1995, p.24).</p>



<p style="font-size:19px">A participação mística é um fato psicológico onde “<strong>entre o sujeito e o objeto não há aquela distinção absoluta que se encontra em nossa mente racional. O que acontece fora, acontece também dentro dele, e o que acontece dentro dele, acontece também fora</strong>.” (JUNG, 2013a, p.98)</p>



<p style="font-size:19px">É a partir do inconsciente que a consciência se desenvolveu e ainda continua em processo de desenvolvimento. Estima-se que esse processo trabalhoso e lento alcançou o estado de civilização por volta de 4000 a.C. com a invenção da escrita, mas que ainda está longe de sua conclusão, pois muitas partes da alma humana ainda se encontram na escuridão (cf. JUNG, 1995).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-jung-2009-p-23-a-psique-constituida-pela-consciencia-e-pelo-inconsciente-e-uma-parte-da-natureza-e-como-esta-ilimitada" style="font-size:19px">Segundo Jung (2009, p.23), a psique (constituída pela consciência e pelo inconsciente) é uma parte da natureza e, como esta, ilimitada.</h2>



<p style="font-size:19px">A consciência ainda não chegou a um grau razoável de continuidade, ocorrendo ainda fragmentações. O ser “civilizado” tem a capacidade de se concentrar em determinada situação, mas acaba suprimindo aspectos psíquicos que podem emergir espontaneamente sem a consciência esperar que isso ocorra, sendo esta situação conhecida pelos povos originários como “perda da alma”. <strong>Jung</strong> (1995, p.25) coloca que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>[&#8230;] mesmo nos nossos dias, a unidade da consciência ainda é algo precário e que pode ser facilmente rompido. A faculdade de controlar emoções que, de um certo ponto de vista, é muito vantajosa, seria, por outro lado, uma qualidade bastante discutível já que despoja o relacionamento humano de toda a sua variedade, de todo o colorido e de todo o calor.</p></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-sob-esta-perspectiva-que-devemos-examinar-a-importancia-dos-sonhos-fantasias-inconscientes-evasivas-precarias-vagas-e-incertas-do-nosso-inconsciente" style="font-size:19px">É sob esta perspectiva que devemos examinar a importância dos sonhos — fantasias inconscientes, evasivas, precárias, vagas e incertas do nosso inconsciente.</h2>



<p style="font-size:19px">Segundo Jung “<strong>a mente humana não existe (e não pode existir) fora de uma estrutura mítica, e negar a participação mística no universo apenas força a psique a encontrar outras estruturas de criação de sentido</strong>” (JUNG, 2023, p. 66 &#8211; 67, posfácio de Tim Newcomb). A participação mística seria um estado apriorístico verificado no ser humano, existente na relação do homem tradicional com o objeto, onde seus objetos têm animação dinâmica, estão carregados de matéria ou força anímica (mas nem sempre dotados de alma, como pretende a hipótese animista) e exercem influência psíquica direta sobre as pessoas, produzindo nelas como que uma identidade dinâmica com seu objeto (JUNG, 2013b, p. 308).</p>



<p style="font-size:19px">Tanto a abstração (verificada na introversão) quanto a empatia (verificada na extroversão) são “mecanismos de adaptação e proteção” contra perigos externos, defesas da consciência em relação à participação mística:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:19px"><blockquote><p>Assim como para o abstrativo a imagem abstrata representa um engaste, um muro protetor contra os efeitos destrutivos dos objetos inconscientemente animados, a transferência para o objeto é para o empatizante uma proteção contra a dissolução por fatores internos subjetivos que consistem em possibilidades ilimitadas da fantasia e correspondentes impulsos à ação. </p><cite>(JUNG, 2013b, p.310)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-breve-apresentacao-do-banho-de-floresta-e-da-participacao-mistica-a-reflexao-sobre-a-experiencia-de-re-conexao-do-banho-de-floresta-poder-ser-aproximada-do-termo-participacao-mistica-presente-na-narrativa-junguiana-pode-tomar-continuidade" style="font-size:19px">Após breve apresentação do Banho de Floresta e da Participação Mística, a reflexão sobre a experiência de (re) conexão do Banho de Floresta poder ser aproximada do termo participação mística presente na narrativa junguiana pode tomar continuidade.</h2>



<p style="font-size:19px"><strong>Seria a participação mística um estado de consciência diferenciado</strong>? Talvez uma <em>consciência conscientemente inconsciente</em> onde não há nem a defesa empática nem a abstrativa, onde a experiência psíquica não seja nem introversão nem extroversão, onde o colorido do mundo natural é vivido no seu calor e variedade e onde a conexão com o mundo natural acontece para além do limite humano, como é a sensação ao participar de um Banho de Floresta. É, conforme Clifford (2018), ser natureza, estar em estado de comunidade com o mundo natural.</p>



<p style="font-size:19px">Segundo <strong>Tacey</strong> (2009) o estado de participação mística presente nos aborígenes como em outros povos originários até a contemporaneidade é espontâneo e automático. O autor enfatiza que se deve tentar recuperar algo de semelhante para voltar ao passado e reanimar o mundo, porém de uma forma nova.</p>



<p style="font-size:19px">Uma guinada para além do mundo racional sem ser uma regressão para o passado, mas como num movimento cultural em espiral onde não haverá perda para a consciência e para a civilização, mas visando atingir uma consciência mais ampliada. Não haverá renúncia do intelecto e nem repressão do desenvolvimento, mas uma diminuição da ênfase dada a ambos com um simultâneo envolvimento com o lado originário do ser humano. <strong>Será um desenvolvimento espiritual e não egóico</strong>.</p>



<p style="font-size:19px">O Banho de Floresta proporciona a (re) conexão do ser humano com o mundo natural com uma experiência bem semelhante à participação mística e pode ser considerado, eventualmente, como uma nova forma de experienciar a participação mística, já fazendo parte do movimento em espiral para uma consciência mais integrada e estar atuando na Grande Virada.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: &quot;Banho de Floresta e Participação Mística&quot;" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/of_HRZw0EEs?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p style="font-size:19px"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/elfriede-cristina-seidel-walzberg/"><strong>Elfriede Walzberg &#8211; Analista em Formação</strong> <strong>do IJEP</strong></a></p>



<p style="font-size:19px"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/ajaxsalvador/"><strong>Ajax Perez Salvador &#8211; Analista Didata</strong> <strong>do IJEP</strong></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias"><strong>Referências</strong>:</h2>



<p>JUNG, C. G. A natureza da psique. 10.ed. Petrópolis: Vozes, 2013a</p>



<p>__________ Der Mensch und seine Symbole. 17.ed. Düsseldorf: Patmos, 2009.</p>



<p>__________ O Homem e seus Símbolos. 5.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1995.</p>



<p>__________Sete sermões aos mortos. Orlando: Press, 2023.</p>



<p>__________ Tipos psicológicos. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2013b</p>



<p>CLIFFORD, M. AMOS. O guia dos banhos de floresta. <a>[s.l.] </a>Lua de Papel, 2018.</p>



<p>LI, QING. Forest bathing: how trees can help you find health and happiness. [s.l.] Penguin Life, 2018.</p>



<p>&nbsp;LI, Q.; KOBAYASHI, M.; WAKAYAMA, Y.; INAGAKI, H.; KATSUMATA, M.; HIRATA, Y.; HIRATA, K.; SHIMIZU, T.; KAWADA, T.; PARK&#8217;, T B.; OHIRA, J.; KAGAWA, T.; MIYAZAK, Y. Efeito do fitoncídio de árvores nas células assassinas naturais humanas. Revista Internacional de Imunopatologia e Farmacologia. Vol. 22, no. 4, 950-959 25 ago. 2009.&nbsp;</p>



<p>MACY, J; BROWN, M. Y. Nossa vida como gaia. São Paulo: Gaia, 2004.</p>



<p>SELHUB, E. M.; LOGAN, A. C. Your brain on nature: the science of nature’s influence on your health, happiness and vitality.<strong> </strong>Toronto: Collins, 2012.</p>



<p>Tacey, D. Edge of the sacred &#8211; Jung, psyche, earth. Einsiedeln: Daimon, 2009</p>



<p>Wikipédia – a enciclopédia livre. (2013) Lucien Lévy-Bruhl. Disponível em: <a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/Lucien_L%C3%A9vy-Bruhl">https://pt.wikipedia.org/wiki/Lucien_L%C3%A9vy-Bruhl</a> Acesso em: 21 jun 2025.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-canais-ijep"><strong>Canais IJEP:</strong></h2>



<figure class="wp-block-image"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-1024x576.png" alt="" class="wp-image-10882" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-1024x576.png 1024w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-300x169.png 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-768x432.png 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-150x84.png 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1-450x253.png 450w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2025/07/image-1.png 1200w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /></figure>



<p><strong>Pós-graduações&nbsp;</strong>– Certificado pelo MEC – 2 anos de duração- Psicologia Junguiana; Arteterapia e Expressões Criativas; Psicossomática;&nbsp;<strong>Matrículas abertas</strong>:&nbsp;<a href="http://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



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		<title>A Inteligência Artificial e os limites nos cuidados da Alma: Reflexão sobre Psicoterapia e Espiritualidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-inteligencia-artificial-e-os-limites-nos-cuidados-da-alma-reflexao-sobre-psicoterapia-e-espiritualidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 19 Mar 2025 15:01:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Setting Terapeutico]]></category>
		<category><![CDATA[alma humana]]></category>
		<category><![CDATA[chatGPT]]></category>
		<category><![CDATA[ferramentas IA]]></category>
		<category><![CDATA[IA]]></category>
		<category><![CDATA[inteligência artificial]]></category>
		<category><![CDATA[sessão com IA]]></category>
		<category><![CDATA[subjetividade humana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Waldemar Magaldi &#8211; IJEP Resumo: Neste ensaio, em função do crescente uso da Inteligência Artificial (IA) para sessões de psicoterapia, reflito que esses algoritmos podem ser excelentes para cuidar de máquinas com distúrbios produtivos visando adequá-las ao mercado, mas podem ser completamente inadequadas para cuidar de almas, em busca de realizações, sentido e propósito existencial. [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; IJEP</a></strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Resumo</strong>: Neste ensaio, em função do crescente <strong>uso da Inteligência Artificial (IA) para sessões de psicoterapia</strong>, reflito que esses algoritmos podem ser excelentes para cuidar de máquinas com distúrbios produtivos visando adequá-las ao mercado, mas podem ser completamente inadequadas para cuidar de almas, em busca de realizações, sentido e propósito existencial.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">O cérebro humano, enquanto sistema biológico complexo, opera como uma máquina eletro-coloidal orientada para a homeostase. Ele processa incessantemente dados bioquímicos, sinais elétricos neuronais, estímulos sensoriais e padrões cognitivos, mobilizando energia vital para mitigar desequilíbrios — desde a regulação fisiológica até o alívio de angústias existenciais.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Sob essa ótica, sua função primordial assemelha-se à de um algoritmo: identificar conflitos (sejam emocionais, como dúvidas e incertezas, ou físicos, como a fome ou disfunções orgânicas) e buscar soluções que reduzam o sofrimento, priorizando um estado de repouso e economia energética direcionado para a entropia.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">É uma engrenagem voraz que consome 25% da glicose e do oxigênio do organismo, apesar de pesar apenas 2% do peso corporal, em sua essência, anseia por certezas, gratificação e recompensas dopaminérgicas e serotoninérgicas — <strong>um porto seguro prazeroso contra a turbulência da existência.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-contexto-a-inteligencia-artificial-ia-surge-como-ferramenta-promissora-para-lidar-com-aspectos-mecanicos-da-mente" style="font-size:20px">Nesse contexto, a inteligência artificial (IA) surge como ferramenta promissora para lidar com aspectos mecânicos da mente.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Sistemas baseados em <em>machine learning</em> (aprendizado de máquina) podem mapear padrões de pensamento, oferecer respostas rápidas a crises de ansiedade ou até mesmo simular diálogos terapêuticos, replicando técnicas de terapia cognitivo-comportamental.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">No entanto, seu mecanismo é limitado pela própria natureza de sua programação: <strong>opera dentro de parâmetros binários</strong> (certo/errado, problema/solução) e visa, acima de tudo, à eficiência. Para a IA, a homeostase é um fim em si mesma — uma equação a ser resolvida. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-isso-do-ponto-de-vista-da-psicologia-analitica-de-carl-gustav-jung-ela-pode-ser-eficiente-na-direcao-redutiva-causal-mas-muito-limitada-para-a-ampliacao-prospectiva-sintetica-que-visa-o-para-que-ao-inves-do-porque-das-angustias-e-sintomas" style="font-size:19px"><strong>Por isso, do ponto de vista da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, ela pode ser eficiente na direção redutiva causal, mas muito limitada para a ampliação prospectiva sintética, que visa o para que ao invés do porquê das angústias e sintomas.</strong></h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Aqui reside o paradoxo. Se, por um lado, a busca por equilíbrio é vital para a sobrevivência, por outro, a dimensão espiritual e criativa do ser humano transcende a mera resolução de problemas.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">A<strong> alma</strong> — termo aqui usado simbólica e metaforicamente para representar a Psique com sua <strong>subjetividade</strong> profunda, a <strong>consciência reflexiva </strong>e a <strong>busca por significado </strong>— <strong>não se nutre de respostas prontas.</strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ela-habita-justamente-nos-intersticios-das-incertezas-nas-perguntas-que-nao-cabem-em-algoritmos-na-coragem-de-enfrentar-o-caos-para-germinar-novas-formas-de-existir" style="font-size:19px">Ela habita justamente nos interstícios das incertezas, nas perguntas que não cabem em algoritmos, na coragem de enfrentar o caos para germinar novas formas de existir.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">A homeostase, quando transformada em objetivo absoluto, converte-se em inércia: um <strong>conforto estagnado</strong> que suprime a inquietude necessária para a transformação interior. </p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">A psicoterapia tradicional, ainda que utilize técnicas estruturadas, fundamenta-se na relação humana — um espaço onde vulnerabilidades são acolhidas sem julgamento, onde o silêncio tem peso e onde a contradição é permitida e até necessária para que aconteça a síntese da função transcendente.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Um terapeuta não apenas &#8220;processa&#8221; informações, mas analisa e amplia nuances simbólicas, trabalha com a transferência e a contratransferência, e reconhece que o crescimento muitas vezes emerge do desconforto e da angústia, que é a mola propulsora de toda produção criativa da humanidade expressa nas ciências, nas artes e nas religiões.</strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">A IA, por mais avançada, <strong>carece de presença e da capacidade simbólica</strong>: não sente, não tem história pessoal, não compartilha da condição mortal que nos une como humanos, não estabelece vínculos empáticos e amorosos. Suas respostas, ainda que precisas, são desprovidas do <strong>ethos</strong> e <strong>alma </strong>que transforma um diálogo em encontro genuíno. </p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Além disso, a espiritualidade — independentemente de crenças religiosas — pressupõe um movimento expansivo. Criatividade, autotranscedência e conexão com o mistério exigem rupturas com a zona de conforto homeostática. Enquanto a IA busca otimizar rotas predefinidas, a jornada da alma envolve perder-se para reencontrar-se, questionar certezas e abraçar a impermanência e as dúvidas. Não por acaso, mitos e tradições espirituais celebram a jornada do herói, aquele que se entrega com fé no seu caminho empírico e errante, e não a do administrador de conflitos, baseado em cálculos estatísticos. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-conclui-se-portanto-que-a-ia-pode-ser-uma-aliada-na-gestao-de-sintomas-ou-no-apoio-inicial-a-crises-mas-falha-ao-reduzir-a-complexidade-humana-a-variaveis-programaveis" style="font-size:19px">Conclui-se, portanto, que a IA pode ser uma aliada na gestão de sintomas ou no apoio inicial a crises, mas falha ao reduzir a complexidade humana a variáveis programáveis.</h2>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>Cuidar da alma</strong> — com suas sombras, ambiguidades e aspirações infinitas — exige mais do que eficiência: exige imaginação, poesia, paradoxo e, sobretudo, um olhar que reconheça no outro não um sistema a ser reparado, mas um universo a ser desvendado.</p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4">Enquanto a inteligência artificial lida com máquinas (incluindo o cérebro como hardware) focada nas evidências reducionistas, mecanicistas e causais, a psicoterapia e a medicina autênticas atuam com <strong>arte e alma</strong> — território exclusivo de quem ousa navegar, sem mapas, pelos abismos e estrelas que nos habitam, dando espaço para que o inconsciente, povoado de arquétipos, complexos e sombra, contribua com a consciência do ego.</p>



<p style="font-size:19px"><strong>Esta reflexão não nega o potencial da IA como ferramenta auxiliar, mas alerta para o risco de confundirmos &#8220;saúde mental&#8221; com &#8220;controle de danos&#8221;.</strong></p>



<p style="font-size:19px;line-height:1.4"><strong>O que nos torna humanos é justamente aquilo que nenhum código pode capturar, a percepção do medo, do desejo de liberdade, do envelhecimento, da morte, da solidão e da busca de sentido e significado existencial, que não são vivências possíveis para nenhum tipo de máquina</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="A Inteligência Artificial e os limites nos cuidados da Alma: Psicoterapia e Espiritualidade" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/rrB0UcXn_4M?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
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<p style="font-size:20px;line-height:1.4"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi</a></strong><br><strong>Analista Didata do IJEP</strong></p>



<p style="font-size:22px"><strong>Canais IJEP:</strong></p>



<p style="font-size:19px"><strong>Saiba mais sobre nossos Cursos, Congressos e Pós-graduações</strong>&nbsp;com inscrições abertas: Psicologia Analítica, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas, matrículas abertas –&nbsp;<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a></p>



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		<title>Ética na Umbanda: a Responsabilidade do Sacerdote e o Encontro com o Si-Mesmo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/etica-na-umbanda/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elaine Cristina Bedin]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Sep 2023 13:53:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciências da Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Religião]]></category>
		<category><![CDATA[cabloco]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sacerdote]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8073</guid>

					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, exploraremos a importância da ética na prática religiosa da Umbanda, com foco na responsabilidade do sacerdote. Descubra como a religião, nascida da fusão de várias tradições, promove valores espirituais e o encontro com o Si-Mesmo. Abordaremos questões éticas, o papel do sacerdote como curador, a relação com o poder, e a necessidade de integração das sombras para uma prática religiosa genuína e transformadora.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>A Umbanda é uma religião nova, ainda em formação, que surgiu do Sincretismo religioso cristão, Kardecismo, religiões africanas e pajelança indígena. É</em> <em>uma religião puramente brasileira na qual, apesar de suas bases serem adaptadas de outras religiões, os valores estão arraigados no inconsciente coletivo do brasileiro</em>.<em> </em></p>



<p><em>Como falar em “cura” e o poder que é designado ao Sacerdote sem antes falar da espiritualidade, da importância da corrente mediúnica e da missão de um verdadeiro Sacerdote ou Dirigente de um terreiro de Umbanda?</em> <em>Qual o caminho a ser trilhado por esses indivíduos diante da missão de vida que lhes foi herdada?</em></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-r-ubens-saraceni" style="font-size:17px">Segundo R<strong>ubens Saraceni</strong>:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“(&#8230;) neste mesmo inconsciente religioso coletivo estão presentes valores religiosos do povo nativo que aqui já vivia há milhares de anos, assim como estão presentes valores religiosos antiquíssimos dos povos africanos que para cá foram trazidos desde o início do século XVII.” </p>
<cite>SARACENI, 2012, p.11</cite></blockquote>



<p>A Umbanda está fundamentada nos <strong>Orixás</strong> Africanos trazidos pelos negros, onde faziam seus rituais nas senzalas. O que, além de dar continuidade aos seus cultos de Candomblé e fortalecer sua fé, era um modo de diversão e união entre os povos.</p>



<p>A <strong>pajelança indígena</strong> também é de grande importância para a Umbanda. Além de os pajés serem respeitados por sua sabedoria, lhes era designada a função de encaminhar os maus espíritos para garantir o equilíbrio da tribo.</p>



<p>O que aproximou a doutrina <strong>Kardecista</strong>, vinda da Europa, à Umbanda foi a experiência religiosa da incorporação e a comunicação mediúnica com os espíritos. Segundo a historiadora <strong>Juliana Bezerra</strong> (PUC-RJ), a Umbanda é uma religião surgida nos subúrbios do Rio de Janeiro, em 15 de novembro de 1908, na qual Zélio Fernandino de Moraes, nascido em São Gonçalo/RJ, teria incorporado o <strong>Caboclo das Sete Encruzilhadas</strong>. Esse fato foi um marco para o surgimento de uma nova religião, a Umbanda, uma religião monoteísta onde seu Deus supremo é <strong>Olorum</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-atraves-da-fala-do-caboclo-das-sete-encruzilhadas-iniciou-se-uma-nova-religiao-e-o-culto-espiritual-nos-terreiros-de-umbanda" style="font-size:23px">Através da fala do Caboclo das Sete Encruzilhadas iniciou-se uma nova religião e o culto espiritual nos terreiros de Umbanda:</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“Se julgam atrasados estes espíritos dos pretos e dos índios, devo dizer que amanhã estarei em casa deste aparelho, para dar início a um culto em que esses pretos e índios poderão dar sua mensagem, e, assim, cumprir a missão espiritual que a eles foi confiada. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados. E, se querem saber o meu nome, que seja este: Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque não haverá caminhos fechados para mim.”</p>
<cite> CORRAL, 2010, p. 11</cite></blockquote>



<p>Muito se discute a respeito da <strong>etimologia</strong> da palavra “umbanda” e seus <strong>significados</strong>. Em uma vertente esotérica se define como sendo de origem sânscrita. Outra afirma que a palavra se forma a partir de ajustes de princípios adâmicos ou vatâmicos presentes na escrita ariana e na linguagem védica, expressada inicialmente como Aumbhandhan, referente à normas e ensinamentos sobrenaturais.</p>



<p>Existe ainda uma corrente mais histórica, que coloca o vocábulo como sendo proveniente do grupo linguístico de tradição Bantu (OLIVEIRA E JORGE, 2013). Especificamente dos dialetos umbundo, kimbundo e kicongo, derivando-se da palavra kimbanda, que recebeu no processo de constituição histórico, no Brasil. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“Denominações como Quimbanda, Quibanda, Embanda, Banda, fazendo referência ao chefe supremo do culto; ao feiticeiro; ao médico; ao adivinho por vezes; ou ao espaço de macumba ou mesmo o seu ritual religioso.” </p>
<cite>SILVA, 1995</cite></blockquote>



<p>Para outros, a palavra Umbanda deriva de “<strong>m’banda</strong>”, que em kimbundu significa sacerdote ou curador&#8221;, sendo &#8220;<strong>onde todos os praticantes são um templo vivo no qual os Sagrados Orixás se manifestam</strong>, assim como todos os nossos amados guias espirituais.” (SARACENI, 2018, p. 21).</p>



<p>Enfim, a Umbanda surgiu da necessidade de os homens resgatarem sua <strong>fé</strong> e serem auxiliados em suas necessidades. Restabelecendo sua conexão com o Sagrado onde, através das consultas espirituais, os fiéis encontravam acolhimento e a “cura” temporária para suas “doenças”.</p>



<p>A Umbanda, através de sua história, conseguiu unir três grandes povos das vertentes religiosas: o negro, o índio e o europeu, salvo que ela é uma religião tipicamente brasileira, onde cada um de seus “guias espirituais” tem suas raízes enfincadas em nossa terra e seus médiuns trabalham para eles. A Umbanda não tem discriminação de raça, cor e gênero, ela acolhe e traz a quem a procura amor e conforto espiritual, dentro do merecimento de cada um. Como dito, a palavra umbanda significa sacerdote ou <strong>curador</strong>, ou seja, a a<strong>rte de curar</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-quem-possui-a-arte-de-curar" style="font-size:25px">Quem possui a “arte de curar”?</h2>



<p>Quem possui a arte de curar? Através da Psicologia Analítica podemos fazer uma pequena ampliação a esse respeito. Ao sacerdote de Umbanda cabe a responsabilidade de conduzir o terreiro, como também, segundo o autor citado acima, o poder da cura. Além de todas as incumbências de um Sacerdote, que conduz um terreiro de Umbanda, ele ainda tem o dever e o poder de curar?</p>



<p>Segundo o autor Saraceni: “<strong><em>na Umbanda o sacerdócio é uma missão, só consegue dirigir uma tenda quem traz essa missão, pois esta também é dos guias espirituais</em></strong>” (SARACENI,<ins> </ins>2016, p. 25).</p>



<p>Se essa missão de vida lhes é dada desde o nascimento, e para tal prática terão a ajuda e orientação dos guias espirituais, como pode um Sacerdote se apropriar desse poder e fazer uso da espiritualidade para controlar e manipular seus fiéis? Infelizmente, ainda temos muitos líderes religiosos que utilizam do Código de Ética da Umbanda a favor do seu próprio benefício e não da espiritualidade.</p>



<p>No livro <strong>Psicologia do Inconsciente</strong>, <strong>Jung</strong> faz uma breve reflexão sobre a teoria dos <strong>Complexos</strong>, onde cita que o amor e o poder são opostos entre si e necessários para o equilíbrio da nossa psique.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:16px">“Estou mais do que convencido de que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver tensão entre contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto da atitude consciente. (&#8230;) o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a <strong>vontade de poder</strong>. Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro.” </p>
<cite>JUNG, OC 7/1, p.65</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-existem-muitas-maneiras-de-pensarmos-em-sombra-e-em-umbanda" style="font-size:22px">Existem muitas maneiras de pensarmos em sombra e em Umbanda </h2>



<p>A priori, precisamos olhar para o lado sombrio desse Sacerdote ao qual é dado o poder de cura. Se pensarmos em sombra como tudo aquilo que foi negado, nossos conteúdos desconhecidos, reprimidos e recalcados, podemos chegar a um indivíduo que possui um desconhecimento de si próprio e doentio, que lhe resta apenas cumprir o Código Moral da Umbanda e não a verdadeira ética.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-etica-e-moral-na-umbanda">Ética e Moral na Umbanda</h2>



<p>Para S<strong>imone Magaldi</strong>, <strong>Ética </strong>é aquela que vem do Self, vem ao encontro da nossa missão de vida, da nossa alma. Podemos associá-la a arte de plantar o bem e que vai muito além do tempo e do espaço, é puramente espiritual. Enquanto <strong>Moral</strong> é o conjunto de práticas, costumes e convenções sociais regidos por algum princípio comum, a <strong>Ética</strong> seria a perspectiva teórica que rege um determinado sistema moral na visão filosófica.</p>



<p>A <strong>moral</strong> vem do Ego, depende do tempo, lugar, costumes e leis onde o indivíduo vive. Já a Ética vai além do Ego, aponta para uma realidade psíquica que transcende, é um mergulho ao nosso profundo interior e que está além do simples cargo ocupado ou de uma mera persona. Pensar em Ética e viver a Ética por um Sacerdote de Umbanda está em <strong>assumir sua verdadeira missão de vida e praticar seu dom herdado da espiritualidade</strong>.</p>



<p>Esse aspecto, de ir além, é o verdadeiro chamado do Self. Não importa como chamemos Self: Jesus, Deus, Oxalá, Daimon, Eu-Superior, entre os outros citados em diferentes obras e religiões. Não importa também onde o coloquemos, quer dentro de nós, nas alturas ou nas profundezas, é ele quem nos <strong>orienta</strong> e nos encaminha para o tão desejado <strong>Processo de Individuação</strong>. A ele devemos todo o nosso respeito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-jung-o-homem-vive-nos-limites-entre-dois-mundos-no-mundo-material-e-no-mundo-espiritual-externo-e-interno-fisico-e-psiquico-um-verdadeiro-conflito" style="font-size:19px">Para Jung o homem vive nos limites entre dois mundos, no mundo material e no mundo espiritual, externo e interno, físico e psíquico, um verdadeiro conflito.</h2>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:15px">“Quem quiser conhecer a psique humana (&#8230;) o melhor a fazer seria pendurar no cabide as ciências exatas, despir-se da beca professoral, despir-se do gabinete de estudos e caminhar pelo mundo com um coração de homem: no horror das prisões, nos asilos de alienados e hospitais, nas tabernas dos subúrbios, nos bordéis e casa de jogo, nos salões elegantes, na Bolsa de valores, nos “meetings’ socialistas, nas igrejas, nas seita predicantes e extáticas, no amor e no ódio, em todas as formas de paixão vividas no próprio corpo, enfim, em todas as experiências, ele encontraria uma carga mais rica de saber do que nos grossos compêndios.”</p>
<cite>JUNG, 2014, p. 112</cite></blockquote>



<p>Pensando na responsabilidade não apenas dos Sacerdotes, mas que toda corrente mediúnica tem ao lidar com pessoas que estão em busca de fé, acolhimento e auxílio é preciso muito cuidado, autoconhecimento e consciência para não ultrapassar os limites entre os dois mundos e para se manter dentro da ética e da moral pessoal e fundamentada nos princípios da Umbanda.</p>



<p>Entre os princípios fundamentais da Umbanda está a compreensão e respeito aos <strong>Orixás</strong>, onde o ponto de força de cada um deles se encontra na <strong>natureza</strong> que aponta à necessidade de se estabelecer uma relação de respeito para com ela.  Através das inter-relações entre os seres vivos, incluindo recursos encontrados nos reinos vegetal, mineral e animal, é onde se manifesta o <strong>Sagrado</strong> na Umbanda, o princípio da existência da vida.</p>



<p>Na casa onde frequento, temos a dádiva de termos um Sacerdote que apresenta um discurso muito interessante: “<strong><em>enquanto estivermos presentes nesse espaço sagrado, estaremos trabalhando com amor, respeito e principalmente, dentro dos princípios e ética da Umbanda, do contrário não temos o porquê de estarmos aqui</em></strong>”. Uma fala um tanto reflexiva!</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-partir-das-citacoes-de-jung-e-do-sacerdote-acima-mencionado-observamos-a-importancia-de-os-trabalhos-espirituais-serem-realizados-com-amor-etica-e-respeito-ao-proximo" style="font-size:19px">A partir das citações de Jung e do sacerdote acima mencionado, observamos a importância de os trabalhos espirituais serem realizados com amor, ética e respeito ao próximo.</h2>



<p><strong><em>Afinal</em></strong>, <strong><em>amor e poder, apesar de serem opostos, caminham lado a lado</em>. </strong><em>Basta unilateralizarmos, ou seja, nos desequilibrarmos, para o Ego entrar em conflito com o Self e gerar inúmeras e diferentes reações em cada indivíduo. </em></p>



<p>Quantos sacerdotes, seguindo a hierarquia da Umbanda, confiam a organização de suas casas para outros médiuns, Pais Pequenos e Ogans, que ao invés de utilizar a sua mediunidade ou força espiritual a favor do terreiro e seus adeptos, embriagam-se do poder e renegam o verdadeiro chamado do Self? Assim o conflito instala-se e inicia-se um processo de dominação de território e poderio. Reverberando as consequências na corrente mediúnica e até mesmo nos consulentes.</p>



<p><strong>Quem fala por essas pessoas? </strong>Seus egos inflados? E quais são as consequências para esses consulentes? Quantas pessoas procuram a Umbanda para iniciar um processo de cura e de transformação de suas doenças e acabam criando outras doenças em função desse conflito e do abuso de poder desses líderes religiosos e até mesmo dos médiuns do terreiro?</p>



<p>Nos últimos tempos, observa-se muitos líderes religiosos que apenas cumprem seus papéis e funções sacerdotais; fazem uso da sua mediunidade e da espiritualidade que lhe foi designada para controlar e manipular seus fiéis. Utilizam o Código de Ética a favor do seu próprio benefício, promovendo discórdia entre os médiuns do terreiro, gerando insegurança, tendo como consequência desequilíbrio da corrente mediúnica que, além de não sustentar os trabalhos espirituais, sofrem ataques de espíritos obsessores.</p>



<p>Os consulentes que vem à procura de acolhimento e transformação, saem prejudicados mentalmente, emocionalmente e espiritualmente, sentindo-se marginalizados. Esses líderes religiosos se refugiam em seus próprios ideais, adotando comportamentos nobres, egocentristas que mascaram seus conflitos, adotando condutas violadoras. </p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-sombra-existente-no-ser-humano-nao-deve-ser-combatida-e-renegada-mas-integrada-a-sua-realidade-existencial" style="font-size:22px">A sombra existente no ser humano não deve ser combatida e renegada, mas integrada a sua realidade existencial.</h2>



<p><em>A</em> <em>sombra possui um papel fundamental no equilíbrio entre o eixo Ego e Self</em>, <em>que resulta na unificação dos polos e a cisão existente, deve avançar para a sua integração, para uma comunhão. </em></p>



<p>Conflitos e poder podem gerar insegurança em seus adeptos que &#8211; ao invés de encontrar amor, acolhimento e a transformação desejada &#8211; encontram pessoas, com seu <strong>Ego inflado</strong>, que acentuam ainda mais seus conflitos internos que, muitas vezes, vão contra a sua própria ética.</p>



<p>Como citado acima, o Sacerdote de Umbanda possui inúmeras funções dentro de um terreiro, tais como: “coordenar e orientar os médiuns, batizá-los, casá-los, ministrar cultos religiosos e amoldar o caráter e a moral deles de acordo com seus princípios religiosos e os da sociedade que formam e pertencem”. (SARACENI, 2016, p. 222).</p>



<p>Além disso, é responsabilidade do sacerdote umbandista adaptar seus princípios religiosos às leis civis e à constituição do seu país, senão confundirá a mente de seus fiéis, assim como colocará em confronto (&#8230;) (Ibid, p. 223).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-quantas-sao-as-responsabilidades-exigidas-de-um-sacerdote-na-umbanda" style="font-size:18px">E quantas são as responsabilidades exigidas de um sacerdote na Umbanda!</h2>



<p>Devemos lembrar sempre que antes de ser um sacerdote ele é um <strong>ser humano</strong>, instável, inconstante e que deve estar sempre atento ao seu interior e revendo suas posturas diante da vida e de seu dia a dia dentro do terreiro. E que além dele, não menos importante, existem outras pessoas para a constituição e sustentação da egrégora do terreiro, os médiuns.  </p>



<p>Ao médium de uma corrente mediúnica, “<strong><em>dele também é exigido que purifique seu íntimo, que reformule seus antigos conceitos a respeito da religiosidade e que se porte dignamente, de acordo com o que dele esperam os orixás sagrados, que o ampararão daí em diante</em></strong>” (VIEIRA E SARACENI, 2006, p.34).</p>



<p><strong>Quantas exigências para um indivíduo que exerce a função de curador</strong>. Que além de carregar a responsabilidade de “curar” deve também preparar os médiuns para estarem prontos para receber os consulentes e, principalmente, ajudá-los a trazer consciência a sua função e lidar com seu lado sombrio.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-evolucao-da-consciencia-na-umbanda" style="font-size:20px">Evolução da consciência na Umbanda</h2>



<p>Segundo Saraceni, “<strong><em>a Umbanda é uma religião espiritualista que ensina que a vida é eterna e que a nossa curta passagem aqui no plano material destina-se à evolução, ao aperfeiçoamento e à conscientização dos espíritos</em></strong>.” (2016, p. 27).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p style="font-size:16px">“…a consciência é também relativa, pois abrange não somente a consciência como tal, mas toda uma escala de intensidade da consciência. Entre o “eu faço” e o “eu estou consciente daquilo que faço” há não só uma distância imensa, mas algumas vezes até mesmo uma contradição aberta. Consequentemente existe uma consciência na qual o inconsciente predomina, como há consciência em que domina a autoconsciência.” </p>
<cite>JUNG, 2013, p. 135</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-dificil-uma-situacao-muito-delicada-e-conflitante-para-o-medium-e-principalmente-para-os-sacerdotes" style="font-size:17px">Difícil? Uma situação muito delicada e conflitante para o médium e principalmente para os Sacerdotes.</h2>



<p>A nossa evolução psíquica e espiritual depende do nosso autoconhecimento e de como vivemos as nossas sombras, se acolhemos ou reprimimos. Essa evolução estende-se a todos os indivíduos inclusive a líderes espirituais, dirigentes e sacerdotes de Umbanda ou de qualquer outra religião.</p>



<p>Afinal, a função que lhes foi atribuída pela espiritualidade é a de proporcionar aos seus adeptos momentos de reflexão, que os levem a uma conexão com o Divino, com o Sagrado, o <em>Religare, </em>com sua verdadeira essência e não apenas com as vontades do Ego.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-transformacao-nao-deve-depender-da-religiao-e-sim-da-verdadeira-conexao-com-seu-eu-interior-com-sua-verdadeira-essencia" style="font-size:18px">A transformação não deve depender da religião e sim da verdadeira conexão com seu Eu interior, com sua verdadeira essência.</h2>



<p>Ao Sacerdote são designadas diferentes e difíceis incumbências, responsabilidades e o dever de “cura”. <strong>A cura de quem cura ou de quem é curado</strong>? O trabalho de reflexão sobre a responsabilidade dos médiuns, consulentes, de si mesmo e a integração das sombras também não é um Ato de Cura? </p>



<p>O importante diante de todas essas reflexões é olharmos para dentro e buscarmos a nossa verdadeira essência, nossa natureza interior, a verdadeira integração corpo- mente- espírito, praticar e viver a religiosidade, o encontro com o Sagrado dentro de nós.</p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/elaine-cristina-bedin/">Elaine Bedin &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">E. Simone Magaldi &#8211; Fundadora e Analista Didata IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:22px"><strong>REFERÊNCIAS:</strong></h2>



<p>BANDEIRA, Armando C. O que é Umbanda. São Paulo: Eco,1970.</p>



<p>BEZERRA, Juliana.&nbsp;Umbanda.&nbsp;Toda Matéria,&nbsp;<em>[s.d.]</em>. Disponível em: https://www.todamateria.com.br/umbanda/. Acesso em:&nbsp;25 jun. 2023</p>



<p>CORRAL, Janaina A. As Sete Linhas da Umbanda. São Paulo: Universo dos livros, 2010.</p>



<p>JUNG, C. G. O Eu e o Inconsciente.10ª ed. Petrópolis, Vozes, 1987.</p>



<p>JUNG, C. G. A natureza da psique.&nbsp; 10 ª Ed. Petrópolis: Vozes, 1984</p>



<p>JUNG, C.G. A energia psíquica<strong>.</strong> 11ª. ed. Petrópolis: Vozes, 2014.</p>



<p>JUNG, C.G. Psicologia do Inconsciente.24. ed. Petropolis: Vozes, 2014.</p>



<p>OLIVEIRA, Irene Dias de; JORGE, E. F. C. Espiritualidade umbandista: recriando espaços de inclusão. In: Revista Horizonte, Belo Horizonte, v. 11, n. 29, 2013, p. 29-52.</p>



<p>SARACENI, Rubens. Umbanda Sagrada: religião, ciência, magia e mistérios. 6.ed-. São Paulo: Madras, 2012.</p>



<p>SARACENI, Rubens. Código de Umbanda/ Espíritos Diversos. .7.ed.- São Paulo: Madras,2018.</p>



<p>SARACENI, Rubens. Tratado Geral da Umbanda.4.ed.- São Paulo: Madras,2016.</p>



<p>SILVA, Vagner G. Orixás da metrópole. Petrópolis: Vozes, 1995.</p>



<p>VIEIRA, Lurdes de Campos; SARACENI, Rubens. Manual doutrinário, ritualístico e comportamental umbandista. São Paulo: Madras, 2006.</p>



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<iframe title="Artigo novo: Ética na Umbanda: a Responsabilidade do Sacerdote e o Encontro com o Si-Mesmo" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/WDJEmcuuvcc?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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		<item>
		<title>Mudança de comportamento como chave para a busca da saúde integral – corpo, mente e alma</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mudanca-de-comportamento-como-chave-para-a-busca-da-saude-integral-corpo-mente-e-alma/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcella Ferreira]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Dec 2022 09:16:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Estresse]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[corpo mente e alma]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[saúde]]></category>
		<category><![CDATA[saúde integral]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para a compreensão do conceito de saúde integral, devemos lembrar que nós somos um sistema complexo que para funcionar precisa estar em harmonia com todas as pequenas partes, órgãos, funções e emoções. Esta engrenagem de corpo – alma – mente precisa estar em equilíbrio para a saúde se instalar no nosso corpo, seja no campo físico ou mental. </p>
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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>“A maior batalha que travará com a sua saúde não será contra o corpo; será contra a mente”&nbsp;&#8211; (Dr Suhas Kshirsagar)</p>
</blockquote>



<p>Para a compreensão do conceito de saúde integral, devemos lembrar que nós somos um sistema complexo que para funcionar precisa estar em harmonia com todas as pequenas partes, órgãos, funções e emoções. Esta engrenagem de corpo – alma – mente precisa estar em equilíbrio para a saúde se instalar no nosso corpo, seja no campo físico ou mental.&nbsp;</p>



<p>Tanto na visão da Psicossomática quanto no Ayurveda (entre tantas outras terapias que compartilham a visão da saúde integral) corpo e mente não são aspectos que se separam quando falamos sobre saúde nem sobre o processo de adoecimento. Se temos a formação de sintomas, temos um desequilíbrio neste nosso sistema integral, não importando o local primário da manifestação dos primeiros sinais. Jung aborda a ligação da saúde do corpo e psíquica em suas obras completas:</p>



<p>“Um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos ao corpo, da mesma forma que, inversamente, um sofrimento corporal pode afetar a psique; pois a psique e o corpo não estão separados, mas são animados por uma mesma vida. Assim sendo, é rara a doença corporal que não revele complicações psíquicas, mesmo quando não seja psiquicamente causada” (Jung, 2012, §194)</p>



<p>Desta forma, “há uma tendência para se considerar todas as doenças como sendo psicossomáticas, na medida em que elas envolvem a inter-relação contínua entre corpo e mente na sua origem, desenvolvimento e cura” (Ramos, 1994, p36). E é esta visão integral que nos faz entender como que a nossa rotina agitada e estressante proporciona uma desconexão com o nosso próprio corpo. Não percebemos mais quando estamos chegando ao nosso limite, quando precisamos descansar, quando algo não nos está fazendo bem e por isso, temos um prato cheio de sintomas aparecendo diariamente no nosso consultório ou mesmo nos encontros com amigos.&nbsp;</p>



<p>Não se tem mais idade limite nem pré-disposição genética para somatizar algo. Sintomas que são comuns nos dias de hoje – ansiedade, depressão, sobrepeso, alergias etc. – estão sendo encarados como algo normal. Só esquecemos que nem tudo que é comum é normal. Não é normal o corpo não ter energia para executar as tarefas do dia a dia, não é normal o corpo não conseguir descansar depois de um dia intenso de trabalho, não é normal sentir dores, não é normal se sentir angustiada a cada nova tarefa do dia. Não é normal viver em processo de adoecimento. Mas está muito comum.</p>



<p>Nosso corpo é um sistema complexo e inteligente que consegue por si só se autorregular para manter o estado normal de saúde e bem-estar. Mas sabemos também que nossa vida naturalmente irá nos desequilibrar pois nossas demandas diárias propõem também uma desordem a esta ordem. Logo, podemos entender que no exercício natural de saúde não devemos nos blindar diante da vida, mas deveríamos naturalmente voltar ao nosso equilíbrio saudável, funcionando dentro de cada realidade e possibilidades. Impossível achar que vamos ficar imunes a tudo o que acontece à nossa volta, mas devemos sempre voltar para o que seria o nosso estado natural saudável.&nbsp;</p>



<p>“Doença e saúde são conceitos singulares, pois se referem a um estado das pessoas, e não, como se costuma dizer hoje com frequência, a órgãos ou partes do corpo. O corpo nunca está só doente ou só saudável, visto que nele se expressam realmente as informações da consciência”. (Dethlefsen, 2007, p14)</p>



<p>Para ficar mais claro o meu raciocínio, vou dar alguns exemplos. Nem sempre vamos conseguir comer apenas alimentos orgânicos, frescos, preparados na hora com pouca gordura; nem sempre vamos conseguir estar em meio a natureza purificando nossos pulmões e acalmando nosso olhar; nem sempre será possível trabalhar numa carga horária que dê para desligar tudo e se preparar para relaxar junto com o pôr do sol; nem sempre conseguiremos dormir cedo para levantar dispostos e descansados cedinho na manhã; por isso precisamos ter consciência do nosso corpo e do que é saudável para conseguir auto regular essas condições, conseguindo fazer limpezas físicas e mentais, tanto externas quanto a nível celular. Você já deve ter lido inúmeras reportagens falando que para sermos saudáveis nós precisamos dormir no mínimo 8 horas diárias, certo? E se eu te disser que esta não é uma regra pois mais do que horas cronológicas, devemos nos certificar sobre a qualidade dessas horas – para a saúde, a qualidade tem que prevalecer em relação a quantidade de horas dormidas. Tem gente que precisa de 7 horas bem dormidas para se sentir disposto no dia seguinte, outras precisam de um pouco mais. Quantos adolescentes que dormem de 10 horas para mais acordam sem pique, desmotivados, sem fome&#8230;e dormiram mais do que as 8 horas mínimas recomendadas?&nbsp;</p>



<p>Cada um de nós tem um corpo que funciona melhor em condições específicas; cada corpo vai precisar se equilibrar ao ambiente, rotina, clima e emoção se quiser ter bem-estar mesmo em momentos em que a nossa rotina ideal não for possível.&nbsp;</p>



<p>Quando um sintoma se manifesta no corpo, fica mais fácil identificar e ir atrás de uma solução. Muitos tomam medicamentos para excluir aquele incômodo e não percebem que a melhora é pontual e normalmente volta – se não pior – da mesma forma que a última crise. Isso se dá pela cultura de olhar os sintomas e tratar apenas essas consequências. Nós tiramos a dor, nós paramos uma diarreia, nós anestesiamos uma emoção ruim e por aí seguimos até o próximo desconforto. Transformamos eventos agudos e pontuais – que serviriam para nos sinalizar que algo nos fez mal, que perdemos o nosso equilíbrio e, através dos sintomas, nosso corpo busca se auto limpar, autorregular, detoxificar como forma de recuperar a ordem, – em sintomas crônicos, perenes e profundos – demonstrando o agravamento desta desregulagem, passando de uma simples disfunção para uma lesão ou destruição celular.&nbsp;</p>



<p>Numa visão integral, devemos atuar na consequência (sintomas/ queixa) enquanto também buscamos a sua causa. Duas pessoas podem chegar e relatar os mesmos desconfortos, num quadro muito similar de queixa, porém, com causas totalmente diferentes. Como exemplo, podemos falar sobre a depressão. Nem toda depressão é causada por um desequilíbrio químico emocional, ela também pode ser causada por um desequilíbrio fisiológico no organismo. Além de ser desencadeada por situações psíquicas, já se tem evidencias que também podem ser provocadas pelo uso de alguns medicamentos ou por instabilidades hormonais e nutricionais. Mas, quando vamos pedir ajuda a algum médico ou quando recebemos o paciente em nosso consultório, vamos receber relatos de sintomas muito semelhantes. O trabalho de investigação da causa mudaria todo o tratamento, inclusive, a eficácia da resposta ao tratamento já que atuaríamos exatamente no que provoca e não apenas no que incomoda.&nbsp;</p>



<p>É certo que, quando acertamos o gatilho de qualquer queixa – seja emocional ou física – tomamos consciência do que estamos fazendo ou do que deixamos de fazer para amenizar ou eliminar o desequilíbrio. Passamos a nos conhecer mais, a compreender o que de fato nos ajuda ou nos agride pedindo ações que provoquem mudanças necessárias para o nosso bem-estar. No entanto, é aqui que se encontra a maior das barreiras num processo de busca pela saúde: a mudança de comportamento. </p>



<p>Por mais que esteja claro que um determinado tipo de alimento nos traz desconforto, resistimos a tirar ele do nosso cardápio com justificativas infinitas para não ter que mudar. Quando torna-se evidente o quanto uma situação específica enfraquece o emocional e desperta gatilhos que levam à uma ansiedade, por exemplo, não é raro ver uma luta contra si próprio e seus sentimentos na decisão de não fazer escolhas, de não se proteger daquilo que mais o machuca, evitando a exposição ou um clima tenso com o outro, denunciando uma dificuldade em afastar tudo aquilo que fere nessas condições.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não basta querer eliminar um sintoma. Não basta decidir que não queremos mais conviver com algum desconforto emocional. É preciso ter consciência do nosso corpo (físico e emocional) e do que ele precisa para que as mudanças sejam de fato efetuadas. Sem este alinhamento, dificilmente conseguiremos mudar um comportamento já instalado.&nbsp;</p>



<p>“As pessoas supõem que podem recorrer apenas à força de vontade para mudar, que podem usar a mente para forçar o corpo a deixar os maus hábitos. Na verdade, seus hábitos funcionam ao contrário. Seu corpo lhe dá todo tipo de dica sobre do que realmente precisa, mas durante muitos anos você pegou essas dicas e as transformou em emoções subjetivas, sob a forma de anseios e hábitos. Para rompê-los, é preciso se sintonizar com o corpo e sua fonte de dados brutos.” (Kshirsagar, 2020, p46)</p>



<p>A chave de todo processo de cura está numa mudança de comportamento. E, para a gente conseguir mudar nossos hábitos, é preciso vencer as barreiras da mente, dos condicionamentos. Conforme explica o Dr Suhas, “se conseguir equilibrar seus pensamentos e escutar o seu corpo, você estará no quadro mental certo para mudar de vida”. (Kshirsagar, 2020, p45). Quando precisamos olhar para nosso emocional e mudar atitudes que sabemos que atuam nas nossas sombras, achamos difícil demais. Quando precisamos fazer ajustes pragmáticos de situações que influenciam diretamente no nosso organismo, justificamos o porquê de nos manter na situação. Se a mente não entender a importância de mudar e auxiliar esses processos – psíquicos ou físicos – e diariamente, com consciência, fazer escolhas que nos beneficiam, continuaremos a fazer a manutenção das consequências alimentando os padrões que provocam as causas de todo adoecimento.&nbsp;</p>



<p>“Por meio da autoconsciência, a mente pode usar o cérebro para gerar “moléculas de emoção” e agir sobre todo o sistema. Enquanto o uso apropriado da consciência pode tornar um corpo doente mais saudável, o controle inconsciente inapropriado das emoções pode causar muitas doenças (&#8230;).” (Lipton, 2007 p156)</p>



<p>O ideal ayurvédico – que pode ser adaptado a diversas outras linhas – de trazer para o cotidiano a análise do estilo de vida em que fomos criados, buscando consciência diária da nossa mente, do nosso corpo e das circunstâncias mutáveis precisa ser ensinado e treinado. Sem esta auto-observação, como vamos mudar padrões de comportamentos que nos levaram ao estado que nos encontramos hoje?</p>



<p>Nós não ficamos doentes da noite para o dia. Por pior que seja uma condição, se ela for pontual, não terá a capacidade de adoecer todo o sistema de forma crônica. A busca pela saúde e bem-estar se dá por tudo aquilo que fazemos diariamente, ao longo do tempo. Pequenas ações contínuas podem melhorar ou piorar um estado de saúde mais do que algo pontual. Podemos presenciar uma cena que nos abala emocionalmente de forma aguda e isso será mais fácil de olhar e trabalhar do que constantes pequenos abusos sofridos por uma pessoa ao longo de anos. Um dia de excessos com comidas e bebidas é mais fácil de manejar e restaurar do que uma vida inteira com hábitos nocivos e destrutivos. Mas só conseguiremos atuar numa melhora contínua se tivermos a mente forte o suficiente para instalar novos hábitos que mudarão o comportamento diário.&nbsp;</p>



<p>Como podem perceber, tudo influencia a nossa saúde. E para ter saúde, devemos cuidar do nosso corpo, da nossa mente, dos nossos pensamentos, dos nossos hábitos, dos lugares que frequentamos, das pessoas com que convivemos. Se quisermos levar uma vida saudável, devemos cuidar para que todos os pontos de contato sejam também saudáveis, deixando para as variáveis que naturalmente vão nos desorganizar apenas aquilo que não podemos mudar.&nbsp;</p>



<p>“Na última década, as pesquisas epigenéticas estabeleceram que os padrões de DNA passados por meio dos genes não são definitivos, isto é, os genes não comandam nosso destino! Influências ambientais como nutrição, estresse e emoções podem influenciar os genes ainda que não causem modificações em sua estrutura. Os epigeneticistas já descobriram que essas modificações podem ser passadas para as gerações futuras da mesma maneira que o padrão de DNA é passado pela dupla espiral”. (Lipton, 2007. p82)</p>



<p>Não são os nossos genes, nem as situações que tivemos que viver ao longo das nossas vidas que vão determinar o nosso futuro. Por mais que eles possam influenciar fortemente uma condição, nós podemos mudar e fazer novas escolhas, mudando assim sintomas e complexos que nos adoecem. Gosto muito da frase do Bruce Lipton aponta logo na apresentação do seu livro Biologia da Crença: “assim como cada célula, o destino de nossa vida é determinado não por nossos genes, mas por nossas respostas aos sinais do meio ambiente que impulsionam e controlam todos os tipos de vida”. (p.16)</p>



<p>Se eu não sou o resultado somente daquilo que me acontece, mas principalmente de como eu respondo àquilo que me acontece, posso trabalhar minha mente e meu comportamento para lapidar pouco a pouco a forma como vou responder aos eventos que me acontecem.&nbsp;</p>



<p>Apenas neste trabalho em conjunto, mente e corpo, meus hábitos cada vez mais conscientes serão a chave para a busca da saúde e do bem-estar, mesmo nos altos e baixos saudáveis da vida. Nosso comportamento será o resultado das nossas escolhas diárias e constantes. Mude seu comportamento e mude seu padrão de saúde.&nbsp;</p>



<p>Marcella Helena Ferreira &#8211; Analista junguiana em formação</p>



<p>Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata</p>



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</div></figure>



<p>Referências:</p>



<p>DETHLEFSEN, Thorwald<em>. A doença como caminho: uma visão nova da cura como ponto de mutação em quem um mal se deixa transformar em bem</em>. – São Paulo: Cultrix, 2007</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Psicologia do Inconsciente</em>. 21 ed.Vol. 7/1 – Petrópolis: Vozes, 2012</p>



<p>KSHIRSAGAR, Suhas.&nbsp;<em>Mude seus horários, mude sua vida</em>&nbsp;– Rio de Janeiro: Sextante, 2020</p>



<p>LIPTON, Bruce H.&nbsp;<em>A biologia da Crença: ciência e espiritualidade na mesma sintonia: o poder da consciência sobre a matéria e os milagres</em>&nbsp;– São Paulo: Butterfly Editora, 2007</p>



<p>RAMOS, Denise Gimenez.&nbsp;<em>A Psique do corpo: uma compreensão simbólica da doença</em>&nbsp;– São Paulo: Summus, 1994</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/mudanca-de-comportamento-como-chave-para-a-busca-da-saude-integral-corpo-mente-e-alma/">Mudança de comportamento como chave para a busca da saúde integral – corpo, mente e alma</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Racismo Religioso: uma das faces de um complexo cultural sombrio do Brasil</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/racismo-religioso-uma-das-faces-de-um-complexo-cultural-sombrio-do-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leila Montanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 11 Aug 2022 10:52:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[candomblé]]></category>
		<category><![CDATA[macumba]]></category>
		<category><![CDATA[preconceito religioso]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<category><![CDATA[racismo religioso]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo foi elaborado como uma ampliação da palestra apresentada no VII Congresso do IJEP pela professora e analista didata Santina Rodrigues, da qual participei junto aos meus colegas e membros em formação do IJEP:&#160;Erika Mendel,&#160;Isa Carvalho, Jacqueline Sá, Homero Mazzola e Tarsila De Níchile.&#160;O Congresso teve como tema os&#160;Complexos Culturais e a Sombra Contemporânea [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-black-color has-text-color">Este artigo foi elaborado como uma ampliação da palestra apresentada no VII Congresso do IJEP pela professora e analista didata Santina Rodrigues, da qual participei junto aos meus colegas e membros em formação do IJEP:&nbsp;Erika Mendel,&nbsp;Isa Carvalho, Jacqueline Sá, Homero Mazzola e Tarsila De Níchile.&nbsp;O Congresso teve como tema os&nbsp;<em>Complexos Culturais e a Sombra Contemporânea nas Artes, Ciências e Religiões</em>. O objetivo deste artigo é denunciar a violência histórica que tem sido infringida às religiões afro-brasileiras e discutir as bases psicológicas que estão por trás desta violência.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Segundo a&nbsp;Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH), do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos (MMFDH), em 2021 foram registradas 571 denúncias de violação à liberdade de crença em nosso país, mais do que o dobro (243) das denúncias registradas em 2020. De acordo com Vilela (2022) mais da metade dos ataques foram efetuados nos espaços religiosos conhecidos como “terreiros” de Umbanda e Candomblé, religiões de matriz africana. Olhando os dados em uma série histórica mais longa, podemos ver que esta violência não é&nbsp;<a>nova</a>, mas se mostra mais intensa, possivelmente em função da polarização política observada no Brasil recentemente. A esse respeito, reportagem da revista Carta Capital (2017) mostrou que houve “uma explosão de denúncias de intolerância religiosa”, que passaram de 15 casos em 2011 para 776 em 2016, segundo dados do Disque 100 do Governo Federal.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Entretanto, podemos dizer que, mais do que intolerância religiosa, estes ataques são exemplos de uma das faces do <strong>racismo</strong> <strong>estrutural</strong> que domina a sociedade brasileira desde suas origens históricas. Não podemos minimizar estes ataques, reduzindo-os a uma luta por adeptos entre religiões. Entendo que se trata de ataques a um segmento da sociedade brasileira marcado pela exclusão social, pois atacar as religiões de raízes africanas é o mesmo que renegar o passado histórico que deu origem a tais religiões no Brasil. Isso é maior do que “apenas” um preconceito contra uma religião específica.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Um dos motivos para essa situação pode ser associado ao avanço das religiões neopentecostais e a todo o contexto político social dos últimos anos que agravaram esta situação. O crescimento político das bancadas evangélicas em nível regional e nacional, além do apoio do poder executivo a esta linha religiosa, validam muitos dos atos de perseguição às religiões afro-brasileiras. Além disso, um determinado grupo de&nbsp;<a>igrejas evangélicas</a>&nbsp;utilizam modernas técnicas empresariais, como o uso da mídia televisiva,&nbsp;<a>rádio</a>&nbsp;&nbsp;e das redes sociais, além de técnicas de marketing e treinamento de seus pastores visando à expansão e prosperidade econômica das igrejas. Mas, para além deste cenário atual, entendo que a perseguição às religiões afro-brasileiras é histórica e remonta ainda ao nosso período de escravidão, como veremos a seguir.</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Religião como forma de resistência dos negros escravizados no Brasil.</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Segundo Trindade (2014, pág.48): “(&#8230;) na África, cada divindade (Orixá, Inkice, Vodun etc.) tem seus sacerdotes especializados, suas confrarias, seus conventos, seus locais de culto.” Não foi possível manter esta especialização no Brasil pois, ao serem capturados e escravizados para serem enviados ao Brasil, os africanos de diversas regiões e etnias foram misturados. Além disso, Trindade pontua que&nbsp;<a>“suas religiões, quaisquer que fossem, estavam ligadas a certas formas familiares ou de organização de clãs, a meios biogeográficos especiais, à floresta tropical ou à savana, a estruturas aldeãs e comunitárias”.&nbsp;</a>Junta-se a isso a prática dos fazendeiros no Brasil de comprar lotes de pessoas de diferentes etnias, preferencialmente que não tivessem nenhuma ligação de parentesco ou a mesma língua, com o objetivo de reduzir o risco de rebelião ou fugas. Segundo Ortiz:&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><a>Apesar</a>&nbsp;dos efeitos destrutivos que o tráfico e o sistema escravagista imprimiram nos costumes africanos, a memória coletiva negra conseguiu encarnar-se no solo brasileiro. Preserva-se desta forma o culto de grande parte dos deuses africanos, ao mesmo tempo em que reinterpretam-se práticas e costumes através de danças como o lundu, das embaixadas, dos reis congos. Pouco a pouco a herança africana se transforma assim em elementos culturais afro-brasileiros (apud TRINDADE, 2014, pág. 49).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Se a diversidade de culturas presentes nas senzalas brasileiras impossibilitou um culto específico, a crença nos Orixás se tornou um elo comum entre a maior parte das etnias. Com exceção dos negros mandingas, que eram muçulmanos, os demais acreditavam em Zambi (Deus) e nos Orixás. A forma e finalidade dos cultos também foi adaptada, pois na África tinham um caráter mais coletivo, sendo realizados em prol de toda a comunidade, para pedir abundância nas colheitas e também a fecundidade da terra e dos rebanhos. No Brasil, isso não fazia sentido, afinal, por que rezariam por aqueles que os aprisionavam e tratavam de modo tão violento? Para não chamar a atenção de seus algozes, os escravos aproximaram os Orixás dos santos católicos e os adaptavam às necessidades espirituais dos escravos. Um exemplo disso citado por Trindade é Ogum, um orixá que na África “era o patrono dos ferreiros, protetor das ferramentas agrícolas de ferro”, e que passou a ser reconhecido como o deus da guerra e da vingança, o protetor que os libertaria (TRINDADE, 2014, pág. 50).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Sabendo que a única ligação que tinham nas senzalas era a cor da pele e o fato de estarem escravizados, os africanos buscaram fortalecer e criar laços baseados na crença dos Orixás. Assim, à noite, quando os senhores brancos dormiam, grupos de escravos iam para as matas e, muitas vezes guiados por índios, que os apresentaram a “diferentes reinos da Natureza”, davam suas “<a>obrigações</a><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_ftn1"><sup>[1]</sup></a>” aos Orixás. Na mata, também eram realizadas novas iniciações ao culto e, para que não houvesse suspeita sobre esta práticas, o iniciado ia à igreja no dia seguinte. Essa prática se tornou um ritual utilizado até hoje, especialmente nos candomblés de Salvador, na Bahia.&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Se olharmos a evolução das leis que regem o tema “religião” ao longo do tempo, podemos entender como o estado brasileiro procurou conter a religiosidade advinda desta nova expressão religiosa nascida nas senzalas. Segundo Vaz (2021), a criminalização das religiões de matriz africana ocorreu antes mesmo de o Brasil possuir uma ordem jurídica própria, ainda durante a regência das Ordenações do Reino de Portugal. Durante a vigência das Ordenações Filipinas, que foram as últimas ordenações aplicadas no Brasil e que tiveram maior tempo de vigência (1603-1830), o Libro V (Dos Crimes), criminalizava a heresia, prevendo em seu título I as penas corporais, e em seu título III a feitiçaria, com a pena capital. Muitas pessoas negras escravizadas foram acusadas da prática de feitiçaria, devido a associação efetuada pelos seus “senhores”, que relacionavam seus ritos religiosos a prática da magia.&nbsp;&nbsp;(VAZ,&nbsp;<a>2022</a>&nbsp;).&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Já a Constituição de 1824 definiu o catolicismo como religião oficial do Império, mas garantiu a liberdade de culto de outras religiões, desde que exercido em ambiente doméstico e sem ostentação de templos (idem, 2022). O Código Criminal de 1830, por sua vez, em seu artigo 276, passou a considerar crime qualquer celebração pública, em casa ou edifício com forma exterior de templo, de cultos de outra religião que não fosse a oficial do Estado (idem,&nbsp;<a>2022</a>). A pena prevista para este tipo de crime era a de dispersão dos participantes do culto pelo Juiz de Paz, a demolição da forma exterior do templo, e multa a ser cobrada individualmente aos participantes dos cultos” (ibidem,&nbsp;<a>2022</a>).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Houve ainda um Decreto em 1832, que buscava manter o controle sobre as pessoas negras escravizadas e suas práticas religiosas, obrigando os escravos a se converterem à religião católica. O Código Penal de 1890, por sua vez, considerava o espiritismo como crime contra saúde pública, em seu artigo 157, e o curandeirismo, no artigo 158, práticas que eram consideradas como diretamente relacionadas às religiões de matriz africana”&nbsp;<a>(VAZ, 2022).&nbsp;</a>Até que, finalmente, a Constituição Republicana de 1891 estabeleceu a separação entre Estado e Igreja e revogou grande parte das restrições aos cultos não católicos.&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Porém, nem esta constituição conseguiu assegurar igual liberdade de crença e de culto às religiões afro-brasileiras. Em primeiro de fevereiro de 1912, em Alagoas, uma operação paramilitar conhecida como “Quebra” ou Operação Xangô destruiu os principais terreiros da capital, bem como seus objetos sagrados. Os líderes dos terreiros foram espancados em praça pública e esta violência se estendeu para o interior do estado, resultando num fenômeno de silenciamento dos rituais afro-brasileiros, conhecido como “xangô-rezado-baixo”, que descaracterizou os rituais, que passaram a ser realizados de maneira silenciosa, sem atabaques, sem os pontos cantados, nem as palmas&nbsp;<a>(RAFAEL, 2014).</a>&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Continuando a analisar a evolução das leis criminais e seu impacto na repressão às religiões de matriz africanas, temos, na segunda metade do século XX, o Código Penal de 1940, ainda vigente, que criminaliza o charlatanismo em artigo 283 e o curandeirismo no artigo 284, práticas que historicamente foram associadas às religiões afro-brasileiras. Além disso, na Paraíba, a lei 3.443, de 1966, determinava que sacerdotes e sacerdotisas das religiões de matriz africana se submetessem a exame de sanidade mental com emissão de laudo psiquiátrico, e na Bahia, a lei 3.097, de 1972, impunha o cadastramento dos terreiros nas Delegacias de Jogos e Costumes, exigência que foi abolida em 15 de janeiro de 1976, por meio do Decreto-Lei nº 25.095. Nesse período, era habitual a ostensiva repressão policial aos terreiros, com interrupção de atividades religiosas, prisão de filhas e filhos de santo, e apreensão de objetos sagrados&nbsp;<a>(VAZ, 2022).</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Com relação à apreensão de objetos sagrados, as religiões afro-brasileiras foram as únicas a terem seus objetos sistematicamente apreendidos ao longo da história brasileira. Entre 1891 e 1946 mais de 500 objetos de religiões de matriz africana, especificamente de Candomblé e Umbanda, foram apreendidos pela polícia do estado do Rio de Janeiro, apesar da Carta Constitucional de 1891, no Brasil República, já ter estabelecido o Estado laico e a liberdade de crença e culto&nbsp;<a>(idem, 2022).&nbsp;</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Em 1938, parte dessas peças formou um acervo tombado pelo então SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico Artístico Nacional, em documento nomeado a partir de uma lógica racista como “Coleção<strong>&nbsp;</strong>Museu de Magia Negra”, evidenciando a intolerância religiosa. Objetos sagrados para os povos dos terreiros foram apreendidos e encaixotados nas batidas policiais, sendo que somente em setembro de 2020 os objetos sagrados afro-brasileiros foram transferidos para o Museu da República, passando a compor o acervo Sagrado Afro-Brasileiro (CRUZ e PIVA,&nbsp;<a>2020</a>).&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Racismo religioso: um complexo cultural brasileiro.</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color">A teorização sobre complexos culturais aparece na teoria junguiana a partir das obras de Samuel Kimbles e Thomas Singer, dois analistas junguianos&nbsp;<a>de</a>&nbsp;São Francisco, que partiram da teoria dos complexos criada originalmente por C. G. Jung a partir dos estudos experimentais com o teste de associação de palavras, quando ainda trabalhava como psiquiatra no Hospital psiquiátrico Burghözli (JUNG, OC &#8211; vol.2<a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_ftn2"><sup>[2]</sup></a>). Esses analistas californianos agregaram o conceito de Inconsciente Cultural&nbsp;<a>(1990),&nbsp;</a>&nbsp;proposto anteriormente pelo médico e analista junguiano Henderson, que estudou e fez análise com Jung na década de 1920, para comporem a teoria dos Complexos Culturais.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Joseph Henderson, em seu artigo de 1990&nbsp;<em>The cultural&nbsp;<a>unconscious</a></em>&nbsp;<em>&nbsp;</em>traz para a psicologia analítica um novo conceito, o de Inconsciente Cultural, a partir de sua constatação de que havia um aspecto pouco explorado na teoria junguiana, que entendeu se tratar de um nível cultural da psique. O Inconsciente Cultural seria, então, uma camada intermediária entre o Inconsciente Pessoal e o Inconsciente Coletivo, teorizados inicialmente por Jung.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Para Henderson (apud CAMBRAY e CARTER (2020), o Inconsciente Cultural pode ser definido como:</p>



<p class="has-black-color has-text-color">U<a>ma área da memória histórica que fica entre o inconsciente coletivo e o padrão manifesto da cultura. Ele pode incluir essas duas modalidades, consciente e inconsciente, mas tem alguma espécie de identidade originada nos arquétipos do inconsciente coletivo que assiste na formação do mito e do ritual e que também promove o desenvolvimento dos indivíduos (HENDERSON, 1990, pág. 102 apud CAMBRAY e CARTER, 2020, pág. 263).</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color"><a>Singer e Kimbles&nbsp;</a><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_msocom_26">[SRdO26]</a>&nbsp;(apud CAMBRAY e CARTER, 2020), partiram da teoria dos complexos, concebida por Jung e a juntaram à teoria de Henderson sobre um Inconsciente Cultural para chegar a uma nova teorização referente aos Complexos Culturais. Segundo&nbsp;<a>Kimbles</a>&nbsp;(apud CAMBRAY e CARTER (2020):</p>



<p class="has-black-color has-text-color">U<a>m “complexo cultural” é um modo de descrever como crenças e emoções profundamente arraigadas operam na vida do grupo e dentro da psique individual, mediando o relacionamento de um indivíduo com um grupo, nação ou cultura específica (CAMBRAY e CARTER, 2020, pág. 271)</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Kimbles c<a>ontinua</a><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_msocom_30">[SRdO30]</a>&nbsp;, dizendo que “assim, o nível grupal da psique e o nível individual fazem simultaneamente sua contribuição para o senso do grupo e da experiência subjetiva individual” (apud CAMBRAY e CARTER, idem, idem).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Para Kimbles, os complexos culturais operam autonomamente abaixo de nossa consciência. São expressões de um fenômeno em que um complexo de grupo opera dentro do inconsciente cultural:</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Os&nbsp;<a>complexos culturais funcionam por indução psíquica. Eles criam uma ressonância entre as pessoas que produz um senso de familiaridade. Negativamente, eles funcionam por meio de signos linguísticos coletivos de tipo emocional, ultrapassando o pensamento e a reflexão, prontificando indivíduos e grupos à ação. (CAMBRAY e CARTER, 2020, pag. 272).</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">Kimbles pontua ainda que, embora os complexos culturais possam estar “positivamente envolvidos no senso de pertencimento do indivíduo e de sua identificação com seu grupo de&nbsp;<a>referência</a>” (KIMBLES apud CAMBRAY e CARTER, 2020, pag. 272), funcionando como um “centro nucleador” para a vida do grupo, podem também atuar negativamente, com base nesse pertencimento, gerando “estereótipos e toda uma psicologia da alteridade ameaçada” (idem, idem). Kimbles continua dizendo que “todo grupo tem um volume de imagens sobre aqueles que são diferentes. Esses diferentes são geralmente patologizados ou demonizados, mas raramente idealizados.” (Idem, apud CAMBRAY e CARTER, 2020, pag. 272).</p>



<p class="has-black-color has-text-color">É justamente esta atuação negativa de um determinado complexo cultural que pode levar à perseguição da expressão religiosa de um povo e, especificamente no Brasil, das religiões afro-brasileiras. Antes de ser brasileira, esta forma de expressão religiosa era africana e foi aprisionada em estereótipos que a consideravam como inferior. Toda sua forma&nbsp;de expressão – dança, utilização de tambores e oferendas – está ligadas à cultura de um povo que foi, para utilizar a expressão de Kimbles, demonizado, relacionado a práticas de charlatanismo, feitiçaria e criminalizado desde os seus primórdios.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Reginaldo Prandi (2007), em uma conferência sobre as religiões afro-brasileiras nas ciências sociais, nos conta que Roger Bastide divide com Pierre Verger o interesse pelos orixás no Brasil e na África. Segundo seu relato, Bastide concluiu que foi o candomblé da Bahia que permitiu aos negros escravizados chegarem às interpretações “mais&nbsp;decisivas sobre a recriação no Brasil de uma África simbólica capaz de atenuar as agruras da vida do negro na sociedade branca”.&nbsp;&nbsp;Isso caracterizou “num processo em que o templo (terreiro) aparece como sucedâneo do mundo africano que tinha ficado para trás, do outro lado do Atlântico”. (PRANDI, 2007, pág. 10)</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Prandi continua. dizendo que Bastide entende o candomblé, para o negro, como uma recriação de “um mundo ao qual ele podia, com certa regularidade, se retirar da sociedade branca opressiva e dominadora, uma pequena África fora da sociedade”.&nbsp;&nbsp;O terreiro podia ser entendido como substitutivo da perdida cidade africana e da família que não pôde ser refeita no Brasil nos moldes africanos, pois que:</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><a>O candomblé punha à disposição do negro brasileiro um mundo também negro, comunitário-familiar, justaposto ao mundo branco, de modo que o fiel pudesse passar de um mundo para o outro como se fossem dimensões ortogonais de uma mesma realidade, em que o não-religioso significava a adversidade a que o negro estava sujeito pela realidade histórica da escravidão (PRANDI, 2007, pág. 10).</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">A perseguição e a violência contra as religiões afro-brasileiras podem ser vistas como reflexos diretos da não-aceitação do negro na cultura brasileira, da não-permissão para expressar o seu universo simbólico e sagrado. O que revela uma interdição para esconder parte da nossa história, aquela que compõe quem somos desde nossas origens, uma conduta autoritária para tornar os filhos e filhas de terreiro invisíveis para a sociedade, a partir da repressão e/ou tentativa de extinção de seus símbolos religiosos e culturais.&nbsp;</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Prandi explica que as religiões afro-brasileiras são formadas por pequenos grupos que se congregam, nos terreiros, em torno de uma mãe ou pai-de-santo. E que embora existam “relações protocolares de parentesco iniciático entre terreiros, cada um deles é autônomo e autossuficiente”, não há “nenhuma organização institucional eficaz que os unifique ou que permita uma ordenação mínima capaz de estabelecer planos e estratégias comuns na relação da religião afrobrasileira com as outras religiões e o resto da sociedade” (PRANDI, 2007, pág.&nbsp;<a>19</a>). As federações de umbanda e candomblé poderiam fazer este papel de união dos terreiros, porém hierarquicamente não existe uma autoridade acima do pai ou da mãe-de-santo. Então, de fato, as religiões afro-brasileiras não conseguem se defender em uníssono de todas estas agressões e ficam&nbsp;fragilizadas em função da sua própria forma de constituição que não privilegia um processo de institucionalização. Esta fragilidade em relação aos ataques me leva a temer pela continuidade da sua existência, o que seria, além de muito triste, uma terrível perda para a cultura brasileira. Que Oxalá não permita que todos os aromas, sabores, música, saberes, rituais e histórias ligadas às religiões de terreiros sejam extintas. Que possamos, como brasileiros, nos tornar cada vez mais tolerantes à diversidade, admiradores e conhecedores desta parte da nossa herança cultural afro-brasileira, que nos constitui como povo, apesar de todo o preconceito e ataques sofridos ao longo de nossa formação histórica e social.</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="has-black-color has-text-color">CAMBRAY, Joseph, CARTER, Linda (org.)&nbsp;<strong><em>Psicologia analítica – Perspectivas contemporâneas em análise junguiana</em></strong>.&nbsp;Rio de Janeiro, Editora Vozes, 2020.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">A INTOLERÂNCIA religiosa não vai calar os nossos tambores<strong>.&nbsp;Carta Capital</strong>, 09 de outubro de 2017. Disponível em&nbsp;<a href="https://www.cartacapital.com.br/diversidade/a-intolerancia-religiosa-nao-vai-calar-os-nossos-tambores%20em%2009/10/2017%20%C3%A0s%2015h:58">https://www.cartacapital.com.br/diversidade/a-intolerancia-religiosa-nao-vai-calar-os-nossos-tambores</a>. Acesso&nbsp;<a>em:&nbsp;</a>21 de março de 2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">CRUZ, Cintia e Dal Piva, Juliana<strong>.&nbsp;</strong>Depois de 130 anos apreendidas, peças de religiões afro-brasileiras chegam ao Museu da República.&nbsp;<strong>O Globo</strong>, 29 de setembro de 2020.&nbsp;Disponível em&nbsp;<a href="https://oglobo.globo.com/epoca/depois-de-130-anos-apreendidas-pecas-de-religioes-afro-brasileiras-chegam-ao-museu-da-republica-1-24652424.%20">https://oglobo.globo.com/epoca/depois-de-130-anos-apreendidas-pecas-de-religioes-afro-brasileiras-chegam-ao-museu-da-republica-1-24652424.&nbsp;</a>Acesso em: 01 de abril de 2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">LANGLOIS, Jill<strong>.&nbsp;</strong>Peças sagradas de religiões afro-brasileiras deixam guarda da polícia após 75 anos.&nbsp;<strong>Nathional Geographic Brasil</strong>, 20 de novembro de 2020.&nbsp;&nbsp;&nbsp;Di<a>sponível em</a>&nbsp;<a href="https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2020/11/pecas-sagradas-de-religioes-afro-brasileiras-deixam-guarda-da-policia-apos-75-anos">https://www.nationalgeographicbrasil.com/historia/2020/11/pecas-sagradas-de-religioes-afro-brasileiras-deixam-guarda-da-policia-apos-75-anos</a>.A<a>cesso em:&nbsp;&nbsp;</a><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_msocom_41">[SRdO41]</a>&nbsp;21/03/2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">ORTIZ, Renato.&nbsp;<strong>A Morte Branca do Feiticeiro Negro</strong>: Umbanda e Sociedade Brasileira.&nbsp;2ª. ed. São Paulo, Brasiliense, 1999.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">PRANDI, Reginaldo.&nbsp;<strong><em>As religiões afro-brasileiras nas ciências sociais: uma conferência, uma bibliografia.</em></strong>&nbsp;Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais. BIB-ANPOCS, São Paulo, nº 63, 1º semestre de 2007, págs. 7-30. ISSN 151-8085.</p>



<p class="has-black-color has-text-color"><strong>RAFAEL, Ulisses Neves,</strong>&nbsp;Muito barulho por nada&nbsp;ou o “xangô rezado baixo”: uma etnografia do “Quebra de 1912” em Alagoas<strong><em>,&nbsp;</em></strong>Brasil.&nbsp;<em><strong>Etnográfica</strong></em> [Online], vol. 14 (2)&nbsp;|&nbsp;2010,&nbsp;<a>disponível em</a>&nbsp;<a href="http://journals.openedition.org/etnografica/297">http://journals.openedition.org/etnografica/297</a>. A<a>cesso em: 02/05/2022 as 15:45.</a></p>



<p class="has-black-color has-text-color">TRINDADE, Diamantino Fernandes.&nbsp;<strong><em>História da Umbanda no Brasil</em></strong>.&nbsp;São Paulo,&nbsp;<a>&nbsp;Editora do Conhecimento</a>,&nbsp;<a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_msocom_44">[SRdO44]</a>&nbsp;2014,</p>



<p class="has-black-color has-text-color">VAZ, Livia Sant´Anna. Racismo religioso no Brasil: um velho baú e suas novas vestes.&nbsp;<strong>Migalhas</strong>, 18 de janeiro de 2021.&nbsp;D<a>isponível em&nbsp;</a><a href="https://www.migalhas.com.br/coluna/olhares-interseccionais/339007/racismo-religioso-no-brasil--um-velho-bau-e-suas-novas-vestes">https://www.migalhas.com.br/coluna/olhares-interseccionais/339007/racismo-religioso-no-brasil&#8211;um-velho-bau-e-suas-novas-vestes</a>.&nbsp;Acesso em: 30/03/2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">VILELA, Rafael.&nbsp;Em 2021, foram feitas 571 denúncias de violação à liberdade de crença no Brasil.&nbsp;Brasil de Fato, 21 de janeiro de 2022.&nbsp;<a>Disponível em&nbsp;</a>&nbsp;<a href="https://www.brasildefato.com.br/2022/01/21/em-2021-foram-feitas-571-denuncias-de-violacao-a-liberdade-de-crenca-no-brasil">https://www.brasildefato.com.br/2022/01/21/em-2021-foram-feitas-571-denuncias-de-violacao-a-liberdade-de-crenca-no-brasil</a>. Acesso em: 26/03/2022.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Leila Cristina Montanha &#8211; Analista em Formação pelo IJEP.</p>



<p class="has-black-color has-text-color">Santina Rodrigues – analista didata pelo&nbsp;<a>IJEP</a>.</p>



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<p><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a>&nbsp;“Obrigações” são ritos efetuados pelo filho(a) de santo para fortalecer o vínculo com seu Orixá.</p>



<p><a href="applewebdata://F0455DEA-E500-4918-B71B-9B52065292D5#_ftnref2"><sup>[2]</sup></a>&nbsp;A sigla O.C. significa “Obras Completas de C.G.Jung”, publicadas no Brasil pela Editora Vozes,</p>



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		<item>
		<title>Conspiração silenciosa</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/conspiracao-silenciosa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Jul 2022 18:39:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido de vida]]></category>
		<category><![CDATA[Transcendencia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Será que existe um sentido maior para a vida? Estamos aqui para servir ou apenas lutar por nossa bio sobrevivência?  O que somos e quem somos nós? Estas reflexões estão contempladas neste ensaio e no vídeo indicado.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A Terra é um pequeno e raro planeta que vem possibilitando a vida biológica dos seres advindos do carbono, habitado por nós, seres humanos, gerados pelo húmus e, por isso mesmo, dependemos dela! Apesar disso, infelizmente, estamos correndo o risco de sermos extintos, porque acabamos criando e aprendendo a conviver com a destruição da camada mais exterior do planeta, impermeabilizando o solo e a atmosfera, além de estimularmos o egoísmo, a violência, a competição, a desigualdade e uma infinidade de iniquidades. Com isso, somos continuamente expostos ao medo, a dor, a tristeza e acabamos nos tornando sofredores, continuamente assustados com a poluição, o aquecimento global, o risco eminente de catástrofes, gerando, em decorrência disso, a desgraça da exclusão social, racial, religiosa, cultural e, a pior de todas, a econômica. Reativa e condicionadamente, essa situação nos leva para o desconforto psíquico, o qual fomos treinados a aliviá-lo por meio do consumo exagerado de todos os tipos de coisas inúteis e de drogas, o que agrava mais ainda a situação, apesar de proporcionar sensação de anestesia momentânea. Mas, simultaneamente, um movimento silencioso, tranquilo e oculto está acontecendo, e certas pessoas estão sendo tomadas por uma dimensão mais elevada, como uma espécie de luz que as desperta e remete para um estado de amor incondicional, consigo mesmas e pelos próximos, com sentimentos de plenitude e fé! Apesar desse atual retrocesso androcêntrico, misógino, machista e territorialista, representado por lideranças de extrema direita que estão surgindo, legitima ou ilegitimamente.</p>



<p>Esta conspiração vai produzindo uma revolução silenciosa que está se instalando de dentro para fora e de baixo para cima! É uma operação global. Uma conspiração espiritual. Existem células dessa operação em cada canto do mundo, fazendo que a atual percepção horizontal, superficial, imediata e material do nosso planeta, também inclua as dimensões verticais, profundas, implicativas e espirituais. Sua manifestação é sutil, atuando como uma espécie de onda que vai sensibilizando e mobilizando cada vez mais pessoas, até que essa onda se torne uma espécie de tsunami da consciência, devido à quantidade de seres vibrando com ela, produzindo a massa crítica necessária para mais um salto quântico evolutivo!</p>



<p>Dificilmente a grande massa alienada no consumo, nas dívidas e no trabalho, irá assistir na TV, ouvir nos rádios ou ler a respeito dessa conspiração nos jornais. Porque, por um lado, a mídia da sociedade de consumo ainda não está sensível e corajosa para divulgar esse movimento e, por outro lado, aqueles que estão engajados nele não estão buscando glória, não usam uniformes e nem fazem questão do poder ou da gratidão. Por isso o processo vai acontecendo sem alarde, apesar de cada vez mais forte e firme. Fora isso, para que o salto de consciência sustentável e inclusivo aconteça, é preciso romper a capacidade pasteurizante do atual capitalismo, que transforma tudo em matéria a serviço do mercado, inclusive a dimensão sagrada institucionalizada!</p>



<p>Os membros dessa conspiração são recrutados por meio da luz do autoconhecimento que, inevitavelmente, produz ampliação da consciência e compromissos com a humanidade e com o planeta, ao adquirirem ideais de inclusão, sustentabilidade, ecologia e amor universal. Então, essas pessoas vão surgindo de diversas formas, lugares, cores, formações, idades e quantidades diferentes, e são oriundas das mais variadas raças, culturas, costumes, credos religiosos e classes sociais. Porém, cada novo adepto passa por uma espécie de rito onde ele tem que morrer, para sair dos condicionamentos e dos aprendizados paralisantes, para poder renascer orientado na direção do caminho da luz da consciência unitiva, convicto de que ele tem que&nbsp;servir para ser. Muitos servidores dessa nova ordem trabalham anonimamente e silenciosamente, fora de cena e dos holofotes, em cada cultura do mundo, nas grandes e pequenas cidades, em suas montanhas e vales, fazendas, vilas, tribos ou ilhas remotas. Esses revolucionários estão alinhados com o amor ágape, e aprenderam deixar o outro livre, inclusive para amar-lhes, tornando-os igualmente livres, mesmo que alinhados ainda com a velha moral. Porque toda forma de dependência aprisiona! Estando livre, passamos a respeitar as escolhas do outro, porque liberdade respeita liberdade. Mas, para isso, acima de tudo, é necessário o amor próprio, que liberta e deixa o amado livre para sua realização!</p>



<p>A maioria das pessoas cruza por seus servidores nas ruas e nem percebem, porque eles seguem disfarçados, sem aparições espetaculares, realizando seus ofícios, que se tornou sagrado, sem se importarem com quem irá ficar com os louros da vitória, porque, para eles, o servir é mais importante do que o ter e, neste sentido, já encontraram a maior recompensa. Por saberem que tudo e todos pertencem ao uno, e que enquanto existir um ser senciente sofrendo a consciência unitiva estará sofrendo também.</p>



<p>Muitas vezes os participantes dessa conspiração se encontram pelas ruas, trocam olhares de reconhecimento e seguem seus caminhos, a maioria está disfarçada em seus empregos comuns e normais, mas sempre que podem, despem-se de suas personas normóticas e realizam o verdadeiro trabalho, apesar de que mesmo disfarçados e imiscuídos na multidão inconsciente e enredada nos automatismos, seu trabalho está sendo feito, porque a consciência da presença sempre irá interferir na ambiência, ou seja, no entorno objetivo e intersubjetivo.</p>



<p>Esse novo &#8220;exército da consciência&#8221; lentamente está construindo um novo mundo com o poder de seus corações e mentes, com alegria e paixão, apesar de toda adversidade e iniquidade da nossa realidade. São guerreiros pacíficos e silenciosos que cumprem as ordens do poder superior, representante da inteligência espiritual unitiva, jogando bombas suaves de amor sem que ninguém note. Essas bombas muitas vezes são veiculadas nos poemas, abraços, músicas, fotos, filmes, livros, palestras, aulas, entrevistas, palavras carinhosas, meditações, preces, danças, ativismo social, sites, blogs, atos de bondade ou até de indignação, caridade ou solidariedade.</p>



<p>Cada guerreiro da consciência se expressa de forma única e pessoal, com talentos e dons individuais, mas todos estão engajados no mesmo propósito que é a mudança que queremos ser e ver no mundo! Essa é a força que move seus corações, dando a cor-agem para promoverem à transformação silenciosa que provocará a mudança de paradigma necessária, contribuindo para a evolução criativa e espiritual da humanidade. Eles estão conscientes que suas ações devem ser silenciosas e humildes, apesar te terem o poder de todos os oceanos juntos. Eles vão contribuindo lenta e meticulosamente na trans-formação humana, promovendo o amor como a maior e legítima religiosidade do planeta, sem pré-requisitos de grau de educação e sem conhecimentos excepcionais para essa compreensão, porque esse conhecimento nasce da inteligência do coração, escondida pela eternidade, no pulso espiritual e evolucionário presente na imanência de todo ser humano.</p>



<p>Então, que cada indivíduo seja a mudança que quer ver acontecer no mundo, pois ninguém pode fazer esse trabalho por você! Desta forma, sincronicamente, você está sendo recrutando para se juntar a esse exército que têm todos os seus membros continuamente de portas, coração e mentes abertas! Em pé e a ordem para o trabalho de edificação de um mundo mais livre, igual e fraterno.</p>



<p>PAZ e BEM&nbsp;</p>



<p>*&nbsp;WALDEMAR&nbsp;MAGALDI FILHO.&nbsp;Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: &#8220;Dinheiro, Saúde e Sagrado&#8221;, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP (<a href="https://www.ijep.com.br/">www.ijep.com.br</a>), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Waldemar Magaldi Filho &#8211; 15/06/2019</em></strong></h4>



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		<title>A pandemia e o novo humanismo</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-pandemia-e-o-novo-humanismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Simone Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jul 2022 10:58:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Amor]]></category>
		<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Qual os limites e interesses do homem do séc. XXI? Somos tão heterogêneos. Tão distintos em cultura, moral e política...Como avaliar o humanismo dentro dos padrões contemporâneos?</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://www.ijep.com.br/img/artigos/artigo_189.jpeg" alt="A PANDEMIA E O NOVO HUMANISMO PANDEMIA"/></figure>



<p></p>



<p><strong>&#8211; Introdução</strong></p>



<p>Vivemos uma era de grandes transformações. A comunicação e a tecnologia transformaram o planeta. Levamos milhões de anos para nos adaptarmos à Terra e nos últimos 50 anos mudamos tanto o nosso redor que buscamos novas adaptações.</p>



<p>Se pensarmos no manejo do plantio e na alimentação, no transporte, nos meios de comunicação e no avanço da medicina e das ciências, poderíamos acreditar que chegamos no apogeu evolutivo. No Ponto Ômega no dizer de Teilhard Chardin.</p>



<p>Que humanismo vivíamos antes da pandemia que está mudando todas nossas relações? Poucos com tanto e tantos com tão pouco. Onde a fraternidade, a liberdade e a igualdade se escondiam? Numa terra tão promissora esquecíamos de tantos despossuídos, retirantes, desabrigados, famintos, prisioneiros de sistemas injustos e tantas mulheres violadas, crianças abandonadas&#8230;tanto sofrimento e nós, a maioria de nós, cegos para todos eles.</p>



<p>Vamos fazer um percurso através destes questionamentos.</p>



<p>&#8211;&nbsp;<strong>Humanidade e Humanismo</strong></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;Nossa humanidade está cega na alma, uma humanidade que mata e morre por desacordos egoísticos. Uns lutam em nome de Deus, como se fosse possível que Deus não fosse Uno. Outros lutam pelo poder. Carl Gustav Jung diz: “Pela lógica, o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder. Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor.” (<a><em>Psicologia do Inconsciente</em></a>, pár. 78). Grande verdade, poder e amor não coexistem. Um exemplo vivo é o Papa Francisco, embora seja o pontífice, o dirigente de toda Igreja Católica, segue aquele que lhe nomeou: São Francisco de Assis, o poverello, O Pobrezinho de Deus. Seu exemplo é maior que qualquer título que lhe possa ser outorgado, o Papa Vê, não é cego à fraternidade, a igualdade e a liberdade. Como diz Chardin, não basta ter olhos, é preciso saber ver. O Papa se faz presente com seu testemunho de fé. Ele não tem vontade de poder, mas tem muito amor. Um exemplo para a humanidade que se avizinha nestes novos tempos.</p>



<p>Mas como pensar a humanidade? Diz Chardin: “Humanidade: objeto de uma fé muitas vezes ingênua, mas cuja magia, mais forte do que todas as vicissitudes e todas as críticas, continua a atuar com a mesma força de sedução tanto sobre as almas das massas atuais como sobre os cérebros da `intelligenzia`. Quer se participe de seu culto, quer se ridicularize esse mesmo culto, quem pode, ainda hoje, escapar à obsessão, ou mesmo à ascendência da ideia de Humanidade?” (<em>O Fenômeno Humano,&nbsp;</em>pág. 278). A humanidade causa atração, sedução, mas e o humanismo, o que entendemos por isto?</p>



<p>O Humanismo surge na Itália por volta do séc. XIV como um movimento literário e filosófico e acaba por se espalhar por toda Europa e originou a cultura moderna. Se caracteriza também como qualquer movimento filosófico que considere como fundamento a natureza humana e os limites e os interesses do homem. Ao longo da história vários autores alteram ou acrescentam ideias a este conceito que começa lá em Protágoras: “o homem é a medida de todas as coisas”. (<a><em>in Diccionário de filosofia,&nbsp;</em>Nicola Abbagnano)</a></p>



<p>Qual os limites e interesses do homem do séc. XXI? Somos tão heterogêneos. Tão distintos em cultura, moral e política&#8230;Como avaliar o humanismo dentro dos padrões contemporâneos?</p>



<p>Como disse Thomas Hobbes, “o homem é o lobo do próprio homem.”&nbsp; Verdade. Temos uma moral (costumes e leis de uma época para determinado povo) própria do ego (centro da consciência que é o responsável pela percepção corporal e história de vida, que atua se relacionando com o mundo interno, do inconsciente, e com o mundo externo, dos fenômenos que nos envolvem, sua atuação é discriminatória por excelência). Temos também o Self (centro e totalidade psíquica, corresponde a imagem de Deus em nós, aquele que verdadeiramente dirige nossos passos) que, diferente do ego, é ético e ética é atemporal e aespacial, podemos dizer a discriminação suprema. Assim, vemos o homem tão desconectado com essa esfera da totalidade psíquica, tão centrado no próprio ego, apartado de uma esfera gigante da humanidade.</p>



<p>O homem “egoísta”, centrado nos interesses do próprio ego, pensa primeiramente e, infelizmente, algumas vezes, unicamente em seus desejos e ambições.&nbsp; O outro não lhe afeta. Pura ilusão. Na esfera do inconsciente coletivo somos todos UM. Não temos um inconsciente coletivo, é ele que nos tem. Este inconsciente coletivo contém em si toda herança espiritual da evolução da humanidade. Como diz Jung, ele nasce sempre de novo na estrutura cerebral de cada um de nós. Não só a mitologia e as lendas constituem esse inconsciente coletivo, mas toda experiência repetitiva e fatos relevantes (arquétipos) da história.</p>



<p>Dessa maneira, não estamos nunca separados dos outros seres humanos, somos internamente afetados por tudo que acontece no mundo. A separação é uma ilusão da consciência, no íntimo estamos todos conectados, influenciando e sendo influenciados. Os sofredores de todo planeta estão em nós. Os aflitos dos países em conflito, os famintos das periferias, os drogados exilados da humanidade, os atípicos, os desesperados, os doentes, os moribundos&#8230;todos fazem parte do mesmo inconsciente coletivo, são influenciados por nós, mas, também, nos influenciam. Somos uma só humanidade, a separação é uma ilusão egóica.</p>



<p>Nossas personas (“máscaras” de adaptação coletiva, através das quais buscamos ser aceitos) não são nossa personalidade, mas atores que atuam, através de nós, em papéis &nbsp;&nbsp;sociais. Muitas vezes nos identificamos com estes personagens perdendo a verdadeira noção de quem somos realmente. Mas, muito mais sério, é nossa relação com o mundo. Vivemos de “projeções” do nosso mundo interno, nossa sombra (tudo que foi contido, rejeitado ou impedido de se manifestar), nosso lado trevoso (porque não está na luz da consciência) onde existem tesouros de potenciais não desenvolvidos, mas, principalmente, o mal em nós. Tudo que não pode ser mostrado, que não é aceito, que é “pecado”. Portanto, somos luz e sombra, bem e mal. Nossas polaridades nos fazem “humanos, demasiadamente humanos” como diria Nietzsche.</p>



<p>Se reconhecêssemos isso não faríamos tantas discriminações, tanto separatismo, tanta falta de fraternidade. A humanidade seria uma comunidade de irmandade. Afinal, no íntimo, não somos tão diferentes daqueles que rejeitamos.</p>



<p><strong>&#8211; Pandemia</strong></p>



<p>Avançamos em áreas primitivas, tomamos posse de lugares em que o ecossistema era preservado e desconhecido, com isso, abrimos as barreiras de proteção de espécimes nocivas ao homem das quais não tínhamos conhecimento e proteção.</p>



<p>Há alguns anos o mundo todo entrou em choque com uma possibilidade epidêmica do “ebola”, fatal ao ser humano. Conseguimos controlar. Agora, em era tão desenvolvida, em que o homem avançou tanto em conhecimentos os mais diversos nos confrontamos com uma pandemia.</p>



<p>O “corona vírus” chega dizimando um número imenso de vidas. Cria pânico, medo, desestabiliza a economia mundial, cria uma multidão de desempregados e famintos. E ainda não acabou. Não sabemos a real proporção dos danos, as sequelas possíveis, consequência da contaminação, as mutações nos amedrontam porque desconhecemos o potencial danoso que podem provocar.</p>



<p>Porém, o mais cruel, o que faz doer, desacreditar no ser humano, é o descaso com que vários dirigentes encaram e enfrentam o problema. Ironizar dos sofredores e mortos, desconsiderar o sofrimento de tantas famílias, propor saídas que a própria ciência justifica como não corretas, em meio a tanto terror ignorar as saídas preventivas, como as vacinas, as máscaras, o isolamento, desviar dinheiro público para fins escusos, dinheiro da saúde negociado ao preço de sangue, de morte, de descaso, isto é o Mal.</p>



<p>&#8211; O<strong>&nbsp;Mal</strong></p>



<p>O mal é o oposto do bem na doutrina maniqueísta donde veio Agostinho (conhecido por muitos como o Platão cristão), como convertido precisou rever a natureza do mal. Solilóquios: “Desejo conhecer Deus e a alma. E nada mais? Nada mais, absolutamente”. Deus e alma não requerem, para Agostinho, pesquisas distintas, porque Deus se encontra na própria alma. “Deus está na alma e revela-se na mais recôndita interioridade da própria alma. Procurar a Deus significa procurar a alma e procurar a alma significa reclinar-se sobre si mesmo, reconhecer-se, na própria natureza espiritual, confessar-se(&#8230;.)Esta atitude não consiste em descrever para si e os outros as alternativas da própria vida interna ou externa, mas em pôr a claro todos os problemas que constituem o núcleo da própria personalidade”, após seus anos de inquietação, em que se dissipou e divagou desordenadamente, percebe que tudo o que buscava e precisava realmente era a verdade e que essa verdade é o próprio Deus: “Não saias de ti mesmo, volta a ti próprio, no interior do homem habita a verdade; e se verificas que a tua natureza é mutável, transcende-te para lá de ti mesmo (De vera rel., 39). Apenas o retorno a si próprio, o encerrar-se na própria interioridade é verdadeiramente o abrir-se à verdade e a Deus. É necessário chegar até ao mais íntimo e escondido núcleo do eu para encontrar mais além dele a verdade de Deus” (N. ABBAGNANO. História da Filosofia. Vol. II. Págs 205/6/7). Deus é, pois, a incorruptibilidade, na medida em que é o próprio Ser. Donde então podemos imaginar a natureza do mal? O mal absoluto é o nada absoluto. O mal é o pecado e a deficiência da vontade que renuncia ao ser e se entrega ao que é inferior. Assim: “Jung ressaltou a função moral da reflexão humana e da consciência no processo em que a imagem do deus patriarcal se transforma e concorre para uma estrutura interior do eu. O modelo de Jung não omite uma percepção consciente da sombra, que na teologia é expressa pela doutrina da substancialidade do mal (A psychological approach to the Trinity. P. 134/136):</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;´Uma das raízes mais fortes do mal é a inconsciência&#8230;Eu gostaria que ainda estivesse nos evangelhos a declaração de Cristo: Homem, se sabes o que fazes, és bendito, mas, se não sabes, és maldito e um transgressor da lei&#8230;Esse bem poderia ser o lema de uma nova moralidade”.( Natan SCHWARTZ-SALANT. A personalidade limítrofe. Pág. 121.)</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tomás de Aquino também admite a doutrina platônico-agostiniana da não-substancialidade do mal: “o mal não é senão ausência do bem(&#8230;) O mal é de duas espécies: pena e culpa”</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jung não compactua com a doutrina do mal como privatio boni, que entende que o mal é uma simples ausência do bem. Para Jung é o contrário, ele acentua “a realidade substancial do lado sombrio da psique. Do ponto de vista mitológico, este lado sombrio é o Demônio. Além disso, Jung acentuava que: ´a sombra e a vontade em oposição é a condição necessária a toda realização´. Só com uma integração consciente da sombra é possível a efetivação do numinoso positivo. Isto significa que um indivíduo vive com uma percepção aguda de sua natureza sombria, na qual há um alinhamento com a atração pela morte. Essa dinâmica inclui características psicopáticas que atuam sem qualquer sentido moral. Quando a sombra e as suas consequências destrutivas são integradas, o alinhamento consciente com o numinoso positivo torna-se uma questão ética, uma questão de escolha. Deve-se tomar o partido, ou de Deus, ou do Diabo. Só com a integração da sombra pode de fato o indivíduo desenvolver a força de ego necessária a um relacionamento ativo com o numinoso” (Natan SCHWARTZ-SALANT. A personalidade limítrofe. Pág. 121.)</p>



<p>Não podemos ignorar o mal para não sermos tomados por ele, como um complexo que constela e assume o lugar do ego, porque, sim, o mal também está em nós, precisamos ampliar a consciência para não sucumbirmos ao nosso lado sombrio. Só com um processo de vontade consciente poderemos nos render ao Self (a imagem de Deus em nós) e adquirir forças para enfrentar esse lado nefasto em nós e na sociedade, principalmente em relação aos homens de poder. Empatia, essa é a chave. Ver o outro, sentir o outro como o irmão que em verdade ele é.</p>



<p>Apesar do Mal que com tanta força constelou durante esta pandemia devemos buscar o Bom, o Belo e o Verdadeiro e reverter o quanto for possível este desvario que assola a humanidade durante esta pandemia.</p>



<p><strong>&#8211; Conclusão</strong></p>



<p>Boff nos traz uma nova visão de mundo concebida por cientistas modernos: “O grupo de cientistas de Princeton e Pasadena que buscam uma reaproximação entre ciência, filosofia e religião, autodenominando-se ambiguamente ´neognósticos`, sustenta, como tese fundamental de sua basic cosmology, que ´o mundo é dominado pelo Espírito e é feito pelo Espírito`. A metáfora dessa nova cosmologia é a do jogo. Como diz um cientista teólogo da Comunidade Européia, ´o jogo nos comunica a idéia de complexidade, de lógica não-linear, mas também da implicação essencial dos jogadores e de sua criatividade; o ser humano não é mais espectador passivo de um mundo do qual se sente excluído`. Essa cosmologia é integradora”&nbsp;<a>Ecologia, Mundialização,&nbsp;</a>Espiritualidade. Págs. 66/67).</p>



<p>&nbsp;&nbsp;É oposta a sociedade misógina, opressora e excludente. É uma cosmologia que reinstaura a relação, o jogo. Esse é o ensinamento da nova física, nada existe sem relação, e tudo depende de opções, do jogo que escolhemos jogar.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Esta é a chave, o novo humanismo deve principiar na “relação”, no “jogo” do homem com seus iguais, do homem com a Natureza e do homem com Deus. Entendermos que o Espírito permeia todo o Cosmo.</p>



<p>A pandemia deve servir para nossa evolução espiritual. Precisamos aprender a servir, como diz Waldemar Magaldi Filho em suas aulas: “- Quem não vive pra servir, não serve para viver.”. Que todas estas mortes, esse sofrimento, esse isolamento nos aproximem do Sagrado para reconhecermos o Mito do nosso Significado, o propósito da vida de cada um de nós.</p>



<p>Não podemos voltar aos velhos costumes, egocêntricos, separatistas. Precisamos desenvolver um novo modo de “jogar”, onde cada um é imprescindível, onde nenhum ser fica fora da jogada porque absolutamente esta é a regra: todos juntos.</p>



<p>&nbsp;O antídoto para o mal depende da conscientização de que somos luz e sombra e de que o mal e o bem são opostos complementares que coabitam na nossa essência, para que possamos agir com a consciência e a lucidez da consequência dos nossos atos e das nossas omissões, assim como se estamos servindo a alma ou apenas reproduzindo, cegamente, os padrões dominantes da persona materialista, competitiva e egoísta, presente neste sistema excludente e destrutivo.</p>



<p>Dra Ercilia Simone D. Magaldi</p>



<p>Referências:</p>



<p>Abbagnano, Nicola.&nbsp;<em>Diccionário de filosofia,&nbsp;</em>Fondo de Cultura Econômica. México.</p>



<p>_________&nbsp;<em>História da Filosofia. Vol. II,</em>&nbsp;Ed. Presença, 1969, Lisboa</p>



<p>Boff, Leonardo.<em>&nbsp; Ecologia, Mundialização, Espiritualidade.</em>&nbsp;Ed. Ática. 2000 SP</p>



<p>Chardin, Teillard de.&nbsp;<em>O Fenômeno Humano,&nbsp;</em>Ed. Cultrix , 1995, SP</p>



<p>&nbsp;Jung, Carl G.&nbsp;<em>Psicologia do Inconsciente,&nbsp;</em>Ed. Vozes. 2006, Petrópolis</p>



<p>Sêneca.&nbsp;<em>Sobre a Brevidade da Vida,&nbsp;</em>Ed. Nova Alexandria, 1993. SP</p>



<p>Schwartz-Salant Natan . A personalidade limítrofe.</p>



<p>Este artigo foi para a Revista Pastoral 2022.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>E. SIMONE MAGALDI &#8211; 02/03/2022</em></strong></h4>
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