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	<title>Arquivos Ética - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
	<lastBuildDate>Fri, 08 May 2026 13:53:47 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
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	<title>Arquivos Ética - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>O Banquete da Híbris e a Sombra dos &#8220;Homens de Bem&#8221;: Epstein, Jung e a Negação do Amor</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-banquete-da-hibris-e-a-sombra-dos-homens-de-bem-epstein-jung-e-a-negacao-do-amor/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 09 Feb 2026 17:59:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Não Categorizado]]></category>
		<category><![CDATA[Política]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[poder]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
		<category><![CDATA[sentido da vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os arquivos de Epstein não revelam apenas crimes, mas uma ferida psíquica coletiva que confirma a profecia de C.G. Jung: onde impera o poder, o amor desaparece. Mergulhe nesta análise corajosa sobre como a hipocrisia da elite e a monetarização do sagrado transformaram "cidadãos de bem" em reféns de suas próprias sombras. Descubra a conexão oculta entre as tentações do deserto e os escândalos contemporâneos, e entenda por que a queda dos poderosos é, psicologicamente, inevitável.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A abertura dos arquivos do caso Jeffrey Epstein não é apenas um evento forense ou um escândalo midiático; é, sob a ótica da psicologia analítica, a irrupção purulenta de uma ferida psíquica coletiva. O que vemos exposto nas listas de voos e nos depoimentos não é apenas a perversão de um indivíduo ou de um grupo isolado, mas a confirmação trágica de um axioma que Carl Gustav Jung repetiu à exaustão e que a nossa cultura insiste em ignorar: &#8220;Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro&#8221;. Neste caso, fica evidente a sombra do poder anulando o amor como tema recorrente na sociedade.</p>



<p>Vivemos tempos em que a sombra do poder se alastrou de tal forma que eclipsou a capacidade humana de relacionar-se, transformando o &#8220;outro&#8221; — seja ele uma criança, uma mulher, um fiel ou um eleitor — em mero objeto de consumo. A revelação dos nomes ligados a Epstein é o sintoma agudo de uma doença crônica: a monetarização da existência e, pior, a monetarização do sagrado.</p>



<p>Ao observarmos a galeria de figuras que frequentavam a ilha de Epstein — príncipes, ex-presidentes, cientistas renomados, bilionários —, notamos um padrão que transcende a mera criminalidade. Estamos diante da <em>híbris</em> (a desmedida) de uma elite que, embriagada pela onipotência, acreditou ter comprado o direito de suspender a ética. E, ironicamente, é essa mesma elite que, em palanques e púlpitos, prega a moralidade, os &#8220;bons costumes&#8221; e a teologia da prosperidade, sequestrando a cosmovisão de Jesus Cristo para justificar exatamente aquilo que Ele rejeitou no deserto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Estou mais do que convencido de que o caminho da vida só continua onde está o fluxo natural. Mas nenhuma energia é produzida onde não houver tensão entre contrários; por isso, é preciso encontrar o oposto da atitude consciente. É interessante verificar como essa compensação dos opostos também teve sua função na história da teoria da neurose: a teoria de Freud representa Eros; a de Adler, o poder. Pela lógica, o contrário do amor é o ódio; o contrário de Eros, Phobos (o medo). Mas, psicologicamente, é a vontade de poder. Onde impera o amor, não existe vontade de poder; e onde o poder tem precedência, aí falta o amor. Um é a sombra do outro. Quem se encontra do ponto de vista de Eros procura o contrário, que o compensa, na vontade de poder. Mas quem põe a tônica no poder, compensa-o com Eros. Visto do ponto de vista unilateral da atitude consciente, a sombra é uma parte inferior da personalidade. Por isso, é reprimida, devido a uma intensa resistência. Mas o que é reprimido tem que se tornar consciente para que se produza a tensão entre os contrários, sem o que a continuação do movimento é impossível. A consciência está em cima, digamos assim, e a sombra embaixo, e como o que está em cima sempre tende para baixo, e o quente para o frio, assim todo consciente procura, talvez sem perceber, o seu oposto inconsciente, sem o qual está condenado à estagnação, à obstrução ou à petrificação. É no oposto que se acende a chama da vida. (C. G. Jung &#8211; CW 7/1 §78)</p>
</blockquote>



<p></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-deserto-esquecido-e-as-tentacoes-modernas"><strong>O Deserto Esquecido e as Tentações Modernas</strong></h2>



<p>Para compreendermos a profundidade do abismo moral revelado pelos arquivos Epstein, precisamos revisitar a simbologia do deserto. Na narrativa bíblica, Jesus é levado ao deserto para ser tentado pelo Diabo, capacitando-se para cumprir seu propósito, o calvário, exercitando e fazendo tanto a kenosis quanto a Nekia, respectivamente o esvaziamento e a descida às profundezas. Ali, em sua fragilidade humana, Ele confronta as três grandes pulsões que, se não integradas, destroem a alma: o Prazer (transformar pedras em pães para saciar a fome física e os desejos da carne/corpo), a Fama/Vaidade (atirar-se do templo para que os anjos o salvem espetacularmente ou fazer milgres) e o Poder/Riqueza Material (curvar-se ao mal para ganhar todos os reinos do mundo).</p>



<p>Cristo recusa as três ofertas. Ele escolhe o caminho da individuação, da integridade do Ser, em detrimento da inflação do Ego. No entanto, a nossa cultura contemporânea, especialmente aquela moldada pelo ethos do sucesso a qualquer custo, fez a escolha oposta. O que vemos hoje, na epidemia de religiões da teologia do poder e nos discursos de influenciadores digitais e coaches messiânicos, é a aceitação entusiástica da proposta do Diabo.</p>



<p>O &#8220;sucesso&#8221; tornou-se o novo sacramento. A riqueza material é vista não como um recurso, mas como um sinal de eleição divina ou de superioridade biológica. Nesse cenário, o prazer e a fama são mercadorias que se compram. Quando o sagrado é monetarizado, o divino é expulso e o templo se torna um mercado. E num mercado, tudo tem preço, inclusive a inocência.</p>



<p>A sociedade que aplaude o acúmulo desenfreado de capital e que mede o valor de um ser humano pelo seu engajamento nas redes sociais criou o terreno fértil para que figuras como Epstein prosperassem. Ele não era uma anomalia; ele era um fornecedor de serviços para uma demanda reprimida e sombria. Ele oferecia a concretização da fantasia de onipotência: o acesso irrestrito a corpos, a anulação das leis e a suspensão da realidade. Para o homem que escolheu o Poder em detrimento do Amor, o prazer nunca é relacional; é sempre predatório. É a tentativa desesperada de preencher, com a intensidade da sensação, o vazio deixado pela morte do afeto.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-mascara-do-cidadao-de-bem-e-o-fenomeno-wasp"><strong>A Máscara do &#8220;Cidadão de Bem&#8221; e o Fenômeno WASP</strong></h2>



<p>A análise torna-se ainda mais cortante quando observamos o perfil predominante nos documentos revelados: o arquétipo do homem branco, anglo-saxão e protestante (WASP &#8211; <em>White, Anglo-Saxon, Protestant</em>), ou seus equivalentes culturais em outras geografias. Historicamente, essa figura representa o pilar da ordem, da lei e da moral ocidental. São os homens que constroem impérios, que legislam sobre o corpo alheio e que se autodenominam &#8220;cidadãos de bem&#8221;.</p>



<p>Jung nos ensinou que quanto mais luminosa e rígida é a <em>Persona</em> (a máscara social que usamos para nos adaptarmos ao mundo), mais escura e densa é a <em>Sombra</em> (tudo aquilo que rejeitamos, reprimimos e escondemos). O &#8220;falso moralista&#8221; não é apenas um hipócrita consciente; muitas vezes, ele é uma vítima de sua própria cisão psíquica. Ele precisa manter uma aparência de retidão imaculada publicamente — a família perfeita, a filantropia, a frequência aos cultos —, o que exige uma repressão brutal de seus instintos e fragilidades.</p>



<p>Essa energia reprimida não desaparece. Ela se acumula no inconsciente, ganhando autonomia e força, até se transformar em algo monstruoso. O conservadorismo rígido, que julga e condena o comportamento alheio com ferocidade, é frequentemente o mecanismo de defesa de quem luta contra seus próprios demônios inconfessáveis.</p>



<p>Os arquivos de Epstein são o esgoto a céu aberto dessa psique cindida. Eles mostram onde os &#8220;homens de bem&#8221; iam para despir suas personas pesadas. Longe dos olhos do público, na ilha privada, a sombra assumia o controle. A justificativa interna para tal comportamento é, invariavelmente, uma distorção cognitiva típica da <em>híbris</em>: &#8220;Eu sou especial. Eu faço tanto pelo mundo, gero tanta riqueza, carrego tanto poder, que mereço essa recompensa. As leis dos homens comuns não se aplicam a mim&#8221;.</p>



<p>Essa dissociação permite que o mesmo indivíduo que financia campanhas contra os direitos humanos ou que prega a santidade da família tradicional participe de orgias com menores de idade. Não há, na mente deles, contradição, pois o Ego inflado pelo poder perdeu a conexão com o <em>Self</em> — o centro regulador da psique. Eles se tornaram deuses de seus próprios pequenos universos, e deuses, na mitologia grega, frequentemente estupravam e destruíam por capricho.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-hibris-o-self-e-a-inevitavel-enantiodromia"><strong>A Híbris, o Self e a Inevitável Enantiodromia</strong></h2>



<p>A tragédia grega e a psicologia analítica concordam em um ponto fundamental: a <em>híbris</em> (o orgulho desmedido que desafia os deuses) é sempre seguida pela <em>nêmesis</em> (a retribuição divina). Em termos psicológicos, quando a atitude consciente se torna unilateral demais — focada excessivamente no poder, na razão instrumental e na negação da sombra —, o inconsciente reage para restaurar o equilíbrio.</p>



<p>Jung chamou esse movimento pendular de <em>enantiodromia</em>: a tendência de todas as coisas se transformarem em seu oposto. A busca obsessiva pelo controle total (poder) leva, invariavelmente, à perda total de controle (o escândalo, a prisão, a ruína). A busca pela fama imaculada leva à infâmia eterna. A busca pelo prazer sem limites leva ao sofrimento atroz e ao vazio existencial.</p>



<p>O que estamos testemunhando com a exposição desses arquivos é a ação do <em>Self</em>. O <em>Self</em>, na psicologia junguiana, é a totalidade da psique, a imagem de Deus dentro de nós. Ele busca a integridade, não a perfeição moralista. Quando o indivíduo ou a cultura se desviam radicalmente de sua verdade interior, o <em>Self</em> orquestra uma crise. Ele força o confronto.</p>



<p>Ainda bem que existe o <em>Self</em>. Sem essa força reguladora, a humanidade se perderia em seus delírios de grandeza. O <em>Self</em> leva essas pessoas ao confronto consigo mesmas, gerando sintomas de adoecimento psíquico, pânico, depressão e, finalmente, revelações catastróficas. Para o ego inflado, a exposição pública é uma catástrofe, uma morte social. Mas, simbolicamente, é a única chance de salvação. É o momento em que a máscara cai e o indivíduo é forçado a olhar para a sua própria feiura.</p>



<p>Essa dinâmica não se restringe aos frequentadores da ilha de Epstein. Ela se reproduz recorrentemente com lideranças religiosas que caem em desgraça sexual ou financeira, com políticos que são pegos em esquemas de corrupção grotescos, e com influenciadores que, vendendo uma vida de felicidade plástica, sucumbem ao suicídio ou ao vício. É a natureza cobrando o preço da artificialidade. É a alma gritando que não pode ser vendida.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-retorno-ao-humano"><strong>O Retorno ao Humano</strong></h2>



<p>A lição dos arquivos Epstein é dura, mas necessária. Ela nos obriga a confrontar a ilusão de que o poder e o dinheiro conferem dignidade ou imunidade moral. Pelo contrário, o poder sem amor é, como disse Jung, demoníaco. Ele fragmenta, isola e destrói.</p>



<p>A cosmovisão de Cristo, tão deturpada pela teologia da prosperidade, propunha o oposto: o poder do serviço, a riqueza do espírito e a fama de ser conhecido por Deus, não pelos homens. Jesus venceu o deserto não porque era imune à tentação, mas porque sabia quem era. Ele não precisava transformar pedras em pães porque não era definido pela sua fome. Ele não precisava se jogar do templo porque não precisava de aplausos para validar sua existência.</p>



<p>Enquanto nossa cultura insistir na idolatria aos bezerros de ouro do sucesso financeiro e da visibilidade midiática, seguiremos produzindo Epsteins e alimentando a sombra de nossos líderes. A cura para essa patologia social não reside apenas no rigor da lei, mas em uma profunda reorientação de valores. É urgente questionarmos a salubridade de um sistema onde indivíduos acumulam fortunas inesgotáveis em uma única existência, enquanto a miséria se alastra — um cenário onde o 1% mais rico detém quase metade da riqueza global. Incapazes de dar um destino humano a esse acúmulo, essa energia estagnada busca refúgio na perversão, tornando palpáveis as distopias que antes víamos apenas na ficção, como em &#8216;O Conto da Aia&#8217; ou &#8216;Round 6&#8217;.</p>



<p>Precisamos resgatar o Eros — o princípio de conexão, de relacionamento e de amor. Precisamos entender que a verdadeira riqueza é a capacidade de olhar para o outro e ver um semelhante, não um objeto. Precisamos de menos &#8220;cidadãos de bem&#8221; e de mais seres humanos conscientes de suas sombras, capazes de integrar suas fragilidades em vez de projetá-las no mundo.</p>



<p>A enantiodromia já começou. O pêndulo está voltando. Que a queda dos falsos deuses nos sirva de alerta: o sagrado não está à venda, e o preço que se paga por tentar comprá-lo é, invariavelmente, a própria alma.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p>Referências Bibliográficas e Sugestões de Leitura:</p>



<ol start="1" class="wp-block-list">
<li>Jung, C. G. (2013). <em>Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</em> (Vol. 9/2). Petrópolis: Vozes. (Para a discussão sobre o Self e a Sombra).</li>



<li>Jung, C. G. (2012). <em>Psicologia do Inconsciente</em> (Vol. 7/1). Petrópolis: Vozes. (Sobre a relação entre Poder e Amor).</li>



<li>Bíblia de Jerusalém. (2002). São Paulo: Paulus. (Evangelhos de Mateus 4:1-11 e Lucas 4:1-13 &#8211; As Tentações no Deserto).</li>



<li>Hillman, J. (1993). <em>O Código do Ser</em>. Rio de Janeiro: Objetiva. (Sobre a vocação e o desvio do caráter).</li>



<li>Guggenbühl-Craig, A. (2004). O Abuso do Poder na Psicoterapia e na Medicina, Serviço Social, Sacerdócio e Magistério. São Paulo: Paulus. (Análise fundamental sobre a sombra nas profissões de cuidado e liderança).</li>



<li>Zweig, C., &amp; Abrams, J. (Eds.). (1994). <em>Ao Encontro da Sombra: O Potencial Oculto do Lado Escuro da Natureza Humana</em>. São Paulo: Cultrix.</li>
</ol>



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			</item>
		<item>
		<title>Ética na vida e morte da natureza</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/natureza/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Lorena Oliveira]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Oct 2023 12:26:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Desconexão]]></category>
		<category><![CDATA[Natureza]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Relação Humano-Natureza]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=8195</guid>

					<description><![CDATA[<p>Já parou para pensar o quanto de natureza existe de você e o quanto de você está na natureza? Nesse artigo fazemos uma reflexão sobre o atual estado de desconexão da humanidade com a natureza interna e externa, por meio da sempre presente urgência e desrespeitos aos ritmos, ciclos e processos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>No presente artigo buscamos aprofundar a reflexão sobre nossa relação ética com a natureza, exploração dos recursos e falta de respeito para com a vida em geral.</em></p>



<p><em>A relação entre o</em> <em>humano e o</em> <em>meio ambiente se deteriorou ainda mais com o advento da indústria e do poderio tecnológico</em>, <em>ao mesmo tempo que o aumento da população urbana distanciou grande parte da população da proximidade e observação do meio ambiente.</em></p>



<p>      *<em>Este artigo foi inspirado na palestra que apresentamos no VIII Congresso Junguiano do IJEP. </em> <em>Conheça nossos Congressos Junguianos:</em> <a href="https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep"><em>https://ijep.pages.net.br/congressos-carl-jung-ijep</em></a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-os-homens-primitivos-viam-na-natureza-a-morada-de-seus-deuses" style="font-size:18px">Os homens primitivos viam na natureza a morada de seus deuses.</h2>



<p>Os homens primitivos viam na natureza a morada de seus deuses. Os indígenas tratam a floresta e o local de onde tiram seu alimento, como espaço sagrado. As primeiras divindades foram fruto da observação e temor das forças da natureza. A falta de compreensão racional dos humanos a respeito do funcionamento da natureza fez com que projetassem nela seus primeiros conteúdos inconscientes e, a partir daí, criassem-se os <strong>deuses e mitos</strong>. Obviamente essa é uma redução drástica de uma linha do tempo que data de milênios atrás.</p>



<p>Essa reverência à natureza e aos deuses manifestados por seus fenômenos resultava em uma relação de cautela e precaução em relação à superexploração, poluição e degradação. Ao serem muito mais dependentes do seu ambiente próximo, nossos ancestrais aprenderam, provavelmente ao custo de vidas e sofrimento de algumas gerações, que certas práticas poderiam colocar em risco os alimentos e a saúde de todo um povo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-vida-na-terra-e-fruto-de-inumeras-transformacoes-e-condicoes-muito-peculiares" style="font-size:18px">A vida na Terra é fruto de inúmeras transformações e condições muito peculiares</h2>



<p>A vida na Terra é fruto de inúmeras transformações e condições muito peculiares, desde a localização do planeta no sistema solar, até a temperatura e composição da atmosfera &#8211; perfeitas para possibilitar a existência e evolução da vida ao ponto de gerar seres autoconscientes como nós.</p>



<p>A consciência e a racionalidade humanas tornaram possível que a nossa espécie fosse uma das poucas capazes de se adaptar, por meio de tecnologias, a todos os ambientes do planeta, desde as florestas quentes e úmidas dos trópicos até o inverno congelante do Ártico.</p>



<p>Tal capacidade criativa também fez com que a humanidade fosse capaz de entender o funcionamento de boa parte da natureza e passar então a usá-la a seu favor. Isso não é, de maneira alguma, um demérito, pelo contrário, é um ponto de inflexão na nossa capacidade de se adaptar, pois, a partir de então fomos capazes de produzir alimentos e alimentar um número cada vez maior de pessoas, um tanto menos dependentes da caça e coleta.</p>



<p>Curiosamente, quanto mais conhecimento e controle o homem foi tendo da natureza, menor foi sua conexão com seus ciclos, sua reverência e temor das consequências. Jung baseou boa parte de seus achados teóricos na observação da natureza e era um grande crítico da desconexão entre homem e natureza alegando inclusive que a natureza é o alimento da alma (Duarte, 2017).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-advento-da-industria-e-sua-capacidade-de-processamento-transformou-a-natureza-em-uma-simples-fonte-de-insumos-e-tirou-dela-o-lugar-sagrado" style="font-size:18px">O advento da indústria e sua capacidade de processamento, transformou a natureza em uma simples fonte de insumos e tirou dela o lugar sagrado.</h2>



<p>A desconexão do humano com a natureza fez com que nos esquecêssemos de que dela dependemos. O que observamos, então, é uma formação societária de valorização da conquista, do poder e do domínio. Ao longo de toda uma diversa formação cultural e histórica, o meio natural foi visto como terra a ser conquistada, oportunidade de negócios, gerador insumos, fonte de riqueza. O local sagrado da natureza, e a troca harmônica com este meio, foram colocados em segundo plano.</p>



<p>Voltando o nosso olhar de cinco a seis mil anos no passado, encontraremos o começo da estrutura patriarcal vivida hoje. Nesse ponto da história, grandes transformações ocorreram nos mais diversos níveis. Nas movimentações entre as dimensões internas e coletivas, a progressiva instalação do patriarcado influenciou a preponderância do poder e do controle sobre a natureza interna do feminino.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-paralelamente-a-dominacao-se-estende-a-natureza" style="font-size:18px">Paralelamente, a dominação se estende à natureza.</h2>



<p>Paralelamente, a dominação se estende à natureza. Quando o homem percebe que pode controlar o ciclo reprodutivo dos animais e das plantas inicia-se o controle mais ostensivo, juntamente com a imposição de sua vontade sobre os ciclos naturais. <strong>Inicia-se o rompimento da ordem natural de vida-morte</strong>.</p>



<p>A natureza foi, pouco a pouco, colocada como externa ao homem. Algo que pode ser controlado, medido, aproveitado e modificado. Passou a ser algo a parte de nós. Está distante, fora. Restrita a parques, reservas ambientais e paisagens. O ser humano já não se vê como parte da natureza e a natureza como ele próprio. O meio natural está agora longe, fora e separado de nós.</p>



<p>Essa perda de percepção do meio ambiente como algo do qual fazemos parte – e não apartado de nós – gerou um distanciamento do nosso próprio corpo e de tudo que se refere aos instintos naturais que nos cabem. Desde o processo natural de envelhecimento, até a autopercepção corporal de cansaço, fome e adoecimento. Estamos desconectados com o natural mais próximo a nós, que é o nosso corpo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-o-c-8-2-p-363-afirma-que-a-vida-natural-e-o-solo-em-que-se-nutre-a-alma" style="font-size:18px"><strong>Jung</strong> (O.C 8/2, p.363) afirma que “a vida natural é o solo em que se nutre a alma”.</h2>



<p>Nesta citação, Jung refere-se ao curso da vida, que se compõe de etapas de ascensão e crescimento, envelhecimento e preparação para a morte. Mesmo sendo evidente as fases naturais da nossa vida, que nos encaminham para o envelhecimento e a morte, o entorno cultural direciona as vontades para a juventude e a preservação de uma beleza padronizada insustentável.</p>



<p>Na esfera psíquica, em alguns casos, fica-se atrelado a um passado infantil e pueril, que, nas palavras de Jung geram “verdadeiras monstruosidades psicológicas”. Utilizando-se das imagens do meio natural, como frequentemente o faz, ele afirma que “<strong><em>um velho que não sabe escutar os segredos dos riachos que descem dos cumes das montanhas para os vales não tem sentido, é uma múmia espiritual e não passa de uma relíquia petrificada do passado</em></strong>” (JUNG, O.C 8/2, p.364).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-notavel-ainda-que-o-tempo-natural-tem-sido-rompido-por-uma-urgencia-controladora" style="font-size:17px">É notável, ainda, que o tempo natural tem sido rompido por uma urgência controladora.</h2>



<p>Desde o momento mais elementar do nascimento, a imposição do tempo urgente se faz. Muitas vezes o parto cirúrgico é escolhido pela possibilidade da intervenção médica para se acelerar o processo de nascimento. Projetando os valores de produtividade até mesmo no ato de nascer, em que o ritmo natural do parto é quebrado. Marca-se um horário conveniente e confortável para todos. Em uma sala estéril, asséptica e gelada, um corte é feito e o pequeno ser humano é puxado para o começo de sua vida. O primeiro contato com o mundo externo, muitas vezes não respeita o tempo, a pausa, o ritmo, a cadência das demandas instintivas e intrínsecas à nossa natureza mais elementar e visceral.</p>



<p><strong><em>Vê-se uma paulatina deterioração da integração do homem com a natureza, o que conflui a um distanciamento do homem com seu mundo interno e uma falta de autopercepção mais profunda.</em></strong></p>



<p>Esta sensação de impotência e de alienação, a ausência de significado pessoal e de uma ligação viva com um campo orgânico &#8211; seja ele um grupo social, a natureza ou o <em>cosmo </em>-, é, sem dúvida, a característica psicológica peculiar de nosso tempo. Característica essa fomentada pela religião predominante nos últimos duzentos anos, mais conhecida como ciência. </p>



<p>Somado a isso, a impotência e a alienação são acentuadas pelos efeitos da cultura urbana, da coletivização abarrotante e da tecnologia. Todos estes fatores levaram a sociedade a um estado de entorpecimento e reduziram-na a uma manada. (WHITMONT, 1991, p. 262)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-retorno-da-deusa" style="font-size:18px">O retorno da Deusa</h2>



<p>Neste recorte do livro “Retorno da Deusa”, Whitmont evidencia o adoecimento compartilhado, que permeia várias esferas da nossa vida. Nessa dinâmica ocorre igualmente uma via de mão dupla.&nbsp; Ao mesmo tempo em que o homem em desconexão com sua natureza mais elementar agride e destrói, a natureza adoecida corrobora para uma saúde mental e física deteriorada.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-por-mais-que-joguemos-fora-a-natureza-por-meio-da-forca-ela-sempre-retorna-jung-10-1-514" style="font-size:16px"><strong>Por mais que joguemos fora a natureza por meio da força, ela sempre retorna</strong> (JUNG, 10/1, §514)</h2>



<p>Nos encontramos de diante de um planeta em urgente necessidade de regeneração e avançado estado de degradação. Acreditamos saber os riscos aos quais estamos nos expondo, como espécie, às mudanças climáticas, esse evento abstrato que simbolicamente pode representar a transformação da atmosfera do planeta em algo mais hostil e agressivo. Não sabemos ao certo quanto a atividade humana tem afetado o delicado e profundo equilíbrio que foi construído durante milênios e que possibilitou nossa existência.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ha-esperanca-pois-a-natureza-e-um-continuo-e-muito-provavelmente-a-nossa-psique-tambem-o-e-jung-18-1-181" style="font-size:16px">Há esperança, pois a natureza é um contínuo, e muito provavelmente a nossa psique também o é (JUNG, 18/1, §181)</h2>



<p>Em outras linhas, a criatividade que nos colocou nesse lugar pode justamente nos tirar dele. Ao compreender a natureza, mas sem desejar controlá-la, a humanidade atua em cooperação com seus ciclos e processos. Essa é uma bela metáfora ao processo de individuação, que pode estar se desenrolando na consciência coletiva. Jung também diz que <strong>a natureza não é um guia por si</strong>, pois ela não foi feita para o ser, mas que com a consciência e a inteligência aprendemos a colaborar com ela. </p>



<p>Nossa relação com o meio ambiente talvez reflita parte da nossa relação com a nossa natureza interior. O quanto estamos dando ouvidos às nossas necessidades, à fome da alma? O quanto essa deterioração não tem afetado nosso inconsciente? Quantas doenças não surgiram como resultado da destruição ambiental e do contato com a natureza degradada? O quanto não estamos desrespeitando nossos ciclos, estações e sacralidades interiores?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-se-tivermos-a-natureza-como-guia-nunca-trilharemos-caminhos-errados-jung-10-3-34" style="font-size:17px">Se tivermos a natureza como guia, nunca trilharemos caminhos errados (JUNG, 10/3, § 34)</h2>



<p>Não se faz necessário um retorno aos tempos primitivos, porém, podemos aprender muito com esse tempo em que a natureza era local do divino e sagrado &#8211; merecendo, pois, a devida reverência. As atitudes de cada um contam na construção de uma consciência mais ecologicamente amigável.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-natureza-externa-e-interna-estao-ligadas-e-se-retroalimentam" style="font-size:18px">A natureza externa e interna estão ligadas e se retroalimentam</h2>



<p>O alimento que nos alimenta volta para a natureza, da mesma forma que a degradação do meio ambiente é a degradação da nossa natureza interna. A cada ano, o dia de sobrecarga da Terra<a id="_ftnref1" href="#_ftn1">[1]</a>, uma data simbólica instituída pela Global Footprint Network com base em cálculos do uso dos recursos naturais pelos humanos, acontece mais cedo no ano.</p>



<p>Cada vez mais cedo o ser humano é acometido de doenças relacionadas ao meio ambiente (problemas respiratórios, obesidade, intoxicações) e/ou à superexploração da sua natureza interna (esgotamento, ansiedade, depressão).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-reconexao-com-os-ritmos-da-vida-e-da-morte-se-faz-urgente-e-sao-o-desafio-do-presente-para-a-garantia-do-futuro" style="font-size:18px"><strong><em>A reconexão com os ritmos da vida e da morte se faz urgente e são o desafio do presente, para a garantia do futuro.</em></strong></h2>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="📜 Artigo Novo: Ética na vida e morte da natureza" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Vyd2Kkx61Qg?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p><strong>Autoria:</strong></p>



<p></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/lorenaoliveira/">Lorena de S. Oliveira – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/maurosoave/">MsC. Mauro Angelo Soave Junior – Membro Analista em Formação pelo IJEP</a></p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/simonemagaldi/">Dra. E. Simone Magaldi – Fundadora e Membro Didata do IJEP</a></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias" style="font-size:19px">Referências:</h2>



<p>JUNG, Carl Gustav. <em>A natureza da psique</em>, 10ª edição, Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O. C 10/1 <em>Presente e futuro</em> – Petrópolis, RJ ; Vozes, 2013</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O. C 10/3 <em>Civilização em transição</em> – Petrópolis, RJ ; Vozes, 2013</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. O.C 18/1 <em>A vida simbólica: escritos diversos</em> –Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p>DUARTE, Alisson J. O. Ecologia da alma: a natureza na obra científica de Carl Gustav Jung. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, v. 35, p. 5-19, 2017</p>



<p>WHITHMONT, Edward. <em>Retorno da deusa, </em>2ª ed., São Paulo: Summus, 1991.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p><a id="_ftn1" href="#_ftnref1">[1]</a> <em>O dia de sobrecarga da Terra aponta a data em que teoricamente os recursos naturais que deveriam durar 365 dias se esgotam, e dessa forma, estamos consumindo recursos futuros do planeta no presente.</em></p>



<p></p>



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		<title>O efeito gado e a sombra nossa de cada dia</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/o-efeito-gado-e-a-sombra-nossa-de-cada-dia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Dimas Künsch]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Dec 2022 09:24:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Persona e Sombra]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Ninguém está fora da negra sombra coletiva da humanidade”, avisa Jung. Pode ser muito bom lembrar isso na conjuntura social e política do Brasil neste momento de sua História. Vai aqui uma sugestão de Jung para você e eu tirarmos da sombra individual e coletiva o melhor, no sentido de avançarmos em direção a um [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<h4 class="wp-block-heading" id="h-ninguem-esta-fora-da-negra-sombra-coletiva-da-humanidade-avisa-jung-pode-ser-muito-bom-lembrar-isso-na-conjuntura-social-e-politica-do-brasil-neste-momento-de-sua-historia-vai-aqui-uma-sugestao-de-jung-para-voce-e-eu-tirarmos-da-sombra-individual-e-coletiva-o-melhor-no-sentido-de-avancarmos-em-direcao-a-um-horizonte-de-mais-viva-esperanca">“Ninguém está fora da negra sombra coletiva da humanidade”, avisa Jung. Pode ser muito bom lembrar isso na conjuntura social e política do Brasil neste momento de sua História. Vai aqui uma sugestão de Jung para você e eu tirarmos da sombra individual e coletiva o melhor, no sentido de avançarmos em direção a um horizonte de mais viva esperança.&nbsp;</h4>



<p>Sessenta por cento dos eleitores. “No máximo”, escreve Jung (OC 10/1, §523), alertando se tratar de uma “estimativa otimista”. Com base em plebiscitos – imagino que na Suíça dos tempos de Jung ou ali por perto, e sempre de acordo com ele –, essa poderia ser considerada a camada da população a que ele chama de “espiritualmente estável e consciente”. Estimativa otimista!</p>



<p>Para Jung, esses eleitores, vamos dizer assim, estariam aptos ao exercício encantado da “razão crítica”, no confronto com a gama enorme de atentados contra a alma humana, por via, por exemplo, da massificação, do absolutismo do Estado, da ideologia como mascaramento do real, da ditadura de qualquer tipo ou, ainda, de um tanto de outras coisas que costumam se colocar como ameaça no caminho da afirmação do indivíduo como “medida de todas as coisas” (JUNG, OC 10/1, §523).&nbsp;</p>



<p>Tratar-se-ia, ao fim e ao cabo, daquela parte da população capaz de se afirmar como sujeito e, com isso, de fugir ao jogo diabólico da perversão representada pelo espírito de gado, de manada – de “massa”, para Jung –, esse jogo tão apreciado, e favorecido, pelas tiranias de todas as formas, tempos e lugares.</p>



<p>Escrito em 1957, o livro 1 (<em>Presente e futuro</em>) do volume 10 (<em>Civilização em mudança)</em>&nbsp;das Obras Completas de Carl Gustav Jung nos situa na perspectiva da Europa do pós-guerra. Apresenta-nos um Jung já com mais de 80 anos e muito preocupado com os destinos da humanidade. O octogenário Jung sofreu no corpo e mais ainda no espírito os horrores causados pelo domínio da sombra e da culpa coletiva em duas grandes guerras, algo que o orgulhoso e arrogante século XIX passava longe de poder – ou querer – imaginar. Mais: o homem branco europeu “carrega um enorme peso na consciência” –, como se observa quando a conversa migra das guerras medonhas, ali no continente, para o campo do colonialismo – por causa das “crueldades e carnificinas” que ele, o homem branco europeu, provocou (JUNG, OC 10/1, §571).&nbsp;</p>



<p>A Guerra Fria desloca nessa época o eixo bélico da Europa para os países periféricos e instaura no mundo o equilíbrio do terror, fundado na lambança dos gastos militares – coisa de doido. Uma “cortina de ferro” divide nessa mesma época o continente, e com ele de certa forma o mundo, em dois grandes blocos, o do Império Soviético e o do Império Americano, cada um com suas zonas de influência, sob o jugo respectivamente do comunismo e do capitalismo. Sombra, sombra, sombra!&nbsp;</p>



<p>A ameaça nuclear paira por sua vez também como uma enorme sombra sobre o mundo, projetada pelo brilho absurdamente letal das bombas de Hiroshima e Nagasaki – e Jung desde 1946 já se interrogava, muito preocupado: “Será que as condições morais e espirituais do homem se encontram suficientementes maduras para gerir o uso dessas armas e enfrentar a monstruosidade das consequências possíveis?” (JUNG, OC&nbsp;&nbsp;10/2, §457).</p>



<p>Pergunta retórica. Tudo em Jung nos leva à triste conclusão que não: o homem não se encontra moral e&nbsp;&nbsp;espiritualmente preparado. É Jung mesmo quem o diz, quase que&nbsp;<em>ad nauseam</em>, no contexto da primeira metade do século XX europeu e também depois.</p>



<p>De um lado e de outro da muralha ideológica viceja o materialismo e a fé inabalável na ciência e em sua irmã, a tecnologia triunfante – e nesse terreno específico, capitalismo americano e comunismo soviético brincam por essa época de amarelinha no mercado onde, como Jung se expressa falando do povo alemão, se vende “o espírito à técnica” (JUNG, OC 10/2, §433).&nbsp;</p>



<p>Os regimes totalitários, não vamos esquecer, estão também ali, vivos, vivíssimos, no mundo real tanto quanto numa lembrança ainda muito fresca das engenharias do terror. Tempos sombrios!&nbsp;&nbsp;</p>



<p>É nesse ramerrão geopolítico todo, de briga de cachorro grande e de ameaças com letras maiúsculas, que Jung levanta, assustado, agoniado, a bandeira da defesa da alma humana como o lugar onde o jogo se joga de verdade. Jung vê no indivíduo&nbsp;&nbsp;e em sua singularidade a realidade concreta e vital que os grandes projetos, planejamentos e promessas de matriz científico-tecnológica – exteriores, portanto – prometem, mas não conseguem abarcar.</p>



<p>É sobre o indivíduo que recai corajosamente o foco da psicologia analítica. O indivíduo no mundo, na sociedade, na política, é preciso sempre dizer – porque outra maneira não há de o indivíduo existir. Xô,individualismo! Coisa mais tosca essa de alguém se imaginar numa bolha, nada tendo a ver com a política, direitos e deveres, o preço do pão francês na padaria da esquina e da carne no açougue logo em frente! Jung não pensa desse modo, ao afirmar a perspectiva do indivíduo.</p>



<p>“Nossas realidades culturais não caem do céu”, avisa Jung (OC 10/2, §462). E “cultura”, como está sendo pensado por ele, tem tudo a ver com os modos como pensamos, sonhamos, trabalhamos para organizar o social e o político, a escola para o filho, o almoço do domingo, o atendimento à saúde. Tudo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>“Sem a transformação do indivíduo, nada pode acontecer” (JUNG, OC 10/1, §582). “Tudo depende, portanto, exclusivamente, da condição do indivíduo singular&#8221; (JUNG, OC 10/1, §535). O pai da psicologia analítica nos desafia todo o tempo a “examinarmos nosso coração e nossa consciência” (JUNG, OC 10/2, §441). “Não falo para nações, falo para indivíduos, para alguns poucos que sabem que nossas realidades culturais não caem do céu, consistindo em realizações de homens individuais” (JUNG, OC 10/2, §462). “Alguns poucos.” Anote aí.&nbsp;</p>



<p>Ponto de vista negativo</p>



<p>Há, porém, uma outra visão possível, “mais pessimista”, assinala Jung, diferente dessa que dá sessenta por cento para o espírito crítico e quarenta por cento para a alienação mental. Também porque, como ele expressa, “o dom da razão e da reflexão” – da consciência, portanto, em sua melhor expressão, e, com isso, da crítica e da autocrítica – “não constitui uma propriedade incondicional do homem”. Aliás, nada é “incondicional” nesse mundo dos comportamentos e atitudes humanos. Mesmo lá, onde a virtude da razão crítica se deixa ver e celebrar, “ela se mostra muitas vezes instável e oscilante”&nbsp;&nbsp;(JUNG, OC 10/1 § 489). Instável e oscilante!</p>



<p>Em outro trecho do mesmo livro, mais adiante, Jung volta a expressar esse seu sentimento negativo face a certos postulados que exalam o perfume meio ingênuo de uma aposta grande demais nas virtualidades humanas – e muito particularmente em relação às possibilidades que emergem do agir coletivo. “Não podemos ser muito otimistas”, sugere Jung. “Como se sabe, a natureza não é tão pródiga com seus dons a ponto de dar, por exemplo, a uma grande inteligência também o dom do coração.” Quando um é dado, o outro falta, em regra. Se uma faculdade humana avança e se aperfeiçoa, isso costuma acontecer à custa das demais. Há uma unilateralidade embutida nessas dinâmicas da alma humana. “Um capítulo especialmente penoso é precisamente a falta de integração entre sentimento e intelecto que, na experiência, dificilmente se compatibilizam” (JUNG, OC 10/1, §569). Dificilmente!</p>



<p>Lembra o convite de Jung, linhas atrás, a examinarmos “nosso coração e nossa consciência”? Aqui, o várias vezes Vovô Jung está dizendo que a coisa não é fácil, que a integração entre um e outro lado de nós mesmos não se dá, constituindo por isso mesmo “um capítulo especialmente penoso”. “Quem quer passar além do Bojador / Tem que passar além da dor”, diz o poeta, e nisso ele concorda de cheio com Jung.</p>



<p>Por certo podem ser muito diversos os modos como se apresentam a instabilidade e a oscilação de que trata Jung ao falar dos respeitáveis sessenta por cento de pessoas “espiritualmente estáveis e conscientes”. São pessoas de espírito crítico, diferentes portanto da condição triste e assustadora de indivíduos dissociados psíquica e cognitivamente, resultando em formas também diversas de dissociação social, coletiva – coisa de gado.&nbsp;</p>



<p>Jung menciona um caso em que o potencial consciente desses sessenta por cento de eleitores críticos costuma, no mínimo, balançar. Isso pode facilmente ocorrer – ele diz – em circunstâncias políticas em que determinados grupos – de não-amantes da razão crítica! – adquirem uma expressão maior, mais contundente. “Se o Estado de direito sucumbe, por exemplo, a um acesso de fraqueza, a massa pode esmagar a compreensão e reflexão ainda presentes em indivíduos isolados, levando fatalmente a uma tirania autoritária e doutrinária” (JUNG, OC 10/1, §489). Morte da razão crítica, por esmagamento… Dá até para pensar numa boiada desembestada. Quem segura?!</p>



<p>Jung não podia, na época, se referir a uma teoria da comunicação&nbsp;<em>de massa</em>&nbsp;– palavra perigosa, para Jung! – que só viria a existir a partir do final dos anos 1970, desenvolvida pela alemã Elizabeth Noelle-Neumann: a espiral do silêncio. Traduzindo, de forma simples: quando você, que se imagina fora da bolha ou da manada, se cala – por medo, covardia ou simplesmente por não querer se sentir um peixe fora d’água –, acaba consolidando a perspectiva de pensamento e ação com a qual não concorda. E o que às vezes nem maioria é acaba por parecer maioria. Pior: acaba virando maioria. Eia, boi!&nbsp;</p>



<p>Isso representa mais do que pode significar a expressão “quem cala consente”. O estrago nas relações amorosas entre coração e consciência é maior, e o é também para o mundo da sociedade e da política, do coletivo. Um silêncio, portanto, que de fato grita, ou fede – o silêncio da espiral do silêncio.</p>



<p>Em que condições, então, pode se dar o verdadeiro estado de graça de uma argumentação racional, que leve a uma mudança positiva no campo social e também do indivíduo? Como garantir na esfera pública a boa deliberação, fundada na ação comunicativa? – é o que perguntaria Jürgen Habermas, um representante ainda vivo da Teoria Crítica, ou Escola de Frankfurt.</p>



<p>Vai depender do nível das emoções, responde Jung. Há um ponto crítico, um nível de “temperatura afetiva” que, em sendo ultrapassado, “dá ruim”. É quando o racional perde o seu caráter racional – democrático, poderíamos acrescentar –, e a coisa descamba para o lado da “possessão coletiva”. E da possessão à epidemia psíquica é um pequeno pulo. A virulência antissocial assume a dianteira. O efeito <strong>gado</strong> triunfa. Viva o fanatismo! Viva o Führer!&nbsp;<em>Heil!</em></p>



<p>Mito! Mito! Mito!&nbsp;</p>



<p>Crítica? Autocrítica? Kkk!</p>



<p>“Eh, oh, oh, vida de <strong>gado</strong>. Povo marcado, eh! Povo feliz!”, canta Zé Ramalho, em “Admirável <strong>gado</strong> novo!”.&nbsp;</p>



<p>Toda semelhança com o Brasil desses nossos últimos e horrorosos anos de insensatez política, de destruição sistemática das prerrogativas do estado de direito e de vilipêndio à democracia, aos direitos sociais e ao direito sagrado que tem a pátria de ser mátria,&nbsp;<em>frátria&nbsp;</em>(Caetano Veloso), não é mera coincidência. Mas não é, mesmo!</p>



<p>Mas engana-se redondamente quem imagina que esse tipo de gente dissociada, doida de pedra, fanática, constitua “simplesmente uma curiosidade apenas vista nas prisões e nos hospícios”, chama a atenção Jung. Porque bastaria, em princípio, fazer as contas da matemática do pessimismo que se anuncia em Jung a respeito do assunto. Senão vejamos: já a visão otimista situa em cerca de 40 por cento – 4 em cada 10! – o número de eleitores que, sem maior acanhamento, conseguem se deixar arrastar pelo movimento avassalador do espírito de <strong>gado</strong>.&nbsp;</p>



<p>Mas – como dizia Jung – esse número cresce, até Deus sabe que altura, em circunstâncias onde o estado de direito sucumbe e as loucas emoções tomam conta de uma nação. A manada aumenta, se irrita, urra. O&nbsp;<em>homo hominis lupus</em>, de Hobbes, sai do armário, de dentes arreganhados. Tudo ameaça virar com o tempo uma verdadeira&nbsp;<em>bellum omnia omnes</em>, a guerra de todos contra todos, ainda segundo Hobbes – e, se somos angustiados, se reina um desconforto geral no mundo, defende Freud em&nbsp;<em>O mal-estar na civilização</em>&nbsp;apoiando-se em Hobbes, é porque no fundo, no fundo, a civilização o que faz é cercear, reprimir esses nossos instintos mais básicos…&nbsp;</p>



<p>Libere o lobo! Solte os cães raivosos! Solta os instintos e empunhe as armas, <strong>gado</strong>! Marcha, soldado! Um-dois-um-dois! A nossa bandeira jamais será vermelha! Deus acima de tudo!</p>



<p>Voltando a Jung, a razão crítica – a faixa da população “espiritualmente estável e consciente”, mais uma vez – irá sob essas condições desfavoráveis parecer de repente completamente esmagada sob os cascos da boiada. Triturada. Silenciada. Parecer?&nbsp;</p>



<p>Jung está nos dizendo que a coisa é muito mais séria, perigosa, triste. Mais do que&nbsp;<em>to be or not to be</em>. Um caso sério de psiquiatria, e você às vezes nem respirar direito consegue em contextos como esse. Deus me livre! Hannah Arendt dizia do totalitarismo que sua ação mais perversa não consiste primeiramente em cercear a liberdade, perseguir, matar: ele age sobre a nossa alma, louco para destruir nossa capacidade de pensar e refletir, de sentir (ARENDT, 2008). Uma morte por dentro. A pior.</p>



<p>Com seu pessimismo, pelo menos nesta parte específica de sua obra, Jung também não ajuda muito a dissipar essa sensação de impotência provocada pelo fenômeno do efeito <strong>gado</strong>, ou da possessão coletiva e consequente epidemia psíquica. Porque, no caso negativo e assustador de aumento da efervescente loucura, e ampliando o pensamento de Jung, pode-se intuir facilmente que a rua vira hospício. A avenida e as rodovias viram hospício. As portas dos quartéis viram hospício. Nossas igrejas viram hospício. Todo lugar pode virar hospício.&nbsp;</p>



<p>Mas como é que se chega a essa conclusão tão assustadora? A culpa é de Jung! Ele fala essas coisas, e a gente fica aqui, sofrendo, como cidadãos desafiados pela vida a escapar da caverna de Platão, onde o que se vê são simulacros dessa mesma vida. “Isso mesmo!” – protesta Jung. “Você tem toda a razão!”</p>



<p>Pelos cálculos que Jung faz com base em sua experiência de muitos anos como médico e terapeuta, “para cada caso manifesto de doença mental existem ao menos dez casos latentes que nem sempre chegam a se manifestar”. As condutas dessa gente e seus modos de ver as coisas “encontram-se sob a influência de fatores inconscientes doentios e perversos, apesar de toda a aparência de normalidade” (JUNG, OC 10/1, §490). Mãe de Jesus!</p>



<p>Não custa continuar fazendo umas contas dessa que estou aqui chamando de matemática do mal – e você, cara leitora e caro leitor, irá como eu ficar em dúvida se é mal com inicial minúscula ou maiúscula. Podemos ficar com os dois?</p>



<p>Imaginemos os efeitos – para o mundo, para a democracia, para o cidadão – do estrago causado pela possessão diabólica, ainda que, como aponta o próprio Jung no mesmo texto, não haja “nenhuma estatística médica a respeito da frequência das psicoses latentes”. Tá bom! Mas – veja só o que ele diz –, mesmo que fosse baixa essa proporção, inferior a um décimo, ainda assim, não se deve nem de longe menosprezar a “alta periculosidade” que essa parte da população representa.&nbsp;</p>



<p>Ainda que estejamos nos movendo no labirinto da especulação, amparados no pessimismo junguiano do momento, podemos continuar imaginando – e a coisa só piora: se esses 40 por cento de indivíduos mais ou menos avessos ao cultivo da razão crítica são sérios candidatos à possessão coletiva, que pode virar epidemia… Se, quando isso acontece, “esse tipo de indivíduo” deixa de ser “simplesmente uma curiosidade apenas vista nas prisões e nos hospícios” para se mostrar pra lá e pra cá na rua, na igreja, no estádio de futebol, ainda que sob o manto da normalidade&#8230; Se, para cada caso manifesto de doença mental pode existir ao menos dez casos latentes….&nbsp;</p>



<p>Ai, ai, ai. Paremos por aqui! Também porque a vida do indivíduo e da sociedade está longe de poder se deixar explicar pelo recurso à matemática, muito menos ainda quando circulamos, como é o caso, no terreno movediço das especulações, da opinião e da imaginação.</p>



<p>Vamos, sim, parar. Mas a renúncia ao signo perigoso da explicação por parte de um ego muito provavelmente inflacionado não nos exime da tarefa de perguntar e tentar compreender. O perguntar nos eleva à condição de humano ser, concordaria Kant, ainda que respostas definitivas, exatas e arrogantemente esculpidas à imagem e semelhança de uma excrescência chamada racionalismo, possam nem existir.&nbsp;</p>



<p>Faz sentido. Porque, se é verdade – como defende ardorosamente Jung – que “a consciência é uma condição do ser” (JUNG, OC 10/1, §528), é também verdade que essa mesma consciência – como lugar privilegiado do que estou chamando de signo da explicação, espaço do argumento e da lógica, do método, da balança, da régua e do esquadro – está longe, muito longe, não obstante todo o seu brilho e importância, de abarcar a totalidade psíquica.&nbsp;</p>



<p>A consciência é ilha, o oceano é o inconsciente. É de novo Jung quem o diz, com redobrado ardor, muitas e muitas vezes em sua obra. Inflacionada a consciência, a saúde psíquica vai pro saco – e não só a saúde psíquica – o que, de novo, acontece mais do que a gente gosta, uma vez que, como aponta Jung (OC 10/1, §562), “parece muito perigoso para o eu duvidar de sua monarquia”. Pobre oceano, imenso e desprezado!</p>



<p>A explicação, a definição e o conceito, por sua unilateralidade, mais violentam a diversidade e a complexidade do real que auxiliam na busca de uma compreensão mais ampla e não dogmática das coisas. Fecham ao invés de abrir. Colocam pontos finais em estações da vida onde a complexidade dessa mesma vida e da realidade chama para muitas horas de conversa ao redor do símbolo mítico da fogueira.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Autoconhecimento e compreensão</p>



<p>Muito mais complicada ainda se torna toda essa situação, portanto, pelo fato curto e rasteiro de que&nbsp;&nbsp;os “ressentimentos fanáticos” que campeiam pelo mundo dessa “irracionalidade coletiva”, na visão de Jung, “exprimem certos motivos e ressentimentos também presentes nas pessoas normais (<em>sic</em>!), embora adormecidos sob o manto da razão e da compreensão” (JUNG, OC 10/1, §490). O perigo de toda essa coisa horrorosa vir à tona e infeccionar completamente o tecido social, sempre de acordo com Jung no mesmo parágrafo, se dá “sobretudo em razão do conhecimento muito limitado que as pessoas, ditas normais, possuem de si mesmas”.</p>



<p>E é aqui, me parece, que a condição&nbsp;<em>sine qua non</em>&nbsp;de todo caminho de individuação – o autoconhecimento – nos revela como esse passo inegociável no desenvolvimento da personalidade constitui a base mais profunda não apenas do encontro/confronto com o Si-mesmo, mas também de toda espécie de responsabilidade política e social, de toda luta por libertação, pelo fim da tirania, pelo empenho em favor da justiça social, da democracia e da paz.&nbsp;</p>



<p>Mas eis que se apresenta de novo um problema de todo tamanho: “Normalmente, confundimos &#8216;autoconhecimento&#8217; com o conhecimento da personalidade consciente do eu”, e isso não é correto: “O eu [&#8230;] só conhece os seus próprios conteúdos, desconhecendo o inconsciente e seus respectivos conteúdos” (JUNG, OC 10/1, §491). É a ilha imaginando (poder) ser o mar, com toda a dose de ignorância e preconceito que Jung tanto odeia ver existir em relação ao “campo amplo e vasto do inconsciente, não alcançado pela crítica e pelo controle da consciência” (JUNG, OC 10/1, §493).</p>



<p>Em nossa cultura ocidental, de matriz marcadamente branca, cristã e patriarcal, Jung deixa com todas as letras claro que o ego arrogante e inflacionado – que pensa conhecer o indivíduo fazendo médias estatísticas, operando a partir do coletivo e da ideia do universal –, é filho dileto do cientificismo que a tudo julga poder conhecer e explicar. E é aí que o indivíduo, não “o universal e o regular”, mas o “singular e único”, como unidade “que, em última análise, não pode ser comparada nem mesmo conhecida”, sobra, é jogado para escanteio. O efeito manada dá as caras, convoca, seduz, prospera. <strong>Gado.Gado. Gado!</strong></p>



<p>Jung, retoma nesse momento de sua conversa, embora sem mencionar explicitamente, uma antiga discussão no interior das chamadas&nbsp;<em>Geisteswissenschaften</em>&nbsp;(ciências do espírito) entre conhecimento e compreensão. Mais precisamente, a distinção que se fazia primeiramente na Alemanha desde o século XIX era entre “explicar” (<em>Erklären</em>), que constituiria uma tarefa primeira das ciências naturais, e “compreender” (<em>Verstehen</em>), mais condizente com os propósitos das ciências do espírito.&nbsp;</p>



<p>Embora reconhecendo toda a graça e valor da empresa científica, Jung literalmente chuta o balde da epistemologia tradicional, fortemente positivista, egolátrica, monoteísta. O criador da psicologia analítica, como escrevi em “Jung e a heresia do método” (KÜNSCH, Online), reivindica “o direito a se opor à trama estreita, redutora e reducionista das explicações de tipo lógico-racional, para propor horizontes compreensivos de maior envergadura espiritual”.</p>



<p>Com esse propósito, Jung apela para o conhecimento do indivíduo em sua singularidade, o que implica “abdicar de todo conhecimento científico do homem médio e renunciar a toda teoria de modo a tornar possível um questionamento novo e livre de preconceitos”. Mais ainda: “Só posso empreender a tarefa da compreensão com a mente desembaraçada e livre (&#8230;), ao passo que o conhecimento do homem requer sempre todo o saber possível sobre o homem em geral” (JUNG, OC 10/1, §495).&nbsp;</p>



<p>Opa! Conhecimento não é o mesmo que compreensão! Compreender é, pois, diferente de explicar. Ainda que se deva “fazer uma coisa sem perder a outra de vista” (JUNG, OC 10/1, §496), vale dizer que a contemplação do indivíduo em sua singularidade e, bem lá no fundo, em seu mistério, só pode mesmo se dar no registro da compreensão – e o termo&nbsp;<em>compreender</em>, do latim,&nbsp;<em>comprehendere</em>, significa juntar, integrar, incluir… abraçar.&nbsp;</p>



<p>A compreensão não explica nem define: ela afaga, inclui, abraça. Ela se deixa mais seduzir e pautar pelo universo livre e encantado das metáforas, dos mitos, da arte, dos símbolos em geral, do que pela falsa onipotência de tudo poder explicar, dissecar, analisar, no sentido mais cartesiano do termo.</p>



<p>O conhecimento compreensivo – poderíamos dizer: de alma para alma, quando no&nbsp;<em>setting&nbsp;</em>terapêutico, ou também da pessoa consigo mesma, com a sua própria alma – é o único que possibilita um confronto humano, plural e fértil com o indivíduo em sua singularidade: a compreensão compreende também o conhecimento e a explicação.</p>



<p>“Para a compreensão, o homem em sua singularidade consiste no único e no mais nobre objeto de sua investigação, sendo necessário o abandono de todas as leis e regras que, antes de tudo, encontram-se no coração da ciência. O médico, principalmente, deve ter consciência dessa contradição” (JUNG, OC 10/1, §497).</p>



<p>É fácil reconhecer como ressoa, nesse e em outros pontos que lhe estão próximos no texto de Jung, o conteúdo de uma de suas frases mais citadas, que ele talvez nunca tenha pronunciado, assim, dessa forma: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”. Pode não ter dito, assim, dessa maneira. Mas que está ali, está.</p>



<p>A sombra e o Mal nosso de cada dia</p>



<p>É desse modo que a coisa se complica, ainda mais e enormemente. Porque, no andar dessa carroça chamada vida, como está se vendo, são de fato muitas as abóboras que é preciso acomodar. Abóboras e pedras.&nbsp;</p>



<p>Nosso pessimismo e nossa brincadeira – aliás, muito séria – com a matemática do mal parecem adquirir com tudo isso, e a cada novo parágrafo deste ensaio, ingredientes mais desanimadores. Trata-se, nesse contexto, de coisas que nos ameaçam, atravessam e costumam cheirar mal, podendo por isso mesmo legitimar o pessimismo de Jung nessa fase de sua vida e em confronto com o&nbsp;<em>Zeitgeist&nbsp;</em>que se descortina diante de seus olhos, no final dos anos 1950.&nbsp;</p>



<p>Primeiro, como eu dizia, fazendo as contas com Jung, temos aí esses quarenta por cento de eleitores mais ou menos – ou mais que menos, para dar crédito ao pessimismo – dissociados psíquica, cognitiva e socialmente. Esse número, lamenta Jung, como eu já disse, pode se agigantar em determinadas conjunturas ideológica e psiquicamente tomadas muitas vezes até a tampa pelo irracionalismo das ideias e práticas que por elas circulam.</p>



<p>Isso pode ter muito a ver com a pressão do coletivo sobre o indivíduo – pressão essa que vez ou outra se transforma em puro terror –, mas há também o fato, lembrado por Jung, do caráter instável e oscilante justamente daqueles que encontram em geral motivos para se distanciar do ser-gado.&nbsp;</p>



<p>Ao imbróglio gerado por esse cenário estatístico, em nada muito promissor, agora se soma o dado de que a consciência – ai, meu Deus, a pequena razão, diria Nietzsche! – erra, e erra feio, ao nutrir muitas vezes o vício de fazer uma aposta demasiado elevada em seu potencial cognitivo: é, mais uma vez, a ilha julgando abarcar, conhecer, dominar o oceano inteiro, ou melhor, imaginando-se oceano.&nbsp;</p>



<p>É, com outras palavras, a arrogância rondando o tempo todo essa casa de muitos quartos, portas e janelas onde “não somos os senhores”. É o medo e é a covardia de a gente não querer se aventurar no mundo incerto e perigoso do inconsciente – mundo encantado e assustador ao mesmo tempo, misterioso:&nbsp;<em>tremendous et fascinans,</em>&nbsp;numinoso, sagrado, no dizer de Rudolf Otto (2021), dual, ambivalente.&nbsp;</p>



<p>Capaz apenas de falar de si mesma – e olhe lá! – com as ferramentas de que dispõe, quando deixa de se abrir ao imponderável, ao indizível, ao sagrado que como centelha divina em nós existe e que nos move, a consciência erra o objetivo, não se amplia, não progride, dá BO. Não consegue contemplar os vastos horizontes, porque acaba por circular o tempo todo ao redor do próprio umbigo. Inflada, agitada, nervosinha, explode e lança estilhaços de sua insignificância humana, social e política para tudo quanto é lado. Projeta, projeta, projeta.&nbsp;</p>



<p>Mas isso está ainda bem longe de ser tudo o que se pode dizer sobre o terror e a bem-aventurança representados pela busca do Si-mesmo e a exorcização do espírito de gado. Falta ainda um elemento indispensável para fecharmos essa equação do autoconhecimento. Exige-se, para que o autoconhecimento se dê, uma verdadeira virada epistemológica – algo assim como uma revolução copernicana no universo do conhecimento, como propõe de fato Jung.&nbsp;</p>



<p>Explicar menos e compreender mais! A epistemologia tradicional, ortodoxa, esculpida à imagem e semelhança do racionalismo e do positivismo, passa longe de poder dar conta desse diálogo com a alma humana. A compreensão vem primeiro na ordem das coisas do espírito, objetiva e concretamente falando.&nbsp;</p>



<p>Eis aí um traço importante dessa revolução do pensamento: Jung atribui ao inconsciente coletivo o estatuto da objetividade!&nbsp;<em>Vade retro!</em>, berra o pensamento científico ortodoxo, assustadíssimo! Mas deixemos que berrem, que gritem, que esperneiem esses “adoradores da razão”, como os nomeia Jung! Que fiquem lá com sua racionalização infeliz, doentia: a doença da razão se chama racionalização, como entende Edgar Morin. Trata-se de espíritos frágeis e personas lastimáveis, que sofrem por incapacidade de dançar a dança da diversidade consciente-inconsciente, matéria-espírito, Ego e Si-mesmo, uma dança que traz em si promessas e riscos, tem seus cálculos e os seus delírios… “Traduzir uma parte na outra parte / Que é uma questão de vida e morte / Será arte?” (Ferreira Gullar).&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Aliás, e de novo: a alma humana não se deixa explicar, como na realidade não se deixa explicar nada que diga respeito àquelas perguntas primeiras e mais profundas do existir. O numinoso representado pelo campo enorme do inconsciente coletivo, com seus instintos e os seus arquétipos todos, é objeto de experiência, em primeiro lugar. Experiência! Experiência de vida, e não a experiência científica no sentido do mais puro e tantas vezes tacanho método científico.&nbsp;<em>Primum vivere, deinde philosophare</em>!&nbsp;</p>



<p>Assim, o apelo junguiano à metanoia – essa reviração do espírito, esse renascimento espiritual na direção do Si-mesmo e da totalidade psíquica – abrange também, como nem poderia deixar de ser, o mundo do conhecimento, ou daquilo que Aristóteles classificava como o desejo natural de saber. A dissociação psíquica, no campo vasto da política como em outros campos, arrasta o sujeito para a doidice da dissociação cognitiva. Melhor, muito melhor é ouvir o Idiota, o maluco das colheres de pau, personagem do autor do livro&nbsp;<em>Da douta ignorantia</em>, Nicolau de Cusa, em pleno século XV (KÜNSCH, Online).&nbsp;</p>



<p>Esse apelo à metanoia por parte de Jung e o acento que ele coloca a toda hora e em todo o canto no indivíduo como grau zero do movimento de mudança do mundo não devem obscurecer o gigantismo do desafio social, democrático, cidadão que nos acossa o tempo todo, em países como o Brasil. Compreender é preciso, diria Hannah Arendt. Mas o mal, em toda a sua banalidade, está aí, na forma por exemplo do mais vil totalitarismo (ARENDT, 1999). Lá, onde “o mito vira dogma” (Martín Sagrera), perdendo seu conteúdo simbólico e cognitivo, e onde a consciência se compraz em se entregar ao ímpeto violento do gado e da manada, a convocação para a luta se faz presente, a partir do mais íntimo da alma humana. Indignação ética, vamos dizer assim. Não necessariamente, é claro – e essa é uma das principais razões do pessimismo que insiste em atravessar estas páginas.&nbsp;</p>



<p>“A partir de dentro”, sussurra Jung. Aliás, quase grita, quando ele afirma com todas as letras que “o que, em última instância não caminha bem é o homem” (JUNG, OC 10/2, §441). E o faz quase que no calor infernal provocado pelos bombardeios na Segunda Guerra, a matança, a doideira, a possessão diabólica por aquilo que, gado ou não gado, está também em nós, nos provoca, evoca, convoca… para a frente, não para trás, preferencialmente! Progressão, não regressão!&nbsp;</p>



<p>Jung faz de novo essa afirmação sobre a centralidade do indivíduo, incluindo o universo do coletivo, no muito sofrido e dramático ensaio “Depois da catástrofe”, sobre o nazismo e a Segunda Guerra Mundial, escrito em 1946. O ensaio encontra-se no segundo livro (<em>Aspectos do drama contemporâneo</em>) do volume 10 (<em>Civilização em mudança</em>). Vem depois de “Wotan”, sobre o mesmo tema, escrito em 1936, e antes de “A luta com as sombras”, de 1946.</p>



<p>As sombras, esse nosso lado B, o outro lado de nós mesmos. Esse “outro homem existente em nós” (JUNG, OC 10/1, §560). Essa “força extremamente poderosa” (JUNG, OC 10/2, §455). “Ninguém está fora da negra sombra coletiva da humanidade” (JUNG, OC 10/1, §572).</p>



<p>“O mal, a culpa, o medo profundo, a consciência moral e as instituições sinistras estão aí para quem quiser ver”, expressa Jung, em sua atenta e eterna luta para não deixar que se faça&nbsp;&nbsp;do mal uma abstração,&nbsp;<em>privatio bonum</em>&nbsp;ou algo do gênero. “Foram homens que cometeram esses atos”, ele reforça. E conclui: “Eu sou um homem e, enquanto natureza humana, compartilho dessa culpa como também trago em minha própria essência a capacidade e a tendência a fazer algo semelhante”. Fazer algo semelhante a quê? Às “coisas terríveis que aconteceram e ainda acontecem”, como os crimes cometidos pelos europeus durante o período colonial. Ou como os crimes do nazismo. “Nós somos, enquanto seres humanos, criminosos em potencial”, arremata Jung, sempre no mesmo parágrafo (JUNG, OC 10/1, §572).</p>



<p>Pronto! A Sombra e o Mal. A sombra e o mal nosso de cada dia e de cada um.&nbsp;&nbsp;Ferrou! É aqui, como deixa claro Jung, que um lado e outro da Cortina de Ferro conversam sem querer um com o outro. “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (Glauber Rocha). É aqui, podemos dizer nós,&nbsp;<em>hic et nunc</em>, que aspectos importantíssimos do efeito-gado e manada habitam o nosso interior, nos atravessam e ameaçam. Assustam-nos. “Mefistófeles é o outro lado de Fausto e não pode mais dizer: ‘Isso era, pois, a essência de um cão’, mas teve que confessar: ‘Isso é o outro lado, meu&nbsp;<em>alter ego</em>, minha sombra infelizmente demasiado real e inegável” (JUNG, OC 10/2, §440).</p>



<p>Uma “Declaração da Dignidade do Homem”</p>



<p>Nesta altura, o termômetro do pessimismo pode ganhar alguns graus a mais de temperatura, beirando o desespero do paciente. Ou também não. Pertencendo de modo irrenunciável à vida psíquica do indivíduo, como parte de sua natureza humana, e não sendo por isso mesmo coisa do Demo, a sombra promete. Assusta e promete. Sombra e luz podem conversar uma com a outra mais do que supõe às vezes a nossa vã filosofia. “O mal habita a natureza humana independentemente da nossa vontade e (&#8230;) não pode ser evitado”, entrando “na cena psicológica como o lado oposto e inevitável do bem” (JUNG, OC 10/1, §573).</p>



<p>“De que maneira eu convivo com essas sombras? Que atitude é necessária para se viver, apesar do mal?”, pergunta Jung. “Faz-se necessária uma renovação mental abrangente”, ele responde, “que não pode provir de alguém especial, devendo ser conquistada por cada um” (JUNG, OC 10/2, §443).</p>



<p>Eis a chave: “Sem culpa não pode haver maturação psíquica nem tampouco ampliação do horizonte espiritual” (JUNG, OC 10/2, §440). Jung busca inspiração na Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 20 (“Onde abundou o pecado superabundou a graça”), quando propõe que “onde a culpa é grande, a graça pode também ser imensa”&nbsp;(JUNG, OC 10/2, §441).&nbsp;Pode, se você e eu nos mostrarmos dispostos a “examinar nosso coração e nossa consciência”, como sugere Jung – e essas duas coisas (coração e consciência), como já sabemos de outro trecho, não costumam muito viver um grande amor uma pela outra, o tempo todo, apaixonadas.&nbsp;</p>



<p>No entanto, a abundância da graça onde a culpa é grande, em acontecendo – se eu tomo consciência disso, ativamente –, “produz uma transformação interior infinitamente mais importante do que as reformas políticas e sociais que, na verdade, de nada valem nas mãos de homens injustos”&nbsp;(JUNG, OC 10/2, §441). Essa “renovação mental abrangente” que deve “ser conquistada por cada um”, como trouxemos linhas antes, pode ser entendida como a condição elementar para que as “verdades eternas” sejam “geradas novamente em cada época pela alma humana” (JUNG, OC 10/2, §443). Em cada época!</p>



<p>Como não perceber a importância de tudo quando neste ensaio está sendo dito, a partir de Jung, para o Brasil deste final de ano de 2022 e início de 2023? Como poderíamos querer tapar o sol com a peneira de nossa arrogância, insensatez e alienação, e querer negar que é difícil, muito difícil, tomar consciência de nossas sombras e reconhecer que somos parte – e não apenas vítimas – dessa doidice gerada pelo efeito gado? Que chance têm a democracia e os nossos esforços por mudança social, se não reconhecemos o grito lancinante de nossa natureza mais profunda por um movimento sério de autoconhecimento, de mudança de nossas mentes e de nossos corações, de metanoia?&nbsp;</p>



<p>Fugir às dinâmicas de negação da própria sombra e de sua projeção sobre os outros é preciso – assinala Jung. “A verdade é preferível a um silêncio injurioso”, ele diz (JUNG, OC 10/2, §427), referindo-se aos alemães e ao nazismo. Dói, mas tem o poder de curar. “Se os homens soubessem a vantagem que representa encontrar a própria culpa, que dignidade e elevação da alma isso significa!” (JUNG, OC 10/2, §415).&nbsp;</p>



<p>“Na verdade, pouco se ganha em perder de vista a própria sombra, ao passo que o conhecimento da culpa e do mal que habitam em cada um traz muitas vantagens. A consciência da culpa oferece condições para a transformação e melhoria das coisas”, ensina Jung. E diz por quê: “Como se sabe, aquilo que permanece no inconsciente jamais se modifica e as correções psicológicas são apenas possíveis no nível da consciência. A consciência de culpa pode, portanto, converter-se no mais poderoso movente moral” (JUNG, OC 10/2, §440).</p>



<p>De vantagens desse tipo, que ofereçam a nós e ao nosso País “condições para a transformação e melhoria das coisas”, parece que estamos precisando demais da conta. Essa metanoia radical, por via da consciência da própria culpa, capaz de “converter-se no mais poderoso movente moral”: que aconteça logo, em abundância!&nbsp;</p>



<p>Não se deve em momento algum estranhar que Jung leve a discussão sobre como fugir do efeito gado, na sociedade e na política, para o território da religião – ou, mais precisamente, para a função religiosa da alma humana. É da experiência religiosa que Jung fala, dessa mesma experiência que, em outro contexto, ele distingue da própria fé, vista como ato segundo em relação à experiência do divino. “Uma resposta positiva ao problema da experiência religiosa apenas pode-se oferecer se o homem estiver disposto a satisfazer as exigências de um exame e conhecimento rigoroso de si mesmo”: autoconhecimento!&nbsp;</p>



<p>Crítica e autocrítica! Consciência do mal e da sombra em nós! Alienação mental, vida de gado, manada, jamais! Credo em cruz!</p>



<p>Jung prossegue, dizendo que, “se (o homem) assim fizer, não só descobrirá algumas verdades importantes sobre si mesmo, mas também obterá uma vantagem psicológica: terá conseguido julgar a si mesmo como pessoa digna de toda consideração e simpatia”. Bonito isso! Autoconhecimento! Autoestima! Autonomia de ação!</p>



<p>Sempre no mesmo trecho de sua obra, Jung conclui, poética e divinamente: “Assim, ele (o homem), de certo modo, subscreverá uma declaração da dignidade do homem e dará, ao mesmo, um primeiro passo para a fundamentação de sua consciência, ou seja, para o inconsciente a única fonte existente da experiência religiosa” (JUNG, OC 10/1, §565).</p>



<p>Uma declaração da dignidade do humano ser, subscrita pelo indivíduo… para o mundo! Gado, não! Gente!</p>



<p><strong>PS.:</strong>&nbsp;Coincide com o exato momento da redação final deste ensaio a escolha, pelo IJEP, do tema de seu VIII Congresso, marcado para junho de 2022: “Ética, espiritualidade e política no campo junguiano”. Acho que, também no mundo da vida psíquica, como diz o ditado, a língua toca onde o dente dói. Julgo que o Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa responde, por meio dessa sua escolha, a um sinal dos tempos, que aponta para a urgência de um “movente moral” indispensável para a reconstrução e ampliação do terreno violentamente pisoteado pelo gado, em tempos recentes da História do Brasil. Entendo que este ensaio possa ser visto como uma tentativa de circular com alguma dose mais elevada de esperança pelas complexas, múltiplas e promissoras vias que o tema do próximo Congresso irá sugerir.&nbsp;</p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/dimaskunsch/">Dimas A. Künsch</a> – Analista em Formação pelo IJEP</p>



<p><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi</a> – Analista Didata</p>



<p><strong>FOTO:</strong>&nbsp;THALES CARRARO</p>



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<p><strong>Referências</strong></p>



<p>ARENDT, Hannah.&nbsp;<em>Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal.</em>&nbsp;São Paulo: Companhia das Letras, 1999.</p>



<p>ARENDT, Hannah. O que resta? Resta a língua. In:&nbsp;<em>Compreender: formação, exílio e totalitarismo</em>. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008, p. 31-53.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Presente e futuro</em>. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. [OC 10/1].</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Aspectos do drama contemporâneo</em>. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. [OC 10/2].</p>



<p>KÜNSCH, Dimas A. Jung e a heresia do método.&nbsp;<em>Portal do IJEP</em>. Disponível em:&nbsp;<a href="https://blog.sudamar.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/">https://blog.sudamar.com.br/jung-e-a-heresia-do-metodo/</a>. Acesso em: 2 dez. 2022.</p>



<p>KÜNSCH, Dimas A. Livrai-nos do Mal. Amém!&nbsp;<em>Portal do Ijep.</em>&nbsp;Disponível em:&nbsp;<a href="https://blog.sudamar.com.br/livrai-nos-do-mal-amem/">https://blog.sudamar.com.br/livrai-nos-do-mal-amem/</a>. Acesso em: 2 dez. 2022.</p>



<p>KÜNSCH, Dimas A. Deus e o idiota das colheres de pau: um ensaio sobre o inefável.&nbsp;<em>Portal do Ijep.</em>&nbsp;Disponível em:&nbsp;<a href="https://blog.sudamar.com.br/deus-e-o-idiota-das-colheres-de-pau-um-ensaio-sobre-o-inefavel/">https://blog.sudamar.com.br/deus-e-o-idiota-das-colheres-de-pau-um-ensaio-sobre-o-inefavel/</a>. Acesso em: 2 dez. 2022.</p>



<p>OTTO, Rudolf.&nbsp;<em>O sagrado</em>. 5.ed. São Leopoldo: Sinodal, 2021.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Precisamos falar sobre Inveja</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/inveja/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 13 Jul 2022 10:54:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[ciúme]]></category>
		<category><![CDATA[inveja]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É necessário diferenciarmos o fato de uma pessoa lutar para conquistar algum objeto de desejo ou lutar para alcançar seus ideais, quando feito com respeito e ética humana e ecológica, da inveja que é uma doença psicoafetiva altamente destrutiva devido seu acentuado estado de egocentrismo.</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/inveja/">Precisamos falar sobre Inveja</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>É necessário diferenciarmos o fato de uma pessoa lutar para conquistar algum objeto de desejo ou lutar para alcançar seus ideais, quando feito com respeito e ética humana e ecológica, da inveja que é uma doença psicoafetiva altamente destrutiva devido seu acentuado estado de egocentrismo. Para o cristianismo a inveja é um dos sete pecados capitais porque o invejoso é aquele que deseja que o outro deixe de possuir aquilo que ele não se sente capaz de ter, chegando até a destruir a conquista do outro, ou o outro conquistador quando a doença fica mais agravada. Muitas vezes a inveja é confundida com a cobiça, que é o querer para si muita mais do que os demais.</p>



<p>Freud, a meu ver, criador de uma teoria pansexual afirmando que toda criança é um polimorfo perverso em busca da realização de sua pulsão sexual, não consegue se desvencilhar da arcaica e machista visão aristotélica sobre a mulher, conceituando-a incompleta tomada por sentimentos histéricos devido à inveja do pênis. &nbsp;O postulando de Freud é que as mulheres se sentem sujeitos castrados – sem falo – sofrendo os efeitos dos sentimentos de inferioridade e inveja. Jung, entretanto, elaborou a noção dos arquétipos de animus e anima, contrapontos sexuais da mulher e do homem respectivamente, deixando de lado os complexos de castração e inferioridade, separando a inveja das questões de gênero e da sexualidade.</p>



<p>Alfred Adler foi o primeiro psiquiatra a usar o termo complexo de inferioridade para designar sentimentos de insuficiência e até incapacidade de resolver os problemas, o que faz com que a pessoa se sinta fracassada, devido a sentimentos de baixa auto-estima, geralmente originados pela falta de autoconhecimento. Ele também associou esse complexo com as atitudes patológicas da inveja, afirmando que, para superar essa fraqueza surge o desejo ardente de poder.</p>



<p>Estas são as razões de vermos, em muitas instituições, principalmente aquelas que possuem forte esquema hierárquico e um certo protecionismo e estabilidade, como as religiosas, acadêmicas, políticas, militares ou em órgãos estatais, indivíduos medíocres que, ao assumirem um posto hierárquico de superioridade, tornam-se verdadeiros déspotas com seus subordinados que venham demonstrar autonomia, ideias próprias e podem ameaça-lo. Mas, quando vamos analisar a vida dessas pessoas, fora da persona de empoderamento, são indivíduos que se sentem fracassados. Obviamente, com seus superiores, portam-se como vassalos e bajuladores subservientes.</p>



<p>O progresso tecnológico da humanidade acabou estimulando a competitividade como forma de crescimento e diferenciação. Com isso, os padrões de moralidade humana declinaram, dando espaço para que a inveja se instalasse perniciosamente na nossa cultura, por acentuar os sentimentos de inferioridade e exclusão. Por outro lado, se passarmos a viver a vida praticando o autoconhecimento, estaremos conscientes, tanto dos nossos limites quanto o dos outros, por ficarmos capacitados em transformar a competição em cooperação, além de aprendermos aproveitar as oportunidades, mesmo diante do fracasso, reconquistando a motivação pelas conquistas sem o teor da inveja pela vitória do outro.</p>



<p>Para isso é necessário compreendermos que a vida não é uma competição, e sim um aprendizado para a nossa própria auto-superação. Devemos aprender que os fatos em si não derrotam ninguém, e sim a forma de como reagimos aos fatos é que produzem os fracassos. Devemos aprender com as dificuldades, esta é o melhor método psicoterápico. Existe, entretanto, no invejoso uma compulsão de que se uma pessoa se destaca em alguma atividade, por mais simples que possa parecer, ele está sempre pronto para criticar e tentar minimizar o sucesso de seu próximo, como descreveu <em>Ovidio </em>(43 à17 a.C.):</p>



<p>“A Inveja habita no fundo de um vale onde jamais se vê o sol. Nenhum vento o atravessa; ali reinam a tristeza e o frio, jamais se acende o fogo, há sempre trevas espessas(&#8230;). Assiste com despeito aos sucessos dos homens e este espetáculo a corrói; ao dilacerar os outros, ela se dilacera a si mesma, e este é seu suplício”. [Metamorphoses livro II., pg. 770]</p>



<p>A inveja produz sentimentos destrutivos, associados à ira ou raiva, porque o invejoso se sente o merecedor da conquista da outra pessoa, achando que ela invadiu o seu espaço. Ele não percebe sua incapacidade ou inércia, sendo capaz de investir muita energia para boicotar, “fofocar”, mentir, inventar ou preparar armadilhas a fim de destruir o outro, iludido em provar, ao menos hipocritamente para si mesmo, que ele é melhor, embora no seu íntimo, sente-se menor do que os outros.</p>



<p>Geralmente o invejoso se vangloria, enaltece-se, fala excessivamente bem das próprias coisas, pois dessa forma abranda seu mal-estar, procurando diminuir o outro através de crítica. Não percebe, muitas vezes, as suas frustrações, e é como se elas não existissem, porque logo está pronto para realizar mais um feito de diminuição, de descaracterização, na tentativa de burlar suas próprias angústias. Pode ser que esse processo venha da convivência no ambiente familiar, onde comparações são freqüentes, sem contar que a mídia propaga processos agressivos de comparação entre as várias marcas dos produtos apresentadas.</p>



<p>A melhor solução pode estar na forma de utilizar e de encarar a inveja, que visualizada em termos comparativos pessoais de evolução, do antes e depois, do ontem e do hoje, deixa de ser inveja, tornando-se uma identificação projetiva ou ideativa que pode virar um auto-estímulo de crescimento. Isto é, o padrão de comparação deixa de ser externo e passa a ser interno. O não invejoso vê no objeto de desejo, a satisfação, quando conquistado por méritos próprios, e não quando é feita em cima da conquista do outro, através de métodos antiéticos de destruição.</p>



<p>Os invejosos estão sempre provocando, escarnecendo e criticando àqueles que invejam, e quando a patologia chega aos extremos, chegam a praguejar, desejando ao invejado as piores desgraças. Se não podem fazê-lo diretamente, o fazem através de outros (falando mal, denegrindo, desvalorizando), mas sempre com a certeza de que atingirão seu alvo. O invejoso tem dificuldade para encontrar o que elogiar, ou valorizar nas outras pessoas, assim como é comum encontrar sempre uma razão para duvidar daqueles que estão à sua volta com o objetivo de derrubá-los. A pessoa invejosa acha tão difícil suportar que o outro tenha alguma coisa boa que ele não pode reconhecer ou usar aquela pessoa como modelo, duelando com ela, ao invés de tentar fazer um dueto cooperativo.</p>



<p>Temos a passagem do&nbsp;Novo Testamento, em João 9:22 a 30, a descrição de que os fariseus estavam cegos de inveja pelo ato de jesus ter curado o cego. Tudo leva a crer de que eles gostariam de ter as capacitações, habilidades e conhecimentos de Jesus, que lhe conferiam autoridade, e não poder, por isso Ele representa o amor e a generosidade, atributos que os invejosos criticam, desprezam e até desqualificam. Nesta passagem queriam desqualificar o milagre realizado porque ele aconteceu num sábado, e este dia não é para isso! Isso nos faz refletir a respeito da cegueira que impede os invejosos ver valores no outro.</p>



<p>No filme Amadeus temos uma das melhores representações de inveja, protagonizada por Salieri, que não aceitava como aquele jovem tolo tinha tanta capacidade musical. Na realidade, para ele, era muito difícil ver a generosidade de Mozart distribuindo sua genialidade de forma livre.</p>



<p>Espero que, apesar de suscinto e com pouca explanação teórica ou acadêmica, este pequeno texto possa colaborar com a ampliação do conhecimento a respeito deste aspecto do jogo das sombras, onde projetamos nossos conteúdos inconscientes no entorno relacional.</p>



<p>Waldemar Magaldi Filho – Analista didata do IJEP – Coordenador dos cursos de pós-graduação, lato sensu, que titulam especialistas em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Arteterapia e Expressões Criativas</p>



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		<title>Abandono Social</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/abandono-social/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ana Paula Maluf]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Jun 2022 12:27:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[Dependência Química]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Resiliência]]></category>
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		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
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		<category><![CDATA[dependência química]]></category>
		<category><![CDATA[mendigo]]></category>
		<category><![CDATA[morador de rua]]></category>
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		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vivemos hoje um estado de calamidade pública. A população em situação de rua vem crescendo de forma acentuadamente drástica. Basta olhar pela janela e trilhar as calçadas. Segundo fontes SISAB de 2020, 221.869 pessoas se encontram em situação de rua, sendo 34,7% mulheres e 65,35% homens.&#160; Parece que na pandemia o número dobrou nas grandes [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Vivemos hoje um estado de calamidade pública. A população em situação de rua vem crescendo de forma acentuadamente drástica. Basta olhar pela janela e trilhar as calçadas. Segundo fontes SISAB de 2020, 221.869 pessoas se encontram em situação de rua, sendo 34,7% mulheres e 65,35% homens.&nbsp;</p>



<p><strong>Parece que na pandemia o número dobrou nas grandes cidades.</strong></p>



<p>A população vulnerável socialmente&nbsp;que vive a pobreza extrema é formada também por trabalhadores que exercem atividades informais. 70% dos moradores de rua trabalham como catadores de reciclagem, flanelinhas, em construção, limpeza e carregadores. 15,7% da população em SP são pedintes.</p>



<p>Encontramos na rua uma diversidade de pessoas e circunstâncias. A questão da saúde é um problema bastante grave também. As drogas são bastante presentes entre moradores de ruas e as patologias psiquiátricas.</p>



<p><strong>A maioria de quem mora na rua faz pelo menos uma refeição ao dia.</strong></p>



<p>Em dezembro de 2019, foi instituído um decreto (decreto n°7053) que define população em situação de rua como grupo populacional heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que utiliza os logradouros públicos de as áreas degradadas como espaço de moradia e de sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento para pernoite temporário ou moradia provisória.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="816" height="518" src="https://blog.sudamar.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1.jpg" alt="" class="wp-image-4100" srcset="https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1.jpg 816w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-300x190.webp 300w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-768x488.webp 768w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-150x95.webp 150w, https://blog.ijep.com.br/wp-content/uploads/2022/06/Imagem1-450x286.webp 450w" sizes="(max-width: 816px) 100vw, 816px" /></figure>



<p>É um tema bastante amplo pois mesmo em situação de rua encontramos situações das mais diversas pois falamos de humanos. Faltam-nos políticas públicas e iniciativas sociais privadas para adentrar a essa realidade. Que situação é essa vivida por alguém na rua que conseguiu muitas vezes se libertar dos compromissos e pressões coletivas sociais, mas abraça a dor e a ferida social da invisibilidade?</p>



<p>Ao pensarmos em rua e pobreza, pensamos em bem e mal e logo somos arremessados a uma instância rígida de nossa criação cristã, precisamos muitas vezes alimentar o mau fora de nós para sermos bons. Essa ideia acaba sendo alimentada por muitas igrejas, constelando o arquétipo do salvador e alimentando no morador em situação de rua o arquétipo do invalido nutrindo a pobreza.</p>



<p>&#8230;pois mais fácil é passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no Reino de Deus (Lucas 18: 24-25). Numa sociedade unilateralizada que carrega a literalidade&nbsp;como característica, acaba entendendo a citação acima de forma literal. Logo que nos deparamos com essa imagem de pessoas habitando ruas que se contrasta com nossas mansões, pensamos no sentido da vida e de alguma forma a representação da imagem de Deus</p>



<p>Jung afirma que, desde que “todos os opostos são de Deus”, devemos nos curvar diante desse “peso”. Os opostos são a pré-condição indestrutível e indispensável de toda vida psíquica escreveu Jung em 1955 no Mysterium Coniunctions.</p>



<p>Jung afirma também que é através da psique que podemos estabelecer que Deus age sobre nós. E a expressão da psique se dá através de nossa cosmovisão e, portanto, atitude diante do mundo. Então&#8230; o que será que acontece com a nossa sociedade, com os indivíduos que se tornam indiferentes aos que habitam as ruas? O que será que leva um indivíduo a habitar as ruas?&nbsp;</p>



<p>&nbsp;Quem são esses indivíduos que perambulam pelas noites sombrias quando a luz cai; já que diante da luz são rejeitados e expelidos às sarjetas? São expelidos à margem de nossos caminhos. Para reconhecer esses “corpos perambulantes” preciso de alma e no mundo desalmado, o olhar é pelos olhos da razão.</p>



<p>&nbsp;Sem alma não há relação entre as polaridades que constituem a natureza humana. Sem diálogo entre os lados, não há alcance ao que é divino e caímos na experiência de um aparthaid que julgamos ser natural. Separamos do mundo o imundo gerando cisão, rompimento, negação e violência social. </p>



<p><strong>Se tudo é uno, quando integro o outro em mim, me aproximo do coletivo.</strong></p>



<p>&nbsp;Pensar em mundo é vislumbrar a totalidade que envolve sistemas e contradições relacionais devido à diversidade de experiências vivas. Jung fala da busca de totalidade no processo de individuação, e a totalidade compreende as oposições e aproximação entre elas. Portanto se me distancio e nego o imundo, nego parte do meu mundo.</p>



<p>“Completude ou unidade é a condição original de existência, antes que o primeiro “pensamento” entre e comece a discriminar e diferenciar isso “daquilo”. (DONALD, pensamentos de Jung sobre Deus pg25.)</p>



<p>Da mistura de conteúdos no princípio da criação, separamos através da função de discriminar durante o processo de desenvolvimento para poder posteriormente unir de forma consciente. Mas o homem contemporâneo parece literalizar essa ideia e vivê-la fora de si.</p>



<p>A totalidade é um estado onde consciência e inconsciente trabalham juntos em harmonia, onde estas instancias estabelecem um diálogo possibilitando a integração de aspectos sombrios.</p>



<p>Esse apartado da sociedade faz parte de uma “classe” a parte, (termo usado por alguns indivíduos que vivem essa situação.)&nbsp; São invisíveis no meio de tanta gente por serem incômodos pela sua aparência suja e seu fedor. </p>



<p>Nós?! Somos limpos e polidos e assim somos aceitos e não nos misturamos e nem sequer dialogamos com esse outro lado. Esse corpo negado e rejeitado a ponto de se tornar invisível é a própria sombra que projetamos no pedinte imundo.</p>



<p>“A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais. Mas nesta tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se defronta com considerável resistência”. (Jung &#8211; OC 9/2 § 14)</p>



<p>“Hoje em dia, defrontamo-nos com o lado escuro da natureza humana toda vez que abrimos um jornal ou ouvimos o noticiário. Os efeitos mais repulsivos da sombra tornam-se visíveis na esmagadora mensagem diária dos meios de comunicação, transmitida em massa para toda a nossa moderna aldeia global eletrônica. O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva.”</p>



<p>“O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia em nossas próprias células. Nossos ancestrais animalescos, afinal de contas, sobreviveram graças às presas e às garras. A besta em nós está viva, muito viva — só que a maior parte do tempo encarcerada.” (Ao encontro da sombra – Robert Bly pag. 20)</p>



<p>Essa sombra materializada nesses indivíduos não é anônima, ela têm nome e história com muitas marcas. Somos “Josés” somados a cada parte de nós que lê esse texto e reverbera essas ideias e imagens em si, pois formamos uma unidade. Essa é a totalidade.</p>



<p><strong>&nbsp;Cada um, uma história que vai além do pessoal e é coletiva também.</strong></p>



<p>&nbsp;Um corpo tem que ocupar um lugar no espaço. Qual é esse espaço que o morador em situação de rua ocupa? Esse corpo nos assusta e desperta nossos medos de fracasso já que ainda não tomamos ciência de quê fracassamos como sociedade.</p>



<p>É o medo pelo que ele nos representa. Vivemos em bolhas distantes umas das outras onde não há relação e diálogo entre elas, empobrecendo a nossa condição humana. Não comungamos de ideias e perdemos propósitos.</p>



<p>Na visão da psicologia analítica se não aproximarmos essas polaridades continuaremos tomados pelo monoteísmo da consciência e corremos o risco do aprisionamento em nossas certezas e verdades que são frutos de nossos complexos de poder que habitam as sombras e um ego rígido que nos acorrenta.&nbsp;</p>



<p>Esses indivíduos caminham lentamente pois não tem energia, enquanto nós corremos, pois temos pressa e assim não aprofundamos nosso olhar. Vivem a fome, o frio e a solidão em seus corpos enquanto nós nos fartamos a mesa e vivemos com 5.000 likes nas redes sociais.</p>



<p>Seus olhos&#8230; Um olhar perdido sem sentido, sem direção enquanto nós focados fixamente no sucesso. Esses indivíduos têm uma pisada desalinhada com os pés sujos e cascudos para dar conta da realidade árida e dura enquanto nós fazemos malabarismos em nossos saltos altos.</p>



<p>Como opção nós caminhamos muitas vezes para nos buscar e muitos deles caminham para fugir de si&#8230; A população de rua vem aumentando drasticamente, o que reflete o aumento da exclusão social fruto de valores sociais que nutrem um modelo econômico que vivemos, onde nem todos se enquadram.</p>



<p><strong>“Muito para poucos e pouco para muitos&#8230;”&nbsp;</strong></p>



<p>Esse é o corpo social que se torna fruto dos corpos individuais.</p>



<p>&nbsp;O mendigo pedinte e sem teto é a antítese da imagem e vida desejada por nós cidadãos de “sucesso” &#8230; Esse é o espírito da nossa época que eles também fazem parte. Como seria se perceber menos perfeito e mais inteiro com todas as carências e sujeiras que carregamos na alma?</p>



<p>Como é se deparar com corpos desnutridos, arcados e sujos, famintos de comida, já que estamos em corpos famintos de espiritualidade e humanidade que se expressa na materialidade do excluído? Só atingiremos a divindade quando mudarmos o olhar para com o tema da espiritualidade que se realiza de forma concreta, inclusive no corpo. Nessa desunião que vivemos, separamos o bom do mal sem condição para o diálogo e adoecemos como indivíduo e sociedade.</p>



<p><strong>“Não posso perfumar e nem performar a alma”</strong></p>



<p>&nbsp;Essa é uma das batalhas internas em tempos modernos onde a ilusão do controle é alimentada socialmente para manter a persona polida. Sendo assim a tendência é projetar e rejeitar todo o dejeto naquele que em mim não cabe em lugar nenhum.</p>



<p>&nbsp;Minha intenção é questionar e quem sabe despertar outros olhares sobre o tema invocando assim algo dessa energia ligada ao feminino, resgatando quem sabe a capacidade em acolher e se relacionar com o outro em mim para perceber o outro nele nessa aproximação.</p>



<p>Tentar entender a dinâmica desse grupo de indivíduos na tentativa de desenvolver aquilo que de forma consciente ou inconsciente “tiramos” deles em relações de uso, abuso e poder. É uma tentativa mais consciente de reparação, não para aliviar a culpa, mas sim por sentir-se parte integrante e ativa dessa sociedade com propósito de evoluir como humano.</p>



<p><strong>&nbsp;Precisamos nos aproximar para olhar de forma mais profunda.</strong></p>



<p>“Sim, uma pessoa nunca é representada por ela mesma. Uma pessoa só é alguma coisa em relação a outros indivíduos. Só obtemos dela um retrato completo quando a vemos em relação, a seu entorno, assim como não sabemos nada sobre uma planta ou um animal quando não conhecemos seu habitat”. (traumanalyse,253 sobre o amor- Jung)</p>



<p>Todos fazemos parte desse cenário, cada corpo em seu lugar e todos direta ou indiretamente pagamos o preço da fome, da miséria e da violência. Como num mosaico somos pedaços que compõem o TODO.</p>



<p>“Se você não quiser arruinar se moralmente só existe uma pergunta a fazer: Qual é a necessidade que você mesmo carrega quando se comove com a situação aflitiva de seu irmão?” (Briefi II, 395, Jung Sobre o amor) Vamos repensar caminhos e sentidos e para isso preciso parar e mergulhar nesse universo.</p>



<p>&nbsp;Sim&#8230; sofremos de fome, fome de alma e de espírito. Vivemos em corpos “sarados” lustrados por personas ajustadas, polidas e perfumadas. Isso é um problema? Não, se não negarmos seu contraponto, mas, como diz Jung:&nbsp;</p>



<p>“Reconheçamos que nada é tão difícil quanto suporta-se a si mesmo” o que também explica a projeção da sombra social. Segundo Jung “ninguém vive fora de sua pele,” e só acessamos o outro através da empatia no olhar que conectar a ferida do outro a minha. (Jung pag 373. Oc7/2)</p>



<p>A partir dessa fala entendemos nossas projeções sombrias sobre esses indivíduos, esquecendo assim de nossas faltas e também dos excessos que formam essa dinâmica polar.</p>



<p>O que não achar lugar na consciência para ser constelado, fica excluído e pode se associar aos complexos sociais dominantes, nos tornando em seguida dominados pela nossa própria dominação. Assim como a rua abraça o não acolhido, esses complexos sociais são âncora à sombra coletiva.</p>



<p>&nbsp;Olhar no olho desse outro e estabelecer diálogo é possibilitar olhar com os olhos subjetivos para o interior de si e recordar assim “quem sou” de forma mais inteira, atualizando o passado e presente em aspectos emocionais que foram rasgados, arranhados e que se tornaram feridas veladas. Olho para o outro como espelho do outro de mim&#8230;</p>



<p>Vivemos individualmente o que vivemos coletivamente e vice-versa. Entendo que precisamos desenvolver consciência mais ecológica para entender esse corpo que vive no corpo de Gaia.&nbsp;O corpo negado de Gaia é a própria negação da energia do feminino, que acaba projetado no corpo do indigente imundo, negando parte do corpo social.</p>



<p><strong>&nbsp;Que corpo é esse sofrido e não amado?</strong></p>



<p>Que relação é essa que estabelecemos com o outro onde nos esfriamos e nos distanciamos do amor em seu sentido maior, potencializando o nosso complexo de poder criando adversários fora de nós Como lidar com a pobreza social se não começamos pela nossa pobreza e vulnerabilidades de alma. O complexo negado atua em nós, nos conduzindo á trágica realidade onde geramos mais pobreza e nos anestesiamos diante dela.</p>



<p>&nbsp;<strong>“A invisibilidade só deixará de existir pela mudança no olhar.”</strong></p>



<p>Me pergunto se todas as guerras, derramamento de sangue e miséria não assaltaram a criação quando um homem procurou ser senhor de outro (&#8230;) E essa miséria não irá embora (&#8230;) quando todas as ramificações da humanidade considerarem a terra como um tesouro comum a todos.”&nbsp;(Gerrard winstannley, the new law rightteouness, 1649 – Calibã e a Bruxa pag 112)</p>



<p>Enquanto isso consideramos esse grupo de moradores em situação de rua como o metaverso da “nossa” sociedade sombria. Nos falta amorosidade e maturidade para olharmos esse assunto com pés no chão.</p>



<p><strong>Enquanto buscamos poder anulamos o poder do amor.</strong></p>



<p>“Ali onde predomina o amor não há vontade de poder, e onde há predominância do poder, não há amor. Um é a sombra do outro.&nbsp;&nbsp;Aquele que se coloca no ponto de vista do Eros tem um oposto compensador da vontade de poder. Mas aquele que enfatiza o poder tem como compensação o Eros. Vista do ângulo unilateral do posicionamento da consciência, a sombra é uma parte de menor importância da personalidade, e por isso é reprimida por uma intensa resistência. Mas aquilo que é reprimido precisa tornar-se consciente para que se crie uma tensão dos opostos, sem a qual não há possibilidade de continuidade de movimento. De certa forma, a consciência é em cima e a sombra é embaixo e como que está no alto sempre tende a descer às profundezas. O quente ao frio, assim toda a consciência, talvez até sem se perceber, busca por seu oposto inconsciente, sem o qual ela é condenada à estagnação, ao assoreamento ou à fossilização. Só nós o posto é que a vida se acende.” (Jung OC 7&nbsp;<a>§&nbsp;</a>78)</p>



<p>A vida e a psique nos impulsionam a realizar potencial. Tornar-se si mesmo nos aproximando do coletivo.&nbsp;Buscamos nosso lugar através do sentimento de pertencimento a si e ao mundo. Desenvolver a centelha divina em nós é realizar o inconsciente no sentido do servir para vir a ser. <strong>Muitos de nós nunca foi sonhado, então como pode sonhar?</strong></p>



<p><strong>Infelizmente deixamos de ser Homem de argila para sermos Homens de lata!</strong></p>



<p><strong>&nbsp;“E apesar de todas as diferenças, a unidade da humanidade haverá de se impor de modo inexorável.”(Jung Oc 10/1§ 568)</strong></p>



<p><strong>Ana Paula Maluf</strong></p>



<p><strong>Bibliografia&nbsp;</strong></p>



<p>Calibã e a Bruxa – SILVA FEDERICI – Ed. Elefante</p>



<p>Aspectos do feminino – C.G JUNG – Ed. Vozes&nbsp;</p>



<p>Pensamentos de Jung sobre Deus – DONALD R. DYER, PH.D.- Ed. Madras</p>



<p>Psicologia do inconsciente – C.G JUNG 7/1 – Ed. Vozes&nbsp;</p>



<p>A natureza da psique – C.G JUNG 8/2 – Ed. Vozes</p>



<p>Ao encontro das sombras – Connie Zweig e Jeremiah&nbsp;&nbsp;Abrams -Ed. CULTRIX</p>



<p>Presente e futuro – C.G. JUNG 10/1&nbsp;&nbsp;&#8211; Ed. Vozes</p>



<p></p>
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		<item>
		<title>A política como espaço de manifestação da sombra</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-politica-como-espaco-de-manifestacao-da-sombra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Daniel Gomes]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Apr 2022 15:01:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Totalitarismos]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sombra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A política nos últimos anos se tornou o grande tema de discussões acaloradas, o Brasil encontra-se amplamente polarizado. Acusações de ambas as partes sem o menor sinal de racionalidade que possa se apresentar como uma possível integração de cada um dos lados. É neste contexto que a política no Brasil e no mundo pode se tornar um espaço ideal de manifestação das nossas sombras, de tudo aquilo que não reconhecemos em nos mesmos. Neste artigo convido a todos para uma reflexão a respeito da política como espaço de manifestação da sombra.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nunca nos encontramos tão polarizados diante das questões políticas como nos dias de hoje, lembro bem dos meus pais e avós perguntando uns aos outros em quem votariam. Não existia um receio de se apontar para um candidato ou para outro, naquela época eu tinha a impressão de que todos buscavam fazer a coisa certa com o seu voto. Essa cena hoje em dia me causa saudades, apesar de fazer mais de 30 anos. O fato é que as coisas mudaram e de forma muito rápida, depois desta época. Quando eu já tinha idade suficiente para votar, não queria saber de política, não me interessava quem seria o governador ou presidente, ninguém era honesto o suficiente, a questão importante aqui é a projeção deste pensamento direcionada no político.&nbsp;</p>



<p>O último pleito para presidente no Brasil se tornou o grande marco da polarização que se consolidou. Uma consolidação que talvez há muito tempo já estava em curso, porém apenas de modo inconsciente. Afinal, precisamos ter em mente que qualquer mudança social que presenciamos hoje é fruto de uma movimentação inconsciente que leva anos, e que a priori se manifesta na individualidade de cada um, porém fica mais evidente em um espaço coletivo onde a liberdade e a força do ego se encolhem diante da massificação.&nbsp;<em>Quando se trata do movimento da massa e não mais do indivíduo, cessam os regulamentos humanos e os arquétipos passam a atuar.&nbsp;</em>(Jung, Vol10/2 §395s)</p>



<p>É preciso lembrar que não são apenas as mudanças que levam anos e anos para se manifestar, o que se encontra reprimido também. Quando Jung fez uma análise do que estava acontecendo na Alemanha, um pouco antes de estourar a segunda guerra, percebeu a emergência de uma figura arquetípica na imagem de Wotan, com o despertar deste deus germânico no eminente conflito que estava surgindo. Para se ter uma ideia do tempo que se leva para um conteúdo arquetípico atravessar as linhas do inconsciente coletivo, Richard Wagner intuiu a necessidade da transformação da cultura alemã, que foi de certa forma representada no ciclo de 4 óperas conhecidas como “O anel de Nibelungo”. O detalhe é que essas ideias estavam sendo desenvolvidas quase 60 anos antes da primeira guerra mundial e lá já aparece a manifestação desta potencialidade destrutiva.</p>



<p>Talvez atualmente as repressões não levem tanto tempo assim com o advento tecnológico das redes sociais, a verdadeira face daquilo que se reprime encontrou um caminho de manifestação para além dos sonhos, hoje a constelação de um complexo se manifesta ao vivo e em cores. Basta um celular conectado à internet para se presenciar a sombra de um sujeito emergir em meio a uma guerra, naquele momento o opressor (guardado a sete chaves) encontrava seu verdadeiro espaço entre os oprimidos. Um complexo não escolhe nem hora nem lugar, ele apenas constela.</p>



<p>Como Jung já demonstrou, a constelação de um complexo pode alcançar tal força que o ego perde sua autonomia, parecendo mais um passageiro de um carro desgovernado. O mundo tecnológico não é único lugar que abre espaço para essas manifestações, a política acaba se tornando um espaço para as manifestações de mesma ordem, porém no âmbito coletivo. Edward Edinger explica que a falta de um espaço que possa comportar as imagens arquetípicas acaba encontrando um caminho na política ou movimentos seculares quando:</p>



<p>[…] o valor supra pessoal projetado, que foi retirado do seu recipiente religioso, seja reprojetado em algum movimento secular ou político. Mas os propósitos seculares jamais constituem um recipiente adequado para conteúdos religiosos. Quando a energia religiosa é aplicada a um objeto secular, temos diante de nós algo que se pode descrever como adoração de ídolos – uma forma espúria e inconsciente de religião. O atual exemplo destacado de reprojeção é o conflito entre o capitalismo e comunismo. (Edinger, p.104)</p>



<p>O que Edinger está falando neste recorte pode muito bem nos ajudar a entender melhor o que estamos assistindo na política brasileira, nos últimos 4 anos em específico. O messias que um dia foi tão aguardado como o salvador do mundo me parece que foi reprojetado no Jair Messias. O que estamos assistindo hoje no meio político não pode ser estudado através da particularidade de uma única pessoa na figura do político, o que devemos fazer neste cenário é se perguntar o que o político A, B ou C trazem como representação do coletivo, porque a psicopatologia de massa tem suas raízes na psicopatologia individual. (Jung 10/2 §445). O que estamos assistindo na política é a verdadeira guerra de opostos representados pela esquerda e pela direita, mas que na realidade é entre a democracia, que pode ser de direita ou de esquerda, e padrões autoritários e ditatoriais. É no teatro do inconsciente que Edinger ampliou bem essa ideia:</p>



<p>Quando o valor do Si-mesmo é projetado por grupos opostos entre si, em ideologias políticas conflitantes, temos uma situação semelhante à da quebra da totalidade original do Si-mesmo em fragmentos antiéticos que lutam entre si. Nesse caso, as antinomias do Si-mesmo ou Deus passam a atuar na história. Ambos os lados de um conflito partidário derivam sua energia da mesma fonte, o Si-mesmo comum, mas inconscientes disso, eles estão condenados a viver o conflito trágico na própria vida. O próprio Deus é enredado nas malhas do conflito sombrio. (Edinger, pág.104)</p>



<p>A ideia dos lados opostos entre si no Brasil não é tão recente, na década de 30 existiu um movimento no Brasil chamado integralismo, a frente deste movimento estava um Plínio Salgado, que levou o movimento da extrema-direita com ideias muito similares ao que vigora nos tempos atuais. Naquele tempo Plínio queria um país voltado para o nacionalismo através do movimento conhecido como “Ação integralista brasileira” o AIB. O movimento estava em busca de recuperar valores nacionais. Não seria também a base do atual governo, uma recuperação de valores, do amor à pátria, à família tradicional com um Deus acima de todos. Nas palavras de Pedro Doria,&nbsp;<em>a história sempre ilumina aquilo que vivemos.&nbsp;</em>A história demonstra para nós que alguns movimentos similares entre si se repetem, e assim vejo também o mesmo acontecendo do inconsciente para consciência coletiva.</p>



<p>A política e os movimentos políticos/sociais acabam se tornando um grande espaço de manifestação de conteúdos sombrios que muitas vezes não são reconhecidos, como acabamos de ler acima. Tudo que age a partir do inconsciente vai aparecer projetado no outro (Jung, Vol 8/1 §99), as vezes nos reconhecemos, as vezes repudiamos como algo totalmente fora de cogitação por padrões éticos ou morais, mas não na política. Quaisquer possibilidades de censura entram em cena a bandeira da imunidade parlamentar ou qualquer outra lei que de legitimidade aos atos do indivíduo representante de uma determinada facção política, e neste caso do coletivo também, porque uma pessoa neste espaço não carrega uma ideia particular, mas sim a ideia vendida para um coletivo.</p>



<p>É preciso lembrar que o sistema psíquico está sempre em busca de autorregulação, em outras palavras, compensação. Qualquer parte da consciência que houver uma desordem encontraremos no inconsciente um movimento simbólico com a representação de ordenamento, para qualquer injustiça a justiça, para violência a paz ou uma violência mais exagerada ainda. Jung observou esse fenômeno acontecendo na Alemanha nazista, e explicou que:</p>



<p>Quando essa espécie de movimento compensatório do inconsciente não consegue ser absorvido pela consciência individual, pode gerar uma neurose ou até mesmo uma psicose, e o mesmo vale para o coletivo. É evidente que para se produzir um movimento compensatório desse tipo é preciso que algo esteja fora de ordem na atitude consciente; algo deve estar invertido ou fora de proporções, pois somente uma consciência desequilibrada pode provocar um movimento contrário no inconsciente. (Jung, Vol 10/2 §448s)</p>



<p>Como Jung deixa claro, o que vale para o individual também vale para o coletivo, o problema não resolvido na psique pessoal agregará pessoas em torno da mesma ideia, e assim nascerá o movimento de massa que poderá eleger alguém como o representante de tudo que não foi possível transformar no campo pessoal, porém sem sucesso, pois essa atitude de mudança não pode depender do campo coletivo. Não se pode esperar que o político mude a vida de uma nação sem que isso aconteça também campo pessoal e Jung entendeu bem essa questão:</p>



<p>A integração de conteúdos inconscientes consiste num ato individual de realização, compreensão e valoração moral. Trata-se de uma tarefa extremamente difícil que exige um alto grau de responsabilidade ética. Somente de poucos indivíduos pode se esperar a capacidade para tal desempenho, e esses não são absolutamente os líderes políticos, mas os líderes morais da humanidade. (Jung, Vol 10/2, §451)</p>



<p>Por isso é possível entender que hoje a política representa o espaço de manifestação de tudo que não conseguimos lidar no individual e não podemos esperar que neste espaço aconteça a salvação tão esperada, pois nele encontramos apenas a sombra. É por isso que todo processo na psicoterapia junguiana busca o fortalecimento adequado do Ego para enfrentar aquilo que não possível aceitar abertamente, até ponto que seja possível reconhecer e aprender que nem toda a sombra abrigará o mal, que dentro egoísmo também é possível encontrar o amor ao próximo. É neste espaço interno que o confronto com o si-mesmo deve acontecer, resultando na compressão de que a paz poderá voltar, mas somente quando a derrota e a vitória perderem sua importância (Jung, Vol10/2, §455). Krishnamurti também percebeu a mesma a coisa:</p>



<p>Quando cada indivíduo leva em conta o bem-estar da comunidade, então pode haver verdadeira cooperação.&nbsp;<strong>Agora não há cooperação porque vocês estão sendo meramente compelidos em uma ou outra direção, à maneira de ovelhas</strong>.&nbsp;<strong>Seus líderes os oprimem, tratando-os como instrumentos para a realização de interesses</strong>. E vocês são explorados porque seu inteiro modo de pensar, sua inteira estrutura, visa à autopreservação, às custas de todas as outras pessoas. E eu digo que pode haver autopreservação, segurança verdadeira, em termos mundiais, quando vocês, como indivíduos, destruírem tudo aquilo que mantém as pessoas separadas, lutando entre si em guerras incessantes, as quais são resultado da existência de nacionalidades e governos soberanos. Eu lhes asseguro, vocês não terão paz, vocês não terão felicidade, enquanto essas coisas existirem. Tudo isso apenas ocasiona mais e mais discórdia, mais e mais guerras, mais e mais calamidades, sofrimento e dor. Tais coisas foram criadas por indivíduos, e como indivíduos vocês precisam começar a derrubá-las, a se libertar delas, pois somente assim vocês descobrirão o êxtase da vida.&nbsp;(Krishnamurti,1934 – grifos meus).</p>



<p>Enquanto não assumirmos a responsabilidade do que acontece na política, nada poderá ser transformado.&nbsp;Porque para transformarmos o mundo externo é necessário que essa transformação aconteça, primeiramente, em nosso íntimo. Por isso Jung afirma que a política reflete a psicologia do povo! Ou seja, precisamos ser a mudança que desejamos!</p>



<p><strong>Daniel Gomes – Analista em formação IJEP</strong></p>



<p><strong>Didata responsável – Waldemar Magaldi</strong></p>



<p><strong><em>Daniel Gomes &#8211; 28/04/2022</em></strong></p>



<p>Referência Bibliografias</p>



<p>Edinger, F. Edward, 2006, São Paulo,&nbsp; Editora Cultrix</p>



<p>Jung. C. G., (2011a) Aspectos do drama contemporâneo 12/2, Petrópolis, Rio de Janeiro: Editora Vozes.</p>



<p>Doria, Pedro, (2020) Fascismo à brasileira, São Paulo, Ed. Planeta</p>



<p>Krishnamurti, Jiddu,&nbsp;Segunda palestra no Town Hall &#8211; Auckland, Nova Zelândia &#8211; 01/04/1934)</p>



<p><strong>Imagem:</strong>&nbsp;&#8220;A morte de Júlio César&#8221; &#8211; Vincenzo Camuccini</p>



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		<title>A sombra na formação do analista</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-sombra-da-formacao-de-analista/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rafael Souza]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Mar 2022 15:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Educação]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[formação analista]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[sociedade junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[supervisão clinica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desde o nascimento da psicanálise clássica de Freud que a formação de analista segue o conhecido tripé, análise didática, supervisão e capacitação. Seria este método suficientemente capaz de sustentar o essencial na formação do analista junguiano, que é entrar em contato e fazer alma? O que há de sombrio na institucionalização da formação? Sobre estas questões que tecemos algumas reflexões neste artigo.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde o nascimento da psicanálise clássica de Freud, à medida que ele arregimentou discípulos e colaboradores ao redor de sua nova ciência, sendo Jung um deles, o método de formação do psicanalista tem seguido determinado padrão, o chamado “tripé psicanalítico”, a saber: análise didática, supervisão (ou controle de casos) e capacitação técnico-científica dentro do campo epistemológico em questão. Apesar da formação de alma de um analista não exigir que esta se dê via instituição, nosso olhar neste artigo é virado para o processo institucional da formação de analista junguiano.</p>



<p>A psicologia analítica, apesar de ter seguido trajetória diferente da psicanálise em termos científicos, mantém como base fundante da formação do analista junguiano, em termos gerais, a mesma da psicanálise. Desde o lançamento do Clube Psicológico de Zurique em 1916 (BAIR, 2006a), analistas junguianos são formados, antes de maneira menos sistematizada, porém respeitando o famoso tripé, até se estabelecer um método mais formatado com a inauguração do Instituto C.G. Jung de Zurique em 1948.</p>



<p>Daí em diante, com o fomento da psicologia analítica ao redor do mundo, diversas outras escolas surgiram, inclusive no Brasil, sendo algumas delas filiadas à instituição, supostamente, reguladora da formação de análise junguiana no mundo (IAAP – International Association of Analytical Psychology), e outras delas independentes, a exemplo do IJEP aqui no Brasil e do Von Franz Centre em Zurique.</p>



<p>Segundo Bair (2006b), Jung se mostrou hesitante quando lhe foi proposto montar um instituto, porém, sua preocupação recaia no futuro de sua psicologia:&nbsp;<em>“Ele sabia que seus seguidores ‘iriam começar uma disputa entre sua morte e o enterro’, e queria que eles começassem enquanto ‘pudesse ter alguma influência e talvez impedir alguns dos piores erros’”&nbsp;</em>(BAIR, 2006b, p. 226)<em>.</em></p>



<p>Seja qual for a escola junguiana, em linhas gerais, o método, a quantidade de horas exigidas (análise pessoal, supervisão individual e em grupo, e capacitação teórica) é praticamente a mesma em todas. Sutilezas diferenciarão as escolas, porém com importâncias significativas. Von Franz Centre (Suíça), IJEP (Brasil), e o próprio Instituto fundado por Jung em Zurique, por exemplo, não exigem que o analista candidato tenha formação em medicina ou psicologia, tal como se exige em outras escolas.</p>



<p>Jung, conforme descreveu Bair (2006b), por alguma razão incentivava que seu círculo mais próximo de homens estudasse medicina, mas o mesmo não acontecia com as mulheres, a exemplo de Marie-Louise von Franz, Joland Jacobi, Barbara Hannah, Toni Wolff e a própria Emma Jung, que sequer curso superior tinha, e ainda assim tida por muitos como uma grande analista (BAIR, 2006b).</p>



<p>Sobre esta questão, parece interessante que algumas escolas ainda sustentem a exigência da formação em psicologia ou medicina, uma vez que o próprio Freud era indiferente a isso, como relata nesta carta enviada à Jung em 1910 ao responder a indagação de Jung sobre a necessidade dos analistas candidatos terem alguma graduação (não necessariamente em medicina ou psicologia):&nbsp;<em>“os estatutos daqui</em>&nbsp;[Viena]&nbsp;<em>nos deixam livres, mesmo que não entrem em tal exclusividade. A sociedade de Zurique pode aprovar muito bem, portanto, tal determinação, sem que ela se converta em norma para as demais</em>&nbsp;[associações de psicanálise espalhadas em outras cidades].&nbsp;<em>Em Viena, isto não funcionaria, pela mera questão de que teríamos de excluir ao nosso secretário de muitos anos</em>&nbsp;[Otto Rank]” (FREUD; JUNG, 2012, p. 386, tradução do autor).</p>



<p>Se a exigência de uma determinada graduação já não era norma nos primórdios desta nova ciência, outras perguntas se apresentam aqui, e uma delas é: o que sustentaria, portanto, um ideal da formação do analista se ela não se pauta essencialmente na graduação? A resposta naturalmente recai na necessidade da análise didática, tal como nos explica Jung:</p>



<p><em>“O próprio Freud&nbsp;</em>[&#8230;]<em>&nbsp;aceitou minha exigência de que todo terapeuta fosse obrigatoriamente analisado.</em></p>



<p><em>Mas qual o significado dessa exigência? Ela significa simplesmente que o médico também ‘está em análise’, tanto quanto o paciente. Ele é parte integrante do processo psíquico do tratamento, tanto quanto este último, razão por que também está exposto às influências transformadoras. Na medida em que o médico se fecha a essa influência, ele também perde sua influência sobre o paciente. E, na medida em que essa influência é apenas inconsciente, abre-se uma lacuna em seu campo de consciência, que o impedirá de ver o paciente corretamente. Em ambos os caso, o resultado do tratamento está comprometido”</em>&nbsp;(JUNG, OC 16/1, §165-166).</p>



<p>A análise didática seria um processo híbrido, no qual o analista em formação passa pelo mesmo processo que será aplicado futuramente aos seu clientes, ao mesmo tempo que recebe orientações pedagógicas de seu analista didata. Esse método é utilizado até hoje e considerado o eixo central de uma formação sistematizada de analista. E aqui residem alguns perigos, pois se neste ponto o consenso é meio que geral, é porque algum aspecto sombrio pode estar sendo, potencialmente, ignorado.</p>



<p>Talvez o trabalho mais ousado neste campo é o livro “O abuso do poder na psicoterapia” de Adolf Guggenbühl-Craig, pois ele expõe que existem aspectos sombrios nas práticas das profissões de ajuda, enfatizando o trabalho do analista. Nesta passagem ele descreve os riscos e a dimensão sombria de um analista (que pode ser um analista em formação, assim como um analista didata): “<em>A sombra profissional do analista contém não apenas o charlatão e o falso profeta, mas também a contrapartida daquele que ilumina, ou seja, uma figura que vive imersa no inconsciente e visa sempre ao contrário do que conscientemente pretende o analista. Temos aí uma situação paradoxal, na qual o analista é mais ameaçado pelo inconsciente que o não analista”</em>&nbsp;(GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 33-34).</p>



<p>A fala de Guggenbühl-Craig encontra eco nos incômodos de Jung com relação à forma como Freud tratava seus discípulos, registrado nesta carta enviada por Jung à Freud em 1912: “[…]&nbsp;<em>gostaria de chamar sua atenção para o fato de que a sua técnica de tratar seus alunos como pacientes constitui um equívoco. Com ela você cria filhos escravizados ou descarados bandidos (Adler-Stekel e toda a banda sem-vergonha que se espalha por Viena). Sou objetivo o suficiente para perceber seu truque. Você faz constar ao seu entorno todos os atos sintomáticos e assim você rebaixa os que lhe rodeiam ao nível de filho ou filha, que admitem envergonhados a existência de tendências errôneas. Enquanto isso, você permanece sempre ali, acima, como um pai. Devido à pura subordinação ninguém alcança puxar o profeta pela barba e descobrir o que é que você disse a um paciente que tem a tendência de analisar ao analista em vez de a si mesmo. Você pergunta a ele: ‘Quem realmente tem a neurose?’”&nbsp;</em>(FREUD; JUNG, 2012, p. 545, tradução do autor).</p>



<p>Apesar da crítica de Jung ser direcionada à Freud, e desconsiderando um aspecto do complexo paterno de Jung nesta questão, nada nos garante que no processo institucionalizado da formação de um analista junguiano tal situação não se repita. Adicionalmente, questionamos se o fato de fazer uma formação institucionalizada, legitimada pela IAAP ou não, ofereceria alguma garantia de que o processo de análise didática, coração da formação de analista, não envolveria os aspectos de poder estudados por Guggenbühl-Craig ou os aspectos patriarcais alertados por Jung.</p>



<p>Ao nosso ver Guggenbühl-Craig é cirúrgico ao problematizar tal situação:&nbsp;<em>“O analista junguiano, por exemplo, é alguém que viveu profundo abalo produzido pela confrontação com o irracional e o inconsciente. Entretanto, poucos insights psicológicos podem ser estatisticamente provados no sentido empírico, só podendo ser confirmados pelo testemunho honesto e sincero dos que se empenham na mesma busca. Nossa única prova é nossa própria experiência e a de outros, uma vez que a realidade psíquica não pode ser apreendida estatística ou carnalmente como ocorre nas ciências naturais&nbsp;</em>[&#8230;]<em>. Mas essa extremada confiança na própria experiência pessoal ou alheia inevitavelmente dá margem a sérias dúvidas. E se nós mesmos, ou outros como nós, estivermos enganados?”</em>&nbsp;(GUGGENBÜHL-CRAIG, 2004, p. 32).</p>



<p>Em outros termos, apesar da formação de analista seguir um método, reproduzido pela maioria das escolas de formação, não há uma garantia de que, depois cumprido com todos os requisitos exigidos pela instituição, o analista trainee passe a ser um analista graduado, considerando a perspectiva da psique e não a perspectiva literal da formação. Desta forma, seguindo o raciocínio de Guggenbühl-Craig, apesar da mensuração de horas de análise, horas de supervisão, horas de teoria e outras, seriam estas suficientes para formar um analista? Quantas horas de análise são necessárias para se produzir um processo de autoconhecimento num indivíduo? Como mensurar isso matematicamente?</p>



<p>Não se trata aqui de um posicionamento contrário à institucionalização da formação, pois se assim o fosse, não deveria eu estar escrevendo este artigo sob a égide de uma instituição que confio, acredito e partilho de valores semelhantes. E é justamente pela construção de autoconhecimento e pensamento crítico que essa instituição me proporciona que me vejo no direito de problematizar e refletir sobre os aspectos sombrios da formação.</p>



<p>Ao nosso ver, a formação de analista jamais deveria ser tomada pelo analista candidato como um curso de formação a exemplo de uma graduação ou pós-graduação, no qual são executadas determinadas etapas e tarefas, que se cumpridas a contento, ao fim, lhe atribuem o “grau” de analista. A instituição, por outro lado, não deveria olhar para este processo como algo rígido, tal como uma formação academicista clássica, com exigências que não dialogam com a alma, como por exemplo exigências de graduação específica ou exigências de se “carregar no peito” o selo da instituição certificadora, como se tudo isso fosse garantias da formação de um bom analista – a própria von Franz criticou o excesso de institucionalização e o ideal “antijunguiano” do C. G. Jung Institut Zurich em entrevista para a Folha de SP em 1987 (BONAVENTURE, 2021).</p>



<p>Precisamos encontrar um bom termo entre as exigências da alma, com as exigências do mundo externo. A formação de analista é uma jornada, talvez uma opção de vida, pois a formação é infinita. Ela acompanhará a pessoa por toda a sua vida se ela tomar a análise realmente a sério, para si, e para seus analisandos. Como diz Léon Bonaventure:&nbsp;<em>“</em>[&#8230;]<em>&nbsp;não é no final da análise, mas durante o trabalho analítico que o analisando descobre a sua vocação, e assim, sem perceber, a análise pessoal se transforma em análise didática”&nbsp;</em>(BONAVENTURE, 2021, p. 55).</p>



<p>Diante disso, a fala de Jung sobre a formação precisa ser resgatada, na qual as qualidades humanas são as fundamentais e não as qualidades acadêmicas (BAIR, 2006b). León Bonaventure (2021) defende que a formação de um analista deveria se dar no decorrer do processo de análise, atribuindo ao analista didata referendar que a pessoa passe a ser um analista trainee, o que é diferente de simplesmente se “matricular” num “curso de formação” objetivando passar por determinadas etapas pré-categorizadas que darão um título no final.</p>



<p>O processo de formação de analista, em sua essência, não deveria obedecer exclusivamente a algumas normas e padrões da sociedade contemporânea, que é voltada para os resultados, para os números, para os títulos e para os selos de “qualidade” (que nem sempre correspondem às qualidades humanas referenciadas por Jung). Não podemos nos esquecer que a análise se trata de uma arte, e como tal, carece de tempo da alma, constante refino de técnica e muita escuta interior:&nbsp;<em>“É muito frequente reduzir-se a prática analítica – que para Jung consistia principalmente numa arte difícil – a uma questão de técnica. Assim, não se respeitam as forças criadoras da alma humana, que é sempre singular, em nome de uma mecânica qualquer; o terapeuta se transforma, desse modo, num mecânico mais ou menos habilidoso”</em>&nbsp;(BONAVENTURE, 2021, p. 62).</p>



<p>Este tema será ampliado em uma palestra no VII Congresso Junguiano do IJEP de 2022, no qual traremos mais informações e mais profundidade sobre esta temática que é fundamental dentro do campo junguiano: a perenização do pensamento e da análise junguiana por meio daqueles que conjugam dos ideais sugeridos por Carl Gustav Jung com a sua psicologia.</p>



<p>Rafael Rodrigues de Souza – Membro analista didata em formação do IJEP</p>



<p>Waldemar Magaldi – Analista Didata</p>



<p><strong><em>Rafael Rodrigues de Souza &#8211; 27/03/2022</em></strong></p>



<p><strong>Referências:</strong></p>



<p>BONAVENTURE, León.&nbsp;<em>A formação de analistas junguianos</em>.&nbsp;In: BONAVENTURE, Jette; BONAVENTURE, León.&nbsp;<em>Miscellanea</em>: escritos diversos. São Paulo: Paulus, 2021.</p>



<p>GUGGENBUHL-CRAIG, Adolf.&nbsp;<em>O abuso do poder na psicoterapia:</em>&nbsp;e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério. São Paulo: Paulus, 2004.</p>



<p>BAIR, Deirdre.&nbsp;<em>Jung:</em>&nbsp;uma biografia, volume I. São Paulo: Globo, 2006a.</p>



<p>BAIR, Deirdre.&nbsp;<em>Jung:</em>&nbsp;uma biografia, volume II. São Paulo: Globo, 2006b.</p>



<p>JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>A prática da psicoterapia</em>. OC 16/1. 16ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013.</p>



<p>FREUD, Sigmund; JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Correspondencia entre Sigmund Freud y C. G. Jung</em>.&nbsp;Madrid: Editorial Trotta, 2012.</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-"></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>Estética em Walter Benjamin a obra de arte na época de suas reproduções técnicas</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/estetica-em-walter-benjamin-a-obra-de-arte-na-epoca-de-suas-reproducoes-tecnicas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Simone Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 20 May 2021 21:25:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arteterapia e Expressões Criativas]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Analítica]]></category>
		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
		<category><![CDATA[Walter Beijamin]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=6019</guid>

					<description><![CDATA[<p>Uma breve leitura das "madona" em Walter Benjamin</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong><em>As “Madona” do Renascimento possuem aura. A Madona do mundo musical também possui sua aura. Qual a diferença entre as auras dessas Madonas?</em></strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em primeiro lugar, para se compreender a relação da aura com as obras de arte, devemos esclarecer os conceitos dos termos que iremos trabalhar e relacionar:</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<em>Arte&nbsp;</em>significa que são produções decorrentes de certas manifestações da atividade humana diante das quais ficamos admirados e as privilegiamos através de nossos incentivos. Existe dentro das obras de arte valores em ordem de excelência, ou seja, hierarquizamos as obras de arte de acordo com os valores que lhes atribuímos por sua originalidade, autenticidade e papel histórico.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<em>Aura</em>, para Walter Benjamin, está relacionada, principalmente, ao objeto natural ou artístico, trazendo para a nossa proximidade, aquilo que estava distante, mas que é único e representativo de seu lugar e seu tempo e que é, sobretudo, autêntico, algo que nos leva a contemplação.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vemos, portanto, como nos dias atuais, deparar-se com a aura de uma obra de arte se torna praticamente impossível. Podemos até admirar a obra de arte mas, não chegamos mais a contemplá-la.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por que?</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Porque as obras de arte, através do desenvolvimento tecnológico, através das sucessivas mudanças de proprietários, perdendo seu “altar”, ou seja, o espaço para o qual foram criadas especificamente e, através de suas contínuas reproduções, dissolveram suas auras num “continuum” histórico.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As técnicas de reprodução “massificaram” muitas obras de arte. Não me refiro aqui as reproduções mais antigas, as cópias, mas as reproduções em série, que ao longo de seu trajeto e visando o lucro e/ou a divulgação da arte, acabam por destruir-lhe completamente a aura.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem não viu um calendário trazendo em estampa a reprodução da “Mona Lisa”, ou em alguma revista a estampa de “A Virgem dos Rochedos”?</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como, através dessas reproduções em massa, editadas em papéis, que podem ser afixados numa oficina mecânica suja, ou folheados num trem da Central, encontrar a aura que somente um Leonardo da Vinci seria capaz de criar?</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Leonardo usava o método sfumato; sombreado de contornos e fundos em oposição às áreas de luz interna, esse jogo expressivo de luz e sombra criava uma atmosfera muito especial, a meio caminho entre o sonho e a realidade, por isso suas pinturas tem muito de mágico, apesar da perfeição das formas e cores, ao presenciarmos seus quadros, o que passa ao nosso espírito está muito além do que os olhos vêem; é a nossa percepção da aura, criada por um gênio em determinado período histórico, onde suas obras nos impelem a uma série de especulações: “o por que do sorriso enigmático&nbsp; e expressão profunda de Mona Lisa?”, “o por que de nosso temor e deslumbramento frente&nbsp; à Virgem dos Rochedos?”. Esse maravilhamento traz para nosso presente um momento único criado por volta de 1500.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que percebemos é que, para Benjamin, no momento que dissociamos a obra de arte de sua atmosfera religiosa e aristocrática, ou seja, para ser admirada por poucos privilegiados, e as reproduzimos em massa, ou as colocamos ao lado de várias outras, de técnicas e períodos diferentes, em museus ou galerias, tiramos lhe o status de raridade, fazemos com que perca sua condição de objeto de culto e a consequência disso é que a dissolução de sua aura atinge dimensões sociais, na medida que essas são o resultado das transformações técnicas da sociedade em relação as modificações de percepção estética.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se as “Madona” do Renascimento tem aura, cada vez torna-se mais difícil o nosso contato com essa aura. Porque que elas tiveram é certo e indiscutível, mas se ainda hoje a possuem fica mais difícil a constatação, devido ao processo histórico a que foram submetidas.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Já a Madona do mundo musical, possui uma aura diferenciada da aura da obra de arte, enquanto objeto único.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ela, Madona, é o objeto. Ela se faz deslumbrante, única, rara, original e autêntica. É resultado de uma produção visando projeção e consumo.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Num curso que fiz em 1993, o professor George Bacart equiparou Madona a Nietzsche, no sentido de que ambos chocaram seus contemporâneos, derrubaram valores e contestaram o tempo presente. É óbvio que a equiparação acaba aí.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto a proposta do filósofo era uma transformação do homem, a da Madona é a transformação do seu status socioeconômico e, quiçá, aumentar a consciência das mulheres.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As “Madona” do Renascimento foram criadas para o ritual sacro, o culto, a contemplação. A Madona é criada e recriada, vemos isso por suas performances sempre em constante transformação, para ser, também, cultuada.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Porém, se ao contemplarmos as “Madona” elevamos nosso pensamento à mãe de Deus e buscamos consolo em nosso espírito; ao contemplarmos (os fãs, é claro) a Madona cantora, nosso pensamento é encaminhado à luxúria.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; São cultos diferentes, mas não se pode negar o culto que os fãs fazem a seus ídolos, por isso mesmo é que são idolatrados, como é o caso da Madona.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sua aura é consequência de sua produção, que a faz parecer: autêntica, única.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Lembremos que a Madona não é somente a “pop star”, cantora, bailarina. Ela também é atriz e seus filmes possuem forte apelo às massas de consumo. Embora o cinema exija o uso de toda personalidade viva do ator, nesse caso atriz, esta priva-se de sua aura.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Madona do cinema não tem a aura daquela que superlota os shows e leva os fãs ao êxtase. Pois, para Benjamin, a natureza vista pelos olhos difere da natureza vista pela câmera.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Apesar de tudo, Benjamin acredita que, apesar das técnicas de reprodução das obras de arte provocarem a destruição da aura, há aí um aspecto positivo na medida em que existe a possibilidade de relacionamento das massas com a arte. O cinema, por exemplo, seria um instrumento eficaz de renovação das estruturas.</strong></p>



<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cabe a pergunta: qual Madona te encanta?</strong></p>



<p><strong>Dra E. Simone Magaldi</strong></p>



<p><strong>Fundadora do IJEP</strong></p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Simone Magaldi &#8211; 20/05/2021</em></strong></h4>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/estetica-em-walter-benjamin-a-obra-de-arte-na-epoca-de-suas-reproducoes-tecnicas/">Estética em Walter Benjamin a obra de arte na época de suas reproduções técnicas</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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		<title>Intolerância &#8211; aspectos sombrios da psique</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/intolerancia-aspectos-sombrios-da-psique/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Claci Maria Strieder]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 02 Nov 2020 19:15:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Atualidades]]></category>
		<category><![CDATA[Ética]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria de Carl Gustav Jung]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com o crescente avanço do mercado da tecnologia e, principalmente da utilização de redes sociais, fica cada vez mais evidente que um clique inicial para unir pessoas de diferentes lugares e expandir conhecimentos, tornou-se também um espaço de reprodução da intolerância, dividindo pensamentos e afastando uns dos outros. Quero ressaltar a minha admiração e o [...]</p>
<p>O post <a href="https://blog.ijep.com.br/intolerancia-aspectos-sombrios-da-psique/">Intolerância &#8211; aspectos sombrios da psique</a> apareceu primeiro em <a href="https://blog.ijep.com.br">Blog IJEP</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Com o crescente avanço do mercado da tecnologia e, principalmente da utilização de redes sociais, fica cada vez mais evidente que um clique inicial para unir pessoas de diferentes lugares e expandir conhecimentos, tornou-se também um espaço de reprodução da intolerância, dividindo pensamentos e afastando uns dos outros. Quero ressaltar a minha admiração e o reconhecimento dos aspectos positivos que o mundo virtual nos proporciona, porém são cada vez mais comuns as queixas nos consultórios sobre comentários inoportunos e ofensivos, que podem possibilitar contato com o mundo sombrio e patológico de quem os emite, como de quem os recebe, ativando a constelação de complexos. Ao mesmo tempo, ações impulsivas e radicais, podem evidenciar um sofrimento psíquico, resultante da falta de integração das diferentes polaridades. Neste sentido, trago reflexões acerca do tema: a intolerância sempre existiu ou se fortaleceu com o espaço de fácil acesso aos meios virtuais? &nbsp;Embora tenhamos ao nosso dispor a tecla “delete” para bloquear ou excluir o que não nos interessa mais, não é tão simples deletar aspectos sombrios que se manifestam pelo psiquismo em forma de intolerância. &nbsp;</p>



<p>Carl Gustav&nbsp;Jung,&nbsp;deixou-nos grandes reflexões e&nbsp;apresentou seis dimensões que interferem na nossa vida: família, trabalho, amor, vida social, corpo e espiritualidade. Quando harmoniosamente vividas, apresentam-se de forma saudável, permitindo a plenitude. Quando não bem vividas, transformam-se em questões patológicas. Para vivermos as diferentes dimensões, utilizamos recursos internos, que na psicologia analítica junguiana denominamos de personas e sombras. De acordo com diferentes autores, entende-se por persona, um processo consciente do ego, que envolve&nbsp;aspectos do eu que apresentamos ao mundo exterior como máscara social e ideal de nós mesmos, que é funcional e extremamente necessária, em função das adaptações. Fazem parte da sombra os aspectos ocultos ou inconscientes repletos de potencialidade, bons ou maus, que por alguma razão, o ego está reprimindo e nunca teve acesso, recusa admitir ou conhecer.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Jung, em seu livro&nbsp;<em>Psicologia e Alquimia&nbsp;</em>(1994),<em>&nbsp;</em>deixou-nos estudos sobre a alquimia, que é metafórica e nos permite perceber o símbolo transformador de energia que cura, em contínuo processo de dissolver e coagular, ciclo evolutivo da ampliação da consciência, promovendo morte e renascimento. De uma forma resumida, a mortificatio<em>,&nbsp;</em>uma das sete operações alquímicas, faz referência à experiência de morte e está associada ao negrume, ao que está na sombra, a derrotas e impossibilidades. O que é movido pelo ego cai nessa nigredo para sofrer as transformações necessárias para o aumento de consciência de si. As dores da alma (nigredo) vão se transformando e, tornando-se mais claras (albedo), para finalmente serem ressignificadas, com novo sentido e significado (rubedo). Outro olhar interessante é o que nos remete aos estudos da psicossomática, em que&nbsp;o ato de vomitar envolve o não digerido no processo digestivo. Simbolicamente, também está relacionado com a intolerância, sendo que ao “vomitarmos”, tiramos o ruim que está dentro de nós e o jogamos fora, para o coletivo e, pela sujeira e mau cheiro, requer limpeza do ambiente, que pode ser uma valiosa oportunidade de entrar em contato com a putrefação do nosso mundo interno e promovermos as transformações.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>No contexto de promovermos cada vez mais a tolerância, os meios social, histórico e cultural influenciam significativamente. Podemos usar como exemplo um marco que ocorreu em 1996, com a aprovação pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, o&nbsp;<em>Dia Internacional da Tolerância</em>. A&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/ONU">ONU</a>&nbsp;o instituiu no dia&nbsp;<a href="https://pt.wikipedia.org/wiki/16_de_Novembro">16 de novembro</a>&nbsp;de cada ano, em reconhecimento à Declaração de Paris (1995), ressaltando a importância dos direitos fundamentais, preservando a dignidade e o valor da pessoa humana. De forma idêntica, é possível percebermos a influência do&nbsp;meio em que estamos inseridos, reforçando comportamentos e valores por meio de expressões populares, que&nbsp;<strong>também ressaltam a ideia de praticarmos a tolerância.</strong>&nbsp;Algumas expressões exaltam aspectos positivos de uma construção social. Quem nunca ouviu a frase “só se atiram pedras em árvores frutíferas?”&nbsp;<strong>“Roupa suja se lava em casa” enfatiza o bom senso de resolvermos os problemas onde eles estão inseridos. Verdadeira ou não, “quem com ferro fere, com ferro será ferido”, é a expressão que nos convida a refletirmos sobre o que emitimos ao universo. Muitas vezes não prestamos atenção na força de algumas frases, porém&nbsp;</strong>aos poucos elas vão se estruturando, criando sentido e significado. Talvez agora muito mais, ao vermos pessoas de diferentes níveis culturais se exporem com intolerância diante de qualquer divergência de opinião, principalmente nas redes sociais. É como se a liberdade de expressão vivesse um retrocesso e o respeito mútuo precisasse ser repensado.&nbsp;</p>



<p>Como foi sábia Cora Coralina (2007), que nos deixou sua simplicidade em forma de poesia, contendo a essência de vida: “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Como pedagoga, entre tantos autores renomados que admiro, permito-me mencionar também uma frase da educadora Maria Montessori, que vem ao encontro do tema proposto: “É para uma grande obra que somos chamados. Eis aí a grande tarefa social que nos espera: colocar em funcionamento o valor potencial do homem, permitir-lhe atingir o desenvolvimento máximo de seus dinamismos, prepará-lo verdadeiramente para mudar a sociedade humana, fazê-la mudar para um patamar superior” (2004, p.21). Ela propõe uma educação para a paz e não para a competição, que é o princípio de qualquer guerra. A competição, tão estimulada em nossa sociedade, pode ser o pano de fundo da falta de respeito com o próximo e a si mesmo. Da mesma forma, trago a contribuição da psicologia, que envolve uma amplidão de conhecimentos e se utiliza de diferentes compreensões para trabalhar aspectos conscientes e inconscientes do psiquismo. Entre tantas possibilidades, cito a função espelho, que ajuda o cliente perceber o aspecto sombrio que carrega dentro de si. Existem técnicas específicas nas diversas abordagens da psicologia, que estimulam entrar em contato com o outro e colocar-se no seu lugar, como a técnica da cadeira vazia e da imaginação ativa, possibilitando o contato com os conteúdos inconscientes, por meio da personificação. Esse exercício estimula o surgimento da empatia, que é a porta de entrada da alteridade.</p>



<p>Já dizia Nise da Silveira:&nbsp;&#8220;A criatividade é o catalisador por excelência das aproximações de opostos. Por seu intermédio, sensações, emoções, pensamentos, são levados a reconhecerem-se entre si, a associarem-se, e mesmo tumultos internos adquirem forma&#8221;(1981, p.11). Ela também dizia que o&nbsp;mal pode ser combatido com música e poesia. Essa afirmação permite pensarmos sobre a intolerância em diferentes contextos, com a voz de Lenine: “Ela é quem dinamita a mina. É ela. Ela vem e espalha conflito. Ganha nem que seja no grito&#8230; Traz em cada mão o desassossego. Vai furar no chão, um buraco negro.” O grupo musical&nbsp;<a href="https://www.google.com/search?sxsrf=ALeKk00ydqmsOmMcMV8XDe6ns6MhPDuLBg:1603066439032&amp;q=Legi%C3%A3o+Urbana&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAONgVuLSz9U3MMyJNzTPW8TK55Oannl4cb5CaFFSYl4iAOkabKwfAAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwjh8Zjtr7_sAhVkHbkGHSwRCoMQMTAAegQICRAD">Legião Urbana</a>, com a canção&nbsp;<em>Os Anjos,&nbsp;</em>convida-nos para refletir: “Hoje não dá&#8230; A maldade humana agora não tem nome&#8230; Como se faz uma receita pra intolerância e injustiça. Vamos lá&#8230;” Em contrapartida, Ana Carolina, com a música&nbsp;<em>Tolerância,</em>&nbsp;propõe a vivência do amor com respeito às diferenças: “Como água no deserto, procurei seu passo incerto, pra me aproximar a tempo&#8230; Não me importa a sua crença, eu quero a diferença, que me faz te olhar de frente, pra falar de tolerância e acabar com essa distância entre nós dois&#8230; Se pareço ainda estranho, se não sou do seu rebanho e ainda assim te quero&#8230; É que o amor é soberano e supera todo engano, sem jamais perder o elo. Com a música&nbsp;<em>Inclassificáveis&nbsp;</em>(<strong>Arnaldo Antunes-1996)</strong><em>,</em>&nbsp;regravada por Ney Matogrosso em 2008, fica evidente o convite para a valorização da mistificação da nossa cultura brasileira: “Somos o que somos, somos o que somos, inclassificáveis, inclassificáveis…”. Somos únicos e integrais, somos a conexão de diferentes dimensões em busca vivências e convivências harmoniosas.</p>



<p>A mitologia grega também nos oferece elementos para entendermos o mal e a intolerância humana. O Mito de Procusto, envolve a história de um bandido gigante, na serra de Elêusis, que conservava em sua casa uma cama feita de ferro, com a sua medida e que servia de arapuca para seus convidados. Ele amarrava nela as suas vítimas e as adaptava à medida da sua cama, cortando as partes maiores e esticando até caber na medida os tamanhos inferiores. Atená, uma das deusas gregas, cansada com as injustiças de Procusto e o clamor das vítimas, tentou convencê-lo a mudar de atitude, mas ele se negou, afirmando estar fazendo justiça ao acabar com as diferenças entre os homens. O monstro mitológico teve um fim trágico. Ele foi capturado pelo herói Teseu, que o amarrou na sua cama de ferro e lhe cortou a cabeça e os pés (Brandão, 2000). Analogicamente, o mito nos propicia reflexões sobre aspectos que envolvem a intolerância. Quantas vezes nos deparamos com o espírito de Procusto, descartando quem não cabe nas nossas medidas? Quantas vezes assumimos o papel de Procusto para apagar os que pensam e agem de forma diferente? Quantas vezes preparamos a cama de Procusto para cortar e esticar os outros? E o que fazemos com os nossos monstros internos? Monstros em forma de incitação à violência, discriminação e intolerância.</p>



<p>Ainda, segundo Jung, o lado sombrio da alma, é composto por instintos primitivos e sentimentos reprimidos, que podem ser ressignificados. É o que ele quis nos passar com a seguinte frase:&nbsp;“As pessoas, quando educadas para enxergarem claramente o lado sombrio de sua própria natureza, aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes; pelo menos, assim se espera. Uma diminuição da hipocrisia e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para com o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza.” (2013, par.28). Esclarecendo que respeito, do latim&nbsp;<em>respiciere</em>, significa olhar outra vez, olhar com outras lentes, na mesma medida em que nos deixamos ser vistos, para que surjam reconsiderações. Com essa fala, imagino que Jung tentou nos dizer que o processo de cura envolve o contato com o sombrio em forma de angústia e, a partir da integração de polaridades, surge o espaço para a expressão criativa e ressignificação dos padrões patológicos. Desta forma,&nbsp;a alteridade é um dos caminhos que nos permite compreender, colocar-nos no lugar e aceitar o outro com sua singularidade.</p>



<p>Para culminar minhas ampliações, mais uma vez evidencio o “cantar com a alma” de Lenine, com sua música&nbsp;<em>Paciência,&nbsp;</em>metaforizando um convite para um mundo melhor: “Enquanto todo mundo espera a cura do mal, e a loucura finge que isso tudo é normal, eu finjo ter paciência. E o mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós um pouco mais de paciência&#8230; Será que é o tempo que lhe falta pra perceber, será que temos esse tempo pra perder e quem quer saber, a vida é tão rara&#8230; Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, até quando o corpo pede um pouco mais de alma, eu sei, a vida não para&#8230;”&nbsp; Temos um tempo precioso e raro, que é o tempo presente e, o que vamos fazer com ele depende de cada um de nós. Tempo de ressignificarmos aspectos sombrios do nosso psiquismo, tempo de promovermos a tolerância. Sempre podemos fazer escolhas! A vida é tão rara e não para&#8230; A vida pede calma e envolve a alma!</p>



<p>Claci Maria Strieder, analista em formação pelo IJEP &#8211;&nbsp;<a href="mailto:clacims@gmail.com">clacims@gmail.com</a></p>



<p>Fontes de consulta:</p>



<p>BRANDÃO, Junito de Souza.&nbsp;<em>Dicionário mítico-etimológico da mitologia grega</em>. Petrópolis: Vozes, 1991, 2.vols.&nbsp;</p>



<p><em>CORALINA, Cora. Trecho do poema Exaltação de Aninha (O Professor) de Cora Coralina, in: Vintém de cobre: meias confissões de Aninha, 9. ed., São Paulo: Global, 2007.</em></p>



<p>JUNG, C. G.&nbsp;<em>Psicologia e alquimia.</em>&nbsp;Rio de Janeiro: Ed. Vozes, 1994.</p>



<p>&nbsp;_________&nbsp;<em>Psicologia do inconsciente</em>. Petrópolis/RJ: Vozes,&nbsp;2013.&nbsp;</p>



<p>MONTESSORI, Maria (1870-1952).&nbsp;<em>A educação e a paz</em>. Trad. Sonia Maria Alvarenga Braga. Campinas, SP: Papirus, 2004.</p>



<p>SILVEIRA, Nise da.&nbsp;<em>Imagens do inconsciente</em>. Rio de Janeiro: alambra, 1981.</p>



<p>www.lyrics.com&nbsp;› lyric › Legião+Urbana › Os+Anjos</p>



<h3 class="wp-block-heading">www.youtube.com&nbsp;› watch&nbsp;Ana Carolina &#8212; Tolerância &#8211; Clipe Oficial – YouTube</h3>



<p>www.youtube.com&nbsp;› watch Arnaldo Antunes – Inclassificáveis – You Tube</p>



<p>www.youtube.com&nbsp;› watch&nbsp; Lenine – Intolerância – You Tube.</p>



<p>www.youtube.com&nbsp;› watch&nbsp; Lenine – Paciência – You Tube.&nbsp;</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Claci Maria Strieder</em></strong></h4>
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