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	<title>Arquivos Numinoso - Blog IJEP</title>
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	<description>Artigos do IJEP - Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa</description>
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	<title>Arquivos Numinoso - Blog IJEP</title>
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	<item>
		<title>A relação entre símbolo, intolerância e dúvida no movimento evangélico brasileiro</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-relacao-entre-simbolo-intolerancia-e-duvida-no-movimento-evangelico-brasileiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Silvana Gomes Venâncio]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Nov 2025 13:38:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ciências da Religião]]></category>
		<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Psicologia Junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Eu sou protestante há mais de 40 anos e sempre gostei de me apresentar como evangélica, no entanto, eu tenho repensado essa identificação e vou explicar o porquê. Para o professor Luiz Longuini Neto, evangélico seria uma forma de identificar parte da cristante como adepta da fé protestante, ou seja, não católica. “Evangelical ou evangélico [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Eu sou protestante há mais de 40 anos e sempre gostei de me apresentar como evangélica, no entanto, eu tenho repensado essa identificação e vou explicar o porquê. Para o professor Luiz Longuini Neto, evangélico seria uma forma de identificar parte da cristante como adepta da fé protestante, ou seja, não católica. “<em>Evangelical ou evangélico equivaleria à totalidade dos cristãos que se identificam com a Reforma Protestante do século 16</em>” (LONGUINI, p 21).</p>



<figure class="wp-block-pullquote" id="h-no-brasil-os-cristaos-nao-catolicos-passaram-a-auto-identificar-se-como-evangelicos-o-mesmo-ocorre-com-as-igrejas-evangelicas-os-proprios-catolicos-passada-a-epoca-de-antagonismos-e-principalmente-por-causa-do-movimento-ecumenico-aceitaram-essa-identificacao-naturalmente-os-catolicos-ao-identificarem-os-cristaos-nao-catolicos-como-evangelicos-contornam-o-designativo-de-protestante-carregado-de-preconceitos-no-brasil-ja-que-no-auge-dos-conflitos-entre-protestantes-e-catolicos-aqueles-eram-designados-por-estes-como-os-que-protestavam-contra-deus-mendonca-1990-p-15-16" style="font-size:20px"><blockquote><p>No Brasil, os cristãos não católicos passaram a auto-identificar-se como evangélicos, o mesmo ocorre com as Igrejas evangélicas. Os próprios católicos, passada a época de antagonismos, e principalmente por causa do movimento ecumenico, aceitaram essa identificação. Naturalmente, os católicos, ao identificarem os cristãos não-católicos como evangélicos, contornam o designativo de “protestante”, carregado de preconceitos no Brasil já que, no auge dos conflitos entre protestantes e católicos, aqueles&nbsp; eram designados por estes como “os que protestavam contra Deus”. </p><cite>(MENDONÇA, 1990, p 15,16)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-uso-do-termo-protestante-para-evangelicos-sempre-foi-mais-usado-por-historiadores-e-sociologos-e-num-momento-ou-outro-algumas-pessoas-de-igrejas-historicas-como-presbiterianos-metodistas-anglicanos-e-luteranos-se-diziam-protestantes" style="font-size:20px">O uso do termo protestante para evangélicos sempre foi mais usado por historiadores e sociólogos e num momento ou outro, algumas pessoas de igrejas históricas, como presbiterianos, metodistas, anglicanos e luteranos se diziam protestantes.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">No livro, <em>Introdução ao Protestantismo no Brasil</em>, que foi escrito na década de 90, se tornou um clássico, os professores Antônio Gouvêa Mendonça e Prócoro Velasques Filho, retratam de modo brilhante as ramificações do protestantismo brasileiro.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-quem-sao-os-evangelicos-no-brasil-hoje-antes-de-responder-a-esta-pergunta-quero-falar-da-necessidade-humana-de-se-expressar-religiosamente" style="font-size:20px"><strong>Mas quem são os evangélicos no Brasil hoje?</strong> Antes de responder a esta pergunta, quero falar da necessidade humana de se expressar religiosamente.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">É claro que uma religião também é um fenômeno sociológico e por esse mesmo motivo pode perder-se de si mesma. Mas para Carl G. Jung, a religião é “(&#8230;) <em>uma das expressões mais antigas e universais da alma humana (&#8230;) além de ser um fenômeno sociológico ou histórico, é também um assunto importante para grande número de indivíduos</em>” (C. G. Jung, OC 11/1 &#8211; §1).</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Carl Jung trata desse assunto do ponto de vista psíquico e empírico, se abstendo de uma abordagem metafísica ou filosófica do problema religioso</strong>. Para ele, existe uma função religiosa no inconsciente que é demonstrada nos símbolos religiosos. C. Jung dá esse exemplo: “<em>quando a psicologia se refere, por exemplo, ao tema da concepção virginal, só se ocupa da existência de tal ideia, não cuidando de saber se ela é verdadeira ou falsa, em qualquer sentido</em>”. Ele continua dizendo:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>a ideia é psicologicamente verdadeira, na medida em que existe. A existência psicológica é subjetiva, porquanto uma ideia só pode ocorrer num indivíduo. Mas é objetiva, na medida em que mediante um consensus gentium é partilhada por um grupo maior. </p><cite>(C. G. Jung. OC 11/1&nbsp; &#8211; § 4).</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-no-sentido-junguiano-toda-religiao-e-verdadeira-e-por-este-motivo-nao-e-simplesmente-criada-por-individuos-ela-irrompe-na-consciencia-individual" style="font-size:20px"><strong>No sentido junguiano, toda religião é verdadeira e por este motivo não é simplesmente criada por indivíduos, ela irrompe na consciência individual</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">C. Jung percebe o caráter&nbsp; numinoso da experiência religiosa, a partir do pensamento de <strong>Rudolf Otto</strong>.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Religião é — como diz o vocábulo latino <em>religere </em>— uma acurada e conscienciosa observação daquilo que Rudolf Otto acertadamente chamou de &#8220;<strong>numinoso</strong>&#8220;, isto é, uma existência ou um efeito dinâmico&nbsp; não causados por um ato arbitrário. Pelo contrário, o efeito se apodera e domina o sujeito humano, mais sua vítima do que seu criador.&nbsp; Qualquer que seja a sua causa, o numinoso constitui uma condição do&nbsp; sujeito, e é independente de sua vontade.</p><cite>(C. G. Jung. OC 11/1 &#8211; § 6).</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-c-jung-o-numinoso-pode-ser-capturado-por-um-objeto-visivel-ou-um-influxo-invisivel-que-produz-modificacao-na-consciencia-cf-jung-oc-11-1-6" style="font-size:20px"><strong>Segundo C. Jung, o numinoso pode ser capturado por um objeto visível ou um influxo invisível que produz modificação na consciência</strong> (Cf. JUNG, OC 11/1 &#8211; § 6). </h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Rudolf Otto fala de uma experiência profunda de anulação, “<em>a estranha e profunda resposta da psique à experiência do numinoso, a qual propusemos chamar de “experiência de criatura”, constituído pelas sensações de afundar, de apoucar-se e ser anulado</em>” (OTTO, 2007, p 90). De acordo com o teólogo <strong>Paul Tillich</strong>, essa experiência é a de estar possuído por aquilo que toca o ser humano incondicionalmente.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O sentimento de ser aniquilado pela presença do divino é o que expressa mais profundamente a relação em que se encontra o homem diante do sagrado. E esse sentimento perpassa todo o ato de fé legítimo e de todo estar possuído em última instância.</p><cite>(TILLICH, 2002, p 13)</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-problema-religioso-se-manifesta-nos-seres-humanos-com-a-sua-aproximacao-do-numinoso" style="font-size:20px"><strong>O problema religioso se manifesta nos seres humanos com a sua aproximação do numinoso</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Por isso, vale lembrar, que este só pode ser capturado pelo visível, no símbolo, sendo assim, a experiência religiosa não pode ser de forma alguma algo inflexível, nem mesmo quando se refere a Deus.&nbsp; Para Carl Jung,<strong> Deus é uma realidade psíquica</strong>, embora numa polêmica com Martin Buber, ele diga que nunca afirmou que Deus seja apenas uma realidade psicológica.&nbsp; “<em>Além disso, eu jamais tive a pretensão de enfraquecer o significado dos símbolos; pelo contrário, se deles me ocupei foi por estar convencido de seu valor psicológico</em>” (C. G. Jung. OC 11/2- § 170). Segundo C. Jung, o dogma da trindade é um dos símbolos mais sagrados do Cristianismo, por exemplo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Paul Tillich afirma que o símbolo é fundamental, para aquilo que nos toca incondicionalmente é Deus (Cf. TILLICH, 2002, p 34). Segundo o teólogo alemão, “<strong>Deus é símbolo para Deus</strong>”.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-segundo-p-tillich-a-preocupacao-incondicional-e-um-dos-elementos-responsaveis-pela-integracao-da-pessoa" style="font-size:20px">Segundo <strong>P. Tillich</strong>, a preocupação incondicional é um dos elementos responsáveis pela integração da pessoa:</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Uma&nbsp; preocupação incondicional se manifesta em todas as áreas da realidade e em todas as expressões de vida da pessoa. Isso porque o incondicional não é um objeto entre outros, e sim a base e origem de todo o ser, e como tal, o centro unificador da pessoa.</p><cite>TILLICH, 2002, p 69</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-esse-elemento-unificador-do-incondicional-se-segundo-p-tillich-pode-se-manifestar-na-vida-artistica-nbsp-na-atuacao-etica-na-politica-na-pesquisa-cientifica-entre-outros-aspectos-da-vida" style="font-size:20px">Esse elemento unificador do incondicional se segundo P. Tillich, pode se manifestar na vida artística,&nbsp; na atuação ética, na política, na pesquisa científica, entre outros aspectos da vida.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nós mostramos como a <strong>fé</strong> dá forma e une a todos os elementos intelectuais, emocionais e corporais da pessoa e como ela representa a força integradora como tal. Essa imagem do poder da fé contém, porém, apenas as cores alegres e não os aspectos sombrios da desagregação e do mórbido, que podem impedir a fé de criar uma vida integral da personalidade, mesmo naquelas pessoas em que a força da fé se manifesta de modo mais visíveis: nos santos, místicos e profetas. O homem nunca vive exclusivamente a partir do centro da vida. Em todos os âmbitos de seu ser atuam forças corruptoras.&nbsp; </p><cite>TILLICH, 2002, p 70</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Esse aspecto sombrio e mórbido da relação do ser humano com a fé, precisa ser considerado e observado na experiência religiosa dos evangélicos. Essa dimensão sombria aparece ao meu ver na dificuldade de lidar com a <strong>dúvida</strong>, pois a intolerância mora na dificuldade de lidar com as incertezas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-tanto-para-paul-tillich-quanto-para-carl-g-jung-a-experiencia-da-fe-deveria-dar-lugar-para-a-duvida" style="font-size:20px">Tanto para Paul Tillich quanto para Carl G. Jung, a experiência da fé deveria dar lugar para a<strong> dúvida</strong>.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nem a fé pode desaparecer na dúvida, nem a dúvida na fé, se bem que cada uma das duas se pode perder quase que completamente na vida da fé. Mas uma vez que nenhum ser humano é capaz de viver sem uma preocupação última, tanto na fé como dúvida sempre estão por natureza presentes no homem.&nbsp;</p><cite>TILLICH, 2002, p 66</cite></blockquote></figure>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Nas pessoas que clamam ter uma fé inabalada, o farisaísmo e o fanatismo são frequentemente a prova infalível de que a dúvida provavelmente foi reprimida ou de fato ainda está atuando secretamente. A dúvida não é superada pela repressão, e sim pela coragem. A coragem não nega que a dúvida está aí, mas ela aceita a dúvida como expressão da finitude humana e se confessa, apesar da dúvida, àquilo que toca incondicionalmente. A coragem não precisa de segurança de uma convicção inquestionável. Ela engloba o risco, sem o qual não é possível qualquer vida criativa.&nbsp;</p><cite> TILLICH, 2002, p 66</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">O educador e teólogo <strong>Rubem Alves</strong>, reforça essa ideia, em seu livro <em>Religião e Repressão,</em> ao afirmar que qualquer dúvida, ou questionamento são vistas, em determinadas vertentes do protestantismo, como uma atitude suspeita, embora a&nbsp; dúvida seja radicalmente inerente à fé.</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>Pensada de forma radical, a experiência da fé se revela como irmã gêmea da dúvida. Não, de forma alguma estou sugerindo que falta alguma coisa à fé, que a fé seja incompleta por estar ainda assombrada pela dúvida. </p><cite>ALVES, Rubem. 2005, p. 107</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Em outro livro, <em>Dogmatismo e Tolerância</em>, R. Alves, reitera que: &#8220;<em>A fé chegou mesmo a se identificar com a adesão intelectual a um certo número de proposições dogmáticas, que, pretendia-se, expressavam o ‘sistema de doutrinas’ contidas na Bíblia, e que eram necessárias para a salvação</em>.&#8221; (ALVES, Rubem. 2004, p. 71)</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-para-carl-jung-o-ser-nbsp-humano-exposto-a-duvida-nao-deveria-projeta-las-ao-acreditar-que-aqueles-que-pensam-e-refletem-sobre-as-doutrinas-da-fe-sao-inimigos" style="font-size:20px">Para Carl Jung, o ser&nbsp; humano exposto à dúvida não deveria projetá-las ao acreditar que aqueles que pensam e refletem sobre as doutrinas da fé, são inimigos.</h2>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>O homem que apenas crê e não procura refletir esquece-se de que é alguém constantemente exposto à dúvida, seu mais íntimo inimigo, pois onde a fé domina, ali também a dúvida está sempre à espreita. Para o homem que pensa, porém, a dúvida é sempre bem recebida, pois ela lhe serve de preciosíssimo degrau para um conhecimento mais perfeito e mais seguro. As pessoas que são capazes de crer deveriam ser mais tolerantes para seus semelhantes, que só sabem pensar. A fé, evidentemente, antecipa-se na chegada ao cume que o pensamento procura atingir mediante uma cansativa ascensão. O crente não deve projetar a dúvida, seu inimigo habitual, naqueles que refletem sobre o conteúdo da doutrina, atribuindo-lhes intenções demolidoras.</p><cite>C. G. Jung. OC 11/2 &#8211; § 170</cite></blockquote></figure>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-fiel-cheio-de-certezas-se-organiza-no-mundo-reconhecendo-aliados-e-projetando-suas-duvidas-gerando-inimigos-que-devem-ser-combatidos-a-duvida-nao-assumida-e-projetada-gera-cristaos-evangelicos-intolerantes-donos-da-verdade" style="font-size:20px">O fiel cheio de certezas se organiza no mundo, reconhecendo aliados e projetando suas dúvidas, gerando inimigos que devem ser combatidos. A dúvida não assumida e projetada, gera cristãos evangélicos intolerantes, <strong>donos da verdade</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Uma verdade única que exclui todo aquele que pensa e vive diferente.<strong> Esse diferente é alguém que deve ser combatido e ser retirado o seu direito à voz.</strong> Assim sendo, para responder a pergunta quem são os evangélicos hoje, é necessário olhar para a <strong>repressão da dúvida </strong>e também para as alianças políticas de algumas denominações evangélicos com setores da política brasileira, representada pela bancada evangélica, identificada na sigla&nbsp; BBB (bala, bíblia e boi).</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-como-nao-e-possivel-viver-num-mundo-de-certezas-o-fiel-vai-buscar-no-discurso-politico-conservador-o-meio-ideal-para-idealizar-um-mundo-onde-as-diferencas-as-duvidas-e-a-pluralidade-sejam-silenciadas" style="font-size:20px">Como não é possível viver num mundo de certezas, o fiel vai buscar no discurso político conservador o meio ideal para idealizar um mundo onde as diferenças, as dúvidas e a pluralidade sejam silenciadas.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px">Neste sentido, ser evangélico hoje deixou de ser apenas um ramo do protestantismo, para representar uma ideologia social e política, com um projeto político muito bem definido, para impor a sua visão religiosa, cultural e política. A dúvida pertence ao ser humano, sem lugar interno para ela, estamos diante de um grande complexo cultural que tenta dominar o cenário político brasileiro travestido de ideias religiosas.</p>



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<iframe title="Artigo novo: &quot;A relação entre símbolo, intolerância e dúvida no movimento evangélico brasileiro&quot;" width="563" height="1000" src="https://www.youtube.com/embed/s6DrBC-TINM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/silvana-venancio/">Silvana Venancio – Membro Analista em formação pelo IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong><a href="https://blog.ijep.com.br/author/anapaulamaluf/">Ana Paula Maluf &#8211; Analista Didata do IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px"><strong>Bibliografia:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">ALVES, Rubem. <em>Dogmatismo e Tolerância</em>. São Paulo: Loyola, 2004.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">________.ALVES, Rubem. Religião e Repressão. São Paulo: Loyola, 2005.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">JUNG, Carl. (1978). <em>Psicologia e Religião</em>. In Obras completas de C. G. Jung, (Vol.&nbsp; 11/1). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em inglês em 1938.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">________. (2013). <em>Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade</em>. In Obras&nbsp; completas de C. G. Jung, (Vol. 11/2). Petrópolis: Vozes. Originalmente publicado em&nbsp; alemão em 1942.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">LONGUINI, Luiz. <em>O novo rosto da missão.</em> Viçosa: Ultimato, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">MENDONÇA, Antonio G.; VELASQUES. Prócoro Filho. <em>Introdução ao Protestantismo no Brasil</em>. São Paulo, Edições Loyola, 1990.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">OTTO, Rudolf. <em>O Sagrado</em>. São Leopoldo: Sinodal/EST; Petrópolis: Vozes, 2007.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:16px">TILLICH, Paul. <em>Dinâmica da fé</em>. 7. ed. Trad. de Walter. Schlupp. São Leopoldo: Sinodal, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:21px"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Sarah, a sombra e o mar</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/sarah-a-sombra-e-o-mar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sebastien Baudry]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Jul 2025 21:43:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Resumo: Cada ano, no último final de semana, Sarah é salva das águas pelos guardiões da Camarga….. Isso é parte da procissão que acontece em “Les saintes Maries de la mer” na França, em homenagem à santa padroeira dos ciganos. Este ritual de fé mistura referências tanto judeu-cristãs quanto do povo cigano, que é tido [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Resumo</strong>: Cada ano, no último final de semana, <strong>Sarah</strong> é salva das águas pelos guardiões da Camarga….. Isso é parte da procissão que acontece em “<em>Les saintes Maries de la mer</em>” na França, em homenagem à santa padroeira dos ciganos. Este ritual de fé mistura referências tanto judeu-cristãs quanto do povo cigano, que é tido como oriundo da Índia. Isso nos leva a questionar como símbolos de culturas tão distantes podem vir a se mesclar, buscando compreender, a partir da psicologia analítica, embasada em conceitos do inconsciente coletivo, o significado dessa travessia arquetípica que é simbolizada pelo mito de Sarah La Noire.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-nesse-ultimo-dia-24-de-maio-alias-como-todos-os-anos-festejamos-santa-sarah-kali" style="font-size:20px">Nesse último dia 24 de maio, aliás como todos os anos, festejamos “santa” <strong>Sarah Kali</strong>.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E isso me trouxe de volta algumas lembranças de infância, especialmente das viagens para “<em>Les Saintes Maries de la Mer</em>”. Eu era ainda muito jovem para saber que o que era para mim férias à beira do mar dessa pequena cidade do sul da França, para muitos, era uma peregrinação para um destino sagrado.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu propositalmente grafei santa com aspas porque se Sarah tem inspiração cristã, e mesmo tendo seu lugar de culto reconhecido no porão de uma igreja católica, ela nunca foi oficialmente canonizada. Ela é o que chamam uma santa local, ou seja, ela é reverenciada e sagrada somente naquele lugar. E isso lhe confere uma característica muito especialmente simbólica quando lembramos que Sarah é a santa padroeira dos Ciganos, esse povo que não pertence a lugar nenhum, mas caminha levando-a junto, por todos os cantos da terra.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Falar sobre o povo cigano e sua cultura é muito complexo e controverso, mas sem entrar em demais detalhes, para podermos desenvolver o assunto que nos interessa aqui, o simbolismo de Santa Sarah, e para não cair em estereótipos, é preciso introduzir algumas referências.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-a-primeira-e-que-se-estou-usando-a-palavra-cigano-e-por-comodidade-e-facilitar-a-identificacao-no-entanto-a-palavra-correta-e-roms-e-na-verdade-para-ser-bem-preciso-seria-rroms-com-duas-letras-r" style="font-size:20px">A primeira é que se estou usando a palavra “Cigano” é por comodidade e facilitar a identificação, no entanto, a palavra correta é “Roms” e na verdade para ser bem preciso seria “Rroms”, com duas letras r.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Quem frequenta centros de <strong>Umbanda</strong> e outras casas espiritualistas pode se achar familiarizado com parte dessa cultura, no entanto, por mais que “giras ciganas” sempre demonstrem admiração e carinho, o uso da palavra “cigano” é redutora pois somente faz referência de forma caricatural a somente uma das etnias que formam esse povo multicultural, também chamado Romani.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Ainda nos dias de hoje essa denominação possui uma definição pejorativa, associada até no dicionário a conceitos de quem &#8220;é velhaco, burlador e que trapaceia, que barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota ou sovina&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em segundo lugar, o povo romani é constituído por várias etnias, diferenciadas essencialmente pelos caminhos por onde se espalharam pela Europa e pelos idiomas, sendo as principais os Roms e os Sinti que se encontram essencialmente em países como Romênia, Bulgária e os Kalons mais presentes na península ibérica e América Latina e cujos idiomas e culturas se impregnaram da língua espanhola e ficaram famosos através da arte, especialmente dos estilos musicais como o flamenco e mundialmente representados pela Banda francesa “Gipsy Kings”.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Um ponto interessante, e que lembraremos mais adiante, é que, apesar do esforço para unificar esse povo por parte da “união internacional romani”, organização não governamental que representa os interesses e direitos dos Rroms, alguns grupos étnicos ainda se recusam a ser assimilados a outros e não se reconhecem como parte de uma única cultura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Isto parece ser confirmado pela semiótica, na França, desde sempre terra de asilo e ponto de contato de todos os caminhos para todos eles, mesmo querendo impor o politicamente correto “Rrom”, a língua popular ainda mantém vivas várias palavras como Tzigane, Bohemien, Romanichel ou Gitan, para designar os “ciganos” em função de por onde chegaram, Norte, leste ou sul.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-todos-esses-pontos-tornam-muito-complexo-e-quase-impossivel-chegar-a-um-consenso-socioantropologico-sobre-esse-grande-misterio-que-e-a-origem-dos-ciganos" style="font-size:20px">Todos esses pontos tornam muito complexo e quase impossível chegar a um consenso socioantropológico sobre esse grande mistério que é a origem dos ciganos.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Por onde passaram e continuam a passar, é bastante claro, em contrapartida, de onde vieram, muito menos. A teoria mais aceita, baseada em estudos das raízes linguísticas, é que teriam se originado da Índia, de onde teriam saído por volta do século 10 depois de Cristo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-mas-entao-se-a-raiz-cultural-e-indiana-por-que-sua-principal-referencia-espiritual-seria-crista" style="font-size:20px">Mas então, se a raiz cultural é indiana, por que sua principal referência espiritual seria cristã?</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O fato de que as próprias etnias não se reconhecerem como um único grupo e algumas diferenças culturais obrigam a questionar se esta conclusão se sustenta. E nós que gostamos de observar o mundo por lentes emprestadas por <strong>Jung</strong>, sabemos que o primeiro papel do analista é questionar o óbvio e isso também é verdadeiro quando se quer entender uma tendência coletiva. Lembrando que <strong>Jung sempre frisou que qualquer forma de unilateralidade é uma forma de doença e portanto precisa ser estudada</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">O caminho dos ciganos pelo sul da Europa, especialmente pela Espanha até a França, parece seguir o mesmo de outro grupo de nômades que também saíram ou passaram pelo Oriente Médio e com o qual compartilha algumas características, os judeus. <strong>Pode parecer coincidência, mas alguns alegam que não</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<strong>As chaves de Salomão, o Falcão de Sabá</strong>”, Ralph Ellis alega, baseando-se em narrativas bíblicas e revisitadas com fontes arqueológicas, que a palavra Gipsy, que designa os ciganos em inglês, é derivativa da palavra Egyptian, mas em verdade expressa uma verdade histórica esquecida que os ciganos seriam bem originários do Egito e seriam de ascendência semita. Lisardo Cano Monte também apoia essa ideia em “Gitanos, las tribos perdidas de Israel”, no entanto, focando mais especialmente nos kalons. Ambos colocam o início da jornada nômade dos Rroms como um eterno exílio do Egito, no início da era cristã, em direção em parte para a Índia, onde haveria acontecido uma mescla cultural e uma assimilação linguística, o que explicaria por que o idioma romanês parece derivar do Sânscrito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-talvez-estudar-a-mitologia-pudesse-nos-ajudar-a-entender-de-fato-a-origem-misteriosa-desse-povo" style="font-size:20px">Talvez estudar a mitologia pudesse nos ajudar a entender de fato a origem misteriosa desse povo.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Há várias histórias e lendas que contam a vida de Sarah. A principal tradição conta que ela teria nascido no Egito, na época de Jesus. Alguns dizem que era escrava de Maria, outros, uma parteira, em quem um anjo teria incarnado para assistir Maria, pois nenhuma humana aguentaria a intensidade da luz do filho de Deus quando vier ao mundo. Diz a lenda que após a ressurreição do Cristo, os Romanos, para acabar com o Cristianismo levado em frente por Maria, teriam jogado um barco ao mar, com a bordo, Maria Jacobé, irmã de Maria mãe de Jesus e mãe dos apóstolos Tiago Maior e João evangelista, Maria Salomé, mãe de Tiago Menor e João e Maria Madalena, sem água nem comida para que morressem de sede e de fome junto com Sarah, a escrava.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Após algum tempo o barco à deriva ficou perdido no meio do Mediterrâneo, e Sarah percebendo a iminência de uma tragédia, orou a Deus para que salvasse essas 3 santas mulheres. O barco finalmente chegou com todas sã e salvas na cidade de “Petit Rhone” no sul da França onde foram resgatadas pelos habitantes locais. E então, como forma de agradecimento do milagre que havia acontecido e da sua fé inabalável, Sarah passou a usar, para sempre, um lenço amarrado na cabeça.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-impacto-dessa-chegada-na-vida-local-foi-tao-grande-que-a-cidade-foi-rebatizada-les-saintes-maries-de-la-mer-em-portugues-as-santas-marias-do-mar-e-todos-os-anos-e-o-palco-de-um-ritual-muito-bonito" style="font-size:20px">O impacto dessa chegada na vida local foi tão grande que a cidade foi rebatizada “<em>Les Saintes Maries de la Mer</em>”, em português “<em>As Santas Marias do Mar</em>”, e todos os anos é o palco de um ritual muito bonito.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">No terceiro final de semana do mês de maio, caravanas de carroças e carros levam ciganos de todas as etnias até a cidade para que possam participar da procissão à Santa Sarah que acontece no domingo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>Nesse dia, a imagem de Sarah, que fica na cripta da igreja, é levada, escoltada pelos “guardiões”, até o mar, acompanhada por uma multidão de pessoas vindas de todos os cantos do mundo</strong>. Os guardiões são figuras emblemáticas da Camargue, nome da região situada entre os dois braços do rio Reno, onde fica “<em>Les saintes maries de la mer</em>”, e são chamados assim porque pastoreiam e protegem a cavalo seus rebanhos. O ponto culminante deste impressionante ritual de fé acontece quando os guardiões adentram o mar, imergindo até seus cavalos, para alcançar a imagem de Sarah e resgatá-la, levando-a, segura, até o porão da igreja Notre-Dame-de-la-mer (nossa senhora do mar) para protegê-la, repetindo simbolicamente o que haveria acontecido um pouco mais de dois mil anos atrás.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-apos-a-procissao-os-fieis-especialmente-as-mulheres-a-procura-de-engravidar-ou-de-um-casamento-pedem-bencao-ou-agradecem-algum-acontecimento-feliz-amarrando-um-diklo-um-lenco-colorido-nos-ombros-da-santa" style="font-size:20px">Após a procissão, os fiéis, especialmente as mulheres à procura de engravidar ou de um casamento, pedem benção ou agradecem algum acontecimento feliz amarrando um “Diklô”, um lenço colorido, nos ombros da Santa.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Este ritual, junto com o acolhimento pelos países de tradição latina (França, Itália, Portugal e Espanha) e o impacto que a cultura cigana teve nesses países de identidade cristã, como o flamenco ou o Gipsy Jazz, historicamente ancorado em Paris, parece sustentar a ideia de uma origem judaico-egípcia do povo Romani.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-jung-introduz-a-questao-dos-arquetipos-e-do-inconsciente-coletivo-como-um-dos-fundamentos-essenciais-da-psicologia-analitica-e-como-ideias-fundamentais-para-compreender-como-simbolos-e-mitos-surgem-em-diferentes-culturas-eles-sempre-expressam-estruturas-psiquicas-comuns-a-humanidade" style="font-size:20px"><strong>Jung</strong> introduz a questão dos arquétipos e do inconsciente coletivo como um dos fundamentos essenciais da psicologia analítica e como ideias fundamentais para compreender como símbolos e mitos surgem em diferentes culturas. Eles sempre expressam estruturas psíquicas comuns à humanidade.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Uma camada mais ou menos superficial do inconsciente é indubitavelmente pessoal. Nós a denominamos <strong>inconsciente pessoal</strong>. Este, porém, repousa sobre uma camada mais profunda, que já não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inata. Esta camada mais profunda é o que chamamos <strong>inconsciente coletivo</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu optei pelo termo “coletivo” pelo fato de o inconsciente não ser de natureza individual, mas universal. Isto é, contrariamente à psique pessoal, ele possui conteúdos e modos de comportamento, os quais são cum grano salis os mesmos em toda parte e em todos os indivíduos. Em outras palavras, são idênticos em todos os seres humanos. Constituindo, portanto, um substrato psíquico comum de natureza psíquica supra pessoal que existe em cada indivíduo (JUNG, C.G. 2016b, 3)</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Eu gosto de me referir aos arquétipos como “DNA espiritual” da espécie humana, como uma forma de lembrarmos que não são personagens, heróis ou deuses em si, mas as ideias primordiais, emoções, bases e aptidões que são as raízes do comportamento humano, pedras e tijolos com os quais ao longo do tempo, construímos hábitos, comportamentos, culturas e civilizações.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-simbolo-no-entanto-pressupoe-sempre-que-a-expressao-escolhida-seja-a-melhor-designacao-ou-formula-possivel-de-um-fato-relativamente-desconhecido-mas-cuja-existencia-e-conhecida-ou-postulada-jung-c-g-2015-903" style="font-size:20px">“O símbolo, no entanto, pressupõe sempre que a expressão escolhida seja a melhor designação ou fórmula possível de um fato relativamente desconhecido, mas cuja existência é conhecida ou postulada.” (JUNG, C.G., 2015, 903)</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<em>Símbolos da transformação</em>” (2016, 344), Jung nos explica que os símbolos do inconsciente tendem a se repetir continuamente em inúmeras variações até que o sentido seja compreendido. Ou, em outras palavras, até que o conteúdo inconsciente tenha sido assimilado. Isto é um aspecto essencial para entender a dinâmica do inconsciente coletivo, especialmente quando lembramos que ele também disse que:</p>



<figure class="wp-block-pullquote" style="font-size:20px"><blockquote><p>“Os ritos religiosos são representações simbólicas de conteúdos do inconsciente coletivo; são tentativas de assimilação desses conteúdos, que de outra forma permaneceriam fora da consciência.” </p><cite>(JUNG, C.G., 211, 91)</cite></blockquote></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Ou seja, os ritos religiosos, como os contos de fada trazem para nós recados escondidos na sombra coletiva, necessidades de evolução, lições que irão se repetir até que entendamos claramente esses recados, que apesar de já presentes em todos nós, ainda não foram totalmente assimilados.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Munidos dessas bases preciosas, nos resta mergulhar no ofício de todo bom analista junguiano, que é observar quais imagens nessa história se destacam para tentar perceber os símbolos e investigar em qual direção eles nos levam. Afinal de contas, a participação em um ritual religioso em muito se assemelha a estar em um sonho coletivo onde todos estão levados por uma sombra individual, em uma direção comum, na esperança da transformação de uma dor particular.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ao-observar-o-mito-de-sarah-kali-do-meu-ponto-de-vista-tres-aspectos-simbolicos-merecem-um-destaque-especial" style="font-size:20px">Ao observar o mito de Sarah Kali, do meu ponto de vista, três aspectos simbólicos merecem um destaque especial.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Primeiramente, Sarah é salva das águas em meio a uma travessia. É muito interessante lembrar que Jung assimila o mar ao inconsciente, e Neumann em “<strong>A Grande Mãe</strong>” a um grande útero-matriz aquático como arquétipo universal de morte e renascimento, associado a ritos de iniciação. No seu ritual de fé, Sarah é salva e devolvida ao mar, numa parada inexorável, repetindo a caminhada e a limpeza, como ensaiando um batismo infinito.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ela-e-uma-figura-feminina-quase-mariana-e-o-paralelo-com-a-ideia-da-grande-mae-e-todas-as-heroinas-da-mitologia-grega-e-obvio-mas-o-mais-relevante-e-que-a-imagem-de-sarah-e-preta" style="font-size:20px">Ela é uma figura feminina, quase mariana, e o paralelo com a ideia da grande mãe e todas as heroínas da mitologia grega é óbvio, mas o mais relevante é que a imagem de Sarah é preta.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Com certeza não é por acaso que ela é conhecida como <strong>Sarah la Noire</strong> (Sarah a Negra, em português). <strong>A negritude é sua principal característica</strong>. Embora poderíamos abrir uma reflexão étnica e racial que poderia ser até oportuna, o que nos interessa aqui é a mensagem simbólica passada pela adoração de uma figura escura.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong>La noire</strong> é o negro, a cor da pele, mas também a escuridão da noite na qual nada se vê, o que nos leva ao conceito de <strong>sombra</strong> de <strong>Jung</strong>, este repositório no inconsciente onde escondemos os desejos, as vontades que nos deixam desconfortáveis, mas também tudo aquilo em nós que não queremos enxergar.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E se aceitamos a ideia de um inconsciente coletivo, com todas as variações de coletivo, da família, do bairro, da cidade, da religião, de todas as formas possíveis de aglomeração humana, naturalmente temos que aceitar a ideia de uma sombra coletiva e, portanto, repleta de dores comuns com as quais ninguém quer entrar em contato.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Em “<em>The cult of the black virgin</em>”, o analista junguiano <strong>Ean Begg</strong>, diplomado de Oxford e do instituto C.G. Jung de Zurique, faz um amplo estudo das representações de imagens e aparições de Maria de Nazaré negras e constatou que se trata de um fenômeno recorrente, desde a Idade Média. Até imagens de Maria, escurecidas pelo tempo, foram mantidas propositalmente pretas após a limpeza quando poderiam ter apresentado a tradicional feição europeia da mãe do Cristo. E lembramos com certeza da imagem de nossa senhora aparecida, escurecida pelo lodo do rio, mas que a tradição não fez questão de esbranquiçar.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-ele-nos-lembra-que-nos-ultimos-150-anos-algumas-das-virgens-maria-reportadas-em-aparicoes-coletivas-eram-negras" style="font-size:20px">Ele nos lembra que nos últimos 150 anos, algumas das virgens Maria reportadas em aparições coletivas eram negras.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Fenômeno que parece querer manter viva a ideia de um feminino oculto, sombrio, mas que não precisa se esconder mais. Ele enfatiza que, tal como o encontro do também negro feminino poderoso da <strong>rainha de Sabá </strong>com o masculino sábio do <strong>rei Salomão</strong> trouxe fertilidade e transformação ao reino, as santas Marias do Mar trouxeram, em Sarah, a luz redentora de Jesus, o rei dos reis.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">E não importa o ponto de início da jornada, se foi Egito ou Índia, ou se meramente passou por ela em algum momento, mas fato é que, sem que consigamos entender os motivos, os ciganos se encontraram com Sarah na beira do Mediterrâneo.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-e-para-nos-nao-importa-comprovar-ou-analisar-questoes-historicas-ou-antropologicas-mas-sim-ver-como-esse-tipo-de-reflexao-nos-permite-aprofundar-nosso-conhecimento-da-psicologia-analitica" style="font-size:20px">E, para nós, não importa comprovar ou analisar questões históricas ou antropológicas, mas sim, ver como esse tipo de reflexão nos permite aprofundar nosso conhecimento da psicologia analítica.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">A devoção à Santa Sarah pode ser compreendida como integração do arquétipo da Mãe Negra e da Sombra acolhedora. O banho de sua imagem no mar simboliza a travessia, o rompimento das barreiras, a purificação e a reconexão com o inconsciente profundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Se Jung tivesse presenciado esse rito, ele certamente nos reafirmaria que a identificação com a imagem, especialmente religiosa, não acontece pelo estudo, pelo entendimento e pela razão, mas pelo chamado inconsciente da sombra, pela sintonia do arquétipo invisível para os olhos, mas que entra em ressonância com o nosso lado oculto. E talvez o veria como um mito vivo de integração da sombra coletiva.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-mar-seria-o-inconsciente-primordial-os-guardioes-a-cavalo-os-herois-e-sarah-o-arquetipo-da-grande-mae-negra-explicaria-que-o-ritual-reafirma-a-vontade-de-pertencimento-e-a-cura-psiquica-individual-e-coletiva" style="font-size:20px">O mar seria o inconsciente primordial, os guardiões a cavalo os heróis, e Sarah, o arquétipo da<strong> Grande Mãe Negra</strong>, explicaria que o ritual reafirma a vontade de pertencimento e a cura psíquica, individual e coletiva.</h2>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Por mais que a imagem e o ritual em sua superfície se apresentem como cristãos, eles somente permitem dar um rosto a uma temática universal com a qual todos podem se identificar, pois reaviva em cada um questões humanas universais. Portanto, a identificação com o símbolo ou a sensação da necessidade de participar de ritos ou de pertencer a alguma forma peculiar de cultura ou religião pode acontecer sim pela vivência, pela herança espiritual e ancestralidade, mas também porque símbolos e ritos, mesmo de culturas completamente desconhecidas, sempre vão trazer à tona situações que podem tocar no âmago arquetípico que está fundo em cada um de nós.</p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Para os ciganos, sejam eles do Egito ou da Índia, venerar <strong>Sarah Kali</strong> é honrar essa força de sobrevivência e regeneração necessária à resiliência de todas as minorias. O rito de levá-la ao mar que une o simbolismo do útero aquático à cor negra revela a necessidade de uma imersão no inconsciente, uma travessia, um retorno à origem. </p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5">Sarah, salva das águas sombrias, escancara para os <em>gadjês</em>, os não ciganos, tocados pela beleza do resgate daquilo que estava prestes a se perder, o recado que ainda não foi entendido: <strong>O que foi um dia marginalizado, em algum momento, retornará como sagrado</strong>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Artigo novo: Sarah, a sombra e o mar" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/C7qqvfSEfNI?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/sebastienbaudry/">Sebastien Baudry &#8211; Analista em formação IJEP</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:20px;line-height:1.5"><strong><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/cristinaguarnieri/">Maria Cristina Guarnieri &#8211; Analista Didata IJEP</a></strong></p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-referencias">REFERÊNCIAS:</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Begg, E. The Cult of the Black Virgin. Chiron Publications, Acheville-NC, Estados Unidos, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Hancock, Ian, We Are the Romani People, Vol. 8, University of Hertfordshire Press. Hatfield, Reino Unido, 2002.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav, Psicologia e Religião. Obra Completa, 11/1. 11ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.</p>



<p class="wp-block-paragraph">_________, Tipos psicológicos. 6 Obra Completa. 9ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ Símbolos da transformação. Obra Completa, 5ª ed. original Petrópolis, RJ: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">__________ Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Obra Completa, 9/1 6ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neumann, E. A Grande Mãe. São Paulo, SP, Cultrix, 1994</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong><a href="http://www.ijep.com.br">www.ijep.com.br</a></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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			</item>
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		<title>Vampyroteuthis Infernalis e o ego demasiadamente ego</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/vampyroteuthis-infernalis-e-o-ego-demasiadamente-ego/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Sep 2023 16:11:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Autoconhecimento]]></category>
		<category><![CDATA[Medo]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[Psicossomática]]></category>
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		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[vilem flusser]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://blog.sudamar.com.br/?p=7968</guid>

					<description><![CDATA[<p>Descubra as fascinantes características do Vampyroteuthis Infernalis e sua relação com o ego humano neste ensaio filosófico baseado na obra de Vilém Flusser. Explore as conexões entre bioluminescência, psicossomática e comunicação neste mergulho nas profundezas da mente e do oceano.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">&#8220;<em>Vampyroteuthis Infernalis</em>: Um Tratado&#8221; é uma obra do filósofo tcheco-brasileiro<strong> Vilém Flusser</strong> que explora uma série de temas filosóficos por meio do estudo do <em>vampirotheutis infernalis</em>, uma espécie de <strong>lula abissal</strong>. O livro é um ensaio filosófico que utiliza o animal <em>vampyroteuthis infernalis</em> como um <strong>espelho</strong> para nós seres humanos.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-sobre-o-vampyroteuthis-infernalis">Sobre o Vampyroteuthis infernalis</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O Vampyroteuthis infernalis, também conhecido como &#8220;vampiro do inferno&#8221;, é uma espécie de lula que vive em ambientes extremos nas profundezas do oceano. Uma das características mais notáveis do Vampyroteuthis infernalis é a sua capacidade de <strong>bioluminescência</strong>. Ele tem órgãos emissores de luz, fotóforos, localizados em várias partes do seu corpo, inclusive nos tentáculos. Essa característica é usada para confundir predadores e pode ser um método de comunicação entre membros da mesma espécie.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O molusco possui um corpo gelatinoso que o ajuda a flutuar nas águas profundas e escuras onde vive. A sua estrutura corporal é mais próxima da de uma água-viva do que da de outras lulas.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-viver-do-vampyroteuthis-infernalis">O viver do Vampyroteuthis infernalis</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Entre seus oito braços, existe uma espécie de membrana que se parece com a asa de um morcego. Isso contribui para o seu nome popular e para sua capacidade de se mover de forma eficiente.<strong> Já, seus braços ou tentáculos também são seus órgãos genitais e é com eles que o molusco descobre o mundo ao seu redor. </strong>O animal tem a capacidade de <strong>mudar a cor de sua pele</strong>, o que serve para camuflagem e possivelmente para comunicação.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O <em>Vampyroteuthis infernalis</em> é encontrado em águas profundas. Geralmente profundidades que variam de seicentos a novecentos metros, embora possam ir ainda mais fundo. Ele habita zonas onde a luz do sol não penetra, em um ambiente conhecido como zona afótica do oceano.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A alimentação deste animal é menos compreendida, mas acredita-se que ele se alimenta de detritos orgânicos que caem do oceano acima, conhecidos como &#8220;<strong>neve marinha</strong>&#8220;. É um animal fascinante que desafia muitas de nossas compreensões convencionais sobre a vida marinha.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No livro, o <em>vampyroteuthis </em>é apresentado como um alienígena em relação a nós. Por causa dessa diferença, ele serve como um contraponto para explorar as<strong> </strong>limitações e possibilidades do pensamento humano. Flusser compara o animal ao ser humano de uma forma mais externa – as estratégias de sobrevivência, comunicação e percepção dessa criatura às nossas, destacando tanto as diferenças quanto as semelhanças inesperadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Apesar de Flusser não ter sido simpático à teoria C. G. Jung, gostaria de subvertê-lo e propor <em>vampirotheutis infernalis </em>como um <strong>conteúdo psíquico</strong>, ou seja, não um animal separado de nós, mas também <strong>uma <em>imago</em> que se defronta com o ego em algum momento da vida</strong>. Perguntemo-nos: <strong>quem é este vampiro infernal em mim</strong>?</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-espanto-do-espanto">O espanto do espanto</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Vale a imaginação: em algum momento da vida o molusco resolve vir à terra ou nós às profundezas. Um humano vê o molusco e se espanta. Seu espanto é duplo. Primeiro, ao ver tamanha criatura e a monstruosa diferença entre ele humano. Segundo, <strong>o</strong> <strong>espanto do espanto</strong>, ao perceber o quanto o próprio ser humano é ser uma criatura peculiar assim como o <em>vampirotheutis infernalis</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste momento, sem dúvidas, o indivíduo sentirá o “<strong>humano, demasiadamente humano</strong>” que Nietzsche pregoou. Podemos ir além, o indivíduo percebe que o vampiro do inferno não veio das profundezas literais do mar, mas da <strong>psique</strong>. Ele é um ser espiritual diante do pequeno ego. Portanto, melhor seria parafrasear Nietzsche: “ego, demasiadamente ego”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa paráfrase pode ser entendida como um indício de uma hierofania – uma <strong>aparição divina</strong>. <strong>Momento em</strong> <strong>que o ego reconhece o seu tamanho diante de outros conteúdos espirituais ou psíquicos, sentindo uma repulsão e uma atração, ao mesmo tempo, pelo conteúdo manifesto</strong>. No caso, o vampiro infernal.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-racionalismo-e-comunicacao">Racionalismo e comunicação</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Retornando ao livro, Flusser utiliza este animal como um &#8220;modelo perculiar” para compreender aspectos fundamentais da existência humana, incluindo temas como consciência, comunicação, tecnologia e cultura. Aqui quero destacar alguns deles. &nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os humanos (egos), embebidos do <strong>racionalismo</strong>, usam a<strong> </strong>linguagem<strong> </strong>altamente abstrata para comunicar ideias, emoções e conceitos. O <em>vampyroteuthis</em>, por outro lado, utiliza uma forma mais direta e imediata de comunicação por meio de mudanças de cor e padrões na sua pele.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Considerando a lula como um ser de dentro, fica evidente o quanto é possível discorrer sobre a psicossomática neste ponto. O próprio bebê neonato comunica-se mais como lula do que como ego racionalista. O tipo de choro e a coloração da pele do neonato mudam de acordo com a sua demanda, seja fome ou cólica, etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contudo, nós adultos não perdemos isso, mas tentamos esconder com maquiagens e afins. Nada obstante, o vampiro em nós nos suplanta chegando nas dermatites generalizadas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Flusser discute como os humanos usam a tecnologia, ferramentas, máquinas e sistemas para mediar nossa relação com o mundo. Esta mediação nos permite alterar nossa percepção e interpretação da realidade. Comparando, o <em>vampyroteuthis</em> usa suas habilidades biológicas inatas, como a bioluminescência, para interpretar e interagir com seu ambiente.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O que nos remete, também, a uma possível metáfora e analogia ao filme &#8220;A Chegada&#8221; (2016), no qual a renomada linguista Louise Banks é chamada a codificar mensagens de seres alienígenas, o que faz explorando as diferentes formas de <strong>conexão</strong> possíveis, descobrindo que a <strong>comunicação</strong> vai muito além das linguagens escrita e falada como a conhecemos hoje, compreensão que acaba por refletir até mesmo nas suas percepções sobre tempo e espaço.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-o-lume-central-abissal">O lume central abissal</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Curiosamente C. G. Jung já chamou as profundezas abissais de “lume central”. É desse que surgem as imagens psíquicas, as representações arquetípicas, as visões, as fantasias e os sonhos. A realidade de dentro é comunicada por uma luminescência desse ser que, por vezes, espera que fechemos os olhos à noite para se comunicar com o pequeno ego, por outras, invade a luz do dia confundindo o pequeno ego.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É importante colocar em xeque o processo civilizatório e a cultura.  Em resumo, eles organizam conhecimento, valores e práticas humanas em uma sociedade, como também consolidam os preconceitos – isto é as repressões psíquica de forma social.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Afinal, qualquer preconceito é uma neurose. Isso força o leitor a questionar o que sabemos sobre nossa própria cultura, realidade e a considerar se nossas maneiras de organização social, moral e ética são realmente &#8216;universais&#8217; ou apenas particularidades humanas. A lula de dentro não quer saber de moralidade e organização.</p>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-vampyroteuthis-anima-e-animus">Vampyroteuthis + Anima e Animus</h2>



<p class="wp-block-paragraph">O <em>vampyroteuthis</em> poderia ser reconhecido como uma representação do arquétipo da Anima e do Animus na teoria de C. G. Jung,<strong> forçando-nos a enfrentar as partes escondidas e não reconhecidas de nossa psique</strong>.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nesse ritmo, tradicionalmente, o arquétipo da <strong>Anima </strong>representa o feminino interior no psiquismo masculino, enquanto o <strong>Animus</strong> representa o masculino interior no psiquismo feminino. <strong>Estes arquétipos agem como um espelho, refletindo aspectos de nós mesmos que são frequentemente relegados ao inconsciente devido às normas sociais e culturais</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph">Com sua bioluminescência e adaptações para um ambiente hostil, a lula é uma manifestação contundente desses arquétipos, que também habitam as &#8220;profundezas&#8221; de nossa mente inconsciente.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-large has-small-font-size is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px">Sua aparência estranha e capacidades de comunicação fora do comum servem como um lembrete de que há aspectos da existência humana que são igualmente estranhos e enigmáticos. Ele nos faz questionar as estruturas e suposições que tomamos como garantidas, e nos confronta com as partes de nós mesmos que preferimos manter ocultas.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading" id="h-profundezas-da-psique">Profundezas da psique</h2>



<p class="wp-block-paragraph">Ao equiparar as manifestações biológicas do <em>vampyroteuthis</em>, como a bioluminescência, com as manifestações arquetípicas, como sonhos e visões, estamos de certa forma honrando a &#8220;luminescência&#8221; interior de nossa própria psique. Ambas as formas de comunicação são tentativas de iluminar o desconhecido, de fazer sentido de um mundo que é muito maior e mais complexo do que nossa compreensão limitada pode abranger.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-style-plain is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow" style="font-size:18px">
<p class="wp-block-paragraph" style="font-size:18px"><em>Assim, a obra de Flusser e o vampyroteuthis servem como um convite para explorar as &#8220;águas profundas&#8221; de nossa própria psique, para nos familiarizarmos com os aspectos menos compreendidos de nossa própria humanidade.</em></p>
</blockquote>



<p class="wp-block-paragraph">O animal e os arquétipos nos oferecem uma oportunidade para a introspecção e a auto-descoberta, nos instigando a ir além das limitações do ego e a explorar o vasto oceano do inconsciente. E tal como o vampyroteuthis, os arquétipos, em sua interação com o ego, revelam que somos, todos nós, &#8220;monstros&#8221; em nossas próprias maneiras.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Por final vale lembrar que disse que <em>desse abismo nós temos permissão somente para conhecer as bordas</em>.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/leostorres/">Leonardo Torres &#8211; Analista em Formação IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://blog.sudamar.com.br/author/waldemarmagaldi/">Waldemar Magaldi &#8211; Diretor e Analista Didata IJEP</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">FLUSSER, Vilem. Vampirotheutis Infernalis: um tratado. São Paulo: Editora Ubu, 2019.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph"></p>
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		<title>Benção de Nahualt</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/bencao-de-nahualt/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Barbara Pessanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 20 Jul 2022 19:49:12 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Benção de nahualt]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há algum tempo chegou em minhas mãos uma “oração” atribuída a Nahualt, na verdade dei pouca importância pois chegou exatamente como chegam as fakenews. Eu não sei o que me fez voltar ali e reler, eu não sou dessas pessoas que voltam pra ler coisas tipo corrente, ou baixa imagens que parecem ser só reprodução [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Há algum tempo chegou em minhas mãos uma “oração” atribuída a Nahualt, na verdade dei pouca importância pois chegou exatamente como chegam as fakenews. Eu não sei o que me fez voltar ali e reler, eu não sou dessas pessoas que voltam pra ler coisas tipo corrente, ou baixa imagens que parecem ser só reprodução automática. Voltei, voltei e me deparei com algo que me atravessou, e me possibilitou orar, falar e agir. Refletir nas minhas ações e em todas as não atitudes que eu estava tomando. Estudar Jung faz esse tipo de arrebatamento, somos pegos desprevenidos por eventos sincronísticos que se tivermos olhos de ver, conseguiremos apreender alguma coisa com isso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nahualt provem da língua madre dos Astecas, é uma língua indígena e milenar onde são falados até hoje em zonas mais rurais com dialetos diferenciados. Procurei saber se a oração era de um deus ou deusa, ou alguma entidade especifica da religião Asteca. O pouco que posso falar sobre a religião deles é que eram politeístas e cultuavam a natureza e os animais como deuses. Então, posso ser sugestionada a acreditar que essa prece seja ao Criador, se por algum acaso, tenha sido feita pelos astecas. Não posso garantir isso pois em toda pesquisa que fiz não tinha fontes fidedignas desta origem para o que me foi apresentado, mas eu queria saber de onde foi que se originou tal poema, pois eu vi como uma prece de libertação. E eu queria falar sobre ela, mesmo que não seja dos astecas, mesmo que tenha sido feita por um gênio contemporâneo, ela me trouxe um caráter numinoso. Quando entramos em contato com algo que muda qualquer percepção, da forma que me foi colocada esses versos, podemos trabalhar de forma terapêutica. A Arteterapia trabalha todas as formas de arte e possibilita esse encontro com um eu interior a partir de imagens, textos e produções que nos fazem refletir essa interioridade fina e particular a partir de um outro. Esse outro pode ser um material, um desenho, uma foto, uma escultura, um livro, uma poesia; sai de mim o que entrou em contato com meu maior EU que é esse pedaço que se faz presente constantemente, mas é inconsciente. Segue a “oração” abaixo:</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Bênção Nahualt</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu liberto meus pais do sentimento de que já falharam comigo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu liberto meus filhos da necessidade de trazerem orgulho para mim. Que possam escrever seus próprios caminhos de acordo com seus corações, que sussurram o tempo todo em seus ouvidos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu liberto meu parceiro da obrigação de me completar. Não me falta nada, aprendo com todos os seres o tempo todo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Agradeço aos meus avós e antepassados, que se reuniram para que hoje eu respire a vida. Libero-os das falhas do passado e dos desejos que não cumpriram, consciente de que fizeram o melhor que puderam para resolver suas situações dentro da consciência que tinham naquele momento. Eu os honro, os amo e os reconheço inocentes.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu me desnudo diante de seus olhos. Por isso, eles sabem que eu não escondo nem devo nada além de ser fiel a mim mesmo e à minha própria existência, que caminhando com a sabedoria do coração, estou ciente de que cumpro o meu projeto de vida, livre de lealdades familiares invisíveis e visíveis que possam perturbar minha Paz e Felicidade, que são minhas únicas responsabilidades.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu renuncio ao papel de salvador, de ser aquele que une ou cumpre as expectativas dos outros.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aprendendo por meio e somente por meio do AMOR, eu abençoo minha essência, minha maneira de expressar, mesmo que alguém possa não me entender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu entendo a mim mesmo, porque só eu vivi e experimentei minha história. Porque me conheço, sei quem sou, o que sinto, o que faço e porque faço.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu me respeito e me aprovo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Eu honro a Divindade em mim e em você.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Somos livres!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Podemos perceber pelo aspecto da Psicologia Analítica o simbólico de libertação desta oração, prece, poesia, carta ou mesmo escrita sagrada, caso tenha sido originada mesmo pelos Astecas. Quando libertamos, pedimos liberdade&#8230; ao que viemos presos? Aceitar que temos limitações e que relações de poder não nos trazem a possibilidade de vivenciar o amor.&nbsp;“Onde o&nbsp;<em>amor</em>&nbsp;impera,&nbsp;<em>não</em>&nbsp;há desejo de&nbsp;<em>poder</em>; e onde o&nbsp;<em>poder</em>&nbsp;predomina há falta de&nbsp;<em>amor</em>. Um é a sombra do outro.” (Jung, 2012)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A obra é maior que o autor quando ela cria redes de afeto além daquilo que ele, o autor, pode alcançar.  A etimologia de benção vem do “[&#8230;]hebraico, a palavra “bênção” (“berekhah”) vem de uma raiz (“barakeh”, “beirakheh”) que significa “ajoelhar, abençoar, exaltar, agradecer, felicitar, saudar”. Tanto no hebraico quanto no grego (“eulogia”) apresenta um sentido de concessão de alguma coisa material. Todavia, a forma grega acrescenta ainda os bens espirituais que vem de Cristo. Nos dicionários, consta como “ação de benzer, favor divino, graça”.” (<a href="http://www.etimologista.com/2011/06/origem-da-bencao.html">http://www.etimologista.com/2011/06/origem-da-bencao.html</a>). Podemos ver que só a chamada tem uma incitação a invocação de algo sagrado e ao fazer uma análise das partes podemos ver os aspectos que fazem o todo mas pedem uma percepção muito individual e privada daquilo que possuímos como experiência de vida, retificando a fala de Jung que somos seres, únicos e exclusivos, e devemos entender processos universais vividos no indivíduo. </p>



<p class="wp-block-paragraph">“Não é somente qualquer leigo que presume emitir um juízo, quando se apresenta a ocasião, mas até mesmo qualquer psicólogo, e isto não somente com referência ao sujeito, mas também, o que é mais grave, com referência ao objeto. Sabemos ou acreditamos saber o que se passa com outro indivíduo, e o que seja bom para ele.&nbsp; Isto se deve menos a um soberano desconhecimento das diferenças, do que propriamente à tácita suposição de que todos os indivíduos são iguais entre si. A consequência disto é que as pessoas se sentem inclinadas, a acreditar na validez universal de opiniões subjetivas.” (JUNG, 2012, §343)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Poderíamos dissecar o texto, eu poderia criar suposições do que o autor quis me falar, mas dentro do processo terapêutico o lugar mais seguro e fiel é falar sobre quais emoções me tocaram ao entrar em contato com o objeto. Através dos trechos posso especificar a teoria viva de Jung quando se fala de libertamos nossos pais, avós, bisavós e tataravós, as quatro gerações de influência psíquica e isso poderia se adequar e ressignificar conteúdo dos complexos materno e paterno; ou da necessidade de “orgulho” como forma de vida não vivida por nós que acarreta em sofrimento aos nossos descendentes, no caso os filhos; ou ainda, ao entendermos que somos seres completos e que vivenciamos nas relações formas nossas projetivas, principalmente nos parceiros. Podemos interpretar verso a verso, mas entendendo que foi o que ME passou ao olhar essa escrita. Poderia não me dizer nada também, ou apenas soar auto ajuda piegas. O além é que incorpora de maneira subjetiva e dá sentido a essa relação individuo/objeto. Libertando-nos de ter que viver a vida não vivida dos nossos antepassados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Perceber nossas demandas internas é o papel do processo terapêutico, utilizar formas lúdicas e oníricas são maneiras preciosas de desenvolvermos métodos únicos com aqueles que passam a dividir suas demandas interiores no setting terapêutico. Jung nos permite vivenciar isso com o cliente quando apostamos, não em métodos ou técnicas, mas em evolutivas pessoais intransferíveis que com o nosso auxílio podemos ajudar nos baseando na Psicologia Analítica. A Arteterapia parece mágica, quando falamos assim&#8230; talvez soe piegas, ou muito fantasioso, mas se relacionar consigo mesmo é assim mesmo. Pontuando que isso só pode acontecer com entrega ao crescimento interno e para haver “cura”, temos que dar atenção, que é isso que cura quer dizer. Se dar atenção, produzir sua arte, ser atravessado por outras obras&#8230; se escutar a partir de objetos. Nossa relação com os materiais e nossas múltiplas possibilidades de nos comunicarmos com o nosso inconsciente é uma relação de encanto. Não tem lugar comum nessa variedade, o caminho é lindo e muito particular.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Bárbara Pessanha</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro Analista em Formação RJ</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referencias:</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012c. (Obras</p>



<p class="wp-block-paragraph">Completas de C. G. Jung, v. 8/2).</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. O espírito na arte e na ciência. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2012i.</p>



<p class="wp-block-paragraph">(Obras Completas de C. G. Jung, v. 15).</p>



<h3 class="wp-block-heading" id="h-mendes-iba-a-origem-da-bencao">MENDES, Iba.&nbsp;A origem da “Bênção”</h3>



<p class="wp-block-paragraph">Disponível em:&nbsp;<a href="http://www.etimologista.com/2011/06/origem-da-bencao.html">http://www.etimologista.com/2011/06/origem-da-bencao.html</a>&nbsp;Acesso em: 19 ago. 2020.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANT&#8217;ANA, Maraci. Disponível em:&nbsp;<a href="https://blogs.correiobraziliense.com.br/consultoriosentimental/bencao-nahuatl/">https://blogs.correiobraziliense.com.br/consultoriosentimental/bencao-nahuatl/</a>&nbsp;,&nbsp;Acesso em: 19 ago. 2020.</p>



<h4 class="wp-block-heading" id="h-barbara-pessanha"><strong><em>Bárbara Pessanha</em></strong></h4>
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		<title>Modernos Xamãs: o analista e os desafios do processo de cura</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/modernos-xamas-o-analista-e-os-desafios-do-processo-de-cura/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leila Montanha]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Jul 2022 15:35:54 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Psicoterapia]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Este artigo teve como ponto de partida minha reflexão sobre o processo de formação como analista junguiana e as práticas iniciáticas existentes tanto no Xamanismo como nas religiões Afro-Brasileiras, em especial na Umbanda, onde me formei como sacerdote (Babá), realizando as iniciações que a formação exigia à época. &#160;O objetivo desse artigo é propor um [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Este artigo teve como ponto de partida minha reflexão sobre o processo de formação como analista junguiana e as práticas iniciáticas existentes tanto no Xamanismo como nas religiões Afro-Brasileiras, em especial na Umbanda, onde me formei como sacerdote (Babá), realizando as iniciações que a formação exigia à época. &nbsp;O objetivo desse artigo é propor um paralelo entre os dois caminhos de iniciação, a psicológica e a religiosa, e refletir sobre a forma como o inconsciente nos convida a viver essa jornada, de tornar-se analista, convocando-nos a participar junto de um outro, nosso cliente, de um processo de cura que tem mão dupla, pois nunca acontece numa direção exclusiva.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Os xamãs foram descritos por Mircea Eliade (2002, pg.19) como &#8220;os grandes especialistas da alma humana&#8221;. Von Franz (1997, pg.85) os aponta, inclusive, como precursores da moderna psicoterapia. O &#8220;chamado&#8221; para a jornada de cura começa com uma série de eventos estranhos, normalmente sonhos e doenças, as mais diversas. E os sintomas são revertidos à medida em que se iniciam suas atividades como xamã.&nbsp; Estes relatos se parecem muito com o &#8220;chamado&#8221; para a mediunidade, vivido também por pessoas que se iniciam nas práticas religiosas mediúnicas. É bastante comum e usual que as pessoas procurem os Centros Espíritas ou Terreiros de Umbanda devido a doenças repentinas e inexplicáveis, apresentando dificuldades tanto na dimensão física quanto psicológica, financeira ou social. Normalmente, são orientados nos Centros ou Terreiros a dar início a sua preparação para a prática mediúnica e, na medida que o fazem, os sintomas também desaparecem. Os médiuns, como os xamãs, buscam auxiliar na cura de quem os procuram através do mundo espiritual, um &#8220;locus&#8221; onde os espíritos de pessoas mortas &#8220;vivem&#8221;, e, através de suas emanações, influenciam os vivos, seja auxiliando na cura ou atrapalhando suas vidas, fazendo com que fiquem doentes, por exemplo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Von Franz (Idem, pg.85) descreve a doença que antecede ao chamado dos xamãs como &#8220;um rapto por um pássaro que leva o indivíduo para o chamado mundo inferior&#8221;. Lá, ele fica aprisionado, sendo desmembrado pelos espíritos ou sofrendo torturas. Como Osíris, o futuro Xamã renasce, volta ao mundo dos seres humanos, desperto, e passa a ter o poder de cura. A preparação de um médium, especialmente nas religiões afro-brasileiras, como a Umbanda, também passa por diversos rituais e iniciações, sendo que a última é a entrada no reino de Exu, Orixá mais próximo da esfera terrestre e, portanto, do ser humano, associado muitas vezes ao diabo. Como Hermes, Exu personifica o psicopompo, aquele que faz a intermediação entre vários reinos: o mundo humano, o mundo dos Orixás e o das entidades superiores e o charco, conhecido também como o inferno.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Mas o que xamãs e médiuns tem a ver com a psicoterapia? A relação se estabelece pelo fato de ambos lidarem com o desconhecido, com o mundo dos &#8220;espíritos&#8221;, dimensões que se aproximam, analogamente, ao inconsciente &#8211; termo do campo da psicoterapia, utilizando o acesso a esse espaço como instrumento de cura. A analogia entre o mundo dos &#8220;espíritos&#8221; e o inconsciente foi proposta por Jung em sua conferência &#8220;Os fundamentos psicológicos da crença nos espíritos&#8221; (JUNG, 2013, pg.254).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Von Franz (1997, pg. 89) coloca um &#8220;surpreendente paralelismo&#8221; nesta forma de contato com o &#8220;mundo dos espíritos&#8221;, o inconsciente, na vida de Jung, mas é claro que ela se atinha a questão dos xamãs ao fazer tal discussão. A autora nos conta que durante o período da meia-idade, Jung &#8220;teve sonhos cujo tema recorrente era o renascimento dos mortos do passado histórico ou de uma pomba, que se transformava em uma garotinha, vindo a ele como mensageira do mundo dos mortos&#8221;, algo que se assemelhava muito ao transe dos xamãs. Ampliando para a experiência mediúnica, especialmente na Umbanda, que me é conhecida, este paralelo se enquadra igualmente. Zélio de Moraes, médium que deu início à Umbanda no Brasil, foi acometido por uma doença que o deixou de cama, incapaz de andar, até dar início a sua jornada na criação desta nova religião (TRINDADE, 2014).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Von Franz (idem, pg. 17) conta que certa vez apontou para Jung que sua atitude para com o inconsciente parecia idêntica a dos indivíduos que praticavam religiões mais arcaicas, citando o xamanismo ou a religião dos índios Naskapi. Estes seguiam seus próprios sonhos, sem sacerdotes ou rituais, acreditando que os sonhos vinham de uma força superior, de um &#8220;grande homem imortal do coração&#8221;. Jung, ela diz, respondeu com um sorriso: &#8220;Bem, não há do que se envergonhar. É uma honra!&#8221;.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não posso afirmar que todos os analistas tenham passado pela experiência do &#8220;chamado&#8221;, mas certamente algo despertou dentro de cada um de nós para iniciarmos o caminho da psicologia profunda. O processo de formação é uma forma de iniciação, o mergulho na própria sombra, que permite ampliar o potencial de cura.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Há uma diferença, porém, nos processos de cura utilizados pelo Xamã e pelos médiuns: em ambos os casos a jornada ao inconsciente para a busca da cura é feita de forma indireta. O cliente, adoecido, é neste caso um elemento passivo do processo. Digo isso sem menosprezar, de forma alguma, a parte que lhe é devida, a fé necessária, a abertura e a confiança para que o processo ocorra. Porém, não é ele quem entra diretamente em contato com o &#8220;mundo dos espíritos&#8221;, o inconsciente. Na análise, a cura vem pelo mergulho também do cliente em seu mundo anímico, onde irá se encontrar com seu curador interno, e através dele reestabelecer a saúde, seja em qualquer um desses níveis: físico, financeiro, psicológico, social&#8230; É uma jornada conjunta vivida por analista e cliente, onde ambos estão em contato com o &#8220;mundo dos espíritos&#8221;, explorando o inconsciente, acionando o &#8220;poder do Exu&#8221;, do psicopompo, para transitar pelos diversos níveis da psique, a fim de que a cura possa ocorrer.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Leila Cristina Montanha</p>



<p class="wp-block-paragraph">Economista, Sacerdote de Umbanda e Analista Junguiana em Formação pelo IJEP.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ELÍADE, Mircea&nbsp;O Xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase. São Paulo:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Martins Fontes, 2002</p>



<p class="wp-block-paragraph">JAFFÉ, Aniela.&nbsp;Ensaios sobre a Psicologia de C.G.Jung. 10ª ed. São Paulo: Cultrix, 1995</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav.&nbsp;A Natureza da Psique. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2013</p>



<p class="wp-block-paragraph">TRINDADE, Diamantino Fernandes.&nbsp;História da Umbanda no Brasil. Limeira: Ed. do Conhecimento, 2014</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>Leila Cristina Montanha&nbsp;</em></strong></h4>
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		<title>Feliz páscoa? – sim.. Feliz páscoa!</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/feliz-pascoa-sim-feliz-pascoa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Torres]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 14 Jul 2022 12:58:55 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
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		<category><![CDATA[páscoa]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Vivemos o ano de 2020 e com certeza essa está sendo uma Páscoa atípica. Tenho certeza de que você nunca imaginou passar um domingo de Páscoa sem os festejos típicos dessa época, ou de que iria ser obrigado a comemorar de uma forma diferente. Em virtude da pandemia que o mundo enfrenta nesse momento, lutando contra um vírus que castiga a humanidade, resta-nos comemorar sozinhos em casa, ou com um número reduzido de pessoas, para aqueles que estão confinados com algum parente, mas sem a grande reunião familiar onde todos se reúnem em volta de uma mesa farta, as crianças recebem e degustam os ovos de chocolate, todos comem, bebem e celebram. Mas celebram o que exatamente? Sem o burburinho e o corre-corre típicos dessa época me peguei a pensar. Será que as pessoas vão conseguir comemorar a Páscoa sem poder sair para as compras, sem poder fazer grandes reuniões, sem poder fazer esse grande encontro que muitas vezes acaba em confusão e estresse, mas que ninguém admite, por que afinal é preciso comemorar a Páscoa? E cheguei à conclusão que sim, é possível comemorar esse ano mais verdadeiramente que os anos anteriores porque nos surge uma oportunidade de comemorar a verdadeira Páscoa, seu verdadeiro significado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A palavra páscoa vem do hebreu Pessach, que significa “passagem” e é celebrada para lembrar a libertação dos judeus do cativeiro no Egito e a travessia em direção a terra prometida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para os cristãos é uma das celebrações mais importantes pois celebra a ressureição de Cristo. Onde ocorre a passagem da vida terrestre do Cristo para a vida celeste.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Páscoa nasce no hemisfério norte, onde nessa época está ocorrendo o equinócio de primavera. E primavera é tempo de renascimento, de florescimento. E como chegamos a essa data? Toda a história da paixão de Cristo, da ascensão, teria ocorrido na época da Páscoa judaica, a tradição cristã copia esse calendário judaico até que no século IV D.C. Constantino convoca o conselho de Nicéia e estabelece que a Páscoa seria no domingo após a primeira lua cheia depois do equinócio de primavera. Primavera representa renascimento e a lua cheia o aflorar dos instintos.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Renasce – domina a vida instintiva – Ressurreição luminosa no dia dedicado ao divino.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Páscoa seria a ascensão da consciência, o 2º nascimento. A passagem para um outro plano, um plano de ação, de consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O ciclo pascal que vai de 22 de março a 25 de abril, período onde pode acontecer a Páscoa coincide com o período do signo de Aries que compreende o período de 21 de março a 20 de abril, e é o primeiro signo do zodíaco. Novamente o recomeço. Essa data é um momento propício para a finalização do ciclo de vida de um ser luminoso. A luz material desce à terra e a luz espiritual retorna ao céu.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Existem várias celebrações muito especiais que acontecem coincidindo com a primavera relacionadas ao renascimento. Na mitologia grega, Demeter e Perséfone, os mistérios Elêusis se abriam para uma parte em que o público poderia participar. No Egito a deusa Hathor era colocada na barca da bela do amor e levada até o rio Nilo para seu casamento sagrado com Hórus.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em países de língua anglo saxônica usam a palavra easter (páscoa) e sua origem deriva da deusa Ostara que vem do advérbio ostar e significa sol nascente. Eostre (de origem indo-germânica) significa brilho. Era a deusa da fertilidade, da renovação; seus símbolos eram o coelho por causa da fertilidade e o ovo por ser símbolo de vida. O coelho entre os povos do norte da Europa era considerado sagrado. Os ovos eram decorados para representar o potencial de fertilidade e renovação trazidos pelos deuses. Diversos mitos falam do ovo primordial que teria sido chocado pelo calor da luz solar dando vida a tudo que existe.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A tradição de presentear com ovos coloridos saiu da China onde eles eram embrulhados em casca de cebola e cozidos em água com beterraba, e chega ao Egito e Pérsia, e eram presenteados no início da primavera. Os cristãos adotaram esse hábito como lembrança da ressureição e no século XVIII a igreja adotou-o oficialmente como símbolo da Páscoa. Ainda hoje algumas culturas pintam e decoram ricamente os ovos e presenteiam seus entes queridos para manter a tradição. Somente depois de 1830 é que os ovos tradicionais foram substituídos pelos de chocolate, mas sua simbologia permanece. Jung nos diz que através dos símbolos os conteúdos inconscientes conseguem se expressar mais facilmente. As pessoas religiosas podem entrar em contato com esses símbolos, assimilá-los e assim evitar o isolamento, que pode causar doenças. Ele ressalta a importância dos símbolos em geral. Quando a antiga linguagem simbólica não é mais compreendida, a cultura e a religião, que são vividas dentro dela e nela são mantidas vivas no Ocidente – ou seja, o cristianismo – correm perigo de caírem vítimas daquilo que ele observou na China e, em sua fase inicial, também na Índia: do racionalismo materialista (JUNG, 1956,p.801)&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Portanto, não temos uma vida simbólica, mas temos necessidade premente dela. Somente a vida simbólica pode expressar a necessidade da alma – a necessidade diária da alma, bem entendido. &nbsp;E pelo fato de as pessoas não terem&nbsp; isso, não conseguem sair dessa roda viva, dessa vida assustadora, maçante e banal onde são “nada mais do que”. No rito estão próximas de Deus; são até mesmo divinas. Pensemos apenas no sacerdote da igreja católica que está na divindade: ele traz a si mesmo como sacrifício sobre o altar; ele mesmo se oferece como sacrifício. Fazemos nós isto? Onde temos consciência de fazer isso? Em lugar nenhum! Tudo é banal, tudo é “nada mais do que”; e por isso as pessoas são neuróticas. As pessoas estão simplesmente enfastiadas de tudo, dessa vida banal, e por isso querem sensações. Querem até mesmo uma guerra: todas querem uma guerra. Todas ficam felizes quando há uma guerra e dizem: “Graças a Deus, finalmente acontece algo – algo que é maior do que nós” (JUNG, 2011,§ 627).</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ainda temos o mês em que as festividades da Páscoa acontecem. Abril deriva do latim Aprilis, que significa abrir, numa referência à germinação das culturas. Há ainda a hipótese de que se relaciona com a deusa grega Afrodite, deusa do amor que nasceu da espuma do mar que em grego antigo se dizia “abril”.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A natureza obedece a primavera, as plantas não escolhem quando querem florescer, elas simplesmente seguem seu ciclo. Já a natureza humana não, para o homem a primavera é eletiva, ele escolhe quando florescer. O homem precisa escolher conscientemente florescer, aproveitar a primavera. Os ciclos se sucedem e sempre haverá uma nova oportunidade. Independentemente de estarmos no hemisfério sul a simbologia da Páscoa retrata um momento de despertar, o momento de florescer, de renascer, de vivermos a primavera interna.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Estamos vivendo um momento propício para esse despertar. Seu 1º nascimento é quando sua mãe lhe dá a luz, coloca você a serviço da luz. Seu 2º nascimento é o nascimento para o espírito, quando há um chamado, um despertar. E nesse momento podemos despertar para um olhar interno. Sair do mundo externo e mergulhar em nosso interior. Ver outras possibilidades. Temos a oportunidade de viver uma Páscoa mais legítima, para dentro e trazer nossa essência, a semente divina para florescer. Viver esse renascimento, a Páscoa. Nascemos em corpo (1º) e agora em espírito (2º).</p>



<p class="wp-block-paragraph">A cada Páscoa há uma oportunidade de renascimento, um pouco de luz dentro de nós para um despertar de consciência, uma elevação. A Páscoa é o fim da trajetória de um grande ser espiritual e o começo da trajetória dos seres humanos quando a consciência ascendeu.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">A Páscoa é um convite ao despertar, um despertar interno que cada indivíduo fará a seu tempo, não podemos forçar esse despertar assim como não podemos forçar a natureza a florescer, cada um tem seu momento, esse despertar deve ser de dentro para fora do contrário será como o ovo que ao ser quebrado de fora para dentro mata a vida que havia nele.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Espero que esse seja o seu momento, que no silêncio de sua casa você encontre o silêncio dentro de si para ouvir e sentir a sua primavera. Mas se não chegou ainda o seu momento não se preocupe ele logo chegará.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tenha uma verdadeira Feliz Páscoa!!!!</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, C. G., A vida simbólica, Vozes, SP. 2011)</p>



<p class="wp-block-paragraph">MACHON, Henryk, O cristianismo em C. G. Jung, Vozes, SP, 2016)</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="http://www.paulinas.org.br/">www.paulinas.org.br</a></p>



<p class="wp-block-paragraph">www.eusemfronteiras.com.br</p>



<p class="wp-block-paragraph">Keller Villela</p>



<p class="wp-block-paragraph">Membro analista em formação pelo IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Contato:&nbsp;<a href="mailto:kellervillela@terra.com.br">kellervillela@terra.com.br</a>&nbsp; SP Vila Mariana</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong><em>keller Vilela</em></strong></h4>
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		<title>Mitos, Psiquismo e Íris</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/mitos-psiquismo-e-iris/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Waldemar Magaldi]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Mar 2022 13:17:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Professores do IJEP]]></category>
		<category><![CDATA[arquétipo]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[Consciência]]></category>
		<category><![CDATA[íris]]></category>
		<category><![CDATA[mitologia]]></category>
		<category><![CDATA[psiquificação]]></category>
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<p class="wp-block-paragraph">Toda criança nasce em desajuste e tencionada, recebendo, de um lado, influências de uma parcela mais ou menos semelhante ao animal e, de outro lado, a herança ancestral de toda humanidade, com infinitas e complexas experiências e necessidades que a impulsionam para a evolução e realização do ser . Deste desajuste interior surge uma tensão que só pode ser aliviada pela capacidade criativa de <strong>simbolização e pela autoconsciência.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os símbolos são caminhos para a transformação da energia ou da libido e deles é que surgem as organizações e as tradições culturais e religiosas que, pela necessidade de comunicação e da expressão, dependem da linguagem.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">A linguagem necessita dos símbolos, pois somente eles é que podem abranger a experiência vivida. <strong>Simbolizar</strong> é, simultaneamente, o questionamento da realidade aparente frente à realidade do mistério. <strong>Por isso, symbolon = reconhecer; symbálen = juntar, reunir, forças contrárias que se reencontram, o seu oposto é o diabálem = o que separa, o que divide, origem do diabo ou do demoníaco.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Ao tentarmos definir os símbolos ou reduzi-los às suas características semióticas, corre-se o risco de transformá-los em sinais ou signos, fazendo com que eles percam suas capacidades integradoras e transformadoras. Com isso eles deixarão de ser os sinais visíveis da realidade invisível, com excedente de significados que nunca pode se esgotar, nem serem substituídos pela razão, pois eles têm muito mais a ver com a emoção. Desta forma, a tentativa de transformá-los em sinais ou signos além de ser impossível, deixa a pessoa em uma imensa aporia de significados, a vida fica apática e sem sentido.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Os símbolos são freqüentes em histórias de amor, religiões, artes, enfim em todas as situações em que existe uma tensão e um conflito humano, envolvendo, geralmente, as antinomias = emoção e razão.</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">Os mitos são as justificativas das nossas ações, como um processo de explicação para elas, porém estas explicações são muito mais inconscientes do que conscientes. Os mitos passam pelo processo de <strong>psiquificação</strong>, dando uma razão para os ritos. Todo mito produz um interdito que impede a mudança do rito, mantendo e atualizando seu efeito sobre o humano. O mito é um teatro simbólico e dramático das experiências biológicas, psicológicas e espirituais, registrando todas as ações humanas no transcorrer da evolução. São estruturas que nos fornecem os padrões ou modelos arquetípicos, condensando em sua narrativa uma infinidade de situações análogas, universais e individuais, possibilitando-nos referencias da história da humanidade. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p>Ou, nas palavras de B. Malinowski : &#8220;O mito, portanto, é um ingrediente vital da civilização humana; longe de ser uma fabulação vã, ele é ao contrário uma realidade viva, à qual se recorre incessantemente; não é absolutamente uma teoria abstrata ou uma fantasia artística, mas uma verdadeira codificação da religião primitiva e da sabedoria prática&#8221;.</p></blockquote>



<p class="wp-block-paragraph"><br>Podemos concluir que os mitos são matéria da alma, são verdadeiros documentos humanos, abrangendo todas as épocas e histórias da humanidade e estão diretamente ligados à nossa própria vida, porque todo este registro histórico vive em nós, dando-nos genealogia espiritual. Eles são o resultado do crescimento da consciência humana, o registro simbólico do inconsciente coletivo, repletos de linguagem simbólica e de possibilidades ritualísticas. Conseqüentemente, são as bases fundantes das doutrinas e das religiões. Neles as almas se alimentam em um persistente processo de construção e desconstrução, rumo a realização.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Como os mitos são caminhos e potencialidades arquetípicas que permitem a autoconsciência e neles estão contidos toda sabedoria universal e perene, vou privilegiar, dentre alguns mitos, os mitos de <strong>Íris</strong>. </p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Íris</strong> , que etimologicamente é oriunda das raízes de: curvar, dobrar, espiral e fio de ferro, na mitologia Grega é filha de <strong>Electra e Taumas,</strong> é a personificação do <strong>arco-íris</strong> e é a ponte de união entre o Céu e a Terra, entre os deuses e os homens. <strong>Íris tem muita similaridade com Hermes, por ser a portadora das ordens, mensagens e conselhos dos deuses aos homens.</strong> Com isso podemos refletir o quanto que, para quem estuda a <strong>íris</strong> (iridólogos), existe uma total coerência do mito com o seu estudo prático e fenomenológico, porque ela nos mostra tanto as potencialidades como as ordens e os caminhos para o relacionamento do psiquismo, do curador e do ferido, com o seu corpo e com a sua espiritualidade.</p>



<p class="has-text-align-right wp-block-paragraph"><strong>Autor: Waldemar Magaldi Filho</strong></p>
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		<title>Espiritualidade e religião: entre a proximidade transformadora e o neoconservadorismo fatal</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/espiritualidade-e-religiao-entre-a-proximidade-transformadora-e-o-neoconservadorismo-fatal-2/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Feb 2022 11:44:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Espiritualidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste artigo, trato da espiritualidade a partir do olhar da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, relacionando com as categorias de Tradição e tradições da Teologia cristã, presentes também, mesmo que sem esse nome, nas outras religiões. Diante do risco do neoconservadorismo, que muitas vezes ameaça a vida, até que ponto as religiões são salvaguarda [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo, trato da espiritualidade a partir do olhar da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, relacionando com as categorias de Tradição e tradições da Teologia cristã, presentes também, mesmo que sem esse nome, nas outras religiões. Diante do risco do neoconservadorismo, que muitas vezes ameaça a vida, até que ponto as religiões são salvaguarda de uma espiritualidade humanizante e quando elas se afastam, tornando-se inclusive o oposto disso?</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espiritualidade é uma dimensão humana, reconhecida assim pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que a incluiu em 1998 em seu conceito de saúde. O ser humano busca sentido e significado e tem sede de valores supremos que o influenciem de dentro para fora e sobre os quais alicerçar a própria vida. Em sua ausência, sente-se inseguro e desamparado, algo que a pós-modernidade ou modernidade tardia vem escancarando.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Brigitte Dorst (2016, p. 13), “a espiritualidade [&#8230;] é uma constante antropológica em múltiplas formas de manifestação”, referindo-se a dimensões profundas da experiência de abertura e conexão à totalidade e unidade em todas as formas de religiosidade. Ela explica que o termo “espiritualidade” não era usual na época de Jung, mas as questões relativas a ela, chamada de “experiência religiosa”, ocuparam toda a vida de Jung e o conjunto completo de sua obra. “Jung sustenta uma compreensão da psique como espaço de experiência do numinoso”. (DORST, 2016, p. 16-17)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Para Jung (2020, §6), o numinoso “constitui uma condição do sujeito, e é independente de sua vontade. [&#8230;] a propriedade de um objeto visível, ou o influxo de uma presença invisível, que produzem uma modificação especial na consciência.” A experiência do numinoso aparece de tal forma ao espírito humano e provoca tal impacto que merece “respeitosa consideração” (§8), e a esta atitude ele chama de religião, a partir do vocábulo latino&nbsp;<em>religere</em>. “Toda confissão religiosa, por um lado, se funda originalmente na experiência do numinoso, e, por outro, na&nbsp;<em>pistis</em>, na fidelidade (lealdade), na fé e na confiança” relacionadas à mesma experiência central e fundante “e na mudança de consciência que daí resulta.” (§9)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Essa experiência espiritual é o cerne das religiões, que criam sistemas em torno dela e mais próximos ou afastados de sua essência, sobre o que falaremos a seguir. Por ora, é importante ressaltar como Jung associa essa experiência à produção autônoma do inconsciente a partir das imagens arquetípicas que se manifestam em todas as culturas, pois constituem a herança espiritual humana, imagens essas que também aparecem nos sonhos — de onde é possível resgatar o chamado da alma às pessoas a quem a religião já não diz nada, ou por não a terem, ou por ficarem em sua exterioridade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">O chamado, seja ele como vier, remete à ampliação de consciência, a partir do contato com a profundeza e integração de alguns de seus conteúdos. A esta direção aponta o processo de individuação, de tornar-se si mesmo, meta (como processo, não como ponto de chegada) de todo o desenvolvimento humano, acentuada na segunda metade da vida, na qual, por isso mesmo, a sede da alma se torna mais gritante. O mergulho interior não é fácil, pois leva a encontrar qualidades inferiores e tendências primitivas que desmancham a imagem ideal que temos de nós mesmos. Encontramos dentro aquilo que escandalizados condenamos fora. “Todo indivíduo é acompanhado por uma sombra, e quanto menos ela estiver incorporada à sua vida consciente, tanto mais escura e espessa ela se tornará” (JUNG, 2020, §131), podendo irromper e se apossar de nós, o que tantas vezes acontece. Como disse o apóstolo Paulo, fazemos o mal que não queremos, e o bem que queremos somos incapazes de fazer (cf. Rm 7,19), situações das quais popularmente dizemos: “eu estava fora de mim”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">É necessária uma mudança geral de atitude que, segundo Jung (2020, §136), “só pode começar com a transformação interior dos indivíduos”, que passa por “encontrar um caminho através do qual a personalidade consciente e a sombra possam conviver.” (§132) Este caminho de voltar-se a si mesmo numa aceitação e reconciliação profundas pode ser expresso como “fazer as pazes com Deus”, pois é um encontro com o&nbsp;<em>Self</em>como centro e totalidade, ao qual o eu passa a reconhecer como valor supremo e se submeter. Dê o nome que der, é um encontro com a imagem de Deus em si. Além disso, é uma trajetória ética, pois o sujeito assume as próprias responsabilidades em lugar de projetá-las nos outros. “Seja qual for a coisa que ande mal no mundo, este homem sabe que o mesmo acontece dentro dele, e se aprender a arranjar-se com a própria sombra, já terá feito alguma coisa pelo mundo.” (JUNG, 2020, §140)</p>



<p class="wp-block-paragraph">A espiritualidade assim compreendida tem muita ligação com o que a Teologia cristã chama de Tradição, que em unidade com as Escrituras forma a fonte da fé, memória viva e vivificante da experiência primeira de encontro transformador com Cristo e a elaboração dessa experiência ao longo da História. Está voltada não só à compreensão e formulação de dogmas, mas sobretudo a manter o núcleo dessa experiência através dos tempos e ajudar cada nova geração a vivenciá-la. Cito o Cristianismo a partir de minha experiência, mas cada religião pode reconhecer sua própria Tradição, no sentido do núcleo essencial, e seu dinamismo com o passar do tempo, mantido vivo, capaz de continuar produzindo experiência e gerar impacto nos indivíduos por gerações.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Quando as tradições se afastam do núcleo</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As religiões podem se aproximar da espiritualidade, ajudando a manter vivo esse núcleo de experiência transformadora, a vivenciar o cerne, o essencial da fé, ou podem se distanciar dela, perdendo o dinamismo e cristalizando-se em tradições que aos poucos se afastam do sentido profundo e levam a ficar na exterioridade, tornando-se “pedra de tropeço” e impedindo elas mesmas o que deveriam promover, a interioridade, o autoconhecimento e a união humano-divina com suas consequências éticas. Para Jung (2012, §1652), “tudo o que é vivo sofre modificação. Não deveríamos contentar-nos com tradições imutáveis.”</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele acredita que as religiões, sobretudo o Cristianismo, deixou de conversar com o espírito moderno. Caiu numa exterioridade vazia, um “verniz externo, porquanto o homem interior permaneceu intocado, alheio à transformação.” (JUNG, 1994, §12) Por um lado, a religião que não oferecia essa experiência, mas insistia em normas, dogmas e literalidades começou a parecer historinhas ingênuas aos olhos ilustrados que valorizavam a Ciência e a técnica. Por outro, essa consciência autônoma tornou-se inflada. “O homem moderno sofre de uma&nbsp;<em>hybris</em>&nbsp;da consciência, que se aproxima de um estado patológico.” (JUNG, 2020, §141) Jung chama esse processo histórico de “des-animação do mundo” e lamenta o vazio e a falta de sentido decorrentes daí.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Igreja Católica, por sua vez, colocou-se em pé de guerra com a Modernidade, por muito tempo a condenando e reafirmando posições e posturas vindas desde o Concílio de Trento, ocorrido em meados do século XVI. Apenas no Concílio Vaticano II (1962-65) essa postura combativa foi revista, abriu-se um diálogo com a Modernidade, ecumênico e interreligioso, reforçou-se o caráter vivo e com isso dinâmico da Tradição, a Revelação como comunicação entre Deus e o ser humano, a Escritura como História da Salvação, sempre necessitada de uma hermenêutica ou interpretação, a Igreja como Povo de Deus a caminho pelas trilhas da História, devendo com isso rever constantemente as tradições e inculturar-se a partir também das tradições dos diversos povos. Nesse espírito e como recepção do Concílio, na América Latina foi desenvolvida a Teologia da Libertação, a partir do chão da vida e denunciando a opressão concreta vivida pelo povo, e reforçou-se a pastoral de base junto a este mesmo povo. Não sem exageros, claro, uma vez que a História caminha num movimento pendular. A partir da década de 1980, retomou-se o fechamento, reforçando movimentos espiritualistas que perdiam de vista o social, condenando alguns teólogos e dando força ao neoconservadorismo que hoje se revela a pleno vapor. Esse movimento veio com o neopentecostalismo, marcante também na explosão de igrejas evangélicas a partir do mesmo período; mas não apenas, uma vez que foram formados vários grupos, alguns dos quais retomam tradições como véus, determinadas vestimentas e mesmo o uso do latim. O que elas têm a ver com Jesus de Nazaré, reconhecido e transmitido pelos “com-Jesus” — chamados seguidores do Caminho — como o Cristo, é que fica difícil compreender.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De fato, Jung, em 1952, já alertava do perigo dos “ismos”, os exageros; porém, ele, a partir da inflação da consciência na Modernidade (materialismo, psicologismo, ateísmo), e nós, nessa retomada pendular, ainda sem alma, centrada em acessórios e absolutamente excludente e desumana. Pois, enquanto nos dividimos política e religiosamente (e o que é pior, Igreja e Estado novamente de mãos dadas e alianças feitas), continuamos nos afastando da interioridade e da transformação profunda a que a autêntica experiência religiosa guardada pela bem compreendida Tradição nos conduziria. Seguimos nos matando em nome de Deus. E o pior: continuamos a projetar, a dizer que são os outros os perigosos e assassinos, inimigos da família, da moral e dos bons costumes (como outrora, no auge do Iluminismo, talvez fossem os outros os ignorantes e selvagens). “Como poderá ver claramente, quem não se vê a si mesmo, nem às obscuridades que inconscientemente impregnam todas as suas ações?” (JUNG, 2020, §140)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O caminho proposto pela Psicologia Analítica, que&nbsp;conversa com a espiritualidade que está no cerne, núcleo das diversas religiões, é humanizador (individual e coletivamente) e pode dar resposta ao momento tão difícil que vivemos. O chamado de volta às fontes, feito pelo Concílio Vaticano II aos católicos e pessoas de boa vontade, e que cada tradição religiosa também reconhecerá quando sente a necessidade de se reaproximar da experiência primeira, vai na mesma direção. A Tradição conversa com a espiritualidade no sentido do que é essencial e valor fundamental para a humanização do humano; as tradições trazem a marca de uma época e podem contribuir ou não com isto, precisando de constante discernimento.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando a religião se torna guardiã da experiência que busca integrar consciente e elementos do inconsciente e percorrer uma trilha ética a partir da responsabilidade pela vida, ela cumpre seu papel de proximidade transformadora e, neste sentido, podemos dizer com Jung:</p>



<p class="wp-block-paragraph">ninguém pode saber o que são as coisas derradeiras e essenciais. Por isso, devemos tomá-las tais como as sentimos. E se uma experiência desse gênero contribuir para tornar a vida mais bela, mais plena ou mais significativa para nós, como para aqueles que amamos — então poderemos dizer com toda a tranquilidade: “Foi uma graça de Deus”. (JUNG, 2020, §167)</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tania Pulier — analista em formação/IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lilian Wurzba — analista didata/IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">DORST, Brigitte. Introdução. In: JUNG, Carl Gustav.&nbsp;<em>Espiritualidade e transcendência</em>. Petrópolis: Vozes, 2016. p. 10-34.</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG.&nbsp;<em>Psicologia e alquimia</em>. Petrópolis: Vozes, 1994.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___.&nbsp;<em>A vida simbólica</em>. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. v. 2.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___.&nbsp;<em>Psicologia e religião</em>. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2020. v. 1.</p>



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<iframe title="Espiritualidade e religião: entre a proximidade transformadora e o neoconservadorismo fatal" width="814" height="458" src="https://www.youtube.com/embed/Kzgm0CdLleM?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" allowfullscreen></iframe>
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<h4 class="wp-block-heading" id="h-tania-pulier"><strong><em>Tania Pulier</em></strong></h4>
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		<title>Algumas lições do día de muertos, patrimônio da humanidade</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/algumas-licoes-do-dia-de-muertos-patrimonio-da-humanidade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tania Pulier Garrido]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 26 Oct 2021 11:34:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Morte]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[Algumas lições do día de muertos]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[luto]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desde a pré-História o ser humano enterra seus mortos, sendo os sepultamentos e rituais fúnebres os primeiros sinais de vivência com o sobrenatural, pelos símbolos. &#160;Todos os povos e religiões desenvolveram seus ritos, tanto para o momento da morte como para a recordação dos falecidos. Os cristãos rezam pelos mortos desde o surgimento da religião [...]</p>
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<p class="wp-block-paragraph">Desde a pré-História o ser humano enterra seus mortos, sendo os sepultamentos e rituais fúnebres os primeiros sinais de vivência com o sobrenatural, pelos símbolos. &nbsp;Todos os povos e religiões desenvolveram seus ritos, tanto para o momento da morte como para a recordação dos falecidos. Os cristãos rezam pelos mortos desde o surgimento da religião e, na Idade Média, a data de 2 de novembro espalhou-se primeiro pela Europa e depois pelo mundo como Dia de Finados.</p>



<p class="wp-block-paragraph">No México, a festividade do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>&nbsp;é uma tradição indígena, pré-hispânica, cujos elementos se mesclaram à religião católica para chegar à forma vivenciada atualmente, que se tornou em 2003 Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, reconhecido pela Unesco. A festa em honra aos falecidos começa no final de outubro de cada ano e tem como dias principais 1<sup>º</sup>&nbsp;e 2 de novembro, repleta de simbolismos em torno da antiga crença indígena de que nestes dias era permitido às almas dos mortos voltar ao mundo dos vivos para conviver com os familiares, nutrindo-se dos alimentos por eles preparados. Faz parte de uma cosmovisão que considera a morte como parte do ciclo da vida.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esse olhar integrador das polaridades morte e vida encontra-se em ressonância com a Psicologia Analítica que, se não afirma nem nega a sobrevivência da alma após a morte, reconhece a relatividade das categorias tempo e espaço para a psique e coloca-se à escuta dos relatos universais, mitos e símbolos religiosos que tratam da “eternidade”. Percebe-os como prenhes de sentido e inclinações da psique desde suas camadas mais profundas.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Neste artigo, a partir da vivência pessoal do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>, apresentarei alguns elementos presentes na festividade, procurando ampliá-los em seu simbolismo com um olhar analítico, na contribuição dos textos de Carl Gustav Jung “A alma e a morte” e “Sobre a vida depois da morte”. O objetivo é perceber o que essa festa tem a nos ensinar, sobretudo neste momento em que, com a pandemia da Covid-19, a morte veio com força total sobre a humanidade que há muito tentava mantê-la fora dos olhares e lutar contra ela, negando o que faz parte da natureza humana.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>A integração vida-morte-vida nos elementos do&nbsp;<em>Día de Muertos</em></strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ruas enfeitadas, altares repletos de flores, pães dos mortos,&nbsp;<em>calaveritas</em>, fotos de pessoas falecidas, canções,&nbsp;<em>catrinas</em>&nbsp;caminhando por toda parte, festas nos cemitérios&#8230; são tantos simbolismos que chamam a atenção para um feriado de Finados vivido de uma maneira diferente. Participei em 2018 do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>&nbsp;nas cidades mexicanas de Morelia, Tzintzuntzán e Pátzcaro, do Estado de Michoacán, que conserva bastante a tradição, pouco antes do falecimento da minha mãe, ocorrido em dezembro do mesmo ano, e esta festividade marcou-me sobremaneira, tendo sido um dos pontos fortes de preparo para o luto que viria logo a seguir. Aqui não tenho a pretensão de falar de todos os elementos simbólicos do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>, mas mostrar em alguns deles o encanto da integração da morte como parte da vida, que não tem fim com ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao caminhar pelas cidades, chama a atenção a vivacidade das cores. As ruas, praças e estabelecimentos são enfeitados com a flor de&nbsp;<em>cempasúchil</em>, desta temporada, de um amarelo vibrante que simboliza a força do sol. Segundo a crença, com elas se traça um caminho para dirigir as almas até o local da oferenda feita em sua homenagem. Também há papéis picados como adornos pendurados nas vias, coloridos mas sobretudo roxos, simbolizando o luto.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No caminho das almas é necessária a claridade, trazida pela flor solar. Jung (2018b, §220) liga o Sol ao&nbsp;<em>Logos</em>&nbsp;que, “à maneira da luz forte e deslumbrante do Sol”, é o princípio do “distinguir, o julgar, o reconhecer” (§§217-218). Refere-se, simbolicamente, ao surgimento da consciência (§113), sendo metáfora do Cristo para os Padres da Igreja (§118), a “Luz do mundo”, aquele que foi levantado e com ele levanta da morte, retomando aqui o caminho de vida plena e eterna desejado para as almas. O roxo do luto evidencia a ambiguidade dos sentimentos — se há luz e calor pela fé na vida, a dor, a tristeza e a saudade não deixam de pairar no ar.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Curioso que, quando Jung fala da morte de sua mãe, do sonho que tivera na noite anterior à notícia e do contraste de sentimentos que experimentou, diz: “O contraste pode explicar-se: a morte era sentida, ora do ponto de vista do eu, ora do ponto de vista da alma.” (2016, p. 375) Com relação ao primeiro, é experimentada como “uma catástrofe, [&#8230;] um ser humano é arrancado da vida e o que permanece é um silêncio mortal e gelado. Não há mais esperança de estabelecer qualquer relação: todas as pontes estão cortadas.” (p. 375-376) Já do ponto de vista da alma, “a morte parece ser um acontecimento alegre. [&#8230;] ela é um casamento, [&#8230;] (um mistério de união). A alma, pode-se dizer, alcança a metade que lhe falta, atinge a totalidade.” (p. 376) E completa o relato dessa experiência mencionando exatamente o piquenique que se faz em diversas regiões sobre os túmulos, que podemos estender à celebração mexicana que analisamos aqui. “Essas manifestações mostram que a morte é sentida, por assim dizer, como uma festa.” (p. 376)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Antes de entrar nas celebrações nos cemitérios, continuaremos a descrever as cidades mexicanas, que se preparam dias antes para essa festa. Nas casas e nos comércios encontram-se altares para os mortos. São verdadeiros monumentos de vários andares que homenageiam a pessoa no retrato colocado sobre ele. O altar em si é uma grande celebração, pois em torno dele é que a família se reúne com o seu falecido, que vem comer, beber, descansar e conviver um pouco mais com os que ficaram neste plano. Segundo Jung, não se pensa, inventa e imagina esses símbolos. Eles nascem “de alguma camada profunda da psique” (2018a, §805) e me parece que ajudam a consciência na tarefa posta pelo inconsciente, que é colocar a sua atitude “em conformidade [&#8230;] com o processo de morrer.” (§809)</p>



<p class="wp-block-paragraph">O altar tradicional tem sete níveis, que significam o caminho de ascensão e purificação que a alma deve percorrer para encontrar a paz e o descanso. Por isso, embaixo muitas vezes são dispostos frutos da terra, que ainda simbolizam a divisão céu e terra, os dois planos que convivem em torno dele. Também sal para a purificação e água para matar a sede da alma que chega após a longa viagem. A oferenda é um dos elementos principais, feita de guloseimas e pratos que o finado gostava de comer e podendo contar também com algo que reflita o seu gosto, como um instrumento musical ou um brinquedo, no caso de crianças. Há muitas flores de&nbsp;<em>cempasúchil</em>&nbsp;e papéis picados. A cruz cristã costuma estar presente, bem como imagens de santos, já marcando o sincretismo, mas também intensificando o ar místico, oracional e sobrenatural da homenagem. As fotos dos homenageados personalizam o altar, e as&nbsp;<em>calaveritas</em>&nbsp;de açúcar representam os mortos a quem ele se dedica, estando neles, mas também por várias partes da cidade, para a alegria das crianças. São recordados ainda pelo&nbsp;<em>pán de muerto</em>&nbsp;(pão dos mortos), um pão doce com alguns círculos que representam os crânios. O incenso tem um significado de purificação e as inúmeras velas guiam o caminho da alma de volta para o seu mundo.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Jung afirma que narrar histórias ou “mitologizar” sobre a sobrevivência após a morte é importante para o ser humano. “Para o coração e a sensibilidade essa atividade é vital e salutar: confere à existência um brilho ao qual não se quereria renunciar.” (JUNG, 2016, p. 359) Não há como provar a veracidade ou a inveracidade da existência de vida fora das categorias do tempo e do espaço e, apesar de nos ser difícil imaginá-la, sua possibilidade “constitui um ponto de interrogação que deve ser levado a sério” (JUNG, 2018a, §814), uma vez que está de acordo com as necessidades do coração, a sabedoria imemorial da humanidade e as experiências das obscuridades da psique e dos mistérios da alma (Cf. idem, §815).</p>



<p class="wp-block-paragraph">Esses mistérios que aparecem de forma profunda e simples, encarnados nos altares, mostram-se ainda mais na noite especial, que é a virada do dia 1<sup>º</sup>&nbsp;para o dia 2 de novembro, quando também são feitas verdadeiras festas nos cemitérios. As pessoas adornam os túmulos dos familiares, que ficam totalmente revestidos com as famosas flores amarelas já presentes por toda a parte. Colocam muitas velas e geralmente levam os pratos preferidos dos falecidos, algumas chegando a fazer churrasco ao lado das sepulturas. Levam instrumentos musicais, cantam as músicas preferidas do familiar morto, fazem orações, passando a noite toda ali. O clima é de festa e homenagem, e não de lágrimas e choro, como se de fato lhes tivesse sido concedida a chance de conviver com o ente querido naquela data. É indescritível participar de uma celebração em que a morte se torna presença e não ausência!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esse significado aparece também nas&nbsp;<em>catrinas</em>&nbsp;que caminham por toda parte e às quais são dedicados concursos ou desfiles.&nbsp;<em>La Catrina</em>&nbsp;é a maquiagem de uma alta dama da sociedade em forma de caveira, com vestido longo e chapéu elegantes, significando o caráter passageiro do luxo e&nbsp;<em>status</em>&nbsp;deste mundo diante da eternidade do espírito. Ela marca o aspecto finito e transitório da vida material, que deve ser disfrutada com sabedoria. É o que dizem as músicas cantadas em vários locais, sobretudo nos desfiles.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se a consciência da finitude da vida humana é lição evocada por&nbsp;<em>La Catrina</em>&nbsp;e por cada elemento do&nbsp;<em>Día de Muertos</em>, esse limite não é absoluto, e na esperança da imortalidade da alma baseiam-se as festividades que celebram uma forma de presença dos entes queridos falecidos e a dádiva naqueles dias de conviver com eles pelas homenagens. Para Jung, se “compreendermos e sentirmos que já nesta vida estamos relacionados com o infinito, os desejos e atitudes se modificam. Finalmente, só valemos pelo essencial e se não acedemos a ele a vida foi desperdiçada.” (2016, p. 388)&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Alguns estão tão agarrados na presença como materialidade que, diante da morte que vem inexoravelmente, por mais que se lute contra ela, ficam presos na ausência, como um luto que não se completa, um buraco do qual não se sai. A morte torna-se muro intransponível que bloqueou e ceifou a vida. Não conseguem fazer a experiência de um outro tipo de presença, que supõe a aceitação e o atravessamento da morte. E é o dia a dia que prepara essa vivência, à medida em que se acolhe as pequenas mortes cotidianas — o fracasso, as perdas, os limites, a fraqueza e vulnerabilidade — e se assume o ciclo natural da vida, feito de luz e sombra, subida e descida, vida e morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A pandemia da Covid-19 trouxe a morte para perto da vida de todos nós, não apenas dos idosos ou enfermos. Fomos obrigados a olhar para ela, e os mitos nos trazem “imagens auxiliares e enriquecedoras da vida no país dos mortos” em lugar do “fosso escuro” (JUNG, 2016, p. 365-366) que a pura razão nos dá. &nbsp;Eles podem contribuir muito, sobretudo agora em que a dificuldade de vivenciar como se desejaria os ritos fúnebres pode trazer consequências ainda não imaginadas a esta geração.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Não dá para apontar quem tem mais crédito ou veracidade, mas mais sentido e significado, sim. “Aquele que nega avança para o nada; o outro, o que obedece ao arquétipo, segue os traços da vida até a morte.” (JUNG 2016, p. 366) É o que fica claro no&nbsp;<em>Día de Muertos</em>, com as lições em cores e sabores que ele nos oferece. E esses aprendizados talvez possam inspirar quem não conseguiu velar seus mortos como queria devido à pandemia, mas poderiam viver com maior intensidade datas celebrativas como Finados ou o aniversário de morte.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Tania Pulier — analista em formação/IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Lilian Wurzba — analista didata/IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph">Referências:</p>



<p class="wp-block-paragraph">JUNG, Carl Gustav. A alma e a morte. In: ___.&nbsp;<em>A natureza da psique</em>. Petrópolis: Vozes, 2018a.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___. Sobre a vida depois da morte. In: ___.&nbsp;<em>Memórias, sonhos e reflexões</em>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2016.</p>



<p class="wp-block-paragraph">___.&nbsp;<em>Mysterium Coniunctionis</em>. Petrópolis: Vozes, 2018b.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Sites para consulta sobre o tema:</p>



<p class="wp-block-paragraph">LOS 9 símbolos más representativos del Día de los Muertos.&nbsp;<em>MamásLatinas</em>, 4 nov. 2012. Disponível em: https://mamaslatinas.com/life-inspiration/107486-mexico_se_viste_de_flores. Acesso em: 25 out. 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">RINCÓN, Maria Luciana. Descubra o que são os símbolos que compõem o altar do Día de los Muertos.&nbsp;<em>Mega Curioso</em>, 31 out. 2019. Disponível em: https://www.megacurioso.com.br/dia-das-maes/85633-descubra-o-que-sao-os-simbolos-que-compoem-o-altar-do-dia-de-los-muertos.htm. Acesso em: 25 out. 2021.</p>



<p class="wp-block-paragraph">UNESCO.&nbsp;<em>El día de muertos</em>: el regreso de lo querido, 29 out. 2019.&nbsp;Disponível em: https://es.unesco.org/news/dia-muertos-regreso-lo-querido-0. Acesso em: 25 out. 2021.&nbsp;</p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-tania-pulier"><strong><em>Tania Pulier</em></strong></h4>
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			</item>
		<item>
		<title>A grande mãe brasileira, Aparecida</title>
		<link>https://blog.ijep.com.br/a-grande-mae-brasileira-aparecida/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Keller Alves Villela Ocaña Bruno]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 Oct 2021 12:55:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquétipos]]></category>
		<category><![CDATA[Complexo Materno]]></category>
		<category><![CDATA[Maternidade]]></category>
		<category><![CDATA[Mitologia e Símbolos]]></category>
		<category><![CDATA[Numinoso]]></category>
		<category><![CDATA[arquétipo da grande mãe]]></category>
		<category><![CDATA[carl gustav jung]]></category>
		<category><![CDATA[carl jung]]></category>
		<category><![CDATA[nossa senhora de aparecida]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia analítica]]></category>
		<category><![CDATA[psicologia junguiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No momento da construção desse artigo estamos há poucos dias de comemorar mais um aniversário de Nossa Senhora Aparecida, e já vemos romeiros saírem de todas as partes do Brasil rumo ao município de Aparecida no interior do estado de São Paulo. Alguns em caravanas, alguns em família, outros sozinhos em sua fé, a pé, [...]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="wp-block-paragraph">No momento da construção desse artigo estamos há poucos dias de comemorar mais um aniversário de Nossa Senhora Aparecida, e já vemos romeiros saírem de todas as partes do Brasil rumo ao município de Aparecida no interior do estado de São Paulo. Alguns em caravanas, alguns em família, outros sozinhos em sua fé, a pé, em busca de um encontro com o sagrado, em busca do acolhimento que a imagem dessa mãe dá, principalmente, ao povo brasileiro.&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Aparecida do Norte, como é popularmente chamada, recebe cerca de 9 milhões de visitantes ao ano. Sem dúvida o número cresce em outubro em virtude da festa da padroeira do Brasil. O dia 12 de outubro passou a ser oficialmente o dia dedicado à Nossa Senhora Aparecida em 1953, através de um decreto da Conferência Nacional de Bispos do Brasil. A data foi escolhida pela aproximação com a aparição da imagem em meados de outubro de 1717.</p>



<p class="wp-block-paragraph">De acordo com textos do século XVIII, a vila de Guaratinguetá receberia o conde de Assumar, Dom Pedro de Almeida, que a essa altura era Governador da Província de São Paulo e Minas Gerais. A Câmara dos Pescadores ordena então que os pescadores da região providenciassem peixes frescos para fazer parte do banquete que seria servido ao conde e sua comitiva, que contava com cerca de 500 pessoas. Entre os vários pescadores da região, estavam João Alves, seu pai Domingos Garcia, assim como seu tio Filipe Pedroso.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Após inúmeras tentativas não conseguem nenhum peixe e começam a ficar temerosos, pensando nas possíveis consequências ao não cumprirem a ordem recebida. Resolvem então orar e pedir proteção a Maria, adormecem. Na manhã seguinte João lança mais uma vez a rede numa última tentativa, e para sua surpresa, encontra o corpo de uma santa, uma imagem de Maria, sem cabeça. Lança mais uma vez sua rede e traz a cabeça da santa. Apesar do receio de seu pai,&nbsp;João a guarda com todo cuidado. Jogam mais uma vez a rede, e a partir daí pescam tantos peixes que são obrigados a parar a pesca com o risco de afundarem pela quantidade de peixes. Eis aí o primeiro milagre!&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">Filipe Pedroso leva a imagem para casa, sua esposa Silvana cola a cabeça ao corpo com cera de abelha e inúmeras pessoas da vizinhança passam a visitar a imagem da santa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Já li esse relato sobre a aparição de Nossa Senhora Aparecida inúmeras vezes, mas até hoje me lembro do filme que assisti quando pequena, não me lembro o nome dele, nem quantos anos eu tinha na época, mas me lembro bem de como esse relato de fé me marcou, de como fiquei emocionada ao ver aqueles homens simples e desprotegidos recorrerem a uma mãe sagrada e serem atendidos prontamente por ela, e como eles honraram sua imagem. Me lembro das cenas com uma incrível clareza. Talvez tenha nascido aí minha intensa ligação com ela.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Em 1745 é inaugurada a primeira capela pelo padre Vilella. As peregrinações vão crescendo, sua fama se espalha. Anos mais tarde a imagem é presenteada com uma coroa e um manto dados pela princesa Isabel em agradecimento a uma promessa.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nessa época o povo era muito oprimido, e sem dúvida a aparição de Nossa Senhora traz um alento. De acordo com o mariólogo Clodovis Boff “a Virgem Negra é uma imagem<strong>&nbsp;</strong>com a qual naturalmente se identificavam os escravos, assim como, em seguida, os oprimidos de toda a sorte”. Ela traz consigo esperança de dias melhores, de abundância, de felicidade e de liberdade.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Segundo Lucy Penna, psicóloga junguiana, em fases históricas em que os pobres se sentem desvalidos, podem surgir imagens como essa. “Elas trazem misericórdia, alento, compaixão e a inspiração para lutar pela dignidade perdida”.</p>



<p class="wp-block-paragraph">A imagem pescada era de cor escura, porém peritos dizem que seu aspecto se deve ao fato de ter ficado no fundo do rio lodoso e depois por causa da chama das velas. Não há dúvidas de que a imagem pescada no rio foi inspirada na imagem da Imaculada Conceição, de Portugal. Há a hipótese de que ela teria sido feita por um discípulo do mestre ceramista Frei Agostinho da Piedade, por volta de 1650. Há vestígios que mostram que originalmente ela era pintada de vermelho e azul. De qualquer forma devemos levar em conta que a imagem mergulha nas profundezas do rio e se transforma para ressurgir do inconsciente das águas para fazer renascer a fé em tempos melhores. Ela ressurge como uma Madona Negra nascida da Grande Mãe, do útero escuro da própria Terra. Ela encarna o aspecto telúrico e ctônico, oposto-complementar a imagem de Maria, um feminino branco, celeste, perfeito e maternal, diz&nbsp;Eliana Athié, estudiosa de mitologias. Ela explica ainda que até hoje as Madonas Negras guardam alguns atributos. Trazem fertilidade, para a mulher e para a terra, protegem gravidez e parto, agem na transição dos ciclos da vida e da morte. São fonte de sabedoria intuitiva, de criatividade, de se criar maneiras não só de sobrevivência, mas também maneiras de evoluir. Sua força e poder vem dessa conexão com a Grande Mãe. Nossa Senhora Aparecida ao ressurgir do rio traz consigo esses aspectos que a colocam entre as divindades mais próximas da terra do que do céu, mais próxima dos sofrimentos de todo aquele que se sente de alguma forma abandonado.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa Senhora Aparecida surge como um símbolo para atender a necessidade do inconsciente coletivo. Uma imagem arquetípica surge quando a consciência reconhece que conteúdos inconscientes precisam ser expressos, através de imagens. O mestre em teologia Anderson Santos diz que:</p>



<p class="wp-block-paragraph">A&nbsp; finalidade&nbsp; da&nbsp; imagem&nbsp; é&nbsp; representar&nbsp; o&nbsp; Mistério,&nbsp; tornando-se&nbsp; uma&nbsp; forma&nbsp; de “presentificação”, ou seja, é como uma “presença” a ser captada por meio da imagem e da aproximação do fiel que através dela também pode entrar em comunhão com o transcendente, já que ela recorda e permite o contato da pessoa com o protótipo, aquilo que a imagem / ícone procura representar, superando a dicotomia sagrado-profano que não são duas realidades completamente&nbsp; distintas&nbsp; ou&nbsp; opostas,&nbsp; mas&nbsp; dois&nbsp; níveis&nbsp; da&nbsp; única&nbsp; e&nbsp; mesma&nbsp; realidade,&nbsp; duas modalidades da experiência. (SANTOS, Andeson A., 2019)</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Para Marion Woodman, analista junguiana, a Madona Negra ou a Virgem são metáforas da dimensão sagrada da matéria. Elas personificam os valores que foram reprimidos e lançados a sombra. Para ela quando uma imagem assim emerge está apontando para a necessidade de lembrar a humanidade de seu compromisso com o pessoal e o coletivo, o compromisso com a Mãe Terra. Ela é negra não só por vir das profundezas da terra, mas por ser desconhecida da consciência.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para Neumamm:</p>



<p class="wp-block-paragraph">Quando dizemos que os arquétipos e os símbolos são espontâneos e independentes da consciência, nos referimos ao fato de que o ego, como centro da consciência, não tem participação ativa nem intencional na formação e no surgimento do símbolo ou do arquétipo, isto é, que a consciência não pode “fazer” um símbolo nem “escolher” a vivência de um arquétipo. Isso não impede, contudo, uma relação entre o arquétipo ou o símbolo com a totalidade da personalidade, assim como com a consciência. Com efeito as manifestações do inconsciente não consistem meramente numa expressão espontânea de processos inconscientes, mas também são reações a situação da consciência da pessoa; essas reações são um fator de compensação assim como frequentemente ocorre conosco nos sonhos. Isto significa que o surgimento de símbolos e imagens arquetípicas também é em parte determinado pela estrutura tipológica e individual do sujeito, pela situação que atravessa, por sua atitude consciente, sua idade etc.</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Lucy Penna diz que Nossa Senhora Aparecida é um mito brasileiro, que foi sonhada pelo povo brasileiro. O mito nasce no momento em que os pescadores tomam a imagem nas mãos, reconhecem-na como uma santa católica e entendem que ela irá salvá-los. Ela é trazida até eles num momento histórico em que a psique das pessoas estava carecendo de proteção, misericórdia, alívio para suas dores, estavam se sentindo abandonadas e precisavam de colo de Mãe. Ele traz a amplitude da psique coletiva, Aparecida está dentro de nós, mas também extrapola as nossas mentes conscientes, por isso perdura e continua viva. E podemos perceber que ao longo das décadas nossa situação não mudou, continuamos precisando dessa proteção materna, por isso continuamos vendo tão viva a devoção tanto em Nossa Senhora Aparecida, como em outras representantes dessa Grande Mãe. Daí o mistério!</p>



<p class="wp-block-paragraph">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nossa Senhora Aparecida mobiliza milhares de pessoas de todas as maneiras imagináveis. Me lembro, na infância, de várias idas junto com minha família ao santuário de Aparecida pelos mais diversos motivos, fazíamos todo o percurso pela passarela que liga a igreja velha a catedral. Para uma criança a passarela me parece até maior do na verdade é, e minha cabeça ficava imaginando o que levava aquela multidão a atravessar todo aquele caminho de joelhos, com bebês no colo, idosos e todo tipo de dificuldades para ver a imagem de uma santa. Eu ficava parada diante da imagem original e olhava para minha mãe, meu pai e as outras pessoas emocionadas diante de uma imagem tão pequena e pensava, como uma senhora tão pequenininha tinha tanto poder, conseguia acalmar tantos corações que sofriam, trazia tanto alento, eu gostava de ficar ali, quietinha olhando para ela e imaginando quem era aquela, que mistérios ela guardava&#8230;naquele momento eu só sentia, e sentia entrar em mim uma paz, uma paz tão imensas que só uma Mãe pode nos dar. Mais tarde conheci seu sincretismo com outra Grande Mãe, Oxum, que na Umbanda é representada por essa mesma imagem e guarda os mesmos atributos de mãe protetora e acolhedora. Quando penso em Grande Mãe, para mim é essa imagem arquetípica que surge.</p>



<p class="wp-block-paragraph">Nossa Senhora Aparecida é isso, nossa Grande Mãe Brasileira, cheia de mistério e graça!&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="wp-block-paragraph">**Imagem produzida por Mike Villela. @inkedmike</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Keller Villela –&nbsp;</strong>Membro Analista em Formação do IJEP</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>E. Simone Magaldi&nbsp;</strong>– Analista Didata Responsável</p>



<p class="wp-block-paragraph"><strong>Referências:</strong></p>



<p class="wp-block-paragraph">NEUMAMM, Erick. A Grande Mãe, Editora Cultrix, 2006.</p>



<p class="wp-block-paragraph">PENNA, Lucy. Aparecida do Brasil, a Madona Negra da Abundância, Editora Paulus, 2009.</p>



<p class="wp-block-paragraph">SANTOS, Anderson A. A imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida em uma perspectiva simbólico-eclesiológica e mariológica, Mestrado em Teologia. São Paulo, 2019</p>



<p class="wp-block-paragraph">WOODMAN, Marion. A Feminilidade Consciente. Editora Paulus, 2003.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.revistaplaneta.com.br/nossa-senhora-aparecida-a-madona-negra-brasileira/">https://www.revistaplaneta.com.br/nossa-senhora-aparecida-a-madona-negra-brasileira/</a>&nbsp;&#8211; acessado em 02/10/2021</p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://yam.com.vc/sabedoria/792338/madona-negra-e-nossa-senhora-aparecida%20-%20acessado%20em%2002/10/2021">https://yam.com.vc/sabedoria/792338/madona-negra-e-nossa-senhora-aparecida acessado em 02/10/2021</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.a12.com/academia/palavra-do-associado/viva-a-virgem-imaculada-o-senhora-aparecida%20-%20acessado%20em%2002/10/2021">https://www.a12.com/academia/palavra-do-associado/viva-a-virgem-imaculada-o-senhora-aparecida &#8211; acessado em 02/10/2021</a></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://www.a12.com/santuario/festa-da-padroeira/historia-do-dia-12-de-outubro-1%20acessado%20em%2003/10/2021">https://www.a12.com/santuario/festa-da-padroeira/historia-do-dia-12-de-outubro-1 acessado em 03/10/2021</a></p>



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<h4 class="wp-block-heading" id="h-keller-villela"><strong><em>keller Villela</em></strong></h4>
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